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EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE TRIBUNAL FEDERAL

DO SUPREMO

O Supremo Tri unal

PROCURADOR-GERAL Federal, a!ui"ar

DA #$%O

REPÚBLICA, &I'(T#

com &(

fundamento no artigo 103, VI, da Constituição Federal, vem, perante esse Colendo I)CO)STIT*CIO)#+I&#&(, com pedido de medida cautelar, em face do &ecreto +egislativo n, -.., de /000, do Congresso )acional, por violação ao art1 /31, 2 3 o, da Constituição da 'ep3 lica1 2. O presente a!ui"amento atende solicitação da 4rocuradoria da 'ep3 lica no (stado do 4ar5, do Instituto Sociam iental, da #ssociação Civil 6reenpeace, do Centro dos &ireitos das 4opulaç7es da 'egião do Cara!5s e da Coordenação das Organi"aç7es Ind8genas da #ma"9nia :rasileira, autores das representaç7es 46' n, 11001000100./;0</000=>1 e 11001000100--30</000=/11

/ 3. O decreto legislativo impugnado possui o seguinte teor? “Art. 1o – É autorizado o Poder Executivo a implantar o Aproveitamento Hidroelétrico Belo Monte no trecho do Rio in!u" denominado “#olta $rande do in!u%" localizado no E&tado do Par'" a &er de&envolvido ap(& e&tudo& de via)ilidade técnica" econ*mica" am)iental e outro& +ue ,ul!ar nece&&'rio&. Art. -o – .& e&tudo& re/erido& no art. 1o de&te 0ecreto 1e!i&lativo dever2o a)ran!er" dentre outro&" o& &e!uinte&3 4 – E&tudo de 4mpacto Am)iental – E4A5 44 – Relat(rio de 4mpacto Am)iental – Rima5 444 – Avalia62o Am)iental 4nte!rada – AA4 da )acia do Rio in!u5 e 4# – e&tudo de natureza antropol(!ica" atinente 7& comunidade& ind8!ena& localizada& na 'rea &o) in/lu9ncia do empreendimento" devendo" no& termo& do : ;o do art. -;1 da <on&titui62o =ederal" &er ouvida& a& comunidade& a/etada&. Par'!ra/o >nico. .& e&tudo& re/erido& no caput de&te arti!o" com a participa62o do E&tado do Par'" em +ue &e localiza a hidroelétrica" dever2o &er ela)orado& na /orma da le!i&la62o aplic'vel 7 matéria. Art. ;o – .& e&tudo& citado& no art. 1o de&te 0ecreto 1e!i&lativo &er2o determinante& para via)ilizar o empreendimento e" &endo aprovado& pelo& (r!2o& competente&" permitem +ue o Poder Executivo adote a& medida& previ&ta& na le!i&la62o o),etivando a implanta62o do Aproveitamento Hidroelétrico Belo Monte. Art. ?o – E&te 0ecreto 1e!i&lativo entra em vi!or na data de &ua pu)lica62o.% 4. Como se pode constatar, o Congresso )acional, por meio do &ecreto +egislativo n, -.., de /000, autori"ou o 4oder (@ecutivo a implantar o #proveitamento AidroelBtrico :elo Conte, locali"ado em trecDo do 'io Eingu, no (stado do 4ar5, a ser desenvolvido apFs estudos de via ilidade pela Centrais (lBtricas :rasileiras S1 #1 G (letro r5s1

3 5. O decreto legislativo foi editado com ase no art1 H>, inciso EVI e no art1 /31, 2 3 o, da Constituição Federal, o Iual prescreve Iue o aproveitamento dos recursos D8dricos em terras ind8genas, inclu8dos os potenciais energBticos, sF podem ser efetivados com a autori"ação do Congresso )acional1 #ssim disp7e o art1 /31, 2 3o da Constituição? “Art. -;1 – @...A : ;o – . aproveitamento do& recur&o& h8drico&" inclu8do& o& potenciai& ener!ético&" a pe&+ui&a e a lavra da& ri+ueza& minerai& em terra& ind8!ena& &( podem &er e/etivado& com autoriza62o do <on!re&&o Bacional" ouvida& a& comunidade& a/etada&" /icandoClhe& a&&e!urada participa62o no& re&ultado& da lavra" na /orma da lei.% 6. #ssim, a autori"ação do Congresso )acional, por meio do &ecreto +egislativo n, -.., de /000, veio sanar v8cio e@istente no processo de implantação do #proveitamento AidrelBtrico :elo Conte no 'io Eingu1 O descumprimento do art1 /31, 2 3o, consta como causa de pedir de ação civil p3 lica a!ui"ada pelo CinistBrio 43 lico Federal em face da Centrais (lBtricas :rasileiras S1 #1 G (letro r5s e da Fundação de #mparo e &esenvolvimento da 4esIuisa G Fadesp, cu!a liminar foi concedida e mantida em todas as instJncias, inclusive perante o Supremo Tri unal Federal1 Segundo informa a 4rocuradoria da 'ep3 lica no 4ar5, a ação foi sentenciada procedente e encontra=se atualmente em grau de apelação no T'F G1a 'egião1 . O serve=se, ainda, Iue o art1 /31, 2 3o, da Constituição, tam Bm e@ige, como reIuisito de validade de IualIuer empreendimento de aproveitamento DidroelBtrico em terras ind8genas, Iue as comunidades afetadas se!am ouvidas previamente1 &essa forma, o Congresso )acional, pretendendo atender ao comando constitucional, determinou, por meio do art1 /o do &ecreto +egislativo -..</000, alBm dos estudos de via ilidade tBcnica, econ9mica e am iental, a reali"ação de estudo de nature"a antropolFgica, por meio do Iual serão devidamente ouvidas as comunidades ind8genas locali"adas na 5rea so influKncia do empreendimento1 !. )o entanto, essa não B a teleologia da norma constitucional do art1 /31, 2 3 o da Constituição da 'ep3 lica1 Luando essa norma e@ige a audiKncia das comunidades ind8genas afetadas, ela constitui um pressuposto da validade, ou, melDor di"endo, da prFpria constitucionalidade do decreto legislativo a ser editado com ase no art1 H>,

H inciso EVI1 # e@pressão Mouvidas as comunidades afetadasN B um comando normativo destinado ao Congresso )acional, Iue dever5 autori"ar o aproveitamento DidroelBtrico, assim como ao 4oder (@ecutivo, Iue ter5 a incum Kncia de reali"ar os estudos de via ilidade tBcnica e econ9mica e de impacto am iental1 ". 4ortanto, antes de aprovar o &ecreto n, -.., de /000, o Congresso )acional deveria ter ouvido as populaç7es afetadas G no caso, segundo informa a 4rocuradoria da 'ep3 lica no 4ar5, as etnias #rara, Ouruna, 4araPanã, EiPrin, Eipaia=Quruaia, QaRapF, #raSetB, entre outras1 (ssa B a interpretação adeIuada do art1 /31, 2 3o, da Constituição da 'ep3 lica, Iue leva em conta os princ8pio& da preval9ncia do intere&&e ind8!ena, da pre&erva62o de &ua& terra& assim como o princ8pio “in du)io pro natura% ou da precaução1 #$. # Constituição de 1>.., como nenDuma outra, demonstrou grande preocupação com as terras tradicionalmente ocupadas pelos povos ind8genas G as por eles Da itadas em car5ter permanente, as utili"adas para suas atividades produtivas, as imprescind8veis T preservação dos recursos am ientais necess5rios a seu em=estar e as necess5rias a sua reprodução f8sica e cultural, segundo seus usos, costumes e tradiç7es Uart1 /31, 2 1oV1 #ssim, declarou=as como inalien5veis e indispon8veis, assegurando a seus Da itantes o usufruto e@clusivo das riIue"as do solo, dos rios e dos lagos nelas e@istentes Uart1 /31, 2 HoV1 ##. (ssa preocupação tem uma ra"ão muito simples de ser? a terra tem um valor sagrado para os 8ndios, pois B nela Iue eles esta elecem sua so revivKncia f8sica e cultural1 # proteção das terras ind8genas e dos recursos naturais nelas encontrados torna=se, portanto, Iuestão nuclear e pressuposto indispens5vel para a garantia dos demais direitos constitucionais assegurados aos 8ndios1 O princ8pio Iue serve de diretri" para a interpretação do art1 /31 da Constituição, dessa forma, B o da preservação e prevalKncia dos interesses ind8genas so re suas terras1 #2. 4or isso, o legislador constituinte foi cuidadoso ao criar uma sBrie de garantias T preservação dessas terras1 (sta eleceu a imprescriti ilidade dos direitos dos 8ndios, suas comunidades e organi"aç7es so re suas respectivas terras Uart1 /31, 2 HoV, concedendo=lDes legitimidade para ingressar em !u8"o em defesa de seus direitos e interesses Uart1 /3/V1 #demais, prescreveu como nulos, e@tintos e inefica"es os atos Iue tenDam por o !eto a ocupação, o dom8nio e a posse das terras ind8genas ou a

0 e@ploração das riIue"as naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas e@istentes Uart1 /31, 2 ;oV1 #3. &entre essas garantias fundamentais destinadas T proteção das terras ind8genas e dos recursos naturais nelas encontrados, a mais importante B a Iue d5 densidade ao princ8pio da democracia participativa1 )esse sentido, a Constituição de 1>.. e@ige Iue o aproveitamento dos recursos D8dricos, inclu8dos os potenciais energBticos, a pesIuisa e a lavra das riIue"as minerais em terras ind8genas sF podem ser efetivados apFs a oitiva das comunidades ind8genas afetadas1 # consulta prBvia das populaç7es ind8genas B reIuisito constitucional indispens5vel para IualIuer empreendimento de e@ploração dos recursos D8dricos e das riIue"as minerais1 Somente apFs essa oitiva poder5 o Congresso )acional autori"ar, por meio de decreto legislativo, tais empreendimentos1 #4. # Constituição não di" e@pressamente como devem ser ouvidas as comunidades ind8genas afetadas1 4orBm, ao fi@ar a competKncia e@clusiva do Congresso )acional Uart1 H>, inciso EVIV para autori"ar, em terras ind8genas, a e@ploração e o aproveitamento de recursos D8dricos e a pesIuisa e a lavra de riIue"as minerais, parece esta elecer, da mesma forma, a competKncia dessa casa legislativa para ouvir as comunidades afetadas1 Ca er5 então ao Congresso )acional a reali"ação de audiKncias p3 licas com o o !etivo de consultar as populaç7es ind8genas interessadas1 # reali"ação de audiKncias p3 licas no prFprio parlamento nada mais B do Iue uma primeira fase do processo de aprovação do decreto legislativoW e um reIuisito de sua constitucionalidade1 #5. #ssim sendo, a ilação a Iue se cDega B de Iue a audiKncia das comunidades afetadas deve ser prBvia T autori"ação do Congresso )acional, e não ao contr5rio, como foi determinado pelo &ecreto +egislativo n, -..</0001 #6. O &ecreto +egislativo n, -..</000, portanto, viola o art1 /31, 2 3o, da Constituição, pois foi editado sem IualIuer tipo de consulta Ts populaç7es afetadas pela construção da AidrelBtrica :elo Conte1 # audiKncia das comunidades envolvidas foi postergada para o momento de reali"ação dos estudos de nature"a antropolFgica e de impacto am iental, em contrariedade ao Iue determina a Constituição da 'ep3 lica1 # . 'essalte=se, ainda, Iue o &ecreto n, -..</000, apesar de esta elecer a reali"ação do (I#<'IC# e de estudos de nature"a antropolFgica, não prevK a participação das comunidades ind8genas nos resultados do aproveitamento DidroelBtrico1

; #!. #tente=se tam Bm para o fato de Iue, conforme o 2 ;o do art1 /31, da Constituição, Msão nulos e e@tintos, não produ"indo efeitos !ur8dicos, os atos Iue tenDam por o !eto a ocupação, o dom8nio e a posse das terras a Iue se refere este artigo, ou a e@ploração das riIue"as naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas e@istentes, ressalvado relevante interesse p3 lico da *nião, &e!undo o +ue di&pu&er lei complementar, não gerando a nulidade e a e@tinção direito a indeni"ação ou a aç7es contra a *nião, salvo, na forma da lei, Iuanto Ts enfeitorias derivadas da ocupação de oa=fBN1 # lei complementar e@igida pela norma constitucional ainda não foi promulgada, o Iue invia ili"a IualIuer o ra ou estudo Iue tenDa por o !eto a e@ploração de recursos D8dricos em 5reas ind8genas, como analisa a 4rocuradoria da 'ep3 lica no 4ar51 #". #demais, B preciso enfati"ar Iue o 4ro!eto de &ecreto +egislativo n, 11-.0, de /000, foi modificado su stancialmente por emenda do Senado, sem Iue tenDa sido devolvido T apreciação da CJmara dos &eputados, o Iue o contamina com mais um v8cio de forma1 2$. #ssim, resta demonstrada a inconstitucionalidade do &ecreto +egislativo n, -..</000, o Iue consu stancia o /umu& )oni iuri& das alegaç7es e@pendidas1 O periculum in mora decorre da urgente necessidade de Iue se!a o stado o in8cio dos estudos de via ilidade tBcnica e econ9mica, de impacto am iental e de nature"a antropolFgica, previstos pelo decreto legislativo, e Iue darão ense!o T implantação definitiva do #proveitamento AidroelBtrico :elo Conte1 2#. &essa forma, presentes os reIuisitos e@igidos T concessão da medida cautelar, com efic5cia ex nunc, nos termos previstos no art1 10 da +ei n1X >1.;.<>> e no artigo 1-0 do 'egimento Interno do Supremo Tri unal Federal, pleiteia a suspensão ad cautelam do &ecreto +egislativo n, -.., de /000, por ofensa ao art1 /31, 2 3o, da Constituição Federal1 22. 'eIuer, por fim, Iue, colDidas as informaç7es necess5rias e ouvido o #dvogado= 6eral da *nião, a teor do Iue determina o 2 3X do art1 103 da Carta 4ol8tica, se!a determinada a a ertura de vista dos autos a esta 4rocuradoria=6eral da 'ep3 lica para manifestação, pedindo Iue, ao final, se!a !ulgado procedente o pedido, para declarar a inconstitucionalidade do &ecreto +egislativo n, -.., de /0001 23. 4ede deferimento1

:ras8lia, /; de agosto de /0001

A%&O%IO 'ER%A%DO BARRO( E (IL)A DE (OU*A PR.<DRA0.RC$ERA1 0A REPEB14<A
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