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OS ESTRANGEIROS Na ausência de direitos humanos, sem um pacto entre os povos (assim, por exemplo, os itacenses e os tesprotos , Odisséia XVI

, v. 427), de fato esses se encontravam, ainda que sem hostilidades declaradas, num perpétuo status belli. Os atos de pirataria, as invasões ao território do vizinho para roubar gado, mulheres, crianças, eram constantes (cf. Odis. XIV, v. 230,262; XXIII, 357; Ilíada I,155; XVIII,28). O estrangeiro, pois, que chegava a um país desconhecido se achava completamente desamparado e a primeira pergunta que se fazia (a si mesmo) era a de Ulisses ao despertar na ilha dos feácios: “Ai de mim! Que homens serão os da terra a que cheguei? Acaso insolentes, selvagens e injustos ou, pelo contrário, hospitaleiros e com um coração temeroso dos deuses?” (Odis. VI, 119-121). Diante de tal incerteza, o mais conveniente era abordar, com gesto de suplicante, ao primeiro que encontrar e dirigir-lhe a palavra em termos patéticos e bajuladores, para mover sua compaixão e sua consciência religiosa (cf. A súplica de Ulisses a Nausícaa e a do canto XIII, 228ss). A justiça, com efeito, segundo indica o texto citado, se equipara (ou ao menos se põe em correlação intrínseca) com a religiosidade: um homem não pode ser sem ser . Pois bem, diversas passagens da epopeia declaram sem ambiguidade que os estrangeiros estão sob o amparo de Zeus, assim como os mendigos (Odis. VI, 207-208: “De Zeus procedem todos os estrangeiros e mendigos”) e suplicantes (Odis. IX, 270: “Zeus é o vingador dos suplicantes e dos estrangeiros”), com os quais de fato se confunde (cf. Odis. VII, 165). Zeus, em consequência disso, recebe o epíteto de eo estrangeiro pode reclamar o das pessoas (cf. Odis. IX, 271). Quando esse sentimento de compaixão e piedoso respeito é manifestado ao estrangeiro, numa amável acolhida e firme proteção, o perde o caráter de um estranho e passa, de certo modo, a ser considerado como um amigo ou membro da família; se converte, em suma, em “hóspede”, iniciando-se um recíproco vínculo que dura por toda vida e se transmite hereditariamente à descendência. Essa instituição da

mandar embora o hóspede imediatamente. ainda que sem incorrer no erro de tardar sua partida mais do que o devido tempo. XV. 454.tanto do com seu hóspede como as deste com ele . conduz-se o visitante ao interior da morada. Os atos de delicadeza . 68ss). preparar um banho ao recém-chegado para seu asseio pessoal e relaxamento da fadiga da viagem (Odis. 73) segue um rigoroso cerimonial que é transferida para o dia seguinte. A recepção de um hóspede ( : Ilíada IX. procurar sua distração. mostrando maior atenção com os de idade mais avançada .por exemplo . que antecipa . 189). Seria incorreto. ou enquanto não se considere que gozou suficientemente das atenções necessárias. III.no caso de serem vários os hóspedes (Odis. 49 e 252. 464.da visita de Aserá a El no poema ugarítico Baal tem um paralelo bastante estreito com a de Hermes a Calipso. seja chamando um aedo. VIII. IV. I. alojou e festejou Belerofonte por nove dias. Às vezes se leva essa norma de etiqueta ao extremo: Ióbates. a cena . Odisséia VII. era preciso retê-lo em casa o maior tempo possível (cf. tendo em vista o limite da ação. sem perguntar-lhe até o décimo o motivo de sua visita. Odis. assim pensando. IV. 175). sobretudo. seja organizando jogos em sua honra (como faz Alcínoo para festejar Ulisses). X.já em Homero . 120 e 136).o principal preceito da etiqueta hospitaleira. segundo proclama Menelau a Telêmaco (Odis.hospitalidade.chegam a surpreendentes extremos de . Formalidades semelhantes se encontram. VI. se vem de longe. (Ilíada VI. é de mal tom perguntar-lhe o objetivo de sua viagem (cf. além disso. 14). da mesma forma.sem propô-lo . o rei da Lícia. se a chegada do hóspede ocorreu em hora intempestiva (cf. Depois da saudação obrigatória.a posterior da . onde o faz-se sentar e também se dá-lhe de comer e de beber (cf. Odis. expressando . Até que hóspede não tenha reposto suas forças. na épica oriental. conduz uma série de usos protocolares e normas de etiqueta visíveis. X. na Odisséia. Odis. 49). 60). Os deveres do não acabavam no mero alojamento e alimentação do : devia. 361). Também é muito importante. 587. III.

não pode mostrar maior comedimento e consideração à família de seus régios hóspedes. VIII. Nas relações de hospitalidade. 521-543). . Provocado indiscretamente a competir com os jovens feácios. logo que se dá conta de que evoca a Ulisses dolorosas lembranças (Odis. convocando-o . visando estabelecer uma relação desse tipo. por não serem (como Sófocles posteriormente diria) proveitosos nem propriamente presentes. por um lado. XV. dispostos a enfrentar-se com armas na mão. 204ss). presenteiam-se respectivamente com um arco e uma espada. interrompe o canto do aedo. os ou presentes de hospitalidade são. por ser seu hóspede e ninguém poder combater contra quem lhe dá provas de amizade (Odis. 119-235). Glauco e Diomedes. se proclama disposto a fazê-lo com todos. o filho de Alcínoo. VIII. símbolo do alto apreço tido ao hóspede e. Ífito e Ulisses se encontram em Messênia e. diante dos muros de Tróia. por sua vez.sutileza e de observação psicológica dos mínimos gostos e das reações mais imperceptíveis. A cerimônia. na “mesa da hospitalidade”. e dispõe um coro e um jogo de bola para remediar o mal efeito produzido pelas arrogantes palavras de Euríalo (Odis.por último . 396). servem-lhe de lembrança da cordial acolhida e do vínculo hospitaleiro (cf. VIII. Assim como os presentes dos inimigos não devem aceitar-se. não contentes com renunciar à luta. Ulisses. por outro lado. O valor material dos objetos carece de importância diante de seu profundo simbolismo espiritual. por exemplo. os mútuos presentes desempenham importantíssimo papel. Às vezes. Alcínoo. exceto com Leodamante. 54). com a que se enodava o pacto. trocam presentes mutuamente. Glauco saiu prejudicado na troca. ) pode ser substituída por um mútuo intercâmbio de presentes.a desculpar-se diante de Ulisses e a dar a este um presente (Odis. se reconhecem como hóspedes hereditários e. (a saber: o e o sentarem-se juntos. como penhor da renovação da antiga amizade de seus maiores (Ilíada VI. Odis. 250ss e 370ss). VIII. quando as circunstâncias impedem o compartilhar do mesmo pão em casa. a entrega dos acontece em momentos de intenso dramatismo.

.ao dar ao Tidida sua armadura de ouro de um valor de cem bois e receber. Por isso. assim como o triste fim de Tróia. XIX. As pessoas que não cumprem com os deveres da hospitalidade são sempre ou seres monstruosos . 82ss). A proposta de Menelau a Telêmaco de percorrer . os feácios. cuja casa (nas palavras do próprio Telêmaco: Odis. 78). 21ss). havia talvez um pouco de ostentação. em troca. o próprio Ulisses. em geral. pois o livre cumprimento dos deveres hospitaleiros conferia renome e esplendor ( : Odis. Em tudo isso. XV. podem ser citados: Axilo que. o destino exemplar de Polifemo e Antínoo. 12).ou pessoas soberbas . havia quase uma verdadeira exploração do anfitrião: Menelau e Ulisses voltam enriquecidos a sua pátria com os magníficos presentes que deram a eles (a um no Egito e ao outro na Feácia). XV. já que também ele era homem viajador e amante de fazer visitas. acolhia em sua morada quantos por ele passavam (Ilíada VI. mostram qual era o castigo para os infratores das leis da hospitalidade. residindo à beira de uma estrada. Salvo o atentado de Héracles sobre Ífito (Odis. uma de bronze. XXI. Como modelos de hospitalidade.antes de sua partida de Esparta . além dos exemplos citados. para fazer provisão de esplêndidos presentes.como os Cíclopes e o rei Équeto de Epiro . que fica impune.os povos dos arredores. por parte das pessoas mesquinhas e interesseiras.como o pretendente Antínoo. cujo preço era de nove bois. não deixa de revelar certa cobiça ingênua (Odis. 314) era frequentadíssima por forasteiros.