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Universidade do Minho Escola de Direito

Direito Administrativo Ficha de trabalho VIII – Proposta de Resolução

I

«JOÃO, membro da Assembleia de Freguesia de Oliveira do Hospital, foi notificado de uma decisão do Secretário de Estado da Administração Local, na qual lhe é declarada a perda de mandato, por ter faltado a três sessões consecutivas daquele órgão, duas ordinárias e uma extraordinária. Neste contexto, João pretendendo recorrer aos tribunais administrativos daquela decisão, vem invocar o seguinte:

1. Que o ato padece de um vício de incompetência absoluta, uma vez que tal decisão só poderia ter sido proferida pelo Presidente da Assembleia de Freguesa, uma vez que só ele tem poderes para o efeito. E tanto assim é que só o presidente pode convocar os respetivos membros para as sessões do órgão, através de carta registada com aviso de receção, sendo certo que João nunca compareceu às sessões e nem sequer justificou a sua ausência.

2. Que a decisão é nula, pois o Secretário de Estado não tem competência para o efeito. E, ainda que tivesse existido uma delegação de competências do Ministro da Tutela, aquela delegação nunca foi publicada».

(Fonseca, Isabel Celeste, Direito da Organização Administrativa, Almedina, págs. 181 e 182, 2012).

Em relação ao argumento 1):

º 1 da CRP e no artigo 3. existe uma verdadeira descentralização administrativa de base territorial. As autarquias locais são p. Tutela do Estado sobre as AL a.º. A tutela do Estado sobre as AL’s consta da Carta Europeia da AL (art. 4.c. As relações intersubjetivas são aquelas que ligam órgãos de duas pessoas coletivas distintas.º 75/2013. b. da CRP e da Lei n.ps. mas também a outras pessoas coletivas.º da carta).s. concretizada pelas autarquias locais. 2. com o propósito de assegurar a legalidade ou mérito da atuação da entidade tutelada.1. A existência de AL decorre hoje do princípio da descentralização. Conceito: A relação de tutela entre duas pessoas coletivas públicas determina que os atos praticados pelo órgão da pessoa coletiva pública tutelada se encontrem sujeitos a interferência de um órgão da entidade tutelar.º 27/96 de 1 de Agosto. correspondentes aos agregados de residentes em diversas circunscrições do território nacional e que asseguram a prossecução de interesses comuns resultantes da proximidade geográfica. O município é a autarquia local que visa a prossecução dos interesses próprios da população residente na circunscrição concelhia. A freguesia é a autarquia local que visa a prossecução dos interesses próprios da população residente na circunscrição paroquial. A CRP e esta Lei preveem: .º e ss da CRP. São órgãos da freguesia a junta e a assembleia de freguesia. 8. O regime das AL consta da Lei 169/99 e do anexo I da Lei n. Em Portugal.º da Carta Europeia da Autonomia Local. Estas pressupõem a existência de um sistema descentralizado em que a função administrativa não está apenas confiada ao Estado.c. de base territorial. nos termos do artigo 237. mas também de outras p. b. n. O princípio da descentralização administrativa determina que os interesses públicos que a atividade administrativa visa satisfazer num determinado país não estejam apenas a cargo do Estado.p. 3. São órgãos do Município a Assembleia Municipal e a Câmara Municipal. consagrado no artigo 6. a. do princípio da organização democrática do Estado e do princípio da autonomia local. Como a tutela «não se presume» ela está prevista na lei. mediante a atividade de órgãos próprios representativos das respetivas populações.

. quando em número relevante. O exercício desta forma de tutela realiza-se através de inspeções.º da Lei da tutela).º da CRP e artigo 3. Quanto ao modo de exercício ou conteúdo: sobre as AL o governo apenas pode exercer a tutela sob a forma inspetiva (artigo 242.º da Lei 27/96. do Planeamento. Do anexo I da Lei 75/2013). inquéritos e sindicâncias (art. Cabe ao Presidente da AF convocar as sessões ordinárias e extraordinárias e participar ao representante do MP competente as faltas injustificadas dos membros da assembleia. A tutela de mérito esvaziaria a autonomia local. Neste sentido.º da Lei 169/99). a Assembleia tem quatro sessões anuais: abril. junho. direto e secreto dos cidadãos recenseados na respetiva área. Quanto ao fim: Nos termos do artigo 242. e da Administração do território (art. destina-se a verificar o cumprimento da lei por parte dos órgãos autárquicos. para efeitos legais (art.i. segundo o sistema de representação proporcional (art. 2 .º da Lei 27/96). podendo reunir extraordinariamente (art. a tutela do Estado sobre as AL é apenas uma tutela de legalidade. a tutela do Estado consiste na verificação do cumprimento das leis e regulamentos por parte dos órgãos autárquicos e dos serviços das autarquias (art. convocadas por edital ou por carta com aviso de receção. n. 11º. é eleita por sufrágio universal.º da Lei 26/96).º. sindicâncias e inquéritos. 14. Resolução do caso: a. isto é. A tutela inspetiva compete ao Governo e é assegurada de forma articulada pelo Ministro das Finanças e pelo Ministro responsável do Equipamento. 5.º. A tutela inspetiva realiza-se através de «serviços inspetivos» vocacionados para realizar inspeções.º da Lei 26/96). b) e h) do anexo I da Lei 75/2013).º 1. 6. 3. n. A Assembleia de freguesia é o órgão deliberativo da freguesia (art. 4.º do anexo I da lei 75/2013). setembro e novembro ou dezembro. 5. al. ii.º 1 da CRP e artigos 2.

º 3 da CRP. al. A prática de ilegalidades no âmbito da gestão das Autarquias Locais (AL) pode determinar. conforme dispõe o art. 7. incorrem em perda de mandato os membros do órgão que. Nos termos do art. d. quem decide sobre a aplicação desta sanção? A faculdade de tutela sancionatória é toda ela jurisdicionalizada no que respeita à perda de mandato e à dissolução de órgãos autárquicos. 19. uma vez que o membro do órgão não compareceu a três sessões seguidas. al. n. Só não haverá lugar a perda de mandato. havendo ações ou omissões ilegais graves no âmbito da gestão das AL – e há como vimos – tal pode acarretar a dissolução dos órgãos ou a perda de mandato se tiverem sido praticadas individualmente por membros do órgão: assim o determina a lei da tutela no art.º 1.º da lei da tutela).º. a notificação dos visados para. A aplicação de sanções está excluída dos poderes de tutela do Estado sobre as AL. no prazo de 30 dias. A tutela administrativa constitucionalmente consagrada não abarca a tutela. apresentarem. 10. 7. 10. perante a existência de uma omissão ilegal grave. se verifiquem causas que justifiquem o facto ou excluam a culpa dos agentes.b. h) da LAL. o governo declarar a perda de mandato? c. sem motivo justificado. 8. a) da lei da tutela). e não tendo apresentado justificação válida (nos termos do art.º da lei da Tutela). revogatória. com já se referiu. n.º da lei da tutela. por . quando. então. a) da Lei da Tutela. conforme tais ações ou omissões tenham sido praticadas pelo órgão individualmente ou pelos seus membros (art. quando em nº relevante para efeitos legais. a perda de mandato dos membros do órgão ou a dissolução do órgão autárquico. o membro do Governo deve determinar. tendo sido devidamente convocado. poderia.º. 8. nos termos da Lei da Tutela. Tal como prevê o artigo 242.º. se detetarem situações suscetíveis de fundamentar a perda de mandato dos titulares dos órgãos. nos termos do art. n. Não havendo notícia de tais factos. [Se no âmbito de uma ação inspetiva. substitutiva e sancionatória. não compareçam a três sessões seguidas.º 1 al.º. Caberia ao Presidente da AF participar ao representante do MP competente as faltas injustificadas dos membros da Assembleia. previamente. nos termos gerais do direito. Devendo haver lugar a perda de mandato do membro da AF (art.

n.º. juntando os documentos que considerem relevantes (art. n. pois quem tem competência para aplicar a sanção são os Tribunais Administrativos e não o Presidente da AF.º. Sucede. 3.º 2 do CPA).º n.º 1 a) e art. e. DL 86. Em conclusão: a aplicação da sanção pelo membro do governo padece de um vício de usurpação de poder e não de incompetência absoluta. 11. os órgãos não podem renunciar aos seus poderes.º. Assim podemos falar em competência delegada que é aquela que resulta da delegação de poderes. republicado pelo DL 119/2013).escrito. salvo quando a lei o permitir. n. n. pois. 8. o MP ou outros que demonstrem ter interesse direto em demandar (art. O Secretário de Estado não tem competências próprias mas apenas delegadas (art. As competências são o conjunto de poderes funcionais que a lei confere a um órgão para a prossecução das atribuições de uma pessoa coletiva pública.º. no prazo máximo de sessenta dias. n. Em relação ao argumento II: Este argumento relaciona-se com o tema da competência e sua delegação. É aos tribunais administrativos de círculo que cabe aplicar a sanção correspondente (art. deverá o membro do governo. designadamente. n. uma vez que tem o dever funcional de propor as referidas ações. É. ou decorrido o prazo para esse efeito. A delegação de poderes decorre do princípio da desconcentração de competências.º 1 da lei da tutela).º do CPA é irrenunciável ou inalienável. E quem tem legitimidade para propor as ações urgentes de perda de mandato são.º 2 al. nulo o contrato ou ato de renúncia ao exercício de uma competência (artigo 29. as alegações tidas por convenientes. não tem liberdade para deixar de as propor (n. que a lei permite a figura da delegação de competências (artigo 29. A expressão desconcentração de competências significa um sistema em .º. 6. remeter o relatório ao representante do MP]. contudo.ºA/2011. A competência de acordo com o artigo 29.º 3).º. a) do CPA.º 4 da lei da tutela). sendo que o MP. nem transmiti-los. sendo nula nos termos do artigo 133.º 2 da lei da tutela). sendo que apresentadas as alegações.º. 11.º 1 do CPA). São os Tribunais Administrativos quem tem competência para conhecer das ações correspondentes. Com efeito.

37. Este tipo de sistema de administração desconcentrada distingue-se do sistema de concentração de competências ou de administração concentrada em que o superior hierárquico mais elevado é o único órgão competente para tomar decisões.º 2 CPA). Para que haja uma delegação de competências é necessário que se verifiquem três elementos essenciais: existência de uma lei de habilitação. n. existência de dois órgãos . logo o pretenso . é a lei que reparte as competências entre o superior e o subalterno. Com efeito. O regime geral da delegação de competências. sujeitos à direção e supervisão daquele. sendo que aqui falamos em desconcentração originária. O ato de delegação de competências deve respeitar os requisitos de validade (art. permite. definir-se como o ato pelo qual um órgão da AP. os quais permanecem.º. contudo.º do CPA). No caso falta o requisito de eficácia do ato de delegação de competências. n.o delegante (aquele que pode delegar) e o delegado (aquele a quem se pode delegar). e o ato de delegação propriamente dito que concretiza e traduz a vontade do delegante.º 2 do CPA). ficando os subalternos limitados às tarefas de preparação e execução das decisões daquele. normalmente competente para decidir em determinada matéria. da validade e da eficácia do ato de delegação de competências) e de um requisito específico (menção da qualidade de delegado – art. sendo que aqui falamos em desconcentração derivada. vem previsto nos artigos 35º a 41º do CPA. requisitos especiais (decorrem da existência. n. 38. que outro órgão ou agente pratique atos administrativos sobre a mesma matéria. A desconcentração de competências opera de duas formas distintas: pode resultar da lei. O ato de delegação para ser eficaz está sujeito a publicação no Diário da República. sem prejuízo de lei especial. ou seja. 37. assim. A falta de publicidade da delegação gera a ineficácia da delegação de poderes ficando os atos do pretenso delegado inquinados pelo vício de incompetência. ou tratandose da administração local. o ato praticado ao abrigo da delegação (no caso a declaração de perda de mandato) para ser válido depende de requisitos genéricos (= aos demais atos administrativos). ou então.que o poder decisório se reparte entre superior e um ou outros vários órgãos subalternos.º 1 do CPA) e de eficácia previstos na lei (art. que são os elementos subjetivos da delegação. pode resultar de um ato específico de transferência de competência do superior para o subalterno. em boletim da autarquia ou afixado nos lugares de estilo quando tal boletim não exista (artigo 37.º. de acordo com a lei.º. através da delegação de competências. A delegação de poderes ou de competências pode.

136. de um vício de usurpação de poderes e não de incompetência. mas sim dos Tribunais. Na verdade. o ato do secretário padece. Logo não poderia o Ministro delegar uma competência que não é sua. como vimos no ponto 1) este ato (a declaração da perda de mandato) não é da competência do Ministro.º do CPA (incompetência relativa pois estamos perante órgãos da mesma pessoa coletiva pública Estado: Ministro e Secretário de Estado). .delegado não tinha competência para a prática do ato. como vimos supra. No entanto. padecendo este de um vício de incompetência relativa sendo anulável nos termos do art.