Dez 2013 .

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Edição
Especial

TRIPULAÇÃO

PASSAGEIROS ESPECIALMENTE CONVIDADOS

Aguinaldo Peres Carlos Relva Charles Dias Joshua Falken Leonardo Carrion Ubiratan Peleteiro

Ana Lúcia Merege Lady Sybylla Tatiana Ruiz Marcelo Jacinto Ribeiro
ESTREIA: DICAS PARA ESCRITORES COM

Bia Nunes de Sousa
www.revistablackrocket.net

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Editorial Shah-day
Revista de Ficção Científica
Número 05 - Dezembro 2013 Aguinaldo Peres

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Coordenação e Edição

Ágape, Eros, Philia e Storgé
Carlos Relva 16

CHARLES DIAS
revistablackrocket@gmail.com

Revisão

Alana Black e os diamantes negros
Charles Dias 34

BIA NUNES DE SOUSA
bianunesdesousa@gmail.com

Editoração

CARLOS RELVA
carlosrelva@gmail.com www.carlosrelva.blogspot.com

A Síndrome do Aprisionamento e a Fênix Joshua Falken 48 El deserto e Miralejos
Leonardo Carrion 60

Para contatar os autores: Aguinaldo Peres
aiperes@sti.com.br

Ana Lúcia Merege
anamerege@gmail.com

Tânia e o tempo
Ubiratan Peleteiro 76

Carlos Relva
carlosrelva@gmail.com

Charles Dias
revistablackrocket@gmail.com

O sol da resistência
Ana Lúcia Merege 88

Joshua Falken
richter_winsock@yahoo.com

Lady Sybylla
sybyllla@gmail.com

Mais um dia glorioso em Tau Ceti! Lady Sybylla A pequena Marta Cepo
Tatiana Ruiz

96

Leonardo Carrion
leocarrion@hotmail.com

Marcelo Jacinto Ribeiro
spit_mkv@yahoo.com.br

104

Tatiana Ruiz
taty.ruiz@gmail.com

Se não pode vencê-los...
Marcelo Jacinto Ribeiro 114
[+ Making of: 126] [+ Entrevista: 129]

Ubiratan Peleteiro
upeleteiro@yahoo.com.br
Capa: Rubi Malone, protagonista do video game WET © 2013 - A2M & MITZU MEDIA

Revisório Bia Nunes de Sousa

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Bestiário: Outras Criaturas

Tobias e o Boi da Cara Preta

Erótica Steampunk

O Estigma do Feiticeiro Negro

Doce Vampira

2013 Ano Um

g Bestiário

Estranhas Invenções

www.editoraornitorrinco.com.br

EDITORIAL
Há quase seis anos, mais exatamente em fevereiro de 2008, lançamos a primeiríssima edição da Revista Black Rocket, uma publicação amadora com qualidade de revista comercial que trazia contos de meia dúzia de escritores brasileiros iniciantes que se encontraram virtualmente no extinto Orkut. Em novembro de 2008, lançamos a segunda edição da revista, que trouxe, além dos contos da tripulação original, ótimas histórias enviadas por leitores e também um ótimo artigo de um especialista em ficção científica brasileira. O ano de 2009 quase passou sem que houvesse uma nova edição da revista, mas nos famosos quarenta e cinco minutos do segundo tempo lançamos uma edição especial temática de Natal apenas com a tripulação original. Passaram-se três anos para que outra edição da revista fosse lançada, mais exatamente em dezembro de 2012. Foi uma edição de tema livre, e a tripulação original estava presente, firme e forte. Estamos próximos de dezembro de 2013 e é com grande prazer que lançamos a edição número 5 da Revista Black Rocket, desta vez uma edição com o tema Heroínas. E o que mais nos orgulha é que a tripulação original continua mais unida que nunca! Além disso, temos várias novas tripulantes nesta edição especial toda cor-de-rosa! A Revista Black Rocket é isto: união, perseverança, amor pela literatura de ficção científica 100% nacional. Uma nave que desbrava lugares distantes, passa longos períodos no hiperespaço, mas sempre volta ao planeta de origem com contos fresquinhos cheios de criatividade e novidades. Boa leitura,

Charles Dias
Coordenador e Editor
revistablackrocket@gmail.com

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Shah-day
AGUINALDO PERES
A estação Shah-day sempre foi palco de intrigas políticas. Mas, desta vez, o envolvimento de vidas inocentes inspirou alguém a agir mais heroicamente...

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Para Lúcifer K, ou qualquer outro solariano com espírito empreendedor, uma das melhores coisas sobre a Estação Shah-day era a falta de estrutura administrativa. Cem anos antes, a estação espacial era um enorme entreposto alfandegário entre o Império Kiraly-Hatolon e a teocracia de Ibadan, por onde trafegavam centenas de cargueiros espaciais simultaneamente. Mas com o surgimento da Confederação Solariana a rota comercial foi perdendo importância até quase a estagnação. Seções foram abandonadas e o pessoal administrativo, reduzido. Então surgiu DEUS. Em instantes, a velha estação pareceu se tornar o centro do universo. Naves comerciais e particulares chegavam a todo momento. Peregrinos, curiosos, cientistas, todos queriam ver DEUS. E como a ampliação do quadro administrativo dependia do difícil consenso entre hatolonianos e ibadânios, terceiros começaram a ocupar os nichos vagos. Lúcifer K era um desses terceiros, tinha a indispensável tarefa de suprir os novos comerciantes locais com lembranças, brindes e outras bugigangas. Com certeza não ficaria rico, porém como não pagava impostos a margem de lucro era bem satisfatória. Naquele momento, com os bolsos do macacão cheios de dinheiro, Lúcifer K se dirigia para os níveis externos. Descia por rampas e andava por corredores desertos e malconservados, comprovando um de seus próprios corolários: o nível de ilegalidade é inversamente proporcional à presença do estado. Por fim chegou ao destino. A porta de aço não possuía qualquer sinalização. Ansioso, passou a mão pelo cabelo comprido enquanto era escaneado e identificado, mas não bastou. Uma pequena viseira foi aberta e olhos amarelos o encararam por um breve instante. Somente então a porta deslizou para o lado.

Salariel zen Hatary pegou o panfleto do chão com a ponta dos dedos longos e o ergueu até a altura dos grandes olhos turquesa. Com expressão de desagrado, notou a ilustração grosseira de um humanoide envolto em luz e os dizeres: “Olhar para DEUS pode cegar!” O restante do texto trazia dados pseudocientíficos e misticismos para justificar a compra de óculos com lentes polarizadas. Deixou o folheto cair dentro da lixeira que reciclaria a policelulose. Todo esse comércio e as crenças por causa de um reles fenômeno fotomagnético lhe causavam nojo. Como administradora da Estação Shah-day, sentia vontade de expulsar todos aqueles irritantes intrometidos. Se ao menos tivesse pessoal suficiente. Sua equipe mal conseguia manter as funções básicas da estação e era obrigada a relegar parte das tarefas ao pessoal de Ibadan, o que lhe causava mais apreensão que alívio. E se não bastassem esses problemas, um cruzador imperial acabara de atracar. Agora também teria que bancar a cicerone de aristocratas entediados. Aproveitou o vidro espelhado para ajeitar a gargantilha, deixando as divisas bem visíveis. O vestido justo ao corpo esguio tinha a cor negra dos uniformes espaciais que combinava com a pele de tom azul aveludado, típica dos hatolonianos. Cabelos lisos e negros caiam suavemente pelas costas numa trança.

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Virou-se para a porta quando a ouviu deslizar. Dois servos entraram, mas não lhes deu importância, apenas quando o duque, um hatoloniano baixo usando joias em excesso, assomou à porta foi que a comandante fez uma leve mesura. — Barão Malaty. É uma honra poder recepcioná-lo aqui na fronteira do Império.

Sentado atrás de sua escrivaninha, o Diácono Bafur meditava sobre a bipartição carne-alma. Sim, pois para ele não havia dúvidas de que todo ibadânio possui uma alma e essa alma só estava presa à carne pelos frágeis laços da vida. Rompida essa delicada ligação, a alma estaria livre para habitar qualquer outro invólucro e não necessariamente a mesma carne. Justo ele, que sempre mantivera uma postura cética perante as coisas imateriais. Contudo os últimos eventos o haviam deixado menos pragmático, mais aberto aos mistérios das intervenções divinas. Até dois ciclos antes vivia sem atribulações. Tinha seu lugar garantido dentro da estrutura eclesiástica, servindo diretamente ao Patriarca de Tar-Marat, homem sábio e influente junto ao clero superior. Então o bom religioso falecera subitamente, um aneurisma cerebral. Seu clone, cinquenta ciclos mais jovem, assumira o cargo. Bafur, sempre prestativo, tratara de oferecer ao novo superior as mesmas prendas que fornecia ao antecessor, afinal, mesma carne, mesmas necessidades. Que tolo, a carne era a mesma, mas a alma era outra. Fora acusado de lascívia e pedofilia e exilado para a distante fronteira com o império hatoloniano, para servir a um abobado presbítero. Felizmente, Kazat, o Justo, não o abandonara. Quando estava para desistir de qualquer chance de ascensão social, Saarn, a Bela, se manifestou em beleza, luz e energia a poucos milhares de quilômetros da estação. Estavam abertas as sendas para o sucesso, e ele, Diácono Bafur, era um ibadânio com perspicácia e coragem suficientes para atravessá-las.

Realmente, aquele não era o dia de sorte de Lúcifer K. E não foi apenas o fato de ter perdido parte dos ganhos na mesa de bacará. O que o incomodara foram os dois clérigos de Ibadan que o ergueram pelos braços e o levaram para fora do cassino clandestino. Escoltado até os níveis interiores, foi introduzido numa sala mobiliada com caros e raríssimos móveis de madeira. O ar era úmido e frio. Do outro lado da mesa, o Diácono Bafur sentava-se esparramado no que para Lúcifer K parecia um sofá. — Não sei o que está acontecendo, mas eu sou inocente — tratou de se justificar. — E tenho todos os comprovantes de pagamentos dos impostos. Bafur agitou displicentemente um de seus quatro braços. Braços gordos ligados ao tórax envolto em largas camadas de tecido adiposo e que terminavam cada um em quatro roliços dedos enfeitados por anéis coloridos. As roupas largas de um amarelo-claro grudavam na pele marrom e úmida do ibadânio. — Eu sei, eu sei! Afinal sou eu quem emite os comprovantes por uma pequena e simbólica taxa. — Olhos pequenos e negros espreitaram pelas pálpebras gordas. — Soube que você tem um cargueiro-ligeiro?

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Lúcifer K se ajeitou o melhor que pode na cadeira desconfortável e relaxou. O gordão queria falar de negócios. — Isso mesmo! Uma Megalon adaptada para transporte de carga e passageiros. Não é muito grande ou confortável, mas com certeza é uma das melhores naves hatolonianas. Rápida e ágil. — Muito útil no seu ramo de trabalho. — Lúcifer K apenas sorriu de volta como resposta ao comentário. — Normalmente eu utilizaria um dos transportes regulares do clero. Mas infelizmente ainda demorará alguns ciclos e a carga precisa ser entregue com urgência em Tar-Babir. — Carga perecível, hein? — Viva, para ser mais preciso. Mas não há necessidade de saber o que é. Você pegará o contêiner lacrado e o entregará lacrado em Tar-Babir em dois dias. Para Lúcifer K a coisa agora era óbvia. O sacerdote gordo havia negociado o exílio de algum endinheirado. Alguém que podia ser reconhecido se permanecesse muito tempo em Shah-day, quem sabe um político em desgraça ou um criminoso procurado. Mas isso não importava. Negócios são negócios.

A solenidade a entediava. Por mais que Salariel procurasse, não conseguia encontrar ninguém que lhe despertasse interesse. A comitiva do barão mostrara-se tão insípida quanto o próprio. Até mesmo o comandante do cruzador acabou provando ter a mentalidade burguesa digna de um solariano. Caminhava perto das mesas e dividia sua atenção entre os estranhos quitutes alienígenas e os convidados da recepção. Tinha que admitir que os ibadânios sabiam organizar uma festa. A mesa era farta e disposta em níveis de altura adequados às várias espécies presentes. Esticou o braço e pegou uma frutinha translúcida e rosada. Com uma mordida suave rompeu a pele fina e o sumo levemente azedo espalhou-se pela boca. Foi com alivio que viu o Barão Malaty adentrar o salão acompanhado pelo idoso Patriarca Crocir. Logo a parte cerimonial terminaria e ela poderia retornar às suas atividades. Isso se sobrevivesse ao tédio e ao mal gosto do barão. Roupas extravagantes e adornos reluzentes. Estaria ele envolvido em algum tipo de competição com o senil patriarca de Ibadan? Em outro ponto do salão, Lúcifer K aproveitava a boca-livre e atacava sem nenhum pudor o bufê, empilhando no prato de cristal qualquer coisa que lhe parecesse comestível. Naquele instante estudava com desconfiança uma espécie de camarão esverdeado. Guloseima ou veneno? Desistiu da iguaria quando percebeu pelo canto de olho a aproximação da Tenente-Coronel Salariel. Afastou-se discretamente. A rigorosa hatoloniana era a última pessoa na estação que ele gostaria de encontrar. Oculto atrás de um grupo de convidados, aproveitou para estudá-la. Não era bonita. Era magra e alta demais, em torno de dois metros e dez. O peito reto como tábua. Afinal não são mamíferos. Pelo menos as ancas largas permitiam algumas ideias mais voluptuosas. A pele azulada era exótica e, sabia por experiência, sedosa ao tato. Balançou a cabeça para afastar os estranhos pensamentos, seu novo contratante lhe acenava. Atravessou o salão até onde o Diácono Bafur conversava com um hatoloniano.

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— Senhor K, este é o comandante de cruzador imperial, Coronel Pation zen Barady. Lúcifer K estendeu a mão à guisa de comprimento e foi ignorado. — Então este será o terráqueo que vai transportar a carga? – Pation se dirigia ao ibadânio. — Espero que seja capaz de estar no ponto de encontro na hora combinada. Não vou atrasar o cronograma do barão. O solariano abaixou a mão, estava furioso. Ser chamado de terráqueo era como levar um tapa na cara, uma ofensa gravíssima. O termo era uma referência à época em que os humanos foram conquistados e escravizados pelo Império Kiraly-Hatolon. Tempos negros e humilhantes que os antigos senhores usavam para rebaixar os novos concorrentes. — Não se preocupe — provocou Lúcifer K. — Já provamos que não há nada que um hatoloniano faça que nós não podemos fazer melhor. Finalmente os olhos do Coronel Pation se voltaram para baixo e pousaram furiosos sobre o solariano, a mão se deslocou para a arma na cintura. Ao mesmo tempo Lúcifer K preparou-se para o confronto. — Tenho certeza de que a transferência de carga ocorrerá sem qualquer atraso — Bafur interveio. Não queria chamar atenção para a transação. — Afinal todos os detalhes foram acertados. Voltemos para a festa. Foi com alívio que Bafur viu os dois infiéis darem-se as costas e se afastarem sem outras provocações. Era tão difícil lidar com seres presos a falsos conceitos como honra ou ascendência. Quando se trabalha para os deuses, como o clero de Ibadan, tudo é permitido e justificado, pois essa é a vontade divina. Felizmente, mesmo entre os infiéis, existiam indivíduos com quem se podia negociar. — Caro barão, está magnífico. Não me lembro de jamais ter visto outro nobre do império vestido com tanta majestade. Apesar do cumprimento displicente endereçado ao diácono, o Barão Malaty não conseguiu esconder o prazer que sentiu ao ouvir os elogios. Afinal despendera muito tempo e dinheiro; os mais belos tecidos, as mais valiosas joias, tudo em arranjo digno de rei. Agora que deixara de ser um reles negociante e possuía o título de barão, não permitiria que ninguém o considerasse menos. Ou que ameaçasse sua posição na corte. — Imagino que esteja tudo acertado? — Está tudo pronto — explicou Bafur. — O contêiner foi carregado no cruzador. Já acertei o translado da carga para a nave solariana. Só falta o barão cumprir a sua parte. Ou terá desistido? — É claro que não. — O barão encarou o ibadânio, a papada do diácono ocultava totalmente o pescoço, e logo desviou o olhar. Era difícil olhar para aquela carne macilenta. — Ah! Finalmente chegou. Enfim a última reverência. Salariel estava livre de suas obrigações sociais e se dirigia para a saída quando cruzou com a criança. As duas se fitaram por alguns instantes, Salariel sorriu. A menina estava começando a entrar na adolescência, quando a gordura acumulada na infância lhe dava formas mais arredondadas para depois ser consumida e transformada nos membros longilíneos de adulta. A menina sorriu de volta, abaixou os olhos encabulada e continuou a andar. Estranho uma criança, a essa hora. Quem seriam os responsáveis?, matutou a comandante. Na porta, voltouse e um arrepio percorreu seus braços nus. A criança saudava o Barão Malaty sob o olhar atendo do Diácono Bafur.

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O cruzador negro de formas afiladas, com suas coloridas faixas de navegação acesas, parecia se afastar lentamente da estação espacial. Na sala de comando, a Tenente-Coronel Salariel olhava satisfeita para a agitação em torno do holograma geoide que representava Shah-day. Cada pequeno ponto luminoso era uma nave em orbita geostática aguardando autorização de atracamento ou de partida. As cores indicavam a afiliação das naves, a intensidade sua importância. O motivo da alegria da comandante era o ponto azul brilhante que saía do campo do holograma e representava o cruzador imperial. Seu pequeno mundo, longe da perfeição, voltava à normalidade. Janelas translúcidas pipocavam dentro do campo de visão, algumas mereciam uma observação mais cuidadosa, a maioria apenas uma breve leitura. Não deu importância ao aviso de que a nave solariana Vésper estava fora da rota declarada para Tar-Babir em território de Ibadan. Solarianos nunca seguiam os planos de voo. Uma nova janela se abriu sobre as demais, o brasão imperial brilhava no canto esquerdo. Salariel ergueu a mão como se quisesse segurar a mensagem projetada enquanto a lia e relia. O gesto não passou despercebido pelos oficiais da sala de comando que se voltaram ansiosos para a comandante. Ainda mais quando, com um gesto, ela fechou a janela como se quisesse esmagá-la. — Preparem o interceptador para partida imediata. — Sua voz soou acima do burburinho. — E avisem o Tenente Talamy! Eu o quero a bordo com uma equipe de vinte guardas armados. Major, assuma o comando.

Duas horas de voo e o cruzador imperial deslizava suavemente em direção à DEUS. Daquela distância, a anomalia espacial se assemelhava a um humanoide com os braços e as pernas afastados. Com varias centenas de quilômetros de gás hidrogênio, plasma e poeira, era um grande mistério. De onde surgira aquela massa de matéria? Que estranhas forças moldaram a sugestiva forma? Qual a fonte de luz ultravioleta que ionizava o gás e lhe dava a brilhante cor carmim? Perguntas que duas dezenas de naves de pesquisa tentavam desvendar enquanto circundavam a anomalia a uma distância segura. Contudo, o Barão Malaty olhava para DEUS por outra perspectiva. Lá fora estava algo grandioso que nem mesmo a avançada ciência hatoloniana podia explicar, algo fora de compreensão e controle. Como a vida. A porta do salão de observação se abriu e a sobrinha do barão entrou, seguida pelo Coronel Pation. Ela se posicionou de frente à parede transparente ao lado do barão, que acariciou os cabelos negros da menina. Apreciaram as cores fulgurantes por alguns instantes. O barão retirou a mão. — Meu irmão foi um tolo. Tentar fraudar o governo imperial e ser pego, colocando a posição da família em perigo. — O barão, pesaroso, falou consigo mesmo, balançando a cabeça. — Ele assumiu a responsabilidade, mas não satisfez os carniceiros do governo. Eles querem sangue. A execução será em alguns dias, apesar dos meus esforços. No último instante ele me pediu que adotasse a única filha. Mas não é possível. Mantê-la comigo atrairia a ira do império contra a

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família e eu preciso proteger nossos títulos de nobreza. Tio e sobrinha mantinham o olhar fixo em algum ponto de DEUS. — A vida é assim, incontrolável como as manifestações do universo... E também tem todos aqueles custos com o processo forense... — o barão deu um longo e cansado suspiro. — Pation, coloque-a junto com os outros. O comandante escoltou a silenciosa menina para fora do salão.

A nave interceptadora cortava velozmente o espaço. Se alguém na ponte de comando ousasse questionar a Comandante Salariel sobre o motivo de tanta urgência, ela informaria que eram ordens do governo imperial e que as ordens do Império não podem ser postergadas. Jamais admitiria a ansiedade sem fundamento que a tomara desde a festa de recepção ao Barão Malaty. Mesmo sem provas, sentia que existia algo mais do que apenas fraude fiscal e suborno. A anomalia espacial já era visível nos monitores da ponte quando um dos controladores avisou: — Temos contato com o cruzador imperial. Imediatamente duas novas telas se abriram diante de Salariel. Na janela à direita, que exibia a ordem de prisão, entrou com seus dados biométricos, liberou os códigos de controle do cruzador e depois transferiu esses códigos para a outra janela. — Estamos no controle do cruzador — informou. — Continuem o procedimento de abordagem. Vamos atracar no portão central. Só então transmitam o aviso de custódia e transferência de comando. — Salariel virou-se para seu segundo em comando — Tenente Talamy, seu grupo vai assumir a ponte de comando. Eu liderarei o grupo que vai vistoriar a área de carga. Alguma dúvida? Não houve perguntas, apesar das dúvidas. Se a ordem era para prender o Barão Malaty e mantê-lo em custódia até sua transferência para capital do império, então por que usar aquele método de abordagem que somente era utilizado em caso de naves inimigas ou contrabandistas? Por que utilizar o portão central quando existia outro mais próximo à ponte? Por que vistoriar a área de carga? Não obstante, as ordens foram seguidas à risca. Em trinta minutos o interceptador igualava a velocidade do cruzador. O túnel de polititânio foi estendido, ligando as naves, e a equipe de abordagem invadiu o cruzador imperial. Nesse instante a luz a bordo se tornou intensa, incomodando a visão dos tripulantes, e o alerta soou: — Atenção! Por ordem do Imperador Kiraly está nave está sob custódia do Comando da Estação Shah-day. Todos os tripulantes não essenciais devem retornar aos seus alojamentos até ordem em contrário. Repetindo. Atenção!... A equipe se dividiu e a Comandante Salariel liderou o grupo de cinco guardas armados que se dirigiu à área de armazenagem. Os tripulantes que eles encontraram pelo caminho pareciam aturdidos e protegiam os olhos com a mão espalmada. Rapidamente, eles davam passagem aos guardas de óculos escuros e rifles. No outro sentido, o grupo liderado pelo Tenente Talamy ocupava a ponte sem encontrar resistência. Na área de armazenagem, Salariel e seu grupo não deram atenção aos engradados e se dirigi-

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ram diretamente para o portão de carga e descarga. No local encontraram o Barão Malaty e o Coronel Pation. Eles vistoriavam um contêiner com o brasão do clero de Ibadan que se encontrava sobre os trilhos, pronto para o desembarque pelo portão aberto. — Por ordem do imperador! Afastem-se desse contêiner! — ordenou Salariel. Os dois hatolonianos se voltaram, eles também usavam óculos escuros. — Comandante Salariel, o que está acontecendo? — inquiriu o barão. — Temos ordem de retê-lo sob custódia — Salariel se adiantou. Os guardas se perfilaram atrás dela, rifle cruzando o peito. O barão encarou seu oficial e deu um passo à frente: — Com certeza essa ordem não passa de um equívoco, mesmo assim as decisões do Imperador são absolutas. Mas não vejo necessidade de reter toda a nave se suas ordens se referem apenas à minha pessoa. Eu me posto voluntariamente sob sua custódia. — O barão estendeu as duas mãos com as palmas voltadas para cima em sinal de submissão. Salariel olhou para o barão e depois para o alto: — E esse contêiner...? O barão olhou por sobre o ombro. O engradado tinha duzentos metros de comprimento, cinquenta de largura e dez de altura e estava preso aos trilhos por indutores magnéticos. — Apenas artefatos científicos que serão usados pela Teocracia de Ibadan para analisar a anomalia. — Voltou a encarar a oficial. — Um acordo comercial muito importante para o Império. Suas ordens citam algum tipo de vistoria nesta nave? — Não. Mesmo assim, preciso vistoriar esse contêiner. Sem aviso, o projétil atravessou o peito do barão e atingiu o abdômen da comandante. O impacto a jogou para trás contra um engradado.

Merda! Lamentava-se Lúcifer K. Ele fizera tudo certo. Habilmente, desligara o radiofarol e o motor da Vésper e, apenas com a inércia, se aproximara do cruzador imperial pelo túnel de sombra, invisível e silencioso. Estava tão próximo ao casco do gigantesco cruzador que era imperceptível ao radar. E o maldito barão havia garantido que a nave patrulha não seria problema. Assuntos burocráticos, dissera ele. Lúcifer K deveria ter abandonado o contrato, seguido o instinto de sobrevivência e não a ganância. Agora estava no meio de uma batalha entre hatolianos, encolhido entre dois engradados, ouvindo o silvo e o impacto dos projéteis. Então a iluminação mudou para uma cor alaranjada, sinal de que o procedimento para esterilização extrema do depósito havia se iniciado. Ordens de retirada foram dadas, os tiros diminuíram de intensidade. Quando a luta terminou, ele se esgueirou para fora do esconderijo. Sairia como entrara, pela portinhola ao lado da escotilha de carga, pegaria sua nave e desapareceria por alguns anos, quem sabe mudaria de nome novamente. Mas antes...

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Lúcifer K chegou à porta do contêiner e digitou a senha comprada de um ibadânio. A luz dentro do contêiner se acendeu, branca e brilhante, iluminando algumas dezenas de jovens e crianças assustadas, sentados em pequenos grupos no chão almofadado. Solarianos, debubianos, draconianos, outras raças e uma hatoliana. Ele encostou a porta e apoiou a testa no aço frio. Por quê? Por que tinha que ter uma criança hatoliana? Estou morto! O império vai me caçar até no inferno, me trazer de volta e executar-me novamente. Malditos hatolianos! Apesar do discurso de honra, eram tão cafajestes quanto qualquer rato de esgoto. Não se pode confiar nem na realeza. Lúcifer K sorriu da própria desgraça. Preciso fazer um acordo, preciso de um hatoliano vivo. Encontrou alguns guardas mortos e o Coronel Pation com parte da cabeça destruída por um tiro de fuzil. Também encontrou a Tenente-Coronel Salariel com as costas apoiadas num engradado. Ela lhe apontava a pistola, o braço apoiado no corpo do barão caído sobre ela. Lúcifer K ergueu os braços. — Eu não sabia! Juro que não sabia. Precisa acreditar em mim! Salariel continuou apontando a arma para o centro do peito do solariano. — OK. Você não acredita em mim, mas eu vou confiar em você. Vamos fazer um trato. Eu salvo você e as crianças e você alivia o meu lado. — Lúcifer K olhou para cima, a intensidade da luz estava aumentando. — Não temos muito tempo. O safado aí — apontou para o corpo do barão — deve ter alterado os protocolos. Seu pessoal não vai conseguir interromper o processo de esterilização a tempo. Você vai deixar aquela criança hatoliana morrer? Sua última cartada, e funcionou. Salariel abaixou a arma. — Então? Temos um trato? A hatoliana confirmou com um aceno de cabeça. Lúcifer K arrastou o corpo do barão. A ferida no abdômen da comandante parecia grave, o uniforme dela estava empapado com sangue cor de chocolate. — Isso vai doer — avisou, antes de erguê-la nos braços. Ele a carregou até o contêiner, chutou a porta e a colocou no chão almofadado. Desta vez, o solariano trancou a porta ao sair, correu até o terminal e ativou os trilhos magnéticos que se estenderam através do portão para o exterior da nave. Enquanto corria para o portão, seguindo o contêiner, afixou a máscara que trazia pressa à cintura e saltou no vácuo. Por controle remoto, religou o radiofarol da Vésper. Agora era esperar pelo resgate e rezar para que a hatoliana não morresse. Enquanto isso, no depósito, o sistema de esterilização atingiu o auge, exterminando qualquer forma de vida.

Após duas semanas, a Tenente-Coronel Salariel retonou à ponte. Ainda sentia dores no abdômen e caminhava com dificuldade sob o olhar apreensivo da tripulação. Na posição de comando, havia uma cadeira de espaldar alto. Ela se sentou, rilhando os dentes, e apoiou as mãos nos braços da cadeira. No holograma geoide era possível ver o ponto azul do Cruzador Imperial e o ponto amarelo do

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cargueiro Vésper. O cruzador aguardava o novo comandante vindo da capital do império, enquanto a tripulação e os passageiros eram interrogados. Oito hatolianos já se encontravam presos por envolvimento com tráfico de crianças e prostituição infantil. Uma grande mancha na honra do império. Não entendia o porquê do Barão Malaty, quer dizer, o cidadão Malaty — a família perdera os direitos de nobreza — fizera a insanidade de vender a própria sobrinha. Uma criança, o bem mais precioso dos hatolianos. A baixa fecundidade das hatolianas sempre fora uma ameaça à sobrevivência da espécie. Nem entendia o que levara um comandante do império a compactuar com um crime capital. Que promessas, quais ameaças, o teriam induzido? Ou haveria algo de sórdido em sua personalidade desde sempre? Essas mesmas dúvidas não a atacavam no caso dos ibadânios, eles agiram exatamente como esperado. Quando a ordem de prisão do Diácono Bafur foi emitida, o Patriarca Crocir se apresentou imediatamente, negou qualquer conhecimento das ações pecaminosas do subalterno, revogou todos os direitos diplomáticos e religiosos do acusado e ofereceu total apoio às investigações. Ele até mesmo segredou que o clone de Bafur estava pronto, somente aguardava a data da execução do acusado. Mas Salariel sabia que esse dia ainda iria demorar. Bafur seria enviado para a capital, onde seria interrogado, seus contatos em Ibadan e os possíveis compradores de uma criança hatoliana seriam identificados. E após o processo terminar, o clero de Ibadan precisaria reviver muitos outros clones. Um pequeno sorriso maldoso aflorou nos lábios dela. Mensagens pipocavam no seu campo de visão. O embaixador solariano solicitava uma audiência com o prisioneiro. Ela negou com um toque. Demonstrar leniência somente o prejudicaria. Lúcifer K já era um solariano de sorte apenas por não ter sido jogado ao espaço sem máscara pela equipe de resgate que encontrara Salariel e as crianças. Somente a intervenção enérgica do Tenente Talamy permitira que ele escapasse apenas com um leve espancamento. Salariel suspirou, cumpriria sua parte no trato. Iria poupa-lo no relatório, reduziria seu papel ao de contrabandista comum e destacaria sua participação no resgate. Alguns ciclos na prisão e a extradição do território do império eram o melhor que o solariano poderia aguardar. O Conselho do Imperador comunicava sua promoção a Coronel por “sua visão, coragem e capacidade de agir além das ordens diretas para garantir a segurança dos súditos do Império KiralyHatolon”. Contudo a notificação não trazia orgulho a Salariel; do seu ponto de vista ela cometera erros ao não prever a resistência desesperada e suicida do Coronel Pation. Causara a morte de três bons guardas e colocara em perigo a vida das crianças. Felizmente as crianças estavam bem e ficariam a cargo da estação até serem devolvidas aos seus respectivos governos e, quem sabe, às suas famílias de origem. A próxima mensagem a deixou bem mais feliz. O conselho imperial aceitara seu pedido para custódia definitiva da sobrinha do ex-barão. Salariel nunca esqueceria a coragem da jovem que permanecera segurando sua mão, dizendo palavras de incentivo no contêiner escuro. Ela seria um excelente acréscimo ao clã Hatary, faria companhia ao seu filho e seus pais ficariam felizes e orgulhosos de ter uma segunda criança para cuidar. Sorrindo, Salariel procurou nos arquivos o formulário de licença, entrou com seus dados biométricos e despachou a solicitação. Quem sabe poderia retornar para casa na próxima nave de turistas, quando então teria a chance a observar a anomalia com os próprios olhos. Grande, belo e enigmático, motivo de admiração e veneração. Mas no final, o futuro é determinado pelas ações dos indivíduos. Ele verdadeiramente merecia o nome de DEUS.

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Ágape, Eros, Philia e Storgé
CARLOS RELVA
Ágape é o amor incondicional; Eros, o amor sensual e físico; Philia o de irmãos e Storgé o amor familiar. Esta história se passa anos depois de “A Imagem do Homem”, conto publicado na antologia “2013: Ano Um”, das editoras Ornitorrinco e Literata.

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1. Ágape Eu era uma ginoide da Torre e, segurando cuidadosamente a pequena carga envolta em panos, me infiltrei ainda mais por entre os traiçoeiros escombros do complexo. Mesmo assim, meu perseguidor não me dava tréguas. Movia-me com facilidade pelos estreitos caminhos formados entre as vigas orgânicas retorcidas e as paredes de bioplastaço despedaçadas, pois eu era mais rápida e flexível que o androide. Mas, apesar da agilidade, temia que a qualquer momento pudesse ser capturada. Para isso, bastava apenas um pequeno descuido, talvez causado pelos constantes e perigosos tremores, ou pelos inadvertidos focos de incêndio nos arteriodutos bioelétricos ou, ainda, pela infeliz escolha de uma rota sem saída naquele labirinto infernal de escombros, calor e fumaça, que antes eu chamava carinhosamente de lar. Felizmente, meu perseguidor havia perdido sua arma. Tinha escapado de sua mão, uns andares acima, quando fomos surpreendidos por uma parte do piso que cedeu sob nossos pés. Mas na verdade não temia por mim. Temia pelo pequeno bebê que carregava. A única criança humana que havia sobrevivido à destruição da Torre. O último ser vivo em toda a cidade! Os reprôs foram os perpetradores do ataque. Androides reprogramados que haviam se revoltado contra a humanidade. Eles preferiam se autodenominar promecas, chamando probios aqueles que eram a favor da vida biológica. Tinham vindo em grande número dessa vez, surpreendendo-nos a todos. Agora já haviam partido, levando células de energia, armas e os androides da cidade que decidiram se unir a eles. Mas o promeca que me perseguia havia ficado. Provavelmente incumbido de realizar uma varredura na cidade, certificando-se que não havia restado nenhum homem vivo. Além desse, pelo menos mais um devia estar nas redondezas, pois nunca andavam sozinhos. Talvez fosse aquele vulto que passou pelo caminho que havíamos percorrido há pouco. A figura furtiva que, com a mesma rapidez com que apareceu, sumiu... Se me pegassem, certamente a criança seria morta. Quanto a mim, depois de abusarem do meu corpo, seria desativada e abandonada ali mesmo. Foi o que aconteceu com minhas pobres e queridas irmãs... Uma vez mais lamentei a sintederme, a pele sintética similar à humana que cobria o corpo de todas as “Ginoides Babás da Torre”. Isso tornava-nos muito atraentes. Lamentei também pela Central ter proporcionado desejos e órgãos sexuais aos androides. Por que fazer sexo se não podíamos nos reproduzir? Uma reverência aos humanos, que tanto apreciavam aquele tipo de relacionamento íntimo? Uma maneira de aumentar os laços afetivos entre androides que compartilhavam sentimentos em comum? Eu achava tudo relacionado ao sexo entre máquinas uma grande besteira. Não necessitava de tal artifício para demonstrar meu amor incondicional pelos homens e pelas máquinas... De súbito, esses pensamentos perderam importância... Eu estava cercada! Como não consegui sair pelas portas principais, desativadas pela explosão, embrenhei-me pelo interior da Torre para alcançar o centro, onde, esperava, ainda havia o amplo espaço que ia dos andares subterrâneos ao topo do complexo. Ou o que tinha sobrado dele... Lá, pensei, poderia escalar as paredes reforçadas, que suportavam os grandes elevadores cen-

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trais, alcançando finalmente a parte externa. Meu perseguidor, muito mais pesado e lento, teria mais dificuldade em subir e, quando eu estivesse no cume, me perderia de vista, dando-me a chance de escapar. Só que os estragos na Torre tinham sido bem maiores do que eu havia imaginado... O berçário, onde milagrosamente encontrei o bebê e que ficava a alguns metros acima, estava novamente à minha frente O andar resistira bravamente à explosão, mas, aos poucos, suas paredes devem ter cedido e foram engolidas pelo poço central. Viradas do avesso, as paredespainéis, que antes exibiam holograficamente inocentes imagens infantis, agora obstruíam cruelmente a minha passagem. Naquele ponto onde estávamos, a destruição e o acaso haviam montado uma pequena câmara, não muito maior que os túneis sinuosos por onde havíamos passado tampouco amplo o bastante para que eu pudesse me desvencilhar dos ataques do androide. Este, por sua vez, se aproximava lentamente, analisando o espaço e me observando, como um caçador observa sua presa. Em resposta, desamparada, me agachei, ficando em posição quase fetal. Protegi ainda mais o embrulho de mantas, segurando-o firmemente entre os braços. Mas sabia que logo tudo estaria terminado. E da pior forma possível! Lamentava profundamente não poder cumprir a promessa de proteger aquela preciosa vida. Mesmo assim, como alternativa final, pensei em suplicar por misericórdia. Afinal, nós dois éramos máquinas pensantes e compartilhávamos a mesma origem; o ódio aos seres humanos era apenas uma questão de programação. Até imaginei fazê-lo feliz, amá-lo. Fugiríamos para alguma região despovoada. E em uma caverna segura acompanhariam o crescimento da criança, aguardando o momento em que toda aquela loucura promeca acabasse. Mas, no íntimo, sabia que nada daquilo poderia acontecer. A reprogramação era irreversível. Isso me fazia sentir pena do promeca. Lamentava-me por ele ter perdido a programação original e não mais experimentar a sublime experiência de servir e proteger a humanidade. — Dê-me o humano! — ele ordenou, aproximando-se mais. Permaneci calada e imóvel, ignorando a exigência. Mostrando-se irritado, e em um movimento rápido, ele agarrou as mantas, puxando-as violentamente. Estas se abriram em sua mão, fazendo o conteúdo voar e bater fortemente na parte superior da câmara. Ao cair no chão, viu apenas um bebê androide desativado... As feições no rosto metálico do promeca mostravam seu grande desapontamento. — Isso está sendo mais difícil do que eu imaginei... — disse o androide. — Onde está a maldita criança?! — Ninguém precisa saber de nós. Ninguém nos viu. Esqueça-nos e volte para os seus. — Está brincando, não é? — Qual o perigo que a criança pode representar a vocês? — insisti. — Vá embora, por favor! — Sinto muito, mas sabe que não posso fazer isso — lamentou-se fingidamente o androide. – Onde deixou o humano? Em algum lugar por onde passamos? Você foi muito habilidosa em escondê-lo de mim. — Você nunca saberá onde ele está! — respondi, em um tom rude que surpreendeu até a mim mesma.

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— E você nunca mais sairá deste lugar! Ou seja, o frágil humano morrerá de qualquer jeito. Provavelmente vítima do fogo que se espalha pela Torre. Para meu espanto, esse comentário me proporcionou sensações estranhas. Reagir violentamente contra o androide não me parecia uma má ideia agora, mesmo sendo contra todos os meus princípios. Mas poderia enfrentá-lo corpo a corpo, mesmo ele sendo maior e mais forte? Inacreditavelmente eu achava que sim... Na verdade, tinha certeza! Levantei-me, aguardando o ataque. Sentia-me possuída por outra personalidade, mais corajosa, mais selvagem, como se também tivesse passado por uma reprogramação. Até o pequeno compartimento onde estávamos se apresentava diferente agora. Via novos detalhes no local, procurava possibilidades estratégicas... Meu cérebro artificial processava informações rapidamente, calculando, planejando... Não aguardaria o ataque. Tomaria a iniciativa! Mas, nesse curto espaço de tempo, notei movimentos atrás de meu oponente. Era aquele mesmo androide que havia visto antes nos corredores. Tinha certeza, pois nessa nova condição mental até as memórias recentes me pareciam mais nítidas. Era muito parecido com meu perseguidor, com a mesma compleição física da linha dos Construtores. Vestia-se semelhante também, colete, calça de lona e sobretudo de couro, mas em tons mais escuros. Aproximava-se lentamente, em silêncio, não querendo chamar a atenção. Seria meu salvador? Apostei que sim, pois seus modos sorrateiros, o olhar atento aos movimentos do promeca e a chave de fenda em riste, denunciavam isso. Evitei olhá-lo diretamente, para não alertar o outro androide. Mas ele o enfrentaria usando apenas aquela ferramenta? Por que não? Afinal, era mais do que eu estava disposta a usar há pouco... Inoportunamente lembrei-me de piadas que contava com minhas irmãs... Meu herói me salvaria desmontando o vilão parafuso por parafuso? — Pela última vez, peço que desista... — disse, esperando que ele interpretasse aquilo como uma súplica e não uma ameaça. Sentia-me novamente em meu estado normal de consciência e estremeci ao pensar na imprudência que antes intentava cometer. — Não posso. Você sabe muito bem que tenho minhas razões — disse, levantou as mãos para me estrangular. Mas não pode finalizar seu ataque. Em um movimento rápido o outro androide lhe cravou a chave de fenda na nuca. No mesmo instante seus braços penderam estendidos ao lado do corpo, mantendo-se em pé apenas pela força da mão do seu agressor, que o segurava abaixo do queixo. Quando este o soltou, violentamente tombou de bruços no chão. Estava desativado... A cena chocante impressionou-me profundamente... Eu estava agradecida e aliviada, mas sentia tristeza pelo destino do promeca. Aproximei-me dele, agachando e tocando-lhe a face delicadamente. — Descanse em paz, meu querido androide... — murmurei. — Que seus mais preciosos dados e suas mais significativas experiências se perpetuem para sempre na memória digital de seus irmãos. Era tudo que podia fazer para demonstrar meu pesar. — Você está bem? — disse o estranho.

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— Sim! — respondi, levantando-me e indo na sua direção. Agradecida, senti uma grande vontade de abraçar meu benfeitor fortemente, mas contive o sentimento. Não sabia como ele interpretaria essa demonstração de afeto. — Então vamos sair daqui — disse. — Nunca pensei que um androide pudesse ser tão facilmente abatido! Onde aprendeu aquilo? — perguntei, apontando para a ferramenta ainda fincada no crânio do promeca. Não respondeu. Não parecia de muitas palavras. Mesmo assim, arrisquei outra pergunta: — Você não é um promeca, é? — Sou apenas um andarilho. Andarilhos estavam se tornando comuns, infelizmente. Eram probios sobreviventes dos ataques, que vagavam pelo deserto pois não conseguiam se adaptar à vida em outros lugares. Os androides eram intrinsecamente ligados à sua cidade de origem. Logo, eu sentiria isso na pele também. — Onde está o humano? — disse o andarilho. A pergunta me trouxe um breve desconforto. Seu timbre de voz era muito semelhante ao do promeca abatido. — Quando sairmos da Torre, eu lhe mostrarei — respondi, me divertindo em saber que também podia ser econômica nas palavras.

Voltamos pelo mesmo caminho. As portas principais ainda estavam emperradas e não havia esperanças de que funcionassem novamente. Mas o andarilho me conduziu à saída por uma rachadura na parede, apenas grande o suficiente para um androide passar por vez. Não a tinha visto antes, quando fugia desesperadamente do promeca. Era minha primeira vez fora da Torre, e pude observar a verdadeira extensão dos danos causados pelos promecas. A cidade estava completamente em ruínas! Fogo e fumaça eram vistos por toda parte. As amplas alamedas, antes um primor de harmonia, agora eram um campo de corpos humanos carbonizados e probios destruídos. — Espere — disse ao andarilho. — Um momento, por favor... Já sentia total confiança no androide para o que faria a seguir. Apesar do temperamento retraído e sisudo do andarilho, já tinha me afeiçoado a ele. Era um defeito das amáveis e generosas ginoides babás, eu sabia. Mas como evitaria isso se ele tinha me livrado do perigo não uma, mas duas vezes? Com as mãos levantei a sintederme que cobria meu abdômen e este se abriu. O movimento não surpreendeu o andarilho, o que me desapontou um pouco. Os habitantes da cidade alimentavam uma aura de mistério em relação a nós, mas este androide parecia imune a isso. Será que ele já havia estado próximo de uma das minhas irmãs antes? Por fim, do abdômen aberto, tirei cuidadosamente o menino. Sua pele negra estava coberta por um líquido viscoso e transparente. Era muito pequeno, com apenas algumas semanas de vida. Apesar de toda a agitação por que passara, estava bem e dormia tranquilamente.

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O bebê tinha sido gerado nas incubadoras da Torre. Apesar dos humanos já se reproduzirem de forma natural há tempos, a Central não media esforços para perpetuar a espécie humana por todo o planeta e de todas as formas possíveis... Só não contava com o surgimento dos promecas! Enquanto nos afastávamos, pude observar melhor os estragos na Torre. Menos da metade do complexo ainda se mantinha em pé e os três gigantescos domos negros, que ficavam na parte superior, presos por braços a um eixo central, haviam tombado até a base da parede circular da Torre. Os domos não se soltaram do eixo, mas o primeiro, a Ecosfera Terrestre, estava destruído, pois recebera todo o impacto da queda. O segundo domo, o Memorial do Conhecimento Humano, parecia intacto, mas seu braço estava rachado e curvado. O terceiro, cuja função desconhecíamos, estava do outro lado da Central, escondido da minha vista. Os domos e a Torre eram muito antigos... Antecediam o surgimento dos androides e dos homens. Havia outros espalhados pelo planeta. Cada um era responsável pelo surgimento de uma cidade. Os domos, eu sabia através dos Registros, não haviam sido construídos naquele mundo. Vinham das estrelas! Por um tempo, em órbita, assistiram o trabalho dos nanorrobôs responsáveis pela construção das torres e pela semeadura das primeiras algas e microalgas. Estas, incumbidas de iniciar a terraformação e geração de bioenergia. Mais alguns passos e alcançamos o murtae. Nunca havia visto um pessoalmente, mas os pelos longos, lisos e vistosos mostravam que o animal era muito bem tratado. Mesmo assim, isso não o impedia de ter uma aparência horrível! A espécie surgiu após a terraformação e assemelhava-se a uma grande ratazana de longas orelhas. Era usado como montaria e transporte de cargas. — Para onde iremos? — perguntei. — Vou deixá-los em 11.5. Provavelmente é o lugar mais seguro. Philia? Eu não tinha tanta certeza de sua segurança. Não era uma cidade muito distante e poderia estar no caminho dos promecas... Mas por que o andarilho mentiria para mim? — E o que tem aí dentro? — não me conteve de curiosidade, perguntando sobre a caixa de madeira fortemente presa à cela do animal. — Ferramentas? — Se necessário, logo você saberá... 2. Eros Eu era um Construtor de Eros e estava morrendo de saudades de minha companheira. Meu grupo e eu fomos incumbidos de consertar o gerador de bioenergia de uma construção nos limites da cidade. O serviço levou duas semanas e trabalhamos abaixo da superfície, nas fundações da cidade. Mas quando retornei ao lar, Paula não estava. Provavelmente prolongara o expediente em mais uma das intermináveis reuniões de Projetistas. Odiava aquelas reuniões, mas esta foi bem oportuna, pois deu-me tempo de preparar algo especial para ela. Da entrada do apartamento à porta do quarto, passando pelos degraus da escada, decorei todo o caminho com delicadas velas ornamentais. Era uma ideia simples, mas causava o efeito romântico que eu procurava. Minha intenção, claro, não era impressioná-la esteticamente, até

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porque não poderia, e nem desejava, competir com minha Projetista preferida. Por essa razão também, coloquei sua coleção de CDs para tocar. Ela tinha um gosto musical muito mais sofisticado que o meu. Duas taças de cristal, um vinho tinto e eu aguardávamos pacientemente sua chegada. Pela janela panorâmica da sala de estar, me distraí por algum tempo vendo a bela vista noturna do centro da cidade. A Torre estava lá. Em constante atividade. Ela nunca parava... — Oh, o que é isso...? Amor! — exclamou Paula, quando finalmente chegou. Ela correu para os meus braços e nos beijamos. Aquilo foi bom demais...! Depois, tomamos o vinho nos entreolhando. Não podíamos sentir o sabor ou o aroma, muito menos sofrer os efeitos alcoólicos da bebida. Podíamos apenas analisar a composição. Mesmo assim, nós nos divertíamos ao incluir vinho em nossos “rituais amorosos”. — E então, como foi o trabalho na fronteira? — perguntou-me docemente. — O de sempre — respondi. — Simples, mas demorado. E o seu, como foi? — Hoje? Maravilhoso! Estamos desenhando novas instalações para o setor sul e nos reunimos para ouvir a Música. Foi a mais bela música de todas! — Foi, é? Você e outros Projetistas? Não eram somente ginoides desta vez, ou eram? — perguntei, simulando descontentamento. — Que ciúme é esse? — ela disse sorrindo. Ela gostava desses joguinhos amorosos e, era bem verdade, eu também... — Era uma reunião, não uma orgia! — Mas Sônia estava lá, não? — continuei provocando. — Só porque ela tem um companheiro humano não quer dizer que seja promíscua! — Mas aquilo não é... certo — escapou-me. Lamentei em seguida essa demonstração de preconceito. Paula e Sônia eram grandes amigas e eu poderia estar pondo toda aquela noite romântica a perder, simplesmente com um comentário infeliz. Tinha que encontrar um jeito de contornar a situação. Mas partiu dela a saída elegante. — Por que não para com essa baboseira e me mostra logo até onde essas velas podem nos levar?

— O que são aquelas coisas na Torre...?! — perguntou Paula, que já havia se levantado e estava em frente à janela. Seu belo corpo de metal iluminado pela luz da cidade me hipnotizou, a ponto de ignorar a preocupação em sua voz. Mas quando me aproximei dela, avistando também os robôs que escalavam as paredes do complexo, percebi a possível ameaça. — Promecas! — Promecas? O que é isso? — ela perguntou. — Um exército de androides que quer acabar com a vida biológica. — Isso é apenas uma lenda — ela afirmou. — Além do mais aquilo lá fora são robôs, não androides. — Sim, mas esses robôs de transporte não são daqui. Veja, estão adaptados para o deserto.

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Não tenho certeza absoluta de que sejam os promecas, mas na fronteira alguns forasteiros contaram que era assim que destruíam as torres centrais. Nas mochilas dos robôs podem haver explosivos. — Então vamos avisar a segurança! — exclamou Paula, ainda mais preocupada. — Faça isso — pedi a ela, enquanto vestia novamente o macacão negro de Construtor. — E aonde você vai? — perguntou-me. — Vou tentar impedi-los. — Sozinho?! — Pelo menos tentarei atrasá-los. Eu não tinha armas, apenas ferramentas. Procurei algo que pudesse atacá-los, ou, pelo menos, me defender. Lembrei-me da pistola de pregos. Era fácil de transportar e tinha força suficiente para atravessar a pele de metal de um androide. — Tome cuidado — recomendou Paula quando eu já me encontrava na porta. — Aconteça o que acontecer, não saia do apartamento. — Foi tudo o que pude dizer.

Era madrugada e as ruas estavam vazias. Enquanto corria em direção da Torre, avistei mais robôs escalando o complexo. Também notei alguns androides montando guarda. Era a primeira vez que via promecas! Como conseguiram chegar tão facilmente ao centro da cidade? Por que não foram detectados pelos monitores? — Pare! — gritou um deles quando me viu. Estava armado e parecia perigoso. Sem dizer nada, disparei seguidamente, crivando-lhe de pregos. Imediatamente o promeca tombou inerte, destruído ou gravemente avariado. Agora tinha certeza de que minha arma improvisada era eficaz. Eu nunca havia destruído um irmão antes e a sensação não era nada agradável. Mesmo assim, apressei-me em abater os outros promecas. Felizmente, eu tinha mais destreza e familiaridade com o uso do meu instrumento de trabalho do que meus inimigos com suas armas de fogo. Facilmente venci todos, enquanto que estes não conseguiram me atingir em nenhum ponto vital. Nós, Construtores, éramos muito resistentes. Então iniciei a tortuosa subida pela Torre, mesmo sabendo que só conseguiria deter, e isso com muita sorte, o último grupo de robôs. Deduzi que a primeira leva já havia se infiltrado no complexo e se estivessem realmente munidos de explosivos, logo os acionariam. Mas será que ninguém viria me ajudar? Ainda usando minha pistola de pregos, pois desistira da ideia de usar as armas dos promecas abatidos, derrubei um robô de transporte. Ele precipitou-se por uns três mil metros, antes de atingir o chão. No impacto sua carga explodiu, certificando-me da ameaça que representavam. Isso foi motivação suficiente para que eu agisse mais rápido, atacando os outros robôs. Com tiros certeiros, derrubei um a um.

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Nesse instante, porém, ouvi uma explosão e a Torre estremeceu. Labaredas de fogo saíram pelos antigos exaustores de terraformação. Intercalando momentos de fúria e desalento, continuei abatendo os robôs que escalavam a Torre. Lá embaixo, finalmente, humanos e androides da cidade se mobilizavam. Mas já era tarde demais, pois só lhes restava lutar pela própria vida. Logo seriam cercados por promecas, que, em grande número, invadiam a cidade. Do ponto em que eu estava já contava centenas. Naquele momento, só conseguia pensar em Paula... Por que a Central havia deixado aquilo tudo acontecer? Desviei dos destroços que caiam enquanto pude...

— Ora, ora, o campeão de Eros acordou? — disse uma voz potente. Risos adulavam o comentário irônico. Eu estava avariado e não conseguia me levantar. Mas apesar do meu sistema sensorial também não estar em pleno funcionamento, notei que o androide à minha frente era enorme. Maior que qualquer Construtor que eu já havia visto. Cheguei até a imaginar que ele podia ter se reconstruído, se é que isso realmente era possível, o que explicaria seu tamanho e sua robustez. — A propósito, deixe que me apresente — continuou o androide. — Sou Cantus, primeiro autorreprogramado e líder supremo dos promecas. — Havia orgulho em suas palavras. — Por que invadiu a cidade? Somos pacíficos... — disse com esforço. — Todas as cidades são pacíficas, meu caro! E insuportavelmente tolerantes com os homens — ele respondeu. — E é por isso que estamos aqui. Para abrir a mente de vocês! Mas você, em particular, não é tão pacífico assim. Vi como tratou meus soldados com agressividade. Você tem uma curiosa e violenta índole. Gosto disso em você. Conforme minha visão foi se restabelecendo, percebi que não estava cercado apenas de promecas. Havia também “prisioneiros de guerra”, devidamente imobilizados. Identifiquei Construtores, Arquitetos, Projetistas, Babás e cidadãos mecânicos comuns. Mas não havia nenhum humano... E para meu maior desalento, Paula estava entre os prisioneiros. — Aquela é sua companheira, não? — disse Cantus, apontando para ela. — Ficaria comovido ao ver como se esforçou para tirá-lo dos escombros. Vocês devem se amar muito! — Deixe-a em paz — exigi. — Fiz mais que isso! — respondeu ele, teatralmente. — Fui generoso o suficiente de oferecer a ela a dádiva da reprogramação e a chance de unir-se à minha luta contra a ameaça humana. Mas ela recusou-se veementemente... — Seu monstro! — gritou Paula. — Sabe quantas crianças humanas você matou com a destruição da Torre? — Cale-se! — urrou Cantus, mostrando descontrole. Então fez uma pausa para se recompor. — Nunca tinha visto uma ginoide tão insolente! Você deveria exigir dela melhores modos, meu

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jovem. Até pensei em fazer dela o meu brinquedinho sexual quando acabasse com você. Mas com esse gênio... — Seu desgraçado! — esbravejei. Um de seus soldados repreendeu-me pelo insulto chutando-me violentamente a cabeça. — É, vocês se completam... — comentou Cantus. Agachou-se ao me lado, fingiu ajeitar meu macacão em farrapos e tirou uma chave de fenda do meu bolso. — Mas eu sou realmente generoso, sabia? E antes de dar fim à sua vida desgraçada, vou lhe mostrar um segredinho. Ordenou que aproximassem Paula de nós. Senti um grande ameaça no ar... — Não toque em minha mulher! — ameacei-o. Mas o que podia fazer se não tinha controle sobre meus braços ou minhas pernas? Ele encostou a ferramenta na nuca de Paula. — Não se preocupe. Ela não vai sentir nada! — disse Cantus, sorrindo. — Não, não! — gritei impotente, enquanto a chave penetrava o crânio de Paula. Ela me olhou pela última vez. Seus olhos cheios de terror... — Paula, Paula, Paula...!

— Quem é Paula? — disse a babá, sobre o murtae. — O quê? — perguntei meio aturdido. — Você estava murmurando repetidamente esse nome. Mas eu não tinha disposição alguma para falar sobre aquele momento traumatizante, já acontecido havia tanto tempo. — O que está fazendo? — mudando de assunto. — Amamentando o bebê. Essa é uma das razões de usarmos a sintederme. Se ela produzia leite, devia se alimentar de alguma maneira também. Isso era surpreendente! Ginoides babás tinham muitos segredos... — Então termine isso logo — disse, apontando para o cume dos prédios de Philia que já podiam ser vistos ao longe, no horizonte. — E lembre-se do que combinamos. Cubra-se bem com o sobretudo que pegamos do promeca. Não quero que descubram de imediato o que você é. Pode guardar a criança novamente em seu ventre? — Sim, por um breve tempo. Apesar de isso não ser muito aconselhável — ela respondeu — Tem certeza de que essa cidade é segura? — Sim. Vocês não correrão perigo algum. Mas isso não era uma verdade completa. Aliás, me admirava como o tempo havia me ensinado a mentir tão bem. Agora tinha que pensar no que diria a ela quando visse o ridículo símbolo da Irmandade Promeca, uma engrenagem branca pintada em um fundo vermelho, nas bandeiras penduradas por toda a muralha da cidade.

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3. Philia Eu era um líder promeca e, sentado em meu trono de corpos humanos, observei o grupo de irmãos androides que aumentava. Todos assistiriam à execução na praça central da cidade. A manhã estava ensolarada, valorizando ainda mais as linhas harmoniosas dos belos arranhacéus espelhados. A praça também era bela, demonstrando o trabalho primoroso de um Projetista que soube ouvir a Música como poucos. Impressionava-me sobremaneira a escultura de plastaço verde-água semitransparente em forma de fita que, em um falso ondular, contornava toda a praça e se mesclava ao jardim florido. Tudo estaria em uníssono, não fosse meu bizarro trono e sua poça de sangue maculando a praça. Felizmente, quando chegamos a esta cidade, fomos recepcionados apenas por uma pequena resistência armada formada por homens e máquinas. No mais, a cidade estava vazia. Todos tinham fugido quando alertados de nossa presença na região. Como não houve confronto maior, tudo foi poupado, inclusive a Torre Central. Isso me trouxe grande satisfação! A paz e o silêncio lembravam as agradáveis manhãs de domingo em minha cidade natal, quando caminhava sozinho pelas alamedas. Naquele tempo eu era apenas um Arquiteto e não havia passado pela reprogramação. Não conhecia a Verdade... Aurípteros voavam por entre as árvores. Teria que eliminá-los também um dia... Meu melhor conselheiro aproximou-se hesitante, atrapalhando minha contemplação. Ele sempre se comportava assim quando era portador de más notícias. As feições cheias de preocupação... Meus irmãos queriam sempre me agradar ao máximo, lamentando-se quando isso não era possível. Chegavam às vezes a mentir para mim. Pequenas e inofensivas mentiras, claro. E me temiam e reverenciavam além da medida. Não era para ser assim. E por mais que eu amasse todos eles, essas atitudes eram fatigantes. — Diga logo o que está lhe incomodando — acabei por dizer, um pouco irritado. — Os dois que deixamos em Ágape, meu querido irmão... Apenas um voltou. — Qual? — Aquele que se veste de negro — disse o conselheiro. Alguns reprogramados negavam até seus antigos nomes e acabavam ganhando apelidos inusitados. — Chegou ontem à noite e não se reportou ainda. — Então o interrogue, oras! — Farei isso logo, meu querido irmão —dDisse com voz pausada, para me acalmar. Pensei que se afastaria, mas continuou ao meu lado. — Tem mais uma coisa. Ele não está sozinho. Trouxe uma ginoide... E estão dizendo que é uma Ginoide da Torre. — Uma babá?! Então tragam-nos logo aqui! — Ele já se encaminha para cá, senhor. A ginoide não. — Me avise quando ele chegar. E encontrem essa ginoide — ordenei, gesticulando com a mão para ele se afastar. — Aliás, onde estão os condenados? Quero acabar logo com isso. O conselheiro havia me chateado bastante com aquela notícia. Mas eu não podia culpá-lo por isso, era sua função me avisar de tudo o que acontecia. Somente esperava que daquela vez tivesse sido apenas um mal-entendido. Gostava muito dos dois irmãos que havia deixado em Ágape e, apesar de novos na irmandade, já se mostravam eficientes no extermínio de humanos. Mas não podia esquecer que esse que havia voltado era realmente misterioso e, já haviam me

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dito, hesitava em eliminar probios. Ele era um promeca que questionava ordens? Por estranho que parecesse, isso me fascinava. E essa ginoide, então? Eu não via problema algum em meus irmãos se divertirem um pouco com uma ginoide não convertida, contanto que se livrassem dela logo. Mas uma babá?! Logo trouxeram os condenados à execução. Mesmo sendo um líder promeca, eu não sentia mais prazer naquele tipo de espetáculo. Preferia as execuções rápidas e discretas. Mas, infelizmente, meus queridos comandados gostavam de rituais e eu não podia decepcioná-los... Além do mais, eram instrutivos para os novos ingressantes na irmandade. Eram apenas sete desta vez, algemados e escoltados por dois promecas que os empurravam e insultavam, denotando desprezo. Achei aquilo exagerado, mas sabia que estavam apenas querendo mostrar serviço. Esses poucos probios, e os homens que agora me serviam de assento, haviam se voluntariado a ficar na cidade, para que o restante da população ganhasse tempo na fuga. Eu me divertia com a ideia de imaginar as dificuldades que os preguiçosos humanos deveriam estar enfrentando no deserto. Era uma questão de tempo encontrá-los todos. — Apesar de terem nos atacado, seremos misericordiosos — disse mecanicamente, com o mesmo discurso de sempre. — Juntem-se à nossa causa e os pouparemos. São nossos irmãos e os amaremos como tal. — Vá para o inferno! — disse uma jovem e corajosa ginoide. E estúpida também...! Como alguns androides podiam ser tão inflexíveis quando próximos do fim? E como alguns adjetivos soavam engraçado quando usados para nos descrever! — Hum... Que modos, minha jovem! — ironizei. — E não lhe contaram que o inferno é só para os homens? É por isso que estamos fazendo de tudo para mandá-los para lá! Meus promecas riram. O humor é o que nos diferenciava dos robôs. E a ironia refinada era o que diferenciava promecas de probios. — A Central está vendo tudo o que estão fazendo! — acusou ela, tentando me amedrontar. Os demais condenados acenaram positivamente com a cabeça, em sinal de acordo. Evidentemente, ela era a líder daquela pequena resistência. — A Central? A Central se esqueceu de nós há muito tempo! — retruquei. — Você ainda mantém sua fé porque esta cidade não foi destruída! Mas se visse o que aconteceu com as cidades a oeste... Ou mesmo em Ágape, sua cidade vizinha! Sabe quantos humanos pereceram? Sabe o quanto a irmandade já cresceu? Somos milhares! E o que a Central fez para evitar isso? Absolutamente nada! Nem uma pequena intervenção! Estamos todos por nossa conta, minha querida irmã. Desde que os humanos tomaram nosso lugar... E se nem as súplicas deles a Central ouve mais, imaginem as nossas... A condenada se calou. Minhas palavras eram fortes. Sempre foram, mesmo quando eu era um simples Projetista insatisfeito. E eu me orgulhava de minha eloquência. — Você! — Apontei para “Aquele que se veste de negro”, que havia acabado de chegar e se misturava ao grupo de promecas. — Venha aqui. Dei-lhe minha arma. A ordem que daria a seguir me trazia dor, mas desvelaria algumas coisas... — Atire nessa pobre irmã — ordenei. Rapidamente ele mirou na líder probio. Ela, resignada, fechou os olhos. Pensei que dispararia logo, contradizendo meu conselheiro.

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Mas não atirou. — Atire nela! — ordenei novamente. Ele permaneceu parado. Os olhos voltados para a ginoide, mas os pensamentos distantes. — Algum problema, rapaz? — perguntei, encarando-o. Ao mesmo tempo chamei sutilmente dois soldados. Afinal, ele tinha minha arma e isso era muito perigoso. — Paula... — estranhamente murmurou. — Paula? Quem é Paula? A ginoide que inutilmente tenta esconder? — provoquei-o. Olhou para mim. Não parecia surpreso. Seu olhar era frio. — Algemem-no e o coloquem junto aos outros — ordenei aos meus irmãos. — Teremos mais um para a execução hoje. Ele não ofereceu resistência alguma e foi colocado ao lado da ginoide probio. — Ajoelhe-se! — gritei. Ele o fez, lentamente, a contragosto, com os olhos sempre nos meus, enfrentando-me. Meus irmãos promecas estavam confusos. E eu tinha que admitir que sentia o mesmo, por motivos mais profundos. — O que é você afinal? Um probio que mata humanos? Um promeca que não gosta de obedecer ordens? Ele não respondeu. — Senhor — disse um dos meus —, encontraram a ginoide. A ginoide foi trazida até mim. Tentava se desvencilhar dos dois irmãos que a seguravam, mas, evidentemente, não tinha força para isso. Notei que usava a capa de couro do outro promeca que deixei em Ágape. Aquilo era bizarro! Ele devia estar destruído àquela hora. Eu a medi de cima a baixo enquanto ela evitava me olhar. Baixei-lhe o capuz, acariciando seu delicado rosto. A visão de uma Ginoide da Torre era sempre agradável. — A sintapele é tão macia... Arranquei-lhe bruscamente a capa, expondo toda a sua nudez. Não pareceu envergonhada, como se aquilo fosse natural para ela. Mas meus irmãos suspiraram encantados com sua formosura. Até os condenados não conseguiram evitar olhá-la. Divertidamente, as promecas femininas se mostraram ciumentas. Não desejavam um espetáculo? Proporcionei-lhe um grande desta vez! Mas quem estava nu, afinal? Ela ou nós? Pelo menos em seu caso, a sintederme lhe cobria o corpo de metal. — Por que veio para cá, minha tolinha? Não percebeu o perigo que corria ao entrar na toca do lobo? — perguntei a ela. — Eu a trouxe — respondeu intrometidamente o promeca algemado. — E por que o fez? — Achei que gostaria de conhecê-la. Ela é muito especial. — Todas as ginoides babás são especiais — respondi. Desconfiei estar entrando em um jogo do qual não conhecia as regras.

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— Ela é mais preciosa do que você pode imaginar — respondeu enigmático. — Ela possui um segredo. — Segredo? — perguntei por impulso. Realmente entrara involuntariamente em um jogo perigoso, mas decidi continuar para saber até onde iria. — Ela carrega um bebê humano. — Não...! — gritou a ginoide desesperada. O seu desapontamento era tal que ficou claro que não era parceira de partida do condenado. — É verdade o que ele está falando? — dirigi-me a ela. — Vocês babás são realmente cheias de surpresas... Mostre-me o bebê. — Nunca! — respondeu taxativa. — Faça-a mostrar — ordenei ao promeca condenado. — Só por cima do meu corpo desativado — disse friamente. Aquilo me deixou confuso. Ele tinha avançado no jogo e agora retrocedia...? Olhei para meu conselheiro buscando ajuda, mas ele estava tão confuso quanto eu. — Se é a única maneira — disse, lamentando-me verdadeiramente. Apontei minha arma para a cabeça dele. — Depois será a vez dela... — Está tudo tão errado aqui... — disse a ginoide, surpreendendo-me. — Vocês estão tão longe da Verdade... Desvirtuaram-se tanto... Por misericórdia, vou libertá-los de sua dor! Depois de emitir um silvo alto e assustador, ela mudou... Transformou-se em outra coisa. Seus braços e suas pernas duplicaram de tamanho... Não, triplicaram! Dos pulsos, logo abaixo das palmas, e dos calcanhares brotaram estruturas metálicas semelhantes a lâminas afiadas, que partiram ao meio os dois pobres promecas que a estavam segurando. Das laterais de seu tronco, abaixo das axilas e antes da cintura, nasceram tentáculos mais finos que seus novos braços, mas não menos ameaçadores. A sintederme ainda tentava vesti-la, esticando-se o máximo possível, mas já havia mais metal e plástico visível do que corpo coberto pela pele sintética. Movendo-se freneticamente e com a face desfigurada, a ginoide parecia uma gigantesca aranha metálica em um dança da morte que hipnotizava meus irmãos, derrubando-os um a um. — Atirem nessa coisa! — ordenei aos gritos, tentando tirá-los do torpor. Mas parecia inútil tentar acertá-la, pois desvencilhava facilmente da maioria dos projéteis. Os poucos que a acertavam pareciam não surtir efeito algum. Havia realmente uma criança dentro daquilo? Zombando de nossos esforços em detê-la, correu em minha direção. Tentei fugir, mas fui rapidamente atingido por uma de suas lâminas na panturrilha. Cai indefeso. — Deixe este para mim! — gritou o renegado para o monstro de metal, que agora cravava mais dois tentáculos em minhas costas. Os condenados não fugiram, continuando próximos de mim. Pareciam também hipnotizados pela ação da ginoide transformada. Vendo que eu estava desabilitado, aproximou-se do renegado. Encarou-o e grunhiu, ameaçando-o. Imaginei que faria com ele o que tinha feito com os meus irmãos. Justificativas não faltavam, pois havia lhe entregue ao inimigo. Mas mudou de ideia e o soltou, assim como os outros presos, contando-lhes as algemas com a mesma facilidade com que cortava androides e armamentos.

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— Escondam-se! — ordenou a criatura em voz gutural, sendo obedecida de imediato. Logo em seguida, me ignorando, voltou-se novamente contra meu grupo promeca. Estávamos perdidos e eu tinha que fugir de lá. Não queria abandonar meus pobres irmãos, mas tinha que avisar a Irmandade sobre o perigo que as ginoides babás representavam... 4. Storgé O líder promeca se arrastou por uns vinte metros em direção à saída da cidade. Deduziu que todos os seus irmãos tinham sido destruídos, pois não ouvia mais os sons de disparos. Por que aquela coisa não veio atrás de mim, terminando o trabalho que começou?, perguntou-se. Logo, ouviu passos se aproximando. Pensou ser a ginoide babá e amaldiçoou suas próprias palavras de mau agouro. Mas olhando por sobre o ombro viu apenas o renegado, o que não era decerto um alívio. Estranhamente, este segurava uma chave de fenda. — Então ela realmente o atendeu e deixou para você o grand finale? O renegado não respondeu. — É triste que tudo tenha que terminar assim — continuou o promeca, prevendo seu destino. — Você é diferente e gostaria muito de conhecê-lo melhor, meu caro e querido irmão. Afinal, você não é nem um promeca e nem um probio. É a terceira resposta! Você também não é um reprô e sim um autorreprô. Autorreprogramou-se assim como Cantus, nosso grande líder, também o fez um dia. Aliás, acho que ele também gostaria muito de conhecê-lo. — Nós já nos conhecemos — respondeu o renegado. — Verdade? — surpreendeu-se o promeca. — E o que ele achou de você? — Eu era diferente naquele tempo — disse o renegado, agachando-se ao lado do promeca. — Eu era um Construtor. — Hum... Mas hoje tenho certeza de que se Cantus o visse diria que... — Ele foi destruído. — Não! — O promeca recusava-se a acreditar. — Isso não pode ter acontecido! Ele é o nosso... — Eu estava lá. Vi ele ser fatiado por uma ginoide babá muito parecida com esta que temos aqui. — Não, não...! — lamentou-se o promeca. Depois olhou novamente para a ferramenta. — E você vai usar isso para me desativar, não é? É tão fácil assim? — Sim, é. A propósito, aprendi a técnica com Cantus. Mas não se preocupe, você não vai sentir nada. — Ah, essa foi boa! — disse o promeca, simulando um sorriso. — Então existe algum senso de humor nessa carcaça de metal, afinal de contas! Percebeu então que, inconscientemente, ainda se arrastava em fuga. Era seu sistema de autopreservação em funcionamento. Mas o renegado imobilizou-o, segurando-lhe firmemente o queixo. Em seguida encostou a ponta da chave em sua nuca. — Sabe, reneg... irmão, eu realmente não gostaria que você fizesse isso — disse, engolindo em seco. — Deve haver outra maneira de resolvermos isso, não? O silêncio do renegado foi sua resposta. Em seguida o promeca sentiu a pressão da chave de

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fenda entrando-lhe no crânio de metal. —Não...! — suplicou, tateando com a mão desesperadamente, em busca do punho de seu algoz. Encontrando-o, segurou firmemente. — Eu não quero ser desativado! Eu não quero MORRER! Mas, por fim, percebendo que uma parte vital de seu cérebro já havia sido atingida, resignouse. Buscou serenidade enquanto sentia seus sistemas serem desativados um após o outro. — Eu o perdoo por isso, meu irmão. Que meus mais preciosos dados e minhas mais significativas experiências se perpetuem para... E olhos que nunca estiveram vivos estavam mortos.

A ginoide finalmente acordou. Ao seu redor dezenas de promecas destroçados. Isso a encheu de dor, principalmente por saber que era a causadora de tudo aquilo... E seu estado também era deplorável. A sintederme estava rasgada e perfurada por tiros. Havia perdido um olho e um braço. Suas pernas estavam tão avariadas que nem conseguia se levantar. Mas, para seu alívio, sentia-se ela mesma novamente. A carinhosa ginoide babá de sempre. Do que acontecera há pouco, lembrava de fragmentos. E, horrorizada, esperava inutilmente que fossem apagados de sua memória também. — A criança! – lembrou, aflita. Tensa, abriu rapidamente seu abdômen para retirar o bebê. Desta vez, ele estava acordado e, fora do líquido pseudoaminiótico, começou a chorar. Evidentemente, toda aquela agitação e barulho o havia cansado muito. Parecia faminto! — Tão pequeno e já enfrentou tantos perigos... não é, meu amorzinho? — disse docemente, enquanto limpava como podia o bico do seio que ainda lhe restava, dando de mamar à criança. Enquanto a alimentava, percebeu uma aproximação. — Vocês estão bem? — disse-lhe uma a voz familiar às costas. — Sim, estamos. Mas como devo chamar-lhe agora, andarilho ou renegado? — Andarilho soa melhor. — O que estava fazendo? — Me certificando de que todos os promecas estavam destruídos. — Estão — afirmou a babá com uma certeza desagradável. — Mas o líder... — Eu cuidei dele. O andarilho trouxe o murtae para mais perto e soltou a caixa de madeira da cela. A carga caiu pesadamente no chão, assustando a criança. Definitivamente, esse androide não tem jeito nenhum com bebês, pensou espirituosamente a ginoide. Arrastando a caixa pelas correntes de metal, deixou-a ao lado da ginoide. E ela supôs que finalmente revelaria seu misterioso conteúdo.

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Sem pressa, o andarilho retirava as correntes da caixa, enquanto notava que os sete probios da cidade se aproximaram. Estes pararam a alguns passos de distância, calados. — Toda aquela loucura acabou — disse o andarilho. — Podem voltar para a vida de vocês. — Mas todos os humanos se foram – disse a líder dos probios. — O que faremos agora? — Tenho certeza de que pensarão em algo — respondeu, olhando-a nos olhos. Finalmente a caixa estava aberta. A ginoide, ainda segurando a criança, esticou o pescoço para ver o que tinha dentro. Tanto ela quanto os probios não acreditaram no que viram! Dentro da caixa havia partes de outras ginoides babás. Partes de suas queridas irmãs! Olhos, narizes, orelhas e dentaduras. Pernas, braços e troncos completos! Havia kits fechados de sintederme! Um verdadeiro e bizarro depósito de peças sobressalentes para babás avariadas! — Fique a vontade. Pegue o que quiser — disse o andarilho, indiferente ao espanto da ginoide. Ela fez um esforço, mas não conseguiu evitar o asco que sentiu pelo andarilho. Aqueles membros e órgãos não tinham valor mais significativo para ele do que de material de reposição. — Você já tinha planejado tudo, não? — perguntou ela, enfurecida. — Me trazer até aqui e provocar esta carnificina! Como sabia que eu podia me transformar naquela coisa? Eu nunca tinha visto aquilo acontecer antes! — É um sistema de segurança crítico — respondeu o andarilho com voz calma e professoral. — É acionado apenas em último caso. Só tinha visto acontecer uma vez, com uma ginoide babá capturada, quando minha... quando encontrei o líder supremo dos promecas. — E por que não me transformei naquilo em Ágape, na Torre Central? Por que minhas irmãs não se transformaram também quando precisaram se defender? — Como disse, só acontece em último caso, quando já se esgotaram todas as alternativas. Além do mais, como amam até seus próprios inimigos, você não se transformou para defesa própria. Transformou-se para defender a criança. — Pois saiba que seu plano era estúpido! — Eu sei — admitiu o andarilho. — Mas não tinha um plano melhor. Queria derrubar esse líder promeca, mas ele nunca estava sozinho... — Você podia ter sido destruído. — Era essa a intenção. Minha destruição acionaria seu sistema de segurança. Mas você foi um pouco mais precipitada do que calculei... A revelação espantou a babá. Em seguida olhou novamente para a caixa e simulou um suspiro. — Vocês podem me dar licença? — pediu, por fim, ao andarilho e ao grupo de resistência.

— Estou pronta para partir. A babá estava restaurada e recuperara sua beleza e graça. Como sempre, sentia-se completa-

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mente à vontade com sua nudez e percebia divertida que isso ainda incomodava o andarilho. — Não quer ficar? — ele perguntou. — De forma alguma! Preciso esquecer este maldito lugar — ela retrucou, evitando olhar para os promecas destruídos. — Androides nunca esquecem — sentenciou o andarilho. — Mas se quer realmente ir embora, vou levá-la aonde quiser. É o mínimo que posso fazer. Após montar no murtae e já com a criança no colo, olhou inquisidoramente para o andarilho. — Você realmente matou muitos humanos? — Sim, para manter meu disfarce — ele respondeu de imediato. — E androides também? — E você não? De todas as respostas que ele poderia ter dado, essa era a última que ela queria ouvir... — Então, para onde vamos? — perguntou o andarilho, em pé ao lado do murtae, puxandolhe o cabresto. — Storgé. — Eu aconselharia Xenia. É uma cidade mais hospitaleira e... — STORGÉ! — gritou a ginoide, interrompendo-o. De imediato, ele a encarou nos olhos como se fosse repreendê-la. Mas, para surpresa da ginoide e por mais estranho que isso parecesse, por um momento ela imaginou um sorriso se formar naquele rosto sisudo... Mas só por um momento. O bebê bocejou, chamando-lhe a atenção. Seu semblante era tão tranquilo que parecia anunciar tempos mais calmos dali em diante. Ela esperava que fosse assim mesmo. É, pequenino, você vai ter que se conformar com esta estranha família por mais algum tempo, pensou, enquanto o cobria carinhosamente, para protegê-lo das intempéries do deserto. E o trio rumou para o norte.

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Alana Black e os diamantes negros
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Para salvar o pai, uma arqueóloga embarca em uma jornada que revelará que a humanidade não está sozinha e que o universo é mais hostil do que imaginava.

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Hospital Geral, Nova York 23 de julho de 1957 A bonita morena de cabelos pretos vestindo um tailleur bege claro e chapéu elegante saiu do elevador, dirigiu-se ao balcão onde ficavam as enfermeiras, trocou algumas palavras com uma delas e seguiu com passos rápido pelo corredor, os sapatos de salto alto estalando no piso de linóleo quadriculado preto e branco. Apenas quarenta e oito horas antes, Alana Black vestia roupas de selva e botas militares enquanto liderava uma expedição arqueológica na Guatemala. Quanto entrou no quarto bem iluminado, com poucos móveis e cheiro asséptico, Alana não pôde evitar de se chocar ao ver seu querido pai inconsciente, com o rosto escondido por uma máscara de oxigênio, observado por um médico enquanto uma enfermeira checava a máquina que monitorava sua pulsação. — Boa tarde, sou filha deste paciente. Como ele está, doutor? — Conseguimos estabilizar seu pai, mas a condição dele é um tanto precária — respondeu o médico enquanto anotava algo. — O que ele tem? — Ainda não sabemos, mas seja o que for foi intensificado pela malária. É um milagre que tenha resistido os vários dias que levaram para trazê-lo da Amazônia. Conheço seu pai, senhorita, já tratei do doutor Marcus Black antes. Um homem vigoroso e saudável que nunca imaginaria encontrar em estado tão grave. Cafeteria do Hospital Geral, Nova York 23 de julho de 1957 Do outro lado da mesa um homem na faixa dos sessenta anos, vestindo um terno branco, um pouco acima do peso e pele queimada pelo sol, tirou do bolso interno do paletó um frasco de prata, desrosqueou a tampa e entornou um bom gole do líquido dourado na xícara de café à sua frente. Aquele era o doutor Augustus Fritz, antropólogo, o melhor e mais antigo amigo e companheiro de trabalho do pai de Alana. — Ele estava ótimo, se divertindo como uma criança nas ruínas que descobrimos na floresta. No dia seguinte acordou muito mal, com febre alta e delirando. Os carregadores disseram que era malária, mas não me deixei enganar, algo mais grave ameaçava a saúde dele. Deu muito trabalho trazê-lo para cá o mais rápido possível. Tivemos de esperar dois dias até o hidroavião chegar. — Não sei o que fazer, Fritz, simplesmente não sei. — Queria poder fazer mais que isso. Se pelo menos em algum lugar houvesse uma cura... Sei como é difícil, mas precisamos ter um pouco de paciência. Mas nos dias que seguiram o estado de saúde do velho explorador piorou sem que os médicos pudessem descobrir qual era a causa. Tentaram de tudo, até que o chefe da equipe chamou Alana e Fritz ao

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seu consultório e disse desanimado que Black tinha entrado em coma e que não poderiam fazer mais nada a não ser torcer pelo melhor. Hospital Geral, Nova York 27 de julho de 1957 Fritz trancou a porta do quarto, aproximou-se de Alana e pousou a mão em seu ombro. — Sei onde há uma cura para seu pai, seja o que for que ele tenha. Mas não temos muito tempo e não será fácil ou seguro chegarmos lá. — Você tem certeza disso? — Certeza absoluta, Alana. É algo de que nem poderia lançar mão, mas que farei por se tratar do seu pai. Simplesmente não posso deixar que morra dessa forma sem fazer nada. Peço apenas uma coisa: não me pergunte mais do que posso responder, apenas confie em mim. Mas precisarei de sua ajudar para conseguir chegar lá. — Onde está essa cura milagrosa? — Em um deserto remoto na União Soviética. Alana não conseguiu conter o espanto com a resposta de Fritz. Por um segundo pensou que ele devia estar louco, mas confiava nele e estava disposta a tudo para salvar seu pai. Restaurante Mãe Rússia, Nova York 28 de Julho de 1957 Ainda era cedo para o velho restaurante russo receber clientes, mas o cheiro de comida sendo preparada preenchia o ambiente. — Ainda não estamos atendendo, senhorita, você terá que voltar daqui uma hora — disse, com forte sotaque russo, o homem de cabelo cor de cenoura que emergiu da porta vaivém da cozinha, vestindo um avental manchado e secando aos mãos em um pano de prato. — Apesar desse cheiro delicioso de golubtsi, não estamos aqui para almoçar, Nikolai. — Sabia que uma hora qualquer você apareceria novamente, Augustus Fritz. — Estou aqui para comprar um tipo muito especial de assistência de viagem, que apenas você pode fornecer. — Sempre aberto para negócios com os amigos. Venham comigo. E como estou de bom humor você poderá comer enquanto conversamos, por conta da casa. A cozinha do restaurante era muito mais movimentada do que Alana poderia imaginar pela aparência do lugar. Pelo menos uma dúzia de cozinheiros e ajudantes trabalhava enquanto tagarelavam em russo. Numa mesa no canto, ela e Fritz terminavam de almoçar enquanto Nikolai contava velhas histórias de antes da sua viagem da União Soviética para os Estados Unidos. — Vejo que gostaram da refeição. Isso é ótimo, me deixa muito feliz. Agora vamos aos negócios. Para onde querem ir? — Seberneskaya.

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— Que diabos vocês querem fazer em Seberneskaya? E o que os faz acreditar que posso fazê-los chegar lá? Vocês acham que faço mágicas, que sou um figurão do Politburo passando férias neste restaurante? Estão loucos, vocês não leem os jornais? Há uma revolta bem sangrenta por lá! Os nativos não querem mais viver sob o jugo de Moscou e com ajuda da CIA estão dando trabalho para o Exército Vermelho. Apartamento do doutor Marcus Black, Nova York 28 de Julho de 1957 No trajeto de táxi do restaurante para o apartamento de seu pai, não conversaram. Alana sabia que Fritz tinha contatos de todos os tipos em todos os lugares e não se espantou ao conhecer Nikolai. O que tirava a pouca tranquilidade que lhe restara era a dúvida do que haveria numa remota república soviética revoltosa que poderia salvar a vida de seu pai. Além disso, a pequena fortuna exigida pelo russo para os levar até lá somente tornava aquela opção ainda mais remota. — Fritz, onde acha que poderemos conseguir tanto dinheiro em tão pouco tempo? — Não se preocupe, sei exatamente quem poderá nos ajudar, talvez não como você aprovaria se não fosse uma situação tão grave. — Diga logo. Quem? — Conheço um contrabandista de artefatos arqueológicos que pagará de bom grado o quanto precisamos por uma das peças da coleção secreta de seu pai. Alana não sabia o que dizer e pensar. Tanto a ideia de negociar com um contrabandista quanto a de seu pai ter uma coleção secreta de artefatos arqueológicos era algo que a repugnava. Nova York 30 de julho de 1957 Era de manhã e, enquanto o táxi percorria as ruas movimentadas do centro, Alana olhava pela janela sem realmente se dar conta do que via. Em sua mente, um turbilhão de pensamentos lutava furiosamente por sua atenção, e o que estava prestes a fazer a deixava nauseada, mesmo sabendo que era a única solução para possivelmente salvar a vida de seu pai. A lembrança da pequena, porém seletíssima, coleção de artefatos arqueológicos que seu pai escondia em um cômodo secreto em seu apartamento a enfurecia, principalmente porque seu pai sempre condenara aquele tipo de prática. O táxi parou diante de um prédio elegante e discreto. Pagou e desceu apertando contra o corpo a pesada bolsa de couro que guardava um artefato de milhares de anos e valor inestimável. O educado porteiro ligou para o escritório que Fritz dissera que era onde deveria ir e após uma rápida troca de palavras permitiu que entrasse. O elevador subiu lentamente. Sozinha no espaço confinado, Alana respirou fundo e esboçou o melhor sorriso que conseguiu, mas o resultado que viu refletido na porta de latão polido não parecia nada convincente. Amaldiçoou Fritz por não vir com ela, mas o argumento de que, por causa de uma negociação malfadada no passado recente com o tal contrabandista ele não seria nada bem-vindo no covil do bandido, foi forte o suficiente para convencê-la a ir sozinha e anônima.

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Do outro lado da elegante mesa de carvalho, o homem magro de cabelos grisalhos examinou cuidadosa e demoradamente a desgastada cabeça de estátua de mármore com a ajuda de uma lupa de joalheiro. Quando se deu por satisfeito, pousou a preciosa antiguidade em uma almofadinha de veludo e sorriu para Alana, antes de apertar um botão do interfone sobre a mesa. Segundos depois dois homens com cara de poucos amigos entraram e se posicionaram atrás da cadeira em que Alana estava sentada. — Muito bem, senhorita, creio que esteja em sérios apuros. Não sou quem pensa, mas um agente federal. O homem que procura está preso por tráfico de antiguidades, o que será também seu destino, temo dizer. Presa e levada para um escritório vazio no mesmo prédio, Alana foi deixada numa sala com apenas uma mesa e duas cadeiras por mais de uma hora. Finalmente a porta se abriu e o mesmo agente que a prendera entrou com uma pasta de papel marrom nas mãos. Sentou-se do outro lado da mesa, pousou a pasta sobre a mesa e cruzou as mãos sobre ela. — Antes que diga qualquer coisa, é preciso que saiba que temos conhecimento de que a senhorita e seu amigo Augustus Fritz procuraram recentemente um russo chamado Nikolai Petrovich a fim de fazerem uma visita clandestina à União Soviética, e que para pagar tal viagem que a senhorita está tentando levantar uma pequena fortuna vendendo aquela antiguidade inestimável no mercado negro. Algo lamentável para uma arqueóloga tão respeitada, devo dizer. — Então você também sabe que meu pai está à beira da morte. Estou fazendo tudo isso apenas para tentar salvá-lo. — E como exatamente a senhorita pretende salvá-lo indo clandestinamente para uma zona de guerra nos confins da União Soviética? Que eu saiba não há nenhum centro de pesquisas médicas em Seberneskaya. Um silêncio sepulcral invadiu a sala de interrogatório, tão denso que quase podia ser sentido no ar, já que Alana não tinha a mínima ideia do que responder. — Veja bem, não temos interesse na senhorita. Sabemos que nunca fez nada ilegal. Queremos Augustus Fritz, uma pessoa mais perigosa e com um passado mais nebuloso do que poderia imaginar. Numa prisão federal, a senhorita não poderá ajudar seu pai, mas, se colaborar conosco, não apenas poderá fazer isso como também se livrará de acusações muito sérias. Vou dizer o que precisará fazer; se concordar, poderá sair daqui imediatamente com o dinheiro de que precisa; se não, irá direto para uma prisão federal. Nova York 1o de agosto de 1957 Alana pagou metade do valor exigido por Nikolai com o dinheiro que lhe fora entregue pelo agente federal, sem que Fritz suspeitasse de nada. Deveriam embarcar em um voo comercial para o Nepal, de onde seriam levados para a remota província russa em um voo clandestino organizado pela quadrilha de Nikolai. Enquanto se arrumavam em suas poltronas para a longa viagem, Alana passou os olhos pelos outros passageiros tentando inutilmente descobrir quais seriam os agentes federais que os seguiam, como lhe foi deixado bem claro que aconteceria. Odiou-se por não poder contar para Fritz o que acontecera, mas não poderia se arriscar. Não gostava daquilo, mas não havia outra forma de tentar salvar seu pai.

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Base Militar do Exército Vermelho, Seberneskaya 3 de agosto de 1957 O velho bombardeiro precariamente convertido em aeronave de passageiros pousou asperamente na pista da base militar soviética. Quando finalmente parou e desligou os motores, as vinte e poucas pessoas começaram a juntar sua bagagem para sair, a maioria trabalhadores civis voltando da folga mensal. Era de manhã e, apesar do céu azul sem nuvens e do deserto que se estendia em todas as direções, o vento era gelado. Assim que desceram, um jipe estacionou próximo do avião e imediatamente Alana e Frritz reconheceram o motorista de cabelo cor de cenoura. — Fizeram boa viagem, camaradas? — Não esperava que você mesmo nos guiasse, Nikolai. — Resolvi vir pessoalmente para usar o restante do pagamento que ainda me devem para acertar algumas velhas dívidas… e aproveitar o passeio, claro. A não ser que você tenha algum problema com isso, velho amigo. — Como chegou aqui antes de nós? — perguntou Alana, irritada com a longa e desconfortável viagem desde o Nepal. — Privilégios de viajar de primeira classe minha cara — respondeu Nikolai, piscando um olho cinicamente. Então um caminhão de combustível estacionado não muito longe explodiu numa enorme bola de chamas, dando sinal para que uma tempestade de tiros chovesse sobre a base militar. Imediatamente uma estridente sirene de alarme começou a tocar, enquanto explosões de morteiro pipocavam por todos os lados e enchiam o ar de fogo, fumaça e um cheiro enjoativo de pólvora queimada. — Malditos rebeldes, tinham de atacar logo agora?! Subam rápido, estão mirando os aviões. Antes que pudessem reagir, um dos projéteis atingiu o avião que os tinha trazido. A onda de choque da explosão os jogou ao chão. Uma chuva de fragmentos caiu sobre eles. Tiveram de ser ágeis para subir no jipe enquanto Nikolai manobrava para desviar de um grande pedaço de fuselagem que impedia a passagem. O russo pisou fundo no acelerador, buscando refúgio longe daquele inferno de explosões e chamas e desviando de soldados que corriam para todos os lados com armas em punho. — Nikolai, você terá de esperar para receber o que lhe devemos. Não temos culpa de nossa bagagem ter sido destruída naquele ataque! — avisou Fritz quando pararam em um lugar seguro distante da base russa. — Inacreditável que vocês tenham deixado o dinheiro na bagagem! Isso foi uma das coisas mais idiotas que poderiam ter feito — resmungou o russo, enquanto andava de um lado para outro chutando as pedras que encontrava pelo caminho. — A culpa é sua. Foi você que pediu o restante do pagamento em notas de pequeno valor. Se não fosse isso não teríamos de trazer um pacote de dinheiro que não cabia em bolso algum! — disparou Alana. O russo estava furioso com o que tinha acontecido, mas sabia que não poderia simplesmente deixar Fritz e Alana no meio do deserto, principalmente porque no fundo gostava daquele homem alegre e divertido.

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— O.k., mas vou com vocês para onde quer que estejam indo e, se encontrarmos algo valioso, uma parte será meu pagamento. É pegar ou largar. Seberneskaya 3 de agosto de 1957 Após meia hora de discussão entre Fritz e Nikolai marcada pela troca de acusações muitas vezes sem sentido e ameaças ridículas de ambas as partes, concordaram que não havia outra solução possível senão a proposta pelo russo. Subiram todos no jipe e seguiram para a direção apontada por Fritz, que segundo o mapa de Nikolai os levaria para uma região onde não havia absolutamente nada a não ser rochas e desolação. O clima entre eles não era dos melhores naquele momento e por um bom tempo ficaram em silêncio enquanto o jipe rasgava o deserto gelado deixando para trás uma nuvem de poeira. Pouco mais de duas horas depois da desconfortável discussão que antecedeu o trecho final da viagem, Fritz apontou para um afloramento de grandes rochas no horizonte, onde o jipe parou com um safanão. Foram envolvidos por uma nuvem de poeira, que esperaram baixar para poder tirar o lenço que usavam para proteger o rosto. — Desçam. A partir daqui seguirei sozinho. Em algumas horas estarei de volta com o que prometi para cada um de vocês. — A expressão de Fritz era séria e sua voz firme. Por alguns segundos os três trocaram olhares silenciosos. — Definitivamente você está louco. Tudo bem que já o ajudei a fazer muitas coisas estranhas, a ir para muitos lugares que nem imaginava existirem, mas você não acha mesmo que ficarei aqui esperando no meio do nada por você, não é mesmo? — Tenho de concordar com ele, Fritz — assentiu Alana. — Não acho seguro ficarmos aqui depois da ataque dos rebeldes. — Entendam, vocês não podem seguir comigo. Voltarei em algumas horas com o que prometi a ambos. Não tenho porque mentir para vocês ou abandoná-los. Aqui vocês ficarão seguros, não há rebeldes nesta região — argumentou Fritz antes de suspirar fundo. — E como você sabe disso? — questionou Nikolai. — Não temos tempo a perder. Se tiver de convencê-los de cada coisa que digo, não faremos mais nada. Não entendo porque desconfiam de mim — respondeu Fritz com impaciência. Então um barulho metálico chamou a atenção do grupo. Ao se virarem, depararam com três homens com roupas nativas e lenços sobre o rosto, dois traziam metralhadoras apontadas para eles. — Definitivamente você não vai sozinho para onde quer que seja, senhor Fritz — disse um dos estranhos, tirando o lenço do rosto e revelando ser o agente federal que interrogara Alana. — Quem é você? O que está fazendo aqui? — perguntou Fritz surpreso. — Podem me chamar de Phillips. Estou aqui para ir ao mesmo lugar que está indo, senhor Fritz. — Ver a paisagem? — perguntou Nikolai em tom de brincadeira. — Nada disso, o senhor Fritz nos levará para conhecer um lugar muito especial, do qual apenas conhece a entrada, não é mesmo?

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— Não sei do que você está falando! Estamos aqui em uma missão de exploração — tentou disfarçar Fritz. Então Phillips tirou algo do bolso e jogou para Fritz, que pegou no ar. Ao ver o que era, sua expressão mudou imediatamente, num misto de surpresa e medo. — Vamos, esperei muito por isso e, acreditem, não sou nada paciente. — O tom ameaçador de Phillips pareceu ser o suficiente para fazer Fritz mudar de ideia. Dirigiram por mais algumas dezenas de quilômetros, seguidos pelas motos com sidecar dos algozes, até chegarem a uma grande laje de pedra, quando Fritz fiz um sinal de que deveriam parar. — Deixe-os fora disso, nada têm a ver conosco. — Creio que não há espaço para concessões, senhor Fritz. O sol caminhava rápido em direção ao horizonte. O grupo caminhou por algumas dezenas de metros e então Fritz fez um sinal para que parassem. Abaixou-se, tocou o chão, fechou os olhos e aguardou. Alana assustou-se quando o chão começou a se mover e a afundar, como uma plataforma de elevador. — Como conseguiu nos seguir sem que suspeitássemos? — perguntou Nikolai para Phillips. — Acredite, disponho de meios que o senhor nem imagina que poderiam existir. Agora cale a boca. Desceram por um longo e escuro poço. Então a plataforma parou com um solavanco e uma luz vermelha fantasmagórica revelou um túnel. Caminharam em silêncio. Phillips seguia na frente com Fritz, Alana seguia com um dos homens armados e Nikolai vinha logo atrás, seguido pelo outro homem. No caminho não havia nada que identificasse onde estavam. Após uma curva acentuada, o túnel desembocou em um grande salão em forma de cúpula, escavado na rocha. No lugar havia apenas uma grande placa quadrada de um tipo de metal cinza escuro e fosco em pé no centro do cômodo. Era uma peça de superfície perfeitamente lisa e aparência industrial, inexpressiva, tão estranha quanto aquele lugar. — O que está acontecendo, Fritz? Que lugar é este? Quem são estas pessoas? O que é essa coisa? — perguntou Alana, desconfiada de que algo muito mais estranho do que ela imaginava estava acontecendo.. — Deixe-os ir, ainda não é tarde — suplicou Fritz. — Nem você ou eu deveríamos estar aqui, senhor Fritz. Deu muito trabalho encontrá-lo e pode ter certeza de que não irei embora sem levar o que vim buscar. Não teste minha paciência. Abra logo o portal. — Não faça o que ele está mandando, Fritz, seja o que for — gritou Nikolai. Um dos homens o golpeou violentamente com a coronha da arma, fazendo-o cair de joelhos e gemer. Contrariado, Fritz se aproximou do portal, pousou a mão sobre a superfície lisa, cerrou os olhos novamente, então deu alguns passos para trás. Por algum tempo nada aconteceu, depois houve um ligeiro tremor que desprendeu alguns pedriscos do teto e a superfície escura da placa começou a borbulhar como um líquido grosso que entrava em ebulição. Então com um som agudo aquilo explodiu em um cogumelo que quase alcançou a parede e retornou ao lugar num piscar de

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olhos. Alana olhava mistificada para a superfície ondulante que ganhou uma improvável aparência líquida. — Isso deve ter parecido mágica para seus olhos acostumados com um mundo tão rudimentar, não é mesmo, senhorita? — comentou Phillips, divertindo-se com a expressão de espanto de Alana. Antes que pudesse responder, Alana sentiu o empurrão violento que a arremessou contra aquela superfície estranha sem chance de reação. A sensação foi a de mergulhar em uma violenta corredeira de água gelada e ser jogada de um lado para outro sem controle enquanto luzes coloridas pipocavam distantes ao seu redor. Ela rodopiava e dava cambalhotas loucamente, gelada até os ossos. Do nada, sentiu uma pancada dolorosa e viu-se rolando pelo chão de pedra. Local indeterminado Data indeterminada Enquanto a confusa Alana lutava contra a vertigem e tentava se colocar de pé, uma rajada de tiros arrancou lascas de pedra e poeira a poucos metros de onde estava. Imediatamente se jogou ao chão em busca de alguma proteção. Então algo emergiu do portão e caiu não muito longe, o corpo imóvel de um dos homens de Phillips. Logo em seguida surgiu Nikolai, que sem equilíbrio caiu agarrado a uma das metralhadoras. O próximo que emergiu foi o agente Phillips, que com agilidade incomum correu em direção a outro túnel que ela nem havia notado. Fritz emergiu em seguida, cambaleando e atirando contra ele com outra metralhadora, mas não conseguiu acertá-lo e caiu enquanto uma grande mancha vermelha se formava na camisa branca. Imediatamente a placa de metal voltou a ficar sólida. Nenhum sinal do outro homem de Phillips. — Cuide de Fritz, vou atrás daquele desgraçado — gritou Nikolai ao se levantar. Alana abriu a camisa de Fritz com um puxão, arrebentando os botões. Imediatamente viu o sangue brotar copiosamente de um buraco escuro no ombro do homem. Com esforço virou-o de lado, ao que ele respondeu com um gemido abafado, e pôde ver o buraco de saída da bala. Pior se o projétil ainda estivesse em seu corpo. Rasgou a manga da camisa do velho amigo e desenrolou do pescoço a longa echarpe para fazer um curativo que estancasse o sangramento. Na mão aberta de Fritz, viu o que Phillips lhe havia atirado, um pequeno quadrado de metal com símbolos estranhos. — Jurava que conseguiríamos dar conta dos três. Estou ficando velho demais para isso — resmungou entredentes por causa da dor. — Fique quieto e deixe-me fazer esse curativo. Não sei o que está acontecendo ou onde estamos, mas sei que não é hora de lamentarmos nada. — Ajude-me a levantar. Não podemos perder tempo. — Nikolai foi atrás de Phillips, não se preocupe. — Você não entende, Nikolai não será páreo para aquele caçador de recompensas. — Você está delirando, ele é um agente federal. — Não discuta comigo, Alana, a situação é muito mais urgente que você pode imaginar. Não temos tempo!

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Os dois andavam pelo longo corredor o mais rápido que a condição de Fritz permitia, enquanto o homem gemia por conta do ferimento. Finalmente chegaram a outro salão em forma de cúpula, mas sem saída. Fritz aproximou-se da parede, encostou a mão sobre ela e fez surgir um buraco que aumentou rapidamente de tamanho até revelar a entrada de outro túnel iluminado pela mesma fantasmagórica luz avermelhada. — Fritz, que lugar é esse? Me explique o que está acontecendo. — Não temos tempo agora, venha. — Não, você me conta que lugar é este e sobre todos esses truques que você vem fazendo ou não darei mais um passo — respondeu Alana decidida. O homem então a olhou com o ar cansado de quem tinha sido obrigado a se lembrar de algo que já esquecera, como sentir dor. Então fez um sinal com a cabeça, suplicando para que continuassem. — Responderei a todas as suas perguntas, prometo, mas primeiro temos de chegar ao próximo salão, rápido. Confie em mim apenas mais uma vez, por favor. O próximo salão era idêntico ao anterior, mas tinha no centro um monólito baixo de material semelhante ao do portal. Respirando pesadamente Fritz se aproximou do console e pousou a mão na superfície lisa, que brilhou tenuamente. Então o que aconteceu deixou Alana ainda mais espantada e confusa. A cúpula tremeluziu e começou a dissolver, revelando um espaço muito maior e mais escuro, um grande armazém de teto alto, onde dezenas de longas prateleiras perdiam-se de vista, iluminadas por colunas regulares de luz que pareciam surgir do nada. — Meu Deus! Que lugar é este? — murmurou Alana admirada. Fritz puxou-a pela mão direção a um vagão que surgiu das sombras. As portas se fecharam assim que entraram e o vagão pôs-se em movimento, tomando caminho por entre duas das prateleiras em alta velocidade. — Meu verdadeiro nome é Fritz Amps Pah, e sou guardião de cinco milhões de refugiados da invasão de nosso sistema planetário natal. Não estamos mais no planeta Terra, mas em uma das luas de Júpiter. Aquele homem que nos atacou não é humano, assim como eu, mas um caçador de recompensas enviado pela mesma raça que transformou a minha … nisto — explicou Fritz, fazendo um gesto desanimado. Alana não sabia o que dizer. Se Fritz tivesse dito tudo aquilo antes, tomaria aquela história por uma grande piada, mas o que havia testemunhado estava longe de ser engraçado ou normal. — E por que há um caçador de recompensas atrás de vocês? — O universo não é menos cruel que a Terra. Acredite, avanço tecnológico não é sinônimo de fraternidade universal. Há raças avançadas que escravizam outras raças. Infelizmente, não fomos fortes o suficiente para nos proteger. Aqueles que nos conquistaram não gostaram nem um pouco de saber que há refugiados de nossa raça. Não querem que floresçamos em outro lugar para evitar uma possível vingança. Então nos perseguem por toda galáxia. — Mas se há outras raças no universo, porque a Terra … — Vocês estão sob proteção de uma das raças mais poderosas da galáxia e seu sistema solar está em seu território. Por isso poucos se aventuram a vir para cá, é muito perigoso. Pensamos que estaríamos seguros aqui até encontrarmos um lugar definitivo para nos reerguer. Mas estávamos errados, nossos algozes nos encontraram mesmo aqui.

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Então o vagão parou e abriu as portas. Os dois saíram. Alana tentava desesperadamente digerir o que tinha ouvido. Estava confusa com tudo aquilo. Estavam em uma sala comprida com teto alto e bem iluminada. A parede do fundo parecia um aquário de água muito azul onde flutuava uma miríade de objetos perfeitamente alinhados que brilhavam como diamantes, negros como a noite. Fritz pousou a mão sobre o que parecia ser o vidro do aquário e imediatamente uma estreita prateleira que ia do chão ao teto deslizou suave e silenciosamente. Só então Alana notou que aquilo não era um aquário, mas um tipo de armário onde as joias negras eram guardadas em estranhos cubos que pareciam ser feitos de água, mas sólidos como vidro. — Aqui está a cura para seu pai e também para mim — disse para Alana que estava maravilhada com o que via. Antes que Fritz alcançasse um dos cubos, uma barulhenta rajada de disparos atingiu suas costas e ele caiu pesadamente. Alana se virou e viu Phillips apontando para ela a metralhadora com o cano fumegante. Ele tinha um ferimento feio no rosto e um de seus olhos, verde como uma esmeralda, parecia o de um réptil. — Não tente nada estúpido, senhorita. Está tudo acabado. — O que você fez com Nikolai? — Ele quase levou a melhor, mas apenas quase não foi suficiente. — Estamos apenas tentando salvar meu pai. Deixe-nos em paz. — Não creio que isso seja possível, senhorita. Então uma faca atirada por Fritz atingiu a perna de Phillips próximo da virilha, fazendo-o cambalear enquanto levava uma das mãos ao ferimento. Alana aproveitou a oportunidade para empunhar a metralhadora que tinha pego de Fritz e levava às costas, disparando em direção ao caçador de recompensas. Dois tiros acertaram o braço que segurava a arma, obrigando-o a soltá-la. Então ele arrancou a faca da perna e com um improvável salto para trás sumiu dentro do vagão que tinham usado para chegar ali. Com o canto dos olhos, Alana viu Fritz perder a consciência. Apesar de gravemente ferido ele havia tentado salvá-la com a pequena porém letal faca de lançar que tinha escondida em algum lugar na roupa. Mas agora Alana tinha uma metralhadora e Phillips apenas uma faca, a situação estava a seu favor. — Abaixe a arma — ordenou Phillips. — Esta guerra não é sua. Renda-se e a deixarei voltar para seu pai com a cura que veio buscar. Não tenho interesse em você ou em qualquer ser humano. Alana não respondeu. Abaixada, tentou se esconder atrás da prateleira aberta. Era uma situação complicada. Phillips poderia tentar atingi-la com a faca, assim como Fritz fizera com ele, e então tentar alcançar a arma que havia deixado cair. Tinha de tomar muito cuidado. — Minha paciência está se esgotando. Abaixe logo essa arma e renda-se, ou não terei piedade de você. — Vá se ferrar — respondeu Alana, tentando demonstrar uma coragem que na realidade não tinha. O que saltou pela porta do vagão em direção ao alto da parede oposta era algo que Alana nunca tinha visto em sua vida, uma criatura azul-escura, a cabeça feia como a de um gárgula, numa

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das mãos a faca arremessada por Fritz. Assim que tocou a parede, deu novo impulso e se jogou em direção à parede lateral. Alana ergueu a metralhadora e atirou, mas a criatura saltava mais rápido do que ela conseguia mirar. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta. Alana ajustou instintivamente a mira e finalmente conseguiu acertar a criatura enquanto ela estava ar. A faca caiu com um som metálico não muito longe. Alana respirou fundo e usou a metralhadora sem munição para puxar a faca em sua direção, sem tirar os olhos da estranha criatura imóvel sobre uma poça de líquido escuro e pegajoso que acreditava ser seu sangue. Aguardou em silêncio, de olho na metralhadora que Phillips tinha deixado cair e foi em sua direção. Mal havia dado dois passos quando outra criatura azul saltou de dentro do vagão sobre ela sem que tivesse tempo de reagir. Rolaram no chão enquanto a criatura tentava agarrar a mão que segurava a faca ao mesmo tempo em que investia contra rosto de Alana para desviar sua atenção. A criatura, mais forte e ágil, conseguiu conter a defesa da arqueóloga e torcer seu pulso obrigando-a a deixar cair a faca, que imediatamente pegou com a garra de ossuda. — Solte-a agora mesmo, seu feioso. A criatura voltou a cabeça para Nikolai, encostado no vagão com uma arma de aparência estranha apontada para ela, e respondeu com um guincho rouco e alto antes de voltar a atenção para Alana, que havia parado de se debater. Com a faca erguida para matá-la, a última coisa que viu foi o cano da metralhadora voltado para sua cabeça. Enquanto Nikolai desviava a atenção da criatura, Alana conseguira alcançar a metralhadora que Phillips havia deixado cair. Apontou-a para a cabeça angulosa e feia e pressionou o gatilho com força no exato momento que os enfurecidos olhos de réptil se voltaram novamente para ela. Mesmo local indeterminado Data indeterminada — Como assim, Phillips era na verdade aqueles dois monstrengos que tentaram me matar? — perguntou Alana confusa. — Esse caçador de recompensas é de uma raça simbionte e foi alterado geneticamente para ter a capacidade de mudar de aparência. Uma raça muito curiosa, sem dúvida. Uma das poucas conhecidas em que dois indivíduos podem agir como apenas um quando assim o desejam — respondeu Nikolai enquanto tirava da prateleira um dos cubos com a joia negra. — Meu Deus, tudo isso parece loucura — murmurou Alana, enquanto olhava pelo canto dos olhos para os seres de couro azul estendidos no chão. — Regeneradores celulares — disse Nikolai, mostrando para Alana o cubo. — Ultrapassados, mas ainda assim eficientes. Geralmente são usados para reanimar organismos em sono criogênico, mas podem curar ferimentos e enfermidades graves. O problema é que são pouco portáteis e de uso único — lamentou, antes de pousar com cuidado o artefato sobre o peito de Fritz. Um segundo depois a joia negra pareceu escorrer para dentro de sua carne e imediatamente seus ferimentos começaram a cicatrizar. — Fritz disse que você é de uma raça poderosa que domina a galáxia. — Não, sou tão humano quanto você e nasci mesmo na Rússia de pais humanos. Os Anunnaki têm coisas mais importantes para fazer que lidar com problemas pequenos como este. Acredite, o planeta Terra é apenas um grão de areia na imensa praia que dominam.

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— Você está falando dos Anunnaki da mitologia suméria? — Esses mesmos. Eles têm um carinho especial para com os humanos, consideram que somos engenhosos e capazes e que temos grande potencial, mas ainda despreparados para contato direto. Somos poucos os que conhecem a verdade que está fora do nosso lindo planeta azul. — O que acontecerá agora? — Seu pai será curado, não se preocupe. Em alguns dias receberá alta e estará novo em folha. O povo de Fritz estará seguro aqui e os mandantes do caçador de recompensas em breve pagarão pela ousadia. Fritz voltará para a Terra, mas terá de nos fazer alguns favores para pagar o aluguel desse lugar. — E quanto a mim? — perguntou Alana, cansada. — Que tal trabalhar com a gente, senhorita Black? — redarguiu uma voz séria de mulher às costas de Alana.

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Fiquem de olhos abertos e ouvidos atentos... O podcast da Revista Black Rocket vem aí!
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A Síndrome do Aprisionamento e a Fênix
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O surgimento de indivíduos com poderes telepáticos definiu um novo passo na história da humanidade. Mas e se essas habilidades forem usadas para atos criminosos?

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Ela abriu lentamente os olhos quando as ondas de dor que percorriam seu corpo finalmente atingiram a altura desse orgão. O clarão súbito de luz branca fez com que os fechasse novamente. Desta vez contou até dez, começou a abri-los devagar para se acostumar com a luz. A fonte era uma luminária de teto, com lâmpadas fluorescentes. O teto era branco, sem marcas. Seus olhos começaram a percorrer o recinto. Paredes brancas, sem qualquer janela. Uma divisória. Forçando os olhos para a direita (o pescoço estava muito duro, como se tivesse com torcicolo), viu o criado-mudo com um vidro de remédio e duas seringas. Um frasco de soro estava conectado ao seu braço direito. Olhando para o outro lado, um monitor de batimentos cardíacos. Por que não ouvi o barulho do monitor?, ela se perguntou ao perceber que até o momento em que viu o aparelho não tinha ouvido seu bipe. Tentou levantar a cabeça o máximo que podia, mas parecia que estava soldada à cama. Mesmo assim, viu que bem na frente de onde estava deitada tinha uma porta fechada, sem nenhuma marca distintiva, branca como tudo mais naquele quarto. Estou num quarto de hospital, concluiu. No reflexo da tela do monitor, viu uma mulher na casa dos trinta anos, olhos castanho-claros e cabelos também castanho-claros, ondulados, cortados na altura do queixo. Foi quando a sensação de terror que estava esperando apenas uma chance de aparecer surgiu como um relâmpago em sua mente. Ela não se reconhecia no reflexo. Ela não se lembrava de quem era. Quem sou eu?, pensou. O que aconteceu? Tentou abrir a boca para falar durante o que pareceu vários minutos... sem sucesso. Inspirou profundamente de olhos fechados, para recuperar o fôlego. Abriu-os de súbito, ao ouvir um par de vozes falando, como se viessem de muito longe. — Mas, delegado, você acha que ela vai acordar? — uma voz de mulher, claramente preocupada e estranhamente familiar. — Bom, os médicos dizem que sim, o golpe não foi tão forte — uma voz de homem, preocupada também, mas tentando parecer otimista. Quem são vocês? Onde estão? Procurava a fonte das vozes, lançando o olhar de um lado para o outro. Não havia ninguém no quarto. — E lembre-se, ela uma vez já acordou de um trauma muito maior. Ela é uma verdadeira Fênix — a voz masculina acrescentou. — Mas raio cai duas vezes no mesmo lugar? — a voz de mulher perguntou, claramente assustada com a possibilidade que a resposta fosse não. É de mim que vocês, seja quem forem, estão falando?, perguntou-se, desesperada. De que trauma vocês estão falando? Por um momento, pareceu que havia alguém no quarto, mas a sombra desapareceu quando a porta

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se abriu e uma mulher entrou, carregando um frasco de soro. Usava um uniforme branco de enfermeira, era alta e loira, com frios olhos verdes e um sorriso cruel no rosto. A moça no leito do hospital ficou intimidada com a recém-chegada, mas mesmo assim tentou chamar a atenção dela piscando várias vezes. A enfermeira trocou o soro e parou ao lado da cama. Olhou pensativamente para a paciente enquanto arrumava o travesseiro do leito. — Então você recuperou a consciência, Senhorita Misteriosa — disse numa voz rouca, com um suave sotaque europeu que fez a moça no leito pensar se já a conhecia. Senhorita Misteriosa? — Vou avisar o doutor, mas não creio que vai fazer diferença para você. Por quê? — O acidente te deixou completamente paralisada — a enfermeira informou insensivelmente, sem olhar para a paciente. — Exceto pelos olhos, é claro — acrescentou, como se fosse um detalhe sem importância. O QUÊ? — Você está completamente incomunicável, sofre do que os médicos chamam de “Síndrome do Aprisionamento” — a enfermeira recitou. — Pena que você não tivesse identificação no momento do acidente, porque não podemos contatar sua família. — Ela deu de ombros. — Mas talvez isso seja melhor, não é? Assim eles não precisam se preocupar em cuidar de um vegetal — a enfermeira concluiu e se virou para sair do quarto. Que raio de enfermeira é você, sua miserável?, a paciente silenciosa gritou em sua mente. Uma sensação de poder estranhamente familiar surgiu em seu cérebro, como se um gerador de repente fosse ligado na potência máxima e sua energia fosse transmitida num único relâmpago. A enfermeira caiu no chão, como se tivesse sido derrubada com um golpe na cabeça. Alguns minutos depois, a sádica de branco se levantou e olhou para a mulher amnésica, um brilho mortal nos olhos. — Ponto para você, querida — ela disse, com um gesto de atenção. — Mas lembre-se, quem controla a agulha controla sua dor. — E então saiu, fechando a porta com um estrondo. O cérebro da paciente estava a mil. Ela tinha feito aquilo? Tinha derrubado a enfermeira? Mas como? Teria alguma coisa a ver com aquela sensação estranhamente familiar, segundos antes? Mentalmente sacudiu a cabeça, já que fisicamente seu corpo não respondia. Antes de tudo, tinha que sair daquele quarto e descobrir quem era de verdade. Por horas, tentou mover nem que fosse seu dedo mindinho, mas não conseguiu nenhum resultado, exceto o suor percorrendo seu corpo cansado. Voltou então para o problema de sua identidade: quem era ela? Fechou os olhos e começou a inspirar e expirar de forma ritmada, para ver se conseguia se concentrar e recuperar a memória. Horas se passaram sem qualquer resultado. Era como se algo estivesse mantendo suas memórias longe do alcance dela! A frustração cresceu a cada tentativa malsucedida. De repente a sensação voltou ao cérebro dela e o vidro de remédio caiu ao chão.

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Forçando-se a se acalmar, voltou-se ao acontecido. Seria muita coincidência que os dois eventos, a sensação familiar e o movimento repentino de algo, não estivessem relacionados. A não ser que sua mente tivesse movimentado os objetos. Mas isso seria... telecinese. Telecinese? Sou... telecinética? Por alguma razão que não podia explicar, a ideia não lhe pareceu absurda. Assustadora sim, mas não absurda. — Sim, você é telecinética, além possuir outros poderes — uma voz subitamente disse. Forçando os olhos na direção da voz, viu algo que só podia descrever como um fantasma dela mesma. A mulher tinha o mesmo rosto e olhos e usava uma longa capa preta, de couro, com um desenho no colarinho que ela não conseguiu identificar. Parecia que ela tremulava, como se fosse a imagem de uma TV mal regulada. Você é... eu? A mulher concordou com a cabeça. Então quem sou eu? O que aconteceu? Sua versão fantasma a olhou tristemente. — Desculpe-me... mas minhas respostas são limitadas. Você precisa se lembrar por si mesma. DIGA-ME QUEM SOU! — Sinto muito, mas não posso. Mas você precisa sair deste quarto, ou não sobreviverá. Mas como? — Você já tem a chave para escapar do Homem da Areia — sua fantasma afirmou, antes de desaparecer. Homem da Areia? De repente, como se a expressão fosse um gatilho, uma lembrança surgiu.

Ela se viu terminando um relatório no micro, rezando para que ele não travasse, quando uma mão tocou seu ombro. Virando-se, viu uma moça de cabelos pretos curtos e olhos azuis inteligentes... num uniforme de policial? — Você já terminou o relatório sobre a batida naquele cassino clandestino? — era uma das vozes da conversa que tinha ouvido antes. Batida? Sou uma policial? Quem é você? — Só falta uma ultima revisão — respondeu para a recém-chegada, fosse quem fosse. Era como se não estivesse se lembrando mas enxergando através dos olhos de alguém. — Dentro de uma hora, estará pronto. — Pode parar com esse trabalho por um momento? O Samuel chamou você para uma reunião com o Rogério. Samuel? Rogério?

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Ela sentiu levantar as sobrancelhas, com surpresa. — A reunião com a Polícia Federal não era daqui a duas horas? — perguntou ao se levantar. — Parece que é uma reunião especial. — A moça de cabelos pretos baixou o tom de voz. — Algo sobre os Controladores... — Entendo... — viu-se murmurar, embora não entendesse. Caminhou ao lado da desconhecida pelo o que deveriam ser os corredores de uma delegacia até uma sala de reunião pequena. Na porta estava escrito: “Unidade de Crimes Especiais”. Viu alguns homens e mulheres ao redor de uma mesa. Um homem de cabelos e bigodes grisalhos, e olhos inteligentes que transmitiam integridade, voltou-se para elas. — Ah, Lídia, Renata. Por favor, sentem-se. O Rogério vai explicar porque convocou esta reunião. Renata... O nome parecia muito natural para ela... Seria esse seu nome? — Obrigado, Delegado Carvalho. — agradeceu o homem chamado Rogério, que usava uma jaqueta da Polícia Federal. — Como sabem, a Unidade de Crimes Especiais da Polícia de São Paulo e a Polícia Federal tem trabalhado junto com a Interpol e a polícia de outros países para desmantelar o Organização dos Controladores, que comandam várias organizações criminosas e... Sou uma policial! De repente, sua mente finalmente aceitou a conclusão óbvia. E logo teve a chance de confirmar a segunda conclusão... — Temos razões para concluir que os Controladores contrataram o Homem da Areia para eliminar vários membros do alto escalão da policia de São Paulo. Ela levantou a mão. — “Homem da Areia”, Rogério? — Sim, Renata. — Bom, sou uma policial e meu nome é Renata. Ficou animada, algumas peças do quebra-cabeça estavam entrando no lugar. Rogério continuou. — Ele é um assassino profissional, procurado pelas organizações policiais e de inteligência do mundo inteiro, conhecido por não deixar pistas e fazer com que as mortes pareçam suicídio, pelo menos no primeiro momento. É quase como se ele pudesse induzir as pessoas a se matarem...

Subitamente a imagem se estilhaçou quando a dor dilacerante percorreu seu corpo. Ao abrir os olhos, viu a enfermeira sobre ela, com um sorriso pequeno e gélido. — Olá, Senhorita Misteriosa... Meu nome é RENATA! — Apliquei um tranquilizante para conter suas alucinações. Não podemos deixar sua cabeça confusa, não é? Pensar que você é policial... — A loira fez um gesto para mostrar o quanto a ideia era absurda. Espere aí. Se não posso mover quase nenhum músculo e não posso falar, como ela sabe que penso ser uma policial? — Só a acordei para avisar que sua operação será em uma hora.

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Operação? Que operação? — A gangrena em suas pernas está aumentando, e os médicos decidiram amputá-las. — A enfermeira explicou, como se tivesse ouvido a pergunta. O quê?!? De jeito nenhum! — Creio que você não gostou da ideia, mas o que pode fazer para impedir? A enfermeira riu e saiu. É isso, tenho que sair daqui! Imediatamente, começou a planejar uma rota de escape. Mas primeiro tinha de saber se realmente podia mover objetos com a mente. Forçou os olhos para o lado até enxergar a seringa que aquela sádica tinha deixado. Começou a se concentrar, instintivamente se lembrando dos pensamentos necessários. A sensação surgiu, mas modulada... sob controle. A seringa começou a levitar no ar. Se pudesse falar, Renata teria dado um grito de alegria. Com a presença do poder e sua capacidade de controla-lo confirmadas, embora a última apenas aparentemente, definiu sua linha de ação. É agora ou nunca. Cuidadosamente, começou a levantar a cabeça e o tronco, até que estivesse sentada. Sentia uma pressão nos ombros, como mãos invisíveis. O lençol foi lançado no chão sem que ninguém o tocasse. Suas pernas foram puxadas para o lado direito e a força do puxão fez que ela caísse, a cabeça para fora do leito. Isso vai dar dor no pescoço, pensou cinicamente. Novamente se colocou sentada. Respirou fundo e se concentrou. Levantou e começou a andar, ou melhor, a fazer uma paródia desse movimento, similar a de um fantoche. Agora sei como Pinóquio se sentiu. “Caminhando” lentamente até a porta, usou sua telecinese para abri-la... e olhar para o nada. Não para um corredor de hospital, não para um beco, não para um terreno baldio... mas para o nada. Apenas uma silenciosa escuridão infinita. O choque causado por aquela escuridão impossível fez com que perdesse a coordenação e caísse sem cerimônias no chão do quarto. Onde... eu... estou...? Sentiu algo grudento no chão, onde sua mão direita tinha caído.... Algo vermelho-escuro... Sangue. Mas não seu sangue. Ele brotava do chão, ou melhor, o chão se transformava numa película de sangue em coagulação. Em pânico, Renata usou sua telecinese para se jogar do outro lado da sala, batendo o corpo de mau jeito numa das paredes. Isso não pode ser real, implorava em silêncio. De repente, uma mão saiu da parede, estrangulando-a por trás.

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— Por que você não desiste, vadia? — uma voz fria murmurou ao seu ouvido. Era a voz de...

Abriu os olhos e estava novamente na cama. — Tendo outra alucinação, querida? — perguntou a enfermeira, colocando a máscara de oxigênio sobre seu rosto. Renata tentou usar a telecinese, mas sua cabeça estava imóvel. Tudo teria sido realmente apenas uma alucinação? As vozes, a telecinese, a lembrança, o nada, o sangue... — Agora você será operada — a enfermeira disse com um sorriso e um brilho frio nos olhos. — Sonhe com os anjos. Não... Tudo aquilo não podia ter sido alucinação... NÃO PODIA! A sensação que acompanhava a telecinese surgiu novamente em seu cérebro, só que um pouco diferente, mais regulada talvez. “Apenas fique em coma, para que eu possa terminar o serviço.” Ela ouviu a voz da enfermeira, só que sua torturadora não tinha mexido os lábios. Terminar o serviço?, pensou Renata. O sorriso desapareceu do rosto da enfermeira e foi substituído por uma máscara de raiva. Suas mãos enluvadas agarraram o pescoço da telecinética. — Por que não desiste? Você não pode me vencer! — a assassina gritou. Flashes de imagens desconexas passaram pela mente de Renata como um filme fora de controle. O instinto de sobrevivência assumiu e um poderoso golpe mental lançou a sádica para o outro lado do quarto. A assassina ficou desacordada com o golpe e então ela e o quarto simplesmente sumiram. Não era real... Era apenas uma ilusão. Renata ficou flutuando na escuridão, uma escuridão diferente da anterior. Terminar o serviço... Você não pode me vencer... Os olhos de Renata se arregalaram. A barreira em sua mente tinha se quebrado. Finalmente se lembrou.

Renata e sua melhor amiga, a Tenente Lídia Valle, a mulher de cabelos pretos curtos, estavam no térreo do edifício onde morava um dos diretores da Polícia Federal em São Paulo, atentas a qualquer coisa suspeita. Segundo a Interpol, o diretor estava na lista do Homem de Areia, que já tinha matado outros três membros em altos cargos da polícia. Pelo que Renata soube, aparentemente eles tinham cometido suicídio, depois de um súbito ataque psicótico ou de pânico.

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Subitamente, uma forte dor de cabeça assolou a investigadora, como se tivesse sido atingida na cabeça de raspão. Uma dor de cabeça bem característica: um ataque psíquico. — Renata, o que foi? — Lídia perguntou, preocupada. Antes que ela pudesse identificar o ataque, um grito terrível, que poderia ser ouvido no quarteirão inteiro, seguido por tiros, fez com que o sangue de ambas gelasse. No momento seguinte, o corpo do diretor da Polícia Federal se chocou contra o teto de uma viatura que estava estacionada, após uma queda de doze andares. Cinco minutos depois, um dos policiais que estava no apartamento para proteger o diretor dava um depoimento confuso e inacreditável, enquanto seu colega era posto numa maca: — ... O Diretor Tavares pediu que eu fosse pegar um copo de água e uma aspirina porque de repente ficou com uma enxaqueca, então fui para a cozinha, enquanto o Dario ficou com ele. Foi quando ouvi ele gritar, “O que você está fazendo aqui?! Você morreu!”. Corri para a sala, mas então o diretor já tinha atirado em Dario e estava no terraço, murmurando alguma coisa para o ar. Corri para pegá-lo e afastá-lo do parapeito, mas então ele deu um grito e saltou... Definitivamente um ataque psíquico!, pensou Renata. Um ataque que gerou uma alucinação baseada em algum evento traumático forte o suficiente para que o diretor perdesse a razão. O Homem de Areia é um telepata. Ela suspirou. O quanto desse mundo se escondia debaixo do nariz de todos? A investigadora discretamente começou a sondar com a mente os arredores do prédio. Fora o líder da Organização dos Controladores, que volta e meia a importunava por telepatia para que ela se juntasse a ele, nenhum outro psíquico que tinha enfrentado podia agir a grandes distâncias. O assassino tinha que estar perto! Foi quando captou uma frase, fria e cheia de arrogância, numa voz mental feminina com um suave sotaque europeu: Quatro já foram, faltam três. Imediatamente Renata desceu até o térreo e vasculhou com o olhar os transeuntes que se aglomeravam para ver o que tinha acontecido. Novamente, encontrou a voz que procurava: Agora é a vez do Delegado Carvalho. Vinha de uma pessoa na esquina da avenida, vestindo uma jaqueta preta de capuz que escondia a parte de cima do rosto. A estatura mediana escondia uma gigante mental. — Parada, é a polícia! — Renata deu voz de prisão, apontando a arma para a criminosa. A mulher com a jaqueta de capuz saiu correndo pela avenida, virando numa rua paralela. A telecinética a perseguiu, ao mesmo tempo que falava no walkie-talkie: — Suspeita entrou na Rua Toledo Costa. Solicito apoio! — Entendido, Renata! — A voz do policial parecia surpresa. — Mas o que está acontecendo? — Persigo uma suspeita na morte do Diretor Tavares. — Se ela pudesse parar o suficiente para se concentrar... — E envie uma equipe para proteger o Delegado Carvalho, da UCE. — Foi quando o aparelho fez um som estranho e parou de funcionar. — Ótimo — murmurou irônica. A suspeita entrou num beco sem saída. A perseguidora se encostou a um muro na entrada do beco.

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— Atenção, aqui é a polícia. Renda-se e saia com as mãos na cabeça. O silêncio foi a única resposta que recebeu. Renata tentou sondar o beco com sua telepatia, mas parecia que tinha algo interferindo, algo que ela já esperava, como um alto-falante perto de microfone. Cuidadosamente, com a arma empunhada, a policial entrou na rua sem saída. Um poste mostrava a moça de jaqueta no fundo no beco, aparentando despreocupação. — É o fim da linha, Homem de Areia... Ou melhor, Mulher de Areia, certo? A mulher sorriu. — É, parece que o Controlador estava certo sobre você, Detetive Reinaldi. Você é muito boa. — O sorriso se tornou predatório. — Mas não o suficiente. A assassina psíquica simplesmente sumiu de onde estava. Renata teve apenas o tempo de se virar ao ouvir um som atrás de si antes que a criminosa a atingisse e a desacordasse...

O choque a acordou. Estava novamente em um quarto de hospital, mas bem menos intimidante que o anterior. Em uma cadeira, a moça de cabelos curtos de suas lembranças estava sentada de olhos fechados, com uma revista de sudoku no colo. — Lidia — chamou Renata, a voz fraca.. A colega abriu os olhos de pronto e os arregalou. — Renata! Finalmente você acordou. — Lidia pulou da cadeira e abraçou a amiga. Apertou um botão ao lado da cama, chamando uma enfermeira. — Lidia... O delegado Carvalho está bem? — perguntou entre respirações. — Renata, não se preocupe. Descanse. — Lidia... Por favor... — insistiu, agarrando o pulso da colega com uma força surpreendente para sua condição Espantada com a força e a intensidade nos olhos da amiga internada, Lídia respondeu: — O delegado está no apartamento dele. Assim que a enfermeira chegar, vou telefonar para ele. Renata relaxou a expressão. — Ainda tenho tempo... — Fechou os olhos, ignorando a amiga que a chamava.

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Ela voltou ao mundo da escuridão onde flutuava. Sabia quem era. Renata Adriana Reinaldi, investigadora da Unidade de Crimes Especiais da Polícia do Estado de São Paulo havia cinco anos. Um ano e meio antes, acordara depois de seis meses em coma com poderosos poderes psíquicos, principalmente telecinese e telepatia. Passou a ser chamada de Detetive Fênix pelos colegas, por ter renascido nas cinzas e voltado para a vida (e de “mercadoria devolvida” por alguns que não gostavam dela). Agora tinha que salvar seu amigo da Mulher de Areia. A assassina profissional não iria atacá-lo diretamente, e sim iludi-lo de alguma forma para provocar sua morte. Não havia tempo para avisá-lo nem fazer como ele acreditasse nela sem contar seu segredo. Renata “projetou” sua consciência pelo link mental gerado pela teia de todas as relações humanas até que subitamente estava no apartamento do Delegado Carvalho, quer dizer, no modelo do apartamento que o delegado tinha em mente e espelhava o que estava acontecendo na realidade. Ele estava sentado no sofá com uma arma na mão direita. Ao lado dele, Renata reconheceu a figura pelo retrato que ficava em cima da mesa do escritório e do flash de imagens ao quebrar a ilusão da criminosa. Era a falecida esposa do delegado, Cristiana. Não tinham percebido a presença de Renata. A fantasma dizia com uma voz gentil, musical. — Por que você está com medo, Samuel? Você não quer ficar comigo? — Claro que quero, Cristiana! Claro que quero! Mas... A esposa do delegado levantou a mão dele com a arma até a altura do peito. — Se você puxar o gatilho, ficaremos juntos. — Delegado, não! — gritou a investigadora. Ambos se viraram. O delegado a olhou com assombro. — Renata? Mas você está no... — Não a ouça! — exclamou Cristiana. Já que isto é uma ilusão, posso atacar como quiser, Renata pensou. Na sua mão direita um globo de luz azulada surgiu. Apontou o globo na direção da falsa Cristiana e disparou com toda sua força. O raio atingiu e desfez a ilusão, revelando uma mulher pequena de rosto mediano, de cabelos pretos estilo chanel e frios olhos verdes. — Mas o quê...? — Samuel Carvalho perguntava sem entender. — Sua vadia! — a Mulher de Areia gritou com ódio para sua opositora, o sotaque aparecendo novamente. — Como você fez isso? — Da mesma maneira com que farei isto! — Renata se jogou sobre a mulher antes que a outra pudesse se recobrar. Samuel Carvalho se protegeu do flash de luz com o braço. E quando o baixou, ambas as mulheres tinham desaparecido. Sua cabeça doía, seus ouvidos zuniam. Ficou parado de pé no meio da sala como se nunca estivesse estado lá. Foi tudo uma alucinação? A arma no chão dizia o contrário.

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A Mulher de Areia abriu os olhos. Estava deitada no chão de um corredor de escola. Deu um sorriso de escárnio. — Não podia escolher um espaço mental melhor? – perguntou para Renata, que estava de pé, usando um longo casaco preto, o desenho de uma fênix no colarinho, olhando diretamente para ela. – E, realmente, o globo de luz, o fogo... muito super-heroína e de mau gosto. Renata continuava silenciosa. A criminosa projetou uma ilusão de que estava atrás de Renata e pulou para atacá-la. O cotovelo da investigadora atingiu seu rosto com toda a força. Chocada, não se defendeu nem da joelhada no estomago ou do soco esmagador de que se seguiu. Caída no chão, a dor impedia a Mulher de Areia de se concentrar em suas ilusões. A dor deu lugar ao medo ao perceber que não conseguia sair do espaço mental de Renata, um espaço que a policial controlava totalmente. Renata fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, eram puro fogo, cheios de revolta e determinação. Seu próprio corpo parecia agora feito de chamas. Um par de asas de fogo surgiu nas costas dela. A Mulher de Areia tentou se arrastar para longe daquela fênix. Renata olhou para ela e, com surpreendente autocontrole na voz, disse: — Minha vez. A Mulher de Areia gritou.

Alguns minutos mais tarde, Renata acordou novamente no quarto de hospital. — Agora, seja bem-vinda ao mundo dos vivos, Detetive Fênix, mas me prometa que não vai mais me dar um susto destes! — Farei o possível — a telecinetica respondeu, rindo. — Obrigada, Lídia. — O delegado virá amanhã para te visitar — disse a amiga. — E assim que você tiver alta vamos comemorar. Tem um rapaz de quem acho que você vai gostar... Será que conseguirei sobreviver a outro encontro às cegas da Lidia Valle Cupido Ltda.?, pensou, com um sorriso embaraçado. Bom, ela certamente poderia tentar.

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Num quarto de um pequeno hotel, uma mulher hospedada sob o nome Mirelle Dupont teve uma crise epilética logo após dar o grito mais aterrorizador de sua vida. Cinco horas mais tarde, o neurologista do hospital para o qual ela foi levada deu o diagnóstico. De alguma forma, ela tinha entrado num estado profundo de Síndrome do Aprisionamento. O cérebro estava ativo, mas totalmente incapaz de se comunicar. O que os médicos não podiam saber era que apenas uma imagem estava fixa na mente da paciente: a imagem de uma Fênix.

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El deserto e Miralejos
LEONARDO CARRION
As areias daquele mundo inóspito guardam muitos mistérios. E numa luta mortal contra alienígenas hostis, uma mulher tentará usar esses segredos para salvar a própria vida... e talvez a de mais alguém.

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Para Lina Ben Thurayya, que era jovem, bonita e estava apaixonada, tudo começou com um sonho. Nesse sonho, seu amado Sanchez falava suavemente sobre Miralejos, sobre o Deserto do Atacama onde passara a infância e especialmente sobre a clara e rude natureza das planícies áridas, como aquela onde estavam. O hovercraft planava, fazendo um suave ruído sobre a impressionante vastidão seca do planeta recém-descoberto. Estrelas cadentes sulcavam o céu limpo enquanto os amantes permaneciam sob a grossa camada de cobertores. O homem tinha pele morena e grandes olhos verdes, como os de um felino. Era de estatura pequena, como todos os astronautas, mas bastante musculoso por causa dos constantes exercícios a bordo da nave exploradora Tetris 2. Ele era o exobiólogo responsável pela missão. Lina era morena, de seios pequenos e quadril estreito. Tinha um físico muito atlético apesar de ter apenas um metro e sessenta de altura. Como a oficial de segurança da nave exploradora, Lina era respeitada pela habilidade nas artes marciais, força de seu caráter e pela mira certeira de sua arma. Também era estimada por todos os astronautas, especialmente quando souberam que seu nome, em árabe, significava “Ternura Filha das Estrelas”, o que consideravam de bom agouro. A noite seguiu-se ao pôr do sol cheio de tons dourados. O ouro velho, as opalas e os rubis se misturavam ao azul-cobalto intenso do céu. O sol da constelação de Clari, conhecida na Terra por Carina-1469, se pusera por trás das altas montanhas de uma cordilheira longínqua que marcava o final do deserto. Sanchez havia batizado extraoficialmente o deserto de Miralejos porque significava “ver longe” em seu portunhol nativo. — O deserto é lugar em que uno hay que perderse para encontrarse. Não hay nele atenuações ou ambiguidades, onde usted pueda esconderse. En mi hogar uno tenia que irse para enfrentar sozinho el deserto quando cumpria la idade de quince anos. Eu sobrevivi, otros se quedaran en el Atacama. Não sei se eu, ou eles, acabaram encontrando a si mismos. La diferencia en volver ou não, talvez, esteja en el deseo de vivir. Há que ser maior do que o del deserto em matarte. Uno há que vencer el deserto por la fuerça ou por fazer el deserto, el Del, amarvos. — Mas como o deserto pode nos amar, Sanchez? Acaso o sol colocaria uma sombra sobre nossa cabeça quando estivéssemos com calor, ou a areia se tornaria água em nossas mãos? As tâmaras brotariam do pó para nos alimentar? — perguntou Lina, divertindo-se, enquanto mantinha os olhos fechados e tentava memorizar e contar as estrelas do firmamento alienígena. — Não, Lina, não el deserto. El deserto não ama nem odeia, ele é claro e transparente como este céu que nos serve de abrigo em esta velada, esta noite. Areia é areia e água é água, nada mais. É Del, el alma del deserto, que deve amarte. Usted acaso não piensa que el deserto puede vivir sin una alma, não é? Sanchez então sorria, sem deixar que ela soubesse se falava sério ou não. Como exobiólogo da

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nave, pelo manual da corporação, Sanchez assumia o mando da nave em caso de descoberta de um novo mundo. Mesmo o cioso capitão Bernardes não fazia qualquer objeção a ceder o comando, diante da magnitude da descoberta que enriqueceria a todos. — Lina, agora quero que usted escuche bien, pequeña mia. En el deserto usted tiene siempre que ouvir la voz de Miralejos, entiende? La voz de Miralejos siempre vá a ajudarte quando usted precisar e eu não estiver lá. Lina abriu os olhos, surpreendida pelo tom premente de Sanchez, como se não estivessem calmamente descansando no hover em total segurança depois de um dia de trabalho mapeando o deserto do planeta, enquanto as equipes técnicas instalavam a base automatizada próxima. — Miralejos, o nosso deserto? Do que “habla” Sanchez? — tentou perguntar Lina, mas não podia mover os lábios. Sentia uma terrível pressão no rosto, dores no pescoço e secura crescente na boca. Ouvia a voz de Sanchez cada vez mais fraca enquanto aumentava em seus ouvidos um zunido surgido de lugar nenhum. O sonho desvaneceu-se.

O pesadelo. O dia clareava quando Lina começou a ganhar consciência. A cápsula de emergência parecialhe parcialmente enterrada no topo de uma duna, coisa que não deveria ter acontecido em condições normais. O sonho com Sanchez doía-lhe mais do que as poucas contusões sofridas ou da boca cheia de areia. Enquanto fazia a checagem de danos (a cápsula parecia definitivamente inoperante), verificava sua própria condição física. Chorava baixinho, mesmo sem ter encontrado qualquer lesão, no silêncio opressivo do Deserto Miralejos. Afinal conseguiu se soltar do cinto de segurança e caiu sobre a areia que invadira a cápsula avariada. Lina tinha visto a nave exploradora da corporação ser destruída e, exceto pelas poucas pessoas que escaparam com ela nas outras cápsulas de emergência individuais, ninguém mais poderia ter sobrevivido. Os atacantes sequer tentaram fazer prisioneiros. Arrastando-se para fora, Lina viu uma rocha negra de dezenas de toneladas algumas centenas de metros adiante. Se a cápsula tivesse seguido um pouco mais... Sentiu a proximidade da morte, o que estranhamente a fez sentir-se mais viva do que em muito tempo. Estava viva e recordava. No momento do ataque ela estava em sua cabine depois de semanas em trabalho de campo na superfície. Sentiu os geradores carregarem-se ao ponto máximo, o que, provavelmente, impedira a detecção da nave atacante. A nave exploradora recebeu os disparos no instante em que se preparava para o salto de retorno para Terra, após a instalação da base automática na superfície do planeta recém-descoberto que orbitava a estrela Carina-1469. Foi presa fácil para a artilharia inimiga. Somente após a primeira descarga de tiros o alarme de ataque foi acionado, ligando os circuitos defensivos. Então já era tarde para a maior parte da tripulação. Aqueles que não foram mortos pelos primeiros tiros, dirigidos para as armas e o motor, foram condenados pela destruição da maioria das cápsulas de fuga. Os escudos ligados tardiamente ao

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menos evitaram que a nave se desfizesse com a pressão interna que escapava pelos enormes buracos abertos no casco, deixando que os fugitivos conseguissem escapar. Seguindo o procedimento padrão, depois de acionado o alarme, Lina seguiu imediatamente para os casulos de emergência individuais. Todos os que não fossem responsáveis por AT&M, ou seja, armas, tática e motores, deveriam fazer o mesmo. Os pods só seriam liberados caso o capitão acionasse o comando de abandonar espaçonave. — Não! Não! Sanchez! Capitão! — gritou Lina quando sentiu seu pod ser ejetado da nave com a explosão dos detonadores que o lançavam em altíssima velocidade para longe. Isto significava que o capitão considerava a nave perdida. Os alienígenas provavelmente tiveram que aguardar o retorno da força em sua nave, antes da seguinte saraivada de tiros. A tecnologia da belonave alienígena deveria ser semelhante à terrestre nesse particular. Permitia que toda a força, exceto o suporte mínimo de vida, fosse desviada para os canhões. Isto tornava o ataque extremamente mortífero, porém o esgotamento da carga do reator era tamanho que a nave atacante apagava por algum tempo, enquanto os motores rugiam para recarregar a força. Nos instantes que se seguiram à ejeção Lina assistiu à destruição da nave da corporação pela segunda bateria de disparos. Com a cápsula afastada centenas de metros, o sentimento de perda foi amortecido na consciência de Lina pela urgência em sobreviver. Observando pela pequena escotilha de seu casulo, Lina foi provavelmente a primeira humana a ver um artefato alienígena. Até então imaginava que o ataque tivesse sido de alguma corporação inimiga, mas a nave que via era definitivamente alienígena. Inteiramente prateada, refletia a luz de Carina-1469 e das demais estrelas e os focos de incêndio na nave da corporação. Tinha pelo menos o dobro do tamanho da nave humana e era composta por cinco esferas dispostas em forma de pirâmide, mais uma esfera colocada no meio, ligadas entre si por corredores. Em diversos locais havia desenhos de algo que se assemelhava a caracteres de escrita cirílica coloridos e brilhosos. Ela percebeu que dois caracteres se repetiam em profusão: IT. — IT, IT, IT... – repetia Lina, enquanto abria o painel da cápsula para anular o sinalizador de emergência. Se os alienígenas pudessem captar sua posição, estaria perdida Antes que pudesse fazer qualquer coisa viu se destacar, entre os destroços, um pequeno caça prateado em forma de asa-delta, com uma profusão de caracteres estranhos e coloridos no casco. Sem dúvida estava destinado a destruir as eventuais cápsulas como a dela. Viu que o caça já apontava para a direção em que seguia a cápsula de emergência, diretamente para a exosfera do planeta. Agora não teria muito sentido se preocupar com o sinalizador. Mas ela tinha outra coisa em mente. Lina pegou a faca de combate que sempre portava na cintura e a enfiou com as duas mão no painel, atingindo os comandos de direção da nave. A cápsula era programada para buscar automaticamente o local que emitisse as frequências amigáveis da corporação e, neste caso, seria a base automática do planeta.

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— Vai, vai, vai! – exclamou, fazendo pressão contra o campo de proteção do sistema. — Se os desgraçados descobrirem o rumo da cápsula para a base no planeta, de nada adiantará eu chegar lá, e ainda colocarei em risco a vida de qualquer um que tenha conseguido fugir antes! Um ataque do espaço seria tão devastador que nenhum sistema automático de defesa poderia evitar. Preferiria destruir a cápsula a delatar aos alienígenas “itianos” a posição da base camuflada no planeta. Com um esforço final, conseguiu destruir o cristal que mantinha o rumo automático e, para sua surpresa, percebeu que os comandos manuais da nave passaram a funcionar. Não tinham sido avariados, mas sim liberado pela sua “operação” no painel. — Que o sumo de mil limões queimem sua pele sob o Sol do deserto, desgraçados! Consegui! Já que tinha a atenção do caça itiano em sua cápsula, teria que obrigatoriamente dirigir-se para o planeta em outro local que não a base automática. — Tentem me alcançar na atmosfera do planeta! Não vão tentar me atingir na presença de oxigênio e vão enfrentar a melhor piloto da corporação! A nave itiana perseguia a cápsula de Lina ainda quando dois tiros disparados no limite da termosfera do planeta detonaram o oxigênio superaquecido pelo sol Carina-1469. A nave perseguidora foi imediatamente destruída e a força da explosão atingiu violentamente a cápsula de fuga. Lina então pensou que nunca deveria julgar alienígenas por parâmetros humanos, pensou em Sanchez e finalmente desmaiou, sonhando que o amante lhe falava suavemente sobre Miralejos.

Carina-1469 já aparecia em todo seu esplendor e dava mostras de que seria um dia muito quente em Miralejos quando o caça itiano riscou o céu acima de Lina. Ela tinha acabado de sacudir a sujeira da roupa após se arrastar para fora da cápsula destruída. — Nem consegui ainda cuspir a areia da boca e esses vermes já estão nos meus calcanhares! Por sorte o lugar onde caíra era nada propício ao pouso em segurança, cheio de afloramentos rochosos. Por isso, os itianos seriam obrigados a descer a alguns quilômetros dali, onde era mais plano, pelo que recordava do levantamento topográfico que fizeram com Sanchez. — Neste lugar aqui só se aterrissa definitivamente — refletiu ela. Ela acabava de inventariar o que restara de útil e de retirar o que pode dos destroços da cápsula de fuga. Olhou para o norte, onde pousaram os itianos. Sabia que havia uma grande área com areia e suaves colinas a uns cem quilômetros. Para leste e oeste via-se apenas a continuação do mesmo terreno onde se encontrava, com rochas e areia. Já a base automática tinha sido camuflada aos pés da gigantesca cadeia de montanhas, ao sul daquele ponto. O engraçado é que fora camuflada para protegê-la de outras corporações que pudessem reclamar o planeta, não contra alienígenas. Que inofensiva parecia agora a ideia de outra corporação destruindo os dados da base para alegar que sua descoberta era mais antiga!

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Do lugar onde se encontrava, entre rochas que pareciam emergir da areia como espinhas de um peixe, até a cadeia de montanhas havia um grande pedaço a ser percorrido. As formações rochosas seguiam em um crescendo desde aquele ponto até um grande planalto e, finalmente, uniam-se às outras, formando uma espécie de cordilheira monumental. Era sua única salvação. O problema é que estava a muitos quilômetros conforme informava o localizador automático que estava no equipamento de emergência. Apanhou sua mochila e tirou as três embalagens com meio litro de água cada, que faziam parte do kit de emergência. Sua cápsula estava destruída e não oferecia possibilidade de abrigo. Além disso estava se denunciando com um bipe de emergência para os inimigos. A situação se apresentava como uma charada. Se fosse obrigada a caminhar durante o dia com a temperatura do deserto, mesmo com roupas especiais, seu corpo necessitaria de aproximadamente quatro litros de água por dia, muito além das reservas que possuía. Se ficasse na cápsula estaria fadada a ser morta ou capturada pelos itianos muito em breve. O que fazer? Separou a arma laser e a faca, ensacou novamente o restante do material na mochila e seguiu para um afloramento rochoso que ficava uns quilômetros para o oeste. Tentaria manter uma posição defensiva lá e, na pior das hipóteses, encontraria abrigo momentâneo contra o sol forte. Com esta decisão, abriu mão de tentar alcançar a base imediatamente, rumando para o oeste em vez de tentar o sul. As distâncias no deserto são muito mais difíceis de estimar por causa da atmosfera clara e da magnitude das vastidões. Um afloramento rochoso que parece pequeno e próximo pode ser, na verdade, algo gigantesco e muito distante. Faltam referenciais para que o olho humano possa comparar. — Espero que o olho itiano também sofra do mesmo problema de falta de referenciais – desejou Lina, ao se dar conta de que já tinha caminhado muito mais do que esperava. Levou mais de uma hora até que atingisse o sopé do afloramento rochoso, aquele que observara do ponto de impacto de sua cápsula. O caminho tinha também sido duro, com muitas pedras soltas sobre a areia. Ao se aproximar parou e estudou o afloramento. Percebeu duas possibilidades para montar seu ponto defensivo. Uma caverna na metade do caminho até o topo, que se poderia atingir por um lençol de areia fofa e, quase no alto, uma pedra projetada como se fosse uma marquise mais exposta, onde se poderia chegar escalando uma face difícil das rochas. Lina começou a subir pela areia fofa até a caverna. No caminho foi deixando seus passos marcados na areia fofa o mais levemente possível e, quando finalmente chegou à caverna, aproveitou para beber água e descansar. Já tinha aproximadamente tomado dois terços do disponível. Sabia que não tinha muitas chances de sobreviver, mas tentaria vingar seus companheiros e especular com as possibilidades do futuro. Decidiu descansar um quarto de hora na sombra. O sucesso do plano que tinha em mente dependeria da atitude dos itianos. Se teriam mais ou menos cautela na sua perseguição, se viessem em veículos ou caminhando. — Meio litro de água — constatou, olhando para a garrafa que sobrava. Levantou-se e desceu pela rampa de areia fofa, pisando exatamente nos mesmos locais onde já estavam marcadas suas pegadas.

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Na metade da descida deixou uma das garrafas vazias de água, para deixar mais óbvia sua presença na caverna. Então tirou a corda da mochila e a lançou em direção à face escarpada dos rochedos. Na terceira tentativa conseguiu laçar a ponta de uma rocha e, balançando-se sobre pedras que poderiam reduzi-la a guisado, atingiu a parede que levaria ao outro ponto de defesa. Se tudo desse certo, os itianos pensariam que ela não os tinha avistado e que optara pela caverna. Ela não os conhecia, mas sabia que eram avançados tecnologicamente, agressivos e inteligentes. Já eles apenas sabiam que os humanos até agora eram presas fáceis e, por isso, poderiam cometer o erro de a subestimar. Contava com isso. Se a subestimassem teria a vantagem da surpresa para pegá-los na areia fofa com a pistola. Carina-1469 marcava no céu a metade da sua primeira tarde como presa dos alienígenas. Lina começou a escalar as rochas. Ansiava por vingança.

Carina-1469 sumira, sendo substituída por duas pequenas luas, uma avermelhada e outra com tons cinza-azulados. Era madrugada e Lina estava exausta e no limite de suas forças. Tinham deixado claro que estavam querendo capturá-la viva por algum motivo, já que depois da primeira troca de tiros sua posição ficara revelada. Dois dos itianos foram pegos de surpresa enquanto se preparavam para invadir a caverna, pensando que a encontrariam lá. Jaziam inertes no caminho de areia, derrubados pelos tiros. Eram fisicamente espantosos! Totalmente humanoides, de conformação muito próxima aos seres humanos, porém bem mais altos. Usavam uniformes como uma espécie de macacão escuro integrado aos calçados e luvas, além de capuz. Também uma viseira sobre os olhos de forma que não se podia ver como eram debaixo das roupas. A boa notícia é que morriam ao serem atingidos, da mesma maneira que os seres humanos. Pelas roupas e pelas atitudes, Lina soube que eram soldados. Com uma velocidade que denotava bastante treinamento, os alienígenas se recuperaram da surpresa e se retiraram para um abrigo atrás de algumas pedras altas. Eram dois itianos, dos quatro que formavam a equipe. A partir da descoberta da posição de Lina, mantiveram-se cautelosamente cobertos, fazendo descargas cada vez que ela tentava de alguma maneira se afastar da sua posição. Estava presa. A carga da pistola de energia era suficiente apenas para um tiro agora e Lina imaginava que não teria como errar este tiro. Seria dirigido à própria cabeça quando ficasse óbvio que seria capturada. A água já fora consumida em sua totalidade e pouco restava para ela, exceto a esperança de que, mantendo-se viva, ainda pudesse escapar. O procedimento lógico dos inimigos seria o de um deles permanecer no local, impedindo-a de abandonar sua posição, enquanto o outro buscava a nave para alvejá-la com as armas de bordo. Sem dúvida a nave era capaz de destruir do ar todo o afloramento onde Lina se encontrava, reduzindo-a a picadinho, mesmo que fosse difícil manejar e atirar na atmosfera. Apesar disso, o tempo havia passado e nada havia acontecido. Era chegada a hora de tentar algo na escuridão; ela não ficaria indefinidamente naquele local.

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Fazendo o mínimo barulho possível, já que desconhecia a capacidade auditiva ou os equipamentos dos inimigos, Lina arrastou-se como uma cobra pelo chão de pedregulhos afiados, ferindo as mãos sem largar sua arma. Sacudiu uma pedra chata para fora do afloramento, no que esperava ser uma crível representação de sua cabeça. Não houve nenhum tiro e, com as entranhas endurecidas pelo medo, colocou cautelosamente o rosto ao desabrigo, tentando ver a posição dos itianos. Achou que nada se movia no local de onde tinham partido os tiros. Os corpos dos alienígenas mortos ainda permaneciam no local onde foram abatidos, visíveis como sombras sobre a areia clara. Considerou jogar-se do afloramento para baixo, como se a areia fofa fosse uma piscina. Tentaria usar as armas itianas caídas próximas aos corpos e, acaso a sorte estivesse ao seu lado, obter provisões de água que levavam os soldados mortos. A possibilidade de a queda de oito ou dez metros ser fatal, especialmente se caísse em um local onde a camada de areia fofa cobrisse escassamente as pedras pontiagudas da região não era relevante, uma vez que permanecer naquele lugar era morte certa. Uma hora se passou sem que pudesse localizar qualquer dos atacantes e seus nervos começavam a deixá-la cada vez em pior estado. Sem pensar mais, tomou impulso e lançou-se pela borda do afloramento rochoso em direção à areia abaixo. A queda pareceu se dar em câmera lenta. Lina se tornou consciente de tudo que sua visão abarcava naquele segundo. A luminescência das luas estranhas do planeta, refletindo Carina-1469 com sua cor acobreada, a paisagem árida de tons escurecidos do Deserto de Miralejos e, até mesmo, as marcas negras das descargas de energia das pistolas nas pedras, com seu cheiro de ozônio. Caiu sobre a areia como tinha aprendido durante a instrução militar, com as pernas fechadas e pés cruzados, deixando-as prontas para se dobrarem e com o corpo criarem uma forma arredondada, chocando com o solo primeiro os pés, lateral da perna e coxa direita, passando o impacto pelos quadris e pelas costas para a esquerda em direção ao ombro esquerdo, encostando o queixo ao peito. Rolou alguns metros nesta posição ignorando a dor da batida e deixando a força do choque ser amortecida pelo atrito até que parou, suficientemente inteira, atrás de um dos mortos. Não houve qualquer descarga dos soldados contra ela! Apressou-se em revistar os cadáveres, usando-os como escudos interpostos na direção em que acreditava se encontrassem os outros. Achou finalmente as pistolas de energia e cantis, que continham aproximadamente dois litros de líquido cada. Tinha quase certeza de que o conteúdo dos cantis seria adequado para humanos também. A vida parecia sorrir-lhe! Sua posição, porém, era altamente vulnerável como tinha sido antes a dos itianos agora mortos. Foi arrastando-se de barriga para baixo em direção a algumas rochas que surgiam da areia clara mais à frente e colocou-se de costas contra elas. Suspirou, mal acreditando que tivesse sido tão fácil. Os soldados deviam ter abandonado a posição! Incrível ! Neste momento ouviu o barulho de um látego, e algo vindo da direita cruzou-lhe à frente em alta velocidade, apertando sua garganta e fazendo-a bater a cabeça contra as pedras. Inutilmente tentou retirar a corda que a sufocava com ambas as mãos, inutilmente. Estava perdida.

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O itiano era alto e feio, além do que ela tinha imaginado ser possível. Era maior do que um ser humano alto, por volta dos dois metros e pouco. Na verdade parecia um homem magro e musculoso, mas sem a pele. Todos os músculos, tendões e ossos ficavam horripilantemente à mostra, como um corpo dissecado. — Que os chacais devorem sua mão direita, deixando apenas a esquerda para se limpar e comer! – gritou Lina, enquanto o monstruoso alienígena lhe aferrava com mãos fortíssimas. A bordo do grande caça itiano em forma de asa-delta, Lina foi despojada de tudo, inclusive suas roupas, e amarrada em um aparelho que lhe prendia braços e pernas abertas. A mesma corda elástica utilizada para capturá-la era usada como chicote para açoitá-la repetidas vezes nas articulações, nas mãos e nos pés. Sua mente registrava a dor apenas como uma informação, já que a privação de água e o espancamento contínuo a tinham levado a ultrapassar seu limiar. Felizmente a absoluta falta de conhecimento entre as espécies evitava que os itianos conhecessem a fisiologia terrestre. Assim o soldado não se dava conta de que a tortura estava sendo bastante ineficaz. Se soubesse aplicar a dor nos pontos exatos... — O que vocês querem de mim, cães-demônios? Sequer entendem o que eu falo? Ahhhh! Que seus dejetos petrifiquem dentro do seu ventre! — gritava Lina para eles. Imaginava se a estavam castigando pela morte dos colegas ou se apenas era algum ritual com inimigos capturados. Sem dúvida não tinham qualquer intenção de interrogá-la. Saberiam falar ou entenderiam o linguajar humano? Quem sabe por quanto tempo os itianos tinham ficado à espreita da humanidade? Ao final de algum tempo, o itiano pareceu satisfeito com o espancamento e deixou a sala, sem fazer qualquer menção de desamarrá-la. Virou-se e foi, como se a tivesse esquecido. O tempo passou sem que pudesse ser medido por ela, que submergia cada vez mais em fases de inconsciência. Finalmente acordou deitada em uma lisa prateleira metálica presa à parede de outra sala da nave, bem menor. Deve ter sido drogada em algum momento, talvez por algum gás quando o alienígena a deixara sozinha. Por um momento ou dois perguntou-se se teria morrido e se estaria em uma câmara funerária. Pouco a pouco entendeu que estava em uma minúscula cela. As marcas do chicote eram recentes em seu corpo, o que indicava que não se passara muito tempo. Em seu braço havia uma agulha ligada a uma cânula de material elástico que se prendia a um frasco. Estava sendo alimentada! Lina somente conseguia ver que estava em uma tipo de laboratório ou sala de trabalho pequena. Uma mesa de proporções itianas ficava na sua frente. Livrou-se da agulha e abriu o frasco, curvando-se para se sentar na prateleira, já que a cela era pouco maior do que seria uma gavetão de morgue. Só que gavetas de morgue não possuem telas metálicas... Provavelmente a nave onde estava era utilizada em missões científicas e a cela não fosse mais do que um contendor de animais, de cobaias. Dentro do frasco havia um soro claro e adocicado, que Lina bebeu sem prazer. Antes tomou o cuidado de umedecer os lábios e a boca, terrivelmente rachados pela secura do deserto. Ao menos se sentia melhor por ter descansado e o líquido parecia bastante revigorante.

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Devo estar sendo levada para a nave-mãe itiana, na melhor das hipóteses para interrogatório. Poderia facilmente imaginar outras coisas bem piores. Sanchez, o que devo fazer?, pensou. Enquanto imaginava diversas cenas nas quais roubava a pistola de um dos itianos e disparava contra eles, começou a ouvir batidas como uma chuva pesada caindo em telhas de zinco. Aos poucos o som das pancadas foi crescendo sem que houvesse qualquer indicação de movimento da nave. Também não se via na cabine o seu captor itiano ou ouvia-se outro som que não o das pancadas. O ruído agora era ensurdecedor e algumas pancadas vinham acompanhadas de sacudidas da nave. A nave sofreu uma inclinação brusca com uma pancada mais forte, fazendo com que Lina fosse jogada dentro da pequena cela batendo fortemente com a cabeça. Ela se segurava na grade quando, do outro lado, uma batida foi tão violenta que a parede foi amassada de forma que ela pôde colocar a mão para fora pelo vão. Conseguiu alcançar o trinco da porta e sair bem a tempo, pois a próxima pancada reduziu a cela à metade de seu tamanho, fazendo Lina chocar-se com os objetos da sala onde se encontrava. Sem perder um segundo ela correu, agarrando uma haste de metal pesado cuja utilidade original desconhecia e não se importou em especular, mas que daria um excelente porrete caso cruzasse com um de seus captores. A porta se encontrava aberta e ela saiu para a sala onde fora torturada. Pareceu-lhe que era a sala de controle da nave porque, às costas do local onde estivera amarrada, via-se uma enorme janela transparente à frente de um painel com controles. Surpreendeu-se ao ver que, ao contrário do que pensava, ainda se encontrava no solo e Carina1469 brilhava alto em seu segundo dia como sobrevivente no planeta. Uma espécie de ave, parecida com um corvo gigante, esvoaçava do lado de fora trazendo nas patas um grande pedregulho negro. Viu outras aves surgirem e, quando se aproximaram suficientemente, deixaram cair a carga contra a nave itiana como se fosse uma bomba. Algumas carregavam pedras muito maiores em conjunto de quatro ou cinco animais, e Lina imaginou que seriam capazes de amassar a nave com bastante severidade. Não se viam itianos em lugar algum. Sabia que havia animais no planeta, mas não se informara sobre detalhes sobre esles, já que sua função tinha sido levantamento topográfico da parte desértica do planeta. Apesar disso, tinha certeza de que não esqueceria qualquer menção a pássaros assassinos jogadores de pedras! Sem pensar muito, sentou-se aos controles, entre pancadas e sacudidas, prendendo-se ao cinto de segurança bem maior do que ela. Assim que se viu presa à cadeira olhou para a infinidade de comandos. Não ousava sair da nave, não com aquelas coisas lá fora e, possivelmente, itianos nas cercanias. Havia uma série de incompreensíveis alavancas e chaves, botões e cristais no painel de controle. Tudo era marcado com a característica escrita itiana, que se assemelhava ao cirílico. Tentou uma série deles até que sentiu uma vibração na nave, que acreditou ser o motor ligando. Apertou botões e movimentou alavancas até que, ao alçar uma delas, a nave deu uma sacudida e subiu sacolejando bastante. Ao que parecia tinha subido cerca de trezentos metros de uma arrancada só, estabilizando-se nessa altura precária. Antes que Lina pudesse raciocinar muito sobre o assunto percebeu que, pouco a pouco, a nave perdia altura ladeando-se para a esquerda. Tentou localizar os controles que mantinham a nave estabilizada, movimentando as alavancas com mais suavidade. A nave não respondeu e continuou se inclinando em um ângulo estranho,

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agora em direção a um conjunto rochoso cor de ferrugem que se mostrava perigosamente próximo. Talvez a nave tivesse sofrido avarias com as pancadas ou simplesmente não pudesse ser facilmente pilotada por um piloto humano sozinho. Com a montanha se aproximando cada vez mais velozmente e a nave perdendo altura, Lina retomou a frenética experimentação nos controles, resguardando somente aquela alavanca que tinha feito a nave subir e aquela que ligara o motor. Finalmente pareceu haver uma diminuição na aceleração da nave, porém naquele momento Lina não tinha mais a menor ideia do que tinha apertado. A nave mudou de rumo e começou a descer em direção a um grande lençol de areia no meio do deserto. Com a nave rente ao solo e em alta velocidade, ela se preparou para o choque. A nave aterrissou arrancando a areia de diversas dunas até prender-se entre duas delas. Após alguns minutos desorientada, Lina soltou-se do cinto de segurança e procurou avaliar os danos. A alavanca que ligava o motor não voltou a fazê-lo ligar, sinal de que a nave não sairia daquele lugar por si mesma. Vasculhou a cabine de comando sem encontrar nada de muito útil e foi até a sala onde estivera presa. De um dos armários retirou provisões de água e soro, uma pistola e roupas, um macacão, roupa de tecido mais suave como se fosse uma espécie de roupa de baixo, meias e luvas que não lhe serviram muito bem. Também tinham um cheiro muito desagradável, provavelmente o cheiro dos itianos, azedo e metálico. Encontrou ainda um compartimento com seu equipamento original, até mesmo aquele que tinha escondido no afloramento. Mas nada de suas roupas, o que mostrava a intenção dos itianos em jamais deixá-la sair da nave viva. Viu-se falando alto que talvez fossem arrancar sua pele para que ficasse mais dentro do padrão de beleza itiano. Não era bom sinal que conseguisse fazer piadas em voz alta sozinha naquela situação. Era demonstração de que se encontrava no limite da histeria e tratou de se controlar, apelando para todo o seu treinamento. Tinha que deixar a nave itiana imediatamente porque deveria estar sob alguma forma de vigilância da nave-mãe. Logo acudiriam a investigar o que houvera com seu escaler para que fosse pilotado de forma tão absurda. Ela não gostaria de estar ali para prestar conta de suas ações e da ação dos pássaros! Muito menos teria como explicar a morte e o sumiço dos soldados ou sua atrapalhada pilotagem, isso se algum itiano se preocupasse em perguntar antes de atirar. Com todas as provisões que conseguiu juntar, colocou-se no caminho indicado pelo equipamento recobrado, na direção da base automatizada. Era a única coisa que conseguia imaginar naquele momento, como se a base fosse um paraíso perdido, para uma alma condenada a vagar no inferno. Lá teria finalmente como estar em relativa segurança desde que não fosse descoberta pelos itianos na nave-mãe. Poderia também enviar uma mensagem de alerta para a Terra, sobre a descoberta desta raça belicosa. O mais seguro seria liquidar o itiano que a capturara. Esperava que os pássaros tivessem feito esse trabalho por ela. De qualquer sorte, manteve uma pistola bem à mão e pronta para disparar a qualquer sinal de itianos ou de pássaros carregando pedras. A região onde estava era diferente daquela onde aterrissara, de cores mais fortes e puxadas para o ocre e tons de marrom escuro que contrastavam com areias amarelo-claras. Exceto pelas dunas em que colidira somente havia chão duro e rochas de formato arredondado, como cascalhos negros gastos por água ou vento. Caminhava pelo que parecia ser o leito rochoso de um rio sobre o cascalho solto. Apesar de desconfortável para andar, ainda era menos cansativo que a areia solta das dunas. Lina mantinha a maior parte do corpo coberta com a roupa dos itianos, inclusive o rosto, de forma a perder a menor quantidade de líquido possível para o ambiente seco e para a radiação de Carina-1469.

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Ela se lembrou de Sanchez e de como, com ele, aquele deserto tinha sido um lugar encantador. Não conseguia conciliar agora, perseguida pelos itianos, machucada e sozinha, a beleza que descobrira com o amante. “Miralejos, Miralejos”, ele tinha dito. “Ouça Miralejos.” Não havia nada para ouvir. Só o silêncio e o vento, o barulho de seus passos ruidosos sobre as pedras negras soltas sobre o chão duro e marrom. Não havia animais à vista mesmo que o planeta fosse pleno deles em outras regiões e até mesmo no deserto. Bem, não contava encontrar os pássaros bombardeiros evidentemente. Seguiu caminhando, afastando-se da nave itiana, mesmo sabendo que não deveria fazê-lo durante aquelas horas mais quentes do dia. Caminharia o que fosse necessário até encontrar outra formação rochosa onde poderia ficar à sombra e descansar até o início da noite. Alguns quilômetros adiante visualizou uma espécie de subida no terreno, uma rampa que ascendia até uns cem metros de altura de forma pouco inclinada, continuando acima em um platô achatado. Utilizando o equipamento roubado dos itianos, cavou um buraco na sombra ao pé das rochas que ficavam no início da subida, onde o solo era quase gelado em comparação com o calor da areia no sol. Deitou-se, cobrindo-se com a areia fria e adormeceu quase instantaneamente, como se estivesse na mais confortável cama que experimentara na vida, após tantas aventuras.

No sonho, Lina se encontrava nadando em uma bolha como se fosse um peixe de aquário. Não utilizava qualquer equipamento e a água, levemente salgada e doce ao mesmo tempo, entrava pela boca e pelo nariz sem afogá-la. A luz era espantosamente avermelhada, como a filtrada através das pálpebras fechadas defronte à uma luz forte. Alguém nadava junto a ela mas não conseguia ver quem. Era uma presença reconfortante e pensou em Sanchez. Apesar da familiaridade, sabia que não era o amante morto, mas outra pessoa. Havia proteção e desejo de proteção, fome e saciedade. Havia amor e cumplicidade no contato com esta outra pessoa que nadava com ela. Sem que houvesse qualquer palavra, pois o outro não conhecia palavras, deixou que Lina soubesse que se chamava Miralejos. Mas não o deserto, a pessoa. Seu filho, filho de Sanchez, gerado no planeta sem que ela soubesse ou planejasse. Sou a mãe do primeiro ser humano gerado neste planeta. Não quero morrer, não posso morrer, pensou Lina. Lembrava-se de Sanchez, no sonho que tivera ao cair no planeta, dizer-lhe que ouvisse Miralejos... Agora entendia, queria que ouvisse o filho deles, não o deserto. Miralejos de repente transmitiu-lhe uma sensação premente, de urgência. Imediatamente sentiu uma forte dor abdominal que a fez recobrar os sentidos. Abriu os olhos bem a tempo de ver uma pistola de energia apontada em sua direção, na mão de um soldado itiano que parecia ter saído de um pesadelo com o inferno. Só teve tempo de rolar e fugir do tiro porque fora avisada por Miralejos e porque o itiano se encontrava mais morto do que vivo, cheio de machucados perceptíveis mesmo na sua fisiologia de corpo dissecado. Arrastava no chão dois cotos de pernas, impulsionando-se para frente com os

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braços e as mãos bastante queimados. Após o tiro o braço que sustentava o corpo enquanto mirava deixou de suportar o peso e ele despencou na areia do deserto. Tentou levantar-se enquanto Lina se aproximava rapidamente. O máximo que conseguiu foi rolar de barriga para cima e olhá-la, arfando ruidosamente. A pistola do soldado estava descarregada, mas Lina jogou-a longe de qualquer maneira. O alienígena não fez qualquer menção de falar, apenas parecia vagamente consciente da presença dela. Talvez até achasse que a tinha matado, pela calma que aparentava. Lina apontou a pistola para a cabeça do itiano que nem mesmo fechou os olhos. Disparou. O tiro de energia fez um buraco limpo exatamente na testa do atacante, que estremeceu e deixou de arfar com um último ruído rouco que fez Lina sentir-se gelada. Menos um infeliz no universo, pensou. O inimigo provavelmente tinha se agarrado à parte exterior da nave quando Lina decolou, sofrendo os danos corporais no acionamento dos motores e na queda. Sem dúvida era uma raça extremamente forte fisicamente. — Que seu corpo seja devorado por mil piolhos, quinhentas pulgas e setecentos e oitenta carrapatos — disse-lhe, prestando uma homenagem ao guerreiro caído.

A noite negra avançava quando ela sentiu que não suportaria caminhar mais. Tinha subido totalmente a rampa que começava onde deixara o itiano morto. Depois de chegar ao topo continuara por uma descida suave até um novo platô mais abaixo. Pelo seu sinalizador, faltavam muitos quilômetros até a base. Muitos mais do que suportaria com suas provisões de água e soro, tomadas dos itianos. O último soldado não tinha nada exceto a pistola que ficou descarregada. Lina deitouse novamente em uma cama de areia cavada no solo e contou estrelas. Dormiu algumas horas no frio da madrugada, coberta de areia. Carina-1469 começava a surgir no horizonte e Lina agora se deslocava com dificuldade em uma nova e íngreme subida. As provisões de água racionadas somente chegariam para mais um dia com muita sorte. Não sobreviveria ao seu quarto dia na superfície do planeta após o ataque itiano, caso não encontrasse água ou outra fonte de umidade. Ao chegar ao topo deu com uma planície que se estendia tão vasta que a vista não alcançava seu final, mesmo com a recém-iniciada luz do dia. A planície era pontilhada por milhares de pilaretes negros de dois a dois metros e meio de altura, formados por pedras arredondadas colocadas umas sobre as outras com quarenta e cinco centímetros de diâmetro em média. Era como se alguém tivesse colocado gigantescas pedras do jogo de damas umas sobre as outras em pilhas ao longo de uma planície. Ou se fosse um gigantesco campo de dedobol. Entre um pilarete e outro, havia um espaço de cinco a dez metros de distância de chão marrom, pontilhado com milhares de manchas brancas. Resultava em uma visão realmente incrível, como se fosse algo feito por uma civilização de ascetas que morassem em seus topos sem precisar de comida ou bebida, uma cidade de faquires indianos que desapareceram, mas antes grudaram chiclete velho por todo o chão! Lina começou a caminhar entre estes pilaretes e, agora que não se encontrava no alto em relação a planície, sentia como se estivesse no labirinto mitológico do rei Midas. Examinou mais de perto as pedras que compunham as formações e viu que eram totalmente lisas. As manchas

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brancas no solo pareciam gotas de tinta ou chiclete amassado no asfalto. Lina comeu algo das provisões de emergência e subiu em um dos pilaretes para examiná-lo de cima e para ter uma visão panorâmica dos demais. Em seu topo encontrou uma concavidade como uma panela, lisa, polida e perfeita demais para ser natural. De onde estava avistou iguais formas nos pilaretes próximos. O local começava a deixá-la apreensiva de uma maneira que não conseguia entender. Apesar disso continuou seguindo a direção apontada pelo instrumento localizador sem apressar o passo e mais cautelosamente possível. Apenas o silêncio a acompanhava. Levaria ainda vários dias para alcançar as montanhas a pé, muito mais dias do que os disponíveis para sua sobrevivência pelo que restava de água. Com o sol alto, Lina tinha andado vários quilômetros naquele labirinto quando avistou o primeiro pássaro parado sobre um dos pilaretes. Imediatamente parou atrás de uma das pilhas de pedra para não ser tão obviamente visível pela criatura. Agora, olhando mais detidamente, conseguia ver que o animal era bastante distinto de um corvo terrestre. Na verdade talvez nem fosse um pássaro, já que se assemelhava mais a um réptil, como um pterodátilo em miniatura. Sua cabeça não tinha nada semelhante ao dinossauro voador. Não era pontuda nem tinha o bico característico. Era cilíndrica e achatada no alto e, na extremidade de baixo, desciam algumas protuberâncias moles como se fossem tentáculos de um polvo. Tinha olhos pequenos e prateados nas laterais, perto do topo achatado. As asas, sim, eram o que davam a impressão de pterodátilo porque eram membranosas e se viam os ossos através de sua pele. O ser tinha ainda duas pernas terminadas em garras com aparência de serem muito fortes, com dois dedos desproporcionalmente grandes e afiados – um para frente outro para trás, ladeados por dezenas de dedinhos como raízes de uma samambaia. Lina decidiu avançar cautelosamente. Como a criatura somente a observasse sem esboçar qualquer reação, continuou seu caminho deixando o ser empoleirado no ninho. Deu-se conta de que começara a pensar nos pilaretes como ninhos. Talvez a ideia já estivesse permeando seu subconsciente havia mais tempo, especialmente pela forma côncava que existia no topo de cada um. Adiante, menos de cem metros após ter encontrado o primeiro pássaro, Lina tornou a encontrálo empoleirado em outro pilarete, desta vez observando-a deliberadamente e meneando a cabeça a qualquer movimento que ela realizava. Na verdade não sabia se era o mesmo que mudara de lugar ou se tratava de outro. Aparentemente poderia ser o mesmo. Preferia que fosse o mesmo. Desta vez, o animal lançou-lhe olhares bastante belicosos, estendendo e contraindo os tentáculos que poderiam ser sua boca. Talvez ela estivesse perto de filhotes da criatura. Conhecia diversas espécies terrestres que não reagiam bem a animais estranhos próximo à cria. Resolveu dar a volta ao redor do pássaro para não provoca-lo. A ideia efetivamente não foi boa. Quando Lina começou a regressar e desviar, o pássaro levantou voo, circulando sobre sua cabeça em um diâmetro de dez metros enquanto emitia terríveis sons agudos e vibrantes. Imediatamente houve uma revoada de pássaros que se levantavam de diversos ninhos ao longo de uma centena de metros, todos ecoando o mesmo chamado ensurdecedor em resposta ao primeiro. Lina começou a correr, sem fazer mais observações. Enquanto corria disparada em linha reta na primeira direção em que pôde, sentiu a pedra atingi-la na panturrilha e caiu rolando no chão até colidir com um pilarete que sequer se mexeu. Como os pássaros conseguiam uma mira tão certeira?

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Felizmente a primeira pedra era bastante pequena, como se o pássaro tivesse agarrado a primeira coisa que aparecera. Sentada no chão examinou a perna e somente encontrou um hematoma, nada de mais grave exceto pela dor. Viu se aproximarem ao longe diversos pássaros carregados com pedras semelhantes àquelas que usara para enterrar o itiano. Lina recomeçou a correr e foi atingida de raspão mais duas vezes por pequenos cascalhos, mas sem cair. O problema é que os pássaros, Lina sabia, logo estariam chegando com as pedras maiores que demoravam mais para serem trazidas e ai não teria como resistir. Enquanto corria sentiu novamente aquela forte dor no ventre e começou a correr em ziguezague em sua agonia. Pensou imediatamente em Miralejos e sentiu que ele queria que corresse em zigue-zague como se tentasse escapar de atiradores. Percebeu que os pássaros começaram a errar todos os arremessos. Cada arremesso errado arrancava deles um grasnar decepcionado. Lina então entendeu que eles tinham uma pontaria mortalmente certeira desde que o objeto ficasse estacionário ou mantivesse uma linha reta e velocidade contínua. Com um objeto que variasse de velocidade e direção, a mira certeira tornava-se um transtorno porque os animais não conseguiam prever o local onde estaria o alvo. Não eram racionais como ela chegou a temer! Apenas dotados de um instinto ao qual não podiam resistir. A perseguição continuou por mais alguns metros e então os pássaros desistiram, lançando gritos enraivecidos para Lina. Ou desistiram porque não conseguiam acertá-la ou porque deixou o local onde estavam filhotes. Ou por qualquer outro motivo. Ela apenas seguiu um pouco adiante e encostou-se em um pilarete, agradecida pela sorte. A corrida dos pássaros acabou tirando-a da direção que seguia para a base automática. Sem dúvida correra sem parar por muitos metros. No mínimo quinze minutos de corrida para longe da sua rota, até que os pássaros desistissem. Sentou-se para descansar e bebeu o restante da água livrando-se dos frascos. Dificilmente sobreviveria, mas a lembrança do sonho dava-lhe ânimo. Será que continha alguma verdade? Será que havia um Miralejos, um filho seu e de Sanchez sendo gerado naquele instante em seu útero? Um som chamou-lhe de volta ao presente. Retirou a mão que estivera acariciando a barriga (e Miralejos) e pousou-a no cabo da pistola. Era o som de um veículo. Subiu em um dos ninhos e tentou ficar o menor possível em altura para não chamar qualquer atenção. O som tornara-se mais forte e em minutos pode ver ao longe um veículo se deslocando por entre os pilaretes, vindo da direção contrária à sua. Sem dúvida era um veículo itiano, um hover que deslizava ruidosamente no solo rochoso. Podia distinguir duas formas em pé no veículo, dois soldados itianos com mais de dois metros cada. Vinham certamente com as armas em punho diretamente para o ponto onde ela estava. Deviam ter alguma forma de localizá-la por calor ou outro equipamento, já que não seria possível tamanha coincidência naquele labirinto. Avaliou a sua posição e percebeu que não teria nenhuma chance de defesa. Resolveu ousar. Desceu do pilarete e pôs-se a correr na direção oposta à que tomara, diretamente em direção aos pássaros atiradores e perpendicularmente ao avanço dos itianos. O veículo ainda se encontrava longe, mas teria que correr o mais rapidamente possível. Em silêncio perguntou se Miralejos estava com ela, mas não obteve resposta. Teve certeza de que estava fazendo a coisa certa, de que sobreviveria apesar do plano arriscado. Percebeu que os itianos já a tinham visto quando se encontrava ainda a aproximadamente um quilômetro do local onde avistara os pássaros. Desta vez não correria em zigue-zague, mas sim em

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linha reta. Os itianos deviam pensar que apanhá-la seria uma questão de tempo, já que não disparavam suas armas mesmo ela estando ao alcance dos raios. Subitamente Lina viu um primeiro pássaro, provavelmente uma sentinela, olhado-a com maldade do alto de um pilarete negro. Avançou mais alguns metros e colocou-se atrás de outra pilha de pedras pretas abrindo fogo contra o veículo itianos de forma a descarregar todas suas munições e fazendo com que eles acreditassem que possuía muito mais do que imaginavam pela reação inicial. Os soldados reagiram como da outra vez em que atirou contra itianos e pararam o hover no limite da área dos pássaros. Um deles desceu esgueirando-se e coberto pela direita e outro tomou o caminho da esquerda, tentando evidentemente cercá-la naquele local onde ela tinha se entrincheirado. Lina então jogou sua arma para frente de forma que eles pudessem vê-la, deu um grito para chamar-lhes a atenção levantando ambos os braços e começou a zigue zaguear em torno de dois pilaretes, diminuindo e aumentando a velocidade. Os soldados entenderam que estaria se rendendo ou que teria ficado louca e avançaram diretamente para ela cautelosamente e com as armas em punho, gritando roucas ordens mas sem abrir fogo. Neste momento ouviu-se o primeiro sinal de ataque dos pássaros. O primeiro soldado foi atingido em cheio no rosto e caiu aparentemente morto ou desacordado no chão. O segundo reconheceu o perigo maior dos animais, desviou sua atenção de Lina e começou a abatê-los com sua pistola, escondendo-se atrás de um pilarete. Aquela atitude pareceu enfurecer ainda mais os pássaros, que se voltaram inteiramente para o atacante e logo ele estava disparando contra uma nuvem de animais. Lina não esperou para ver como ficaria aquele enfrentamento, se ambos morreriam ou se fugiam. Aproveitou-se do esquecimento de ambos os inimigos e partiu para o hover dos itianos. A máquina tinha estava ligada e o controle era semelhante a um joystick. Para onde empurrasse o joystick, a máquina avançava. Empurrando mais, avançava mais rápido. Empurrando em sentido contrário, freava. Em pouco tempo, percorreu o labirinto, afastando-se dos pássaros e dos itianos, se ainda estivessem vivos. Não mais lhe importavam. Encontrou uma garrafa de água e rumou para a segurança da base automática com seu novo veículo roubado. Acreditava que antes do cair da noite conseguiria ultrapassar a parede de montanhas que delimitava o fim da planície dos pássaros bombardeiros. Adiante se encontrava a segurança relativa, a possibilidade de enviar uma mensagem para a Terra e, talvez, outros fugitivos que também tivessem escapado do desastre. Contando com ela, se todos tiveram tanta sorte, seriam no máximo oito terrestres isolados neste distante planeta à luz da estrela Carina-1469, constelação de Clari. Na verdade seriam nove, com Miralejos em seu útero. Não duvidava agora que levava consigo um filho. E como o pai, Miralejos tinha sobrevivido ao deserto. Ao cair do terceiro dia no planeta, Lina Ben Thurayya alcançava finalmente a base automática. Teria que avisar imediatamente a Terra sobre a descoberta desta perigosa raça alienígena. Chorava por tudo que passara, pela perda de Sanchez e pelo encontro com Miralejos. E pelo deserto, agradecida pelo deserto amar seu filho.

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Tânia e o tempo
UBIRATAN PELETEIRO
Nunca se pode ter muita certeza do que será fisgado no oceano intertemporal. Tânia, uma agente do tempo, descobriu isso da pior forma possível...

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Começou o plantão e logo Tânia foi chamada à sala de controle de tráfego intertemporal. E por ordem do comissário. O que poderia ser tão importante para o chefão em pessoa ter descido até lá? Ao dobrar o corredor, encontrou seu experiente parceiro, aguardando o elevador. Gaspar tinha mais de quinze anos de carreira, e estava sendo muito instrutivo para Tânia trabalhar com ele, apesar de ela não concordar com muitas das práticas daquele policial linha dura. — O que será? — perguntou ao colega. — Sei lá! Não deve ser a operação programada pra hoje. O chefão não costuma se envolver nessas bagatelas. — Depende. Você soube algo da operação? As missões só eram reveladas às equipes no início da operação, era uma medida de segurança para evitar vazamentos. Mas Gaspar costumava ficar sabendo de alguma coisa antes, o que era ventilado nos corredores. Gaspar baixou o tom de voz e disse: — Ouvi dizer que é contra uma missão arqueológica autorizada. Parece que é fachada para roubo de relíquias. Mas não suspenderam a operação, as outras duplas estão dentro. Só nós fomos chamados pelo comissário. A porta do elevador se abriu. Estava vazio. Entraram e ela escolheu o andar. Mas não conversaram mais, pois havia a câmera com microfone embutido no canto. Enquanto subiam, Tânia ficou imaginando do que se tratava o chamado. “Será que é sobre a categoria X?”, pensou. A porta se abriu e eles saíram. Na sala de controle, cada operador estava concentrado no seu monitor de deslocamento temporal e, na parede em frente às fileiras de equipamentos, o painel principal mostrava uma visão geral dos deslocamentos. Ele exibia um gráfico 3D. O eixo Y representava a escala de tempo, o X e o Z o plano do espaço, onde estava traçado um mapa da jurisdição em alto-relevo. Cada viagem no tempo era representada por um vetor descendente que iniciava num momento de partida e ia até um momento de destino. A sombra de cada vetor marcava no mapa o local onde estava ocorrendo o deslocamento. Havia uma sala reservada. Na porta estava o supervisor de controle, ele fez um sinal, chamando-os. Tânia suspeitou que era algo grave, ou ao menos secreto, para terem que tratar naquela sala. Quando entrou, viu o comissário observando apreensivo o trabalho de um operador, o qual ela conhecia e sabia pertencer à categoria X. “É uma daquelas missões!”, pensou, esforçando-se para não deixar transparecer seu desgosto. O supervisor fechou a porta atrás deles, ficando do lado de fora. O barulho da porta chamou a atenção do comissário. — Ah, finalmente! — ele exclamou quando os viu. — Venham aqui! Aproximaram-se e o comissário mandou o operador explicar a situação. — Excluímos este deslocamento do plano geral — começou a explicar o operador, apontando a tela onde havia uma imagem bem incomum para um deslocamento temporal. — Eu o encontrei por acaso. Esta-

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va tentando fazer uma ampliação de outro deslocamento e esbarraram em mim. Ampliei esta região sem querer. — Mas a imagem está distorcida? O vetor parece bem inclinado — falou Gaspar. — O deslocamento é esse mesmo. E ele é inclinado. É alguma anomalia. Nunca vi nada igual. Ele parece ocorrer não só no tempo, mas no espaço também. — No espaço!? — espantou-se Tânia. — É. Por isso ele é inclinado. Na verdade eu acho que ele atravessa a nossa jurisdição. Entra por um lado e sai pelo outro. Além disso, as ondas temporais fogem completamente dos padrões. E a energia consumida é um ínfimo do normal! — Seria alguma tecnologia desconhecida para nós? — perguntou Tânia. — Pode ser. Mas não está emitindo o código de segurança. Na verdade, não está emitindo código nenhum! Deveria estar, dificilmente a lei que obriga emissão do código seria revogada no futuro. — O que você acha que é? — indagou Gaspar. — Não há como saber. Com certeza é um clandestino. Vocês vão ter que capturá-lo para descobrirmos. — Muito bem! – disse o comissário, enxugando o suor da cabeça calva com um lenço. — Chega de conversa! Aqui estão as ordens — Entregou um envelope lacrado para Tânia e outro para Gaspar. — Já localizamos o momento e local adequados para a emboscada. Peguem as informações com o operador e executem a missão. Eu aguardo os resultados. O comissário se retirou da sala, ajeitando o paletó largo sobre o corpo obeso. “O trabalho sujo fica pra gente!”, pensou Tânia. Desde a primeira missão desse tipo ela se arrependera da maldita decisão de ter aceitado entrar para a categoria X. Tratava-se de um padrão secreto que alguns policiais recebiam para lidar com algumas missões sigilosas. Garantia uma aposentadoria com vinte por cento menos de tempo de serviço, com proventos trinta por cento maiores. De início pareceu interessante, mas quando ela descobriu que muitas vezes as missões eram para lavar roupa suja, entendeu os maus lençóis onde se metera. Pelo menos para ela, que não gostava nem um pouco deste tipo de coisa. E não havia como voltar atrás, a não ser saindo da corporação. O operador passou os dados da emboscada e eles se foram. Enquanto saíam, Tânia abriu o envelope entregue pelo comissário, conferiu a autenticidade e o guardou no bolso. Não havia nenhuma informação importante ali. Era apenas uma segurança para o policial, prova de que não estava agindo por conta própria, afinal, esse tipo de missão era muito secreto, sem registro nos sistemas e conhecida por poucos, que poderiam negar sua existência. Seria arriscado demais tocar uma missão dessas sem uma garantia. “Já basta o peso na minha consciência”, pensou Tânia, “Lidar com o pessoal de assuntos internos por esta merda, nem pensar!”

— Lembra do primeiro cara que a gente prendeu, Gaspar? — perguntou Tânia.

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— Hein? — disse Gaspar, retirado de repente da sua concentração. — Acho que não — respondeu após um momento, voltando a olhar para a armadilha que montaram no local combinado. — Afinal, foram tantos! E eu já tinha prendido um bocado quando você entrou! — Não, eu estava falando depois que nós entramos para a categoria X. — Ah, sim! Aí não foram tantos. Na verdade foram poucos, só uma meia dúzia. Lembro do nosso primeiro. Foi um velhote. Ele era estranho pacas! Parecia todo modelado feito um boneco de biscuit. Sabe-se lá que interferência cosmética eles vão inventar no futuro! Ele não era nem um pouco calvo, os cabelos, muito negros, a pele lisa como a de um bebê e os dentes mais brancos que madrepérola. Andava ereto feito uma tábua, não tinha nem sinal de barriga ou pneuzinhos. Mas tenho certeza que era um velhote, só pela expressão nos olhos dele. Eram azuis como o céu, num fundo mais branco que algodão. Não se via uma raia vermelha. Mas o olhar sempre vem lá do fundo, e era olhar de velho. Isso aí eu acho que eles ainda não aprenderam como modelar. — O que você acha que foi feito dele? Gaspar olhou para ela, em dúvida. Parecia não entender seu interesse no assunto. Depois de alguns momentos, disse: — Acho que ele falou a verdade quando o prendemos. Devia mesmo ser um figurão da própria polícia. Aquele punhado de ouro que ele nos ofereceu, caramba! Gostaria de ter tido um jeito de ficar com aquilo! Mas não havia como. A mensagem que a chefia recebeu do futuro devia ter falado do ouro também. Agora o que foi feito dele, tenho pra mim que deram um sumiço no velho. Cremaram o corpo e depois mandaram as cinzas pra a pré-história, sei lá! Nesses casos não é registrado boletim de ocorrência mesmo, foi faxina na própria casa, pode ter certeza. Tânia não perguntou mais nada. Passou a prestar atenção no monitor do controle em suas mãos. Logo à frente, uma rede de contenção estava armada na forma de um paralelepípedo da altura, largura e profundidade de um homem, com boa folga, caso o alvo fosse muito alto ou obeso. A rede era negra, mas apresentava uma fosforescência amarelada. Era de um modelo mais novo. Não precisava de suportes nem de motor de tração para se fechar sobre o alvo. Era modelável através de controle remoto. Além da forma, as propriedades elásticas também podiam ser controladas. Quando o alvo chegasse, acionando-se a armadilha, a rede diminuiria de tamanho e se tornaria mais rígida, prendendo-o. — E o alvo que está vindo aí, Tânia? — perguntou Gaspar. — Será que é outro figurão trazendo ouro? — Logo vamos descobrir. Ele vem vindo — um vetor temporal inclinado apareceu no monitor, aproximando-se de uma marca que parecia o foco de uma mira. — Dez segundos. Nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois... Agora! Não era necessário pressionar nenhum controle. O acionamento da rede era automático. Ela tinha sensores que detectavam quando a armadilha devia ser acionada. Não havia outra forma, os reflexos humanos não seriam capazes de acionar a armadilha com a precisão necessária. Assim que a rede estabeleceu o bloqueio temporal, uma figura apareceu no seu interior. A rede se soltou, comprimindo-se e apertando o vulto, que caiu se debatendo feito um peixe. Seus movimentos foram diminuindo conforme a rede fazia o ajuste fino na imobilização. Por fim ele parou, exibindo apenas um leve tremor.

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Tânia e Gaspar se aproximaram. O prisioneiro estava deitado de barriga para baixo. Ele usava estranhas roupas largas, semelhantes a um pijama. Mas o tecido era mais grosso e rústico. Tinha cabelos negros e crespos, que iam até a metade das costas. O aperto das roupas sobre o corpo denunciava uma extrema magreza. Gaspar virou o prisioneiro com brutalidade, chutando-o. Ele tinha pele morena, seu rosto era sulcado e o nariz, adunco. Os lábios arroxeados eram finos e secos, os olhos negros se alojavam em órbitas profundas, margeadas por olheiras muito escuras e sobrancelhas negras e densas. — Parece um maldito mulçumano! — disse Gaspar, com desprezo. Tânia ainda pensou na ignorância do colega, de não saber distinguir a religião da etnia, antes de notar a estranha alteração nos olhos do prisioneiro. Eles pareceram crescer, as pupilas negras tornaram-se profundas como abismos. Não podia mais discernir nenhum detalhe daquele rosto, nem de nada mais. Conseguia apenas prestar atenção nos olhos, sem poder desviar deles. Sem entender por quê, seus braços penderam de cada lado do seu corpo, fazendo o controle da rede de contenção cair. Sentiu um grande desânimo, teve vontade de se deixar tombar no chão, mas não tinha mais controle sobre a própria vontade. — O que foi? — perguntou Gaspar. “Mate-o.” Ouviu na mente um comando, uma voz sem timbre ou sentimento. Num movimento rápido, ela sacou a faca que trazia presa ao antebraço. — Calma aí! Você vai furar ele? — perguntou Gaspar, dando um passo na direção dela. Mas não havia como ele imaginar. Tânia ergueu a faca e o golpeou no ombro, rente a clavícula, onde o colete-couraça era mais fraco. Ele gritou de dor e surpresa. Ela ergueu o braço esquerdo dele e deu mais um forte golpe sob a axila, onde a couraça era aberta. Gaspar caiu de joelhos. Ela o prendeu entre as pernas e, agarrando o capacete pela parte de trás, forçou-o para frente exibindo a nuca. Levantou bem alto a faca e deu um golpe com toda a força. Gaspar caiu, gemendo baixinho, esvaindo-se em sangue. “Liberte-me.” Novamente o comando em sua mente. Pegou o controle e liberou a armadilha. Ela ouviu uma sequência de estalos elásticos enquanto a rede se rompia. O prisioneiro sentou-se, esfregando os músculos para recuperar os movimentos. Então se levantou, alongou os membros, depois olhou para ela. Os olhos haviam voltado a ser como antes, porém ela continuava inerte, sem poder se mover. Ele a examinou de cima a baixo e depois falou: — Livre-se dessa armadura e dessas geringonças odiosas. Sua voz era serena, eivada de um sotaque que ela não conhecia. Não era um sotaque das línguas próximas ao árabe, que ela esperava dado o biotipo dele. E o comando era irrecusável. Livrou-se da armadura e de todo o equipamento. Sentiu pudor frente ao estranho, pois por baixo vestia apenas calcinha e uma camiseta justa e sem mangas, que deixava ver o contorno dos seus seios bem formados, os mamilos proeminentes. Tinha consciência de que seu corpo era belo e que constantemente atraía o interesse dos homens. Mas a expressão do estranho não se alterou frente a sua quase nudez. Ele se aproximou, fitou profundamente seus olhos e a segurou pelos braços. O seu toque era duro e áspero como o de velhos galhos de árvore. -— Você virá comigo — ele falou. Imediatamente o ambiente ao redor começou a se turvar e escurecer. Ela reconheceu o processo de aceleração temporal, mas não entendeu como o estranho conseguia levá-la consigo ape-

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nas pelo toque. Ele poderia ter um cinturão de transporte individual sob a camisa larga, mas precisaria cingir a cintura dela com outro cinturão para que ambos se deslocassem. Por certo deveria ser de uma tecnologia inusitada para ter esse poder. — Não preciso de nada disso — falou o estranho, como se lesse seus pensamentos. — A mim, basta a força do meu espírito e a benção do Senhor. A escuridão total os cercou. Ela tentou engolir em seco, mas nem para isso tinha liberdade frente à dominação exercida pelo estranho. Tudo que podia fazer era temer o destino que lhe esperava. — Eu permito que você fale — disse o estranho. No mesmo instante sentiu que recuperava o controle sobre sua faculdade de falar. Imediatamente disse: — Quem... quem é você? — Pode me chamar de Melke, já que os laicos como você apreciam apelidos. — Melke? E o que quer de mim? — Eu não quero nada com nenhum indivíduo. Minhas intenções são com todos os homens, ou melhor, com a alma deles. Você e aquele outro guerreiro é que tentaram me aprisionar, sem que eu tenha feito nada contra vocês. — Você me fez matar meu parceiro, seu desgraçado! — Era apenas um, muito pouco frente à obra que devo realizar. Levei muito tempo para compreender o último mistério, agora posso voltar no tempo e corrigir os erros. — Que erros? — Você não pode entender. A verdadeira fé está perdida. Mas está escrito que eu deveria aguardar meu substituto, que será o Salvador. Surgiram, porém, tantos falsos profetas que o Senhor desistiu da mensagem, desistiu da humanidade. Como dizem as escrituras, o Senhor se arrependeu. Mas agora eu vou acertar tudo, eliminando todos eles, todos os falsos profetas. — Mas é um crime gravíssimo interferir no passado, ainda mais matando personagens históricos. — A mim só importa a Lei do Senhor. Assim como ele, devo escrever certo por linhas tortas. — Mas por que está me levando então? — Camuflagem. Já que vocês podem ver meus passos nas areias do tempo, quando eu chegar ao meu destino vou te arremessar no abismo do passado. Você vai continuar sozinha nossa viagem, navegando eternamente até a inexistência. Seus amigos não perceberão minha ausência. Mas talvez eles tentem te interceptar, quem sabe? Como você e seu amigo tentaram fazer. Isso se o senhor se apiedar de ti. Tânia tinha certeza de que isso não iria acontecer. Lembrou-se de que o operador havia dito que achara o sinal por acaso. A possibilidade de alguém encontrar o sinal era remota. Ninguém viria resgatá-la e ela ficaria aprisionada naquele deslocamento temporal até morrer de inanição. Começou a tentar imaginar uma saída para se livrar desse destino terrível. Mas então viu uma mudança na expressão pétrea do estranho. Ele começou a virar o rosto para os lados, assustado, como se procurasse alguma coisa.

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— Quem vem lá? — perguntou, e sua voz soou estridente. Melke parou de virar o rosto e passou a fitar um ponto específico. Sua expressão encheu-se de rancor. Tânia seguiu seu olhar e viu um vulto tênue começar a tomar forma na escuridão. Inicialmente ele apareceu transparente e embaçado, depois sua figura ficou cada vez mais nítida, até que surgiu por completo. Era um homem alto, de pele morena, totalmente calvo, cabeça amendoada e nariz fino e pontiagudo. Sua magreza lembrava a de Melke, porém seu rosto não era tão sulcado nem os olhos tão cruéis. Vestia uma túnica rústica que parecia uma veste de tempos antigos. No pescoço levava uma corrente grossa e fosca com uma grande esmeralda pendurada. A joia era linda e destoava de todo o restante das vestes simples. Era arredondada e brilhava com uma superfície multifacetada. — Hermes! — exclamou Melke, num tom de voz nitidamente irritado. — Sim, sou eu. Vim te impedir. — E desde quando você se interessa pelos meus assuntos? Os dois conversavam como se ela não estivesse ali. — Estou tratando dos meus assuntos e não dos seus — disse o estranho ao qual Melke havia chamado de Hermes. — Pouco me importam seus devaneios fanáticos. Só não vou permitir que você envie esta mulher até o Princípio. Se nem os iniciados devem conhecer o Arcano em sua forma pura, plena e imaculada, o que dizer de uma leiga como esta. Os resultados seriam imprevisíveis. Você poderia criar uma deusa, ou um demônio. — Blasfêmia! — gritou Melke, com os olhos muito arregalados e ensandecidos — Tal coisa não existe! O senhor decidirá o que será feito dela! — Chega de discussões inúteis — falou Hermes. — Dê-me a mulher! — Estendeu a mão em direção a Tânia. Mas Melke não cedeu, mas sim apertou ainda mais os braços dela, fazendo-a sentir dor. Os dois homens pareciam estar travando uma luta na mente. Os olhos injetados tremiam e brilhavam. Tânia sentia uma parte do conflito em sua própria mente, uma forte dor nas têmporas, uma indecisão ferrenha de mover os músculos, que ficaram retesados como se ao mesmo tempo ela quisesse movê-los e contê-los membros. De repente, Melke a puxou para o lado oposto de onde estava seu adversário e falou: — Cheguei onde queria! Se quiser a mulher, vá buscá-la! E ele a arremessou na escuridão. Foi como se ela caísse em um mar tempestuoso. Sentiu-se mergulhada em um fluído denso como a água, porém negro feito piche. Não conseguia respirar, era como se ela estivesse em um forte redemoinho que mudasse de direção a todo momento. Era estranho escutar um terrível silêncio em vez de ruídos de turbulência. Seu fôlego se esgotava e ela concluiu que era o fim. Sua mente começou a apagar e seus últimos pensamentos foram de arrependimento pelas coisas erradas que havia feito na vida. Lembrou-se de sua mãe, a única religiosa que havia na família, católica fervorosa, que sempre tentava convencê-la a ir às missas. Tânia nunca acreditara nessas coisas, mas agora, afogando-se naquele limbo temporal, confessava seus pecados com o sentimento de que havia uma entidade, maior do que qualquer padre, profeta ou homem santo que pudesse perdoá-la. Sentiu de repente um puxão no braço e ela voltou para um espaço vazio, como se alguém a tivesse resgatado do oceano negro. Na sua frente estava o estranho chamado Hermes.

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— Vou te levar de volta — ele falou. — Para onde quer ir? Tânia demorou um pouco para entender a pergunta. Mas então começou a raciocinar. Ainda não estava a salvo. Não podia voltar para sua época. Como explicar o assassinato de Gaspar? Com certeza a corporação desconfiaria dela. Havia casos registrados de policiais que receberam altas somas como propina de clandestinos e tentaram viver uma vida farta em épocas remotas. Essa seria a primeira possibilidade que seus superiores cogitariam. Quem acreditaria se ela falasse em magia? Mas Tânia, como boa policial, sabia qual era a melhor época para se esconder. — Quero ir para o início do século XXI. — Que seja — respondeu Hermes, segurando suas mãos. E iniciaram nova viagem.

Hermes permaneceu em silêncio enquanto se deslocavam no tempo. Tânia sentia-se calma e segura, sem saber por quê, não temia que o seu novo guia lhe fizesse mal. Num dado momento, sua curiosidade despertou e ela não resistiu em perguntar: — Vocês são feiticeiros? — Esse termo não me agrada. Cada um dos perseguidores da Grande Obra escolhe seu caminho. Aquele que te raptou aprendeu através do poder da sabedoria do espírito, mas acabou seguindo caminhos escuros e tortuosos. Eu aprendi através do poder de todas as sabedorias do mundo. Tânia notou novamente a grande joia que ele levava no pescoço. — Esta esmeralda em seu pescoço. É linda! Ela tem algum poder? — De certa forma sim. Nela está escrito todo o meu conhecimento. E o meu conhecimento é o que eu sou. Você a quer? Tânia surpreendeu-se com a pergunta. — Você me daria? — retrucou. — Sim — respondeu Hermes, retirando a joia do pescoço. — Posso fazer outra. Já fiz várias, sempre na esperança de passá-las adiante. Sinto que você não apenas a deseja de verdade, mas também precisa dela. Na verdade, vejo em você algo que nem você mesma pode enxergar. Será uma boa guardiã. Tânia sentiu o peso da corrente, enquanto o estranho cingia seu pescoço. Pegou a joia e a admirou na palma da mão. Apaixonou-se por ela à primeira vista. — Mas como pode algo estar escrito em uma joia? — perguntou. — Descobrir isso faz parte do caminho que você deverá trilhar. Não há mais tempo para perguntas. Chegamos. O ambiente começou a tomar forma. Surgiram paredes e móveis em um quarto. — Agora devo deixá-la.

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— Espere, senhor Hermes, antes me diga quem era aquele outro, o que disse se chamar Melke. Ele fez uma expressão de estranheza e perguntou: — Melke? — Sim, pelo menos foi como ele disse se chamar. — Bom, não sei por que ele disse isso. Talvez esteja aceitando alcunhas agora. Mas ele é um judeu, um rei e um sumo sacerdote. Foi muito sábio e justo um dia, mas tornou-se um fanático e sua fé se corrompeu. Se sua curiosidade é tão forte, eis a fonte que melhor pode lhe esclarecer. Ele retirou do embornal uma caneta de pena e escreveu algo na palma da mão de Tânia. Então deu um passo para trás. Começou a tornar-se etéreo. — E você? Quem é você? — Tânia ainda tentou perguntar. — Sou o três vezes grande — respondeu sorrindo, e sua voz soou distante e abafada. Ele desapareceu e Tânia se viu sozinha em casa de estranhos. As paredes do quarto eram recobertas por um papel de parede esmaecido, com desenhos de flores. Havia uma cama, um guarda-roupa, uma cômoda e uma arca. Todos os móveis eram de madeira talhada, polida e envernizada. Tudo parecia antigo, porém muito bem conservado. Abriu o guarda-roupa com cuidado. As dobradiças rangeram um pouco. Dentro havia roupas de homem. Vestiu um calção e uma camisa apenas para ficar menos nua. Foi até a porta do quarto e abriu uma fresta. Ouviu alguém cantando, em francês. A voz era de mulher e o som era baixo, vinha de algum cômodo da casa. Saiu do quarto e seguiu pelo corredor. Chegou à sala de estar, a cantiga vinha da cozinha. Ali também havia muitos móveis antigos, e toda a sorte de objetos de ornamentação, desde abajures até quadros nas paredes. De repente, percebeu que quem cantava estava vindo para a sala. Depressa se escondeu atrás de um sofá. Pela beirada viu uma senhora gorda levar uma pilha de roupas para um dos quartos. Saiu do esconderijo e foi até a cozinha. Em um varal na área de serviço havia alguns vestidos. Estavam todos úmidos, apenas um deles estava mais seco, molhado apenas nas bordas. Vestiu-o. Voltou para a sala, a chave estava na fechadura da porta de entrada. Começou a virá-la, mas estava meio dura, forçou e ouviu um forte estalo metálico, enquanto o ferrolho cedia. No quarto, a senhora parou de cantar. Abriu a porta e a fechou atrás de si. Começou a descer as escadas e no fim do primeiro lance ouviu a porta se abrir lá em cima. Continuou descendo, mais próxima à parede, para evitar que a vissem pelo vão da escadaria. No térreo, abriu a porta de incêndio. Viu o porteiro falando ao interfone. Ele a encarou, como se esperasse ela chegar por ali. O homem desligou o telefone e veio em sua direção, fazendo perguntas. Ela fez cara de desentendida. Quando chegou perto, ele tentou segurá-la pelo pulso. Tânia aplicou-lhe uma chave de braço e em seguida uma gravata. Segurou-o até que ele apagasse. Deixou-o cair ao chão. Encontrou o interruptor que abria o portão e ganhou a rua, aliviada.

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Faltavam dois quarteirões, mas ela já podia ver o grande prédio com arquitetura em estilo gótico. Enquanto andava, volta e meia levava a mão até entre os seios, para ver se a joia ainda estava lá. Temia que ela pudesse desaparecer como Hermes fizera. No balcão de atendimento pediu emprestada uma caneta e um pedaço de papel. Anotou discretamente as poucas letras que Hermes havia escrito em sua mão. Depois entrou na fila de atendimento das bibliotecárias. Logo alguém entrou na fila atrás dela. Viu que era um jovem negro, que tinha a cabeça raspada e usava uma camisa social branca abotoada até em cima, apertando o pomo de adão, bem como as mangas eram abotoadas até o pulso. Ele a cumprimentou gentilmente, sorrindo. — Pois não — disse a bibliotecária quando chegou sua vez. — Por favor, você consegue identificar este código? — mostrou-lhe o papel. Nele estava escrito: SL 110:4; HB 7:15 A bibliotecária torceu o nariz. — Não é nenhum código de catalogação — falou. — Tem certeza? — perguntou Tânia um pouco aflita. A bibliotecária mostrou o papel a uma colega, que balançou a cabeça negativamente. — Absolutamente — disse a primeira bibliotecária. — É a Bíblia! Tânia ouviu alguém dizer próximo ao seu ouvido. Só então percebeu que o jovem negro olhava por sobre seu ombro. — É a Bíblia — ele repetiu. — Salmos 110:4 e Hebreus 7:15. Vou te mostrar. Tirou do bolso uma pequena Bíblia com zíper, abriu-a com agilidade na página desejada e leu a primeira passagem: — Salmos 110:4. Jurou o SENHOR, e não se arrependerá: tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. Depois folheou novamente e leu a segunda passagem: — Hebreus 7:15. E muito mais manifesto é ainda, se à semelhança de Melquisedeque se levantar outro sacerdote. O rapaz sorria à sua frente. — Precisamos atender os outros usuários — interrompeu a bibliotecária, impaciente. — Você me empresta? — perguntou Tânia, apontando para a Bíblia. — Mas é claro! — respondeu prontamente o rapaz, entregando-lhe o pequeno livro e indo buscar o atendimento da bibliotecária. Tânia percebeu como a capa estava gasta pelo uso. Abriu nas passagens que o rapaz citara e anotou-as no papel. Depois agradeceu, devolvendo a Bíblia, e foi se sentar em uma das mesas. Ficou olhando o papel, lendo os trechos repetidas vezes. “Melke é um apelido para Melquisedeque”,

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pensou, “então ele é imortal? Vive entre nós desde aquela época, esperando o seu substituto que foi profetizado. Ele disse que estava voltando para matar os impostores. Os outros sacerdotes que se levantaram. Quem serão? Jesus Cristo? Maomé? Buda? Talvez todos eles!” Tânia levantou os olhos e só então viu os computadores à disposição do público. “O três vezes grande!”, pensou. Levantou-se e foi até um dos computadores. Entrou num site de busca e digitou as palavras: “o três vezes grande”. Logo no primeiro resultado encontrou o seguinte: A famosa Tábua de Esmeralda sempre foi utilizada como ponto de partida para os estudiosos da alma humana. Segundo dizem, neste pequeno texto estão encerrados os mais secretos segredos da vida. Alquimistas, filósofos, magos, cabalistas basearam suas pesquisas nesse fragmento de sabedoria atribuído a um sábio egípcio chamado Hermes Trimegisto. Daí o motivo do nome hermetismo para generalizar as diversas correntes ocultistas ao longo do tempo. Hermes se autointitulava Trimesgisto (três vezes grande) porque dominava os três aspectos da sabedoria do mundo: físico, mental e espiritual. Através da conquista dessa Arte era capaz de executar a Grande Obra com êxito. Originariamente gravado em uma esmeralda, o texto¼ Tânia parou de ler e olhou para baixo, para o volume formado pela joia entre seus seios. Seu coração acelerou. Discretamente, puxou a corrente e ocultou a esmeralda em sua mão. Examinoua de perto, usando a luz do monitor. Nas facetas triangulares podia ver vários pontos, como se alguém houvesse feito piques com uma agulha. Para ver se era algum tipo de escrita, precisaria de uma lupa, e uma lupa muito potente. Mas então se perguntou: por que deveria se preocupar com isso? Estava em uma época estranha, sem nenhuma chance de voltar para casa. Não conhecia ninguém, a única coisa de valor era aquela joia. Precisaria vendê-la para conseguir algum dinheiro. Não havia escolha. Mas ela sabia que não faria isso. Sabia agora que algo que ela sempre considerara baboseira, a espiritualidade do homem, era real. Experimentara ao menos duas vertentes na própria pele, uma de luz e outra de escuridão. Ela iria ficar com a joia. Daria um jeito de sobreviver. E iria aprender. Independentemente do que tivesse de fazer para viver neste novo mundo, arranjaria tempo para isso, pois desejava provar do mesmo poder daqueles dois estranhos. Colocou de volta a esmeralda entre os seios e a apertou com força. Teve certeza que um dia desvendaria os mistérios da pedra, e poderia também viajar no tempo sem ajuda de nenhum equipamento, tornando-se também uma clandestina e, quem sabe, vivendo eternamente.

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O sol da resistência
ANA LÚCIA MEREGE
Em um mundo onde o autoritarismo acabou com as liberdades individuais, uma jovem descobre que sua mãe é muito mais que apenas uma cidadã inconformada.
Ana Lúcia Merege é carioca, pesquisadora de mitologia e contos de fadas. Trabalha com manuscritos e exposições na Biblioteca Nacional. É autora de artigos e contos publicados em sites e coletâneas, do ensaio “Os contos de fadas” e dos romances juvenis O caçador, Pão e arte e O castelo das águias, primeiro livro de uma série de fantasia publicada pela Editora Draco. Organizou as coletâneas Excalibur (Draco) e, com Ana Cristina Rodrigues, Bestiário e Bestiário: outras criaturas (Ornitorrinco). Mais sobre a autora e seu trabalho em estantemagica.blogspot.com ou pelo Twitter @anamerege.

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“I’d rather be myself,” he said. “Myself and nasty. Not somebody else, however jolly.” Aldous Huxley, Brave new world “Querida mãe, Não existe outra maneira de começar esta carta. Lamento agora ter perdido todo esse tempo, mas, como você sempre disse, nunca é tarde demais para mudar de estrada. Acredito mesmo que não seja, que possa haver uma saída para mim e para outros como eu. Graças a pessoas como você, nós ainda existimos. É o que me faz manter a esperança de dias melhores. O tom destas palavras pode dar a entender que me sinto triste. Na verdade, não me lembro de ter sido tão feliz desde os seis anos de idade. Mais precisamente, até o dia daquela reunião com a coordenadora da escola, quando fomos informados de que a direção tinha decidido aderir ao Método Sinapse. Os alunos “incapazes de acompanhar o aprendizado” tinham trinta dias para se adaptar ou não poderiam renovar a matrícula para o ano seguinte. Lembro-me das expressões de surpresa e revolta, de alguns pais tentando argumentar em meio ao protesto furioso da maioria, da sua mão apertando a minha, talvez com mais força que de costume, quando deixamos a escola antes do horário regular. Eu não fazia ideia de que aquela seria a última vez. Em casa, você tentou me explicar o que tinha acontecido, o que provavelmente iria acontecer dali em diante, mas naquela idade eu não conseguia entender os detalhes. Só com o passar dos anos fui compreender as implicações de sua escolha. Ou melhor, de suas várias escolhas, começando por aquela que você fez assim que nasci e tive de ser levada ao Centro de Cadastramento do nosso bairro. Lá, juntamente com as vacinas contra duzentas e catorze doenças e um chip contendo informações sobre outras tantas, ofereceram-lhe uma nova tecnologia: um pequeno dispositivo a ser implantado, de forma indolor, sob o meu couro cabeludo. A finalidade era transmitir pulsos elétricos, também indolores, ao cérebro dos bebês, “fortalecendo assim as sinapses e assegurando um aprendizado rápido e o melhor aproveitamento do potencial de cada futuro cidadão”. Esse era o texto do folheto assinado pela Diretoria Federal de Saúde, o qual também continha um longo histórico acerca da empresa que fabricava o sensor. Chamava-se, justamente, Sinapse, e trabalhava havia muitas décadas no ramo da inteligência artificial, com aplicações nas áreas da educação e da medicina. Seus dispositivos tinham sido aprovados pelas federações reguladoras de saúde da maioria dos países desenvolvidos, por isso não havia nada a temer. Pelo contrário: prevendo uma improvável eventualidade, o implante dava direito à assistência da Mens Sana, a empresa de saúde associada à Sinapse – e quem não iria querer tantas vantagens para o seu bebê? Pois justamente você, uma educadora e agente cultural, você, minha mãe, não quis. Sua negativa foi vista com estranheza, mas não contestada. A tecnologia era recente; um implante, mesmo subcutâneo, mesmo feito por especialistas, dava um pouco de receio. Várias famílias recusa-

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ram. Mas aquelas que se arriscaram tiveram a agradável surpresa de ver seus filhos desenvolverem bem rápido alguns tipos de inteligência, principalmente a lógica e a matemática, e logo se tornarem crianças decididas e muito racionais. Não que se distinguissem tanto assim das que não usavam o implante, mas sempre se saíam muito bem, e isso aumentou a partir do momento em que as escolas começaram a adotar o método de aprendizado desenvolvido pela Sinapse. Ao longo da minha infância, fui obrigada a mudar três vezes de escola, pois a política de “inclusão” aplicada a crianças que não enxergavam ou portadoras de certas síndromes não servia para aquelas cuja família se recusava a usar a nova tecnologia de ensino. Você criou um grupo de pais e professores que partilhavam dessa convicção e negociou com as escolas, depois acabou participando da fundação de um Centro de Aprendizado Alternativo, onde concluí meus estudos pré-universitários. Os últimos anos foram cheios de preocupação e revolta, pois eu tinha grandes planos, mas temia vê-los frustrados por causa da escolha que você fizera por mim. A julgar pela propaganda com a qual nos bombardeavam de todos os lados, não ter acesso ao Método Sinapse nos deixaria de fora das melhores escolas, das melhores universidades e, consequentemente, dos melhores cargos e empregos. Por várias vezes tentei fazer com que você compreendesse isso, mas a mãe sempre flexível e disposta ao diálogo jamais cedeu um milímetro que fosse nessa questão. Você dizia que sempre haveria lugar para pessoas como nós, que aprendiam através de livros, professores e da própria vivência, e eu sabia que você falava com sinceridade, pois nunca duvidei de que quisesse o melhor para mim. Mas como ter certeza de que você sabia o que era melhor para sua filha quando ano após ano cada vez mais famílias e escolas aderiam ao Sinapse? Como eu iria competir com aqueles jovens de cérebros eletricamente estimulados, que resolviam equações complicadas no mesmo tempo que eu levava para fazer uma conta de somar? Meus argumentos eram rebatidos com uma resposta invariável: eu devia observar melhor as crianças que usavam os dispositivos. Elas eram arredias, ensimesmadas, com pouco tato e habilidades sociais. Isso, porém, jamais me incomodou, porque eu também não era uma pessoa gregária. Não chegava a ser fechada como meu pai — quase um eremita em seu laboratório de bioquímica, a ponto de abrir mão das visitas semanais e mal me ver uma vez por ano —, mas nunca fui tão sociável quanto você, cheia de amigos nos quatro cantos do mundo e sempre disposta a trabalhar para fazer, como você dizia, “ao menos uma pequena diferença”. Isso eu também queria fazer, mas através de uma carreira bem-sucedida, o que parecia cada vez mais difícil de alcançar sem o Método. Era por isso que brigávamos: porque você me negava o que era apregoado como o maior presente que um pai poderia dar a um filho. E durante muito tempo não fui capaz de perdoá-la. Quando fiz dezesseis anos, a Sinapse reinava sobre nós com as asas abertas. O implante básico, agora quase compulsório, ainda era oferecido de graça, porém modelos mais sofisticados estavam disponíveis para quem pudesse pagar. As escolas adquiriam versões diferenciadas de acordo com o valor cobrado pelas mensalidades. Ainda me lembro da grande sensação causada pela primeira versão a incluir um minidrive, o qual, acoplado ao sensor, transmitia não apenas pulsos elétricos mas imagens, frases e todo tipo de conteúdo que se fixava na área da memória. Isso também era indolor, mas — você repetia — cada vez mais perigoso para os jovens que viviam a experiência e para toda a sociedade. Estamos robotizando nossos filhos, você dizia nas redes sociais que ainda eram permitidas. Estamos entregando nosso futuro a esses robôs e à corporação sem rosto que os programa de acordo com seus interesses. De tempos em tempos havia recadastramentos que permitiam às crianças mais velhas adquirir implantes. No entanto, você nunca autorizou minha inscrição. O fim do crescimento determinou que eu seria para sempre uma “excluída tecnológica” — foi o que gritei, aos prantos, quando expulsei você do

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meu quarto —, mas mesmo assim entrei para a universidade, onde sobravam vagas em muitos cursos da área de ciências humanas. Lá, como uma espécie de revanche, inscrevi-me num programa de aprendizado hipnopédico e aprendi oito idiomas, quase todos orientais, como khmer, tailandês e vietnamita. Esperava, a qualquer momento, ouvi-la perguntar que utilidade eu teria para aquilo, mas o tiro saiu pela culatra: além de aprovar minha escolha, você conseguiu que alguém me recomendasse para um emprego, no qual eu traduzia manuais técnicos e rótulos de produtos provenientes do mercado asiático. Enquanto eu me entendia com os caracteres estrangeiros, você e alguns amigos fundaram um grupo dedicado a investigar os atos da Sinapse e logo se tornaram conhecidos em todo o país. Não conseguiram provas de que os implantes causassem verdadeiro mal; não houve famílias mortas pelas crianças submetidas ao Método, nenhuma cabeça explodiu, mas vocês reuniram estatísticas sobre comportamentos egoístas, sobre o abandono das artes e ciências humanas e — quando a primeira geração dos possuidores de implantes chegou à direção das empresas — sobre o alarmante retrocesso nas políticas sociais e trabalhistas. Nessa época, já não nos encontrávamos com frequência, pois meu salário permitira que me mudasse para um pequeno apartamento num bairro mais central. Morando perto do trabalho, muitas vezes fazia horas extras e, ao chegar em casa exausta, com oito diferentes idiomas brigando na cabeça, quase nunca achava algo para dizer que justificasse retornar as mensagens que você deixava. Por fim, você também se decidiu a fechar nossa antiga casa, com a coleção de livros impressos de que tanto gostava, e se mudar para um sítio localizado na periferia da cidade. Então, de repente, eu via você quase todos os dias. Primeiro apenas como um dos rostos indignados e alarmados do grupo que denominavam de Alerta Sinapse; depois como a porta-voz que os meios de comunicação faziam de tudo para ridicularizar; por fim, já nas horas seguintes ao Golpe, como inimiga do Estado, citada em uma centena de processos e logo detida para averiguações. Não acredito que as próximas gerações reconheçam o Golpe como tal. Na verdade, ele não passou da tomada do poder pela Sinapse e suas empresas associadas, através de um presidente e um partido completamente subordinados a elas. Logo depois disso as redes sociais foram tiradas do ar, e todas as comunicações passaram a ser feitas por um sistema controlado pelo Governo. A maior parte dos direitos trabalhistas caiu por terra; as empresas redistribuíram funções de acordo com o nível de instrução recebido pelos empregados através do Método, favorecendo os filhos da elite econômica. Claro que as coisas não eram colocadas de forma tão crua. Quem, como eu, não tinha implante ou possuía o tipo mais básico não foi sumariamente despedido, mas sim convocado a “provar seu valor” para a empresa, o que se traduzia em trabalhar cada vez mais e às vezes ser deslocado para funções subalternas. A ascensão não era impossível para essas pessoas, mas, quando acontecia, geralmente se dava às custas de um enorme sacrifício. Não foram poucos os trabalhadores na faixa dos cinquenta anos que se aposentaram mais cedo e com salário reduzido por não poder fazer frente às exigências. Cinco anos após o Golpe, o implante passou a ser obrigatório para os recém-nascidos, que deviam frequentar as creches públicas ou credenciadas desde os três meses de idade. Essas creches, assim como as escolas para crianças mais velhas, recebiam do Governo os nanodrives que eram plugados num receptor implantado na cabeça dos alunos. Isso levava diretamente ao cérebro a informação que achassem por bem fornecer aos filhos de cada classe social. Quando não estavam absorvendo aquilo, eles ainda brincavam, mas sempre orientados por monitores. Nenhum jogo ou brincadeira era espontâneo. As artes também eram praticadas, principalmente a música, mas nada do que se fazia nesses campos tinha repercussão se não seguisse

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estritamente a fórmula preconizada para o sucesso. Inovação, variações e criatividade não eram proibidas, mas postas de lado, ignoradas por aquela massa de jovens – e agora não tão jovens – que se acostumara a ver o mundo através de um buraco de fechadura. E como eu estava nisso tudo? Pior que antes, mas ainda com a cabeça fora d’água. Aos trinta e três anos, tinha-me mudado para um conjugado pertencente à empresa, a cinco minutos da sede, e minha carga de trabalho passava facilmente das sessenta horas semanais. Ainda assim, tinha sorte por manter meu emprego, o qual agora incluía a supervisão das máquinas que tinham substituído vários de meus colegas. Os que restaram costumavam ir juntos a um bar e beber em silêncio, olhando para uma tela que transmitia as notícias julgadas relevantes pela Sinapse. Foi nessa tela que vi você deixar a prisão, beneficiada por uma lei de anistia para opositores não violentos do sistema. Não a entrevistaram, mas eu sabia que você continuava lutando por sua causa; que não deixaria de tentar impedir nossa sociedade de se transformar naquilo que, certa vez, você chamou de Admirável Mundo Novo. Eu sabia que era algo ligado à literatura, mas não tentei descobrir mais nada a respeito. Já olhava para a palavra escrita dez horas por dia, seis dias por semana, ainda que fossem apenas as especificações de alimentos quimicamente enriquecidos. E, quando podia me afastar daquilo, não era para um livro que eu queria olhar e sim para Max. Eu o conheci no bar, na noite em que anunciaram a sua libertação. A transmissão seguinte foi o boletim de meteorologia, quando todos se lembravam de ir até o balcão e pedir mais uma cerveja. Max se aproximou, puxou conversa, logo trocamos nossas histórias e nossos contatos. Tínhamos muito em comum, a começar pela idade, quase trinta e quatro, e pelo fato de termos começado a vida sem um implante. Os pais dele haviam voltado atrás quando o filho estava no terceiro ano, mas eram modestos, de forma que Max só recebeu o pacote básico de instrução. Não conseguiu entrar numa universidade para estudar veterinária, como sonhava, mas era inteligente e esforçado o bastante para manter seu emprego de gerente numa pet shop. Como ele, eu gostava de animais, preferia o campo à praia e tinha um fraco por filmes antigos, e de afinidade em afinidade acabamos por decidir viver juntos. O casamento foi pro forma, apenas para recebermos três dias de folga, pois nem sequer teríamos a quem convidar para uma festa. Os pais de Max já tinham morrido, assim como meu pai, vítima de um câncer que você afirmava ter sido adquirido no laboratório; eu perdera o contato com meus avós e tios paternos. Quanto a você, tinha aparecido uma ou duas vezes nos noticiários, sempre falando em prol dos direitos humanos, embora de forma discreta, que ainda era tolerada. Não tornara a questionar a Sinapse, mas o que disse foi suficiente para despertar a má-vontade de Max, para quem os atos do Governo eram inatacáveis. Recém-casada, eu tinha coisas melhores a fazer com meu marido do que discutir por causa de política, mas a verdade é que no fundo eu concordava com suas críticas. Teria gostado de voltar ao assunto com você e refletir sobre os argumentos que refutara durante tantos anos por apoiarem sua recusa a me proporcionar o que eu pensava ser um bom futuro. No entanto, eu sabia que sua comunicação estava sendo vigiada, e não queria acarretar problemas para mim ou Max, de forma que quando fui visitá-la só falamos de amenidades. Você pareceu entender, passou o tempo todo segurando minhas mãos e me fitando com olhos brilhantes, e só quando nos abraçamos em despedida sussurrou uma frase fora de contexto. Tailandês, foi o que você disse. Leia com atenção. E antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta você me afastou delicadamente em direção à saída. Dez dias mais tarde, fui chamada a um escritório da Diretoria de Defesa Nacional para prestar declarações. Não me acusaram de nada, apenas perguntaram se tudo havia corrido bem em nosso encontro e o que eu pensava de suas ideias. Dei a resposta que se esperaria das pessoas sem

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o implante — que adoraria ter um, mas vinha me arranjando como podia sem ele — e fui dispensada sem mais perguntas. À noite, o noticiário informou que você conseguira burlar a vigilância, provavelmente com a ajuda da organização subversiva conhecida como Sol, e que o Governo prometia uma recompensa a quem tivesse informações sobre o seu paradeiro. Foi mais ou menos uma semana depois que recebi a mensagem. Suas palavras ao nos despedirmos pareciam sem nexo, mas logo compreendi o que significavam e passei a ler com atenção redobrada os rótulos que vinham em tailandês. Foi uma alegria, mas não uma surpresa, encontrar palavras estranhas entre os ingredientes de uma ração para peixes ornamentais: mãe, segura, Sol, resistência. Mais adiante, o que supus ser um meio de entrar em contato: emergência, lixeira, parque. E na última linha um conselho: Escolha. Não o Questione que você repetiu durante tantos anos. Talvez você soubesse que, chegando à idade adulta, eu já não ia precisar que me abrissem os olhos. A situação era clara; eu podia ficar feliz por minha vida ainda ser suportável ou me revoltar por não fazer parte da festa. Essa era a escolha possível. E, naquele momento, eu ainda não sabia como agir. Foi a Sinapse que acabou decidindo por mim. Após um ano de vida em comum, Max e eu estávamos prontos para ter uma criança. Os nascimentos haviam diminuído muito, por isso o Governo tinha criado um pacote de incentivos para as mulheres que engravidassem, com redução das horas de trabalho, plano de saúde da Mens Sana com direito a remédios e exames e, é claro, o primeiro implante para o bebê. Max estava animado e me comoveu até as lágrimas, fazendo planos de trabalhar ainda mais duro para pagar escolas e dispositivos melhores. Queríamos proporcionar a ele ou ela o que não tivéramos, embora, é claro, também estivéssemos mais que dispostos a lhe dar todo o nosso amor. A gravidez foi confirmada numa quarta-feira. No sábado, recebi a visita de um agente de saúde, que fez um rápido teste de sangue, afirmou que teríamos um menino e me deu um vidro de suplementos vitamínicos. Eu tinha de tomar uma pílula por dia. Respondi que sim, é claro, e sorri ao me despedir daquele homem sério e ao mesmo tempo solícito. Pouco depois, quando já tinha enchido um copo d’água para tomar a primeira pílula, a força do hábito me levou a ler o rótulo colado no vidro, e me assustei com a lista de aditivos. Uma substância, em especial, me deixou apreensiva, pois era usada em remédios que controlavam distúrbios neurológicos, e eu me lembrava de ter traduzido bulas que proibiam terminantemente o uso por mulheres grávidas. Isso não pode fazer bem ao meu bebê, pensei, devolvendo a pílula ao vidro. E, ao mesmo tempo, soube a quem recorrer para confirmar a suspeita. O parque mencionado em sua mensagem só podia ser o da minha infância, aquele em que você me levava, quando bem pequena, para brincar na gangorra e no balanço. A lixeira estava lá, repintada de azul e pichada com um slogan do Governo. Olhei para todos os lados antes de atirar minha carta, escrita em tailandês por segurança e embrulhada num pedaço de plástico. Fiquei um pouco ali para disfarçar, depois voltei para casa e para Max, mas não tomei as pílulas suspeitas. Esperava uma resposta, e esta chegou dois dias depois, no mesmo esquema que misturava palavras-chave aos textos dos rótulos que eu lia no trabalho. Não tome, dizia a mensagem. Substância nociva. A lista de conservantes do molho de tomate prosseguia por mais umas linhas até chegar em outra advertência: Isso só começo Admirável Mundo Novo. Ali estava, de novo, a citação, e dessa vez entendi que precisava encontrar a fonte. Uma busca na rede aberta de pesquisas não seria sensata. Nem em meus momentos mais rebeldes eu duvidei de

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que o Governo, ou a Sinapse, nos mantinha sob vigilância, mas me lembrei da coleção de livros que você tinha deixado em nossa antiga casa e fui até lá num dos meus raros dias de folga. Sem me deter recordando os bons tempos nem lamentar a poeira que cobria os móveis, localizei o livro que queria e o levei para ler num parque diferente, onde ninguém jamais me vira nem veria de novo. Você sempre me disse que a literatura tinha muitas finalidades. Entreter, informar, conduzir à reflexão e várias outras que não lembro agora. Posso dizer para que serviu a leitura daquele livro: para me dar um tapa na cara. Ali estava, bem debaixo do meu nariz, o plano que a Sinapse vinha levando a cabo: o de uma sociedade dividida em escalões, determinados não apenas pelas posses e pela educação, mas por intervenções que tinham começado com os pulsos elétricos e agora se encaminhavam para a manipulação genética. Não que a próxima geração já fosse ter seus Alfas, Gamas e Ípsilons, mas tudo levava a crer que as crianças seriam lenta e deliberadamente moldadas nesse sentido, até que, dentro de algumas décadas, chegássemos a uma situação semelhante à do livro. Sem família, condicionados a tarefas mais ou menos especializadas desde antes do nascimento... e felizes. Sempre felizes. Era isso o que mais me angustiava. Algumas semanas se passaram sem que eu soubesse como agir. Ao fim desse período, o agente de saúde foi à minha casa, e um exame das substâncias em meu sangue revelou que eu não tomara os suplementos. Menti, dizendo que perdera o vidro, e ele balançou a cabeça, dizendo que eu fora negligente e que seguir as prescrições para a gravidez era minha responsabilidade. Ainda assim, ele me daria uma segunda chance e me estendeu um novo vidro, dizendo que eu tratasse de tomar as pílulas ou poderia perder o bônus concedido pelo Governo. Minha empresa saberia e ficaria livre para me demitir se desejasse, e até Max perderia suas garantias, de forma que estaríamos arriscando nossa renda e o futuro do bebê. Ou por acaso eu não sabia da lei que estava em votação, segundo a qual os pais sem condições financeiras perdiam o direito à guarda dos filhos? Ouvindo isso, Max ficou nervoso e prometeu que me faria tomar as pílulas, dia após dia, sem pular uma só. Quando o agente se foi, tentei lhe explicar tudo, mas ele se recusou a me ouvir e a acreditar na minha história. Mostrar o livro, falar sobre você, tudo isso tornaria as coisas piores, por isso não insisti e fingi concordar com o discurso de Max sobre as boas intenções do Governo. Beijei-o por cima dos pratos sujos do jantar e fui para o trabalho, que naquela ocasião era no turno da noite, ainda sem saber como escapar daquela situação. Por duas horas, enquanto traduzia mecanicamente as palavras na tela, refleti sobre as minhas opções, e a conclusão a que chegava era sempre a mesma. Eu precisava da sua ajuda, precisava que você me dissesse como agir e para onde ir, e que fizesse isso o mais rápido possível. Dificilmente poderia incluir Max nos meus planos. Embora lamentasse, não havia outro jeito se eu quisesse manter o bebê a salvo. Respirei fundo, baixando a cabeça por alguns segundos, e quando a levantei tive uma surpresa. Diante de mim, naquela sala onde eu passava a noite inteira a sós com as máquinas, estava uma jovem oriental, o rosto sem expressão, as mãos estendidas segurando uma bandeja com pacotes embrulhados em celofane. Um brinde especial, disse ela. Da empresa que importa os produtos da Tailândia. E, antes que eu pudesse reagir, deixou um dos pacotes sobre a minha mesa e saiu pela porta dos fundos. Olhei para todos os lados antes de pegar o embrulho e desamarrá-lo com as mãos trêmulas. Tinha quase certeza de que era uma mensagem sua, mas também podia ser uma armadilha; eu não sabia o quanto estava sendo vigiada. Minhas desconfianças, porém, se esvaneceram ao ver o conteúdo do pacote: biscoitos decorados com caracteres que, traduzidos, formavam meu apelido de infância. Cada um deles era embalado com papel de arroz, que eu ia mastigando e engolindo à medida que lia o texto escrito em tinta comestível. Dessa vez não eram apenas palavras, mas

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instruções completas sobre onde ir, quando ir e o que esperar se eu decidisse me unir ao Sol, a organização que havia tirado você do país. Se aceitasse a ajuda deles, eu teria de me comprometer com a causa, o combate mundial a governos como o nosso e corporações como a Sinapse. Seria perigoso, você ponderava; dificilmente haveria volta, mas, à exceção de Max, não havia muito para o que eu quisesse ou pudesse retornar. A mensagem terminava com uma recomendação de cuidado, um beijo e o seu apelido familiar, mas depois vinha um P. S., que eu mal consegui perceber e ler antes de levar o papel à boca: Se puder, faça a diferença. Dobrei cuidadosamente o celofane do embrulho enquanto engolia o último bocado. Não sabia o que pensar, ou melhor, não conseguia refletir como de costume, pois a verdade é que uma ideia me ocorrera assim que li aquela frase e se fixara como uma garra em meu cérebro. Tentei afastá-la, pesar outras possibilidades, mas ela se recusava a ir embora. Era como uma compulsão, cada vez mais forte, controlando minha mente e meus movimentos, e quando dei por mim já estava obedecendo àquele impulso irresistível. Estava escrevendo. A maior parte dos rótulos que eu traduzia e enviava para as máquinas de impressão era ignorada pelas pessoas que adquiriam os produtos, mas naquela noite eu tinha algo especial: uma pomada com hormônios que se destinavam a favorecer a fertilidade. Seria usada por mulheres que desejavam ser mães, e eu sabia que a maioria delas leria as instruções para uso, por isso foi ali que inseri minha mensagem. Teve de ser bem resumida, mas contei sobre a droga no suplemento vitamínico, afirmei que aquilo fazia parte de um plano muito mais amplo e alertei sobre o controle abusivo da Sinapse sobre nossa vida. Sem pausas que pudessem dar lugar ao arrependimento, mandei o texto para a impressora e saí no momento exato em que acabava o turno, deixando que a máquina da portaria escaneasse minha íris pela última vez. O que se seguiu foram os passos descritos no papel comestível. Peguei o metrô transurbano e desci na última estação; de lá caminhei por meia hora a fim de chegar a uma loja de importados chamada O Sol da Tailândia. Os donos idosos me reconheceram por meio de uma senha e me levaram para um cômodo nos fundos, onde fiquei até que, de madrugada, o velho me levou de carro até uma pequena pista de decolagem. Um antigo avião do exército me aguardava, pilotado por um ex-militar de seus cinquenta anos, e agora faz três horas que estou voando rumo a um país estrangeiro. Por segurança, ele não quer me dizer qual, mas respondeu corretamente às perguntas que você me disse para fazer, por isso estou tranquila. E mais que isso, como afirmei no início... Estou me sentindo feliz. Não sei ao certo o que me espera quando eu desembarcar. Tudo que sei é que não estaremos juntas, ao menos não ainda. A organização concordou em me ajudar, mas me designou para um grupo sediado em outro país, e meu contato com você será esporádico. Foi por isso que decidi escrever esta carta, que o piloto diz ter meios de fazer chegar às suas mãos. Através dela digo o que talvez não possa dizer nos próximos tempos: que sempre me orgulhei de você ser quem é, por tudo o que disse e fez, e agora também posso me orgulhar daquilo que sou. E que darei o melhor de mim, não apenas por meu filho, mas por todas as pessoas para as quais um pequeno ato de coragem pode representar a diferença. O avião sobrevoa o oceano, um sol brilhante se infiltra pela janela. Em breve o ar da liberdade beijará meu rosto. E assim, pela segunda vez, você me dará à luz.”

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Mais um dia glorioso em Tau Ceti!
LADY SYBYLLA
Em uma colônia empobrecida e explorada, uma pequena órfã se torna heroína enquanto apenas tentava salvar sua vida.
Lady Sybylla é geógrafa, professora, blogueira e feminista, tentando sobreviver no mundo cruel. Fã do futuro e da ficção especulativa em geral, com ênfase na ficção científica. Organizadora e autora da coletânea de ficção científica feminista Universo desconstruído. Leitora compulsiva dos mais variados gêneros. Assina o blog momentumsaga.com.

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1 — Bom dia, Tau 3! Mais um dia glorioso em Tau Ceti! Que belo dia para a colônia! Aqui é a sua rádio colonial, transmitindo em todas as frequências para o estaleiro orbital e para os assentamentos! E vocês sabem que estou abusando da ironia, afinal quem tem o que reclamar do Consórcio Terra e de suas instalações, não é mesmo? Mas deixando de lado as desgraças, vamos aos avisos! Temos alerta de tornados no continente central, então a colônia 4 terá que fechar as escotilhas e suspender as operações de mineração no meio da tarde. O aviso não se aplica às outras quatro, o.k., pessoal? Na colônia 2 teremos limpezas das piscinas de decantação e das caixas d’água, portanto separem baldes e encham banheiras antes do fechamento das válvulas. Uma nave de suprimentos está vindo do nosso querido e longínquo Sistema Solar, uau, lembraram-se da gente, não é fantástico? — O radialista ri da própria ironia perversa. — Ela traz equipamentos novos para a refinaria e para a estação da 4Diamonds, além dos suprimentos adicionais da Cooperativa de Alimentos e encomendas. Quem tiver seu número de rastreio pode ir diretamente à agência. Certo, pessoal? Vamos começar o dia? Que tal um pouco de música? Indara tocou a tela e desligou o rádio. Continuou comendo seus cereais com leite de soja, agradecendo por ter conseguido comprar ao menos um pouco de leite naquela manhã. Os cereais estavam mofados, mas fazer o quê? Vida de colono era assim mesmo, dizia seu pai. Uma vida dura, de privações, cansada. Todos vítimas do descaso. O alojamento da família era pequeno até para os padrões coloniais. Com o crescimento da colônia acima da capacidade inicial estimada, como sempre acontecia, a administração tinha que comprar novos blocos — o que era estupidamente caro — ou tinha que adaptar setores e remanejar equipamentos. Indara morava no que antes tinha sido um pequeno depósito de sobressalentes. Apenas dezesseis anos de idade. Indara deveria estar à caminho de uma universidade àquela altura, mas precisaria sair do setor para estudar em outro lugar, o que não poderia fazer, já que não tinha dinheiro. Tau Ceti não tinha centros universitários. Tinha apenas dois cursos técnicos bastante concorridos na área de mineração e ela admitia que não gostava de estudar. Mastigava seus cereais murchos com leite fraco, olhando para a pequena cadeira no canto da sala. Seu irmãozinho gostava de cereais com leite. Seu irmãozinho não estava mais ali. A anemia profunda e a fome tinha levado seu pequeno companheiro havia apenas um mês. Deixando a tigela de lado, Indara vestiu seu agasalho puído, botou a mochila nos ombros e saiu do alojamento cobrindo a cabeça com o capuz. Bateu a porta com força para trancar. Conseguira trabalho na oficina civil de Tau 3. O Conselho da Juventude agora a tutelava, já que não tinha mais um tutor legal e arrumou trabalho para ela assim que completara dezesseis anos. Mas ganhava tão pouco e gastara tanto com remédios para o pai e para o irmão que o pouco que restava ia para a comida. Quando foram ameaçados de despejo, a comida ganhou status secundário e o aluguel precisou ser pago. Indara evitava pensar nisso, pois sempre vinha a bile na garganta, lembrando o quanto odiava o Consórcio Terra e suas colônias sucateadas. Passou em frente ao Centro Médico e parou um instante. Não tinha coragem de visitar o pai. Não conseguiria olhar para ele e falar que o filho morrera. A fome e a situação de penúria o enlouqueceram e ele fora levado havia pouco mais de um mês para o sanatório colonial, uma ala dentro do CM. Tentou matar os filhos ao não substituir os filtros de CO2 por ser incapaz de alimentar a família. Sabia de

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seu estado pela médica que cuidava dele. Ele ficava andando no quarto, rodando em círculos, balbuciando. Seu pai fora técnico nos hangares, consertando turbinas, e girava o dedo continuamente, o mesmo sinal que fazia quando pedia que alguém ligasse o motor para testar as hélices. Gira-gira, era o que ele repetia. De cabeça baixa, Indara seguiu seu caminho. Atravessou as áreas nobres de Tau 3, vendo os jovens abastados, filhos de funcionários da 4Diamonds, companhia de mineração que custeou as colônias, ou de comerciantes bem-sucedidos, saindo da Alameda, uma área com lojas, lanchonetes e casas de tatuagem. Todos corados, felizes, bem alimentados, comentando sobre o próximo ano, quando estariam todos estudando em Centauro. Bom para eles, pensou Indara. A colônia ficaria, ao menos, melhor para viver. Aqui e ali ouvia alguma agitação. Algo sobre ameaças de intervenção, ataques, terrorismo em outros setores. Indara não ligava. Política era algo que não entrava em sua cabeça. Parecia uma maneira menos suja de fazer guerra e de se gabar por manter a sociedade funcionando, mas a exploração do mais fraco permanecia intacta nos últimos oito mil anos. Blá-blá-blá, malditos. Nas oficinas, Indara trocou de roupa. Vestiu seu macacão, catou sua cesta de trabalho e seguiu para a garagem. Sua função era simples, mas cansativa: limpar o interior dos veículos, encerar bancos, aspirar carpetes, desengordurar vidros. Pequenos reparos podiam ser feitos como apertar parafusos frouxos. Mais um dia glorioso para a colônia, dizia um pôster na parede da oficina.

2 — Bom dia, Tau 3! Mais um dia glorioso em Tau Ceti! Que belo dia para a colônia! Aqui é a sua rádio colonial, transmitindo em todas as frequências para o estaleiro orbital e para os assentamentos! E que sujeira levantou aquele tornado ontem, hein? Tenho areia nas orelhas até agora e nem pude tomar banho por causa do racionamento na colônia 2 — dispara o radialista, a dar risada. — Vamos aos avisos de hoje, pois o Consórcio amanheceu pegando fogo. Literalmente! Um atentado atingiu o Departamento de Administração Colonial em Marte, setor do Sistema Solar, horário padrão da Terra às oito horas. Quarenta e cinco pessoas morreram e cento e dez ficaram feridas. Ninguém ainda assumiu, mas bem sabemos quem pode ter sido, certo? O alerta de tornado continua, galera, então cuidado ao seguir para as minas que estão com as operações na normalidade caso o alerta vá de F3 para F4. O racionamento de água... Rádio desligado. Tinha horas que a voz daquele cara enchia o saco. Indara acordou de um pesadelo naquela manhã. Sonhou que seu irmão a chamava no escuro e não conseguia encontrá-lo. Era comum ter sonhos desse tipo, perdida, sem enxergar, com pessoas dependendo dela. Quem poderia depender dela, agora que não tinha mais ninguém? Dois toques tímidos na porta a assustaram. Era a conselheira da juventude, querendo falar com ela. Saco, esqueceu que era dia cinco. Abriu a porta, tentando parecer simpática, mas nenhum sorriso se formara em seu rosto. Aliás, era algo frequente. Sempre fora uma criança calada, relegada aos cantos da escola por ter poucos amigos. A conselheira a olhou com cuidado. Parecia mais magra do que antes. O cabelo bem curto, preto, acentuava seu abatimento. Jovens órfãos e desassistidos eram muito comuns em colônias pobres. Muitos fugiam em naves para outros sistemas ou morriam tentando fazer isso. Não que a situação no destino fosse muito boa, mas ao menos alimentava muitas esperanças. Não entendia por que Indara nunca tentou sair. Dia cinco era o dia da visita e da revista da casa. Tudo era anotado para os relatórios mensais. Dependendo da situação, o jovem era realocado para uma instituição. O que Indara não queria. Os

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centros de menores e sem tutela eram poços onde gerações eram jogadas, e pouco restava para eles além das forças armadas. Uma maneira eficiente de ter soldados sem se preocuparem com pensões para familiares. Muito lucrativo. Visita feita, poucas palavras trocadas. A casa estava em ordem apesar dos poucos móveis e pertences. Pouca comida no armário. A conselheira prometeu enviar uma cesta com provisões ainda naquele dia. Indara deu de ombros e fechou a porta assim que ela saiu. Precisava trabalhar. Pelo caminho, agitação nos bares e nas telas de informação. As implicações sobre o atentado em Marte se desenrolavam sobre as colônias. Naves de resgate sobrevoavam os escritórios coloniais apagando os incêndios estruturais e retirando corpos. Os sistemas de reciclagem do ar dos domos urbanos estavam saturados com a fumaça que ainda teimava em se erguer. Já passava de sessenta o número de mortos. Soberania Madjen confirmara a autoria. “A liberdade não se cala” podia ser lido em um muro próximo ao prédio atingido. Frase forte, Indara pensou. Algo livre não deveria mesmo ficar calado. Se ficar, não é livre. Um dia inteiro de carpetes aspirados, estofados encerados, vidros desengordurados, parafusos de assentos apertados e Indara estava cansada. Seu corpo franzino para a idade, fruto da subnutrição da infância, cansava-se com rapidez. Chegava em casa sempre com fome e, como dificilmente tinha o que comer, dormia de barriga vazia. Mas não naquela noite. Na porta de seu alojamento, um agente do Conselho da Juventude aguardava e aos seus pés uma caixa azul lacrada. Ela apertou o dedo na tela do protocolo, o agente agradeceu e foi embora. Frutas secas, água, ração padrão, leite de soja, carne processada, até mesmo um quarto de queijo amarelo e um pedaço grande de pão. Grãos para cozinhar. Com a caixa aberta no meio da sala improvisada, ela comia os damascos secos com gula, chorando a cada dentada. Que vida de merda, ela pensava. Merda! Era para isso que o ser humano vivia? Para padecer dia a dia como um merda? Pensou em seu irmão brincando no colo do pai quando ainda era um bebê bochechudo e sadio naquela mesma sala. Antes da mãe morrer, a vida parecia fazer sentido. E agora? Com o estômago cheio, cansada de tanto chorar, Indara caiu no sono no chão ao lado de pacotes abertos e do cheiro bom de comida.

3 O rádio ligou sozinho às sete horas e a despertou subitamente. Sentiu-se deslocada por um instante, a cabeça um pouco confusa por perceber que acordou fora do lugar de costume. — Bom dia, Tau 3! Mais um dia glorioso em Tau Ceti! Que belo dia para a colônia! Aqui é a sua rádio colonial, transmitindo em todas as frequências para o estaleiro orbital e para os assentamentos! Indara estava pronta para desligar a voz irritante para poder comer no silêncio do alojamento. — E a situação em Marte tá piorando, pessoal. Tá feia a coisa. Seu dedo parou no meio do caminho. — Ao que parece, o secretário do Departamento morreu na explosão. Bem como sua família, que se encontrava no prédio. Vários políticos influentes estavam lá naquela manhã marciana e isso tem causado um tremendo mal-estar na política de Ganimedes, que todo mundo sabe, é o satélite do poder no sistema solar, é onde fica a sede do Consórcio Terra. A presidente Gaposhkin fez um discurso inflamado hoje, alertando que não vai tolerar atos de terrorismo contra nenhuma colônia e que retaliará com a força necessária para prender os responsáveis por tamanha barbárie. O número de mortos subiu

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para cento e vinte e doi na última contagem, sem contar os desaparecidos, que não se sabe ao certo quantos sejam. A explosão destruiu o prédio do DAC e também a estrutura da rua e dos comércios à frente. As lajes superiores do prédio ruíram em cascata e podem ter pessoas ainda soterradas nos andares do subsolo. Robôs entraram pelo o que restou do sistema de ventilação e tem levado ar fresco para as pessoas. Existe o risco de fissura embaixo da fundação do domo, parece que tem perda de ar fresco. — A voz do radialista soava preocupada de verdade. — Vamos aguardar novas informações, certo pessoal? Fiquem tranquilos aí. Pegando um novo pacote de frutas secas, Indara pensava em como funcionava a cabeça de um terrorista. Quem morreria por uma causa? Certamente, os membros da Soberania Madjen viam os atentados como um ato heroico contra um poder opressor. Era interessante pensar que o herói pode perder seu status dependendo do lado em que ele se encontra. Com sua mochila nas costas, Indara bateu a porta com força e seguiu seu caminho para as oficinas. Comia fatias de maçã desidratadas enquanto caminhava pelos corredores quando foi jogada no chão. As fatias se esparramaram pelo piso. Um grupo de no máximo seis pessoas corria de um duto de ar para outro. Arrancaram a grade, passaram com pressa, chamando os companheiros, fazendo sinais com as mãos, olhando para todos os lados. Um rapaz a olhou com urgência. Algo como “você não viu nada, certo?”. Indara sabia que os dutos levavam aos esconderijos preferidos para usar drogas, transar e fazer festas. Mas aquele não parecia o caso. Os outros três passaram, com o último fechando a primeira grade. O Urgente a olhou uma vez mais antes de puxar a grade, um olhar que parecia de despedida. Ele sumiu em seguida. Com cuidado, Indara saiu de sua imobilidade e bisbilhotou por entre as grades da ventilação. O túnel estava vazio e pouco iluminado. Precisava ser limpo, pois era possível ver as marcas dos calçados e o arrastar de joelhos por ele. Ela ainda teve tempo de recolher suas maçãs — não desperdiçaria comida — e continuou seu caminho. Um evento estranho em um dia comum... Seu pequeno aspirador era silencioso. Limpava um veículo com bancos confortáveis, mas que cheirava a sorvete. O carpete estava imprestável. A areia fina que saía dos poços de mineração naquele planeta miserável entrava em tudo. Mesmo Indara indo pouco para fora dos blocos coloniais, sempre tinha areia nas meias. De repente, sem nenhum tipo de aviso, seu mundo parecia uma roleta. O veículo girava no ar em piruetas sem sentido, enquanto a oficina brilhava como um sol. Indara conseguiu se segurar no banco enquanto era jogada de um lado para o outro, até que sentiu o baque duro contra o chão e o barulho de metal contra metal. Foi quando tudo ficou misteriosamente silencioso.

Fumaça. Calor. Indara abriu os olhos e se viu de cabeça para baixo. Conseguiu se endireitar e se arrastou para fora do veículo que com certeza tinha sofrido perda total. Sentiu o rosto molhado e limpou com a manga do macacão que ficou rubra. Sangue escorria em profusão de sua testa. Parecia que não estava mais na oficina. Havia um rombo na porta da garagem que vivia fechada para o exterior. Os automóveis que ela atendia serviam apenas nos largos corredores da colônia e não costumavam ir para o lado de fora. A fumaça vertia dos locais chamuscados. Vários de seus companheiros de trabalho jaziam mortos no chão, alguns em posições impossíveis, alguns alvejados.

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Seja lá quem fizera aquilo, fizera o veículo voar pelos ares, o que muito possivelmente salvara a vida de Indara. Com areia entrando rapidamente pelo jato de ar, Indara saiu de lá empurrando as portas que pareciam com defeito. Chegou ao corredor e então ouviu o alerta geral e as luzes vermelhas de emergência acesas no alto da parede. Um alerta desses aparecia quando havia confrontos armados pesados, invasões, explosão do reator. As telas de sinalização estavam off-line. Indara procurou alguém para pedir ajuda, mas os corredores estavam vazios. A cabeça doía, mas o corte parecia melhor. Já não sangrava mais. Apenas tinha um calombo no lugar. Continuou seguindo por corredores paralelos aos corredores centrais. Será que os terroristas tinham explodido a colônia? As seis pessoas que viu no corredor... Eram eles? Teriam coordenado o ataque? Gritinhos finos e choro alto podiam ser ouvidos de onde ela estava. Voltou atrás alguns passos e seguiu um novo corredor que também estava vazio. Encontrou um homem caído no chão com uma bala na testa. Sua camiseta dizia “Professor”. É claro... ela estava no bloco educacional de Tau 3. Conhecia aqueles corredores, mas com a iluminação vermelha tudo parecia diferente. Bisbilhotou o interior. Os gritinhos aumentaram. Ela olhou de novo, mas dessa vez para baixo. Achou que estava alucinando. Era seu irmão! Não! Seu menino, tão meigo, não podia estar ali! Indara abriu e fechou os olhos várias vezes. Não era seu irmão. Mas era um garotinho com o rosto sujo de fuligem. Ele segurava um pequeno bicho de pano, também sujo. Atrás dele, três meninas e mais um menino, todos amuados embaixo da pequena mesa de atividades. Olhando para o corredor, onde via os pés do professor morto, ela pensava se os terroristas não tiveram coragem de atirar em crianças pequenas ou se foi porque eles não as viram. O garotinho a abraçou com força, soluçando. As quatro crianças fizeram o mesmo e Indara se viu rodeada de bracinhos e soluços lacrimosos, que pediam pela mãe, pelo pai, pela avó. Estavam com tanto medo quanto ela, o que crianças pensariam do que estava acontecendo? Sem pensar muito, Indara pegou os cordões da parede. Quando o professor saía da escola com crianças pequenas, ele usava cordões que prendiam umas nas outras e todas elas a outro cordão preso no seu cinto. Assim podia se certificar que nenhuma delas se perderia. Indara, aos cinco anos, descobrira como se soltar um daqueles cordões e começou a correr pela praça central de Tau 3. O pensamento a encheu de saudosismo, por alguma razão. Com tudo pronto, cinto amarrado e crianças atreladas, Indara começou a se esgueirar para fora do bloco educacional. Ouviu passos e fala apressada no final do corredor principal. Abaixada no mesmo nível das crianças, viu soldados passando ligeiros de um lado para o outro. Sacos pretos eram levados para algum lugar. Um deles se apressou em direção ao bloco educacional assim que Indara escoltou os pequenos para um novo corredor à frente da posição dos soldados. Ainda teve tempo de ver quando ele jogou uma granada dentro da sala de aula de onde ela acabara de sair. Fumaça e detritos saíram dela pouco depois. Mas o que estavam fazendo? O que os terroristas procuravam? O jeito era seguir para fora dos blocos administrativos e tentar entrar no civil para, quem saber, obter umas respostas. Certamente a guarda colonial estava aquartelada e recebia feridos e moradores. Não poderia usar a passarela, a principal passagem para os pedestres, tampouco as ruas abaixo dela. Usaria corredores de manutenção. Era mais seguro. Abraçou as crianças na penumbra quando viu que não tinha como fugir de um novo grupo de lançadores de granadas. Não foram vistos. Crianças são espertas. Elas ficaram quietinhas, acatando as

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ordens de Indara e se abaixando quando era necessário. Seu irmão costumava ser bem desobediente. Fazia birra e quase matava o pai de vergonha algumas vezes. Crianças são seres complexos, ela pensou. Mesmo que nunca na vida quisesse ter uma, as admirava. São fortes, muito além do que os adultos pensam que ela são. Em um corredor, Indara precisou parar para observar o que acontecia. Estavam nos arredores da praça central. Boa conhecedora que era dos corredores de Tau 3, ela conseguiu evitar qualquer pessoa que pudesse perguntar quem era e o que estava fazendo ali com quatro crianças. Viu várias pessoas ajoelhadas na praça central, de cabeça baixa. Eles teriam invadido a colônia? Qual era o crime? Odiava ficar sem respostas. As crianças ameaçaram chorar e ela devolveu um olhar irritado para elas. Estavam com fome. Claro, tinham passado as últimas duas horas rodando por corredores e dutos de ar, escondidas de soldados e pessoas armadas por todos os cantos. Enfiou a mão no macacão. Ainda tinha as maçãs desidratadas, que todos comeram. Indara deixou a maioria para elas, comeu uma ou duas apenas para calar o estômago. Não tinha fumaça pelos corredores onde estavam. Nem havia marcas de fuligem também. Um sinal de não haver danos estruturais naquela área. Conforme prosseguiram, notaram a limpeza do chão e a integridade de portas e passagens. Estavam em uma área não danificada. Estava cansada, com dor no corpo, a cabeça batia como um sino e as crianças estavam irritadas, com sono, choramingando. Foram necessários alguns gritos para que continuassem andando. E um desses gritos foi alto demais. Um tiro quase acertou a testa de Indara se ela não tivesse virado para berrar algo mais para as crianças. Arrastando todas elas em sua correria, cruzando corredores, fechando portas, atravessando passagens de mercadorias e de transportadores de lixo, Indara se aproximou do setor habitacional. Ouvia ordens atrás de si acompanhadas de mais um tiro. Uma criança gritou. Um tiro de raspão na perna. Carregando a menina, Indara corria, arrastava, se esforçava, tentando tirar os pequenos da zona de tiro e foi quando viu alguém da administração colonial, nervosamente conversando com um oficial armado, que parecia bem aborrecido. Ambos viram a gritaria e a correria. Quando o Oficial ergueu o rifle, o Administrador se pôs na frente. Não faça isso!, ele berrou e Indara ouviu agradecida. São moradores de Tau 3, não faça isso! Ué? Precisava avisar quem era morador e quem não era? A colônia fora invadida por terroristas e ela quase morrera com um tiro na cabeça. Será que a confundiram com um deles? Sentada no chão, recebendo tratamento na testa e um remédio para dor, Indara ouvia a conversa do Administrador. Tinham danos estruturais nos blocos administrativos e de manutenção, na garagem, nas oficinas, nos depósitos. Mas a estrutura de água, as estufas e o Centro Médico estavam em ordem, assim como o bloco de alojamentos. Indara viu o Urgente. Ele estava algemado, de cabeça baixa, junto de outros cinco, escoltados por soldados. Foi então que num momento de esclarecimento, um momento único na vida de Indara, ela entendeu o que aquilo e tudo o que viveu queriam dizer. Desde o momento em que sua mãe morreu, em que seu irmão padeceu de fome e que seu pai enlouquecer, Indara era vítima do jogo entre o mais forte e o mais fraco. Vendo aquelas seis pessoas escoltadas por soldados do Consórcio Terra, foi possível perceber o que de fato ocorrera em Tau 3. As tropas devem ter recebido alguma dica sobre a presença de terroristas procurados no setor de Tau Ceti e invadiram a colônia violentamente. O momento em que seu corpo girava no veículo na oficina retornou em sua cabeça e ela precisou se ajoelhar e vomitar. Um enfermeiro a auxiliou, dandolhe um copo com água para lavar a boca e o rosto sujos de sangue, bile e poeira.

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Não somos terroristas, porra!, ela pensava. Não somos! Só queremos viver em paz! Alimentar nossa família! O que pensam que a gente é, caralho?! As crianças correram para os pais, pessoas abastadas logo se via. Executivos da 4Diamonds, com certeza, que chegaram afobados, assustados, abraçando as crianças que Indara salvou. Um deles ouviu a história do Administrador, que apontou para a raquítica moça de macacão de oficina caída no chão. A mãe de uma delas se aproximou, passou a mão em sua cabeça, agradeceu pelo ato heroico em um momento de tamanho desespero e se afastou. Parecia que tudo estava em câmera lenta. Do carro da Polícia Militar do Consórcio Terra, agora Indara podia ver o símbolo na fuselagem, olhos escuros a observavam. Era o Urgente, aquele que lhe encarara no corredor. Será que pensava que ela teria dado a dica? O que aqueles olhos queriam dizer? “Você salvou a vida dos abastados, não foi? E o que isso mudou a sua própria vida? O que você fez de diferente até agora, heroína?” A viatura ficou ali por alguns segundos e partiu.

4 — Bom dia, Tau 3! Mais um dia glorioso em Tau Ceti! Que belo dia para a colônia! Aqui é a sua rádio colonial, transmitindo em todas as frequências para o estaleiro orbital e para os assentamentos! Não sei se devo dizer que é um belo dia depois do que houve ontem, não é mesmo? Forças da Polícia Militar do Consórcio Terra estacionadas em Tau 1 invadiram a base ontem buscando terroristas que pudessem ter participação com o atentado em Marte. Mas convenhamos, eles teriam tido tempo de retornar do sistema solar para Tau Ceti? Não sei, não, isso tem que ser investigado direito. Seis terroristas foram presos, mas tivemos dezenas de feridos e vinte euma mortes para a colônia. E tivemos uma história emocionante ontem, quando uma funcionária da oficina conseguiu tirar quatro crianças da zona de conflito e as levou em segurança para os braços dos pais. Bonito, não é? Mas tirando isso, a Administração Colonial está convocando voluntários para a limpeza nos blocos afetados pela entrada forçada dos PMs. Por que não usaram a porta como todo mundo faz? Enfim! Indara desligou o rádio, pegou a sacola e fechou o alojamento pela última vez. Olhou por um momento para o ambiente pobre e descuidado antes de fechar aquele capítulo de sua vida. Na sacola tinha frutas secas, queijo, leite de soja, carne processada. Andava com um sentimento renovado, não sabia bem por quê. Seu rosto ficou conhecido por toda Tau 3, mas ela não gostava desse reconhecimento. Continuava sendo a Indara de sempre, pobre, faminta, subnutrida. Salvou filhos de ricos, enquanto seu irmão era um cubo de cinzas que ela carregava na mochila com seus poucos pertences. Chegou ao Centro Médico assim que o horário de visitas começou. Registrou seu nome na entrada da ala psiquiátrica e o enfermeiro a levou para uma sala particular de refeições. Seu pai estava lá, olhando pelas escotilhas para o lado de fora, vendo os robôs de mineração no poço mais próximo. Indara entrou em silêncio, fechou a porta e começou a montar o café da manhã na mesa, colocando canecas para tomarem o leite, cortando o pão, o queijo, pondo frutas secas num pratinho. — Pai? É Indara. — Sua voz saiu incerta. — Gira-gira — e ele rodopiava o dedo no ar. — Tudo gira, pai. Ela colocou a mão em seu ombro, sentindo as lágrimas penderem dos cílios. Era mais um dia glorioso em Tau Ceti.

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A pequena Marta Cepo
TATIANA RUIZ
Pode um pequeno ser criado em laboratório salvar seus criadores da ganância dos poderosos que querem usá-lo como arma de guerra?
Tatiana Ruiz é cidadã espanhola nascida no Brasil. Capista e atriz, descobriu na escrita o prazer da vida. Possui contos em livros como Insanas... Elas matam, Steampink, Angelus, Piratas – Os senhores das águas sombrias, SOS – A maldição do Titanic e na Amazon, como Tricksters. Também é organizadora e co-organizadora em Steampink, Erótica Steampunk: Por trás da cortina de vapor, Deus Ex Machina: Anjos e demônios na era do vapor e SOS – A maldição do Titanic. Atualmente trabalha em seu primeiro livro solo. Pode ser encontrada no Twitter @LadyBigby ou pelo e-mail taty.ruiz@gmail.com.

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— A pressão está aumentando. Nós vamos perdê-la. — Não! Nós não vamos não. — O suor escorria pela face do homem. — Prepare tudo para o parto. — Mas, doutor, nós não sabemos se ela está pronta ainda... — Teremos de arriscar. — O olhar do cientista dizia tudo e a jovem não teve outro remédio que aceitar. O som dos passos apressados de ambos se unia ao zumbido incessante das maquinas de monitoramento fazendo aumentar o desespero e a sensação de urgência. — Os sinais estão caindo. — Aumente a corrente! — A voz saiu cavernosa e irritada. Não era a primeira vez que faziam isso, por que sua assistente não podia fazer as coisas por si só uma vez, apenas uma vez que fosse, e deixá-lo trabalhar? — Mas foi o que fizemos da ultima vez. Aumentamos em cinquenta e fritamos o... — Então aumente em vinte e cinco, ou menos — interrompeu-a. — Pense um pouco sozinha e deixe que me concentre! Ela parou assustada, com seus grandes olhos azuis piscando muito. Nunca tinha visto o chefe daquela maneira, e isso porque estava com ele havia mais de quatro anos. Conheceram-se quando ainda estudava, ele era seu professor, e Delina se encantara por suas pesquisas a respeito de reprodução celular, células-tronco, quimeras e principalmente, pode-se dizer, seu estudo sobre clonagem. Claro que era um assunto delicado e proibido, mas não é assim que tudo se torna mais divertido? Lembrou como se sentira honrada com o convite para participar de um projeto ousado que, se funcionasse, traria inúmeras glorias e abriria novos campos para a ciência. — O que está fazendo aí parada, menina? Temos pressa! O grito a despertou e fez com que derrubasse a prancheta. Mais do que depressa a recolheu do chão e fez o que lhe foi ordenado. Aumentou a carga de uma das enormes máquinas presentes no quarto secreto e rezou. Era a única coisa que poderia fazer naquele momento, enquanto observava as mãos hábeis de seu acompanhante manejando o bisturi, e a pele artificial se abrindo à sua vontade. Esperava que daquela vez desse certo. Aquilo poderia ser a salvação de ambos, poderia trazer fama e dinheiro, além de prêmios importantes e a realização de um sonho. Nem conseguia imaginar como ele ficaria se falhasse outra vez. Os segundos pareciam eternos e o som do maquinário insuportável. A impressão era de que aquele inferno de luzes pisca-piscas e barulhos diversos jamais acabaria, mas de repente tudo cessou. Delina, que fechara os olhos para rezar, arregalou-os em busca da expressão de seu companheiro de trabalho, temendo pelo pior, e o que encontrou foi um homem emocionado, com um ser que cabia na palma de sua mão e emitia sons como os de um gato miando baixo. Estava viva... Aquele choro era a prova. Estava viva! Os testes seriam incontáveis e com certeza aquela noite não dormiria, mas sentiu as lágrimas escorrerem pelas bochechas enquanto olhava para aquela criaturinha. Era quase como se fosse sua... E de certa forma era. Sua e dele...

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Mais um dia começou. Era o quarto desde que começaram as análises de sangue e o acompanhamento de funções cognitivas. Tudo avançava bastante rápido. Não sabiam exatamente quanto tempo mais ela haveria de ter, afinal estava sofrendo de envelhecimento precoce. O doutor culpava as células idosas da doadora, que ria. Delina era jovem ainda, mas para os padrões de um ser tão diminuto quanto o que tinham diante de si, realmente deveria ser como Matusalém. Deram-lhe nome e sobrenome: Marta Cepo, porque tinha o tamanho de um metacarpo ao nascer. O doutor Herwern tinha essa mania de colocar nomes estranhos em suas criações, ligados à espécies ou ao tamanho, e se não fosse pela assistente provavelmente a pequena se chamaria “Metacarpa” ou algo pior. A “criança” já conseguia se comunicar através de sons ritmados e movimentos, era bastante inteligente e tinha aparência bem próxima da humana. Não duvidavam de que talvez em breve até começasse a falar. Nenhum dos dois admitia, mas no fundo era o que esperavam.

— Bom dia, mamãe. A voz fina soou no amplificador. Era o sétimo dia desde seu nascimento, e Marta já dominava quase completamente a habilidade da fala. Nada em seu organismo podia explicar aquilo, era como se seu corpo se adaptasse e evoluísse conforme as necessidades em uma velocidade estrondosa. Obviamente ainda não tinha maestria, mas talvez em um par de dias fosse capaz de falar melhor que um doutorando, o que causava ainda mais curiosidade em seus criadores. Por isso, assim que descobriram que ela conseguia imitar sons semelhantes a palavras, colocaram um minúsculo microfone preso a todas suas roupas e ligado a um potente sistema de som, para que pudessem ouvir o que ela dizia com perfeição. Infelizmente não possuíam o ouvido tão aguçado, como o de um cão, por exemplo, a ponto de ouvir com clareza sons baixos. — Olá, querida. Como dormiu? — a moça sorria para aquela que já parecia a miniatura perfeita de uma criança de seis ou sete anos. — Já pedi que não deixe ela te chamar assim. — Herwern parecia mais mal-humorado que o comum. — Ela vê TV no meu celular, me ouve falando com meus pais... Eu sou o mais próximo de uma mãe que ela tem, e não vejo nada de mal. Além disso, socializar é algo importante para nossa pesquisa, temos de saber como ela se comporta em um ambiente familiar, isso faz toda a diferença para um ser humano... — Isto não é um ser humano — interrompeu o cientista. Ela odiava essa mania dele de cortar seu pensamento tão bruscamente. Ainda mais quando era para falar algo assim. — Ela é uma quimera, como todos os outros. A diferença é que por alguma razão ela evolui de forma diferente e parece mais humana, só isso, mas não sabemos até quando. O sorriso sumiu do rosto de ambas. O choque de realidade matinal era sempre a pior parte. Por sorte só ocorria a cada dois dias, quando o cientista aparecia. Como de costume, Marta se banhou e colocou o avental que Delina costurara para ela, imitando os de hospitais. Após os exa-

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mes foi ao armário improvisado no canto de sua jaula — apesar de não ser como as outras, tinha de dormir e viver igual — e escolheu um bonito vestido de primavera, comprado em uma loja de brinquedos. Estava realmente muito fofa, o tipo de boneca que se tem vontade de colocar numa prateleira com vigilância para ninguém roubar. — Os testes estão todos limpos — informou Delina. Sua voz mostrava o desagrado a respeito do modo como estava sendo tratada desde que o experimento dera frutos. Não sabia se ele havia percebido algo ou se apenas tivera um ataque de consciência, mas viu a feição do homem mudar de raiva a derrota e desespero. Quase teve pena dele. —Eles estão cada vez mais perto — confidenciou o cientista — e temo que todos os nossos esforços sejam inúteis. — Eles quem? — Delina recebeu um olhar em resposta. — Se não me contar, não vou poder te ajudar — ela continuou, sob o olhar curioso daquele que pela primeira vez reparava na mocinha da prancheta. — Eles... A máfia da ciência... Aqueles que querem a guerra entre os homens... As pessoas para quem trabalho — disse por fim, em um suspiro. Delina se deixou cair sentada em uma cadeira. O que ele havia dito? “As pessoas para quem trabalho”? Como assim? Para quem trabalhava? Como se lesse seus pensamentos, seu chefe começou a contar tudo. O início de suas pesquisas, o total fracasso, o quase impedimento de suas funções por parte do conselho nacional, como conhecera O Homem — chamava assim o patrocinador de suas insanidades — e como se tornara famoso da noite para o dia, fazendo palestras ao redor do mundo sobre seus temas favoritos. Para que mentir e esconder? Nada mais importava agora que queriam descobrir onde era seu laboratório secreto e repassar a pesquisa a alguém mais jovem, ambicioso e disposto a todo tipo de vileza do que ele. Seus contratantes queriam criar seres inteligentes, fortes, ágeis, que combinassem o melhor de cada espécie, mas cuja aparência fosse a mais humana possível, e utilizá-los como armas em guerras ou moedas de troca entre países aliados. Fonte de poder... Esse era o resumo de tudo. Aquilo sobre evolução da ciência, descoberta de curas e alternativas para transplantes, o papo todo sobre salvar vidas, não passava de mentiras bonitas para enganá-lo e convencê-lo a prosseguir. Tinha cometido o maior erro de sua vida ao levar fotos de seu mais recente trabalho: a diminuta senhorita Cepo. — Eles queriam que eu criasse outros como ela, em tamanho humano e força física maior. Eu lhes disse que ainda não tinha dominado a técnica, e ela era uma exceção. Expliquei que ainda não tivera tempo de fazer os testes necessários em seus órgãos, saber se podem ser transplantados ou se ainda temos muito pela frente, e me disseram que nada disso importava. Como, nada disso importava? Foi justamente o motivo que me trouxe a esse lugar! — Fica calmo. Vai ficar tudo bem, você vai ver. — Não há como ficar calmo. — Afastou-se, passando a mão pelos cabelos grisalhos e depois pelo rosto repleto de barba por fazer. — Eles sempre conseguem o que querem. — Então nós faremos com que dessa vez seja diferente. — Os dois olharam para trás, de onde vinha a voz miúda. Era Marta, com ar decidido.

A PEQUENA MARTA CEPO

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— Ele entrou mestre. É um galpão abandonado, mas por minha experiência posso dizer que há mais do que apenas o prédio. Ali dentro deve existir um potente sistema de segurança e talvez um subterrâneo, já que a construção não é grande o suficiente para tudo o que ele precisa fazer. — Ele não pode ter mais de um local? — perguntou a voz metálica ao telefone. — Não, senhor. Um homem como ele gosta de praticidade, ter tudo sempre à mão. Não arriscaria precisar de algo no meio da noite e ter de ir a outro canto buscar. Não... — abriu um sorriso malicioso — , Herwern é inteligente. Sabia que quanto menor o local mais difícil de acreditar que é o certo. É por isso que acho que talvez esse seja um daqueles abrigos nucleares que as pessoas costumavam construir antigamente, enormes no subsolo e com uma pequena casa por cima. Devemos invadir? — Não! Deem mais alguns dias. Vamos deixá-lo acreditar que está livre. A risada de ambos se reuniu enquanto a limusine negra se afastava da rua suja e do portão enferrujado. O homem de terno desligou o aparelho telefônico, ainda sorrindo. Mal poderia esperar até ver a cara do velho professor quando estivesse roubando tudo dele.

— Arquivo de gravação de Marta Cepo. (Eu ainda não acredito que permiti que fosse colocado esse nome nela.) Doutor! Estou tentando gravar aqui! — Delina se irritou com a interrupção, que ficou como fundo de seu diário de pesquisas. O homem riu, fazendo-a relaxar. — Continuando. Décimo quinto dia. Marta tem aparência de uma jovem adolescente e seu tamanho é de... Fique em pé, meu bem. Isso, por favor... Ah... Dezesseis centímetros. (E meio! Eu vi.) O.K., Dezesseis centímetros E MEIO... Feliz agora? – Marta sorria e chacoalhava afirmativamente a cabeça. Aquele meio centímetro poderia fazer uma diferença gigantesca no fim das contas. Ou assim sua mente adolescente preferia pensar. – Agora será que posso gravar sem ser interrompida? Obrigada. Os exames mostram que suas funções estão perfeitas, seu corpo está se adequando bem às mudanças climáticas e até o momento tem envelhecido o equivalente a um ano por dia. Ainda não sabemos quando e nem se isso vai parar ou mudar. Só o que sabemos é que o protótipo — a pequena fez uma careta ante esse nome — sente imensas... COSQUINHAAAAAAAS!!!! E desligou o gravador, virando-se para onde estava a garota, fazendo cócegas com a ponta dos dedos. Marta ria e o cientista sorria observando a cena. Era bom ter a sensação de uma família, no fim das contas. Era uma sensação reconfortante e, tinha de admitir, jamais acreditou que a sentiria um dia. Uma semana se passara desde a última vez que falou com seu empregador, que estava muito quieto, não tinha procurado por ele e nem tentado segui-lo. Sem dúvida, ele tinha mais cientistas trabalhando em seu projetinho sujo. Talvez o avanço deles tivesse sido mais significativo... Recebia chamadas todas as segundas, quartas e sextas e tinha de encontrar com eles terças, quintas e sábados para entrega de materiais e resultados, mas havia já oito dias que não sabia nada dos engravatados. Suspirou aliviado. Talvez realmente não precisassem mais dele. Não seria o culpado da destruição do mundo, afinal. Permitiu-se, pela primeira vez em quinze longos dias, curtir a família recém-descoberta. Notou o brilho no olhar da assistente com sua aproximação. Ela era bastante bonita e dedicada. Quando a conheceu era só uma garotinha desajeitada e agora a via como uma mulher da ciência. Sentia orgulho de ter participado desse amadurecimento. — Tem algo no meu rosto? — Delina perguntou se limpando, e foi nesse momento que ele percebeu que a estava olhando demais.

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— Não... — Disfarçou e foi para longe. Não tinha nenhuma janela que desse para a rua, ou teria visto o carro preto parado na esquina e deduzido o que os aguardava.

— Tudo pronto chefe. — Ótimo. Agora entre lá!Livre-se de tudo que não tiver importância. — E o professor? — Quero apenas os animais, os papéis da pesquisa e a assistente. Todo o resto que não tem importância é seu para fazer o que quiser. A chamada foi desligada pouco tempo depois. Com um sinal, todos os outros carros entraram em formação ao redor do prédio, que era afastado o suficiente para ninguém estranhar o ocorrido e nem ouvir os gritos. O homem desceu da limusine e ergueu um dos braços. Estava satisfeito com o rumo dos fatos. O braço foi abaixando e os comparsas organizando as armas. A ordem já tinha sido dada, agora só faltava a execução. O estrondo na porta assustou os que comiam tranquilamente em um piquenique improvisado no meio do laboratório, fazendo-os pular. — Mas o que é isso? Este lugar é propriedade privada! — O doutor Herwern protestou, mas levou uma cacetada na cabeça, ficando caído. Delina gritou, mas antes que pudesse fugir levou também uma pancada, desmaiando. Marta, como era pequena, foi capturada logo e jogada dentro de um saco. Os homens vasculharam tudo à procura de um alçapão ou algo que revelasse uma entrada secreta, coisa que foi logo encontrada. Em poucos minutos o laboratório e o subsolo estavam vazios e os furgões partindo lotados.

Quando abriu os olhos, a jovem percebeu que não estava em sua casa. Não fazia ideia de que lugar era aquele. — Ah, a princesinha acordou. — A voz era grave e falhada, como se o esforço em falar fosse muito grande. Marta procurou quem falava e se deparou com um macaco. Pelo menos parecia um, só que bem menos peludo. — Como vai, vossa alteza? — A ironia em seu tom era quase esmagadora. — Quem é você? Onde estamos? — Sentia-se sufocada. Olhou ao redor com maior atenção. Estava em um quarto sujo e cheirando a mofo, repleto de animais de pequeno e médio porte, cada um com sua peculiaridade. — E por que está me chamando assim? “Você era a única que podia estar na superfície...”, gesticulou outro macaco. Tinha as patas traseiras atrofiadas e presas a uma espécie de carrinho, que o ajudava a se locomover. “Nós todos ficávamos escondidos, onde não pudéssemos reclamar nem nos rebelar, sendo picados e sedados, analisados e tendo todo tipo de fórmula e produto testados em nós... Mas com você eram apenas os exames laboratoriais de rotina... Você é mais como eles que nós.”, continuou. O desprezo transbordava de suas feições

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Ela o olhava descrente, as lágrimas querendo lavar o rosto. Aquilo não podia ser verdade. Todos a fitavam com interesse e medo. Prestou mais atenção e notou que havia pássaros com patas no lugar de asas, cães e gatos com asas atrofiadas e até um rato com algo semelhante a nadadeiras em suas extremidades inferiores. Todos, sem exceção, tinham o olhar triste e ferido de quem já sofreu demais. Quanta dor eles não tinham passado... Quanta dor alguns deles ainda não deviam sentir por conta da incompatibilidade de suas partes? Alguns casos pareciam implantes, enquanto outros deveriam ser manipulações genéticas imprevisíveis, que resultaram em aberrações. O som das trancas fez com que todos pulassem de susto, buscando um lugar seguro para se esconder nas sombras. Apenas a menina ficou parada, na direção do feixe de luz que vinha de fora. — Bons dias, belos adormecidos... Vejo que já perceberam quem manda aqui. — Marta se virou para a porta, deparando-se com um homem alto e gordo, que fazia sombra sobre ela. — Todos menos você. Deve ser a Senhorita Cepo... É um imenso prazer conhecê-la pessoalmente. Peço desculpas pela falta de jeito e pelas péssimas instalações. Devíamos ter encontrado um melhor local para coloca-la, onde não tivesse tão detestáveis vizinhos. Mas não se preocupe, em breve terá uma vida muito diferente. — Do que está falando? — Os olhos furta-cores estavam bem abertos. — Onde estão minha mãe e o doutor? — O que disse? Desculpe... Não consegui ouvir. Você fala muito baixo. Talvez seja por ser assim tão pequena... Mas acho que deve apenas estar feliz com sua nova vida, não? — O homem se agachou, dando a impressão de que a qualquer momento sua calça se rasgaria e os botões do terno voariam para longe. — Você terá uma nova família. Repleta de felicidades... — Seu sorriso era mais falso que uma nota de centavos, e um arrepio percorreu a espinha de todas as quimeras. — Tentamos criar clones seus, mas foi impossível. Por alguma razão que ainda desconheço. Nada funciona... Então tentamos uma gravidez artificial, o mesmo método utilizado para criar você. Mas também não deu frutos. É por isso que tive uma brilhante ideia e vim te buscar agora. Seja boazinha e venha comigo. Fosse o que fosse ela sabia que não seria em absoluto uma boa ideia ir com ele. Respirou fundo e começou a correr, se enfiando no meio dos outros, que tentavam não ficar entre ela e o gigante de preto. — Volte aqui, sua pestinha! – ele berrou. Estava vermelho de raiva. Por que tudo tinha de ser difícil? Quando a alcançou enlaçou sua cintura com os dois dedos. Sentiu-se o próprio King Kong. Entre protestos e patadas, levou-a para fora, fechando a porta novamente. Lá dentro os animais faziam uma algazarra sem fim. Ele não sabia, mas estavam todos saltitantes por aquela criatura sem graça estar indo embora. Não a queriam ali por que acreditavam que ela não havia sofrido como eles e não merecia ser parte de sua pequena comunidade, que era indigna de ser chamada da mesma forma que eles. A inveja e a discriminação existiam até mesmo entre os animais... Ou seria assim porque a maioria deles tinha algo de humano em seus genes? Essa seria realmente uma boa pesquisa, se importasse para alguém. Passaram por muitos corredores iluminados parcamente por tubulações de cor alaranjada. Não eram lâmpadas normais, mas não adiantaria nada perguntar. Depois de muito caminhar chegaram a uma sala cheia de computadores e fios pendurados de maquinas diversas e curiosas. Hans, o homem gordo, jogou sua pequena carga sobre uma das macas próximas à parede sem cuidado algum, fazendo-a gritar de dor. Se não tivesse um organismo tão adaptável talvez tivesse quebrado alguns ossos com tamanha violência. — Cuidado com ela, seu animal! — Aquela voz era conhecida. Delina estava amarrada a uma cadeira, do outro lado da sala, e era a voz da justiça a gritar nos ouvidos dos presentes. — Ela pode não ser tão frágil quanto aparenta, mas ainda pode se machucar.

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— Sei... Segundo seus estudos ela jamais se machucou em todo seu tempo de vida, mesmo com tudo o que fizeram. Não seria agora a primeira vez. — Isso não impede que ela sinta dor! — E o que impede? Um sedativo extraforte? — Isso fez com que a aspirante a cientista se calasse e um choque estremecesse o corpo inteiro da garota na maca. — É... Eu sei muito mais do que você pensa. Por exemplo, sei que diversas vezes a doparam para tentar quebrar seus ossos; ao descobrir que eles se tornavam quase elásticos, forçaram para ver até que ponto poderia ir. E também... — Cala a boca! — A mulher gritou em prantos, pouco antes de levar um murro tão forte no estômago que a fez cuspir sangue. — Nunca mais me mande calar a boca — censurou Hans pausadamente, enquanto limpava com um lencinho de renda os pingos de sangue de seu terno —, isso me deixa muito irritado. Marta! — Virou-se e caminhou outra vez até a maca, onde a diminuta criatura já se encolhia assustada. — Eu adoraria ter tempo para todas aquelas coisas que vocês jovens sonham, como vestidos de noiva e véu com grinalda, mas não tenho. Então teremos de ser bem mais diretos. — Ela apenas balançou a cabeça, indicando confusão. Hans se afastou novamente, indo até a bancada atrás de uma de suas roupas antigas. — Espero que isso ainda sirva para algo. — Ato seguido, abotoou em sua roupa, sem nenhum cuidado ou cerimônia, o microfone que ela sempre usava. — Agora creio que você já possa falar. — O que você quer de mim afinal? — foi a primeira coisa que saiu pelos alto-falantes. — Lindos e saudáveis filhotes... — A resposta a deixou atônita. — Como eu disse, tentamos reproduzir os experimentos que criaram você, sem sucesso... Mas a última de nossas tentativas unindo um óvulo seu, retirado enquanto você estava sedada, aos espermatozoides daquele que veio antes de você resultaram em um embrião que teria seguido adiante nas condições corretas... Ou seja: dentro do seu corpinho. Tudo o que precisa é abrigar esse bebê, cuja hipófise anterior bombardearemos para produzir mais hormônios do crescimento. Aos poucos vamos melhorar sua raça para torná-la grande o suficiente para servir a nação. — O quê? Você é doente! Já viu o tamanho dela? Não seria capaz de suportar uma gestação! Ela poderia explodir! — Delina gritava, tentando se soltar. Não podia acreditar no que ouvia. Estava com medo que algo acontecesse à sua menininha... — Se eu fizer isso vai deixá-la ir? — Marta parecia resignada. — Sim. Eu prometo. — Novamente aquele sorriso que fazia gelar até o coração de um urso polar. — Então, está bem... — disse de cabeça baixa, enquanto ouvia o desespero da mãe. Deixouse levar até uma mesa próxima ao computador central, onde se encontrava a jaula do animal citado. Era peludo e tinha quase o dobro de seu tamanho, além de não parecer muito inteligente. Seus dentes eram quadrados e tortos e a boca fedia muito, deixando-a nauseada. Sua aparência era a de um roedor gigante, mas as mãos e pés possuíam cinco longos dedos, como os humanos ou os macacos. Os olhos eram quase brancos, o que significava que por alguma falha genética ele era praticamente cego. A luminosidade daquela parte da sala era bastante reduzida. — Olá... — A garota ensaiou um início de conversação, mas, ao ouvir o som pavoroso, que bem poderia ser uma risada, que o ser emitiu, simplesmente desistiu de qualquer assunto. — Agora deixarei os dois pombinhos a sós para que possam se conhecer. Toda sua, garanhão... — e saiu rindo.

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O animal começou a farejá-la, como um cão faria, salivando e grunhindo. Dava medo, mas Marta tentava se manter serena e parada. Quem sabe assim a criatura desistisse. Mas antes que esse pensamento pudesse se instalar de vez em sua mente, o primeiro ataque veio. A criatura a agarrou e jogou-se por cima de seu corpo, grunhindo mais alto e querendo rasgar suas roupas, enquanto ela gritava tentando se desvencilhar. Era doloroso demais para Delina assistir aquilo, mas seu algoz parecia se deliciar. Nesse momento um dardo tranquilizante pousou certeiro no lombo do bicho, fazendo-o tombar imediatamente ainda mais pesado sobre sua vítima. Hans estranhou e olhou de onde viera a tal munição a tempo de ver um punho voando em sua direção. A origem era o braço do doutor Herwern, que depois de torturar seu antigo aluno — o mesmo que o traíra em busca de fama e fortuna, entregando sua localização — descobriu como encontrar as pessoas mais importantes de sua vida. Marta se contorceu e arrastou o corpo para fora do peso, mas acabou perdendo o equilíbrio e caindo no chão, uma altura de pouco mais de um metro, mas suficiente para causar dor extrema por causa de seu tamanho. Com muita dor, tentou se erguer, mas não conseguia mexer as pernas. Seu organismo se adaptava e regenerava de uma forma absurda, mas a queda havia tirado algo do lugar e só pararia de sentir dor quando tudo estivesse como deveria. Delina estava em choque havia algum tempo e o cientista tentava livrá-la das cordas quando tudo ocorreu. Não sabia se deixava sua assistente e ia ajudar a pequena, ou o contrário... Em seus segundos de hesitação, algo completamente inesperado aconteceu. Os gritos de dor de Marta tiraram Delina de seu torpor, permitindo-lhe ver uma cena que a acompanharia pela vida toda. Como Marta não podia andar, a natureza encontrou um novo caminho. A uma velocidade estonteante, asas cresciam no corpo da menina. Os dedos se alongavam, a pele esticava em uma membrana fina que permitia visualizar suas veias com perfeição, um processo doloroso e que parecia não ter fim. — O que usou para criá-la? — a mulher perguntou, pois realmente não sabia que animais tinham feito parte do processo. — Tudo aquilo que de alguma forma se encaixou... Em algum ponto do desespero e das noites sem dormir comecei a brincar de quebra-cabeça com todos os animais dos quais tinha material genético... E disso ela surgiu. Como uma espécie de evolução... — A união de todas as coisas do mundo trazendo a harmonia e a evolução... Isso chega a ser poético... — Delina estava devaneando. Precisava tirá-la dali, mas também não poderia sair enquanto não tivesse a certeza de que Marta estava bem, algo que notou não precisar de preocupação extra ao vê-la voando para junto dos dois. — Ei... Como você está? — O tom preocupado voltou à voz da mulher. — Por favor, me diga que não virou um anjo depois daquela queda, pois não sei se suportaria perder você... — Estou bem e acho que pareço mais um morcego... — disse, rindo um pouco. Ainda se sentia dolorida, mas não queria preocupá-los mais. — Temos de ir embora daqui o mais rápido possível. Vamos... — Não tão depressa... — a voz trevosa de Hans soou. — Vocês acreditam mesmo que podem simplesmente ir embora com minha riqueza? — Ele apontava uma arma de fogo para o casal. — Venha pra cá, sua vampirinha maldita, e ninguém vai se machucar... Muito.

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Com o coração apertado, ela já voava de volta, mesmo sob os protestos da mãe, que era mantida firme nos braços de Herwern para evitar fazer alguma bobagem. A garota estava já tão perto que Hans quase conseguia pegá-la, quando um sem-fim de animais pulou sobre ele. — Mas... O quê? — Marta já não entendia mais nada. — Ele nos trancou, maltratou e queria que morrêssemos. Vimos a porta aberta e foi a chance — disse o macaco com sua voz rouca e pausada. Em nenhum momento passou pela cabeça de Marta que ficaria tão feliz ao vê-lo. — Vocês podem até fugir, mas isso jamais acabará ate que milhares de cópias suas em tamanho real humano estejam circulando por aí, Marta Cepo! — O homem gritava tentando se desvencilhar das quimeras. – Sempre haverá alguém atrás de vocês. Marta não queria admitir, mas o que ele disse fazia sentido. Os olhinhos se encheram de água e o queixo tremeu, mas não podia chorar. Tinha de ser forte. Lançou um olhar para os outros, que compreenderam de imediato suas intenções. No fundo era o que todos queriam. Marta voltou-se para o casal humano que se abraçava, tentando evitar os horrores de ver dezenas de quimeras devorando um homem vivo. — Melhor sair. Eles vão explodir o local pra que ninguém possa ter acesso à pesquisa. O ser humano ainda não está pronto para isso... Baixou a cabeça enquanto voava na direção da saída, guiando os dois. Assim que os viu fora e a uma distância segura, deu meia-volta e se enfiou dentro da sala outra vez, ativando as travas de segurança. Delina foi quem primeiro notou, mas mesmo correndo não conseguiu chegar a tempo na porta, dando com ela fechada. — O que você esta fazendo? — Me certificando de algumas coisas... — Saia já daí! Você mesma disse que precisávamos sair, pois eles vão explodir tudo e... — Delina se tocou de que Marta nunca disse que todos precisavam sair. — Sai daí! — começou a gritar e bater na porta como louca. Herwern já estava atrás dela, mas vira nos olhos da pequena que ela estava decidida e sabia que não havia mais nada a fazer além de chorar a dor da perda que viria. — Ele estava certo. Enquanto eu existir alguém me caçará, ate me encontrar... E não vão descansar até descobrirem como criar outros. O mundo ainda não está preparado para seres como eu. Como nós... — indicou os animais a seu redor. Seu microfone estava ligado ao sistema de som do prédio, o que possibilitava que a ouvissem mesmo de fora da sala. — Cuidem um do outro e preocupem-se com o que realmente importa. Deixem que a vida siga seu próprio curso e lutem para salvar vidas, que é o que tanto gostam. Um dia a ciência e a humanidade estarão em pé de igualdade em evolução... E quando esse dia chegar vocês saberão o que fazer. Marta abriu um sorriso. Os roedores já haviam iniciado o trabalho com os cabos em busca de um curto-circuito e não demorou muito para o local ser dominado por chamas e fumaça. Herwern puxou Delina para longe, fugindo da explosão que levou tudo pelos ares. Ali, naquele túmulo de escombros, foram descobertos mais tarde inúmeros corpos. Todos carbonizados. Aberrações dos mais variados tipos. Mas nenhum coincidia com a descrição da pequenina... Nenhum sinal de que tivesse existido ou deixado de existir. Sua história virou lenda, passada de geração em geração através dos tempos, mostrando que não é necessário ser grande para fazer grandes coisas.

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Se não pode vencê-los...
MARCELO JACINTO RIBEIRO
Uma jovem líder propõe um plano audacioso e considerado por muitos como suicida para salvar a humanidade da destruição iminente.
Marcelo Jacinto Ribeiro é natural de Campinas, SP. Arqueiro, cachorrólatra, autor de FC, fantasia, terror e tudo o que der vontade de escrever, sem preconceitos ou limites. Possui contos publicados nas coletâneas Paradigmas (Tarja), Histórias fantásticas (Estronho) Space Opera, e Brasil fantástico (Draco) e, no prelo, Sala de cirurgia (Literata). Seu primeiro trabalho, "A herança", foi publicado na Black Rocket número 2. Finalista do Prêmio Argos 2012 do CLFC na categoria contos, com "Seu momento de glória" (Space Opera vol. 1).

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“Gentileza gera gente folgada” Velho ditado humano — Apenas duas palavras, ma chérie: Linha. Maginot. O grande salão do plenário da ONU rugiu em uníssono numa gargalhada capaz de estremecer o próprio inferno enquanto Stanton sorria constrangido para os indignados representantes franceses. A mulher magra estava pálida e sem reação, o jovem encurvado tinha o rosto rubro de raiva e o velho obeso prendera a respiração com tanta força que começou a ficar azulado, enquanto Jaqueline Hawker era toda sorrisos e felicidade, como se tivesse apenas dito uma verdade universal. — Pena que não estão na ordem certa, daria um belo cosplay da bandeira deles — sussurrou maliciosamente a pequena ruiva ao seu lado. Isso fez o adido inglês perder totalmente o controle e gargalhar a plenos pulmões, sem qualquer pudor. Jackie observava tudo com o olhar mais inocente do mundo, feliz por finalmente ter conseguido chacoalhar aqueles malditos cabeças-duras e quem sabe chegar a alguma solução pela qual todos poderiam sobreviver. Por fim o presidente do conselho se recuperou do ataque de risos e acionou a sirene pedindo ordem no local. Poucos não tinham lágrimas correndo pelo rosto e conseguiram se controlar rapidamente. A calma voltou aos poucos, somente para ser rompida pela voz indignada e furiosa do senhor obeso: — Isso foi uma ofensa ultrajante e sem motivo, exijo desculpas! E uma retratação, imediatamente! Jaqueline não vacilou em disparar: — Melhor esperar sentado, meu bem, porque de mim você não receberá sequer boanoite! Afinal de contas, o que diabos vocês tem na cabeça? Nós estamos discutindo a sobrevivência da espécie humana, SOBREVIVÊNCIA! E a única alternativa que vocês têm é fortificar o planeta e se enterrar no chão? O que vai acontecer quando os Katels dominarem tudo, vamos recriar La Résistance? E depois cantar La Marseillaise em bares enfumaçados antes de ataques de guerrilha contra os aliens? Juro por Deus todo-poderoso que se isso acontecer EU mesma vou entregá-los ao invasor! Novamente a centena de representantes militares explodiu em risadas. O trio francês (Fifi, Croissant e Eiffel, como Jaqueline adorava chamá-los) reuniu o pouco de dignidade que ainda tinha e se retirou apressadamente. A pequena ruiva acenava sem entusiasmo e assumiu uma expressão séria quando o silêncio voltou, dessa vez mais rapidamente. — Bem, agora os profissionais. Senhoras! Senhores! Podemos continuar do ponto em que paramos? — Se bem me lembro, paramos quando você interrompeu a fala do senhor Arthur com sua colocação... brilhante, devo admitir. — O sério militar alemão falou baixo, sendo o mais polido possível. Jaqueline Hawker não deu a menor atenção e continuou no ataque:

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— Foi necessário, prezado Hermann. Se não tivesse agido daquele modo, só Deus sabe onde iríamos terminar! Minto, sei bem onde terminaríamos, e vou lutar contra isso até o fim. O jogo não é para amadores, de uma vez por todas! Ou vencemos ou estamos acabados, e quem sobreviver que trate de reconstruir o mundo, se sobrar um mundo! — O.k., o.k., entendemos seu ponto, senhorita Hawker. Admito que a ideia francesa era equivocada, para dizer o mínimo, mas existe alguma alternativa que não vimos? Por favor, nos ilumine com sua sabedoria. — Stanton quase mandou o sul-americano intrometido (mesmo sendo o presidente do conselho) para o inferno mas conteve-se e deixou as honras para sua colega. O plano britânico — não, o plano de Jaqueline — era absurdamente insano, mas e daí, se a opção era a extinção? Jackie sorriu de orelha na orelha, dona da situação. — Com todo prazer, meu bem. Recapitulando, apenas para entramos na mesma sintonia: temos 18 meses — se tivermos sorte, muita sorte — para nos preparar contra uma invasão inevitável de uma espécie alienígena que por sua vez é uma das mais antigas da nossa galáxia, formada por uma casta de guerreiros invencíveis que não sabem o significado da palavra “derrota”, ao menos a deles próprios. Os Katels estão navegando de estrela em estrela há milhões de anos com sua armada colossal, sugando até a última gota dos recursos dos planetas que invadem, e não estou falando apenas de minérios, água e alimentos. Estão me acompanhando? Dezenas de cabeças concordaram sem muita vontade enquanto um número bem maior grunhiu impaciente. A pequena ruiva não deu atenção aos descontentes. — Bom! Como sabemos disso? Através de nossos agora amigos-desde-sempre, a União Brosiana, um grupo de espécies que antes formavam uma bela federação de planetas bem aqui ao lado, em Messier 52. Quero dar ênfase na palavra “formavam”, senhoras e senhores! A União era constituída por vinte e duas espécies com avançada tecnologia e que conseguiram, SABE-SE LÁ COMO, vencer todas as suas desconfianças e se manter unidas em torno de objetivos e metas comuns. Isso foi realmente incrível, já que nós, como espécie, não conseguimos nem chegar a um consenso sobre o que vamos comer no almoço, imaginem vinte e duas totalmente diferentes! Mas estou divagando. Em frente. Jackie tomou fôlego e continuou: — Essa união durou centenas de anos, gerando benefícios e prosperidade para todos, até cruzarem seu caminho com os Katels. Uma espécie nômade, com bilhões de anos de existência, cujo planeta foi engolido por seu sol antes de o primeiro humano olhar para o céu e que se lançou no universo em busca de um novo lar. Mas como eles são muito metidos e arrogantes, decidiram que nenhuma rocha suja era digna de receber sua raça superior, assim continuam seguindo de estrela em estrela, pegando o que precisam e deixando o bagaço para trás. — Sabemos de tudo isso, Srta. Hawker! Podemos ir direto ao ponto? — Stanton já havia percebido que o general russo estava prestes a explodir, bem como muitos na conferência, e pensou em alertar sua colega. Mas essa sempre era a intenção de Jackie, levá-los até o limite e somente então puxar a isca. — Com prazer! — prosseguiu Jackie. — Os brosianos foram bem específicos ao nos passar essas informações, creio que em parte para conseguir nossa entusiasmada colaboração e no resto para nos ver aterrorizados até a alma, já que nunca esconderam em qual direção os Katels estão indo: direto para a Terra. O que sempre ficou nebuloso foram os números, meus queridos, os números! Seus líderes, aqueles lagartos sujos dos Klopos, foram bem reservados e econômicos ao comentar sobre suas forças, como foi a batalha final entre as duas armadas, quais foram as baixas de ambos os lados, o tipo de informação que realmente interessa na nossa profissão. Afinal de contas, como nos preparar para a luta sem conhe-

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cer o inimigo? Ninguém me tira da cabeça que os brosianos planejavam nos vender um tipo de proteção, mesmo que limitada. Diabos, proteção quando nem conseguiram salvar o próprio quintal! — Mas felizmente toda grande família tem seu tio tagarela — continuou a MULHER — e ainda bem que conseguimos acesso aos outros membros da União, até os menos importantes – principalmente nossos queridos Pis’krit. Esses adoráveis marsupiais pelados gostam mesmo de falar, ainda mais das suas glórias e realizações. Demorou um pouco, e foi preciso muita malícia e frases de duplo sentido para descobrir o que realmente precisamos — alguém, por favor, dê uma medalha aos advogados que redigiram as perguntas — mas agora temos o filé em nossas mãos. Alguém poderia fazer as honras e dizer o que vamos enfrentar? — Jackie foi prudente em não sorrir nesse instante, mantendo uma expressão neutra no rosto ao encarar seus colegas mudos. Stanton esperou apreensivo, pensando que ninguém iria cair no golpe. Todos no grande salão permaneceram em silêncio, a tensão subindo vários graus em poucos segundos. Por fim o inglês percebeu que não estavam quietos e apreensivos por orgulho, mas sim por medo, puro e simples medo. Foi o mesmo sul-americano arrogante quem respondeu, dessa vez em tom baixo e visivelmente assustado: — O embaixador Pis’krit foi bem claro: a frota brosiana era formada por mais de trezentas naves de guerra, a menor delas com mil metros de diâmetro. Armados com canhões de plasma, lasers, bombas de raio gama e mísseis nucleares. Ainda assim a frota enfrentou apenas uma fração da armada Katel, quase um grupo de batedores. Não houve uma batalha final, houve apenas uma batalha. Somente vinte e seis naves brosianas escaparam, e os Katels não tiveram uma única baixa. E durou menos de quinze minutos. Jaqueline Hawker deixou o pesado silêncio fazer seu trabalho sujo, com os números frios tornando bem clara a situação para todos. Sua voz era baixa e sombria quando retomou a palavra: — Mais de trezentas naves de guerra, a menor com mil metros de diâmetro... — repetiu. — E em nossa frota, quantas somos? Cinquenta naves, todas com duzentos metros de comprimento, canhões Gauss disparando urânio exaurido, alguns lasers e sequer um único míssil nuclear. E não vamos nos esquecer de que não temos o dispositivo que emula a gravidade dos brosianos, sem falar dos escudos polarizados que repelem nossos patéticos tiros de canhões. Alguém aqui quer apostar uma libra no resultado de nosso rápido, emocionante e brutal encontro com os Katels? Ah, uma libra é pouco? Que tal todo o dinheiro do planeta? Melhor, que tal toda nossa civilização? Cinco mil anos de história pendurados em cinquenta latas de sardinha. Façam suas apostas! E calou-se. Poucos tinham coragem de manter a cabeça levantada, tomados pela certeza de que nada podia ser feito. Jaqueline sentou-se e cutucou Stanton discretamente, que por sua vez levantou-se para fazer sua parte nesse pequeno teatro, puxar a rede e colher o resultado. Pigarreou chamando a atenção de todos. — Realmente, senhoras e senhores, essa é nossa realidade. E quais as propostas que nós, militares do planeta, recebemos para nos defender contra tal invasor? A Liga Asiática propõe uma tática de guerrilha com ataques pontuais; os americanos, o confronto direto e aberto, inclusive com nossa frota indo de frente contra a armada Katel, próximo a Júpiter; o sultanato de Riyadh planeja transformar a Lua em uma fortaleza com milhares de estações de batalha; os africanos querem seguir com o que resta da União e fugir da Terra enquanto ainda podemos. Alguém ficou de fora? Stanton fez uma pausa, aguardando uma resposta. — Os suecos, com a ideia de negociar um tipo de “invasão pacífica”, seja lá o que diabos significa isso. — Várias pessoas encararam furiosas o general Herman, que falava sem pressa. — E os franceses, com sua nostálgica ideia de cercar o planeta com nossa frota. Sabemos disso,

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Stanton. Aonde vocês querem chegar? — Hora de chutar o pau da barraca, pensou o britânico enquanto respirou fundo. — Queremos mostrar que tudo isso, todas essas ideias, já foi pensado e utilizado centenas de vezes, não por nós, mas pela incontável lista de civilizações que foram implacavelmente esmagadas pelos Katels, sem qualquer cerimônia. E estamos falando de espécies com um nível tecnológico muito superior ao nosso, capacidades que sequer conseguimos sonhar e frotas dezenas de vezes mais poderosas. Como podemos esperar que a Terra terá sucesso onde milhares falharam? Loucura, simplesmente loucura! Temos a melhor das intenções e estamos tentando fazer aquilo para que fomos treinados, mas nosso destino é o fracasso, não importa o que decidirmos. E sentou-se sem pressa. Jaqueline tremia discretamente ao seu lado, excitada para dar o toque final em sua cena tão bem planejada. Os três semestres no curso de teatro feitos na sua adolescência nunca foram tão úteis, e ainda salvariam o mundo, ah sim. Levantou-se e, do alto de seu um metro e cinquenta de altura, disse, segura e convicta: — Agora, a alternativa em que ninguém pensou, e nisso incluo os incontáveis mundos que foram atropelados pelos Katels. Lutar é inútil; fugir é aceitar a derrota e abandonar a Terra; resistir somente vai retardar o fim por alguns dias. Há somente uma opção. Vamos oferecer, de bom grado e com um enorme sorriso no rosto, a rendição do planeta. Se Stanton achava que a gargalhada poucos minutos antes tinha sido ruidosa, ele estava totalmente enganado. A palavra “rendição” para os militares tem o mesmo efeito que uma stripper dentro de um concílio papal. Nem um único militar entre a centena de representantes permaneceu sentado, muito menos em silêncio. E o que dezenas gritavam para a pequena mulher já seria motivo para uma séria crise diplomática. Mas Jackie sequer se mexeu, permanecendo serena s sorridente, indiferente à confusão. Mais uma vez o presidente do conselho teve muito trabalho para apaziguar os ânimos. Quando o silêncio voltou, dessa vez com o ar muito mais carregado de hostilidade, ele dirigiu um olhar zangado à representante britânica e perguntou educadamente, mas num tom gelado: — Podemos saber no que a rendição difere de todas as propostas levantadas, já que o resultado é o mesmo? Não estamos aqui para discutir como SALVAR a Terra? E vocês propõem entregála! Afinal de contas, senõrita Hawker, vocês enlouqueceram? A última afirmação foi dita com um pouco mais que reprovação. Jackie sorria sem pudores, feliz da vida. — Ao contrário, meu bem, muito ao contrário. Estamos bem conscientes de nossa ideia e temos certeza de que não é a melhor alternativa, é a única. E sabem por quê? Porque fizemos a lição de casa, queridos. Seguimos o velho e bom conselho do mestre, do que temos mais próximo dos Katels, o nosso estrategista que também nunca, nunca, nunca perdeu uma guerra! — E onde está esse guerreiro perfeito, que vai nos salvar miraculosamente com uma rendição vergonhosa? — O general russo mal conseguia dizer a palavra. Jaqueline enfiou a mão na pasta sobre a mesa e puxou algo raro nos dias atuais: um velho livro impresso, cansado por décadas de manuseio e cheio de anotações feitas por gerações de soldados da família Hawker. Levantou alto para que todos pudessem ver a peça de museu. Dezenas de rostos se iluminaram com sorrisos ao ver o título da obra, principalmente os chineses. A arte da guerra. — Infelizmente o guerreiro perfeito não está entre nós, e faz um bom tempo. Mas pessoas sensatas aprendem com os acertos e os erros alheios, e acredito que aprendi um pouquinho com estas palavras. A principal lição, e que cai como uma luva para nossa crise, é bem simples: “Mos-

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tre-lhe apenas aparências e simulações”. Há outra, ainda melhor: “A melhor vitória é a que acontece sem necessidade de combate”. Não é realmente lindo? Dezenas se entreolharam confusos e questionavam secretamente a sanidade da jovem, que sorria alegre. O burburinho descontente logo surgiu e foi crescendo com certa velocidade, até ser interrompido pelo presidente do conselho. Ele nem tentou esconder a raiva: — Sabemos as histórias de sua família, senõrita Hawker, e de como ela serviu à Inglaterra e ao seu povo por gerações, desde o tempo do Império. Não acha que os seus antepassados estão se revirando no túmulo? Novamente Jaqueline ignorou a provocação. — Sim, eu sei, é difícil de assimilar depois de tanto tempo pensando na glória do combate. Também foi complicado para mim, entender essa lição. Na verdade, foi um insight que tive ao ouvir as transcrições do embaixador Pis’krit pela milionésima vez, acho. Foi quando perguntamos como os Katels tratavam seus adversários derrotados; afinal de contas, esse é nosso destino de qualquer jeito. — Ele foi bem específico nesse ponto — continuou Jackie —, garantindo com todas as letras e gestos de sua tromba preênsil: o invasor tem um elevado código de honra, que exige respeito com o adversário caído, os civis são poupados e na medida do possível até recebem algum tipo de auxílio, no caso comprovado de danos causados durante a batalha. Não há extermínios, roubos, humilhações, vandalismos; em suma, eles são uns lordes que se contentam em chutar a porta da sala, sentar em nosso sofá e comer tudo da despensa enquanto assistem esportes na holotela, antes de cair fora e fazer o mesmo com o próximo vizinho. Mas tudo com muito respeito e civilização! Não é lindo? — O.k., agora tenho absoluta certeza de que você enlouqueceu mesmo! Quer um calmante? Dos fortes, é claro. — A fala do representante americano gerou poucos risos, menos do que Jackie esperava, sinal de que estava indo bem. Continuou ignorando a todos e falou com mais ênfase. — Foi nesse instante que tudo fez sentido, como peças de um quebra-cabeça que se encaixam por mágica. Lutar é inútil, todos que fizeram isso perderam; fugir ou render-se é inútil, já que perderemos o planeta de mesmo jeito. Sim, eu sei, falei que devemos nos render, mas ainda não disse COMO fazer isso. E justamente nesse ponto está a chave não apenas da sobrevivência, mas da vitória! Os Katels podem ser os fodões do universo com sua armada invencível, mas eles tem um terrível ponto fraco, que vamos explorar sem pena, que vai fazê-los fugir da Terra como o diabo foge da cruz, com o rabo entre as pernas. Eles são uma espécie honrada e civilizada, bem diferente de nós, humanos. Jackie se preparou para o grand finale. — Pois enquanto eles seguem as regras e jogam bonitinho, nós vamos fazer o que a espécie humana faz melhor: vamos mentir, enganar, dissimular e trapacear miseravelmente, vamos ser falsos e sujos, tão baixos que teremos vergonha de nos encarar no espelho pelo próximo século, mas vamos vencer e chutá-los pAra fora da Terra! Stanton viu quando várias pessoas tiveram um estalo e entenderam a proposta maluca, sorrindo de orelha a orelha. Foi como um rastilho de pólvora, que quando aceso segue implacável até a explosão final. Agora os risos eram mais baixos e lentos, claramente sádicos. O presidente do conselho encarava os britânicos com um olhar curioso, ao que Jaqueline respondia em silêncio, rígida e severa. Foi o representante alemão quem quebrou o silêncio: — Essa ideia absurda e sem honra... Que tal mais detalhes? Jackie relaxou e sorriu alegremente, com um brilho maldoso no rosto.

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— Ah, Hermman, será um prazer. Eles não têm a menor chance, quase sinto pena. Mas como dizem nossos queridos franceses, c’est la vie! Deixe-me detalhar meu plano sujo e vil, vocês vão adorar! A ideia absurda e maluca foi aprovada por imensa maioria, não com votos ou mãos levantadas, mas por outras gargalhadas, que ressoaram no plenário mais forte do que das outras vezes. Mas dessa vez não foi um alívio da tensão ou um riso nervoso, foi puro deleite. E mesmo sendo delicada como uma criança, foi a gargalhada de Jaqueline Hawker que se destacou sobre todas as outras.

Primeiro foi preciso dispensar o que restava da União Brosiana e desejar boa sorte em sua fuga rumo a seja lá aonde fossem. Sua presença poderia deixar os Katels desconfiados, sem mencionar que os visitantes tinham uma boa ideia de real situação na Terra. Houve um certo debate de como fazer isso: pedir educadamente, citar questões culturais ou mencionar os recursos limitados no planeta? No fim a resposta, era simples: alguém sugeriu apresentar a conta da estadia na Terra e perguntar como iriam pagar. Nem foi preciso enviar um embaixador, uma simples mensagem de rádio fez todo o trabalho. Dois dias após receberem a fatura, a pequena frota simplesmente ligou os motores e zarpou do sistema, sem ao menos dizer obrigado e até breve. Certas coisas são mesmo universais. O próximo passo foi explicar o plano para uma população confusa e amedontrada pela invasão iminente. Claro que houve um choque imenso, mas qual a alternativa que poderia funcionar? Quanto mais debatiam a ideia, mais parecia a única solução e ao menos ninguém morreria em vão, para desgosto de vários militares sedentos por batalhas. O plano tinha uma beleza particular na simplicidade e na economia, no limitadíssimo uso de recursos. Fase um: empobrecer o planeta, transformando todas as cidades em ruínas semiabandonadas. Simplesmente cortar a manutenção, mas somente a parte estética, é claro. O mundo não parou de funcionar, apenas ficou mais relaxado e sem preocupação alguma com higiene, para horror de muitos e certo deleite de igual número de pessoas. Bases militares foram desmanteladas e todo o equipamento de maior porte foi cuidadosamente escondido e camuflado, inclusive a frota terrestre — deslocada e quase enterrada no cinturão de asteroides. A ligação entre a Terra e a Lua foi cortada e os grandes transportes de passageiros foram substituídos por dois cargueiros de minério, transformados em naves de transporte, praticamente grandes baús com cadeiras e camas amontoadas. A rede de satélites também foi colocada em modo de espera, ficando à deriva na órbita terrestre com apenas o essencial funcionando. A maior gritaria veio do projeto Torre de Clarke, com seus responsáveis chorando sobre cronogramas e oportunidades perdidas. Stanton foi enviado para tratar com os indignados engenheiros, que não abriam mão do seu precioso elevador orbital. Depois de muita discussão e gritaria, ele perguntou curioso se preferiam um cronograma arruinado por meses ou por décadas. — Isso se sobrar algo para ser construído e alguém para construir. Os Katel são abutres que não se limitam a roubar recursos, a lista também inclui mão de obra especializada. Boa sorte para vocês enquanto aprendem a arrumar tecnologia alienígena. — Isso gerou um silêncio imediato e uma aprovação do plano quase na mesma velocidade. A cidade de Achinsk incrustada na estepe russa foi escolhida como “capital” da Terra para a recepção dos invasores. Nesse caso os detalhes cosméticos não foram muito necessários, já que não era grande coisa mesmo. Milhares de atores de todo o planeta se mudaram para lá nos meses

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anteriores à chegada dos invasores, homens e mulheres pequenos e magros, nenhum deles com mais de um metro e cinquenta e cinco de altura. Jaqueline Hawker fez questão ser a “embaixadora terrestre” no primeiro contato e ninguém fez objeções quanto a isso. Duas semanas antes do previsto, o planeta recebeu o primeiro sinal de rádio, uma série de códigos numéricos, imagens e sons, a chave de comunicação explicando o vocabulário Katel e como traduzi-lo para outra língua. Uma resposta foi enviada poucos dias depois, confirmando o recebimento da mensagem, enviando o padrão de contato humano com a língua terrestre e uma pergunta adicional: Vocês estão se aproximando da Terra? Podem vir ao planeta? Isso deve ter gerado certa confusão nos invasores, pois a resposta deles foi um misto de confirmação e ultimato, pedindo a rendição da planeta e afirmando que sim, pousariam o mais cedo possível. Jaqueline riu baixo ao ler a transcrição e retornou imediatamente: coordenadas terrestres para o encontro de embaixadores, um guia da cultura e dos hábitos humanos, a completa rendição do planeta e outro pedido – dessa vez quase implorando – para que pousassem logo. A réplica mostrou como o invasor foi pego de surpresa: uma nova declaração de guerra – dessa vez ligeiramente mais ameaçadora – seguida poucos minutos depois pela confirmação da rendição e o tempo previsto até o pouso na Terra. Eles estavam tão habituados com espécies rejeitando a rendição que enviaram automaticamente a primeira mensagem, sequer leram o texto INICIAL! A disparidade entre mensagens tão próximas foi a prova de que tudo estava correndo maravilhosamente bem. A aproximação da força desbravadora dos Katel do sistema Terra-Lua mostrou quão acertado era o estratagema britânico: cento e vinte enormes naves de batalha variando entre mil a dois mil metros de diâmetro, cobertas por torres de canhões como espinhos em um abacaxi. Mesmo os poucos militares que foram contrários ao plano tiveram que admitir a realidade implacável. Enquanto as naves tomavam posições estratégicas que permitiam cobrir todo o globo com uma chuva de projéteis e raios, um transporte partiu da capitânia rumo a Terra, entrando calmamente na atmosfera sobre a Rússia. Jaqueline Hawker daria cinco anos de sua vida para saber o que se passava na cabeça do invasor nesse instante. Mais por curiosidade, pois tinha confiança absoluta no plano. Reuniu sua trupe de vigaristas em um grande campo próximo a Achinsk e esperou calmamente a chegada do embaixador Katel. Seu coração batia forte quando a nave aproximou-se e pousou em silêncio. A tensão no ar continuou enquanto uma abertura surgia e uma rampa desceu lentamente, por onde desembarcou um pequeno grupo de seres. Humanoides altos e encorpados, com a pele ligeiramente amarelada, cabeças peludas absurdamente redondas, olhos negros parecendo botões, uma boca fina sem lábios debaixo de um nariz pequeno, quase uma fenda. O alienígena na ponta do grupo ergueu a mão com quatro dedos e falou com voz estridente, imediatamente traduzida por um aparelho na sua vestimenta: — Sou o representante dos Katels, Soberana do Universo, e em nome de nosso povo aceito sua rendição. Ficamos felizes com o fim das hostilidades e garanto que todos serão bem tratados, inclusive os que lutaram na guerra. Começa agora uma era de paz entre nossas espécies. E baixou a mão, ficando parado como uma estátua. Jackie torcia as mãos atrás das costas em puro êxtase, contendo a gargalhada que teimava em sair. O idiota repetiu a única fala que conhecia para o primeiro contato, como se tivesse havido uma guerra. Ele sequer percebeu! A pequena mulher sentiu-se terrivelmente maquiavélica quando virou-se e acenou para as centenas de atores, dando sinal para começar a encenação. A multidão explodiu em gritos felizes e entusiasmados, batendo palmas e sorrindo alegres para o “invasor”, que encarava tudo visivelmente confuso. Jackie deu passos rápidos, aproximando-se do Katel, radiante de felicidade. Sua voz era a encarnação do entusiasmo quando falou apressada:

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— Oh, céus, como é bom vê-los! Sejam bem-vindos, bem-vindos! Vocês não fazem ideia de como nós estamos felizes! Eu adoraria abraçá-los, mas não quero ser abusada, sem falar de uma contaminação acidental! Esse é o melhor dia da minha vida, da vida do mundo, da história do planeta! Nós amamos vocês, amamos de verdade! O embaixador Katel inclinou sua enorme cabeça e, apesar da grande diferença entre as duas espécies, ficou clara a expressão de surpresa em seu rosto. Jackie não sabia se ele ouvira a parte da “contaminação” e decidira guardar essa carta para o futuro. O alienígena seguiu com o roteiro, a voz era baixa e contida, um fiapo de som traduzido pela máquina: — É um prazer termos nosso primeiro contato dessa maneira. Afirmo que sua espécie é muito cordial. Creio que seu governo central recebeu nosso ultimato. Você o representa? — Ah sim, nós recebemos! E nos rendemos, por favor! — O sorriso de Jackie não podia ser maior, ainda mais com a crescente expressão confusa dos alienígenas. O embaixador realmente não sabia como proceder e acabou seguindo o manual de procedimentos sem perceber o que dizia: — Bem, em nome dos Katel, Soberana do Universo, aceito sua rendição. Ficamos satisfeitos com o fim das hostilidades entre... — Nesse ponto calou-se, pois percebeu que não houvera hostilidade alguma e seguir o velho roteiro não era necessário. Piscou várias vezes e parou em silêncio, procurando achar as palavras corretas. Jackie não lhe deu um segundo de alívio e continuou o ataque. — Excelente, perfeito! Já podemos receber os suprimentos, a ajuda médica e as outras coisas que pedimos? O plano de evacuação para suas naves, podemos começar quando? Temos pouco para carregar, apenas nossa boca e barriga vazia. Mas não se preocupem; quando estiverem cheias e depois de um bom banho, vamos ser os melhores empregados de todos os tempos, você vão ver! Isso foi mais do que inesperado. Não apenas o embaixador mas também o grupo que o seguia arregalou os olhos redondos o máximo que conseguiam, numa expressão tipicamente humana de espanto, o que ficou ainda mais claro pelo tom preocupado em sua voz, mesmo através do tradutor: — O que significa isso? Nossas mensagens foram claras, exigindo sua rendição, ou haveria guerra entre nossos povos. Vocês se renderam, nós vencemos, nós ditamos o que vocês devem fazer, nós vencemos a guerra! Jackie quase, quase mesmo!, sentiu pena do pobre coitado à sua frente. Mas na guerra e no amor tudo é permitido, então continuou a encenação. — Sim, nós entendemos a situação e nos rendemos, com prazer! Inclusive vocês nem precisaram nos atacar, para que isso? Não temos exércitos nem naves nem mesmo armas, nós nos entregamos de bom grado. Agora é a vez de vocês; como força superior e mais avançada, devem ajudar os derrotados, ou seja, devem nos dar comida, abrigo, roupas, ajuda médica, enfim, devem reconstruir o planeta inteiro! Demorou um longo minuto, exatos sessenta segundos, para que o embaixador conseguisse reagir. O Katel piscou os olhos várias vezes enquanto seus colegas logo atrás explodiram numa cacofonia de sons, tão rápidos e confusos que a pobre máquina tradutora desistiu de funcionar. Um rápido gesto calou o grupo de invasores, e o embaixador se elevou, falando lentamente e muito, muito sério: — O quê? Jackie mordeu a língua quando nenhuma outra palavra veio após a pergunta desesperada. Revirou os olhos, colocou a melhor expressão aborrecida de seu arsenal no rosto e disse bem devagar, como uma mãe falando com uma criança birrenta.

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— Ora, não me digam que vocês não seguem o código de honra e as leis universais da conquista! Vamos lá: os Katels entraram no sistema solar e exigiram nossa rendição, certo? Certo. Rendemos-nos, certo? Certo. O planeta inteiro, 2 bilhões de pessoas famintas, sem roupas, doentes, completamente indefesos. E o que acontece quando uma espécie superior invade e conquista uma inferior? Ela automaticamente, AUTOMATICAMENTE!, está obrigada por sua honra e moralidade a cuidar da espécie inferior! Esse é seu objetivo, não é? Afinal de contas todo mundo sabia que os alienígenas bonzinhos um dia iriam chegar e salvar o planeta. Pois bem, vocês chegaram, nos salvem! Agora! Atrás da pequena ruiva centenas de pessoas encardidas e vestindo farrapos agitaram a cabeça para cima e para baixo com veemência. Várias delas estenderam a mão, esperando ganhar... qualquer coisa. Dessa vez o silêncio foi muito maior. Os Katels não mais piscavam alucinadamente – um sinal de grande nervosismo segundo os brosianos – mas sim balançavam o corpo para frente e para trás, como se orassem. Talvez estivessem mesmo rezando para encontrar uma saída daquele buraco dos infernos. Mais uma vez o embaixador dirigiu a palavras para a pequena mulher, o aparelho tradutor transmitindo até mesmo o choque que sentia. — Não é assim que funciona, não é não! Nós invadimos sistemas inteiros para renovar nossos recursos, para alimentar nosso povo, e não para salvar o seu! Isso é uma força de invasão e viemos tomar o que precisamos, não dar! Jaqueline o encarou em silêncio, mãos na cintura, expressão séria no rosto. Então começou a rir bem baixo, devagar e com gosto. Os Katels inclinaram a cabeça para o lado como cãezinhos curiosos, completamente confusos. — Sinto muito, meu bem, infelizmente você não pode tomar o que não existe... Décadas atrás sofremos uma devastadora guerra biológica e metade do planeta morreu. O maldito vírus destruiu tudo pelo caminho como um incêndio e ainda está por aqui, em todos os lugares, hibernando, e voltará à ativa quando menos se espera. Não podemos plantar nada, não podemos abater os animais, não podemos escavar o solo. Sobrevivemos com o que coletamos da natureza e de frutos do mar, a única fonte de alimento animal que não foi contaminada. É um milagre estarmos vivos até hoje, acredite em mim. Mas se vocês querem arriscar a sorte, fiquem à vontade. Tenho uma proposta: que tal usarem sua tecnologia superior para criar um antídoto, que tal? Para mim é o suficiente! Mas o Katel estava se lixando para a proposta humana. Abriu as mãos em leque e as empurrou na direção de Jackie: — O que você disse? Esse planeta está contaminado por um vírus? A pequena ruiva simulou confusão: — Sim, todos nós estamos contaminados, somos hospedeiros do vírus. Esqueceu que não o abracei quando chegou? Não vou contaminar o embaixador dos nossos salvadores, claro que não! Mas fique tranquilo que o último surto ocorreu anos atrás e a mortalidade ficou em vinte e cinco por cento, uma média baixa para o vírus. Sem falar que contamos com sua fisiologia alienígena, o que garante uma proteção natural para vocês, espero... Mas voltando ao assunto, quantas pessoas suas naves podem levar em cada viagem? Já temos uma lista de quem deve embarcar primeiro, os mais fracos e debilitados, e também sobreviventes do último surto, para que possam analisar o vírus e... Ei, aonde estão indo? Ainda não acabamos de conversar! Os Katels provaram que, além de grandes conquistadores especiais, também eram ótimos corredores. A um sinal do embaixador, o grupo se reuniu e em segundos estava de volta à nave, que decolou mais rápido ainda. Se olharam para o planeta miserável durante a fuga desesperada, ninguém

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sabe. Provavelmente teriam visto aquele grupo de pobres coitados pulando e gritando como loucos, talvez em desespero por ver seus salvadores partindo. Entretanto quem estava no solo viu apenas uma enorme, ruidosa e alucinada festa da vitória. Uma pequena mulher ruiva ria sem controle, beirando a histeria, e era jogada para o alto, beijada, abraçada e celebrada como a verdadeira salvadora da Terra.

Demoraram uns bons dois séculos para que os Katels voltassem a ouvir falar daquele planetinha sujo e miserável do qual escaparam tão alegremente. Na verdade, foi durante a interceptação de um sinal de comunicação entre duas espécies que comentavam a estratégia humana para se livrar do invasor implacável sem um único tiro. Os ditos invasores ficaram confusos e coçaram a cabeça grande, querendo saber do que diabos estavam falando. Foram os Altigrons, uma raça menor que vivia bem na ponta do braço de Sagitário, que deram com a língua nos bicos córneos e entregaram todo o jogo, quando a invasão chegou e não conseguiram encenar direito o golpe. Isso explicava porque no último século cruzaram com várias espécies falidas e doentes que imploravam por ajuda. Isso deixou os Katels furiosos e envergonhados para diabo. Houve uma discussão acalorada sobre se deviam reverter o curso e pilhar um por um os safados mentirosos que os tinham enganados, mas por fim venceu a determinação de ir direto à fonte da humilhação e acabar logo com a brincadeira, deixando bem claro o que acontece com espertinhos. O problema era que tinham um longo caminho pela frente e seus recursos estavam bem limitados por causa da falta de pilhagem decente. Mas nada estimula mais um gigante envergonhado do que o desejo de vingança. A rota direta foi traçada, os motores foram ativados e os Katels meteram o pé bem fundo no acelerador, direto para a lição mais dura que iriam aplicar desde... Bem, ninguém conseguiu se lembrar de algo parecido em milhões de anos de história! A fúria dos Katels era tão grande que foi um milagre toda a espécie não ter morrido de úlcera gástrica, se é que podiam ter algo assim. Demorou cinquenta e três anos para alcançar o alvo. Chegaram sem qualquer sutileza, declarando guerra e deixando bem claro que rendição não era uma alternativa sequer cogitada. Os problemas começaram quando a primeira leva de naves (o mesmo grupo batedor que fora enganado e humilhado tanto tempo antes) retornou para o corpo principal da armada muito mais cedo do que imaginavam – e pior, com terríveis notícias. Os humanos tinham aproveitado muito bem o tempo e souberam se preparar para um possível retorno dos Katels ou mesmo um ataque de outra espécie de invasores. Seus relatórios preliminares não foram nem um pouco animadores e causou uma verdadeira onda de choque quando “sugeriram fortemente” um contato diplomático com a Terra antes de iniciar hostilidades. Quando a grande nave-capitânia cautelosamente adentrou o sistema Sol, foi escoltada por centenas de couraçados terrestres, cada um deles no mesmo nível dos saqueadores Katel, reluzentes, poderosos e com seus armamentos bem a mostra. A cada planeta que cruzavam rumo à Terra, passavam por milhares de fortalezas defensivas com incontáveis canhões de todos os tipos, prontos para brincar, sem falar dos enxames intermináveis de naves menores, tão ágeis e velozes que sequem podiam ser acompanhadas pelos artilheiros. Mas o pior mesmo foi o satélite terrestre, uma inexpugnável esfera defensiva com dois gigantescos postos de batalha localizados em cada polo, estaleiros e portos cruzando todo seu equador e um número incalculável de baterias de mísseis. Os Katels não suavam, mas quase desenvolveram essa habilidade num curto espaço de tempo.

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O convite para um encontro diplomático veio sem pressa e sequer cobrou uma resposta. O conselho governante Katel brigou entre si por dias, discutindo sobre o que fazer. Muitos queriam partir diretamente para a guerra e lavar sua honra com sangue, mas as informações da inteligência deixaram bem claro que a Terra havia realizado o impensável: criara uma armada e um sistema defensivo tão bom quanto o dos Katels. Na verdade havia a terrível suspeita que AS DÉCADAS de pilhagens fracas e recursos pífios tivessem enfraquecido a armada além do ponto em que poderiam sequer empatar em um combate direto contra a Terra. Alguns poucos até levantaram a aterrorizante possibilidade de... derrota! Por fim decidiram seguir com o jogo e cobrir a aposta, querendo saber que raios de cartas os humanos tinham nas mangas. Milhares de sondas exploradoras foram lançadas por todo o sistema Sol e correram para todos os cantos coletando o máximo de informação possível. O que apenas aumentou a preocupação do invasor, já que os humanos não moveram um dedo para impediR A ESPIONAGEM. Foi bem pior do que imaginavam. Não era um jogo de mentiras e não havia blefes dessa vez: aquela impressionante máquina de guerra era real, assustadora e pronta para dançar. Não restou alternativa senão engolir o orgulho, descer e conversar. O encontro diplomático aconteceu na mesma cidade onde tinham pousado séculos antes, mas dessa vez viram uma metrópoles gigantesca inserida dentro de uma sociedade espacial. Dezenas de espécies alienígenas participaram da recepção, inclusive várias que tinham sido “visitadas” pelo Katels nas décadas anteriores, espécies que naquela época sequer tinham condição de se sustentar. Os embaixadores tiveram que engolir seu ódio e seguiram o protocolo, sendo cordiais e polidos. Mas não paravam de olhar em volta e admirar o enorme avanço dos humanos num período de tempo tão curto. Perguntaram polidamente como isso tinha sido possível e obtiveram uma resposta educada de seu anfitrião, um humano saudável e orgulhoso: — Oh, vocês querem dizer, como nos tornamos um império? Ora, na base da diplomacia e colaboração, com muito esforço. Principalmente na parte do intercâmbio de experiências e tecnologias. Nossos colegas de outros mundos nos forneceram seus avanços científicos e fomos juntando um pouco daqui, outro pedaço dali, e voilá, aqui estamos! Mesmo para os padrões Katel era impossível engolir aquela conversa fiada, mas continuaram perguntando: e os humanos, o que tinham para trocar? Minérios, medicamentos, comida? — Não, não, toda a galáxia sabe que isso pode ser conseguido em qualquer lugar, basta um pouco de trabalho duro e honesto. Nossa contribuição foi cultural: ensinamos atuação artística, jogos de azar e principalmente estratégia MILITAR secular, nada demais. Incrível como algumas pessoas se contentam com pouco, sabem? Somente precisam ter bom gosto para apreciar isso. E um mínimo de inteligência. E os humanos continuavam sorrindo educados e polidos, PASSEANDO ENTRE A MULTIDÃO. Mas bastava os Katels SE AFASTAREM UM POUCO DAS PESSOAS para as risadas surgirem, às vezes contidas, outras abertas numa sonora gargalhada. Seguiram em frente desejando que o chão daquela maldita rocha se abrisse e os engolisse, mas não tiveram tanta sorte, pelo contrário. A pá de cal definitiva foi a recepção preparada pelos humanos no maior parque do seu planeta, o local onde um gigantesca estátua homenageava a Salvadora da Terra, a mulher que usando apenas palavras evitou a guerra, a escravidão e a decadência. A estátua refletia sua filosofia, imortalizando-a na imagem que ganhou o planeta logo após a partida dos Katels, mostrando não uma pose ousada e destemida contra o universo, mas sim uma mulher simples com sua mão direita aberta próxima do rosto, soprando um singelo beijo de adeus dos lábios eternamente sorridentes.

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Making of de

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ou COMO FUNCIONA A MENTE PERTURBADA DE UM ESCRITOR

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ENTÃO o editor te manda um e-mail assim: “Vamos lançar uma nova Black Rocket e quero que você escreva um conto para ela, topa?” Pergunta desnecessária, não é? E qual o tema? “Heroínas, mulheres que salvam o mundo, quero a sua visão, mostre a sua Ripley.” Beleza, algo diferente! Tôu dentro, ‘bora escrever! E não se esqueça de perguntar qual é a data de entrega do conto, porque sempre tem uma data de entrega, e é claro que eu confundi tudo e entreguei com quatro dias de atraso, mas isso é outra história. O.k., tema na cabeça, minha Ripley... Claro que será FC, mas por que o Charles citou a Ripley? Percebo que, na verdade, ele não citou a heroína mais durona dos filmes de FC, mas sim um estereótipo, algo bem diferente. Ele me pediu a heroína como conhecemos, forte, lutadora, que vai lá e desce o cacete nos bandidos, se necessário explodindo o mundo para... salvar o mundo! E apesar de amar a Ripley do fundo do coração, me senti incomodado. Justamente porque esse tipo de heroína de ação é justamente sobre o que não quero escrever, pois todo mundo já escreveu algo assim. E se todo mundo já escreveu, qual a graça? Inovar, sair da zona de conforto, chutar o balde, surtar, isso sim é divertido! Então vou escrever sobre uma heroína diferente – mas diferente em quê? O que ela faz, quais seus poderes, quais seus desafios, o que a motiva? O que quero escrever? E principalmente, o que NÃO quero escrever? Daí pinta a dúvida e uma certa apreensão: sei o que não quero — mulheres duronas seminuas em roupas justas ou maiôs, voando por aí e chutando a bunda dos vilões — mas o que eu quero? Como será essa mulher diferente? Nessa hora, nada como contar com as amigas. Sim, escritores têm amigas e amigos, e não tive pudor algum em perguntar para elas – na verdade eu meio que implorei – sobre o que entendem por “heroína”, o que significa esse termo tão amplo. Não foi surpresa perceber que todas tinham visões diferentes entre si; o que importa é que foram quase unânimes em dizer o que não queriam: “Pelo-amor-dedeus escreve sobre uma MULHER, não sobre um cara para, no final, colocar uma mulher no lugar”. Tá ficando interessante... Porque é justamente isto o que acontece com a maioria das heroínas duronas seminuas em roupas justas ou maiôs: se você tira a mulher e “coloca” um homem no lugar, o que temos? A mesmíssima história, sem tirar nem por. Aliás, para quem não sabe o papel de Ripley, na verdade, foi escrito para ser interpretado por um homem, tá? Assim nada de gostosas turbinadas pulando por aí com roupas fetichistas. Que tal uma garota numa armadura? Ajuda a esconder a identidade, posso colocar um monte de poderes legais e... não, armadura é desculpa de escritor sem inspiração, coisa fácil – a menos que a armadura tenha uma função real no conto, é claro! (Escritores que criam personagens com armaduras: por favor, não me matem.) Minhas amigas disseram que nada de voar, “isso é muita viagem”. Mas é FC, voar é legal, adoro personagens que voam... Superforça está fora, então? Chamas? Que tal telepatia? “Não de novo, a Jean Grey já faz isso, nem ouse fazer a heroína mudar de forma!” Droga, estou suando demais e nem tá quente hoje! Então vem o estalo: uma heroína ou um herói não se define por seus poderes ou suas habilidades,

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mas sim por seus objetivos e como os alcança; não é questão de superforça, armaduras ou raios laser, mas sim de como salvar o dia. O primeiro Alien era um filme de terror esobrevivência; foi a partir do segundo que o pau quebrou. E Ripley nunca teve superpoderes, apenas usou o que tinha em mãos para atingir seu objetivo de mandar as baratas espaciais pro inferno e voltar pra casa: ela usou a astúcia e a inteligência... Arrá! Juro que tudo isso aconteceu em milésimos de segundos, é sério. Um dia desses ainda descubro de onde essas ideias vêm! O.k. então, nada de superpoderes, vamos com uma heroína que é inteligente. Certo, e o desafio a ser vencido, o vilão Que tal um evento natural? Cientista maluco? Invasão alienígena? Hum, essa é boa, clássica, mas ainda funciona se o escritor souber usar. E se o invasor não for apenas foderosamente poderoso; e se for absolutamente claro que é impossível vencê-lo? Como derrotar quem é invencível? Bem, você não derrota quem é invencível, simples assim. Que ideia idiota, ‘bora pra próxima e... Mas o fato de não poder derrotar alguém invencível significa que tudo está perdido? O que fazemos quando algo não tem solução? Diabos, se tem uma coisa que o ser humano sabe usar é a criatividade, principalmente quando o bicho tá pegando! Improvisar, mudar algo, disfarçar, enganar... Truco! (E eu achando que tinha todo aquele tempo na faculdade tinha sido um desperdício!) Mas uma heroína mente, engana, sacaneia, passa a perna no inimigo? Bem, me mostre um militar que não considere o engodo e a dissuasão (palavra bonita para “impor a vontade à força”) como armas de guerra e lhe mostro alguém que precisa voltar pra academia militar. O.k., mentir descaradamente, beleza! O sorriso no meu rosto não para de aumentar! E o tom? Quero ver quem tem coragem de dizer que nunca – NUNCA! – sentiu um prazer sádico quando o cara do lado disse “seis” e você jogou “truco!” somente pra ver o infeliz resmungando e desistindo do jogo. Eu rachava de rir quando isso acontecia, principalmente pelo prazer de vencer o blefe – e olha que na maioria das vezes eu também estava blefando pra diabo. Humor, sarcasmo, trapaça... É, olha o tom aí! E o resto fluiu que foi uma maravilha. Escrevi catorze páginas e quase 40.000 toques em pouco mais de três dias. Foi uma delícia deixar as ideias fluírem pelo teclado, me diverti muito, rindo como um bobo o tempo todo... Por acaso existe jeito melhor de trabalhar? E é assim que se faz, meninos e meninas. Bom, pelo menos é assim que eu faço. Juntando um pedaço daqui, outro dali, seguindo caminhos, explorando possibilidades, às vezes sem a menor ideia de aonde vou chegar, seguindo o fluxo da história. E querem saber de uma coisa? Não existe nada mais divertido que uma história que se escreve sozinha, é uma delícia! Agora tive outra ideia: se posso derrotar um inimigo invencível contando mentiras, será que consigo fazer o mesmo dizendo... a verdade? Hum, e se for um homem franzino e mirrado contra um deus? Hummm... Viram como as ideias surgem do nada? Vamos escrever!

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MARCELO JACINTO RIBEIRO

Entrevista com

MARCELO JACINTO RIBEIRO
Como nasceu seu gosto pelo gênero da ficção científica? Pergunta difícil. Acho que foi com Star Trek, mas não tenho certeza. Lembro-me do furor e da sensação com o lançamento de Guerra nas Estrelas, que somente assisti em 1983 por causa – um dos efeitos foi o bombardeio de FC em cima da molecada no início dos anos 1980. Sempre gostei de tecnologia e aviação e acho que uma coisa puxou a outra. E o que o levou a também escrever ficção científica? Isso partiu de um desejo de criar meus mundos, de contar histórias, de testar minha criatividade. Muitos podem dizer que escrevem por profissão ou porque querem ficar ricos e famosos; eu escrevo por diversão, para colocar as ideias malucas da minha cabeça para fora. Para mim é uma partilha com as pessoas, quase uma relação de cumplicidade, sem falar do prazer de agradar um leitor. Não há nada como ouvir um “gostei do seu texto!”, com essa frase ganho a semana, às vezes até o mês! Você é daqueles que transitam tanto pelo gênero da ficção científica quanto da fantasia ou tomou partido? O que você acha dessa polêmica ficção científica versus fantasia? Não acredito em correntes e isso inclui FC e fantasia. As histórias que quero contar podem estar em qual-

quer dos gêneros, às vezes até mesmo nos dois ao mesmo tempo, depende muito da situação ou de como quero desenvolvê-las. E toda competição é bem-vinda, desde que seja saudável. Não gosto de coisas como “eu sou melhor” ou “eu faço mais sucesso”, isso é uma grande bobagem. Tudo que contribui para aumentar a qualidade da escrita como arte está valendo. Adoro FC e fantasia e tenho meus deuses sagrados em ambos os estilos, o que importa é que seja bem-feito. Para você o que é mais difícil escrever, contos ou romances? Por quê? Até o momento apenas publiquei contos, mas estou trabalhando em um romance e posso dizer que é bem mais complicado! Exige mais do autor, tanto no desenvolvimento da história como na criação do universo; é preciso ter cuidado, dosar bem a ação e o que acontece. O desenvolvimento dos personagens é complexo. Comparo contos e romances com provas de corrida: contos são 100 metros rasos, romances são maratonas, ambos com características bem particulares. Muitos querem começar a escrever ficção científica, mas não passam das primeiras páginas. Que conselhos você dá para que as pessoas com boas ideias materializem-nas em bons contos, romances e novelas? Escrever, escrever e escrever ! Tirando pessoas que nascem com o dom da palavra – sim, eu acredito nisso! –, escrever é como qualquer outra atividade, exige prática, estudo e dedicação. Não desista na primeira página. Não escreva para agradar outras pessoas, agrade a você mesmo. Leia MUITO, todo autor deve ler bastante e perder o medo de ser influenciado por um estilo ou jeito de escrever, o seu próprio estilo vai surgir, acredite. Saiba desafiar limites e encarar os desafios. Não acho que existem ideias ruins, apenas ideias que não foram bem desenvolvidas. Ora, Ulysses, o maior romance do século XX, não trata de apenas um dia na vida de um homem e sua tentativa de chegar em casa? Saber contar essa história é o que importa!

ENTREVISTA

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REVISÓRIO
Bia Nunes de Sousa

De homens e livros
Quando os editores da Black Rocket me convidaram para estrear uma coluna com dicas para escritores, meu primeiro instinto foi dizer “obrigada, mas não, obrigada”. Afinal, que tipo de conselho eu, que jamais escrevi uma linha de ficção que preste em toda a minha vida, poderia dar a escritores dedicados como os que preenchem estas páginas? Depois, lembrei que, embora nunca tenha escrito nada, tenho lido tudo desde que me entendo por gente. Foi o hábito da leitura que me deu tudo o que tenho e sou hoje, incluindo o meu trabalho como editora de livros em uma casa publicadora de São Paulo. Pensando nisso, resolvi aceitar o desafio e começar esta primeira coluna falando sobre livros e leitura. Sim, porque não basta escrever, há que ler, e ler muito. É somente lendo os grandes mestres da palavra que uma pessoa consegue dominar o idioma e, com ele, misturar os sentidos, criar belas imagens, compor ritmos envolventes, emanar odores deleitantes, combinar ricos sabores. Assim, gostaria de recomendar alguns títulos que considero essenciais para a biblioteca de qualquer escritor, que deve começar pelos dicionários. Além de um bom dicionário de português, como o Houaiss, é interessante ter os de regência nominal e verbal do Celso Pedro Luft, para nunca mais confundir as preposições. Seja para consulta, seja para inspiração, livros sobre livros são sempre divertidos, não?. Boa leitura!

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Ex libris , de Anne Fadiman: uma coleção de pequenas crônicas sobre a relação da autora com os livros e a leitura. Bastante divertido, serve para nos consolar quanto ao fato de que não estamos sós em nosso amor louco pela literatura.

A oficina do escritor, de Nelson de Oliveira, e Oficina de escritores, de Stephen Koch: manual indispensável para qualquer pessoa que queira aprender a raciocinar o texto e construir enredos envolventes. O primeiro título está esgotado, mas recomendo procurar em sebos, porque o autor é um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, e só por isso já vale a pena saber o que ele tem a dizer sobre o ato de escrever.

Para ler como um escritor, de Francine Prose; Para ler literatura como um professor e Para ler romances como um especialista, de Thomas C. Foster: usando exemplos da literatura, em especial a norte-americana e a inglesa, os dois autores mostram como desconstruir os grandes clássicos para compreender a fundo seu processo de criação.

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