You are on page 1of 1

A12 Internacional

%HermesFileInfo:A-12:20140113:

SEGUNDA-FEIRA, 13 DE JANEIRO DE 2014

O ESTADO DE S. PAULO

Ação de jihadistas dá fôlego a governo xiita iraquiano e ao regime de Assad
Temor do Ocidente com relação a grupos ultrarradicais islâmicos sunitas reforça posição do Irã e seus aliados no Iraque e na Síria
Lourival Sant’Anna

Os conflitos no Iraque, na Síria e no Líbano ganharam complexidade e se entrelaçaram ainda mais nos últimos dias, com a escalada do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil) nas três frentes. Paradoxalmente, a ação desse grupo sunita radical beneficia os regimes da Síria e do Iraque, apoiados pelo Irã na sua disputa de poder com os sunitas. O realinhamento que ele provocalançaosEUA emumaincômoda parceria com o Irã, ao tempo em que amplia seu distanciamento da Arábia Saudita, antes aliada da primeira hora. Quando os EUA invadiram o Iraque, em 2003, o então presidente George W. Bush deixou claro que a Síria, pertencente a um “eixo do mal”, seria a próxima. Diante disso, o presidente BasharAssadpatrocinouoenvio de combatentes sírios e iraquianos para a jihad contra os americanos no país vizinho. Surgia a Al-Qaeda no Iraque (AQI). O grupo foi usado também contraoprimeiro-ministroNuri al-Maliki, já que Assad era ligado a seu adversário, Ayad Allawi, oriundo, como ele, do partido pan-árabe Baath. Mas o regime iraniano,patrocinador deMaliki e de Assad, exigiu o desmantelamento do grupo, acossado também pelo movimento Despertar, uma parceria do Exército americanocom os líderes tribais sunitas. Enquanto Assad recebia US$ 8 bilhões de Maliki, com os quais comprou armas russas e pagou outras contas depois de torrar seus US$ 18 bilhões em reservas na guerra civil, mandava prender muitos membros da AQI e outros militantes islâmicos, temendo que se voltassem contra seu regime. Mas, a partir de 2012, contam oposicionistassíriosouvidospelo Estado, Assad mudou de tática: soltou seus antigos aliados, em troca de adotarem agenda própria. Surgia o Isil. Seu líder, Abu Bakr Baghdadi, que, como o nome indica, provém da capital iraquiana, lançou-se na criação de um emirado islâmico no

Triângulo Sunita, noroeste do Iraque,enolesteenortedaSíria. Em alguns momentos, o Isil tem se aliado à Frente Al-Nusra, filiada à Al-Qaeda, testemunha o diretor do Observatório Sírio dosDireitosHumanos,RamiAbdurrahman.Masemgeralagede forma independente, combate os outros grupos rebeldes com muito mais frequência do que o Exércitosírioecometeatrocidades contra a população. O líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, ordenou que o Isil deixasse a SíriaparaaAl-Nusraeseconcentrasse no Iraque, já que a maioria de seus membros é iraquiana e a população rejeita o grupo. Mas Baghdadi não obedeceu. Rival do Irã, e por extensão dosgovernosdeAssadedeMaliki, a Arábia Saudita criou seus próprios grupos: a Frente Islâmica e o Exército Mujaheddin, que combatem o Isil lado a lado comosseculares doExércitoSírio Livre (ESL). A Al-Nusra, talvez apoiada pelo Catar, tenta mediar o conflito.
Eleições. No Iraque, as elei-

KHATTAB ABDULAA/REUTERS

ções do próximo 30 de abril “explicam, em parte, o que está acontecendo”, analisa Max Boot, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores, de Washington, que acaba de voltar do país. O Exército iraquiano não impediu a entrada dos combatentes do Isil em Faluja e desmantelouacampamentosdemanifestantes sunitas em Ramadi, provocando o acirramento do conflito na província de Anbar. “Pareceram grandes erros táticos,masagoraelepodesilenciar os xiitas críticos e apresentar-se como o protetor da maioria.” Por outro lado, a proximidade das eleições inibe ação mais contundente. “O primeiro-ministro afirmou que, se quisesse, o Exército poderia retomar Faluja, mas o custo para a populaçãocivilseria muitoalto”,relata o embaixador do Brasil em Bagdá,AnuarNahes.“Issoestátambém no cálculo da Al-Qaeda.” Já no Líbano, o último atentado a bomba no sul de Beirute, reduto do Hezbollah, que matou cinco pessoas, incluindo uma brasileira, no dia 2, foi reivindicado pelo Isil. “O Hezbol-

Fabricação caseira. Combatentes seculares do Exército Sírio Livre montam foguetes: guerra ao regime e aos jihadistas lah os combate na Síria, então era lógico que eles viessem atacá-lo no Líbano”, explica o libanêsFadiAhmar,especialistaem Síria na Universidade de Kaslik. A escalada na violência sunita favorece o Irã no momento em que ele procura deixar a condição de pária internacional. Mas os especialistas não acreditam em parceria entre os sunitas do Isil e os xiitas iranianos. “Os iranianos entendem a ideologia do Isil, fincada na austera doutrina wahabita”, aponta Hilal Khashan, especialista em Síria da UniversidadeAmericanadeBeirute. “O Irã simplesmente está tirando vantagem da bizarra orientaçãopolítico-religiosadeles para espalhar sua influência na região e convencer o Ocidente de que Teerã é um agente de estabilidade no Oriente Médio.” Nada mau, considerando que o wahabismo é propagado pela Arábia Saudita, rival do Irã.

Série de ataques em Bagdá deixa ao menos 21 mortos
● Uma série de ataques com car-

EMIRADO ISLÂMICO

Presença do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil) estende-se do noroeste do Iraque ao norte e leste da Síria
ÁREA COM PRESENÇA DA AL-QAEDA
0 km 200

ros-bomba e confrontos entre forças do governo e militantes extremistas ligados à Al-Qaeda deixaram ao menos 21 mortos ao longo do dia de ontem em Bagdá. O ataque mais sangrento ocorreu pela manhã em um movimentada estação de ônibus, frequentada por milhares de pessoas todos os dias, no centro da capital iraquiana. Um carro repleto de explosivos matou ao menos 9 pessoas e deixou 16 feridos. O Iraque vive uma onda crescente de violência desde o ano passado, quando 8,868 foram mortos – a mais alta taxa em um ano desde 2007, de acordo com a ONU. / AP

TURQUIA

ÁREA COM PRESENÇA DA AL-QAEDA N

Idlib

Alepo
Raqqa

LÍBANO

SÍRIA
Damasco Ramadi Faluja

IRÃ

Bagdá

ISRAEL

JORDÂNIA

ANBAR

IRAQUE

ARÁBIA SAUDITA

KUWAIT

INFOGRÁFICO/ESTADÃO

ENTREVISTA
Rami Abdurrahman, diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos

Grupos islâmicos disputam umas áreas e se aliam em outras
Rami Abdurrahman, diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, é a fonte mais bem informada e confiável do conflito. Em entrevista ao Estado, de seu escritório em Coventry, no centro da Inglaterra, Abdurrahman, que recebe informações diariamente de 300 informantes espalha-

dos pela Síria, explicou o mosaico de grupos islâmicos.
● Isil e Al-Nusra são inimigos?

Não. Eles concorrem pelo controle e a Al-Nusra está tentando se aproveitar da vulnerabilidade do Isil tomando as bases desocupadas e os combatentes rendidos. Em vários casos a Al-Nusra atuou como intermediária entre o Isil e bata-

lhões islâmicos e seculares que lutavam contra ele. Não há combates entre os dois grupos, mas há entre o Isil e um batalhão que jurou lealdade à Al-Nusra. O Isil e a Al-Nusra lutam lado a lado em várias frentes, por exemplo na Província de Hasakah (de maioria curda) contra o YPG (grupo curdo) e na zona rural de Damasco contra o regime.

● A luta contra o regime pratica-

mente parou no norte?

Não. Há várias frentes de luta entre forças pró e contra o regime na cidade e na província de Alepo. Os confrontos com o regime pararam em Raqqa.
● De onde vêm o dinheiro e as

assim como de patrocinadores no Golfo Pérsico. Os combatentes estrangeiros entram pela Turquia.
● O senhor tem esperança na conferência da Suíça, dia 22?

armas do Isil?

Do controle sobre campos de petróleo e territórios na Síria,

Infelizmente, não. Todos os países envolvidos estão buscando apenas seus interesses nacionais, à custa das vidas dos sírios. / L.S.

EMMANUEL DUNAND/AFP

Conflito sírio mudou de natureza, conclui análise sigilosa da ONU
Estudo preparado por mais de 50 funcionários aponta que mudança na crise abriu espaço a novas alianças regionais
Jamil Chade
CORRESPONDENTE / GENEBRA

‘Amigos da Síria’ exortam rebeldes a negociar
Andrei Netto
CORRESPONDENTE / PARIS

Documentos internos da ONU preparados para a conferência depaz sobre a Síria que será realizada neste mês na Suíça mostram que três anos de guerra transformaram profundamente a paisagem política na região, abrindo espaço para alianças até pouco tempo impensáveis – como entre EUA e Irã. O Estado teve acesso aos documentos, preparados por mais de 50 funcionários, sob a condição de não citar trechos

inteiros, nem reproduzir mapas. O informe fala de intensificação da ação de jihadistas e de uma transformação do conflito que já matou 130 mil pessoas. O impasse entre as potências sobreoquefazerdiantedaguerra abriu caminho para a instalação de grupos islâmicos. Eles, agora, não apenas enfrentam a oposição a Assad, mas também ganham terreno no Iraque. Na Síria, as investigações da ONU apontam a existência de pelo menos cem diferentes grupos armados com tendências extremistas. Parte da batalha já não é mais feita por sírios, mas por centenas de voluntários jihadistas que chegam até da Europa para lutar pela causa. Regiões inteiras já estão submetidas à lei islâmica, a sharia. No entanto, são os grupos ligados à rede Al-Qaeda que mais

preocupam o mediador da ONUedaLigaÁrabe paraoconflito em território sírio, Lakhdar Brahimi. Fontes na ONU confirmaram ao Estado que essa batalha entre grupos de oposição é hoje umdosmaioresfatoresdeinstabilidade no país. “As fronteiras mudam a cada dia”, contou, em condição de anonimato, um dos enviados ONU. Mas os islamistas sunitas não querem limitar essa ação apenas às fronteiras sírias. O front duplo do grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que atua no Iraque e na Síria, deu indícios de que a ambição do grupo é criar uma zona de controle entre os dois países. “Em três anos, vimos a população do Líbano aumentar em 25% em razão da chegada de refugiados sírios. Só isso já seria

Síria. Chefe da ONU, Ban Ki-moon: coleta de dados um fator desestabilizador para a sociedade. Com o extremismo, o próprio tecido social libanêsestáameaçado”,disse ao Estado o ministro de Assuntos Sociais do Líbano, Wael Faour.

NA WEB
Cronologia. O Iraque, da invasão à retirada www.estadao.com.br/e/conflitos

Representantesde11paísesreunidos em Paris, conhecidos como “Grupo de Amigos da Síria”, exortaram ontem a Coalizão Nacional Síria (CNS) a participar da reunião de paz de Genebra 2, que será realizada em 22 de janeiro com o objetivo de encerrar a guerra civil, que já deixou mais de 130 mil mortos no país.O apelofoifeitonapenúltima reunião prévia da conferência, ainda ameaçada. Em guerra contra o regime de BasharAssadeextremistasislâmicos, os rebeldes impõem como condição que o ditador seja afastadodo poder. A declaração final do evento reforçou essa disposição. “A única solução ao conflito é umaverdadeiratransiçãopolítica”, diz o documento. “Nós

exortamos a CNS a responder favoravelmente ao convite enviado pelo secretário-geral da ONU e a criar uma delegação da oposição síria.” Para tanto, os diferentes grupos da oposição terão de se reunir em uma só delegação, algo inédito. Segundo o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, o objetivo comum é pôr um fim na liderança de Assad.“Esseregimealimentaoterrorismo”, disse o diplomata, descartando,porém,uma intervenção militar. “Não há outra solução além de uma solução política. E não haverá solução política sem Genebra 2.” Apesar das pressões, Ahmed Jarba,chefedoCNS,não confirmou que o grupo enviará representantes à Suíça. “Nós estamos de acordo para dizer que não há futuro para Assad e sua família na Síria”, disse.