Para esta edição foram escolhidas imagens aleatórias para serem usadas como temas nos contos da revista, que então foram sorteadas entre os autores. Simples assim, porém muito instigante... E não se esqueça: você pode participar da quarta edição da revista Black Rocket. Veja mais informações no nosso site black-rocket.blogspot.com e no anúncio no final desta edição. Boa leitura!

2 O MERCENÁRIO E O ABISMO

Editorial Artigos:
Revista de Ficção Científica
Número 02 - Novembro 2008 Dois exemplos de FC Hard Brasileira e O Homem que viu o Disco Voador Edgar Indalecio Smaniotto

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Coordenador e Editor

CHARLES DIAS
charlesdias@gmail.com

Um Drinque para o Inferno
Aguinaldo Peres 12

Revisão

BIA NUNES DE SOUSA
bcnsousa@terra.com.br cascodatartaruga.blogspot.com

Ouro de Tolos
Carlos Relva 20

Editoração

CARLOS RELVA
carlosrelva@gmail.com www.carlosrelva.com

As Sementes da Destruição
Charles Dias 32

Para contatar os autores
Aguinaldo Peres
aiperes@sti.com.br

Rastreabilidade
Joshua Falken 48

Carlos Relva
carlosrelva@gmail.com

Um Sério Estudo Sobre o Riso
Leonardo Carrion 58

Charles Dias
charlesdias@gmail.com

Joshua Falken
richterwinsock@gmail.com

O Legado
Ubiratan Peleteiro 78

Leonardo Carrion
leocarrion@hotmail.com

Marcelo Jacinto Ribeiro
spit_mkv@yahoo.com.br

A Herança
Marcelo Jacinto Ribeiro 86

Marcos Vilela
maxjedai@yahoo.com.br

Traidores diante de um espelho
Marcos Vilela 92

Pablo Casado
pcasado@gmail.com

Ubiratan Peleteiro
upeleteiro@yahoo.com.br

Posto 7
Pablo Casado 98 3

que estará muito boa. Sentimos muita falta de receber comentários dos leitores no número anterior. Isso tudo é muito bom porque deixa clara a solidez da Black Rocket e o comprometimento da equipe que a criou. Além disso. de um simples grupo de escritores. Portanto. Confesso que tive uma agradável surpresa quando todos responderam positivamente ao meu convite. pois é através dos comentários que sabemos o que está dando certo e o que precisa ser melhorado na revista. A dica é para que vocês não percam a Black Rocket 3 – Especial de Natal. passássemos a ser uma equipe! Hoje. um convite e um pedido. infelizmente raro no meio literário amador brasileiro. Isso fez que. a equipe de autores da Black Rocket já está comprometida com o terceiro e o quarto números da revista. mais uma vez. seja um leitor legal e nos envie seu comentário! Charles Dias Coordenador e Editor charlesdias@gmail. tudo definido e todos escrevendo. pensava. “Será que os autores do primeiro número quererão escrever para o segundo?”. Veja os detalhes na última página da revista. O pedido é para que vocês dediquem cinco minutinhos do seu tempo para nos enviar suas impressões da nova Black Rocket. já tinha imaginado o próximo número e somente um detalhe muito importante me incomodava.com 4 . neste número contamos com a participação de três autores leitores da revista que atenderam a nossa chamada para submissão de contos e enviaram histórias muito boas. Esses são ingredientes fundamentais para que um projeto de longo prazo tenha sucesso. Termino com uma dica. Após o lançamento da primeira Black Rocket. O convite é para que vocês não deixem de considerar seriamente a possibilidade de participar de nossa nova chamada de autores para a Black Rocket 4. Será lançada em meados de dezembro.EDITORIAL De novo. novamente.

O MERCENÁRIO E O ABISMO 5 .

já que o romance apresenta as complicações da colonização espacial como problemas a serem solucionados pela ciência. pois recorre a ciências naturais e matemáticas (química. recorrendo assim ao campo das ciências humanas (filosofia. Se o autor recorre principalmente ao campo da cultura humana que busca estudar e compreender a natureza. política.). Para tal. ele escreve ficção científica HARD (pesada). dirigíveis lançados a partir de Afrodite fariam a semeadura de fitoplâncton na superfície do planeta. De Roberto Schima. o conto Os Fantasmas de Vênus. Afrodite. psicologia. Na história. física.). Mas. biologia.ARTIGO Dois exemplos de FC Hard brasileira Por Edgar Indalecio Smaniotto* Entre várias das subdivisões possíveis que podemos fazer dentro da literatura de ficção científica. etc. se o autor recorre ao campo da cultura humana que busca entender a complexidade do próprio ser humano e as relações deste com sua própria espécie ou consigo mesmo. uma das clássicas de que podemos nos utilizar é aquela que divide esse gênero literário entre ficção científica HARD e SOFT. etc. é uma narrativa que se enquadra no subgênero da ficção científica hard. uma cidade espacial com cerca de 4 mil habitantes é instalada na órbita de Vênus com a missão de “terraformizar” o planeta. estudaremos duas obras brasileiras (um conto e uma noveleta) de ficção científica hard por considerarmos que são textos cientificamente alicerçados ao mesmo tempo em que mantêm uma narrativa de qualidade ímpar. esperando que num período de trezentos anos dotassem a atmosfera de Vênus com nível de 6 EDGAR INDALECIO SMANIOTTO . ele faz ficção científica SOFT (leve). astronomia. antropologia. Bons exemplos para novos escritores que pretendam escrever dentro deste subgênero. Nessa proposta de divisão. Neste artigo. levamos em consideração o arcabouço cultural ao qual o autor recorre para sustentar sua narrativa.

Por fim. Mas Lodi-Ribeiro não entra em maiores detalhes sobre essas raças. estes escritores não vêem nada de errado em impor a paisagem terrestre a planetas alienígenas. era um ser gasoso – parecia gás – e o oxigênio é mortal para todos eles. ao concluir a leitura.oxigênio suficiente para permitir a colonização. sim. o suporte de oxigênio falha. Ginway (2005) não deixa de observar que na ficção científica norte-americana “terraformizar” um planeta não DOIS EXEMPLOS DE FC HARD BRASILEIRA 7 . 1993. Flutuam por entre a neblina do planeta. parte se dissolveu e outra fugiu. Seu objetivo é nos apresentar o primeiro contato entre os humanos e a raça dos Ilianos. mas sim de alienígenas venusianos. enquanto quatro outras raças alienígenas são contatadas. de Gerson Lodi-Ribeiro.. em permanente agitação. passíveis de colonização.... Tomás descobre que o planeta seja habitado. respirando gás sulfídrico e liberando ácido sulfuroso. não em sua superfície. Em geral. No decorrer da narrativa. Lodi-Ribeiro faz uma descrição minuciosa dessa raça: são ilianos heterótrofos. Por isso destruíram os sistemas de semeadura. os relâmpagos e o clarão do lado noturno não farão parte de um único ser! Atuariam como neurônios de um cérebro inconcebível. são enviados o engenheiro de computação Miguel.. A critica de Schima se refere à colonização propriamente dita de Vênus. Schima busca criar alienígenas perfeitamente plausíveis para o meio ambiente venusiano. os seres humanos alcançam tecnologias surpreendentes de viagem espacial. Os venusianos vivem na estratosfera. Apenas três mundos parecidos com a Terra são descobertos sem habitantes. com os Descobrimos então que não se tratava de fantasmas. talvez elas sejam uma forma de vida que se camufla no meio ambiente. formar uma imagem bem precisa desses seres extraterrestres. É uma interessante descrição de uma biologia extraterrestre. o universo se mostra um tanto hostil para os seres humanos. Outro aspecto interessante do livro são as interações realizadas entre essa espécie. como pensava Beatriz. Seu ciclo vital é composto de três estágios: larva. Ou será a própria atmosfera uma criatura viva? É. num futuro distante. Aquelas manchas. moluscóides dotados de exoesqueleto e simetria penta-axial. lutavam pela sobrevivência. todas elas. e é possível. Uma série de pequenos acidentes com o dirigível acaba por levar Beatriz à morte. um mundo dotado de florestas úmidas e luxuriantes. o que leva os três cientistas a utilizarem as algas para conseguir oxigênio. p. Quando despejei oxigênio numa delas. São também dotados de sonares orgânicos. Estranhos acidentes começam a inutilizar os dirigíveis. 61-62) tem conotações imperialistas. regeneração biológica e teletransporte. (SCHIMA. pseudovertebrados. No decorrer da história essas informações são passadas e esclarecidas de forma extremamente competente. prossegue a estudiosa. aventurando-se pelo nosso braço da Via Láctea.. adulto e ancião. possuindo tentáculos como órgãos manipuladores. Quem sabe se aquelas nuvens escuras. de volume planetário. dotada de características tão distintas das humanas. Três delas de humanóides semelhantes aos terrestres. como acreditavam antigamente. Para investigar o fato. Entretanto. o engenheiro mecânico Tomás e a bióloga Beatriz. Não. libélulas gigantes e dinossauros famintos. mas não é o caso do escritor brasileiro. Já na noveleta Quando os humanos foram embora.

Tríplice Universo. Cid. M. semelhante à Europa).São Bernardo do Campo.com 8 EDGAR INDALECIO SMANIOTTO . Contato: edgarsmaniotto@gmail. distância em UA (unidade astronômica). 1999. 2005. Referências GINWAY. Lodi-Ribeiro descreve cada mundo apresentado aos leitores: Ílion (habitado pelos ilianos. Schima se preocupa sobretudo em criticar formas imperialistas de conquista que possam alterar o meio ambiente natural e levar civilizações inteiras ao desaparecimento. São Paulo: Devir. Os Fantasmas de Vênus. Tinuvel (habitado por humanos) e o sistema de Oricterope. LodiRibeiro prefere apostar que uma civilização altamente desenvolvida não cometeria crimes contra raças menos desenvolvidas. que oferecem uma solução teórica (a hiperfísica de campo residual) para a construção de espaçonaves com velocidade superior à da luz. São Paulo: GRD. LODI-RIBEIRO. Roberto. Coleção Fantástica nº 1. trocas culturais. estudandoas numa perspectiva antropológica. Os ilianos são tecnologicamente inferiores aos humanos. A tríade de diferentes espécies é bem trabalhada pelo autor. Dados sobre atmosfera. SCHIMA. SP: Hiperespaço. Ao final da história. coberto por um manto de gelo. mas são tratados com muito respeito no decorrer do contato. * Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo. Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro. brasileiros. excentricidade orbital e outros são apresentados ao leitor. FERNANDEZ. Elizabeth. sim. Roberto. 1993. somos os agentes ativos e tecnologicamente superiores. Quando os Humanos Foram Embora. mas não são forçadas pela raça tecnologicamente mais avançada. Roberto de Sousa. Gerson. publicado pela editora Corifeu em 2007. são os ilianos. sempre com a competência de quem sabe do que está falando. CAUSO. Existem. supostamente menos desenvolvidos. Os humanos não deixam de oferecer aos ilianos todo o seu conhecimento sem maiores problemas. mestre em Ciências Sociais e doutorando do programa de pósgraduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília (UNESP). não há por parte dos humanos intenção imperialista. É autor do livro A Fantástica Viagem Imaginária de Augusto Emílio Zaluar: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira. Nestas duas narrativas verificamos a construção de histórias em que nós. clima. que explora com muita competência os problemas de comunicação e objetivos gerados pelas diferentes percepções de mundo de cada espécie.ARTIGO próprios humanos e também com inteligências artificiais. In: SCHIMA. Roberto de Sousa Causo. Trad.

Eduardo tem o primeiro contato quando verifica que os instrumentos da aeronave que pilotava estavam inexplicavelmente anormais. Num segundo vôo. da Força Aérea Norte-Americana. que dispõe sobre os procedimentos a serem tomados em caso de identificação de OVNIs. de Rubens Teixeira Scavone. Mas apenas Eduardo. O piloto não descobre a causa. de 12 de agosto de 1954. publicado em 1959. os foo fighters. mas fica curioso com o acontecido. então sobre o oceano Atlântico.RESENHA O Homem que viu o Disco Voador Uma crítica por Edgar Indalecio Smaniotto* O romance de ficção científica O Homem que viu o Disco Voador. Mais à frente. conseguem enxergar no meio da luminosidade uma estranha nave. declara-se conhecedor da Instrução nº 2002. o projeto blue book e os casos Kenneth Arnold e Thomaz Mantell. tais como o contato dos habitantes de Vênus com George Adamaski. Eduardo entra em contato com Vaugiard. Augusto-Michel Vaugiard. Vaugiard se mostra ainda um especialista O HOMEM QUE VIU O DISCO VOADOR 9 . narra o contato do comandante Eduardo Germano de Resende com um suposto disco voador. a comissária Leila e um professor universitário. que se mostra um especialista no assunto. relatando-lhe famosos casos da ufologia. Abalado pela estranha visão. o comandante e os quase 80 passageiros do quadrimotor que ele pilotava vêem um estranho fenômeno luminoso em volta do avião.

e Eduardo e Leila. importante para a boa recepção da obra. Quando tudo é revelado por Sandro. Para isso. muito semelhante ao que acontece em uma mensagem religiosa. apesar das críticas do austríaco Otto Maria Carpeaux. que termina de modo abrupto por causa da chegada de misteriosos navios de guerra (subentende-se que fossem norte-americanos) que dispararam um míssil contra o OVNI.RESENHA em análises fotográficas de OVNIs. o que deixa todos bastante aturdidos. Enovacs. segundo César Silva. Quando chegam à ilha. de Henri ToulouseLautrec (1864-1901) consegue fazer chegar às mãos do comandante Eduardo um aparelho denominado visor-transmissor. mas sim escolher um grupo de iniciados a fim de transmitir mensagens de cunho moral a respeito da necessidade do desarmamento atômico e da busca da paz mundial. Alik revela aos quatro humanos que seu povo é portador de tecnologia tão superior que facilmente poderia subjugar a humanidade. dono de um barco. Eduardo. pedem ajuda ao radiotelegrafísta Sandro. No decorrer da história. Maria de Lourdes Teixeira (mãe do escritor). seguem seu romance sem maiores problemas. o ser revelase na verdade proveniente de uma civilização subterrânea (intraterrestre). que nada revelaram de sua participação na história. um humano com certa similaridade física com um homem do quadro La goulue et Valentin le désossé. publicou primeiramente o livro com o pseudônimo anagramático de Senbur T. O livro ganhou resenha favorável da crítica e membro da Academia Paulista de Letras. Segue então a história em torno da dificuldade de se guardar segredo dos acontecimentos. tendo vendido 40 mil exemplares em diversas edições. o mais bem sucedido livro de ficção científica brasileiro. Através de uma recepção recebida do aparelho. O Homem que viu o Disco-Voador é. sabendo identificar desde falsificações tecnicamente perfeitas até fotografias verdadeiras. Vaugiard e Leila decidem se encontrar com as misteriosas entidades alienígenas na ilha marítima de Trindade. avistam bem próximo à costa um fantástico disco voador. A suposta inferioridade moral e espiritual dos brasileiros é aceita sem muitos questionamentos. Mesmo quando os moralmente superiores alienígenas atacam um avião de passagei- 10 EDGAR INDALECIO SMANIOTTO . Com o nome de Alik. feito de metal desconhecido pelos cientistas humanos. nem mesmo o intercâmbio tecnológico. aliadas logicamente ao desenvolvimento espiritual. seu objetivo não é a conquista da humanidade. Fabiana Câmara nos informa que Rubens Teixeira Scavone. promotor do Ministério Público do Estado de São Paulo. os mesmos pacíficos alienígenas intraterrenos eliminam um avião com outros 80 passageiros e tripulação para matar Sandro. Entretanto. O disco voador pousa e dele desce um ser alienígena humanóide. Alik leva então os quatro amigos para um passeio no disco voador. Notamos aqui que o papel do alienígena Alik é o de trazer uma mensagem de cunho moral a um grupo de pessoas escolhidas. Na verdade. e não extraterrestre. O professor Vaugiard cai no ostracismo. espécie de câmera filmadora e aparelho receptor de rádio em um único aparelho. O disco voador não tem dificuldade em escapar do ataque.

cujas atitudes arbitrárias os humanos não podiam compreender. passivamente. O complexo de inferioridade dos personagens principais era acentuado. Os protagonistas acabam por ver o alienígena como ele desejava ser visto. o enfrentamento estava descartado. * Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo. É autor do livro A Fantástica Viagem Imaginária de Augusto Emílio Zaluar: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira. ao superior. pensando em si mesmos como escolhidos para participarem de um evento sensacional. publicado pela editora Corifeu em 2007. frente ao que vinha de fora. um ser bom. Esta atitude passiva frente ao desconhecido e a falta de combatividade dos personagens principais nos diz muito da forma com que muitas vezes nós.ros. mesmo tendo provas materiais para confirmar seus relatos. Os personagens humanos preferem seguir suas vidas. apenas se resignar a aceitar. Contato: edgarsmaniotto@gmail.com O HOMEM QUE VIU O DISCO VOADOR 11 . Eduardo e Leila deixam o professor ser ridicularizado por querer divulgar o acontecido. matando uma centena de pessoas a fim de eliminar um único indivíduo. brasileiros. Devemos esperar apenas o reconhecimento e a submissão. mestre em Ciências Sociais e doutorando do programa de pósgraduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília (UNESP). encaramos supostos relatos ufológicos e místicos. sem reflexão ou contestação. não há qualquer contestação moral de seus atos por parte dos personagens sobreviventes. O medo dos alienígenas era superior tanto à amizade quanto ao nacionalismo.

um homem arrisca tudo em nome de uma missão muito pessoal.Um Drinque para o Inferno AGUINALDO PERES Em um mundo devastado por uma peste impiedosa. 12 .

tentou sorrir. os lábios secos. a bebida rubra tal qual sangue fresco parecia viva. um deserto de areia fria cortado pela estrada reta que levava à cidade visível no horizonte. Colocou o capacete e se dirigiu à cidade. Fazia entregas na base de mísseis de Kuznétsk e por causa disso fora convidado para assistir à chuva de meteoros na base. Seu coração batia rápido. ter como campeão um cavaleiro tão frouxo. Ivan dirigia o quadriciclo lentamente. Não era a primeira vez que se vestia para o combate. sorriso de gato. o gosto de ferro desceu rascante pela garganta. veículos danificados. você não será mais humano. O homem tomou o cálice e bebeu num gole só. O coração batia rápido. UM DRINQUE PARA O INFERNO 13 .— Vamos. no direito a submetralhadora. Quando o prazo terminar. máquinas ou animais e havia ossos limpos pelo tempo. não se ouvia pessoas. eles caíram pelo mundo. A velha se acocorou e o agarrou pelos cabelos: — Seis horas! É todo o tempo que você tem. há muito haviam desistido de lutar. a espingarda de cano curto armada no braço esquerdo. Aos poucos as cólicas iam diminuindo ao mesmo tempo em que recebia no rosto o ar fresco da madrugada. cidade negra recortada num fundo azul que começava a clarear. Pessoas assustadas saíram para as ruas buscando segurança somente para se depararem com algo muito mais terrível. Ele não os culpava. Alguns fiapos de nuvens brancas completavam o panorama desolado e silencioso de um mundo que não pertencia mais aos homens. sentia um misto de medo e ansiedade. seguindo as instruções que recebia através do sistema de localização por satélite GLONASS. a boca seca. a dor no abdômen era terrível. que engoliu em seco. apoiando-se nas paredes. sobreviventes como ele. furando telhados. — Está com medo. o quadriciclo elétrico que havia trazido do subterrâneo no dia anterior. Seus companheiros. porém desta vez estaria sozinho. beba! A velha estendeu o cálice em direção a Ivan Goranovich. a adaga presa à coxa direita. a armadura de cerâmica e malha metálica. mas não se desintegraram. afinal esta missão era um assunto pessoal. vidros espatifados. abrindo pequenas crateras. A cidade parecia ter sido abandonada após um tumulto. Ivan se pôs em pé e. subiu a escadaria em direção a superfície. Com muito esforço. pequena e cheia de vida. Quem imaginaria que aquela noite de céu estrelado marcaria o início do fim da civilização humana? Os pequenos meteoros incandescentes cortaram a atmosfera. pequenos ossos de cães e gatos e ossos maiores de seres humanos. — Dentes pequenos e pontudos. o motor elétrico zumbia no silêncio. garoto. como se demônios estivessem dilacerando suas entranhas com presas e garras. Há quatro anos ele morara naquela cidade. Ivan respirou fundo o ar fresco e começou a verificar o equipamento. — Pobre princesinha. “Como uma cidade fantasma”. A paisagem era um grande vazio. Logo caiu de joelhos sob o peso da armadura. O único sinal de vida eram as marcas recentes de pegadas humanas no pó acumulado nas ruas e calçadas. um cinturão de granadas cruzando o peito.

eu estou aqui agora. O homem abriu a boca e o parasita saiu. mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Era um milagre. e olhou para o seu corpo nu e desviou o rosto encabulado. Você vem comigo. deixando-o em estado de dormência. — O pai e a mãe? — Anastásia não respondeu. Ivan a afastou um pouco de si. os humanos infectados permaneceriam em estado de torpor se não fossem perturbados. Havia sido descuidado.Ivan desligou o quadriciclo. E também há outros abrigos que escaparam. a curvatura voluptuosa das ancas. um palmo mais baixo. mulheres e crianças caminhavam nus e se posicionavam de frente para o Sol. entre milhares de seres vivos. que se estendeu para cima e se abriu como um cogumelo. Estava diante de um homem franzino. Continuou seu caminho a pé. e algumas cidades no extremo norte. Ivan chegou a apontar a metralhadora para o parasita alienígena. Como explicar que ela tenha sobrevivido tanto tempo sozinha entre os infectados. ainda era a sua irmã caçula que ele levava para o colégio e o seguia quando ia praticar basquete. Algumas quadras depois chegou a um prédio residencial de quatro andares. alta. Agora era perigoso continuar com o quadriciclo. Subiu pela escadaria interna até o telhado que era usado para secar roupas. o irmão a abraçou mais forte. que contrastavam com o movimento coordenado das pessoas contaminadas. — Quando estou no sol é como se meu corpo pudesse absorver e armazenar a luz. tentou cobrir a nudez com as mãos. que entrou pela boca e nariz. Enquanto o Sol brilhasse forte. O rosto de Ivan foi coberto pelo parasita. assustada. Ele sabia que ela estava infectada. Enojado. conseguira sobrepor sua vontade à do parasita. mas abaixou o braço. de sua boca saiu uma substância esbranquiçada. contudo Anastásia não havia perdido sua individualidade. Os antigos habitantes da cidade começavam a deixar os prédios. no abrigo nuclear da base existem outros sobreviventes. Ainda havia esperança para ela e para a humanidade se eles conseguissem descobrir por que ela. os seios empinados. não sinto frio ou fome — ela respondeu orgulhosamente. grande. Ela abriu os braços e ergueu o rosto. Ivan retirou o capacete e chamou: — Anastásia! Entre as pessoas infectadas que tomavam banho de sol no telhado uma jovem de cabelos castanhos claros se virou. da época do grande estado soviético. As lágrimas escorreram e se misturaram. seria inútil. — Você não está com frio? Anastásia balançou a cabeça. — Olhe! — Ela estendeu o braço e pequenos pêlos loiros se arrepiaram. porém as mãos dele prendiam os braços de Ivan como tenazes de ferro. — Mas ainda preciso tomar água e dormir quando a noite chega. Então ela o reconheceu e correu para ele. ele afastou a irmã e se livrou com um safanão. e pensar que encontrá-la só fora possível por causa de seus movimentos erráticos captados pelas câmeras dos satélites militares. — Está tudo bem. evitando tocar naqueles corpos nus e catatônicos. que a enlaçou calorosamente de volta. — Ivan! — A jovem se lançou nos braços do irmão. Sufocado. como os sobreviventes logo descobriram. homens. Goranovich afastou o cabelo da testa da irmã e a beijou. feio e funcional. os cabelos loiros escorrendo pelas costas. Uma mulher particularmente bonita lhe chamou a atenção. Subitamente. alguém agarrou Ivan pelo ombro. ele se 14 AGUINALDO PERES . meio translúcida. Parece que os parasitas não conseguem sobreviver por muito tempo sem a luz do Sol.

Enquanto a jovem desaparecia no interior da loja. Os soldados desceram do caminhão e avançaram cautelosos. truncadas e ininteligíveis. pessoas correndo desvairadas. por que paramos aqui? — Preciso recuperar o fôlego e você precisa de roupas — respondeu sem olhar para a irmã. Então o ataque parou e o parasita saltou de seu rosto. pelos olhos. agora tomado pelo mato. Goranovich havia memorizado uma rota de fuga para aquela situação. estourou a fechadura de uma loja e entraram. Nos fundos havia um parquinho para crianças. A porta da frente do prédio estava bloqueada. outras estáticas. Ivan se pôs a vigiar a rua. Com um tiro. o russo percebeu-se o centro das atenções. — Pegue o que você quiser. eles não morriam.debatia. contorcendo-se. filamentos brancos cobriram as feridas estacando o sangramento. Ivan não perdeu tempo e se dirigiu para a saída dos fundos lançando em direção dos humanos infectados uma granada. porém contavam com a vantagem da quantidade e da capacidade de agirem como um único organismo. Ivan vomitou e tossiu expelindo filamentos brancos. estivera bebendo com os soldados após assistirem a chuva de meteoros na base de Kuznétsk. dezenas de olhos tristes o observavam. seguiram pelas ruas comerciais que estavam desertas desde a madrugada em que ocorrera a queda dos meteoritos. — Posso mesmo? — Pode. e se depararam com o inferno. UM DRINQUE PARA O INFERNO 15 . Acho que ninguém vai reclamar — ele sorriu. Os primeiros soldados infectados foram abatidos pelos próprios colegas. Ainda se lembrava do primeiro confronto. Estranhava o fato de não serem seguidos. perdia as forças enquanto a criatura invadia seu corpo pelos poros. ainda temos que andar muito. narinas e ouvidos. os alienígenas haviam desistido muito rápido. pensavam em terroristas ou mesmo numa invasão chinesa. muitos permaneceram no chão enquanto o parasita recuperava os tecidos danificados e os poucos que estavam além da cura foram abandonados. sem encontrar hospedeiros. Os nanorrobôs que a velha cientista o fizera tomar haviam repelido o ataque. os parasitas se arrastavam pelo chão rápidos como serpentes. Por experiência em outros confrontos. mesmo quando eram atingidos e partidos em pedaços. O comandante. Invadia seu sangue. seguindo o manual. porém isso não detinha os parasitas. — Vânia. agressivamente atacando todo e qualquer ser vivo. foi inútil. quando as primeiras notícias chegaram. O sangue vermelho se espalhou pela laje. barulho de buzinas e alarmes. Era madrugada. Os corpos infectados foram lançados para trás e Ivan levou a irmã para a escada. alguns se ergueram. gritos humanos e latidos. carcaças sem vida. os infectados reagiam e se movimentavam lentamente. Pequenos focos de incêndio. puxou a irmã de encontro ao peito e abriu fogo com a metralhadora. aprendera que a explosão deixaria os parasitas confusos por alguns minutos. fechou a base e enviou um grupo de soldados para a cidade. os parasitas se dirigiram para as áreas residenciais. até chegarem à cidade. e o portão de ferro no murro foi arrombado com um chute. Seguira o comboio militar em sua moto. Livre. mas não exagere. falando de monstros e zumbis.

Isso não mais o preocupava. — Agora sim você está parecendo a irmãzinha que eu adoro. e outra foi lançada para a esquerda. “Maldição! Por que eles têm que ter essa expressão no rosto? Eles se parecem com animaizinhos indefesos”. deixava-se levar pelo momento sem pensar nas conseqüências. De uma esquina afastada. não são humanos. Quando um deles se aproximava o parasita saía. 16 AGUINALDO PERES . — Fique aqui. mal tinha tempo de recuperar o fôlego antes que outro alienígena o atacasse. depois de quatro anos sem funcionar a gasolina já deve ter evaporado e a bateria.. Em vez de persegui-los. já gastara mais da metade do tempo que a velha lhe dera. — Goranovich a abraçou forte e notou que havia um pouco de batom em seus lábios. Não se preocupe. Sabia o que precisava fazer e em silêncio repetia para si mesmo. Naquele dia. eles o aguardavam junto ao quadriciclo. Um novo golpe nas costas o fez ficar de joelhos. apenas vermes alienígenas. Ivan caminhou em direção à multidão. agia por pura inércia. vai dar tudo certo. “não são humanos. Naquela posição não podia liberar os braços ou usar as pernas. os irmãos observavam a rua tomada pelos infectados. quando encontrava um grupo maior usava a espingarda aumentando ainda mais a carnificina. somente a malha de aço impediu que os ossos se quebrassem. muitos com o rosto desfigurado ou sem um membro. Umedeceu os lábios com a língua e só então percebeu que perdera o capacete durante o confronto no telhado. passava pouco das dez e meia. aproveitando que os alienígenas estavam desnorteados pelas explosões. — Gentilmente afagou a cabeça da irmã. eu vou buscar o quadriciclo. lentamente os humanos infectados o rodearam. calçava tênis e meia. — É inútil. nisso seus braços foram presos e torcidos para trás. tentou se soltar. mas um golpe nas costas o fez cambalear. demonstrando toda a sua preocupação. O pior era não poder comer ou beber enquanto os nanorrobôs estivessem ativos. arriado. uma bermuda ciclista sob a saia rodada. homens.. estava imobilizado. Ivan conseguiu retornar à base com três dos quatorze soldados. Anastásia retornou. pulava de encontro ao rosto de Ivan sufocando-o. estão mortos. Estava quase chegando quando seu pé foi seguro. pendurada no ombro uma bolsa com logotipo dourado. Uma combinação estranha que fez o irmão sorrir. Começou a correr. — Os desgraçados estão ficando mais espertos — reclamou Ivan. E assim continuou. tem vários abandonados na cidade — implorou Anastásia.Os soldados foram perseguidos até o Sol nascer. — Não vá. com a metralhadora derrubava os que insistiam em se levantar. podemos usar um carro. Corpos e membros foram arremessados para os lados e com a fumaça cinzenta veio o cheiro de fuligem e carne queimada. mulheres e crianças nus que o fitavam com olhos tristes. camiseta e colete pescador. quando os parasitas tornaram-se menos ativos. Ivan olhou para o relógio. que lhe embrulhou o estômago.” Jogou a primeira granada no grupo logo à sua frente. dolorosamente invadindo seu corpo até ser rechaçado pelos nanorrobôs.

A garota resmungou algo e abriu os olhos.. Ivan notou a irmã se aproximando por entre os infectados. Os humanos infectados que ainda permaneciam em pé se afastaram cautelosos. mas no momento sentia-se exultante. em seu lugar haviam colocado um casulo de isolamento sobre um carro-maca e a passagem oposta estava bloqueada por uma parede de vidro. nós chegamos. Algo estava errado. O rosto de Anastásia se aproximou e Ivan pôde finalmente ver as lágrimas que escorriam pela sua face. perderam a vontade de atacá-lo. — É apenas temporário. que endireitou com um chute. uma vez infectada seria para sempre uma migalha da entidade alienígena. O ar frio secara o sangue de suas roupas. as explosões próximas os lançaram alguns metros pelo asfalto. seus lábios brilhando com batom se abriram. entraram pelo deserto gelado e passaram pelo portão da Base de Kuznétsk com seus silos e mísseis balísticos inúteis: o inimigo não estava mais isolado do outro lado do mundo. seria apenas uma questão de tempo até obterem a vitória. ela dormia. — Nastia. desceu do quadriciclo e amparou o irmão. acorde. pele nova sob o sangue coagulado. Então por entre as lágrimas de raiva e dor. não sabemos o quanto o agente alienígena pode ser contagioso. não havia esperanças para ela. mancando dirigiu-se ao quadriciclo. — A velha sorriu seu sorriso de gato. a perna doía e os músculos estavam rígidos. Ele se levantou ainda zonzo. Ivan sentia a suave respiração da irmã de encontro ao peito. mas me parece que conseguiu voltar ainda humano. A sala estava diferente. não um indivíduo. sangue escorrendo do nariz e dos ouvidos que zuniam. a pequena mesa fora retirada. suas feridas curadas. perceberam que o custo havia sido alto demais. havia vencido. e olhou interrogativamente para o casulo. Com a ajuda da irmã desceu as escadas para o subsolo. Os irmãos deixaram a cidade sem novos confrontos. pensou e cuspiu os resíduos brancos. Ele parou de resistir. o sol mergulhava lentamente no horizonte. mas por quanto tempo? A cada novo ataque reduzia-se um pouco a capacidade de defesa dos nanorrobôs. porém não tinham mais tempo. Provavelmente teria pesadelos à noite. e como parte do todo fora usada como uma isca para atrair qualquer idiota que ainda possuísse um pouco de fé. quando o corpo cobraria pelo esforço e pelos pecados do dia. de alguma forma Ivan conseguira proteger a irmã com o corpo. — Ela puxou duas granadas do cinturão do irmão e as jogou para os lados. não mais uma pessoa. Ela terá que ficar de quarentena até estarmos seguros. “Pelo menos agora ficaremos juntos”. O quadriciclo parou defronte à entrada do abrigo nuclear. os parasitas alienígenas tentavam tomar aquele corpo humano que resistia. como ele..Um a um. — Izvinite. não concorda? UM DRINQUE PARA O INFERNO 17 . as dele ainda iriam doer por um bom tempo. pensou Ivan. um filete de sangue escorria dos lábios dela e um grande corte na testa ainda sangrava. poderoso. a luz externa se acendeu e ele sorriu para a câmera. afinal precisamos tomar cuidado. Seus colegas sobreviventes tinham razão. por trás da qual a cientista e dois soldados os esperavam. ele pensou ao ver a irmã entre seus algozes. recebendo a maior parte do impacto na parte dorsal da armadura. ergueu no colo o corpo inerte da irmã. estava preocupado. — Está atrasado. toda a sua força o abandonou.

— Vamos para o oeste. isso era óbvio. Subiu no quadriciclo. Por outro lado. mas quem sabe o Éden ficasse a oeste. pensou o russo. que ele era confiável. eles estavam lhe dizendo que era um deles. Anastásia subiu na garupa e abraçou forte o peito do irmão. o soldado Goranovich teria feito a mesma coisa. a velha estava certa. ele não seria descartado. Os irmãos subiram de volta pela escada. Basta uma mentira para que as demais apareçam. era a melhor chance de encontrar um meio para destruir os parasitas. sempre quis conhecer a Europa. ao sul havia as cidades infectadas pelos parasitas alienígenas. por que os dois soldados? Dois enfermeiros bastariam. a não ser que esperassem por problemas. — Ivan! O que aconteceu? Pergunta errada. ele concordava. E eles estavam certos. logo precisaria recarregar as baterias. Com certeza aquilo era o inferno. o sopro da explosão aqueceu suas costas quando saíam para a superfície. e ele era dispensável. mas mesmo assim se perguntava. Ivan ergueu a espingarda e atirou. — Por que não? 18 AGUINALDO PERES . por que apenas um casulo? Não seria possível ele também estar infectado apesar dos nanorrobôs em seu sangue? Não seria mais seguro manter ambos em isolamento? Só havia uma resposta. porém Anastásia nunca seria aceita entre as pessoas. agradar ao seu ego. que ele reagisse. deixando para trás a última granada. não oferecia perigo.Sim. a pergunta certa seria: para onde vamos agora? Para o norte ainda existiam algumas cidades. na verdade fora enviado para buscar um precioso espécime de estudo. Porém se era verdade. a parede de vidro se estilhaçou sobre os soldados e a cientista. ele não fora autorizado a salvar a irmã.

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tudo pode acontecer. inclusive a descoberta de um grande e assustador segredo.Ouro de Tolos CARLOS RELVA 20 Quando um repórter incrédulo encontra um pirata beberrão em um bar de estação espacial.. ..

ainda se acostumando com a baixa e aconchegante luminosidade do local. Como diziam que as mulheres de Plutão eram muito atraentes.. OURO DE TOLOS 21 . ou Greg da agência La Cruz. sua visita à nova estação espacial. Greg. Greg resolveu tomar alguma coisa no bar. com formato esférico.” — Merda! — exclamou Gregório Stefano. usufruindo um descanso merecido após um cansativo turno nos laboratórios. Zamir Khovan.. módulos de acoplagem de naves. embarcadouro e o bar onde Greg agora bebia um destilado venusiano. O complexo era dividido em duas grandes partes. planejada especialmente para a detecção de Buracos de Minhoca do tipo C. não tinha à sua disposição o sistema de repórteres-robôs auxiliares e nem o sofisticado envio de informações via Dobra que a grande empresa de notícias rival oferecia ao seu pessoal.A programação da emissora Aureal foi abruptamente interrompida para um anúncio importante: “De acordo com o pronunciamento do presidente da Gestão dos Planetas-Membros. instalada nos limites do sistema Solar. agendou nova visita à estação para o próximo mês. enquanto tomava mais um gole da bebida. “Provavelmente os cientistas conseguirão criar um novo Buraco de Dobra antes mesmo de o presidente visitar esta maldita estação”. pois recebia seu nome. Essas viagens de Dobra pesavam no bolso da La Cruz. o repórter acalentava a esperança de encontrar alguma cientista no bar. restaurantes.. foi adiada. o mundo mais próximo. era relativamente independente do restante da estação e estava escondida no meio da grande e vistosa estrutura secundária em forma de guarda-chuva. A primeira. A La Cruz precisava enviar fisicamente seus repórteres aos quatro cantos do sistema Solar. profissionais especialmente contratados de Plutão. — Ele não virá. mandá-los também para os planetas-colônias dos três sistemas estelares explorados. mas já funcionava efetivamente há alguns meses-padrão. E Greg ainda estava enjoado da última viagem que fez. após ver a notícia em um dos holovisores. com suas majestosas placas solares. enquanto se dirigia ao bar da estação. Ser repórter de terceira categoria não era fácil. Greg lamentava trabalhar em uma inexpressiva concorrente da Aureal. virou-se surpreso para a direita e observou o estranho homem sentado ao seu lado. ainda não tinha sido oficialmente inaugurada. localizavam-se os demais alojamentos. além do péssimo salário. era melhor não esperar a chegada do vice ou de outro representante. pensava ironicamente Greg. como era mais conhecido. saberia de antemão que o presidente não viria mais. algumas vezes.. no balcão do bar. Era um dos poucos entretenimentos da estação. Mas também servia de parada e abastecimento básico para naves da Gestão que vinham dos outros sistemas estelares. para o importante e contínuo trabalho de expansão da civilização humana. Alegando problemas de ordem pessoal. além de. mas eram mais baratas do que a aquisição de um sistema particular de informações como o da Aureal. pois. E como Zamir fazia questão de estar presente à cerimônia de inauguração do complexo espacial. Era onde ficavam os cientistas do Projeto Dobra. Se trabalhasse na Aureal News. Batizada de Estação Espacial de Ciências Khovan. famoso por seus poderes afrodisíacos. ele pensava. Na outra parte. fundamentais para as viagens de Dobra. Como só havia viagem de volta para a Terra programada para o dia-padrão seguinte.

O homem havia feito a sua revelação sem aumentar o tom da voz. — Qual ameaça? — perguntou o repórter com certo ar de desdém. que não se pareciam muito com os bandidos que viveram. quando fora correspondente de guerra. Poderia até considerá-lo digno de pena. — E como pode ter tanta certeza? — Simples. Greg conhecia bem esse tipo de pessoa. Mas. e as rugas em volta dos olhos denunciavam uma vida difícil que já ultrapassava meio século. Então. na maioria das vezes.. A face dura. séculos atrás. mas já havia visto pessoas em condições piores nos conflitos Amaltea/Calisto. — Aceita outra bebida. o pirata deu uma inconveniente e assustadora gargalhada rouca. estavam cobertas de emblemas cafonas. O presidente não se preocuparia com trivialidades quando a humanidade está prestes a enfrentar sua maior ameaça. — O que disse? — perguntou o repórter ao pirata. meu jovem. Nem mesmo o olhar sem foco e as pupilas contraídas das pessoas acometidas por visões proféticas ou outras alucinações estavam presentes. o presidente. Aparentemente. — O fim de tudo o que existe — respondeu friamente o velho pirata. E pela aparência só poderia ser um pirata. — respondeu o pirata. O atendente percebeu. mas com a veia jornalística pulsando. sentindo que fazia um grande favor em dar atenção à tão deplorável criatura.. que Greg podia arriscar serem sobras de velhos trajes de astronautas-operários das antigas ferrovias marcianas. Greg sempre se gabava de conseguir identificar. levou o copo a boca e tomou o último gole de sua bebida. possuíam também uma aura de romantismo rebelde e espírito de aventuras que faziam questão e orgulho de preservar. O pirata vestia-se e cheirava como um mendigo de Io.Era sem dúvida uma figura incomum. não havia mudanças em suas expressões faciais. senhor? – perguntou o barman a Greg. — Ele. O repórter estava tão absorto em pensamentos sobre o pirata e o que ele havia dito que se assustou com o barman. Suas roupas surradas. Ao lado de Greg. ossuda. apesar disso. Isso deixou Gregório incomodado. Nem nunca mais. De grande porte físico. um bucaneiro dos mundos extra-solares. mas manteve a postura e um leve e simpático sorriso. insultuosas alusões às condecorações de bravura dos meta-soldados de Belus. nos mares do planeta Terra. Nem ano-padrão que vem. o pirata contrastava com o clima arrojado e anti-séptico da Khovan. sem hesitação ou respiração mais profunda. a veracidade nas palavras de um entrevistado. Também percebia facilmente quanto ele estava imerso em devaneios e fantasias. 22 CARLOS RELVA . Mas o pirata não apresentava os sinais comumente encontrados. Sua vasta cabeleira e a barba crespa e grisalha pareciam não ver banho há décadas. gostou de saber que suas palavras causaram apreensão e nervosismo ao repórter. Não virá mês que vem.

Provavelmente isso se devia à sua grande curiosidade em saber mais sobre esse fim do mundo que o pirata profetizava. mas Greg não viu sentido algum nisso. E para agravar a situação. considerados pelos próprios furinianos um pouco menos que “coisas”. pois desconfiava de que o pirata tentaria beber o máximo de uísque que pudesse às suas custas. por isso saia enquanto pode e tenha uma vida desgraçada em outro lugar. — Conhece aquele planetinha asqueroso? Só há três coisas para se fazer num lugar daqueles: drogarse. Greg também sabia que Furina era um pesadelo. foi descoberto em uma das primeiras viagens espaciais de Dobra nos Buracos de Minhoca de tipo C. Greg conhecia o planeta e sabia que Dakota não estava exagerando. — Dakota.. — e mais um gole de caríssimo uísque desceu pela goela abaixo. mas o pirata afirmava que valeria a pena bancar cada gota para ter acesso à sua aterradora história. vamos logo aos fatos relevantes. satélite de Júpiter. o processo desumano das indústrias do planeta e a quase total ausência de lazer e entretenimento obrigam os furinianos a recorrer a pesadas drogas sintéticas como uma forma de entretenimento e fuga. Troncudos e compactos. o planeta industrial? — Mais ou menos. — Você falou sobre Arnurion. A produção feita em ritmo acelerado. Uma fortuna para o bolso de Greg. Poucos são os humanos normais que resistem a essas condições extremas. se comparado com os mundos paradisíacos do sistema Solar. Na realidade. — Nós. sabia? — comentou Dakota. supria cada vez mais os solares. Sempre achei isso um exagero.Apesar da companhia desagradável. Os furinianos são adaptados às condições do planeta.. Dakota tentou explicar que a origem de seu nome estava ligada ao gosto de seus pais pela religião hindu. possuía uma economia baseada na exportação de produtos tecnológicos de segunda linha. ou possuem altos cargos ou são miseráveis e foragidos. e permanecem em Furina. uma atmosfera quente e rarefeita que não passou por processo de terraformação. mas uma variação criada através de engenharia genética. A Gestão dos Planetas-Membros sempre fez vista grossa sobre tudo isso. Nessa altura. em indústrias que tentavam primar pela qualidade nos produtos na mesma proporção em que ignoram a segurança e saúde de seus funcionários. europianos. temos um ditado — continuou Dakota —. Greg ficou mais tempo no bar do que poderia imaginar. Afinal. película negra que protege os olhos dos raios estelares e grande força e resistência física. — A vida em meu mundo não é fácil. Com seu eterno entardecer dourado.. Um nome um tanto incomum. Os que se obrigam a isso. tenho certeza que somos realmente amaldiçoados! Greg resolveu cortar o papo furado do velho marujo do espaço antes que sua conta ficasse no vermelho. Furina era um dos poucos mundos habitados por humanos fora do sistema Solar. foram projetados para o trabalho pesado nas futuras indústrias que cobririam quase todo o planeta. a vida aqui é uma desgraça. sua terrível história começa em Furina. OURO DE TOLOS 23 . é bem conveniente para ela. principalmente para uma pessoa vinda de Europa. Dakota McGuire. Poluído e inescrupulosamente explorado.. enquanto sorvia mais um gole de autêntico uísque escocês. trabalhar como um escravo e drogar-se mais um pouco. Eles apresentam uma fisiologia peculiar. os primeiros colonizadores e atuais habitantes de Furina não eram exatamente humanos. o repórter já sabia até seu nome. certo? Então. mas depois do que aconteceu no sistema estelar Arnurion. com ausência completa de pêlos no corpo. que comprovaria as afirmações apocalípticas. tudo bem? — sugeriu Greg.

lançar todo o entulho no espaço. Uma vez com eles. apesar do nome singelo. Dakota discorria distraidamente sobre as inúmeras profissões que exercera no planeta. foi — disse Dakota.. Uma soma considerável em créditos! — Máfia? — admirou-se Greg. principalmente graças ao meu excelente faro para encontrar bebida escondida 24 CARLOS RELVA . claro que não foi assim! Piratas não aceitam qualquer um entre eles. Logo me tornei seu braço esquerdo. — Não tinha condições. — E por que não te jogaram de novo em Furina quando retornaram ao planeta? — Ora. Como não tinha créditos. Mas tive uma excelente idéia. — Puxa.. pois o capitão Lafitte foi com minha cara. Além de braço direito do capitão. — Me tornei pirata quando fiquei realmente encrencado! — lamentou. hein? — divertia-se Dakota. — Como sabe — continuou —. tornando-me o mais novo pirata da tripulação do capitão Lafitte. — Não foi desbaratada há alguns anos-padrão? — Sim. da incessante produção do planeta resulta muito lixo. — Lafitte? — surpreendeu-se Greg. que fácil! — ironizou Greg. pois não seria uma solução politicamente correta. por exemplo. Muitos piratas usam nomes falsos. mas muitos levavam isso a sério. Algum até radioativo! Manter esse material no planeta é impensável e contratar um serviço profissional para eliminar tudo isso também. — Que tipo de pirata é você? — Pelo jeito você não entende nada de pirataria moderna. me escondi no entulho industrial do espaçoporto de Gerat e fiquei no aguardo de uma nave pirata retirar o material. engolindo uma risada. O imediato. percebi que minha única chance era a pirataria. algumas recusadas e outras previamente cortadas pela La Cruz antes da exibição nos planetas-membros. era o chefe de ciências. E olha que. meu rapaz. E só quando começou a falar de seu ingresso no mundo da pirataria é que despertou novamente a atenção do repórter. Às vezes é importante esconder o passado. — Principalmente os que trabalham para os empresários furinianos.Enquanto Greg refletia sobre Furina e as reportagens que fizera no planeta. os furinianos tiveram a excelente idéia de jogar todo esse lixo em Onedos. claro que esse não era o seu verdadeiro nome. nem pensar. E foi assim. Outra solução.. não é? — Ora. financeiramente falando. sempre entre eles! E eu estava com sorte. o homem era de um gênio terrível e de grande responsabilidade na nave. E isso pagando os módicos serviços de quinta categoria dos piratas espaciais. decidi escapar de Furina de qualquer jeito. E como minha vida corria perigo iminente. incrédulo. Então. — E por que não pagou a dívida? — Quem me dera! — respondeu Dakota. enquanto observava preocupado o copo de uísque do pirata esvaziar rapidamente.. se chamava Floco de Neve. — Mas o que estou te contando aconteceu antes da investigação policial terrestre. — Está brincando. enquanto tomava um dos últimos goles de sua bebida. Eu nunca me preocupei em escolher outro nome. — Arrumei uma dívida com a máfia furiniana. — De uma hora para a outra você se tornou um pirata! — Ora. a estrela central daquele sistema. os piratas têm um rígido código de ética. na viagem entre Furina e Onedos que a tripulação da Intrépida Escarlate me encontrou a bordo. — Entulho? — perguntou o repórter.

sentindo um inesperado frio na espinha. O repórter ainda suspeitava de que o lobo do espaço era apenas um alcoólatra inveterado e aproveitador.na nave e por causa de os meus conhecimentos em medicina irem um pouco além dos básicos primeiros socorros. Trabalhosos. O álcool certamente já estava afetando suas ações... a pirataria tem o sabor de liberdade que vicia um homem! Mas não pense que a vida de pirata é só flores. todo o tempo. O secretário também prometeu que tudo se normalizará em breve. percebeu pela primeira vez o esforço que o pirata fazia para disfarçar o tremor em sua mão direita.. Isso até encontramos algo muito estranho guardado no espaço profundo. — Mas o capitão Lafitte era um homem muito esperto. Fredik Kress. Nada como uma bebida forte para aflorar a sensibilidade. Logo te contarei como tratamos nossos companheiros de profissão por causa das metas de trabalho! — Provavelmente irá dizer que não há entulho suficiente para todos. A bebida não era apenas uma diversão para o pirata.. continue — pediu. Certo? — É bem por aí — respondeu o pirata. sua lua. fazendo o mesmo gesto. Estamos tentando conexão com nossos correspondentes-robôs no planeta e em Fai. enquanto me acostumava com a vida de pirata. segurando-a firmemente com a esquerda. Foi então que Greg se deu conta que Dakota estava. — O que vocês encontraram? — perguntou Greg. o pirata continuou: — Aqueles foram tempos tranqüilos. admirado. ardiloso. e sabia contornar os obstáculos. Era uma maneira de suportar as lembranças de algo terrível. uma simples falha no envio de informações via Dobra.. Os outros eram Baleia Vermelha. mas tranqüilos! E. Que os deuses a tenham em grande estima. sem êxito. secretário das comunicações da Gestão.? — Escarlate. Na verdade esse era apenas um dos nomes da nave. Greg não conseguiu discernir.” OURO DE TOLOS 25 . Pelo menos assim suspeitava Greg. O Crepúsculo de Kadhush e A Mãe de Todas as Banheiras. enquanto seu copo enchia novamente. A conversa descontraída estava acabando. Minha mãezinha era enfermeira e aprendi muito com ela. Agora. Intrépida Escarlate. poderia voltar ao planeta se quisesse e até arrumar um emprego decente. provocando brigas. — Então.. Mas. Ao dizer isso. “Cinco horas-padrão desde o último contato com Furina. a máfia furiniana assistia a seu próprio fim. Dakota. seu rosto ficou sério. — Se me pagar mais uma bebida eu conto tudo para você. E por anos-padrão vivemos aquela rotina de viagens entre Furina e Onedos. garantiu que a situação é tranqüila. Dependendo da ocasião usávamos um desses nomes. — Você tornou-se um pirata a bordo da Intrépida Vermelha e. Mas Intrépida Escarlate era o mais comum. Mas. O velho pirata levantou o copo em lembrança a sua falecida mãe e Greg se viu. Depois de uma pausa para um soluço ou arroto disfarçado. dissimulando o nervosismo. sabe como é.

Greg permaneceu calado. Seu fígado. resolveu tirá-lo da jogada. Não queria interromper o pirata. mas Floco disse que a coisa. Por causa da agitação. — E o que aconteceu? — A nave desapareceu. mantendo os olhos fixos no holovisor. Carregávamos toneladas de entulho por mês-padrão e recebíamos bem por isso! E o lucro era sabiamente distribuído entre os tripulantes. — Por que não fala do. a Eldorado sumiu. Fizemos uma varredura e nada! Resolvemos então. — Então Avran era um péssimo estrategista. quando rumávamos para Onedos. — Jogamos muito lixo naquela fornalha termonuclear! A produção furiniana não parava e havia muito trabalho para todos. — Sou um ignorante em ciências astronômicas. — Bem. Lafitte até dava gordas recompensas aos melhores piratas. ouvindo o comentário enquanto retornava do banheiro. A vantagem era dele. cautelosamente. após quase vomitar as entranhas na privada. não acompanhava o ritmo do de Dakota. demos de cara com a Eldorado armada até os dentes! — Uma nave? — admirou-se Greg. mas sem grandes cuidados. — Mas um dos problemas dos piratas é a maldita inveja! E a Intrépida Escarlate estava muito visada.. Repórteres corriam de um lado para outro.. — Como disse.— Começou de novo. E o maldito Avran em nosso encalço. — Primeiro a Intrépida.. ora! E sem saber para onde ir.. definitivamente. — Que nada. Até o número de cientistas percorrendo os corredores da estação era maior. apesar de a edição extra do Aureal News já ter acabado. isso pelo menos justifica a denominação de piratas. Sua tripulação era muito competente. Alguns se juntavam em rodas de conversa. capitão da Eldorado. apesar de ter 26 CARLOS RELVA . retornar pelo mesmo caminho e chegamos à conclusão que a nave e sua tripulação haviam caído numa fenda espacial. agora que a história estava deslanchando. o repórter desconfiou que estivesse perdendo algo. como viemos a saber depois. imerso em lembranças.. Ele odiava Lafitte há anos e sabendo que outros capitães começavam a alimentar um sentimento parecido. Ainda sentia um gosto amargo na boca. Tudo planejado secretamente. Achávamos que era o fim. agora Furina.. Isso incomodou Avran Russo. — Como assim? Nesse momento Greg percebeu que a movimentação no bar estava aumentando. — A coisa está se repetindo — disse o pirata. lançando mísseis da Eldorado. E não havia uma única plutoniana interessante entre eles. — Não seria um mini Buraco Negro ou um Buraco de Minhoca? — arriscou Greg. — Um belo dia. — Como assim? — perguntou Greg ao pirata. pois sua nave já tinha descarregado e contava com combustível extra. — E o que vocês fizeram? — Fugimos.. — Tínhamos feito centenas de viagens até Onedos — interrompeu Dakota..

OURO DE TOLOS 27 . Parecia ter urgência nisso agora. Ainda não falei do baú de moedas de ouro que esperava por nós quando voltamos à fenda. mas vendê-lo para as indústrias furinianas dava um bom dinheiro. o ouro não tem tanto valor. salvou nossas vidas! Além disso. não emitia radiação. Quem as confeccionou não tinha muito conhecimento do que estava fazendo. depois de realizarmos todas as análises possíveis e enviarmos uma pequena sonda na fenda. dois homens da agência de notícias Utley passavam conversando. disso tínhamos certeza.. — Agora acredita em mim. claro. Greg virou-se com olhos arregalados em direção a Dakota. — Pois então faça um esforço maior. Greg avisou que a orgia alcoólica estava suspensa e Dakota pareceu não se importar com isso. tinha uns cinco quilômetros de raio e. Mas eram piratas.. O repórter não acreditou no que ouviu. Atualmente.. Informar o achado à Gestão e exigir a recompensa estava fora de questão. Alguém conseguiu interceptar um pedido de socorro da lua do planeta! Parece que foi feio mesmo. — Parece que sim — respondeu o outro. rapaz? — Estou tentando.. não afetava a gravidade. — Está correndo o boato que não foi apenas problema nas comunicações. Enquanto Dakota tomava seu enésimo gole de uísque. E nós ficamos um bom tempo por lá. Esses párias haviam ignorado todos os procedimentos básicos na detecção de anomalias espaciais definidos pela Gestão. Estava mais interessado em terminar finalmente sua história. Mas se lançássemos o lixo dentro da fenda ganharíamos tempo e pouparíamos combustível. com certeza. — Então você acredita que a coisa foi mais séria em Furina do que estão falando? — disse um deles. pois gastamos quase tudo na fuga. — E depois? Foram embora? Retomaram viagem para Onedos? — De forma alguma! Não tínhamos combustível. pelo menos para um bando de piratas. começamos a imaginar como aquela fenda poderia nos dar lucro. afinal. Nós jogamos o lixo dentro da fenda e voltamos para Furina. E foi na segunda viagem à anomalia que encontramos o maravilho baú com moedas de ouro! — Mas qual a origem das moedas? Eram antigas? Eram provenientes da Terra? — Vinham da fenda. fazendo o estômago de Greg embrulhar novamente. A capacidade magnética do ouro era fundamental para o funcionamento das nanomáquinas do planeta. Mas não nos importávamos. E eram toscamente cunhadas. — E a Eldorado? — Não faço idéia. A sonda também não voltou. — Quando regressamos para Furina e consertamos os estragos na nave causados pelos mísseis da Eldorado. concluímos que era diferente de qualquer singularidade que já havia sido descoberta.uma estranha luminosidade.

— Mas vocês não acharam estranho um baú vagando pelo espaço? — Claro que sim! A princípio pensamos que era da Eldorado. um novo baú nos esperava. quanto mais lixo nós jogássemos na fenda.. Até uma caveira o comandante mandou pintar na proa da nave. por insistência de Floco de Neve. A única reminiscência da nave. 28 CARLOS RELVA . Por isso nos deixavam em paz. e sim de valor.. todas as vezes que jogávamos entulho lá.. Havia o medo a nosso favor.. Por toneladas maiores. assim que conseguiram muitos créditos. sem se importar com o informe. Por toneladas de lixo a fenda nos dava um baú. meu rapaz. Uma esquadra militar fortemente armada segue para o planeta. E olha que já vi desde orquídeas bronóides a ratazanas gigantes das luas de Hallus dando cria! Não era maior que a média dos baús e estava no mesmo lugar que costumávamos encontrá-los. Poucos de fora tinham conhecimento desses trâmites. Eles nos temiam por causa do desaparecimento da Eldorado.” — Mas as viagens seguintes ocorreram sem maiores problemas — continuou o pirata. maior o baú do tesouro. Era uma coisa muito esquisita.. “Novas informações sobre o incidente em Furina”. — E os outros piratas não se importavam em ver a Intrépida Escarlate voltando para o espaço-porto de Gerat lotada de ouro? — Não era tanto ouro assim! Claro. — Do quê? — Bom. é? — Tudo corria às mil maravilhas. parecia um ovo — informou Dakota. Deixamos guardado em um dos compartimentos secundários. todo azul e tracejado de amarelo.. — As venusianas. Mas logo concluímos que era uma recompensa da fenda. — Mas na verdade era o objeto mais estranho que já tinha visto na minha vida! Seu formato era ovular. não abandonaram tudo e foram viver uma aposentadoria tranqüila? — Piratas são péssimos em finanças. — E vocês fizeram o quê? Levaram a bordo? — Sim. Quanto mais toneladas de lixo. maior o nosso pagamento na viagem seguinte. — E por que. não nos incomodavam. “Contrariando as informações anteriores. — Você prestou atenção no noticiário? Mas a pergunta de Greg também foi ignorada. E fazíamos de tudo para aumentar ainda mais esse clima de temor. Isso se repetiu por muitas e muitas vezes. Mas a troca não era justa em termos de peso. pode ter certeza disso. comercializávamos o material diretamente com os furinianos. Fortes evidências sugerem que o planeta foi atacado por invasores de uma civilização não-catalogada. — Sempre estava lá um novo baú de moedas de ouro. até um fraco carregamento e o surgimento do ovo. o cientista nunca chegou a uma conclusão sobre o que seria aquilo. Infelizmente. graças aos deuses. Gastamos tudo com mulheres e jogos! Já viu as dançarinas venusianas dos bordéis de Gerat? Aquilo que é mulher! Muito melhores que as plutonianas! E é difícil abandonar os velhos hábitos. Afinal. Quanto aos outros piratas. Além disso. o presidente Zamir Khovan declarou estado de emergência. um baú maior. disse o âncora da Aureal News. nenhuma nave pirata encontrou a fenda. E.

retomou sua corrida desesperada para os módulos. podia ouvir um ensandecido Floco de Neve no intercomunicador amaldiçoando a todos nós. Todos estavam destruídos. Estava tão desesperado que não percebia sua própria parcela de culpa em tudo aquilo. a exceção de um. todos azulados e tracejados de amarelo. outros. Essa visão nunca saiu de sua mente. Com voz trêmula e acelerada. não contendo a curiosidade. Antes de dar um grito assustador. tinham quilômetros de extensão. Provavelmente acreditaram se tratar de armas do capitão Lafitte e da causa do desaparecimento da Eldorado. — Pobre homem. Cheio de horror... através do visor da escotilha. Os ovos menores se chocavam com as naves sem a menor hesitação. Dakota descreveu todo o cenário de terror. dizimando friamente a tripulação. O pirata sabia que aquilo era vivo. pois Dakota não poderia cancelar o lançamento automático.. os ovos menores atravessavam a estrutura da Intrépida e transformavam-se em formas quase humanóides. Dakota teve tempo de imaginar a reação dos piratas inimigos ao verem tais objetos alienígenas. a mesma cena se repetiu: nossa nave em fuga. pois quando a já desmantelada Intrépida e as outras naves piratas chegaram próximas à fenda. este também tomara a forma de um perigoso humanóide. começaram a se mover pelo espaço em direção às naves. OURO DE TOLOS 29 . Mas Dakota não se manteve lá por muito tempo. semelhante a naves espaciais rusticamente desenhadas. eram partes de um plano de invasão? — Exatamente. nunca poderia ser esquecida: o corpo do capitão sendo violentamente dilacerado por um dos invasores. Alguns eram igualmente pequenos. Mas a Intrépida Escarlate também estava sendo atacada. E sua última visão de Lafitte... Dakota se dirigiu apressadamente aos módulos salva-vidas localizados na popa da nave. assim. mesmo nos temendo. Como os demais. tamanho seu aspecto alienígena. suas últimas palavras nos culpavam por tudo o que estava acontecendo. Só que desta vez por sete naves piratas! Eu tinha certeza de que era o nosso fim. E foi neste que o pirata entrou e acionou os procedimentos de fuga.. Ele nos chamava de tolos gananciosos e acreditava que os invasores eram de outra dimensão ou coisa parecida e precisavam de material do nosso Universo para balancear as duas realidades e transpor a fenda. Em um instinto de sobrevivência digno dos europianos. — Então o ouro. se depararam com milhares de objetos semelhantes ao ovo. seguindo em direção a fenda. — Pois é. Os estranhos objetos. Enquanto eu tentava fugir da nave. Eram tão rápidas e manobravam com tal facilidade que pareciam ignorar todas as leis da física. sendo implacavelmente atingida por mísseis inimigos. e para sua aflição maior. E. mas não conseguia encontrar palavras para descrevê-lo. deu uma espiada no compartimento onde estava o primeiro ovo encontrado. E enquanto os ovos gigantes adquiriam uma aparência mais aerodinâmica. Foi triste para Dakota ver seus companheiros mortos ou em agonia. Ainda que em desespero. Antes de zarpar. o pirata ouviu o capitão Lafitte gritar e bater freneticamente os punhos na escotilha de seu módulo salva-vidas. No caminho. nem mesmo embriagado. entretanto.— O que não sabíamos é que os malditos amigos do capitão Avran resolveriam fazer uma nova emboscada. Mas era tarde demais para o capitão. o ovo.

E mesmo sabendo que provavelmente havia muitas outras civilizações espalhadas pelas outras inúmeras galáxias. esta é a mais impressionante. mesmo assim. não transmitia nem um pouco de esperança. ajeitando os trajes impossíveis de serem ajeitados. O repórter sabia que havia outras civilizações espalhadas pela Via Láctea. Acredito que esta estação seja o próximo alvo dos invasores. Greg. “Pelo que foi captado por um transmissor de Dobra secundário. Vou tentar adiar ao máximo o meu inevitável fim. — Para onde vai? — Fugir. onde ouvi falar que descobriram novos Buracos de Minhoca ainda não explorados. ainda pode vê-lo no elevador que levava ao embarcadouro. olhar suas formas azuladas. “Conseguimos as primeiras imagens da tragédia que abateu Furina”. outra dimensão. em um gesto de despedida. umas mais amistosas. mesmo que suas ações fossem bem reais e violentas. mostrando um dente de ouro. quando finalmente procurou por Dakota. Talvez alguma viagem de Dobra me leve para um ponto bem distante da galáxia. E. Talvez até do Universo. E seu frio e brilhante sorriso. Eram como seres absurdos do mais delirante pesadelo. interrompia novamente a programação o plantão da Aureal. — Adeus.. como Dakota disse. 30 CARLOS RELVA .” A imagem congelou no que parecia a cabeça de um dos invasores. nada se encontra de pé no planeta. terá uma boa história para o La Cruz News. era um ser difícil de descrever. infligindo horrores aos indefesos habitantes de Furina. O pirata estava com a mão levantada. O repórter ficou por alguns momentos hipnotizado pela imagem no holovisor e. contatá-las esbarrava em protocolos demasiadamente burocráticos e que as distâncias astronômicas tornavam tão lentos que a humanidade ainda se sentia relativamente solitária no Universo. Talvez vá para Anchor. Foi um prazer conversar com você. tracejada de amarelo. — Mas você não disse que é o fim de tudo? Para onde iria? — Não faço idéia. A criatura era azul. Mas tentar sobreviver é a minha natureza. Sentia que essas coisas selvagens e insanas não faziam parte da realidade. tinha certeza que esses invasores não representavam nenhuma delas. transmitia medo. outras menos e. umas mais estranhas que outras. apesar do eterno desejo humano de conhecer outras culturas. enchia a alma de uma profunda e indescritível desesperança. E. Não parecia com nada que Greg já tinha visto e.Então Dakota se levantou. terror profundo. Mas se eu estiver enganado e você milagrosamente escapar. agora banhadas em sangue humano. proveniente de Fia.. E de todas as imagens assustadoras. tinham que vir de algum outro lugar. com ou sem Buracos de Minhoca do tipo C. pois é a instalação humana mais próxima de Furina.

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um segredo do passado. pode ser a chave para a conquista do mundo pela Alemanha nazista de Hitler. . enterrado em uma tumba misteriosa.As Sementes da Destruição CHARLES DIAS 32 Em algum lugar perdido no extremo norte da Europa.

de um rei norueguês que derrotou um senhor da guerra viking na Groenlândia e entre os despojos de guerra recebeu artefatos místicos originários do continente perdido de Atlântida. — Exatamente. senhor. Essa lenda vem passando de geração em geração há séculos através de uma música folclórica muito popular nos países escandinavos. em qualquer parte do mundo em que estejam. — A senhorinha sabia que Adolf Hitler.1 – Sumerset (Inglaterra) – Julho 1937 Era uma manhã ensolarada de verão e pela estradinha de pedregulhos um imponente sedã Jaguar levava uma jovem deslumbrada com a paisagem. Um deles era mais velho e vestia um terno preto de corte conservador. tem grande interesse em lendas como essa? — Não sabia disso. Sou Lord Wentworth e este é o Major Williams. — Bem vinda. assim como seu braço direito. tenho interesse acadêmico pelo assunto — respondeu Martha. o outro. A casa. sentando-se na poltrona que lhe havia sido apontada. — E a senhorita também desenvolve pesquisas em mitologia nórdica? — perguntou o militar. deixou Martha algo intimidada. — Exatamente. — O que a senhorita sabe sobre a lenda do Rei Rondheim? — perguntou Lord Wentworth. Era a primeira vez que Martha Ross vinha àquela região do país e não podia negar que estava apreciando a viagem totalmente inesperada que fazia a convite do Departamento de Estado. usava um terno moderno como os dos filmes americanos. a tropa de elite do regime nazista. recostando na poltrona confortável. senhor. o comandante da temida SS. Acostumada à classe média londrina e ao ambiente descontraído das universidades. Estou correto? — perguntou Lord Wentworth. estranhou toda aquela imponência austera. onde dois homens a aguardavam. intrigada com aquela entrevista um tanto quanto inesperada. — É um prazer estar aqui — disse a garota. especialista em linguagem rúnica. sério. do Gabinete de Operações Especiais do Exército de Sua Majestade — apresentou-se o velho aristocrata com um sorriso enquanto o militar observava a recém-chegada com interesse. — Pois ele tem. senhorita Ross. o líder alemão que vem preocupando a Europa. as Sementes da Destruição. Seu interesse é tanto que ordenou a Himmler que criasse uma divisão secreta na SS especificamente para rastrear e coletar informações e artefatos relacionados com ocultismo. aproximadamente da sua idade. onde um mordomo de feições sérias a recebeu com formalidade. No entanto. senhor. AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 33 . Heinrich Himmler. Não demorou muito para chegar a uma suntuosa casa de campo com ar aristocrático. Foi levada até a biblioteca. — A senhorita é professora auxiliar de Lingüística em Oxford. muito luxuosa e sóbria. — É uma velha lenda do folclore nórdico. a Divisão Paranormal — disse o major. — Mas não é todo mundo que compartilha sua crença de que a lenda não passa de um conto de fadas contado nas noites frias de inverno — disse o lord. cientificamente não há nenhuma prova de que algo assim tenha acontecido ou mesmo de que esse rei tenha existido — respondeu com o profissionalismo que Oxford havia-lhe ensinado.

Era uma foto de estúdio que mostrava uma mulher por volta dos trinta anos. Em sua mente relampejou um turbilhão de lembranças de histórias de agentes secretos. — Exatamente. amigos e colegas de trabalho estar de partida para os Estados Unidos a convite de uma famosa universidade da Califórnia para uma série de palestras. informando que um tal Professor Von Kelssen encontrou alguma coisa relacionada com essa lenda que abriulhe as portas para todo e quaisquer recursos que necessite para uma expedição dita arqueológica à Noruega — contou Rei Rondheim. de cabelos castanhos claros cortado na altura do queixo. — Senhor.. mas tem prática em atividades ao ar livre e aprendeu a pilotar muito bem com seu pai. — disse. sentindo a voz sair como um sussurro hesitante. Naquele mesmo dia Martha foi levada de avião para Londres. Entre os passageiros estava Gertha Straffe. senhorita. — Mas isso não faz de mim um soldado preparado para alguma missão de espionagem. sem tirar os olhos de Martha. a senhorita tem apenas uma aparência frágil. — E exatamente por que estão me contando tudo isso? — perguntou Martha. boca fina e maxilar levemente proeminente.— Recentemente recebemos o informe de um agente que temos nessa divisão. olhos escuros sérios.. — A senhorita já ouviu falar de uma lingüista alemã chamada Gertha Straffe? — Diante do balançar de cabeça negativo de Martha. 2 – Gundvagen (Noruega central) – Agosto de 1937 O hidroavião da Luftwaffe fez uma curva graciosa no céu azul sem nuvens antes de pousar em um lago de águas calmas não muito longe de um castelo que dominava a região do alto de uma montanha. e a senhorita é a candidata perfeita para essa missão. onde informou aos familiares. nossos generais e diplomatas sentem cheiro de guerra no ar e por isso estamos atentos a tudo o que está acontecendo dentro e fora da Alemanha. — Precisamos de alguém nessa expedição. É exatamente por isso que a estamos convocando para essa missão. mas precisa ser alguém com conhecimentos suficiente do assunto e que saiba falar alemão fluentemente para tomar o lugar da especialista em runas que Von Kelssen requisitou a Berlim. inclusive às mais exóticas — respondeu Rei Rondheim com seriedade. temendo já saber a resposta. Martha sentiu as palavras lhe faltarem. A professora não conteve um murmúrio de espanto. antes de se mudar para Londres para continuar os estudos — disse Lord Wentworth. Martha deslizou para a beira da confortável poltrona para se aproximar da foto que lhe era mostrada. a especialista em runas enviada por 34 CHARLES DIAS . acredito que resultado de seus três anos na Universidade de Berlim. Estamos atentos a todas as possibilidades. nenhum de nossos soldados se parece tanto com essa alemã quanto você. Dois dias depois foi levada para uma base da Inteligência do Exército para receber o treinamento básico antes de partir para a Noruega. — Veja bem. o major abriu a pasta que tinha sobre o colo e tirou dela uma foto que entregou para a professora. senhorita. como fora instruída a dizer. Além disso. piloto da guerra de 1914. — Sua ficha diz que a senhorita sabe falar alemão fluentemente e sem nenhum sotaque. observando as reações de Martha. sou somente uma professora universitária . pois aquela foto parecia ser de uma irmã gêmea que nunca teve.

Martha nunca tinha ouvido falar daquele lugar. auxiliares de Von Kelssen a aguardavam e a vários engradados de madeira com equipamento para uso na expedição. Martha desceu e olhou para tudo com pouco interesse. Stefanus não deixaria algo tão importante sem nenhuma proteção — disse Von Kelssen em tom de reflexão. — Como assim é uma mensagem cifrada? — perguntou Von Kelssen. mas que o tempo se encarregara de tornar apagada e sem vida. Martha olhou por cima do ombro do alemão e respirou fundo enquanto pensava na melhor forma de responder sem deixá-lo ainda mais irritado. mas há claras indicações de que se trata de uma mensagem cifrada. — Como pode ser? Essa pintura deve ter pelo menos mil anos. No cais onde o hidroavião ancorou. — Perdoe-me se não a deixei se acomodar primeiro. Um muro baixo rodeava o castelo pequeno com apenas uma torre de três andares e o pátio de formato irregular. Assim que a viu levantou-se para cumprimentá-la de forma mais amistosa do que esperava. de cabelo preto cortado muito curto. que me levará ao que realmente busco. fräulein Straffe. Não era um castelo bonito ou importante visto a decoração simples e tímida. Durante uma semana trabalhou por até quinze horas diárias com uma equipe de restauradores para encontrar e tornar legíveis uma centena de runas escondidas na pintura com muito cuidado. professor — respondeu Martha. que não era ninguém senão Martha Ross.Berlin a pedido do Professor Von Kelssen. para me ajudar com essas runas. — Dois séculos mais que isso. Na ordem aparente a tradução não tem sentido algum. apesar de estar localizado em uma região muito bonita. O que procuro está nesse aposento. onde um dia havia sido pintada uma bela paisagem com muito verde. pássaros e animais. — É um prazer estar aqui e poder trabalhar com o senhor. ele estava sentado em uma cadeira no centro de um grande cômodo vazio. — Uma mensagem escrita com as runas foi disposta na pintura com uma organização muito peculiar. De qualquer forma tenho certeza de que estamos diante de uma mensagem cifrada que somente poderei traduzir se for decodificada. mas teve certeza de que tinha sido a morada dos nobres que dominavam aquela região distante e pobre por conta da pequena população. — Pensando bem. nariz de falcão e olhos azuis aguados. uma viagem que demorou pouco mais de uma hora de solavancos e desconforto. Assim que o caminhão parou ruidosamente no pátio interior do castelo. mas esse lugar está acabando comigo. algo pensado para que somente quem soubesse o que procurar conseguisse encontrá-las. Von Kelssen era baixo. professor. Dois fortes refletores elétricos montados sobre tripés iluminavam uma das paredes. Finalmente Martha encontrou o homem que reconheceu das fotos que lhe foram mostradas pelo Serviço Secreto. — Bem-vinda ao Castelo Storkak. que tenho certeza estarem intimamente relacionadas com o segredo escondido nesse castelo. notando o leve sorriso de satisfação do homem com o cumprimento. em um tom que misturava irritação e frustração e que não procurou esconder. AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 35 . escondido nessa pintura. Dali seguiram em direção ao castelo que Martha havia visto do ar. É exatamente por isso que está aqui. Aquele trabalho foi mais complicado do que Martha imaginou quando o iniciou. Se observar com atenção no canto inferior direito notará duas runas bastante incomuns.

que era vasta. Se a tumba do Grande Rei você pretende encontrar. teve de usar todo o seu conhecimento e adquirir alguns outros que não tinha para poder fazer a tradução. Ele era um promissor matemático austríaco que escreveu um artigo propondo a construção de um improvável dispositivo mecânico de encriptação que foi recebido com ceticismo pela comunidade acadêmica e classificado como ridículo. elegante. Por muitos dias terá de viajar. professora Straffe — disse. entregando os papéis para Martha depois de observá-los com curiosidade. Quando Von Kelssen voltou. eu levaria um bom ano de tentativas frustradas até conseguir quebrá-lo — terminou de dizer estendendo a Von Kelssen várias folhas impressas com as runas ordenadas em blocos distintos e perfeitamente simétricos. ergueu a folha em branco com meia dúzia de versos de um poema épico inédito que claramente indicava direções e marcos a serem observados. Apesar de relativamente simples. — Agora é com a senhorita. Cercada por pilhas de livros antigos e anotações. um verdadeiro mapa em palavras. Por onde verdejam os campos e lambe as pedras nuas o gelado mar. Ele havia sido o pivô de um escândalo envolvendo a Sociedade Européia de Matemática que abalou o meio acadêmico. Martha notou que no canto do quarto havia sido montada uma grande máquina que parecia a mistura mal resolvida de uma prensa de jornal com uma máquina de escrever com teclas demais. usando para isso toda a complexidade da linguagem rúnica. – Se existe uma mensagem cifrada nessa pintura. um dos protetores do segredo da localização da tumba do Rei Rondheim. trouxe um homem que não era estranho para Martha e que logo a inglesa reconheceu. Quando finalmente terminou. — Precisarei me ausentar por alguns dias antes de podermos lidar com esse problema. — Professora Straffe. — Devo confessar que quem criou esse código sabia muito bem o que estava fazendo. esse é o homem certo para decifrá-la. é uma solução muito engenhosa. atenta a qualquer informação adicional que pudesse colher. algo que precisei de mais de uma década de pesquisas para descobrir — respondeu o arqueólogo alemão. Por terra e por mar. desapareceu do meio acadêmico. — Esse castelo pertenceu ao Barão Stefanus Alexander Kielland. esse é o professor Marcus Ruben. 36 CHARLES DIAS . chefe de pesquisa da Inteligência do Reich — apresentou Von Kelssen na tarde seguinte. Foi trabalhando nessa máquina como um pianista louco que Marcus Ruben decifrou a mensagem que havia na pintura naquela mesma noite. que seguia lenta e difícil. Revoltado com a recepção ao seu artigo. Sem a ajuda da minha criação — disse o matemático e inventor dando um tapinha orgulhoso na grande máquina —. quando Martha chegou ao quarto da pintura para atender a um chamado do arqueólogo. Os dois dias seguintes foram extenuantes para Martha Ross. Estava claro que agora trabalhava para os nazistas.— Quem? — perguntou Martha. O autor da mensagem havia criado também um código ideogramático para proteger ainda mais a mensagem que queria transmitir.

De pedras antigas como o mundo. Inexpugnável em sua grandeza.Um grande mal o Grande Rei guarda. Um segredo pior que um demônio alado. as Sementes da Destruição. AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 37 . Da qual hoje restam apenas velhos sentinelas mudos. Que por ela tropas espalhavam terrores. Não tenha receio de andar pela estrada dos antigos invasores. Por fim procure pela velha fortaleza. Por toda eternidade em seu descanso sagrado. Professora Straffe. Navegue pelo mar de sal. Que não guarda nenhuma beleza. mesmo sabendo que o arqueólogo alemão ainda teria muito trabalho para descobrir com exatidão o local apontado por aquele mapa em palavras. — Meus parabéns — congratulou Martha. Von Kelssen autorizou sua ida. — Muito bom trabalho. Siga a estrela que ilumina o trigal. Tinha certeza de que não desapontaria a mim e ao Führer. Siga sem tardar para a cidade dos nobres. Levando-o assim por entre as ilhotas de Silal. Mas da terra sagrada tira sua pureza. Construída por mãos sagradas e cercada por um grande muro. Vá então para a velha catedral. Que da velha Roma lançavam temores. Mais tarde naquele mesmo dia Martha recebeu um comunicado solicitando seu retorno imediato a Berlim por alguns dias a fim de verificar a autenticidade de manuscritos confiscados pela Gestapo. Algo que nunca mais deverá ser revelado. já que até desvendar a pista que tanto procurava não precisaria do auxílio da lingüista. Ore para que seus deuses soprem para barral. A senhorita não imagina o trabalho que eu mesmo tive para descobrir que era nesse castelo que encontraria o que me levará diretamente ao túmulo do Rei Rondheim e seu maior tesouro.

— Tediosa — respondeu Martha laconicamente para desviar de uma vez por todas o rumo da conversa. disse que era para ela se trocar que o professor a aguardava nas ruínas ao sul da ilhota. 3 – Nordkapp (Extremo norte da Noruega) – Outubro de 1937 Após alguns dias em Berlin dedicados a reuniões secretas com agentes ingleses para comunicar tudo o que descobriu sobre a expedição de Von Kelssen. Antes olhou ao seu redor. mas dessa vez tinha companhia. Martha não respondeu imediatamente. Meia hora depois encontrou Von Kelssen observando o trabalho de duas dezenas de soldados que terminavam de retirar a camada de entulho que encobria um amplo pátio recoberto de grandes placas irregulares de pedra onde havia sido esculpida uma série intrincada de desenhos em baixo relevo. a antropóloga agradeceu quando pousaram na pequena ilha rochosa alguns quilômetros distante do continente. O frio no extremo norte da Noruega era mais intenso e desconfortável do que imaginava a antropóloga inglesa. que tinha os cabelos pintados de loiro e encarnava o tenente-aviador Ludvic Strasser. O avião taxiou até o conjunto de barracões de madeira que haviam sido construídos não muito longe de uma área de ruínas na borda do penhasco que mergulhava no mar gelado. principalmente quando estamos trabalhando em algo tão mais excitante e importante — concordou Von Kelssen. professor? — perguntou Martha. Assim que saiu do avião.Enquanto voava de volta para a capital alemã. ela sabia que ele não faria nada que pusesse em perigo seus disfarces. Martha pensava em como o Serviço Secreto de seu país conseguira não somente passá-la pela lingüista alemã. — O que espera encontrar nessas ruínas. — Sei como são essas viagens. Apesar do major não ter lhe dito como justificaria sua estada na ilha ao invés de retornar imediatamente. professora? — perguntou Von Kelssen. curiosa com o lugar. enquanto levava suas malas para uma dos barracões. observou com cuidado a disposição das ruínas e procurou em sua memória por qualquer referência que pudesse ajudá-la 38 CHARLES DIAS . como também forjar uma história para afastá-la de Von Kelssen a fim de que pudesse relatar o que estava acontecendo. Martha estava voando de volta para a Noruega. sentiu o frio cortante que não deixava ninguém se esquecer que o Pólo Norte não estava muito distante. sem tirar os olhos do trabalho dos soldados. Apesar de estar bastante cansada da viagem. bastando que enviasse um telegrama para uma suposta tia em Leipzig para que logo em seguida chegasse o falso comunicado de Berlin. — Boa tarde. Após o vôo longo e na maior parte entediante. Como foi de viagem? — perguntou o arqueólogo alemão bem humorado. — O que você acha que um dia foi esse lugar. Um dos auxiliares de Von Kelssen veio ao seu encontro e. divertindo-se com a curiosidade da lingüista. professora. que andava encolhida dentro do pesado casado de inverno. Pilotando o bimotor estava o mesmo major que a havia entrevistado juntamente com Lord Wentworth. Martha recusou a carona até onde estava o arqueólogo alemão e preferiu caminhar sozinha pelo terreno pedregoso coberto por uma fina camada de neve.

tanto para impedir seu culto como para ter certeza de que se a maldição fosse real a santificação do lugar seria uma proteção a mais. muito esforço e muitas buscas infrutíferas por toda a Europa. um monge foi enviado por Roma à Noruega para debelar um culto obscuro ao Rei Rondheim. “Na viagem de volta o Rei caiu enfermo. Tanto os astrólogos reais quanto o sumo sacerdote proclamaram que o rei havia sido amaldiçoado pelas Sementes da Destruição e que o rei deveria ser enterrado em um lugar especial e esquecido. Esse monge era Santo Apolônio Vasili. O antropólogo alemão se divertiu com a expressão intrigada que tomou o rosto de Martha. Esse rei legendário realmente existiu. — Por muitos anos não consegui mais que referências espalhadas que mal formavam um quadro geral do que realmente aconteceu. devo confessar — disse Von Kelssen. morreu após muita dor sem que nenhum dos médicos da corte tenha conseguido descobrir o que havia de errado com ele. Com a morte do santo. Para vingar a morte do irmão. Em 1132. de onde nunca mais voltaram ou se ouviu falar deles. enquanto ela tentava juntar aquelas informações e finalmente concluir que não sabia nada a respeito daquele lugar. em tom de concessão. durante três anos o Rei Rondheim juntou recursos e congregou esforços para construir um exército de bom tamanho. fräulein. riscado da história juntamente com os artefatos malditos. por volta do século treze. quando seu irmão mais velho. A expedição foi um sucesso. o monastério de São Apolônio Vasili. Roma ordenou que o lugar fosse destruído e enviou todos que puseram os pés nessa ilha para a América. professor? — perguntou Martha. Ele assumiu o trono no ano de 585. deixando claro que o lugar havia sido abandonado havia séculos. Tudo isso para que esse lugar fosse esquecido de uma vez por todas. tomado de algum poderoso rei europeu e que era proclamado como vindos do próprio continente perdido de Atlântida. O Führer tem muito interesse nesse tipo de assunto e AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 39 . e depois de muito tempo. O exército de Rondheim não só venceu os vikings. A paisagem gelada e remota não ajudava muito. mas há elementos discrepantes que não deveriam estar aqui e que sugerem um monastério — respondeu Martha. o legítimo rei.a dar uma boa resposta. a cidade-capital do senhor da guerra viking responsável pela morte do seu irmão em combate. As ruínas não passavam de uma série de muros e paredes de pedra desmoronadas em torno de pátios concêntricos. como também construiu um monastério fortificado exatamente sobre o túmulo real. — A senhorita está no único monastério fortificado de toda a Escandinávia. em 589. que protegeria por toda a eternidade em sua morada final. um legendário artefato que os antepassados do bárbaro haviam. ao mesmo tempo curiosa e grata pelo bom humor do alemão fazê-lo lhe contar o que tanto queria saber. Finalmente. foi morto após uma batalha brutal para defender o reino de uma invasão viking. consegui remontar a verdadeira história por trás da lenda. como destruiu sua frota de navios e queimou Vlakvik até não sobrar mais que ruínas fumegantes e corpos carbonizados. intrigada com o que via. por sua vez. — Eu também fiquei bastante confuso quando vi esse lugar pela primeira vez. Dias depois de seu regresso à Noruega. ele mesmo.” — E como conseguiu reunir todas essa informações. ele partiu para Vlakvik. — Pela disposição das ruínas diria que é uma fortificação militar da Baixa Idade Média. as temidas Sementes da Destruição. que não somente debelou o culto. apesar de seu reino ter durado muito pouco. — Passei vinte anos pesquisando sobre a lenda do Rei Rondheim. o senhor da guerra viking e tomou seu maior tesouro. Rondheim matou.

— E o que são essas Sementes da Destruição? — A garantia de que todo o mundo aceitará sem resistência o domínio do Terceiro Reich pelos próximos mil anos. — Essa é uma ótima notícia. Era exatamente isso que eu esperava encontrar. Em meio aos intrincados desenhos penosamente entalhados na rocha. que chegaram à ilha durante a noite trazidos por um navio mercante que partira assim que foi descarregado. onde finalmente consegui preencher as lacunas dessa história maravilhosa. que na verdade havia sido o átrio da igreja que havia sido o coração do monastério fortificado. Sobre uma pequena plataforma de madeira estavam Von Kelssen e Eva Krueger. fräulein — respondeu Van Kelssen misteriosamente. as quais não mereciam pouco mais do que algumas migalhas da sua atenção. Refletores alimentados pelo gerador iluminavam o pátio descoberto e várias câmeras de cinema estavam preparadas para filmar tudo o que acontecesse. Martha nunca tinha visto aquela mulher. eufórico com a revelação. antes de dar uma longa e prazerosa risada. Enquanto isso Martha pesquisou o que pode sobre o estranho feitiço e pela primeira vez naquela missão sentiu medo do que poderiam encontrar. um poderoso feitiço de proteção — disse Von Kelssen. Martha pensou que aquele lugar poderia passar tranquilamente por um set de filmagens de Hollywood. Naquele mesmo dia Von Kelssen partiu de avião do acampamento sem dizer a ninguém para onde ia e por vários dias não houve notícias dele. Aquele tipo era muito comum no meio acadêmico e a inglesa sabia reconhecê-lo. apesar de o dia ter amanhecido escuro e frio. loira. Quando chegou às ruínas. — E o que vai acontecer aqui? — perguntou Martha. mas o modo como ela lhe voltou o olhar com desinteresse deixava claro que se tratava de alguém arrogante. Pelo canto dos olhos viu o Major Williams ajudando outro soldado alemão a enrolar cabos elétricos que não estavam sendo usados. que conversavam enquanto dois soldados montavam na mão direita da mulher o que parecia ser uma enorme luva de borracha e cobre de aspecto estranho. desistindo de entender por conta própria o que era tudo aquilo. Pouco antes do meio-dia um soldado avisou a Martha que Von Kelssen a queria nas ruínas o quanto antes. — Chegou bem na hora. doutora. um tipo de feitiço protetor usado pelos antigos sacerdotes escandinavos para ocultar e proteger segredos muito importantes. Quando se voltou o viu ao lado de uma mulher alta. 40 CHARLES DIAS . a melhor cientista paranormal a serviço do Führer. professora — saudou o arqueólogo assim que a viu se aproximar. Por vários dias Martha trabalhou no pátio gelado. — Professora Straffe. vestida com o uniforme negro da SS. ligada por um grosso cabo a uma mochila presa em suas costas. tendo que levar para as ruínas diversas estruturas metálicas e um grande gerador elétrico movido a diesel. quando ouviu Von Kelssen chamar seu nome. Dias depois Martha fotografava alguns detalhes das runas inscritas no pátio. seus olhos verdes que a observavam friamente. descobriu algumas dezenas de runas em uma combinação especifica. que se achava superior à maioria das pessoas. deixe-me apresentar Eva Krueger. A manhã seguinte foi bastante movimentado para os soldados.por seu intermédio passei um dia inteiro na Biblioteca Proibida do Vaticano.

quebrando o silêncio. fazendo um deles explodir em faíscas. Para nossa sorte ele não tinha a tecnologia para tirála do papel e os projetos ficaram perdidos por séculos. ainda precisamos de nossa amiga inglesa viva. professora Martha Ross — respondeu Von Kelssen. afinal de contas não se vê isso todos os dias nem mesmo na Inglaterra. — Imagino que a senhorita esteja muito curiosa quanto ao que acabou de testemunhar — disse Von Kelssen para Martha. Então com um estrondo ensurdecedor as placas de pedra do pátio começaram a rachar até que finalmente revelaram um grande portão de ferro que vinham escondendo por séculos. deixando-a sozinha. até que as únicas coisas que se ouvia eram novamente o gerador e o mar. Não sabemos se encontraremos mais runas em nosso caminho e ela é a única que pode decifrá-las. inclusive na Inglaterra. As centelhas elétricas foram diminuindo até desaparecerem por completo. Estranhamente o vento começou a soprar cada vez mais forte e as centelhas elétricas saltaram para o piso de pedra e para os refletores. com a ajuda de outros brilhantes alquimistas de sua época. Sabemos que está aqui por causa disso — disse Eva. perdão. aproximando a luva elétrica do rosto de Martha. Virou-se e deu de cara com o capitão nazista apontando-lhe sua arma. — Ao trabalho. E se continuar fazendo seu AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 41 . em tom de triunfo. capitão — ordenou Von Kelssen. com um sorriso nos lábios. Durante vários minutos Eva ficou imóvel de olhos fechados enquanto não se ouvia outra coisa senão o ruído baixo do gerador e do mar. até que os encontrei por acaso durante minhas pesquisas em busca da tumba do Rei Rondheim. na Alemanha traidores são condenados à execução sumária. tentando esconder o medo que sentia. E a senhorita tem o privilégio de tê-la visto em funcionamento antes mesmo do Führer. — O Reich tem colaboradores fiéis em todo o mundo. — Ele somente está cumprindo ordens. Devo dizer que se não fosse o gênio da doutora Krueger. Naquele momento Martha sentiu uma mão segurar com força seu braço. assim como o ruído elétrico e o vento. A expressão no rosto da nazista era da mais completa insanidade. e pequenas fagulhas azuladas começaram a saltar entre as placas de cobre da luva. — Não. professora. não é mesmo? — Como? — perguntou Martha. que continuava aturdida com o que assistira — É natural. Von Kelssen lhe falou algo em voz baixa e caminhou para fora da plataforma. — O que significa isso? — perguntou. Subitamente a mulher abriu os olhos e ergueu a estranha luva em direção ao pátio enquanto sussurrava palavras ininteligíveis. O oficial gritou ordens e fez com que os soldados saltassem de seus lugares e começassem a trabalhar freneticamente para abrir o portão negro encravado na rocha do pátio. então o som elétrico emitido pela mochila que a mulher usava começou a ficar cada vez mais alto. — Essa maravilha máquina foi criada pelo próprio Leonardo da Vinci. sem poder acreditar no que acabara de ouvir. Não demorou muito para que os técnicos deram um sinal positivo de que Eva poderia fazer o que quer que estivesse planejando. professora Straffe. sorrindo maliciosamente para a lingüista. que somente terá esse prazer na próxima semana.— Prepare-se para testemunhar o poder que fará o mundo se ajoelhar para o Führer — rosnou Eva Krueger. não teria sido possível transformar tal projeto em realidade de forma tão rápida e perfeita. Por alguns segundos nada aconteceu. — E como sabe.

Os dois soldados que iam à frente haviam sido decepados na altura da cintura por algo tão afiado que separou seus corpos em dois além de romper os grossos cabos de força que alimentavam os refletores de luz que levavam. enquanto o ruído ensurdecedor fez os que não estavam atirando taparem os ouvidos com as mãos. nenhuma outra armadilha foi encontrada. De repente um ruído metálico surgiu do nada ao mesmo tempo em que os holofotes apagaram. Enquanto descia os degraus de pedra. enquanto Von Kelssen caminhava prudentemente alguns metros atrás. — Cessar fogo. uma cena horrível foi revelada. Von Kelssen anunciou que havia desativado um engenhoso mecanismo mecânico acionado por gatilhos de pressão escondidos no piso do corredor. — Acredito que nossa convidada não se recusará a traduzir o que temos diante de nós — disse Eva. Finalmente os soldados terminaram de montar um guindaste motorizado e o usaram para erguer o colossal portão. Uma armadilha mortal para os incautos que ousassem invadir a tumba real. A explosão então encheu o túnel de poeira e fragmentos de rocha. dando o assunto por terminado. Alguns soldados começaram então a descer os degraus levando refletores de luz ligados por grossos cabos elétricos ao gerador. — O momento pelo qual eu esperei por mais de duas décadas — anunciou Von Kelssen solenemente. porém. Martha pronunciou em voz alta a mensagem. de uma forma artística e quase ornamental. enquanto um dos soldados que seguiam a frente deu um grito curto e agonizante. enquanto fazia um movimento ameaçador com a luva elétrica na direção de Martha. Duas longas horas depois finalmente chegaram a uma parede de pedra coberta de runas esculpidas com muito cuidado. O restante do longo corredor foi explorado com cuidado e sem pressa.trabalho. Assim que outros refletores foram trazidos. os explosivos — ordenou então Von Kelssen sem hesitar. — Capitão. que mantinha a luva elétrica ameaçadoramente próxima de Martha. em tom sarcástico. Depois de trabalhar rapidamente na tradução. talvez até possa interceder junto ao Führer em seu favor — disse o arqueólogo alemão. seguido por Martha e Eva. Após uma longa hora de espera ansiosa. abrindo caminho para o arqueólogo alemão e sua ambição. Martha foi deixada para trás sob a guarda de dois soldados enquanto Von Kelssen e Eva 42 CHARLES DIAS . revelando um lance de escadas de pedra que desapareciam na escuridão do subsolo. Imediatamente as paredes de pedra do túnel foram iluminadas pelo clarão de suas metralhadoras disparando ferozmente. um alerta para que a tumba do rei não fosse violada porque guardava algo tão terrível que nunca mais deveria sair dali. professora Ross. cessar fogo — gritou Von Kelssen um minuto depois. Martha tentava em vão manter a calma enquanto seu cérebro imaginava mil possibilidades de fuga e descartava cada uma delas por se mostrarem impossíveis.

ignorando os magníficos tesouros aos seus pés e ficou frente a frente com o mitológico rei. o que arrebentou a corrente de ouro e fez as grandes esferas rolarem pelo chão. Sentado em um trono sobre uma plataforma elevada estava o corpo naturalmente mumificado de um homem vestido com uma fabulosa armadura decorada com ouro. — Eu não acredito! — Von Kelssen gritou como um louco. Foi quando AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 43 . Então Von Kelssen dirigiu-se ao trono. cujo rosto de pele ressecada pelos séculos sorria tristemente. Alguns minutos depois outro soldado voltou e mandou que a levassem adiante. — Aqui repousa Jarat Rondheim. — São apenas sementes velhas presas no âmbar. Eva se aproximou e estendeu a estranha luva elétrica. Dependuradas ao lado do trono. ignorando os avisos de Eva Krueger quanto à possível existência de outras armadilhas. Tudo isso para quê? Para descobrir que as temidas Sementes da Destruição não passam de sementes velhas que tolos reis antigos se matavam para possuir?! Ninguém ousava dizer uma palavra. Esse colar não tem nenhum poder místico. arrancando o colar da mão enluvada de Eva com violência. a discórdia e a guerra. O arqueólogo caminhava com passos confiantes. — Acho que vossa majestade tem algo que venho buscando há muito tempo. mas Eva fez um sinal para que todos ficassem onde estavam. as Sementes da Destruição. O oficial que comandava os soldados fez menção de ordenar que o imobilizassem. traduzindo o que diziam as runas bordadas nas tapeçarias. duas grandes tapeçarias de seda bordadas com runas maravilhosamente trabalhadas. o arqueólogo chutou com violência vários artefatos preciosos enquanto gritava como um louco enfurecido. querido por seus súditos. — Durante toda minha vida procurei por esse lugar. herança maldita da ilha tragada pela fúria do mar. Enfurecido. o arqueólogo alemão foi então até um dos refletores e se pôs a observar melhor sua grande descoberta. Subiu os degraus da plataforma. sábio e guerreiro. onde o professor depositou o colar. antes de levar a mão ao estranho colar de grandes esferas marrons do tamanho de bolas de tênis presas por uma corrente de ouro que a múmia tinha em torno do pescoço e retirá-lo com muito cuidado. honrado por seus aliados e temido por seus inimigos. Só eu sei das dificuldades que tive de superar para me apoderar das informações que me trouxeram aqui. Consigo sua maior conquista e também sua danação.Krueger desceram o novo lance de escadas que existia atrás da parede de pedras destruída pela explosão. prata e pedras preciosas. Os dedos metálicos se fecharam e a mulher cerrou os olhos murmurando mais palavras ininteligíveis enquanto o crepitar de eletricidade ficava mais forte. Permita-me — disse o arqueólogo em tom solene. como um homem que finalmente tem ao alcance de suas mãos aquilo pelo que trabalhou toda a vida. Sorrindo vitorioso. temendo tornar-se alvo da fúria do alemão. Estendeu o colar diante do facho de luz e observou as contas escuras que se mostraram translúcidas e de uma cor avermelhada muito bonita. revelando em seu interior algo mais escuro e muito pequeno. que por tantas gerações causaram a morte. Diante dos seus olhos havia uma magnífica sala do trono repleta de tesouros iluminados pela forte luz dos refletores trazidos pelos soldados. rei. Quando entrou na tumba a inglesa mal pôde acreditar no que estava vendo. Que esse tesouro maldito para sempre seja guardado pelo Grande Rei e que nunca mais ameace os homens — recitou Martha. Um longo minuto depois anunciou a última coisa que Von Kelssen gostaria de ouvir.

Esse é o exército do Führer. Ao seu lado o Major Williams alternava seu olhar do pára-brisa para o espelho retrovisor. não quero encontrá-los como se estivessem de folga. mas estranhamente ninguém mais parecia ter conseguido escapar da tumba. — Levarei a professora de volta ao acampamento para pegar alguns livros. inglesa idiota — rosnou a alemã. vá direto para o avião que usamos para chegar aqui — ordenou o major em tom grave. — Assim você me decepciona. apontando para Martha. — Solte essa arma ou morram. Não diga nada e faça de tudo para parecer calma — ordenou o major. não uma companhia inglesa qualquer — disse secamente. 44 CHARLES DIAS . Martha ouviu Von Kelssen gritar em algum lugar enquanto o ruído dos raios emitidos pela luva elétrica de Eva confundia-se com o som assustador dos cipós vivos. Para todos os efeitos. — Quando chegarmos ao acampamento direi que Von Kelssen ordenou que a levasse para sobrevoar a ilha em busca de alguma ruína nos penhascos. quando finalmente passaram pela parede de pedra que fora explodida. então pegou a segunda e se levantou lentamente para que ninguém notasse o que estava fazendo. Em meio à confusão. Na volta. Quando saíram encontraram os soldados conversando despreocupadamente enquanto fumavam. ficaram em posição de sentido.Martha viu que duas das esferas do colar haviam rolado para perto de seus pés. antes de caminharem em direção da escadaria que os levaria de volta para a superfície. Num impulso impensado arremessou a esfera que tinha na mão na direção de Eva. Ao verem quem acreditavam ser um tenente de seu próprio exército. o major jogou a arma no chão e colocou as mãos atrás da cabeça. Rapidamente vários soldados avançaram sobre os dois para segurar seus braços. Vendo que Eva tinha a luva elétrica apontada para Martha. Mesmo com o caminhão ganhando distância das ruínas. Martha não conseguiu deixar de sentir medo. mas a mulher notou seu movimento e erguendo a luva elétrica disparou com ela um relâmpago que despedaçou a esfera no ar. Martha sabia que se não fizesse algo. Martha e o Major Williams foram soltos e conseguiram fugir para o túnel antes que os cipós os alcançassem. Com cuidado colocou uma delas no bolso do casaco. mas o capitão alemão simplesmente ordenou para que seus homens atirassem. mas foram rapidamente dominados e desapareceram na massa vegetal. De repente do chão surgiram centenas de cipós que cresciam numa velocidade assustadora e enrolavam em tudo o que tocavam. olharam para trás. tanto ela quanto o capitão estariam condenados. Martha caminhava atrás do major fingindo tédio. Assim que eu parar. — A espiã pegou algo no chão — gritou o oficial. antes de dar uma risada. Vamos sair como se nada tivesse acontecido. Tudo aconteceu muito rápido. Correram feito loucos e. rendendo-se. Naquele instante o Major Williams sacou a metralhadora que levava e gritou para que todos ficassem onde estavam. estou levando-a para o acampamento para pegar alguma coisa. Os soldados começaram a atirar. Com cuidado aproveitou que todos tinham a atenção voltada para o arqueólogo e se agachou para pega-las. — Acredito que os disparos não foram ouvidos na superfície. Apenas um sargento perguntou se precisavam de algo.

Martha viu um raio azulado passar próximo do avião para explodir vários tambores de gasolina não muito longe. Mas para seu alívio o avião decolou e ganhou altura rapidamente. Vou ganhar algum tempo — disse o major. arremessando-a para o alto e fazendo com que a descarga elétrica mortal com que pretendia destruir o avião desaparecesse em direção às nuvens. Ainda no ar a alemã foi agarrada pelos cipós e desapareceu em meio a uma massa verde ondulante. Martha se virou e viu a alemã muito perto. Sem pensar duas vezes soltou o freio e sentiu o avião dar um soco ao começar a se mover. uma massa de cipós surgiu sob os pés da nazista. Enquanto assumia o lugar do piloto. enquanto voava em direção à Suíça. Martha rezava para que os cipós não fizessem com ela o mesmo que fizeram com todos os outros.. — Mas. com alguma resistência o motor ganhou força e a hélice passou a girar cada vez mais rápido. apontando a luva mortal para o avião. para onde foi orientada para ir se algo saísse errado. Martha desceu e foi para o avião enquanto o major falava com os soldados que guardavam o lugar. tragou os escombros para o fundo do mar.. Martha ouvia o pipocar das metralhadoras. então o motor deu um estouro acompanhado de uma nuvem de fuligem e parou. Eva Kruegger e os soldados que guardavam as ruínas haviam chegado em outro caminhão e disparavam suas armas antes mesmo de o motorista parar o veículo. Juntando essa constatação com o que havia lido nas cortinas que ornamentavam a tumba. pegando uma arma no banco do traseiro do avião e sair do avião. Mais tarde. A hélice começou a girar devagar. chegou a uma conclusão terrível. cujos fragmentos foram lançados ao chão. antes de sair do avião e correr para o outro lado da pista de pouso improvisada. AS SEMENTES DA DESTRUIÇÃO 45 . — Faça esse motor ligar e vá embora daqui.Assim que chegaram ao acampamento e o caminhão parou ruidosamente. Enquanto o avião corria pela pista ganhando velocidade. pensava sobre o que aprendera sobre as Sementes da Destruição e o acontecimento extraordinário que havia riscado a ilhota da face da Terra. Não demorou muito para que ele também entrasse no avião e sem dizer nada tentasse ligar o motor. Sussurrando uma oração tentou ligar novamente o motor do avião e mais uma vez o motor deu um estouro e não ligou. — Apenas faça o que estou ordenando. Antes que pudesse acionar novamente o motor. O que descobrimos aqui é muito mais importante que eu ou você — disse gravemente. Com a mente mais calma lembrou-se que os cipós apareceram pouco depois de Eva ter destruído com a luva elétrica uma das esferas que tinham sementes em seu interior. A mulher sorriu e quando tudo parecia perdido. Olhou então para o lado procurando o Major Williams para que viesse para o avião e deu um grito quando o viu ser atingido por uma rajada de balas que destroçou seu peito. finalmente. Ainda muito nervosa Martha fez o avião dar várias voltas para testemunhar melhor o terrível espetáculo da pequena ilha rochosa ser tomada por um emaranhado de cipós vivos cada vez mais grossos que a destroçaram e. — Você não vai sair dessa ilha com vida — ouviu Eva gritar perto o suficiente para se fazer ouvir apesar do barulho do motor. Sem perder tempo tentou mais uma vez.

Com cuidado levou a mão trêmula ao bolso do casaco e apalpou algo esférico. Mas concluiu que fosse o que fossem. a lenda do Rei Rondheim diz que as sementes vieram de lá. afinal de contas. o mundo estava mais seguro sem elas. Imediatamente se lembrou de que tinha pego na tumba não apenas a Semente da Destruição que havia lançado contra Eva que destruiu a ilha. 46 CHARLES DIAS .— Foi aquela semente presa no interior daquela esfera que originou àquele pesadelo de cipós vivos que destruiu a ilha — disse Martha. preocupada. para si mesma. o que devo fazer com isso? — perguntou-se. Por isso são chamadas de Sementes da Destruição. Por um segundo pensou que na possibilidade de várias delas terem se partido durante a destruição da tumba. onde tinha certeza de que estaria a salvo e poderia entrar em contato com a Inteligência Britânica para que a levassem de volta para casa. de onde vieram e para o quê serviriam. em voz alta. mas outra esfera tinha colocado no bolso e trazia consigo todo o tempo sem se lembrar que a possuía. também seriam suficientemente resistentes para suportar a destruição da ilha. Durante o restante da viagem Martha imaginou diversas hipóteses para o que seriam as sementes. Ao fazer uma curva mais fechada com o avião de forma a poder pousar. sentiu algo estranho em sua roupa. mas talvez a causa tenha sido exatamente uma ou mais daquelas sementes. — Meu Deus. Pensou que talvez fosse algum tipo de arma ou até exemplares muito antigos de plantas pré-históricas extintas. Finalmente Martha viu um pequeno aeroporto próximo de uma charmosa vila suíça em um verdejante vale. — A lenda diz que o continente perdido de Atlântida foi tragado pelo mar. mas concluiu que se o invólucro que as protegia resistira por milênios.

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até uma improvável troca de presentes... Se é que podem ser chamados assim. . coisas muito estranhas podem ocorrer.Rastreabilidade JOSHUA FALKEN 48 Quando o presente e o futuro se tocam de maneira imponderável.

descobrir sua origem para corrigir o erro. Jonas era claramente um caso de apaixonite ultra-romântica aguda. e ainda naquele estado surpreendente de conservação? Chamou seus colegas para ajudá-la. lentamente desenterrando o objeto misterioso. nem se importava com isso. durante a tarde. Ele só tinha olhos para a garota morena na fila da cantina. Mais um pouco e aquele espécime poderia ser estudado e catalogado. com timidez crônica ou sem. São Bernardo do Campo. Ele se aproximou. 12 de agosto de 2007 O som crescente dos trovões mostrava que logo. Para os olhos azuis que nem safiras. RASTREABILIDADE 49 . Andréia! Que tal irmos à balada hoje? Jonas viu que sua musa respirava fundo para se controlar. Aquilo não era minério. a exigência por garantia de qualidade forçou todas as áreas da indústria a desenvolver métodos e programas para assegurar a excelência de seus produtos e. Foi quando Mateus. — Olá. que obviamente não gostou disso. Ela começou a retirar a terra. 15 de novembro de 1997 Uma estagiária de paleontologia da Universidade de Pequim meticulosamente retirava a terra ao redor do fragmento de osso. viu um relampejar metálico. Mas ela se recusava a pensar na próxima hipótese lógica: que era um objeto artificial. logo. o objeto foi identificado de forma conclusiva pelos técnicos do Serviço Chinês de Inteligência: Parte da asa direita de um Boeing 747-400. Jonas. chegou encostando na garota. o lado de mineralogista amadora sugeriu. com certeza. Mas um dos alunos do terceiro ano do ensino médio. Num sitio paleontológico em uma das províncias do norte da China. que nem azeviche. em caso de acidente ou defeito. um tanto excitadamente. para seu assombro. Tal controle é chamado de rastreabilidade e é uma das bases para se descobrir a causa de problemas que podem surgir quando o produto estiver com o usuário final. Hoje finalmente falaria com ela. Foi quando. Para os cabelos longos e pretos. ao descobrir um pouco mais de terra. A superfície estava completamente polida. definindo seu lugar na árvore evolutiva dos dinossauros. Mas décadas antes. um valentão metido a malandro. respirando fundo. que lhe deu um pequeno choque elétrico ao toque. revelando. como algo feito pelo homem poderia estar numa camada de solo da época do Jurássico. uma superfície lisa e metálica. Um mês mais tarde.No final do século 20. indústrias altamente sensíveis como a automobilística e a aeronáutica mantinham um controle dos componentes utilizados e do destino do produto final. "O que será isso? Talvez algum minério raro?". uma tempestade cairia sobre a Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus José de Alencar. Afinal.

— O temperamento forte da morena suplantando a prudência.. Seu ponto de impacto foi bem onde estava Mateus. no tom mais respeitoso possível. — M-Mateus. Aquele era o limite para Jonas.— Desculpe. — Se a opção é ficar com você. Várias pessoas gritaram quando Mateus tirou um revólver do bolso do blusão. formando um grande espaço com Jonas e Mateus no centro. Aturdido. 18 de agosto de 2007 — O que você quer dizer com não sabe de onde veio isto?!? Isto é uma turbina de Boeing 747!! — exclamou o major William Ferreira. A reação dos mais próximos foi se afastar do maníaco. Jonas levantou a cabeça. — Escuta aqui. responsável pela investigação sobre a origem da Turbina Fatal . — E quanto aos números de série? 50 JOSHUA FALKEN . sem perceber os gemidos dos colegas ao redor. Andréia empurrada para o lado.. A cobertura do pátio tremeu com o trovão daquele momento. agarrou o braço do valentão. com uma sutil e estranha luz violeta emanando dos clarões. estava o objeto. Num ato que poderia ser chamado de romântico ou puramente imbecil. — Mas isso não é possível! Motores de jato não aparecem do nada — ele murmurou. Mateus. ele se perguntou. um fiapo de gente -. empurrando Jonas ao chão. O rapaz piscou os olhos várias vezes. O objeto que tinha lhe salvado a vida era nada mais. Esse efeito foi o que salvou a vida de várias pessoas. — ela disse — não! — Cai fora. coberto com poeira dos escombros. — Mas nenhum Boeing da classe 747 sobrevoou a área naquele dia. sim. devido à diferença gritante de físicos . O tremor resultante fez com que todos caíssem no chão. terra e sangue de seu adversário. que exigia saber sua origem -.como foi apelidada pela mídia. Ferreira sabia que Souza não mentia. — Sim. nada menos que uma turbina de avião. "É isso que chamam de deus ex machina?"..Mateus era quase um armário 3 por 4 devido a anos de repetência e Jonas. Imediatamente a atenção de todos no pátio coberto se virou para a briga. Mas eu não posso. Base da Força Aérea Brasileira nos arredores de Sorocaba. major — respondeu o tenente Souza. — Qualé gatinha? Prefere ficar perdendo tempo estudando? Relâmpagos iluminavam o céu. quase ao mesmo tempo em que a cobertura do pátio caiu sobre os alunos. mané! Isso não é da sua conta! — gritou o adversário. A apenas 50 centímetros de seu corpo. O major apertou o nariz com as duas mãos. sua. como ficou claro com a careta de raiva no rosto feio de Mateus. apontando com o braço para o monte de metal retorcido que era a origem de seu desconcerto. e não recebemos nenhum comunicado de emergência sobre possível perda de motores ou sobre aviões desse ou de qualquer outro porte desaparecendo que pudesse sugerir uma origem para essa turbina. antes que se partisse quando um objeto atravessou a estrutura em alta velocidade. mas mesmo.. engastado no chão. O major olhava estupefato para seu subordinado.

RASTREABILIDADE 51 . — O motor que neste momento está aqui no hangar é idêntico a um que está instalado agora mesmo num Boeing 747 que está na Inglaterra? — Sim.. 15 de setembro de 2007 — Por favor. até mesmo a pintura da nacele. sem saber o que dizer. — Senhor. 3 de janeiro de 1977 O Coronel Andrews.. senhor. O técnico olhou para seu superior. — Você entrou em contato com a Força Aérea Britânica? — Sim. O técnico ficou olhando para o lado. Exceto que a verificação do instrumento deu um resultado absurdo: não apenas eles não produziam aquela peça. — As peças não são falsas. como o material com que era feita. Essa turbina tem que ter vindo de algum lugar! — Sim. — Você quer dizer que alguém se deu o trabalho de criar uma cópia de motor de um avião em operação e jogou em cima do pátio de uma escola? — Ferreira sabia o quanto a situação proposta era absurda. mas era a única que conseguia imaginar para explicar os fatos. Contate novamente os fabricantes e deixe claro a urgência disso. reunindo novamente sua coragem.— Já enviamos os números para a Boeing e Pratt & Whitney.. Base da Força Aérea Brasileira nos arredores de Sorocaba.. segundo todos os registros de rastreabilidade da fabricante do motor.. que hoje mesmo está na Inglaterra. ao colidir em alta velocidade com o cockpit do caça durante um vôo com mau tempo. repita o que acabou de dizer — Ferreira disse lentamente. Base Loring da Força Aérea Norte-Americana. Até a tarde. não existia. são idênticos. — Não exatamente. mande seus técnicos checarem novamente o número de série de cada peça daquele motor. Considerando que ele mesmo não acreditava no que tinha acabado de relatar. ele deveria estar na fuselagem de um avião da Rosen Airlines. nem que você tenha de ir até Seattle para isso. recebendo uma pintura nova. número de registro N5677... — Mas como não?! Alguém fez uma cópia do motor com peças falsas e. observava a estranha peça sobre a mesa. major. Assim que seu subordinado saiu. senhor. Ferreira passou as mãos pelos cabelos que começavam a rarear. Era um altímetro. Com muito esforço era possível ver o nome do fabricante. — Souza. Batem com os do motor. senhor. eles checaram os números de série. A peça que quase tinha derrubado um de seus pilotos. num gesto de frustração. eles devem nos dar uma resposta. com exceção de apenas três peças.. totalmente amassado com o impacto. chefe da base aérea de Loring.

mas se dissipava muito lentamente. tentando aclarar as idéias. Ferreira imaginava muito bem qual seria essa peça.. ao contatar a empresa para pedir o relatório de suas descobertas. a única diferença entre as peças desta turbina e a que está naquele avião é que as desta turbina estão mais gastas. não podia discuti-los. Havia uma explicação. 52 JOSHUA FALKEN . como se tivessem sido envelhecidas pelo uso mais prolongado.. Além dos fatos absurdos informados na reunião há mais de um mês. Ferreira fechou os olhos... Ferreira era obrigado a excluir o possível. Base da Força Aérea Brasileira nos arredores de Sorocaba." Ele arregalou os olhos. o INPE detectou uma tempestade anômala sobre a região. mas era uma em que ele não tinha coragem de acreditar. soube do boato de uma peça de desastre aéreo fora requisitada pelo Departamento de Defesa norte-americano.. mais velha. com muitas falhas de telemetria. Aquela turbina infernal tinha sido enviada para os Estados Unidos. foi informado de que a turbina fora extraviada e nunca tinha chegado lá. Aqueles eram os fatos. — Você está tentando dizer que esta turbina e a que está no avião são a mesma? — É o que os dados querem dizer. "Certo. a pedido da FAA.. por mais estranho que possa parecer. assumir que as duas turbinas são a mesma". Só que.. que não descarregava com uma ligação terra. O major se recostou na cadeira. para efeito de discussão.. o que era impossível! Só que aquela altura do campeonato. que a turbina parecia ter uma fraca carga de eletricidade estática. Perguntando a amigos na comunidade de engenharia aeronáutica e tecnologia bélica.— O-o q-quê?? — As peças são completamente idênticas entre si e têm todas as marcas de segurança contra falsificação. "Mas a que caiu era mais gasta. seus técnicos tinha descoberto apenas duas coisas mais: Uma. senhor. Ferreira pensou. que no momento da queda da turbina. Mas eles afirmavam que algo poderia existir em dois lugares ao mesmo tempo. resistência mecânica e outras propriedades que dificilmente se aproximariam se não fossem realmente originais.. Duas. Ele se sentou em sua mesa. 25 de novembro de 2007 Ferreira massageava os olhos. a agência de aviação civil norte-americana.. pois as peças são idênticas em composição química. — Esse desgaste não poderia fazer parecer com que peças falsas fossem parecidas as originais? — Não. Não conseguiria sossegar enquanto não resolvesse esse mistério miserável! Só que ele não tinha muito para tentar resolver. vamos. e da Boeing.

12 de dezembro de 2007 — William.Instituto de Pesquisas Tecnológicas. uma história de viagem no tempo. — O quê? — Estou brincando com a idéia de escrever uma história e. — Você?! Escritor? Isso sim é novidade! — Estou apenas brincando com a idéia — Ferreira defendeu-se. porém mais desgastada. não é? — É isso que o enredo faz pensar? — Sim. — Apenas para o futuro? — Sim. Tinha passado uma semana inteira imaginando uma maneira de dizê-lo ao amigo sem mencionar sua investigação. o fenômeno pelo qual o tempo fica mais devagar para alguém que esteja se movendo em uma velocidade próxima a da luz em relação a alguém em estado estacionário. tentando esconder a excitação.desculpe dizê-lo . a viagem pelo tempo é possível pela relatividade de Einstein. — Parece que o serviço militar está sendo bom para você. o protagonista encontra completados os documentos em que está trabalhando. antes que Ferreira finalmente trouxesse à tona o que realmente queria discutir. o enredo é o seguinte. seria que ele usasse os documentos finalizados para terminar o trabalho. Só que esses documentos estão bem na mesa dele..clichê. — Ué. desde que a história seja interessante! — Certo — disse o major. A mais completa seria: talvez.. — Antônio... porque a dilatação do tempo. curioso. é ficção! Você pode fazer o que quiser nela. Antônio — disse Ferreira. com alguns documentos em que ele está trabalhando. — Haha. — Entendo. mas seria possível? — perguntou Ferreira. ao ver o laboratório do amigo.. — Mas as leis da física permitiram isso? Antônio ficou em silêncio por um instante. os colocasse dentro da mala e a enviasse de volta no tempo para que seu eu mais antigo pudesse completar o trabalho. já completados. se passassem apenas um RASTREABILIDADE 53 . o protagonista encontra uma mala idêntica a que possui. — É mesmo? — o cientista perguntou. talvez você possa me ajudar com uma coisa em que estou trabalhando. você está ótimo! — exclamou o físico ao apertar a mão do antigo colega de classe. — Como assim? — Bom. impaciente. Os dois amigos conversaram sobre os tempos de faculdade por um longo tempo. em alta velocidade. mas apenas para o futuro. e . Veja. E ele tenta descobrir a origem da mala misteriosa. mas o que é? — Bom. — Hum. por tudo o que sabemos. — A resposta mais simples seria: não. Carlos riu.. William. faria que enquanto para você.. — Parece que você está mais organizado agora — comentou. — Você também não está mal. engraçadinho.. sem terminar. A solução mais simples. USP. — Certo. na sua história.

não é nada. tanto em termos de energia -que teria de ser altíssima! .. não é? — Isso mesmo! Só que novamente você poderia ir apenas para o futuro. mesmo que consigamos a energia para isso. mesmo num universo que permite a viagem no tempo. — Antônio respirou fundo. se você voltasse ao passado.ano.. se vistas em uma dimensão linear. — Hermann Minkovsky foi quem que criou as bases para o tratamento matemático do espaço-tempo como um conjunto. o do avô. — Bom. Então. todos os eventos estão marcados em relação uns aos outros no tempo. Igor Novikov. há o Princípio de Novikov.. Ferreira pensou. mas a sua realidade de origem não seria alterada.. por exemplo. Na sua história. — Você quer dizer que o avi. teriam se passado dez anos! Então. — Mesmo que isso fosse possível. — Universo de Minkovsky? — o militar perguntou.. William? — o cientista perguntou.. pela física atual. algo que ainda não termos certeza.. e então como você nasceria? E se você nasceu. digo. então nosso futuro já estaria predeterminado?". Essencialmente. viagens ao passado são impossíveis. — Outra opção seria um buraco de minhoca. se isso for verdade. você criaria uma realidade alternativa. seu nascimento. — Aqueles atalhos no espaço-tempo que volta e meia vemos em Jornada nas Estrelas.. incomodado com essa conseqüência. preocupado. não teria escolha a não ser enviar a mala de volta ao passado? — Havia um tom de descrença que Ferreira não conseguiu evitar. para que seu eu mais velho os encontrasse. o protagonista.quanto em matéria de quebras de causalidade. suas promoções. rígido. Nele. estaria dez anos no futuro! — Entendo. um tanto perdido. — Princípio de Novikov? — O nome completo é Principio de Autoconsistência de Novikov. já que são autoconsistentes. diz que. 54 JOSHUA FALKEN ... — Você ficou branco de repente. poderia matar seu próprio avô. — Mas suponha que fosse possível fazer alterações no passado. o protagonista não poderia deixar de enviar os documentos terminados de volta ao passado. para quem ficou para trás. então se você visse sua linha de tempo veria todos os eventos de sua vida pelo espaço-tempo.. se a interpretação Everettiana de múltiplas realidades da mecânica quântica for correta. que são permitidas pelo Principio de Novikov. Ferreira olhou fixamente para o amigo. paradoxos como o que mencionei. chamado assim devido a físico russo que o propôs.. como você poderia ter voltado e o matado? Esse é o argumento básico contra viagens no tempo. não ocorreriam porque não seriam permitidos. Isso é chamado nas teorias que permitem a viagem no tempo de "curvas fechadas de tempo". — Não. chamado tecnicamente de "continuum espaço-tempo". quando você descesse. pois as evidências que temos apontam para um universo de Minkovsky. afinal. — Já a volta para o passado aparentemente não é possível. — Você está bem. quando nos conhecemos aqui na USP. "Mas.

as peças diferentes na turbina do N5677 seriam substituídas pelas que estavam na turbina que caíra. conseguiu acalmar nosso amigo? Anderson respirou fundo. olá. Imaginava o que aconteceria se contasse a alguém sobre sua teoria: ou ririam dele ou o trancariam num hospício. — Olá. Casa do major William Ferreira. talvez parecido com uma tempestade elétrica. Base da Força Aérea Brasileira nos arredores de Sorocaba. "Faz sentido". Todas as suas convicções eram contra isso! Definitivamente.. a turbina seria arrancada e enviada de volta ao passado. — Ainda com a mesma história? RASTREABILIDADE 55 . a um ritmo constante. Foi quando se lembrou da misteriosa carga elétrica da turbina. começou a calcular. Duvidava. se ele pelo menos tivesse uma idéia de quando.— Num universo de Minkovsky não. Assumindo que ela seria zero no momento em que a turbina estaria para voltar no tempo. 13 de dezembro de 2007 O major Ferreira imediatamente foi até seu arquivo. a pior coisa é saber o futuro e saber que não poderia impedi-lo. pensou Ferreira. Na verdade. Não conseguia engolir que o futuro já estava escrito. — E então.. Era exatamente como ele pensava: a turbina apresentava uma carga de eletricidade estática.. — Contra as Leis da Natureza. Durante esse momento. — Finalmente consegui injetar-lhe o calmante. — Oh. Ele mesmo não sabia se acreditava ou não. Ferreira tomou outro gole de cerveja. Ele se perguntava se alguém do avião sobreviveria a esse encontro. o avião durante um vôo de rotina encontraria algum fenômeno estranho.. na verdade uma falha. para cair sobre a escola em 12 de agosto. Então os motores seriam completamente idênticos. Anderson. ou os dois. não teria — o físico respondeu calmamente. que se descarregava de maneira muito lenta. 12 de dezembro de 2007. cada vez mais incomodado com a situação. ele poderia calcular a data em que o acidente com o N5677 ocorreria! No mesmo instante. Flávio. Num futuro próximo. era a única explicação. não há apelação. uma aberração no espaçotempo. E mais cedo ou mais tarde. sem chance de alteração. 4 de agosto de 2008 O enfermeiro Anderson fechava a porta do quarto quando seu colega o cumprimentou. Hospital Psiquiátrico Jade Oliveira.

. murmurando: — Tem que haver apelação.) tempestade elétrica pouco característica (..O enfermeiro não pôde deixar de suspirar com pena.. Andrews duvidava que descobrissem qualquer coisa. 25 de agosto de 2008 Melbourne...... acidente. não é? — Sim.. Turbina. Honestamente. Leis da natureza. exceto que o universo não aceitava paradoxos.. que logo o internaram aqui...Um Boeing 747-400 da Rosen Airlines. o ex-major William Ferreira olhava para o teto... Austrália . — Ele era da Força Aérea. Enquanto os dois enfermeiros conversavam pelo corredor do hospital.. não há apelação. — pensou.. N5677. outras partes do avião para o passado. — Contra as Leis da Natureza. Pesquisavam os destroços para descobrir o segredo da aberração espaço-temporal que tinha enviado o altímetro e. prefixo N5677.. Ele até tentou avisar as autoridades.. 30 de novembro de 2010 O general Andrews observava enquanto os técnicos realizavam várias medições nas partes recuperadas do N5677 ao longo dos anos.) partes da aeronave ainda precisam ser localizadas. Base Não-identificada da Força Aérea Norte-Americana.. caiu hoje próximo a Melbourne (. com 120 passageiros. 56 JOSHUA FALKEN .. Retirado de um release da Associated Press. com olhos vidrados.) Culpa-se o mau tempo (... — É. o sujeito ainda diz que um avião vai cair e parte das peças vai voltar no tempo. como descobriram mais tarde. 25 de agosto.

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lutas em becos escuros..Um Sério Estudo sobre o Riso LEONARDO CARRION 58 Num Brasil Imperial fatos estranhos acontecem. jamais.. . mortes inexplicáveis. tudo em nome de um segredo que não pode ser revelado.

quando uma palavra surgiu disparada acima das cabeças como uma estrela explodindo sobre o mar noturno. por justiça. Sem data. Idade estimada em dezenas de anos. Meu amor. desabrochou as flores da primavera. espalhando faíscas que serviram para afastar o mundo ao redor. Não sei se chamei sua atenção pelos olhos desorbitados. UM SÉRIO ESTUDO SOBRE O RISO 59 . bela e saborosa. A segunda palavra certa espantou todos os fantasmas do passado que assombravam meu castelo de esperanças abandonadas. enfadonha e repulsiva do mundo em todos outros aspectos. e derreteu toneladas de gelo de desconfiança que eu nem sabia que guardava. ou se o coração pulsava sacudindo o tecido da camisa (felizmente o coração está sempre em desacordo com a mente). pois estava quase convencido que sim. E a terceira fez brilhar o sol do verão. você deveria ser a pessoa mais vazia. Por instantes minha visão e audição discutiram a facadas se era possível conciliar aquela imagem e a voz. E você veio e falou a primeira palavra certa. roucamente sussurrante e com uma figura tão provocante certamente. Naquele momento teria cometido algum desatino (como saltar em você ou fugir correndo). CERTAMENTE. de nada e de tudo.Memorando Policial – Documento oficial Redator: Acólito Policial João Boucinha Prova 1 – Reprodução da carta encontrada com a vítima. mas o fato é que nossos olhares colidiram espalhafatosamente. Meus olhos de mariposa entortaram-me o pescoço buscando sua origem. amaciou os caminhos com folhas de outono e juntou a nós dois como só o frio do inverno faz aos casais apaixonados. Eis que tudo era cinza. E rimos juntos. mas logo tomei uma larga e amarga dose de “bom senso” pensando que uma voz tão doce e sensual. preto e marrom no teatro lotado de pensamentos tristes da minha vida. cheguei a salivar de desejo. Até que te vi surgindo. caminhando felinamente pelo saguão dos meus sentidos. Não apenas me faltou a respiração como. Que desconfiança? a primavera é maravilhosa desde criança Seu amado. por justiça divina. se minha mente não surgisse na conversa novamente afirmando que. deveria ter uma dona em tudo o mais desinteressante. E rimos como é possível rir quando se ama. que tal criatura era real. com uma voz tão doce. tenho certeza. Papel amarelado e com dobras marcadas.

por volta de 1820. e principalmente por suas belas e tentadoras mulheres! Tela do famoso artista Astor Gildo Marins retratando a cidade Mas voltemos às ruas da pacata cidade e suas mulheres bonitas. Na verdade a cidade foi destino de grande número de imigrantes “Germanos”. Poucas delas tão belas quanto a jovem loura que caminha tarde da noite.C. em forma de espinho de rosa. Neste local. Entre a parte alta da cidade e o lago existe uma região mais densamente habitada chamada simplesmente de cidade-baixa. Suas casas e casebres são tão próximos uns dos outros que muitas vezes utilizam a mesma parede divisória.) A cidade luso-açoriana é bastante pacata. Considerando-se que quarenta anos antes. terminando no local onde um magro riacho se encontra com o lago. mas também do Império Austro-Húngaro e de outros países do centro-leste da Europa. além das casas das pessoas mais pobres e dos escravos. IV d. A cidade-baixa se inicia a noroeste da subida para a cidade-alta. seguindo no entorno desta em direção à Praia do Riacho. o distrito fabril e cinco igrejas de menor imponência. escandalosamente 60 LEONARDO CARRION . magia tida como exótica e até herética.” São João Crisóstomo (séc. Mas também pela introdução de costumes diversos. escravos e libertos.Uma Cidade. Ao longe se assemelha a uma moldura em baixo-relevo ao redor da parte alta. mas são uma emanação do diabo. entre livres. Na cidade a expressão “subir na vida” é usada indiscriminadamente. com seus quarenta mil habitantes esparramados em uma área de terra que penetra por várias léguas. um Tempo e um Crime “As burlas e o riso não provêm de Deus. de vista privilegiada. nas cercanias do porto. estão o porto. O nome não se deve apenas à posição geográfica. também está a parcela mais nobre e abastada da população. mas também à posição social de seus moradores. Este amontoado de habitações é entremeado por centenas de ruas apertadas e becos. em sentido figurado e literal. houve um rápido incremento populacional que não se explica somente por fatores internos. É dever do cristão conservar uma seriedade constante. o grande lago escuro. a população da cidade era de apenas dez mil almas. Na parte alta e central da cidade se erguem dezoito importantes prédios públicos. o arrependimento e a dor em expiação dos seus pecados. Estes germanos fixaram-se predominantemente na cidade-baixa. Nesta área constantemente atingida pelas cheias. em suas casas conhecidas como “sobrados”. alcunha que designava pessoas vindas da Alemanha. Só por este fato eram vistos com desconfiança pelas famílias mais tradicionais. os palácios e a Igreja Matriz com sua praça.

colada nas vizinhas. Senhor! — respondeu Pelonha. Invadem a casa os policiais e os vizinhos. O homem. Então descem em direção à A loura Rua do Arvoredo. — Um dente. Na noite escura de primavera a mulher não usa seus cabelos presos ou cobertos por um lenço como de costume no local. Mesmo Local. foi sentenciado à forca pelo Magistrado. que. Caminha estalando os saltos de madeira dos sapatos sobre as calçadas de paralelepípedos regulares do Beco da Ópera. já na cidade-baixa. por sua vez. Entra. portanto. passara três dias latindo defronte a casa da mulher. como as demais. proibidas e pouco cristãs. trazido pela saudade do dono sumido. olhando para os dois lados e só vislumbrando a penumbra. Uma semana depois do ocorrido a polícia chega ao local trazida por vizinhos que foram chamados pelo rapazote que. entrando em seguida. O velho mago germano. a filha-bruxa. No trajeto a moça vai à frente mostrando a direção. deixando a porta entreaberta. em pleno coração da cidade-alta. mas sim arrumado em longas tranças descendo-lhe sinuosamente pelas costas e deixando nu o formoso e branco pescoço. logo atrai um incauto “Don Juan”. descobrira a carcaça do cão que. quando ninguém mais o reconheceria. Na casa foram encontrados diversos altares a deuses desconhecidos. seguidos timidamente pelo rapazote. O caminho é feito através das pequenas ruas e becos parcamente iluminados por insuficientes lampiões a óleo de peixe. O movimento de seu caminhar revela quadris generosos por baixo da saia. vestido em uma batina branca e se inclinando sobre o homem de azul e dourado. antes de desaparecer. até então vivendo escondido de todos. O homem? Ele nunca mais sai. tenente-inquisidor da Polícia Metropolitana. Pelonha? — perguntou o reverendo-dentista. sofrendo todos os suplícios que seus carcereiros entendessem por bem aplicar. O rapazote retornaria diversos anos depois. Vinte e Oito Anos depois e outro Crime Sete Horas da Manhã.desacompanhada. Em momentos escutam-se risadas escandalosas. na Rua da Igreja. trazem ao ar um desagradável odor e sujam as roupas de fuligem. A loura aparenta oferecer resposta à busca de prazeres que não podem ser concedidos livremente pelas moças de família. As imaginadas horas deliciosas de amor não podem ser dispensadas. amaldiçoando a cidade. seguida discretamente pelo homem. 18 de Janeiro de 1888 — O que te dói. A mulher. marcam um encontro. sem trocarem uma palavra. O homem velho ria enquanto era cumprida a ordem. tem a fachada retangular quase rente ao leito da rua estreita. Quando todos saem ninguém se recorda do jovem. A loura sequer tentou negar. Com o caminhar provocante e sorrisos insinuantes. A mulher avança até uma casa que. crânios atravessados por espadas e ossadas de vários homens enterrados no porão. deveria apodrecer na cadeia. deixado só em meio a todos aqueles artefatos. favorecidos pelo efeito do cinto largo de tecido bem ajustado na cintura fina. além de pouco fazerem contra a escuridão. Deixam as iluminadas ruas da cidadealta pelo Beco do Poço até atingirem o limite imaginário com a parte pobre da cidade. UM SÉRIO ESTUDO SOBRE O RISO 61 .

— Preciso arrancar este dente de uma vez. — Mantenha a solução mágica e curativa mais um minuto ou dois na boca. Pelonha levantou-se tropeçando na cadeira de dentista e se dirigiu para a porta da enfermaria. João! — disse Pelonha. oferecido às cinco chagas de Jesus Cristo. o acólito-inquisidor da polícia metropolitana João Boucinha. quando Pelonha saiu para o infernal calor que fazia naquele verão de 1888. logo se virou e seguiu o dentista em atendimento. João — respondeu o superior. Pelonha. — Cala a boca. Pelonha esperou o homem virar as costas e se dirigir a outro paciente para cuspir imediatamente no chão. recém-saído da segunda década Tenente-inquisidor Pelonha 62 LEONARDO CARRION . Pê eNe e A eMe. Encontrou em si o olhar duro de desaprovação de uma freira-enfermeira que. retornou a nossa cidade. o nosso Cardeal Dom Cristóvão que. uma reverência japonesa. que representa a mágica santa igreja. portanto deveria ter idade relativamente igual ao fruteiro Domingos. enquanto era invocada a proteção de Santa Apolônia. do sul ao norte e do nascente ao poente. homem já bem entrado na meiaidade. mais importante. nevralgia. logo a seguir. estalicido e força de sangue. — Não existe coisa que eu odeie mais na vida do que casca de ipê-amargo! — disse o homem. que Pelonha não possuía fio de cabelo branco na cabeça. Pelonha — disse o reverendo. ocupada. chefe! Seria não acreditar na magia do reverendo-dentista. que fez o que pôde para não se afogar e interromper a magia. Alguns diziam que era mais velho do que o balseiro Seu Augusto. chefe? — perguntou Boucinha. O dentista fez acompanhar a reza por um jorro de água benta com hortelã e casca de ipêamargo de efeito antibiótico. Atrás do vidro da porta avistava a forma de seu ajudante. — Pois. ficará esta criatura livre e sã e salva de dor de dente. onde nasceu. — Faça isso não. — Isso é pra você saber 1% da dor que eu estou passando! — disse o oficial e adiantou o passo deixando o espantado ajudante para trás. depois de 15 anos servindo no Vaticano. enquanto levava a mão ao inchaço e reprimia um gemido de dor. mal conseguindo falar. — Tudo certo. Pelonha era um homem grande e de cabelos amarelo-escuros. de idade indefinida. Em seguida deu com o nó do dedo indicador uma batida forte na articulação da mandíbula do rapaz. o santo Papa e. padroeira da boa-dentadura. para nosso orgulho! — O jovem acólito arregalava os olhos puxados enquanto fazia o sinal-da-cruz e.apontando para a boca semi-aberta e para o inchaço lateral que congestionava até a articulação da mandíbula. A cerimônia curativa foi finalizada pelo reverendo-dentista com um sinal-da-cruz feito com um ramo de alecrim. pontada. — Cala a boca. direto na boca do policial Pelonha. Outros alegavam que não.

A verdade é que nem mesmo Pelonha sabia ao certo quando nascera. Seguia cantarolando. Acabou por chamar o ajudante e seguiu para o centro da cidade sem mais outra palavra. quem se importa? Magoado. ainda apalpando o rosto. como se não fosse com eles. óia a óórdem! — gritou o menino. que alcançou a dupla quando Pelonha colocava o pé na barbearia para o asseio matinal. com todos galardões disponíveis. já que a idade de cada um não deve ser contada pelo nascimento. Usava o uniforme completo de inquisidorpolicial. assim como passou estas três palavras. Também não acreditava que era coisa de homem macho ficar contando os anos. que fazia dois de seu tamanho. já que tinha sido criado sem pai e mãe. Pelonha encontrou todo o populacho reunido em torno de algo no chão. Pelonha caminhava despreocupadamente pelo meio da rua sem Acólito João Boucinha calçada. o coração te arrebato. mas sim pela morte e como só o Senhor-Meu-Deus sabe quando este evento indesejável vai acontecer. cães e cadelas. leões e leoas. no interior. que abrandô águas. filho de uma japonesa trazida dos confins por pai expedicionário jesuíta. João Boucinha. na casa dos Santos Passos. com Deus eu te ato. tão brando feito a sola do meu sapato. — Seeeu Pelooonha. Após ler a ordem o Tenente hesitou alguns segundos na porta da barbearia. deixado na “roda dos inocentes” já graúdo e educado pelas freiras da Santa Casa de Misericórdia bem longe. o sangue eu te bebo. sem demora. A ordem mandava que fosse investigar. Uma mendiga. Apesar de cedo da manhã a temperatura já atingia mais de 25 graus naquele dia. O policial caminhou sem fazer barulho até se colocar atrás dos dois folgados que. empurrando um papel dobrado na mão do homem. abrandai Pelonha tão brabo. Tendo caminhado bons metros ouviram um chamado e viram chegando correndo o moleque da delegacia. moreno e com um bigode tão vasto que parecia impossível em um rosto tão jovem. batendo o pé esquerdo contra o chão que levantava a poeira vermelha do local. O movimento era fraco porque as pessoas tendiam a evitar a subida. seguia atrás do chefe. azul e cinza. O acólito era pequeno. construída um pouco afastada do centro para evitar a contaminação dos sãos especialmente pelos tuberculosos que ocupavam o andar mais alto do hospital. a espada cerimonial e o quepe claro. A dupla de policiais estava encharcada de suor ao chegar na esquina da Rua da Praia com a Rua Paissandu.de vida. tão brabo. mas mesmo assim João Boucinha estava atento ao movimento dos poucos carroções movidos à tração animal que enxergava. A enfermaria da polícia era em um edifício de madeira anexo à Santa Casa de Misericórdia. carregado com todo o equipamento do oficial. sem UM SÉRIO ESTUDO SOBRE O RISO 63 . feito a sola do meu sapato. antes de seguir correndo rua abaixo para distribuir as demais que levava em uma sacola a tiracolo. Baixinho ia cantarolando o feitiço calmante para o superior: — Como dois eu te vi. o assassinato de uma mulher. enquanto dois acólitos-inquisidores fumavam preguiçosamente encostados em um poste. um pretinho magro e com pernas compridas de pernilongo.

oficial — adiantou-se um velho apoiado em uma bengala. — Anote também. toscamente tampado com uma espécie de tucho de pano vermelho. a não ser uns chinelos de corda puídos. Faz uns trinta anos 64 LEONARDO CARRION . — Boucinha. como atirado está o seu grosso e sujíssimo chapéu de palha. O corpo é uma repugnante caixa de ossos. Eu vou voltar para o escritório. serve-lhe de triste travesseiro. fazendo sinal com a outra para João se aproximasse mais. Pelonha avançou cerimoniosamente. Em meio a tal troca. Em torno da boca asquerosa e semi-aberta. onde se penduram uns cabelos decididamente sem cor e no mais inimaginável desalinho. O cordão de isolamento foi feito com rapidez e brutalidade. até o local onde deveria estar o corpo." Pelonha examinava a cabeça do cadáver. fazendo com que os homens saíssem em disparada sem olhar para trás. como um feltro. donde escorre um sangue grosso cerebral que avermelha os cabelos. O auxiliar deu uma demorada olhada na cena e começou a narrar enquanto anotava. Não pode ser mais feia! Nos olhos azuis baços e vidrados. O inquisidor levantou-se olhando o vidro turvo e o guardou para observar melhor no escritório. O oficial parou e colocou a mão no queixo. Pelonha interrompeu a partida do local e fez sinal para que os acólitos permitissem que o homem se aproximasse. quando as mãos de ambos se aproximavam. que o crânio apresenta afundamento no topo. sob os olhares da população. sangrentas manchas escuras e putrefatas deixam aparecer dois ou três dentes cariados e enegrecidos que bem atestam os últimos estágios dum estado canceroso da desgraçada mulher. Dentro havia algo que tilintava quando sacudido. cobertas de feridas purulentas. veja com os acólitos de plantão quem descobriu o corpo e o entreviste. tendo parte do busto esquelético e da cabeça horrenda apoiados na parede do prédio que. para apurarmos as circunstâncias. Era uma tragada para cada um enquanto o outro soltava a nuvem de fumo da sua própria aspirada. no tamanho de um copo. Pelonha avançou gritando: — Façam um cordão de isolamento! Não é permitido que fumem em serviço! Juntamente com as ordens o Tenente acertou um cotovelaço à direita e um joelhaço à esquerda. nesta conjuntura. João Boucinha o seguia com um caderno de anotações e o carvão de escrita em punho. E. Eu recordo perfeitamente. João. Chegando perto do oficial segredou: — Ela é a bruxa da Rua do Arvoredo. atirados sobre o chão. — Eu sei quem é ela. com medo de experimentarem mais. oficial. Parafusos antigos. longa barba branca e roupas distintas. Não tem mais do que isso como vestimenta. abaixado com um joelho colocado no chão. tendo os acólitos se utilizado de todos os palavrões conhecidos e mais alguns inventados. escondida nuns trapos imundos e fedorentos. distribuem-se as carnes murchas e ressequidas duma cara chupada. sob aprovação do superior: "A velha andrajosa está estendida na calçada. o que é isso ao lado do cadáver? Ainda abaixado Pelonha apanhou no chão um vidro pequeno.perceberem o superior. trocavam calmamente o fumo entre si. donde sobressaem os braços e as pernas esqueléticas.

enquanto passava a mão pelo queixo recém-escanhoado. sem nunca falar palavra a ninguém. segredando em seu ouvido —. bom trabalho então — disse Pelonha. além disso. Não olhei para baixo porque achei que o silêncio dela era como das outras vezes. certo. Pelonha leu a carta e a devolveu ao ajudante. Fazer a barba em um rosto inchado e dolorido não tinha sido tarefa fácil para o barbeiro. O homem levantou-se com uma frasqueira também de couro vermelho e acenou gentilmente para o oficial: — De nada Tenente. Agora me desculpe porque tenho que fazer a toalete no nosso Cardeal. — Ah. ele tem um problema de locomoção que o impede de caminhar normalmente. — Obrigado pelo serviço. sempre vestido em um capote preto que lhe cobria todo o corpo e a cabeça com um capuz. Eu que vou lá. pode me deixar com todas as provas. sabe? É complicado sair. Uma artrite causou um encurtamento na perna. reviste o cadáver antes de entregá-lo ao morgue municipal. Tenho que ir ao barbeiro agora. gritavam debaixo de minha janela discutindo. Pelonha! — disse rindo o barbeiro. o oficial retornava para a delegacia deixando a barbearia. — Encontrei algo! O auxiliar retirara da mão fechada da mulher morta um papel amarelado e o desdobrava mostrando linhas manuscritas. Deixe assim. — Chefe. Pela posição. — É uma carta. onde o dente incomodava. Abri a janela e disse-lhes que chamaria a polícia. UM SÉRIO ESTUDO SOBRE O RISO 65 . Desde então vivia por aqui e por ali. era impossível que o cidadão não sofresse como Cristo na cruz a cada raspada. Somente vi quando o mendigo de preto saiu correndo e mancando. e depois vou ver se arrumo este dente. Armando. estofadas em couro vermelho escurecido pelo tempo e com armação de bronze já gasta e brilhosa por muitos anos de uso. E nem tente me pagar. Hora e meia mais tarde. — Não. apesar do dente e do inchaço... quando o homem ia embora. para o senhor é sempre “da casa”. que eu levarei para a delegacia — disse o ajudante. Adeus. chefe! — continuou. Mas provavelmente já estava morta. mas retornou a atenção ao ouvir a citação do célebre personagem. uma honra! Pelonha já se colocava a caminho. — O cardeal? Onde ele está? — perguntou o oficial. eram antigas. — o barbeiro se aproximou de Pelonha. olhando para os dois lados da rua. procurando algum tipo de séquito descendo ou subindo em direção ao estabelecimento. mendigando. saindo pela porta.que ocorreram os crimes e ela permaneceu quinze na cadeia. — Evidente que o cardeal não vem até aqui. oficial. até ser solta. — Não seja estúpido. Armando! — disse Pelonha ao se despedir do barbeiro. uma pessoa importante e sagrada como ele e. Reúna todas as provas que ainda encontrar e depoimentos e me traga para a delegacia. com uma expressão de dor e segurando a lateral do rosto. e ela falava algo sobre os negros. — Chefe! — gritou João Boucinha. O barbeiro se encontrava agachado por detrás das cadeiras. Ontem à noite. exceto com um outro mendigo que rondava por aqui de vez em quando. — Até mais. Boucinha. Como o próprio Armando. Mesmo tomando todos aqueles cuidados que a prudência inspirava em se tratando de um cliente como Pelonha. Com este sempre discutia e várias vezes ele tentava roubá-la ou enforcá-la.

até mesmo os desenhos associam diferentes idéias que se completam ou até se contrapõem. ainda resmungando. E esta carta provavelmente não tem qualquer relação com o fato. Mas e daí? — Senhor. será que. mas impecavelmente sem pêlos. O acólito pegou a carta e a colocou novamente com os demais documentos. vai ver que é um haikai. depoimentos de locais e boletim de ocorrência. — Mas o que diabos é isso aqui? — perguntou-se o barbeiro ao encontrar o vidrinho com parafusos da velha. é muito antiga. — Pode ser coincidência. que pareciam versos. até que disse: — Falando em coisas japonesas. no final. A mendiga deve ter sido morta numa disputa qualquer com outros miseráveis como o tal mendigo de preto ou até mesmo por alguém que a reconheceu como a tal bruxa do arvoredo. É uma coisa simples. A sala do oficial não era mais do que um canto da gran- 66 LEONARDO CARRION . repleto de anotações pequenas. Um pouco embaraçado. É uma arte das mais difíceis. João.Por isso foi com certo alívio que viu o oficial deixando a barbearia. é uma espécie de poema que o povo da minha mãe cultua. mas não é a mesma coisa. — O policial abriu a porta envidraçada e colocou-se atrás de sua mesa. — Bonito. deixado por esquecimento do oficial sobre a bancada. se olhar bem a carta que a velha que foi assassinada hoje tinha na mão. 10 Horas da Manhã. Tenho tentado escrever alguns em brasileiro. Em ideogramas. chefe! — João Boucinha mostrava um caderno com sua caligrafia caprichada. Falam geralmente da natureza e possuem vários significados entremeados. na delegacia — Veja. O chefe o olhava segurando o queixo. venha aqui um pouco na minha sala. enquanto o jovem Boucinha entrava e se sentava na única cadeira disponível. Pra mim parece um poema comum. isto se chama “haikai”. O oficial leu: Deitado sob o ipê passei o dia inteiro a receber flores — Que é isso. João.. homem? — perguntou franzindo a testa.. João. bem. Pelonha pegou a carta que lhe era estendida pelo ajudante e pareceu novamente perdido por alguns momentos. Boucinha retomou o caderno e explicou: — Senhor. com a mão sobre a face dolorida.

que a magia da igreja curará coisa tão singela. De nada tinha adiantado subornar os escravos. fez sinal de “saúde” e bebeu tudo em um gole.. com uma porta simples. cala a boca. Os pais dela já eram católicos. Pelonha coçou novamente o rosto dolorido e se levantou. aproveitando. — Pois bem — continuou o homem maior —... e este assunto da magia fica entre nós. uma mesa e um armário de metal. mas não tenho nenhuma idéia destas coisas! Meu pai trouxe minha mãe do Japão de uma ordem católica. — João. de qualquer tipo de magia negra ou herética que se pratica no Japão. Não tenho o mínimo conhecimento. — Vamos. punição aplicada ao negro que era pego praticando umbanda ou outros ritos africanos proscritos pela igreja. Nada que o reverendo-dentista tenha feito adianta. — Mas senhor. Pelonha serviu-se de uma dose mais. tendo a idade que parece ter. Todos acreditavam que estava tentando levá-los à forca. tendo origem parcialmente estrangeira. O jovem bebericava e acenava timidamente em concordância. Sem mais rodeios. Resmungava de forma ininteligível. Ninguém precisa saber. — Senhor! — disse João escandalizado. mantendo-se em silêncio. Ele insiste que não é caso de arrancar. com a documentação do caso da velha assassinada em uma pasta. servindo-se e oferecendo um trago ao ajudante. mas o fato é que o tratamento está me matando. — Senhor. ameaçá-los ou adulá-los para que fizessem sua magia curativa. cala a boca! Fora! — disse Pelonha. 11 Horas da Manhã. estamos sós aqui. Mais rápido que ele o auxiliar deixou a sala apressado. além de duas cadeiras. Boucinha! Ajude-me. gostaria de dizer que tenho certeza que aquele poema é um haikai e. saindo da cadeira e de seu gabinete. e talvez os pais dos pais dela. — João. o que. Quando ambos se encontravam servidos. Em poucos segundos era seguido solicitamente pelo ajudante.. mágico ou feiticeiro com uma magia diferente daquela que aplicam na igreja católica. — Mas senhor. me desculpe. bordes da cidade-baixa O casebre dos negros quase desmoronou quando Pelonha fechou sua porta batendo-a com toda a força. Pelonha reclinou-se na sua cadeira e alcançou uma garrafa debaixo de mesa. Juntos deixaram a delegacia novamente para o dia iluminado e quente. quero lhe perguntar se. fechado por duas grandes peças de madeira aglomerada. falou para o subordinado: — João. este dente está me matando. e asseguro-lhe que minha mãe também não tem. fazendo menção de se levantar.de sala térrea ocupada pela polícia metropolitana na cidade-alta. desta vez sem oferecer ao subordinado. é anterior ao primeiro japonês por aqui. contraindo a face quando a bebida alcoólica atingiu o dente doente. UM SÉRIO ESTUDO SOBRE O RISO 67 . homem! Deixe de ser bobo. você conhece ou alguém na sua família conhece algum outro reverendodentista. Saia daqui.

Boucinha esperava do lado de fora e sequer precisava perguntar o que tinha acontecido. mais atento às pessoas que chegavam.. ei! — dizia Pelonha. líder religioso extra-oficial dos escravos. cães e cadelas. de tão velha e frágil. enquanto afastava com as mãos a velha que gritava em algum idioma africano e tentava atingi-lo com a frigideira bastante desgastada. a mão espalmada na testa da mulher. por isso Pelonha não pôde se defender da primeira panelada. O local era perfeito para uma emboscada. com pimenta. certamente uma liberta em razão da idade. ei. Só se ouvia. antes de gritar mais algumas palavras incompreensíveis. o que não era provável. que abrandô águas. com Deus eu te ato. a bruxa da Rua do Arvoredo ou de um mendigo de negro. como se as casas fossem feitas próximas umas das outras em proteção contra o mundo branco ao redor. muito pequenas para o trabalho. — Que houve. o coração te arrebato.. e os velhos cuidavam do local enquanto as mulheres e homens estavam trabalhando. Era ali que morava o conhecido preto Josué. Felizmente a mulher que o atacou na esquina de uma das malocas atingia. atraídas pelo vozerio. Gritava em voz estridente e se cuspia toda tentando afastar o braço do homem. com o topo de sua cabeça. mesmo que estivesse falando brasileiro. — Baba! Baba! Deixe disso! — a voz surgiu de dentro da maloca. o sangue eu te bebo. João observava a cena de longe. leões e leoas. aproximadamente a altura do estômago do policial e mal podia se sustentar em pé. tão brabo. — Ei. na casa dos Santos Passos. a ladainha. curiosas. depois para os dois policiais. abrandai Pelonha tão brabo. próximo dos confins da cidade e da área das plantações. assim como passou estas três palavras. feito a sola do meu sapato. além de galinhas magras presas em cercados feitos de bambu e cipó trançados. A velha recuou e ergueu as mãos para o céu e apontou para baixo. tão brando feito a sola do meu sapato. — Malditos e amaldiçoados! Não vão nem tentar curar meu dente! — Pelonha levantava poeira nos arredores sujos da maloca. o que não parecia próximo de acontecer. — Como dois eu te vi. Pelonha a mantinha longe com um braço estendido. Algumas crianças. cebolas e mandioca. Era a voz cansada de um homem jovem. O conjunto de casebres era pouco arejado. Pelonha e João Boucinha deixavam o local passando por pequenas hortas dos escravos. vovó? — perguntou o inquisidor para a mulher. enquanto outras pessoas apareciam no local. Atirou um pedaço de feltro 68 LEONARDO CARRION . alerta contra alguma reação violenta dos demais. Proximidades das senzalas João Boucinha avançou e tomou a “arma” da mulher. A negra não tinha muitos dentes na boca e. baixinho. não seria entendida. — Também disseram que nada sabem sobre a mendiga.

vermelho no peito de Pelonha e entrou na maloca. João Boucinha começou a se benzer olhando para o oficial que recolhia do chão o pano vermelho, depois da óbvia maldição da velha. Pelonha colocou o feltro no bolso e foi atrás da mulher, cuidando para que a velha não estivesse nas sombras esperando para atingi-lo novamente. João, enquanto isso, permaneceu no corredor entre as casas e tentava dispersar as pessoas atraídas pela gritaria. Quando seus olhos se acostumaram com a penumbra, Pelonha viu uma sala miserável de chão batido, com alguns móveis feitos de restos de madeira e um homem deitado em um catre, perto de uma pequena e alta janela que projetava um foco de luz para o interior. Era um mulato jovem, filho de branco e negro, provavelmente escravo ainda. Por estar na maloca neste horário, e na cama, Pelonha imaginou que estivesse doente. Ao se aproximar viu que o homem tinha sido bastante espancado. Tinha hematomas severos pelo rosto e por todas as partes do corpo que ficavam à mostra, já que estava coberto por uma espécie de lençol feito de sacos costurados. O homem virou-se com os olhos congestionados e percebeu que Pelonha examinava seus machucados. — Gostou, oficial? Veio verificar se o trabalho de seus acólitos foi bem feito? A mulher, Baba, fez menção de novamente falar, sendo calada pelo jovem, que continuou: — Não adianta me espancarem, meu pai não vai dizer nada. A minha avó nem sabe falar brasileiro. Não temos nenhuma magia, amuleto e especialmente a tal carapuça do Saci que vocês estão atrás. Nem podem me deixar pior, nem se me matarem. Agora o jovem deitado tossia, amparado pela velha. Pelonha pensava e viu, olhando por cima do ombro, que João Boucinha observava atentamente desde o umbral. Assumiu posição de mando e disse, empertigado: — Então o que você disse para meu soldado é verdade? — perguntou Pelonha ao escravo machucado. — E não me venha mentir que foi surrado pelo meu homem, porque sei que ele é magro, fraco e baixinho e você dá dois dele, mulato! — O que falei para eles é verdade, sim. Mas não era apenas um! Eu sou mestre em capoeira, tenente, acredita que apenas um branco iria me causar este estrago? Foram quatro homens grandes e aquele sargento gordo com o rosto marcado da varíola. “Mário Figueira”, pensou Pelonha, felicitando-se pelo blefe bem aplicado, “o único sargento-inquisidor da força com esta descrição.” 1 Hora da Tarde, Delegacia — Nem morto! Nem morto eu coloco outra vez a casca de ipê-amargo na boca, João! — dizia Pelonha enquanto o jovem acólito tentava convencê-lo a voltar para a enfermaria do reverendo-dentista. — Tenente, tem que ter fé. Deixa de ficar buscando estas coisas que anda buscando, até mesmo com os negros. É coisa que, se curar o dente, apodrece a alma do cristão — dizia o subordinado, enquanto fazia o sinal-da-cruz.

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A dor de dente tinha estabilizado naquele patamar que, Pelonha sabia, era de um falso alívio. Sentia uma dorzinha constante à qual já tinha se acostumado, desde que não mexesse no local, acompanhada de uma quentura em toda a região atingida que não chegava a ser desagradável. Mas sabia que logo estaria realmente insuportável. Ambos almoçavam na cantina da Polícia Metropolitana, chefiada por Padre José Bento, que neste momento reacendia o fogo com a oração do fogo do profeta Elias, cantando baixinho a ladainha da oração como se fosse um monge gregoriano, acompanhado pelos auxiliares. Naquela hora a cantina se encontrava quase deserta, já que o costume dizia que o almoço deveria ser servido ao meio-dia, abrindo-se exceções apenas para oficiais em serviço, como era o caso de Pelonha. — Falando nisso, João, entendeu o que o negro disse? O que Mário Figueira poderia querer com amuleto de magia dos negros? E o que seria a “carapuça do Saci”? — disse Pelonha para mudar de assunto, enquanto tentava sorver a magra sopa que tinha em frente, enquanto João se entupia com carne e batatas assadas. — O Saci é um dos demônios dos índios e dos negros, senhor — falou o rapaz, limpando o bigode com um guardanapo. — Ele é preto ou pardo, conforme o povo que conte a história. Já ouvi dizer que ele tem apenas uma perna, a outra lhe foi tirada em uma luta contra Jesus Cristo que, por ser magnânimo, lhe permitiu continuar vivo se se convertesse à verdadeira fé. Mas ele fez um pacto com o diabo e com isso adquiriu poderes mágicos, tornando-se então negro como o tição. Veste uma carapuça ou gorro vermelho que, se lhe for arrebatado, termina com sua mágica que está ali guardada. Segundo o grande inquisitor da academia onde fui instruído, alguns negros que foram enforcados há poucos anos invocavam o Saci e faziam todo tipo de sortilégio em nossa própria cidade. — Sinto que esta história de amuleto dos negros, do tal Saci, tem alguma relação com a morte da mendiga — murmurava Pelonha. — Vamos, João, acabe esta glutonice sem fim e vamos. Tive uma idéia. — Idéia sobre o crime ou sobre a ligação entre o amuleto da velha e o dos negros? — perguntou Boucinha. Pelonha voltou-se para o subordinado, após ter-se levantado, fez menção de falar algo e, olhando novamente para João Boucinha, resolveu calar. — Não, João, tive uma idéia sobre como resolver a dor de dente. — Dito isto se virou e tocou, sem que o outro pudesse perceber, o tecido vermelho que guardava no bolso desde que a velha negra lhe jogara. 2 Horas da Tarde, proximidades do porto — Vai, João, força, desgraçado! — dizia Pelonha, agarrado ao poste com dois braços, antes de sua cabeça ser violentamente puxada para o lado. João Boucinha segurava um grosso cordão de algodão, amarrado a três finas linhas de seda que por sua vez tinham sido amarradas ao dente do oficial. O pobre acólito tirava do cordão com todas as suas forças, mas nada de o dente dolorido sair. Enquanto isso, seu superior babava e tentava xingá-lo sem poder. — Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh! — gemia Pelonha de olhos fechados para agüentar a dor.

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LEONARDO CARRION

Ao abri-los novamente, para incentivar Boucinha com um de seus olhares assustadores, percebeu já próximo um sinistro grupo de homens. O local que tinham escolhido para a extração do dente era um beco atrás da zona portuária, praticamente desabitada aquela hora, já que não havia qualquer navio operando. A chegada de um grupo tão grande de homens não seria coincidência e este fato trouxe os instintos do policial ao máximo. João Boucinha ainda puxava o cordão quando o fio soltou-se e ele aterrissou sobre o solo vermelho com grande dor. Ainda no chão procurou com a visão seu chefe para uma comemoração, afinal, a queda deveria significar o final do dente doente. Mas então percebeu que o chefe se soltara do poste e este fora o motivo da queda, tanto que ainda continuava com o dente amarrado na corda que o acólito segurava.

Proximidades do porto

Antes mesmo de perguntar o motivo, Boucinha percebeu o olhar do superior e se virou, vendo o grupo avançando para eles. Levantou-se espanando a roupa, ainda com a corda na mão. Os homens eram fortes, e dois deles eram bem conhecidos de Pelonha. O maior do grupo era o Sargento Mário Figueira, o homem identificado pelo negro surrado. Atrás o seu indefectível amigo de patifarias, Cabo Noronha, de nariz aquilino e bigode fino, sempre com um sorriso torto nos lábios. Os outros três eram jesuítas, pelo que se via de seus trajes escuros. — Ei, Tenente! — saudou o sargento, enquanto virava o rosto jocosamente para os demais. — Virou cachorro na coleira deste aí agora? Pelonha e Boucinha se olharam e perceberam que ainda se mantinham com a corda. Lentamente e com o máximo de dignidade que pôde reunir, Pelonha desatou dolorosamente o dente enquanto Boucinha recolhia os barbantes e os colocava no bolso do casaco. — Desde quando inquisidores e padres saem-se com galhofas como esta, Sargento? — respondeu Pelonha sério. Ao contrário do que era esperado, a expressão irônica não desapareceu do rosto dos homens. Ao invés de disso Mário Figueira fez um gesto sutil para que os demais avançassem. Pelonha percebeu que João ao seu lado preparava-se para a violência, retesando os músculos e se colocando em uma estranha posição de pés e mãos. — Queremos saber o que foi retirado da velha, da bruxa do arvoredo — falou o sargento, ainda avançando, mas cautelosamente. — O que quer que você tenha dela, é melhor nos entregar agora. Pelonha avaliou que poderia com os dois padres da esquerda e o Cabo Noronha. Infelizmente não acreditava que João pudesse cuidar do outro sacerdote e de Mário simultaneamente. Cada um deles dava dois do tamanho do acólito, em altura e em largura. Isto criava um problema, já que um dos atacantes ficaria sobrando e poderia atacá-lo por trás. Assim o oficial manejou para ficar postado de costas para o poste onde estivera agarrado, tentando com isso diminuir a área onde poderia sofrer ataques.

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Feito isso se colocou em pé e procurou os demais. lancinantes. deixando-o parcialmente desacordado. com seus próprios olhos. — Pare! Pare. João. — Mentirosos! Mentirosos! — gritava Boucinha. desferia fantásticos pontapés e cutelaços com as mãos em forma de faca. Pelonha não teve tempo para preocupar-se com o que acontecia com Boucinha. ao que parecia usando os cordões dobrados que momentos antes estavam amarrados no dente de Pelonha. estes homens aqui têm autoridade superior à sua — respondeu Cabo Noronha. jogou-se sobre ele. Tratou de saltar. evitando o chute de Noronha. — Tenente. Ambos golpes atingiram seus alvos. enquanto corria pelo cais do porto em direção ao centro. Ambos rolaram pelo chão. Naquele momento Boucinha estrangulava o sargento Mário. imaginou Pelonha. às vezes. O outro padre gritava com a perna dobrada para trás. 72 LEONARDO CARRION . usando os ombros do estrangulado como apoio. 3 e Meia da Tarde — O barbeiro. que atingiu inutilmente o poste atrás. Mário desabou no chão e permaneceu com o rosto imóvel sobre a poeira vermelha. agoniados. enquanto chutava violentamente outro sacerdote na cabeça. enquanto chutava por sua vez um dos padres e tentava golpear com os braços o outro. O padre atingido pelo chute de Pelonha segurava a parte baixa do ventre e gemia. mas Pelonha desequilibrou-se e foi ao chão. tentando agarrar os braços do oficial. Dava giros e. seguido pelo ajudante de perto. O outro. talvez pela sanha da batalha. certamente com o joelho destruído. Pelonha podia ouvir os gritos de João Boucinha. terríveis. — Vai matar o homem! O jovem acólito olhou por um tempo mais longo do que deveria para o oficial antes de relaxar as cordas ao redor do pescoço do sargento. Com um golpe de sorte o oficial acabou rolando para uma posição superior. batia nos homens que atacavam com os pés e as mãos simultaneamente.— Mário e Noronha. ameaçando iniciar uma nova sessão de surra com a sua luta japonesa. Os demais também não se mexiam. João! — Pelonha gritava e corria. segurando a cabeça cheia de contusões. Mário e Noronha mantiveram a versão de que tinham agido sob ordens superiores e que aqueles homens eram verdadeiros padres jesuítas. vocês vão se dar muito mal com isso. Aproveitou-se para desferir-lhe dois socos fortes no queixo. Quase não acreditou na cena que assistia. Os dois tinham revistado todos os atacantes sem encontrar nada. Noronha jazia ensangüentado no chão. enquanto Pelonha tentava levantar-se. somente fora empurrado para trás com o fraco soco desferido pelo desequilibrado oficial e. porém. só posso ter deixado o vidro dos parafusos no barbeiro! — gritava Pelonha. sobre o peito do padre com quem tinha se embolado no chão. João Boucinha gritava! Mas gritava enquanto fazia incríveis saltos. Noronha estava parcialmente sem ação após o chute no poste e pulava em um só pé. Provavelmente o homem estava sendo morto à pancadas pelo sargento e pelo outro padre. enquanto Noronha atacava-lhe o ventre com um chute. Neste momento os dois padres jesuítas saltaram em um movimento como que ensaiado.

A custo era contido pelo oficial. Agora corriam pelo porto, tendo em seu encalço uma dezena de homens, todos vestidos de jesuítas. Dois deles chegaram a disparar armas de fogo contra a dupla de policiais. Portar armas de fogo era delito tão grave quanto rir ou matar, todas consideradas pelas leis da igreja como atividades inspiradas pelo demônio. — Senhor, temos que levar este caso diretamente ao Cardeal Dom Cristóvão! — respondia João. — Vamos nos separar e tentar chegar no palácio! — Nada disso, acólito! Nada disso... Não temos nada em mãos para levarmos ao Cardeal. Vamos ser rebaixados se descobrirmos que aqueles homens eram jesuítas mesmo e os surramos. O próprio Cardeal é advindo da ordem dos jesuítas. Ouviram outro disparo e, desta vez, também o som do chumbo rebotando e cravando-se nas madeiras das casas na esquina que dobravam. Aparentemente sem ouvir o chefe, ou resolvendo desobedecê-lo deliberadamente, João Boucinha tomou caminho por um beco à esquerda, quando Pelonha corria por outro à direita. — João! João! Por aqui, homem! — ainda gritou-lhe o oficial, parando mas sem ousar voltar para seguir seu auxiliar. — Lá está ele! Fogo! Fogo! — o grupo de perseguidores também parara, provavelmente para melhorarem a mira. Pelonha mal teve tempo de jogar-se pela vidraça de um armazém na ruela, rolando entre cacos de vidro e aspas de madeira, sobre sacos de arroz e outros cereais estocados, antes de ouvir as detonações. Estava encurralado, pensou, quando pôde observar o local onde se metera. O armazém era pequeno e escuro, sem outra saída que não aquela que dava para a rua, onde os assaltantes o estariam esperando. Desesperado, Pelonha subiu pelos sacos de cereal até que conseguiu tocar em uma das vigas que sustentava o telhado. Agarrou-se nesta viga e, jogando as pernas para o alto, prendeuse contra ela. Dando a volta, deitou-se na viga de costas e colocou os pés contra as telhas, empurrando-as com todas suas forças até que cederam. Fez um buraco suficientemente grande e saiu para o lado externo do telhado. De lá tinha uma ampla visão do porto e, além, da cidade-baixa até o início da subida para a zona rica. Conseguiu ver João Boucinha correndo muito adiante, já subindo provavelmente para o palácio do Cardeal. Não havia perseguição. Muito em breve os perseguidores entrariam no armazém e localizariam seu paradeiro pela luz que entrava pelo buraco. Assim Pelonha olhou em volta procurando possíveis escapatórias. Por sorte os prédios eram praticamente grudados uns nos outros e Pelonha pôde, com um pequeno impulso, saltar para o telhado vizinho. Contornou a beirada do telhado com cuidado para não escorregar, até que chegou nos fundos daquela casa. Ali encontrou uma situação pior. Não havia outra forma, exceto jogar-se sobre uma árvore que crescia no pátio uns metros abaixo, torcendo para conseguir agarrar-se aos galhos ou então tentar abaixar-se pela beirada do telhado, talvez encontrando uma janela para entrar na casa ou outro tipo de apoio. Quando Pelonha tinha acabado de se decidir pela segunda hipótese, ouviu outra detonação e, desta vez, viu o chumbo das garruchas fazendo voar pedaços de telha bem próximo de onde estava. Sem pensar, jogou-se gritando.

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Suas mãos atingiram a copa da árvore aferrando-se a tudo. Infelizmente a parte superior tinha ramos muito delicados para oferecerem o sustento de que seu corpo necessitava contra a irrecorrível força da gravidade que o puxava para o chão. Assim chocou-se com o rosto, braços e pernas nos ramos, caindo pela árvore até que dobrou-se de barriga contra um ramo bem mais forte, sentindo um grande impacto e fazendo a planta tremer. Somente deu o tempo necessário para a respiração voltar e pôs-se a descer a árvore o mais longe possível da vista de quem estivesse no telhado. Chegou ao solo e saltou pela cerca do fundo da casa, atingindo a rua e se colocando a correr novamente. Não sentia mais qualquer dor no dente inflamado. 4 Horas da Tarde A barbearia estava deserta. Deserta e revirada, vidros quebrados, cadeira de pernas para o ar, espelho lascado e aparelhos jogados por todos os lados. O corpo do barbeiro se encontrava no meio daquela bagunça, com a lâmina de barbear ainda na mão. Pelonha abaixou-se e tocou o pescoço do homem, buscando algum sinal de vida. O homem, apesar de mortalmente ferido no abdome, ainda estava vivo e abriu seus olhos. — Barbeiro, quem foi? — perguntou o policial. O homem ferido tossiu e deixou escapar um filete de sangue pela boca. Pelonha notava que estava tentando arrumar fôlego para falar. Afinal o barbeiro reuniu suficiente energia e riu. Para espanto do oficial, o homem olhou-o bem nos olhos e pôs-se a gargalhar fracamente, quase sem som. Até que morreu, ainda rindo. Em um canto encontrou o vidro da velha, partido. Na mão do barbeiro ele encontrou o pedaço de feltro vermelho, mas não os parafusos. Pelonha tomou a lâmina afiada que jazia junto ao corpo e também o pano vermelho da mão do homem. Era idêntico ao jogado pela velha. Pensou sobre tudo que tinha acontecido e, subitamente, tudo ficou óbvio. Correu para o palácio do Cardeal. 4 e Meia da Tarde A guarda do palácio era forte. Pelonha avançou por entre os soldados da guarda suíça que protegiam os altos cargos da igreja católica em todos os protetorados e países sob seu comando. Como tenente-inquisidor não teve dificuldade de avançar até o saguão do palácio, de estilo neoclássico e recém-concluído depois de quase 50 anos de obras, com base no projeto do famoso arquiteto francês Maurice Gras. A escadaria se abria para direita e esquerda, após subir três dezenas de degraus, esculpidos em mármore italiano, tudo acarpetado com veludo vermelho e grosso. O frade-secretário sentava-se em uma austera mesa, que contrastava com o luxo do local, próximo das escadas que levavam à parte privada do palácio. Levantou os olhos para Pelonha e examinou-o desaprovadoramente. — Preciso falar com Vossa Eminência, o Cardeal — disse o oficial. — Assunto de polícia, relacionado à morte da bruxa da Rua do Arvoredo.

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— Não há qualquer hipótese de outro de vocês ser admitido hoje aqui. Seu colega já está com ele, não há necessidade de outro policial para um mesmo assunto. Pelonha deixou o homem e correu pelas escadas, antes mesmo que o secretário pudesse chamar a guarda. Em passos que deixavam para trás três degraus por vez logo atingiu a parte superior do palácio. O local era igualmente luxuoso, como nada antes visto por Pelonha, com esculturas e quadros a óleo de beleza incomum. O tenente, homem bruto, sequer percebeu a importância cultural dos objetos, enquanto os jogava no chão tentando fazer com que servissem de obstáculos à eventual perseguição. Avançou para uma porta dupla no final do corredor e, quando os gritos do secretário e passos da guarda estavam próximos, Pelonha já derrubara o guarda junto à porta e ingressara nos aposentos do eminente, fechando a pesada porta com uma travessa de madeira muito grossa. E então, virou-se. 5 Horas da Tarde Pelonha tinha contra ele, apontada pelo acólito João Boucinha, uma garrucha de cano largo. Ao lado do acólito se encontrava o Cardeal Dom Cristóvão, sentado em uma cadeira como um trono. A semelhança entre o jovem e o velho religioso era espantosa. Exceto pela idade e pelo bigode, João Boucinha poderia se passar perfeitamente pelo poderoso Cardeal. — Eu avisei que ele poderia chegar aqui, Senhor meu pai — disse João para o Cardeal. Boucinha tinha tranqüilizado os guardas suíços, que voltaram aos seus postos. — Quer dizer então, João, que seu pai não era somente um “expedicionário” jesuíta, mas o próprio padre pecador. O acólito avermelhou-se visivelmente, apertando os lábios com a raiva. — Eu posso detonar sua cabeça desta distância, chefe — disse-lhe João, tornando a expressão raivosa em um sorriso debochado —, e você seria considerado um louco que atacou o santo Cardeal, sendo morto por mim em proteção. — Isso certamente faria com que as pessoas ligassem você ao cardeal. Mas você não vai estourar a minha cabeça, ou já teria feito isso. Então me diga, por quê? Por que esta confusão toda por aquele artefato? O que vocês estão escondendo? — Primeiro me diga você, oficial, como desconfiou de nós? — perguntou o cardeal, falando pela primeira vez. — Somente João Boucinha sabia que eu tinha deixado o artefato com o meu barbeiro. Isso e outras pequenas coisas como os homens não o terem perseguido, mas somente a mim. Ou o fato de ele ter insistido em vir para cá e se separar de mim, logo que soube onde encontrar o objeto. Mas especialmente porque no refeitório, quando eu falei que tinha uma idéia, querendo me referir à dor de dente, João perguntou sobre “o artefato da velha”. Até então ele não poderia ter motivo para desconfiar que a velha possuía um artefato mágico. — Baixe a arma, filho, baixe a arma. Vou explicar as coisas para o Tenente-Inquisidor Pelonha, já que ele se mostrou um homem tão sagaz. Mostrarei para ele o inimigo que enfrenta-

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quando ela ainda estava na cadeia. é verdade. também foi uma descoberta interessante. João Boucinha pousou a arma em seu colo. Mas a Chave de Loki permanecia desaparecida até que o senhor descobriu. fiquei na posse de diversos artefatos de grande poder mágico que eram utilizadas pela bruxa.” Pelonha ouvia o relato do cardeal e apalpava. Aqui confluem diversas das mais poderosas magias. Tendo caído nas mãos dos índios e dos negros da cidade. o Deus Jocoso. aquilo que aqui não foi. Felizmente meu filho trabalha na busca destes artefatos comigo e o reconheceu imediatamente. ainda. mas mágica. que este objeto é poderosíssimo e 76 LEONARDO CARRION . com a mulher. oficial Pelonha. a lâmina do barbeiro. anos depois. que tenho estudado a vida toda. Eminência — disse Pelonha. ainda. Ninguém contava que o senhor fosse esquecê-lo com um barbeiro! — riu-se o cardeal. oficial. eventualmente. ou Yaci Perere em tupi. obter o objeto que suspeitava a mulher estivesse escondendo todos estes anos. “A carta que escrevi para a bruxa. também. É um local de sincretismo mágico. — Quando eu era rapaz recém-ingresso no seminário. assumiu a figura do Saci Pererê. sob disfarce. oficial. No final. Pelonha sentou-se em uma cadeira desconfortável que lhe era apontada. e seu pai. o artefato. esqueceu de acrescentar.” “De todos os objetos da bruxa germana. É território de batalha para a igreja. como a dos negros. oficial. Os germanos o chamam de Chave de Loki. observando Boucinha retesar a arma. E há um portal para uma outra dimensão que é tratada neste livro. a igreja me perdoou pelo uso deles e. que como efeito colateral conduz ao riso. Não em matéria de posição geológica na verdade. Não preciso dizer que estes artefatos eram totalmente ilegais. onde os elementos se combinam e formam novas e poderosas magias. — Não preciso dizer para o senhor. O problema é que leva a loucura na maioria dos casos. que o senhor conheceu já velha.” “Eu mesmo tentei. Quem diria que ela guardaria. Um livro escrito por um mago chamado de nome impronunciável em que é explicado um certo tipo de magia bárbara e. Por casualidade. — Sim. Meu retorno para esta cidade. A tortura psicológica é mais eficiente. o único que guardei foi um livro. Nunca encontramos este artefato.” — E a matou. Se o encarcerado acredita que há alguém que espera por si não se deixa matar. Atualmente eu respondo somente ao santo Papa nestes assuntos. às vezes. “Todos objetos mágicos proscritos. reconhece minha autoridade. Assim é com o artefato que buscávamos tão intensamente. São os “poderiam ser”. foram destruídos quando não mais precisei. são outras realidades. muitos anos depois. indígenas e outras. Universos paralelos.mos e. conhecimento e talento nas artes mágicas proscritas. ele estará ao nosso lado — falou o cardeal. para que confessasse o uso deste ou daquele artefato. do que a física. Foi um elemento que aprendi no Japão. como o senhor pode imaginar. Ela somente revelou-me que tinha entregue aos negros. foi motivada pela sua posição estratégica. — Sente-se. Não nego que utilizei diversos deles para subir na igreja e para esconder meus pequenos vícios e deslizes. Este portal é aberto pelo objeto que se chama Chave de Loki ou Carapuça do Saci. tenho certeza. Também não acrescentei que estive na cidade por diversas vezes para sessões de tortura da bruxa na prisão. escondido na manga de seu casaco. dos germanos. eu tive participação involuntária no desvendamento dos crimes da Rua do Arvoredo. que trata de universos paralelos. mas em outro lugar pode ser.

que os parafusos são inúteis — falou Pelonha. mudar totalmente nossa realidade. em dez minutos. mas tampando o vidro. 10 minutos para a meia-noite Pelonha arrumou. Pelonha levou a mão ao alto. Eminência? — perguntou Pelonha. especialmente. tomou ambos os panos e jogou no chão. entre o local onde estava sentado e o cardeal. Baba. xingou-os. até que a lâmina foi retirada do pescoço do filho e passada pelo pescoço do pai. Pelonha e o objeto mágico fugiram. Pode o sol crescer e secar a Terra. o lagarto. Torcia para que nesta outra realidade não houvesse igreja católica. Primeiro. a Carapuça do Saci ou Chave de Loki. estava colocado no centro do altar principal para Okslato. que mantinha junto à perna. — Vocês já o destruíram. não houvesse dor de dente e. Não temos casca de ipê-amargo. — Acontece. se usado por pessoas erradas. Que catástrofes pode causar? Não sei. abrindo as mãos e mostrando um punhado de parafusos. Em minutos. não houvesse órfãos.pode. — Dizendo isso. Pelonha liberaria o feitiço do Deus do Riso e mudaria a história do mundo. Em um movimento rápido lançou a lâmina. O acólito desabou morto no solo quase instantaneamente. — São apenas lixo. Pelonha então deixou escorregar a lâmina tomada ao barbeiro morto pela manga do casaco até a mão. O cardeal durou mais alguns segundos. Ao menos neste último aspecto. Eminência. pode a igreja desaparecer. Aproveitando a distração do cardeal e de Boucinha. UM SÉRIO ESTUDO SOBRE O RISO 77 . A outra metade se encontrava com a velha negra. Tinha passado o dia com uma dor de dentes infernal. — Não — disse o cardeal. em sua casa. Pelonha teve êxito. O objeto mágico. as estátuas de seus Deuses. Por isso temos que destruí-lo. acertando João Boucinha exatamente no pescoço. O verdadeiro objeto mágico se encontrava com a velha. sim. sabe-se lá. É o feltro vermelho que os negros acreditam ser a Carapuça do Saci. porque os Deuses que adorava desde jovem não permitiam que qualquer outra magia funcionasse com ele. não existisse casca de ipê-amargo. sucata.

. conceitos mudam.O Legado UBIRATAN PELETEIRO 78 Em um universo onde a guerra se tornou parte integrante da expansão estelar. e o que se leva das lutas é muito mais que simples lembranças e pesadelos. valores são outros.

É um estalar contínuo e alto. Mas Richard ainda pôde notar que Fred tinha um rosto bem comum. Por trás da casamata foi escavado um paredão. Acordavam apenas de vez em quando. parece que a nave está soltando sementes no planeta. Mas os módulos vão cheios de soldados. é claro. alguém que ele mal conhece. Só encontrou Fred no módulo de desembarque. É mais uma das espécies que a raça humana combate pelo universo. todos com expressões apreensivas. que a devora. As feridas que antes eram seus olhos doem terrivelmente. Estavam numa das naves-sementeiras da frota. a última de ambos. Para quem vê de fora.Richard é um soldado. O que de início chamou sua atenção foi a Estrela Nova presa no lado esquerdo do peito. É a primeira missão dos dois juntos. a nave-sementeira semeia a guerra. pressionando seu tórax. o módulo já começava a tremer com violência. trocando olhares entre si como estranhos que eram uns para os outros. — Estou formando uma pilha desses escrotos lá embaixo. na verdade. Centenas de criaturas investem contra eles subindo a montanha. Certo dia. Aliás. Provavelmente. Teve curiosidade de saber o que aquele soldado fizera para ganhá-la. enquanto entre seus dedos a correia de munições desliza para dentro da metralhadora. Foram apelidadas de “lagostas”. dotadas de exoesqueleto e dez membros locomotores. muito chamativos. lançando pequenos módulos de desembarque. os módulos são liberados com a quantidade necessária de soldados. pois os soldados ficavam enclausurados cada qual num casulo metabólico. para realizá-la. ele não conheceu ninguém lá. Porém. Richard foi acordado e liberado do casulo. além dela própria. São maiores que os humanos. em que apenas os olhos se destacavam. uma fileira de frente à outra. de planeta em planeta. como parte do processo que mantinha o condicionamento físico e mental. Elas fazem um ruído peculiar ao se locomover. Richard — Fred grita. Vestiu-se. com mordidas vorazes. Elas são chamadas assim porque dobram o espaço vezes seguidas. Nos corredores. assentada no alto da encosta de uma montanha. olhou pra frente e viu Fred pela primeira vez. Os assentos ficavam nas laterais. pela primeira vez cruzou com outros soldados da nave. Fred. Mas não foi bem na nave-sementeira que Richard conheceu Fred. A arma é manejada pelo outro soldado sobrevivente do esquadrão. faminta. Por enquanto. tentando se fazer ouvir a despeito do barulho infernal da metralhadora. não era hora própria para iniciar uma conversa. fazendo um barulho quase tão ensurdecedor quanto o da metralhadora. a mira de Fred estão dando conta. Em cada planeta por onde ela passa. a condecoração que a frota concedia por atos de extrema bravura. a medalha de honra dos fuzileiros. O LEGADO 79 . Quando Richard desceu a barra de segurança. Olhos violeta. pois vários dos esporões que as criaturas disparam entram na casamata e chocamse contra as paredes. pegou o equipamento e obedeceu à voz. tornando possível atacá-los apenas pela frente. Uma voz metálica informou para qual módulo de desembarque ele devia se dirigir. Eles estão numa casamata transportável. decolando. Ele resiste ao desejo quase incontrolável de cobri-las com as mãos. há uma operação militar programada e. Mas Richard quase não consegue ouvi-las. — Eles vão ter que cobrir esta montanha de cadáveres antes de nos pegar! Os dois conheceram-se há poucos dias. e está cego.

que vibrou como um chicote atingindo-o com precisão nos olhos. Fred talvez esteja vasculhando o chão com os olhos. composto por múltiplas facetas hexagonais. aguardando. onde havia deixado as caixas de munição. Ao seu redor. cada antena chega a ter de comprimento até duas vezes a altura da lagosta. o módulo foi pousar no topo da montanha. Richard virou-se e teve tempo apenas de ver dois olhos grandes. serve apenas para um trabalho medíocre como guiar a correia de munições. A missão era simples: descobrir o que acontecera com os missionários que vieram colonizar o planeta. querendo destruí-los. de repente. Richard caiu no chão ciente de que não enxergava mais. toda coberta de espinhos. criando um paredão. Depois de desembarcar os soldados. — Deve ter uma outra caixa lá atrás! — grita Fred. Antes disso. Richard está vivo graças a ele. Ele volta a si quando percebe. enquanto centenas de lagostas sobem a montanha.Na casamata. sem poder ver. — Acabou. como uma ave carniceira. foram atacados e descobriram que o planeta era a mais nova colônia das lagostas. que haviam misteriosamente parado de se comunicar. — Vê se você consegue achar. Só seria reativado quando a sementeira retornasse. de um tom cinza escuro. rochosa e acidentada. É uma arma natural. E não há nada mais que Richard possa fazer na atual situação. Foi então que Richard perdeu os olhos. O módulo de desembarque escavou a encosta de uma montanha. Ou então pode apenas estar fazendo uma expressão de medo. amarelos e brilhantes. Cego. Andaram aproximadamente um quilômetro em direção ao assentamento dos missionários. Provavelmente não. pela certeza do fim que se aproxima. De repente. Mas suas mãos nada encontram. tanto Richard quanto Fred foram designados para ele. onde ficou. em seguida desacoplou e depositou rente a ele a casamata. — A correia tá no fim. sem diminuir o ritmo da metralhadora. alguém gritou. se tivessem tido mais tempo. que a correia está terminando. observando. Era uma das longas antenas da criatura. Fred! Há uma pausa. disparos e o som estalado da movimentação das lagostas. Mas não podem correr o risco de a metralhadora travar. gritos. É um pensamento trivial para se ter em situação tão crítica. afinal Fred tem aquela medalha no peito e já provou ser muito corajoso. Fred — Richard diz. Um grupo de reconhecimento foi organizado. tarefa de recruta. Richard pensa que poderia ter se tornado amigo de Fred. não este último gesto. — Prepara outra! Richard larga a correia e leva a mão ao lado. Richard! Ainda quero matar muitas dessas malditas antes de morrer! 80 UBIRATAN PELETEIRO . Mas não chegaram lá. Algo atravessou sua visão. A paisagem do planeta era desértica. Richard atribui esse pensamento justamente à situação lastimável em que se encontra. tentando compulsivamente encontrar mais uma caixa.

Finalmente. Encontra uma caixa pesada. atirando com mais precisão. Fred deve estar economizando os disparos. Então. percorre seu dorso e encontra a culatra. Deve ser uma bateria. Chega à parede. O colega o agarra pela manga com vigor e o joga no chão. São as lagostas se movimentando. dá mais três passos. — Cuidado! Tem mais um corpo aí na sua frente! Tenta achar o corpo. Enquanto faz o caminho inverso. com trinta centímetros de largura e duas alças. Inala o odor acre de sangue. —Vá pra sua esquerda.Richard se levanta. carregando a pesada caixa. seria melhor morrer nas garras das lagostas. Toca em Fred. enquanto passa ao lado. consegue evitá-los. Já sabe onde estão os dois cadáveres que o atrapalharam antes. uma de cada lado. Caminha para onde acredita ser o fundo da casamata. Não sabe mais pra onde fica o fundo da casamata. úmido e comprido preso no uniforme. Do chão. Richard já está cavando os suprimentos como um louco. que encontram uma poça de líquido pegajoso. percebe algo macio. Solta aquilo com repulsa. Cai apoiando as mãos. se debate. Chega próximo ao local onde acredita estar a metralhadora. Richard! — grita Fred. Richard começa a vasculhar o conteúdo. Fred! — Traz pra cá. Ele obedece. perscrutando o chão com a ponta dos pés. começam os estampidos bem mais fracos de um fuzil. Está pronta pra disparar. ele tem certeza. — Os suprimentos estão logo em frente. — Encontrei. no fundo da caixa. Leva três passos para tropeçar no primeiro corpo. Sente o uniforme ficar todo sujo de sangue. Envolve o objeto com as mãos. é lá que ficam os suprimentos. — Vai logo Richard! Senão vou ter que passar pro fuzil! Não há como apressar mais a busca. Se tivesse que ficar assim. — Pronto! — grita por fim. Richard percebe que seu senso de direção está mais apurado. encosta em algo rígido e plano. Arrasta a caixa de munições. à direita encontra a grande caixa de metal com tampa basculante onde ficam os suprimentos. — A metralhadora tá aí! — ele diz. A metralhadora silencia. é uma caixa de munições. Ao se por de pé. Richard levanta a mão e toca na metralhadora. — Beleza. um pouco pra direita! Richard percebe que o ritmo da metralhadora diminui. escorrega. Coloca a caixa no chão e estende um braço. vem o baque O LEGADO 81 . Perdeu a direção. jogando fora o que não interessa. puxa a correia e encaixa o primeiro cartucho. ouve os estalidos surdos que vêm lá de fora. tentando encontrar uma caixa de munições da metralhadora. Sente-se um inútil. numa seqüência intensa e interminável. Prende as guias e puxa o ferrolho. devia ser um pedaço das vísceras do colega morto. meu chapa! — escuta Fred dizer. além de também estar perdendo algum tempo orientandoo em sua cegueira. De imediato. Tenta se levantar. porém. se aproximando. Uma caixa pesada. Toca a massa inerte e salta por cima. muito pequena.

rezando para conseguir perceber quando uma lagosta se aproximasse. e dos olhos violetas. Ele foi alvejado. Mas não há tempo para a tristeza se aprofundar. Logo Richard ouvia o zunir das balas passando sobre sua cabeça. não vou poder parar pra te ajudar. com uma velocidade muito maior. os dois conseguiram subir a encosta acidentada. Nossos homens lá em cima vão nos dar cobertura. Entraram na casamata e iniciaram a longa batalha contra as lagostas. Mas. quase o levantou sozinho. arremessando o espinho em rodopios. enquanto prosseguia a atirar. arriscando atingir os outros soldados. Ao invés disso. os disparos cessaram e Richard ouviu uma voz humana: — É o Fred. como faria um atirador de facas. Richard. assim que caiu por terra ferido no rosto e cego. até o momento em que só Fred disparava. Eles são afiados como lâminas. — Agora é metranca nelas! — Aqueles olhos especiais que Fred tinha deviam estar fulgurando. nem de verificar se Fred está mesmo morto ou apenas ferido. Fred parou de atirar e. Richard sente uma pontada de tristeza pelo colega que o salvou ter tombado. dos outros soldados que haviam escapado. — Se você cair. como Fred o salvou. No grupo de reconhecimento. Richard podia ouvir o silvar dos esporões das lagostas. Depois de arrancado. — Começou a puxá-lo. lutando.do fuzil que ele largou. Richard. todos morreriam. cheios de ira. Na extremidade das antenas havia uma abertura que podia ser encaixada num dos espinhos no dorso da criatura. 82 UBIRATAN PELETEIRO . Na verdade. com seu fuzil a postos. mas eles foram se calando. demonstrando ter muita força. Começaram a subir. deu pra gente acabar com elas. com muito esforço. — Eram poucas. Tropeçando a todo momento. desta vez o inconfundível baque de um corpo. segurando o fuzil com apenas uma mão. Fred praticamente o estava mantendo em pé. Havia vários soldados ali. Richard ouve um novo baque. loucos pra verem mais lagostas morrerem às dezenas. Disse em seguida: — Você vai ter que me acompanhar. Ficou preparado. — Era o soldado da medalha. Apenas Richard e Fred restariam. — Chegamos no sopé da montanha. Não podia atirar a esmo. mas sem esperanças. A advertência soou como se visasse a obediência de uma criança. mas o sargento e um punhado dos nossos camaradas se foram. os pés voltados pra cima. e Richard não pôde salvá-lo. Lembrava-se bem desta peculiar forma de autodefesa. Havia outros disparos ao redor. E vêm mais lagostas aí. a lagosta vibrava a antena. Richard pensou que estava acabado. Ele agarrou o uniforme de Richard pelo ombro e o ajudou a se erguer. Antes de a tristeza se tornar culpa. ao invés disso. Aproxima-se tateando e logo encontra as botas do colega. Com a proteção dos soldados na casamata. operando a metralhadora. Mas os disparos não começam. Richard o acompanhou. Richard segura as alças da metralhadora e começa a disparar. porém.

não há mais pálpebras.Agora o ruído das lagostas aumenta cada vez mais. Não há mais olhos. Percebe então que fora tudo planejado. Lá de fora. O som das lagostas prossegue. As lagostas estão todas mortas. o fuzil que Fred largou no chão quando retomou a metralhadora. talvez até uma Nova. Richard pega a arma. A casamata sofre um baque. Parece que uma das lagostas alcançou a arma. Richard sente o peso da inércia enquanto ela é erguida. Richard então saca da baioneta e cuidadosamente extrai os olhos de Fred. Richard com certeza receberá sua própria condecoração. incessante. Ao mesmo tempo. Richard varia o ângulo de disparo até que ouve o romper de exoesqueletos. Verifica aliviado que ele está intacto. com uma simples baioneta. Agora os fuzileiros vão poder acabar de limpar o planeta com muito menos perdas. De repente. Ele dura alguns segundos. Lembra-se dos olhos de Fred. Mas a chicotada da lagosta não vem. feito prensas. esperando um golpe. Segue-se um inesperado silêncio. Escuta um ruído bem conhecido: é o módulo de desembarque se aproximando para acoplarse à casamata. Richard pensa em sacar sua baioneta. É o mecanismo de selagem. Ele deve isso a Fred. ruídos secos e estalidantes indicam que as bordas do vão da casamata. no pescoço. Seria uma cena muito ridícula um soldado cego. mas então Richard ouve o primeiro estalo. Mais abaixo. levanta e começa a disparar. Mede seu pulso. talvez tenha morrido com o último disparo da metralhadora. Isso significa que a sementeira retornou. Richard cai no chão. a metralhadora lhe escapa das mãos. São leves. fria e pesada. As lagostas estão se esgueirando pelo vão. Eles foram apenas iscas para fazer as lagostas saírem do esconderijo. Mas ri de si mesmo. sente onde o esporão se cravou. O calor dura alguns segundos e depois diminui. é claro. É feita de ouro puro. vem um ruído crepitante. Logo ele estará no espaço. que jaz ali à frente. Não ouve mais o som das lagostas. Está morto. logo a munição se esvai. Verifica o peso deles na sua mão. golpeando a esmo. Ouve muitos esporões atingirem a borda da casamata e também as paredes internas. Richard se aproxima do corpo de Fred. Eles começam vagarosamente. Excelentes. Iria procurar os entes queridos de Fred para lhes entregar a medalha e contar-lhes seus feitos. Seus corpos achatados e flexíveis podem passar por ali. Não há como Richard saber se seus disparos estão passando acima delas ou se estão apenas atingindo o chão à frente do inimigo. Richard apalpa o rosto de Fred. O calor que ele sentiu antes deve ter sido de calcinadores disparados por naves de ataque. mas. Guarda-a no bolso. Elas estão muito próximas. resolve apenas aguardar a morte. livrando-se delas. Então. um tremor abala a casamata. Ele despertou. só sente um fortíssimo cheiro de queimado. Por instinto. Não há nada mais o que fazer. sente vontade de fechar os olhos. na altura do vão. pelo dia de hoje. que o obriga a cobrir o rosto com as mãos e o faz cair no chão. Porém. pelo menos aquelas que já gastaram quase todos os seus espinhos. Da melhor liga O LEGADO 83 . Apalpa seu peito até encontrar a medalha e a desprende. Ele sente embaixo da mão o cabo de um fuzil. sente uma forte onda de calor. Eram mesmo olhos invejáveis. de forma que pudessem ser facilmente aniquiladas pelas naves de ataque. para continuar lutando. e vão aumentando. Além do mais. num movimento brusco. levantou vôo lá do topo da montanha e agora se aproxima. estão esmagando e triturando as lagostas carbonizadas. seu rosto está destruído. O fim está próximo. Sente na palma da mão a estrela de cinco pontas. não para si.

Richard estaria mais bem equipado. Mas as guerras iriam continuar. Richard guarda para si os olhos de Fred.neotitânica. São bem melhores para atirar. 84 UBIRATAN PELETEIRO . bem melhores que os antigos olhos de duralumínio que a lagosta destruiu. na próxima batalha. sempre mais e mais delas. além de ter uma medalha no peito. Sente-se um pouco culpado por tomar posse deles sem permissão. Olhos assim são muito difíceis de conseguir. E.

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a solução para um grande problema. . outras vezes pode ser a única esperança para todo um povo. para toda uma espécie.contos dos leitores A Herança MARCELO JACINTO RIBEIRO 86 Muitas vezes o passado assombra o presente.

Virou a cabeça e viu a figura magra e curvada do xamã. tudo apontava para um sinal dos Deuses. Foi com um misto de surpresa e terror que o caçador entendeu o que aquilo significava: o xamã queria que ele fosse até as montanhas. Pareciam com a entrada de uma caverna. A HERANÇA 87 . tudo o que as mulheres tinham a oferecer era um colo. ficaram familiares. O caçador teve certeza do que o ancião pedia. de seus corpos nada brotava. Mas o desenho não deixava dúvida alguma. há várias luas ele não caçava. colocando-se sobre seu coração com firmeza. Ninguém ia até as montanhas. Nunca na sua vida ele tinha visto tal coisa. figuras estranhas para o caçador. com convicção. parecia que uma força oculta brotava de seu corpo. o calor crescia implacavelmente e a plantação não passava de ramos ressecados em campos poeirentos. Com suavidade ele baixou o corpo do xamã e o colocou à sombra de uma rocha. Ele segurou a mão do caçador com firmeza e com um amuleto começou a desenhar figuras na terra ressecada. Somente então o caçador viu que o xamã não estava ali para haver com ele. Foi preciso muita coragem para o caçador aceitar esse fato. o transe. As crianças choramingavam baixo por estarem fracas demais até mesmo para tentar sugar um pouco de leite dos seios de suas mães.. Entretanto quando abaixou a cabeça para olhar o xamã ele viu que aquilo era mais que o desejo de um homem velho. A idade avançada e a fome tornavam o rosto do homem praticamente uma caveira viva. Alguns dos anciões tentavam atrair a atenção e a graça dos Deuses com danças e cantos mas nenhuma resposta era ouvida. Era proibido apontar ou falar sobre aquele lugar. o Lar dos Deuses. mas diferente. era terra sagrada! E o xamã mais do que ninguém sabia disso. o caçador tirou a bolsa de couro da cintura e ofereceu o pouco de água que tinha. era essa sua missão. Foi então que o xamã agarrou seu rosto e o obrigou a olhar para as montanhas. Preocupado com a saúde do ancião. uma caverna estranha. e algo mais. ele PRECISAVA ir até o Lar dos Deuses. mas ele permaneceu em silêncio. recolocou a bolsa na cintura do caçador. Aos poucos as figuras se juntaram e começaram a fazer sentido. mas sim em algum tipo de transe. um desenho do Sol – o símbolo dos Deuses. até o Lar dos Deuses! Não era possível. Uma figura diferente. carregando seus talismãs e amuletos. a força estranha. A mão que desenhava então apontou para o Lar dos Deuses e lentamente seguiu até o peito do caçador. Mas mesmo esse alimento estava esgotado.O caçador olhava para seu povo e sentia um grande desespero crescer dentro de si. Em sua mente embotada uma pergunta sem palavras se formava dia após dia: o que devo fazer? O que é preciso para conseguir a graça dos Deuses? Por que seu povo sofria tanto? Ele sentiu que alguém se aproximava. Mostrava a silhueta tão conhecida pelo caçador.. o xamã caiu ao chão esgotado. era proibido. para as montanhas e finalmente para o caçador. O céu continuava sem nuvens. Ele murmurava sons desconexos e estranhos ao mesmo tempo em que apontava para a região das montanhas. O caçador assustou-se e ficou sem saber o que fazer. O brilho nos seus olhos. O caçador olhava para aquilo e se esforçava para negar seu significado mas não sabia o que fazer. era tabu. com formas estranhas que pareciam. Havia um brilho estranho em seus olhos. uma cadeia de montanhas. Os poucos animais que sobravam na região eram tão magros que não serviam para alimentar ninguém. Um homem. era preciso fazer alguma coisa. sentido tal angústia. O caçador levantou em sinal de respeito e esperou pelo que o velho homem tinha a dizer. O xamã apontou para o conjunto de desenhos. O caçador segurou o corpo do velho com força e o agitou para tirá-lo do transe. passos arrastados na terra árida. Seus olhos estavam tão revirados que somente era possível ver manchas brancas. não naturais. o que aconteceu em poucos segundos. Mas com uma força que não aparentava ter o xamã afastou sua mão e. Sem as forças sobrenaturais para agir sobre seu corpo. Pegando suas lanças e cordas. os picos que ele havia admirado com respeito e temor por toda a sua vida.

Ele caminhou por dias sem fim. Onde estavam os insetos e os animais que deveriam viver na caverna? Ele estava tão concentrado na exploração da caverna que nem reparou em algo bizarro. oculta dos seus olhos. apesar de não levar nenhuma tocha consigo. aguardar o que seu destino tinha a mostrar. Mas os Deuses pareciam ter se esquecido dele. Seu coração disparou ao mesmo tempo em que suas pernas pareceram ficar pesadas como pedras. Sua fé nos Deuses era tão forte quanto seu temor e ele não sabia como agir. Sua mente estava prestes a desmoronar quando ele a viu. Nesse momento o mundo pareceu explodir em luzes e sons à volta do caçador. Uma mão de homem estava desenhada. a poucos passos de distância. sempre esperando um sinal para saber se tinha alcançado seu destino. de tocar aquela imagem. o Sol brilhava forte do lado de fora da caverna. com certeza nunca tinha sido exposta ao Sol. Pedras brancas começaram a brilhar no teto dessa caverna e nuvens de neblina brotavam do chão. tudo parecia normal. Ali dentro da caverna as estranhas formas se repetiam. seus dentes eram brancos como as nuvens do céu. Quanto mais ele se aproximava das montanhas mais seu medo de estar cometendo uma heresia aumentava. com linhas duras e retas. Ele parou na boca da caverna e aguardou. sem vontade de seguir em frente. Era uma mulher – não. logo ali. brancos como a estranha roupa que usava. onde uma pintura finalmente pareceu familiar. Mas como isso era possível? Era a época do calor. O caçador aproximou-se e sentiu uma atração mágica de colocar sua mão sobre o desenho. Ele nunca sentira tanto frio na vida! Seu corpo tremia fortemente e o medo dominava seu coração. Apertou os olhos e viu no fundo da caverna uma parede. aberta como num sinal de paz. a paisagem continuava monótona e repetitiva. Com assombro ele esticou a mão e a colocou com firmeza sobre a pintura. a estranha caverna que o xamã desenhara! Sim. revelando que havia outra caverna. era isso mesmo! As estranhas formas que tanto destoavam no desenho. Ele parou sentindo-se esgotado. Um misto de coragem e decepção fez com que ele seguisse em frente. Ele tinha alcançado o Lar dos Deuses? Era preciso seguir em frente. Sua água já havia acabado há dois dias e ele sentia as forças sendo sugadas pelo Sol implacável que o perseguia. ao interior da montanha. bem à sua frente. não uma mulher qualquer! Ela era alta. entretanto nenhum som ou sinal surgiu. Como uma lança que sai do corpo de um animal a entrada da caverna brotava da terra. seguindo em frente da alvorada até o entardecer.sentiu-se assustado e pequeno. mais alta que o caçador. tudo era reto e sem vida. Em silêncio e completamente aterrorizado o caçador seguiu em direção à entrada da caverna com todos os seus sentidos atentos ao que acontecia. ficou paralisado de medo em frente à parede que se movia lenta e ruidosamente para os lados. nada mudava em sua marcha. Procurou com os olhos onde se proteger e foi com um choque que ele viu. e seu cabelo! Brilhava como os raios do Sol no 88 MARCELO JACINTO RIBEIRO . ele precisava atender ao chamado. não deveria ter desafiado os Deuses. Ele ficou tão aterrorizado que não conseguiu esboçar qualquer reação. Juntou toda a coragem que pode e seguiu em direção ao chamado dos Deuses. ele apenas queria morrer. O caçador reuniu toda a coragem que sobrara e partiu em disparada em direção ao interior da caverna. sua pele era clara. flutuando no ar entre as nuvens de frio. o local estava iluminado como o dia! Ele olhou assustado para cima e viu que no teto da caverna havia pedras brancas que brilhavam como o Sol mas que não emitiam nenhum calor. como isso era possível? O medo voltou a crescer em seu peito e ele estava prestes a fugir quando viu algo estranho. um local não natural. Ao passar pela boca da caverna ele esperou ser fulminado pelos raios dos Deuses mas novamente nada aconteceu. O caçador respirou profundamente e sentiu um enorme e assustador frio penetrando pelo seu corpo. Resolveu encontrar um local protegido e descansar um pouco.

esperando que assim ela entendesse sua situação. sou a diretora-responsável pela Caixa-Forte Internacional de Sementes da Ilha de Syalbard. — Seja bem-vindo. E foi com enorme assombro que a Deusa olhou para ele e começou a falar! Uma língua estranha. visitante! Meu nome é Christine Al-Saytis. transmitindo uma enorme sensação de paz. as palavras de uma mãe amorosa para seu filho. Parecia uma plantação. que ele estava ali em busca da salvação de sua tribo. Em que posso ajudá-lo? O caçador estava maravilhado pelo que via e ouvia. O caçador jogou-se ao chão demonstrando respeito e cobriu seu rosto. Ele aguardou em silêncio esperando algum sinal. com os caules das plantas crescendo até o teto da caverna. Entretanto garantimos que toda a atenção será dedicada ao seu pedido. mas que transmitiam calma e tranqüilidade. — Esta iniciativa foi inaugurada no ano de 2008. a voz da Deusa era inacreditável. um local seguro para armazenar e proteger o legado genético da fauna terrestre. assim pedimos desculpas pelo inconveniente uso desse holograma. não acha? O caçador não entendia nada do que a Deusa falava. o mesmo tipo de luz sem calor das pedras do teto. O caçador olhou para a Deusa esperan- A HERANÇA 89 . Parecia esperar por algo. uma intensa luz brilhava sobre ela. A qualquer momento é possível sair desse modo. soava como o canto dos pássaros! Ela flutuava a uma pequena altura com um sorriso no rosto. palavras que o caçador não entendia. Sua atenção estava concentrada na Deusa e em sua voz. Era possível ver entre as nuvens de frio coisas estranhas. Para sua surpresa. olhando respeitosamente para a Deusa. ela começou a flutuar em direção às novas cavernas. A Deusa levantou seu braço e apontou para o fundo da caverna.amanhecer! Ele nunca vira uma mulher com cabelos da cor do Sol. Muitos críticos logo batizaram o projeto de “Cofre do Fim do Mundo” numa óbvia e pessimista alusão ao possível uso desse depositório no caso de uma catástrofe ambiental. e nessas madeiras estavam vários pacotes empilhados. isso só podia significar uma coisa: ela era uma Deusa! Ela sorria com felicidade. eu sempre gosto de pensar que não custa nada estar precavida para o futuro. Nesse momento algumas pedras na parede começaram a ficar vermelhar como fogo. de dizer pelo o que seu povo estava passando. Maravilhado. como pedaços de carne enrolados em couro. Espero que você esteja aproveitando sua estada na Noruega e que possamos ajudá-lo com suas necessidades. após um período de dois minutos sem uso o sistema ativa automaticamente o modo de visita à Caixa-Forte. queria por favor seguir o holograma. com pedaços de madeira espetadas entre elas. — Prezado visitante. A Deusa voltou a falar. o caçador observava enquanto outras pedras se moviam silenciosamente mostrando outras cavernas até então ocultas. Após algum tempo a Deusa acenou com a cabeça e recomeçou a falar. Com uma estranha calma. Mas como dizer isso para uma Deusa? Desesperado por não saber o que fazer. convidando o caçador a seguir em frente. um projeto conjunto da Noruega e da Organização das Nações Unidas. Mas ele não conseguia evitar olhar para a Deusa à sua frente. Entretanto. ele não sentia o frio penetrando pelos seus pés. ele seguiu em direção à Deusa mantendo uma distância respeitosa. ele apenas a seguia e observava assombrado a caverna a seu redor. Nosso computador central detectou que no momento não há nenhum atendente humano para auxiliá-lo. olhando tranquilamente para o caçador e esperando que ele a acompanhasse. com vista a criar um repositório de sementes mundial para a Humanidade. o que ele deveria fazer? Em pânico procurou um meio de se expressar. basta vocalizar seu pedido. o caçador olhou suplicante para a Deusa. O Lar dos Deuses era gigantesco! Ele criou coragem e se levantou. Finas e retas como sua lança.

Rapidamente o caçador deixou o pacote cair e repetiu o gesto. Ele se virou e a viu próxima. seu medo da Deusa era agora uma distante lembrança. Eram sementes tão grandes e bem formadas como ele nunca tinha visto antes. A Deusa pareceu finalmente entender e reagiu aos seus atos. algumas familiares. não conseguia acreditar no que via. 90 MARCELO JACINTO RIBEIRO . — É óbvio que desejamos que esse depósito nunca seja utilizado para a finalidade para o qual foi construído: reconstituir a fauna e a flora terrestre no caso de uma catástrofe global. liso e resistente. não as pequenas lascas que alimentavam seu povo. mantendo a palma aberta ao lado do corpo. – Esta é apenas uma parte do nosso acervo de semente. e quem sabe mais até. ele saiu andando de costas. Seu coração disparou em alegria.do algum sinal de reprovação mas ela continuava a flutuar no mesmo lugar. A Deusa continuou a flutuar a sua frente. por saber que a Deusa tinha ouvido seus chamados. agora que sabia onde encontrar comida. Resolveu carregar menos peso do que conseguia. Ele chegou à grande caverna onde tudo começara e parou. marcando cada pedaço do seu rosto na memória.. calmamente contemplando a caverna. era algo diferente. Havia sementes de vários tipos e tamanhos. tão fina que era possível ver através dela. Ele se ajoelhou no chão frio e começou a cantar uma música de agradecimento. A Deusa começou a segui-lo. um grande amor por Ela. — Pedimos desculpas. E por baixo dessa outra pele estavam. ainda flutuando no ar e falando na língua dos Deuses. Nosso modo de dizer ao mundo: mesmo que o pior aconteça não vamos simplesmente desistir. mas nosso sistema automático não está reconhecendo a língua que está utilizando.. Vamos reconstruir e repovoar esse mundo. Seria esse então o motivo de sua vinda? A Deusa tinha ouvido as preces dos anciões e tinha enviado uma visão ao xamã. Lágrimas corriam pelo seu rosto enquanto seu coração batia forte pela emoção. Nosso depósito possui no momento sementes de 90% dos países do mundo. prezado visitante. Esperamos um dia alcançar a totalidade de espécies de modo a garantir a biodiversidade. sementes! A surpresa foi tão grande que o caçador ficou sem ar. forçando a pele cinzenta. numa cor cinza como as nuvens de chuva. O caçador então se aproximou curioso e tocou os pacotes. Em sinal de respeito. Todas aquelas sementes seriam mais do que suficientes para alimentar seu povo até a época das chuvas. vamos recriar o Jardim do Éden. A Deusa a seu lado voltou a falar num tom amigável. outras que o caçador jamais tinha visto. sempre olhando para a Deusa. Mas se esse momento negro um dia chegar estaremos prontos para ajudar em tudo o que for possível. observando sua humilde oferenda. pedimos por favor que você se diriga à nossa recepção para maiores informações. para mais uma vez agradecer e honráLa. ele não se preocupava mais com o destino de seu povo. As lágrimas haviam secado no rosto do caçador. cobrindo aproximadamente 86% das espécies utilizadas para alimentação humana e animal. O caçador sentiu uma grande atração pelo pacote a sua frente. revelando outra pele por baixo. e novamente foi agraciado com mais e mais sementes! Será que todos os pacotes eram iguais? Depois de rasgar tantas peles quanto pôde o caçador jogou-se ao chão numa mistura de cansaço e alegria. para avisá-lo de onde encontrar alimento para seu povo? O caçador rapidamente pegou outro dos pacotes cinza e rasgou a pele. Ela parou a sua frente e levantou uma mão. Esse depósito é o nosso legado para as futuras gerações. a única que conhecia. mas não era couro. Para sua surpresa a pele se rasgou facilmente. Por impulso ele agarrou o pacote e cravou suas unhas. Ele agora apenas sentia um grande respeito. O caçador parou de cantar e começou a juntar as peles num grande pacote.

seja na divulgação de idéias.— Esperamos que sua visita tenha sido educativa e gratificante. que você possa um dia contribuir para ampliar nosso repositório. tenha visto o quanto este projeto é importante para o futuro. Esperamos que você. mas ele tinha a visão do xamã. seja na forma de sementes. Com certeza vários dos seus não acreditariam na sua história. A HERANÇA 91 . Aguardamos em breve seu retorno. e seu futuro seria brilhante como o Sol que brilhava no cabelo dela. ele tinha a localização da caverna. Mas tudo isso não importava. A última visão que o caçador teve da Deusa foi seu sorriso se desfazendo lentamente enquanto ela desaparecia nas nuvens de frio. ele tinha as sementes. visitante. prezado visitante. das raças e das religiões. Ele abaixou a sua mão e começou a sair da caverna para retornar ao seu povo. Tenha um bom dia e uma ótima viagem de volta ao lar. A única coisa de que era importante saber agora ele tinha certeza absoluta: a Deusa amava seu povo. E se fosse preciso ele voltaria com mais pessoas para que vejam com os próprios olhos. Nossos esforços pelo bem estar da Humanidade estão acima da política.

esquemas e traições.Traidores diante de um espelho MARCOS VILELA contos dos leitores 92 Nem um mundo vigiado e monitorado está livre de complôs. e muitas vezes a arma da destruição pode ser algo muito. muito simples. planos. ameaças. .

próximo da janela. o controle remoto e o livro. Luís de joelhos manipula um aparelho antigo: um controle remoto. pensava Luís. tendo aquele livro ao seu lado. mastigava um pão dormido enquanto contemplava a vidraça e as gotas de chuva que escorriam pela janela. um breve e sonoro alarme dispara chamando a atenção de Luís. — Mas. que dividia o olhar entre a tela. dizia o título de um livro velho de páginas amareladas. O Brasil. — O que você sabe sobre nosso líder não deve ser divulgado — ordenou a imagem. A revolução precisa de você e este é um momento de sobrevivência para todos nós. aguardando a aparição do holograma. Telas enormes no interior de cada casa exibiam a mesma página de informações. Sentado agora no chão de seu minúsculo apartamento. Era impossível reconhecê-la. “Para que serve uma revolução”. A República já não era o símbolo da prosperidade e da liberdade cultural dos cidadãos. por acaso. “Até quando a revolução será enganada com estas histórias”. — Quando tudo estiver terminado e o Grande Império estabelecido. — É necessário cumprir sua obrigação enquanto líder — sentencia a imagem. Tudo aquilo que se experimentava naquela sala parecia sem sentido. Rompendo o silêncio daquela sala. Eram veiculadas histórias reais com personagens reais em um mundo diferente daquele que se vivia. desde o ano de 2243. como se ouvisse os pensamentos de Luís. — Não sei do que você está falando. Apenas um canal de notícias transmitia informações para todo o país. muito familiar a Luís. O País do Salvador declarou independência do Brasil e continuava guerreando pela separação daquele grande país-continente. sofria constantemente com grandes insurgências contra o modelo político estabelecido. com aquele aparelho em suas mãos. — Continuava estudando o controle remoto. A República estava corrompida há muitos anos. Na tela à sua frente. Não havia ninguém que estivesse sossegado e que pudesse dormir com aquela chuva incessante. Era preciso enviar novas mensagens. nenhuma daquelas informações desconexas chamava a atenção do telespectador solitário que tinha ali aquela visita costumeira. — Não me importo. chamado País do Salvador. — Não se deve negar aquilo que você defendeu tão arduamente. não podia ser vista com tanta nitidez por outras pessoas que. Era o único modo de conhecer o mundo em sua amplitude e saber as notícias que circulavam no país. parecia ouvir o barulho dos trovões que interferiam naquele diálogo. Tratava-se de uma imensa TRAIDORES DIANTE DE UM ESPELHO 93 . Todos acreditavam. Isto era o que se podia permitir depois dos últimos acontecimentos.A chuva caía sem parar desde a madrugada do dia anterior. não posso — balbucia Luís. A revolução corria risco de ser desmantelada e ele devia cumprir seu dever como um dos líderes. não será mais necessário nenhum outro artifício de engano — respondeu o holograma. A imagem dinâmica. Tinha sido muito lido durante um tempo. A revolução era fruto de mais uma das grandes desordens que se instalavam naquele país. O holograma. O único canal de informações que estava ali na tela apresentava notícias que não tinham nenhuma relação com aquela realidade. Diante da grande tela instalada à sua frente. estivessem ali. O pensamento de Luís vagava distante.

De pé. que era um pouco mais alto que Luís. Era um dos generais da revolução monarquista que acreditava trazer a paz através de um poder único. tomando boa parte da região litorânea do continente. Silêncio. Luís pertencia a este grupo. nove números. Um Juiz soberano. Cada um tinha em seu poder 94 MARCOS VILELA . — Ninguém tem mais estas certezas. e você sabe as conseqüências de se manter distante das discussões — o holograma dizia com tranqüilidade. que destruirá com mão de ferro todos os seus inimigos”. — Irritado. — Não existem dúvidas. Tudo se passava na memória. de general e cumpra seu dever.faixa territorial que se localizava nos antigos estados nordestinos. — São dez teclas. A revolução tinha como líder um rei que entendesse as misérias de seu povo sofrido e soubesse fazer a justa divisão das riquezas.. Pouco sentido e vários significados. folheava as páginas do livro como se buscasse algum trecho em especial. — Por que tudo é através deste controle remoto? — Luís tinha agora o livro numa mão e o controle remoto em outra. — Mas você não é o traidor — sorria o holograma. Fragmentos e colagens. A monarquia aparentemente desaparecida do continente sempre se manteve presente na Tradição subalterna das classes oprimidas. Isto é ultrapassado. — Não me importo. Mas o pensamento nunca foi linear. “Virá um Messias. — Eu sei.. — Luís agora fitava o holograma. Assuma sua posição de líder. um botão sem identificação. A revolução no País do Salvador contava com nove generais. O holograma voltava sua atenção para a janela e a chuva que insistia em cair. O holograma apenas sorriu.. Era um tempo no qual os diálogos se tornavam cada vez menos necessários.. no interior do País do Salvador lutavam grupos para a tomada do poder soberano. diante do holograma. A antiga divisão política renascia como se fosse uma novidade naquele século. — Aquela imagem parecia impaciente. o holograma parecia se aproximar de Luís. A mente parecia agora ter a liberdade que antes não se imaginava. Republicanos desgastados digladiavam com os insurgentes monarquistas.. — Tudo isto não passa de grandes mentiras. — Não sei mais quem sou! — sentencia Luís. — O que você queria que acontecesse? Somos um grupo e nosso líder maior quer a vitória. Um riso de ironia. Paralelamente às lutas do separatismo. mas talvez. — Nosso país precisava disso. a nova encarnação de um Rei. não o meu! — Luís esbravejou várias vezes. soberano e divino. — Luís parecia espantar algum pensamento ruim. — Você não encontrará o que procura neste livro. — Eu sei. Luís tomava em suas mãos o livro de folhas amareladas.. — Seu líder. O holograma era um alter ego mal acabado de uma consciência atormentada.

“Vamos lá. a revolução aproveitou o instrumento ultrapassado para enviar informações a todos os generais. várias informações. Bastava selecionar as imagens contidas na memória de cada um e os pensamentos se tornavam uma mensagem a ser transmitida pela rede segura. aperte um número e resolva tudo isto”. — Aperte o número. Os hologramas eram imagens muito reais e muito persuasivas. Luís era o número cinco. mas que foi aproveitado e reorientado para as nobres causas da revolução. A comunicação fora interrompida. como se estivesse alertando para novas informações recebidas. Hoje. Uma multidão observa aquilo que parecia um discurso. Os controles remotos. com os olhos vidrados na multidão. — Não temos mais tempo. sem arrumar qualquer sentido no que dizia. dizia Luís a si mesmo.um controle remoto. — O líder maior enviou uma mensagem. receba-a — ordena o holograma. O chip na nuca de Luís latejava. Mesmo que eles fizessem parte ativa da mente dos generais. Em êxtase. De posse do livro e do controle remoto. Impossível pensar. falando um idioma esquecido há muitos anos. Luís tremia. aperta o número 1. Todos os generais. você precisa liberar as informações — o holograma parecia irritado. em um tempo distante. e qualquer um daqueles botões permitia enxergar na própria mente o pensamento do outro. Uma conexão segura.. sem discernir o sonho da realidade. vencido.. Funcionavam como conselheiros. — Não vou fazer isso — Luís retrucou. Luís. Naquele lugar exatamente. A sala permanecia mergulhada em silêncio e o holograma de braços cruzados. Na verdade. inclusive o líder maior. brotavam da mente dos usuários dos chips. Tratava-se de um equipamento de comunicação que estava interligado a um chip implantado na nuca de cada uma daquelas pessoas. O homem estava diante de um espelho. serviam para alterar os canais de informação de uma tela semelhante àquela que estava fixada nas casas das pessoas. através da mente e do controle de imagens de pensamento remotas. vamos. Luís vê um homem velho empunhando firmemente um livro na mão direita. A identidade de todos eles permanecia em sigilo. A grande tela que reproduzia as informações continuava a exibir aquelas notícias que todos já conheciam e naquele momento não fazia muita diferença prestar atenção ou não. Luís esperava a ordem final. e eles se tornavam canais de informações. Era resultado de um efeito colateral. não se podia confiar muito nestes conselheiros. As mensagens eram assim enviadas para todos. TRAIDORES DIANTE DE UM ESPELHO 95 . Vários números. apenas Luís devia cumprir uma obrigação. A imagem com aquela voz estranhamente humana continuava a falar ininterruptamente. Cada general era identificado por um número. possuíam este controle remoto. faça! Os hologramas acompanhavam todos os generais. Como se estivesse adentrando num delírio. observa Luís retornar da mensagem: — É sua hora. Tudo se passava na mente fragmentada dos envolvidos. nenhuma coragem. assumiam comportamentos distintos daqueles que se planejavam. Não se podia confiar em ninguém naquele momento.

persuadindo-o a enviar qualquer mensagem para o grupo revolucionário: — Os homens fazem coisas irracionais — Luís. Mas você se esqueceu de que também existem loucos. Mas não imaginavam que os traidores seriam eles mesmos e seus hologramas. mas sua mente te comanda. — Mas existe um modo de reverter esta loucura. Não podemos ser apagados assim simplesmente. podiam exterminar qualquer um na suspeita de traição. como uma imagem de espelho. Luís já sabia. Só assim os hologramas seriam destruídos. cabisbaixo. que continua sorrindo: — Para que se faz uma revolução? Por que estamos todos nós aqui? — Suas perguntas são infantis. sabendo que Luís desconfiava dos planos de dominação.A chuva continuava lá fora. Justamente o botão que finaliza as comunicações e desliga todo o sistema. — Sabemos que em toda comunicação existem falhas. Agora imperava um silêncio. bastava apertar o número que não era identificado. — Não pode nos destruir. O sistema fora desligado. De todos os botões apenas um deles deveria encerrar aquela loucura. Luís atônito lança o livro contra o holograma. — Somente a morte é loucura — sorri o holograma. A mente é fragmentada e cheia de colagens de outras coisas que nem se sabe de onde veio. Um riso sem motivos ecoa pela sala. — Que seja! Luís aperta o botão que não possui identificação. Como se estivessem obedecendo ao comando de desligar. Você acha que comanda sua mente. Eram todos fantoches da dominação invisível. Somos vocês. Somos parte permanente de vocês. O holograma. Apenas a morte é louca. Não sou seu conselheiro. Eu sou sua mente. O holograma fitava impaciente aquele homem. aguarda. perde sua imagem. ali estava para resguardar a força dos demais conselheiros. Você não passa de um pequeno escravo de meu domínio. Em toda revolução existem traidores. Se você quebra o espelho. na figura de seu holograma. Alguma mensagem havia sido enviada. O holograma ansioso por respostas. As memórias do líder monarquista tomam todos seus sentidos novamente. Os canais deixam de existir. mas não queria pensar. — Uma gargalhada sinistra faz com que Luís retorne do transe. O holograma parece adivinhar o que se passa na mente de Luís: — Toda rede de comunicações possui falhas e certamente esta é a hora de fazer cumprir o que todos nós desejamos. era uma nova mensagem que chegava. A revolução não era humana. Existe um botão sem identificação naquele controle remoto. meu caro general. Era ele mesmo. Era tarde. — A monarquia existe apenas na lembrança e nós a faremos real! Diante de Luís estava o traidor. Luís aperta o número um. sou seu Rei. As vertigens da memória fazem com que Luís recorde dias que nunca mais serão vividos. Os generais possuíam a vida de seus companheiros em suas mãos. Luís cuspiu. Tudo se passa na mente e o pensamento é uma mensagem fragmentada. A morte de todos os generais interromperia o plano paralelo dos hologramas de tomarem o poder do país. todas as telas de notícias do País 96 MARCOS VILELA . Os hologramas se comunicavam entre si. murmura.

Os planos de instaurar a monarquia haviam sido destruídos. Em todas as conspirações existem traidores. não há líderes. O Rei soberano. Uma descarga elétrica no cérebro encerra a revolução. No país do Salvador. A razão é louca. Os generais estavam mortos. caído no chão. morto. Luís. Existem coisas que deveriam ser ditas ao invés de pensadas. Talvez nem existissem hologramas. As telas exibem agora outras notícias. parece observar as gotas escorrerem pela janela fechada. também não se tornou mártir. o pensamento é incoerente. Luís não era um deles. talvez nem existissem revoluções. Não enxerga mais nenhuma imagem. Ninguém está ali perto para ouvir aquele murmúrio final e solene. concedendo a igualdade estabelecida em sua natureza divina. todos morreram. em 2280 continua chovendo. justo. com os olhos abertos. não reinaria para seus famintos.reproduziam a informação da morte dos generais. TRAIDORES DIANTE DE UM ESPELHO 97 .

.contos dos leitores Posto 7 PABLO CASADO 98 No futuro poucas coisas surpreenderão as pessoas. o que nos maravilha passará despercebido. o que hoje nos parece impossível será algo comum. Mas algumas coisas nunca mudam.

a propósito. não era uma cidade dada a grandes feitos ou fatos. condenou o seu desenvolvimento POSTO 7 99 . Justificava-se assim a formação de aglomerações de terrenos e não-terrenos nas imediações. No Rio de Janeiro. graças a um curto-circuito. nenhum que necessitasse figurar em um periódico como o Fobos & Deimos. dos quais nunca explicara as razões para ninguém além da esposa. o Festival de Artes de Ontem e Hoje a acontecer em um fim de semana de junho. Nome. Depois de vinte anos. retornava a sua cidade natal. Talvez. data e local de nascimento. o Seu Netinho. e isso já durava tempo suficiente para que historiadores supersticiosos considerassem como um tipo de maldição. Esteve em Neo York no ano do décimo aniversário dos mortos durante a Guerra das Armadas Submarinas. cidade onde reside atualmente. já passava das cinco horas da tarde. algum dia. quando acompanhou a polícia de Tóquio X por uma semana na realização de uma matéria sobre andróides domésticos que. Segundo o horário terrestre — e o fuso no qual a cidade em questão incluía-se —. Quase perdeu a cabeça durante uma batida. compositor de samba da Velha Guarda do Morro do Beira-mar. fora contratado pela Tribuna de Fobos & Deimos — onde permanecia até aquela data — após registrar com talento e coragem o combate épico entre as duas principais gangues do baixo distrito da capital de Marte. Nenhum acontecimento ou motivo de força maior. esta era a razão pela qual. O segurança. foi o único fotojornalista a documentar a operação que inseriu o terceiro coração digital no peito de Antônio Silva Neto. com toda aquela balbúrdia verbal que só elas são capazes de provocar e obrigando qualquer diálogo a atingir notas vocais elevadas. Decisão causadora de questionamentos surpresos por parte de seus familiares e colegas de trabalho — inclusive dele próprio. Ele calhou de decidir cobrir. profissão.Imprensa. Porque Maceió. preservando-se a plantação irrestrita de cana-de-açúcar por influentes empresários locais. que quase afundou Manhattan no Atlântico. apontou o leitor de identificação para o código de barras localizado na parte inferior do crachá preso ao redor do pescoço do homem. Pelo menos. tinham-no trazido de volta a Maceió. filiação. O que significava. chegou a dizer para a mulher durante um jantar logo após a decisão tomada. a gente acaba reencontrando por aí e diz oi para não passar por mal-educado. Um cardápio de cliques capazes de fazer frente ao portfólio dos cinco mais talentosos fotógrafos de todas as seis colônias terrestres na Via Láctea — e que fazia. foto e lista de doenças infectocontagiosas recentes foram elencadas no visor azulado do aparelho. então com 146 anos. sempre realizados no campo do pensamento e quando se encontrava seguramente sozinho. ele disse. como num ato excêntrico sem precedentes em seu perfil profissional. estranhamente. opção sexual. e num tom de voz que muitos considerariam agressivamente alto. mas que nada tinha a ver com algum sentimento de arrogância descontrolada que o tomava como uma febre de auto-afirmação. ao lado de um repórter investigativo da Tribuna. onde registrou de um ângulo soberbo a lágrima solitária que correu pelo rosto de um soldado sobrevivente. também. quando oportunidades de reviver memórias da cidade lhe eram impostas. Possuía mais de dez prêmios na parede da sala e uma capacidade extraordinária de captar e editar as melhores imagens. sendo o mais disputado e paparicado fotógrafo da redação. Depois de passagens por dois periódicos virtuais de poucos pageviews. Era fotojornalista há treze anos. Maceió seja como uma ex-namorada que. Viajava com regularidade à Terra. transformaram-se em ninjas renegados. convidado a discursar num palanque flutuante diante de uma multidão de milhões. alguém munido do privilégio de escolher a dedo os trabalhos que gostaria de fazer. no entanto. Lembraram-no dos adjetivos ressentidos remoídos por entre dentes. A nãoabertura de espaço para a instalação de grandes indústrias no Estado. restando menos de uma hora para o início do Festival. então.

Ela é gente boa. Retornar. sua repulsa quase doentia para com o local era justamente esse: resumia-se a um lugar por demais miúdo para comportar os sonhos de grandeza dos mais ambiciosos e destemidos. ele tomando comprimidos para acabar com a supernova em seu estômago. E seu problema. o fotógrafo. Quando seu pai fora convidado a assumir um importante cargo numa empresa multicolonial na capital marciana. horário local. o senhor não sabe onde tá pisando. mesmo com todos os esforços dos governos municipal e estadual para solucionar as diversas mazelas que acometiam a cidade e o Estado. finalmente. via spacenet. Seus olhos permaneciam vidrados no menino de pele negra a realizar acrobacias com a prancha e algumas esferas coloridas. o outro. ao contrário da jovem repórter sentada ao seu lado. apreciou a empolgação que ela transmitia e a falta da pretensão pejorativa que alguns novatos carregavam. sentira como se o câncer que se alimentava de suas aspirações fosse finalmente extirpado. ela desejando fumar um cigarro. decidiu cobrir o peculiar festival a ser realizado em Maceió. mas. Subiram no primeiro táxi que encontraram. E o fato dela não bajulá-lo contou um bocado de pontos positivos. e escreve de um jeito que eu nem sei qualificar ainda. Repetiria mentalmente esse mantra até seu cérebro entrar em parafuso se não estivesse acompanhado. num sentimento que tangenciou a indignação. O argumento principal era de que a moça precisava trabalhar com profissionais mais experientes do ramo para afinar seu estilo e encontrar a voz certa. como qualquer bom profissional do ramo. rebateu com uma pergunta o motorista quando o seu veículo parou diante do terceiro semáforo no caminho do aeroporto para o hotel. O fotógrafo. E ele considerava-se ambos. E. Ela não passava dos vinte e três anos e meio e era dona de um diploma de Jornalismo alcançado com louvor. com a queda drástica do movimento turístico devido a depredação das belezas naturais do litoral.ainda no século XX. à cidade natal como alguém que alcançou os louros perseguidos lhe dava a idéia de ter um tipo de proteção. tendo engatilhado logo a seguir sua matrícula numa pós-graduação a distância. lançou sua protegida para verbalizar o evento. Poderia tornar-se alguém. Maceió. uma armadura de respeitabilidade capaz de evitar que fosse devorado pelo buraco negro no qual Maceió se transformara. Pelo visto. Era um prodígio de redatora e uma das jóias que o editor da seção de cultura pretendia lapidar. não ouvia uma palavra do motorista. tombou como capital e catalisadora de mudanças sociotecnológicas para Alagoas. já em meados do século XXI. desandou a discursar sobre a situação social da cidade e como as coisas ainda precisavam melhorar. mostrou-se numa afirmação espantado com a presença de moleques montados em pranchas flutuantes fazendo malabares ou limpando os pára-brisas na esperança de uns cartões com poucos créditos como troco. Quando ele. devidamente indicado pelo sistema integrado entre o Google Earth e o mapa da cidade. ele não estaria fazendo as vezes dum artista circense no meio do tráfego e nem tão pouco se preocupando com o fato de que aquela camisa velha e rasgada não faria frente ao frio da noite. o editor. 100 PABLO CASADO . assumindo uma postura de província interiorana onde só os ricos possuíam carros com motor de combustão a vácuo enquanto o grosso da população se virava com os de propulsão à eletricidade. Chegaram a Maceió na quarta-feira. o Estado como um todo foi sepultado num período de esquecimento e renegação. durante a viagem. considerava-se esse alguém: o fotógrafo mais importante de um dos maiores jornais virtuais das colônias. O taxista. E no vôo que partiu da capital marciana às nove da manhã. Não havia lido nada da garota para legitimar seu talento bruto. comentou o editor dando aqueles tapinhas nas costas que o fotojornalista achava tão irritantes. numa instituição com sede em Júpiter. imaginando que. meu velho. hein?. em Marte. O fotojornalista.

mesmo a razão não se fazendo presente em sua memória. Sessenta e quatro. e o taxista comentou. mas que. Com a mesma mão que segurava o cigarro. Apesar do choque com os meninos nos semáforos. não chegaram a serem tantos ao longo do trajeto. perdurava sem que seu fim pudesse ser avistado. ele alugou um carro numa locadora indicada pelo gerente do hotel: um modelo esportivo flutuante. fruto da imagem do mantra que o protegeria da aura de pequenez da cidade. Uma escolha excêntrica. Os três — homem.O caminho do aeroporto para o hotel revelou-se conflituoso com a imagem guardada por ele de Maceió. estava presente de um modo que ele classificou como tímido. ainda que não alcançasse as lembranças que sua memória lhe vendia como verídicas. Seus olhos degustaram o painel arrojado até se deterem no pezinho direito que chutava carinhosamente o nada. por alguma razão que apenas os estudiosos dos fenômenos urbanos e sociais poderiam discursar sobre. sobre um projeto social do município que estava trabalhando alternativas para essas crianças desgarradas. Ou lembrava que não gostava. Na manhã de quinta-feira. era separado do mar por uma avenida de seis vias. o calçadão e pela faixa de areia que decorava o oceano. Suas mãos percorreram o volante em tom de carícia. as ruas pareciam mais bem cuidadas — admirou-se com árvores e canteiros de flores. tinha o corpo decorado por um vestido estampado até a altura dos joelhos. sem ele fazer a mínima idéia de sua origem. A pobreza de vinte anos antes. preso entre os dedos indicador e médio dela. foi o mar. Sessenta e três fotos — era o que indicava a memória de sua máquina fotográfica. sabia?. avistou o ponto daquela orla onde seus amigos e ele se reuniam para jogar bola nos fins de tarde das terças e quintas-feiras. ele repetiu para uma brisa que passou. Procurou pelo quiosque de comida natural que freqüentava regularmente com sua segunda namorada. Passava das cinco da tarde e a noite dava sinais de avanço no horizonte. Desligou a câmera e a acomodou sobre a cadeira vaga ao seu lado. acelerando. Ele e a jovem jornalista estavam uns bons minutos em silêncio. disse. lá pelas bandas do litoral norte. a repórter agarrou a aba de seu chapéu de palha. avistava-se o local onde seria realizado o Festival de Artes de Ontem e Hoje. com motor a vácuo e capota retrátil de cristal líquido. mudou do modo de visualização para o de captação. O hotel no qual ficaram hospedados ele e a jovem repórter localizava-se na orla da Jatiúca. bairro estabelecido como classe média alta nos idos do século XX. Viu-se refletido nas lentes dos óculos imensos que ela usava e sorriu. observando o quebrar das ondas e a morte daquele dia num barzinho à beira-mar. fotógrafo de sucesso e menino frustrado — deslizaram para o carro e deram a partida no possante. e motivo de um sorriso disfarçado durante o percurso. Da janela de seu quarto. Passaram o dia visitando lugares a esmo — de pontos turísticos óbvios a outros nem tanto. Era também o menino frustrado que se mudara para Marte há duas décadas se manifestando. POSTO 7 101 . como que devorando o Atlântico. por exemplo. sentido norte. Ele sempre imaginou o que diabos um inferno de cidade como aquela havia feito para merecer uma beleza daquelas. o Posto 7 — que nada mais era do que o ponto de encontro específico de determinadas tribos urbanas compostas por adolescentes e seus fetiches modísticos. A única coisa a permanecer idêntica às suas recordações. mas não o encontrou. Além disso. Qual o itinerário de hoje? A fumaça do cigarro. A pouco mais de três quadras dali. Boa pergunta. decorando as vias públicas em pontos que lhe pareceram adequados urbanisticamente — e a própria estrutura da cidade transparecia um período de transformação. Ela ficou impressionada. vinte anos. Existia em seu tempo de garoto e muito antes disso. bem sentada no assento do passageiro. Com o aperto num botão. A jornalista. ele sabia bem. fugia de sua boca à medida que as palavras saíam formando a pergunta. Vinte anos. Ele não gostava do Posto 7. uma mulata de penteado afro e alargadores de osso sintético nas orelhas. em uma das poucas coisas que ouviu dele e de sua conversinha incansável.

porque eu preciso me arrumar. e ainda usados pelos fazendeiros mais humildes que não podiam bancar uma máquina produzida pelas indústrias. eu espero que esse carro esteja inteiro quando você voltar. Agora estava completo. Vinte e cinco minutos depois. tá legal?. Já o ator que repassava mais uma vez suas falas para os seus colegas programados holograficamente foi captado quando simulava um momento de angústia — interpretava um escravo negro trespassado pela lança virtual de um capitão-do-mato gerado a partir de computação gráfica. como dizia o slogan do Festival. Notou a ausência de uma peça. caso um misto de imprudência e bobagem viesse a acontecer. e almoçando no restaurante da própria hospedagem. e ela queria colher depoimentos de alguns dos artistas. ambos estavam na entrada do backstage do palco principal montado no Posto 7. garota. Tranqüilizou-se ao saber que ela estava fazendo o caminho de volta para o hotel. as legendas holográficas explicando o funcionamento de tubos e do maquinário de locomoção. Te encontro daqui a pouco. Subiu até o palco principal e focalizou a platéia: pessoas nascidas em Maceió ou Alagoas. Quando voltou para o quarto. O fotógrafo baixou a câmera e observou o contexto. Sessenta e cinco. parte integrante de um grupo de Guerreiro. Ele. movidos a bagaço de cana. disse num tom de ameaça divertida. para seu editor e para a jovem jornalista. os promotores do evento ajustando os detalhes finais aqui e acolá. enquanto o fotógrafo não arredou o pé do hotel durante boa parte do dia. especificamente com a seção destinada aos autômatos artesanais. conferiu no relógio. quatro. dois. no Brasil ou em outros países. já viu que horas são? Eram quatro e dezessete. Uma menina de oito anos. três. Essa vai pro teu álbum pessoal. ficou de costas para a platéia — alheia ao que ele fazia — e pôs-se de pose em cócoras. ela se meteu a desvendar mais da cidade por conta própria — levando consigo o conversível esportivo —. levou dois ou três segundos para notar que o fotógrafo havia registrado seu momento de introspecção. Faltava pouco para o início do Festival de Artes de Ontem e Hoje. Cinco. 102 PABLO CASADO . com a máquina fotográfica já em mãos. divertindo-se com mais um dos “cara” que ela enfiava em oito de dez frases. algo completamente ausente em sua carreira.com o Museu da Cana-de-Açúcar. Limitou-se a passar um par de horas à borda da piscina. Na sexta-feira. ele gritando imprensa! para o segurança por causa do barulho que tomava o lugar — ele os deixou entrar quando os crachás foram conferidos através do aparelho de identificação. Perdida em meio às remontagens mentais. fez o óbvio: começou a tirar fotos. dando um ou outro mergulho e evitando o olhar transbordando de flerte de uma mulher mais nova. cara. Tudo parecia se encaixar. Acendeu outro cigarro relembrando as vísceras férreas abertas de um dos autômatos. menina. Receava que sua imagem pudesse sair arranhada. um. Não. fez pose ao ser clicada. Flash. programando-a. não. crachás inclusos. além daquelas que viram a luz pela primeira vez numa das colônias espaciais. ligou para a esposa. seu par de tênis sacudindo a poeira do chão de terra batida. Caminhou até a beirada do palco. Foi até uma das caixas de som e colocou a máquina sobre ela. a repórter disse sem esperar por uma réplica afirmativa. Reunidas com o intuito de celebrar o passado e aceitar o novo que o presente oferecia.

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38 O MERCENÁRIO E O ABISMO .

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