You are on page 1of 11

Brazão, P. (2011). O diário Etnográfico Electónico, Um instrumento de Investigação: Três Testemunhos, in Fino, C. (org). Etnografia da Educação (pp.

303-323). Funchal:CIE-UMa.

O diário etnográfico electrónico, um instrumento de investigação: três testemunhos

Centro de Investigação em Educação da Universidade da Madeira pbrazao@uma.pt

Introdução

O diário etnográfico é um instrumento utilizado pelo investigador etnógrafo para registo do seu trabalho de campo e desde o início do século passado veio a assumir um estatuto de instrumento de pesquisa, uma técnica com diferentes especificidades ao serviço dos investigadores. Numa apropriação mais geral, o diário pode também ser usado como método de colecta de dados, de descrição dos processos e estratégias da própria pesquisa e análise das implicações subjectivas do pesquisador; método de formação dos docentes, análise de práticas pedagógicas e desenvolvimento profissional e pessoal; método de intervenção, ou de investigação-acção (Brazão, 2007). Neste artigo vou reflectir utilização do software que construí denominado Diário Etnográfico Electrónico, já descrito com detalhe num artigo anterior de Brazão (2007), em Diário do diário etnográfico electrónico. Utilizo para esta reflexão, o testemunho de três relatos de investigação de natureza etnográfica. Verifico que a utilização desta ferramenta vem facilitar o trabalho do investigador etnográfico. Termino reforçando a ideia de que as questões metodológicas sobre a observação são muito mais complexas que as questões técnicas. O conhecimento prévio do tema a estudar e a revisão da literatura é também fundamental e deve fazer parte da subjectividade de cada investigador, tratada numa perspectiva crítica.

O Diário de Campo, instrumento de pesquisa, formação e intervenção

1

com o modelo da prática do Diário de Campo e a análise da implicação. a da Análise institucional de Paris VIII. Boas. urbana influenciadora da etnografia interacionista inglesa e que tem representantes principais D. 1991) . a da Escola de Chicago e do interaccionismo simbólico dedicada à sócio-etnografia. M. com as tendências da “Análise institucional interna” de “Etnografia institucional ou “Etnografia participante”. Henri Peretz (1996. opõem-se às abordagens quantitativas e positivistas. ou “Etnosociologia institucional” (G. e o desenvolvimento pessoal dos docentes. referido por 2 . Hargreves. Hammerseley e P. como método de pesquisa. a sua entrada no campo. melhorando as didácticas. e como dispositivo de acção – planeamento da acção para produzir mudanças e práticas de avaliação. os papéis assumidos. referido por Lapassade 2001). Junker (1995. Delamont. Woods. 2007). método das histórias de vida. Quando utilizado nos processos de autoformação dos docentes. a descoberta do esquema principal. a relação com a comunidade estudada. diário institucional.S. Não deixando de fora a subjectividade. a redação e a publicação. O conceito de “Observação Participante” e o papel do observador na investigação assumem também centralidade na literatura etnográfica. permite por exemplo reexaminar a prática docente e reflectir sobre a resolução de problemas e incidentes críticos. A observação participante e o papel do observador A acção do investigador é uma questão essencial prévia à elaboração do diário. as condições de observação e de trabalho de equipa. Nada impede o facto de poder ser escrito por qualquer actor social que esteja sensibilizado para as relações sociais vivenciadas.A prática do diário pode ser conceptualizada em quatro principais correntes teóricas: a da antropologia cultural/social fundada por Malinowski e F. fazendo-o desempenhar um papel social mais activo (Brazão. Lapassade. uma técnica com diferentes especificidades ao serviço dos investigadores e também de docentes. ensaiar estratégias de antecipação e possibilitar a análise mais profunda da construção do “eu” “Self”. O método do diário etnográfico. são abordagens qualitativas de pesquisa educacional/social. o diário veio a assumir um estatuto de instrumento de pesquisa. a tomada de notas. Numa apropriação mais vasta. apresenta ao investigador as seguintes etapas: A escolha do terreno. Pode funcionar como instrumento na formação profissional.

Lapassade. . . . A implicação do investigador no campo de observação pode ser regulada com os mecanismos de participação e distanciação. quando as actividades a observar são do domínio público. 2007). distingue quatro variantes sobre o papel do investigador numa observação participante: .O observador completo.O participante completo. quando as actividades observadas não se submetem às actividades em que o observador participa. podendo o observador dispor de uma variedade de meios de acesso à informação.O observador participante. quando o observador participa nas actividades que pretende observar. 2001). 3 . São exemplo as actividades de dinâmica de grupo que decorrem em laboratório com o observador por detrás de um vidro.O participante observador. O sofware já foi descrito num artigo anterior (Brazão. É uma simples base de dados e recentemente obteve atualizações gráficas que passo a descrever. quando as actividades estão para além do observador. O diário etnográfico electrónico e o registo dos dados Neste artigo vou reflectir utilização de um diário etnográfico electrónico.

ao utilizar equipamento informático portátil.O registo imediato dos dados durante o tempo em que o investigador se encontra no terreno. . . analisam. .A reunião do maior número de dados possível no mesmo suporte electrónico. o investigador e outros protagonistas fazem uso de referentes explícitos que consideram oportunos. Situando-o em duas fases da investigação: Fase descritiva e fase interpretativa.Interface de apresentação do software Diário Etnográfico O diário de bordo electrónico foi construído para satisfazer os seguintes aspectos: . (Sabirón.O acesso. O esforço descritivo inicial para explicar a realidade observada é o ponto de partida para a credibilidade dos resultados e do processo de investigação. arquivo e mobilidade facilitados. 4 . 2001) este software torna-se importante na primeira fase quando se procede ao registo descritivo das informações obtidas.Figura 1. Na fase interpretativa com base no rigor da descrição.A apresentação simultânea de todos os dados.

Na fase descritiva.Maximizar a utilização de hiperligações para os registos áudio em MP3 e para os artefactos em suporte digital. em última análise. instrumentos e informações para assegurar a pertinência da informação elaborada. . o software foi actualizado com melhoramentos gráficos tendo em conta o seguinte: . .Maximizar a interface de triagem de observações de fenómenos evidenciados em forma de listagem.interpretam-nos e compreendem os fenómenos em estudo. nomeadamente nas áreas de descrição dos registos de observação. processos progressivos de triangulação de fontes.Maximizar a ficha de observação para cada sessão de trabalho. São.Interface de registo de observações / reflexões 5 . O resultado pode ser observado nas figuras 2 e 3 seguintes: Figura 2 .

face às novas realidades sociais. No enquadramento da tese. 6 . na área da Inovação Pedagógica.Interface de triagem de observações de fenómenos evidenciados Utilizando o diário etnográfico electrónico: três testemunhos Vou reflectir utilização do software servindo-me do testemunho de três relatos de investigação de natureza etnográfica nos cursos de Doutoramento em Ciências da Educação. nas área de Inovação Pedagógica e Currículo.Figura 3 . do Centro de Investigação em Educação da Universidade da Madeira. e apresenta uma proposta de trabalho que decorre desde Novembro de 2009. a tomada de consciência da necessidade incontornável de se estudar/acompanhar os contextos de aprendizagem e as práticas pedagógicas. motivou-nos para esta pesquisa dos fenómenos educativos. Contextos de investigação Este estudo surge no âmbito de um Doutoramento em Ciências da Educação. a decorrer na Universidade da Madeira.

designadamente dos programas de desenho vectorial e fotografia digital são ricos e potenciadores da promoção do desenvolvimento da criatividade dos alunos. assim como. Trata-se de uma oferta educativa dirigida a alunos que. Partindo dos objectivos de investigação e no quadro de uma entrevista semi-directiva. nos possibilitou um aprofundamento das questões emergentes desta investigação. (Testemunho 2) 7 . de entrevistas e ainda através de documentos oficiais. (Testemunho 3) As razões que a levaram à utilização do DIÁRIO DE BORDO ELECTRÓNICO Para recolher os dados. foi necessário proceder à construção de uma série de instrumentos. de exclusão social ou abandono escolar e dificuldades de aprendizagem. ameaça de risco de marginalização. (Testemunho 1) Procedo a um estudo etnográfico em que procuro apreciar. se os ambientes criados nas aulas de educação visual aquando do uso das tecnologias. Foram igualmente elaboradas logo no início da investigação algumas grelhas que rapidamente verificámos serem demasiado limitadas e redutoras ao registo de toda a informação recolhida. Estou a realizar a observação de dois contextos educativos onde decorre a prática pedagógica do educador e a actividade de expressão dramática realizadas pelas crianças. . construímos um guião que pela sua maleabilidade. e após um primeiro contacto com o Diário de Bordo Electrónico e formalizada a autorização de utilização por parte do autor do referido software não restavam dúvidas que era este o instrumento que poderia certamente constituir-se como uma mais valia ao registo e organização de toda a informação recolhida. encontrando-se dentro da escolaridade obrigatória. Deste modo. A investigação decorreu numa escola de 2º e 3º ciclos do Ensino Básico do concelho do Funchal e envolveu uma turma de 5º ano numa turma com proposta de PCA.Durante o ano lectivo 2009/2010. inserimo-nos numa turma de 5ºano com Proposta de Percurso Curricular Alternativo(PCA)onde recolhemos dados de fontes diversas. (Testemunho 1) As possibilidades oferecidas de sistematização dos registos da observação e diálogos do terreno. de comentários ou questões que se fossem levantando. com problemas de integração na comunidade escolar. (Testemunho 2) A minha investigação acontece no âmbito da Educação de Infância. nomeadamente através da observação participante. proporcionadoras de consultas selectivas. apresentam insucesso escolar repetido.

todo o tipo de observações. . O que mais me fascina neste instrumento é ser possível o seguinte: . destaque de fenómenos evidenciados. Não utilizei as possibilidades de inserção de ficheiros imagem pela tipologia dos ficheiros originais que ponderando a possibilidade de vir a analisá-los mais minuciosamente do ponto de vista da sua construção não desejei converter. Simultaneamente vou escrevendo os meus comentários.Conheci o diário etnográfico em Dezembro de 2008 aquando a realização do V Colóquio CIEUma e gostei de ouvir falar das diferentes potencialidades deste instrumento de recolha de dados. Também não explorei. pelo menos até o momento. de conversas. . observações proferidas pelos actores. logo não é possível perder informação.Poder utilizar. (Testemunho 3) 8 . na construção das narrativas. os pensamentos e percepções noutra etc. .Está sempre a gravar. Dentro das linhas de orientação do nosso trabalho. (Testemunho 1) Registo descritivo do observado em aula e reuniões formais ou informais. . na forma de registar dados qualitativos resultantes das minhas observações. . . Depois li os artigos realizados pelo autor e fiquei ainda mais esclarecida e com vontade de o utilizar. Assim resulta uma análise reflexão durante o processo de registo importante para o desenrolar da investigação. a máquina fotografia e um pequeno gravador. outras possibilidades.Tem sempre espaço para mais uma observação. Logo de seguida registo toda a informação recolhida no diário de bordo electrónico utilizando todos os campos pré-definidos. dado que nos permite aceder prontamente a toda a informação recolhida de forma organizada. geralmente à posteriori.Valoriza a objectividade e subjectividade de igual forma. (Testemunho 3) O modo como utilizam o DIÁRIO DE BORDO ELECTRÓNICO O diário constitui um excelente instrumento de organização e sistematização dos dados recolhidos. e perguntas a realizar na observação seguinte. Assim posso registar as observações numa cor. . Inserção de comentários e pensamentos.Registar e organizar.Ter diferentes campos dos quais podemos elaborar várias listas que dão o fio condutor ao trabalho de campo. Sempre que possível tenho algumas fotografias ou desenhos das crianças que podem ilustrar alguns momentos da observação.Exige rigor. (Testemunho 2) No momento da observação utilizo um caderno. foi fundamental a opção por este software. vários tipos de letra e cores.

(Testemunho 2) . A reunião do maior número de dados no mesmo suporte electrónico favorece a consulta e a análise da informação e facilita o trabalho de investigador. pois ainda estou a explorar e descobrir as potencialidades deste instrumento de recolhas de dados. desenho de uma criança. . Isto porque todos os dados resultantes da ref lexão e possível interpretação são colocados neste espaço.Aspectos citados como importantes para o aperfeiçoamento desta ferramenta Considero uma ferramenta bastante completa de tal forma que não me ocorre nenhum aspecto susceptível de reformulação. de comentários ou questões que se fossem levantando. na fase de interpretação: “…após um primeiro contacto com o Diário de Bordo Electrónico e formalizada a autorização de utilização por parte do autor do referido software não restavam dúvidas que era este o instrumento que poderia certamente constituir-se como uma mais valia ao registo e organização de toda a informação recolhida.” (Testemunho 1) “As possibilidades oferecidas de sistematização dos registos da observação e diálogos do terreno. áudio) arquivados em pastas à parte. (Testemunho 1) Provavelmente a possibilidade de se estabelecerem ligações em cada ficha de observação com ficheiros diversos (imagem. fotografia) Tenho dificuldade em referir mais aspectos. verifico o seguinte: . Logo de seguida registo toda a informação recolhida no diário de bordo electrónico utilizando todos os campos pré-definidos.Boa adequação da ferramenta ao propósito da investigação. assim como.” (Testemunho 2) No momento da observação utilizo um caderno.A Janela “entrevistas conversas e comentários deveria ter um tamanho próximo da janela “incidentes críticos”. proporcionadoras de consultas selectivas. (Testemunho 3) Comentários à utilização do diário de Bordo Electrónico Sistematizando os comentários sobre a utilização do software para o registo dos dados de investigação. e 9 .Tenho alguma dificuldade em colocar anexos (planta da sala. a máquina fotografia e um pequeno gravador. Simultaneamente vou escrevendo os meus comentários.

tanto mais se este tiver alguma predisposição para a utilização da tecnologia informática.Valoriza a objectividade e subjectividade de igual forma.Tem sempre espaço para mais uma observação.” (Testemunho 3) .” (Testemunho 3) . Para finalizar Volto a frisar que as questões metodológicas são sempre muito mais complexas que as questões técnicas. Sempre que possível tenho algumas fotografias ou desenhos das crianças que podem ilustrar alguns momentos da observação.A interface de introdução dos dados revela-se adequada e eficaz.A Janela “entrevistas conversas e comentários deveria ter um tamanho próximo da janela “incidentes críticos”.Poder utilizar. desenho de uma criança.” (Testemunho 3) . na construção das narrativas. vários tipos de letra e cores. Assim posso registar as observações numa cor. na forma de registar dados qualitativos resultantes das minhas observações.Exige rigor. . (Testemunho 3) “. . Assim resulta uma análise reflexão durante o processo de registo importante para o desenrolar da investigação. A dificuldade em seleccionar e registar os dados de observação no momento em que ocorrem os acontecimentos faz do trabalho do investigador participante completo uma tarefa árdua.Continuo a verificar que a utilização desta ferramenta vem facilitar o trabalho do investigador etnográfico. 10 . os pensamentos e percepções noutra etc. fotografia). ” (Testemunho 2) . áudio) arquivados em pastas à parte.No aperfeiçoamento desta ferramenta surgem referências à necessidade de interligar os dados de natureza multimédia: “Provavelmente a possibilidade de se estabelecerem ligações em cada ficha de observação com ficheiros diversos (imagem.Tenho alguma dificuldade em colocar anexos (planta da sala.perguntas a realizar na observação seguinte. . Isto porque todos os dados resultantes da reflexão e possível interpretação são colocados neste espaço. Um dos relatos descreve o registo como processo criativo: “O que mais me fascina neste instrumento é ser possível o seguinte: .

Revista Europeia de Etnografia da Educação (1). C. Revista Europeia de Etnografia da Educação (1). A observação de segundo nível só é visível aos olhos do observador atento. pela revisão da literatura. Sabirón. Graue & Walsh. (2007). A escola sob suspeita. (2001). 9-26. métodos e ética. F. & Walsh. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. D. a saber seleccionar da realidade envolvente o que é mais significativo para a pesquisa em curso. com o enfoque explícito no assunto. Investigação etnográfica com crianças: Teorias. e deve ser tratado numa perspectiva crítica. A descrição marca a diferença entre a investigação interpretativa e o conhecimento proveniente da experiência vivida. mesmo que esses planos se alterem com o tempo. Obtém-se pela natureza sistemática da descrição rica em pormenores. Graue & Walsh. Porto: Asa Editores. L’observation participante. Para registar é necessário aprender a observar. 11 . M. (2003). In J. conhecido com triangulação. 289-307). Sousa.O conhecimento prévio do tema a estudar. Referências Brazão. (orgs). (2003). & Fino. P. O diário de um diário etnográfico electrónico. 27-42. (pp. Lapassade. No entanto o diariamente observável refere-se ao imediatamente visível. Estructura de un proyeto de investigación en Etnografia de la Educación (I). (2003). falam na necessidade de formular perguntas de investigação e de traçar planos gerais antes de entrar no campo. G. é fundamental. Posteriormente a análise do fenómeno deve ser efectuada sob várias perspectivas. Torna-se parte da subjectividade de cada um. a partir de diversas fontes de dados. (2001). Graue.