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Revista Philosophica Vol.

32 [Semestre II / 2007] Valparaíso (121 - 136)

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PODER-SER PRÓPRIO: ANGÚSTIA E MORTE EM SER E TEMPO DE HEIDEGGER*
To be able being proper: Anguish and death in being and time by Heidegger Poder-ser propio: Angustia y muerte en ser y tiempo de Heidegger

CEZAR LUÍS SEIBT
Universidad Federal de Pará cezluse@yahoo.com.br

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Brasil

Resumo: O artigo pretende mostrar de que forma Martin Heidegger compreende o modo de ser do Dasein na sua cotidianidade e apresentar os existenciais que possibilitam a superação desse estado, na direção das possibilidades mais próprias. Na cotidianidade, que se caracteriza pela impessoalidade, o que permanece oculto é exatamente o serno-mundo, a radical contingencia e finitude da existencia humana. Angústia, morte, consciência, culpa e resolução, liberados de seu sentido metafísico, deverão poder desocultar tal situação e conduzir o Dasein para o seu m o d o de ser originário, enfim, para si mesmo. Palavras chave: cotidianidade, propriedade, angústia, ser-para-a-morte, Dasein. Abstract: The article intends to show of what form Martin Heidegger understands the way of being of the Dasein in its quotidian and to present the existential concepts that make possible the overcoming of this state, in the direction of the most proper p o s sibilities. In the quotidian, which is characterized by the impersonality, what remains occult is exactly the being-in-the-world, the radical contingency and finitude of the human existence. Anguish, death, conscience, guilt and resolution, set free from their metaphysical sense, will have to be able to disclose such situation and to lead the Dasein to his way of being original, ultimately, for itself. Keywords: quotidian, property, anguish, being-to-the-death, Dasein. Resumen: El artículo pretende mostrar de qué forma Martin Heidegger comprende el modo de ser del Dasein en su cotidianidad y presentar los existenciales que posibilitan la superación de este estado, en la dirección de posibilidades más propias. En la cotidianidad, que se caracteriza por la impersonalidad, lo que permanece oculto es exactamente el ser-en-el-mundo, la radical contingencia y finitud de la existencia humana. Angustia, muerte, conciencia, culpa y resolución, liberados de su sentido metafísico, deberán poder desocultar esta situación y conducir el Dasein hasta su m o d o de ser originario, en fin, para sí mismo. Palabras clave: cotidianidad, propiedad, angustia, ser-para-la-muerte, Dasein.

* Recibido en septiembre de 2007.

em geral e inicialmente. dessa forma. Neste estado. Heidegger tem em vista a possibilidade de reconduzir o Dasein a si mesmo. na qual ele reúne o resultado de muitos anos de estudo e com a qual projeta a continuidade do seu pensamento. vive a vida. mostrar qual o papel que cumprem em Ser e Tempo os existenciais da angústia e da morte. Por isso é preciso enfatizar que o que Heidegger está mostrando é que. decaído de suas possibilidades próprias. naquilo que conhecemos de nós e da realidade. precedida por uma analítica da existencia. Procuraremos. cada um é como o outro e não sabe que o . de perturbarem a lógica do impessoal que comanda a vida cotidiana. de inicio e na maioria das vezes. Dentro da analítica existencial. chamado Dasein. É como se o ser humano estivesse de algum modo adormecido ou determinadamente habituado ao que acontece a ponto de nao ter mais acesso á dimensão originária de si mesmo e dos demais entes. O escopo da obra. Neste sentido é preciso situá-los constantemente no contexto mais geral da obra. A ontologia é. afirmado desde o inicio. Angústia e poder-ser próprio O Dasein assume. Impera uma normalidade. a partir de possibilidades queja sao dadas na abertura do mundo.122 C E Z A R LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO Consideraç õ es Introdutórias Ser e Tempo é urna das principais obras de Martin Heidegger. nas suas possibilidades mais próprias e auténticas. no envolvimento com seus afazeres e assinalar para a possibilidade de se poder efetivar um afastamento em relação a esse modo normal de existir. ao fato originário de que ele é ser-no-mundo. Heidegger vai fazer uso da angústia e do ser-para-amorte como possíveis despertadores. do Dasein. para alcançar a autenticidade. que é sua abertura. um modo habitual e familiar de proceder e compreender que rudo nivela e que expulsa o imprevisível e originário. naquilo que se mostra. se oculta uma dimensao fundamental e fundante. pelo fato de introduzirem uma certa desordem na ordem. Heidegger encontra na 'angústia' e na 'morte' aquilo que tem o poder de quebrar com este estado e de recolocar o Dasein no seu ser de possibilidades. dessa forma. é tornar novamente transparente a questão do sentido do ser e o caminho adotado para tal é a análise do ente que compreende o ser. mas somente ajudar a elucidar o modo como o ser humano se encontra absorvido na cotidianidade. mantendo-se assim. Portanto. a existencia impessoal no cotidiano e guia-se pelas possibilidades que esta oferece. que é descrição fenomenológica do ente que conhece. Nao será intuito do presente texto acompanhar os diversos problemas com que Ser e Tempo lida. enquanto ser-no-mundo.

Id. ele poderá ser posto á luz na totalidade de suas determinacoes existenciais. p. a compreensão e o cuidado se dão a partir de um modo deficiente. A fuga de si mesmo é uma das características fundamentáis do modo de ser cotidiano. manifesta uma espécie de fuga do Dasein ente si mesmo como poder-ser-si-mesmo-próprio" . achamos irritante o que se deve considerar irritante" . vemos e julgamos sobre literatura e arte como 'a gente' vê e julga. Ela é um fenômeno que difere do medo (Furcht) no sentido de que este último tem sempre um algo diante do qual acontece. O ponto de partida para realizar esta análise é a decaída. Na angústia a totalidade entra em colapso e desnuda a condição humana. que se sustenta exatamente na ocupação com as distrações e ações sem fim.. O Dasein é absorvido pelas preocupações do dia-a-dia e flutua ao sabor das modas e tendências da multidão ficando. Ser y Tiempo. em virtude de sua suposta evidência e obviedade. lemos. Diz Heidegger que "a absorção no impessoal e no 'mundo' com que nos ocupamos. na superficialidade. portanto. 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 123 é. de algo que libere o encobrimento e essas possibilidades próprias. pois o que a ameaça nao é identificável com qualquer ente que esteja em algum lugar. da sua condição de ser-no-mundo. mas também deverá mostrar o "fundamento fenoménico para a captação explícita da totalidade originária do ser do Dasein" . 1 Na cotidianidade. O que acontece é que diante dela a totalidade de remissões. Ibid. 1998.R E V I S T A P H I L O S O P H I C A V O L . Id. Martin. Rivera. S. a totali- 1 2 3 HEIDEGGER. Torna-se necessário verificar se há alguma disposição compreensiva na qual o Dasein tenha um acesso privilegiado a si mesmo. Heidegger propõe a angústia (Angst) como essa disposição afetiva que reúne as condições necessárias para realizar esta abertura do Dasein para si mesmo. Esse modo de lidar encobre o modo de ser do Dasein como cuidado e precisa. 207. p. p. Esse acesso privilegiado deverá poder superar as manobras do cotidiano impessoal. Santiago do Chile: Editorial Universitária. Com ela. Ibid. 205. que nao permite ser questionado. E. Jorge. portante. tem um 'ante quê?' determinado. no qual a compreensão é mantida na medianidade. mas também nos afastamos das 'grandes multidões' como 'a gente' deve. propiciadas pelo impessoal. Essa ocupação exatamente encobre o fato do Dasein estar fugindo de si mesmo.A. 2 Mas como a angústia abre de forma privilegiada o Dasein enquanto serno-mundo? E como revela o cuidado como o ser do Dasein? No parágrafo 40 e seguintes Heidegger irá trabalhar essa questão. a . A angústia não tem um 'ante quê?' determinado. 3 Aí que entra o papel da angústia como uma disposição afetiva fundamental. Trad. Heidegger descreve este estado mostrando que nele "no divertimos e entretemos como 'a gente' se diverte. 2 Edição. 151.

O 'ante quê' a angústia se angustia é um 'nada'. o 'ante quê' da angústia é o mundo enquanto mundo e. assim. Ernildo. A angústia o abre para o seu ser-possível. Martin. Heidegger diz que "o mundo adquire o caráter de uma total insignificância" . ou seja. mesmo dos entes que são ser-com. em virtude desta falta de significatividade do intramundano. com isso. p. 59. a sua mundanidade. Desvela-se nela a ausencia de fundamento do Dasein. Ela "é a passagem da falsa familiaridade á estranheza verdadeira do Dasein em face de si mesmo. 82. p. Trad. 209.124 CEZAR LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO dade dos entes perde a importancia. Nela "se desvela a dimensão vazia dos entes. O Dasein é "sem fundo. HAAR. no vazio de sentido. é abissal.ensaios sobre a desconstnição. 1990. Ela como que isola e singulariza o Dasein para o seu ser-no-mundo. só segue impondo-se todavía o mundo em sua mundanidade" . p. Acontece o desencobrimento do mundo. 4 Na angústia nos foge o sentido que os entes tomaram na totalidade de remissões. Haar diz que a angústia faz "comunicar o nada e o ser" . 2000. 5 6 7 Se a angústia corta a possibilidade do Dasein compreender-se a partir dos entes do mundo. o seu próprio ser-no-mundo. no nada transluz o ser como o nada dos entes" . 69. 208. Ser y Tiempo. Introdução ao Pensamento de Martin Heidegger. Ela "revela seu ser livre para a liberdade 4 5 6 7 8 9 Id. para aquilo que ele pode ser a partir unicamente de si mesmo. Lisboa: Instituto Piaget. Porto Alegre: E D I P U C R S . o regresso a si mesmo radicalmente inquietante como radical poder-ser" . H A A R . Porém. então o Dasein não pode compreender-se a partir do impessoal. p. Santiago do Chile: Editorial Universitária. evidenciando a imperceptibilidade cotidiana do mundo. Heidegger e a essência do homem. Na angústia os entes caem no nada. Porto Alegre: Edipucrs. H E I D E G G E R . p . O que se abre na angústia é o mundo enquanto mundo. STEIN. como se o nó que amarrava os entes na relacao uns com os outros se desfizesse e o Dasein. Ana Cristina Alves. Michel. Heidegger e a essência do homem. ao contrario do que a cotidianidade sugere. na medida em que a fundamentação a que ele remete é pura possibilidade" . Assim. 8 9 Enquanto ente que compreende. Michel. dessa forma. mas que "o ente intramundano é em si mesmo tão inteiramente insignificante que. tudo se desmancha. . o Dasein se projeta em possibilidades. Lisboa: Instituto Piaget.A. p. STEIN. Ibid. 82. Diferença e Metafísica . 1990. Isso também não significa que o Dasein perca o mundo. mas um nada que diz que nao é nenhum dos entes abertos no mundo ou a sua totalidade. Ernildo. o afasta dos envolvimentos com os quais ele se identifica para. caísse no nada. S. 1998.. colocálo diante do seu próprio poder-ser. da medianidade da cotidianidade. 2002.

Santiago do Chile: Editorial Universitária. p. p. 210. assim. Ser y Tiempo. encobrindo seu ser-no-mundo. Isso porque a angústia revela. o "Dasein descobre-se. pois está sempre em fuga de si mesmo.A. afasta a familiaridade que o Dasein tem tanto consigo mesmo como com os demais entes. Em Ser e Tempo Heidegger afirma que só através da angústia se dá uma abertura privilegiada. de ter de ser e torna-o novamente estranho para si mesmo. e também para a questão do cuidado. 212). no impessoal e na sua familiaridade. S. é responsável pelo seu ser. no entanto. abre e mostra para o Dasein o ter-que-ser. Afastando da desfiguração que a identificação com o ente intramundano produz. A angústia.R E V I S T A P H I L O S O P H I C A V O L .. num ambiente familiar. a busca de familiaridade e de segurança na cotidianidade é uma fuga da radical situação de estar jogado no mundo e de estar entregue a si mesmo. Martin. 1998. Santiago do Chile: Editorial Universitária. A angústia apresenta a decaída. Ela desvela o fato de o ser do Dasein estar entregue a si mesmo. Na angústia. abre ao Dasein o mundo enquanto mundo e o seu próprio ser-nomundo. sendo. 2 1 1 . ou ainda. 13 12 O fato de só raramente se angustiar mostra que o Dasein está em geral no estado interpretativo do impessoal e por isso está habitualmente oculto para si mesmo no seu caráter de próprio. o Dasein tem muito mais freqüentemente m e d o do que angústia. 1993. A singularização (Vereinzelung) que ela propicia retira da decaída e revela a possibilidade de ser propriamente ou impropriamente. 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 125 de escolher-se e tomar-se a si mesmo nas mãos" . PASQUA. acontece é que poucas vezes o Dasein se angustia. 1998. seguro e tranqüilo de si mesmo. nele está em jogo seu próprio ser. p. p. Mais originário é o Dasein no estranhamento. livre para uma autêntica existência" . a angústia introduz a estranheza total. portanto. sendo. Por causa do predominio do cotidiano.. Hervé. a angústia mostra as possibilidades fundamentais do Dasein como sao em si mesmas. Cf. Martin. H E I D E G G E R . apesar de toda disposição afetiva abrir o ser-no-mundo como totalidade. S. Medo para Heidegger representa "a angústia caída no 'mundo'. Lisboa: Inst.A. O Dasein. O que. Com isso Heidegger nos mostra que o fenômeno mais originário não é a absorção no público. Introdução à leitura de Ser e Tempo de Martin Heidegger. Ela mostra que a ausencia de necessidades. 98. Piaget. . Ser y Tiempo. como diz o próprio 10 11 12 13 HEIDEGGER. no não se sentir em casa. 11 10 Se na cotidianidade o Dasein se sente em casa. angústia imprópria e oculta enquanto tal para si mesm"(Ser y Tiempo. o que nos remete ao fato de ele já sempre estar jogado (Geworfen). retira da absorção na cotidianidade.

Santiago do Chile: Editorial Universitaria. algo que ainda lhe falta. a m o r t e nao é s i m p l e s m e n t e n e m m e s m o primordialm e n t e algo q u e a c o n t e c e ao final da vida da pessoa. Quando o Dasein se relaciona de modo involuntário com suas possibilidades. 215. em todo caso. nao é sua totalidade. um ser de possibilidades. Aí se mostra na angústia o abandono do Dasein a si mesmo e a libertação para o poder-ser mais próprio. pois Em primeiro lugar. Id. Só que ele mantém encoberta a não familiaridade e a estranheza fundamental através da adesão à impessoalidade. cabe-lhe um ainda-não. Enquanto o Dasein é. Tem sempre algo pendente. Há razões significativas para que Heidegger trate da morte. 1998. A consciência que o Dasein t e m de q u e vai morrer. Ibid. Mas ele também já está sempre empenhado com as ocupações no mundo. subsiste a possibilidade de o Dasein "comportar-se também involuntariamente com relação a suas possibilidades. sendo livre para o poder-ser próprio. Martin.. ele é sempre um antecipar-se-a-si-mesmo (Sichvorweg). entrega-se ao impessoal. para a possibilidade da propriedade e da impropriedade. como de fato sucede de modo imediato e regular" . p. significa que o ' m o r r e r ' . recebendo. Ser y Tiempo. de acordo com Inwood. E. e sem esse. Ibid. as possibilidades de escolha já se encontram antecipadamente restringidas ao ámbito previamente aberto e recomendado no cotidiano. como diz Heidegger no parágrafo 46. Já ficou claro que pelo fato de antecipar-se a si mesmo o Dasein subsiste na possibilidade de "ser livre para possibilidades existentivas próprias" . p o r t a n t o não decaído de forma indiferente na existência. pois com isso o próprio ser lhe seria retirado. . já se precedeu pela compreensão. nao haveria mais o Dasein. Nesse caso.A. Esse poder-ser mostra que o Dasein já sempre se antecipa a si mesmo. ou seja. ou a opção pelo impessoal. S. o si mesmo. Id. suas possibilidades a partir do mundo descoberto pela interpretação pública. até o fim. 2 1 3 . continua estando em jogo seu próprio ser. H E I D E G G E R . no entanto. 15 16 14 Morte e poder-ser próprio O Dasein é sempre. 215. Enquanto o Dasein é. pode ser impróprio. a atitude do Dasein c o m relação ao morrer ou o fato de 'estar a c a m i n h o de / c a m i n h a r p a r a ' sua própria m o r t e impregna 14 15 16 Cf. Mas. p. p. Nesse sentido.126 CEZAR LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO Heidegger . O pendente nao lhe pode ser retirado. de q u e p o d e falecer a q u a l q u e r momento. para a escolha de si mesmo a partir de si mesmo...

do pendente.R E V I S T A P H I L O S O P H I C A V O L . o Dasein já é também seu ainda não. a morte assenta os fundamentos para que se possa falar do tempo. Ibid. 2004. Sao Paulo: Edicoes Loyola. o Dasein. Heidegger. E. Heidegger testa inicialmente a hipótese de que tal possa ser conquistado através da experiência da morte dos outros. transformação da morte em um ente simplesmente dado. à luz da consciéncia. 19 l8 Torna-se fundamental analisar e conquistar um conceito existencial da morte. pois ele nao está disponível. a pessoa vê sua situação e as possibilidades que esta apresenta e decide. não se pode calcular antecipações. em terceiro lugar. Mas isso logo se mostra impossível. tais como a biologia. Ibid. aquilo que deverá ser. 9 1 . alcançar-se o todo do Dasein. enquanto é. Nesse sentido. terá esses momentos desentranhados através do fenómeno da morte. torna-se 17 I N W O O D . p. evitar o adiamento perpétuo e poder pensar o tempo de forma original.. no seu poder-ser mais próprio. Se tal acontecesse. A consciência da morte. na qual ninguém pode ser substituído. 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 127 a molda toda a sua vida. 18 . Para determiná-lo. é algo absolutamente pessoal. 17 Ainda segundo Inwood . Nesse sentido o ainda-não é caracterizado como uma iminência (Bevorstand). visto que a morte é sempre uma experiência pessoal. já é também o seu fim. singular. o chegarao-fim. A morte dos outros não tem. Portanto. O Dasein sendo. no parágrafo 47. 87. teologia da morte e outras. Michael. deverá individualizar o Dasein. à mão como os outros entes. pela faticidade (já-ser-em) e pela decaída (ser-junto-a). Uma vida sem a perspectiva da morte seria uma vida de perpétuo adiamento . condições de tornar o fenómeno da totalidade fenomenologicamente acessível. Por ser um acontecimento solitário. portanto. Na morte. p. E esse fim. " Id. portanto. No parágrafo 50 o autor vai mostrar como o ser do Dasein. Id. o anonimato do 'a gente' das possibilidades próprias. a análise existencial desse fenómeno deverá preceder as questões das ciências ônticas. liberta do impessoal (Man). Mas essa interpretação do ainda-não. na sua finitude. psicologia. Nesta análise. que se caracteriza pela existência (antecipar-se-a-si-mesmo). também "a maneira como organizo minha vida depende de minha certeza quanto ao fato de que vou morrer em algum momento e de minha incerteza com relação a quando vou morrer" . também não é adequada. com ela.. pois desvia a interpretação para o simplesmente dado. haveria uma objetivação morte. pois nela está sempre em jogo o ser próprio de cada Dasein. para verificar a possibilidade de. assumir uma possibilidade. Autenticamente. um segundo motivo é o fato de que a morte separa o auténtico do inautêntico. p. Cf. Poder-se-ia pensar que. 86 e 87.

Decaído. 20 21 O que se verifica é que a cotidianidade lida com a morte transformandoa num ente disponível através do falatório. está absorvido no mundo de suas ocupacóes. ela deve também se tornar visível na cotidianidade. Na cotidianidade a angústia transforma-se em medo.. constrói-se uma tranqüilidade indiferente. e nao a última possibilidade. enquanto que o ser-no-mundo é o "ante qué". encobrindo a condição de jogado. como aquele medo que sucede diante de um acontecimento qualquer que ofereça perigo. O poder-ser radical do Dasein é o "porqué" da angústia. É como se a morte fosse algo conhecido. Santiago do Chile: Editorial Universitaria. p. o que prova o fato de se estar em fuga diante dela. pois ele está remetido ao seu poder-ser mais próprio.128 CEZAR LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO iminente para si. a morte é conhecida como um acontecimento constante. que mergulha na ambigüidade. o si mesmo na cotidianidade se dá no modo do impessoal. como um "evento habitual dentro do mundo" . O que acontece é que ele nao tem em geral um saber expresso sobre essa sua condição. Diante desse fato. . a interpretação da morte altera seu sentido originário. p. ainda que apareça de modo impróprio. em primeiro lugar. que aliena o Dasein do seu poder-ser mais próprio. que é irremissível e insuperável. S. Dessa forma a cotidianidade se caracteriza pelo encobrimento e pela fuga da morte. ela sobrevém no modo da falta de surpresa. compreende-a de forma imprópria. Diante da possibilidade da impossibilidade do existir. na convivência. Enquanto ser-com. No modo concreto com que ela se dá na cotidianidade.A. Essa demonstração deverá ser conduzida pelas estruturas da cotidianidade conquistadas na primeira seção. Se a morte faz parte da constituição do Dasein. A morte tornar-se um acontecimento impessoal. É a angústia que abre e torna patente o ser jogado na morte. de modo que ela é parte do ser-no-mundo. "O impessoal justifica e acrescenta a tentação de encobrir o mais próprio ser-para-a-morte" . revela-se a possibilidade mais própria. garantindo dessa forma o seu encobrimento. 2 7 3 . No início e na maior parte das vezes o Dasein foge do mais próprio ser-para-a-morte. Ser y Tiempo.. Na decaída. que anula todas as possibilidades. as remissões aos outros Daseins ficam cortadas. 273. Nela o Dasein está jogado. com a conseqüente incapacidade para tolerar a angústia diante dela. Assim. Diante da morte impessoal. como mostra o próprio Heidegger no mesmo parágrafo. O que sobre ela se diz é que'morre-se'. entregue á sua própria morte. Assim como os outros eventos que acontecem. Ibid. Id. na interpretação pública que se manifesta no falatório. Nesse estado o Dasein interpreta para si mesmo o seu ser-para-a-morte. Martin. o seu existir fático como ser-no-mundo. 1998. a 20 21 H E I D E G G E R . freqüentemente reprimindo ou trivializando a possibilidade pessoal.

I.. Id. o Dasein já está sempre na possibilidade de nao ser mais. SAFRANSK. Ou. . aliás. 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 129 morte é admitida como certeza. que libera o nosso mais próprio poder-ser" . caracterizar o ser-para-a-morte como um poder-ser do próprio Dasein. Santiago do Chile: Editorial Universitaria. Ser y Tiempo. Ela deve sim. Mas. "compreender a morte. mas uma certeza impessoal. a tornaria objeto sobre o qual a vontade poderia dispor e planejar. é ir ao seu encontro numa decisão antecipadora. A filosofia contemporánea: trajetos iniciais. p. num modo impróprio de tratar a morte. Cf. E é "justamente esse anteciparse-a-si-mesmo que torna possível pela primeira vez o estar voltado para o fim" .R E V I S T A P H I L O S O P H I C A V O L . que só tem sentido quando o cuidado se conecta com a morte. um reconhecimento ambíguo da certeza. 172. já que espera é sempre espera de algo que se antecipa na expectativa. 26 25 22 23 24 25 26 Id. p. O modo próprio deverá poder superar a tendência de fugir e encobrir a possibilidade pessoal da morte. mas também ao mesmo tempo não. Ibid. E. 22 23 24 Já sabemos que faticamente o Dasein encontra-se decaído na cotidianidade. É sim. É. 1991. Ibid. Benedito. Martin. abrem-se as condições de tratar da possibilidade de assumir propriamente o ser-para-a-morte. fulcro das escolhas existenciais. ser "compreendida em toda a sua força como possibilidade.. Ela fica indeterminada quanto ao seu 'quando' e. Sao Paulo: Geração Editorial.A.um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. interpretada como possibilidade e. possibilita uma ocupação com as possibilidades do impessoal que encobrem as possibilidades próprias. Ao mesmo tempo. S. H E I D E G G E R .. um modo possível. 279. Heidegger . um modo em que o Dasein se extravia. enquanto ser-para-a-morte. Rüdiger. São Paulo: Editora Ática. enquanto possibilidade extrema. por isso. Para que isso seja possível. portanto. enquanto possibilidade extrema. Heidegger diz que é necessário em primeiro lugar. que não acontece só no fim da vida. 1998. na medida em que o Dasein é um ente que se encontra decaído. Aí o "serpara-a-morte funda-se no cuidado" . que não atinge o Dasein singular. p. 279. mas que é a "maneira como a vida se cumpre" . portanto. Também não é uma espera. 111. Não se resolve no cálculo do seu quando e do seu como. sem que esse seja um modo necessário de ser. p. como diz Benedito Nunes. Interpreta-a a partir da compreensão comum do impessoal. o que. possibilidade extrema. §53. N U N E S . tal não implica na realização efetiva da possibilidade e nem pode ser um simples pensar sobre ela. Chegamos assim à questão do ser-todo. como uma possibilidade especificamente sua. Na fuga cotidiana temos um modo impróprio de ser-para-a-morte. no sentido de que se está certo dela.

certa de si m e s m o e m o v i d a pela angústia: a liberdade para a m o r t e . 1998. na qual ele sempre tem de manter-se. no qual seu próprio ser está em jogo. É insuperável no sentido de que abre para a capacidade de suportar o caráter insuperável que ela comporta. Além disso. Segundo ele pode-se dizer que a t e m p o r a l i d a d e s u r g e na antecipação r e s o l u t a p e l o Dasein da m o r t e . visto que a temporalidade deverá tornar acessível o Dasein no seu ser.A. p . p . certa e indeterminada. pois na antecipação ela se torna possível como poder-ser mais próprio.. de acordo com nosso autor . Martin. Introdução a Heidegger. S. VATTIMO. liberdade fáctica. p. revela sua dispersão na cotidianidade e lhe abre o seu ser como possibilidade. Urna antecipação que não se orienta por nenhuma medida. Lisboa: Instituto Piaget. 285. § 5 3 .130 C E Z A R LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO em tal comportamento em relação a ela. Id. . De acordo com Vattimo. H E I D E G G E R . Ser y Tiempo. p. Heidegger assim resume o que dissemos até agora: a antecipação r e v e l a ao Dasein o fato de estar p e r d i d o no i m p e s s o a l e o c o n d u z p a r a a p o s s i b i l i d a d e de ser s i . nisso.. Martin. rompendo assim todo enrijecimento de que a existencia já foi vítima. 53. Santiago do Chile: Editorial Universitaria.m e s m o s e m o a p o i o p r i m á r i o da p r e o c u p a ç ã o o c u p a d a . Santiago do Chile: Editorial Universitaria. 1996. É irremissível. mas que libera o fenómeno em si mesmo. levando-o a compreender-se enquanto poder-ser que se constitui no projetar-se. a antecipação da morte "equivale antes à aceitação de todas as outras possibilidades na sua natureza de puras possibilidades" . é levado a assumir a responsabilidade pelo seu próprio ser. caracteriza-se por ser própria. suportada como possibilidade" . I b i d . É própria porque abre ao Dasein o seu mais próprio poder-ser. Desencobre o Dasein como o ente que é ser-no-mundo. livre das ilus5es do i m p e s s o a l . S. porque o Dasein singular é reivindicado através dela e. . o que é importante. 2 8 1 . Ibid. é certa. 28 29 27 A possibilidade da morte. Gianni. 31 30 Boutot vai estabelecer uma relação entre a morte e a temporalidade. Cf. Assim. insuperável. a antecipação abre o Dasein para suas possibilidades mais próprias. 1 9 9 8 . Id.A. Ser y Tiempo. A postura própria é então urna 'antecipação da possibilidade'. irremissível. e 27 28 29 30 31 H E I D E G G E R . m a s d e sê-lo n u m a liberdade a p a i x o n a d a . 282.. A disposição afetiva que mantém aberto a morte como constante ameaça é a angústia. Mas ela é também indeterminada em sua certeza. A angústia abre a possibilidade extrema. representa uma ameaça constante para o Dasein. evitando a fuga. Nessa liberação o Dasein mesmo "abre-se para si mesmo em termos de sua possibilidade mais extrema" .

Alain. Martin. 42. visto que estar em meio ao impessoal e interpretar a partir daí é sua condição enquanto decaído na faticidade. 288.A. não se limitando mais às escassas possibilidades que o impessoal lhe abre. Id. É desde o impessoal que se dá essa conversâo para o poder-ser próprio. Abre para si mes32 36 33 34 35 36 BOUTOT. culpa e resolução É preciso encontrar um testemunho do poder-ser próprio do Dasein. Como diz ele. ou seja. 1998. Na cotidianidade o Dasein já sempre se extraviou. p. que deverá ser investigada até seus fundamentos. mas sim que o "ser si-mesmo próprio determina-se como uma modificação existenciária do impessoal" . sejam elas tarefas. Nela já estâo determinadas de antemão todas as suas possibilidades. enquanto fenómeno do Dasein. o Dasein deverá poder escapar do 'a gente'. 288 e seguintes. É preciso inverter. para poder proceder á escolha própria. S. Mas isso nao significa uma transposição do Dasein para outro ámbito. Nela o Dasein retoma a si mesmo de dentro do impessoal. § 54. nao pode ser determinado pois. 287. através de uma decisão. 32 Consciência. p. Portugal: Publicacóes EuropaAmérica Lda. regras. mas a origem da temporalidade . p. Santiago do Chile: Editorial Universitaria.. finita. no qual opera-se. a "reparação da falta de escolha" . 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 131 é.. Mas para poder encontrar-se. Cf. Cabe também esclarecer 'como' o Dasein encaminha-se autenticamente na direção da sua morte. o Dasein precisa antes encontrar a si mesmo. a relação estabelecida tradicionalmente entre a mortalidade e a temporalidade: a mortalidade não é a conseqüência. Ser y Tiempo. mas que seja encontrado nele mesmo e por ele mesmo. o que nos remete para os existenciais da abertura (disposição afetiva. é preciso que ele seja mostrado em seu possível ser próprio. enquanto perdido no impessoal. HEIDEGGER. O que se intenta agora conquistar é a possibilidade de escolhas próprias. Introdução à filosofia de Heidegger. Ela fecha o poder-ser do Dasein. como mostra Heidegger . nesse caso. Quem escolhe.. enquanto que o próprio mundo do ser-no-mundo fica inacessível. eleitas pelo 'si-mesmo'. No impessoal o Dasein não teria de fato uma consciência. critérios para avaliação e o modo de ocupar-se e preocupar-se no mundo. precisa de um testemunho de tal possibilidade 33 34 35 Tal testemunho Heidegger encontra na consciência. Ibid. ou é como todo mundo. 1991. neste ponto de vista. nem responsabilidade ou culpa. elege as possibilidades. Ibid. Id. a consciência abre o Dasein. . Indo antecipadamente em direção á sua morte.REVISTA P H I L O S O P H I C A V O L . Ibid.. Cf. Portanto. Id. a este título. compreensão e discurso). p. é um 'ninguém'.

Id. 38 39 A que chama a consciência? Ao si mesmo. 97. Michael. . r e s p o n d i a o c h a m a d o d a C o n s c i ê n c i a . quem chama. . Esse chamado o atinge na sua cotidianidade. e é a essa escolha que a Consciência m e c h a m a . 2 0 0 4 . ou seja. 40 urna C o n s c i ê n c i a não me diz q u e o p ç e õ s específicas escolher ou evitar. A n t e s de p o d e r escolher. 37 Pergunta-se agora: quem é atingido pelo chamado da consciência? O Dasein mesmo é o próprio interpelado no chamado da consciência. Esse apelo refere-se ao fato do Dasein tomar sobre si a responsabilidade do seu poder-ser si-mesmo. S ó q u a n d o optei p e l a escolha. E. ma c o n v o c a . ou seja. "inesperada- 37 38 39 40 41 Id. I N W O O D . A tarefa que se impõe é interromper a escuta do impessoal. São Paulo: Edições Loyola. . Torna insignificante o barulho provocado pelo impessoal e impede o refúgio nas suas seguranças. longe do falatório e dos equívocos provocados pela curiosidade. ao modo de uma intimação (Aufruf) para despertar para o fato de ser culpado (Schuldigsein). Esse chamado. Como diz Inwood. do modo como é escutado o chamado. 41 Visto que a consciência chama o Dasein para que encontre a si mesmo em meio ao impessoal. Cf. Enquanto poder-ser o Dasein já se encontra em determinadas possibilidades. Cf. Ibid. para suas possibilidades próprias. p o s s o ter u m a C o n s c i ê n c i a " . a agir.. "receber do Dasein mesmo a possibilidade de um escutar que a interrompa" . Ibid. 2 9 1 . I b i d . p . Heidegger diz que 'algo chama' (es ruft). mas a princípio jogado nas impróprias. § 56. e a a s s u m i r a r e s p o n s a b i l i d a d e p o r essa e s c o l h a e essa ação. deverá ser ouvido no silêncio. Convoca para a propriedade mas nao indica o que é necessário fazer para alcançá-la. p . podemos perguntar de onde surge o chamado. Isso porque enquanto sercom o Dasein encontra-se num determinado modo de escuta dos outros. com vistas a um despertar da escuta de si mesmo. t e n h o de optar p o r escolher. com uma voz absolutamente silenciosa. no entanto. 2 9 1 . I b i d . O chamado da consciência é um modo do discurso que se afasta do falatório. q u e a ç õ e s e m p r e e n d e r ou omitir. Id.m e a escolher.. mas nao do chamado em si. p . responde Heidegger . Heidegger. para o chamado da consciência. E os erros nas escolhas sao devidos a problemas interpretativos. des-escuta a si mesmo. enquanto escuta o impessoal. á propriedade. Id. § 56. que é um modo do discurso e tem o caráter de apelo {Anruf). Mas o chama para adiante. provoca nele uma "repentina sacudida" e o conduz em direção a si-mesmo.132 CEZAR LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO mo através do chamado (Ruf). E o que diz ela? Nada. diz Heidegger .

45 A questão que agora se põe é: o que o chamado diz. sem com isso menosprezá-las.R E V I S T A P H I L O S O P H I C A V O L . Id. 295. mas pelo fato de que elas pressupõem aquilo que deverá ser objeto de análise. A angústia. Na experiência comum a consciência fala de culpa. Elas só são possíveis a partir das condições abertas por uma interpretação mais originária e não daquelas hauridas a partir do modo de ser cotidiano do Dasein. A investigação não pode se reduzir ao modo de ser decaído do Dasein.. Na publicidade do impessoal a consciência está estreitamente ligada á questão da culpa. O chamado procede de mim mesmo. Ibid. mas de mais além de mim. encoberta na cotidianidade.. ela deve ser desvincu42 45 44 45 H E I D E G G E R . 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 133 mente e inclusive contra a vontade" . pois no fundo do seu ser o Dasein é cuidado. Ser y Tiempo. na qual o Dasein encontra-se faticamente imerso. Nada que se possa tornar assunto de uma discussão ou de noticia. um projetar-se próprio do Dasein. Essa é a condição fundamental do Dasein. Isso não pode significar que seja oriundo de um ente diferente do Dasein. . totalmente abandonado a si mesmo. comprovações e medições de qualquer tipo. Possivelmente conquistando uma compreensão existencial da culpa é possível descobrir também o que diz a consciência. Heidegger sugere a possibilidade de que provenha do mais profundo do estranhamento do Dasein. Santiago do Chile: Editorial Universitaria. que é evocado através da angustia. Nele o fenômeno nao seria apreendido de forma originária. p. Quem chama nao é o familiar. não se presta para discussões. um ser exterior. coloca seu ser-no-mundo diante do nada do mundo" . a "consciência se revela como chamado do cuidado" . ele angustia-se pelo seu poder-ser. Mas também não pode provir da condição cotidiana. Id. Ele é ser-no-mundo. p. o que se confirma. Não é. 1 9 9 8 . Id.A. Nesse sentido. mas exatamente aquilo que aí fica encoberto. "por ser a mais elementar abertura do Dasein jogado. Assim Heidegger afasta inicialmente as interpretacoes cotidianas. Assim. Nem possibilita um desconhecimento ou um mal-entendido em relação a si mesmo.. nada de que se possa ocupar o falatório. 43 44 42 Aquilo que é oferecido ao ouvido pela consciência. p . a radical estranheza que pode ser revelada na angústia. porque ele nao está totalmente e irrecuperavelmente no impessoal.. Ibid. p. 296. de fora do mundo. Ibid. O chamado que desperta o Dasein provém dele mesmo. E o que é isso? O radical desamparo no qual o Dasein se encontra. S. sem um fundamento último ao qual possa remeter sua existência. em fuga de si mesmo. a partir de si mesmo. Mas ela fala no modo de calar e toma possível. Martin. pela primeira vez. o que faz entender? Já antecipamos dizendo que 'nada'. 296. Cf. 297. no entanto. Enquanto tal. a tradição.

Ser y Tiempo. de qualquer lei ou moral que leve a produzir a culpa. contra a ditadura do impessoal. 2004. p .. ou "fundamento sem fundamento ôntico possível" . 1 9 9 0 . . Ibid.. E. dispor-se para ser-interpelado. por isso. ou seja.A. Ao escutar o chamado. 1 9 9 8 .134 CEZAR LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO lada de qualquer ocupar-se calculante. A culpa "nao é algo a que o Dasein só sucumbe ocasionalmente. quando é auténtico. Ibid. 49 50 O Dasein deverá "fazer-se livre para o chamado: disponibilidade para o poder-ser-interpelado" . Nisso e disso o Dasein já sempre é culpado. de ter de assumir sua própria carga. É a culpa existencial que é condição de possibilidade da moralidade em geral. que deverá ser conquistada no ser do Dasein. S. É um ente jogado. não tenha nenhuma relação com uma culpabilidade mais originária. tem de colocar seus próprios fundamentos enquanto poder-ser que está em questão no cuidado. Id. a existência e a decaída. Cf. A culpa é um estado originário de responsabilidade pelo próprio poder-ser. O chamado da consciência é. 47 48 É exatamente esta condição de fundamento nulo. 3 0 3 . entregue a si mesmo. § 58. Santiago do Chile: Editorial Universitaria. Todo Dasein é culpado. Ele é um fundamento jogado. mas ela está encoberta. a um retorno a si mesmo. que a cotidianidade encobre.) em sua própria gravidade. I N W O O D . Michael. Escolhe ter-consciência. portanto. E. H E I D E G G E R . solo das culpas ônticas. ou seja. 51 46 47 48 49 50 51 Cf. 306. que integra a faticidade. Segundo Heidegger há essa relação. Zeljko.. Martin. p. . para a escolha de si mesmo. o ser do Dasein é cuidado . "repousa (. Isso também nao significa que o fenómeno da culpa. como sabemos. p . por isso mesmo. Heidegger. Id. que nao colocou a si mesmo na existência e que não pode ir mais para trás da sua condição de jogado e que. I b i d . que não pode ser delegado para outrem. um chamado do cuidado. ou a partir do qual ela pudesse ser compreendida. Escutar e compreender o chamado significa então querer-ter-consciência. Está.. L O P A R I C . 187. a um poder-ser que representa o próprio si-mesmo. p . Nesta eleicáo de si mesmo. Sao Paulo: Edições Loyola. fica transparente o seu ser culpado. C a m p i n a s : Papirus. que a disposição afetiva lhe revela como carga" . é fundamento de seu próprio poder-ser. segundo Inwood. Chama a uma supressao da decaída no impessoal. tal com entendido na cotidianidade. mas só o Dasein auténtico percebe sua culpa e age em plena consciência dela" . 98. 46 Há uma culpabilidade originária. § 58. não tem também uma razão última que lhe dite as escolhas adequadas ou uma base externa que o oriente. Id.. ele se abre para o poderser mais próprio. Heidegger Réu: um ensaio sobre a periculosidade da filosofía.

adquire as condições necessárias para deixar os outros também no seu poder-ser próprio. Loyola. chegando a torna-se um 'negócio'. Ir a n t e c i p a d a m e n t e ao e n c o n t r o da m i n h a m o r t e e me projetar ao m e u n a s c i m e n t o o c u p o u o lugar d o apelo a o ' e u . e o fato de eu estar fazendo isso implica que me libertei de seu d o m i n i o .. incluindo outras pessoas. o torna auténtico. ao mesmo tempo. limite do tempo. Heidegger. O chamado abre o Dasein para a sua estranheza essencial. 2004. e sim o situa nela de modo próprio. Santiago do S. no movimento ocupado com as coisas. na disponibilidade para a angústia. p.. 52 Isso está longe da relação que a cotidianidade estabelece com a culpa. no sentido de possibilitar a ultrapassagem da dissolução na qual o Dasein se encontra cotidianamente. Chile: Editorial Universitaria.R E V I S T A P H I L O S O P H I C A V O L . Assim desvela uma gama de possibilidades que não é visível ao Dasein cotidiano. 53 54 55 56 52 53 54 55 56 I N W O O D . O próprio si-mesmo atua em si. p. O Dasein resoluto "se libera para seu mundo" e. 32 [ S E M E S T R E II / 2 0 0 7 ] 135 estou e s c o l h e n d o m i n h a p r ó p r i a vida. assim. Gumbrecht define a resolução como "disposição para se projetar no mundo (. Não o retira do mundo. 100. 1999. Desvela também o "mundo e as coisas que há no âmbito dele. a culpa é objeto de cálculo. Ser y Tiempo. nao acrescentado de fora. 505. Heidegger. mas o desvela de modo distinto do cotidiano. algo que fosse propriamente seu. 1998. Consideraç õ es fináis Ao interpretar a consciência. de outra forma.vivendo no Editora Record. I N W O O D . Hans Ulrich. Mas a resolução nao retira o Asean da sua condição fática. Martin. Nela. O leva exatamente a estar ocupado com os entes á mão e preocupado (solícito) com os outros. 316. Em 1926 . São Paulo: Edições H E I D E G G E R . para o seu fundamento que é projeto. p .. agir apesar da nulidade e absurdidade da existência humana.. 1 9 9 8 .e l e s ' c o m o forma d e d e c i d i r a s c o i s a s . Loyola. Ser y Tiempo. o que significa que a convivência se torna própria. E. de manejo. perdido no eles" . Martin. 314. G U M B R E C H T . Heidegger chama de resolução (Entschlossenheit) o "calado (silencioso) projetar-se em d i s p o s i ç ã o de angústia para o mais próprio ser-culpável ". Michael. 100. 2004.A.A. São Paulo: Edições H E I D E G G E R . Rio de Janeiro: . Santiago do S. n ã o a d e l e s . Heidegger buscou demonstrar algo que pudesse testemunhar o poder-ser próprio do Dasein. p. Michael. a partir da transparência do ser-no-mundo no modo de culpa. Cala o ruído do falatório e abre os ouvidos para o chamado silencioso e o ser-culpado. p.) permeada por uma completa consciência da nulidade do Dasein e da sua culpa primordial" . Chile: Editorial Universitaria.

. com os entes dentro do mundo e inclusive consigo mesmo. da faticidade. 318. Não acontece como no impessoal. O seu projetar não pode ultrapassar as possibilidades fáticas. § 60. Id. do ser-para-a-morte e do chamado da consciência á resolução. Santiago do Chile: Editorial Universitaria. Sao Paulo: Edições Loyola. o chamado da consciência "chama a entrar na situação" . Só poderá ser atestado pela própria resolução. p. Michael. . p . S. I N W O O D . do seu ser-no-mundo. pois ela quebra o ámbito no qual as coisas podem ser objetivadas. calculado. mas é possível operar uma modificação no modo de relacionar-se com o mundo. pois rudo já está sempre decidido. Ou seja. Ser y Tiempo.A. como diz o próprio Heidegger . A resolução coloca o Dasein na sua situação. sobrenado pelo fato de que neles o arranjo cotidiano perde seu sentido. mas descobre o faticamente possível da situação. 57 58 59 H E I D E G G E R . I b i d . Nao se pode retirar o Dasein da sua situação. 57 58 59 Com isso mostramos como Heidegger encaminha as possibilidades do ser-próprio do Dasein. ninguém resolve nada. previsto. pelo ato no qual ela se dá. Neles e através deles o Dasein se abre para o seu ser-próprio. Mas a resolução acontece sem que o Dasein seja retirado do impessoal e do mundo. antecipado. Martin. 1998..136 CEZAR LUÍS SEIBT / PODER-SER PRÓPRIO O que a resolução escolhe não pode ser mostrado. Essa possibilidade foi elaborada através dos existenciais da angústia. Heidegger. 2004. É o instante em que "o Dasein resoluto avalia as possibilidades implícitas em sua situação e faz uma escolha decisiva" . 101. onde nada se resolve.