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Modernismo Revisitado♦

Eduardo jardim de Moraes*

A 21 de junho de 1925 o jornal do Comércio do Recife publicou uma entrevista feita por Joaquim Inojosa com Oswald de Andrade, naquele momento de passagem pela cidade. Na ocasião, tratava o escritor paulista de expor sua compreensão dos rumos que vinha tomando o movimento modernista. Oswald de Andrade é apresentado pelo diário pernambucano como um "dos que em São Paulo primeiro ergueram a voz em defesa do movimento renovador". E acrescenta a reportagem: "preocupa-o, apenas, o que diga respeito à modernidade, residindo aí o seu maior empenho".1 Em seguida à apresentação, a palavra é do entrevistado: "Linda cidade, o Recife. Foi uma surpresa para mim. E o será para quantos o visitarem. Como é que no Brasil existe uma cidade de aspecto tão encantador, e não na conhecem todos os brasileiros, e a ignora a maioria dos sulistas? Sinto-me encantado com estas paisagens, o verde destas árvores, as palmeiras, os bananais, tudo. Sinto-me brasileiro aqui. Aos pernambucanos compete trabalharem para que não desapareça, e, antes fulgure mais intensamente, o espírito de brasilidade. Veja as cores destas casas antigas: excelentes; repare na pintura destas casas modernas: horríveis. Horríveis para nós, para o nosso ambiente. A arquitetura deve refletir a paisagem. A daqui apresenta tonalidades diversas, sedutoras, maravilhosas. Por que não aproveítá-la no cadinho da arte? Por que abandoná-la pela importação estrangeira? E não se pense que há incoerência nas minhas expressões, porque sou modernista. Sou-o sobretudo, por ser brasileiro. Quero, por isso, a formação de uma arte nacional, que se há de extrair, sem dúvida, da obra dos antepassados. Podemos muito bem construir um arranha-céu numa arte nossa, sem ser esta arquitetura de cartão postal que parece dominar o Brasil inteiro."2 E mais adiante: "Asseguro-lhe que, para a formação da pintura, da arquitetura e da poesia brasileira, tem o artista de visitar o Recife, porque aqui encontrará fontes emocionais de primeira grandeza. Nas classes populares, então, devem existir motivos para uma grande poesia, sem ser importada de Heredia. . . " 3

Este artigo é o desenvolvimento de uma reflexão já apresentada em meu livro A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica (Rio de Janeiro, Graal, 1978). * Eduardo Jardim de Moraes é doutor em filosofia pela UFRJ e professor do Departamento de Filosofia da PUC-RJ. Em 1987 esteve na Universidade de Erlangen-Nürenberg, Alemanha, como bolsista da Fundação Humboldt. Publicou o livro A rasilidade modernista: sua dimensão filosófica (Rio de Janeiro, Graal, 1978) e diversos artigos sobre filosofia e pensamento brasileiro.
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Joaquim Inojosa, O movimento modernista em Pernambuco, Rio de Janeiro, Tupy, 1968, p. 142. Ibid., p. 142-143. Ibid., p. 144.

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Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 2, 1988, p.220-238.

). No entanto. A proposta de Oswald de Andrade é a mesma que se encontra presente nas declarações e nas obras dos participantes do movimento modernista a partir de 1924. é nítido que. o texto introduz ainda outras duas articulações . A ressalva de Mário de Andrade diz respeito a uma distinção de fato considerável entre sua maneira de entender o elemento popular como traço definidor da nacionalidade. e são as que é preciso valorizar. IEB. ou mesmo sua rejeição por completo. o que está sempre presente na atenção dos intelectuais da época é a apreciação deste bloco de questões em que se imbricavam modernidade. Rio de Janeiro. em seu conjunto.5 O problema enfrentado por essa geração era o da modernidade.. É certo que na discussão aberta pela publicação do Pau-Brasil. com o Manifesto Pau-Brasil. "nenhuma geração. a modernização da cultura só se viabiliza se estiver assentada em tradições nacionais caracterizadas enquanto populares. esta passa pela discussão de sua caracterização para o ambiente brasileiro. Esta só poderia ser concebida se relacionada à questão da entidade nacional. crítica e história literária. transcrito em Marta Rossetti Batista. "Oswald de Andrade. Para o manifesto de 24. como de resto para o conjunto do modernismo.em primeiro lugar. O mesmo Oswald de Andrade fora quem. Rio de Janeiro. são populares as "fontes emocionais" que devem interessar ao artista moderno. importadas. Telê Ancona Lopez e Yone Soares de Lima (org. em segundo lugar. Em outros termos: a obra moderna há de "se extrair da obra dos antepassados". De forma que a rejeição da problemática do nacionalismo trazia consigo a recusa do ingresso na ordem moderna. teve necessidade tamanha de traçar o seu roteiro como a nossa". Livros Técnicos e Científicos e INL. documentação. Pau-Brasil Sans Pareil. 1988. como em Tristão de Athayde. Para ele. 5 Estudos Históricos. brasilidade. sem discordar da proposta mais ampla que ele contém. ela faz a defesa da nacionalização das fontes de inspiração do artista brasileiro. e enfaticamente. Gilberto Mendonça Teles (sel. Paris. procura retificar a articulação entre sua postura de autor erudito e as fontes de inspiração populares. que propunha a elaboração de uma "poesia de exportação". Mário de Andrade. a proposta dos dois autores é a mesma: ao se colocar a exigência de modernização. Nesse texto vem expressa uma concepção do que é modernizar a arte brasileira de maneira própria. O crítico ressalta vivamente a importância do momento por que se passava. Ao atacar a proposta "independentista" de Oswald de Andrade. 346. tem-se a idéia de que é nas classes populares que se deve buscar os motivos da cultura nacional. nacional. . 1. n. Importa mais apresentar o moderno como necessariamente nacional. 225-232. são melhores que as das casas modernas. e daí pela referência ao elemento tradicional e ao popular. Ao comentar o manifesto em 1925. e aquela encontrada em Oswald de Andrade. tradição e origens populares. E ainda. Tristão de Athayde: teoria. p. 1980. 1972. Ao mesmo tempo. p. São Paulo. Brasil: 1o tempo modernista 1917129. deverá se posicionar.220-238.). o compromisso do projeto modernista com a tradição. Também é com relação a ela que a intelectualidade brasileira da época. vol. brasileiras. encontram-se maneiras diferenciadas de abordar o problema. O que importa não é apenas compatibilizar o que é moderno e o que é nacional. para aqueles que adotam a postura modernizadora ou para os que a rejeitam. 2. como por exemplo na ótica de Mário da Andrade.Esta declaração de Oswald de Andrade traz as marcas das preocupações modernistas daquele momento: o modernismo propunha a renovação no domínio da produção artística. Sublinhada esta diferença..4 "Literatura suicida" é o título do comentário feito por Tristão de Athayde sobre o mesmo tema. As cores das casas antigas. ao afirmar ser necessária "coragem literária suficiente para dizer bem alto: ainda 4 Mário de Andrade. formulara pela primeira vez essa proposta de maneira articulada. Além destes propósitos. Além de antigas e de brasileiras. 1925". na qual se insere o texto transcrito atrás. e apresent. p.

Vejamos como se fez este percurso. o que na verdade Oswald de Andrade propunha era trazer para a discussão brasileira as contribuições do dadaísmo francês e do expressionismo alemão. da parte daqueles que defendiam o projeto modernizador. de 1942. 7 8 9 10 Esta opinião é partilhada por participantes e intérpretes do movimento modernista. Modernizar é atualizar a produção cultural a um novo tempo O ano de 1917 ficou caracterizado na história do modernismo no Brasil como um ano inaugural. 1. Estas são localizadas "nas forças de sanidade a que a Europa está lançando um apelo para reagir contra a decadência":8 "Mas desde logo renunciar. Ver os comentários de Mário da Silva Brito em sua História do modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna. A polêmica eclodiu a respeito da exposição de Anita Malfatti no final do ano. com tudo o que ela implica de dimensionamento da proposta modernista e até de redefinição daquilo que se entende como sendo moderno. ao contrário.. p. No caso. do diferente. a questão da brasilidade possibilitou.220-238. Ibid. incluída em Aspectos da literatura brasileira. A argumentação de Tristão de Athayde busca inicialmente descaracterizar a postura nacionalista defendida pelo manifesto.. da última moda francesa. 356. não foi desta forma que eclodiu a questão da modernidade em nosso ambiente intelectual. Ao conhecido artigo de Monteiro Lobato 6 Ibid. Ibid. 2.o dadaísmo é "esse cadáver" francês e o expressionismo é "essa moléstia". Pode-se mesmo afirmar que a vocação nacionalista do modernismo que se manifesta grosso modo a partir de 1924 é o ponto de chegada de uma linha de indagações sobre o ingresso da produção artística brasileira na ordem da modernidade. 355.. necessariamente.. 1971. Estes são caracterizados como dois grandes males culturais . São Paulo. alemã. do nunca dito. 1. Civilização Brasileira. 354. A brasilidade. só constituiu uma indagação para os modernistas no desdobramento de sua discussão sobre a modernidade. Entretanto. vol. 358.6 O Cristão de Athayde tem. seu maior empenho está em reivindicar a adoção e a importação de formas culturais disciplinadoras. entretanto. Sua proposta não é a de uma ruptura com o processo de importação. sem saudade. . p. ao ser colocada em toda a sua complexidade. Estudos Históricos. p. é aquele conjunto que precisa ser rejeitado por Tristão de Athayde. Rio de Janeiro. Ir ao clássico é renunciar à desordem. Martins. não é a crítica do processo de importação de padrões culturais estrangeiros. Para o crítico. de Mário de Andrade. 1974. mas a qualidade do que se importa. n. a essa ânsia do novinho em folha. do extravagante. "clássicas". a definição do próprio conceito de modernidade para o caso brasileiro. Ibid. p.10 É que nele se manifesta pela primeira vez de forma clara a polêmica que opõe os modernos aos representantes e defensores da velha ordem estética. a essa farândola charlatanesca de novidades trazidas pelo último correio. E que.. Ver a conferência "0 -novimento modernisW.não podemos prescindir de certa imitação”. 1988. p. é o conjunto das questões propostas pelo modernismo que funciona como referencial para todos.7 O que está importando para Tristão de Athayde."9 Assim. 5a ed. que optar por uma via antimodernista como é sua Ida ao clássico". Rio de Janeiro.

É da natureza do nosso século. a severa Justiça que não vacila e com a qual vos honro e dignifico! Deveriam morrer! A vida vegetal a que se 11 "A exposição Anita Malfatti". a serviço do seu século. na marcha fúnebre das minhas lágrimas. a sombra fantasmal dalguns de vós. trêmula se levanta ainda sobre a terra. antigos. em se imiscuir no tempo presente. Anita Malfatti. op. Também foi natural para os antigos terem sido."11 O texto expressa a opinião de que é natural adotar o ponto de vista moderno. O que importa apontar neste momento inicial do modernismo. Para o modernismo não se trata tanto de desqualificar as manifestações artísticas passadistas por suas propriedades intrínsecas. já que os antigos naturalistas eram os que melhor iludiam. porque vós estais mortos! E se.denunciando a paranóia ou a mistificação da obra da pintora respondia o inovador Oswald de Andrade. precisamente por não dizer respeito ao presente. E os naturalistas mais perfeitos são os que melhor conseguem iludir. de que a estética moderna deveria ser entendida como alguma coisa de natural ou de adequado. o articulista moderno diz: "Na arte. n. é que esses não souberam cumprir com magnificência e bizarria todo o calvário do seu dever! Deveriam morrer! Assim o conclama. que Monteiro Lobato saiu em defesa da melhor parte. Eles logo aparecem: não há porque protestar. em noites foscas de sabat. infelizmente para a evolução da poesia. como contemporâneas de uma época passada... p. 2. a resposta de Oswald de Andrade sublinha a sua propriedade. 1. e também em todos os outros em que se considera este movimento do ponto de vista da sua oposição ao que ele próprio designou como passadismo. mas de rejeitá-las enquanto insistem. Vai ser preciso definir o que os modernistas entendiam por naturalidade ou adequação.. enquanto arte ou ilusão. Sua obra é dotada de uma qualidade que interessa ao articulista ressaltar . Pouco antes da Semana de 22. sempre afirmada. vol. Mas vamos nos ater aos propósitos mais nítidos da crítica. Na postura parnasiana o criticável é sua persistência em não desaparecer. O que importa é ver cada coisa no seu tempo e portanto relacionar a linguagem moderna ao tempo presente. uma vez que até certo ponto. Com relação a Anita Malfatti. A ilusão que ela constrói é particularmente comovida. 61-62. Vale ressaltar esta dimensão clara do texto. No caso. Anita Malfatti é um temperamento nervoso e uma intelectualidade apurada.220-238. entre os naturalistas e Anita Malfatti. Donde o ponto de vista da crítica de Mário de Andrade: "O Mestres do Passado. eu vos saúdo! Venho depor a minha coroa de gratidões votivas e de entusiasmo varonil sobre a tumba onde dormis o sono merecido! Sim: sobre a vossa tumba. 1988. Mário de Andrade publicou na imprensa de São Paulo a série de artigos "Mestres do passado". contra o estranhamento do discurso de Lobato diante da obra moderna. Rio de Janeiro. a realidade na ilusão é o que todos procuram. é individual e forte e carrega consigo as próprias virtudes e os próprios de feitos da artista. São sete textos onde se pretende acertar as contas com o passadismo aqui representado pela poesia parnasiana. diferentemente dos naturalistas. A argumentação de Mário de Andrade se ancora em um pressuposto que percorre os textos do período -na querela dos modernos contra os antigos o que importa é descartar o antigo. Por ora quer-se chamar a atenção para o fato de que. . transcrito em Mário da Silva Brito. cit. Estudos Históricos.a atualidade. p. é a idéia. Pode-se mesmo dizer. não há ruptura entre o passado e o presente. de um ponto de vista artístico. Não é natural para os novos tempos a métrica e a rima parnasianas ou as formas "academizantes" na pintura. manifesta com seu temperamento e sua inteligência a época de hoje.

E passadista é aquilo que vem obstaculizar esta evolução. Este não se encontra propriamente em oposição ao velho tempo. sempre. e por outro a necessidade da incorporação da discussão. O acesso à vida moderna é o acesso à racionalidade. Devia ser conservado. onde não está afastado o compromisso com a tradição.Do pau-brasil à antropofagia e às utopias. mas como evolução. Rio de janeiro. ilustrada aqui pelos artigos de Mário de Andrade. n. É uma espécie de realismo que o modernismo propõe. 2. 2. Diferentemente do que ocorre em outros modernismos. E a idéia sempre recorrente é a de que os mestres do passado devem ceder lugar aos homens do presente. 1. os redatores da revista estavam atentos à questão da sua relação com a tradição. Em termos propriamente construtivos cabe a elaboração de uma nova postura estética adequada à vida moderna. Oswald de Andrade."13 Tudo isto indica portanto que se trata para o modernismo de adequar ao tempo da vida o tempo da produção intelectual. . tem seus critérios elaborados a partir do reconhecimento da dupla tarefa do movimento. vol. da racionalidade. 1988. A perspectiva modernizadora insiste em caracterizar-se como adequada a um novo tempo. Civilização Brasileira. p.o que berra diante das necessidades contemporâneas. onde a idéia de revolução ou de descrédito do passado se situa no centro das indagações. A dupla dimensão polêmica e construtiva do modernismo indica por um lado a preocupação em se acentuar o caráter inatual da ordem estética até então vigente. Acertar o relógio império a literatura nacional. sempre. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil haveria de frisar com justeza o esforço do primeiro tempo do movimento: "O trabalho da geração futurista foi ciclópico. A crítica modernista. Civilização Brasileira. sendo sentimental. Não como ruptura. Klaxon está do lado do atual. da técnica. p. do engenheiro. Obras completas VI . segunda parte da apresentação. caminha para diante. da ciência. No sentido mesmo da adequação do mundo e da sua representação. Estudos Históricos.Do pau-brasil à antropofagia e às utopias. Caiu. Rio de Janeiro. dos troveiros alados.220-238. e com certeza. do progresso. 14 13 12 Klaxon. "Klaxon sabe que o progresso existe. O romântico. Em outras palavras: é preciso produzir linguagens artísticas que possam dar conta da realidade presente. no caso brasileiro a modernização vem caracterizada corno atualização. o que a revista transmite é a exigência de incorporação à ordem moderna entendida como urbana e suficientemente industrializada. não se coaduna com o destino dos muezins duma arte do tempo incessante.agarraram. n. a primeira revista do movimento. A modernidade neste momento de busca de definições é a vida nos centros urbanos. 1972. Por outro lado. 1. É o que vem dito a uma certa altura de "Estética".. Daí a necessária crítica do romantismo entendido como estágio pré-moderno da civilização. 1972. O campanile de São Marcos era uma obra-prima. dos cortesãos da beleza fugitiva!. Por isso sem renegar o passado. é Oswald de Andrade. cultural na ordem moderna."14 Ao mesmo tempo em que toma estes cuidados. Trata-se antes de compreender o ingresso na modernidade como uma passagem de um momento a outro. A percepção da vida moderna é a que vem expressa na apresentação de Klaxon. Reconstruí-lo foi uma erronia sentimental e dispendiosa . Obras completas VI .."12 A justiça a que se refere o texto é o próprio tempo. Rio de janeiro.

2. e apelar para a adesão às formas modernas adequadas à representação da vida presente.e o automóvel. em Rio Preto. Donde a necessária "extirpação das glândulas lacrimais". a arte . 1. p.. a epopéia eqüestre dos Rolandos furibundos. São Paulo. a do político assegurando a sua escalada. no seu cavalo chita. vol. Rio de Janeiro. que Edu Chaves reproduz com audácia paulista o sonho de Ícaro. 1980. os aeroplanos.. caminho de ferro. 1988. "A escrava que não é lsaura" em Obra imatura. É o que está expresso no início do ensaio: "Explico: o homem pelos sentidos recebe a sensação. Não está importando nenhuma precisão na definição. aeroplano". São Paulo. Estes ingredientes da vida moderna sensibilizando o poeta são transformados em representação estética do mundo. os fios elétricos. "16 Na ótica do modernismo deste momento. consideradas inatuais. por que não atualizamos nossa arte. telégrafo. A mesma linha de preocupações que se percebe na conferência de Menotti dei Picchia está presente também no texto de Mário de Andrade. ."15 Já no momento da Semana de Arte Moderna. Conforme o grau de receptividade e de sensibilidade produtiva sente sem que nisso entre a mínima parcela de inteligência a Necessidade de Expressar a sensação recebida por meio de gesto. o que vale é captar a modernidade enquanto vida em movimento. automóvel.220-238. Velocidade e variedade são atributos da vida urbana e moderna e como tal positivamente qualificadas. como se vê. redigido em 1922. Hélios. 3a ed. cabo submarino. Ela é "conseqüência da eletricidade.000 almas. marcada de forma impressionista pelo ritmo da cidade onde se abrigam desordenamente os mais variados elementos. . Paremos diante da tragédia hodierna. "Arte moderna” em O curupira e o carão. A escrava que não é Isaura.pré-racional. Tudo isso . . a conferência de Menotti dei Picchia no Teatro Municipal exprimia o mesmo ponto de vista: "Hoje que.. Os modernistas opinam: "É preciso observar-lhe a lição. a vida moderna encontra sua melhor forma de expressão no cinema. transatlântico. n. Belo Horizonte. 1927. no início de 1922. T. a do burguês defendendo sua arca. Martins. a da mulher quebrando as algemas da sua escravidão secular nos gineceus eventrados pelas idéias libertárias posbellum. que o industrial de visão aquilina amontoa milhões mais vistosos do que os de Creso.tudo isso forma os nossos elementos da estética moderna. Está se querendo chamar a atenção para o fato de que à "riqueza" da realidade deve corresponder uma nova expressão. 16 17 Estudos Históricos."17 15 Ibid. a do aristocrata exibindo o seu fausto. é pré-moderno. as usinas.F. cantando essas Ilíadas brasileiras? Por que preferimos uma Atenas cujos destroços de Acrópole já estão pontilhados de balas de metralhadoras? Não!. A cidade tentacular radica seus gânglios numa área territorial que abriga 600. Entendida como realidade em movimento. Também não há uma definição precisa das formas adequadas para exprimir a realidade. a do' industrial combatendo o combate da concorrência. o 'cowboy' nacional reproduz. ltatiaia. Há na angústia e na glória da sua luta odisséias mais formidáveis que as que cantou o aedo cego: a do operário reivindicando seus direitos. O que se quer é propor o afastamento das formas consagradas.. Sendo pré-racional.S. A nova poética é vista então como o "resultado inevitável da época". a dos funcionários deslizando nos trilhos dos regulamentos.

razão lógica e social para o futurismo ortodoxo. n. 1988. o modernismo passa a trilhar o caminho da brasilidade. comparando-os aos que foram expressos na revista brasileira. feita pelos modernistas já neste primeiro tempo do movimento.19 Esta visão da modernidade no Brasil. segue a mesma linha de raciocínio do texto de Menotti dei Picchia. . propósitos de ruptura com a tradição. não significa romper com o passado Ao mesmo tempo. no coso brasileiro. mesmo reconhecendo seu comparecimento atrasado no cenário mundial ou na modernidade. Mais uma vez o que está em jogo é a comparação entre o modernismo brasileiro e o futurismo italiano. Por enquanto. Klaxon. que alarga seu 'front' em todo o mundo. porque o prestígio do seu passado não é de molde a tolher a liberdade da sua maneira de ser futura. um precursor iluminado. op. abomino o dogmatismo e a literatura da escola de Marinetti. na instabilidade de sua busca de rumos. já que a instauração do novo não se confronta com a ordem lógica e social" até então vigente. p. No Brasil não há. Modernizar. pessoalmente. Ao responder ao crítico passadista de O Mundo Literário que rejeitara o ponto de vista moderno de Klaxon Mário de Andrade. no que concerne ao ingresso na modernidade. 2. vai adquirir um contorno amadurecido pouco mais tarde. a adesão à estética moderna. a modernidade que se pretendia instaurar no país não contradiz a perspectiva da tradição: "Não somos. Trata-se de estabelecer uma comparação entre o modernismo no Brasil e aquele presente em outros países. a partir de 24. 2. Aqui Mário de Andrade tem o cuidado de examinar ponto por ponto os princípios do manifesto de Marinetti. nunca fomos futuristas. que veneramos como um general da grande batalha da Reforma. 10. seja na conferência de Menotti dei Picchia.220-238. para nós. A idéia de se montar a modernidade sobre a evolução se expressa claramente na passagem que afirma a necessidade de se respeitar "o passado sem o qual Klaxon não seria Klaxon".o 3. e que se desqualifica a pretensão das velhas formas artísticas em sua função expressiva. 18 19 O curupira e o carão. não contém. Rio de Janeiro. uma feição mais marcadamente imediatista. no terceiro número da revista. Seu chefe é.É portanto sempre tendo por base a argumentação em moldes realistas que se deve produzir uma estética adequada à vida. O texto de Menotti dei Picchia chega mesmo a explicitar o sentido do compromisso que marca a opção do modernismo. 1. seja no ensaio de Mário de Andrade. o modernismo vai adotar. diferentemente do que ocorre em outras circunstâncias. porém. Estudos Históricos. cit. vol. que se faz pelo reconhecimento da necessidade de adaptar a representação à nova realidade. São sobretudo os aspectos que enfatizam o movimento de ruptura com o passado que são rejeitados no futurismo. Eu. n."18 O Brasil. Para Menotti dei Picchia. quando. seria portanto "heterodoxo". p.

Neste período em que o panorama da vida urbana é aquilo que deve passar na estética nova. 0 lmediatismo no acesso à ordem moderna no primeiro tempo modernista . A discussão sobre o universalismo no modernismo brasileiro percorre toda a sua história. p. Nem poderia ser de outra forma. mas fabrica-se e pensa-se"21 a incorporação na modernidade. No caso. Mário de Andrade não se cansa de comparar e de lamentar a posição atrasada de São Paulo no processo de absorção dos ingredientes inovadores.”20 O que garante a possibilidade do contato do escritor brasileiro com os modernos europeus é a existência de uma ordem universal que é a própria modernidade. O primeiro tempo modernista manifesta em seu conjunto um esforço de contrapor-se ao passadismo entendido como inatual e de produzir uma linguagem adequada ao tempo e à vida presentes. e em que freqüentemente São Paulo é apresentada como a "Londres de neblinas frias. que tem sempre em mira de forma conjugada o ideal modernizador e o que se costumou chamar de participação no concerto das nações. p. 24. 1. sem beleza natural. Será já um mérito ligar estes dois homens diferentíssimos como grácil lagoa de impetuoso mar. Há que se perguntar então. . Rio de Janeiro. 21 Estudos Históricos.a modernidade . Isto não quer dizer . entre os versos escritos em francês por Sérgio Milliet e a colaboração de autores italianos. os modernistas dos primeiros anos vão buscar nas tendências inovadoras européias os instrumentos que lhes possibilitam efetuar a atualização da produção nacional. n.o reconhecimento do universal moderno O que se chama aqui de imediatismo do primeiro tempo modernista. não importa que momento do modernismo se estiver analisando. p.3. Até mesmo nos momentos em que o modernismo radicalizou sua dimensão nacionalista. Isso não é imitar: é seguir o espírito duma época. Para viabilizar o processo de adequação da representação à realidade nova. integração do país no plano mundial. o ingresso do brasileiro Mário de Andrade na ordem moderna se faz de forma imediata pelo reconhecimento de um solo comum . onde tudo foi feito pelo homem. a vida é intensa.220-238. 2. vol. ao escrever a Manuel Bandeira. É verdade que movo com eles as mesmas águas da modernidade. importados. este se identifica com o ingresso na universalidade. e pelo seu uso intensivo e polêmico na disputa com o passadismo. Simões. Rio de Janeiro. op. Com certeza. como no primeiro tempo? De que forma são elaboradas as mediações dentro do nacionalismo do segundo tempo? Não se colocar esta questão impede que se compreenda a proposta básica do movimento. Crítico de música que era. A boa 20 Cartas a Manuel Bandeira. cit. 365-366. até 1924.e a realidade moderna paulistana está aí a exigir esta definição que não possamos chegar ao nível de atingimento da ordem moderna já conseguido pelos países mais adiantados. pode ser percebido na correspondência de Mário de Andrade em 1922. A 6 de fevereiro deste ano. 1988. a produção de cultura no Brasil está defasada com relação aos países europeus. Este ingresso é pensado de uma forma imediatista. 1967. já que tal como se procura pensar o ingresso na modernidade. o que está sempre em jogo é uma forma de se entender o movimento da relação entre o particular e o universal.entendida aqui como "espírito duma época" .. Carta de Rubens Borba de Moraes em Joaquim Inojosa. se faz pela absorção dos meios expressivos novos. afirma o escritor de São Paulo: "Sei que dizem de mim que imito Cocteau e Papini. de que forma está sendo entendida a participação ou o ingresso da produção cultural local em uma ordem mais ampla.

. A redefinição do universalismo no contexto de discussão sobra a brasilidade Aos poucos.Klaxon. 24 Klaxon. . E observa o que convém agora ressaltar: "Os poemas chegaram-me justamente após ter eu escrito uma crônica para a Revista do Brasil. no artigo-resposta de Mario de Andrade. já se manifestava na apresentação de Klaxon em 22. Na situação em que se encontrava. Para Rubens Borba de Moraes. mantém-se a visão da problemática comum que percorre os dois movimentos: "E se em outras coisas aceitamos o manifesto futurista. p. que publicou o ano passado uma antologia mundial onde todos os modernos dos "Cinco Continentes" (é o título do vol. 3. entretanto. 1971. como apêndice atrasado de uma antologia mundial. Naquele momento era esta a forma que se percebia de garantir a integração. 25 Joaquim Inojosa. 10. do concerto das nações cultas.referência é sempre a modernidade pensada a partir de padrões europeus para os quais o consternado cronista acredita serem "Debussy e Ravel . em 1923. n. p."25 O Brasil participa assim. não é para segui-lo. o sentido da impropriedade de um acesso imediato do país à vida moderna começa a se esboçar. Ou ainda no terceiro número da revista. op. 2. 1988. 1. Para Sérgio Milliet. São Paulo. mas por compreender o espírito de modernidade universal. 22 23 . Apresentadas as diferenças entre o manifesto italiano e os ideais de Klaxon. Naturalidade e necessidade são atributos da arte moderna definida por Rubens Borba de Moraes em Klaxon. 289.220-238. Isto tudo faz com que a conferência feita por Oswald de Andrade na Sorbonne. 3. Mário dê Andrade por ele mesmo. n. -368.) estão reunidos. em que dizia este anseio de universalidade que anima os modernistas de quase todo mundo. 4. Estudos Históricos."23 A mesma perspectiva. Natural também é a postura pretendida pela correspondência de Mário de Andrade nestes anos ao comentar com seus amigos as novidades de Paris. vai acrescentar uni apêndice consagrado à poesia brasileira moderna. vol. p. Precariamente. cit. Paulo Duarte. o escritor paulista comenta Cocteau e Ivan Goll. p."24 Também as cartas de Mário de Andrade para Tarsila do Amaral traduzem a opinião de quem pretende a modernização e a integração na ordem universal.músicos que já representam um passado na Europa e que inda mal são percebidos pela nossa ignara gente". seja comemorada pelos nossos modernistas com orgulho de vencedor. EDART. Ivan Goll. na comparação com o futurismo. p. . Rio de Janeiro.22 A observação de Mário de Andrade não faz com que nosso ingresso na modernidade deixe de ser "natural" e "necessário". atrasado com relação ao progresso das nações mais ricas e sem conseguir diferenciar-se na ordem internacional. qualificada como internacionalista. o reconhecimento da maturidade da proposta moderna brasileira pelos centros avançados produtores de cultura é comunicada em carta a Joaquim Inojosa: "Sabes que o Oswald fez na Sorbonne uma conferência sobre nós? O Sérgio escreveu-me contando que em Paris o nosso movimento tem despertado o mais vivo interesse. n. 1.

como exigência do comparecimento na ordem universal que se instaura no modernismo a questão da brasilidade. De certa forma. portanto. a partir da experiência do contato com os centros avançados europeus. vol. É. como dizia um inventor meu amigo. 26 Oswald de Andrade. em uma posição legisladora. 1. o modernismo brasileiro. de Klaxon. o que é a mesma coisa. A volta à pátria confirmou. de Paulicéia Desvairada pretendia dispor como instrumento do processo modernizador a absorção das fórmulas da modernidade presentes nos centros mais avançados produtores de cultura. Certamente não é por acaso que no exato momento em que se estabelecem relações de maior proximidade entre os autores nacionais e a produção intelectual não-nacional se opera uma reorientação do movimento modernista em direção à proposta nacionalista. São Paulo. mas. ao contrário.220-238. dão bem a medida do que ocorria. abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo. no encantamento das descobertas manuelinas. 1923 já prenuncia a mudança de rumos. basicamente. "O esforço intelectual do Brasil contemporâneo". Paulo Prado. interessa agora a tematização das mediações que asseguram a viabilização do ingresso na ordem moderna. e a correspondência de Mário de Andrade. Poesias reunidas de Oswald de Andrade. vivendo um momento que se poderia dizer de crise de participação. por um lado.procurando pensar a modernização como repetição de um processo já realizado pelos países centrais. de que alguns já desconfiavam. Seu movimento é descrito do ponto de vista da ótica do descobridor (trata-se do "encantamento das descobertas manuelinas"). e por outro lado o Brasil postulando o seu lugar. em particular para Tarsila. No entanto. Já não se está propondo nesta altura a entrada do país de forma imediata no circuito da modernidade. Difel. a sua própria terra.”26 A fundação de uma arte e de uma cultura nacionais se faz. diferentemente do que vinha ocorrendo no ideário do primeiro tempo do movimento. 2. prefaciando em 1924 o livro de Oswald de Andrade. . numa viagem a Paris. Estudos Históricos. Poesia Pau-Brasil. passa a se interessar pelos problemas que dizem respeito à sua identidade e à determinação da entidade nacional. Será este o momento a partir do qual o ingresso na modernidade não será mais buscado dentro de uma vertente imediata. Esse fato. A questão da brasilidade surge dentro do movimento no interior de um quadro de preocupações relativo à caracterização do papel que o Brasil deve ocupar no cenário internacional. em que ninguém acreditava e acabou enriquecendo o genovês. 1988. do alto de um atelier da Place Clichy -umbigo do mundo descobriu. n. ou. deixa clara a presença desta relação: "A poesia 'pau-brasil' é o ovo de Colombo . 1966. Estava criada a poesia ‘pau-brasil’. e é nesta perspectiva que se vai explorar o mundo "novo" e "misterioso". deslumbrado. A partir de 1924. sem abrir mão de seu ideal universalista. Paris. p. Isto significa dizer que é no próprio cerne da definição do acesso à modernidade que ela vem se instalar. A conferência de Oswald de Andrade em Paris. é claro. Rio de Janeiro. colocada em questão a ordem mundial. Ela só pode então ser compreendida no espaço de uma relação que tem como elementos a ordem mundial. funcionava como o referencial. neste momento. O modernismo da Semana de 22. o Brasil só podia comparecer no cenário internacional como um participante pobre e indefinido. a revelação surpreendente de que o Brasil existia. inexplorado e misterioso.esse ovo. Certamente é ainda esta participação do Brasil que se pretende alcançar. serão discutidas as mediações que irão ao mesmo tempo constituir o seu caminho e sua garantia. sem que seja. Oswald de Andrade.

Ao mesmo tempo e exatamente no movimento da sua instauração. Ao situar de forma imediatísta o processo de incorporação na ordem da modernidade. Estudos Históricos. Sou matavirgista. Mas é verdade que considero vocês todos uns caipiras em Paris. p. o ingresso do Brasil no mundo moderno consistia na repetição do percurso já feito por outras nações. Oswald. . Abandona o Gris e o Lhote. Criei o matavirgismo. Vocês se parisianizaram. sua obra e seu tempo. temos briga. chamando com urgência a atenção para a solução encontrada ("ovo de Colombo". desafio vocês todos juntos. 5. portanto na vida moderna. Sérgio para uma discussão formidável. a arte. pode implantar-se de forma indistinta em todos os lugares. Significa. que expressa o esforço de determinação dos predicados particulares da nação brasileira. Desde já.para o movimento. o Brasil e a minha queridíssima Tarsila precisam. empresários de criticismos decrépitos e de estesias decadentes! Abandona Paris! Tarsila! Tarsila! Vem para a mata virgem. a constituição do ideário nacionalista dentro do modernismo do segundo tempo se apresenta como uma proposta que se fundamenta no reconhecimento da legislação da ordem mundial e na consideração do lugar do Brasil em sua pretensão de ser um de seus participantes. linearmente. Tarsila. 1988. Sendo assim. Há MATA VIRGEM. Tarsila. a discussão sobre a brasilidade intervém no projeto modernista moldando de forma definitiva a concepção mesma de modernidade do movimento. onde não há também arroios gentis. 2. É sempre tendo em vista a relação existente entre a ordem internacional moderna e a realidade nacional que se pensa a criação de uma arte própria. Vocês foram a Paris como burgueses. vol. 1. Cada vez mais lhes parecia que a eficácia da ótica imediatista fracassara e que seria necessário investir nos dispositivos mediadores para garantir a incorporação pretendida. Estão épatés. na certa."27 A preocupação de Mário de An drade. antes. traduz a necessidade de situar a produção da pintora com relação aos autores europeus. Sintomática da mudança de rumos é a carta enviada por Mário de Andrade para Tarsila: "Cuidado! Fortifiquem-se bem de teorias e desculpas e coisas vistas em Paris. n. haveria de dizer Paulo Prado). Considerava-se apenas que a sua implantação podia fazer-se de forma mais rápida ou mais lenta de acordo com a posição que se ocupava no cenário internacional. Pensado assim. volta para dentro de ti mesma.220-238. A maneira como naquele tempo se manifestava a crença na modernidade entendida como um universal possibilitava aos modernistas dispensar a consideração do problema nacional. na cpiderme. Rio de Janeiro. se dizia. Disso é que o mundo. E se fizeram futuristas! hi! hi! hi! Choro de inveja. aos modernistas restava lamentar a precariedade da posição em que se encontravam. Quando vocês aqui chegarem. Isso é horrível! Tarsila. onde não há arte negra. ao exigir da produção cultural feita no 27 Aracy Amaral. Tarsila. Abandonar o Gris e o Lhote não significa abrir mão da exigência modernizadora. A brasilidade se Introduz no movimento para assegurar a participação do país no concerto Internacional A problemática da brasilidade. 369. A ordem moderna. p. a proposta modernista passa nitidamente a enfatizar mais e mais a necessidade de se considerar os compromissos que se devem estabelecer entre a cultura atual e a tradição na caracterização de um projeto em que esteja expressa a nacionalidade. optar por conceber a modernização a partir das particularidades da realidade da nação. constitui dentro do modernismo uma resposta mais satisfatória para a viabilização da incorporação do país na modernidade. A partir de 1924. É como se o ingresso na ordem mundial.

A perspicácia do texto oswaldiano percebe inicialmente a distância e o débito com relação ao modernismo dos primeiros anos. deve ser compreendido como proposta de participação na ordem ampla da modernidade. O que coincide com a reconstrução geral não é um movimento de identificação imediata. o projeto de elaboração de uma arte própria. p. Esta opinião torna-se ainda mais nítida quando o manifesto contextualiza o sentido da sua proposta. Acertar o relógio império da literatura nacional."29 Aqui. há que ser colocada dentro dos parâmetros do nacionalismo. centro da polêmica que se travou nos anos de 1924 e 1925. A conceituação da modernidade no Brasil no tempo do modernismo que se Inicia em 1924 e que constitui a marca mais importante de todo o movimento é resultado de um esforço de compatibilização do antigo e do novo. Para isso Oswald de Andrade propõe inicialmente que se estabeleça uma ruptura no processo de importação de padrões culturais e que se adote a perspectiva da produção de modelos culturais próprios e adequados à exportação. é ao mesmo tempo a única que assegura a possibilidade da inserção na ordem da modernidade. Sabe também situar o caso brasileiro no contexto mais amplo em que a produção nacional deveria se inscrever.. 9. isto é. op.. É. Obras completas VI. p. através da adoção desta solução que busca fundar a cultura nacional nova em um registro da temporalidade próprio. E a Poesia Pau-Brasil. É nele que ela adquire um lugar e um sentido. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. onde também se abriga o passado."30 Esta postura. nacional. p. exigisse ao mesmo tempo que esta explicitasse na sua visão do passado relações de cumplicidade que viessem definir para o caso brasileiro uma forma específica de modernidade. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil publicado por Oswald de Andrade. Oswald de Andrade percebe que já agora a perspectiva modernizadora.220-238. 2. Poesia de importação. Ibid. na medida em que dá continuidade ao esforço de modernização iniciado anteriormente. Com relação ao modernismo inicial o texto é claro: "O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Realizada essa etapa. A poética pau-brasil insere-se dentro do desenvolvimento mais amplo da cultura universal. o reconhecimento do plano internacional. nacional. Nos termos do manifesto é ela que assegura a exportação. tenta uma exposição da solução modernista. Rio de Janeiro. . cit."28 Reconhecendo os méritos do modernismo inicial. é que se poderá pensar o ingresso da produção cultural do país no concerto das nações cultas. Ser regional e puro em sua época. 7. p. a poesia pau-brasil. O Brasil doutor. 29 30 Estudos Históricos. Ibid. vol. antes.. n.Brasil uma contribuição própria. 1. Só desta forma. Já a idéia de integração do elemento nacional na ordem mundial vem destacada da seguinte forma: "O Brasil profiteur. 7. "Dividamos. 1988. o problema é outro. a busca de uma definição própria de reconstrução para o Brasil que possibilita o comparecimento do modernismo brasileiro no cenário internacional moderno. Poesia Pau-Brasil. A categoria regional comparece então oposta ao expresso internacionalismo do primeiro tempo. que pretende a produção cultural própria. de exportação. O texto refere-se à problemática artística 28 Oswald de Andrade.

a fragmentação. 2. Ora isso me desgosta no livro porque é lógico que a realidade contemporânea do Brasil. derivado das nossas necessidades. em novembro de 1924: "A minha 'Escrava'. com o trigo próprio da Rússia ou o vinho próprio da França ou da Itália. crônica de 25/5/1929 incluída em Telê Ancona Lopez (org. vol. subversiva e inútil porque nem o trigo nem o vinho são específicos da nossa terra. Nós temos que criar uma arte brasileira. Estudos Históricos. a que corresponde um projeto construtivo. com o que o singulariza e individualiza. do mimetismo a que o selvagem é levado pela dependência. No contexto da polêmica suscitada pela publicação do Manifesto PauBrasil. o caos voluntário. engrandecer a economia humana. "a deformação através do impressionismo."32 Certamente é urna reorientação do modernismo que se está pretendendo. parte essa única que poderá enriquecer e alargar a Civilização. entrar no concerto das nações que hoje em dia dirigem a civilização da Terra. em carta. na sua “Inocência” da inocência construtiva" ampla. a nossa colaboração seria inferior. Rio de Janeiro. tem que concorrer pra esse concerto com a sua parte pessoal. n. p. fazendo coincidir o esforço nacional com o esforço geral. inscreve-se a poética pau-brasil. Da mesma forma que do lado prático. Esta participação. Veja bem: abrasileiramento do brasileiro não quer dizer regionalismo nem mesmo nacionalismo = o Brasil pros brasileiros. secundária. a Joaquim Inojosa. . Ela participa. 1. é também certo que a grande maioria se esquecerá de tirar a ilação e verá mais certamente do livro certos ditames práticos mais fáceis de apreender. reflete necessariamente e demasiadamente ideais europeus. ao contrário.I". Da mesma forma nós teremos nosso lugar na civilização artística humana no dia em que concorrermos com o contingente brasileiro. exige o ideal de elaboração de uma cultura nacional. Quem dentre nós refletir ideais ou apenas sentimento alemão.31 No segundo. da nossa formação por meio da nossa mistura racial transformada e recriada pela terra e clima. 32 "Fala brasileira . não perde de vista. Duas Cidades-Secretaria de Cultura. Se nós quiséssemos concorrer pra organização econômica da Terra. Se é certo que nas conseqüências espirituais que a minha 'Escrava' dita. derivada duma explicação oral que fiz da poética modernista universal. se pode ter pontos de contacto com a realidade contemporânea da esfalfada civilização do Velho Mundo.). São Paulo. Não é isso. Mas com a borracha. 1988. Táxi e crônicas no Diário Nacional. Esse é o único meio de sermos artisticamente civilizados. não está no período civilizado de criação.do início do século caracterizando-o corno um período revolucionário que apresenta dois momentos: no primeiro. não pode ter o mesmo ideal porque as nossas necessidades são inteiramente outras. esse abrasileiramento do brasileiro está implicitamente promulgado. Significa só que o Brasil pra ser civilizado artisticamente. português ou mesmo americano do norte é um selvagem. Rodin e Debussy até agora".220-238. De Cézanne e Malarmé. 1976. Mário de Andrade se dirige. pela ignorância e pela fraqueza que engendra a covardia e o medo. Está no período da imitação. o açúcar e o café e a carne nós podemos alargar. pro concerto dos homens terrestres. Mais uma vez está em pauta a distância entre a problemática do modernismo inicial e a postura nacionalista do 31 Ibid.

O ideal universalista. Assim. ao discutir a definição da "fala brasileira". É a língua de que todos os socialmente brasileiros têm de se servir. via da modernização. p. texto de 1922. exige a definição da vocação nacionalista do movimento. este ingresso. É uma língua firmada gradativa e inconscientemente no homem nacional.. 2. no Ensaio sobre música brasileira. a cada momento. A redefinição do conceito de atualidade para o movimento exige então que se recoloque mais uma vez a questão da sua vocação universalista: "E arara. 1928. 33 34 Ensaio sobre música brasileira. imaginemos com senso-comum: se um artista brasileiro sente em si a força do gênio. é possível perceber que seus eixos principais se aproximam ou se afastam até o estabelecimento de uma ruptura. que nem Beethoven e Dante sentiram. vol. Rio de Janeiro. Considerada em seus traços mais expressivos. Estudos Históricos. atento para o estabelecimento das distinções. se quiserem ser compreendidos pela nação inteira. É a língua que representa intelectualmente o Brasil na comunhão universal. Porque. O paralelo estabelecido por Mário de Andrade entre o processo de comercialização das matérias-primas brasileiras no mercado internacional e a produção da cultura vem enfatizar o ponto de vista de Oswald de Andrade no manifesto de 1924. no segundo tempo. São Paulo. que a ênfase dada à problemática do nacionalismo deve ser encarada dentro de um movimento mais amplo de direção universalista. p. A argumentação de Mário de Andrade . 1.. 6. . 1928.220-238. Ensaio sobre a música brasileira. Já agora. o que está importando para Mário de Andrade é a definição do "critério de música brasileira pra atualidade". Em 1928.São Paulo. Neste sentido. sua argumentação se desdobra percorrendo todas as dimensões da questão: "Porque o Brasil é uma nação possuidora duma língua só. nacionalizar a nossa manifestação". O que define a qualidade daquilo que se deve exportar é a ordem ampla em que o país se insere e segundo a qual ele é regido. proposta básica do modernismo.segundo tempo. 6. Ocorre que agora. 1988.6. Mário de Andrade faz a releitura de A escrava que não e Isaura. n.o lugar do Brasil no concerto Internacional é definido a partir de uma relação Ao longo de sua obra Mário de Andrade deixará claro. No que concerne ao movimento modernista. Chiarotto. Enfrentar a problemática da atualidade. que se manifesta a partir de 1924 na idéia de ingresso no concerto das nações está presente nos dois tempos do movimento.34 Naquele momento isto significa propor "aferradamente. conforme o modo como se dá o enfrentamento da questão da brasilidade. este só é bem-sucedido ao se dispensar a visão imediatista e se adotar a mediação da questão nacional. p. um dos seus participantes. está claro que deve fazer música nacional. Chiarotto. Imediatamente este é contextualizado na discussão mais ampla onde seu sentido se revela no âmbito da comunhão universal."33 O raciocínio sublinha a importância de se tematizar o problema da língua nacional. consiste em defender a solução nacionalista. A modernidade é exigência que se faz sentir no processo de incorporação. Nos dois autores a exportação é o caminho da incorporação na vida moderna. na Antropofagia. a década de 20 se apresenta como o campo de um debate que tem sempre por horizonte aquele feixe de questões. Ser moderno significa sempre comparecer no cenário internacional. Essa língua não lhe é imposta. Porque como gênio saberá fatalmente encontrar os elementos essenciais de nacionalidade (Rameau Weber Wagner Mussorgski). em crônica de 1929.

não deve entretanto encobrir uma dimensão do raciocínio de Mário de Andrade que visa exatamente circunstanciar a proposta nacionalista. Embora não explicitada neste texto. "A pesquisa do caráter nacional só é justificável nos países novos. Estudos Históricos. 195. ainda não possuindo na tradição de séculos. seu reconhecimento no plano mundial. A inadequação. argumenta-se.35 Valor social (compromisso com a tese nacionalista) e valor artístico é o que se procura. emergentes. Rio de Janeiro. países novos. Martins. 1. a preocupação de Mário de Andrade com sua proposta nacionalista diz respeito à problemática cultural dos países emergentes. p. Em sua Pequena história da música. cit. p. desta forma. 9. advém do maior grau de nacionalidade que ela puder manifestar. e não às situações culturais já sedimentadas como nos países mais adiantados. A perspectiva generalizante presente nesta passagem do texto. p. Em primeiro lugar. Mário de Andrade."36 Tendo por base estas preocupações. para os países novos. Na organização do cenário cultural no plano mundial o modernismo procura diferenciar o papel que cada participante do concerto das nações deve desempenhar. a participação no concerto das nações deve fazer-se pela afirmação dos caracteres nacionais. 37 Op. 1980. vol. A mesma idéia poderia ser expressa de outra forma afirmando que a dimensão universal da obra de arte. fazer coincidir. insiste na denúncia de um divórcio -entre a música artística brasileira e a "nossa entidade racial". Sem perder em nada o valor artístico porque não tem gênio por mais nacional (Rabelais Goya Whitman Ocussai) que não seja do patrimônio universal”. Se para os países mais avançados o ingresso na modernidade se faz de forma imediata (eles são de fato a própria ordem moderna).Terá pois um valor social enorme. como manifestação no plano da cultura do esforço de incorporação dos países novos na ordem moderna. Ocorre que agora esta incorporação se faz levando em conta as determinações de cada situação cultural em sua especificidade. que-nem o nosso. Mário de Andrade retoma esta idéia de forma clara. em seu Ensaio sobre música brasileira. deriva do fato de estas representações terem suas raízes presas em contextos culturais alienígenas descompromissados com a pesquisa da brasilidade. n. uma constância psicológica inata.. o modernismo acredita que as representações tradicionalmente feitas a respeito da realidade da nação constituem um obstáculo para a apreensão da verdadeira entidade nacional. cabe ressaltar sua dimensão crítica. Pequena história da música. Enquanto crítico e historiador da música.37 É propósito geral do ensaio chamar a atenção para a falta de cultura nacional e para o fato correlato de os homens de cultura no Brasil estarem embebedados pela cultura 35 36 Ibid. de feitos. sobrepondo-se à idéia de inadequação. São Paulo. O que está em pauta é sempre o movimento da incorporação na ordem moderna. A questão do nacionalismo surge. que pretende invalidar como inadequadas as representações da realidade brasileira feitas ao longo da nossa história cultural.. de heróis. Estes "retratos-do-brasil" apresentam-se com uma dupla função. de caráter eminentemente polêmico. 3.220-238. . 1988.' ed. no texto. Em alguns momentos. o modernismo da década de 20 elabora uma série de "retratos" que procuram dar conta daquilo que constitui a verdadeira realidade brasileira. O modernismo do segundo tempo preocupa-se em manter o ideal universalista. 2.

contradições são apenas à' face externa e menos verdadeira de um ser nacional substrato que é preciso trazer à luz. Ibid.220-238. O caminho que procuramos percorrer no modernismo apresenta dois momentos diferentes. singulares a própria brasilidade. A 1 o de novembro de 1929."38 E mais adiante. Os "retratos-do-brasil" apresentam-se assim. pretendem denunciar a inadequação dos saberes vigentes na medida em que se enraízam no processo de importação de representações. p. daquilo que a singulariza e a distingue no concerto internacional é o traço mais característico do segundo tempo do modernismo. por um lado. após ter transcrito uma passagem de Martin Fierro. onde se expressa a diversidade. Está antes empenhado em se afirmar como elemento chave no processo de constituição da entidade nacional. A busca do que é próprio da nação brasileira. pra ninguém chegar atrasado no tragicômico festim. Táxi e crônicas. Estudos Históricos. Se o que se denuncia é uma situação de crise. acrescenta: "Eu acho que também temos que cantar opinando agora. É certo também que a ausência de uma música de características marcadamente nacionais seria causa da impossibilidade do acesso da nação ao plano internacional.européia. em sua crônica para o Diário Nacional. O modernismo crê poder atingir por trás do Brasil das aparências. por um momento. como um padrão que deve ser aconselhado. Por outro lado. de Lourenço Fernandez e de Villa-Lobos aparecem então. Os "retratos-do-brasil" vão procurar. uma realidade nacional mais profunda. Rio de Janeiro. dada a "orientação brasileira" que apresentam.op. Há muito mais nobre civilidade em se ser conscientemente besta que grande poeta de arte pura. que se manifesta na existência do divórcio entre cultura e realidade. O modernismo já não se apresenta nestes anos como um movimento que propunha a renovação restrita do domínio artístico. Por um lado. essencial. de superfície. chamado de primeiro tempo modernista.--. os elementos que constituem a brasilidade são por outro lado o que possibilita referir-se à nação brasileira como uma realidade una e indivisa. principalmente pelas possibilidades que ele tem de despertar no povo brasileiro uma consciência social de raça."39 O modernismo tem de si mesmo a crença de constituir o momento de fundação da vida cultural no país. Mário de Andrade observa: "Me parece incontestável que nós estamos atravessando um momento muito importante da nacionalidade. a nossa inconsistência de caráter. exercendo a função de crítica da cultura. n. mesmo pagando o preço de pessimisticamente constatar. 1. coisa que ele nunca teve. durante toda a década. ressaltar estes aspectos específicos.. No primeiro. na medida em que nos destacam no conjunto das nações que participam do concerto internacional. Cabe a ele a tarefa de desvendar os próprios fundamentos da nacionalidade. p. Traços distintivos na nacionalidade. desempenhando um duplo papel. visam identíficar positivamente a identidade substancial da nação.). Conflitos diferenças. pôde-se perceber que o acesso 38 39 Telê Ancona Lopez (org. em que o país se dá como uma totalidade. em sua dimensão positiva. da consciência nacional. 155. a superação deste estado de coisas exige o esforço para se chegar ao conhecimento da verdadeira entidade nacional. O cultivo de valores culturais estrangeiros é o que impede. cit. crise de identidade. o florescimento da música nacional. . 1988. 2. As obras de Luciano Gallet. vol. para o autor.

nacional. no plano categorial. Ao contrário. à incorporação da cultura feita no Brasil ao contexto internacional. Estudos Históricos. Ocorre que agora. A constituição de uma teoria da temporalidade da vida nacional vai possibilitar a reavaliação da situação de "atraso" do contexto nacional. A elaboração deste "retratos" está inserida. associada sempre à idéia de concerto internacional. O segundo tempo modernista introduz no ideário modernista uma versão nova do universalismo: ela acredita que a ordem moderna. Com isso ele não se destaca dos compromissos da ótica do primeiro tempo no que ela tem de fundamental: seu universalismo. entretanto. a escolha das vias utilizadas na elaboração destes "retratos-do-brasil". 1988. Era esta a crença que aparecia nas afirmações de Mário de Andrade referindo-se às "mesmas águas da modernidade" onde estariam imersos ele próprio.220-238.à ordem da modernidade era pensado a partir de uma perspectiva imediatista. determina para a situação brasileira a necessidade de propor. para viabilizar a incorporação. A opção manifestada no primeiro tempo do modernismo. n. Ao mesmo tempo pôde-se observar que o modernismo manifestava desde os seus primórdios uma preocupação relativa ao ritmo em que se processava a nossa modernização. desde o início. Ao contrário. A exigência da tematização da mediação do nacional nesta visão universalista conduz ao propósito de constituição dos "retratos-do-brasil". de forma imediata. Ela vai também fornecer as bases da definição de um tempo da modernização próprio da nacionalidade. O "relógio" nacional poderia estar atrasado. Isto não significava que ele fosse regido por mecanismos que o singularizassem. p. Esta sustentava-se na crença de que a modernídade constituía uma ordem universal em um sentido específico: aqui. uma produção marcada de "caráter" nacional. O primeiro tempo modernista considerava a problemática da nossa modernização a partir do ponto de vista da ótica 'universalista que lhe era próprio. supunha-se que o "relógio" nacional pudesse ser acelerado no sentido de poder bater no compasso do ritmo internacional marcado por um relógio que por natureza não se distinguia do nosso. começou a parecer para os participantes do movimento como uma solução não eficiente. ao menos em termos qualitativos. vol. concerto internacional. A existência desta relação vai determinar. . Rio de Janeiro. imaginava-se que a adesão dos processos modernos de expressão cultural conduziria. 2. 1. no movimento de uma relação entre a parte. este universalismo determina a constituição de uma compreensão da temporalidade para o caso brasileiro. Ela desconhecia o fato de que era a afirmação da mediação do nacional que viabilizava o ingresso na ordem moderna. e o todo. a partir de 1924. Cocteau e Papini. no segundo tempo. O segundo tempo modernista encara a situação de "atraso" do tempo nacional como constituindo a nossa temporalidade. não eram consideradas particularidades regionais que condicionassem a sua implantação de forma particularizada em contextos diferentes.