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II Seminário dos Estudantes de Pós-Graduação em Ciências Sociais do estado do Rio de Janeiro 17 a 21 de setembro de 2012 A CRÍTICA AO NIILISMO EM DOSTOIÉVSKI

E THOMAS MANN Kaio Felipe1

Resumo: Este trabalho comparará a crítica ao niilismo presente nos romances Os Demônios (Dostoiévski) e Doutor Fausto (Thomas Mann). O objetivo é compreender a forma como ambos os autores representaram artisticamente um conjunto de idéias radicais, relativistas e/ou que negam qualquer sentido existencial ou metafísico. Para isso serão analisados tanto os respectivos contextos sociais e históricos em que estes escritores viveram quanto as perspectivas filosóficas e políticas que os orientam. No romance dostoievskiano há uma crítica cristã e conservadora à mentalidade revolucionária, a qual superestima os poderes da razão e da autonomia humana. Personagens como o soturno Stavróguin, o suicida Kiríllov e o ambicioso Vierkhoviénski simbolizam as várias facetas que, segundo Dostoiévski, o niilismo pode assumir. Por sua vez, na obra de Thomas Mann predomina uma preocupação humanista com o lado imoral e diabólico que o esteticismo pode assumir. O autor se apropria do mito fáustico para elaborar a trágica história de Adrian Leverkühn, um músico que pactua com o diabo para adquirir maior inspiração artística. Seu círculo social, que envolve desde teólogos negativistas até intelectuais nietzscheanos, permite elucidar o desvirtuamento da Bildung (formação) deste protagonista. O propósito epistemológico que orienta este trabalho é a possibilidade de estudar temas da Filosofia Política por meio da Literatura. Palavras-chave: Niilismo; Humanismo; Esteticismo; Filosofia Política; Literatura. ******

Introdução Dois dos principais autores de “romances filosóficos” (ou “romances de idéias”) são o russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e o alemão Thomas Mann (1875-1955). Além das qualidades estritamente estéticas de suas obras, ambos conseguiram desenvolver enredos e personagens dotados de profundas reflexões existenciais, morais e políticas. Embora Dostoiévski tenda a enfatizar questões éticas e metafísicas e Mann tenha como tema central a
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Mestrando em Ciência Política (IESP/UERJ). Bolsista pela CAPES. E-mail: kaiofelipe@iesp.uerj.br
II Seminário dos Estudantes de Pós-Graduação em Ciências Sociais do estado do Rio de Janeiro http://sepocs.blogspot.com/ sepocsrio2012@gmail.com

e como este foi simbolizado em suas criações literárias. tem uma estranha conversa com o Diabo.relação entre artista e sociedade. uma possível definição inicial seria a seguinte: “situação de desnorteamento provocada pela falta de referências tradicionais. como tais. Outra possível aproximação entre os dois é a temática do diabólico. como o próprio título sugere. Já Thomas Mann. dos valores e ideais que representavam uma resposta aos porquês e. Os Demônios é a obra mais crítica de Dostoiévski. 1999: 8) 2 .” (VOLPI. a proibição de amar ao próximo. em Doutor Fausto (1947). apresenta um pacto diabólico entre o protagonista Adrian Leverkühn e um demônio multiforme (que ora assume um aspecto animalesco. teologia reformada. entre elas. ou seja. guerra. Tudo 2 Embora “niilismo” seja um termo tão polissêmico. a ascensão do nazismo. Ambos os escritores viveram em contextos turbulentos: Dostoiévski foi contemporâneo de movimentos socialistas e anarquistas que promoveram atentados terroristas e assassinatos políticos na Rússia czarista. e que será o tema deste trabalho: a crítica ao niilismo 2. quando Ivan. ora se assemelha a um intelectual sofisticado). que é visto por ambos como sintoma de decadência moral e cultural e produtor de conseqüências devastadoras tanto para o indivíduo niilista quanto para seus contemporâneos. Esta trama aparece no dostoievskiano Os Irmãos Karamázov (1880). Estas “conversas demoníacas” são também uma alegoria do principal ponto de convergência entre Mann e Dostoiévski. 2003: 239) Já Doutor Fausto é contemporâneo à II Guerra. o objetivo do autor “era fazer um ensaio sobre o ateísmo. Uma delas é a preocupação em dar densidade psicológica aos caracteres. niilismo. por meio de monólogos interiores. cabe investigar de que forma ambos enxergaram o niilismo em suas respectivas épocas. esse livro parece ser uma profunda reflexão acerca do relativismo e do niilismo. Mann presenciou as duas guerras mundiais e. e não se furta de conectar ficção com fatos históricos: “ Alemanha. esteticismo. iluminavam a caminhada humana. é possível verificar características em comum. demonismo. Para essa comparação escolhi as duas obras em que a questão niilista é tema central: Os Demônios (1871) e Doutor Fausto. na sua fenomenologia absoluta. a relação irônica do narrador com os personagens e a polifonia. um ensaio acerca do mal em seu funcionamento. após descobrir que foi mentor indireto do assassinato do pai. no qual se sela o acordo que permitirá a Adrian ser dotado de grande inspiração musical por vinte e quatro anos.” (PONDÉ. Nesse sentido. Sendo assim.

cânone do qual fazem parte autores como Dante.são capazes de criar poderosas metáforas e alegorias sobre idéias e fenômenos políticos. discursiva. músico ambicioso e esteticista. alargando assim o nosso autoconhecimento. Seguir-se-ão as considerações finais. Os literatos de gênio . evidenciam „coisas que podíamos não perceber‟. o niilismo pode assumir. na medida em que a literatura consiga representá-las de forma mais clara e instigante do que um estudo estritamente conceitual. Shakespeare. 2011) Os primeiros dois capítulos deste artigo analisarão separadamente as duas obras. Destarte. No terceiro capítulo irei comparar ambas as obras. em determinadas circunstâncias. de um saber „sobre o homem‟. Em outras palavras. Outra justificativa para esta articulação entre Arte e Política reside na capacidade da literatura de cunho realista de apresentar personagens sócio-historicamente enraizados e situados em mundos sociais particulares. O propósito epistemológico que orienta este trabalho é a possibilidade de estudar temas da Filosofia Política por meio da Literatura. o suicida Kiríllov e o ambicioso Piotr Vierkhoviénski . neste artigo investigarei o niilismo por meio da representação literária que Fiódor Dostoiévski e Thomas Mann fizeram do mesmo em Os Demônios e Doutor Fausto. por palavras ou atos. as quais. Em Doutor Fausto a ênfase será em Adrian Leverkühn.simbolizam as facetas que. e que permite elucidar o desvirtuamento da Bildung (formação) de Adrian. permitindo assim uma fecunda relação entre os campos do Pensamento Político e da Estética. ” (CORDEIRO. segundo Dostoiévski. ” (GUSMÃO. Goethe e os próprios Dostoiévski e Mann . com um balanço da discussão prévia. tanto nos pressupostos quanto nos alvos de suas respectivas críticas. que abrange desde teólogos liberais e negativistas até intelectuais vitalistas. 2012: 39). No que diz respeito a Os Demônios.o soturno Nikolai Stavróguin. elucidando qual a perspectiva de Thomas Mann e qual a de Dostoiévski sobre o niilismo. devendo antes ser buscada na construção de personagens complexas e plausíveis. o propósito é entender como três dos personagens .se conecta maravilhosamente neste „livro do Diabo‟. Segundo Luis de Gusmão. formando um quadro definitivo que mostra como o Ovo da Serpente foi gestado. “a lucidez intelectual desses romancistas não se manifesta exatamente na formulação explícita. acredito na possibilidade de discutir e refletir sobre teorias e ideologias políticas a partir da arte. mas também em seu círculo social. 3 .

o “liberal” em questão é sinônimo de progressista. Dostoiévski já era um romancista maduro e consagrado. sob um recorte mais político. vai encontrar o seu caminho. e passa a pesquisar e estudar o caso. compreender a mentalidade revolucionária. Ainda segundo Pondé: 3 Cabe fazer uma ressalva: no caso de Dostoiévski e seus comentadores. “na idéia de que a natureza humana. Os Demônios não se resume a mera panfletagem reacionária. noticiado nos jornais.].” (Ibidem: 241). A relação entre Piotr Vierkhoviénski e seu progenitor Stiepan Trofímovitch simboliza bem esta questão. entregue a si mesma. ao tornar cúmplices os seus integrantes. os temas que aparecem nesta obra já haviam sido prefigurados em Memórias do Subsolo (1864) e Crime e Castigo (1866). Sendo assim. um membro da célula revolucionária liderada pelo estudante anarquista Sergey Nechaev. aliás. “educação liberal” também designa o projeto pedagógico de viés humanista e conservador defendido nos EUA por educadores como Mortimer Adler (Great Books of the Western World [org. em Os Demônios. 1959). 2003: 234) Nechaev. evitou maniqueísmos e criou perfis psicológicos complexos mesmo para os personagens de posições mais radicais. Trocando em miúdos. sendo que tal questão “é colocada com tal intensidade que só admite soluções extremas.As Três Faces do Niilismo em Os Demônios Quando começou a escrever Os Demônios. A existência é enganosa ou é eterna. ou seja. em 1869. 4 . pois o considera típico da geração dos niilistas russos. que na obra desempenha o papel de um cínico e ambicioso líder de um grupo revolucionário. Mais do que isso. Esta continuidade temática é constatada por Albert Camus: “todos os heróis de Dostoiévski se questionam sobre o sentido da vida”. Porém. Dostoiévski está questionando a viabilidade da geração dos filhos cujos pais acreditam na educação liberal3. Personagens como o “homem do subsolo” e Raskólnikov já apresentavam os dramas morais e existenciais que serão retomados. Tal homicídio tinha como objetivo “estreitar os laços que uniam o grupo. Porém. pois Dostoiévski nutria preocupações mais profundas: analisar a fenomenologia do niilismo. O leitmotiv deste romance é uma resposta à ambigüidade quase condescendente de Turguêniev em Pais e Filhos (1862): há jovens niilistas porque houve pais liberais. na realidade. Ou seja. 2010: 106) A inspiração imediata para este romance foi o assassinato de Ivanov. a motivação inicial para a obra é política: denunciar as atrocidades da intelligentsia revolucionária russa. está preparando a destruição. Dostoiévski fica impressionado com o acontecimento.” (PONDÉ. serviu de base para o personagem Piotr Vierkhoviénski. o que para ele. 1952) e filósofos como Leo Strauss (What is Liberal Education.” (CAMUS. anti-tradicionalista e secularizante.

. via desconstrução organizada revela sua face histórica: a modernidade pode ser vista como a entrada da experiência do Nada pelas mãos dos projetos de emancipação em direção ao vazio. matar Deus é tornar-se deus . 2009: 254) Intelectual proletarizado. 2009: 255) Cabe agora ver como todos estes aspectos se manifestam em três dos personagens da obra. 2011: 2045) Os Demônios também pode ser lido como o romance que mostra a degeneração do dogma da perfectibilidade na Modernidade e a lógica prática do niilismo. 2004: 121) Kiríllov segue cegamente a mais rígida lógica. por fim. “também reconheceu o mesmo anarquismo no terrorismo-niilismo dos radicais russos. Kiríllov. Dostoiévski não compartilhava do liberalismo dos grandes senhores Turguêniev e Tolstoi. Quem vencer a dor e o medo se tornará Deus. que estavam muito longe ainda do socialismo marxista. Mas esse processo pode ser pontualmente identificado tanto na preguiça do pai liberal quanto na fúria transformadora do jovem cínico. mas coerente do liberalismo burguês.” (CAMUS. (. o risco da diabolização da vida. e “infere de sua hipótese („Se Deus não existisse.ou seja.” (VOLPI. 5 .. assim como para Nietzsche. Nos Demônios. que tem o intrigante propósito de se suicidar para provar que é um homem-Deus: “aquele para quem for indiferente viver ou não viver será o novo homem. considerando-o uma espécie de pré-nietzscheano: “Para Kiríllov. realizar nesta Terra a vida eterna de que fala o Evangelho.. 2010: 108) Ou seja.‟) a licitude de todo comportamento amoral e. membro da célula revolucionária que seria morto por tê-la abandonado (teve uma desilusão ideológica) e por queima de arquivo (Chátov “sabia demais”). fruto de nossas idéias de liberdade histórica e não teológica” (PONDÉ. Porém. apático frente a sua existência e convicto de seu projeto. sobretudo. Começarei pelo engenheiro Kiríllov. 1999: 42) Porém. identificou o liberalismo dos pais e o anarquismo dos filhos. não se importa de ser usado para acobertar o crime.” (DOSTOIÉVSKI. Camus dedicou um capítulo de seu ensaio O Mito de Sísifo (1942) para analisar este personagem. se suicida para provar a não-existência de Deus. Piotr Vierkhoviénski quer aproveitar esta intenção de Kiríllov para conseguir um álibi: o suicida assinaria uma carta na qual declarava que matara Chátov. sendo que o núcleo deste consiste na “afirmação da possibilidade de criarmos um mundo „inteiramente novo‟.“Nesta obra.) Deus é a dor do medo da morte. para Kiríllov tornar-se deus é apenas ser livre nesta Terra e..” (Idem. diagnosticando com agudeza o anarquismo como conclusão paradoxal. extrair todas as conseqüências dessa dolorosa independência.” (CARPEAUX.

Vierkhoviénski. humilhante ao 6 . com uma impotência radical. O primeiro deles é o capítulo supramencionado. Ele afirma que. Stavróguin descreve sua triste sina existencial: “Toda situação ignominiosa demais. a morte do personagem não foi tão grandiosa quanto este planejava. o Mefistófeles dos Possessos.” (GIRARD. (.” (DOSTOIÉVSKI. Se ele acaba se matando é no desprezo por si próprio e no ódio de sua finitude. é o personagem que mais reflete as conseqüências da “educação liberal”. no fim das contas seu suicídio teve um quê de revoltado: “Mato-me para dar provas de minha insubordinação e de minha liberdade terrível e nova. duelo de armas.) Kiríllov é precipitado do ápice do orgulho às profundezas da vergonha. em Os Demônios. Dotado de uma grandeza satânica. (. Há dois trechos da obra em que a psique de Nikolai é mais bem explicitada. sua morte desencadeia um horror indizível sob o olhar do ser mais ignóbil. sem a tranqüilidade pretendida. ele põe fim à própria vida de forma desesperada. 2009: 306-307) Porém. (.e. Seu suicídio é um suicídio comum. Dentre seus feitos estão: brigas de bar. Após presenciar o parto do filho de Chátov. Chátov fora assassinado poucas horas antes desta última visita de Piotr a Kiríllov). num dos capítulos mais perturbadores da obra.. perante a morte. humilhação pública de um governador.) Kiríllov espera. Depois de muito hesitar diante da pressão de Vierkhoviénski para que se mate logo e assim cumpra o plano (a propósito.) Kiríllov quer adorar seu nada. deixando um rastro de destruição em todas as suas relações sociais.. o casamento secreto com uma mulher com problemas mentais (e em cujo assassinato foi cúmplice) .. Stavróguin confessa a um monge que molestou sexualmente e levou ao suicídio uma menina de 11 anos. como os demais homens. Ele quer adorar o que cada um de nós descobre de mais miserável e de mais humilhado na parte mais profunda de si mesmo. ele se porta como um cadáver ambulante. 2004: 600) De acordo com Girard: “Kiríllov fracassa. relações adúlteras. se desenrola o verdadeiro diálogo entre Nietzsche e Dostoiévski: “Como Zaratustra. Em sua infância e juventude ele teve como tutor Stiepan Trofímovitch (pai de Piotr).. Nikolai pode ser considerado como o mediador de todas as personagens de Os Demônios. ao se matar.” (GIRARD.René Girard também encontrou convergências entre a visão de mundo do personagem com a do filósofo alemão. 2009: 308) O segundo dos niilistas é Nikolai Stavróguin. Ou seja. Em vez da apoteose serena que ele cogita.. Kiríllov começa a sentir compaixão pela humanidade e perde um pouco de sua frieza megalomaníaca.) O poder absoluto almejado confunde-se.. (. ligar-se a si mesmo numa possessão vertiginosa. durante a conversa com o monge... portanto. no qual.

logo. O advogado que defende o assassino culto que por essa condição já é mais evoluído do que suas vítimas e que. Piotr descreve o “espectro niilista” que assola a população: “Ouça. Piotr Vierkhoviénski é o único dos três niilistas que não cometeu suicídio. pois conseguiu fugir para o exterior depois do assassinato de Chátov. Durante uma reunião da célula revolucionária que lidera. Os colegiais que matam um mujique para experimentar a sensação. e eles mesmos não sabem disso!” (DOSTOIÉVSKI. os escritores. torpe e principalmente cômica por que tive de passar em minha vida. Os administradores. e pode ser visto como um indício de que o niilismo russo 7 ... 2004: 409) Vierkhoviénski é o personagem que mais se aproxima do que Dostoiévski concebe como o “homem moderno” . Os jurados que absolvem criminosos a torto e a direito são dos nossos. oh.. de suas verdadeiras intenções. sendo também aquele que teve um “final feliz”. [mas] do êxtase que me vinha da angustiante consciência da baixeza.). Um exemplo disso é o fato de ter se casado com uma deficiente mental. sempre despertou em mim um extraordinário prazer ao lado de uma desmedida ira. tenho uma relação de todos eles: o professor de colégio que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas. não tem mais nenhum ruído interior. 2003: 244) Conquanto à primeira vista Stavróguin pareça movido apenas pela vontade diabólica de tudo corroer e destruir há também nele um desejo de martírio e auto-sacrifício. Ele alterna entre a aparência social de um sujeito culto e refinado e a revelação.. já é dos nossos. já é dos nossos. um horror. Embora continue vivo. (. para conseguir dinheiro. na qual afirma temer que sua morte auto-infligida mostre magnanimidade: “Experimentei uma grande devassidão e nela esgotei minhas forças.) Não era da vileza que eu gostava (.o que é um retrato crítico e não apologético.extremo. o que causou furor pelo fato de Nikolai ser de uma família nobre. O promotor que treme no tribunal por não ser suficientemente liberal é dos nossos.” (PONDÉ. afinal o autor vê a Modernidade como um processo de dissolução moral. os nossos são muitos.. Por sua vez. Piotr encarna a tentação do orgulho e a promessa de autonomia metafísica. mas Nikolai encarna de maneira mais intensa a tragédia existencial acarretada pela dissolução dos valores. não pode deixar de matar. já são dos nossos. é totalmente esvaziado de sentido.” (Ibidem: 651-652) Estas passagens tornam visível a angústia que marca Stavróguin: “ele é o mal que dissolveu sua personalidade por dentro. Seu niilismo é menos político que o de Piotr e menos filosófico que o de Kiríllov. 2004: 666) O outro momento é em sua carta de suicídio. mas não gostava e nem queria a devassidão. (..” (DOSTOIÉVSKI.) Em mim nunca pode haver indignação e vergonha. em círculos fechados. nem desespero.

Assim como vários niilistas reais do Século XIX. bajulada por Piotr. mais tarde. Ele faz da ausência de fundamento um suposto fundamento para a sua ação. no sentido da radicalização da busca de um ponto seguro dentro do eu. Thomas Mann afirmou 8 . a manipulação da governadora Yúlia (que.” (PONDÉ. porém. pois a verdade “é simplesmente um conceito feito para aprisionar as pessoas em crenças e deter sua autonomia. Desta maneira. “Psicólogo afiado. conte a terrível saga de Adrian Leverkühm.. 2003: 238). “Enquanto os chamados populistas depositavam suas esperanças na mobilização popular. Este delicado contexto político é o pano de fundo para que Serenus Zeitblom. Piotr é um relativista.” (PONDÉ. este personagem rejeita a mobilização de massa. cabe dizer que Vierkhoviénski percebe que a chave da revolução é o niilismo. não pode ser elevado à categoria de ponto seguro. durante a 2ª Guerra Mundial. capaz de manipular minúcias que visam uma ordem universal dependente de outros jovens inteligentes como ele.... teórico de uma cultura da liberdade política a nascer. 2010: 116) No âmbito epistemológico. exacerbação do Iluminismo. Para ele. não percebeu as movimentações do grupo revolucionário na cidade). acaba -se destruindo toda possibilidade de sentido. sociólogo que compreende a fragilidade das estruturas socialmente construídas. Como o eu. Vierkhoviénski personifica o homem de ação (ou “extraordinário”) que Dostoiévski já havia descrito antes nas Memórias do Subsolo e em Crime e Castigo: “O niilista busca o fundamento pelo fundamento para poder avançar. 2010: 166) Por fim. a ação coletiva. Piotr é um rapaz jovem e assaz inteligente.foi pouco mais que uma vertente elitista do socialismo.” (Ibidem: 256) O Trágico Destino de Leverkühn em Doutor Fausto Doutor Fausto começou a ser escrito em maio de 1943. seu melhor amigo.) Para além de um discurso político articulado ao redor da idéia do Nada a ser construído. os niilistas pregaram a precedência da transformação pessoal sobre a coletiva e. a história não existe. diante de um universo totalmente devastado de sentido. 2003: 246) O desprezo pelo pai Stiepan. “é buscar o estado em que. (. o uso político do suicídio de Kiríllov e o assassinato de Chátov são algumas das demonstrações de sua conduta perversa.” (DRUCKER. se necessário. narrador da obra. antes de mais nada. (. o processo de autoafirmação não resulta em nada.” (DRUCKER. seja por maldade ou por simplesmente compulsão para ir adiante. seja por burrice.) É possível sugerir que o niilismo significa. um anúncio de uma tendência claramente perversa como prática contra qualquer ordem possível. defendendo uma atuação baseada em vanguardas. “não é nada além da tradição que deve ser destruída”.

que me evidencia. uma atitude biográfica etérea. Mesmo morando nos Estados Unidos. como demonstram seus Discursos contra Hitler (1940-45). o autor alegou estar cauteloso quanto ao risco de. Doutor Fausto é um retrato artístico da decadência da intelectualidade alemã nos anos que antecederam a ascensão dos nacionalsocialistas ao poder. Mann continuou sua denúncia do totalitarismo. 2011). um tema de tonalidade de resto tão germânica .” (Ibidem: 20-21) Segundo Nivaldo Cordeiro. se me permitem expressar dessa forma. “contribuir para a criação de um novo mito germânico. o que se refletia até mesmo em sua timidez e incapacidade para cultivar relações sociais. quando a ascensão nacional-socialista estava em seus primórdios marcha e as potências do Ocidente ainda falavam em desarmamento voluntário. Thomas Mann foi um dos poucos que compreendeu o que estava em jogo. cursar Teologia. procurou “dissolver o tema do livro . com seu romance. Para evitá-lo. Pois. de lisonjear os alemães com seu aspecto „demoníaco‟”. mais profundo do que minha própria visão. o livro consiste nas memórias do professor humanista Serenus Zeitblom sobre o seu amigo Adrian Leverkühn. cujo alcance. conviveu com professores que só reforçaram suas tendências niilistas. (cf. transmitidos pela BBC.” (MANN. MANN. e buscá-las e revê-las provocou em mim uma comoção.que pretendia elaborar um romance de sua época. Elas demonstram desde o início uma interessante questão metafísica: Adrian se sentia alienado e inútil em relação a Deus. “disfarçado numa história de vida de artista altamente precária e pecaminosa. Mann pretendia traçar um paralelismo entre a embriaguez popular fascista e uma euforia artística danosa que desemboca num colapso. predestinou a novela a se tornar romance. Em A Gênese de Doutor Fausto (1949).crise. para não dizer um abalo emocional. desde sua origem. 2001: 35). sendo que os principais eram o teólogo liberal Kumpf e o negativista Schlepfuss: “A ingênua convivência que o professor Kumpf tinha com o Diabo era simples brincadeira em comparação com a realidade psicológica que Schelepfuss conferia à figura do Destruidor. antes de seguir a carreira musical.” ( Ibidem: 48-49) Doutor Fausto também foi a retomada de um projeto literário antigo: “Quarenta e dois anos haviam se passado desde que eu fizera anotações para um possível projeto de trabalho sobre um pacto entre um artista e o diabo. (cf. CORDEIRO.o máximo possível num contexto geral histórico e europeu. pois exilado da Alemanha. Nesse sentido. 2001: 29) Como já foi dito. personificação da traição a Deus. Na universidade. uma aura de sensação de vida inteira em torno desse núcleo temático vago e escasso. Este tormento religioso se refletiu na decisão de. já no começo. acolhia ele dialeticamente na esfera divina o escândalo do 9 .

a “conversa” entre Leverkühn e o diabo. O ser demoníaco.) Não somente vencerás as estorvadoras dificuldades dos tempos. 2011). teu nome será adorado pela rapaziada. os próprios tempos. ou seja. 1996: 133) Em meio à sua crise existencial. por sua vez. há uma cláusula no contrato: em troca de inspiração criativa. por ocorrer após o humanismo.. de um espírito orgulhoso e ameaçado de esterilidade. Tua vida deve ser frígida.pecado e o inferno no empíreo. que graças à tua loucura. 1996: 329) 10 .a última delas. isto é. ele se relaciona com uma prostituta e contrai sífilis. assim como aquele que dialogou com Ivan nos Irmãos Karamázov de Dostoiévski. Além disso. imprimirá o ritmo à marcha que conduz ao futuro. convite quase irresistível à violação. e a paródia como um niilismo aristocrático. a qual. após o refinamento burguês e qualquer tratamento de canal que se possa imaginar. CORDEIRO. a qualquer custo. GOLDMAN. comparada por Serenus a uma “Nona Sinfonia” (Beethoven) às avessas. A essência do pacto fáustico é o anti-amor ao próximo (cf. não. “Lamentação do Doutor Fausto” . também é possível encará-lo como a ânsia por eclosão. uma ode à melancolia. A propósito. o que seria uma expressão e confirmação do pacto. (.” (MANN. serviu de inspiração para sua composição final. elevando a perversidade à categoria de necessária e congênita correlação de santidade. parece sempre ecoar e expressar pensamentos do próprio Leverkühn. já não precisará enlouquecer. Adrian faz um “pacto” com o diabo para se libertar da inibição e tornar possível sua redenção artística. seu pequeno sobrinho Nepomuk. terás a audácia de uma barbárie duplamente bárbara. Para tal. relatada pelo próprio Adrian em um manuscrito encontrado anos depois por Serenus. e. Além disso. não tens o direito de amar pessoa alguma. consiste em um dos momentos mais sublimes de Doutor Fausto. várias pessoas amadas por Leverkühn morrem em circunstâncias trágicas . 1992: 242) O diabo concorda com Adrian no sentido de considerar a arte moderna como paródia. o romance nos leva a compreender o documento de Adrian como autorevelação.” (Ibidem: 337) Ao longo do romance. porque esquenta. ao invés de uma prova de um pacto "real" fornecido por uma fonte onisciente e objetiva. Porém. seria uma contínua tentação satânica.” (MANN. (cf. Adrian deve renunciar a amar: “O amor te fica proibido. portanto. a fase da Cultura e seu culto serão superados por ti. infla o ego de seu “parceiro comercial” ao mencionar as vantagens da genialidade artística que lhe fornecerá: “Tu serás um líder. Se por um lado o pacto pode ser visto como uma escapatória das dificuldades da crise da cultura européia. o acordo satânico feito por Leverkühn revela o problemático fundamento de sua Bildung (formação)..

desde tempos imemoriais. com recursos decentes. marido de Inês. uma amiga de Adrian e Serenus. Era „belo‟. Especialista na Renascença. e sim o arcaico. não se importando com as conseqüências morais (e políticas) dessa postura. inteiramente estético. ninguém experimentou. que poetas ousam manifestar. que já se haja realizado alguma obra interessante. de um modo cruel. Helmut faz constantes apologias ao ideal da “arte pela arte”. E „genuíno‟ ou „falso‟? Somos então trapaceiros? (. ocasionado concretamente pela sífilis. esta é a época em que já não é possível realizar uma obra de modo piedoso. sim. certamente cabe aos nossos tempos a culpa de que a Arte estagna. sem que seu autor tivesse aprendido a entender a existência de celerados e loucos? Que significa „mórbido‟ e „sadio‟? A vida nunca logrou dispensar o mórbido. afirmação da superioridade dos valores estéticos e do caráter autosuficiente da Arte) presente em Leverkühn é. Durante um sarau no qual foi lido um poema que exaltava a guerra e a conquista imperial (“Ó soldados! Entrego-vos.” (Ibidem: 320) O próprio círculo social de Leverkühn reforçou-lhe tais tendências.. para o saqueardes. Em suma. Sim.O esteticismo (isto é. naquele desbragado espírito exclusivo. que se tornou difícil e zomba de si mesma. eis como a plat éia reagiu: “Tudo isso era „belo‟ e tinha forte consciência de sê-lo. A Arte deixou de ser exeqüível sem a ajuda do Diabo e sem fogos infernas sob a panela. correto. meus caros companheiros. na sua miséria.” (Ibidem: 492) Mesmo em seu último discurso..” (Ibidem: 672) 11 . o autor e a obra gozavam de alta estima. Mas também entre os demais convidados. (. o mais absurdo esteticismo que jamais me foi dado presenciar. Pensas. segundo Cordeiro. Adrian continua acreditando piamente que vender a alma ao Diabo era inevitável para que ele se tornasse um gênio da Música: “.. o próprio Diabo não terá campo... A arte e o belo não podem ser sucedâneos para as verdades da alma e caem no vazio existencial inexoravelmente.) Onde nada existe. o primordial. frívolo. Além dos já citados professores de Teologia. o que. É escusado dizer que Helmut Institoris o apreciava grandemente.) O que nós propiciamos já não é o clássico. e nenhuma Vênus pálida produzirá coisa alguma que preste.. Um trecho do diálogo com o diabo revela a perigosa relação entre esteticismo e a apologia do crime e da morbidez: “O artista é irmão do criminoso e do demente. o mundo!”). o mais esdrúxulo. por acaso. à beira do colapso. que tudo se tornou por demais difícil e a pobre criatura de Deus já não percebe nenhuma saída. meu caro. mas simbolicamente pelo fim do pacto. apenas outro nome para o niilismo resultante do abandono a metafísica cristã. Um exemplo é o acadêmico Helmut Institoris... irresponsável. ele conviveu com artistas e intelectuais que também estavam neste Zeitgeist niilista.

do veneno da solidão.) é mesmo o que define a germanidade. (cf. foi suplantado por elementos reacionários e vitalistas. separado. Thomas Mann tenta reviver este ideal como uma alternativa para a crise e divisão da Alemanha e à sua perda de ideais estáveis. De forma alegórica. livrando-nos das amarras e do cárcere do feio (. por um lado. o abismo da anarquia e da 12 .. comecemos por um ponto de convergência: tanto Dostoiévski quanto Mann eram cristãos. É por isso que a vontade de poder e o avanço em direção ao "super-homem" (Übermensch)..” ( Ibidem: 418) É possível afirmar que esta é uma passagem autoral. a vida e destino de Nietzsche (o qual. são uma solução nietzscheana que Mann rejeita. Doutor Fausto é um romance anti-nietzscheano. no qual Nietzsche é forçado a ver e confessar seus erros. aliás. (cf. Serenus Zeitblom se opõe frontalmente ao cinismo esteticista do amigo. Mann liga o destino de Leverkühn com. Nietzsche e a Alemanha nazista seriam dois exemplos do malogro dessa tentativa. (Ibidem: 252) O que Mann está defendendo é o ideal de Humanidade que.. as grandiloqüentes óperas de Wagner e a filosofia vitalista de Friedrich Nietzsche são duas manifestações dessa tendência. por outro. empreendidos tanto pela Alemanha quanto por Leverkühn. pois a crítica de Thomas Mann ao niilismo reside nessa ressalva à tentadora fusão entre o culto ao belo e a vontade de poder. cabe lembrar. pois está divorciada do ideal de Humanidade. de maranhas neuróticas. a evolução gradual da Alemanha em direção ao nazismo e. Porém. aos seus pés. Ibidem: 232) O ortodoxo Dostoiévski e o humanista Mann Uma comparação entre dois autores que viveram em épocas e países diferentes certamente encontrará mais diferenças do que semelhanças. da Humanidade é um grande erro. ou seja. “O cristianismo de Dostoiévski é radical: é a religião „existencial‟ de um angustiado que vê aberto.Porém. 1992: 226) Sendo assim. (. de um provincialismo boçal. mostrando os riscos de uma postura anti-humanista: “Ver na estética um compartimento estreito..) O afã de abrir caminho.. GOLDMAN. também era sifilítico). um estado de alma ameaçado de quimeras. de silencioso satanismo. e suas críticas ao niilismo demonstram claramente este fundo religioso. vê o humanismo como uma síntese espiritual e uma tentativa de transcendência da sociedade burguesa e de seus oponentes da direita e esquerda. outrora parte integrante e pilar da tradição da Bildung. Com isso esperava mostrar que a tentativa de escapar da impotência através da adesão a ideais anti-sociais (como o esteticismo e o nazismo) fracassaria..

e a literatura é a única voz do povo. Faz-se mister destruir a Europa. Os outros. o que lhes vale a acusação de niilismo. a apostasia da Igreja romana.” (cf. o que lhes vale a acusação de obscurantistas. A relação que ambos traçam entre literatura e política também é diferente. esta figura tipicamente moderna (. enquanto Dostoiévski rejeita em bloco o pensamento ocidental. o rebelde contra Deus. mesmo o asiático. Mas o é contra nós. o escritor russo “é o profeta de todas as deificações do indivíduo que se sucedem desde o final do século XIX”. Para Mann. 1999: 168) 13 . foi um dos primeiros a alertar para os riscos do nacionalismo exacerbado que assolava a Alemanha. Sobre este contexto histórico. que glorificam a Europa e desejam a europeização integral da Rússia. Mann defende parte do cânone. eis o que Carpeaux tem a dizer: “A literatura russa do século XIX é profundamente política. ele condena as ambições prometéicas dos ocidentais e profetiza seu fracasso.danação eterna.). como no parlamento inglês.. CORDEIRO.” (Idem. É aquele que foi proibido de amar ao próximo. o dos „Ocidentais‟. “Para ele. os „eslavófilos‟.. nem mesmo cátedras livres. como já foi dito anteriormente. 2011: 2046) Já o escritor alemão era protestante. Um. sem fazê-lo cair no vazio existencial ou no cinismo esteticista. 1999: 169) Além disso. Dostoiévsk i também é revolucionário.” (CARPEAUX. que criou o homem fáustico.” (GIRARD. Existem aí. (. a verdadeira Bildung é aquela que forma plenamente o indivíduo. glorificam o passado nacional.” (CARPEAUX. em plena evolução política e social. O país não tem imprensa nem tribuna. 2009: 310) Por sua vez. não se furtou de criticar revolucionários e reacionários. Doutor Fausto representa a ruptura definitiva de seu autor com o esteticismo.. a sobre-humanidade nietzscheana não teria sido mais que um sonho subterrâneo. Thomas Mann. na qual ele se situa mais próximo dos últimos (com ressalvas). o pequeno Satã. ligando-o definitivamente ao humanismo democrático. e prega o domínio universal dos eslavos ortodoxos. O autor de Os Demônios “afirma a decadência do Ocidente. „o cemitério das artes e o foco das revoluções‟. 2011) Porém. é necessário esmagar as influências estrangeiras. ao mesmo tempo em que procurou preservar valores caros à cultura ocidental (quando perpassada pela filosofia moral em prol do amor e da dignidade). dois partidos opostos. Dostoiévski convive com a disputa entre ocidentalistas e eslavófilos.) A literatura torna-se uma tribuna. para isto é preciso primeiramente destruir as instituições estabelecidas.. mas criou um personagem-narrador (Zeitblom) católico e não poupou o luteranismo de certas críticas: “Thomas Mann reconhece que a raiz primeira da orgia de sangue que foram as guerras da primeira metade do século XX está na Reforma.

“O Artista e a Sociedade”.” (Ibidem: 170) Thomas Mann vê com mais cautela a relação entre arte e política.Fiódor Dostoiévski é apaixonadamente um escritor político. a segunda metade do século XIX. Nas palavras do próprio Mann. uma vez desencadeadas. na medida em que a dignidade humana também é um valor importante para ele. o autor de Os Demônios não tem uma opinião tão favorável sobre esta cosmovisão. seja de esquerda ou de direita. não fecha os olhos diante da terrível realidade dos camponeses russos. Dostoiévski tem um conservadorismo peculiar: embora seja czarista. o niilismo é a forma mais radical do humanismo. 2010: 185-188) Porém. Para Dostoiévski. como chegou a se definir num polêmico ensaio de 1918. na Europa e em seus satélites. embora o homem seja livre. com o debate entre Settembrini e Naphta. acreditar que. embora o moralizar político de um artista tenha um quê de cômico e fútil. segundo Claudia Drucker. Thomas. e a forte carga filosófica de suas obras dá um tom mais elevado para os debates ideológicos. isto é. e tenta encontrar soluções que não passem por uma adesão cega às idéias e práticas ocidentais. (cf. Já o havia feito com maestria em A Montanha Mágica (1924). 14 . um partidário da ortodoxia cristã russa) e Mann como um “humanista” (pois defende o legado cultural do Ocidente quando este valoriza a dignidade humana). DRUCKER. A diferença reside no fato de. procura incorporar questões político-ideológicas a seus romances sem ser panfletário. In: Ensaios. ele ser um pessimista antropológico. “O seu sonho de humanidade espiritualizada é o de uma humanidade emancipada das forças econômicas que. Sendo assim. 1988. São Paulo: Perspectiva. ao contrário de Mann. na medida em que este é matéria-prima do ímpeto calculador e da aposta na capacidade humana de erguer-se a partir de si mesmo. 4 Em termos gerais. não creio que seja possível considerar Dostoiévski como um anti-humanista. é uma época niilista porque sacrifica tudo em nome da organização. o moral e o político-social são uma unidade. A propósito. pois a liberdade humana está 4 Vide MANN. o problema da humanidade é indivisível: o estético. Dostoiévski pode ser rotulado como um “ortodoxo” (isto é. e a arte não pode estender a fria mão diabólica do niilismo à vida. o sofrimento é inevitável. tornariam inevitável a que da no abismo materialista. de ser o fundamento de si mesmo. Embora na época de Doutor Fausto já não seja mais um “apolítico”. Embora seja possível definilo como conservador. e o realizou novamente no romance fáustico.

mas não se sabe quando ele vai considerar terminado o trabalho de negação. (cf. A destruição é autorizada. mas não se abala diante da possibilidade de que seu projeto resulta apenas em destruição. “O fenômeno da dissolução dos valores. pois afirma que a verdade não pode ser “um conceito relativo e subjetivo que cada um pode manipular a seu bel-prazer. como uma preparação para um ordenamento social mais racional.” (RIEMEN. que sacrifica seu intelecto para solucionar a angústia espiritual.” (DRUCKER. A conclusão implícita de Dostoiévski: o niilismo não leva a nada além de sua repetição. Comecemos por Dostoiévski. 1999: 41) Kiríllov pretendia se suicidar para se tornar um homem-Deus. que seu espírito não pôde superar todas as inibições sem a ajuda de uma vontade formadora e sem um ato de absoluta prostituição. A verdade deve ser novamente a medida absoluta com que se mede a nossa dignidade humana. em cuja obra o cenário do niilismo se abre de par em par. KAUFMANN. 2010: 176) Thomas Mann compartilharia dessa crítica ao niilismo. com o pecado. No que tange especificamente à questão central deste artigo. que consistiria na tentativa contraditória de fundar o sentido sobre a falta e o sentido: A destruição pregada pelos niilistas é concebida como um estágio provisório. at é no crime e na perversão. com toda a amplidão e profundidade. portandose como uma “medusa solitária”. vide Os Irmãos Karamázov. (cf. 2003: 177) Além disso. podemos atribuir a Dostoiévski a descoberta de uma essência do niilismo. cabe ressaltar que Dostoiévski não poupa o cristianismo ortodoxo de críticas. O niilista declara ansiar por um fundamento novo e mais sólido.” (VOLPI. mas sua morte refletiu apenas o desespero de um homem que não via sentido na própria vida. A arte como produto de tal prostituição não é tanto uma questão de autodisciplina. descortina-se visivelmente em todas as suas nefastas conseqüências.misturada com o mal. pelo novo começo que ele entrevê. Vierkhoviénski alcançou seus objetivos puramente 15 . PONDÉ. 2011: 72) A trajetória de Adrian mostra. o que lhe acarreta uma “consciência infeliz” e uma resignação ao destino. vivido como uma crise que corrói a alma a russa. mas resultado do orgulho de Leverkühn. em princípio. em sua perspicácia niilista e total alienação do mundo. Stavróguin também encerrou com suicídio uma existência marcada por situações chocantes e sombrias. 1973: 214) Conclusão Cabe pronunciar algumas considerações finais sobre a comparação entre Doutor Fausto e Os Demônios.

2011) Por sua vez. a morte. confessa seus pecados à platéia. seu desfecho consiste mais em denúncia política do que em uma condescendência à la “o crime compensa”.” O pacto simbolizou o seu “orgulho intelectual e cegueira moral. a mesma descrença leva (. mas ao mesmo tempo se considerando herdeiro da 16 . mas também na aridez que ela emite. já velho. quando este. sobretudo.. (cf. levando uma cidade ao caos total em poucos dias. O autor russo possui muitas ressalvas em relação ao pensamento ocidental. desejava convencer..” (RIEMEN. do pensamento ilusório de que o homem pode libertar-se a si mesmo. E. delimitada. A morte como saída majestosa de uma grande tradição. desejava convencer o mundo. a proximidade do esteticismo e da barbárie como conseqüência da cultuação da arte. Zeitblom. Desejava convencer a Rússia inteira.. 2011: 77) Doutor Fausto também representa o fim e o enterro de uma era. Doutor Fausto consistiu na amarga história da vida do músico Adrian Leverkühn. KAUFMANN. Esta posição pessoal aparece na consciência de última hora de Leverkühn.) Vierkhoviénski a traçar seus planos mórbidos de arrasadora destruição. “Dostoiévski premeditara um final tamanhamente aterrador. o conjunto da desventurosa aventura finda por explicitar a multiplicidade de perspectivas diante da questão: se Stavróguin e Kiríllov abraçam fatidicamente o suicídio (e por razões diversas). embora o desfecho bélico já tenha sido prefigurado pelo “Apocalipse” de seu melhor amigo.destrutivos. a crise de uma época. a de seu amigo e a de sua época .. 1973: 220-221) A principal semelhança encontrada entre Mann e Dostoiévski foi a perspectiva cristã que adotam em suas críticas ao niilismo.. a crise na arte. não obstante sua intenção tão estreitamente definida.” (AQUINO. na pseudo-vida da paródia. a si mesmo. Desejava desenvolver uma crítica tão ferrenha que nenhuma ambigüidade doravante pudesse persistir quanto aos malefícios do processo de inumanidade então apenas em princípio. tecendo críticas às ambições fáusticas de pensadores como Lutero e Nietzsche. vendo na Modernidade um rastro de deificações do indivíduo e ambições ingênuas (e perigosas). E Thomas Mann? Ele não se permite a indulgência de voluptuosos sonhos de morte.. Já Mann procura fazer um acerto de contas com a tradição filosófica ocidental. O fim de tudo é experimentado por Serenus Zeitblom em 1945.e o que ele vê é. reverentemente ou não. a mentalidade niilista seria uma conseqüência lógica do humanismo. em seu último concerto. na qual seu amigo Serenus narrou “os altos e baixos da Alemanha. revê a própria vida. no entanto. A diferença central é a postura diante do Ocidente. no “niilismo aristocrático” em que as velhas formas são perpetuadas. porém.

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