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LITERATURA

História do novo romance foi criada ao longo dos 5.000 km percorridos pelo autor durante dois meses no país

Bernardo Carvalho desmitifica a Mongólia DA REPORTAGEM LOCAL

Na narrativa de "Mongólia", o escritor Bernardo Carvalho, 43, desestrutura os mitos de bondade e liberdade que normalmente acompanham as informações que chegam ao Ocidente sobre aquele país, construindo um espaço imaginário na melhor tradição da literatura ocidental. "Quando fui para a Mongólia imaginava o país mais liberal e bondoso do mundo, a julgar por tudo que via nos guias. Me passaram que era um país clássico onde habitavam os mongóis, verdadeiros bons selvagens, que, como são budistas, não matam nada, possuem amor pela vida e pela natureza. Mas, quando se chega lá, se vê que não é nada disso", diz. Carvalho foi para a Mongólia com uma bolsa criada em parceria pela editora portuguesa Livros Cotovia -que lança o romance simultaneamente com a Companhia das Letras no Brasil- e pela Fundação Oriente, de Lisboa. Chegou ao país em junho de 2002 para uma estada de dois meses e com o objetivo de escrever. "Poderia ser qualquer coisa, romance, ensaio, poema... Mas, ao mesmo tempo que eu não queria fazer um relato de viagem, pois já existem muitos, eu queria fazê-lo. Pensava que eu não podia desperdiçar isso porque nunca mais teria a chance." Optando por um caminho ficcional repleto das informações concretas colhidas durante os 5.000 quilômetros que percorreu, o autor e colunista da Folha criou a história de uma busca por um fotógrafo desaparecido na Mongólia. O romance inicia-se pela narração de um diplomata aposentado que, morando no Rio, começa a recompor os passos de um seu subordinado, recentemente assassinado, na busca pelo desaparecido, a partir de dois diários. Ao longo dessa narrativa, é sutil, mas direto, o diálogo com os viajantes responsáveis pela reprodução dos mitos orientais no Ocidente. "É impossível que a pessoa que veio aqui e que

O silêncio transcendental dos mosteiros budistas pode esconder abusos sexuais e crimes os mais variados." Escrito nesses moldes. O sentimento é de que você está sendo enganado a distância". a propagada idéia de placidez dos monges budistas é desmembrada ao longo da história. E. Pode ser que não seja. quando ela voltou. a idéia de dar o título Mongólia referindo-se a um país que não existe. Com essa consciência. o autor afirma: "Por isso não posso dizer que o budismo seja isso que vi. mas ninguém tem nada a ver com budismo. a "Mongólia" criada por Carvalho alinha-se mais ao imaginário particular do viajante que ao país real. A religião virou sinônimo de liberdade". Vi uma coisa e posso usar isso dentro de uma tradição onde o imaginário cria a realidade". "A Mongólia passou 70 anos por um regime comunista dos mais sanguinários. ou mortos. Carvalho recorre à realidade política do país." Para entender a prática da religião pelos mongóis. "A geografia é mais imaginária que real. Isso é irritante. Pode até falar que é delírio meu". os monges são gente como em qualquer lugar do mundo. com os mistérios ou ignorâncias e com a língua desconhecida. Todo mundo na Mongólia tem coisa budista em casa. diz." E completa: "Se fosse outra pessoa. Nesse sentido.falou que isso era de tal jeito não tenha visto que não era. a narrativa deste livro traduz a sensação de "terreno movediço" que o escritor teve no convívio com os nômades mongóis. desembestou. (ROGÉRIO EDUARDO ALVES) . ela poderia dizer que não viu nada do que eu vi. diz o autor de "Nove Noites". "A religião budista na teoria é ótima. por isso. Jorge Luis Borges e Samuel Beckett. Como a coisa proibida então era a religião. o livro insere-se na tradição da literatura moderna ocidental. principalmente naquela cultivada por Franz Kafka. Enraizada nas palavras de diários esquecidos e de personagens desaparecidos. "Queria que fosse um livro de literatura dentro de uma tradição ocidental moderna. mas. de minhas impossibilidades e meus limites. na prática. Nesse misto de desencantamento e choque cultural. Ninguém sabe nada de nada. Tem luta de poder dentro da igreja e uma hipocrisia nesse negócio. que gira ao redor dos assuntos sem objetividade. Criada pelo próprio desejo dos personagens de verem uma tal coisa. Pode ser que eu tenha visto um budismo que faz parte de meu imaginário. diz.