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BRASIL, FINAL DE SÉCULO: A TRANSIÇÃO PARA UM NOVO PADRÃO MIGRATÓRIO?

FAUSTO BRITO1

Introdução2
O objetivo deste artigo é contribuir para esclarecer o conceito de padrão migratório, tendo como referência a experiência brasileira na segunda metade do século XX. A referência ao caso brasileiro tem o propósito de situar as sugestões analíticas dentro dos limites do processo histórico no qual têm ocorrido as migrações internas. Não há a pretensão de se construir uma teoria, apenas de sugerir algumas proposições, com o intuito de propiciar uma melhor compreensão das mudanças que têm sido observadas nas migrações internas no Brasil nestes últimos 50 anos. A literatura sobre as migrações internas, muitas vezes, não é suficientemente esclarecedora sobre as diferenças entre os tipos de fluxos migratórios e o padrão migratório e, em grande parte, se preocupa muito mais com os tipos do que com o padrão. Há uma razão para isto, o conceito de migração tem uma enorme latitude. As alternativas possíveis de fluxos migratórios são inúmeras ao se considerarem somente as dimensões do tempo de residência, do espaço onde ocorre o deslocamento populacional e as suas diferentes etapas. Nesse sentido, parece inevitável que se recorra à classificação dos diferentes tipos de fluxos, até mesmo para tornar mais preciso e operacional o conceito de migração, dentro da sua extensa latitude. Às vezes, a vontade dos autores de uma maior elaboração metodológica, leva à construção de tipologias combinando tipos de fluxos com os diferentes contextos históricos dentro dos quais eles são predominantes.

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Fausto Brito, professor e pesquisador do CEDEPLAR e do Departamento de Demografia da UFMG. Agradeço as sugestões do meu colega José Alberto Magno de Carvalho, além da sua paciente revisão. Entretanto, as idéias contidas neste artigo são da minha inteira responsabilidade.

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No clássico estudo preparado pela Organização Internacional do Trabalho, com o objetivo de orientar as pesquisas sobre migração nos países em desenvolvimento, há um artigo sobre o conceito de migração que parte justamente das suas dimensões de tempo, espaço e de etapas, mencionadas anteriormente, acrescentando a possibilidade dos movimentos pendulares, para se chegar à definição de tipos de fluxos ou categorias de migrantes: migrantes permanentes, longo prazo, temporários, pendulares; migrantes primários, secundários, terciários, segundo as diferentes etapas; migrantes de retorno e circulares; migrantes rurais para as cidades, das cidades para o campo, das cidades para as cidades. Depois, o autor ainda trata de algumas tipologias mais elaboradas, como a Matriz de Movimentos Humanos de Eichenbaum, que considera os graus de liberdade dos indivíduos na decisão de emigrar e na escolha do destino (BILSBORROW, R. E., et al., 1984). Classificações ou tipologias são fartamente encontradas na literatura sobre as migrações, não há, portanto, necessidade de citações exaustivas e, muito menos, necessidade de enfatizar a utilidade delas. Apenas, para o propósito deste artigo, seria importante lembrar que estes diferentes tipos, categorias ou modalidades de migrantes ou de fluxos migratórios existem e existiram dentro dos mais diferentes contextos históricos. A análise realizada por Braudel sobre a população mundial, no período entre o século XV e XVIII, revela com uma enorme riqueza de detalhes, não só as migrações internacionais, como as eurasianas, mas também os diferentes tipos de migrações internas, como as que ocorriam na França ou na China. Braudel chama a atenção para a variedade de tipos de deslocamentos populacionais que ocorriam em contextos sociais e culturais diferenciados (BRAUDEL, 1995). Livi Bacci, na sua História da População Européia, analisa a importância das migrações dentro dos sistemas demográficos, não só no período anterior à Revolução Industrial, mas também na sua fase posterior, entre 1800 e 1914, por ele denominada a Grande Transformação. O autor descreve, com riqueza de informações, as migrações européias, permanentes e temporárias, internas e internacionais, além da migração rural-urbana proveniente do aumento do excedente demográfico no campo,

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como conseqüência do crescimento da produtividade agrícola (BACCI, 1999). Hobsbawm, na Era do Capital, 1848-1875, faz uma das mais brilhantes análises sobre as migrações que se deram nesse período, tanto as internacionais, como as internas, discutindo o seu caráter permanente ou temporário, o retorno migratório e a importância das migrações na formação das cidades e de novas nações e sociedades que emergiam (HOBSBAWM,1977). Não poderia deixar de ser mencionado o clássico capítulo XXIV, do Livro I do Capital, onde Marx analisa, com absoluta acuidade, o que ele chama da préhistória do capitalismo, o período entre o século XV até o início do século XIX, quando se deu a expropriação dos camponeses ingleses e a sua migração para as cidades que se formavam em conjunto com a emergência da manufatura, num primeiro momento e, posteriormente, com a grande indústria (MARX,1973). Ravenstein, considerado o primeiro grande teórico das migrações na sociedade capitalista, utilizando os dados dos censos do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda), em 1871 e 1881, observa um conjunto de regularidades empíricas e explicita uma diversidade de tipos ou modalidades de fluxos migratórios, como por exemplo: curta e longa distância, rural-urbano, urbanourbano, corrente e contra-corrente, retorno, migrações seletivas e por etapas. Todas estas modalidades de deslocamento populacional foram associadas por ele ao desenvolvimento do capitalismo (RAVEINSTEIN, 1980). Esses exemplos da literatura têm o propósito de mostrar que os diferentes tipos ou modalidades de migrantes ou de fluxos migratórios podem ocorrer em contextos históricos os mais diversos e, portanto, por si só, não têm a possibilidade analítica de caracterizá-los, apesar de ser, algumas vezes, a intenção de alguns autores. Zelinsk, no seu modelo de transição da mobilidade, procura associar o que ele chama de padrão migratório com diferentes tipos de sociedade. A migração ruralrural seria predominante na sociedade pré-industrial; a rural-urbana, naquelas em processo de industrialização; a urbano-urbana, nas industriais maduras, e a migração da cidade aos subúrbios próximos ou pequenas cidades, na sociedade pós-industrial.

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Para ele, então, o padrão migratório é um tipo ou uma modalidade de fluxo migratório que aparece como predominante em determinadas circunstâncias históricas (ZELINSK, 1971). No Brasil recente, contrariando a tipologia de Zelinsk, encontra-se uma predominância da migração urbano-urbana, até porque não há mais estoque de população rural para repetir o volume de migrantes do período 1960/80, mas, dificilmente a sociedade brasileira poderia ser considerada uma economia industrial plenamente madura. Sabendo também que seriam encontrados no Brasil, hoje, todos os outros tipos fluxos mencionados por Zelinsk, o que acrescentaria, do ponto de vista da compreensão do fenômeno migratório, a predominância da migração urbanourbana? Certamente muito pouco, até mesmo porque no Brasil, com sua economia hegemonicamente capitalista, coexistem e se articulam todos os tipos de sociedade listados, formando uma síntese social e econômica que não se assemelha a nenhum dos tipos ideais a que se refere Zelinsk, com uma certa simplificação e viés evolucionista (PACHECO & PATARRA, 1997). Na complexa dinâmica da economia e da sociedade brasileiras, encontram-se os mais diferente tipos ou modalidades de fluxos migratórios e é justamente dentro dessa dinâmica que eles assumem um significado particular. Compreender essas particularidades, em todas as suas dimensões, é um grande desafio. O objetivo deste artigo é mais limitado, resume-se a desenvolver um conceito para padrão migratório, procurando diferenciá-lo de tipos ou modalidades de fluxos, mostrando a sua utilidade para a compreensão das mudanças recentes no comportamento das migrações internas no Brasil. Vale repetir que, para facilitar o desenvolvimento lógico do conceito de padrão migratório, ele será feito conjunto à análise das migrações internas nos últimos 50 anos, quando se deu o seu grande ciclo de expansão. Com esta intenção, antes de se iniciar a análise histórica das migrações, na sua primeira etapa entre 1940/1960, será introduzido o conceito de trajetórias migratórias.

em conseqüência dos grandes desequilíbrios regionais e sociais marcantes na economia e a sociedade brasileiras. nas suas diferentes modalidades. de um país para outro. Mas. unicamente. desde que essas necessidades se modifiquem. portanto. de uma cidade para outra. costurando o amplo espectro de sociedades e de culturas regionais em nação única. deve ser enfatizado que o espaço em que se organizam as trajetórias . elas não são um evento aleatório. elas têm regularidade empírica que pode ser observada sob a forma dos fluxos migratórios. ou mesmo. Eles se transformam em trajetórias migratórias que a sociedade. mas são milhões de pessoas. Esta transferência espacial de dezenas de milhões de pessoas tem sido parte intrínseca da dinâmica da economia e da sociedade brasileiras. podem ser redesenhadas. Como as migrações constituem processo social. onde mais se desenvolveu a economia urbano–industrial ou se expandiu a fronteira agrícola. Muitos destes fluxos migratórios. em mecanismo de redistribuição espacial da força de trabalho. as migrações constituem processo social. incapaz de absorvê-lo em sua economia e em sua sociedade. espacialmente. As grandes trajetórias não se constituem. de um estado para outro. servindo como poderoso mecanismo de transferência espacial do “excedente demográfico” de determinada região. em função das suas necessidades e. parte fundamental do processo de integração social e cultural do território. Estas trajetórias migratórias são alimentadas pelos fortes desequilíbrios regionais e sociais que têm caracterizado o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. assumem regularidade de ordem estrutural. de uma região para outra. Em perspectiva mais abrangente. também. a economia e o Estado desenham. Elas são.5 As migrações interestaduais entre 1940 e 1960 As migrações não são fenômeno estritamente demográfico. pela sua importância para a dinâmica espacial da economia e da sociedade. Não é um indivíduo isolado que migra. para outras. que se transferem do espaço rural para o urbano. Elas não são o mero resultado do somatório de decisões individuais. conjuntos sociais com seus valores e normas.

mas este não é o objetivo deste artigo e. antes de continuar a discussão do conceito de trajetórias migratórias. no período. 1950 e 1960 sobre as migrações internas é o lugar de nascimento. isto é. já foi feito anteriormente (GRAHAM. sobreviventes ou que não reemigraram. à época do censo. a variação dos estoques de migrantes. entre dois períodos censitários. pode ser uma razoável aproximação dos movimentos ou dos fluxos migratórios interestaduais na década. quem são os naturais do estado ou região e os que não são. nem socialmente. Nesta perspectiva. Como foi proposto. Esta informação é imprecisa para se estimar o volume da migração. é a chamada migração acumulada. A única informação que existe nos censos de 1940. o mercado de trabalho nacional que se constitui. O dado disponível é do estoque de migrantes. homogêneo. com as respectivas unidades da federação de nascimento. As limitações destes dados são evidentes: não se sabe o ano de chegada do imigrante e nem se ele cumpriu mais de uma etapa migratória. as migrações podem contribuir para a reprodução dos desequilíbrios regionais e das desigualdades sociais. serão analisadas as migrações interestaduais entre 1940 e 1960. através de técnicas indiretas de mensuração. o espaço territorial que se integra e a nação que se constrói trazem as marcas da diversidade e da desigualdade. . Entretanto. Portanto. ou da migração acumulada. O indicador. que será utilizado é a contribuição relativa de cada estado ou região para o incremento absoluto do estoque de migrantes. então.6 migratórias não é economicamente. 1984).

0% da variação total da imigração acumulada se deu.50 1.10 0.63 1.30 100. Paraná e na região Centro-Oeste.55 -0.68 2. principalmente o Paraná.34 16.21 5.59 2.23 0.362.93 22. Paraíba.33 30. Eles eram.57 0.22 8. Pernambuco. Quando se . justamente. Na década de 50.00 1.373.36 5.49 100. exclusivamente.23 7.57 9. da variação do total da imigração acumulada na década.29 2. nos estados de São Paulo.79 24. respectivamente. Nordeste Meridional: Sergipe e Bahia.14 1.373.81 15. juntos.362. Censos Demográficos de 1950 e 1960.44 22.6 1.MERIDIONAL MINAS GERAIS ESPIRITO SANTO RIO DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ CENTRO-OESTE EXTREMO SUL BRASIL (TOTAL) TOTAL ABSOLUTO IMIGRAÇÃO 1940/50 1950/60 0. os estados com o maior desenvolvimento urbano-industrial do país.81 30. Rio de Janeiro: atual estado do Rio de Janeiro. Nordeste Central: Ceará.03 3.60 32.96 100 3. nos anos 50.52 4.198 0.52 13. Para se confirmar o grau de concentração do destino dos emigrantes.00 1. CENTRAL NE.198 1.83 13.00 3.93 3. a fronteira agrícola. 83.65 2.38 0.0 e 38.38 24.0%.7 TABELA No 1 BRASIL CONTRIBUIÇÃO RELATIVA PARA O CRESCIMENTO DA IMIGRAÇÃO E DA EMIGRAÇÃO ACUMULADAS 1940/60 ESTADOS OU REGIÕES* NORTE NE. Rio Grande do Norte.861 EMIGRAÇÃO 1940/50 1950/60 0. o Paraná e a região Centro-Oeste. Rio de Janeiro. Alagoas. certamente recebeu mais imigrantes do que os dois estados de maior crescimento urbano-industrial (Tabela no 1). Somente os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Extremo Sul: Santa Catarina e Rio Grande do Sul. As regiões de expansão da fronteira agrícola.81 2. foram responsáveis por 49.52 20. Os dados sugerem grande concentração no destino dos emigrantes.99 2. *Nordeste Setentrional: Maranhão e Piauí. nas décadas de 40 e 50. também mostraram uma grande capacidade de absorção dos imigrantes.09 0.86 6.07 0.19 14.50 100.861 Fontes: FIBGE.44 37. SETENTRIONAL NE.

0%. chamadas dominantes. desde o século XIX. ou seja.0% deles eram provenientes do Nordeste ou de Minas Gerais. o desenvolvimento espacial da economia brasileira. onde era gerada a grande maioria do emprego no Brasil. 1999). verifica-se que aproximadamente 90. o núcleo mais dinâmico da economia brasileira na época (BRITO. Os dados sobre os fluxos migratórios. O Nordeste e Minas Gerais. Os emigrantes nordestinos se tornaram majoritários nos anos 50. estes últimos mais nos anos 50. Os nascidos nos estados do Extremo Sul tiveram também uma participação significativa na década de 50. começava a ser absorvido pelo “complexo cafeeiro”. o Nordeste e Minas Gerais. Em 1949. São Paulo gerava 36. como os dois grandes reservatórios de força de trabalho. os paulistas eram em número muito maior. por 70. 1997). por 65. Analisando a origem dos imigrantes que chegaram a São Paulo.0% do PIB do Brasil e o Rio de Janeiro 20. com a inauguração da rodovia Rio-Bahia. somente. principalmente depois de 1930. Minas e o Nordeste se formaram. foi altamente concentrado no século XX.0%. apesar de ter havido uma expressiva presença de mineiros e nordestinos. a concentração era ainda maior. desde a segunda metade do século passado. No Paraná. aumento devido ao grande crescimento da emigração nordestina. foram responsáveis. Se for considerada unicamente a produção .0%. confirmam a existência das trajetórias migratórias mais importantes. num total de 56. comandado pelo setor industrial. que tinham como origem os dois grandes reservatórios de força de trabalho. em função da grande seca que ocorreu na segunda metade dessa década e pela melhoria no sistema de transporte.0% da variação da emigração acumulada e. no período entre 1940 e 1960. tinham um grande excedente populacional não absorvido pela suas economias e sociedades que. menor do que a dos paulistas. Os nordestinos e mineiros eram a grande maioria dos imigrantes também no Rio de Janeiro e na região Centro-Oeste. mas semelhante à dos nordestinos (BRITO. e como destino os estados com maior crescimento urbano-industrial e as regiões de expansão da fronteira agrícola.8 observa a origem dos emigrantes. na década de 40. no período 1940/60. mais da metade do PIB era produzido somente nestes dois estados. Por outro lado. na década de 50.

assumiu com grande autoritarismo a gestão da economia e da sociedade civil.0% em 1959 (CANO. a) O Estado. principalmente depois de 1964. Serão levantadas apenas. Não é o objetivo deste artigo. São Paulo dava conta sozinho de 48. mas.4%. os dois eram responsáveis por 68. 1998). A dinâmica da economia e da sociedade entre 1960 e 1980 Antes de desenvolver melhor o conceito de padrão migratório. que se organizavam geralmente entre estados vizinhos e se constituíam muitas vezes em uma etapa das trajetórias dominantes. Poderiam ser chamadas também de “circuitos migratórios regionais”. que não obedeciam aos limites políticos impostos aos estados. ou os circuitos migratórios regionais. e por 72. tiveram . em grande parte. fazer uma análise exaustiva destes 40 anos. em 1949 e de 54. com a intenção explícita ou não. da economia e da política neste período. algumas características essenciais da dinâmica da sociedade. correspondiam não só à proximidade geográfica destes estados fronteiriços. As trajetórias secundárias.0% dela.9 industrial. modernizando-se do ponto de vista financeiro e fiscal e ampliando a sua capacidade de implementação de políticas que. de forma sistemática. para cumprir as suas funções fundamentais na dinâmica da economia e da sociedade. um padrão migratório seria o modo como se dá a articulação entre as trajetórias migratórias e a dinâmica social e econômica.0% da produção industrial. São bons exemplos: os fluxos do Espírito Santo para o Rio de Janeiro. de São Paulo e do Extremo Sul para o Paraná. existiam outras chamadas de secundárias. às articulações econômicas regionais. e nem é plausível nos seus limites. em 1949. Além das trajetórias dominantes. Junto do Rio de Janeiro. é importante que se chame a atenção para as características do contexto histórico no qual se estruturavam as trajetórias migratórias. Nestes termos. É fundamental que se especifique o contexto histórico no qual as trajetórias se inserem e são por ele estruturadas. em 1959. também. A existência somente de trajetórias migratórias dominantes e secundárias não define um padrão migratório. de São Paulo para a região Centro-Oeste e do Nordeste Meridional para Minas.

7 e 7. Em segundo.6% e a construção civil a 10. Em outras. Em 1960 e 1970.3% e. inclusive no setor industrial.10 fortes repercussões sobre as migrações internas. somente em São Paulo. Se acrescentarmos os empregos na construção civil. Conseqüentemente. os investimentos públicos e a política econômica.0% dos empregos gerados entre 1960/70 e por 25. a geração do emprego industrial também estava fortemente concentrada em . em terceiro. foi responsável por 53.4% do PIB industrial brasileiro. b) A economia brasileira teve uma notável expansão após a crise da primeira metade dos anos 60.0%.7% no segundo.4 e 56. nos dois estados eram gerados 60. A dinâmica espacial da economia acentuou os desequilíbrios regionais. 1984). E. que foi responsável por 19. reforçando estruturalmente algumas das trajetórias migratórias que já ocorriam antes de 1960. de uma maneira geral. a 7.0 % da geração do emprego no primeiro período e 37. Houve inusitada capacidade de geração de emprego. 1998). c) A agricultura não teve a mesma performance em algumas regiões. esta proporção alcançaria 35.1%. entre 1973/80. dada a modernização da economia. Entre 1967/73. Em primeiro lugar. aumentou substancialmente a produtividade agrícola.0% nos anos 70 (FARIA. confirmavam o padrão espacial concentrador do desenvolvimento do capitalismo no Brasil.0% dos empregos gerados nos anos 60 e por 62.2% do PIB do Comércio e dos Serviços. se concentravam 54. a política combinada de modernização agrícola e de manutenção da estrutura fundiária colaborava de forma decisiva para o êxodo rural. Acrescentando o Rio de Janeiro. no segundo (CANO. O setor industrial cresceu nos mesmos períodos a 12. como o Nordeste e boa parte de Minas. O setor terciário não ficou atrás. no primeiro período considerado. a profunda modernização tecnológica comandada pela política agrícola do governo federal. o PIB cresceu a uma taxa média anual de 11.7% A economia urbana industrial se modernizou com uma expansão excepcional da indústria de bens duráveis e de bens de capital. o que foi também determinante para as migrações internas. 1987). e 56.4% entre 1970 e 1980. devido à estagnação.9 e 8. as políticas de desenvolvimento regional e de expansão da fronteira agrícola criavam novas alternativas de emprego e acesso à terra. mas reduziu muito o emprego permanente e aumentou o temporário (MARTINE & GARCIA. a chamada “revolução verde”.

502. alimentado pela emigração rural-urbana estimada em cerca de 30 milhões de pessoas entre 1960/80 (BRITO. Em 1970. quase 40. somente a região metropolitana de São Paulo. alcançava 44. com fortes repercussões sobre as migrações internas. crescendo a uma taxa média anual de 2. também junto ao Rio de Janeiro. essas regiões contribuíram com 41. isso será visto mais à frente. 29. sobre a residência anterior.0% da população total do Brasil morava nas Regiões Metropolitanas e em 1980. entre 1960 e 1980. 5 anos antes da data do Censo.0% entre 1960/70 e 37.0 e 38. com 17. quando da análise da cultura migratória. isto é. em relação ao total brasileiro.7%. d) A população brasileira passou de 41.0%. da economia e da política. a proporção do emprego gerada nesses estados.0%.415 em 1940 para 119. a informação de data fixa.0% entre 1970/80 do total gerado no Brasil. Esse processo de urbanização foi extremamente acelerado. respectivamente (BRITO. também.11 São Paulo. bem como na articulação social e cultural das diferentes regiões. estão disponíveis informações suficientes para a análise da migração de última etapa. CARVALHO & FERNANDES. A sociedade se urbanizou e desde 1970 a população residente em áreas urbanas ultrapassava a rural. 1994) Além de acelerada.26% do incremento total da população brasileira entre 1970/80 e. sendo que no de 1991 e na Contagem da População de 1996 se encontra. a urbanização foi extremamente concentradora. A partir do Censo de 1970. Crescendo a 3. No setor terciário. será retomada a análise dos dados censitários sobre os fluxos migratórios interestaduais nos períodos 1960/1980.79% ao ano. 26.20% (BRITO. 1997).326. quase triplicando nesse período. 1997). As migrações interestaduais entre 1960 e 1980 Após esta breve e sistemática descrição das características essenciais da dinâmica da sociedade.716 em 1980. e) As políticas públicas de transporte e telecomunicações provocaram um enorme progresso na integração produtiva. as mais altas de sua história. 1977. . na década de 60 e de 70.

São Paulo e os estados do Extremo Sul também tiveram uma quantidade expressiva de emigrantes.64 612. MERIDIONAL MINAS GERAIS ESP. persistia o que tinha sido observado nas duas décadas anteriores. Rio de Janeiro e Paraná e a região Centro-Oeste foram o destino de 71.40 9.982.71 6.86 4.092.SANTO R.786 4.53 17.03 10.339. Quanto aos emigrantes. São Paulo.185 1.42 8.776 581.07 5.56 100.21 15.41 275.03 850.45 2.250 318.403.63 2.585 1.0% para o Rio de Janeiro.327 527.167 1. 56.859 188. As duas grandes regiões de expansão da fronteira agrícola.244.515 100. os estados com as maiores parcelas do PIB industrial e do PIB do setor terciário.12 TABELA No 2 BRASIL MIGRANTES INTERESTADUAIS 1960/1980 ESTADOS E REGIÕES NORTE NE.0 246.0% dos emigrantes para São Paulo e 70.03 7.0% dos imigrantes.775.309 9.857.74 1. 73. Na década de 60.750 456.0% do total dos emigrantes interestaduais (Tabela no 2). Se forem consideradas as origem dos fluxos migratórios.470 16.283.771 392.71 4.63 751.476.000 161. Na região Centro-Oeste. praticamente um quarto deles se dirigia para São Paulo e 15.273 1.515 2.92 3.840 342.737 2.72 6.0% deles e a região Centro-Oeste 13.77 518.895 2.902 9. Os dois grandes reservatórios de força de trabalho.24 100.34 11.238.183 428.002 4.455 8.838 1.338.838 2.494 2.22 9.65 5.0 9. SUL CENTRO-OESTE TOTAL IMIGRANTES 1960/70 1970/80 absoluto % absoluto % 229.041.20 100.339.145 9.76 13.748 374622 373.111 1.060.342 915.597 6. o destino dos emigrantes se mantinha bastante concentrado.986 5.659.82 4. também. O Paraná recebeu 18.45 811.47 14.23 20.086 796. foram os que mais transferiram população para outros estados.954 8.746 868.332 712.295 3. Os três estados.36 5.0 EMIGRANTES 1960/70 1970/80 absoluto % absoluto % 169.673 498.36 13.80 21.695 952.58 21.402 1.936 9.092.0% para o Rio de Janeiro vieram de Minas e do Nordeste .35 24.0 Fonte: FIBGE.33 1.199 566.3%. Censos Demográficos de 1970 e 1980.103.DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ EXTRE. receberam quase 40.73 200.914 1. Os dois juntos.89 396.0% dos seus imigrantes saíram .243 1.379 1. SETENTRIONAL NE. principalmente para o Paraná.27 3.520 457.00 11.01 4.767 30. foram preferidas pelos emigrantes. na década de 60. o Nordeste e Minas Gerais.CENTRAL NE.81 4.67 422.

A oferta de emprego industrial. foi equivalente a um quarto da paulista. e por 38. nessa década. articulando os dois grandes reservatórios de força de trabalho e os estados de maior crescimento urbanoindustrial e as regiões de expansão da fronteira agrícola. perdendo cerca de 11. que na década anterior tinha atraído mais imigrantes do que ele.0 para 14.0% do PIB industrial ainda fossem gerados em São Paulo.13 dos dois maiores reservatórios de força de trabalho. 1997). No Paraná. Como decorrência. 28. a indústria paulista foi responsável por 37. o primeiro passou de 16.5% e de São Paulo. mas as origens majoritárias eram os estados do Extremo Sul.5% (Tabelas nos 3 e 4 ).0% e o segundo. e em parte. Ele tinha perdido a concorrência do Paraná. com a substituição do café e do algodão pela soja e pela pecuária. os grandes investimentos nos setores mais modernos da economia contribuíram para que 47. Entre as regiões de expansão da fronteira agrícola.0% do emprego gerado no terciário. aumentou o número de emigrantes para o Centro-Oeste e para a região Norte. mostra que estavam plenamente estruturadas as grandes trajetórias migratórias dominantes.0% do total do emprego industrial gerado no Brasil. principalmente a CentroOeste. se estruturavam trajetórias. No caso do Paraná.0% do PIB do setor terciário (CANO. na década.0%. A análise dos fluxos. São Paulo recebeu sozinho 31. pelas quais passaram maciços fluxos emigratórios do Extremo sul e de São Paulo.0% dos seus imigrantes também vinham de Minas. Porém. estimulada pelas políticas de ocupação e colonização do . que teve o impacto da mudança da capital para Brasília e do maior crescimento da economia urbano-indutrial paulista (Tabela no 2) O Rio e São Paulo diminuíram as suas participações relativas no PIB brasileiro em 1980. assim como 35. e a oferta do setor terciário não chegou à metade da paulista (BRITO. Na década de 70.0% do total de emigrantes interestaduais na década de 70. 1998). 40. o que lhe valeu um grande êxodo migratório. 17.0% de sua população em entre 1970 e 1980.0 para 38. A expansão demográfica da fronteira agrícola paranaense tinha passado. que emergia com uma nova área de expansão. houve um aumento expressivo dos emigrantes para São Paulo e um decréscimo para o Rio de Janeiro. do Centro-Oeste. no Rio. de 40. nos anos 60. por uma forte mudança na sua agricultura.

já que a maioria deles ficou dentro das suas fronteiras ou foram para a região Norte (Tabelas nos 3 e 4). ainda que esses fossem equivalentes à apenas um terço dos seus imigrantes.0% nos seus imigrantes. tanto em termos absolutos. chamando a atenção para a grande circulação migratória dentro das regiões de fronteira.0% em seus emigrantes e aumento de 16. Para o conjunto da fronteira agrícola.14 Governo Federal. quanto relativos. A região Centro-Oeste dobrou o número de emigrantes interestaduais. Notável foi a mudança ocorrida em Minas. que tinha esgotado o seu ciclo de expansão demográfico. 14. O Paraná. sendo responsável por mais de um terço do total de emigrantes.7% do total de emigrantes interestaduais. à região Centro-Oeste e ao Paraná. se destinou um quarto do total dos emigrantes interestaduais (Tabela no 2). São Paulo manteve o seu número alto de emigrantes. devido à forte política de industrialização e de modernização agrícola. a emigração paulista se destinava a Minas. O Nordeste reduziu muito pouco sua emigração nos anos 70. . foi o estado que mais perdeu população em função das mudanças na sua agricultura. sem considerar o Paraná. ampliando a sua capacidade de retenção e atração migratória. que teve queda de quase 40. Na sua maioria. como foi dito.

00 8.56 29.54 6.11 100.35 38.50 5.81 39.15 19.53 1.767 1970/80 3.92 100.01 13. nota-se que.89 3.283.00 850.585 RIO DE JANEIRO 1960/70 2.59 6.45 40.48 24.15 TABELA N.81 15. MERIDIONAL NORDESTE MINAS GERAIS ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ EXTREMO SUL CENTRO OESTE TOTAL TOTAL (ABSOLUTO) SÃO PAULO 1960/70 0.CENTRAL NE.71 2.48 4.42 21.67 13.CENTRAL NE.23 2.58 2.18 36.14 4.55 40.99 5.49 40.41 2.13 19.19 29. TABELA N.55 4.403.986 1970/80 2.94 1.63 3.00 518. Censos Demográficos de 1970 e 1980.02 5.309 Fontes: FIBGE.05 48.11 5.72 15.39 3.92 4.470 1970/80 13.23 21.39 26.72 100.65 1.º 3 SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO ORIGEM DOS IMIGRANTES INTERESTADUAIS 1960/1980 ESTADOS E REGIÕES NORTE NE.07 0.88 0.97 0.68 10. CENTRO-OESTE E NORTE ORIGEM DOS IMIGRANTES INTERESTADUAIS 1960/1980 ESTADOS E REGIÕES NORTE NE.99 9.35 5.750 CENTRO-OESTE 1960/70 0.72 32.77 19.16 8. mesmo .21 3.12 5.50 100.244.83 0.936 NORTE 1960/70 35.14 29.00 811.85 11.05 11.30 3.79 2.23 3.775.35 100. Censos Demográficos de 1970 e 1980.07 0.18 28.93 100.56 1.27 16.00 1.22 1.22 2.250 1970/80 0.94 0.92 17.50 8.º 4 PARANÁ.45 1.22 0.02 2.74 1.455 Fontes: FIBGE.81 6.18 14.51 2.00 229.659.95 2.00 2.77 34.61 1.24 1.52 1.88 100.22 0.26 6.49 4.76 19.33 3.22 5.71 1.60 26.58 100.52 1.98 17.28 18.18 100.15 2.58 20.00 2.50 23.08 19.61 47.60 13.737 1970/80 0. SETENTRIONAL NE.476. SETENTRIONAL NE.41 7.00 1.07 3.92 28.11 100.00 1.51 4.47 14. MERIDIONAL NORDESTE MINAS GERAIS ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ EXTREMO SUL CENTRO OESTE TOTAL TOTAL(ABSOLUTO) PARANÁ 1960/70 0.57 8. Refletindo sobre a origem dos imigrantes de São Paulo.01 9.00 1.94 10.

2 para 21. entre as duas décadas. mas houve uma queda pequena dos originários do Nordeste. De fato. nutriram a população de São Paulo com quase 60. de 34. como foi dito.0%.5%. que se articulava à expansão da fronteira Norte. mas inferior à da década anterior. provavelmente. 21. A região Centro-Oeste aumentou os seus imigrantes. O Nordeste aumentou em termos absolutos o número dos seus emigrantes. uma altíssima proporção. . No caso. O restante veio do Paraná. teve como origem o Nordeste.0%. e da região Centro-Oeste. como foi observado. O Paraná. A migração dentro da própria região Norte contribuiu com 14. Os emigrantes para o Rio de Janeiro diminuíram muito. nos fluxos migratórios para a região de expansão da fronteira agrícola. que tinham sido atraídos pela grande expansão do emprego na década anterior. Um quarto dos imigrantes do Centro-Oeste teve origem dentro da própria região. Não deve ser omitido que o Paraná enviou para São Paulo muito mais emigrantes do que Minas. Estes últimos. O Nordeste e Minas. Aconteceram algumas mudanças interessantes.16 com a redução da proporção dos emigrantes de Minas. o que houve foi uma grande emigração do Mato Grosso do Sul para o Mato Grosso. na sua grande maioria para a o Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.0 para 39. mas praticamente manteve a sua participação relativa da década anterior. 38. principalmente o Maranhão.0% dos seus imigrantes. aproximadamente um terço. em boa parte. juntos. na sua grande maioria migrantes do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso para Rondônia e de Goiás para o Pará. 15.1% da década de 60 para a de 70.0%. de lá ainda saíam um quinto dos imigrantes de São Paulo. especialmente para Rondônia. Parte dos emigrantes do Paraná se dirigiu para a Centro-Oeste. e os de Minas se reduziram praticamente à metade. perdeu muito da sua capacidade de atração migratória e se transformou no estado com a maior evasão populacional.0%. migrantes de retorno. A maioria dos imigrantes da região Norte. A participação relativa de ambos caiu de 56. e entre eles manteve-se a predominância dos originários do Nordeste e de Minas (Tabela no 3). e uma grande troca migratória entre Goiás e o Distrito Federal (Tabela no 4). entre 1960 e 80. foram principalmente os fluxos migratórios do Acre e Amazonas para Rondônia e do Pará para o Amazonas e Amapá (Tabela no 4).

tinham começado a perder importância para a economia brasileira (BRITO. na década de 70. ou se inseriram no realinhamento das trajetórias dominantes. como no Norte. retornaram para São Paulo ou para o Extremo Sul. quando a economia agrícola se torna moderna e capitalista. manteve-se a hegemonia da trajetória para São Paulo. com grande capacidade de geração emprego. provocando grande excedente de mão de obra. é grande a atração de migrantes. como aumenta muito a evasão populacional (SAWYER. ou então. não só se reduz a atração migratória. as profundas mudanças na economia regional substituíram as culturas predominantes de café e algodão. ao emprego ou à atividade mineral são maiores. dentro do objetivo deste artigo. O Paraná é um bom exemplo. houve um período. Os imigrantes do Paraná. é observar o dinamismo do padrão migratório. quando as alternativas de acesso à terra. Posteriormente. dentro de trajetórias migratórias regionais.17 O mais importante. devido ao progresso técnico e às mudança na estrutura fundiária. Apesar das trajetórias migratórias contarem com estes “circuitos regionais . 1997). Porém. O dinamismo do padrão migratório ainda é mais interessante quando analisamos as trajetórias para as regiões de expansão da fronteira agrícola. 1984). desde 1960. entre 1940 e 1970. O desenvolvimento da sociedade e da economia. como foi o caso do Paraná e do Centro-Oeste. Na fase de retração. reforçava as trajetórias dominantes que articulavam os dois grandes reservatórios de força de trabalho e os estados de maior crescimento industrial. ou de força de trabalho. até 1980. No caso da expansão das fronteiras. as trajetórias migratórias foram se realinhando segundo as fases de expansão ou retração da capacidade de absorção populacional. pela soja e pela pecuária. imposto pelo deslocamento das novas frentes de expansão da fronteira em direção ao Centro-Oeste e ao Norte. Na fase de expansão. quando realmente a expansão da fronteira se traduzia em intensos fluxos migratórios. que recebeu o maior volume de imigrantes de sua história e se reduziram os fluxos que se movimentavam pela trajetória para o Rio de Janeiro que. que coexistiam com uma agricultura de pequena e média propriedade. preponderantemente especulativa ou voltada para a atividade mineral. dos anos 50 e 60.

Seletividade e cultura migratória Os dados censitários de 1970 revelavam que pelo menos 26. onde seriam plenamente absorvidos pela economia e sociedade. que se movimentavam entre as próprias regiões de expansão da fronteira. depois de um determinado tempo de residência. numa espécie de socialização progressiva. como o modo de articulação entre as trajetórias e a dinâmica da economia e da sociedade. 1980). muito especialmente. desde a construção de Goiânia. percorrendo as suas trajetórias. Poderia se pensar na hipótese de os migrantes. O padrão migratório. até chegar a um destino final.0%. esta percentagem chegava a 37. principalmente.0% dos imigrantes interestaduais passaram por mais de uma etapa. a sua renda (MARTINE. . principalmente para Goiás e o Distrito Federal. melhorando o seu nível de educação e ocupação e. uma certa inércia pode mantê-las. conseqüentemente. realinhando as suas trajetórias.18 migratórios”. portanto. e 49. no seu destino final. elas não prescindiram de se articular às grandes trajetórias dominantes. tem que ter flexibilidade para se adaptar às novas necessidades desta dinâmica. e a região Norte contava com os emigrantes nordestinos. no caso do Paraná. mesmo que as condições objetivas da economia já não precisem tanto da força de trabalho que transita por elas. na construção e consolidação do novo Distrito Federal. Ou então. a aumentar a sua capacidade de integração no lugar de destino. que foi inaugurada no início dos anos 40 e. Quando se tratava de regiões de expansão industrial ou da fronteira agrícola. no caso de São Paulo. uma dimensão social e cultural. como as trajetórias são caminhos estruturais e têm. com os do Maranhão. Mas.0%. Aqui vale a pena lembrar que a expansão do Centro-Oeste teve um grande fator de atração urbano. antes de chegar ao destino registrado no Censo. o emigrante tenderia. provenientes dos grandes reservatórios de força de trabalho. passarem por um conjunto de etapas. a partir de 1959. A região Centro-Oeste contava com um grande excedente populacional transferido do Nordeste e de Minas.

inclusive a longa distância. só era possível com a migração. 1984). Mas existe uma outra dimensão fundamental que ajudará a compreender melhor as trajetórias e a sua seletividade. ela é fundamental: as trajetórias só foram estruturadas e assumiram tamanha relevância dentro da dinâmica econômica e social porque existe uma forte cultura ou “tradição migratória”. apesar do grande poder de atração migratória de um determinado estado. Mesmo que o migrante saiba que a sua possibilidade de êxito seja pequena. aos mesmos crivos das desigualdades sociais. No caso do Brasil. Neste sentido. a motivação é forte. como caminhos estruturados socialmente. uma alternativa aberta pela sociedade e sujeita. que a migração seja um risco cujo cálculo tem uma grande margem de incerteza.19 Entretanto. em particular. sempre esteve associado à migração ou. sustentada na tradição e na cultura migratória. portanto. que era um dos destinos preferidos dos migrantes. 1999). uma trajetória migratória é mais que uma estrada para o migrante. não é só um problema de “excedente demográfico” disponível. refletem os inúmeros obstáculos impostos à mobilidade social ascendente pela dinâmica econômica e social no Brasil (SOUZA. A rigidez da estratificação social no Brasil é tão grande que “melhorar de vida” ou “ascender socialmente”. essas regiões de destino não retinham uma boa parte dos seus imigrantes. sujeita à mesma seletividade. provocando a sua reemigração. mas precisamente da capacidade de mobilizá-lo socialmente. para uma grande maioria da população. A articulação entre os reservatórios de força de trabalho e os estados ou regiões com maiores oportunidades econômicas. CARVALHO. Uma trajetória migratória se fundamenta nesta cultura (DURHAM. melhor ainda. faz parte da organização da sociedade a socialização para emigrar. Trata-se da cultura migratória. É um caminho social para o qual o migrante é mobilizado. . O brasileiro tem o hábito de emigrar. muitos foram os migrantes que chegaram a um destino. Ou seja. BRITO. mas nem todos foram capazes de superar a seletividade imposta pelos processos sociais e econômicos e foram empurrados em direção ao retorno ou a uma nova etapa migratória. A seletividade é um dos componentes intrínsecos das trajetórias migratórias que. município ou de uma área metropolitana.

através dos quais as informações e o “sistema de apoio inicial” no lugar de destino eram socializados entre os imigrantes (MASSEY. devido à seletividade. ou as “promessas” de acesso à propriedade da terra nas regiões de fronteira – para que os migrantes pudessem superestimar as suas probabilidades de êxito. em função do notável progresso nas telecomunicações. Não era só o peso dos fatores de expulsão nas regiões de origem. de fato. Como esta correspondência nem sempre era verdadeira. nessa fase de grande expansão das migrações: a) Que existisse um sistema de difusão de informações. E para isto foi necessário. pudesse ser a mínima e a migração fosse. muitas vezes. com suas aceleradas taxas de crescimento e altíssima capacidade de geração de emprego. assim como a sociedade se modernizando. como se dizia à época. tinha-se que criar uma “ilusão migratória” – as inúmeras possibilidades do “sul maravilha”. compulsória. reais e possibilitavam o êxito de alguns. precisam sempre reforçar o hábito e o costume da mobilidade espacial. praticamente. ainda que a margem de liberdade nessa decisão. 1988). eram. b) Esse sistema de informação foi um produto da ação dos meios de comunicação de massa. que tiveram uma difusão em todo o território nacional. muitos migrantes conseguiam. existiam as “redes de interação social”. c) A cultura migratória trazia embutida uma “ideologia da mobilidade social” que procurava criar uma correspondência entre a mobilidade espacial e a mobilidade social. se não eram plenamente acessíveis a todos os migrantes. para a sua dinâmica. que os indivíduos e grupos se movimentem pelo território. . criavam um amplo leque de oportunidades que. d) A ideologia da mobilidade social tinha uma correspondência real. mesmo quando já existe uma forte tradição migratória. de fato. ascender socialmente e só assim ela adquiria a força de uma ideologia motivadora e mobilizadora. como no Brasil. A economia. que possibilitasse ao indivíduo (ou grupo) se motivar e decidir emigrar.20 Uma sociedade e uma economia que necessitam. Combinadas aos meios de comunicação de massa.

deve ficar claro que as migrações não eram um processo exclusivamente determinado pelas necessidades estruturais da sociedade e da economia e pelas imposições políticas do Estado.01 . 1997. TABELA No 5 BRASIL MIGRANTES INTERESTADUAIS 1981/1991 ESTADOS E REGIÕES NORTE NE. encerra uma novidade interessante: a grande migração de retorno para os grandes reservatórios de força de trabalho. fazendo dele o estado com maior evasão populacional (Tabela no 5). marionetes nas mãos dos desígnios estruturais.170. dentro dos “circuitos migratórios regionais”. em função da ilusão migratória ou das enormes adversidades sociais no lugar de origem. 1998).916.166. trajetórias secundárias há muito estruturadas e que podiam significar uma etapa a mais dentro das trajetórias dominantes.15 7. Mesmo que no processo de decisão estivesse envolvida uma forma de alienação.0%. CARVALHO et al. mas não eram.0% a Minas.571 EMIGRANTES absoluto 654.. os emigrantes de São Paulo aumentaram quase 50. Estudos recentes mostram que cerca de 60.605 % 11. SETENTRIONAL NE. (RIBEIRO. de um certo modo. Os migrantes não passeavam “inconscientes” pelas trajetórias migratórias. entretanto.CENTRAL IMIGRANTES absoluto 1.75 10. O número de emigrantes para São Paulo reduziu muito pouco em relação à década de 70.539 787.0% se destinavam ao Nordeste e 20.40 18. eram retornados aos seus estados de origem.00 3. ser o estado que mais recebe população e o que mais expulsa. somente. em função da ilusão migratória.96 % 6.21 e) A cultura migratória fazia a intermediação entre a as trajetórias estruturadas socialmente e economicamente e o nível da decisão individual de migrar. Uma outra parte dos emigrantes de São Paulo foi para o Paraná e o Centro-Oeste. Esse paradoxo. As migrações interestaduais entre 1980 e 1991 No período 1981/91 ocorreram algumas mudanças importantes nas migrações interestaduais. Observando a emigração de São Paulo. podiam até fazê-lo.161 399. nota-se que 35.120 1.0% dos imigrantes do Nordeste e de Minas Gerais.270 1.

36 100.892 5. a metade dos imigrantes que chegou a São Paulo veio do Nordeste. assumiu uma grande importância.09 3.832 100.89 5. mais significativa.018.25 4.00 580.161 Fonte: FIBGE.821 6.692 580.53 197.382 2. Censo Demográfico de 1991.903 269.00 1.81 45.54 100.98 6.635 1. mencionados anteriormente (Tabela no 6).620 564. PARANÁ.18 5.94 7.15 17.51 1.69 4.686. também.24 0.170. a metade da sua contribuição nos anos 60.25 1.686.08 3.85 0.43 973. seus históricos fornecedores de população.58 4.98 100.832.39 2.54 4.921 2. teve uma emigração maior que a imigração. PARANÁ CE-OESTE 2.12 37.14 2.81 16. O retorno migratório. .00 18.54 23.18 28.94 0.27 27.35 4.55 12.45 10.04 4.22 1.223 799.593 10. Por outro lado.636 25. que recebeu apenas 5.09 13.0% da sua emigração foi para o Nordeste e Minas Gerais.81 27.26 100.854 5.34 2. MERIDIONAL NORDESTE MINAS GERAIS ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ EXTREMO SUL CENTRO OESTE TOTAL TOTAL(ABSOLUTO) ORIGEM DOS IMIGRANTES SÃO PAULO RIO DE JAN. RIO DE JANEIRO.821 5. A outra parcela.07 22.22 36.05 33.58 1. dentro do “circuitos migratórios regionais”.730 5.15 9.44 17.00 1.09 8.86 8.57 1.00 2.71 6. O Rio de Janeiro.981 592.639. Censo Demográfico de 1991.43 1.00 592.0 10.20 13. Minas Gerais contribuiu com 18.339 7.854 7. SETENTRIONAL NE.80 6.75 16.314.37 2.31 569.498.0%.832.639.60 1. perdendo população.35 12.832 9.09 10.74 0.86 5.20 1.27 5.32 9.083.5% do total de imigrantes.85 6.56 100.14 100.22 NE.176 NORTE 17.82 16. mais de 50.176 17.51 3. TABELA No 6 SÃO PAULO.53 50. MERIDIONAL MINAS GERAIS ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ EXTREMO SUL CENTRO OESTE TOTAL 577. Sendo que. veio do Paraná e da Região CentroOeste.46 624. CENTRO-OESTE E NORTE ORIGEM DOS IMIGRANTES (%) 1981/1991 ESTADOS E REGIÕES NORTE NE.0 Fonte: FIBGE.636 4.CENTRAL NE.87 14.39 4.14 7.

A origem dos imigrantes do Centro-Oeste permaneceu praticamente a mesma da década de 70. A emigração para as duas regiões de expansão da fronteira agrícola. considerando a migração interestadual dentro das suas fronteiras. tiveram uma proporção de imigrantes de 29.0%. que. Esta migração intra-regional era composta por uma razoável transferência de população do Mato Grosso do Sul para o Mato Grosso e uma enorme migração do Distrito Federal para Goiás. dos quais faziam parte o Paraná e São Paulo. entretanto. o saldo migratório do Rio passou a ser negativo (Tabela no 5 e BRITO. Juntas. certamente. 23. indicando a grande “circulação migratória” entre as áreas de expansão da fronteira agrícola. os imigrantes que vieram de Minas reduziram muito o seu número em relação às décadas anteriores. foram para o Paraná e São Paulo e para a região Norte (Tabela no 6). A migração intra-regional destacava importantes fluxos do Pará em direção ao Amazonas. regiões para onde se destinavam a grande maioria dos seus emigrantes. A emigração do Norte mantinha uma reciprocidade com o Nordeste com o CentroOeste. já dentro do limite de Goiás. ao Amapá e a Rondônia. com os quais a região mantinha uma troca permanente de população.0% deles. revelava um deslocamento populacional de Brasília para o seu entorno. maior do que a de São Paulo. Os emigrantes do Centro-Oeste para os outros estados se movimentavam dentro dos “circuitos regionais ”.9%. a origem dos imigrantes do Centro-Oeste. A maioria saiu do Nordeste. 37. sobretudo do Maranhão e o restante da movimentação migratória entre as regiões de expansão da fronteira. do Acre. Apenas. cresceu substancialmente no período 1981/91. ou era proveniente da própria migração intra-regional.23 com Minas. o CentroOeste e o Norte. ou seja. 1997). 1997). A origem dos imigrantes da região Norte também não se alterou significativamente. O Nordeste em conjunto se manteve como um grande fornecedor de emigrantes. Mais da metade deles circulou dentro das fronteiras de cada uma das regiões ou entre elas (Tabela no 5 e BRITO. situava-se dentro dos “circuitos migratórios regionais”. Na maior parte. Amazonas e Pará em direção à . O volume dos seus emigrantes também cresceu bastante.

O Nordeste. mas abordar. o que vinha ocorrendo desde a década de 70. desde os anos 70 e. reduziu a sua perda populacional. 1997.0%.0%. para –219. o seu padrão migratório. o saldo migratório positivo de Santa Catarina tem compensado o negativo do Rio Grande do Sul (Tabela no 5).0%. Mas. Antes de prosseguir na análise das mudanças no comportamento das migrações internas. a sua imigração cresceu muito. o propósito não é ser exaustivo. Este fenômeno continuou a acontecer entre 1981 e 1991. No caso.564 neste último período analisado. que a década de 80 já anunciava. cerca de 40. Minas Gerais mudou muito o seu comportamento migratório.. apesar da sua emigração ainda continuar crescendo. também. CARVALHO et al. Merece um destaque a região Extremo Sul. numa proporção bem menor. A sua emigração tem diminuído muito. A dinâmica da economia e da sociedade entre 1980 e 1998 Vale a pena chamar a atenção para a intenção deste artigo antes de proceder à análise das tendências recentes da economia e da sociedade brasileiras. o que provocou uma diminuição substancial no saldo negativo das trocas migratórias mineiras com outros estados. Entre os grandes reservatórios de força de trabalho. entre 1981 e 1991. cerca de 14. mas a imigração bastante alimentada pela migração de retorno cresceu muito. tornando o número dos seus emigrantes praticamente igual ao dos seus imigrantes. ainda que pouco.262. quando houve uma redução de 40. também fortemente alimentado pela migração de retorno de São Paulo e do Rio de Janeiro (Tabela no 5. que passou de –626. o Nordeste teve um aumento dos seus imigrantes ainda maior do que o de Minas. é importante esclarecer as transformações ocorridas na dinâmica da economia e da sociedade brasileiras que modificaram os fundamentos estruturais que modelavam as grandes trajetórias migratórias no Brasil. ou seja. 1998). quase 50. 1997).0% no número dos seus emigrantes. RIBEIRO. Como na análise do período 1960/80.24 Rondônia e do Amazonas em direção ao Pará (Tabela no 6 e BRITO. porém. na década de 70. de um .

O ligeiro processo de recuperação no final do final dos anos 80 foi logo interrompido por uma nova fase recessiva.5% (OLIVEIRA & GUIMARÃES NETO.1%.06%. iniciou-se uma relativa desconcentração espacial da atividade industrial.1 para 25. Na década de 80. São Paulo em 1980 gerava 54. taxa semelhante à de 1981 e a recessão da economia continuou até 1993.8%.7%. O PIB em 1990 decresceu 4. se reduziu em 9.4% do produto industrial brasileiro e em 1997. em toda a economia brasileira. logicamente. Entre 1990 e 1996 o emprego formal. em doses excessivas. e no conjunto das Regiões Metropolitanas foi de 10. enquanto a Região Metropolitana reduzia a sua porcentagem de 34. 1997). Outros estados . a perversidade social da crise tem combinado. aumentando muito a taxa de informalização. Na década de 90. que vinham desde a Segunda Guerra Mundial e que prevaleceram até o final dos anos 70. c) Após os anos 80. acompanhando a recessão da economia. um espasmo de crescimento entre 1984 e 1986 e a economia mergulhou novamente na recessão. Já o emprego no setor terciário. Na década de 80.4% ao ano e o agrícola 0. as características mais essenciais das mudanças que têm ocorrido recentemente no Brasil e que têm repercutido sobre as migrações interestaduais. teve um acréscimo médio anual de 4. quando se iniciou um novo espasmo de crescimento. o desemprego e a informalização (OLIVEIRA & GUIMARÃES NETO. que logo se desacelerou. 1997). Entre 1980 e 1995. as taxas de desemprego só foram altas no início da década. o maior reduto da informalização. somente em São Paulo. que aumentou a sua participação na produção industrial nacional de 20. Houve uma grande recessão entre 1980 e 1983.8%. Em 1996 a economia cresceu. b) A redução das atividades econômicas. o emprego industrial cresceu apenas 1.4%.0%.98%. a) A economia brasileira não tem conseguido manter as suas taxas históricas de crescimento. quando seu nível de atividade em 1988 decresceu 0. teve um forte impacto sobre a geração de emprego. 49. o comportamento econômico do país foi extremamente instável. entretanto a capacidade de geração do emprego formal foi extremamente baixa durante todo o período. apenas.8. A desconcentração pode ser observada em direção ao próprio interior paulista.53. este declínio foi de 12. 1.2 para 23.25 modo breve e sistemático.

7 para 9. seriam localizados apenas 14. o Paraná.0%.7%. uma etapa de intensa articulação internacional – ou de globalização. quanto na estrutura empresarial. 1999). em São Paulo. além das profundas mudanças organizacionais. 51. isto é. que passou de 7. nesta etapa da economia. O objetivo de geração de emprego.9% (PACHECO. de 3.9 para 4. por esta razão. Vale destacar: Minas Gerais. em 1997. ao contrário. o objetivo keynesiano do pleno emprego no pós-guerra. mas como uma “crise de transição”. O Rio e Janeiro. Aqueles ramos da economia com uma menor intensidade tecnológica e imunes à competição internacional têm ficado com a responsabilidade de . Este padrão para o qual a economia brasileira está transitando tem uma baixíssima capacidade de geração de emprego e. d) A desconcentração industrial não significa que os desequilíbrios regionais estejam desaparecendo. em 1980. como dizem alguns – e. em 1997.7 para 9. que era componente essencial da grande maioria das políticas econômicas dos países capitalistas. como foi mencionado para a década de 90. acabou-se a “fase do pleno emprego”.9%. está passando por um profundo processo de reestruturação produtiva. assim como nos padrões de relação entre o capital e o trabalho.2 pontos percentuais. na direção de uma maior flexibilização. cerca de 7. A economia está a caminho de uma nova etapa. tem uma importância secundária.2. Se forem considerados os novos investimentos industriais programados. Santa Catarina.6. Tudo isso com o objetivo de se ajustar ao rigor da forte competição internacional. e) Deve ser sublinhado que a situação atual da economia brasileira não se caracteriza como uma mera crise cíclica. No Nordeste. O conjunto dos estados do Nordeste manteve. de 3.2 e Bahia. para 7. e em Minas. tem sido arquivado com o argumento da prioridade de se ajustar as economias às necessidades impostas pela acirrada competição internacional.8%. mais ainda.6% deles seriam localizados no Sudeste.26 também ampliaram a sua participação relativa na produção industrial brasileira entre 1980 e 1997. de 7. diminuiu a sua participação relativa de 10.1 para 3.2.7 para 8. de 7. tanto tecnologicamente. sendo que 23. como ela já vivenciou em diversos momentos no pós-guerra. Ou seja. ela tem é “destruído” postos de trabalho em função de uma intensa informatização e robotização. Rio Grande do Sul.7. 10. praticamente a mesma participação relativa na produção industrial que tinha em 1980.

colaborando para a intensificação da segregação social e espacial da população mais pobre. A realidade no Brasil tem sido mais perversa. Entre 1991 e . pois grande parte da força de trabalho tem sido. A população urbana na década de 60 crescia a uma taxa média anual de 5. empurrada para os ramos informais da economia de baixíssima produtividade (IPEA. no final dos anos 90. tem enfrentado uma profunda crise fiscal que. sua histórica capacidade de contribuir decisivamente para a recuperação das crises grandes crises econômicas. h) A população brasileira no ano 2.3% ao ano. além de abrir novas oportunidades ocupacionais para os 1. fragmentando a cidade e tornando o espaço público um local de conflito. tanto em obras públicas como no setor produtivo estatal.000 jovens que todo ano ingressam no mercado de trabalho. sendo que 80. onde as dificuldades de emprego se aliam a insuficiência da infraestrutura e à ineficiência da oferta de alguns serviços sociais básicos. porém. onde a rigidez da estrutura fundiária tem levado a um persistente conflito pela posse da terra. muito menos acelerado. O processo de urbanização da sociedade brasileira continua. como a saúde.1. O mercado imobiliário tem reforçado os mecanismos de exclusão social. reduziu drasticamente a sua capacidade de investimentos e. para 2. f) O Estado brasileiro. tinham um grande efeito de “multiplicador de empregos” no próprio Estado e no setor privado.1. As fronteiras entre os diferentes grupos sociais se refletem no espaço urbano. conseqüentemente. O declínio acentuado da taxa de fecundidade total – número médio de filhos tidos por mulher ao final de seu período reprodutivo – de 6. ao contrário do período anterior a 1980. tem levado a uma desaceleração generalizada das taxas de crescimento populacional.000 está estimada em 167 milhões de habitantes. saneamento e a moradia. hoje extremamente reduzido em função das privatizações.300.27 reincorporar a mão de obra “destituída de suas ocupações” e desempregada. aliada aos objetivos da política de estabilização. mesmo.000 a 1. g) A crise brasileira tem uma dimensão social profunda que se reflete no campo. Os seus investimentos.0% residindo em áreas urbanas. Mas a dimensão social da crise tem sido mais aguda nos grandes centros urbanos. 1997). em 1940.500.

a utilização dos dados de migração de data fixa. E. para o cálculo direto do saldo migratório. unicamente com o propósito de tornar o texto mais ágil.36.1%. mas unicamente sugerir algumas tendências. como é o caso da PNAD. Como este artigo. O receio de uma ampliação da concentração populacional nas grandes regiões metropolitanas tem sido desmentido pela sua própria taxa de crescimento. qual era a unidade da federação de residência em Setembro de 1986. todas as trocas líquidas entre imigrantes e emigrantes serão denominadas saldo migratório. e. é. pois se sabe bem que o rigor metodológico indica. Para comparar o número de migrantes nos decênios e nos qüinqüênios. além dos dados já analisados. entre 1991 e 1996. não tem a pretensão de fazer estimativas definitivas sobre o tamanho dos fluxos de migrantes.28 1996 a sua taxa crescimento caiu para apenas 2. foi somente de 1. sem dúvida. em setembro de 1993. na Contagem. serão de grande utilidade. tanto na academia. em agosto de 1991. quanto nas instituições públicas de pesquisa. As tendências das migrações interestaduais Para a análise das tendências das migrações internas no Brasil. Entretanto.48% ao ano. A utilização de uma outra fonte de informação não-censitária. No Censo. e na PNAD. serão utilizadas as médias anuais de migrantes. que era de 2. serão incorporadas as informações de data fixa contidas no Censo de 1991. com uma amostra bem mais reduzida. pode-se obter. dentro das suas limitações amostrais. apesar da imprecisão teórica. para a população maior do que 5 anos. nesta parte. na década de 70. na Contagem da População de 1996 e na PNAD de 1998. o seu uso tem se tornado uma constante entre os cientistas sociais. certamente os dados da PNAD. finalmente. . problemática.

23. Não seria por outra razão que a sua taxa líquida de migração interestadual declinou na década de 60 de –13. Em 1991/96 ele continuava negativo. não considera as migrações internacionais que são significativas em Minas Gerais.29 GRÁFICO N. porém extremamente pequeno.11%. principalmente. No que se refere aos tradicionais reservatórios de força de trabalho. do Mucuri e do Rio Doce. Os dados sugerem que a tendência do saldo migratório negativo de Minas tem sido decrescente desde a década de 70. exclusivamente. algumas mudanças foram notáveis. parece também inegável que a capacidade mineira de retenção populacional e de atração migratória cresceu bastante. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998. mesmo que.000 200. IMIGRANTES E EM IGRANTES INTERESTADUAIS(MÉDIAS ANUAIS) 250.000 100. Censos Demográficos de 1970. o Nordeste. . aos fluxos internos ao país. ser omitido que Minas ainda tem um potencial de emigrantes. da migração permanente pela temporária. Deve ser considerado que esse saldo se refere.000 50.11 entre 1993 e 1998. apresentavam taxas líquidas de migração negativas extremamente altas.19% para +0. nestas regiões tenha havido substituição.000 150. Não poderia.º1: MINAS GERAIS. A PNAD sugere que entre 1993/98 o saldo tornou-se positivo. isto é. que se traduziria numa taxa líquida migração de apenas 0. principalmente em suas regiões mais pobres.899 migrantes. 1991. em boa parte. também. ainda que diminuto. As tendências do outro histórico reservatório de força de trabalho.393. em Minas Gerais (Gráfico no 1). 16. Ainda que possam ocorrer oscilações conjunturais. Porém. que entre 1981 e 1991.000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE. 1980. como os Vales do Jequitinhonha. há uma tendência inequívoca de que Minas tenha saldos migratórios interestaduais positivos.

na segunda metade deste período. entre 1991/96. 90. EMIGRA NTES Os dados da PNAD sugerem que. como sempre tem ocorrido neste artigo. IM IGRANTES E EM IGRANTES INTERESTADUAIS (M ÉDIAS ANUAIS) 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRA NTES Fontes: FIBGE. do Norte principalmente. 1980.000 30. Censos Demográficos de 1970.30 serão analisadas separadamente. já se observava um declínio da imigração. que levou.000 10. 1991. devido principalmente ao aumento da imigração proveniente das áreas de fronteira na sua maior parte. depois começou a reduzi-los devagar (Gráfico no 2). também.º2 : NORDESTE SETENTRIONAL.000 20. provavelmente de retorno. porém.000 80.000 50. O seu maior número de imigrantes aconteceu. também contribuiu para o aumento da imigração no Nordeste Setentrional. ao seu maior saldo migratório negativo desde os anos 60. entre 1981 e 1991. entre 1993/98. A emigração de São Paulo e do Rio de Janeiro.000 40. houve uma queda brusca neste saldo.000 0 GRÁFICO N.000 70.000 60. O Nordeste Setentrional aumentou aceleradamente o seu número de emigrantes até a primeira metade da década de 80. . Contagem da População de 1996 e PNAD 1998. e do Centro-Oeste.

1991. O seu saldo negativo entre 1981 e 1991 era bem inferior ao dos anos 60. já que a metade dos seus imigrantes. há claramente uma tendência declinante no período analisado. resultado principalmente do aumento da imigração. bastante alimentada pela migração de retorno.000 50.000 200. como no caso de Minas. na década de 60. entre 1993/98. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998. IMIGRANTES E EMIGRANTES INTERESTADUAIS(MÉDIAS ANUAIS) 250. Censos Demográficos de 1970.807. apesar de negativo. um sexto deste valor. aproximadamente. Ainda que tenha havido um ligeiro aumento deste saldo entre 1986 e 1991. O Nordeste Central tem apresentado novidades interessantes no seu comportamento migratório (Gráfico no 3).31 GRÁFICO N. 1980.000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE. e a PNAD sugere que. vem de São Paulo e do Rio de Janeiro. Provavelmente esta redução teve a contribuição da migração de retorno.º3: NORDESTE CENTRAL. era de –126. entre 1993 e 1998. neste último período. seu saldo migratório médio anual era de apenas –20.000 100. Mesmo considerando as dificuldades amostrais da PNAD e. vale lembrar que o saldo médio anual migratório do Nordeste Central.950 e. . portanto.000 150. as prováveis dificuldades metodológicas nas comparações.

Censos Demográficos de 1970.000 60. 1991. em conjunto com a que foi desenvolvida para os grandes reservatórios de força de trabalho. IMIGRANTES E EMIGRANTES INTERESTADUAIS(MÉDIAS ANUAIS) 120. por ser ainda a região que atrai o maior número de imigrantes (Gráfico no 5). como no caso do Nordeste Setentrional.000 100.º4: NORDESTE MERIDIONAL.32 GRÁFICO N. a PNAD sugere. Entretanto. fundamentalmente para São Paulo e para a Região Centro-Oeste. Vale lembrar que as mudanças sugeridas pela PNAD podem ser. 1980. sendo que entre 1991 e 1996 ele foi o maior desde os anos 60. A análise das tendências das tradicionais regiões de atração migratória. tanto problemas de ordem amostral.000 40. contrariando a tendência observada que. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998. como mudanças no comportamento dos fluxos migratórios derivados da forte depressão da economia no período 1996/98. houve uma redução do saldo migratório negativo em função da diminuição do número de emigrantes. devido. São Paulo será analisada em primeiro lugar. houve uma redução do seu saldo negativo. No Nordeste Meridional. ao aumento dos imigrantes e a diminuição dos emigrantes (Gráfico no 4). a tendência foi o aumento do seu saldo negativo. vai ser decisiva para as conclusões sobre as mudanças recentes no padrão migratório no Brasil.000 80. .000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE. até 1980.000 20. no período 1993/98. Mais uma vez. a partir de então.

26. para onde mais tem se dirigido a migração de retorno de São Paulo. São Paulo. também mantém. se deu na década de 70 e na segunda metade do período 1981/91. para o Nordeste e Minas Gerais. No último período analisado. altamente potencializada pela migração de retorno.0% do total dos imigrantes interestaduais no Brasil. O aumento da emigração se deu por um problema amostral ou em decorrência da grande crise econômica que. sendo que o saldo migratório foi menor neste último.000 250. a média anual de emigrantes foi quase igual à de 1981/91. juntos.000 150. na década de 90. entre os emigrantes. em 1993/98.000 100.º5: SÃO PAULO. teria reaquecido a migração de retorno? Esta última hipótese fica mais fascinante.000 200.0% dos emigrantes foram para o Nordeste e Minas Gerais. surge o problema recorrente. principalmente.000 50. emigraram mais pessoas de São Paulo do que dos estados do nordeste central. Esta hegemonia entre os imigrantes. Na década de 90. IMIGRANTES E EMIGRANTES INTERESTADUAIS(MÉDIA ANUAL) 300. entre 1996/98. entre 1993/98. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998. Censos Demográficos de 1970. isto é. A fase de maior emigração foi entre 1981/91. O auge da atração migratória de São Paulo. ainda que representasse. desde 1981/91. 1991. o número de imigrantes diminuiu. 1980. . porque o número de emigrantes foi bem maior.000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE. quando se observa que 67. A Contagem da População de 1996 e a PNAD de 1998 sugerem que.33 GRÁFICO N. no período analisado. Novamente.

000 120. Para não retornar ao problema amostral. deixou de ser uma importante região de atração migratória.000 100. anualmente. sugere a PNAD.000 60. ainda que o seu saldo negativo tenha diminuído ente 1991/96. 1980. cerca de 140 mil imigrantes (Gráfico no 6).000 80. E os dados confirmam.º6: RIO DE JANEIRO. ele tem perdido população. 1991. os seus dois maiores fornecedores de população.0% dos seus emigrantes se destinavam ao Nordeste e a Minas Gerais. Censos Demográficos de 1970. O Rio de Janeiro. o Rio teve o seu maior saldo negativo. como no caso de São Paulo.000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE.34 GRÁFICO N. como o foi até a década de 60. que a crise econômica intensificou a migração de retorno. Desde 1981/91. Mas. há muito tempo. IMIGRANTES E EMIGRANTES INTERESTADUAIS(MÉDIA ANUAL) 160. historicamente. quando recebia. pois 55. pode-se levantar.000 20. .000 40.000 140. que foram. entre 1993/98. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998.

a circulação migratória tem sido grande.000 40. começou a decrescer. com os imigrantes e emigrantes se aproximando em número. 85.000 180. também. foi de diminuir gradativamente. 1991.000 140. chegando em 1993/98 a pouco mais de um terço.000 60.º7: CENTR0-OESTE. Como uma região de expansão da fronteira agrícola e mineral.000 80. Devido a grande circulação migratória nas áreas de expansão da fronteira. IMIGRANTES E EMIGRANTES INTERESTADUAIS(MÉDIA ANUAL) 200. ou seja.000 20. depois. Censos Demográficos de 1970. há uma tendência a que os números de imigrantes e de imigrantes se aproximem.000 120. ele deve ser visto com extremo cuidado. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998.796. o número de imigrantes crescia simultaneamente com o de emigrantes. A migração de retorno foi muito grande em função do fracasso da maioria dos planos de colonização. também começou a liberar uma grande quantidade de emigrantes (Gráfico no 8). .279 migrantes. A tendência do seu saldo migratório anual.000 160. quando mais recebeu. A PNAD sugere um saldo negativo para a região. já na segunda metade deste período. portanto.35 GRÁFICO N. simultaneamente (Gráfico no 7). Na região Centro-Oeste. 25.000 100. A região Norte não conseguiu atrair o mesmo número de imigrantes do que a região Centro-Oeste e. que teve o seu auge na década de 60.000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE. até 1981/91 e. 1980. Entretanto a sua amostra não inclui a população rural. entre 1981 e 1991.

social e política. serviram como um importante mecanismo de integração social e cultural do território. No período 1940/80.000 0 1960/70 1970/80 1981/91 1986/91 1991/96 1993/98 IMIGRANTES EMIGRANTES Fontes: FIBGE. Foi observado que o padrão é dinâmico. Contagem da População de 1996 e PNAD 1998. IMIGRANTES E EMIGRANTEES INTERESTADUAIS(MÉDIA ANUAL) 140. ou dominantes. mas. já se refletiram sobre o padrão migratório.º8: NORTE. 1991. também. As tendências recentes das migrações interestaduais e o padrão migratório A questão mais importante que se coloca para as conclusões deste artigo é se as mudanças que ocorreram na dinâmica da economia e da sociedade.36 GRÁFICO N.000 40. Censos Demográficos de 1970. torna-se importante recordar que o padrão migratório é o modo como se dá a articulação entre as trajetórias migratórias e o contexto histórico no qual elas estão estruturadas para atender as necessidades da dinâmica demográfica.000 120. depois de 1980.000 100. econômica.000 20.000 80. as trajetórias mais relevantes. As trajetórias dominantes articulavam os dois grandes reservatórios de força de trabalho. . não só as necessidades de transferência regional do excedente de força de trabalho. se estruturaram para atender. o Nordeste e Minas Gerais. tem flexibilidade suficiente para se ajustar às mudanças nestas necessidades. alimentadas pelos fortes desequilíbrios regionais.000 60. com os estados onde se dava o maior crescimento industrial e com as regiões de expansão da fronteira agrícola e mineral. 1980. Em primeiro lugar.

Não se constituiria.0% de toda a imigração interestadual. as regiões CentroOeste e Norte. muitas vezes serviam de etapa para as trajetórias dominantes. O mesmo aconteceu no caso das regiões de expansão da fronteira agrícola. na década de 70. na sua grande maioria.7 % do emprego por ele gerado. do Nordeste. Esses imigrantes que chegaram a São Paulo nos anos 70 vieram. 40. inclusive no setor industrial que. A década de 70 se constituiu em um grande exemplo. Foi assim no caso do Paraná. onde as trajetórias migratórias foram se realinhando segundo os momentos de expansão ou retração da capacidade de absorção populacional de cada uma delas. somente em São Paulo. acompanhando as preferências do desenvolvimento da economia brasileira. Na verdade. ampliaram a sua capacidade de absorção . da região Centro-Oeste e do Norte. A flexibilidade do padrão migratório se traduzia num grande dinamismo. 21. dos dois grandes reservatórios de força de trabalho. Entre os estados de maior crescimento industrial. surpresa que São Paulo tenha recebido nesta época 31. Esta flexibilidade. que em 1970 já iniciava o processo de redução da sua emigração. portanto.0%. não significava uma mudança do padrão migratório.0% do emprego industrial. As duas grandes áreas de expansão da fronteira agrícola.0%. como em Minas. se concentrava 56. a economia brasileira continuava crescendo e gerando uma enorme quantidade de emprego. com o decréscimo da importância econômica do Rio de Janeiro.4% do PIB industrial brasileiro e 37. que lhe permitia realinhar as trajetórias de acordo com as necessidades emergentes. como ocorria em décadas anteriores.37 As trajetórias secundárias ou os “circuitos migratórios regionais” se encarregavam da mobilidade espacial dos migrantes entre estados vizinhos e. Na década de 70. Até mesmo nos grandes reservatórios de força de trabalho já se observavam algumas mudanças significativas. os fundamentos da articulação entre o contexto histórico e as trajetórias migratórias permaneciam inalterados. criou cerca de 38. junto à construção civil. ou a capacidade de ajuste às necessidades emergentes do desenvolvimento da economia e da sociedade brasileiras. Os desequilíbrios regionais se acentuaram. e de Minas Gerais. a trajetória para São Paulo foi se tornando hegemônica.

O crescimento demográfico ainda se mantinha acelerado até os anos 80. As trajetórias migratórias dominantes.38 populacional. a flexibilidade do padrão migratório. 1997). as expansões dos sistemas de transporte e de telecomunicações que reforçaram enormemente a cultura migratória e abriam caminhos para o migrante realizar a sua mobilidade espacial e social. Somente a partir de 1980. sociais e políticos que estruturavam trajetórias migratórias. na década anterior. O Estado implementava políticas que reforçavam a ocupação demográfica das regiões Norte e Centro-Oeste. mas extremamente concentrador. inerentes ao desenvolvimento da economia e da sociedade brasileiras. Na região CentroOeste eles contribuíam com cerca de 40. assim como promovia. principalmente nas áreas urbanas que foram alimentadas pela maior êxodo rural da história do país.0% da população já residiam. neste caso.0% dos imigrantes e na região Norte com uma parcela um pouco menor. desde que conseguisse vencer o rigoroso processo de seletividade social e econômica. Quase 30. provenientes dos dois grandes reservatórios de força de trabalho. com 41. principalmente nos anos 70. econômicos. não significou. que contribuíram. O restante da imigração das regiões de fronteira ficava por conta dos circuitos migratórios regionais e dos deslocamentos populacionais entre estas próprias regiões. em 1980.0% do crescimento total da população brasileira. atraindo um quarto de toda a imigração interestadual. até porque as características de grande parte da sociedade brasileira não se alteraram. quando o país ingressou numa grande “crise de transição”. continuavam a nutrir essas regiões de fronteira. nas regiões metropolitanas. até o final da década de 70. Mas. e a rigidez da estrutura social ainda impõe a migração como a única . realinhando as trajetórias. A crise tem modificado os fundamentos sociais e culturais das trajetórias. também. mais de 15 milhões só na década de 70 (CARVALHO. O processo de urbanização era não só intenso. Em síntese. qualquer mudança nos fundamentos demográficos. é que o padrão migratório tem sido notavelmente afetado. FERNANDES. a contribuição decisiva era muito mais do Nordeste. A tradição migratória não desapareceu.

comprometendo a “ilusão migratória”. aumentou os seus mecanismos de discriminação e de exclusão dos mais pobres. ir para São Paulo e lá conseguir alguma forma de ascensão social. A migração de retorno. os fundamentos econômicos. assombrada com a barbárie que tem predominado nas relações sociais. objetivamente. do desemprego.39 alternativa para se “melhorar de vida” ou “ascender socialmente”. que tanto atraíam os migrantes. e ao que tudo indica foi reaquecida com a crise que se iniciou em 1996. têm tido um efeito contrário: as grandes virtudes das grandes cidades desapareceram diante da violência urbana. e cada vez menos solidária. a redução excepcional da capacidade de geração de emprego e de novas oportunidades ocupacionais. a compreensão pelos migrantes de que já não é possível qualquer mobilidade social e. Mais ainda. a sua estruturação como caminhos sociais. mais competitiva. Portanto. O mercado de trabalho tornou-se rígido. com uma cadeia de pré-requisitos educacionais e de treinamento. É o avesso da “ilusão migratória”. perdeu muito do seu vigor. que se generalizou. As externalidades positivas das grandes cidades. a ampliação das telecomunicações. hoje um “grande excedente demográfico” não absorvido economicamente e socialmente. para o caminho de volta. das dificuldades de acesso aos serviços públicos básicos e à moradia. das regiões metropolitanas. sobreviver nos grandes urbanos. Hoje não é possível mais para o migrante sair do interior nordestino. Em síntese. A sociedade e a economia mobilizam grande parte dos migrantes na região de destino. descolou a mobilidade espacial da mobilidade social. extremamente excludentes para a grande maioria da população migrante. foram superadas pelas externalidades negativas. a sociedade urbana. sociais e culturais das trajetórias migratórias foram fortemente comprometidos. mecanismo fundamental para a mobilização e integração social dos migrantes. O mesmo ocorre . Com se não bastasse. é a contramão das trajetórias migratórias. assim como as redes de interação social. hoje mais abrangente do que antes. mesmo dentro dos estreitos limites da classe trabalhadora. até mesmo. A discriminação e as barreiras ao livre trânsito dos migrantes têm sido freqüentes e exacerbam os mecanismos de seletividade. Entretanto. em particular.

ou para a Região Metropolitana. revelado pela PNAD está longe de ser uma grande surpresa. mesmo que as condições objetivas se tornem desfavoráveis. A tendência não tem sido só a redução dos emigrantes. têm passado por grandes transformações. Hoje. Os reflexos sobre os fluxos migratórios recentes são muitos. em função até mesmo da redução acelerada do crescimento demográfico e da diminuição do êxodo rural. como caminhos estruturais. ela é parte integrante do modo de vida de grande parte da população destas regiões. como foi visto. Não é surpreendente que muitos continuem migrando para São Paulo. como o Triângulo e o Alto Paranaíba. muitas vezes se mantêm. quem migra para as fronteiras quase só tem a possibilidade se transformar num trabalhador. com o seu grande crescimento industrial. Mas. Os dois grandes reservatórios de força de trabalho. A migração para Minas não é só de retorno. É o resultado de uma tendência que começava a se manifestar desde a década de 70. Mucuri e Rio Doce. É a força da inércia das trajetórias que. cuja dimensão social e cultural era dada pela possibilidade de acesso à terra. que se industrializa e moderniza a sua agricultura. institucionalizaram a migração temporária. na maioria das vezes temporário. urbanas e rurais que continuam gerando um grande “excedente populacional”. são muitas as regiões. mas o aumento dos imigrantes. o saldo migratório interestadual positivo. serão cada vez menos. ou qualquer outro grande centro urbano e para as regiões de expansão da fronteira agrícola.40 com as trajetórias em direção às fronteiras agrícolas. como São Paulo. muitos têm vindo pelas oportunidades geradas nas regiões de expansão agro-industrial. de onde partiam as grandes trajetórias dominantes em direção às regiões de atração migratória. mas. O aumento da sua capacidade de retenção migratória – que não é só função das suas externalidades positivas. cada vez mais integrado aos grandes e modernos centros industriais. como os Vales do Jequitinhonha. também das externalidades negativas nas prováveis regiões de destino dos migrantes mineiros – tem sido acompanhado pelo crescimento da sua capacidade de atração. Atualmente. No caso de Minas Gerais. ou para o Sul. Os emigrantes potenciais persistem. As mais pobres. A classe média criou um novo tipo de migração .

A situação mais interessante é a do Nordeste Central. A grande maioria dos emigrantes de Minas e do Nordeste Central e Meridional. a internacional.41 temporária.274. mesmo com a desconcentração econômica para o interior. que . O seu saldo migratório negativo. mas a outra. quase 60. uma receita financeira que garanta. a inércia estrutural das trajetórias explica uma parte. a situação migratória é mais desfavorável. só que. Uma questão se coloca. uma melhoria do seu padrão de vida aqui. 1997). mantendo a tradição. equivalente a um sexto do seu saldo negativo na década de 60. Mas tem havido uma queda generalizada no número de emigrantes nordestinos e aumento da imigração. Neste caso. o novo ciclo da crise econômica que se iniciou em 1996 pode ter contribuído para aumentar a migração de retorno e para reduzir o número de emigrantes. se destinava a São Paulo ou ao Centro-Oeste. deve ser atribuída às péssimas condições econômicas e sociais que persistem em muitas regiões dos dois grandes reservatórios. onde reside a maior parte da população rural brasileira. entre 1993/98. por que persistem os fluxos migratórios? Sem dúvida. et al. ainda persiste um grande potencial migratório. certamente. No caso do Nordeste. Muitos têm optado por esse tipo de migração. ainda persiste. São Paulo. um grande potencial migratório. Mas. para o Norte. movidos pela “ilusão migratória” de conseguir no exterior. no Nordeste. se dirigiam em bom número. Estima-se que entre 1990 e 1995 o saldo líquido migratório rural tenha sido de –2.. Os emigrantes dos dois grandes reservatórios de força de trabalho ainda trilham as trajetórias em direção a São Paulo e à região Centro-Oeste. Nas outras regiões. sociais e culturais foram fortemente abalados. não mais para a mobilidade ou ascensão social. no seu país (Brito. no futuro. Os do Nordeste Meridional também. e a tendência até 1996 era de aumentar o saldo negativo. mas para a sobrevivência. que é também de alto risco. Segundo as sugestões da PNAD.390. era em 1993/98. a emigração de alto risco é uma alternativa. principalmente no caso da trajetória em direção a São Paulo: se os seus fundamentos econômicos. o menor das três grandes regiões nordestinas.0% de todo o saldo rural-urbano brasileiro (ABROMOVAY. bastante alimentada pela migração de retorno. 1995). o que se tornou impossível aqui no Brasil. sem dúvida.

sem dúvida.0%. Paraná e Santa Catarina. mais de 80. esvaziando o conteúdo social e cultural das trajetórias migratórias dominantes. Um bom indicador é o estado ter se transformado no maior gerador de emigrantes do Brasil. . social e cultural que as trajetórias dominantes. ou seja. restringindo ainda mais as oportunidades de mobilidade social no país. passaram a ter saldos migratórios interestaduais positivos. mas não deixa de ser um transbordamento populacional. já esgotaram a sua fase de expansão demográfica. na sua maioria. como Minas. Os do Centro-Oeste. Não é por outra razão que cada vez mais aumenta a circulação migratória entre elas e o número dos seus imigrantes tende cada vez mais a ficar próximo do número dos seus emigrantes. de criação de novas oportunidades ocupacionais e de acesso à terra.42 ampliou o fôlego da sua capacidade de atração migratória. As antigas regiões de expansão da fronteira. São Paulo e o Paraná. também. que prevaleciam dentro do padrão migratório que prevaleceu até os anos 80. deve ter alcançado o seu limite de absorção dos migrantes. A grande maioria dos imigrantes interestaduais do Norte. A outra parte é o tradicional circuito migratório com Minas. têm restringido enormemente as oportunidades de emprego. O que se pode observar é que a dinâmica da economia e da sociedade. da circulação migratória dentro da própria fronteira. Os fluxos que passam por elas e ainda passarão. o Norte e o Centro-Oeste. Mas não há a menor probabilidade econômica. do Centro-Oeste e do Nordeste Setentrional. principalmente para São Paulo e o Centro-Oeste. A grande circulação migratória nas antigas regiões de expansão agrícola e as trajetórias secundárias – ou os circuitos regionais entre estados fronteiriços – ainda persistem e têm sido menos afetadas pelo esvaziamento das trajetórias dominantes. mantidas as condições atuais da sua economia. são mais em função da inércia e das péssimas condições que ainda persistem em parte dos grandes reservatórios de força de trabalho. no Brasil recente. vêm das mesmas regiões. Grande parte deles é de retorno. vem do próprio Norte. Não pode ser omitido que os estados que têm usufruído da desconcentração industrial. fossem realinhadas em direção a estes estados. como foi dito.

A. 1999..E. Standing Guy. Ano II. pela qual o Brasil tem passado..43 Para finalizar. in PATARRA. 1997. Martins Fontes. Envelhecimento e Masculinização no Brasil: Tendências Recentes. CARVALHO. História de la Poblacion Europea. 1997. & OBERAI A. Fernanad. R. 1999. não para melhorar a sua posição social. Êxodo Rural. BRAUDEL. Séculos XV – XVIII. Economia e Capitalismo. ABEP/GT de Migração. Fausto. J. CANO. II Encontro Nacional de Migração. in ComoVai? População Brasileira. mas para conseguir. CAMARANO. 5. Civilização Material. que ainda não se constituiu de forma nítida: o esvaziamento social e cultural das trajetórias dominantes. A. Emigração e Imigração Internacionais no Brasil Contemporâneo. apenas a sua sobrevivência. Perspectivas migratórias dos dois Grandes Reservatórios de Força de Trabalho. principalmente o descolamento da mobilidade espacial da mobilidade social. Espaço e Economia numa Perspectiva Histórica: O Caso Brasileiro. Fausto. 1995.S. IPEA. Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil. Fernando. Estimativas dos Saldos Migratórios e Taxas Líquidas de Migração das Unidades da Federação e Grandes Regiões . Neide L. & FERNANDES. capt. no 2. capítulo I. CEDEPLAR. (coordenadora). BRITO. PINTO. M. Deste modo. elas são hoje muito mais o resultado da inércia social e por elas trafegam. BACCI. UNICAMP. Os Povos em Movimento: as Migrações Internacionais no Desenvolvimento do Capitalismo. é importante destacar que os fundamentos da articulação entre o contexto histórico e as trajetórias migratórias foram basicamente alterados. População. Fausto. com altos riscos. As Estruturas do Cotidiano. International Labor Organization. BILSBORROW. Critica. FNUAP. que emerge com profunda “crise de transição”. Wilson.. M. 1984. 1995. BIBLIOGRAFIA: ABRAMOVAY. contém a principal marca da mudança em direção a um outro padrão migratório. R. Migrations Survey in Low Income Countries. os migrantes dispostos a superar os obstáculos da seletividade. Minas e o Nordeste. 1930-1995.. Este novo contexto. na sua maioria. 1998. BRITO. BRITO.

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