Occidentia

Segunda via

Orlando Lopes

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Occidentia segunda via 1ª. prévia

poemas Orlando Lopes

2014

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Sumário
LIVRO UM - LIRA IMAGINÁRIA ............. 5
amor é pedacinho .............................................6 CANTIGA ..........................................................7 FÁBULA ............................................................8 MEKHANÉ AMOROSA ................................... 10 O poeta, em seu infinito passeio pelo inferno humano, finge à vera aquilo que devora a alma11 ELEGIA AZUL ................................................ 14 METAFÍSICA DA PRESENÇA ......................... 16 UMA TEORIA DO AFETO ............................... 18 APOTEGMA .................................................... 19 Ainda falta tanto pra escurecer..................... 20

LIVRO DOIS - LIRA SIMBÓLICA ......... 23
MUDOU-SE O TEMA (ONDE O MAR COMEÇA)24 HAIKAIS MINIMAIS RADICAIS ...................... 26 HAPPY BIRD DAY .......................................... 27 NÔ.MADE.S.................................................... 28 con sidere: quando você pensa (ou você dis pensa esse contínuo (dis)pe(r)sar?) .......................... 30 Culpa da orelha metafísica ........................... 31 Você, que cansou de perguntar quem é ........ 35 NOTURNA ...................................................... 39 o ato de desenhar idéias ............................... 40 UMA ESCADA SOBRE O NADA ..................... 44

LIVRO TRÊS - LIRA REAL ................. 51
ATO DE CRIAÇÃO ......................................... 52 POÉTICA ........................................................ 53 O poeta não quer que o saibam..................... 54

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o poeta não nega o que escreve .................... 56 (POEMA) ABUSADO COMO ELE SÓ .............. 57 O POEMA QUE DESEJA SE EXPLICAR ......... 58 um poema que resiste ................................... 59 eu sou o múltiplo deste tempo, o fruto espúrio deste tempo (o esporo aleatório............................... 60 CALEIDOSCÓPIO ........................................... 61 Imagine que você é capaz de criar um mundo inteiramente................................................... 63 AISTHESIS ..................................................... 65 FRAGMENTO ................................................. 66

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Livro Um - Lira imaginária

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Para a Miriam

amor é pedacinho
amor é pedacinho de cada um. É comum-de-dois, vez de vezes, desejo, deleite. amor é doce (na ponta da língua) desafogo, exagero de luz, epifania evidente. amor é efeito de nós mesmos (os dois refeitos), os dois reféns por direito. amor é apenas a vida que de si se esquece e assim se inventa: esboço de nós pra amanhã, querência permanente.

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CANTIGA
me ame que te amo quando você me ama te amo quando você me ama pra eu poder te amar amemo-nos leves como (sempre como) anêmonas: acéfalos com mil braços disfarçados de pétalas

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FÁBULA
joão tenta encontrar em Maria: o ar mais quente em seu hálito o peso mais denso do seu corpo o zelo mais extenso do seu gosto mas Maria (sesmaria) é desvairada e absurda: seu hálito é apenas o frio do suspenso seu corpo é exatamente o aço do costume seu gosto é a certeza dedicada do acaso que opção pode ter joão? João é são como sansão

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é furtivo como um livro e vivo como um reflexo desconexo João tem inveja todo dia (sem alívio) João não pode nada nesta vida a não ser querer desquerer crer em maria

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MEKHANÉ AMOROSA
o amor quando se põe a nos consumir o amor quando nos seduz na mais deliciosa miragem o amor quando nos toma a vista e o horizonte o amor quando nos deduz da mais infante imagem o amor quando nos devolve a nosso desejo o amor quando nos reduz à mais furiosa vertigem

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O poeta, em seu infinito passeio pelo inferno humano, finge à vera aquilo que devora a alma
o poeta em seu infinito passeio pelo inferno humano (le diable - mon hypocryte semblable – sont (milliers de milliers!) les autres en nous mêmes) finge à vera (o vero vício do dever de ver deveras) aquilo que devora a alma (: o horror que emana - vo (x) no nada rtex -

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: uma sobre outra: uma realidade que se ex tende como corpo ao olhar (o codex amoroso (: quando amas de uma forma ou de outras tua alma sempre se arrisca assim cumpre ao cortês amante (lis da lua : tu nu(a) na rua e a presença ob( (s) ex c)ess & vã (a uva e seu viúvo

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tudo o que a vida tem de-bom no con fuso fio de cada uma de nossas sete vezes sete vezes sete vidas)

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ELEGIA AZUL
I sobe a dor já esmaecida da tua ausência e a tua voz – aquele lampejo calmo e tímido do que não sabia houveras sido – ecoa na memória de pequenos ditos e nos olhares que sabiam se perder no infinito II agora és todo larga e vasta vaga na memória a discrição de tuas pequeníssimas (ínfimas) grandezas valem o sol mais distante do universo

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III aqui o dia tem vinte e seis graus do sol e onze velhos que discutem o que fazer com o que resta do dia enquanto seus pajens trasgracejam no jornal a última vitória da Copa : basta-lhes saber (como a ti bastava) que o mundo não é todo e apenas filosofia sendo (quando muito) literatura ou pó de pós: poesia

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METAFÍSICA DA PRESENÇA
É a vossa vaidade que tenho de combater, e não o vosso gosto; esse mal não tem remédio. É uma espécie assaz singular de homem esse a quem os cinco sentidos sempre dizem que ele é tudo, e os outros nada. Montesquieu I aqui o denso vazio da tua ausência se faz de silêncios amenos o mais dos gestos se recolhe da memória é peremptório logro o teu corpo agora desarmado da carne: a equação sem carne do teu charme abstrata Vênus Lisístrata afastada aqui repete-se: a tua memória descolada o universo sem massa o movimento universal e receoso do vazio: o eco evaporado da tua risada

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II a solidão é a presença mais completa da perfeição mas é insana: é a tua falta que me irmana é a tua falta que te emana: o quarto a sala o tráfego nômade da cama a solidão é o preço da tua transmigração a solidão expurga da alma a desventura do erro a mágoa a comiseração (a dor surreal da inexplicação) solidão: assim te transformo em santa crio a minha única religião: o teu segredo beleza dog-ma-ti-za-da (a beleza descarnada de tudo a beleza que não existe em vão) solidão é parodoxo desconforto de dor moeda da saudade: o peso mais aéreo e o lugar mais comum do amor

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UMA TEORIA DO AFETO
afeto: sentimento quieto hábito completo por um preço espasmódico arco aberto (não abrupto) contato difuso fato grosso gasosa polpa (semper pulpa) o carinho amortecido da distância a infância amolecida de um desejo o bocejo envaidecido de um gracejo e vir e ver nas mãos o espesso o grave o sorrateiro: a coceira engalanada o gesto cortês derradeiro? o afeto não termina por não haver peito certeiro, espera o dia sem brilho de um sol vermelho comete a loucura de não se preocupar mais em saber: o afeto anima sem rima um prisma (a sina) que se ilumina: síncope de luz divina

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APOTEGMA
o amor é mesmo assim (um dia ama no outro não ama) ? amar é encontrar-se no espelho do outro (pra depois tropeçar no absoluto vazio da indiferença) ? o amor é mesmo essa coisa tão incomensurável (é sólido como um átomo e abstrato como o universo) ? o amor é sorte (ou certo acerto do desejo) ?

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Ainda falta tanto pra escurecer
ainda falta tanto para escurecer a noite mal se anuncia (apenas o sono manda dizer que não virá e que você terá mais uma vez como companheira a melancolia) estás acostumado o silêncio e a solidão te guardam há muito te protegem dos homens e te dão o mundo que levas dos olhos às mãos para melhores efeitos de poesia não és sábio sabes bem disso ainda és jovem (mas a vida parece que acaba amanhã cedo após a noite maldormida) tua vontade é explodir

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e mostrar o tanto e o quanto lhe coubera de vida (mas a vida explodisse agora te chamariam louco – já te chamam mansamente – a ninguém desafias) teu desejo mais sincero é interromper tudo e todos suspender o tempo por um instante e mostrar o que os outros não vêem: a vida e suas segundas (primeiras) geometrias (mas ninguém te dará o crédito da descoberta – descobristes o nada em ti mesmo : como provar aos estranhos ou mesmo à família?) a noite vem vindo muito quente mole modorrenta e nada te apetece

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: a única coisa a se anunciar é o inexorável vazio (vazio que se sabe um nada e a si mesmo se anuncia como longa noite sem estrelas tanto quanto sem sol foi todo o teu dia) não és (sim já o sabes) sábio (fosses, não te farias mal não te terias acometido tão lenta agonia) a noite vem e tu (só tu) a esperas por não ter remédio : por pura (púrpura) idiossincrasia

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Livro Dois - Lira simbólica

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MUDOU-SE O TEMA (ONDE O MAR COMEÇA)
A aventura é o mar ou essa forma Que se forma depois, que vai viver Na memória dos dias? Egito Gonçalves

a vida inteira procurar aquela coisa – a coisa – que nos começa e encontrar à porta de casa o mar que nunca cessa: oceano que se transforma em ar e – maresia – nos corrói entranha-nos ao nos atravessar nosso mar (também salgado) é mais impessoal é semi-desumano: ascese de quem não navega festa mais simples de água peixe sal (não é mar de mitos não oculta monstros infinitos nem tesouros de ouro jóias dobrões de prata) é mar puro

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água apenas mareal (e se escorre em nossas veias é porque não nos foi dado chão senão no barro de que fomos tomados emprestados) sim é um mar (que guarda ainda lágrimas de mães e esposas e sangue de irmãos e pais aquela melancolia séria da miséria do caiçara) como todos os mares (por mais distantes): malabar um mar de párias

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HAIKAIS MINIMAIS RADICAIS
Par’o Bith

debelo azul: degenero sincero como Homero: exaspero quisera matéria etérea: o aço da ideia traço dominado compasso: poeta de verso escasso avesso delicado: veludo vago

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HAPPY BIRD DAY
liso leve e solto pronto para (sobre) saltos : lá vai o pássaro pass(e)andando entre nuvens colunas e colchões de ar passou e passa : passara ‘inda ‘gora ali defronte galga galgo cumes e montes (desconhece caminhos ignora pontes) : quando reabrires os olhos mal o verás é certo que estará longe

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NÔ.MADE.S
nômade é o sentido que não se aquieta nômade é o princípio da linha reta nômade é o alívio da atitude correta nômade é o gesto e a mão do poeta (de fato enfrenta o nada abismado: vago dá nome a cada pedra tropeçada e não contente arrasta o breve aceno da mão deixada em pleno abano) nômade é a fatura que ganha o mundo nômade é o futuro que vem chegando (de resto quase nada sobra ao voto feito sobre a página: ela se abre se faz desmando se rasga desgarra desacata descarta o desumano) nômade é o que cai em desuso pousa usa o desengano nômade

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é o que não tem enfim nenhum plano

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con sidere: quando você pensa (ou você dis pensa esse contínuo (dis)pe(r)sar?)
con sidere: quando você pensa (ou você dis pensa esse contínuo (dis)pe(r)sar?) num (em-um : e estando nele (nesse um) ser (como) ele) ser (e sendo ele com ele (de alguma forma) ex pa(i)recer) vivo (assim seu próprio (r)ex pirar e dar nova volta ao mundo todo), pensa nele com que grau de complexidade que fio faz o teu olhar quando nesse outro ser ele se (a si mesmo ao próprio olhar) per (de per se) corre ?

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Culpa da orelha metafísica
I (culpa da orelha metafísica : ela nela mesma se equi voca) o pensamento quando desentorta (ou seja quando consegue (plus) ultra passar a imagem da linha reta) sai pela porta a fora a dentro deixa de ter centro

II

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(a orelha não entende o verso : incômodo de tudo o que parece disperso) o pensamento reposto em seu molde (selva geria in finita barbár ie des comedida (toda coisa percebida en-si-mesma torna-se des medida de importância (a menor (não a maior cefaléia cabralina) dor de cabeça

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o maior (não o menor) de todos os enigmas: a própria vida (que sem se saber o que é tanto nos con torce (e) entre tece a(r)ranha(r)risca a pele de nossa espécie

: descaminhos coloridos de nossa razão perdida) assume formas ex cêntricas (pensamento ab solutamente sem razão pensamento sem sentido (pós-humano

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artifício : nossa grande ficção) verdade desaparente

tudo aquilo que realmente se sente)

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Você, que cansou de perguntar quem é
você que cansou de se perguntar quem é decidiste que chegou a hora de ser : aceitaste a vertigem do mundo e as suas estranhas maneiras de ser (o mundo não pode mais fugir de ti

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e nem tu podes mais fugir dele) (você não parou de sofrer mas hoje sabes não haver motivos para recusar a imensa e delicadíssima dor de viver : sentes dores de todo tipo – as tuas as dos outros as do mundo inteiro – mas não mais te dilaceras com isso

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o excedente das dores – este é o teu siso – aprendeste a moer com palavras e só por isso sabes que pode suportar o prazer – quase dor – de estar vivo) : você que passou desta para melhor (aprendeste a morrer e a ressuscitar quase todos os dias) não tens outro remédio senão olhar o mundo no fundo do olho

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não tens outro remédio senão eviscerar-se (evanescer-se como Prometeu) e espremer (aspergir) tua bile : você totalmente transformado em calcanhar de Aquiles

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NOTURNA
hoje anoiteci Schopenhauer: fiquei melancólico todo spleen abatido & cansado a vida encrespada no crepúsculo pareceu desmascarada : pareceu nada aí como um cão que divaga farejando no ar do tempo (antena da sua raça) indecisões putrefactas e fantasmáticas emplumei-me com as plumas indivisas que restaram após o bote: os restos do fim do mundo sem direito a devolução do mote

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o ato de desenhar idéias
o ato de desenhar idéias assemelha-se por vezes a um ritual de caça uma palavra (ou uma manada delas) vaga nas planícies de uma fazenda de ar (e nós agri (doces) cultores fazendeiros do ar sedentários (bárbaros) admiradores da alma sentimos a fome ancestral da palavra nova) (: palavra bicho ingênuo (áporo) que deus faz brotar (sacro ofício) da boca pra fora) :

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devemos nos acercar da palavra (daquela pela qual se guia a manada) mas como é difícil distingui-la entre tantas peles de lobos e cordeiros somente é possível aproximar-se cercando-se de cuidados é preciso fingir (a) hora que ela é comum (a) hora que ela é sagrada – entre um ponto e outro tentar descobrir de que sub instância é feito o seu nada) chega mesmo a hora em que é preciso dar um bote na palavra (o fazendeiro sibil-vacilante à espreita)

capturá-la de uma só vez

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numa única bocada (caçador macunaímico : chega uma hora em que não pode ter escrúpulos nem nenhuma espécie de caráter) cada poema guarda as palavras caçadas (imoladas despeladas destrinchadas esquartejadas : deixadas prontas para serem saboreadas) de uma maneira diversa (a caça é espreitosa e o poema – o caçador conhece cada recanto de sua fazenda de ar – é oportunista (inclusive maldoso e perverso : especialmente aquele que é belo)

(há (é claro) poemas fotossintéticos canibais respeitosos

há mesmo poemas tão

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miméticos que não perdem de vista as verdades eternas : densas estrelas anãs recontam infinitamente a glória de ser a certeza dedicada de cada sol e sua equidistância (pura errância) há poemas tão pequenos (bactérias etéreas) e epopeias gidantescas – memórias de elefantes cantos de mil baleias) : serpentina eterna voz de víbora (sedentário caçador estendendo sua rotina) sendo muito bem-vinda às mil bocas indistintas de nosso inferno

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UMA ESCADA SOBRE O NADA
a escada, apenas entrevista imagine uma escada tão leve que possa-ser -lhe permitido o luxo de equilibrar-se sobre o nada devem ser veros e certos os muitos rodopios que a escada dá sobre si mesma presa que está apenas ao infinito seu maior mistério é ter a substância do nada mas ainda assim ter um quê ao menos um algo a mais quase-sal quase-pimenta mesmo sopitados na carapinha

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de um-só (o significado) : fiat luz (a vontade iluminada vejamos a escada) ... uma escada descarnada de tudo o que não seja escada (a escada ainda antes de ser realizada) ... estando sobre o nada tanto os degraus quanto a própria dita dão igualmente para outro nada (o mesmo) e para outros (os nada alheios) nadas (: nossos com parsas)

um

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de grau acima ou abaixo de nada leva a escada para nenhum lado : fora do nada pode-se apenas andar de um lado para o outro dentro da escada : dentro do nada nada se passa a não ser um degrau em relação aos outros assim de dito em desdito os que a vêem a usam (a escada) sobem e descem atravessando de ponta a ponta os limites do nada ...

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nos altos e baixos do nada sacodem-se em seus falsos fios as paspaisagens surreais : milhares de degraus de uma única (a múltipla e infinita) escada

a escada em seu sitio sendo feita essencialmente de nada será possível perguntar: “mas e o que-é que-é-que se poderá enfim fazer com essa escada? de onde e para onde poderá transportar estes olhos que assaltam incessantes o redivivo nada? sendo em seu íntimo feita de nada esta será sem dúvida sua única herança certa : tudo o que a escada pode

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oferecer, quando desnudada é o próprio nada sua metafisiologia, sua amorfologia, sua tópica ausente, sua típica ausência, sua arritmia indisfarçada : fora de todo o tempo (pouco antes de existir e funcionar a matéria : nesse momento melhor se mostra (e di vaga) a escada que só existe (de facto) enquanto é nó nada: quando vira coisa ela é só – apenas – impressão : aparência degenerada) : fora de todo o espaço

a escada e sua demanda

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a escada (também chamada antes graal alavanca nirvana epi phainós meta physis ais thesis mundo que se desmove em puro comovimento) manda e desmanda no poder que a comanda : é a força da vontade que declina (e desdenha) do nada (pois com ele se afina e nele se afaga) dos usos humanos para a escada há que se ter cuidado ao se pretender usar uma escada que apenas pode nos levar do nada ao nada: qualquer coisa a mais perigará o limite de uma existência tão inegável quanto discutível

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(será sempre tão palpável quanto se puder provar – em caso contrário tornará sua solidez a se desmanchar no ar – e assim, insistindo em existir, não hesitará em barbarizar tribunos, admoestar jurados) : quando o nada encontra a vontade o mundo se encontra dado: acaso acasalado sentido reencontrado.

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Livro Três - Lira real

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ATO DE CRIAÇÃO
este trabalho que me excede é o mais leve: não se mede em horas não se importa em ser breve não exige força-esforço sobre-humano seu cansaço é o cansaço bom do desengano: a beleza que me habita não é fardo: é gota que preenche o oceano

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POÉTICA
arte? é uma família de fantasmas antepassados. o resto? não é belo nem pálido não é contra, não é salto é remédio (ainda) desencontrado poesia? é uma amiga que sobrevive longe, e às vezes manda lembranças. o resto? não tem importância (ainda que assim a vida não se faça), é uma coleção de fatos, é o gosto sem espaço, pingo sem i, puro traço gasto: descansaço: bafo: o enésimo dia do barro poeta? é uma mão que embaralha as vistas tão claras do homem. mas é também o inverso: quimera racionalizada. o resto? é a outra mão que (trapaceira) soletra o mundo, cantárida desastrada poema? é o centro momentâneo do universo. o resto? é a órbita escusa: é o que não tem musa (é o que desencanta e desconversa). cores dissimuladas, sincronias mórbidas, bocas descaradas. desdesígnio. antiinsígnia. redesvio : vida atraversada

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O poeta não quer que o saibam
I o poeta não quer que o saibam não quer que o vejam mas não quer que digam que ele não existe por isso o poeta fica triste por isso põe o dedo em riste e dispõe-se a falar (coisa que causa espanto a quem tanto acostumou-se a vê-lo calar) : o que o poeta representa nas palavras que se põem em cena (da boca para fora) não dizem o momento em que delas ele se retira : no que expira sua presença (e a página respira) cada palavra se põe em mira

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II em contato com outros olhos elas respiram outros ares : vão ao céu encontram Hades (desmentem o próprio mito do almoço dado de (alguma) graça)

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o poeta não nega o que escreve
o poeta não nega o que escreve (não importa o nome que assina) trata-se de um poeta talvez démodé (é sóbrio? é sério? que melodia anuncia?) mas não tem moldes da velha rima senão ocultas por descuido e picardia não chega a ser triste o descontentado poeta: faz chistes de avesso azo faz armadilhas de poesia (e mesmo que não haja hoje quem delas ria caça palavras que esperam aguardam escapar de dicionarizada agonia (poemas são curvas que os fatos fazem espasmos entre a memória e a memorabilia : escorrendo dos dedos aos olhos ouvidos poemas possuem visgo de oftalmofonia ultrapassam singulares e simples qualquer fantasia)

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(POEMA) ABUSADO COMO ELE SÓ
se é (realmente) verdade o que tens em mente nada – nem ninguém – poderá tirar (dela) a tua razão (: verdade é a própria certeza e não apenas sua simples confirmação) uma vez lançados os dados – aí sim – a lógica não tem mais nenhuma outra opção : deve (necessariamente) manter uma direção

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O POEMA QUE DESEJA SE EXPLICAR
o poema que deseja se explicar é repetitivo (até mesmo no título) é um texto que tenta escapar de não ter nenhum sentido é um verso que aceita o ridículo aviso da garantia é uma voz que deseja resvalar o vazio buscando força no suicídio é um poema que vaga à procura de seu semelhante (mas Baudelaire e Cervantes tropegam apenas equidistantes) o poema que deseja se explicar é o belo fruto da indolência é surto virulento que se cospe no mundo em sobreaviso é falsa alvíssara: semente viscosa que escapa da boca é pulso-epígono avant la lettre cabeça-oca amenidade desavessa que desafia o vício e derrama um mundo de sevícias: éden falsificado delicado jardim sem delícia

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um poema que resiste
um poema que resiste um poema que resiste ganha uma guerra peleja contra a massa: arremeda toda a gente (quem entende sua benesse?) estendendo braços eleutérios — desidérios dessimétricos — mandados pelo acaso mais fortuito (de seu viço caso alguém duvide resta apenas sombreada vida alheia (mas ávida) contrapletora desvencilhada e desguarnecida monomania flutuando na aurora)

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eu sou o múltiplo deste tempo, o fruto espúrio deste tempo (o esporo aleatório
eu sou o múltiplo deste tempo, o fruto espúrio deste tempo (o esporo aleatório, o esparro transitório no fundo do poço da modernidade). Eu sou a máscara suprema – minhas perfumarias tão românticas – que se assinala na cadência hermética semimacunaímica inaugrafada na calada da noite. Açoite. Eu sou açoite semântico: trago pânico – esse tirano – aos trapos, farrapos, antes sábios sapos, que se entrevendilham neste templo perdulário. Não tenho tempo: tenho o meu ossário, meus ossos sacros, meu cóccix, meu pescoço entalado pelo caldo delegado a ermo – meu estado.

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CALEIDOSCÓPIO
Perguntas óbvias que deviam ser feitas aos poetas (com as respostas óbvias que deveriam ser dadas por eles)

por que você escreve? escrevo porque tenho verve. escrevo porque meu sangue é uma tinta que ferve. escrevo porque assim a minha alma se acalma. escrevo pra ver se alguém bate uma palma. escrevo pra ter silêncio. escrevo pra ver se me convenço de mim mesmo. escrevo porque me invento. escrevo porque sou tenso (não porque sou intenso). escrevo porque existo de verdade quando penso. escrevo porque não penso sem olhos e mãos (aprendi que olhos e mãos têm a gramática peculiar de gestos e cores formas volumes onde tenho sentimentos).

sobre o que você escreve? escrevo sobre o que tem verve. escrevo sobre sangue, sobre tinta que ferve. escrevo sobre almas que não têm calma. escrevo sobre aquilo que pode virar uma palma. escrevo sobre o silêncio. escrevo meus argumentos. escrevo o

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que invento. escrevo o que é tenso (não o que é intenso). escrevo sobre o que existe quando penso. escrevo sobre o que está diante das minhas mãos e olhos (escrevo sobre o que eles me dizem sobre o que me dão de sentimento).

para quem você escreve? escrevo pra quem tem verve. escrevo pra quem tem no sangue tinta que ferve. escrevo pra quem tem alma (mesmo que eu não possa dar a ela a calma). escrevo pra quem pode bater palma. escrevo pra quem gosta de silêncio. escrevo pra quem precisa convencer-se de si mesmo. escrevo pra quem se inventa. escrevo pra quem é tenso (não pra quem é intenso). escrevo pra quem existe quando pensa. escrevo pra quem pensa com as mãos dos olhos (aqueles que querem o sentimento de gestos e formas em movimento).

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Imagine que você é capaz de criar um mundo inteiramente
I imagine que você é capaz de criar um mundo inteiramente (um mundo inteiro de repente aparecendo na medida do teu punho e da tua mão : tudo aquilo que em tese poderia ser dado à compreensão)

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II cada pedacinho apenas dependendo de tua vontade para existir mas existindo tão perfeitamente que nem precisas atentar para quase nada : quase tudo no teu mundo (como no nosso) não pode (édipo cosmo lógico) evitar aquilo que dele se possa esperar : deus ex machina natura que não pára de encontrar trans formação

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AISTHESIS
e nisso a vida vem vindo (perdurando o instantâneo tanto de existir) e nos trespassando : vamos sendo (ou deixando de ser) nós mesmos transformados em poesia (: é dessa forma que a vida deixa de ser oca – casca vazia apenas para virar substância – coisa a ser sentida)

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FRAGMENTO
e foi assim que a poesia fez de mim o que (ela? eu?) quis o sentimento de um triz

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Occidentia Segunda via – poemas de Orlando Lopes

http://occidentia.wordpress.com

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