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PLANO B ARQUITECTURA

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Eduardo Carvalho, Francisco Freire, Luís Gama
Plano B Arquitectura Rua Newton 1, 2º Direito, 1170-275 Lisboa, PORTUGAL Internet: www.planob.com; E-mail: info@planob.com

* Comunicação apresentada no I Seminário Arquitectura de Terra em Portugal, Fundação Convento da Orada, Lisboa, Setembro 2003

INTRODUÇÃO Qualquer que seja o tema de uma apresentação não pode ser separado do contexto em que surge. É escusado sublinhar o grau de interdependência que os assuntos sempre têm e, também hoje, em que é difícil diferenciar cultura, tecnologia, economia ou política. As questões aqui abordadas são indissociáveis das forças que se movem num mundo onde a lógica do progresso, do bem-estar e da riqueza coexistem com dinâmicas sociais e políticas bem distintas. O desenvolvimento e implementação das construções com terra não é assunto que se esgotem nos países industrializados. No resto do mundo, este tema tem outras implicações – com certeza mais prementes – que necessitam de rápida solução. O desenvolvimento não-sustentável, a falta de acesso à habitação, à educação, às liberdades, aos alimentos, ao ar e à água, não é apenas um cenário mais ou menos longínquo no nosso “mundo”: é o nosso mundo. É este afinal, o conceito de contemporaneidade: o que é do nosso tempo. CONTEMPORANEIDADE / TEMPO Agradou-nos, enquanto arquitectos a dar os primeiros passos, estar enquadrados no módulo da “contemporaneidade”, mas uma análise simples revela que ser contemporâneo, apesar de adjectivo, não define outra coisa para além da existência em relação ao tempo. Não é um elogio. Em arquitectura não esclarece da qualidade, da intencionalidade ou da adequação. Apenas data. Quando existe a intenção de integrar o nosso tempo, com as suas questões, nas soluções propostas, então ao facto de ser contemporâneo acresce o sentido de modernidade - o captar daquilo que nos distingue de antecedentes históricos. Numa sociedade que enaltece o provisório e se alimenta da renovação, esta modernidade pode-se no entanto confundir com moda, um uso mais ou menos passageiro e dependente do gosto e do capricho. Mas uma modernidade “autêntica”, fundada na análise e em intenções consequentes, é o objectivo que deveria guiar qualquer actividade humana. Ser contemporâneo pode não chegar.

Nestes exemplos encontramos respostas aos problemas de resistências aos esforços mecânicos. Existem métodos experimentados para a mecanização e industrialização da produção de elementos em terra: existe a produção de adobes em série. Mas o edifício. contemporânea. CONTEMPORANEIDADE / MATERIAL A terra é. ao nível técnico. As potencialidades da terra. neste sentido “autêntico”. são grandes. isto é. O seu foco é no diálogo com os assuntos do nosso tempo. São estes os parâmetros com que cientificamente podemos contar e que inscrevem a terra num lugar baixo do catálogo dos materiais de construção. de quem constrói e de quem usufrui. Do presente extrai as condicionantes e as técnicas. talvez o melhoramento deva ser feito nos processos. enquanto acto criativo «ultrapassa todo o conhecimento histórico e técnico. ou na perspectiva que o futuro terá do passado. No momento da sua criação. Uma vez que as sociedades sofreram alterações drásticas. num trabalho de cooperação e integração de competências. e na concepção. tem um coeficiente térmico baixo. Transformar a terra numa outra coisa: melhor e mais resistente. as características químicas da argila e a quantidade de água utilizada. O uso da terra será sempre condicionado pelas suas características e limitações físicas (como de resto qualquer material). O material que procuramos usar hoje é o mesmo que realizou todos esses edifícios. isolantes de palha ou cortiça em placas.» 1 Dependemos portanto de tecnologia – não de técnicas (as 18 inventariadas foram suficientes para construir todo o património mundial) – mas. A ilustração é uma fotomontagem sobre cartaz do filme ‘Three Little Pigs’ de Walt Disney. na relação com outras obras de arquitectura e com o sítio onde está. vendem-se rebocos de terra em sacos. a+u Fevereiro 1998 . os castelos de Portugal e Espanha. na realidade. Procura-se. claro pela relação quotidiana com os edifícios. resiste pouco aos esforços laterais. como nos dizem os fantásticos edifícios em altura no Iémen ou Marrocos. A sublimação dessas condicionantes nas construções tradicionais foi conseguida através do aperfeiçoamento das técnicas. os palácios da Europa. não deve portanto ser condição imprescindível para a sua utilização no presente. o uso de cofragens industriais e de compressores pneumáticos para a taipa. para que seja apelativa e autêntica. o envolvimento de quem projecta. O sentido de modernidade só pode ser autêntico se surgir desta relação. Reflecte o espírito do seu inventor e dá as suas próprias respostas às questões do nosso tempo através da sua função e aparência. que se legitima. devemos ser críticos em relação ao vocabulário formal do passado. enquanto que a tecnologia pode ser apenas um veículo eficiente para a mediocridade. as aldeias na América do Sul ou as ruínas do Médio Oriente. para os olhos e interpretação de quem se segue. Os processos tradicionais podem ser utilizados para atingir as melhores realizações. em resumo. 1 Peter Zumthor.A contemporaneidade. silte e areia). que sabemos funcionar. permitindo que a construção seja mais barata e mais rápida. ao clima e às intempéries. a arquitectura está ligada ao presente de uma forma muito especial. dos remates e dos revestimentos – e. resiste relativamente pouco aos esforços de compressão. CONTEMPORANEIDADE / CONCEPÇÃO Existem três parâmetros que permitem melhorar as características da terra enquanto material de construção: a distribuição granulométrica dos seus constituintes (argila. dependemos sobretudo de criatividade. mas sobretudo pela adequação das formas. É no entanto nesse vocabulário que está integrado o património técnico com que podemos contar. um mau material de construção: não resiste à água. A contemporaneidade é assunto para a História. aos desastres naturais e à erosão. mas é no futuro. utiliza o passado mas as perguntas a que tem de dar resposta transcendem a tradição.