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Bossa nova e a metáfora musical

«A harmonia da Bossa Nova é extremamente simples, de acordes de três sons, onde o quarto som está subentendido. Ou então está na voz do cantor. A harmonia é bem simples, só que o João Gilberto bota uns acordes ali que nunca ninguém pôs antes. A situação dos acordes é que constitui a grande novidade».Tom Jobim Creio que o meu primeiro contacto com a bossa foi uma versão instrumental de Onda em vídeo televisivo, ainda na infância. A fragilidade da jangada de pescadores, o verde-claro denso das águas tropicais e os dois acordes que se alternam no final, fizeram-me pensar que nascera tarde, depois da época gloriosa (tinha a certeza que não poderia ter sido de outra forma) em que aquelas canções haviam surgido. Lamentei não ter participado no entusiasmo do surgimento, mas tratava-se de uma saudade confortável, como quem pensa num bisavô querido que não se chegou a conhecer e cuja ausência não é portanto insuportável. Aquele tema (e tantos outros que vim depois a descobrir) criava um estado de espírito cuja receita Vinícius de Moraes registou: «Alegria é a melhor coisa que existe / (…) / Mas p’ra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza». Durante algum tempo questionei-me de onde viria a capacidade de fazer caminhar o ouvido sobre a fronteira entre aqueles sentimentos opostos. Independentemente das discussões sobre se a bossa é simplesmente um samba decorado ou uma traição ao samba (que teria nascido, segundo esta corrente, quando a Zona Sul do Rio de Janeiro se começou a aristocratizar e a aceitar ideias vindas da América do Norte), parte da sua especificidade está na quarta nota, como refere Jobim. A grande diferença, porém, reside no modo como aqueles acordes complexos (de que o jazz também se serve) são dispostos, baralhando a tradicional diferença entre tonalidade maior alegre

. despejando todas as teclas. marcando fortemente uma fossa que só na segunda parte se inverte: «mas se ela voltar. mas o fenómeno repete-se mais adiante na mesma canção e acontece noutras.» Passa depois para «Esta outra [o lá. O exemplo por excelência do entrosamento entre palavras e instrumentos (incluindo o instrumento vocal) talvez seja Samba de Nota Só. amor» cantada fora da escala sobre o acorde de lá de sétima. que] é consequência do que acabo de dizer». mas julgo que lhe subjaz ainda outra característica única: em nenhum outro género se dá um bailado tão perfeito entre som e verbo. novamente. No princípio deChega de Saudade. de levar às lágrimas. regressa para onde começou: «E voltei p’ra minha nota como eu volto p’ra você». que coisa louca».e tonalidade menor triste. Trata-se. «Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada» e. de uma excepção à mistura de alegria e tristeza. «Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada. cuja melodia começa em mi e em mi se mantém por duas frases: «Eis aqui este sambinha. Poderia pensar-se que o único caso é a frase «se você disser que eu desafino. não deu em nada». que coisa linda.» Então. se ela voltar. Assim se criam momentos em que é bom estar deprimido. não deixando nenhuma de fora. Por fim. regressando depois à anterior: «Como eu sou a consequência inevitável de você. feito numa nota só / Outras notas vão entrar mas a base é uma só. acima referida. do acorde de lá de sétima com quarta para o lá de sétima com quinta aumentada (pelo menos na única tonalidade em que sei tocar). permitindo ao ouvinte restabelecer-se nos acordes sorridentes. A letra mata. Talvez o meu gosto pela bossa nova seja maior que o meu conhecimento. curiosamente. «eu não posso mais sofrer» surge numa sequência trágica de notas que têm como como pano de fundo sonoro a passagem. a melodia esfola e a harmonia enterra.

Também Carlos Lyra se opôs. por exemplo). a tocar uma vez por mês. em Influência do Jazz. namorando à distância para não desgastar o encanto. que «balança de um lado para o outro». e acabou por se banalizar pelo mundo inteiro (alguns franceses compõem frequentemente segundo as suas regras. p’ra frente p’ra trás». a esse estilo importado que tantas notas fazia correr. . mas depois de todos estes anos continuo a ouvir apenas um tema por semana. contra o jazz que «é diferente. A bossa vingou-se imiscuindo-se no território do grande irmão do norte (onde o seu ritmo passou a ser quase tão comum como o swing). defendendo as raízes sambísticas numa progressão saltitona que ilustra esse «gingado que mexe com a gente».