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AULA DO PROFESSOR ÉLIO ANTUNES

URUPÊS – CONTOS (E CRÔNICAS) DE MONTEIRO LOBATO O autor
Monteiro Lobato
Monteiro Lobato (1882–1948) foi Pré-Modernista como Lima Barreto, Euclides da Cunha e Graça Aranha. Os textos de Urupês têm elementos do Realismo, do Naturalismo, do Expressionismo (caricaturas) e muito do Modernismo incipiente. O francês Guy de Maupassant (1850–1893), primo de Gustave Flaubert, o autor de Madame Bovary (um dos livros mais importantes da literatura mundial), escreveu mais de 250 contos e é considerado um dos mestres do conto universal, ao lado de Thekhov (1860–1904), russo. Um dos contos celebrizados de Maupassant é Bola de sebo, uma narrativa sobre uma prostituta gorda (daí o título) que se sacrifica por uma gente que não merecia nem um olhar da prostituta. Esse conto tipifica a obra do francês que é quase toda trágica (Obs.: o compositor Chico Buarque de Holanda, em Geni e o zepelin, reconta intertextualmente a história da Bola de sebo). Monteiro Lobato não fazia segredo de sua filiação literária nem de suas aspirações: “Quero contos como os de Maupassant ou Kipling, contos concentrados em que haja dramas ou que me deixem entrever drama. Contos com perspectivas. Contos que façam o leitor interromper a leitura e olhar para uma mosca invisível com olhos grandes, parados. Contos estopins, deflagradores das coisas, das ideias, das imagens, dos desejos, de tudo que existe sem expressão dentro do leitor. E conto que ele possa resumir e contar a um amigo – que interesse a esse amigo.” Em um dos trabalhos enfeixados em “Urupês”, o autor faz um personagem dizer: “a vida é amor e morte, e a arte de Maupassant é nove em dez um enquadramento engenhoso do amor e da morte.”[...] “A morte e o amor, meu caro, são os dois únicos momentos em que a jogralice da vida arranca a máscara e freme num delírio trágico.” (Meu conto de Maupassant). Os contos de Urupês seriam, portanto, contos à Maupassant: lembremo-nos de que o livrinho escapou, graças aos protestos de um amigo, de chamar-se “Dez mortes trágicas”.

O livro
Urupês, Monteiro Lobato. 12 contos e 2 dissertações A tragédia de Maupassant é o que caracteriza os contos de Monteiro Lobato, embora haja humor e comicidade em muitas narrativas desse escritor paulista. Aliás, não é à toa que um dos contos do livro Urupês seja o 1. Meu conto de Maupassant (à semelhança do francês) Conversavam no trem dois sujeitos. Aproximei-me e ouvi: – A vida é cheia de contos de Maupassant; infelizmente há pouquíssimos Guys ... – Por que Maupassant e não Kipling, por exemplo? – Porque a vida é amor e morte, e a arte de Maupassant é nove em dez um enquadramento engenhoso do amor e da morte. Mudam-se os cenários, variam-se os atores, mas a substância persiste ... Esse conto tem o amor e a morte como tema. Em uma viagem de trem, o narrador, ao ver uma árvore, um saguaraji, lembra-se de um crime: aparecera o cadáver decapitado de uma velha. Investigações são feitas e tem-se como principal suspeito um italiano, que consegue se safar, já que não havia provas. Os anos passaram-se e novos indícios surgem sobre o caso, levando o italiano, que havia sumido no Brás, a ser mais uma vez conduzido para a justiça. Durante toda a viagem de trem, o italiano não deu trabalho algum, sempre submisso. Porém, no momento em que o veículo passa diante do saguaraji, o italiano se atira para fora do trem, sendo depois encontrado morto junto à árvore. Fica a ideia, por muito tempo, de que o remorso pelo crime cometido o havia conduzido ao suicídio. Tal acusação, todavia, é desfeita quando o filho da velha assassinada e decapitada confessa o delito. 2. Urupês (um parasita de pau podre) Na contramão dos cânones do Romantismo, nascia Jeca Tatu, ‘sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas’. Esse texto não é um conto, mas uma dissertação sobre o caboclismo. Trata-se de uma crítica das mais ferozes que já se fez sobre qualquer tipo racial do Brasil. A vítima, aqui, é o caboclo. O poeta romântico Gonçalves Dias, endeusou o índio

em I-Juca Pirama, em Canto do Piaga; o romancista José de Alencar glorificou o mestiço (mameluco, mistura de índio com branco) e o pôs como o verdadeiro tipo racial brasileiro, que geraria uma não pujante (romances O Guarani e Iracema). Monteiro Lobato, em Urupês, mostra-se radicalmente contrário ao que defendia o romântico Alencar. Para o fazendeiro paulista, a mistura de raças gera um tipo fraco, indolente, preguiçoso, passivo. Sua religião manifesta-se por meio das mais primitivas formas de superstição e magia. Sua medicina é mais rala ainda. Sua política é inexistente, já que vota sem consciência, conduzido pelo maioral das terras em que mora. Seu mobiliário é o mais escasso possível, havendo, no máximo, apenas um banquinho (de três pernas, o que poupa o trabalho de nivelamento) para as visitas. Não tem sequer senso estético, coisa que até o homem das cavernas possuía. E quanto à produção, é um extrativista, dedica-se apenas a colher o que a natureza oferece. O caboclo é, por tudo isso, o exemplo de tudo quanto há de atrasado no Brasil. Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriant na cabeça e Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho. Morreu Peri, (o herói de O Guarani) incomparável idealização dum homem natural como o sonhou Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobreleva em beleza de alma e corpo. Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci. 3. Os faroleiros (Expressionismo e Naturalismo) O caboclo de Monteiro Lobato é do Vale do Paraíba (SP). Em função disso, os contos de Urupês são regionalistas. Exceção: Os Faroleiros, cuja ação acontece no litoral. No conto Os faroleiros há um narrador em primeira pessoa (eu), mas é o colega dele, Eduardo, quem lhe conta a assombrosa história dos faroleiros Gerebita e Cabrea, acontecida no Farol dos Albatrozes. O narrador e Eduardo estão na amurado do navio Orion, e Eduardo relata que, seduzido pelo ar solitário e isolado de um farol, consegue realizar seu sonho passando uns dias nesse local. É quando conhece uma figura misteriosa que pouco conversa: Gerebita, que desde os 23 anos, vive no farol. No farol estavam Eduardo e Gerebita, quando apareceu por lá, nomeado pelo governo, um tal de Cabrea. A figura do novo morador incomodava Gerebita, que vivia dizendo a Eduardo e a outros no continente que Cabrea era louco e que um louco era capaz de tudo. Pergunta então se seria crime se defender de um ataque de um maluco matando-o.

É uma premonição, além de deixar nas entrelinhas que o que está para ocorrer tinha sido premeditado. Em uma noite de breu, Gerebita e Cabrea fazem um duelo sangrento, em que Gerebita consegue matar seu oponente com dentadas na jugular. Quando o narrador abandona o farol, massacrado por experiências tão carregadas, toma conhecimento dos motivos que levaram a essa tragédia. Gerebita fora casado com uma mulher chamada Maria Rita, que o trocou por Cabrea, que também é trocado por outro homem. Tempos depois, o destino fez com que os dois fossem nomeados para trabalhar no mesmo farol, passando a estabelecer uma convivência de tensão surda. Quando o narrador deixou o farol, Gerebita lhe pediu que jamais contasse a alguém o que havia acontecido de verdade. Promessa cumprida. 4. O engraçado arrependido (a piada foi a tragédia do Pontes) Pontes, um típico piadista, consegue, magistralmente, arrancar risos nos atos mais simples. Até que um dia resolve ser sério, desejo que não consegue realizar, pois sempre imaginam que é mais uma peça que está pregando. Tenciona, pois, arranjar um cargo no funcionalismo público, o que só obterá se surgir uma vaga, conforme avisa seu padrinho. Decide atacar Major Antônio Bentes, homem extremamente sério e que sofre de um aneurisma prestes a estourar por qualquer esforço. O plano do piadista Pontes, pois, é matá-lo com suas piadas e assim ficar com seu emprego. No começo parece difícil, devido ao caráter circunspeto do doente. Até que, depois de muitas pesquisas sobre o gosto humorístico da vítima, consegue dar o golpe fatal: em um jantar promovido pelo major Bentes, a piada do Pontes matou o major. O piadista Pontes, a partir de então, tem remorso e isola-se de todos. Semanas depois, recuperado, volta à ativa, mas descobre que havia perdido a vaga, pois a demora provocada por seu sumiço forçara a nomeação de outra pessoa. O piadista Pontes, então, faz a última piada consigo mesmo: enforca-se com uma ceroula. Neste conto do piadista, ainda não se manifesta o caráter regionalista do livro Urupês, porém, o patético, o exagerado e o patológico estão presentes. 5. A colcha de retalhos (a decadência daquele mundo rural e registro da oralidade cabocla.) Bati palmas. – Ó de casa! Apareceu a mulher. – Está seu Zé? – Inda agorinha saiu, mas não demora. Foi queimar mel de massaranduva do pasto. Apeie e entre. Amarrei o cavalo no moirão de cerca e entrei. Acabadinha a Sinh’Ana. Toda rugas na cara – e uma cor... Estranhei-lhe aquilo. – Doença! – gemeu – Estou no fim. Estômago, fígado, uma dor aqui no peito que responde na

carcunda. Casa velha. É o que é. Nesta tragédia se manifesta a temática que tanto consagrou Monteiro Lobato: a crítica à decadência da zona rural. O narrador faz uma visita a Zé, um sitiante, para propor-lhe negócios. Zé recusa, porque se sente velho, doente e acha que depois que caiu de uma ponte, nada mais lhe resta, ou melhor, se alguma vida lhe resta é por causa da filha de 14 anos, Pingo, ou Maria das Dores: bonitinha, mas tímida, arredia, monossilábica. A avó Joaquina, desde que Pingo nascera, cosia uma colcha de retalhos com pedaços de roupas de Pingo. Cada pedaço cosido a outro era uma narrativa da vida alegre de Pingo. O último retalho, dizia a vó Joaquina, seria um pedaço do vestido de noiva de Pingo. A tragédia, porém, veio dois anos depois. Pingo foi levada por um rapaz de um sítio vizinho. A mãe dela, Sinh’Ana, morreu. O Zé enferrujava mais rápido. O narrador, quando soube da tragédia, revolveu revisitar o sítio. Lá encontrou a velha Joaquina que lhe confirmou o acontecido. E não terminara a colcha de retalhos; aliás, tal colcha deveria ser usada como mortalha da velha avó, mas isso não aconteceu . Temas: decadência do mundo rural e o registro da oralidade cabocla. 6. A vingança da peroba (o pau vingador que lascou a vida do Nunes) Os Nunes: o pai Nunes, o filho Pernambi, educado pela cachaça; a esposa infeliz e as filhas Maria Benedita, Maria da Conceição, Maria da Graça, Maria da Glória – família decadente. Os Porunga: pai Porunga, esposa sensata e seis filhos, todos homens. Família próspera. A vingança da peroba é o segundo conto que registra e critica a decadência rural provocada pela indolência dos fazendeiros. Há aqui uma oposição entre duas famílias, os Porunga, fortes e de vida bem estabelecida, graças à força de vontade de suas ações, e os Nunes, mergulhados na preguiça, na desorganização e na cachaça. Os dois clãs desentendem-se por causa de uma paca, há muito desejada pelos Nunes, mas que acabou sendo caçada por um Porunga. Movido por uma mistura de rivalidade e de inveja, Nunes resolve finalmente investir em suas terras. Seus esforços têm fruto, gerando uma boa colheita de milho. Resolve então construir um monjolo (engenho), pois não quer ficar atrás de seu vizinho, em desenvolvimento. Para isso, corta uma peroba imensa, que dividia as duas terras. Motivo de desentendimento, que arrefece quando os Porunga resolvem não brigar mais pela árvore. Semelhante ao conto Os faroleiros, há o emprego da premonição no meio da narrativa. Um maneta, portanto aleijado, que havia sido contratado por Nunes para ajudar na construção do engenho, conta uma história de que certas árvores se vingam por terem sido cortadas. Então, dizia o Maneta, há em cada mato um pau

que ninguém sabe qual é, a modo que peitado pra desforra dos mais. É o pau do feitiço. O desgraçado que acerta meter o machado no cerne desse pau pode encomendar a alma pro diabo, que está perdido. Ou estrepado, ou de cabeça rachada por um galho seco que despenca de cima, ou mais tarde por artes da obra feita de madeira, de todo jeito não escapa. Com a madeira da peroba, o monjolo foi construído, mas todo torto, produzindo mais barulho do que outra coisa, o que justifica seu apelido: Ronqueira. Decepcionado e envergonhado, Nunes e o filho Pernambi se enchem de cachaça. Um dia, depois que ele e seu filhinho se embebedaram, Nunes acaba adormecendo na rede. Acorda com a gritaria das mulheres de sua casa: o engenho havia esmagado a cabeça da criança no pilão. Irado, Nunes destrói a machadadas a máquina assassina, toda feita com a madeira da peroba. 7. Um suplício moderno (a história do carteiro Biriba e de seu suplício) No começo do texto, Lobato discorre sobre os vários suplícios a que eram submetidos os inimigos e heréticos em diversas épocas da história. Porém, afirma que o estafeta, o carteiro de Itaoca, foi vítima de um suplício maior. No conto, Monteiro Lobato mostra o estafeta, uma espécie de carteiro, como o tipo mais humilhado das cidades do interior. Biriba é o nome dele. Consegue o emprego sonhado com o qual teria uma boa vida, mas a tal vida boa foi má, e muito má. ... o empalaram no lombilho duro do pior matungo das redondezas, com, pela frente, cinco, seis, sete léguas de tortura de engolir por dia, de mala postal à garupa. (...) As léguas do estafeta, porém, mal acabam voltam ‘da capo’, como nas músicas. Vencidas as seis (suponhamos um caso em que sejam só seis) renascem na sua frente de volta. É fazê-las e desfazê-las. Teia de Penélope, rochedo de Sísifo, há de permeio entre o ir e o vir a má digestão do jantar requentado e a noite mal dormida; e assim um mês, um ano, dois, três, cinco, enquanto lhe restarem, a ele nádegas, ao sendeiro lombo. Um homem humilhado, gasto pelo ir e vir, burro de todas as pessoas de Itaoca, que ainda cometem o desatino de reclamar dos favores que faz para elas. Sua paciência esgota-se a ponto de pedir demissão, mas não o deixam levar adiante seu plano. Era interesse de todos ter alguém tão submisso. É quando resolve vingar-se, traindo Fidêncio, seu superior. Recebe um pacote muito importante para as eleições. Não o entrega, sumindo com ele por dias. É o motivo da queda do maioral, provocando a subida do inimigo, Evandro, que não poupa quase ninguém do antigo governo, apenas o pobre Biriba, recebido de forma bastante atenciosa. Provavelmente desconfiando que tudo iria continuar como antes, mudados apenas os personagens, Biriba some de Itaoca. 8. Pollice Verso (Nico, o facínora de passarinhos

que virou médico canastrão) Dos 16 filhos do Coronel Inácio da Gama, cedo revelou o caçula singulares aptidões para médico. Pelo menos assim julgava o pai, como quer que o encontrasse na horta interessadíssimo em destripar um passarinho agonizante. – Descobri a vocação de Nico – disse o arguto sujeito à mulher. – Dá um ótimo esculápio. Inda agorinha o vi lá fora dissecando um sanhaço vivo. Inácio, ou melhor, o Nico, já de criança mostrava um gênio negativo ao gostar de dissecar pássaros. Seu pai, homem dotado de linguagem empolada (o que o tornava uma ilha em seu meio tão pobre intelectualmente) via nesse costume, no entanto, uma tendência para a medicina e dedica todas as suas forças em ver seu filho seguindo essa carreira. O rapaz acaba realizando o sonho do pai, forma-se no Rio e volta à cidade natal, mas torna-se um pelintra, mais preocupado em se exibir e conseguir o mais rápido possível dinheiro para voltar aos braços da amante francesa, Yvonne, que havia conhecido nos tempos da faculdade. Seu bilhete de loteria é conseguir cuidar de um ricaço, Mendanha. Sua intenção não é curá-lo, pois não seria tão lucrativo quanto a morte, que lhe possibilitaria cobrar uma quantia exorbitante. Com o falecimento do paciente, a família recebe a conta, que acha exorbitante, levando a questão ao tribunal. Ali, Inácio conta com o corporativismo, já que os outros médicos (tão menosprezados pelo recém-formado) dão-lhe parecer favorável. Viaja, pois, para Paris, enganando a todos, dizendo que tinha se estabelecido na carreira e estava em contato com gente do alto quilate da medicina na Sorbone. Que nada! Fazia era festa, o Nico, o estripador de passarinhos! 9. Bucólica (não há nada bucólico na morte trágica da deficiente Anica, que morreu de sede) Tanta chuva ontem!... O cedrão do posto fendido pelo raio – e hoje, que manhã! A natureza orvalhada tem a frescura de uma criancinha ao sair do banho. Inda há rolos de cerração vadia nas grotas. O sol já nado e ela com tanta preguiça de recolher os véus da neblina... A vegetação toda a pingar orvalho, bisbilhante de gotas que caem e tremelicam, sorri como em êxtase. Há em cada vergôntea folhinhas de esmeralda tenra brotadas durante a noite. A mão de quem passa não resiste: colhe-as de alcance, porque é um gosto mordiscar-lhe a polpa macia. Assim, bucolicamente, o narrador vai descrevendo a natureza exuberante por onde anda. Descreve flores, árvores, belezas. Porém, começa a encontrar casinhas pobres, taperas, gente reclamando sempre de doenças. Aí, o narrador deu de cara com a tragédia: ele encontra Pedro Suã (o que apanha da mulher Veva). Este diz ao narrador que não está a caminho de caçar, mas

de fazer o buraco onde será enterrada Anica, sua filha. Veva era uma mulher violenta, monossilábica, feia, que odiava a filha paralítica. Quem cuidava zelosamente da coitada da Anica era a negra Inácia. Naquele dia, Inácia foi buscar remédio para a menina doente. Ficou presa, por causa da chuva, no bairro dos Libórios, por isso não chegou a tempo de salvar a menina. A coitadinha (conforme um menino contou a Inácia) pediu água à Veva várias vezes. A mãe má não atendeu ao pedido da filha. Anica morreu junto ao pote d’água.

10. O mata-pau (o velho pai, o filho Elesbão, a Rosa e o Ruço (Manuel Aparecido) – este é o mata-pau) O narrador e o capataz viajam a cavalo, quando veem uma árvore grande e estranha, o mata-pau. É o capataz quem explica ao narrador como o mata-pau cresce e vira um monstro: Não vê que é uma árvore que mata outra. (...) Aquele fiapinho de planta, ali no gancho daquele cedro – continuou ele, apontando com dedo e beiço uma parasita mesquinha grudada na forquilha de um galho, com dois filamentos escorridos para o solo. – Começa assinzinho, meia dúzia de folhas piquiras; bota para baixo esse fio de barbante na tensão de pegar a terra. E vai indo, sempre naquilo, nem pra mais nem pra menos, até que o fio alcança o chão. E vai então o fio vira raiz e pega a beber a substância da terra. A parasita cria fôlego e cresce que nem, imbaúba. O barbantinho engrossa todo dia, para a cordel, passa a corda, passa a pau de caibro e acaba virando tronco de árvore e matando a mãe. O narrador e o capataz chegam a um sítio abandonado e o capataz conta uma história que o mata-pau metaforiza. Elesbão morava com o pai e disse ao velho que queria casar. O velho pôs a prova a virilidade do filho (o cara derrubou uma árvore a machado). Elesbão fez um sítio e declarou ao pai que queria casar com Rosa. O pai, sábio, disse ao filho que Rosa, além de feia, não era coisa boa. Elesbão queria Rosa e casaram-se. O sitiante prosperou, mas o casal não produzia filho. Em uma noite, um bebê chorou na escuridão próxima da casa. Iluminaram, viram uma criança, recolheram-na e a adotaram – virou Manuel Aparecido. O pai do Elesbão, sábio, disse que não era promissor criar filho de outros, mas que não se devia deixar criança abandonada. O menino cresceu. Olhos claros e cabelos loiros. Ruço era o apelido dele. “Ganhou fama de madraço, e o era perfeito, inimigo da enxada, só atento às negociatas, barganhas, espertezas. Com dezoito anos era Ruço a peste do bairro, atarantador dos pacíficos e traiçoeiro com os escoradores”. Tornou-se amante da mãe Rosa, matou o padrasto Elesbão, fez com que a

amante passasse a propriedade para ele, incendiou a casa com a Rosa dentro. Ela não morreu queimada – ficou louca “no momento preciso em que sua vida ia virar um inferno.” 11. Bocatorta (Expressionismo e Naturalismo – o lúgubre, o macabro, a necrofilia – um aleijado horrendo que vivia em uma gruta, no atoleiro, perto da fazenda) Narrativa sobre Bocatorta, uma figura hedionda e deficiente que vive isolado no meio do mato, lá no brejo, lá no atoleiro, escondido em uma gruta, longe de tudo e de todos. Sua biografia é relatada em uma reunião familiar, o que desperta a curiosidade em vê-lo. O capataz Vargas, o fazendeiro major Zé Lucas, a esposa Don’Ana, a filha Cristina e o namorado da Cristina, o bacharel Eduardo. – Boca torta é a maior curiosidade da fazenda – respondeu o major – Filho de uma escrava de meu pai, nasceu, o mísero, disforme e horripilante como não há memória de outro. Um monstro, de tão feio. Há anos que vive sozinho, escondido no mato, donde raro sai e sempre de noite. O povo diz dele horrores – que come crianças, que é bruxo, que tem parte com o demo. Todas as desgraças acontecidas no arraial correm-lhe por conta. Para mim é um pobre diabo cujo único defeito é ser feio demais. Como perdeu a medida, está a pagar o crime que não cometeu... Vargas interveio, cuspilhando uma cara de asco: – Se o doutorzinho o visse!.... É a coisa mais nojenta deste mundo. Decidiram ir conhecer o negro horrendo, mesmo que várias histórias de assombração e de necrofilia tenham dominado o café à mesa. Falavam que duas mocinhas recém enterradas foram vítimas de uma assombração que lhes arrebentou o túmulo e judiou delas. Cristina, dada a insistência do namorado Eduardo que queria conhecer o Bocatorta, contou-lhe alguns horrores que ouvia quando era pequena – por isso tinha um medo visceral do Bocatorta. Foram todos à mata à procura do Bocatorta. A feiúra do negro excedeu qualquer imaginação dos presentes. Até o cético Eduardo ficou extremamente horrorizado. Cristina sentiu um não-sei-o-quê no corpo e na alma. Na volta choveu e Cristina, ao chegar, caiu doente. Pneumonia. Usaram receitas do Chernoviz, chamaram o médico, nada adiantou – Cristina morreu. Choros, lamentações, tristezas mil. Velório, enterro, consternação geral. À noite, Eduardo revolver despedir-se mais uma vez da namorada morta. Na escuridão do cemitério, viu um vulto sobre o túmulo de Cristina. Apavorado, correu à fazenda. O major, armado, e o capataz Vargas correram na frente de Eduardo que, desfalecido de tanta correria, caiu. O Major e o Vargas atiraram-se sobre o monstro que violava a morta Cristina. Era Bocatorta, que teve, como local de morte, o atoleiro. A única criatura que chorou a morte do Bocatorta foi seu cachorro Merimbico.

12. O comprador de fazendas (para viver de boa comida e de boa cama, Trancoso se fazia de comprador de fazendas) Pior fazenda que a do Espigão, nenhuma. Já arruinara três donos, o que fazia dizer aos praguentos: ‘Espiga é o que aquilo é.’ O detentor último, um Davi Moreira de Souza, arrematara-a em praça, convicto de negócio da China; mas já lá andava, também ele, escalavrado de dívidas, coçando a cabeça, um desânimo... Quase como para aliviar a leitura depois de dois textos tão pesados, este conto mostra-se mais jocoso. É a história de Moreira, dono da fazenda decadente (mais uma vez esse tema) Espiga, que não consegue ser vendida, assim como sua filha Zilda não consegue arranjar casamento. Até que surge Trancoso, sujeito bem afeiçoado e que se mostra interessado em comprar a propriedade. Surpreendentemente, é o primeiro que se mostra a elogiar tudo, o que faz com que seja bem tratado, podendo até cortejar Zilda. Vai embora, prometendo fechar negócio em uma semana. Com a demora da resposta, Moreira faz pesquisas, descobrindo que o indivíduo ganhava a vida andando de fazenda em fazenda, sempre se mostrando interessado em comprar, o que lhe garantia casa e comida por alguns dias. O proprietário, frustrado, fica irado. Tempos depois, Trancoso ganha na loteria e retorna à Espiga, dessa vez para comprá-la realmente, mas é recebido com uma surra de rabo de tatu. “Moreira, o caipora, perdia assim naquele dia o único negócio que durante a vida inteira lhe deparara a fortuna: o duplo descarte – da filha e da Espiga..” 13. O estigma Bruno, narrador, conta a história de seu amigo, Fausto, que se casou praticamente interessado em dinheiro, já que seu relacionamento com a esposa era o que se chamava “face noruega”, ou seja, semelhante ao lado de uma vegetação em que não bate Sol. Tudo se complica quando o marido Fausto se envolve com uma prima, Laurita, muito mais jovem que a esposa dele. Até que a mocinha aparece morta com um tiro no peito. Suspeita-se que tenha se suicidado e o narrador chega a pensar que foi por remorso por manter um relacionamento adúltero. Tempos depois, o filho de Fausto nasce, apresentando uma marca no peito, na mesma região que Laura havia atingido para pôr fim à vida. Desenvolve então a teoria de que aquela criança, quando feto, fora a única testemunha do crime cometido por sua mãe. Em outras palavras, não houve suicídio, mas um crime passional e a criança veio ao mundo para denunciar sua progenitora. Assim que vê esse sinal, mostra para a esposa, dizendo: “Olha, mulher, quem te denuncia!”. Em pouco tempo está morta. O narrador, que visita a personagem muitos anos depois, pôde ver o sinal e descobrir que era tudo ilusão, pois não havia a marca no peito da criança para provar ou mesmo denunciar qualquer coisa.

14. Velha praga (a linguagem irônica e agressiva deste texto fez com que o público quisesse mais do fazendeiro de Taubaté, Monteiro Lobato) Andam todos em nossa terra por tal forma estonteados com as proezas dos belacíssimos ‘vons’ alemães, que não sobram olhos para enxergar males caseiros. Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá fora o fogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta nossas matas, com furor não menos germânico. Em agosto, por força do excessivo prolongamento do inverno, ‘von fogo’ lambeu montes e vales, sem um momento de tréguas, durante o mês inteiro. Vieram em começas de setembro chuvinhas de apagar poeiras e, breve, novo ‘verão de sol’ se estirou por outubro a dentro, dando azo a que se torrasse tudo quanto escapasse à sanha de agosto. A serra d Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa, e é hoje um cinzeiro imenso... Velha Praga, publicado em 1914, no jornal O Estado de São Paulo, foi o texto que celebrizou Monteiro Lobato, um “fazendeirinho” em literato disserta, de forma indignada e irônica, sobre o atraso do comportamento do caboclo, que praticamente põe toda a validade do solo e da agricultura a perder por causa de seu costume bárbaro de realizar queimadas – Vale do Paraíba. Logo depois, veio Urupês com a figura do jeca-tatu, símbolo do caboclo, como quis Lobato.