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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Procuradoria da República no Municpio de Al!a"ira
E#CELENT$SSIMO SEN%OR DO&TOR '&I( FEDERAL DA )ARA ÚNICA DE ALTA*
MIRA * ESTADO DO PAR+
O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelos Procuradores da Repú-
blica ao final assinados, vem, no exercício de suas funções constitucionais e legais – art.
129, ÌÌÌ e V, da Lei Maior, c/c art. 5º, ÌÌ, b e d e 6º, VÌÌ, a e b, da Lei Complementar n.º
75/93 e, ainda, os dispositivos da Lei n.º 7.347/85 – propor a presente
A-.O CI)IL PÚBLICA AMBIENTAL, co" pedido de li*
"inar,em face de
/0 IBAMA * INSTIT&TO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E
DOS REC&RSOS NAT&RAIS RENO)+)EIS 1, Pessoa jurídica de Direito Público Ìnter-
no, representada por sua Gerência-Executiva em Santarém, com endereço na Avenida
Tapajós, n°2267, Laguinho, Santarém/PA – CEP – 68040-0002 e
30 ELETRONORTE 1 CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO
BRASIL S4A, concessionária de serviços públicos de energia elétrica com sede e endere-
ço no SCN- Quadra 06, Conjunto A, Blocos B e C, Brasília – DF, inscrita no CNPJ sob o
n.º 00.357.038/0001-16.
/0 S&M+RIO
A presente Ação tem por objeto obrigação de não fazer, para obstar
o processo de licenciamento no ÌBAMA do empreendimento denominado Usina Hidrelétri-
Ministério Público Federal
ca de Belo Monte, no Rio Xingu; bem como o reconhecimento de nulidade do Decreto
Legislativo n.° 788/2005, do Congresso Nacional.
30 BRE)E %IST5RICO
No ano de 2001, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL ajuizou Ação
Civil Pública com pedido de liminar contra a ELETRONORTE e FADESP – Fundação de
Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa com o objeto de paralisar os estudos para a
construção da Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. A liminar foi concedida e mantida
em todas as instâncias, inclusive perante o Supremo Tribunal Federal. A ação foi senten-
ciada procedente e se encontra hoje em grau de apelação perante o TRF-1
a
Região.
Entre as causas de pedir estava a necessidade de autorização do
Congresso Nacional para que os dispendiosos estudos fossem realizados, após consulta
às comunidades afetadas, nos termos do art. 231, § 3
o
, da CF.
A título ilustrativo, o mapa abaixo, confeccionado pela própria ELE-
TRONORTE, demonstra as principais terras indígenas afetadas:
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60 CONTE#TO AT&AL
Com a promulgação do Decreto Legislativo n.° 788/2005, estaria sa-
nado um dos defeitos do processo de implantação da HÌDRELÉTRÌCA DE BELO MON-
TE, qual seja, a autorização do Congresso Nacional.
Ocorre que, em análise do processo legislativo que culminou com a
promulgação do ato guerreado, nota-se a existência de três graves vícios de formação
que se confundem com o mérito, a saber: i) desrespeito aos preceitos fundamentais des-
critos nos artigos 170, VÌ e art. 231, § 3
o
, ambos da CF por falta de consulta às comunida-
des afetadas; ii) desrespeito ao processo legislativo, pois houve modificação do projeto
no Senado sem retorno do mesmo à Câmara dos Deputados e; iii) ausência da lei com-
plementar dispondo sobre a forma de exploração dos recursos hídricos em área indíge-
na.
Diante desses vícios, o Procurador-Geral da República promoveu
Ação Direta de Ìnconstitucionalidade (doc. 01). O Supre"o Tribunal Federal, por 7eu
!urno, con7iderou 8ue, e"bora Decre!o Le9i7la!i:o, o a!o ; de e<ei!o concre!o, n=o
podendo 7er con!e7!ado pela :ia concen!rada do con!role de con7!i!ucionalidade0
Fora" :encido7 o rela!or e "ai7 3 "ini7!ro7 >doc0 ?3@0
Quase ao mesmo tempo, a ELETRONORTE solicitou ao ÌBAMA o li-
cenciamento da mega-obra, cujo processo encontra-se na fase de elaboração do Termo
de Referëncia.
Já estão marcadas para os próximos dias 30 e 31 de março de
2006, audiências públicas nas cidades de Altamira e Vitória do Xingu. Tudo em decorrên-
cia da expedição ilegal do infausto Decreto Legislativo.
Vejamos os vícios do Decreto Legislativo n. 788/2005, articulada-
mente.
A0 DESRESPEITO AOS PRECEITOS F&NDAMENTAIS DESCRITOS NO ARTIBO 36/,
C 6
D
DA CF POR FALTA DE CONS&LTA ES COM&NIDADES AFETADAS
3
Ministério Público Federal
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, os povos indí-
genas obtiveram o reconhecimento de seus direitos originários sobre as terras que tradi-
cionalmente ocupam (art. 231). Em conseqüência, tornou-se obrigatória a consulta a es-
ses povos em casos de aproveitamento de recursos hídricos ou de exploração mineral
em suas terras. A Carta Maior também reconheceu aos índios sua organização social,
costumes, línguas e tradições. Em outras palavras, a lei suprema delineou as bases polí-
ticas em que se devem efetivar as relações entre os diferentes povos indígenas e o Esta-
do brasileiro.
É o que se depreende pela leitura do artigo 231,§ 3
D
da Constituição
Federal, in :erbi7F
“O aproveitamento dos recursos hídricos, incluído os potenciais
energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indí-
genas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Naci-
onal, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada parti-
cipação nos resultados da lavra, na forma da lei” (g.n.).
A CR/88 projetou, assim, para o campo jurídico, normas referentes
ao reconhecimento da existência dos povos indígenas e definiu as pré-condições para a
sua reprodução e continuidade. Ao reconhecer os direitos originários dos povos indíge-
nas sobre as terras tradicionalmente ocupadas, a Lei Maior incorporou a tese da existên-
cia de relações jurídicas entre os índios e essas terras anteriores à formação do Estado.
Não se pode pensar que tais inovações foram conseqüências da
magnanimidade dos constituintes em favor dos índios. E" :erdade, en8uan!o "inoria7
;!nica7, o7 po:o7 ind9ena7 e7!=o pro!e9ido7 por di<eren!e7 con:enGHe7 in!ernaci*
onai70 O Bra7il ; 7i9na!Irio de :Iria7 dela7, co"o a Con:enG=o /?J, da OIT, a 8ual
7e orien!a pela per7pec!i:a in!e9racioni7!a, be" co"o a Con:enG=o /KL 7obre Po*
:o7 Ind9ena7 e Tribai7, a77inada e" /LML e ra!i<icada pelo Bra7il e" /L4?K43??3,
a!ra:;7 do Decre!o Le9i7la!i:o n0 /A343??30 E7!a con:enG=o re:ela o n!ido propN*
7i!o de 9aran!ir o re7pei!o O di:er7idade ;!nica0
Por ser um Tratado Ìnternacional que cuida de direitos fundamentais
relativos aos povos indígenas e tribais, deve ser considerado, no mínimo, como vetor de
interpretação das normas constitucionais correlatas. Neste sentido é posicionamento do
Ministro Sepúl:eda Per!ence:
4
Ministério Público Federal
P !onvenção "#$ da %&' reforça a arguição de inconstitucionalidade(
ainda quando não se queira comprometer o 'ribunal com a tese da hie-
rarquia constitucional dos tratados sobre direitos fundamentais ratifica-
dos antes da !onstituição, o m)nimo a conferir-lhe * o valor de reforço +
interpretação do te,to constitucional que sirva melhor + sua efetividade(
não * de presumir, em !onstituição tão ciosa de proteção dos direitos fun-
damentais quanto a nossa, a ruptura com as convenções internacio-
nais ue se inspiram na mesma preocupação!"#$%& '!()*-+C, ,el!-
+in! -ep.lveda /ertence, %0 '12342345!
Como derivação lógica desse entendimento o princípio da consulta
prévia previsto na referida convenção deve ser, no mínimo, um suporte para as interpre-
tações que emergem do § 3
D
do art. 231 da Constituição Federal. Eis o dispositivo:
Ar!i9o K
D
/0 Ao aplicar a7 di7po7iGHe7 da pre7en!e con:enG=o, o7 9o:erno7 de*
:er=oF
a@ con7ul!ar o7 po:o7 in!ere77ado7, "edian!e procedi"en!o7 apropri*
ado7 e, par!icular"en!e, a!ra:;7 de 7ua7 in7!i!uiGHe7 repre7en!a!i:a7,
cada :eQ 8ue 7eRa" pre:i7!a7 "edida7 le9i7la!i:a7 ou ad"ini7!ra!i*
:a7 7u7ce!:ei7 de a<e!I*lo7 dire!a"en!e0
No emprendimento em tela é manifesto o impacto sobre as popula-
ções indígenas e, conseqüentemente emergem, com solar clareza, o desrespeito à
Constituição e às normas internacionais. É nesse sentido a lição do Mestre ambientalista
PAULO AFFONSO LEME MACHADO
1
, ao tratar do aproveitamento dos potenciais hidre-
létricos:
“6special atenção h7 de ter o órgão p.8lico encarregado da outorga
para ue a Constituição 9ederal se:a fielmente aplicada! ;r<s artigos
da Carta +aior do /aís devem ser especificamente cumpridos( "-) os
espaços especialmente protegidos, como parques nacionais, estaduais e
municipais, reservas biol.gicas, /reas de proteção ambiental, estaç0es
ecol.gicas, somente podem ser alterados o suprimidos mediante lei( art.
##1, 2 "-, &&&)3 #-) o aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos
os potenciais energéticos, a pesuisa e a lavra das riuezas minerais
em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do
Congresso Nacional, ouvidas as Comunidades afetadas, ficando-lhes
assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei #art!
=4', > 4?)3 4-) os s)tios detentores de reminisc5ncias hist.ricas dos anti-
gos quilombos foram tombados pela !onstituição 6ederal (art.#"$, 2 1-) e,
portanto, o tombamento não pode ser modificado nem por lei, nem por de-
creto.” (d.n)
1
7ireito mbiental 8rasileiro, 7ª ed. São Paulo: Malheiros, 1999, p. 382.
5
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Em que pese o descumprimento, o prNprio Bo:erno Federal RI
ad"i!iu e" 7eu PLANO 3?/S 8ue o e"preendi"en!o e" di7cu77=o re8uer o cu"*
pri"en!o de eTi9Uncia7 con7!i!ucionai70 Sobre o assunto, é de suma relevância trazer
à colação os estudos feitos pelos cientistas: BERTHA BECKER, JOSÉ ANTÔNÌO S. DO
NASCÌMENTO e ROSA CARMÌNA DE S. COUTO
2
:
“% pr.prio te,to do /lano =3'* reconhece que entre as muitas interfer5n-
cias com as populaç0es locais que a transmissão desses grandes blocos
de energia ir/ ocasionar, a questão da população ind)gena se reveste de
grande import9ncia. O documento aponta para * casos onde os em-
preendimentos estarão su:eitos a restrições constitucionais. 'ais em-
preendimentos são as @sinas Aidrelétricas Belo +onte, !achoeira :or-
teira, !ana 8rava, ;i- :aran/ e <erra =uebrada. ;odos estes empreen-
dimentos causarão interfer<ncias em 7reas indígenas, razão pela
ual estão su:eitos Cs restrições constitucionais! $ população indí-
gena a ser direta ou indiretamente afetada pela construção das hidre-
létricas nestas 7reas é de aproDimadamente )333 indivíduos¨ (fls. 120,
125 e 144).(d.n)
A0/0 Do7 i"pac!o7 a 7ere" eTperi"en!ado7 pela7 populaGHe7 ind9ena7
Sem muito esforço, observa-se o quanto será intenso o impacto só-
cio-ambiental-cultural que a construção da UHE BELO MONTE trará às diversas popula-
ções indígenas residentes ao longo do Rio Xingu, em especial à etnia JURUNA, da T. Ì.
PAQUÌÇAMBA.
Com a interrupção do curso do rio, essas comunidades terão inúme-
ros complicadores, tais como a inviabilidade de locomoção, principalmente nos períodos
de seca do rio; a diminuição e provável extinção dos peixes (principal fonte alimentar),
além da proliferação de diversas doenças que, se não forem controladas, podem levar a
um processo de dizimação do grupo.
Esses impactos, desde a infausta concepção da UHE KARARAÔ
pela ELETRONORTE há uma década atrás, já vinham sendo delineados no chamado LÌ-
VRO VERDE, elaborado pela empreendedora há uma década atrás, como se constata a
seguir:
“(...) a pesquisa efetuada em conv5nio com a 6>?&, inventariou um total
de ".@"A )ndios localizados na Bolta Crande do Dingu, na & 8acaE/, na
ldeia 'rincheira, em ltamira, no beiradão DinguF&ririF!uru/ e na & !u-
ru/.
%esse total cerca de 4EE indivíduos serão diretamente afetados pela
formação do reservatório! (...)
população ind)gena dessa /rea soma 4AA pessoas, agregadas em A#
grupos familiares e em $" fam)lias nucleares. 7este total, '14 pertencem
ao grupo 0uruna, GH pertencem ao grupo DipaIa, @$ ao Crupo !uruIa,
@$ ao Crupo rara do Dingu e @# ao grupo JaIap.”.¨
2
Organização: Sônia Barbosa Magalhães, Rosyan Caldas Brito, Edna Ramos de Castro. Knergia na mazLnia, Bol .&&. Belém, Museu
Paraense Emílio Goeldi/ Universidade Federal do Pará/ Associação das Universidades Amazônicas. 1996, p. 810.
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Ministério Público Federal
Essa situação gerou, à época, grande revolta em tais comunidades
indígenas, as quais relutaram de todas as formas contra a construção da então UHE KA-
RARAÔ. Tal resistência deu ensejo à cena que correu o mundo. A índia TU-ÌRA apontou
seu facão para o rosto do Presidente da ELETRONORTE, JOSÉ ANTÔNÌO MUNÌZ, que,
por coincid5ncia, é a mesma pessoa que dirige a estatal e tenta, mais uma vez, retomar o
projeto de barramento do Rio Xingu.
E nem se diga que o novo projeto da UHE BELO MONTE veio justa-
mente para eliminar ou minimizar os impactos previstos para a UHE KARARAÔ, como
tem afirmado o presidente da empreendedora. Não é a simples diminuição da área a ser
inundada, ou a criação de dois canais de adução, que farão com que as águas cheguem
na Volta Grande do Xingu com o mesmo volume e com a mesma quantidade de peixes
se não houvesse essa interferência.
Os JURUNA, principal povo indígena a ser sacrificado pelos impac-
tos gerados pela obra em tela, estão localizados à jusante do possível empreendimento e
dependem fundamentalmente das águas do Xingu para sobreviverem. Eles sabem que,
com o baixíssimo nível d'água, após o represamento, terão sérias dificuldades de tráfego,
além do pescado não resistir ao calor forte de águas tão baixas. A estagnação das águas
aumentará, também, o número de pragas, como ocorreu em Tucuruí, gerando, com cer-
teza, sérios riscos sanitários e a proliferação de doenças como a malária naquela região.
Em estudo elaborado pelo Engenheiro e Professor RENATO LUÌZ
LEME LOPES, intitulado M&7NKOP'N&!< ? QRS?& T O&UVK< 7% :<<7% K
:KN<:K!'&B< :N % 6>'>N%, há um alerta para os impactos socio-ambientais de
uma UHE à jusante da barragem, exatamente onde está localizada a T.Ì. PAQUÌÇAMBA:
PMudanGa do re9i"e da7 :aQHe72
"udanGa da 8ualidade da I9ua2
al!eraG=o da co"po7iG=o da <auna a8uI!ica2
reduG=o da <er!ilidade na!ural da7 :IrQea72
ero7=o da7 "ar9en7¨.
Quer pelo próprio reconhecimento da ELETRONORTE (Oivro Ber-
de), quer pelos dados científicos e conhecimento dos povos indígenas, a construção da
UHE BELO MONTE necessitará do aproveitamento de recursos hídricos de Terras Ìndí-
genas, sem esquecer os danos imensuráveis aos povos da floresta.
Urge reconhecer, por fim, que o conceito de terra indígena
compreende não só a terra indígena propriamente dita, como suas adjacências (ex. rios),
posto que indispensáveis à sobrevivência do grupo étnico. Trata-se do instituto jurídico
7
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chamado ÌNDÌGENATO. Não se vislumbra aí apenas uma questão de direito patrimonial,
mas também um problema de ordem cultural.
Compartilha também desse entendimento o Mestre ÌSMAEL
MARÌNHO FALCÃO
6
:
“(..)não * apenas ind)gena a terra onde se encontra edificada a casa, a
maloca ou a taba ind)gena, como não * apenas ind)gena a terra onde se
encontra a roça do )ndio. ?ão. $ posse indígena é mais ampla, e ter7
ue o8edecer aos usos, costumes e tradições tri8ais, vale dizer o
.rgão federal de assist5ncia ao )ndio, para poder afirmar a posse ind)gena
sobre determinado trato de terra, primeiro que tudo, ter/ que mandar
proceder ao levantamento destes usos, costumes e tradiç0es tribais a fim
de coletar elementos f/ticos capazes de mostrar essa posse ind)gena no
solo, e ser7 de posse indígena toda a 7rea ue sirva ao índio ou ao
grupo indígena para caça, para pesca, para coleta de frutos naturais,
como auela utilizada com roças, roçados, cemitério, ha8itação,
realização de cultos tri8ais etc!, h78itos ue são índios e ue, como
tais, terão ue ser conservados para preservação da su8sist<ncia do
próprio grupo tri8al!
$ posse indígena, pois, em síntese, se eDerce so8re toda a 7rea
necess7ria C realização não somente das atividades economicamente
.teis ao grupo tri8al, como so8re auela ue lhe é propícia C
realização dos seus cultos religiosos" (d.n.)!
A030Da nece77idade de Oi!i:a da7 PopulaGHe7 Ind9ena7 para ediG=o de Decre!o
Le9i7la!i:o pelo Con9re77o Nacional
Em que pese a obrigação de ouvir as comunidades afetadas – que
no caso do empreendimento UHE BELO MONTE tem-se Arara, Juruna, Parakanã, Xikrin,
Xipaia-Kuruaia, Kayapó, Araweté, entre outras etnias indígenas afetadas
4
–, o Congresso
Nacional não o fez. Ìsso é provado pela ficha de consulta de tramitação da proposição e
notas taquigráficas das sessões da Câmara dos Deputados e do Senado Federal que
discutiram e aprovaram o projeto (doc. 3).
Ao revés, o ato legislativo, em seu art. 2
o
, após autorizar os estudos,
"delega¨ sua exclusiva atribuição ao Poder Executivo:
"Ar!0 3
o
0 O7 e7!udo7 re<erido7 no ar!0 /D de7!e Decre!o de:er=o abran*
9er den!re ou!ro7 o 7e9uin!eF
3
Gilmar Ferreira Mendes. 7om)nio da >nião sobre as 'erras &nd)genas T % :arque ?acional do Dingu, , Brasília: Ministério Público
Federal, 1988, p. 58.
4
Pontes Jr, Felício e Beltrão, Jane Felipe, &n Dingu, 8arragem e ?aç0es &nd)genas, artigo publicado no livro
'enotã-m0. lertas sobre as conseqW5ncias dos proEetos hidrel*tricos no rio Dingu, organizado por Oswaldo Sevá Filho e
editado por Glenn Switkes - São Paulo: Ìnternacional Rivers Network, 2005. pp. 75/76.
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Ministério Público Federal
I 1 E7!udo de I"pac!o A"bien!al * EIA2
000
III 1 E7!udo de na!ureQa an!ropolN9ica, a!inen!e7 O7 co"unidade7 in*
d9ena7 localiQada7 na Irea 7ob in<luUncia do e"preendi"en!o, de*
:endo, no7 !er"o7 do C 6D do ar!0 36/ da Con7!i!uiG=o Federal, 7er
ou:ida7 a7 co"unidade7 a<e!ada7V
O ponto nodal aqui é saber se a consulta às comunidades afetadas
é atribuição do Congresso Nacional, ou se poderia ser delegado por este ao empreende-
dor da obra, ou seja, ao Poder Executivo.
Um dos primeiros livros sobre o tema, logo após a promulgação da
Constituição Federal de 1988, foi %s 7ireitos &nd)genas e a !onstituição, coletânea de ar-
tigos. Nessa obra, a d. publicista JULÌANA SANTÌLLÌ, com fulcro em DALMO DALLARÌ,
assim comenta o dispositivo constitucional em estudo
5
:
“... !erto * que o intuito do constituinte, ao determinar que seEam Xouvidas
as comunidades afetadasY, foi assegurar a participação das mesmas
na definição de pro:etos econFmicos a serem desenvolvidos em
suas terras, e não criar um mero entrave burocr/tico + obtenção de auto-
rização mineral. ssim, o !ongresso ?acional, ao decidir se autoriza ou
não um determinado proEeto miner/rio, dever/ sempre levar em conside-
ração o posicionamento da comunidade ind)gena em relação ao mesmo, e
saber o quanto de tal decisão ir/ afet/-la. ?os dizeres de 7almo 7allari(
XNão é pura e simplesmente ouvir para matar a curiosidade, ou para
ter-se uma informação relevante! Não! G ouvir para condicionar a de-
cisão! O legislador não pode tomar decisão sem conhecer, neste
caso, os efeitos dessa decisão. 6le é o8rigado a ouvir. ?ão * apenas
uma recomendação. P, na verdade, um condicionamento para o e,erc)cio
de legislar. <e elas (comunidades ind)genas) demonstrarem que ser/ tão
violento o impacto (da mineração ou da construção de hidrel*trica), ser/
tão agressivo que pode significar a morte de pessoas ou a morte da cultu-
ra, cria-se um obst/culo intranspon)vel + concessão da autorização” (&nfor-
me ;ur)dico da !omissão :r.-Zndio, no &&, n- H a "4, abril a agosto de
"HH@)”
5
Núcleo de Direitos Ìndígenas e Sérgio Antônio Frabris Editor, Porto Alegre, 1993, p. 149.
9
Ministério Público Federal
Na mesma esteira é a posição de CELSO RÌBEÌRO BASTOS e
ÌVES GANDRA MARTÌNS:
“% primeiro desses direitos * a e,ploração dos recursos mencionados s.
poder ser autorizada pelo !ongresso ?acional, o que vale dizer, as duas
casas do :arlamento devem manifestar-se a respeito.
% segundo aspecto * que as comunidades ind)genas devem ser ouvidas,
pois a e,ploração poder/ afet/-las.
% constituinte preferiu utilizar o ver8o HouvirI, o ue vale dizer, a oiti-
va de tais comunidades o8:etiva apenas permitir ao Congresso Naci-
onal os argumentos, em caso de oposição ao pro:eto pretendido.
s comunidades ind)genas não t5m, todavia, o poder de veto. <e forem
contr/rias + e,ploração, mas se o !ongresso ?acional for favor/vel, h/ de
prevalecer a opinião deste sobre a opinião das comunidades.
P de se entender, todavia, que se tal oposição decorrer de argumentos
ue mostram ue a comunidade ser7 eDtinta, a autorização poder7
ser tida por inconstitucional, em face da violação do princípio da pre-
servação conformada no art! =4'.”
$
Ademais, a oitiva prévia das comunidades indígenas representa
uma expressa consagração daquilo que CANOTIL%O chama de "direito à inclusividade":
[?o campo dos direitos fundamentais e,istem dois grupos diferentes(".di-
reitos dos indiv)duos pertencentes +s minorias3#.direitos da minorias pro-
priamente ditas. &N%&J&%@O 6 K,@/O e K,@/O2&N%&JL%@O surgem
estreitamente relacionados. !omo pessoas, não podem reivindicar outra
coisa se não a do tratamento como igual quanto aos direitos fundamen-
tais. Knquanto grupo, p0e-se o problema dos direitos coletivos especiais
dada a sua identidade e forte sentimento de pertença e partilha(...).[
G
Nada foi observado pelo Congresso Nacional. Nenhuma audiência
pública, nenhuma viagem de membros ao local da hidrelétrica, nenhum papel... nada que
pudesse expressar a opinião de pelo menos uma comunidade afetada.
6
!oment/rio + !onstituiçao do 8rasil. São Paulo: Saraiva, 1988, v. 8, p. 1072.
7
7ireito !onstitucional e teoria da !onstituição, 3ª edição, Lisboa, Almedina, p. 363.
10
Ministério Público Federal
A CF/88, quando formulou a exigência de prévia oitiva das comuni-
dades para exploração de recursos hídricos, não determinou somente um procedimento
formal, mas uma garantia substancial de participação e ÌNCLUSÃO dos indígenas no de-
bate e na tomada de decisões políticas do Estado brasileiro, quando estas puderem atin-
gir os seus direitos fundamentais (igualdade e propriedade), a partir de uma perspectiva
étnica. A forma de se dar vazão à manifestação efetiva e inclusiva das comunidades é a
oitiva prévia, pois somente esta é capaz de influenciar a decisão do órgão legislativo na-
cional.
AliI7, e" anIli7e da7 no!a7 !a8ui9rI<ica7 da 7e77=o do Senado
Federal 8ue apro:ou a propo7iG=o, a al9un7 7enadore7 n=o pa77ou de7apercebida
a curio7a pre77a na 7ua apro:aG=o 8ue <eQ co" 8ue a7 co"unidade7 a<e!ada7 n=o
<o77e" ou:ida7, e" <la9ran!e a<ron!a ao princpio con7!i!ucional da par!icipaG=o,
!a"b;" con7a9rado no ca"po do Direi!o A"bien!alF
MO -r! N@&O O;PJ&O #/+%B-/$5 ... \nica observação que quero acres-
centar no meu aparte * a seguinte( estou na !asa h/ mais de sete anos, e
h/ proEetos que estão aqui desde que cheguei e não saem das comiss0es,
não andam. <ão proEetos de v/rios para não dizer de todos os senadores.
K esse proEeto, por incr)vel que pareça, foi apresentado no dia ] de Eulho,
na semana passada! 9az uatro dias ue esse pro:eto foi aprovado na
CQmara e vamos aprov7-lo aui no -enado ho:e! 6u nunca vi issoR
+anifesto apenas minha admiração!!! Ku queria encaminhar desde a
oportunidade que tive de encaminhar a urg5ncia, mas queria saber o moti-
vo de tanta urg5ncia. &sso não bate^... Kssa hist.ria de que 8elo Qonte vai
resolver o problema do apagão... 6ssa o8ra é para dez anos, como dis-
se o /residente 0osé -arneS, ou para uinze ou vinte anos! 6ntão, o
motivo não é o apagão! 6u gostaria apenas de sa8er T e ue alguem
me eDplicasse como T se houve um pro:eto mais r7pido, mais relQm-
pago do ue esse na história do Congresso Nacional!!!;emos de fa-
zer de forma, não digo correta, mas transparente! Não é possível, em
uma sessão como a de ho:e, chegar aui de p7ra-uedas o pro:eto, e
temos de vot7-lo ho:e! /or ue tem ue ser ho:eU 6m uatro diasR G
recorde mundial! Com certeza esse pro:eto vai para Kuinness
BooV!!!"
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Ministério Público Federal
O mesmo Senador, que, padoxalmente, votou a favor da proposição,
assim chega ao cerne da questão:
"6 eu ia me esuecendo dos índios, é verdade! Os índios são muito
mais importantes, como disse a -enadora Aeloísa Aelena! 6les t<m
ue ser ouvidos, HcheiradosI! ;emos de conversar com os índios! fi-
nal de contas, eles são os donos. 'emos de agir de forma a que todos
n.s tenhamos condiç0es de votar com tranqWilidade, sem pressa, esses
proEetos rel9mpagos. Nunca vi isso, sinceramenteR ;rata-se de um pro-
:eto 8alaW vem e passa e ninguém v<! Quito obrigado, <r. :residente”
(doc. A).
No mesmo sentido, e na mesma sessão de votação e aprovação do
projeto no Senado, foi o pronunciamento da Senadora %elo7a %elena >P*SOL*AL@ que
votou contra a proposição por falta de oitiva das comunidades afetadas:
M... eu acho que a autorização de um proEeto como esse, discutida am-
plamente, democraticamente por meio de audi<ncias p.8licas, ela
constrói um novo marco nas relações com a comunidade indígena
local!!! =uando conversamos com cada uma representação de entidade
ind)gena, vemos que cada uma tem uma posição diferenciada sobre o
fato. Kntão, eu acho que superaríamos esse o8st7culo se pudéssemos
fazer audi<ncias p.8licas aui, independentemente de ualuer audi-
<ncia p.8lica ue ser7 feita na construção dos termos de refer<ncia,
no impacto am8iental!!!" (idem).

Portanto, o projeto rel9mpago ocultava com a pressa sua inconstitu-
cionalidade por não ouvir as comunidades afetadas.
Esses fatos chamaram a atenção da imprensa nacional. A Revista
ÉPOCA, em sua edição de 18 de julho passado, publica matéria de uma página da jorna-
lista ELÌANE BRUM, intitulada "Apro:aG=o apre77ada 1 a polU"ica Widrel;!rica de
Belo Mon!e ; :o!ada no Con9re77o 7ob pro!e7!o de ndio7 e a"bien!ali7!a7¨. Na re-
portagem é mencionado o tempo recorde de sua aprovação (menos de 15 dias), bem
como a discrepância entre os números do potencial energético: para o Senado //0???
12
Ministério Público Federal
"e9aXa!!7; para pesquisadores da UNÌCAMP apenas /06SK "e9aXa!!7, o que se mais
em baixo (doc. 05)
8
.
Diante do exposto, não há outra conclu7=oF o Decre!o Le9i7la!i:o
nD JMM43??S <eriu a Con7!i!uiG=o da República >C 6D, do ar!0 36/@ ao n=o con7ul!ar a7
co"unidade7 a<e!ada7 an!e7 de 7ua pro"ul9aG=o0
S0 ATENTADO AO DE)IDO PROCESSO LEBISLATI)O 1 MODIFICA-.O DA PROPO*
SI-.O NO SENADO SEM RETORNO E CYMARA DOS DEP&TADOS
Como se não bastasse a flagrante inconstitucionalidade material aci-
ma exposta, o Decreto Legislativo nº 788/2005 padece também de irregularidade formal.
Com efeito, o texto original foi aprovado na Câmara dos Deputados
sem qualquer alteração. Ao chegar ao Senado Federal, porém, houve modificação do pa-
rágrafo único do art. 2º.
O texto original, aprovado na Câmara dos Deputados, dizia:
PO7 e7!udo7 re<erenciado7 no caput de:er=o 7er elaborado7 na <or*
"a da le9i7laG=o aplicI:el0V
Já o texto final, promulgado após aprovação do Senado, recebeu a
seguinte redação:
"Os estudos referidos no caput deste artigo, co" a par!icipaG=o do E7!a*
do do ParI, e" 8ue 7e localiQa a Widrel;!rica, deverão ser elaborados
na forma da legislação aplicável¨ (g.n.).
É evidente que a emenda aprovada pelo Senado é de ndole "odi*
<ica!i:a. Ela exige a participação do Estado do Pará nos estudos, pressuposto que não
estava previsto no texto original, aprovado pela Câmara dos Deputados.
8
Para melhor compreensão dos estudos que demonstram a inviabilidade econmica e ambiental da !"# $elo %onte&
'unta(se a esta peti)ão e*emplar do livro +",-+.(%-/ - livro 0 de conhecimento da "1"+2-,-2+" desde o ano
passado/ Por0m& at0 ho'e& embora tenho sido dito a uma dos procuradores da 2ep3blica que os dados seriam replicados&
tal não ocorreu& nem pela imprensa& nem por o45cio& em em qualquer revista de en6enharia/
13
Ministério Público Federal
Em se tratando de emenda modificativa, há necessidade de retorno
dos autos à casa legislativa de origem para sua aprovação, como preceitua o art. 123, do
Regimento Ìnterno do Câmara dos Deputados:
PAr!0 /360 A7 e"enda7 do Senado a proRe!o7 ori9inIrio7 da CZ"ara
7er=o di7!ribuda7, Run!a"en!e co" e7!e7, O7 Co"i77He7 co"pe!en!e7
para opinar 7obre a7 "a!;ria7 de 8ue !ra!a"0V
Nada disso foi observado na incomum tramitação legislativa.
É oportuno transcrever as notas taquigráficas do autor da emenda
que modificou o texto aprovado na Câmara, Senador JOSÉ SARNEY. Apesar de dizer ao
final que se trata apenas de emenda de redação, e não de emenda modificativa, o r. par-
lamentar, num primeiro momento reconhece a necessidade de retorno do projeto à Câ-
mara dos Deputados:
“... Qas como a localização est/ na curva do Nio Dingu, no Kstado do
:ar/, colocar)amos no 7ecreto o Kstado do :ar/, sem preEu)zo da audi5n-
cia de outros Kstados, pois eles vão ser ouvidos, pois eles estão dentro do
estudo da bacia.
$ssim, eu faria uma modificação! ,ece8eria a emenda, mesmo ue
com ela tenhamos de devolver C CQmara dos %eputados".
Não foi o que aconteceu. A proposição, mesmo modificada no Sena-
do, não retornou à Câmara dos Deputados.
K0 A&S[NCIA DA LEI COMPLEMENTAR DISPONDO SOBRE A FORMA DE E#PLO*
RA-.O DOS REC&RSOS %$DRICOS EM +REA IND$BENA
Há ainda uma outro argumento a ser considerado, trata-se da previ-
são do § 6º, do art. 231, o qual impede a exploração dos rios existentes em áreas indíge-
nas, ressalvado o relevante interesse público da União, definido em lei complementar:
“<ão nulos e eDtintos, não produzindo efeitos Eur)dicos, os atos ue te-
nham por o8:eto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se
14
Ministério Público Federal
refere este artigo, ou a eDploração das riquezas naturais do solo, dos
rios e dos lagos nelas e,istentes, ressalvado relevante interesse p.8li-
co da @nião, segundo o ue dispuser lei complementar, não gerando
a nulidade e a e,tinção direito a indenização ou a aç0es contra a >nião,
salvo, na forma da lei, quanto +s benfeitorias derivadas da ocupação de
boa-f*.” (d.n)
A lei complementar exigida pela Constituição da República ainda
não foi promulgada. Ìsso inviabiliza qualquer obra ou estudo que tenha por objeto a ex-
ploração de recursos hídricos em áreas indígenas.
Diante dessa visão, se não houver uma análise teleológica dos §§ 3º
e 6º do art. 231 da CR/88, estes serão conduzidos à inaplicabilidade no que se refere aos
recursos hídricos em geral.
Como não se pode admitir norma constitucional desprovida de efei-
tos, impõe-se concluir que são atingidos pela disciplina de ambos os dispositivos, os rios
que, margeando as áreas indígenas, sejam indispensáveis às atividades produtivas da
comunidade e/ou sejam portadores de significativas referências culturais, como se extrai
do art. 231,§ 1º, CR:
“<ão terras tradicionalmente ocupadas pelos )ndios as por eles habitadas
em car/ter permanente, as utilizadas para as suas atividades produtivas,
as imprescind)veis + preservação dos recursos ambientais necess/rios a
seu bem estar e as necess/rias a sua reprodução f)sica e cultural, segun-
do seus usos, costumes e tradiç0es.”
Para melhor elucidar a questão é válido transcrever trecho do estu-
do realizado pelo sociólogo ROBERTO A. O. SANTOS
9
:
“Craças + raiz hist.rico-origin/ria de sua posse, as terras dos )ndios estão-
lhes afetadas permanentemente (art. #4", par/grafo segundo), dispondo
eles de um “usufruto eDclusivo das riuezas do solo, dos rios e dos la-
gos nelas e,istentes”. !om o fim Eur)dico de proteger a posse ind)gena
permanente, o Kstado brasileiro estatuiu que são 8ens da @nião as ter-
9
Organização: Sônia Barbosa Magalhães, Rosyan Caldas Brito, Edna Ramos de Castro. Knergia na mazLnia, Bol. & Belém, Museu
Paraense Emílio Goeldi/ Universidade Federal do Pará/ Associação das Universidades Amazônicas. 1996, 214
15
Ministério Público Federal
ras tradicionalmente ocupadas pelos índios, o ue incluiu o solo,
su8solo, 7guas superficiais e 7guas su8terrQneas (!6F]], art. #@, item
D&).
Por fim, cabe pontuar que o Congresso Nacional editou o inconstitu-
cional Decreto Legislativo em comento autorizando Estudo de Ìmpacto Ambiental, Relató-
rio de Ìmpacto Ambiental, Avaliação Ambiental Ìntegrada e outros, para impor a realiza-
ção do empreendimento em tela, mas em nenhum momento dispôs sobre o retorno às
comunidades indígenas atingidas das vantagens financeiras a serem auferidas com a re-
alização do empreendimento.
J0 DA EFETI)A-.O INCONSTIT&CIONAL DO PROCESSO DE LICENCIAMENTO
AMBIENTAL
Malgrado as argumentações despendidas que relatam a evidente
afronta aos ditames constitucionais, o IBAMA empreende medidas preparatórias para
elaboração do Estudo de Ìmpacto Ambiental e da conseqüente concessão do licencia-
mento ambiental almejado pela Ele!ronor!e. Especificamente, estão previstas para os
dias 30 e 31 de março de 2006, nas cidades de Altamira e Vitória do Xingu, reuniões
para elaboração do Termo de Referência do Estudo de Ìmpacto Ambiental. Neste ponto,
resta apontar dois graves vícios presentes nestas reuniões: Em primeiro lugar, a ausên-
cia de suporte constitucional para a realização dos estudos, uma vez que não houve a oi-
tiva prévia das populações indígenas envolvidas e em segundo lugar, a celeridade combi-
nada com ausência de ampla divulgação à sociedade e, pasmem, au7Uncia de co"uni*
caG=o ou con7ul!a O7 populaGHe7 ind9ena7 en:ol:ida70
A efetivação destas medidas aponta para a impossibilidade de con-
cessão de efeitos jurídicos ao Decreto Legislativo n. 788/2005 sob pena de pena de per-
petuação da vitanda afronta aos ditames constitucionais. A Construção da Usina Hidrelé-
trica de Belo Monte nas condições jurídicas atuais equivale à edificação de u" "onu*
"en!o ao De7re7pei!o O Con7!i!uiG=o0 Frise-se que a condução do processo sem a
constitucional oitiva prévia das populações indígenas afetadas pode igualmente respon-
sabilizar o Governo Brasileiro perante à comunidade internacional pelo desrespeito aos
mandamentos previstos na Convenção 169 da Organização Ìnternacional do Trabalho.
16
Ministério Público Federal
E7!a7 9ra:e7 con7e8\Uncia7 de"anda" a pre7enGa en;r9ica e
c;lere do Poder 'udiciIrio0 Poder e7!e 8ue li:re de paiTHe7 "o"en!Znea7 8ue <lu!u*
a" ao 7abor de in!ere77e7 pol!ico7 e econ]"ico7 a77e9ure a perenidade da 7o*
berania da Con7!i!uiG=o0 N=o 7obeRa a<ir"ar 8ue a pre7en!e pre!en7=o n=o 7e a<i9u*
ra de7arraQoada, n=o 7e bu7ca o i"pedi"en!o 7ec!Irio do Ppro9re77o da a"aQ]*
niaV , co"o !=o propalado pelo7 de7en:ol:i"en!i7!a7, "a7 o 7i"ple7 re7pei!o O
Con7!i!uiG=o0 Ne7!e :e!or ; o 7e"pre pre7en!e en7ina"en!o de ^onrad %e77e 8ue
no7 apon!a 8ual 7oluG=o !o"ar no con<li!o en!re a <ruiG=o de aparen!e7 bene<cio7 e
a a<ron!a O Con7!i!uiG=oF
“'odos os interesses moment9neos _ ainda quando realizados _ não lo-
gram compensar o incalcul/vel ganho resultante do comprovado respeito
+ !onstituição, sobretudo naquelas situaç0es em que a sua observ9ncia
revela-se incLmoda. !omo anotado por `alter 8urcahardt, auilo ue é
identificado como vontade da ConstituiçãoMdeve ser honestamente
preservado, mesmo ue, para isso, tenhamos de renunciar alguns
8enefícios, ou até a algumas vantagens :ustas! Xuem se mostra dis-
posto a sacrificar um interesse em favor da preservação de um prin-
cípio constitucional, fortalece o respeito C Constituição e garante um
8em da vida indispens7vel C ess<ncia do 6stado, mormente ao 6sta-
do democr7tico"! quele, que, ao contr/rio, não se disp0e a esse sacrif)-
cio, “malbarata, pouco a pouco, um capital que significa muito mais do que
todas as vantagens angariadas, e que, desperdiçado, não mais ser/ recu-
perado”
"@
.
M0 CONCL&S.O

À luz de uma interpretação principiológica do Texto Constitucional,
mormente dos arts. 49, XVÌ e 231, § 3º, tanto a autorização quanto à oitiva das comuni-
dades indígenas estão na esfera de atribuições exclusivas – daí porque indelegáveis – do
Congresso Nacional.
É a primeira vez que o Congresso Nacional promulga Decreto Le-
gislativo autorizando o início de estudos de viabilidade para a construção de hidrelétrica
10
#"77"& 8onrad 9 :or)a ,ormativa da ;onstitui)ão/ +radu)ão de <ilmar :erreira %endes/ Porto 9le6re= 79:"&
1991/
17
Ministério Público Federal
que afete povos indígenas. Vale dizer, é a primeira vez que o Parlamento Nacional exer-
ce a atribuição consignada no § 3º do art. 231 da Constituição Federal.
E, de conformidade com os dados do Conselho Ìndigenista Missio-
nário – CÌMÌ, estão planejadas 14 usinas hidrelétricas no Brasil que afetam comunidades
indígenas, além da UHE de Belo Monte.
11
O precedente que se cria aqui com a aprova-
ção do projeto sem a consulta às comunidades afetadas é gravíssimo e, portanto, precisa
ser reparado. Por derradeiro, resta salientar que estudos independentes comprovam a in-
viabilidade sócio-econômica do empreendimento. Com efeito, antes do relâmpago pro-
cesso legislativo se iniciar, havia sido editado o livro TENOTÃ-MO, cujo exemplar encon-
tra-se em anexo
12
.
L0 PEDIDOS
Em razão do exposto, estando presentes todos os requisitos legal-
mente exigidos para o deferimento antecipado do provimento jurisdicional, o Mini7!;rio
Público Federal pugna pela:
Su7!aG=o li"inar de 8ual8uer procedi"en!o e"preeendido pelo
IBAMA para conduG=o do licencia"en!o a"bien!al da &7ina %idrel;!rica de Belo
Mon!e, e7peci<ica"en!e da7 audiUncia7 pública7 pro9ra"ada7 para o7 dia7 6? e 6/
de "arGo de 3??K na7 cidade7 de Al!a"ira e )i!Nria do #in9u2
Fixação de "ul!a diIria de R_/??0???,?? >ce" "il reai7@ 1 as-
treintes * e" ca7o de de7cu"pri"en!o da ordem pelo IBAMA2
A ci!aG=o dos requeridos para, querendo, contestar a presente
ação, sob pena de revelia;
A con<ir"aG=o, por sentença de mérito, de todos os e<ei!o7 da de*
ci7=o2
11
Como exemplo podemos citar, respectivamente, dentre as UHE's planejadas e os povos indígenas afetados: Serra Quebrada/TO,
Apinagé e Krikati; Cachoeira Porteira/PA, Wai-Wai, Tiryó, Xipaia-Kuruaia, Wapixana; Cana Brava/GO, Avá-Canoeiro; Chuvisco/PA,
Wai-Wai. cf. Conselho Ìndigenista Missionário – Cimi, in %utros 1@@. !onstruindo uma nova hist.ria. São Paulo: Salesiana, 2001. p.
71.
12
Estudos constantes do livro demonstram que ao invés dos //0??? "e9aXa!!7 de potencial energético divulgado pela União e pelo
Legislativo, a UHE Belo Monte produzirá apenas /06SK "e9aXa!!7.
O livro é de conhecimento da ELETRONORTE desde o ano passado. Porém, até hoje, embora tenho sido dito a um dos pro-
curadores da República signatário desta que os dados seriam replicados, !al n=o ocorreu, ne" pela i"pren7a, ne" por o<cio, e"
e" 8ual8uer re:i7!a de en9enWaria0
Em estando certo o relato de pesquisadores da UNÌCAMP e da UFPA, até aqui não contestados, o Brasil estaria jogandofo-
ra milhões reais em um projeto fadado ao insucesso.
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CondenaG=o do IBAMA em obrigação de não-fazer, consistente na
proibição de adotar atos administrativos referentes ao licenciamento ambiental da Usina
Hidrelétrica de Belo Monte;
A di7pen7a do pa9a"en!o da7 cu7!a7, emolumentos e outros en-
cargos, em vista do disposto no artigo 18 da Lei n°7.347/85; e
A in!i"aG=o da &ni=o;
Por oportuno, esclarece-se que eventual produto da aplicação das
multas diárias por descumprimento de liminar seja revertido ao fundo fluído a que se refe-
re o art. 13 da Lei nº7.347/85.
Dá-se à causa, para efeitos meramente fiscais, o valor de R$
1.000.000,00 (um milhão de reais).

MARCO ANTONIO DELFINO DE ALMEIDA FELÍCIO PONTES JR.
Procurador da República Procurador da República
Rol de Docu"en!o7 >cNpia7 repro9rI<ica7@F
. 1 Ação Direta de Ìnconstitucionalidade proposta pelo Procurador-Geral da Repúbli-
ca n. 3573;
. 2 Movimentação Processual da Ação Direta de Ìnconstitucionalidade proposta pelo
Procurador-Geral da República n. 3573;
. 3 Notas taquigráficas das sessões da Câmara dos Deputados que discutiram e
aprovaram o Decreto Legislativo n. 788/2005
. 4 Notas taquigráficas das sessões do Senado Federal que discutiram e aprovaram
o Decreto Legislativo n. 788/2005
. 5 Aprovação Apressada. Matéria Publicada na Revista Época de 18 de julho de
2005. p.91.
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