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PRINCÍPIOS DE TEXTUALIDADE

Análise de 1 Ped 1,10-16

O termo textualidade designa habitualmente o conjunto de propriedades e princípios que uma dada manifestação da língua humana deve possuir para ser reconhecida como texto, isto é, como um produto coeso internamente e coerente com o mundo relativamente ao qual deve ser interpretado.

1. PRINCÍPIO DE INTENCIONALIDADE

A intenção principal da primeira parte deste excerto (1,10-12) é mostrar que as realidades preditas pelos profetas foram agora reveladas aos cristãos, por meio daqueles que anunciam o Evangelho. A segunda parte (1,13-16) constitui uma exortação à santidade, convidando os cristãos a abandonar a vida que levavam anteriormente.

2. PRINCÍPIO DE SITUACIONALIDADE

O texto não nomeia ninguém em concreto nem apresenta qualquer referência espacio-temporal. Por isso, a sua validade pode estender-se a toda e qualquer comunidade cristã. É possível, todavia, descobrir algumas marcas que demonstrem este princípio, a saber: a comunidade cristã, a quem se dirige o texto, é colocada depois dos profetas, alvo da acção dos pregadores do Evangelho (1,12) e conhecedora de realidades que só os anjos contemplam. Por outro lado, trata-se de uma

A referência aos anjos em 1. 3.14).10).16). o texto trata de um tema central para a comunidade cristã. só agora foi manifestada. cair numa grande informalidade. em virtude do Espírito Santo enviado do Céu» (1. Esta salvação. Deste modo. Vai ainda mais longe quando exorta a comunidade nos termos dos versículos 13-16: se o faz é porque tem autoridade para tal e esta lhe é reconhecida. esta situação não impede que o emissor reforce as suas afirmações recorrendo a outras autoridades que lhe são superiores: é o que faz quando indica o próprio Deus como modelo de santidade (1. PRINCÍPIO DE ACEITABILIDADE Quanto ao assunto.12). mas para vosso que eles estavam ao serviço destas realidades que agora vos foram anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho. sem. «foi-lhes revelado .não para seu proveito. No entanto. a ponto de se poder referir à comunidade com a expressão «filhos obedientes» e evocar «o tempo da vossa ignorância» (1. face a uma dádiva que lhe será confiada aquando da manifestação de Jesus Cristo (1. que predisseram a graça que vos estava destinada» (1 Ped 1. contudo. anunciada e desejada desde há muito tempo. A interacção entre emissor e receptor assenta numa relação de proximidade. a centralidade e a importância do tema contribuem fortemente para a sua aceitabilidade. a avaliar por 1 Ped 1.13).15) e cita a Escritura (1. O emissor vinca o lugar da comunidade no projecto da salvação em Jesus Cristo: «esta salvação foi objecto das buscas e averiguações dos profetas.12 funciona como elemento focalizador do interesse do receptor na realidade de que se está a falar.9: «alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas».comunidade que se encontra em expectativa. .

culminando na referência aos anjos. Esta menção é também o apogeu da primeira parte no que se refere à informatividade. PRINCÍPIO DA INTERTEXTUALIDADE Faz-se uma alusão à missão dos profetas.44. o nível de informatividade é ainda mais baixo. evocando as profecias referentes a Jesus Cristo (1. PRINCÍPIO DE INFORMATIVIDADE O grau de informatividade não é particularmente elevado. denotamos uma estratégia que vai do geral (profetas) para o particular (a comunidade cristã a quem se dirige o texto). podemos aproximar esta menção de passagens como Lv 11.11) e aquelas realidades por eles anunciadas. Há ainda uma citação da Escritura (1.7.16). A segunda parte do texto parece ter como pano de fundo a libertação dos hebreus a caminho da Terra Prometida.2. 19. No entanto. nas quais se apresenta a Deus como santo.4. embora não se indique o livro. . Como compensação deste baixo nível de informatividade. 5. dado que se trata da alusão mais “inesperada”. o que se compreende por se tratar de uma exortação e os dados estarem ao serviço de um objectivo prático pretendido pelo emissor. 20. a quem os cristãos são agora equiparados no conhecimento. símbolo do Baptismo e da vida cristã. o que justifica que a primeira parte seja um sumário daquilo que foi a acção dos profetas. mas que só agora foram reveladas. Na segunda parte.

14-15). Coesão A articulação entre as duas partes do texto faz-se pela locução conjuncional subordinativa causal “por isso” (1. O advérbio de tempo “agora” e a locução preposicional “em virtude de” (1. especialmente na segunda parte do texto: “como” (1. O uso destas expressões assegura uma ligação linguística entre os diversos elementos que constituem este pequeno excerto da Primeira Carta de S.12) ligam a referência aos profetas com a comunidade cristã.14). sede santos. mas para vosso” (1. assim como é santo aquele que vos chamou. é de notar o uso algo frequente de conjunções e locuções subordinativas comparativas. b. “assim como” (1. . vós também. Por último. mas. em todo o vosso proceder” (1. PRINCÍPIO DA CONECTIVIDADE a. abrindo ao futuro (a espera da manifestação do Senhor).13).12). Coerência O texto é coerente na medida em que parte de um passado (os profetas) para o presente (a comunidade cristã). onde é claro para o emissor que o agir segue o ser: na primeira parte.15) e “conforme” (1. Pedro.6.16). “não vos conformeis com os antigos desejos do tempo da vossa ignorância. Encontramos ainda duas orações coordenadas adversativas: “não para seu proveito. fala-se do ser e na segunda apresentam-se as implicações/obrigações decorrentes dessa condição. A coerência manifesta-se ainda na própria estruturação do discurso.

podemos concluir que este excerto apresenta aquelas características e propriedades que definem uma qualquer unidade literária como texto. Trabalho elaborado por: José Domingos Ferreira .Através desta breve análise.