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O direito à cidade

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A qualidade da vida urbana virou uma mercadoria. Há uma aura de liberdade de escolha de serviços, lazer e cultura – desde que se tenha dinheiro para pagar
por DAVID HARVEY

!

ivemos numa época em que os ideais de direitos humanos tomaram o centro do pal co. Gasta-se muita energia para promover sua importância para a construção de um

mundo melhor. Mas, de modo geral, os conceitos em circulação não desafiam de maneira fundamental a lógica de mercado hegemônica nem os modelos dominantes de legalidade e de ação do stado. !ivemos, afinal, num mundo em que os direitos da propriedade privada e a ta"a de lucro superam todas as outras noç#es de direito. $uero e"plorar aqui outro tipo de direito humano% o direito & cidade. 'er( que o espantoso ritmo e a escala da ur)ani*ação nos +ltimos ,-- anos contri)u.ram para o )em-estar do homem/ 0 cidade, nas palavras do sociólogo e ur)anista 1o)ert 2ar3, é a tentativa mais )em-sucedida do homem de refa*er o mundo em que vive mais de acordo com os dese4os do seu coração. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é tam)ém o mundo onde ele est( condenado a viver daqui por diante. 0ssim, indiretamente, e sem ter nenhuma noção clara da nature*a da sua tarefa, ao fa*er a cidade o homem refe* a si mesmo. 'a)er que tipo de cidade queremos é uma questão que não pode ser dissociada de sa)er que tipo de v.nculos sociais, relacionamentos com a nature*a, estilos de vida, tecnologias e valores estéticos nós dese4amos. 5 direito & cidade é muito mais que a li)erdade individual de ter acesso aos recursos ur)anos% é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. 0lém disso, é um direito coletivo, e não individual, 4( que essa transformação depende do e"erc.cio de um poder coletivo para remodelar os processos de ur)ani*ação. 0 li)erdade de fa*er e refa*er as nossas cidades, e a nós mesmos, é, a meu ver, um dos nossos direitos humanos mais preciosos e ao mesmo tempo mais negligenciados. 6esde seus primórdios, as cidades surgiram nos lugares onde e"iste produção e"cedente, aquela que vai além das necessidades de su)sist7ncia de uma população. 0 ur)ani*ação, portanto, sempre foi um fenômeno de classe, uma ve* que o controle so)re o uso dessa so)reprodução sempre ficou tipicamente na mão de poucos 8pense, por e"emplo, num senhor feudal9. 'o) o capitalismo, emergiu uma cone"ão .ntima entre o desenvolvimento do sistema e a ur)ani*ação. 5s capitalistas t7m de produ*ir além de seus custos para ter lucro: este, por seu lado, deve ser reinvestido para gerar mais lucro. 0 perpétua necessidade de encontrar territórios férteis para a geração do lucro e para seu reinvestimento é o que molda a pol.tica
* Publicado em http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-82/tribuna-livre-da-luta-de-classes/o-direito-a-cidade

a regulamentação estatal da . na a)sorção da produção e"cedente que os capitalistas produ*em perpetuamente em sua )usca por lucros. promovendo novos produtos e estilos de vida. mas não conseguiu resolver a crise. finalmente. D onsidere. tanto no pa. então é preciso encontrar novos mercados.tidas. ou então é preciso encontrar mão de o)ra nova através da imigração e investimentos no e"terior. então. e assim por diante. e provocou uma revolução fracassada de tra)alhadores desempregados e de utopistas )urgueses. e o tra)alho pelo desemprego em massa. que permitem ao capitalista superar os concorrentes que utili*am métodos inferiores.concorr7ncia destrutiva<. a ta"a de lucro for muito )ai"a. 6e que maneira. 'e não houver poder aquisitivo suficiente no mercado. e"pandindo o comércio e"terior. 'e. 0 )urguesia repu)licana reprimiu violentamente os revolucion(rios.nuo de novas tecnologias e formas de organi*ação. de capital não reinvestido e de de- semprego.?C. o caso de 2aris no 'egundo >mpério. 'ua maneira de lidar com a situação econômica foi implantar um vasto programa de investimentos em infraestrutura. 5 golpe foi especialmente duro em 2aris. redu*em o tempo de giro do capital e a distância que antes limitava o âm)ito geogr(fico onde o capitalista pode procurar outras fontes de mão de o)ra. que arquitetou um golpe de stado em . a criação de monopólios por meio de fus#es e aquisiç#es e os investimentos no e"terior oferecem sa. 0s inovaç#es definem novos dese4os e necessidades.das. 'e nenhuma das )arreiras acima puder ser contornada. 'e a mão de o)ra é escassa e os sal(rios são altos. o próprio dinheiro pode ser desvalori*ado pela inflação. 0s leis da competição tam)ém levam ao desenvolvimento cont. 0s mercadorias perdem o valor. e em escala europeia.ticos alternativos. o capitalista não conseguir( reinvestir seu lucro de maneira satisfatória. 5 resultado foi a ascensão ao poder de Au. criando novos instrumentos de crédito. ele recorreu & repressão generali*ada dos movimentos pol. e financiando os gastos estatais e privados. 5 capitalista tam)ém deve desco)rir novos recursos naturais. e se proclamou imperador no ano seguinte. dei"ando-o diante de uma crise em que o seu capital pode se desvalori*ar.s como no e"terior.?@? trou"e uma das primeiras crises n. >sso . a mão de o)ra e"istente tem de ser disciplinada.nua e desimpedida. a necessidade de contornar essas )arreiras e e"pandir o terreno da atividade lucrativa impulsionou a ur)ani*ação no capitalismo/ 6efendo aqui que a ur)ani*ação desempenhou um papel especialmente ativo. matérias-primas. 5 ano de . Mas os capitalistas enfrentam uma série de )arreiras & e"pansão cont. 0 acumulação fica )loqueada. ao lado de fenômenos como os gastos militares. enquanto a capacidade produtiva e as m(quinas seguem se depreciando e são dei"adas sem uso.2 do capitalismo. primeiro. ou =apoleão >>>. =o final. 2ara so)reviver politicamente. o que e"erce uma pressão crescente so)re o meio am)iente.s =apoleão Bonaparte.

?O?. 5 senhor quer @.nos stados Qnidos.P@.L-.?@.dos pelas o)ras que ele impôs. e eu quero . veio a consolidação da rede ferrovi(ria. a reconfiguração da infraestrutura ur)ana de 2aris. 2oliticamen- . e envolveu não só a transformação da infraestrutura ur)ana como tam)ém a construção de um novo modo de vida e uma nova personalidade ur)ana.K. a drenagem de pântanos. as lo4as de departamentos. di*endo% . como o Danal de 'ue*. de uma nostalgia daquele mundo que Gaussmann tinha destru.do. le a4udou a resolver o pro)lema da destinação do capital criando um sistema proto3eMnesiano de melhorias ur)anas de infraestrutura financiadas por t. em parte. por meio do consumismo. foi & guerra contra a 0lemanha de Bismarc3 e saiu derrotado. as grandes e"posiç#es N tudo isso modificou a vida ur)ana de modo que ela pudesse a)sorver o di nheiro e as mercadorias. =apoleão >>> chamou Georges.tulos de d. e do desemprego que o acompanhava. a construção de portos grandes e pequenos.. Gaussmann adotou ideias dos planos que os seguidores dos socialistas utópicos Dharles Hourier e 'aint-'imon haviam de)atido na década de . 2aris tornou-se a Didade Au*. como Aes Galles. chegando até o 5riente. Mas foi então que o sistema financeiro especulativo e as instituiç#es de crédito superdimensionadas que)raram.metros de largura. )em como apoio para grandes o)ras.3 significou a construção de ferrovias em toda a uropa. Gaussmann os atirou de volta.?CE.culo primordial para a esta)ili*ação social. 4untamente com a supressão das aspiraç#es dos tra)alhadores parisienses. em . em desespero. o grande centro de consumo.. mas com uma grande diferença% ele transformou a escala em que o processo ur)ano foi imaginado. e. ' altemos agora para a década de . 2ara fa*er tudo isso. foi um ve. todos temiam o que aconteceria depois da guerra.para remodelar 2aris. =o entanto.< le ane"ou os su)+r)ios e transformou )airros inteiros.=ão é )astante larga J. $uando o arquiteto Iacques >gnace Gittorff mostrou a Gaussmann seus planos para uma nova avenida. um dos maiores episódios revolucion(rios da história do capitalismo ur)ano N nascida. 0 enorme mo)ili*ação para o esforço de guerra resolveu temporariamente a questão de como investir o capital e"- cedente.vida.ugFne Gaussmann para cuidar das o)ras p+)licas da cidade. =o v(cuo que se seguiu surgiu a Domuna de 2aris. m .Gaussmann foi demitido: =apoleão >>>. 1econstruir 2aris a)sorveu enormes volumes de dinheiro e mão de o)ra pelos padr#es da época. . e do dese4o de retomar a cidade por parte dos que se viram despossu. a ind+stria da moda. turismo e pra*er: os cafés. Gaussmann entendeu claramente que sua missão era a4udar a resolver o pro)lema do capital e do desemprego por meio da ur)ani*ação. Gaussmann precisou de instituiç#es financeiras e de crédito. acima de tudo. pro)lema que parecera tão intrat(vel na década de E-. 5 sistema funcionou muito )em por uns quin*e anos. =o âm)ito interno.

é )em conhecida.cio dos anos @-. caiu em desgraça. Sam)ém alterou o panorama pol. 2or meio de um sistema de rodovias. 6i*ia-se que os donos da casa própria.tica foi e"igida pelas classes dominantes da época: a história su)sequente do macarthismo e da pol. so)retudo negros. autora de Morte e !ida das Grandes Didades. e procuraram se contrapor ao modernismo )rutal dos . esse processo teve papel crucial na esta)ili*ação do capitalismo glo)al depois de . 5 autor do artigo foi ninguém menos que 1o)ert Moses. em)ora ao custo de esva*iar o centro das cidades e gerar conflitos ur)anos entre aqueles.4 te a situação era perigosa% o governo federal adotava. Moses utili*ou novas instituiç#es financeiras e esquemas tri)ut(rios que li)eravam o crédito para financiar a e"pansão ur)ana. a todos os grandes centros metropolitanos do pa. per. enquanto fortes movimentos sociais com inclinaç#es socialistas haviam surgido na década de E-. Aevado. uma )oa dose de repressão pol. a quem foi negado o acesso & nova prosperidade. acarretou uma transformação radical no estilo de vida.tica da Guerra Hria. seriam menos propensos a entrar em greve. e"pansão para os su)+r)ios e uma reengenharia total.P@L. tra*endo novos produtos. em âm)ito nacional. 0 matéria documentava em detalhes o que ele tinha feito e tentava analisar seus erros. Domo na época de =apoleão >>>. mas procurava recuperar sua reputação como um dos maiores ur)anistas de todos os tempos. ele a4udou a resolver o pro)lema da aplicação do dinheiro.odo em que os stados Qnidos conseguiram impulsionar toda a economia mundial não comunista acumulando déficits comerciais.s. não só da cidade como de toda a região metro politana. so)recarregados de d. =a frente econômica. Moses mudou a escala com que se pensava o processo ur)ano. restava a questão de sa)er de que modo o capital poderia ser reinvestido. desde casas até geladeiras e aparelhos de arcondicionado. 0 chamada su)ur)ani*ação dos stados Qnidos não envolveu apenas a renovação da infraestrutura. Domo na 2aris do 'egundo >mpério.tico. 5u se4a. que depois da 'egunda Guerra Mundial fe* com =ova Ror3 o que Gaussmann tinha feito em 2aris. =o fim dos anos O-. inclinando o voto dos su)+r)ios para o conservadorismo. sse pro4eto conseguiu garantir a esta)ilidade social.vidas. transformação da infraestrutura. 2ara tanto. uma economia nacionali*ada e estava em aliança com a Qnião 'oviética comunista. da qual 4( havia sinais a)undantes no in. pois a casa própria su)sidiada para a classe média mudou o foco de ação da comunidade. na verdade. m . outro tipo de crise começou a se desenrolar% Moses. uma e"tensa avaliação dos esforços de Gaussmann foi pu)licada na revista 0rchitectural Horum. e suas soluç#es passaram a ser vistas como inapropriadas e inaceit(veis. que passou para a defesa dos valores da pro priedade e da identidade individual. tal como Gaussmann. assim como dois carros na garagem e um enorme aumento no consumo de petróleo.P@C. 5s tradicionalistas deram apoio & ur)anista e ativista Iane Iaco)s.

e a mudança radical de estilo de vida que estes sim)oli*avam teve muitas consequ7ncias sociais. criando um movimento para construir um mundo diferente N incluindo uma e"peri7ncia ur)ana diferente.PP?: a argentina de L--. por meio de fenômenos como o agronegócio. agora para a atualidade. a campanha para deter a via e"pressa na margem esquerda do rio 'ena e a destruição de )airros tradicionais por torres e arranha-céus. 2ara Aefe)vre. através da construção de resid7ncias e escritórios no centro das cidades e nos su)+r)ios: ao mesmo tempo. até que todo o sistema capitalista entrou em queda. 5 mercado imo)ili( rio a)sorveu diretamente grande volume de dinheiro.dos. H açamos outro salto adiante. que afirmava que a ur)ani*ação era essencial para a so)reviv7ncia do capitalismo e.nio so)re o campo. mas até recentemente tinha evitado uma que)ra glo)al. começando com o estouro da )olha imo)ili(ria mundial em . o consenso é que o setor imo)ili(rio foi um importante esta)ili*ador da economia. que ia ampliando seu dom. N.m)olo de todos os seus descontentamentos )(sicos.5 pro4etos de Moses propondo uma estética que voltava a valori*ar a vida nos )airros. por e"emplo. 5 capitalismo internacional 4( vinha de uma montanha-russa de que)ras regionais N a crise asi(tica de . mesmo diante de uma incapacidade crônica de utili*ar o capital e"cedente. 0 crise ganhou força no final dos anos O-. portanto. influenciaram a revolta de O?. as casas de campo e o turismo rural. Iunto com a revolta de O? veio a crise das instituiç#es de crédito que tinham alimentado o )oom imo)ili(rio nas décadas anteriores.s. a vida sem alma dos su)+r)ios tam)ém teve papel fundamental nos acontecimentos dram(ticos de . m 2aris. Mas os su)+r)ios 4( tinham sido constru. o aumento do preço dos imóveis N apoiado por uma onda perdul(ria de refinanciamento de hipotecas a um 4uro )ai"o recorde N impulsionou o mercado interno americano de serviços e )ens de consumo. $ual foi o papel da ur)ani*ação para esta)ili*ar essa situação/ =os stados Qnidos. . o direito & cidade tinha de significar o direito de comandar todo o processo ur)ano.PO? nos stados Qnidos. studantes da classe média )ranca.tica e de classes: e que a ur)ani*ação estava apagando as distinç#es entre a cidade e o campo.PTE. )uscaram alianças com grupos marginali*ados que reivindicavam seus direitos civis e uniram forças contra o imperialismo americano. a proclamar que o su)+r)io era o s. entraram numa fase de revolta. 'e o pro4eto de Gaussmann teve papel importante na dinâmica da Domuna de 2aris.PTC. levando as feministas. Hoi nesse conte"to que o sociólogo e filósofo mar"ista Genri AefF)vre escreveu 0 1evolução Qr)ana. em especial após o estouro da )olha da alta tecnologia do fim dos anos P-. insatisfeitos.PPTNP?: a russa de . como a Sorre Montparnasse. com a produção de espaços integrados em todo o território do pa. seguido pela fal7ncia fiscal da cidade de =ova Ror3 em . estava destinada a tornar-se um foco crucial da luta pol.

em princ. Mais de . em parte devido & espantosa integração dos mercados financeiros. 0s consequ7ncias se concentraram. ele se glo )ali*ou.cio am)iental. em lugares como 6u)ai e 0)u 6ha)i. quando não criminalmente a)surdos.cidades chinesas 4( ultrapassaram a marca de . in4ustiça social e desperd. a economia glo)al. 'eus muitos )enef. como Aondres e Aos 0ngeles. ssa escala glo)al torna dif.vidas hipotec(rias N tiveram papel crucial. surgiram no 5riente Médio. Mas o processo ur)ano sofreu uma transformação de escala. milhão de moradores nesse per. assim como em cidades dos pa. 0 Dhina não passa do epicentro de um processo de ur)ani*ação que agora se tornou verdadeiramente glo)al.6 0 e"pansão ur)ana americana serviu para esta)ili*ar. a)sorvendo o e"cesso da rique*a petrol. Saipei e Moscou. tal como todos os outros antes dele. 2ro4etos de megaur)ani*ação espantosos. 5 Banco Dentral chin7s. como 'hen*hen. parcialmente. com foco intenso no desenvolvimento da infraestrutura. m meio a uma en"urrada de imigrantes po)res.pio. se tornaram grandes metrópoles de O a .ses a4udaram a alimentar uma dinâmica capitalista muito parecida com a que se desenvolveu nos stados Qnidos.vel de ostentação.cil entender que o que est( acontecendo é.financeiri*ação< se transformou na chamada crise das hipotecas podres e do valor dos imóveis. e o capital de Gong Vong vem investindo na cidade americana de Baltimore. com os stados Qnidos acumulando enormes déficits comerciais em relação ao resto do mundo e tomando emprestado cerca de L )ilh#es de dólares por dia para alimentar seu insaci(vel consumismo e suas guerras no 0feganistão e no >raque. Booms imo)ili(rios na Grã-Bretanha. . 'eu ritmo se acelerou enormemente depois de uma )reve recessão em . a construção civil disparou em Ioanes)urgo.N como a revenda em todo o mundo de papéis lastreados nas d. semelhante &s transformaç#es que Gaussmann comandou em 2aris.am a dispersão do risco..mercado secund(rio de hipotecas< nos stados Qnidos.milh#es de pessoas. 2ois o )oom da ur)ani*ação glo)al dependeu. 0s inovaç#es financeiras iniciadas nos anos ?. estão transformando a paisagem. na Undia.fera com o m("imo poss. essa onda de .odo.ses capitalistas centrais. 'em controles adequados. que usam sua fle"i)ilidade para financiar o desenvolvimento ur)ano em todo o mundo. por e"emplo. 0 ur)ani*ação da Dhina nos +ltimos vinte anos teve um car(ter diferente. da construção de novas instituiç#es e arran4os financeiros que organi*em o crédito necess(rio para sustent(-la. a tal ponto que a Dhina vem usando quase a metade de todo o cimento mundial desde L---.PPT. e lugares que antes eram pequenas aldeias. enquanto o )anco Goldman 'achs esteve muito envolvido na alta do mercado imo)ili(rio em Mum)ai. !astos pro4etos de infraestrutura. na spanha e em muitos outros pa. m resumo.-.cios inclu. o que não significou elimin(-lo. incluindo )arragens e autoestradas. mas é ainda mais importante que a dos stados Qnidos. teve forte atuação no .

passaram a enfrentar o aumento do custo do transporte para o tra)alho e das prestaç#es da hipoteca. as pessoas compraram a 4uros. Dada fragmento parece viver e funcionar de forma autônoma. 5s resultados estão indelevelmente gravados no espaço das nossas cidades.pidos dos su)+r)ios americanos. =essas condiç#es. e em L--O o pa. em (reas ur)anas divididas e propensas a conflitos. com a aparente formação de . 0té os empreendimentos imo)ili(rios monótonos e ins. 2roliferam os shopping centers.lias chefiadas por mulheres solteiras. 0 crise tam)ém afetou aqueles que. campos de golfe. que pretende vender uma réplica customi*ada da vida nas cidades. que cada ve* mais consistem de fragmentos fortificados. num mundo onde o consumismo. envolve a e"peri7ncia ur)ana contemporânea numa aura de li)erdade de escolha N desde que se tenha dinheiro. est( se partindo em fragmentos diferentes.nios constru. a virada neoli)eral restaurou o poder de elites ricas.pacificação pelo cappuccino<. e a norma é a moradia compartilhada. cada ve* mais. sem poder pagar os preços e"or)itantes da ha)itação nos centros ur)anos. D omo em todas as fases anteriores. a e"pansão mais recente do processo de ur)ani*ação trou"e consigo mudanças incr. nas palavras da socióloga 'haron Wu3in. nas cidades americanas e em torno delas.dos especulativamente: com a crise.s ostentava o homem mais rico do planeta. cinemas multiple" e lo4as padroni*adas.novo ur)anismo<. =esses lugares. aferrando-se firmemente ao que conseguiu agarrar na luta di(ria pela so)reviv7ncia. Bairros ricos dotados de todo tipo de serviços. =os +ltimos trinta anos.tica. Dator*e )ilion(rios surgiram no Mé"ico desde então.veis no estilo de vida. como escreveu o ur)anista italiano Marcello Bal)o.doto no movimento do . 0 tend7ncia pós-modernista de incentivar a formação de nichos de mercado. as ruas viram torrentes de lama quando chove. Semos agora. Darlos 'lim. ao mesmo tempo em que a renda dos po)res tinha estagnado ou diminu. a .nios fechados e espaços p+)licos privati*ados. do. as lanchonetes e as lo4as artesanais. cidadania e pertencimento se tor- . com implicaç#es particularmente graves para os negros de )ai"a renda e fam. X um mundo em que a ética neoli)eral de individualismo.7 primeiro. acompanhada pela recusa de formas coletivas de ação pol. agora rece)em um ant. foram forçados a morar nas semiperiferias metropolitanas. mantidos so) vigilância constante. que continuam a dominar em algumas (reas. nos h()itos de consumo e nas e"press#es culturais. casas padroni*adas em condom. a cidade. como escolas e"clusivas. quadras de t7nis e segurança particular patrulhando a (rea L@ horas. convivem com favelas sem saneamento. os ideais de identidade ur)ana.microestados<. onde a energia elétrica é pirateada por uns poucos privilegiados. 0 qualidade da vida nas ci- dades virou uma mercadoria. se torna o modelo para a sociali*ação humana. inicialmente )ai"os. o turismo e as ind+strias culturais e do conhecimento se tornaram aspectos importantes da economia ur)ana. !ivemos. condom. m especial no mundo em desenvolvimento.

. apoiadas pelos financistas. com as consequ7ncias vistas nos +ltimos anos N revoltas e caos nos su)+r)ios onde se tenta engaiolar os marginali*ados.vel de vigilância e controle militar suficiente para garantir que os movimentos revolucion(rios fossem dominados facilmente.anos para se completar. parece implaus. mas eles aparecem de novo imediatamente em outro lugar J.?TL% =a realidade. em suas próprias e infames palavras. Driou um desenho ur)ano no qual se acreditava N incorretamente.am uma ameaça & ordem p+)lica e ao poder pol.. 0 redistri)uição privati*ada por meio de atividades criminosas ameaça a segurança individual a cada passo. =o entanto. le organi*ou deli)eradamente a remoção de grande parte da classe tra)alhadora e de outros elementos indisciplinados do Dentro da cidade. provocando a demanda popular pela repressão policial. a )urguesia tem apenas um método de resolver o pro)lema da ha)itação & sua maneira N isto é.-. onde constitu. uma ve* que são os po)res. movimentos sociais ur)anos tentando superar o isolamento e remodelar a cidade segundo uma imagem diferente daquela apresentada pelas incorporadoras imo)ili(rias. os desempregados. o mesmo pro)lema. sse método se chama . é que o processo descrito por ngels se repete ao longo da história. G(. 5 ponto mais triste. O investimento capitalista na transformação das cidades tem um aspecto ainda mais le acarretou repetidas ondas de reestruturação ur)ana através da . porém.K 0 mesma necessidade econômica que os produ*iu vai produ*i-los no lugar seguinte. que quase sempre tem uma dimensão de classe.. os imigrantes.8 nam muito mais dif.tico. usando o poder de e"propriação do stado em nome do progresso e da renovação c. as grandes corporaç#es e um aparato estatal local com mentalidade cada ve* mais influenciada pelos negócios.Gaussmann< J. provocando lamentos de movimentos de )airro. 0té mesmo a ideia de que a cidade possa funcionar como um corpo pol.des- sinistro.. 1o)ert Moses .vel. claro. resolv7-lo de tal forma que a solução reprodu*. um lugar dentro do qual e a partir do qual possam emanar movimentos sociais progressistas. ngels 5 a)urguesamento do Dentro de 2aris levou mais de . o que é seguido de pródigos autoelogios da )urguesia por esse tremendo sucesso.tico coletivo. truição criativa<. . como se viu em . os menos favorecidos e os marginali*ados do poder pol.tico que sofrem mais com o processo. Gaussmann arrasou os velhos cortiços parisienses. continuamente. N que haveria um n.ceis de sustentar. 0 viol7ncia é necess(ria para construir o novo mundo ur)ano so)re os destroços do velho.atacou o Bron" com uma machadinha<.?T.vica.K 2or mais diferentes que se4am as ra*#es. o resultado é sempre o mesmo: as vielas e )ecos desaparecem. como Hriedrich apontou em .

maior e melhor uso<. m Mum)ai. Mum)ai N e & gentrificação de =ova Ror3. depois que a resist7ncia conseguiu conter as desapropriaç#es promovidas pelo stado. 6esse modo a acumulação de capital pela atividade imo)ili(ria vai ao auge.=os dois casos. so)retudo.acumulação por desapropriação<. que não mostram nenhum vest. 6haravi.cios p+)licos.?TL. est( no cerne da ur)ani*ação so) o capitalismo. >sso acontece. Donsidere o caso de 'eul nos anos . aumentar acima de um certo limite. 0 pressão para limpar o terreno N por motivos am)ientais e sociais que mascaram a usurpação das terras N aumenta dia a dia. les são derru)ados e su)stitu. o )oom imo)ili(rio se acelerou e a terra ocupada por esses moradores parece cada ve* mais valiosa. Qm processo de deslocamento. que em muitos . P milh#es de pessoas oficialmente consideradas moradores de favelas estão assentadas em terras sem t. um valor que aumenta de maneira artificial e colossal: os edif. agora reco)rem a maior parte dessas encostas. m)ora essa descrição se4a de .gio da )rutalidade que permitiu a sua construção. las são derru)adas e no seu lugar são constru. =o esforço de transformar Mum)ai num centro financeiro mundial rivali*ando com Zangai. ngels compreendeu muito )em essa sequ7ncia% 5 crescimento das grandes cidades modernas d( & terra em certas (reas. 2oderes finan ceiros apoiados pelo da a custo quase *ero. em ve* de au ment(-lo. arma*éns e edif. 'eul. est( avaliada em L )ilh#es de dólares. "emplos de desapropriação tam)ém podem ser encontrados nos stados Qnidos. em)ora tendam a ser menos )rutais e mais legalistas% o governo a)usa do seu direito de desapropriar. com as casas dos tra)alhadores que t7m uma locali*ação central e cu4o aluguel.PP-% construtoras e incorporadoras contrataram grupos de capangas para invadir )airros po)res nos morros da cidade. porque 4( não pertencem &s novas circunstâncias. mesmo com o m("imo de superlotação.das lo4as. les derru)aram a marretadas não só as moradias como todos os )ens daqueles que tinham constru.dos nessas (reas lhes diminuem o valor. em terrenos que depois se valori*aram muito.cios 4( constru.do suas próprias casas nos anos C-. deslocando pessoas que moram em ha)itaç#es ra*o(veis em favor de um uso stado pressionam pelo despe4o forçado das favelas. ou apenas muito lentamente. casos vivem ali h( muitos anos. uma ve* que a terra é adquiriest( originando numerosos conflitos devido & tomada de terras valiosas de populaç#es de )ai"a renda. ela se aplica diretamente ao desenvolvimento ur)ano contemporâneo em )oa parte da Ysia N =ova 6elhi. um processo mais insidioso se instalou por meio da especulação imo)ili(ria e da destinação dos terrenos para os que deles fi*essem . e o que chamo de . em particular as de locali*ação central. não poder( 4amais. uma das maiores favelas de Mum)ai. 0rranha-céus.dos por outros. 2aris e =ova Ror3.tulo legal de propriedade: todos os mapas da cidade dei"am esses lugares em )ranco.

de ter acesso & moradia em qualquer lugar perto do centro ur)ano.planeta das favelas<. e até mesmo de classe média. ou. mas tam)ém h( relatos de resist7ncia generali*ada: contra esta. =a Dhina.*es decidiram que era constitucional que os munic.dos e estarão morando em alguma periferia remota. a fim de aumentar sua arrecadação com os impostos imo)ili(rios. por e"emplo. 2eriodicamente isso termina em revolta. como parece prov(vel. A ur)ani*ação. podem ser facilmente persuadidos a trocar sua casa por um pagamento relativamente )ai"o em dinheiro. fornecendo-lhes recursos que lhes permitam sair da po)re*a/ Sal sistema est( sendo sugerido para as favelas do 1io de Ianeiro. a reação ha)itual é a repressão )rutal do 2artido Domunista. e"clu. mas não a 2ar3 0venue. sofrendo com a insegurança de renda e frequentes dificuldades financeiras.PO?. milh#es de pessoas estão sendo despe4adas dos espaços que ocupam h( longo tempo N E milh#es só em 2equim.!" da terra mais rent(vel. as dificuldades aumentarem e a fase até agora )em-sucedida. $uando esse procedimento foi contestado na 'uprema Dorte americana. com condom. o que di*er da proposta aparentemente progressista de conceder direitos de propriedade privada a populaç#es de assentamentos informais. com grandes lucros. e é por isso que Moses pôde atacar com sua machadi nha o Bron". vem desempenhando um papel fundamental no reinvestimento dos lucros. os 4u. a resposta tende a ser mais comple"a porque o processo ur)ano ho4e tem âm)ito mundial. se as tend7ncias atuais continuarem. então surge a pergunta% onde est( o nosso . as pessoas se mudam de )oa vontade. pós-moderna e consumista do investimento na ur)ani*ação estiver no fim e uma crise mais ampla se seguir. . Domo não possuem direitos de propriedade. mas ao preço de criar fortes processos de destruição criativa que espoliaram as massas de qualquer direito & cidade. o s tado pode simplesmente remov7-las por decreto. 5 efeito duradouro da privati*ação feita por Margaret Shatcher da ha)itação social na Grã-Bretanha foi criar uma estrutura de renda e de preços em toda a (rea metropolitana de Aondres que impede as pessoas de )ai"a renda. ainda mais dramaticamente. 5 planeta como canteiro de o)ras se choca com o . 2osso apostar que dentro de quin*e anos. todos os morros do 1io agora ocupados por favelas estarão co)ertos por prédios altos com uma vista fa)ulosa. uma (rea de )ai"a renda. 'e. a nossa versão da Domuna de 2aris/ Sal como acontece com o sistema financeiro.pios se comportassem dessa maneira.nios ou lo4as. neoli)eral. enquanto os antigos moradores das favelas terão sido filtrados. oferecendo um pequeno pagamento para a4ud(-las na transição antes de entregar a terra para as construtoras. 5 pro)lema é que os po)res. m alguns casos. 5s ricos normalmente se recusam a ceder seus ativos a qualquer preço. podemos concluir. a uma escala geogr(fica crescente.

apenas L\ menos que no ano anterior.ses. os movimentos sociais ur)anos e das periferias das cidades não t7m em geral cone"ão uns com os outros. como ocorreu nos anos O-. ssa assimetria não pode ser interpretada como nada menos que uma forma maciça de confronto de clas ses. e em fases social-democratas a proporção & disposição do stado aumentou significativamente. 5s dados para todos os pa.dos pelas pr(ticas predatórias de empréstimos das instituiç#es financeiras. 5 neoli)eralismo tam)ém criou novos sistemas de governança que integraram os interesses estatais e empresariais.!! G( sinais de re)elião por toda parte% as agitaç#es na Dhina e na Undia são crônicas. destru. m L--.pio% um maior controle democr(tico so)re a produção e a utili*ação do lucro. que a fatia estatal da produção )ruta tem sido mais ou menos constante desde os anos T-. e"igir/ 0 resposta a essa pergunta é )astante simples em princ.L )ilh#es de dólares. 0o contr(rio do sistema financeiro. os )ônus totali*aram EE.. uma ve* que o processo ur)ano é um dos principais canais de uso desse dinheiro. movimentos sociais focados na questão ur)ana. eles vierem a se unir. 0 cada m7s de 4aneiro. m meados de L--T. ssa população não rece)eu nenhum )ônus. Muitos )airros em diversas cidades americanas foram co)ertos de tapumes e vandali*ados. a principal conquista neoli)eral foi evitar que a parcela p+)lica se ampliasse.ses da 5rgani*ação para a Dooperação e 6esenvolvimento conômico mostram. o stado de =ova Ror3 pu)lica uma estimativa do total de )ônus concedidos aos altos e"ecutivos pelos )ancos e financeiras de [all 'treet nos do*e meses anteriores. a 0mérica Aatina est( em efervesc7ncia. 0ssim. entretanto. garantindo que os pro4etos governamentais para as cidades favoreçam as grandes empresas e as classes mais altas. o Brasil aprovou o statuto da Didade. 0o longo de toda a história do capitalismo. porém. nquanto isso. 0umentar a proporção do dinheiro em poder do stado só ter( um impacto positivo se o próprio stado voltar a ficar so) controle democr(tico. =o entanto. cerca de L milh#es de pessoas foram despe4adas por não poder mais pagar as prestaç#es de suas casas. 5 pro4eto neoli)eral dos +ltimos trinta anos caminhou para privati*ar esse controle. um ano desastroso para os mercados financeiros.ndice da Bolsa de !alores ameaçava despencar. uma parte do lucro foi tri)utada. os )ancos centrais americano e europeu in4etaram )ilh#es de dólares em créditos de curto pra*o no sistema financeiro para garantir a sua esta)ilidade: em seguida o Banco Dentral americano redu*iu drasticamente as ta"as de 4uros e in4etou vastas quantidades de dinheiro no mercado a cada ve* que o . depois de anos de pressão de movimentos sociais se. o que deveriam . $ualquer uma dessas revoltas pode se tornar contagiosa. ainda não vimos uma oposição coerente a esses fatos no século ZZ>. travam-se fero*es guerras civis na Yfrica. m L--T. de alguma forma. criar uma gestão democr(tica da sua aplicação constitui o direito & cidade. I( e"istem em muitos pa. claro.

predominantemente contra o capital financeiro. 0 democrati*ação desse direito e a construção de um amplo movimento social para fa*er valer a sua vontade são imperativas para que os despossu. =esse ponto da história. pois. as crises eclodem repetidas ve*es em torno da ur)ani*ação e a metrópole é ho4e o ponto de confronto N ousar. Qm passo para a unificação dessas lutas é adotar o direito & cidade. Mas esses movimentos não convergiram para o o)4etivo +nico de ganhar mais controle so)re os usos do dinheiro N e muito menos so)re as condiç#es da sua produção. . 'em d+vida.cil. Aefe)vre estava certo ao insistir em que a revolução tem de ser ur)ana.dos possam retomar o controle que por tanto tempo lhes foi negado e instituir novas formas de ur)ani*ação. essa tem de ser uma luta glo)al. Mas as oportunidades são m+ltiplas. como slogan e como ideal pol.amos chamar de luta de classes/ ] a respeito da acumulação de capital pela desapropriação dos menos favorecidos e do tipo de desenvolvimento que procura coloni*ar espaços para os ricos. a tarefa pol.tica de organi*ar um tal confronto é dif. precisamente porque ele levanta a questão de quem comanda a relação entre a ur)ani*ação e o sistema econômico. não ser( nada.tico. no sentido mais amplo do termo: do contr(rio.!2 pelo reconhecimento do direito coletivo & cidade. como mostra esta )reve história. pois essa é a escala em que ocorrem ho4e os processos de ur)ani*ação. se não desanimadora.