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A segunda impressão I Era uma vez uma jovem trabalhadora Que operava numa linha de montagem Numa fábrica

de automóveis desoladora Com turnos e não muita camaradagem No entanto, ela, Georgina, vivia feliz Habitava sozinha num apartamento Com o salário sempre fez o que quis Corria, quer estivesse chuva ou vento A sua família residia noutra cidade Mantinham contactos esporádicos Sempre cultivou muito a amizade E os colegas pareciam-lhe simpáticos A maioria dos trabalhadores desanimava Mas Georgina não perdia a sua alegria Querendo contagiar a quem ela faltava Tornava-se mais admirada de dia para dia Não sendo uma pessoa exuberante Só falava quando achava necessário Desenvolvera uma aptidão interessante De apreender cada ponto de vista contrário 02.01.2013 II Georgina, então nas suas vinte e oito primaveras Conservada como se contasse menos uma dezena Entrou assobiando uma melodia doce e serena Nos balneários no final de mais oito horas severas Qual não foi o seu espanto quando viu Sentada num banco a chorar baixinho Uma desconhecida que logo se retraiu Encolhendo-se toda para um cantinho Outras colegas trocavam de roupa rapidamente Sem prestar atenção àquela que ali pranteava Georgina veio e perguntou-lhe porque chorava Ela ergueu a cabeça e murmurou tristemente — Sofro, e não sei o que hei-de fazer agora Creio que vou perder o meu namorado Só penso nele, sempre, a toda a hora Mas ele já está a ficar enfadado Georgina procurou consolá-la, falou com um sorriso

— Não penses nisso agora, pensa em algo divertido Que a tristeza sempre aparece sem a termos pedido Vamos amanhã aos saldos comprar o que for preciso A rapariga, Carla, ficou bem impressionada Elas combinaram a saída para o dia seguinte Em que Georgina teria uma folga aguardada E teria tempo para visitar as lojas de requinte 02.01.2013 III Georgina e Carla tornaram-se amigas dedicadas Apesar de terem muito distintas personalidades E diversos hábitos e preferências determinadas E a ligeira mas significativa diferença de idades No entanto, era na formação a maior diferença Carla era estudante universitária privilegiada Tornava-se porém desagradável a sua presença Por falar quase só da sua família e vida privada Aos vinte anos, ela era egoísta e insegura Entristecia-se com estrondosa facilidade Encarou Georgina como mentora futura Que exemplificava a simples felicidade Carla pediu-lhe que a ajudasse a mudar de atitude Que mostrasse algumas maneiras de se tornar feliz De confraternizar e desfrutar bem da sua juventude Ir melhorando até se tornar como ela sempre quis Georgina disponibilizou-se a demonstrar-lhe Como poderia melhorar os relacionamentos Todas as semanas com ela a exemplificar-lhe A rever as suas atitudes em todos os momentos 07.01.2013 IV Com a sua radical mudança de perspectiva De ouvir os outros e manter-se silenciosa Carla torna-se mais simpática e persuasiva Mais humilde e menos rude e orgulhosa Conseguia identificar-se com as causas alheias Imaginar-se na situação de uma outra pessoa Entender os seus sentimentos e as suas ideias Abstendo-se de julgar e culpar os outros à toa Uma das consequências destas modificações Traduziu-se na maneira como via o namorado

Longe dos dias de tormentas, fúrias e obsessões Percebeu que nunca na verdade o tinha amado Não houvera amor mas apenas uma atracção física De resto, não existiam entre eles muitas afinidades Além da ambição e alguns tipos específicos de música Eles viviam em distintos mundos, distintas realidades Por isso, um dia ela explicou a Paulo o que sentia Honesta consigo própria e os outros ao seu redor Lamentou não ser nada daquilo que ele desejaria De esperar ir a tempo de não se alterar para pior — Estava confusa, mas agora sei, não estou apaixonada Mereces tudo de bom e és digno de enorme admiração Espero que tenhas sucesso e uma vida plena, glorificada Agradeço-te pela tua infinita paciência e compreensão 07.01.2013 V Carla levou a cabo os seus longos preparativos Deixando-os passar aos outros despercebidos Saía com os amigos e fazia cursos intensivos Os seus planos eram para todos desconhecidos Até Georgina foi na ocasião apanhada de surpresa Quando Carla disse que partiria para o estrangeiro Ela sempre sonhara ser médica, disso tinha a certeza Mas agora por vocação, e dantes mais pelo dinheiro Porém, dadas as enormes dificuldades que comportava Sabia que no seu país não conseguiria estudar medicina Com o curso de medicina dentária não se conformava Teria a coragem para sair, e ainda agradecia a Georgina A sua família ajudaria com os pesados pagamentos Apoiando-a na sua decisão difícil mas ponderada Felizes com a evolução dos seus comportamentos Incentivaram-na na sua nova e extensa jornada Georgina rejubilava também com a decisão da amiga Tiveram uma longa conversa plena de emotividade Ainda que Carla estivesse ocupada como uma formiga Sempre encontraria tempo para dedicar à sua amizade 07.01.2013 VI Georgina continuou a sua vida, embora com saudade Da jovem universitária que lhe dera tão grande valor A ela, simples operária fabril sem glória nem esplendor

Que a fizera entender-se melhor a si e à humanidade Todas as semanas, através da internet ela comunicava Mantinham-se ao correr dos últimos acontecimentos Com a crise, o dinheiro escasseava até para alimentos Georgina fazia o que podia, mas o salário não esticava Todos os produtos aumentavam, e a renda também Tornava-se difícil manter o pequeno apartamento Embora Georgina não proferisse um único lamento E não considerasse solicitar algum auxílio a ninguém Portanto, cada vez que falavam, ela estava sempre bem Até ao dia em que, sem dispor de outra opção, admitiu Que da sua ligação à internet, ela naquele mês desistiu No mês seguinte, enviar-lhe-ia mails da casa de alguém Teve de lhe dizer que seria uma situação temporária Até que ela resolvesse alguns problemas financeiros No entanto, temia que aqueles fossem os derradeiros Tempos de liberdade, naquela recessão extraordinária Sobre a internet e os pagamentos não se alongou Georgina Fazia o possível por orientar bem os seiscentos que recebia Para Carla, tinha sempre palavras de ânimo e de simpatia Apesar dos aterradores e consecutivos aumentos da gasolina Sem viatura própria trabalhar na fábrica ela não poderia Devido aos turnos, e aos acessos escuros e desamparados Todos os cêntimos importavam, todos eram amealhados Ela encarava o trabalho cada vez com mais força e alegria 07.01.2013 VII Ela reservava sempre algum tempo para uma corrida Para se conservar em boa forma física apesar de tudo Ia quase sempre sozinha, a ouvir uma música mexida A paisagem e as pessoas pareciam-lhe cinema mudo Nesses momentos descontraía e planeava divertimentos Mas também reflectia e recordava, sorria para o infinito Abençoava o sol, que permitia aqueles belos momentos Com os amigos já não poderia ir jantar aquele choco frito As suas saídas, delineava-as para escaparem às refeições Optava pelas caminhadas e visitas a centros comerciais Disfarçava com problemas de saúde, desviando atenções Os outros não adivinhavam mas reconheciam os sinais Certo dia, a sua situação novamente se complicou Após longos anos de utilização serena e quotidiana O seu velhinho automóvel em segunda mão avariou

Felizmente aconteceu numa das folgas dessa semana Mandou-o logo arranjar e gastou muito dinheiro A sua conta bancária quase totalmente esvaziada Trazia por um fio o seu frágil equilíbrio financeiro De outro imprevisto manteve a sua mente afastada Concentrou-se em encontrar maneiras de subsistir Foi trabalhar nas limpezas a habitações particulares No tempo livre que depois da fábrica podia usufruir Impunha a si mesma regime e disciplina militares 07.01.2013 VIII Numa ocasião conheceu um rapaz na sua corrida Ele meteu conversa e começou a correr a seu lado Em pouco tempo, o diálogo estava encaminhado Cada um acabou por falar um pouco da sua vida À sua maneira, cada um alegrava-se com a realidade Curiosamente entendia-se como se já se conhecessem Continuavam assunto com o que quer que dissessem Descobriam sempre motivos para alguma hilaridade Por fim, terminaram o exercício àquele dia destinado Procederam aos alongamentos numa cerca de madeira Planificavam o que fariam no resto daquela Terça-feira O sol àquela hora já se tinha atrás dos prédios retirado Eles despediram-se e cada um seguiu o seu caminho Por duas vezes olharam para trás e ainda acenaram Alguns dos mais radiosos sorrisos eles ali esboçaram Dificilmente se distinguia entre simpatia e carinho Por fim, desapareceram dos respectivos horizontes Com os veículos estacionados em locais diferentes No interior daquelas nuvens de poeira envolventes Cada um olhou sem atenção os longínquos montes Ambos lamentaram não terem então combinado Outra sessão de voltas naquele parque verdejante Trocar contactos seria talvez atrevimento gritante Embora estivessem felizes por se terem encontrado 09.01.2013 IX Durante os chuvosos dias que se seguiram, Georgina Pensava naquele rapaz, que seria mais novo que ela Os seus modos afáveis, a sua figura majestosa e bela

Faziam-na sentir, de novo, como quando era menina Mal podia acreditar ter ficado assim impressionada Com alguém que provavelmente não tornaria a ver Gostou dele e se lhe perguntassem não saberia dizer Se faltava pouco ou se já estava a ficar apaixonada O rapaz chamava-se Filipe, era alto e atraente Vestia uma camisola branca larga com capuz Do seu olhar irradiava uma deslumbrante luz Mesmo ao falar de alguma ocorrência corrente Apenas um mês depois pôde voltar àquela hora Quando os seus apertados horários permitiram Os seus lábios logo automaticamente sorriram Ao ver Filipe, que vinha a chegar mesmo agora Eles saudaram-se e deram início à sua corrida Conversando, conheceram-se um pouco melhor Abstraídos, acabariam por fazer um treino maior Adiando indefinidamente a necessária despedida Dessa vez, trocaram os seus números de telemóvel Combinaram fazer um pequeno passeio à beira-mar Ao pôr-do-sol, antes de irem a um restaurante jantar Só então cada um deles seguiu para o seu automóvel 09.01.2013

X No dia do encontro ela aguardava com ansiedade Mas não desejava tornar-se para ele transparente Nem que ele soubesse que ela já sentira saudade Dele, que ainda lhe deveria ser quase indiferente Ele chegou, pontual e primorosamente vestido Cumprimentaram-se e passearam à beira-mar Tudo corria como previamente estabelecido A refeição pareceu-lhes deliciosa ao paladar Filipe disse que trabalhava num supermercado Desde havia um ano que fazia parte da gerência Vivia sozinho, independente, com o seu ordenado O trabalho era árduo e requeria muita paciência Ela contou-lhe também sobre a fábrica de automóveis Que estava satisfeita, ainda que não fosse deslumbrante E estive longe de ser um dos empregos mais adoráveis Permitia-lhe ter autonomia, e isso é que era importante Ele expressou de imediato a sua admiração reconhecida Com palavras que a um seu amigo teria igualmente dito

Por ela, apesar de não ser ambiciosa, lutar pela sua vida Em que o sacrifício era uma constante, e não algo esquisito — Reconheço que me causaste uma boa primeira impressão E até agora pareceu-me que realmente não estava enganada Filipe, brindemos ao futuro e às alegrias que nos chegarão Que a nossa amizade seja plena, sincera, sublime e sagrada Eles brindaram, com os copos cheios de vinho tinto Concordaram voltar para casa daí a alguns minutos Filipe levou-a à porta do prédio, ela morava no quinto Novamente, ambos desejavam ter sido mais resolutos 10.01.2013 XI Ela teve naquela noite sonhos repletos de erotismo Acordou com o seu despertador, muito sobressaltada Vira imagens do seu adorado, numa praia de nudismo Que a faziam sorrir mesmo depois de estar acordada Durante o jantar não houvera qualquer ousadia Da sua parte isso estava mais do que garantido Mas se ele avançasse, ela julgava que resistiria Para que não parecesse um material oferecido Ele era de facto mais novo, tinha vinte e cinco anos Ela interrogava-se porque estaria ele sem namorada Tendo tantos atributos, que tornariam outros ufanos Qualquer rapariga ficaria por ele muito interessada Na próxima vez que encontraram-se de novo no parque Quando Georgina gozava uma das suas folgas semanais Nesse dia noticiava-se, de um político, outro desfalque Para ela essas informações contavam entre as banais Ela e Filipe conversaram naquela tarde ensolarada Enquanto se exercitavam às voltas entre o arvoredo Desta vez, ele quis que a sua paixão fosse revelada Disse-lhe que gostava dela, sem hesitação nem medo Georgina mal podia acreditar que era correspondida Por um que, em alegoria, jogava noutro campeonato Reconheceu que também ela o adorava sem medida O seu coração batia como nos seus tempos de novato No final das voltas, trocaram um beijo apaixonado Abraçando-se, apesar da transpiração e o seu odor Filipe perguntou-lhe se o queria como namorado Ela aceitou, feliz por poder expressar o seu amor 10.01.2013

XII Aquele rapaz era melhor do que ela sonhara Às vezes mal podia acreditar que era verdade Doce, romântico, de inigualável integridade Forte, indestrutível, de uma perspicácia rara Georgina vivenciava um idílio inesperado A sua alegria era ainda mais contagiante Não sendo bela, afigurava-se interessante O pouco que dizia, era sempre apreciado Tardava em encontrar em Filipe algum defeito Escusado será dizer que não os buscou jamais Os seus dias decorriam animados, nunca iguais E para ela aquele rapaz era para lá de perfeito Eles saíam e ele integrava-se bem com os amigos dela Jogava às cartas, aos dardos, ao bilhar ou nas máquinas Tinha facilidade até em brincar com crianças traquinas As amigas de Georgina nunca viram sorte como aquela Levou-a à casa dele, um apartamento nos arredores De uma construção recente e um pouco dispendiosa Ela levou-o à sua, mais antiquada mas ainda radiosa Em termos de higiene e arrumação era das melhores Em Maio ela teve desse ano as suas primeiras férias Conseguiu juntar o suficiente para ir visitar os pais Permaneceria seis dias com eles na terra, e não mais Sem as limpezas, em breve viriam dificuldades sérias 10.01.2013 XIII Nunca pormenorizara a situação ao namorado O seu dinheiro até à exaustão todo espremido Quando chegava a casa com o corpo exaurido Lavava-se e ia dormir sem se ter alimentado Georgina bebia apenas um copo de leite frio Quase imediatamente depois ela adormecia Com Filipe, em pagar a sua parte ela insistia Ele perguntava se não seria excesso de brio A certa altura, ela notou alguns detalhes nele Não lhe pareceram graves, mas misteriosos Os seus belos olhos esverdeados e luminosos Escapavam-se para outro local que não aquele Mais atenta, descobriu alguns gestos furtivos Existia certamente algo que ele lhe ocultava Ela pensou que a verdade um dia se revelava

E fingiu não reparar nos seus modos esquivos Em especial, ele nunca mencionou o emprego Nem pessoas com quem ele tinha trabalhado Pegava nos documentos com muito cuidado Falava de supermercados com total desapego Georgina imaginou que teria as suas razões E em nenhuma altura se sentiu prejudicada Seguramente a sua conduta seria justificada E ela própria lhe escondia certas situações 10.01.2013 XIV No entanto, parte da alegria dele ia-se escoando Filipe debatia-se, lutava com a sua consciência Receava pela reacção dela e por isso ia adiando Georgina demonstrava-lhe suporte e paciência Perguntou-lhe o que poderia fazer em seu auxílio Num dia em que ele estava um pouco desanimado Noutros tempos, seria talvez castigado com o exílio A ele tão natural se lhe houvera dantes afigurado Georgina preocupou-se se seria algum criminoso Ou um estranho caso de múltiplas personalidades Porém, nas suas acções não vida nada de duvidoso Nada que evidenciasse malvadez nem crueldades Filipe continuava a ser calmo, discreto e carinhoso A querer pagar a conta do que os dois consumiam Só la no fundo, como que existia algo vergonhoso Repetidas lembranças com frequência o afligiam Ela mantinha com Carla um contacto esporádico De mails e telefonemas bastante mais espaçados Contara-lhe acerca do seu namorado magnífico E uma vez falou-lhe dos receios fundamentados — Tenho medo que ele tenha algum problema laboral Ou que com eles tenha sofrido, algures no seu passado Gostaria de ajudar, mas não que ele me interprete mal Parece que não é comigo e que não fiz nada de errado À amiga, ao escutá-la, ocorreu um pressentimento Que preferiu manter unicamente para si guardado Animou-a, dizendo que se daria um acontecimento Que, bom ou mau, deixaria o rapaz mais aliviado 10.01.2013

XV Uma colega pediu-lhe para fazer mais um turno Porque ela acordara doente e ia para o hospital Pelo telefone, a sua voz soava fraca, quase irreal O rosto de Georgina tornou-se sombrio, soturno Preocupava-a bastante que Teresa tivesse adoecido Simpatizava com ela, passaram juntas bons bocados Os seus três filhos pequenos necessitavam cuidados Nem pensou se lhe custaria mais um turno seguido No final, só desejava regressar a casa depressa Mastigar uns cereais e estender-se no seu leito Telefonar a Teresa a saber se tudo já ia direito Dormir, porque no outro dia a sessão recomeça Contudo, a saída não se revelou afortunada O seu pobre veículo tinha sido vandalizado As consequências que ela bem teria evitado Apareciam estando ela totalmente estafada Abriu a porta e sentou-se abatida no interior Riscos e manchas numa pintura já desgastada Dois pneus sem ar, uma mensagem pendurada Um papelinho no espelho no lado do condutor “Agora que o teu carro está mesmo vergonhoso Pode ser que andes por aí menos empoleirada Que o que queres é a conta bancária recheada Nem sei qual de vós é que é o mais ambicioso” Levou as mãos à cabeça, ignorando o significado Daquele bilhete ofensivo, indecente e ultrajante O que produziria aquele tratamento humilhante E a quem Georgina causaria enorme desagrado? 10.01.2013 XVI Abeirou-se dela um colega que também saía Com os pensamentos num jantar quentinho Acompanhado por um belo copito de vinho Observou-a, e sem querer o seu queixo caía — Esqueceste-te de ir assinar aqueles papéis Por teres vindo numa hora que não era a tua Ainda te encontrei antes de saíres para a rua Será que vais, tendo aqui estas marcas cruéis? Apesar da situação, ela não conteve uma risada Guardou o papel no bolso das calças amarrotado Pediu-lhe que ajudasse com cada pneu esvaziado

Ela voltaria depressa, ia só assinar a tal papelada Assinou e preparava-se para sair em debandada Quando a chamaram para ir a um outro gabinete Em cuja porta estava a fotografia de um capacete Ergueu o braço e bateu ao de leve na porta fechada Nunca ali estivera, mas escutou uma voz conhecida Concedendo-lhe licença para que abrisse e entrasse O que viu no interior da sala fez com que paralisasse Estacou, sem pestanejar, inteiramente surpreendida De pé, junto a uma secretária, estava o seu namorado Ele falou mas custava-lhe a entender o que lhe dizia Com o cansaço, o seu cérebro a função não cumpria Até que ouviu que o rapaz lamentava tê-la enganado — Se é sobre isso que iremos conversar de seguida Peço desculpa e solicito que fique para outra hora Existe um assunto urgente para eu resolver agora Houve um imprevisto e estou de cabeça perdida Filipe indagou se o seu auxílio seria de utilidade Ela abanou a cabeça, ele que não se preocupasse Saiu a correr, receando que Pedro não esperasse Para a ajudar a conferir à sua viatura mobilidade 10.01.2013

XVII Mais tarde, a conduzir o seu automóvel riscado Tentou colocar em ordem os seus pensamentos O vandalismo e as revelações do seu namorado A estrada a desfilar perante os olhos sonolentos Após estacionar, encaminhou-se para o elevador Ao entrar, fechou a porta com um ligeiro pontapé Deixou-se cair para cima do colchão apaziguador Adormeceria mesmo que tivesse tomado um café De cinco minutos de sono apenas tinha desfrutado Quando tocou na sua mala o telemóvel esquecido Era Filipe, em quem ainda não tinha mais pensado Queria saber se o tal problema já estava resolvido Ele pediu-lhe para falarem o mais cedo possível Ela acedeu a que ele viesse ao seu apartamento Não supunha uma explicação banal nem incrível Pois simplesmente esvaziara o seu pensamento

Entretanto, ligou a Teresa, a saber como passava Reconfortou-a saber que a sua colega melhorara E que no hospital descobriram do que se tratava Com isto, uma das suas preocupações dissipara Pousou o telemóvel e adormeceu novamente Com os braços e pernas em posições casuais E ao fundo da cama os pés em jeito pendente Aquecidos pelos ténis velhos mas originais 11.01.2013 XVIII A campainha despertou-a, levantou-se estremunhada Era Filipe que tinha então à porta do prédio chegado Disse-lhe que subisse, ela estava agora desocupada Teriam tempo para que tudo ficasse bem clarificado Eles sentaram-se na sala, nos sedosos sofás individuais O rapaz começou a discorrer sobre as suas motivações O início remontava a oito meses antes, ou talvez mais Quando a sua existência se carregava de atribulações Chamava-se na verdade Paulo Filipe da Silva Monteiro Namorava com uma universitária chamada Carla Sofia Aquele emprego na administração fábrica, o primeiro De uma longa carreira, que recheada de êxitos previa A sua relação, ainda recente, muito rápido arrefecera Ela não era ruim, mas não demonstrava maturidade Tendo reparado na sua beleza quando a conhecera Desiludiu-se radicalmente com a sua personalidade Tendencialmente, ela desejava atrair todas as atenções Que outros procurassem solucionar os seus problemas Na maioria das vezes, não controlava as suas emoções Quando o via calado supunha-o a engendrar esquemas Sem razão aparente, chorava durante horas inconsolável Não a contactando sempre, considerava-o desinteressado Porém, ele não conseguia influenciar o seu humor instável Estava prestes a terminar, ainda que tal a tivesse magoado Mas eis que ela começou a mudar alguns comportamentos A tornar-se menos egoísta e mais solidária e compreensiva Sorria mais, aprendia e exultava com os seus conhecimentos Poucos dias depois, entre eles decorreu a conversa definitiva Ele sentiu um alívio e ao mesmo tempo alguma curiosidade Por descobrir quem a poderia ter com sucesso influenciado Lembrou-se de uma ocasião, em que referiu por casualidade O nome de uma amiga sua, Georgina, que o deixara intrigado

Ele conhecia aquele nome, esforçou-se para que lhe ocorresse No entanto, só se deparou com ele numa das fichas do pessoal Georgina trabalhava naquela fábrica sem que ele a conhecesse O que, sendo ele um da administração, acabava por ser normal No dia em que a encontrou no parque, na sua corrida habitual Desejou imediatamente encetar com a rapariga uma amizade Mas o entendimento entre eles foi instantâneo, providencial Enfeitiçou-se por ela, mas preferiu não lhe revelar a verdade Mentiu no nome, inventou de raiz o trabalho que exercia Convencido que de desse modo facilitava a proximidade Sem equívocos e ocultações, a primeira impressão seria Diferente da que ela invocara, num êxtase de felicidade Com o tempo, arrependeu-se, sentiu-se um impostor Adorava-a, mas enganara-a acerca da sua identidade A sua consciência chamava-lhe indivíduo sem valor Não sendo malvado, vivia uma história de falsidade 11.01.2013 XIX Recostada no sofá, ela ouvira-o atentamente Acompanhando com o olhar contemplativo No final, manteve-se silenciosa e sorridente O que para ele pareceu de todo inconclusivo Ao escutá-lo na sua narrativa longa e dramática Georgina sentiu-se inesperadamente apaziguada Afinal a situação não era feia nem problemática Nada do que ouviu deixou a rapariga preocupada Não se admirava que na fábrica fosse indesejado O contacto entre chefes e ásperos trabalhadores Ela preferiria que ele estivesse no supermercado Assim evitaria eventuais confusões e dissabores Em relação a estes últimos havia o vandalismo Praticado sobre a sua pouco cativante viatura O bilhete indicava um exagerado antagonismo Poderia ainda perguntar numa ocasião futura Talvez alguém mal-intencionado os observasse Fora do trabalho, por completo acaso, algum dia Em vingança por algo, a sua raiva descarregasse Sobre o velho automóvel dela, que de nada sabia Ao pensar nisso, ficou de novo desassossegada Inquieta, temendo pela segurança do seu amado Acalmou-se, poderia ser uma suspeita infundada Desde que ele se calara, estava silêncio instalado

12.01.2013 XX Paulo Filipe pediu-lhe então que se expressasse Havia doze minutos que permanecia silenciosa Pela sua expressão não havia quem adivinhasse Ao contrário do habitual, pareceu-lhe misteriosa Ela sorriu e perguntou-lhe se muito o preocupava Que ela não desconhecesse uma parte da sua vida Se era por essa razão que por vezes se mortificava Se achava que aquela mentira deveria ser punida Ele disse que supunha que ela se sentisse enganada E que o julgasse indigno da sua confiança e lealdade Apesar de a mentira não ter sido mal-intencionada E de o seu amor por ela dar provas da sua vitalidade Georgina achou aquele suspense muito engraçado Permaneceu alguns minutos em silêncio profundo Por fim, sorriu e piscou o olho direito ao namorado Dizendo que aquele seria o pior pecado do mundo Mais a sério, explicou-lhe que o compreendia Talvez até ela fosse capaz de algo semelhante Como não experimentara, ela nunca o saberia O que ele sentia é que era para ela importante Queria vê-lo feliz, resplandecente, e não preocupado A sua segunda impressão igualava de facto a primeira Naquele conto de fadas, ele era o seu príncipe adorado O rapaz mais agradável que conhecera na vida inteira Ele mal podia acreditar no que lhe chegava aos ouvidos Ela era mesmo impecável, desprovida de ressentimento Não especulava, não julgava o passado e os dias vividos Antes de se conhecerem, de encetarem o relacionamento Simplesmente não tencionava obter nenhumas informações Apenas lhe importavam o presente e os sonhos para o futuro Não se deteve com mais palavras e inflamadas considerações Aproximou-se e depositou-lhe nos lábios um beijo doce e puro Ele abraçou-a, emergindo reminiscências do primeiro abraço Meses antes, no final de algumas voltas no parque verdejante Da recente inquietação da sua parte, não restava nem um traço Consolidava-se entre ambos uma conexão robusta, incessante Eles adormeceram juntos, vestidos, debaixo de um cobertor Só na manhã seguinte avançariam para o ansiado chuveiro Confiantes de ter encontrado muita felicidade no seu amor E que todos os instantes interessam, não apenas o primeiro 13.01.2013… clanjlo@gmail.com