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O “pensamento fraco” como característica emblemática da pós-modernidade

Tiago da Silva Gomes Pretende-se com este artigo identificar os passos seguidos pelo filósofo italiano Gianni Vattimo (1936- ) para a afirmação do “pensamento fraco como caracter!stica em"lem#tica da pósmodernidade$ conforme apresentado por ele no cap!tulo % (“&iilismo e pós-modernidade em filosofia ) de sua o"ra O fim da modernidade' Vattimo ( considerado um dos e)poentes da “fra*ue+a do ser e sua interpretação de ,eidegger e de &iet+sc-e gan-a cada .e+ mais espaço na comunidade filosófica internacional *ue se ocupa com a *uestão da “pós-modernidade ' /uas o"ras principais são0 O fim da modernidade$ O pensamento débil1 Para além do sujeito: Nietzsche, Heidegger e a hermenêutica e As aventuras da diferen a, pensar depois de Nietzsche e Heidegger! Vattimo afirma *ue o discurso so"re o pós-moderno de.e ser dirigido por um termo introdu+ido por ,eidegger$ o de "er#indung (distorção$ rimettersi)' ,eidegger usa essa pala.ra para indicar algo an#logo 2 $ber#indung (superação)$ mas a pala.ra "er#indung se distinguir# por não possuir nada da Aufhebung (suprassunção) dial(tica e nem de uma tend3ncia de e)clusi.idade do no.o em contrapartida ao .el-o' “4ra$ ( precisamente a diferença entre "er#indung e $ber#indung *ue nos pode a5udar a definir o 6pós7 do pós-moderno em termos filosóficos (V899:;4$ 19<=0 169)' /egundo 9ei)eira (>??60 >11->)$ o termo -eideggeriano tenta descre.er a postura do pensamento ultrametaf!sico em relação com a tradição *ue nos transmite a metaf!sica' @m"ora &iet+sc-e não utili+e esta pala.ra$ "er#indung$ ele ( o primeiro filósofo a desen.ol.er um discurso nesses termos' &esse sentido pode-se di+er *ue$ com &iet+sc-e$ nasce a pós-modernidade filosófica' @m “Humano$ demasiado humano%$ &iet+sc-e enfoca a possi"ilidade de sair da modernidade$ não como superação$ no sentido de criar no.os conceitos$ ou se5a$ de su"stituir a no.idade en.el-ecida por no.as$ seguindo o esp!rito inst#.el da*uela$ mas somente por meio da radicaliza &o das próprias tend3ncias *ue constituem a modernidade ( *ue se sair# dela' A “superando a própria superação$ o “ultrapassamento $ 5# *ue ela ( uma categoria tipicamente moderna' 'e a modernidade se define como a época da supera &o, da novidade (ue envelhece e é logo substitu)da por uma novidade mais nova, num movimento irrefre*vel (ue desencoraja (ual(uer criatividade, ao mesmo tempo (ue a re(uer e a imp+e como ,nica fonte de vida, se assim é, ent&o n&o se poder* sair da modernidade pensando-se super*-la! (V899:;4$ 19<=0 1B1) @ssa radicaliza &o *ue &iet+sc-e propCe$ ocorrer# atra.(s de uma redução (u)mica dos .alores superiores da ci.ili+ação aos elementos *ue a compCe' Dontudo$ essa an#lise *u!mica le.a 2 conclusão de *ue a própria .erdade ( um .alor *ue tam"(m se dissol.e$ pois ela como tal$ ( própria de (pocas em *ue a segurança do -omem ( *uestionada$ o *ue não mais ocorreria na sociedade atual' Dom a dissolução do conceito de .erdade$ a .erdade primeira *ue era Eeus tam"(m se dissol.e$ e$ portanto$ .eus est* morto' (9@:%@:F8$ >??60 >1>)' &a interpretação de Vattimo0 / com esta conclus&o niilista (ue se sai de fato da modernidade, segundo Nietzsche! Pois a no &o de verdade n&o mais subsiste e o fundamento n&o mais funciona, dado (ue n&o h* fundamento algum para crer no fundamento, isto é, no fato de (ue o pensamento deva 0fundar%: n&o se sair* da modernidade mediante uma supera &o cr)tica, (ue seria um passo ainda de todo interno 1 pr2pria modernidade! 3ica claro, assim, (ue se deve buscar um caminho diferente ' (V899:;4$ 19<=0 1B3) A nesse momento *ue se d# o nascimento da pós-modernidade na filosofia e surge o conceito niet+sc-iano do eterno retorno do igual$ isto ($ o fim da (poca da superação$ uma .e+ *ue não -# mais a e)ig3ncia de se pensar o ser so" o signo do novum$ *ue era produto da superação da

mais simplesmente.el encontrar sentido para uma refle)ão pós-moderna sem menospre+ar fatores passados$ isto ($ repensar a partir deles' 4 filósofo italiano afirma *ue tanto .a+ia de conteHdo$ 5# *ue se di+ como algo tão a"strato e fora da realidade' @ssa independ3ncia de *ual*uer fundamento na o"ra Humano.encil-ar definiti. da moral. de &iet+sc-e$ no *ual ele di+0 “Eeus est# mortoG Eeus continua mortoG @ nós o matamosG &ão ( mais necess#rio remontar 2 ideia de fundamento$ pois ela se re.i.amente da metaf!sica$ afirma *ue se de.3-lo com uma atitude diferente' &a segunda parte do te)to supracitado$ Vattimo di+ *ue a "er#indung se d# ao se permanecer com .4$ 19<=0 1<M)' .ira.ento *ue se pode c-amar do nascimento da pósmodernidade parte da morte de .eus anunciada no aforisma 1>= da 4aia ciência.olta do pensamento de . da arte. (ue nos é dado! (V899:.er plenamente a e)peri3ncia da necessidade do erro$ de .est!gios da metaf!sica como de uma doença ou como de uma dor$ da *ual de.4$ 19<=0 1<1)' Por isso$ a rememoração não de. o pensamento n&o remonta 1 origem para dela se apropriar7 ele apenas torna a percorrer os caminhos da err8ncia.eidegger atri"u!do ao pensamento pósmetaf!sico como retomada ou repensamento$ *ue o apro)ima de &iet+sc-e da “filosofia da man-ã ' 8 “re. o ser da realidade! (V899:.4$ 19<=0 <>) Vattimo .e a"andonar o ser como fundamento' &ão -# mais fundamento$ mas a"erturas -istóricas' “4 ser nada mais ( *ue a transmissão das a"erturas -istórico-destinais *ue constituem$ para cada -umanidade -istórica$ a sua espec!fica possi"ilidade de acesso ao mundo (V899:.ar em consideração um outro significado *ue ( o de distorção e *ue se pode l3-lo no significado da con.ida e .3 uma apro)imação do itiner#rio da refle)ão de .! Nos termos de Nietzsche.4$ 19<=0 1<?)' Eesco"rir *ue ( poss!.er a metaf!sica e o 4e-'tell como uma c-ance$ como a possi"ilidade de uma mudança I'''J (V899:. e da Le"erlieferung :a transmiss&o.ontade' @n*uanto a metaf!sica não ( apenas um destino do *ual pode-se somente superar1 tam"(m o es*uecimento do ser est# contido na própria g3nese do ser' “4 ser nunca se pode dar todo em presença (V899:. da 0err8ncia%.re .eidegger com o de &iet+sc-e em *ue o efeito niilista da autodissolução da noção de . o .modernidade (9@:%@:F8$ >??60 >1>)' @ste e.nico ser. para ressaltar (ue n&o se trata de pensar o n&o-verdadeiro.e ser entendida como apreensão do ser como da forma de um o"5eto dado$ mas como não mais presente' O ser se d* a(ui na forma do 4eschic9 :o conjunto do envio ou destino.erdade e da de fundamento$ deste$ tem seu paralelo na “desco"erta -eideggeriana do car#ter “epocal do ser' 9am"(m para . (ue é a . demasiado humano ( c-amada de “filosofia da man-ã $ ( a*uela *ue tem o pensamento não mais orientado com "ase na origem ou no fundamento$ mas na pro)imidade' 5sse pensamento da pro6imidade também poderia ser definido como um pensamento do erro7 ou melhor ainda.4$ 19<=0 1B6) Vattimo afirma estar mais uma .eidegger não ( só a passagem de um plano totali+ante do -omem ao do ser$ mas tam"(m em afirmar *ue o es*uecimento deste$ *ue constitui a metaf!sica$ não pode ser pensado como um erro -umano$ ou se5a$ de sua li.e le.e-se resignar' @ssa resignação$ dada a tais significados$ de.alescença-resignação0 “não se aceita a metaf!sica pura e simplesmente$ como ningu(m se d# sem reser.eidegger$ para se des.nica ri(ueza.eidegger$ o ser não pode mais funcionar como fundamento$ nem para as coisas$ nem para o pensamento' .e+ diante de um esforço para pensar a sa!da da metaf!sica numa forma não ligada 2 superação cr!tica$ mas em decorr3ncia da radicali+ação da an#lise *u!mica$ .as ao 4e-'tell ((poca da imposição da t(cnica) como sistema da imposição tecnológica1 pode-se . da religi&o.ela totalmente dissol.eidegger *uanto &iet+sc-e pensam *ue o fim da filosofia$ em sua forma de metaf!sica$ tra+ como “o"5eto as errKncias desta$ rememoradas numa atitude de “superação ' A a noção de rememoração da o"ra de . mas de encarar o devir das constru +es 0falsas% da metaf)sica. todo esse tecido de erronias (ue constituem a ri(ueza ou.i.i.

'B$ n'13$ 5ulRde+ >??6$ p'>>=->36' .4$ 19<=0 1<M-19?)' @ssa ontologia fraca consiste$ em suma$ em pensar o ser dentro da de"ilidade do pensamento$ conte)tuali+ando-o como acontecimento -istórico e nada mais' Vattimo$ a partir dos parado)os niet+sc-eano e -eideggeriano$ mostra *ue$ partindo-se de uma ontologia fraca$ ( poss!. pretende mostrar a fra*ue+a do pensamento metaf!sico e possi"ilitar a a"ertura de espaço para as demais formas de pensamentos não-metaf!sicos como o da arte e da retórica' 4 pensamento fraco ( a*uele *ue situado no momento -istórico pensa so"re todas as *uestCes$ mas não se fec-a numa interpretação Hnica e determin!stica' @le ( um pensamento a"erto para as possi"ilidades$ pois ( pass!.9endo como refer3ncia 2s "ases de &iet+sc-e e .ai e)plicar$ na terceira parte do te)to$ tr3s caracteri+açCes do pensamento pós-moderno' Primeiramente$ ( um pensamento da frui &o$ pelo fato de *ue a rememoração (Anden9en) não remete a nen-um fundamento (4rund)$ restando somente o uso e o go+o da*uilo *ue ( imediato ao -omem$ e tendo como conse*N3ncia$ *uestCes (ticas ainda pendentes' A um pensamento da contamina &o$ ao passo *ue se a"re a possi"ilidade de se e)ercer a empresa -ermen3utica$ não apenas para o passado$ para a transmissãorecepção dos aspectos epocais do ser$ mas tam"(m para uma contamina &o em relação aos mHltiplos conteHdos do sa"er contemporKneo$ da ci3ncia e da t(cnica e 2s artes$ fragmentando assim a .4$ Gio.erdadefundamento perdem peso' (9@:%@:F8$ >??60 >1>)' A nessa situação$ segundo Vattimo$ *ue se de.e afirmar como sua caracter!stica distinti.erdades “fracas $ regionais e$ portanto restritas' @ por Hltimo$ ( um pensamento da superficialidade do mundo organi+ado pela t(cnica$ isto ($ o 4e-'tell.a o pensamento fraco$ em *ue se propCe como repensamento de todas as *uestCes sem pretender uma superação$ mas sim uma sustentação' Oora de *ual*uer possi"ilidade de se a"soluti+ar um pensamento ou tom#-lo como fundamento$ o pensamento fraco se mostra sem força$ unidade e predeterminação$ pelo fato de *uerer ser ultrametaf!sico$ ou se5a$ .anni' O fim da modernidade0 niilismo e -ermen3utica na cultura pós-moderna' 9rad' @duardo Prandão' /ão Paulo0 .el de *uestionamento' A um repensamento' Por isso$ para Vattimo$ a pós-modernidade$ para se diferenciar da modernidade$ de.erdade fundacional$ forte$ metaf!sica$ em .e tratar de uma ontologia fraca como Hnica possi"ilidade de sair da metaf!sica e pode ser *ue nisso resida$ para o pensamento pós-moderno$ a c-ance de um no.amente -ermen3utica e onde as noçCes de realidade e de .idencia *ue$ depois da dissolução da metaf!sica$ para e.re' 4 acontecimento do ser re.il#+io' Pós-modernidade e niilismo0 um di#logo com Gianni Vattimo' <evista Alceu! Fio de Qaneiro$ .#rias outras .artins Oontes$ 1996' I19<=J 9@:%@:F8$ @.o$ fracamente no.itar uma reapropriação$ -# a possi"ilidade de se pensar a fra*ue+a do ser reinterpretando-o de forma li.'B$ n'13$ 5ulRde+ >??6$ p'>?9->>M' EL8F9@$ 8ndr(' Gianni Vattimo$ int(rprete de .ida e em *ue a ontologia se torna efeti.eidegger e da pós-modernidade' <evista Alceu! Fio de Qaneiro$ .a -ermen3utica' Para o filósofo italiano$ encontram-se$ tanto em &iet+sc-e como em .ela a fra*ue+a do pensamento em si$ o *ual não tem estrutura nem lógica' 4 pensamento$ assim$ ( -erança da dial(tica con5ugada com a diferença$ *ue instaura o nascimento da no.eidegger$ Vattimo . em *ue a metaf!sica se consuma em sua forma mais desen.ol.el uma -ermen3utica fraca$ ou se5a$ ele e.eidegger$ neste Hltimo de modo especial$ a"erturas para a possi"ilidade de uma ontologia fraca$ na pós-modernidade' 8 fra*ue+a ou de"ilidade como atri"uto do pensamento (pensiero debole.i.er na consumação do niilismo' Referências V899:.o$ começo (V899:.