Processo Nº 583.00.2009.

187283-2


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Texto integral da Sentença

RELATÓRIO AC0 FUNDO DE INVESTIMENTO MULTIMERCADO - INVESTIMENTO NO EXTERIOR (representado por J.P. MORGAN S.A.) propôs
ação cautelar inominada contra VOTORANTIM CELULOSE E PAPEL S.A. e ARACRUZ CELULOSE S.A. visando: (a) à suspensão da deliberação
sobre a incorporação de ações de emissão da "ARACRUZ¨ pela `VCP¨ em assembleia convocada para o dia 24 de agosto de 2009 ou a
suspensão do direito de voto da acionista "VCP¨, controladora da "ARACRUZ¨; ou (b) caso, não deferida uma ou outra medida acima cogitada,
à suspensão dos efeitos de eventual deliberação que aprove a incorporação das ações. Alega para tanto, em síntese, que a relação de troca
(ações preferenciais da "ARACRUZ´ para ações da `VCP¨) que a acionista controladora pretende impor aos acionistas preferencialistas é iníqua,
pois a estes carreia com exclusividade os prejuízos cambiais da "ARACRUZ¨, ante o tratamento não isonômico que lhes está sendo dado, em
confronto com aquele dado aos demais acionistas; e explicita que isso decorre da mudança de critério de avaliação (o de fluxo de caixa
descontado para o de cotações na Bolsa de Valores), do período considerado para a aplicação do critério substituto (exatamente quando as
ações da "ARACRUZ¨ se encontravam no "fundo do poço¨ (e, mais, quando ainda não divulgado o acordo celebrado pela "ARACRUZ¨ com os
bancos credores) e da prematura divulgação da relação de substituição (o que, sustenta, atrelou as cotações das ações da "ARACRUZ¨ às da
"VCP¨, de modo a manter inalterada, dali em diante, a relação de troca). Por outro lado, assevera que a controladora "VCP¨ está impedida de
votar, porque a deliberação favorável à incorporação das ações se dá em seu próprio benefício. Sustenta que estão presentes as condições
específicas da ação cautelar: o fumus boni iuris, em razão do reputa flagrante ilegalidade e abusividade consistente na imputação dos prejuízos
exclusivamente aos preferencialistas, mediante deliberação resultante do voto de quem, em sentido oposto, beneficiar-se-á particularmente e
se enriquecerá ilicitamente; o periclum in mora, porque se cuida de hipótese de dano irreparável e irreversível, haja vista que, uma vez
aprovada a incorporação das ações, que imediatamente passarão a ser negociadas com terceiros cuja identidade será impossível aferir, as
coisas não mais poderão ser repostas ao status quo ante. Por fim, aduz que no prazo legal ajuizará ação anulatória (ação principal). Antes de
levado a efeito o juízo positivo de admissibilidade da petição inicial e imediatamente depois de sua distribuição, a rés apresentaram memoriais e
documentos. FUNDAMENTAÇÃO Configura-se hipótese de indeferimento da petição inicial e consequente extinção do processo sem exame do
mérito. E por mais de um fundamento. I - Da carência de ação por falta de interesse processual (inadequação da via processual eleita). Fora de
dúvida que a ação cautelar não se presta para a dedução de pretensões próprias de ação principal de conhecimento. Em outras palavras, não
se pode, em sede de ação cautelar, vazar pretensão que implique a própria antecipação dos efeitos da tutela jurisdicional principal (isto é,
pretensão de cunho satisfativo do direito, ainda que em caráter provisório). Antes do advento do instituto da antecipação da tutela (artigos
273 e 461 do Código de Processo Civil, com a redação e inovações da Lei n. 8.952/1994) debatia-se e controvertia-se sobre aquilo que se
passou a denominar ação cautelar satisfativa, que se prestava, em verdade, para suprir exatamente a falta de previsão legal, de caráter geral,
da antecipação da tutela. Porém, depois da entrada em vigor da Lei n. 8.952/1994, à evidência não se coaduna com o ordenamento jurídico a
dedução de pedidos de cunho principal (porque satisfativos e não meramente garantidores de resultado útil da ação principal) em sede de ação
cautelar. E é o que ocorre no caso dos autos, pois as medidas "cautelares¨ pretendidas (inclusive em atenção ao princípio da eventualidade)
são todas, à evidência, satisfativas e, mais que isso, claramente irreversíveis. (Da irreversibilidade se cuidará mais adiante, em item próprio.) O
primeiro pedido da autora, que prefere aos outros dois subsidiariamente formulados, é no sentido da concessão de medida de urgência que
impeça a deliberação na assembleia (AGO) que está convocada para o próximo dia 24. (Note-se que a autora fala em suspensão da
deliberação, mas está claro que se trata da sustação da própria assembleia, pois também formulou pedido subsidiário de suspensão dos efeitos
de eventual deliberação de aprovação da incorporação das ações.) Ora, nada pode ser mais satisfativo, e irreversivelmente satisfativo, que
impedir a realização da assembleia. Se o Poder Judiciário impede a realização da assembleia (no todo ou em parte, isto é, quanto a esta ou
aquela deliberação) simplesmente nada mais haverá a ser decidido, nem na ação cautelar e nem em futura ação principal, acerca da
assembleia, haja vista que não se realizou e nunca mais se realizará. E nem se argumente que poderá haver outra convocação, pois nesse
caso, é óbvio, não se cuidará mais da mesma assembleia, mas, sim, de outra, de nova assembleia, inclusive com repetição de todos os atos
preparatórios para posterior deliberação em cenário indiscutivelmente distinto, pois a vida é dinâmica e os contextos objetivos (políticos,
econômicos, jurídicos etc.) e subjetivos (votantes e vontades dos votantes) se alteram inexoravelmente. Parece indiscutível, portanto, que
assembleia convocada que não se realiza, nunca mais se realizará. Cumprida eventual ordem judicial nesse sentido, sobejará, apenas, às rés
lamentar a definitiva perda da oportunidade de deliberação no contexto que se apresentava, ao autor comemorar a sumária e irreversível
vitória (sem atenção às garantias constitucionais de ampla defesa e contraditório), e ao juízo (ciente ou não da arbitrariedade cometida)
mandar os autos da ação cautelar para o arquivo. E a ação principal, isto é, no caso concreto a ação anulatória (noticiada pelo autor em
atenção à exigência do inciso III do artigo 801 do CPC, que, indevidamente, de há muito passou a ser assimilada como exigência de mera
indicação da ação principal)? Não será ajuizada e, se o for, a petição inicial será indeferida liminar e inexoravelmente. E isso porque causaria
espécie a dedução de pedido de anulação de assembleia (ou de deliberação) QUE NÃO SE REALIZOU... porque o autor da ação cautelar pediu e
o juízo deferiu... A questão ora abordada desborda para outro fundamento de indeferimento da petição inicial, que mais adiante será
enfrentado. Por ora, fica a confirmação de que se trata não apenas de pretensão satisfativa como irreversivelmente satisfativa. Passemos,
agora, à análise (no contexto próprio desse item) do primeiro pedido subsidiário, isto é, no sentido da concessão de medida "cautelar¨ que
impeça a ré "VCP¨ (controladora) de votar na assembleia em questão. Aplicam-se, aqui, todos os fundamentos acima expendidos em relação
ao pedido principal (no sentido de preferencial), pois igualmente se trata de tutela satisfativa e, mais que isso, irreversivelmente satisfativa.
Com efeito, se a assembleia (ou deliberação) que não se deixou realizar nunca mais será realizada (isto é, não a mesma assembleia),
igualmente se passa com o acionista que é impedido de voltar: naquela específica assembleia nunca mais votará. E vem a lume, mais uma vez,
a pergunta: e a ação principal anulatória? Não será ajuizada e, se o for, a petição inicial será indeferida liminar e inexoravelmente. E isso porque
causaria espécie a dedução de pedido de anulação de assembleia (ou de deliberação) da qual não participou exatamente quem o autor entendia
que não podia participar (isto é, assembleia realizada em total consonância com a própria pretensão - satisfativa - do potencial autor, ao qual,
evidentemente, não fosse a falta de objeto, não poderia ser reconhecido, sob tal aspecto, interesse processual para tanto). Por fim, o terceiro
e último pedido, subsidiariamente deduzido, isto é, no sentido da concessão de medida "cautelar¨ que suspenda todos os efeitos da
deliberação, caso (pedido condicional) seja aprovada a incorporação das ações. A diferença deste pedido em relação aos outros dois é que,
embora seja igualmente satisfativo, não é irreversivelmente satisfativo. Sobreleva, porém, que a inadequação da via processual eleita decorre
da dedução de pretensões satisfativas (mesmo porque a irreversibilidade é extraordinária). Pois bem. Agora o quadro mudou de figura: a

assembleia se realiza e, portanto, a deliberação se dá; mas caso seja aprovada a incorporação das ações, o autor que a suspensão de todo e
qualquer efeito dessa deliberação. Ou seja, e evidentemente, outra coisa não quer o autor se não usufruir, desde logo, provisória e
antecipadamente, dos efeitos práticos da tutela principal, que é, tal como acenado, voltada para a anulação da assembleia ou da deliberação.
Quando em ação principal se pretende a declaração de nulidade, a anulação ou o reconhecimento de ineficácia de determinado ato ou negócio
jurídico, o bem da vida (pedido mediato) perseguido pelo autor é exatamente a não sujeição aos efeitos desse ato. Em suma, de fio a pavio,
pedidos de cunho satisfativo indevidamente deduzidos em ação cautelar, via processual inadequada para tanto (art. 295, III, CPC). II - Da
inépcia parcial da petição inicial Em relação aos dois primeiros pedidos subsidiariamente formulados (fls. 22, capítulo VI, itens i e ii), a par da
satisfatividade e da irreversibilidade, e tal como se infere da fundamentação acima deduzida, a petição inicial é, em verdade, inepta, uma vez
que dos fatos narrados não decorre logicamente a conclusão (art. 295, I, c.c. parágrafo único, II, CPC). Nos termos do artigo 796 do Código
de Processo Civil, a ação cautelar é sempre dependente da ação principal (o que, aliás, confirma a inexistência de ação cautelar satisfativa) e,
demais disso, quando se trata de ação cautelar antecedente ("preparatória¨), há a exigência, já mencionada, posta no inciso III do artigo 801
do mesmo diploma legal: indicação da lide e de seus fundamentos (pertinentes à ação principal). E isso se dá exatamente porque ao juiz
devem ser revelados os fatos e fundamentos que, ao menos em tese, revelem a pertinência da medida cautelar, isto é, a aptidão da medida
cautelar pranteada de em tese garantir o resultado útil do processo principal (mas sem antecipadamente satisfazer, em termos práticos, o
autor). Se ao juiz não é dado conhecer em que consistirão os fundamentos e o pedido da ação principal, parece claro que não terá como aferir
da existência, em tese, da necessária relação de dependência entra a ação cautelar e a ação principal. Destarte, a petição inicial da ação
cautelar será inepta se não for atendida a exigência do inciso III do artigo 801 (cf. art. 295, I, c.c. parágrafo único, I, CPC) - do que no caso
dos autos não se cogita -, mas também será inepta se, revelada a lide e seus fundamentos, os pedidos "cautelares¨ deduzidos não guardarem
correspondência com a ação principal, isto é, aptidão para, em tese, garantir o resultado útil da tutela principal perseguida. No caso dos autos,
como visto no item anterior, se a ação principal acenada visará à anulação da assembleia ou de determinada deliberação, não existe nenhuma,
absolutamente nenhuma correspondência lógica com os pedidos formulados no sentido de se impedir ou a deliberação ou a participação da
controladora na votação. E nem se argumente que é subsidiário o pedido no sentido de se impedir a participação da controladora na votação e
que essa providência não afastaria a nulidade do ato ou da deliberação. Se assim fosse, a incoerência lógica seria ainda maior, pois o autor
estaria deduzindo pretensão no sentido da realização de ato nulo para, ao depois, perseguir a respectiva anulação... Daí porque, nessa parte, a
petição inicial é inepta, porque dos fatos e fundamentos (mormente a ação principal indicada) não decorre logicamente os dois pedidos que aqui
foram objeto de análise. E desde logo, no particular, cumpre tecer considerações sobre a previsão legal de fungibilidade (art. 273, § 7º, do
CPC). (Em relação ao pleito de suspensão dos efeitos da assembleia ou da deliberação positiva, porque logicamente vinculado à ação principal
acenada, a questão da fungibilidade merecerá análise apartada.) Em relação aos dois primeiros pedidos nem em tese se pode cogitar de
aplicação da fungibilidade. Abstraída a discussão em torno de ser ou não de mão-dupla a fungibilidade e, apenas para argumentar, partindo-se
da premissa de que é em tese possível no sentido inverso àquele previsto pelo legislador (isto é, concessão de medida de antecipação de tutela
em sede de ação cautelar), o que sobreleva é que a tutela principal, indicada pelo autor (ação anulatória), caso acolhida, nem em tese terá
efeitos práticos correspondentes a esses dois pedidos "cautelares¨. Em outros termos, só se pode, em tese, cogitar de antecipação dos efeitos
da tutela principal pretendida e não de efeitos absolutamente estranhos a ela (no caso, aliás, absolutamente incompatíveis). Ainda que assim
não fosse, a fungibilidade não seria cabível, uma vez que, como já afirmado, esses dois pedidos têm caráter satisfativo e são irreversíveis. E
antecipação de tutela tem por pressuposto a reversibilidade da medida (art. 273, § 2º, CPC). No caso dos autos, para além da vedação legal
(que veda a antecipação quando houver perigo de irreversibilidade), a hipótese é de certeza de irreversibilidade. III - Da falta de fumus boni
iuris. Também o juízo, em atenção ao princípio da eventualidade, deduzirá fundamentação partindo da premissa no sentido de que, embora
ausentes, a condição geral da ação (interesse processual) e o pressuposto de validade (petição inicial apta) pudessem estar presentes, isso
para fim de argumentação. O primeiro aspecto para o qual o juízo deve chamar a atenção é o fato desta ação cautelar ter vindo a lume
quando apenas três dias úteis transcorreriam até a data e horário da assembleia: ação proposta em 18.8.2009 (terça-feira), no final da tarde,
sobejando apenas os dias (úteis) 19, 20 e 21 de agosto, haja vista que a assembleia está convocada para as 9h30 do dia 24 (segunda feira).
Isso porque se trata de complexa e bilionária operação que há praticamente um ano foi iniciada e, mais que isso, de relação de troca que está
definida há vários meses e, por fim, de assembleia que foi designada com bastante antecedência. E não obstante tudo isso, e dos vultosos
prejuízos aos quais o autor quer se forrar, praticamente na última hora vem a lume a ação cautelar, de modo a potencialmente subtrair a
possibilidade do contraditório efetivo e colocar todos os sujeitos da relação processual sob pressão. Todavia, com ou sem justificativa, o fato é
que a ação cautelar foi proposta antes da assembleia e, evidentemente, o aspecto acima acenado não tem o condão, per se, de autorizar
conclusão no sentido da ausência do fumus boni iuris, embora em conjunto com outros aspectos o tenha. E é desses outros aspectos que
adiante se cuidará. As baterias do autor estão voltadas, em última análise, em direção à relação de troca das ações dos preferencialistas.
Todavia, e como dito, trata-se de mega operação, que seria assaz complexa já num cenário econômico de normalidade e de tranquilidade. No
caso dos autos, tudo cresce - e muito - em intensidade porque o cenário da economia mundial e, consequentemente, da brasileira, vem
sendo, nos últimos meses, dos piores da história; a crise da economia mundial é gravíssima, inédita e deitou deletérias consequências pelos
quatro cantos do Globo. A crise começou contemporaneamente ao início das negociações entre as rés e tudo se complicou porque a
"ARACRUZ¨ teve (e teve de anunciar) bilionário prejuízo experimentado em operações com derivativos. Esse mesmo e grave problema
experimentaram outras empresas brasileiras de grande porte, como, por exemplo, a SADIA (a cujo caso o autor se reporta para justificar sua
pretensão de afastar a controladora da votação). E pelas mais diferentes razões específicas, mas sempre derivadas da crise mundial, várias
empresas de grandíssimo porte sucumbiram (instituições financeiras, seguradoras etc.) e outras só não sucumbiram porque, dada a magnitude
do problema, foram mais ou menos socorridas e favorecidas com vultosos recursos do povo (por isso que provindos dos cofres públicos,
como se deu, por exemplo e nada mais nada menos, com a General Motors nos Estados Unidos da América). No Brasil, o governo teve de se
valer de delicada e intrincada política fiscal, com isenções de impostos, para manter a economia andando. As ações da VALE e da USIMINAS,
dentre as de várias outras anônimas, despencaram. E empresas que ficaram, a rigor e tecnicamente, insolventes, porque foram apanhadas de
calças curtas pela crise, encontraram solução em incorporações, fusões, pedidos de recuperação judicial etc. E isso aconteceu com a
"ARACRUZ¨, como admite e confessa o autor. Portanto, no sentir do juízo, o agudo momento impõe, em cognição sumária, que os olhos e a
atenção sejam postos mais na continuidade da empresa, na manutenção de empregos, na higidez da economia nacional (tudo a deitar raízes,
indiretamente, no maior interesse público), e menos na situação particular do fundo autor, titular de ações preferenciais por profissão, em
mercado no qual os riscos são grandes, mas os lucros e as perdas também. A operação que o fundo autor quer suspender, em cognição
sumária, há de ser considerada em termos gerais, e não em termos da específica perda ou prejuízos alegados na petição inicial. Basta, por
hipótese, supor que o autor logre êxito em relação a qualquer um dos três pedidos que formulou - e digo qualquer um deles porque, embora
distintos, conduzirão, em termos práticos, à mesma é única consequência: o travamento da operação. E parece claro que o autor quer esse

travamento não para inviabilizar a operação definitivamente, pois aí estaria dando um tiro no próprio pé, mas para abrir ou reabrir discussão
em torno da relação de troca das ações. Vamos supor, porém, que as rés não cedam (embora possam mesmo acabar cedendo, haja vista a
gravidade da situação) e qualquer uma das medidas, deferida, seja mantida, como delas é próprio, delas se espera e porque para isso se
prestam, até final solução da ação principal anulatória (o que, como já dito, ficou reduzido à medida de urgência satisfativa de suspensão dos
efeitos). Ocorrendo isso, dúvida não há: a operação malogra e "ARACRUZ¨ sucumbe, e com ela os acionistas, além de todos os efeitos
colaterais. A pergunta que se deve fazer, então, é a seguinte: atende aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade paralisar operação
vital para a ré "ARACRUZ¨ para dar ao fundo autor a oportunidade de se bater por uma relação de troca melhor? A resposta é não, e isso
independentemente de ter ou não razão o autor. O cerne da questão é meramente econômico, financeiro. É de dinheiro que se cuida e com o
que se preocupa o autor; maior ou menor perda nesse primeiro momento de transição (mesmo porque perdas vultosas já ocorreram no
exato momento em que os comprometedores prejuízos da "ARACRUZ¨ vieram a lume). E, por óbvio, quando se trata de dinheiro,
ordinariamente não se há falar em irreversibilidade, pois em princípio há vias judiciais adequadas para a reparação de prejuízos causados por
outrem. O autor afirma que as ações serão negociadas com terceiros não passíveis de identificação e que, portanto, seu dano será irreparável,
irreversível. Mas o afirma como se cuidasse de coisa outra que não dinheiro. Ora, nada é mais reversível que dinheiro, mormente quando a
operação que se pretende obstar tem exatamente por escopo salvar os acionistas da "ARACRUZ¨ com a formação de uma nova e grande
empresa, com excelentes perspectivas. Agora, volvemos à situação inversa ou reversa: as rés não cedem e a operação vai por água abaixo. Aí
sim estaremos diante de situação claramente irreversível e incomparavelmente mais danosa potencialmente, pois como visto acima as
consequências serão drásticas e irão para muito além da pessoa (e dos bolsos) dos acionistas. Há sério risco de caírem ao solo a cotação das
ações das companhias, em caminho diverso daquele que vem sendo percorrido ante a perspectiva da incorporação das ações. [A propósito, no
pregão de ontem, 19.8.2009, as ações da VCP (VCP ON) e da ARACRUZ (Aracruz PNB) tiveram, disparadamente, o melhor desempenho
dentre todas as outras (6,28% e 5,20%, respectivamente), seguindo-se o terceiro melhor desempenho das ações da SABESP (Sabesp ON),
de 3,33% (fonte: Jornal Valor Econômico de hoje, 20.8.2009, p. D6.] E se assim é, se é direito das rés não cederem, nada autoriza que se
conceda medida de urgência satisfativa em favor do autor quando tudo indica que ou não poderá subsistir por muito tempo (caso as partes
não transijam - e muito complexa seria essa transação) ou se subsistir por muito tempo terá irreversível consequência, pois é evidente que
não ficarão os sujeitos interessados (inclusive os credores da "ARACRUZ¨) aguardando pacientemente o final solução do processo, que
consumirá vários anos. Irreversibilidade por irreversibilidade fica-se, em cognição sumária, com aquela contrária à pretensão do autor, inclusive
em atenção aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Não há, em suma, presença de fumus boni iuris, pois tudo aponta em
sentido inverso. Logo, não satisfaz o autor condição específica da ação cautelar, o que impõe, também, o indeferimento liminar. Aqui, então,
cumpre pegar carona nas considerações que o próprio autor tece a fls. 21: o mal maior se projeta em sentido contrário ao indicado pelo autor;
o mais mal provável está na concessão da medida de urgência; o direito mais forte, nesse incipiente estágio de cognição sumária, não é
possível aferir, à falta de elementos de convicção que suficientemente corroborem a alegação de que a relação de troca não é adequada; muito
ao contrário, quanto a este último aspecto, vislumbra-se necessária ampla dilação probatória, inclusive porque não se pode perder de vista que
as ações de natureza distinta, conferem distintos direitos e, portanto, não têm o mesmo valor. Nem mesmo aproveita ao autor a constatação
de que no caso SADIA/PERDIGÃO a controladora não pode votar. Não pode porque nesse sentido interveio a CVM (Jornal o Valor Econômico,
de 19.8.2009, p. D1, enquanto no caso dos autos não se tem notícia de intervenção no mesmo sentido. Destarte, isso apenas reforça a
inexistência do fumus boni iuris, pois em princípio, e razões deve haver para tanto, a CVM, ao que tudo indica, não interveio. Calha trazer à
baila precedente jurisprudencial importante. De fato, no processo cautelar, "pela ampla discrição com que age, deve o juiz redobrar as cautelas
sopesando maduramente a gravidade e a extensão do prejuízo alegado que será imposto aos requeridos e a real existência do pressuposto do
fumus boni iuris¨ (TJRS, AI n. 584.044.135, 1ª Câmara, j. 26.2.1985, rel. Des. ATHOS GUSMÃO CARNEIRO). E se não há sequer fumus boni
iuris, menos ainda se pode cogitar da satisfação dos requisitos muito mais exigentes para a antecipação de tutela. Sim, antecipação de tutela,
pois já ficou assentado que a hipótese não é de medida cautelar, nem mesmo em relação ao pleito de suspensão dos efeitos da assembleia e
deliberação. E nesse passo, volvendo à questão da fungibilidade prevista no artigo 273, § 7º, do Código de Processo Civil, cabe antes de tudo
consignar que, a rigor, também quanto à suspensão dos efeitos da assembleia (ou deliberação) a irreversibilidade se revela, considerando-se,
para tanto, não uma eventual autocomposição, mas que a medida de urgência, embora revogável, é concedida para produzir efeitos durante
todo o curso do processo. Incide, também aqui, a vedação do art. 273, § 2º, do Código de Processo Civil. Mas ainda que assim não fosse, os
fundamentos acima já deduzidos revelam a ausência de fundamentação relevante (art. 461, CPC) ou de verossimilhança e prova inequívoca
(art. 273, CPC) do quanto se alega em torno da relação de troca estabelecida. IV - Do não cabimento de fixação de verba honorária em favor
das rés. A ação foi proposta em 18.8.2009 e foi submetida à apreciação do magistrado quase ao final do respectivo expediente, mas ainda
assim com tempo para as rés - não citadas e cuja citação não foi determinada em nenhum passo - apresentarem memoriais e documentos.
Ou seja, as rés intervieram antes do juízo de admissibilidade da petição inicial, que ora se faz negativamente. Destarte, não há lugar para a
fixação judicial de verba honorária, pois para tanto o pressuposto básico e primeiro seria a determinação de citação, a ensejar, aí sim, eventual
comparecimento espontâneo. DISPOSITIVO Diante do exposto, na ação cautelar que AC0 FUNDO DE INVESTIMENTO MULTIMERCADO -
INVESTIMENTO NO EXTERIOR (representado por J.P. MORGAN S.A.) propôs contra VOTORANTIM CELULOSE E PAPEL S.A. e ARACRUZ
CELULOSE S.A., com fundamento no artigo 295, I (c.c. parágrafo único, II) e III, do Código de Processo Civil, INDEFIRO A PETIÇÃO INICIAL e,
consequentemente, JULGO EXTINTO O PROCESSO CAUTELAR, sem exame do mérito, nos termos do artigo 267, I, do mesmo diploma legal.
Custas e despesas pelo autor. Incabível a fixação de verba honorária. P.R.I. e, oportunamente, arquivem-se. São Paulo, 20 de agosto de 2009,
às 14h20min. Samuel Francisco Mourão Neto Juiz de Direito

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