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CAPITULO I O valor 1) UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO COM BASE NA UTILIDADE E NA RARIDADE Ëtienne de Condillac (1714-1780).

— O Comércio e o Governo Considerados relativamente Um ao Outro, Paris, 1776, obra transcrita em Excertos de Economia Política, Paris, Guillaumin, 1847. Excerto correspondente às págs. 248-255. Este texto representa uma das primeiras tentativas empreendidas para desenvolver sistematicamente uma explicação do valor dos objetos a partir da sua utilidade e da sua raridade. Tomámos a iniciativa de numerar os diversos parágrafos para facilitar o breve comentário que fazemos a seguir. Texto n.° 1 Fundamento do valor das coisas Como se ajuíza da abundância, da superabundância e da penúria. Superabundante inútil e superabundante útil. Necessidades naturais e necessidades fictícias. O valor das coisas baseia-se na sua utilidade, na necessidade que delas temos ou no usa que delas podemos fazer. O maior ou menor valor das coisas depende principalmente do juízo que fazemos da sua raridade ou da sua abundância. Seja qual for a abundância de uma coisa, ela só tem valor se for útil. 1. Suponhamos uma pequena comunidade que acaba de se estabelecer e de realizar a sua primeira colheita e que, estando isolada, para subsistir só pode contar com o produto dos campos que cultiva. 2. Suponhamos, ainda, que, retirado o trigo necessário para semear a terra, lhe restam cem moios e que com esta quantidade pode esperar a segunda colheita sem receio de escassez. 3. Para que esta quantidade, de harmonia com a nossa suposição, faça desaparecer todo o receio de escassez é preciso que ela baste não só às suas necessidades, como também aos seus receios. Ora, isto só pode dar-se com uma certa abundância. De fato, quando se ajuíza das coisas tomado de receio, aquilo que basta à justa deixa de bastar e pensa-se que só se tem o suficiente quando abunda até um certo ponto. 4. A quantidade que resta à nossa comunidade, retiradas as sementes, constitui, portanto, para esse ano, o que se designa por abundância. Por conseguinte, se dispuser ainda de mais alguns moios, encontra-se em situação de superabundância e estará em penúria se tiver alguns moios a menos. 5. Se um povo pudesse ajuizar com precisão da relação entre a quantidade de trigo de que dispõe e a quantidade de que necessita para consuma, esta relação conhecida permitir-lhe-ia conhecer sempre com a mesma precisão se se encontrava em situação de abundância, de superabundância ou de penúria.

não ficarem para seu consumo mais de sessenta ou oitenta moios. disporá de cem moios que lhe são inúteis para o consumo entre uma e outra colheita. não precisaria conservar o trigo em celeiros. 9. suprirão o que lhe faltar nos vários anos em que. Umas derivam da nossa conformação: somos conformados no sentido de termos necessidade de alimentação. porque a nossa conformação não faz dela uma necessidade. As outras são uma consequência dos nossos hábitos. na opinião que temos das quantidades. ficar com duzentos. embora só residam na opinião porque se encontram implícitas nas quantidades. 15. Se a nossa comunidade estivesse rodeada de outras agrícolas como ela. 13. retiradas as sementes. e o que restar de nada servirá nos anos seguintes. mas soube conservar. . 7. de haver propriamente trigo superabundante quando se souber conservá-lo. por outras palavras. pois não tem nenhum meio para avaliar exatamente nem a quantidade de trigo de que dispõe. a nossa comunidade. de se deteriorar. e. só o poderá fazer aproximadamente e baseado numa experiência de vários anos. e às vezes tão necessária como se fôssemos conformados para ter necessidade dela. e a quantidade precisa dessa quebra é de tal natureza que não é possível prevê-la. que residem a abundância. podemos sempre dizer que ele se considera em abundância quando pensa dispor de uma quantidade de trigo suficiente para afastar todo o receio de escassez. o trigo inútil nos anos de superabundância tornar-se-á útil nos anos de penúria. cedendo qualquer outro gênero de que dispusesse em superabundância. E tanto menos pode ajuizá-la quanto não pode guardar o trigo sem o sujeitar a uma quebra. 8. poderia obter o trigo que fosse superabundante noutra comunidade. a superabundância ou a penúria. 11. não podemos viver sem alimentos. mais do que nas próprias quantidades. e chegaria um momento em que passaria a semear menos terras. Mas não pode ajuizar com precisão dessa relação. torna-se-nos necessária pelo uso. em vez de cem moios. uma vez encontrados. retiradas as sementes. e se não tomar precauções para conservar este trigo superabundante ele não deixará de apodrecer. Deixará. 14. portanto.6. que se considera em superabundância quando pensa que dispõe de uma quantidade mais do que suficiente em face de todos os seus receios. É. Mas supusemo-la completamente isolada. senão para a comunidade se ver a braços com uma superabundância inútil. A avaliá-la. Os cem moios que a comunidade não consumiu. 10. nem a quantidade que irá consumir. Procurará. No entanto. portanto. Vários anos consecutivos de grandes colheitas não serviriam. e que se considera em penúria quando pensa que dispõe de uma quantidade que não basta para os dissipar. Nós temos duas espécies de necessidades. Certa e determinada coisa que poderíamos dispensar. de qualquer modo que a ajuíze. pois. os meios de fazê-lo. então. pois. uma vez que aquele que se não consumir num ano poderá consumir-se noutro. 12. Mas as colheitas que não bastarem às necessidades da comunidade far-lhe-ão sentir a necessidade de conservar o trigo quando houver superabundância. Se.

Dizer que uma coisa vale é dizer que ela é. Dizemos que uma coisa é útil quando serve a alguma das nossas necessidades e que é inútil quando não serve a nenhuma. A nossa comunidade. O valor das coisas baseia-se. se o não são para o selvagem errante. e designarei por fictícias aquelas que não são essenciais à ordem social e sem as quais. Somos. Uma horda errante vive dos frutos que a terra produz naturalmente. portanto. mas também às que derivam da constituição das sociedades civis. mas facilmente se prevê que se formarão outras que delas se afastarão cada vez mais. porém. pois. ao qual são absolutamente necessárias. a certa altura dará valor a coisas dantes consideradas inúteis. Portanto. à força de se afastarem da Natureza. dos animais que mata na caça. na necessidade que dela temos. do peixe que pesca. 18. na necessidade que delas temos. devido à abundância que encontra nos campos que cultiva e aos frutos que retira do seu trabalho. o que vem a dar no mesmo. isto é. 23. não se contenta já com ir à caça dos animais que podem servir para a sua alimentação e seu vestuário. 22. e quando a região que percorre deixa de suprir à sua subsistência procura outros lugares. 25. 20. no uso que delas podemos fazer. As primeiras necessidades que a nossa comunidade cria são de ordem social. 24. a qual deixaria de existir se essas necessidades cessassem. À medida que a nossa comunidade for criando novas necessidades aprenderá a usar as coisas que anteriormente não aproveitava. cria-os e trata de os multiplicar por forma a bastarem ao seu consumo. este apreço é o que nós chamamos valor. nisso se tornam para o homem em sociedade. pois. 17. 21. por conseguinte. acabarão por modificá-la totalmente e por corrompê-la. isto é. Por isso.16. 19. necessidades que nascem do hábito que criámos de satisfazer as necessidades naturais por meios escolhidos. É o que acontecerá quando a nossa comunidade. ou. ou. as sociedades civis podem subsistir. Eu chamo naturais às necessidades que derivam da nossa conformação e fictícias às que devemos ao hábito contraído pelo uso das coisas. estimamo-la mais ou menos. não pode ser nómada: criou a necessidade de viver no local que escolheu. o que será ainda o mesmo. quiser satisfazer as suas necessidades naturais multiplicando e apurando os meios. Chegará mesmo uma altura em que as necessidades fictícias. na sua utilidade. Nota-se que estas primeiras necessidades fictícias se afastam o menos possível das naturais. julgamos que ela é mais ou menos própria aos usos que lhe queremos dar. Eis um gênero de vida em que existem necessidades fictícias. daqui em diante chamarei naturais não só às necessidades que derivam da nossa conformação. ou quando com ela nada podemos fazer. ou que nós a consideramos boa para determinado uso. tendo progredido nas artes. De harmonia com essa utilidade. A sua utilidade baseia-se. obrigados a tomá-las como naturais. portanto. . Neste género de vida vemos apenas necessidades naturais. Ora.

Tanto quanto se confia na abundância assim se teme a penúria. 29. terá um valor. principalmente na opinião. é natural que uma necessidade mais sentida imprima às coisas um valor maior e que uma menos sentida lhes imprima um menor. sendo a utilidade a mesma. 31. Supondo que falta um décimo do trigo necessário ao consumo da nossa comunidade os nove décimos restantes só teriam o valor dos dez se calculássemos bem a escassez e se víssemos com toda a certeza que ela. não terá nenhum valor quando não pudermos fazer nenhum uso dele. se o considerarmos em relação ao ano em que não faz parte da quantidade necessária ao consumo. então. e a falta de um décimo aterroriza como se de um terço ou de metade se tratasse. Esta faz sentir que a coisa é absolutamente necessária na ocasião e a outra leva apenas a pensar que a coisa poderá vir a sê-lo. Não é. ou. realmente. Perante este estado de coisas é evidente que o valor do trigo aumentará. . Pode mesmo. Se o valor das coisas se funda na sua utilidade. o que fazemos. será. Uma parte da população julgará mesmo que a escassez é completa. Um superabundante. e teríamos. na opinião que temos da sua raridade ou da sua abundância. na sua raridade ou na sua abundância. pois. Na abundância sente-se menos a necessidade porque não se receia a escassez. com a raridade e diminui com a abundância. 30. absolutamente inútil. 35. que dele temos que se funda o maior ou menor valor. mantendo-se a utilidade Ia mesma. conforme as julgamos mais ou menos úteis. é apena de um décimo. na abundância. sente-se mais na raridade e na penúria. Por uma razão contrária. Confiase que não venha a ser precisa e. 34. 27. Digo mantendo-se a utilidade a mesma porque logo se vê que. também se é levado a dar menor valor à coisa. Pensamos chegado o momento em que o trigo falta absolutamente. É o caso de um superabundante de trigo. 28. Em vez do décimo que falta julgamos que faltam dois. porém. melhor. O valor das coisas aumenta. portanto. Uma vez que o cálculo exagera essa falta. o seu maior ou menor valor funda-se. é natural que aqueles que dispõem de trigo pensem em conservá-lo para si próprios. na medida em que a opinião exagerar a penúria. por exemplo. como se é levado a não prever a necessidade. O maior ou menor valor. Mas esse grau não pode nunca ser conhecido. dado que o valor das coisas se funda na necessidade. não imprime à coisa o mesmo valor que uma necessidade presente. se o considerarmos em relação aos anos seguintes. nesta conjuntura. no receio de lhes vir a faltar põem de reserva mais do que necessitam. três ou mais. 37. julgamo-las de maior ou menor valor. fundar-se-ia unicamente no grau de raridade ou de abundância. diminuir ao ponto de se tornar nula. 36. então. o verdadeiro. em que a colheita pode não ser suficiente. supondo-as igualmente abundantes. Por isso. se esse grau pudesse ser sempre conhecido com precisão. 33. pois. pois julgamos que ele poderá fazer parte daquela quantidade de que necessitaremos então. Ora. valor de cada coisa. É. 32. Essa necessidade é remota. ou quase.26. Mas.

é apenas um valor que resulta das despesas de transporte. não saberíamos dizer quando havia começado. Tentemos precisar as nossas ideias. mas o menor possível. é o caso das pessoas desocupadas que agem sem nada fazer. diz-se. Trabalhar é. Há coisas que são tão comuns que. É o caso da água. A água vale. Mas. cada uma destas ações é um trabalho. 39. Digo. Embora não se dê nenhum dinheiro para obter uma coisa. por conseguinte. portanto. Sou eu que lhe dou esse valor. porque aí ela abunda em relação às nossas necessidades. contudo. embora muito necessárias. 43. concordo. e estimamo-lo em razão da distância e da dificuldade de obtê-la. a água tem um grande valor. Ora. para transformá-lo. Porque o valor reside menos na coisa que na estima em que a temos. por isso. Um jornaleiro que ocupe no meu jardim age para ganhar o salário que lhe prometi. Uma coisa não tem um valor porque custa. e. porque creio que ela vale essas despesas. se quiser raciocinar consequentemente. mas custa porque tem um valor. Em semelhante caso. encontra-se por toda a parte. como essa estima depende da nossa necessidade. um trabalho muito leve.38. se não considerássemos esse momento. De acordo com estas reflexões preliminares. julga-se que elas não custam nada quando não custam dinheiro nenhum. 46. a água custa-me a ação de me baixar para a beber. pelo contrário. um viajante sequioso daria cem luíses por um copo de água e esse copo de água valeria cem luises. aumenta ou diminui conforme aumenta ou diminui tal necessidade. que é trabalho? 45. a água tem. 47. 40. 41. 42. Ficarão admirados se disser que o ar tem um valor. Ora. Podese agir sem trabalhar. ação. agir para obter uma coisa de que se tem necessidade. o menor valor possível. 48. pois. e. o salário que eu pagar. ela custa se exigir trabalho. Mas que me custa o ar? Custa-me tudo o que faço para respirá-lo. que mesmo nas margens de um rio a água tem um valor. então. É uma ação ou uma sucessão de ações no intuito de obter uma vantagem. digo que. saio. Temos dificuldade em ver isto claramente. Abro uma janela. por isso que é executada para obter uma coisa de que tenho necessidade. na . parecem não ter nenhum valor. a água me custa a ação de a ir buscar. e o valor que ela pode ter em razão do transporte não é um valor próprio. o trabalho que tenho para obtê-la. quando me encontro longe do rio. que. ação que é um trabalho. Como se julga que as coisas não têm valor nenhum quando se supõe que elas não custam nada. e há que notar que o seu trabalha começa com a primeira enxadada porque. não custa nada obtê-la. devo dizê-lo. ele. pois. como muita gente supõe. 44. e. Seria bastante de admirar que se pagassem despesas de transporte para obter uma coisa que não valesse nada. as despesas de transporte são um valor próprio da água. Num sitio árido. ela vale. quando me encontro na margem do rio. Se não a vou buscar eu mesmo pago o trabalho daquele que me traz. para renová-lo. representa muito pouco trabalho: menos que a primeira enxadada. então.

esquecer que. para empregá-los em todos os nossos usos custam-nos um trabalho ou dinheiro. o seu valor reside principalmente no juízo que fazemos da sua utilidade. não tem valor nenhum e que. elas não teriam nenhum valor para nós se não julgássemos que elas têm. mais abundante ainda do que a água. sendo a utilidade a mesma. Não devemos. concebo que uma coisa da qual nada fazemos. de fato. se não tivesse um valor apenas devido à sua utilidade. uma coisa tem um valor quando tem uma utilidade. há dê ter um valor muito reduzido. independentemente dos juízos que formulamos. e da qual nada podemos fazer. pelo contrário. porque as julgamos mais raras ou mais abundantes.verdade. 51. essas qualidades. dos raios que o Sol espalha com tanta profusão à superfície da Terra: porque. Poderia dizer o mesmo da luz. não teria um valor maior na raridade e um menor na abundância. Assim. Se insisti tanto nesta noção é porque ela vai servir de base a toda esta obra. . Concebo que uma coisa é rara quando julgamos que não dispomos dela na medida em que é necessária para o nosso uso. Enfim. que é abundante quando julgamos que temos dela quanto precisamos e que é superabundante quando julgamos tê-la à disposição para além de quanto precisamos. Um certo grau de raridade! Aí está o que eu não entendo. e. pois. certamente. Aqueles a que me oponho consideram um grande erro fundar o valor na utilidade e dizem que uma coisa só vale na medida em que tem um certo grau de raridade. Mas é-se levado a considerar o valor como uma qualidade absoluta. e esta noção confusa é fonte de raciocínios enganosos. ou. embora as coisas só tenham valor porque têm qualidades que as tornam próprias aos nossos usos. 49. 50. e só têm mais ou menos valor porque as julgamos mais ou menos úteis. porque o ar. inerente às coisas.