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I nt r oduç ão ao pensament o
flosófco
Introdução
A Filosofa do Direito é uma parte da Filosofa. Assim, para se entender
adequadamente o movimento dos pensadores que articularam conceitos
e ideias referentes à categoria Justiça, é importante antes esboçar algumas
considerações preliminares acerca da Filosofa, para depois ser possível
entrar com mais segurança no terreno da Filosofa do Direito.
Algumas questões são importantes: o que é Filosofa? A Filosofa é uma
ciência? Qual a sua função? Qual o método que utiliza para analisar seus con-
teúdos? Como a Filosofa pode contribuir com o Direito? Essas são questões
que tentaremos responder neste primeiro capítulo.
O leitor verá no decorrer dos capítulos que os autores possuem visões
muitas vezes até opostas em relação à mesma matéria, o que poderia ser
uma desvantagem à Filosofa, sob a argumentação de que nem ela é exata
e nem ela é capaz de ter unanimidade naquilo que se propõe a responder.
Contudo, isso não vem a ser muito importante, como demonstraremos mais
adiante.
Primeiramente, para se entender adequadamente o que seria a Filosofa,
é preciso vê-la em sua totalidade de movimento, ou seja, em todo o seu per-
curso, e não se atendo a este ou aquele flósofo. Talvez a melhor maneira de
entender esse conceito é voltando justamente ao momento de sua criação,
no tempo dos flósofos pré-socráticos na Grécia Antiga, pois, como se verá,
a tônica que gerou a Filosofa será a mesma que atravessará os séculos, qual
seja: a Filosofa como admiração ao saber.
O primeiro pensador a empregar o termo flosofa foi Pitágoras, que
juntou as palavras philos (amor) e sophia (saber), ou seja, o amor ao saber, à
sabedoria. “O termo é deveras expressivo. Os primeiros flósofos gregos não
concordaram em ser chamados sábios, por terem consciência do muito que
ignoravam. Preferiam ser conhecidos como amigos da sabedoria, ou seja,
flósofos”. (REALE, 2002, p. 5).
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Introdução ao pensamento flosófco
O historiador Diôgenes Laêrtios nos lembra ainda que para os gregos a
sabedoria era considerada algo supremo, que somente os deuses eram ca-
pazes de possuir. Os homens nunca conseguiriam alcançar o completo en-
tendimento do mundo, das coisas, do Universo, da vida, dos deuses ou de si
mesmos (LAÊRTIOS, 1987, p. 15). Contudo, isso não era desmotivador, pois a
exigência de aprender, aliada à humildade de reconhecer que pouco se sabe,
era a força que impulsionava aqueles pensadores ao desconhecido, a tentar
chegar cada vez mais próximo da sabedoria. Por certo, Pitágoras foi um dos
maiores flósofos, pois essa noção de humildade e necessidade de conhe-
cer nasceu da sua incrível estupefação diante das maravilhas que a natureza
punha diante de si. Não por acaso essa estupefação o conduziu a pesquisar a
Matemática, a Ética, a Teologia, a Astronomia, a Música, e tantas outras maté-
rias do conhecimento. O completo entendimento de todo esse universo que
nos rodeia é possível somente aos deuses, de forma que buscarmos avançar
cada vez mais nesse anseio é também trilhar um caminho divino.
“Na Metafísica, Aristóteles afrma que a Filosofa era a admiração pelo
saber, e por isso mesmo aqueles que amavam os mitos eram flósofos,
porque nutriam nos mitos essa admiração pelo saber” (ARISTÓTELES, 2002).
Os mitos não eram, para os gregos, apenas um conjunto de crenças, aspec-
tos culturais e religiosos de um povo, eram manifestações do íntimo humano
na tentativa de explicar os fenômenos naturais, sociais, o cosmos, os deuses.
Portanto, os mitos também exprimiam a admiração ao saber, e por isso é
imprescindível que partamos deles para depois explorarmos a história do
pensamento flosófco.
Nossa pesquisa pretende apresentar a concepção de Justiça na história
da Filosofa, de forma que o princípio originário da Filosofa não se torna aqui
tão fundamental. Partiremos do fato de que, mesmo já tendo sido desper-
tado o pensamento acerca da verdade e a busca pela explicação da estru-
turação do Universo e da vida em geral anteriormente em outros povos, é
somente com os gregos que ela recebe seus maiores contornos racionais,
isto é, um estudo que diga como, de onde, e por que as coisas são como são.
E essa forma de pensar é criação própria dos gregos (HIRSCHBERGER, 1969).
Nas culturas anteriores aos gregos,
1
o pensamento e a verdade não eram re-
fetidos e construídos pelo indivíduo comum, membro da comunidade, mas
por sentenças irrefutáveis proferidas pelos grandes sacerdotes religiosos.
Os gregos, por outro lado, trouxeram o estudo da verdade para a dimensão
1
Entre elas citamos os egíp-
cios, indianos e os povos da
antiga Mesopotâmia.
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humana, para dentro da vida humana, e, como se verá, ainda mais além, para
dentro da vida política.
Contudo, a passagem do pensamento religioso para o flosófco se dá
também na passagem do mito à Filosofa. Antes da Filosofa, eram os mitos que
traziam os grandes ensinamentos morais e de conhecimento, de forma que
entender essa mudança é entender o nascimento da racionalidade flosófca.
A passagem do mito à Filosofa
Precisar o limiar transitório entre o pensamento mítico e o pensamento
flosófco é uma tarefa difícil. De fato, conforme atesta Aristóteles no primei-
ro livro da Metafísica, os mitos gregos já eram um modo de se identifcar o
mundo racionalmente.
Sobre essa questão, conforme destaca Muñoz:
[...] a fronteira entre o pensamento mítico e o pensamento racional nunca foi inteiramente
clara. Muitos procuraram indicar que as explicações dos primeiros “cientistas” eram o
prosseguimento, se não em termos de conteúdo, ao menos de forma, das explicações
oferecidas pelos mitos. As aspas são necessárias, pois suas investigações diferem daquelas
produzidas pela comunidade científca de nossos dias por um aspecto crucial: não havia
uma pesquisa experimental sistemática e, em muitos casos, sequer rudimentar. Se as
fronteiras entre o pensamento racional e o pensamento mítico que o precedeu não
são nítidas, havendo inúmeros pontos de continuidade entre ambos, isso não signifca,
porém, que não haja ruptura entre eles. O pensamento racional, aplicado para oferecer
explicações sobre o funcionamento da comunidade política e do cosmo, é algo totalmente
novo, ainda que sob alguns aspectos avance as características do pensamento mitológico
que o precedeu. A originalidade desse novo pensamento [...] é algo fundamentalmente
grego, inexistente até então. (MUÑOZ, 2008, p. 57)
Entre os fatores que favoreceram os gregos a serem os protagonistas
dessa importante passagem destaca-se que estes não possuíam um siste-
ma religioso absolutamente defnido, baseado em um livro de revelações
ou com dogmas essenciais que somente eram dominados pela classe sa-
cerdotal. Os principais escritos que fundamentavam sua religião eram os de
Homero e Hesíodo, donde extraíram seus modelos de vida, matéria de refe-
xão e estímulo à fantasia. Além disso, os sacerdotes gregos possuíam uma
atuação muito mais limitada se comparados com os do Oriente.
Ademais, conforme assevera Reale (1993), existem características que di-
ferenciam os poemas homéricos daqueles que estão nas origens dos vários
povos; nessas obras já se manifestam algumas das características do espírito
grego que criaram a Filosofa. Primeiramente, os poemas gregos não se fxam
na descrição do monstruoso e do disforme, ao contrário, se estruturam se-
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gundo o sentido da harmonia, eurritmia e proporção, do limite e da medida,
uma constante da flosofa grega que erigirá a medida e o limite até mesmo
em princípios metafsicamente determinantes. A arte da motivação também
é uma constante; não se relata somente uma cadeia de fatos, mas busca-se
em nível fantástico-poético as suas razões, busca-se determinar pelo mito a
relação entre causa e efeito. Terceira característica é o retrato da realidade
em sua totalidade de forma mítica. A posição do homem no universo estava
presente no mito e será assunto marcante do pensamento flosófco, dessa
vez sob bases puramente racionais.
O contexto de liberdade em que os gregos viviam é também um dos ele-
mentos que infuenciaram a passagem do mito à Filosofa. Não havendo uma
estrutura formal religiosa que limitasse a participação do cidadão, bem como
a própria concepção do homem como essencialmente cidadão, são fatores
que favoreceram a gênese do pensamento baseado na razão. Além disso,
as condições socioeconômicas também foram importantes, tanto que a Fi-
losofa nasce antes nas colônias, primeiramente na Ásia e depois na Magna
Grécia, sul da Itália, para depois atingirem a península do Peloponeso.
Considerado todo esse contexto favorável, a passagem do mito à Filoso-
fa, operada por Tales de Mileto, é marcada pela substituição da crença nas
explicações dos relatos míticos pela compreensão racional do homem e do
mundo que o rodeia. Os mitos já eram explicações do homem e do mundo
baseadas em um profundo saber, contudo suas explicações das causas que
geravam todos os efeitos no mundo baseavam-se na crença em um modelo
que representava aquela situação.
A Filosofa, avançando nessa estrada já aberta, apresentou de modo
nítido desde seu nascimento as seguintes características: quanto ao con-
teúdo, busca explicar a totalidade das coisas, toda a realidade; quanto ao
método, busca-se uma explicação puramente racional da totalidade, o que
vale para a Filosofa é o argumento da razão, a motivação lógica, o logos; por
fm, o escopo da Filosofa, seu caráter é puramente teórico, ou seja, contem-
plativo, visa simplesmente à busca da verdade por si mesma, por isso é livre,
não está vinculada a qualquer utilização pragmática, apesar de que de suas
conclusões infuencia-se todo o mundo prático.
2
Buscar as explicações de modo racional não signifca que a Filosofa disso-
cie-se por completo do divino, posto que, através dela, possibilita-se alcançar
a dimensão do divino racionalmente. Conforme Aristóteles, “pode-se chamar
2
REALE, Miguel. História
da Filosofa Antiga: das
origens a Sócrates. p. 29.
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a flosofa de “divina”, pois além de levar o homem a conhecer Deus, possui as
mesmas características que deve possuir a própria ciência que Deus possui, a
desinteressada, livre, total contemplação da verdade”. (ARISTÓTELES, 2002)
Constata-se, portanto, que a busca da explicação do mundo através do
logos é o que há de revolucionário com o nascimento da Filosofa, e quem
pela primeira vez buscou conhecer a realidade desse modo, sendo, portanto,
o primeiro flósofo, foi Tales de Mileto, o qual concluiu que a água é o ele-
mento essencial de todas as coisas da natureza.
Após essa exposição acerca do surgimento da Filosofa, é importante
agora apresentá-la de forma geral em suas principais disciplinas, que depois
se aprofundam e fundamentam as grandes discussões sobre a verdade, o
conhecimento, a Justiça, entre outras categorias fundamentais. Esse estudo
introdutório é essencial para se compreender os pensamentos elaborados
pelos flósofos que serão trazidos durante o restante do livro.
As principais disciplinas da Filosofa
A Filosofa pode ser dividida em três grandes disciplinas, partindo destas
todas as demais áreas do conhecimento flosófco e, por conseguinte,
também todo o conhecimento científco, dada sua vinculação genealógica
com a Filosofa. Estas três grandes áreas são a Ontologia, a Teoria do Conhe-
cimento e a Ética.
A Ontologia
3
, estudo do ser, pode ser entendida como o estudo que busca
conhecer o ser e seus modos. É a disciplina da Filosofa que busca identifcar
as essências dos seres e seus acidentes, aquilo que especifca qualquer coisa,
individuando-a ante as demais, bem como os acidentes, os elementos que
qualifcam essa substância individuada. Trata-se da mais abstrata, porém mais
profunda das áreas da Filosofa, pois estuda os elementos que constituem toda
a realidade, estando além dela. Por tal motivo, a Ontologia ocupa-se também
do estudo das causas dos fenômenos, até encontrar um princípio primeiro, de
onde partem todos os demais, sendo chamada, assim, de Filosofa Perene.
Outra grande área de estudo da Filosofa é a Teoria do Conhecimento
4
, também chamada de Epistemologia
5
e de Gnoseologia
6
, que se ocupa do
modo de conhecimento do homem e de como esse conhecimento poderá
ou não ser considerado verdadeiro, científco (episteme), caracterizando-se
nessa segunda situação meramente como uma opinião (doxa). Busca-se en-
3
Palavra composta pelas
raízes gregas ontos, geniti-
vo do particípio presente
do verbo ser, e logos, ciên-
cia, estudo.
4
Termo comumente usa-
do na língua portuguesa,
francesa (théorie de la
connaisance) e na língua
alemã (Erkennthistheorie).
5
Do grego episteme co-
nhecimento, ciência) e
logos. Esse termo é mais
utilizado pelos flósofos
ingleses.
6
Do grego gnosis (conheci-
mento) e logos. Termo mais
usado na língua italiana.
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Introdução ao pensamento flosófco
contrar a evidência que ateste a veracidade de um conhecimento, pressu-
posto essencial para se fazer Filosofa ou ciência.
Além da compreensão de que o homem existe (Ontologia) e conhece
(Teoria do Conhecimento), a Filosofa também compreende a Ética
7
, a qual
enfrenta o problema de qual comportamento se deve adotar. A Ética é a
doutrina da Filosofa que, centrada no próprio homem enquanto indivíduo e
enquanto sociedade, e sua conduta, pressupondo a orientação da conduta
humana a um padrão ideal, tem em vista simplesmente o agir ideal ou o al-
cance de uma fnalidade maior.
A Filosofa Prática, ramo onde encontra-se a Ética, compreende ainda a
Filosofa Política, parte da Filosofa que orienta e organiza a vida do homem
em sociedade, e a Filosofa do Direito, que toma para si a investigação sobre
a Justiça, a legitimidade das normas jurídicas e a relação entre o Direito e os
indivíduos e instituições.
A Filosofa do Direito
Sendo o Direito uma realidade social, presente em qualquer sociedade e
cultura, não pode a Filosofa prescindir de analisar esse importante fenôme-
no.
8
A Filosofa do Direito não é disciplina jurídica, mas a aplicação da Filoso-
fa ao campo jurídico. Miguel Reale delimita muito bem a diferença entre a
pesquisa jurídica e a pesquisa flosófca do Direito:
Enquanto que o jurista constrói a sua ciência partindo de certos pressupostos, que são
fornecidos pela lei e pelos códigos, o flósofo do Direito converte em problema o que
para o jurista vale como resposta ou ponto assente e imperativo. Quando o advogado
invoca o texto apropriado da lei, fca relativamente tranquilo, porque a lei constitui ponto
de partida seguro para o seu trabalho profssional; da mesma forma, quando um juiz
prolata a sua sentença e a apoia cuidadosamente em textos legais, tem a certeza de estar
cumprindo sua missão de ciência e de humanidade, porquanto assenta a sua convicção
em pontos ou em cânones que devem ser reconhecidos como obrigatórios. O flósofo do
Direito, ao contrário, converte tais pontos de partida em problemas, perguntando: Por
que o juiz deve apoiar-se na lei? Quais as razões lógicas e morais que levam o juiz a não
se revoltar contra a lei, e a não criar solução sua para o caso que está apreciando, uma vez
convencido da inutilidade, da inadequação ou da injustiça da lei vigente? Por que obriga
a lei? Como obriga? Quais os limites lógicos da obrigatoriedade legal? (REALE, 2002)
A Filosofa do Direito, portanto, tem a missão de examinar criticamente
o Direito, analisar as temáticas jurídicas não do ponto de vista legal ou ju-
risprudencial, mas do universal, do próprio conhecimento. A Filosofa Jurí-
dica busca encontrar a verdade no Direito, aqueles princípios primeiros que
depois dão fundamento a todas as construções jurídicas. Pode-se dizer que
7
Do grego ethos, cos-
tume.
8
“O Direito é realidade
universal. Onde quer que
exista o homem, aí existe
o Direito como expressão
de vida e de convivência.
É exatamente por ser o
Direito fenômeno univer-
sal que é ele suscetível de
indagação flosófca.”
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o flósofo vê o Direito de cima, de uma certa distância, ou seja, ele não está
envolvido no fenômeno jurídico, não dentro do problema, é antes um atento
observador externo, que racionalmente e cautelosamente percebe as incoe-
rências e formula os fundamentos que são capazes de contribuir com a evo-
lução da estruturação do Direito.
O Direito examina e formula suas leis, suas normas jurídicas. Mas a Filoso-
fa examina esse exercício, a Filosofa busca o conceito de Direito, contextu-
alizando sua função ao movimento social e cultural da humanidade. A Filo-
sofa tem prerrogativa para afrmar se uma lei é justa ou injusta, porque sua
crítica não parte de um dado posto, mas do universal, ela entende o Direito
como um enorme processo histórico, que se adéqua de modo diferente a
cada espaço e tempo. O direito positivo, o direito natural, o ordenamento
jurídico, a necessidade, função, surgimento e conceito do Direito, tudo isso é
temática da Filosofa do Direito.
Ademais, a ciência que dá fundamento ao Direito, a Ética, é disciplina es-
sencial ao pensamento flosófco. O agir humano sempre foi objeto de dis-
cussão da Filosofa. Como deve agir o homem? Quais os critérios que deter-
minam um agir correto? Há leis que regulam a existência? Qual a fnalidade
da ação humana?
Desde Sócrates não há mais como separar o Direito da Ética. A Ética está
acima das normas e leis jurídicas, ela é o exame das ações humanas. A Ética
tem prerrogativa para analisar o Direito, porque a Ética estuda a natureza
humana, e tenta formular princípios para que o indivíduo se desenvolva e
se realize tendo em vista essa natureza humana. Com efeito, o Direito deve
prestar atenção à Ética, pois ambos trabalham com o agir humano e todas as
consequências que advêm disso para a sociedade.
Filosofa e business
Se a Filosofa pode examinar criticamente e universalmente o Direito,
dando contribuições diferenciadas através da Filosofa do Direito, é certo
que ela pode realizar o mesmo em outros campos da vida humana, e aqui
incluímos o mundo do business. Os flósofos, quando buscam entender a na-
tureza humana, dando princípios para a sua realização existencial, em geral
não se esquecem de um importante aspecto: o econômico. Da poesia ho-
mérica aos contemporâneos, os pensadores colocam a questão econômica
como essencial para o indivíduo conduzir bem a sua vida. Nesse sentido,
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Introdução ao pensamento flosófco
este livro pretende trazer implicações ao business de cada pensador, ou seja,
quais ideias formuladas pelos flósofos podem contribuir com a atividade do
empresário e do empreendedor no aspecto tanto da Ética quanto da funda-
mentação do Direito, que tenha relação com as questões que envolvem o
mundo dos negócios.
No decorrer dos capítulos o leitor acompanhará que, por exemplo, nossas
concepções de atitude no trabalho foram objeto de discussão por flósofos
como Hegel e Marx, e mesmo de Hesíodo, um poeta que se tornou célebre
quase 3 000 anos atrás. Além disso, as questões econômicas sempre foram te-
máticas entendidas como essenciais para a manutenção do bem-estar social.
Por fm, destaca-se que a Filosofa trabalha a reorientação da racionalidade,
de forma que entendimentos adequados permitem desenvolver intuições e
raciocínios que conduzem melhor a vida cotidiana. O business também é racio-
nalidade. E a Filosofa, desde seus primeiros pensadores gregos, foi criada para,
acima de tudo, ajudar o homem a pensar e agir melhor. Daí a valiosa contribui-
ção flosófca: “A Filosofa refete no mais alto grau essa paixão pela verdade, o
amor pela verdade que se quer conhecida sempre com maior perfeição, tendo-
se em mira os pressupostos últimos daquilo que se sabe” (REALE, 2002).
A Filosofa como admiração ao saber
A Filosofa nasce da perplexidade. Portanto, são justamente os grandes
questionamentos que suscitam o progresso flosófco, a íntima necessidade
de penetrar cada vez mais a essência do problema.
A Filosofa, por ser a expressão mais alta da amizade pela sabedoria, tende a não se contentar
com uma resposta, enquanto esta não atinja a essência, a razão última de um dado “campo”
de problemas. Há certa verdade, portanto, quando se diz que a Filosofa é a ciência das causas
primeiras ou das razões últimas: trata-se, porém, mais de uma inclinação ou orientação
perene para a verdade última, do que a posse da verdade plena (REALE, 2002).
Essa paixão pela verdade se torna uma incansável busca por encontrar as
causa primeiras de todas as coisas, aquelas causas que respondem os gran-
des questionamentos e ainda geram todos os outros questionamentos.
A necessidade de responder com maior perfeição é aquilo que gera o
caminho histórico percorrido pela Filosofa. A história nos coloca novas in-
terrogações, seja por determinados eventos, por mudanças culturais, por
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avanços das ciências, por mudanças de concepções das próprias pessoas,
todo esse universo infuencia o exercício do pensar flosófco, exigindo do
flósofo novas respostas, novas indagações. Podemos nos arriscar a dizer
que enquanto o homem não conhecer com plenitude a verdade última das
coisas, a Filosofa prosseguirá sua marcha histórica.
A história da Filosofa tem o grande valor de mostrar que esta não pode se estiolar em um
sistema cerrado, onde tudo já esteja pensado, muitas vezes antecipadamente resolvido.
Quando um flósofo chega ao ponto de não ter mais dúvidas, passa a ser a história acabada
das suas ideias, o que não quer dizer que não gere a Filosofa nos espíritos uma serenidade
fecunda, apesar da incessante pesquisa (REALE, 2002. p. 8-9).
E esse é o grande mérito da história da Filosofa: apresentar o panorama
geral da estupefação diante do saber, da necessidade existencial, talvez até
metafísica, de o homem conhecer, chegar mais próximo da verdade última
das coisas, inclusive aquilo que é idêntico, útil e funcional.
Acompanhando o percurso histórico, o que nos ocupa aproximadamen-
te 28 séculos de esforço intelectual em busca da verdade e do que é justo,
adequado, de direito, nos ajudará ainda a pensar melhor quais são as nossas
grandes questões contemporâneas, a que nível chegamos nas problemáti-
cas metafísicas, e, já que esta obra também é voltada ao Direito: como é o
Direito atual? E como ele deve ser no futuro?
Talvez nenhuma frase seja tão ilustrativa para essa condição humana
como aquela empregada por Aristóteles para abrir a obra que, para ele,
era dedicada ao conhecimento do saber supremo: a Metafísica. “Todos os
homens, por natureza, tendem ao saber” (ARISTÓTELES, 2002).
A flosofa grega
A admiração pelo saber tornou-se maior, sobretudo, com os gregos an-
tigos, que viviam um período de profunda busca pelo saber. Da Teologia à
Política, passando pelas várias artes e ciências, tudo era objeto de grandes
investigações e refexões. Fervilhava o espírito crítico, refexivo e investiga-
dor da natureza no espírito grego. Esse momento, talvez único na história
humana, surge juntamente com a fgura do homem político. O fato de tanto
a Filosofa como a Política terem nascido no mesmo período e no mesmo
lugar merece algumas refexões, pois ajuda a demonstrar que, no fundo, os
gregos viviam uma época de liberdade de pensamento.
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Introdução ao pensamento flosófco
Filosofa e Política na Grécia Antiga
Para se compreender o percurso histórico da Filosofa do Direito, acom-
panhando a construção de conceitos como Direito, Justiça, Liberdade, Cida-
dania, Ética, Igualdade, é importante partir desde o momento que lançou as
bases para a formação da racionalidade ocidental: o mundo grego. Pois foi
na Grécia que surgiram os primeiros flósofos do Ocidente, que infuenciam
inclusive os pensadores contemporâneos.
Os primeiros flósofos foram os chamados pré-socráticos, que se tornaram
célebres por realizarem grandiosas argumentações sobre a ordem e o prin-
cípio das coisas, pela tentativa de explicar a natureza, a existência humana,
e mesmo questões divinas e transcendentais. É com os pré-socráticos que a
Ontologia se origina. Esses flósofos serão estudados no Capítulo III do nosso
trabalho.
Antes, é importante compreender os movimentos que infuenciaram e
contribuíram enormemente para a criação do pensamento flosófco. Pois os
pré-socráticos não poderiam conceber seus grandes conceitos sem a infu-
ência dos poetas, em especial Homero e Hesíodo. Depois haveriam outros
poetas que também seriam importantes, como “Tirteu, Arquíloco, Alceu, Safo
e inclusive o grande Sólon”, que também foi célebre político ateniense.
9
Para se compreender a origem da flosofa grega, é preciso, além de re-
correr aos poetas, buscar também entender o processo cultural e político
enfrentado pelos gregos, que apresentaremos brevemente neste capítulo,
juntamente com a exposição dos poetas. Não há como separar, a flosofa
grega, em sua forma racional e sistemática mais bem acabada, surge jun-
tamente com as cidades-Estado. O flósofo surge junto com o político. As
culturas anteriores possuíam a fgura do político e suas organizações polí-
tico-jurídicas, mas não eram analisadas sistematicamente e racionalmente
tal como faziam os gregos. A Política como ciência, que concebia as formas
de organização social, de governo, do problema da validade e da imposição
das leis, de quem e como deve governar, tudo isso é criação grega. Não há
entre os hebreus, entre os egípcios, entre os chineses ou entre os indianos
um estudo tão sistemático da Política como aquele realizado por Aristóteles,
nem uma preocupação da união indissolúvel entre política e educação como
faz Platão na República. Os gregos se atreveram a trazer o conceito de Justiça
para o âmbito público, social, do cidadão da polis, situação essa impensável
no mundo anterior, que remetia a uma divindade transcendente toda a pro-
9
Para maiores informa-
ções sobre esses outros
poetas, interessante obser-
var o capítulo dedicado a
eles na Paideia, de Jaeger,
e também a obra de Do-
naldo Schüler, Literatura
Grega (SCHÜLER, Donaldo.
Literatura Grega. Porto
Alegre: Mercado Aberto,
1985.).
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Introdução ao pensamento flosófco
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blemática da Verdade e da Justiça, de forma que o homem, como adorador
dos deuses, existia para praticá-la e aperfeiçoá-la no mundo terreno, sem
contudo ter poder para contestá-la ou mesmo modifcá-la. No mesmo pe-
ríodo e no mesmo lugar nasceram a Filosofa e a Ciência Política. Vejamos
agora como se dá esse processo e a que tal ponto o político contribui com o
surgimento do pensamento flosófco.
A Justiça como questão flosófca
Com a explosão do comércio marítimo e a expansão dos domínios gregos,
a vida pública tornou-se cada vez mais importante com as discussões polí-
ticas e jurídicas ocupando grandes centros de debate da polis. O novo cená-
rio ampliou os horizontes dos gregos, sendo propício para o surgimento de
novas ideias e discussões sobre questões éticas, jurídicas e políticas. Embora
a esfera religiosa jamais tenha deixado de infuenciar a sociedade grega, vi-
via-se um momento em que o homem cada vez mais ousava a contrair para
si diversos assuntos.
Entre essas ideias ousadas está a alta estima dada tanto pelos poetas
como depois também pelos flósofos acerca dos conceitos de Direito e Jus-
tiça, e a atribuição da importância dessas categorias para a organização da
comunidade. A grande novidade trazida pelos gregos está no fato de conce-
ber a comunidade como uma organização essencialmente humana, tendo
suas concepções e determinações político-jurídicas como materialização da
vontade de seus próprios cidadãos.
Ainda que nos séculos seguintes a administração do Direito permanecesse
nas mãos dos nobres, que controlavam leis não escritas e aplicadas a toda a
população, a nova concepção humanista de Direito permitiu aos cidadãos em
geral contestarem esse abuso político por parte dos magistrados. A oposição
entre nobres e cidadãos livres acabou gerando o movimento de positivação
dos direitos, em que as leis passaram de não escritas a escritas, de forma que
poderia valer igualmente para todos. “Direito escrito era direito igual para
todos, grandes e pequenos” (JAEGER, 2003, p. 134). Nesse processo, os gran-
des porta-vozes da violência causada pelos magistrados foram justamente os
poetas, em particular Hesíodo. A luta pela diké seria então a luta pela aplicação
do Direito, o que envolveria inclusive a luta de classes. “Hoje, como outrora,
podem continuar a ser os nobres, e não os homens do povo, os juízes. Mas
estão submetidos no futuro, nas suas decisões, às normas estabelecidas na
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Introdução ao pensamento flosófco
diké”(JAEGER, 2003, p. 134). Contudo, inclusive antes de Hesíodo, a vontade de
conceber a Justiça como uma fonte indispensável para a organização social já
se via nos poemas homéricos.
Homero representa ainda o início desse longo processo que é a passa-
gem do Direito de sua condição essencialmente divina para uma construção
humana. Em Homero, o Direito é designado com o termo themis, um “com-
pêndio da grandeza cavaleiresca dos primitivos reis e nobres senhores. Etimo-
logicamente signifca ‘lei’” (JAEGER, 2003, p. 134). A themis era concedida por
Zeus aos reis nos tempos homéricos. Tão antigo quanto o conceito de themis
é também o de diké.
O conceito de diké não é etimologicamente claro. Vem da linguagem processual e é tão
velho quanto themis. Dizia-se das partes contenciosas que “dão e recebem diké”. Assim se
compendiava numa só palavra a decisão e o cumprimento da pena. O culpado “dá diké”, o
que equivale originariamente a uma indenização, ou compensação. O lesado, cujo direito
é reconduzido pelo julgamento, “recebe diké”. O juiz “reparte diké”. Assim, o signifcado
fundamental de diké equivale aproximadamente a dar a cada um o que lhe é devido. Signifca
ao mesmo tempo, concretamente, o processo, a decisão e a pena. (JAEGER, 2003, p. 134-135)
Nesse sentido, enquanto a themis está relacionada à autoridade da lei, à
sua validade e aplicabilidade a todos os cidadãos, a diké se refere à sua pró-
pria aplicação. Na themis observa-se muito mais um princípio primeiro da
fundamentação jurídica, da qual se provém a legitimidade para imposição
da lei, enquanto que na diké se vê o próprio movimento de realização do
Direito, e por isso abrange na mesma palavra as ideias de processo, sentença
e pena. Ademais, a aproximação da diké a uma ideia de equidade, em que o
Direito se reparte de forma justa a todos os cidadãos, tornou-se o fundamen-
to principal para as lutas de todos em nome de seus direitos. Como cada um
possui parte nessa ideia de Justiça, possuem também o direito de lutar por
seu direito. Dessa forma, a diké representa também o direito de cada cidadão
a lutar contra a hybris, que por sua vez equivale à ação contrária ao Direito.
Signifca que há deveres para cada um e que cada um pode exigir, e, por isso, signifca
o próprio princípio que garante essa exigência e no qual se poderá apoiar quem for
prejudicado pela hybris – palavra cujo signifcado original corresponde à ação contrária
ao Direito. Enquanto themis refere-se principalmente à autoridade do Direito, à sua
legalidade e à sua validade, diké signifca o cumprimento da Justiça. Assim se compreende
que a palavra diké se tenha convertido necessariamente em grito de combate de uma
época em que se batia pela consecução do Direito a uma classe que até então o recebera
apenas como themis, quer dizer, como lei autoritária. O apelo à diké tornou-se de dia para
dia mais frequente, mais apaixonado e mais premente.
10
Na diké o cidadão encontrava o fundamento para poder reclamar a Justi-
ça, o que signifca enfrentar o próprio Direito estabelecido naquele momen-
to. O Direito dessa forma já não era algo consolidado como uma manifes-
10
JAEGER, Werner Wi-
lhelm. Paideia: a Forma-
ção do Homem Grego,
p. 135.
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Introdução ao pensamento flosófco
25
tação divina, que não podia ser contestado pelo cidadão comum, mas um
movimento, em que a luta pelo Direito
11
era também parte desse processo.
Como síntese, o Direito entre os gregos tornou-se um processo de formação,
o homem desenvolvia-se ao mesmo tempo em que desenvolvia a ideia de
Direito.
A igualdade é o conteúdo principal da diké, o objetivo de se dar a cada
um o que é seu, uma prerrogativa de fazer todos os cidadãos livres iguais
perante o Direito. A partir daí a igualdade ocuparia sempre lugar central nas
discussões jurídicas e políticas, chegando a infuenciar os grandes flósofos
Platão e Aristóteles: “A exigência de um Direito igualitário constitui a mais
alta meta para os tempos antigos”.(JAEGER, 2003, p. 136).
Nessa nova concepção de Direito, os nobres tiveram que também se sub-
meter à igualdade de todos. Essa igualdade, contudo, não poderia ser resumida
numa igualdade de todos perante a lei, mas sim da própria acepção de Direito.
O Direito assemelha-se a uma medida para decidir as questões entre o “‘meu’ e
o ‘teu’” (JAEGER, 2003, p. 136), de tal forma que se possa fxar o Direito, atribuin-
do a cada um o que é seu. Essa mudança, visando uma igualdade jurídica e po-
lítica, operou-se ao mesmo tempo em que se delimitava, na esfera econômica,
a fxação de medidas e pesos para o intercâmbio de mercadorias. Assim como
a economia fxava a medida e o peso, o Direito fxava as normas. Logo, trata-
-se de um movimento amplo no qual o que se apresenta é a própria forma-
ção do povo grego, um desenvolvimento cultural sem o qual seria impensável
o surgimento, por exemplo, da democracia, que para ser instituída depende
do princípio de que todos são iguais perante a lei. “Procurava-se uma ‘medida’
justa para a atribuição do Direito e foi na exigência de igualdade, implícita no
conceito de diké, que se encontrou essa medida”. (JAEGER, 2003, p. 136).
A delimitação de medidas foi essencial para a construção do Direito,
não somente no sentido positivo, da produção e aplicação de normas, mas
também na própria esfera moral, na delimitação e fxação de condutas que
não poderiam ser praticadas. Desde os tempos primitivos encontram-se na
literatura e na mitologia menções a delitos, como o assassínio, o adultério, o
furto e o rapto.
12
Essa delimitação de condutas, de limites às ações humanas,
inclusive anteriores à fxação de normas, provém de um conceito ligado à
ideia de diké, o termo díkayosine, que não possui uma tradução moderna
equivalente. A dikayosine representa a medida abstrata, mas amplamente
efetiva, que constituía o conteúdo essencial das primeiras leis escritas.
11
Percebe-se já entre
os gregos o fundamento
principal para a luta pelo
Direito como condição
para a existência do pró-
prio Direito, antecipando
em muitos séculos a con-
cepção do Direito como
luta de Jhering.
12
Ésquilo narra em
Prometeu Acorrentado a
história do furto do fogo
dos deuses por Prometeu,
que entregou aos mortais,
assim como na Ode a De-
méter vemos o relato do
rapto de Perséfone por
Hades, e inclusive a con-
clusão do Direito como
uma medida justa, em que
a vítima permaneceria
metade do ano na Terra e
a outra metade no mundo
dos mortos, gerando as
quatro estações. Percebe-
-se como as noções de
medida e delimitação já
estavam desde sempre
presentes na mentalidade
grega.
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26
Introdução ao pensamento flosófco
O novo termo proveio da progressiva intensifcação do sentimento da Justiça e da sua
expressão num determinado tipo de homem, numa certa arete. Originariamente, as aretai
eram tipos de excelência que se possuíam ou não. Nos tempos em que a arete de um
homem equivalia à sua coragem, colocava-se no centro esse elemento ético, e todas as
outras excelências que um homem possuísse se subordinavam a ele, e deviam pôr ao seu
serviço. A nova dikayosine era mais objetiva. Tornou-se a arete por excelência, desde o
instante em que se julgou ter na lei escrita o critério infalível do justo e injusto. Pela fxação
escrita do nomos, isto é, do direito consuetudinário válido para todas as situações, ganhou
conteúdo palpável. Consistia na obediência às leis do Estado, como mais tarde a “virtude
cristã” consistiria na obediência às ordens do divino (JAEGER, 2003, p. 137-138).
A dikayosine, nesse sentido, era a expressão positiva e mesmo ética de um
ideal de homem, de um elevado tipo de homem dotado de certas virtudes,
tal como o guerreiro antigo deveria guiar-se pela coragem. As leis do Estado
não seriam obedecidas simplesmente por sua autoridade coercitiva, mas
por serem a expressão desse sentimento de Justiça, dessa fxação do justo e
do injusto ao qual o homem grego se submetia. As leis escritas refetiam os
costumes, que por sua vez representavam esse critério criado num processo
histórico e espiritual da Justiça como uma virtude. Nessa perspectiva, o Di-
reito era resultado da Justiça, da medida e do critério que delimita o justo e
o injusto, e seguir o Direito signifcaria viver conforme esse ideal virtuoso de
homem. Delineia-se aqui o essencial papel que cumpre o ideal de formação
de homem na cultura grega, em que mesmo o Direito deveria ser utilizado
para a formação do homem, do cidadão, do membro da polis. Com a Justi-
ça sendo inserida como virtude central da polis, abandonou-se a concepção
anterior da valentia como arete máxima, advinda da sociedade espartana,
voltada principalmente às guerras, mas abriu a necessidade de cultivar um
novo tipo de homem, aquele relacionado essencialmente às atividades pú-
blicas, sejam elas jurídicas, políticas, artísticas ou intelectuais em geral. Não
era mais a guerra o centro das disposições de vontade do homem grego, mas
a cultura e a organização social. “O conceito de Justiça, tida como a forma de
arete que engloba e satisfaz todas as exigências do perfeito cidadão, supera
naturalmente todas as formas anteriores” (JAEGER, 2003, p. 139).
A Justiça como virtude cardeal, que resume todas as demais, tal como afr-
mariam posteriormente Platão e Aristóteles, apresenta essa nova forma de
pensar criada pelo homem grego, derivada do crescimento tanto econômico
como cultural da polis. E esse desenvolvimento está ligado principalmente
ao surgimento do Estado constitucional, isto é, do período antigo da forma-
ção do homem grego em que as cidades passaram a ser reguladas por leis
escritas, por uma constituição. A constituição garantia o princípio da igual-
dade a todos os cidadãos e simbolizava o ideal de homem daquele povo;
ela era regulada e aplicada conforme a arete que se desenvolvia, sua medida
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de Justiça estava na dikayosine. Desse processo advém todo o valor de o
homem grego sentir-se parte de seu Estado; seu sentimento pátrio estava
em viver conforme aquelas virtudes preceituadas por ele e inseridas no espí-
rito da constituição. Também por esse motivo o Estado deveria promover a
educação a todos os jovens, um ensino público, porque somente assim teria
a certeza de que a juventude seria formada dentro do seu ideal de homem,
conforme as virtudes que determinavam o conteúdo de sua constituição. O
ensino público não existia simplesmente por ser uma obrigação estatal, mas
por essa necessidade pedagógica (JAEGER, 2003, p. 141). É por essa razão
que Platão e Aristóteles afrmam que cada Estado, pela lei, expressa e inte-
rioriza nos seus cidadãos o seu ideal de homem. Para os gregos, como se vê,
a legislação possuía por conteúdo sua mais elevada condição. Sua existência
não estava apenas na regulamentação da sociedade, mas essencialmente na
educação, no cultivo de seu tipo ideal de homem.
A herança de normas jurídicas e morais do povo grego encontrou na lei a sua forma mais
universal e permanente. Platão culminou a sua obra, de Filosofa Pedagógica com a sua
conversão em legislador, na última e maior das suas obras; e Aristóteles conclui a Ética
com o apelo a um legislador que lhe realize o ideal. A lei é também uma introdução à
Filosofa, na medida em que, entre os Gregos, a sua criação era obra de uma personalidade
superior. Com razão, o legislador era considerado educador de seu povo, e é característico
do pensamento grego que ele seja frequentemente colocado ao lado do poeta, e as
determinações da lei junto das máximas da sabedoria poética. Ambas as atividades são
estreitamente afns. (JAEGER, 2003, p. 143)
Ética e Direito entrelaçam-se a tal maneira que quase passam a entender-
-se como sinônimos. Pela Ética, o Estado tinha a garantia à educação de seu
Direito, de suas leis; e pelas leis, pelo Direito, o Estado garantia também a
formação do seu ideal de homem, cultivado naquelas virtudes que sua Ética
consagrou. Nessa comunidade ética, o cidadão vivia conforme a vida políti-
ca, cívica, em que o cidadão existia no Estado e participava do bem comum,
dos interesses gerais da polis. Essa existência pública e política imprimia no
espírito do cidadão um dever ético de realizar e viver também para a evolu-
ção do Estado, da comunidade. Como o Estado lhe concedia inúmeros direi-
tos, oriundos da antiga diké e o seu princípio da igualdade, entre eles a edu-
cação pública, era seu dever contribuir com o crescimento do Estado. Dessa
necessidade resultou o crescimento intelectual, profssional e espiritual do
homem grego. Em sentido prático, isso inclui a grande transformação na so-
ciedade grega, a passagem da antiga sociedade rural dos tempos hesiódicos
à uma polis urbana, voltada essencialmente aos interesses citadinos. A habi-
litação profssional não era apenas dever por ser o trabalho uma atividade
que desenvolve a si próprio, mas também para contribuir com a polis. Se o ci-
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Introdução ao pensamento flosófco
dadão recebia a educação, sentia-se no dever de tornar-se cada vez mais um
melhor profssional. O Estado é a essência do cidadão grego para onde diri-
gem todas as suas atividades espirituais. Para esse modelo de homem, fazer
parte do Estado era sentimento de felicidade, de viver conforme o ethos.
É um cosmos legal segundo esse velho modelo helênico – onde o Estado seria o próprio
espírito e a cultura espiritual visaria o Estado como seu fm último – o que Platão esboça
nas Leis. Ali ele defne como oposta ao saber especializado dos homens de ofícios,
negociantes, merceeiros, armadores, a essência de toda a verdadeira educação ou
paideia, a qual é educação na arete que enche o homem do desejo e da ânsia de se tornar
um cidadão perfeito, e o ensina a mandar e obedecer, sobre o fundamento da Justiça.
(JAEGER, 2003, p. 146-147)
A educação política, ou ainda a techné política, não pode ser ensinada
como se faz com o ensino das profssões especializadas em uma atividade,
porque nesses casos exige-se sobretudo a parte técnica, enquanto que na
arte política não basta o caráter técnico, os saberes teóricos e práticos, mas a
educação do ethos, da arete. Não se pode medir o cidadão pelo seu conheci-
mento, mas pelo seu caráter, pelo cultivo que fez das virtudes e da educação
político-humanista concedida pelo Estado.
Apresentado esse relato histórico, passaremos agora a tratar das caracte-
rísticas essenciais de nossos estudos nas poesias de Homero e Hesíodo.
Origens da flosofa grega:
os poetas Homero e Hesíodo
Homero
Homero é certamente o maior nome da literatura grega. As duas epo-
peias que a sua autoria são creditadas, Ilíada e Odisseia
13
, repercutirão na
formação do espírito grego como nenhum outro autor tão longe alcançou. A
Ilíada imortalizou-se como, possivelmente, a mais impressionante guerra já
retratada literariamente. A força com que o autor apresenta os emocionan-
tes combates, as inesperadas e precisas intervenções divinas, os dramas dos
heróis envolvidos, as grandes questões que movimentam ambos os exérci-
tos combatentes (gregos e troianos), tudo isso torna a Ilíada obra de caráter
único na literatura universal.
A Ilíada apresenta a narração da célebre Guerra de Troia
14
. Páris, príncipe
troiano, raptou Helena, esposa de Menelau, famoso monarca grego, levan-
13
A discussão sobre se
Homero de fato escre-
veu ambas as epopeias
já alcança mais de um
século. Entre os eruditos
surgem as mais diversas
opiniões, desde aqueles
que afrmam que Homero
sequer existiu, e que as
epopeias seriam compi-
lações de autores poste-
riores de versos passados
oralmente de geração a
geração; outros afrmam
que ele existiu sim ,mas
que apenas escreveu ou
compilou uma das poe-
sias, já que ambas contêm
construções e estilos
literários diferentes; por
fm, existem aqueles sim
acreditam na real autoria
de ambas as epopeias ao
poeta Homero. Para este
trabalho, tais questões
não chegam a ser de vital
importância, pois o essen-
cial aqui é captar a infu-
ência dessas epopeias no
espírito grego, como au-
xiliaram nas construções
dos conceitos de Ética,
Justiça, Direito etc.
14
Aqui também os estu-
diosos se dividem. Seria
a Guerra de Troia apenas
uma construção literária,
uma epopeia elaborada
para enaltecer o povo
grego? Ou poderia de fato
ter acontecido? Algumas
descobertas arqueológi-
cas desde o século passa-
do alimentam a discussão,
abrindo a possibilidade
de as famosas muralhas
de Troia se localizarem no
que hoje é território turco.
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Introdução ao pensamento flosófco
29
do-a para suas terras. Decidido a recuperar sua esposa, Menelau pede auxí-
lio ao seu irmão Agamemnon. Em pouco tempo, a raiva que se apossou de
Menelau tomou conta de todo o povo grego, e os grandes chefes e guerrei-
ros de todos os reinos foram convocados a participarem da guerra contra os
troianos. Entre esses ilustres guerreiros estavam, além de Menelau e Agame-
mnon, o enorme e forte Ajax, o sábio e velho Nestor, o astuto e protegido
dos deuses Ulisses e o célebre personagem principal da obra, Aquiles, flho
da deusa Tétis.
A Ilíada inicia-se já no nono ano de combates, no famoso episódio da dis-
cussão entre Agamemnon e Aquiles, que resultou na retirada do segundo do
campo de batalha. São 24 cantos, que terminam com os funerais de Heitor, o
troiano que matou Pátroclo, melhor amigo de Aquiles, e morto por este por
vingança. A violência fnal de Aquiles é a explosão de sua ira, tema central de
toda a obra. Aquiles estava fora das batalhas, foi apenas quando seu amigo
morreu que violentamente retornou aos campos e vingou Pátroclo.
Já a Odisseia narra as aventuras enfrentadas por Ulisses em seu retorno
após a Guerra de Troia. Ulisses comete um grande erro, devido à soberba,
ao declarar não necessitar da ajuda dos deuses, o que irritou profundamen-
te Posêidon, o deus dos mares. Diante disso, o deus decide causar o maior
número possível de problemas ao herói, atrasando seu retorno em 10 anos.
Entre as aventuras enfrentadas por Ulisses e sua tripulação estão a ilha do
Ciclope, gigante de um olho só, a ilha de Circe, a feiticeira que transforma
a todos em animais, as belíssimas sereias, que com seus cantos irresistíveis
atraem todos os marinheiros à morte, o célebre estreito dos monstros de
Posêidon, Cila e Caribdes, entre outros problemas envolvendo fenômenos
naturais. Ao término da saga, Ulisses ainda precisa enfrentar os pretendentes
de sua esposa, Penélope, que tentavam usurpar sua mulher e o reino.
Acima expomos o resumo geral das obras. Agora apresentaremos algu-
mas análises de como esses versos infuenciam na Filosofa e no Direito.
Para Schüler (2004), a Ilíada é produzida numa época em que o homem
ainda não havia tomado completamente consciência de si mesmo, de forma
que mais lhe impressiona as façanhas de heróis e deuses, no campo externo,
que os dilemas psicológicos que aterrorizam a dimensão interna do indivíduo.
Para esse autor, seria um período histórico em que o homem ainda se maravi-
lhava com o mundo que o rodeia, entusiasmava-se por participar dele.
15
15
Sintaticamente o
objeto (ira, o herói, Ílion)
precede o sujeito. A aten-
ção, tanto a do poeta
como a do ouvinte, está
presa no objeto. O objeto
mantém o sujeito oculto.
Vive-se num período em
que o homem ainda não
tomou inteira consciência
de si mesmo. Entusiasma-
-se pelo grande espetácu-
lo do mundo. Fascinam-
no as obras dos deuses e
dos heróis. Sente prazer
em nomear o mundo rico
que se desdobra diante
de seus olhos. E não se
apercebe de si. Não lhe
ocorrem suas dúvidas,
dores ou confitos pesso-
ais. Não olha para dentro
de si mesmo. O mundo o
absorve inteiro. Na cultu-
ra em que o homem só
tem olhos e ouvidos para
o mundo e para o outro,
nasce a epopeia com as
estupendas façanhas dos
heróis e deuses.
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Introdução ao pensamento flosófco
Isso não signifca que contornos psicológicos e pessoais não estejam pre-
sentes na obra. Por exemplo, a epopeia inicia e termina com a ira de Aquiles,
a emoção que lhe impulsiona e dá a tônica dos relatos. A arrogância de Aga-
memnon nos primeiros cantos desperta preocupação e resistência em seus
próprios aliados, ao verem como ele enfrentou e permitiu facilmente que o
valente Aquiles se retirasse do combate. Até mesmo os deuses, como já é
frequente nas lendas gregas, não escapam de questões psicológicas, opi-
niões e preferências que por vezes os aproximam dos humanos. Logo no
início, Apolo, o deus Sol, lança epidemia aos gregos, devido à rejeição de
Agamemnon em devolver sua escrava Criseida, flha de Criseis, sacerdote de
Apolo.

Depois, vendo Aquiles, seu flho, sendo humilhado perante os gregos,
Tétis implora a Zeus que dê a vitória aos troianos, até que se arrependam
e peçam perdão a Aquiles. Também por várias vezes Atena é enviada ao
campo de batalha, ora aconselhando um ou outro guerreiro. Logo no canto
II, inclusive, vemos Zeus tendo difculdades para dormir diante das refexões
que lhe vinham à mente, provocadas pelo inesperado pedido de Tétis.
Contudo, é somente na Odisseia que se verão sinais mais evidentes dos
dilemas humanos, vestígios de aspectos psicológicos que circundam aquela
obra; na Ilíada, não obstante, ainda se presencia tão somente o fascínio do
homem pela descoberta de si mesmo e do mundo. Na Ilíada não se pensa
em limites para a ação heroica, mas na vontade e no ato de conquistar por
inteiro esse mundo. É nesse cenário que surge a fgura do herói, a clássica
imagem da poesia homérica. Num primeiro momento, como o próprio Schü-
ler observou, é importante notar que no proêmio, o objeto principal da nar-
ração da Ilíada, a causa primeira da história heroica, é a ira de Aquiles, e so-
mente secundariamente aparece como causa a vontade de Zeus. O homem
ainda não havia olhado para dentro de si completamente, de forma que seus
limites não estavam completamente estruturados. Não tão dependente de
Zeus, o homem aparecia a si mesmo como ilimitado, e nisso consistia a faça-
nha heroica. O signifcado de colocar a causa principal do ciclo da Ilíada na
ira humana, e não na vontade divina, revela que o destino, ainda que existen-
te na cultura helênica, não absorvia completamente o homem, de forma que
suas ações e resultados eram responsabilidades suas.
Também situa-se aqui o episódio do Canto II, em que Zeus envia um sonho
a Agamemnon, na forma do confável Nestor, no qual este aconselha o herói
a invadir imediatamente Troia, pois aí teria a vitória. Porém, Agamemnon,
após uma breve exaltação, deu-se conta da falsidade da mensagem, que na
verdade tratar-se-ia de uma armadilha. Zeus preferia Aquiles a Agamemnon,
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Introdução ao pensamento flosófco
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e o chefe dos gregos era consciente disso. Os deuses sim interferem, mas os
humanos são livres para aceitar ou mudar seus destinos.
Na exaltação do herói encontramos ainda outra característica marcante
da poesia homérica, em especial a Ilíada: a presença do destino. Contudo, a
ideia homérica de destino não se confunde com um ciclo fechado, em que a
vida do indivíduo está previamente estabelecida. Para Homero, o destino, as
moiras
16
, se assemelha a uma ordem superior em que não somente os huma-
nos, mas inclusive os deuses submetem-se. E é por isso que tanto na Ilíada
como na Odisseia, nem os deuses podem criar o destino por suas próprias
vontades, mas agir e criar caminhos. Na ideia de destino dos gregos está
aberta a responsabilidade do indivíduo, da livre-escolha, o homem pode
criar uma nova via dentro do cenário predeterminado pelo destino, não é,
portanto, um roteiro infexível. Esse destino possui relação com a ordem das
coisas, e aqueles que adentram seus mistérios são de fato os homens mais
corajosos, heroicos e sábios.
17
Nesse sentido, os poemas homéricos não estão situados tanto no conhe-
cimento do homem a si mesmo, mas no desvelar de seu espírito impetuoso e
heroico. A Homero não interessa tanto os dilemas que afetam a vida humana,
embora reconheça que existam, mas a necessidade de estender o domínio do
homem nesse mundo que serve de palco e cenário para conquistas. E é por
isso que a fgura que se glorifca é a do herói, que não pode temer o destino,
nem enfrentar a ordem natural das coisas, mas adentrá-la, e ali criar a história.
Homero cria um mundo limitado, mas que permite atitudes ilimitadas nesse
círculo, ainda que o homem não possa tudo fazer, pode dentro do seu possí-
vel atitudes heroicas. Homero “[...] louva e exalta o que no mundo é digno de
elogio e de louvor. Assim como os heróis de Homero reclamam, já em vida, a
devida honra e estão dispostos a conceder a cada um a estima que tem direito,
assim todo o autêntico feito heroico é sedento de honra” (JAEGER, 2003, p. 68).
Como se vê, Homero enaltece e louva a atitude heroica, porque esta é digna
de honra, de forma que o herói passa a constituir o ideal de homem para o
grego em geral. As palavras de Homero ecoaram por toda a história helêni-
ca, transformando-o num educador de toda a Grécia. E a educação homérica
baseava-se justamente na educação do herói, de sua honra e coragem, da sua
nobreza de espírito ao deixar-se guiar pelas virtudes e atitudes de louvor, que
somente o homem ativo e criador é capaz de realizar, ao contrário do herói
passivo, que somente deixa viver, conforme foi citado anteriormente. Jaeger,
ao comentar a proposta pedagógica de Homero, assinala que “[...] os mitos e
as lendas heroicas constituem um tesouro inesgotável de exemplos e mode-
16
Na mitologia grega
eram as três Parcas, di-
vindades do mundo dos
mortos, governado por
Hades, que favam o des-
tino dos homens, e a qual-
quer momento poderiam
extinguir a vida de qual-
quer mortal, bastando
que para isso cortassem
determinado fo.
17
A preocupação com
o destino e com a ordem
imanente do Universo
inspiraria vários fenôme-
nos sociais e religiosos no
mundo grego, como as fa-
mosas sentenças do Orá-
culo de Delfos, a religião
dos Mistérios de Elêusis e
a seita órfca. Era comum
a compreensão de que
havia uma ordem natu-
ral, na qual nem homens
nem deuses poderiam
escapar. O espírito grego
aspirava a compreender
essa realidade. Relembre-
mos, também, que tanto
Platão como Aristóteles
situavam a máxima felici-
dade na contemplação da
realidade, no pleno enten-
dimento do mundo.
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32
Introdução ao pensamento flosófco
los da nação, que neles bebe o seu pensamento, ideais e normas para a vida”
(JAEGER, 2003, p. 68)
Esse ideal de herói se tornaria, posteriormente, uma espécie de lei para o
cidadão grego, pois a poesia e o mito, antes mesmo da lei, foram as primei-
ras manifestações da educação. Antes mesmo de o membro da polis obe-
decer o Direito, ele já havia se habituado a cultivar-se no ideal de homem
difundido pela poesia homérica, que tem na ira de Aquiles sua mais alta
representação.
A Ilíada celebra a glória da maior aristeia da guerra de Troia, o triunfo de Aquiles sobre o
poderoso Heitor, em que a tragédia da grandeza heroica votada à morte se mistura com
a submissão do homem ao destino e às necessidades da sua própria ação. É o triunfo do
herói, não a sua ruína, que pertence à autêntica aristeia.

(JAEGER, 2003, p. 75)
E é nessa ação ousada e deliberada, de colocar a própria vida em risco
para elevar-se à glória heroica, em que consiste toda a força educadora da
Ilíada. Os gregos não viam em Aquiles um herói comum, realizador de gran-
des feitos mas que perece no ato de tentar mais uma ação, mas o mais nobre
dos heróis, aquele que é capaz de antecipadamente saber que o maior dos
feitos exige também o maior dos sacrifícios. E é essa moral, centrada essen-
cialmente na fgura heroica, no Aquiles da Ilíada homérica, que consolida-
rá historicamente o ideal de homem da cultura grega. A moral grega não
estava preocupada com o cidadão comum, desejante tão somente de uma
vida prazerosa e tranquila, como teria sido a vida de Aquiles, mas a do herói,
e mais do que o herói, aquele herói que é capaz de entregar a própria vida
pelo ato heroico. Pátroclo não morreu devido à luta, mas à ociosidade de
Aquiles; é na luta e na realização que se situa a ação heroica.
O heroísmo e o destino do herói ligado à morte
18
revelam ainda outro
traço marcante de Homero, que infuenciaria o pensamento grego em geral:
a ideia de uma lei superior e universal. Há um ritmo uniforme, permanente,
em que todo o movimento se realiza por ação própria, e nisso entram as
ações de homens e deuses, heróis e não heróis, trata-se de uma lei maior
que governa a vida em geral, e que se situa no limiar da Moral e da Ética.
Homero preenche seus poemas com temas morais e naturalistas, descreve
não somente as lutas, mas também a natureza, o cenário dos episódios, e
a passagem dos tempos, demonstrando que além das façanhas humanas
existe um limite imposto por uma lei universal. E dentro desse limite situa-se
a Ética, como ciência que estuda a conduta humana.
Para Homero, como para os gregos em geral, as últimas fronteiras da Ética não são
convenções do mero dever, mas leis do ser. É na penetração do mundo por esse amplo
18
Contudo, há uma pas-
sagem importante na
Odisseia, de um diálogo
entre Ulisses e a psykhé
de Aquiles no mundo
dos mortos. Nesse trecho,
constante no Canto XI, a
sombra de Aquiles decla-
ra, quase num alento de
saudade, que as honras e
lembranças dos grandes
feitos só possuem valida-
de entre os vivos, e tudo
não passaria de sombras
entre os mortos. Por esse
pensamento, qualquer
vida, ainda que miserável,
poderia ser entendida
como superior à morte.
Seria preferível uma vida
longa e sem glórias a um
reinado no mundo dos
mortos. Tal interpretação
modifcaria a visão de um
Aquiles resoluto por uma
vida trágica. (ASSUNÇÃO,
Teodoro Rennó. Ulisses
e Aquiles repensando a
morte – Odisseia, XI, 478-
491 v. Revista Kriterion,
44, n. 107, jun./2003.)
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Introdução ao pensamento flosófco
33
sentido da realidade, em relação ao qual todo “realismo” aparece como irreal, que se
baseia a força ilimitada da epopeia homérica. (JAEGER, 2003, p. 78)
Há uma ligação do humano com o divino que permeia os poemas homé-
ricos, tanto nas inúmeras interferências dos deuses na Guerra de Troia como
nas inspirações provocadas por Atena na viagem de Ulisses. Homero não
está preocupado em invadir o mundo interior de suas personagens, explo-
rando suas emoções, mas as ações, os movimentos do mundo exterior que
constituem a realização heroica. Cada ação, mesmo a cólera de Aquiles, tem
dois lados: um humano, a motivação psicológica da personagem, e outro
divino, que em geral se baseiam em vontades dos deuses ou na causa pri-
meira de tudo, a vontade de Zeus, o deus supremo. Há, portanto, uma ordem
estável, que na Ilíada chega inclusive a ser descrita na forma de concílios
entre os deuses, que, ainda que em alguns momentos se revele confituo-
sa entre as próprias fguras divinas, demonstra como além do protagonista
existe sempre uma outra ordem a julgar e decidir o futuro.
Também a Odisseia é repleta delas. Toda a saga de Ulisses é permea-
da tanto pelo dilema psicológico, a sua soberba contra os deuses, como
também pela vontade divina, de Posêidon, em prejudicar o herói. Contu-
do, nesse limiar do humano com o divino existe uma ordem que supera
inclusive tal ligação. Por exemplo, mesmo Posêidon desejando aniquilar
Ulisses por sua soberba, assim não pode fazê-lo, pois o destino do herói já
estava traçado, já estava determinado que ele deveria retornar à sua terra
natal. Nesse contexto, Posêidon poderia apenas causar-lhe mais problemas
e atrasar sua viagem.
Tal situação poderia parecer ao leitor contraditória, pois para quê Posêi-
don provocaria tantos problemas se Ulisses estava destinado a triunfar?
Porém, foi somente quando alcançou o limite de seu sofrimento existencial
é que Ulisses compreendeu que era sua soberba quem lhe provocava tantos
problemas. Ao realizar a passagem de humildade tornou-se novo homem,
mais preparado para os novos desafos. Há uma justiça superior em Homero,
que liga o humano ao divino, e inclusive apresenta consequências além dessa
dimensão. Tal Justiça surge ainda em sua mais profunda acepção, aquela em
que a Ética se preocupa com a formação do homem.
É nesse sentido espiritual, que inclusive antecipa muitas ideias da flosofa
grega em geral, que se encontra a ideia de Justiça em Homero. A justiça ho-
mérica está estabelecida num patamar elevado em que se liga o humano ao
divino, nos limites éticos da ação humana que, embora motivada a expandir-
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34
Introdução ao pensamento flosófco
-se ao infnito e à arete do herói, chega sempre a um momento que a ordem
natural e superior das coisas, a lei universal, põe um fm. A ação Ética não
pode ser separada do movimento natural do Universo, da fuidez do mundo
exterior. O homem grego cultuado por Homero é aquele que dentro desse
cenário aparentemente limitado é capaz de, através das virtudes do herói,
realizar e construir uma vida sublime. A Justiça está nesse agir ético, é uma
concepção de Justiça que se defne a partir de um ideal de homem formado
pelo cultivo das virtudes do herói, tendo a coragem como cerne. Nesse sen-
tido, a Justiça é uma virtude interna, e sua prática não é uma obediência às
leis, mas o ato de se guiar pelas virtudes éticas do herói e do ideal de homem
grego, do homem nobre.
Hesíodo
Depois de Homero houve outro grande poeta que infuenciaria bastante
a formação do ideal grego de homem justo e ético: Hesíodo. Contudo, havia
diferenças marcantes entre os dois. Hesíodo vivia em um tempo que não
era tão dourado quanto o de Homero. Se em Homero era essencial cantar
as façanhas dos heróis, em Hesíodo era mais importante cantar mensa-
gens que ajudassem o povo agricultor e trabalhador a levar uma vida mais
digna. Em Hesíodo se vê o segundo grande educador, agora não dos heróis
e nobres, mas do povo e dos cidadãos comuns. O ideal de heroísmo trazido
por Homero persiste, mas agora não revelado apenas as lutas e guerras gran-
diosas, mas também no árduo trabalho cotidiano.
De Hesíodo nos chegaram duas poesias: a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias.
A primeira narra em forma de mitos a origem genealógica dos deuses, desde
os deuses primordiais, que participaram da criação do Universo segundo a
visão religiosa da Grécia Antiga, e depois as gerações seguintes de deuses, até
os deuses olímpicos, como Zeus, Posêidon, Hades, Hera, Atena, entre outros.
Também apresenta a lenda que dá origem aos humanos: o roubo do fogo sa-
grado por Prometeu e a criação de Pandora, a primeira mulher.
Já Os Trabalhos e os Dias possui conotação bastante diversa. Aqui, é o pró-
prio poeta, falando em primeira pessoa, com o dom da palavra e da verdade
inspirados pelas Musas
19
, que procura dizer algumas verdades ao seu irmão
Perses, com quem o poeta discute alguns bens a serem distribuídos em su-
cessão. Hesíodo procura demonstrar ao seu irmão como Zeus deseja a Justi-
ça e pune os injustos, de como a Justiça está pautada na medida, e a hýbris
19
Na mitologia grega, as
Musas eram as nove flhas
da união de Zeus com
Mnemósina, que personi-
fca a Memória. Nasceram
logo após a grande vitó-
ria dos deuses olímpicos
contra os titãs, para justa-
mente cantar as enormes
façanhas dos vencedores.
“As musas são apenas as
cantoras divinas, cujos
coros e hinos alegram
o coração dos Imortais,
já que sua função era
presidir ao pensamento
sob todas as suas formas:
sabedoria, eloquencia,
persuasão, história, mate-
mática, astronomia. Para
Hesíodo, são as Musas
que acompanham os reis
e ditam-lhes as palavras
de persuasão, capazes
de serenar as querelas e
restabelecer a paz entre
os homens. (BRANDÃO,
Junito. Dicionário Mítico-
Etimológico. 2. ed. Petró-
polis: Vozes, 1997. v. II. p.
150-151.)
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Introdução ao pensamento flosófco
35
(excesso) é aquilo que os deuses não aceitam. O poeta também fala a seu
irmão do valor do trabalho, que representa a vitória pessoal dentro de um
caminho honesto. Tudo isso traz o poeta através de relatos míticos: as duas
lutas, Prometeu e Pandora, e o mito das cinco raças.
É, portanto, em Os Trabalhos e os Dias que concentraremos os nossos es-
tudos, sobretudo na importância que o poeta dedicou às categorias justiça
e trabalho, e como elas se entrelaçam numa conotação pedagógica para seu
povo.
Em Hesíodo revela-se a segunda fonte de cultura: o valor do trabalho. O título de Os
Trabalhos e os Dias dado pela posterioridade ao poema rústico didático de Hesíodo,
exprime isso perfeita, mente. O heroísmo não se manifesta só nas lutas em campo aberto,
entre os cavaleiros nobres e seus adversários. Também a luta silenciosa e tenaz dos
trabalhadores com a terra dura e com os elementos tem o seu heroísmo e exige disciplina,
qualidades de valor eterno para a formação do Homem. Não foi em vão que a Grécia
foi o berço de uma humanidade que põe acima de tudo o apreço pelo trabalho. A vida
despreocupada da classe senhorial em Homero não deve induzir-nos em erro: a Grécia
exige dos seus habitantes uma vida de trabalho. (JAEGER, 2003, p. 85)
Hesíodo centra seus esforços na formação do cidadão comum, o cida-
dão de seu tempo, ligado a uma época ainda agrária da história helênica. A
região grega não possui um solo rico, os benefícios que se podem tirar dele
somente surgem se arrancados mediante o trabalho árduo, uma verdadeira
luta do homem com a natureza. Hesíodo narra a “idade do ferro”, um período
distante dos tempos dourados, e que em sua passagem cronológica teve
como resultado a “subversão do direito, da moral e da felicidade humana nos
duros tempos atuais”(JAEGER, 2003, p. 87). A passagem da história das cinco
idades do mundo, que Hesíodo narra em Os Trabalhos e os Dias, revela esse
sentimento pessimista que tem na idade do ferro seu ápice.
20
Existiram cinco
raças de humanos: a raça de ouro, a raça de prata, a raça de bronze, a raça dos
heróis e a raça de ferro. Cada raça possui uma vida mais breve e mais sofrida,
mais abalada pelas misérias do mundo do que a raça anterior.
Ainda assim, esses camponeses a quem Hesíodo se dirigia de modo algum
devem ser confundidos com sujeitos incultos. Na Grécia hesiódica, em particu-
lar a Beócia, região onde vivia o poeta, ainda não existiam as grandes metrópo-
les. As cidades eram ainda bastante rurais, o que não impediu que a população
já cultivasse o espírito político, ético e jurídico. Na região da Beócia os cidadãos
reuniam-se em grande número nas cidades para discutir as questões políticas,
e impedir a opressão das classes mais elevadas da sociedade. Exemplo disso
está no poema de Hesíodo, em que o autor critica severamente o seu irmão
Perses, que entregava a vida à preguiça, à inveja e às reclamações.
21
20
Um rápido resumo das
cinco raças é importante
também para compreen-
der a diferença de “eras”
que Hesíodo via na sua era,
em comparação àquela
narrada por Homero. A
primeira raça é a de ouro,
nela os homens viviam
com os deuses, e por isso
não conheciam miséria
nem dor. A segunda raça
é a de prata, bastante
inferior à primeira, pois
aqui os homens vivem
100 anos como crianças
junto às mães, e logo
quando alcançam a ado-
lescência morrem porque
não conseguem conter
a louca hýbris dentro de
si, o excesso provocado
pelas paixões arrebatado-
ras. A terceira raça é a de
bronze, dedicada às prá-
ticas de guerra e à violên-
cia; trabalham o bronze
na confecção de armas,
e vivem e morrem lutan-
do; a quarta raça é a dos
heróis, dos semideuses,
que perecem como heróis
mas depois suas almas
habitam tranquilas a Ilha
dos Bem-Aventurados;
aqui se situam os heróis
da Ilíada, por exemplo, e
por isso a poesia homérica
situa-se nessa era; por fm,
a quinta raça é a do ferro,
aquela em que vive Hesío-
do, quando os homens
são obrigados a trabalhar
durante toda a vida para
não morrerem de fome
e miséria. (LAFER, Mary
de Camargo Neves. Co-
mentários. In: HESÍODO.
Os Trabalhos e os Dias.
Tradução de: LAFER, Mary
de Camargo Neves. São
Paulo: Iluminuras, 1996.
p. 79-80.)
21
Vejamos um trecho
de Hesíodo: “trabalha, ó
Perses, divina progênie,
para que a fome te de-
teste e te queira a bem
coroada e veneranda De-
méter, enchendo-te de
alimentos o celeiro; pois a
fome é sempre do ocioso
companheira; deuses e
homens se irritam com
quem ocioso vive”. (HESÍ-
ODO. Os Trabalhos e os
Dias, p. 45.)
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36
Introdução ao pensamento flosófco
Em outra passagem, não menos incisiva, o poeta denuncia os corruptos
juízes de seu tempo, utilizando-se de uma fábula, a do gavião e do rouxinol.
Essa fábula abre a seção de seu texto intitulada “A Justiça”:
Agora uma fábula falo aos reis mesmo que isso saibam. Assim disse o gavião ao rouxinol
de colorido colo no muito alto das nuvens levando-o cravado nas garras; ele miserável
varado todo por recurvadas garras gemia enquanto o outro prepotente ia lhe dizendo:
“Desafortunado, o que gritas? Tem a ti um bem mais forte; tu irás por onde eu te levar,
mesmo sendo bom cantor; alimento, se quiser, de ti farei ou até te soltarei. Insensato quem
com mais fortes queira medir-se, de vitória é privado e sofre, além de penas, vexame.
(HESÍODO, 2002, 9. 39-40)
É uma crítica feroz de Hesíodo, que tornando-se porta-voz de seu tempo
denuncia a opressão que vivia grande parte da população diante daqueles
que mantinham os poderes políticos e econômicos. A denúncia é pontual,
direta aos corruptos. Tal crítica não pode ser resumida a uma classe da comuni-
dade, mas a todos aqueles indivíduos que detêm mais poder e representação,
sejam posições sociais, jurídicas, econômicas, políticas, e por essa vantagem se
aproveitam e brincam com as vidas dos demais indivíduos tal como o gavião
brinca com o rouxinol. Outra mensagem importante nessa citação é que Hesí-
odo aconselha a não medir-se com aqueles considerados mais fortes, pois se
assim como o rouxinol nada pode fazer com o gavião, um homem comum só
tem a perder se decidir enfrentar alguém de maior poder e infuência social.
Hesíodo reprova o caminho dos confitos e das intrigas, e aconselha a todos a
percorrerem o caminho do trabalho, que é mais digno, honesto, e os frutos são
merecidos, pois são conquistados pelo próprio esforço e mérito, e não exige a
necessidade de se medir com indivíduos mais poderosos.
O leitor percebe então como a Ética de Hesíodo distancia-se da ética ho-
mérica por tentar situá-la num plano mais terreno, material, diferente da gran-
diosidade da Ilíada e da Odisseia, que buscam um ideal elevado de homem,
talvez difícil de ser alcançado. O ideal de Hesíodo relaciona-se diretamente
à situação histórica de seu povo, tem efeitos práticos imediatos, é a luta co-
tidiana contra o solo, contra a natureza, contra a opressão, é a luta dos cida-
dãos comuns pela aplicação do Direito. Nesse sentido, Hesíodo diferencia-se
ainda mais de Homero, sua poesia abandona a objetividade da epopeia e
encarna o ideal de seu povo, passando a defender o Direito e atacar a injusti-
ça em primeira pessoa.“Em Hesíodo introduz-se pela primeira vez o ideal que
serve como ponto de cristalização a todos esses elementos e adquire uma
elaboração poética em forma de epopeia: a ideia do Direito. A propósito da
luta pelos próprios Direitos, contra as usurpações do seu irmão e a venalida-
de dos nobres, expande-se no mais pessoal dos seus poemas, “Os Erga”, uma
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Introdução ao pensamento flosófco
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fé apaixonada pelo Direito. A grande novidade dessa obra está em o poeta
falar na primeira pessoa. Abandona a tradicional objetividade da epopeia e
torna-se porta-voz de uma doutrina que maldiz a injustiça e bendiz o direi-
to. É o enlace imediato do poema com a disputa jurídica sustentada contra
o seu irmão Perses, que justifca essa ousada inovação. Fala com Perses e
dirige a ele admoestações. Procura convencê-lo de mil maneiras de que Zeus
ampara a justiça, ainda que os juízes da Terra a espezinhem, e de que os bens
mal adquiridos nunca prosperam”. (JAEGER, p. 91)
Tal como o poeta da Ilíada e da Odisseia, Hesíodo também concebe o
Direito e a Justiça como bens divinos, relacionados a Zeus, e as injustiças
terrenas como meros fatos existenciais humanos. Hesíodo se põe como in-
terlocutor das Musas, e não o autor propriamente dito, de forma que em
várias partes de seu poema acompanha-se prodigiosas preces a Zeus e ar-
gumentos tentando convencer Perses da condição divina da justiça, por ser
esta obra do senhor do Olimpo.
O fato de se pôr ainda em primeira pessoa revela esse caráter apelativo, de
compreender os Os Trabalhos e os Dias não somente como poema didático,
mas também como clamores de todo um povo por Justiça. A veemência com
que Hesíodo maldiz a injustiça e as condutas de Perses corroboram essa ideia.
Àqueles que a forasteiros e nativos dão sentenças retas, em nada se apartando do que é
justo, para eles a cidade cresce e nela foresce o povo; sobre esta terra está a paz nutriz de
jovens e a eles não destina penosa guerra o longevidente Zeus: nem a homens equânimes
a fome acompanha nem a desgraça: em festins desfrutam dos campos cultivados; a terra
lhes traz muito alimento; nos montes, o carvalho no topo traz bálanos e em seu meio,
abelhas; [...] Àqueles que se ocupam do mau excesso, de obras más, a eles a Justiça destina
o Cronida, Zeus longevidente. Amiúde pega a cidade toda por um único homem mau que
se extravia e que maquina desatinos. Para eles do céu envia o Cronida grande pesar: fome
e peste juntas, e assim consomem-se os povos [...]. (HESÍODO, 2002, p. 39-41)
Um governante corrupto, portanto, atrai sozinho toda a desgraça para
o seu povo, pois pratica atos injustos que são odiados por Zeus. Hesíodo
pontua aqui a responsabilidade maior dos líderes, que por representarem in-
teresses de toda uma população não devem pensar somente em si mesmos,
mas na coletividade, pois o fracasso dele é também fracasso de muitas outras
pessoas. Hesíodo lamenta ter nascido em um momento histórico em que
vigora unicamente o direito do mais forte, e não a justiça em seu sentido
pleno e divino.
Essa passagem também pode ser transportada para a esfera jurídica da
contemporaneidade, como crítica aos juízes que não exercem suas profs-
sões com a devida ética que deles se espera. Em muitos casos impera o di-
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Introdução ao pensamento flosófco
reito do mais forte, dos juízes que, comandando o Direito, fazem da Justiça
um instrumento para alcançar seus interesses e satisfações. O gavião não
está preocupado com a vida e destino do rouxinol, assim como muitos juízes
não se interessam pela vida das partes as quais chegam até ele querendo
resolver um confito. Essa atitude autoritária reduz o Direito a um simples ins-
trumento, longe de sua antiga acepção divina e nobre que tanto sustentou
Homero ao enaltecer as virtudes do herói. Salienta-se, porém, que o objetivo
de Hesíodo é pedagógico, é demonstrar a fraqueza do Direito de seu tempo,
ensinando aos indivíduos comuns como interagir no processo judicial, e ten-
tando romper com o autoritarismo dos juízes e senhores do poder.
Ainda na temática Justiça, Hesíodo trabalha a questão do Direito na ideia
de um processo. Nesse sentido, a luta divina dos heróis em Homero converte-
-se na luta pelo Direito em Hesíodo, representada na forma do processo.
Porém, a luta divina em Hesíodo é diferente daquela em Homero, no que con-
cerne à participação dos deuses nos grandes eventos. Pois se na Ilíada e na
Odisseia os deuses faziam intervenções no decorrer da história, favorecendo
esse ou aquele personagem, Hesíodo se limita a rogar a Zeus para que se faça
a justiça, pois sua condição humana, pertencente à raça de ferro, não lhe ga-
rante acesso a esse nível de conhecimento, o das ações e intenções divinas. Os
heróis podiam recorrer e pedir auxílio aos deuses, os homens da raça de ferro
não, por se situarem numa posição inferior, se comparada às raças anteriores.
Entretanto, a ação judicial também pode ser compreendida como um con-
fito divino. Ainda que de fato um processo não receba dos deuses a mesma
atenção que merece uma epopeia, a ação judicial envolve a aplicação humana
da Justiça, ou seja, a aplicação daquilo que deseja Zeus para os humanos. A
poesia desenvolve-se na história de um processo resultante de uma herança,
em que Perses, após subornar o juiz, consegue contrair para si mais da metade
dos bens a que tinha direito. Hesíodo desfere severas críticas a Perses, devido à
sua cobiça, assinalando ainda que o único caminho aceitável para a obtenção
de riquezas é pelo trabalho. “O trabalho é, de fato, uma necessidade dura para
o Homem, mas uma necessidade. E quem por meio dele provê sua modesta
subsistência recebe bênçãos maiores do que aquele que cobiça injustamente
os bens alheios” (JAEGER, 2003, p. 93). O trabalho não constitui por si só uma
benção, mas seus resultados consentem realização e paz. Ainda que árduos e
cansativos, é somente pelo trabalho que o homem pode conquistar seus bens
sem ferir a justiça divina implementada por Zeus. Esse caráter aparentemente
contraditório, de sofrimento de um lado e tranquilidade de outro, revela-se
em Hesíodo também de forma religiosa e mítica, através do mito de Prome-
teu. Para Hesíodo, o sofrimento advindo do labor não pode ser algo natural ao
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homem, pois a dor e o sofrimento não condizem com a natureza divina, nem
com a ordem das coisas. Sendo assim, o trabalho e o sofrimento só podem ter
surgido em algum dado momento da história da humanidade.
Hesíodo aplica a forma “causal” de pensar, própria da Teogonia, à história de Prometeu,
nos Erga, e aos problemas éticos e sociais do trabalho. O trabalho e os sofrimentos devem
ter aparecido algum dia no mundo. Não podem ter feito parte, desde a origem, da ordem
divina e perfeita das coisas. Hesíodo assinala-lhes que encara do ponto de vista moral.
Como castigo, Zeus criou a primeira mulher, a astuta Pandora, mãe de todo o gênero
humano. Da caixa de Pandora saíram os demônios da doença, da velhice, e outros males
mil que hoje povoam a Terra e mar. (JAEGER, 2003, p. 85)
Como se percebe, o sofrimento provocado pelo trabalho advém desse
fato anterior cometido, que possui também relação com o mundo jurídico
– o roubo do fogo sagrado cometido por Prometeu. É devido a esse espírito
religioso que o trabalho recebe a conotação de ser exaltado; para o homem
comum trabalhar não signifca somente o árduo esforço de se livrar de uma
vida preguiçosa e desviante, mas também vivenciar a humildade dos mor-
tais perante os deuses do Olimpo. Aqui clareia-se ainda mais o ideal peda-
gógico da poesia hesiódica. O primeiro mito narrado nos Erga, a narração
das cinco idades do mundo, com suas cinco raças, demonstra o processo de
degeneração do homem através dos tempos, passando de uma raça feliz e
sem a necessidade de recorrer ao trabalho até a raça de ferro, a humanidade
do período em que vive Hesíodo. Esse mito depois é seguido pelo mito de
Prometeu, que narra o início do trabalho e do sofrimento do homem.
Como síntese, então, Hesíodo vê o trabalho como uma condição sofrida
e árdua aos humanos, mas que é a única via aberta pelos deuses à rique-
za justa. Aquele que enriquece pelo próprio esforço é agraciado por Zeus,
aquele que procura enriquecer com base na injustiça é desgraçado pelo
senhor dos deuses. Concluindo essa análise, fnal da primeira parte da obra:
Não faças maus ganhos, maus ganhos granjeiam desgraça.
Ama a quem te ama e frequenta quem te frequenta;
Dá a quem te dá e a quem não te dá, não dês.
Ao que dá se dá e ao que não dá, não se dá.
Doar é bom, roubar é mau e doador de morte;
Pois o homem que dá de bom grado, mesmo doando muito,
Alegra-se com o que tem e em seu ânimo se compraz.
Confando na impudência, quem para si próprio furta,
Mesmo sendo pouco, deste se enrijece o coração,
Pois se um pouco sobre um pouco puseres
E repetidamente o fzeres logo grande fcará.
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Introdução ao pensamento flosófco
Quem acrescenta ao que já tem ardente fome afastará;
O armazenado em caso desassossego ao homem não traz;
Melhor é o de casa, o de fora danoso é.
Bom é pegar do que se tem; para o ânimo é provação
Precisar do que não há; convido-te a nisto pensar!
[...]
Facilmente imensa fortuna forneceria Zeus a muitos:
Quanto maior for o cuidado de muitos, maior o ganho.
Se nas entranhas riqueza desejar teu ânimo,
Assim faze: trabalho sobre trabalho trabalha.

(HESÍODO, 2002, p. 49-51)
Implicações de Homero e Hesíodo
para o mundo do business
Nos poemas homéricos pode-se encontrar diversos exemplos de pers-
pectivas de conhecimentos, habilidades e atitudes que possam implicar con-
tribuições para o mundo empresarial. Os personagens da Ilíada e da Odisseia
são ricas fontes para análises nesse sentido. Já foi comentado como Homero
louva o heroísmo de seus personagens, como enaltece a coragem e as ações
grandiosas, a capacidade de realizar grandes empreendimentos. Agamem-
non, por exemplo, na Ilíada incorpora a fgura do verdadeiro líder, aquele
que é capaz de unir os vários lados de uma equipe, que é capaz de aprovei-
tar ideias dos companheiros e estimulá-los a darem o melhor de si mesmos.
Quando os gregos encontravam-se divididos entre a vontade de lutar de
Ulisses e a retirada de Aquiles, acometeu-se o temor a todos os guerreiros de
que não poderiam vencer os troianos sem a ajuda de Aquiles. Agamemnon é
a racionalidade que não se deixa abater pelos maus momentos, é ele quem
reúne os guerreiros e encoraja-os a seguirem lutando. Todo líder empresarial
deve ter essa postura de Agamemnon, pois as crises e os momentos difíceis
para a empresa vez ou outra aparecerão, e caberá ao líder não se permitir
abater e enfraquecer a coragem dos demais colaboradores. O empresário,
ainda, deve estar atento às intrigas dentro da organização, perceber quando
um grande diretor não está querendo render aquilo que tem potencial para
oferecer, como é o caso de Aquiles, e perceber como tudo isso pode infuen-
ciar nos desempenhos gerais da empresa. O empresário deve saber estimu-
lar a todos os seus colaboradores e permanecer sempre desperto, para ante-
cipar ou resolver possíveis intrigas que dividam o grande grupo.
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Introdução ao pensamento flosófco
41
Mas o grande personagem da Ilíada é certamente Aquiles. O protagonista
inicia a história dividido em um grande dilema – não lutar e levar uma vida
medíocre como imortal por toda a eternidade, ou avançar à batalha e nela
morrer como herói. Após várias pressões de Agamemnon ele dirige-se a Troia
junto aos demais, mas a princípio não participa dos combates. É somente
quando o seu melhor amigo, Pátroclo, é morto em batalha por Heitor, que
Aquiles abandona a inércia e enfrenta os inimigos. Mais tarde morrerá, atin-
gido em seu ponto fraco, o calcanhar, contudo, sua morte sucede da forma
como esperava, como o maior herói da Ilíada. Aquiles é o ponto mais alto da
coragem heroica na Ilíada; embora todos os personagens sejam corajosos, é
ele quem a conduz a seu ponto mais sublime. A eleição de morrer por uma
causa heroica é certamente uma atitude corajosa, mas também demonstra
intemperança, o vício de não medir as consequências de cada ação.
Como também foi comentado anteriormente, na Odisseia, Aquiles, já entre
os mortos, trava um memorável diálogo com Ulisses, no qual afrma estar arre-
pendido de ter morrido, pois as lembranças heroicas e as grandes façanhas só
possuem validade entre os vivos, não no mundo dos mortos, e que uma vida
miserável e longa vale mais que uma breve e heroica. Aquiles é paradoxal, um
personagem complexo, capaz de passar de um extremo a outro sem grandes
difculdades. Da inércia completa à luta extrema, da imobilidade ao heroísmo,
e deste para o arrependimento desolador. Aquiles possui grandes virtudes que
podem ser aproveitadas pelo empresário, como sua elevada coragem, a audá-
cia de querer ser um gigante eterno, mas também possui pontos fracos que
precisam ser superados, em especial a sua intemperança, que lhe causa trans-
tornos a ponto de retirar-lhe a racionalidade na maior parte das vezes. Aquiles
não se guia pela razão, mas pelo impulso, pela emoção, e isso também foi sua
ruína. O empreendedor precisa basear-se na racionalidade medida, propor-
cional aos acontecimentos, deve entender cada momento, e decidir pela ação
que melhor cabe naquele problema. O empresário não pode ser inerte, se re-
cusando a lutar, mas também não pode se dedicar a um grande feito heroico,
se isso depois signifca sua ruína ou uma tragédia para sua organização. Não,
o business exige racionalidade, medida, cálculo, saber pontuar o que é mais
exato para cada momento.
Do lado dos troianos encontramos a fgura de Príamo, pai de Heitor, que
após ver o corpo de seu flho ser castigado durante 10 dias por Aquiles, desce
de sua fortaleza e aceita a humilhação de suplicar ao inimigo para que lhe
entregue o corpo de Heitor. Na cultura dos povos antigos, não ser sepultado
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Introdução ao pensamento flosófco
era considerado como uma maldição, e este era o grande temor de Príamo.
Aquiles concedeu ao imploro de seu adversário, signifcando em seguida um
período de trégua entre os combatentes. Isso demonstra um grande mérito
na atitude de Príamo: a humildade. Homero nos revela aqui como mesmo
em uma das mais sangrentas batalhas é possível haver o respeito e as regras
entre os exércitos inimigos. Apresenta, ainda, como é necessário também
saber negociar e por vezes até se humilhar a outrem, quando isso for preciso
para se obter algo conveniente naquela situação. A humildade também é
um ponto característico de Ulisses, na Odisseia.
A Odisseia é a saga de Ulisses, a narração de seu retorno a Ítaca depois dos
perigos atravessados em Troia. Ulisses em várias passagens demonstra hu-
mildade, pois ao reconhecer não ter muitas ideias sobre que decisões tomar
em determinadas situações, ouve seus companheiros. Ulisses não é o líder
rígido e autoritário, mas um líder que sabe usar o conhecimento dos demais.
O conhecimento, aliás, é ponto fundamental nessa história. Em várias oca-
siões, por falta de conhecimento, Ulisses tem sua viagem atrasada, causando
diversos problemas à tripulação, como ao não saber das difculdades envol-
vendo o canal no qual se encontravam os monstros Cila e Caribdes. Também
sua falta de conhecimento em relação às ilhas que se situavam entre Troia e
Ítaca lhe causaram estorvo, como ao parar no palácio de Circe. A falta de co-
nhecimento, aliada à falta de estratégia, são situações idênticas àquelas vivi-
das pelos empresários que possuem domínio técnico de algumas atividades,
ou não elaboram planejamentos consistentes a médio ou longo prazos. Não
basta vontade, coragem, atitude, é preciso ter inteligência também. Embora
Ulisses fosse homem bastante corajoso, lhe faltavam demasiados aspectos
técnicos, que se fossem diferentes certamente resultariam numa viagem de
volta muito mais rápida e tranquila.
Junto às atitudes e conhecimentos temos o terceiro termo do nosso con-
ceito de competências: a habilidade. Ulisses possuía vários saberes práticos,
quase intuitivos, que lhe possibilitavam tomar decisões urgentes de modo
funcional e exato. Um exemplo disso é a passagem pelo estreito guardado
pelas sereias. Ulisses sabia que todo homem a ouvir os lindos cantos das
sereias instantaneamente se permitem seduzir e se entregam a elas, aban-
donando a missão, e por vezes resultando na própria morte. Ainda assim, o
canto das sereias precisaria ser ouvido, sabia Ulisses, porque é nele que elas
entoariam também as palavras que descreveriam o caminho de volta para
casa. Ulisses armou um plano, ordenando que todos os homens tampassem
seus ouvidos, e somente ele pudesse ouvir. Para não se lançar junto a elas,
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mandou também que lhe amarrassem com várias e pesadas cordas junto ao
mastro. Por fm, Ulisses ouviu os cantos e permaneceu no navio, conseguin-
do as informações que necessitava. Esse é um saber prático, que chega in-
tuitivamente na hora da necessidade. O empresário precisa ter esse tirocínio
intuitivo, que ao ver o problema prontamente descobre a melhor saída para
da difculdade obter proveitos.
Por fm, outro ponto importante e que merece ser destacado em Homero
é seu respeito pelo direito positivo e pelos critérios convencionais. Ulisses
implementou instituições de direito positivo para sua ilha, de forma que ele
sabia que ao retornar poderia encontrar pretendentes para sua esposa Pené-
lope. Ulisses enfrentou esse problema com inteligência, utilizando primeiro
de disfarces, para melhor conhecer seus inimigos. Também seu flho Telê-
maco precisou conhecer as regras para evitar que os pretendentes se apro-
ximassem de sua mãe. Igualmente o empresário é obrigado a conhecer as
regras da sociedade, tanto as convencionais como aquelas próprias do direi-
to positivo, ou então terão problemas em várias questões. Não conhecer as
regras da sociedade pode signifcar erros tanto de aspectos morais, como ir
contra os costumes daquele povo, até problemas mais graves, como alguns
de ordem tributária ou trabalhista. Diversos empresários sofrem sérios abalos
fnanceiros simplesmente por desconhecerem as nuances das leis trabalhis-
tas, que possuem inúmeros casos específcos, e em geral defendem a fgura
do empregado contra o empregador.
Ulisses representa também uma ideia de justiça ligada ao herói. Ulisses
coloca a própria vida em risco constantemente, mas porque sabe que suas
vitórias sempre conduzirão a proveitos para si e para os demais.
Assim como o desconhecimento é um problema, a desatenção por pos-
suir considerável conhecimento ou domínio técnico de algo também pode
criar situações adversas. Como exemplos temos a tripulação de Ulisses, em
que uma relativa parcela dos guerreiros morrem naquilo que fazem melhor,
por não estarem concentrados o sufciente fracassam.
Também Hesíodo oferece uma série de análises que podem contribuir
com o mundo empresarial. Já foi dito nas análises ao longo do texto que o
trabalho, para Hesíodo, era também uma forma de realizar o contato entre
o homem e o mundo, que nos tempos hesiódicos signifca dizer, “fazer com
que os indivíduos de seu tempo transformassem o solo em riqueza”. Não era
a época da fartura, mas do sofrimento, da pobreza. E Hesíodo tentou incutir-
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Introdução ao pensamento flosófco
-lhes essa nova mentalidade, esse novo estilo de vida – que é pelo traba-
lho que se transforma o mundo e a si mesmo. E essa transformação não é
somente na condição econômica, mas também existencial; o indivíduo, ao
trabalhar a natureza, trabalha também o seu interior. Nesse sentido, o tra-
balho recebe uma dimensão pedagógica. Essa perspectiva revela contornos
mais evidentes ainda nos dias atuais, em que as empresas, mais até do que as
famílias, realizam a função social de educar a pessoa. Por exemplo, é na orga-
nização que o colaborador participa de diversos cursos, desde atualizações
técnicas sobre as áreas em que trabalha até de temáticas envolvendo recur-
sos humanos ou de etiqueta profssional. Ou seja, no trabalho, o indivíduo
aprende a lidar com seus dilemas, desejos, vontades, virtudes e defeitos. A
paideia hoje se faz na empresa, com as organizações ensinando seus cola-
boradores a viver melhor, a criarem hábitos mais refnados, novos estilos de
vida, e atitudes mais adequadas para o cotidiano.
E se o trabalho ajuda as pessoas a melhorarem de vida, certamente também
pode ajudar a sociedade como um todo, o mundo, a se desenvolver mais. Re-
tomando aquela ideia pedagógica de Hesíodo como o poeta de seu povo e
seu período histórico, deve-se considerar também a função social do traba-
lho, aquela de tentar criar um mundo mais equânime. No Direito se fala em
igualdade formal, aquela igualdade proveniente da Constituição Federal, que
afrma serem todos iguais perante a lei, e uma igualdade material, que seria
aquela igualdade existente na prática. Ou seja, ainda que sejamos todos iguais
perante a lei, concretamente falando isso nem sempre ocorre, tendo em vista
as enormes diferenças econômicas nas sociedades contemporâneas. A única
forma de tentar reparar essa disparidade é pelo trabalho, não pelo assisten-
cialismo. É no trabalho que a pessoa transforma a si mesma e ainda cresce f-
nanceiramente. Os empresários precisam cultivar também essa preocupação,
concebendo suas organizações como instrumentos de desenvolvimento em-
presarial, político e social, auxiliando o comunidade a dar um salto de vida.
Interessante também comparar alguns aspectos envolvendo Homero e
Hesíodo. Em Homero está mais forte o Direito ligado às questões urbanas,
como aquelas que surgem para Ulisses no retorno a Ítaca, enquanto que em
Hesíodo é mais evidente o direito rural, com a condição dos camponeses que
precisavam enfrentar problemas de corrupção e abuso de poder por parte
dos grandes proprietários de terra. Também Hesíodo se liga mais ao direito
natural, pois torna explícito a corrupção implícita que existe em vários atos
legais mas eticamente incorretos, praticados por proprietários. Tal situação,
como já dissemos, está simbolizada na parábola do gavião e do rouxinol.
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Introdução ao pensamento flosófco
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Os deuses da religião pública
e sua relação com a Filosofa
(REALE, 1993)
Estudiosos afrmaram em várias ocasiões que entre religião e Filosofa exis-
tem laços estruturais (Hegel dirá até mesmo que a religião exprime pela via
representativa a mesma verdade que a Filosofa exprime pela via conceitual):
e isso é verdade, seja quando a Filosofa subsume determinados conteúdos
da religião, seja, também, quando a Filosofa tenta contestar a religião (nesse
último caso, a função contestatária permanece sempre alimentada e, por-
tanto, condicionada, pelo termo contestado). Pois bem, se isso é verdade em
geral, o foi de modo paradigmático entre os gregos.
Mas quando se fala de religião grega é preciso operar uma nítida distinção
entre religião pública, que tem o seu mais belo modelo em Homero, e reli-
gião dos mistérios: entre a primeira e a segunda há uma divisão claríssima: em
mais de um aspecto, o espírito que anima a religião dos mistérios é negador
do espírito que anima a religião pública. Ora, o historiador da Filosofa que
se detenha no primeiro aspecto da religião dos gregos, veta a si mesmo a
compreensão de todo um importantíssimo flão da especulação, que vai dos
pré-socráticos a Platão e aos neoplatônicos, e falseia, portanto, fatalmente a
perspectiva de conjunto. E isso aconteceu justamente com Zeller e com o nu-
meroso grupo dos seus seguidores ( e, portanto, com o grosso da manualísti-
ca que por longo tempo reafrmou a interpretação de Zeller).
O estudioso alemão soube indicar bem exatamente os nexos entre religião
pública grega e flosofa grega (e sobre esse ponto nós reproduziremos as suas
preciosas observações, que continuam paradigmáticas), mas depois caiu numa
visão totalmente unilateral, desconhecendo a incidência dos mistérios, e em
particular do orfsmo, com as absurdas consequências que apontaremos.
Mas, por enquanto, vejamos a natureza e a importância da religião pública
dos gregos e em que sentido e medida ela infuiu sobre a Filosofa. Pode-se
dizer que, para o homem homérico e para o homem grego flho da tradição
homérica, tudo é divino, no sentido de que tudo o que acontece é obra dos
deuses. Todos os fenômenos naturais são promovidos por numes: os trovões e
Ampliando seus conhecimentos
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Introdução ao pensamento flosófco
os raios são lançados por Zeus do alto do Olimpo, as ondas do mar são levan-
tadas pelo tridente de Posêidon, o sol é carregado pelo áureo carro de Apolo,
e assim por diante. Mas também os fenômenos da vida interior do homem
grego individual assim como a sua vida social, os destinos da sua cidade e
das suas guerras são concebidos como essencialmente ligados aos deuses e
condicionados por eles.
Mas quem são esses deuses? São – como há tempo se reconhece acertada-
mente – forças naturais diluídas em formas humanas idealizadas, são aspectos
dos homem sublimados, hipostasiados; são forças do homem cristalizadas em
belíssimas fguras. Em suma: os deuses da religião natural grega são homens
amplifcados e idealizados; são, portanto, quantitativamente superiores a nós,
mas não qualitativamente diferentes. Por isso a religião pública grega é cer-
tamente uma forma de religião naturalista. É tão naturalista que, como jus-
tamente observou Walter Otto, “a santidade aí não pode encontrar lugar”
1
,
uma vez que pela sua própria essência os deuses não querem, nem poderiam,
elevar o homem acima de si mesmo. De fato, se a natureza dos deuses e dos
homens, como dissemos, é idêntica e se diferencia somente por grau, o homem
vê a si mesmo nos deuses, e, para elevar-se a eles, não deve de modo algum
entrar em confito com ele mesmo, não deve em nenhum sentido morrer em
parte a si mesmo; deve simplesmente ser si mesmo.
Portanto, como bem diz Zeller, o que a divindade exige do homem “não é
de modo algum uma transformação interior da sua maneira de pensar, não
uma luta contra as suas tendências naturais e os seus impulsos; porque, ao
contrário, tudo isso, que para o homem é natural, é legítimo também para a
divindade; o homem mais divino é aquele que desenvolve do modo mais vi-
goroso as suas forças humanas; e o cumprimento do seu dever religioso con-
siste essencialmente nisso: que o homem fala, em honra da divindade, o que
é conforme com a sua natureza”
2
.
Assim como foi naturalista a religião dos gregos, também “[...] a sua mais
antiga Filosofa foi naturalista; e mesmo quando a Ética conquistou a preemi-
nência [...], a sua divisa continuou sendo a conformidade com a natureza”
3
.
Isso é indubitavelmente verdadeiro e bem estabelecido, mas ilumina
apenas uma face da verdade.
Quanto Tales disser que “tudo está cheio de deuses”, mover-se-á, sem
dúvida, em análogo horizonte naturalista: os deuses de Tales serão deuses de-
1
W. F. Otto. Die Götter
Griechenlands, Frankfurt
AM Main 1956; trad. Ital.
Florença 1941 (Milão
1968), p.9.
2
Zeller-Mondolfo, I, 1, P.
105.
3
Zeller-Mondolfo, I, p. 106.
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Introdução ao pensamento flosófco
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rivados do princípio natural de todas as coisas (água). Mas quando Pitágoras
falar de transmigração das almas, Heráclito, de um destino ultraterreno das
almas, e Empédocles explicar a via da purifcação, então o naturalismo será
profundamente lesionado, e tal lesão não será compreensível senão remeten-
do-se à religião dos mistérios, particularmente ao orfsmo.
Mas antes de dizer isso, devemos ilustrar outra característica essencial da religião
grega, determinante para a possibilidade do nascimento da refexão flosófca.
Os gregos não possuíam livros tidos como sagrados ou fruto de divina re-
velação. Eles não tinham uma dogmática teológica fxa e imodifcável. (Nessa
matéria, as fontes principais eram os poemas homéricos e a Teogonia de Hesí-
odo). Consequentemente, na Grécia não podia haver sequer uma casta sacer-
dotal que custodiasse os dogmas. (Os sacerdotes na Grécia tinham um poder
muito limitado e uma escassa relevância, uma vez que, além de não terem a
tarefa de custodiar e comunicar um dogma, não tinham nem mesmo a exclu-
sividade de ofciar os sacrifícios).
Ora, a falta de um dogma e de guardiões dele deixou a mais ampla liber-
dade à especulação flosófca, a qual não encontrou obstáculos de caráter
religioso semelhantes aos que se encontrariam entre os povos orientais, dif-
cilmente superáveis. Justamente por isso os estudiosos destacam essa fortu-
nosa circunstancia na qual se encontraram os gregos, única na antiguidade e
cujo alcance é de valor verdadeiramente inestimável.
Atividades de aplicação
1. Em Homero todos os personagens recebem contornos heroicos, no
sentido de que uma vida ativa, ainda que de riscos, é mais válida que a
vida passiva. Relacione essa questão às problemáticas atuais, refetin-
do sobre o papel do cidadão de hoje na sociedade.
2. Para Homero, ainda que os personagens sejam em geral heróis, ca-
pazes de realizações sobre-humanas, é notável a presença do destino
como limite divino às ações em batalha. Refita sobre a existência em
geral: existe um limite no potencial de cada um dado por uma condi-
ção natural?
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Introdução ao pensamento flosófco
3. Hesíodo trabalha outro período da história grega, a qual caracteriza-
-se pela difícil luta diária dos trabalhadores com a terra dura. Analise o
papel pedagógico da poesia hesiódica.
4. Aborde a problemática jurídica em Hesíodo, principalmente no ponto
em que ele apresenta o juiz como um tirano que se diverte com a vida
das partes envolvidas no processo. Aproveite para refetir sobre o pa-
pel do juiz como educador e protagonista social.
Gabarito
1. O cidadão atual tende a levar uma vida sem grandes participações
políticas e sociais, preferindo a passividade. Comparando com o herói
Aquiles, em geral as pessoas se recusariam a entrar na batalha quando
soubessem dos riscos. Essa passividade gera redução de criatividade,
e por consequência do desenvolvimento do potencial.
2. Não há um limite para realizações humanas, depende da vontade pos-
ta e do desenvolvimento do potencial de cada indivíduo. Contudo, a
natureza, ou os deuses, na visão homérica, deu potencial diferente a
cada um. O potencial heroico em Homero é justamente desenvolver e
realizar o máximo possível dentro desse limite imposto pelos deuses.
Nesse sentido, cada pessoa deve buscar realizar o máximo que pode
tirar de si mesma.
3. Hesíodo como mestre educador de seu povo se revela justamente
nessa decisão de tratar não dos heróis e das eras douradas distantes,
mas do aqui e agora, da realidade social e cultural de seu tempo. Todo
educador deve saber se reportar aos clássicos, aos grandes mestres da
cultura, mas ao mesmo tempo compreender a passagem que é neces-
sária para a realidade de seus alunos. Hesíodo não é menos importante
que Homero por ter trabalhado temáticas de menor grandiosidade.
4. Hesíodo apresenta o juiz como tirano, utilizando-se inclusive da pa-
rábola do gavião e do rouxinol, quando o primeiro brinca com a vida
do segundo. Percebe-se como a atividade judiciária sem preocupa-
ção com o social já existia na Grécia Antiga. O juiz é protagonista so-
cial, por carregar o poder das leis tem o dever de promover a justiça
sempre em função do desenvolvimento do humano. Na atualidade,
percebe-se cada vez mais a necessidade de se preparar eticamente os
juízes, para que se conscientizem da enorme missão que carregam. O
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Introdução ao pensamento flosófco
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operador jurídico na Grécia era sobretudo um educador de seu povo,
e assim deveria sê-lo também hoje.
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