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TRATAMENTOS TÉRMICOS DE AÇOS-FERRAMENTA

Introdução O Ferro puro O sistema Ferro-Carbono Estruturas não de equilíbrio Diagramas TTT de transformação isotérmica Microconstituintes dos aços Ferrite Perlite Cementite Bainite Martensite Efeito dos elementos de liga Influência sobre os diagramas de equilíbrio Formação de carbonetos Efeitos dos elementos de liga sobre Ms e Mf Efeito dos elementos de liga sobre as transformações isotérmicas perlítica e bainítica Determinação experimental das curvas TTT Revenido - resistência ao amaciamento e endurecimento secundário. Resumo. A especificação AISI para aços-ferramenta. Principais adições de liga nos aços-ferramenta AISI. Exemplo de selecção de aços-ferramenta. Modelação das transformações estruturais dos aços Cinética da transformação isotérmica Modelação das cinéticas isotérmicas Cinéticas de transformação anisotérmicas Modelação das transformações com difusão Modelo empírico de Grange e Kiefer Modelação do período de incubação A regra da aditividade Modelação das cinéticas anisotérmicas baseada na regra da aditividade Tratamento analítico da transformação em arrefecimento contínuo Modelos baseados na discretização do arrefecimento Modelos baseados no diagrama TAC experimental A transformação martensítica Efeito da evolução estrutural sobre a evolução térmica Tensões residuais em tratamentos térmicos Introdução Tensões de maquinagem Tensões induzidas por rectificação

Tensões de tratamento térmico Arrefecimento de um material sem transformações de fase Arrefecimento de um material com transformações de fase Variações dimensionais resultantes de tratamentos térmicos Variações dimensionais durante o revenido Transmissão de calor em tratamentos térmicos Mecanismos de transferência de calor entre um sólido a alta temperatura e um líquido vaporizável .

de guza. Na Idade Média sofreu-se um retrocesso e fabricava-se de novo o aço aquecendo-se o ferro em contacto directo com materiais carbonados. no caso das ferramentas de corte. No início do século XIX apareceu pela primeira vez a elaboração por mistura em cadinho. Mushet descobriu que a adição de tungsténio ao aço permitia endurecê-lo após aquecimento sem que houvesse necessidade de o temperar. Depois de 1900 os progressos efectuados no domínio dos aços rápidos estenderam-se a todos os aços-ferramenta. a utilização cada vez maior do molibdénio em substituição do tungsténio nos aços rápidos.7% acompanhada de um aumento do teor em tungsténio para 14%. surge na Índia. estado da superfície das ferramentas e a introdução das qualidades de aços rápidos ditos de alto carbono. com elevados teores em vanádio e cobalto. durante este período. No início do século XIX Taylor e White recomendavam um aço com 1. necessário esperar mais vinte e cinco anos para se constatar que este aço (com uma composição aproximada de 2% C. antes da fusão. mas também pela acção do aquecimento seguido de arrefecimento brusco (têmpera). Em 1868 R. datando de então a constatação do efeito endurecedor assegurado não só pela absorção de carbono pelo ferro.5% Mn e 7% W) tinha uma dureza a quente muito mais elevada e que suportava um aumento sensível das velocidades de corte. melhorava de tal modo as suas características que permitia atingir velocidades de corte consideradas muito elevadas para a época (10 m/min).TRATAMENTOS TÉRMICOS DE AÇOS-FERRAMENTA Introdução Os aços-ferramenta são uma gama de aços extremamente antiga que constitui provavelmente a forma mais antiga de utilização dos metais ferrosos. Estava assim criada a base dos aços rápidos actuais. Foi.85% C. A ideia da adição de crómio ocorreu a Holtzer em 1878.. No entanto. O bloco esponjosos obtido era martelado para libertar as escórias sendo depois refundido em pequenos cadinhos que se deixavam arrefecer lentamente. Fundindo num cadinho pequenos pedaços de ferro enriquecido em carbono obtém então um bloco de aço homogéneo e que endurece uniformemente. Assinale-se igualmente a incorporação de enxofre para responder aos problemas de maquinagem. Cerca de 350 a.C. É o caso particular dos aços de trabalho a quente contendo crómio ou tungsténio bem como dos aços de trabalho a frio contendo manganés. o ferro de fusão: ferro extraído do minério por meio de fornos cujo funcionamento era semelhante ao dos actuais altos-fornos. Após 1950 os progressos realizados nos aços-ferramenta situam-se sobretudo ao nível das condições de elaboração e de transformação para afinar a estrutura dos produtos obtidos. só em 1820 é que Karsten mostrou que a diferença entre ferro. Tinha então surgido o primeiro aço rápido. Só em meados do século XVII (1740) é que Huntsman redescobriu a fusão do aço. e talvez ainda antes na China. O enriquecimento em carbono tinha lugar unicamente à superfície. mas muito havia ainda a fazer no domínio dos tratamentos térmicos. de ferro materiais carbonados e. no entanto. Para se obterem materiais duros com um certo volume forjava-se em conjunto uma grande quantidade de pequenos bocados de aço enriquecido em carbono. O desenvolvimento rápido da mecanização e a diversificação dos meios empregues para transformar os diferentes materiais alargaram o domínio de aplicação dos aços-ferramenta o que levou os fabricantes de aços a criar um grande número de . A descoberta dos aços remonta a 1000 a. Esta tendência que se acentuou no decurso da Segunda Guerra Mundial devido às dificuldades de aprovisionamento em tungsténio. Os aços de Damasco eram já verdadeiros compósitos formados de camadas alternadas de aço duro e aço macio ligadas entre si por soldadura e forjagem. É igualmente de salientar. foi com as experiências de Taylor no final do século XIX que se descobriu que este aço ao crómio em vez de ver as suas propriedades degradarem-se a altas temperaturas. 4% Cr e 8% W para logo a seguir aconselharem uma descida do teor em carbono para 0. De entre as evoluções importantes por parte da composição química após a Primeira Guerra Mundial é de assinalar a introdução do molibdénio nos aços com 5% de crómio para satisfazer os problemas de temperabilidade e aparecimento dos aços grafíticos e dos aços com endurecimento estrutural para resolver problemas de maquinabilidade. mais tarde. Julgava-se então que este aço não suportaria o aquecimento acima de 900 ºC. Depressa se reconheceu que este tipo de aço resistia muito melhor ao desgaste e que. 2. aço e guza(ferro fundido) residia no teor em carbono. foi facilitada pelos progressos entretanto alcançados no domínio dos tratamentos térmicos graças à generalização da utilização de banhos de sais. Em 1920.C. mantinha o fio de corte mesmo depois de tempos de serviço mais longos. o número de qualidades disponíveis nos Estados Unidos era igual a 12 e a maior parte de entre elas continuam ainda hoje a ser fabricadas. crómio e vanádio. No caso dos aços rápidos a dureza a quente aumentou significativamente através da adição de cobalto em quantidades que podem ir até cerca de 10%. tungsténio.

a 1538 ºC o Fe atinge o ponto de fusão. passa a apresentar uma estrutura cúbica de faces centradas (Fe-γ ou austenite) quando. está associada a uma densidade mais reduzida. Na década de 70 identificavam-se as seguintes variedades de aços-ferramenta: . o facto de a estrutura cúbica de faces centradas (cfc) ser compacta.76 nos Estados Unidos (norma AISI). .boa maquinabilidade (normalmente por arranque de apara) e. a possibilidade de obtenção de acabamento superficial de elevado grau de perfeição. nalguns casos pretende-se também que a dureza e a tenacidade subsistam ainda em elevado grau a temperaturas elevadas. Este tipo de tarefa torna-se muitas vezes extremamente complexo se se tiver em conta que várias de entre estas exigências são em larga medida contraditórias entre si como é o caso da dureza e da tenacidade. como não compacta que é. Na exposição que se segue vamos procurar pôr em evidência os aspectos de natureza estrutural que mais fortemente condicionam as propriedades dos aços-ferramenta. Esta diferença de densidades tem implicações sobretudo com os problemas de variações dimensionais e/ou com os estados de tensões geradas durante o processamento do material. surge uma nova transformação estrutural a 1396 ºC que faz o Fe apresentar-se novamente com uma estrutura cúbica de corpo centrado (Fe-δ ou ferriteδ).qualidades para responder às solicitações industriais.82 na Alemanha (documento Werkstoffblätter). maximizando a eficácia do preenchimento do espaço por parte dos átomos vistos como esferas rígidas. . em particular.87 em França (norma NF A 35-590). das formas de processamento que as viabilizam. assume particular importância. desde as ferramentas manuais. ccc cfc Figura 1 . O Ferro puro Os aços são ligas metálicas essencialmente constituídas por Ferro e Carbono que podem assumir uma grande variedade de formas estruturais em função da temperatura e da composição química. O cumprimento adequado destas especificações. que à temperatura ambiente se apresenta com uma estrutura cúbica de corpo centrado (Fe-α ou simplesmente ferrite). Para uma melhor compreensão dos tratamentos térmicos dos aços ferramenta haverá que tomar em consideração a seguinte relação: ESTRUTURA ==> PROPRIEDADES ==> APLICAÇÕES Tendo em conta as aplicações da família de aços-ferramenta podem listar-se várias propriedades relevantes para a eficácia do seu desempenho em serviço: . Esta diversificação não sendo alheia à evolução tecnológica. mesmo que isoladamente umas das outras. Continuando a elevar a temperatura. a estrutura cúbica de corpo centrado (ccc). Assim. se ultrapassam os 912 ºC. O sistema Ferro-Carbono . até às ferramentas de trabalho a quente e às ferramentas de corte. traz como consequência uma densidade mais elevada. normalmente acompanhada de exigência de alta tenacidade.variação dimensional o mais reduzida possível. Finalmente.dureza superficial elevada. consequentemente. fica também a dever-se ao facto de o aço-ferramenta ser usado num grande número de situações. o Ferro puro. do ponto de vista do tratamento térmico dos aços. .Representação esquemática das estruturas De entre as diversas formas estruturais do Ferro cúbica de corpo centrado (ccc) e cúbica de faces centradas (cfc). ao aumentar a temperatura. . exige o conhecimento do tipo de estruturas que interessa obter e. quer isto dizer que este arranjo estrutural.

um aço é definido como uma liga Fe-C em que o teor em Carbono não ultrapassa 2% . .02 0. a fracção em que estão presentes e a sua composição química.a adição de Carbono faz com que os domínios de temperatura em que são estáveis o Fe-α e o Fe-δ sejam reduzidos.08 2.A adição de Carbono ao Ferro não só traz alterações aos domínios de temperatura em que são estáveis as diferentes formas estruturais como também faz surgir novos tipos de transformações e novos componentes do sistema. o estável do sistema Ferro . enquanto que no caso do Fe-γ se observa um alargamento significativo do domínio de existência.77 738 ºC 727 ºC C F e 3 0. 1538 ºC δ 1396 ºC L 4. .26 s o lu b ilid a d ed a g ra fiten o F elíq u id o 1227 º γ 912 ºC 0. . .Diagrama de equilíbrio metaestável (traço contínuo) e estável (tracejado) do sistema Ferro .68 2. O diagrama de equilíbrio da Figura 2 permite-nos visualizar os domínios de temperaturas e composições em que são estáveis as diferentes formas estruturais do sistema Fe-C.no âmbito dos aços-ferramenta a transformação peritética pode ser ignorada. bastará considerar unicamente a eutectoide atendendo a que: . uma eutéctica a cerca de 1150 ºC e outra eutectoide a cerca de 730 ºC. isto porque os tempos necessários para induzir a grafitização são longos demais para que este fenómeno tenha alguma relevância no decorrer dos tratamentos térmicos de aços. de entre as três reacções possíveis (eutéctica.dentro deste domínio de composições só tem interesse considerar.30 α A1 0.11 1154 ºC 1148 ºC 4.surgem três reacções. este último está representado a traço contínuo.008 Fe % Carbono (ponderal) Figura 2 .Cementite. Para o estudo do tratamento térmico de aços-ferramenta poderá limitar-se a análise à região do diagrama metaestável compreendida entre 0 e 2%C e. peritética e eutectoide).Carbono. A análise deste diagrama permite-nos constatar que: . mesmo nos casos em que a composição química global do material cai dentro da gama onde esta transformação possa ocorrer. do ponto de vista das formas habituais de processamento dos aços. o que nos permite ignorar a transformação eutéctica. o sistema metaestável Ferro .Carbono (Grafite) e o metaestável do sistema Ferro Cementite (carboneto de ferro com a esteqiometria Fe3C). enquanto o primeiro está representado a tracejado nas situações em que a diferença é mais significativa. .há a considerar dois tipos de equilíbrio. uma peritética a cerca de 1500 ºC.

que começam por aparecer isoladamente na periferia dos nódulos de perlite (para teores de Carbono próximos do eutectoide). Tendo em vista uma melhor compreensão destes fenómenos. acabam por formar uma rede envolvendo os referidos nódulos cada vez mais contínua e de espessura sucessivamente crescente. Relativamente à composição eutectoide.8 %C ) obtém-se normalmente uma micro-estrutura formada por nódulos de lamelas alternadas de ferrite e cementite resultantes da reacção eutectoide (austenite → ferrite + cementite ). este modo de distribuição da ferrite pró-eutectoide permite delimitar claramente os limites de grão da fase-mãe (austenite).8) no seio de nódulos de perlite aparecem "ilhotas" isoladas de grãos de ferrite pró-eutectoide (ou seja. até cerca dos 600 ºC). resultado de um arrefecimento lento. como o nome sugere. uma estrutura compacta e que os seus produtos de decomposição apresentam estruturas não compactas. inversamente. Quando nos afastamos da composição eutectoide em sentido contrário (aumentando o teor em Carbono) os nódulos de perlite aparecem "bordeados" de folículos de cementite (pró-eutectoide). embora empiricamente conhecido (e aproveitado para fins práticos) desde tempos remotos. Uma das variantes consiste na que pode resultar de uma manutenção prolongada a uma temperatura ligeiramente abaixo da eutectoide. Esta malha de cementite que envolve os nódulos de perlite permite determinar aproximadamente o tamanho de grão da austenite.para teores de Carbono muito baixos (abaixo de 0. Estruturas não de equilíbrio Mas as variações mais significativas da micro-estrutura dos aços são as que resultam da imposição ao material de diferentes velocidades de arrefecimento. . só muito recentemente começou a ser sistematicamente estudado e melhor compreendido. torna-se necessária a introdução do parâmetro tempo na análise das transformações estruturais dos aços. consequentemente. a uma redução da energia global do sistema (tendência para o equilíbrio). a austenite se transforme em ferrite + cementite. que os aços podem apresentar muitas outras formas microestruturais. a que assume um papel mais relevante será com certeza (pelo menos no domínio dos aços-ferramenta) a que resulta de um arrefecimento brusco do aço a partir de uma temperatura situada no domínio austenítico. Este aspecto. . À medida que o teor em Carbono diminui.8 % ) ou hipereutectoides ( C > 0. estes. formam-se normalmente nos limites de grão da austenite. conforme acima foi referido. para a composição eutectoide (cerca de 0. esta técnica baseia-se. uma dilatação quando. a micro-estrutura vai sofrendo uma evolução que traduz uma variação contínua da quantidade relativa de nódulos de perlite e de grãos de ferrite: . por outro lado. Sucede.A estrutura de equilíbrio dos aços à temperatura ambiente é constituída por ferrite + cementite.1 %) a estrutura é quase inteiramente ferrítica iremos encontrar uma micro-estrutura formada por grãos de ferrite no seio dos quais se encontram dispersas "ilhotas" de perlite.8 % ).que se detecte uma contracção quando. Esta foi de facto a primeira forma de encarar o problema ao tentar (no início do século XX) sistematizar esta abordagem definindo para cada velocidade de arrefecimento as temperaturas de início e final dos diferentes tipos de transformação. à medida que aumenta o teor em Carbono. De entre todas estas estruturas. que se forma a partir da austenite antes de atingir a temperatura de transformação eutectoide) .60 < %C < 0.para teores próximos da composição eutectoide (0. será de esperar: . A cementite tende então a passar da forma de lamelas para a de glóbulos aproximadamente esféricos correspondendo esta evolução morfológica a uma minimização da energia interfacial e.4 < %C < 0. os aços podem classificar-se em hipoeutectoides ( C < 0. no registo da variação dimensional sofrida por um provete durante um dado ciclo térmico. Os registos dilatométricos permitem identificar para os aços três domínios de temperaturas estando cada um deles associado a um tipo diferente de transformação. no arrefecimento. esses grãos ferríticos. Para os arrefecimentos mais lentos observa-se uma perturbação dilatométrica situada nas mais altas temperaturas (estendendo-se tipicamente desde pouco abaixo da temperatura eutectoide.6) a micro-estrutura encontra-se constituída por nódulos de perlite envoltos por um "cordão" de grãos ferríticos. a gama de temperaturas em que a transformação ocorre vai-se deslocando no sentido descendente da escala das temperaturas. durante o aquecimento. afastando-se da composição eutectoide.e. no entanto. a ferrite + cementite se transforme em austenite .para teores de Carbono intermédios (0. Tendo em conta que a austenite apresenta. constata-se também que à medida que aumenta a velocidade de arrefecimento diminui a importância desta anomalia dilatométrica (em correspondência com uma diminuição da importância relativa da transformação que lhe está associada). As microestruturas acabadas de descrever são normalmente apresentadas como representativas da estrutura próxima do equilíbrio. Uma das primeiras técnicas utilizadas para acompanhar as transformações sofridas pelo aço no decurso de um dado arrefecimento foi a dilatometria. .

a essas temperaturas a difusão é ainda suficientemente elevada para não representar uma oposição muito significativa a esta tendência de redução do período de incubação. bainítica e martensítica. . será então de esperar que a acção da difusão vá no sentido de aumentar a duração do período de incubação ao diminuir a temperatura de transformação. as transformações perlítica. 25. seguido de um período de crescimento da faseproduto da transformação (ferrite ou cementite + perlite e bainite). Diagramas TTT de transformação isotérmica Esta separação dos três tipos de transformações em domínios de temperatura bem diferenciados levou Bain e Davenport. este tipo de diagramas é constituído por duas curvas em "C" delimitando o domínio dentro do qual a austenite se transforma gradualmente ou em perlite ou em bainite. A transformação martensítica. As curvas de início de transformação apresentam por isso um mínimo do período de incubação. por Mf (do inglês "Martensite finish"). uma diminuição da importância relativa da anomalia dilatométrica e um abaixamento da gama de temperaturas em que esta perturbação ocorre à medida que aumenta a velocidade de arrefecimento. por aí se pode ver que a dureza aumenta à medida que a temperatura de transformação vai sendo cada vez mais baixa. às velocidades de arrefecimento mais elevadas corresponde um último tipo de transformação que tem a singularidade de apresentar uma temperatura de início de transformação que é independente da velocidade de arrefecimento (desde que nenhuma outra transformação a tenha precedido). por Ms (do inglês "Martensite start") . de forma significativa. a curva de início da transformação perlítica pode ser precedida pela curva de início de formação do constituinte pró-eutectoide (ferrite no caso dos aços hipoeutectoides. A forma em "C" das curvas dos diagramas TTT resulta do modo como a difusão e o grau de instabilidade do sistema são afectados pela temperatura de transformação: . Também para este tipo de transformação se regista. Nas mais baixas temperaturas encontra-se o domínio da transformação martensítica delimitado por duas linhas de temperatura constante: . será de esperar uma diminuição do período de incubação. . Trata-se de transformações com difusão que ocorrem por nucleação e crescimento. Este tipo de transformação acontece tipicamente no domínio das temperaturas situadas abaixo dos 300 ºC. numa escala Temperatura versus Tempo. a decomposição da austenite neste domínio de temperaturas é praticamente independente do tempo de manutenção a essa temperatura. tal como na anterior. para cada temperatura.por outro lado. em contrapartida. dependendo unicamente. Na sua forma mais simples. a difusão é de tal forma limitada que resulta uma tendência mais pronunciada para um aumento da duração do período de incubação.superiormente. registaram então. 75. Assim. Da compilação dos resultados obtidos obteve-se um diagrama que. um arrefecimento brusco até uma temperatura à qual o material era mantido de modo a permitir a análise da evolução estrutural a essa temperatura. é uma transformação sem difusão caracterizada por movimentos atómicos de pequena amplitude (tipicamente inferiores ao parâmetro de rede da estrutura). inferiormente. ou seja. Para isso. Este tipo de diagramas é normalmente complementado com a informação da dureza dos constituintes que se obtêm às diferentes temperaturas. o material era submetido a um ciclo térmico que compreendia. Para cada temperatura haverá então que distinguir um período de incubação durante o qual a austenite meta-estável permanece aparentemente inalterada. ou cementite no caso dos aços hipereutectoides). torna-se especialmente relevante a diminuição do período de incubação à medida que diminui a temperatura de transformação atendendo ao papel dominante do aumento da instabilidade do sistema. a enveredar pelo estudo da decomposição da austenite durante a sua manutenção a diversas temperaturas. no final da década de 20. 50. tendo em conta este parâmetro. além disso. a difusão diminui acentuadamente (segundo uma lei de Arrhenius) à medida que a temperatura diminui. por outras palavras trata-se de transformações com difusão.e. nos mais altos domínios de temperatura. Finalmente. A estes três domínios de temperaturas correspondem. bem como os tempos necessários para algumas etapas intermédias de transformação (10.a instabilidade do sistema aumenta à medida que nos afastamos (no sentido descendente) da temperatura de equilíbrio da transformação (eutectoide). os tempos de início e final de transformação da austenite. No entanto a mais baixas temperaturas. 90%). pela ordem por que foram referidos.Para velocidades de arrefecimento crescentes começa a ganhar importância um segundo tipo de transformação estendendose por uma gama intermédia de temperaturas (tipicamente entre os 550 e os 300 ºC). da temperatura até à qual se arrefeceu o material. após a austenitização. As duas primeiras são transformações dependentes do factor tempo na medida em que carecem de movimentos em larga escala dos átomos. tipicamente na vizinhança dos 550 ºC. ilustra a distribuição dos diferentes tipos de Transformação: diagramas TTT de transformação isotérmica.

6. 0. No interior dos grãos ferríticos encontram-se. 8 6. esta morfologia resulta do seu crescimento a uma velocidade constante em todas as direcções. a diminuição da solubilidade com a temperatura começa por ser muito rápida até aos 500 ºC sendo depois mais lenta: 0. poder dispôr de diagramas TTT que tenham sido obtidos não como resultado de manutenções isotérmicas mas sim com base numa gama alargada de arrefecimentos contínuos. 8 % cementite = ≈ 12 % e % ferrite = ≈ 88 % . 69 . Ao aumentar a temperatura de austenitização deverá aumentar o tamanho do grão da austenite em cujos limites de grão são preferencialmente nucleados os nódulos de perlite. por isso. afigura-se muito mais interessante. 69 . subdivide-se em colónias de lamelas de ferrite/cementite sendo em cada uma dessas colónias a orientação optimizada de modo a permitir uma velocidade de crescimento local que seja compatível com uma velocidade de crescimento global do nódulo igual em todas as direcções (radiais). A solubilidade máxima do Carbono na ferrite é de 0. aparecendo por isso realçados por contrastação. desde a temperatura de austenitização até à temperatura ambiente. ao formar-se uma das fases (ferrite ou cementite). O arrefecimento rápido de um aço hipo-eutectoide pode dar origem a uma micro-estrutura ferrito-perlítica em que a percentagem de nódulos perlíticos é mais elevada do que a que seria observada numa arrefecimento de equilíbrio do mesmo 1 A aplicação da regra da alavanca para a determinação das percentagens das fases (ferrite e cementite) presentes na perlite dá como resultado: 0.00003 %C a 150 ºC. a temperatura de transformação constante o tamanho dos nódulos vai estar directamente relacionado com o tamanho do grão austenítico. limites de grão pouco nítidos que se designam por limites de sub-grão. Estes nódulos nucleados nos limites de grão da austenite apresentam uma forma aproximadamente esférica.001 %C a 300 ºC. 69 6. do ponto de vista da grande parte dos tratamentos térmicos dos aços. Perlite A perlite é formada por lamelas alternadas de ferrite e de cementite como resultado de.8 % o que implica que a percentagem volúmica da ferrite é de 88 % e a de cementite é de 12 % 1. por vezes. Diminuindo a temperatura de transformação reduz-se o espaçamento interlamelar o qual é independente do tamanho do grão da fase-mãe (austenite). as diferenças quanto ao grau de ataque dos diferentes grãos ferríticos consoante a sua orientação provocam desníveis entre os diferentes grãos. assim. a título de exemplo refira-se que os grãos que apresentam um plano da família {100} paralelo à superfície polida são os que mais resistem ao ataque químico de contrastação. O teor médio em Carbono da perlite é de 0.02 % (à temperatura A1). esta precipitação dá-se nos limites de grão ferríticos. Cada nódulo de perlite é formado por "colónias" de lamelas de ferrite e de cementite que crescem no seio da austenite mantendo a orientação relativamente à região da fase-mãe em que se desenvolvem. Estes diagramas TTT de Transformação em Arrefecimento Contínuo (TAC) são traçados a partir da localização sobre cada curva de arrefecimento dos pontos de início e final de transformação da austenite. para tal. o que torna possível distinguir os limites de grão.Apesar do interesse prático deste tipo de diagramas. esta variação de dimensões dos grãos deve-se essencialmente à disposição aleatória dos grãos relativamente à secção observada.0. a nucleação e/ou crescimento da outra ser facilitada. Microconstituintes dos aços Ferrite A ferrite apresenta-se normalmente com uma forma poliédrica irregular com cristais de dimensões variáveis. 0.005 %C a 500 ºC. a relação entre as espessuras das lamelas de ferrite e de cementite deverá ser aproximadamente de 1:7 . estes apresentam-se com um traçado irregular formando um reticulado de malhas desiguais. estes limites de sub-grão delimitam pequenos cristalitos cuja desorientação relativa é muito pequena (alguns graus). Supõe-se que as variações de volume resultantes da transformação γ → α provocam o aparecimento de tensões que originam a deformação dos grãos de ferrite subdividindo-os em cristalitos de pequena desorientação. os limites de sub-grão apresentam muito frequentemente descontinuidades e são tanto mais visíveis quanto mais grosseira for a ferrite. Esta diminuição de solubilidade do Carbono na ferrite leva à precipitação de carboneto (cementite terciária) durante um arrefecimento contínuo lento. Os grãos de ferrite são atacados diferentemente consoante a sua orientação cristalográfica relativamente ao plano da superfície de preparação metalográfica. é nestes limites de pequena desorientação que os defeitos cristalinos tendem a acumular-se o que as torna regiões preferenciais de ataque químico. não sendo no entanto impossível que se verifiquem variações das dimensões reais de uns grãos para outros.

25 %). a austenite que resta encontra-se mais empobrecida em Carbono (comparativamente com a composição eutectoide). por vezes detectar vestígios de cementite não dissolvida que apresentam ainda a orientação das lamelas da cementite inicial (não dissolvida). O que foi referido a propósito das estruturas anómalas em aços ao Carbono é também válido para os aços ligados. Cementite A cementite é o carboneto de ferro Fe3C . . lamelas de ferrite mais espessas. estas lamelas grosseiras de cementite são muito difíceis de se dissolverem ao aquecer-se o material acima de A3. neste caso. Para uma mesma temperatura de austenitização o grau de degenerescência é tanto menor quanto menor for a temperatura de transformação isotérmica. como resultado da diminuição de solubilidade do Carbono na ferrite à medida que diminui a temperatura. ao iniciar a transformação eutectoide. Nos aços hiper-eutectoides é possível surgir uma micro-estrutura "anómala" que se caracteriza por. como consequência.cementite na forma de glóbulos dispersos no seio de uma matriz ferrítica (estrutura típica de recozimento de amaciamento). no arrefecimento. poderá dizer-se que a formação da ferrite e da cementite eutectoides independentemente uma da outra é tanto mais acentuada quanto maior for: . a austenite não se transformar em perlite lamelar. Os aços hipo-eutectoides podem igualmente apresentar uma estrutura degenerada. É o constituinte mais duro dos aços ao carbono (dureza superior a 68 Rockwell-C) e apresenta uma estrutura ortorrômbica (a=4. sob a forma de cristalitos relativamente desenvolvidos e isentos de carbonetos. caso o arrefecimento seja lento. daqui resulta um maior espaçamento entre as lamelas de cementite ou.a temperatura de transformação isotérmica (<A1). . Numa superfície polida a espessura aparente das lamelas. quer da cementite. tanto maior a tendência para a cementite (pró-eutectoide) precipitar no interior dos grãos de austenite (estrutura de Widmanstätten). caso uma parte da cementite pró-eutectoide se apresente sob a forma de plaquetas então também é possível que apareçam regiões ferríticas envolvendo essas plaquetas. durante o arrefecimento e após a precipitação da cementite pró-eutectoide. Os grãos perlíticos distinguem-se uns dos outros pela diferença de orientação da matriz ferrítica e pelo arranjo das lamelas de cementite. com cerca de 6. Nos aços hiper-eutectoides o crescimento separado da ferrite e da cementite (eutectoides) está frequentemente limitado a uma estreita faixa na vizinhança da rede de cementite pró-eutectoide precipitada nos limites de grão da austenite inicial. as heterogeneidades de composição química da austenite associadas a esta cementite não dissolvida originam. varia consoante a inclinação do plano da secção relativamente aos planos das lamelas. b=5. nas regiões onde a cementite foi dissolvida a austenite resultante fica enriquecida em Carbono. quanto maiores forem a velocidade de arrefecimento. acima dos 0.9 %C pode formar uma rede contínua envolvendo os agregados de nódulos de perlite (nos limites de grão da austenite que deu origem a essa perlite).aço. . esta alteração deve-se ao facto de o aumento da velocidade de arrefecimento não permitir a formação da quantidade de ferrite pró-eutectoide que seria de esperar após um arrefecimento lento. a cementite apresenta-se sob formas irregulares dispostas ao longo dos limites de grão ferríticos. . Pode aparecer nos aços como: .74 Å). o que é equivalente. Verifica-se experimentalmente que o grau de degenerescência é tanto maior quanto menor for a temperatura de austenitização para uma mesma temperatura de transformação isotérmica (no domínio perlítico).cementite fazendo parte da perlite. A proporção de ferrite livre existente permite imediatamente avaliar o grau de degenerescência na estrutura. a ferrite (eutectoide) cresce independentemente da cementite (eutectoide). c=6. É ferromagnética à temperatura ambiente situando-se a sua temperatura de Curie a cerca de 220 ºC. o teor em Carbono e o tamanho do grão austenítico. .cementite terciária precipitada nos limites de grão da ferrite (em aços de teor em Carbono inferior a 0.cementite pró-eutectoide nos aços hiper-eutectoides. ou seja. Em certas condições de arrefecimento a perlite produzida pela transformação eutectoide é especialmente grosseira. Bainite .088 Å.a "distância" (em termos de teor em Carbono) relativamente à composição eutectoide.525 Å. com lamelas de ferrite e de cementite espessas e muito afastadas. a cementite formada no decurso da reacção eutectoide precipita preferencialmente sobre os cristais de cementite pró-eutectoide. quer da ferrite.67 %C.a heterogeneidade de composição química da austenite. na forma de lâmelas que alternam com lamelas de ferrite. uma perlite cujas lamelas de cementite parecem entrecuzar-se. assim.a quantidade de carbonetos não dissolvidos aquando da austenitização. após o arrefecimento é possível. quanto mais a temperatura de transformação isotérmica se aproximar da temperatura de transformação eutectoide de equilíbrio (A1) tanto maior será o grau de degenerescência. por outro lado. .

prende-se com o facto de se poder definir uma temperatura Bs (por analogia com a temperatura Ms). Este tipo de micro-estrutura é por isso geralmente caracterizado por uma elevada tenacidade. A transformação bainítica ocupa uma posição singular entre as transformações no estado sólido na medida em que apresenta características que a fazem associar-se não só às transformações com difusão mas também às transformações sem difusão (martensíticas). sobretudo após a apresentação do trabalho pioneiro de Bain e Davenport. por isso. quer na bainite superior quer na inferior.formação de martensite de alto teor em carbono entre as ripas (de ferrite bainítica). A bainite superior é constituída por "ripas" paralelas de ferrite entre as quais se encontram precipitados carbonetos paralelamente ao eixo principal destas "ripas". mas muito próxima desta. p. este enriquecimento traz como consequência uma maior estabilidade da austenite. só tardiamente os aços bainíticos começaram a ter uma ampla aplicação industrial. Na bainite inferior a elevada densidade de deslocações e a fina dispersão de carbonetos no interior das ripas limita fortemente a possibilidade de iniciação ou de propagação de fissuras. resulta assim diminuído o domínio de temperaturas onde ocorre competição entre as transformações perlítica e bainítica. Este carácter intermédio está na origem da sua designação em alguns idiomas (alemão e sueco. nos aços ao Carbono.austenite por transformar após arrefecimento até à temperatura ambiente. ripas adjacentes constituem-se em agregados cuja direcção principal de crescimento é muito próxima umas das outras. Isto deveu-se em parte às dificuldades de obtenção deste tipo de transformação numa região suficientemente extensa de uma dada secção recta. Uma singularidade importante da transformação bainítica. ou . As observações por microscopia electrónica mostram que os carbonetos precipitam nas interfaces das ripas de ferrite. esta deslocação das curvas de transformação na escala dos tempos é acompanhada de uma descida do domínio de temperaturas da transformação bainítica. singularidade esta que pode ser associada ao seu carácter misto de transformação com difusão e sem difusão. enriquecendo-a em Carbono. . mas também não será alheio a este facto o tardio (e. a transformação em maior grau da austenite em bainite só é possível nestes aços.Desde há muito tempo. Às mais altas temperaturas a que se pode formar a bainite superior a mobilidade do Carbono é suficientemente elevada para difundir-se para a austenite por transformar. pois esta se encontra. É difícil de conseguir obter a transformação bainítica através de arrefecimentos convencionais. é que se torna possível uma quantidade mais apreciável de bainite que se pode formar dentro de uma gama mais alargada de arrefecimentos contínuos. ficando a dever-se ao facto de na bainite inferior ser muito rápida a precipitação de carbonetos na frente de transformação ferrite/austenite. Só pela adição de elementos de liga que desloquem as curvas da transformação perlítica para tempos mais longos. nos aços ligados quando a temperatura de transformação está abaixo de Bs. na gama de arrefecimentos (contínuos) em que é possível formar bainite esta ou é precedida pela formação de ferrite + perlite ou é seguida de martensite. uma tendência para maior separação (na escala de temperaturas) entre estas curvas. No caso dos aços distinguem-se habitualmente dois tipos de bainite: bainite inferior e bainite superior. em vez de um arrefecimento contínuo. são estas duas últimas formas micro-estruturais as que mais fortemente contribuem para a fragilidade normalmente associada à bainite superior. os agregados de ripas estão separados entre si por limites de grão de grande ângulo que tendem a retardar a propagação de fissuras. que uma especial atenção tem sido dedicada à transformação bainítica. por esta via. a transformação da austenite não é completa mesmo para tempos de manutenção muito longos. A bainite forma-se num domínio de temperaturas intermédio entre o da perlite e o da martensite. nebuloso) conhecimento da natureza e modo de formação da estrutura bainítica. As ripas de um mesmo agregado. o que limita o enriquecimento em carbono da austenite e. Esta é uma diferença importante entre os dois tipos de bainite. até certo ponto. a quantidade de austenite que se transforma em bainite vai aumentando gradualmente à medida que a temperatura de transformação vai diminuindo. entre outros efeitos. acima da temperatura Bs não é possível induzir a transformação bainítica. o que pode estar na origem de: . A bainite superior forma-se a temperaturas mais altas (acima de 350 ºC) e a sua morfologia é progressivamente alterada à medida que a temperatura de transformação diminui: a densidade dos carbonetos precipitados aumenta e a dimensão média dos agregados de ripas também aumenta. limita a sua estabilidade. . "escondida" pela transformação perlítica.) como "estruturas intermédias". se proceder a um arrefecimento interrompido por um patamar de manutenção no domínio de temperaturas da transformação bainítica. se. nos aços ao carbono estes aspectos cinéticos são encobertos pela formação de perlite e constituintes pró-eutectoides em competição com a transformação bainítica como resultado da sobreposição parcial das correspondentes curvas em "C". comparativamente com a deslocação das curvas da transformação bainítica. com este tipo de diagramas TTT. excepto em regiões muito restritas do material. encontram-se separadas por limites de grão de pequeno ângulo que bloqueiam os movimentos das deslocações. Pela facilidade com que no seu seio se pode iniciar e propagar uma fissura.precipitação de cementite entre as ripas. A quantidade de austenite residual (austenite que fica por transformar até ao final do ciclo térmico) após formação de bainite inferior é muito menor do que no caso da bainite superior. no entanto. no entanto. por outro lado. daqui resulta uma forte tendência para os arrefecimentos contínuos convencionais darem origem a estruturas mistas bainíticomartensíticas. A bainite inferior é constituída por ripas de ferrite no interior das quais ocorre a precipitação (dispersa) de carbonetos alinhados segundo uma direcção que faz um certo ângulo com o eixo principal da ripa. a adição de elementos de liga origina. aproximando-a da transformação martensítica. ex.

só as posições relativas são alteradas. Na realidade. (ii) distorção não homogénea do tipo invariante como o escorregamento. Assim. (iii) rotação de corpo rígido. conservando os mesmos vizinhos. no segundo caso a transformação não é retomada imediatamente após o reinício do arrefecimento. a velocidade de formação de martensite é directamente proporcional à velocidade de arrefecimento.Também é possível ocorrerem outras formas (granulares ou colunares) no caso de aços ligados ou quando a transformação se efectua sob pressão. a velocidade de propagação da frente de transformação é da ordem de grandeza da velocidade do som. A reacção é imediata e pode tomar um carácter explosivo. sem alteração da composição química. A primeira característica desta transformação é a rapidez com que tem lugar. para que a transformação progrida torna-se necessário descer a temperatura: a quantidade de martensite formada só depende da temperatura a que o material se encontra (abaixo de Ms). este tipo de deformação permite assegurar um plano invariante à escala macroscópica. pelo contrário. Observam-se no entanto certos fenómenos de estabilização térmica quer quando o material é mantido a uma temperatura ligeiramente superior a Ms. mantendo uma interface semi-coerente móvel entre a martensite e a fase-mãe. . Com efeito é bem conhecido que os aços quando aquecidos e em seguida arrefecidos bruscamente apresentam uma dureza excepcional. Martensite É à transformação martensítica que os aços devem a sua importância tecnológica desde há séculos. os átomos deslocam-se unicamente de uma fracção da distância interatómica. torna-se então necessário aumentar ainda mais a força motriz para que a reacção ocorra. se. sem que no entanto esteja definida qual a sequência. Se o arrefecimento for lento o material sofre a transformação eutectoide. De acordo com as teorias até agora desenvolvidas para explicar a cristalografia da transformação martensítica podem considerar-se três passos: (i) a distorção de Bain proposta em 1924 para explicar a transição da estrutura cfc da austenite para a estrutura tcc da martensite de modo a que os movimentos dos átomos sejam mínimos. A transformação martensítica caracteriza-se pelo facto de se iniciar unicamente quando. Este tipo de fenómenos deverá estar relacionado com a mobilidade dos intersticiais (Carbono ou Azoto) permitindo rearranjos que bloqueiam a transformação. no primeiro caso a nova temperatura de início de transformação será inferior ao Ms original. o arrefecimento é brusco não há tempo para que a difusão do Carbono tenha lugar. a maclagem ou a indução de falhas de empilhamento. quer quando é feita uma interrupção do arrefecimento depois de iniciada a transformação. Este tipo de transformação é designada por Christian de "transformação militar". sendo a frente de transformação bloqueada pelos limites de grão ou pelos defeitos acumulados como resultado da transformação já ocorrida. abaixo de uma certa temperatura a austenite começa gradualmente a transformar-se em martensite.Distorção de Bain É da combinação destes três modos que resulta uma deformação equivalente à experimentalmente observada. a austenite se encontra abaixo de Ms. este mecanismo baseia-se na visualização de uma estrutura tcc no seio de uma cfc. 3 . em arrefecimento. é por isso uma transformação sem difusão (atérmica) visto que a tão baixas temperaturas os movimentos dos átomos a grandes distâncias não são possíveis para velocidades de avanço da transformação tão elevadas. ~ 20 % contracção ~ 12 % expansão ~ 12 % expansã Fig. a transformação martensítica é uma reacção em que o produto de transformação é obtido numa região da fase-mãe através de um movimento coordenado de um grande número de átomos.

quer em transformação isotérmica. daí a designação deste tipo de micro-estrutura por "acicular" embora a três dimensões a estrutura não seja acicular mas sim lenticular. A tetragonalidade da martensite é uma consequência directa da presença de intersticiais preferencialmente num dado tipo de posições da rede: as posições octaédricas. 4 A morfologia mais típica é a de plaquetas irregulares (sob a forma lenticular). A dilatometria é a técnica mais frequentemente utilizada para o traçado de diagramas TTT. ser mais fácil relaxar as tensões de transformação. A técnica mais simples (em termos de equipamento necessário) é a metalografia. após austenitização seguida de têmpera até à temperatura de transformação. a técnica metalográfica apresenta várias desvantagens. por outro lado. 045 ⋅ wt % C a tcc Fig. bainite). o provete é bruscamente arrefecido até à temperatura de transformação. as diferenças morfológicas e de dureza nem sempre são muito evidentes. A permeabilidade magnética e o volume específico são duas propriedades que permitem uma boa monitorização contínua da transformação da austenite. perlite. O acompanhamento da transformação isotérmica da austenite pode ser feito através da observação metalográfica de amostras que. a forma lenticular é considerada como uma morfologia que minimiza a energia de deformação. A martensite dita acicular é própria dos aços de mais alto teor em Carbono apresentando-se as lentículas com uma parte central finamente maclada enquanto as regiões laterais contêm elevadas densidades de deslocações. . a ma2 A designação de martensite não é necessariamente específica das ligas ferrosas. Os valores destas propriedades na fase-mãe (austenite) e nos produtos de decomposição são suficientemente diferentes para dar origem a uma variação facilmente detectável do da amplitude do sinal medido. A forma mais irregular dos bordos da martensite maciça. Após austenitização nas condições (temperatura e tempo) desejadas. a observação metalográfica e a determinação de durezas poderão ainda ser usadas em conjugação com estas técnicas contínuas mas agora só como uma técnica auxiliar que permita uma identificação dos microconstituintes formados uma vez completada a transformação. as diferenças entre certas bainites e a martensite são por vezes difíceis de detectar. a transformação martensítica é possível de ser encontrada em muitas outras ligas não ferrosas. com efeito. particularmente em alguns aços de mais alta liga. quer em arrefecimento contínuo. Nestes casos. Deste modo é fácil identificar os produtos de transformação da austenite próprios das mais altas temperaturas (ferrite ou cementite pró-eutectoide. sendo a mais grave de todas o elevado número de amostras que se torna necessário tratar para definir completamente um diagrama TTT-TI. são sujeitas a diferentes tempos de manutenção à referida temperatura de transformação. por isso. a preparação metalográfica faz aparecer sobre uma superfície polida agulhas que resultam da intersecção das plaquetas.A martensite2 é uma solução sólida sobressaturada de Carbono no Ferro. nestes pode subsistir austenite (residual) após a têmpera até à temperatura ambiente o que dificulta a interpretação das microestruturas obtidas. Neste texto usar-se-à o termo martensite para designar o produto da transformação martensítica nas ligas ferrosas. Um meio muito mais eficiente de obter o traçado dos diagramas TTT é através da monitorização contínua de uma certa propriedade do material in situ durante a transformação. comparada com a acicular. tcc) pode ser considerada como uma forma distorcida da estrutura ccc do Fe-α. a estrutura da martensite (tetragonal de corpo centrado. Embora bastante simples. Determinação experimental das curvas TTT São muito variadas as técnicas que permitem estudar a transformação da austenite. advém-lhe do facto de a transformação se iniciar a mais altas temperaturas e. estes patamares são seguidos de uma têmpera até à temperatura ambiente destinada a transformar em martensite a austenite que não se decompôs durante o tratamento isotérmico anterior. estes distinguem-se (normalmente com facilidade) da martensite formada a partir da austenite que ficou por transformar não só pela sua morfologia como pela dureza. Nos aços de mais baixo teor em Carbono encontra-se uma martensite designada por maciça formada por plaquetas de bordos irregulares contendo no seu interior altas densidades de deslocações. Aumentando o teor em Carbono a tetragonalidade da rede aumenta de acordo com: Domínios possíveis de localização de átomos de F Posições possíveis dos átomos de C c = 1 + 0 . Por outro lado.

esta perturbação permite localizar os tempos de início e final de formação de cada um dos microconstituintes. Esta abordagem de qualquer modo só é válida no caso da decomposição da austenite originar um único microconstituinte. é aconselhável efectuar esta têmpera final na medida em que a cessação da dilatação é unicamente um indicativo de que a decomposição da austenite parou. se se formar uma mistura de microconstituintes a validade deste tipo de análise está limitada às situações em que a diferença de volumes específicos dos referidos microconstituintes seja muito reduzida. Quando o comprimento deixa de variar ao longo do tempo. Na maior parte dos casos em que a uma dada temperatura a austenite se transforma em dois produtos diferentes (p. ferrite e perlite) detecta-se uma perturbação no andamento sigmoidal da curva dilatométrica. Casos há. ex. a transformação será acompanhada de uma dilatação. através desta têmpera final será possível identificar (por metalografia) a austenite que ficou por transformar no patamar isotérmico pois ela irá transformar-se em martensite como resultado da têmpera final. . começa-se por determinar a percentagem de microconstituintes formados. mas não de que toda a austenite já se transformou. a análise metalográfica do provete poderá então permitir a localização aproximada (no tempo) do final de formação do primeiro microconstituinte e do início do segundo. a exploração dos resultados dilatométricos é normalmente feita no pressuposto de que a variação de comprimento do provete é directamente proporcional à quantidade de nova fase formada. Se a observação metalográfica mostrar que a austenite se transformou completamente então o registo dilatométrico da variação do comprimento em função do tempo dá uma informação directa (a menos de um factor de escala) sobre a cinética da transformação da austenite. a validade da suposição de existência de uma relação linear entre a fracção de fase formada e a variação de comprimento é aceitável. porém. No caso dos aços. procede-se a um arrefecimento brusco do provete para posterior observação metalográfica. no entanto. como os produtos de decomposição são caracterizados por um volume específico maior do que o da fase-mãe.nutenção a essa temperatura irá induzir a transformação da austenite nos seus produtos de decomposição próprios dessa temperatura. em que a decomposição da austenite em dois microconstituintes distintos não está associada a nenhuma perturbação da sigmoide. para isso.