You are on page 1of 131

Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Educação e Humanidades Instituto de Psicologia

André Luís Pinheiro Schaustz

O lugar do delírio na direção do tratamento da psicose

Rio de Janeiro 2001

André Luís Pinheiro Schaustz

O lugar do delírio na direção do tratamento da psicose

Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Pesquisa e Clìnica em Psicanálise.

Orientadora: Prof.a Dra. Sonia Alberti

Rio de Janeiro 2001

CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CEH/A A ficha catalográfica deve ser preparada pela equipe da Biblioteca e fica pronta em 48 horas úteis. Ela deverá ser inserida neste local e não deve ser contada para fins de paginação. Na versão impressa, deverá constar no verso da folha de rosto. Formatar a fonte conforme o modelo escolhido para todo o trabalho (Arial ou Times New Roman) A ficha desta máscara foi inserida através do recurso de selecionar, copiar e colar especial como documento do Word (objeto). É possível editá-la dando dois cliques em cima da ficha com o botão esquerdo do mouse.

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação. ________________________________ Assinatura ____________________________ Data

ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise. como requisito parcial para obtenção do título de Mestre.ª Dra. Luciano Elia Instituto de Psicologia da UERJ _____________________________________________ Prof. Ana Cristina Figueiredo Instituto de Psiquiatria da UFRJ Rio de Janeiro 2001 . Banca Examinadora: _____________________________________________ Prof. Dr. Área de concentração: Pesquisa e Clìnica em Psicanálise Aprovada em 17 de outubro de 2001. da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Drª. Sonia Alberti (Orientadora) Institituto de Psicologia da UERJ _____________________________________________ Prof.André Luís Pinheiro Schaustz O lugar do delírio na direção do tratamento da psicose Dissertação apresentada.

especialmente.DEDICATÓRIA Aos meus pais.Iara e Eduardo. A meu irmão e meus sobrinhos. Jeremias e Laurides in memorian. E. Rafael e Marcella. Luís Fernando in memorian. à minha mulher e ao meu filho. .

À Escola Letra Freudiana. pelo desejo em orientar essa pesquisa desde a primeira entrevista. Aos colegas e. . pela confiança em meu trabalho. pela interlocução privilegiada a respeito da psicose. pela respeitosa acolhida em minha viagem ao Québec. principalmente. aos pacientes do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba. Ao Professor Luciano Elia.AGRADECIMENTOS À Professora Sônia Alberti. A Ângela Cristina da Silva. Aos demais professores e colegas do Mestrado. Aos integrantes do “388”. pela revisão desse texto. pelas intervenções em momentos cruciais desse percurso. particularmente ao Grupo de Trabalho em Psicose. pelas boas discussões em um clima amigável.

Interrogamos. 2001. de Lacan e de Apollon a respeito do delírio. com um caso clínico de nossa experiência no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba. Por fim. Direção do tratamento. cotejamos dois casos clínicos sustentados por Cantin e Bergeron – ambas psicanalistas do “388”. André. Delírio. de Freud. Dissertação (Mestrado em Psicanálise) – Instituto de Psicologia. uma instituição no Québec que trabalha a partir da proposta de Apollon –. 129f. Rio de Janeiro. mais amiúde. 2001. na medida em que ele ocupa uma posição de destaque na estrutura clínica da psicose. Esta dissertação se propõe a circunscrever o lugar do delírio na direção de tratamento da psicose. . Psicose. E também os respectivos desdobramentos dessas abordagens na intervenção clínica. Niterói.RESUMO SCHAUSTZ. Palavras-chave: Psicanálise. a proposta de Apollon referente à desmontagem do delírio articulada à produção de um fantasma na psicose. O lugar do delírio na direção do tratamento da psicose. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Correlacionamos as concepções teóricas da psiquiatria clássica.

RÉSUMÉ Cette thèse se propose de cerner la place du délire dans la direction de la cure de la psychose. nous comparons deux cas cliniques soutenus par Cantin et Bergeron – toutes deux psychanalystes du “388”. ainsi que les répercussions de ces approches sur l’intervention clinique. de Lacan et d’Apollon. . articulé à la production d’un fantasme dans la psychose. Psychose. dans la mesure où il occupe une position d’importance dans cette structure clinique. Mots-clés: Psychanalyse. Direction de La cure. Finalement. Délire. Niterói. une institution québecoise qui travaille à partir de la proposition d’Apollon – à un cas clinique que nous suivons à l’hôpital psychiatrique de Jurujuba. Nous interrogeons plus particulièrement la proposition d´Apollon au sujet du démontage du délire. en ce qui concerne le délire. Nous établissons une corrélation entre les conceptions théoriques de la psychiatrie classique et celles de Freud.

................ A Direção de Tratamento da Psicose no “388” ..................................................................1 3. 60 60 61 67 71 76 79 86 89 90 101 107 122 124 8 13 13 21 32 40 40 43 52 .............................................2 4.............................. O Lugar do Delírio na Produção Teórico-Clínica do GIFRIC ................................................................................................................................................................................................................................................. REFERÊNCIAS .......... Alguns aspectos da obra mais tardia de Lacan .....3.................3 3 FREUD..........................................3 O Centro psicanalítico para jovens psicóticos: uma breve apresentação ................................................................................................................................... O Caso “Serquequerser” ......1 4............3...................................3 3....................... O delírio segundo Freud...................................................... Segundo tempo lógico: a reconstituição da imagem corporal .................................................................................2 1........................... CONSIDERAÇÕES FINAIS ..1 3.............. O quarto tempo lógico: o desejo no laço social ........................................1 1........................................................................................................................ 3....3 3............2 3...............2 2...................3 2 2....................................4 4 4.................... 1 1.......... O diálogo de Lacan com a psiquiatria a propósito do delírio ............. O diálogo de Lacan com Freud a respeito do delírio ......... Primeiro tempo lógico: reconstrução da história subjetiva do psicótico ... O caso André ............. O caso Phillip .................................................................. O terceiro tempo lógico: a produção do fantasma ............................................. Perspectivas da produção freudiana a respeito da psicose................... O delírio na tradição psiquiátrica...1 2...................................... CASOS CLÍNICOS ........ LACAN .SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............. A QUESTÃO DO DELÍRIO NA EXPERIÊNCIA TEÓRICO-CLÍNICA DO GIFRIC .........................3..............2 3.3......................

trilharemos a posição freudiana a respeito do delírio. que desenvolve uma proposta alternativa à questão da direção da cura na psicose em uma instituição psicanalítica para psicóticos – o “388” – 1. na psicose. No primeiro item do capítulo. da UERJ – refere-se à proposta que a psicanálise pode oferecer quanto à direção de tratamento na clínica da psicose. Dessa forma. na cidade de Québec. o delírio é uma tentativa de cura. como. vem tecendo uma abordagem deste difícil campo clínico que é a psicose. Por outro lado. Canadá. em Québec. por permitir não só um acesso privilegiado à própria estrutura da psicose como algumas abordagens possíveis de direção de tratamento. desde os primórdios de sua invenção por Freud. na medida em que a psicanálise. em que tenta delimitar a diferença entre as estruturas neurótica e psicótica. enfocaremos o delírio como o objeto principal de nossa pesquisa. assim como com um caso clínico que acompanhamos no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba. analisaremos o lugar que o delírio ocupa na tradição da psiquiatria clássica – especialmente nas escolas alemã e francesa –. por exemplo. dando ênfase principalmente à construção da paranóia como entidade nosológica que mais se manifesta através de uma produção delirante sistematizada. como trabalharemos também o texto 1 Este é o número do imóvel no qual se localiza o Centro. como também na obra de Freud. nossa dissertação também teve como intuito pesquisar a produção teórica de Willy Apollon. No primeiro capítulo. articularemos às contribuições teóricas dos referidos autores dois casos clínicos sustentados por Lucie Cantin e Danielle Bergeron no “388”. partindo da idéia freudiana de que. Tendo em vista que o tema é muito amplo. ou seja. Niterói. . examinaremos os primeiros textos de Freud. a obra de Freud é extremamente fecunda por inaugurar balizas para todas as escolas psicanalíticas. psicanalista franco-canadense. em As neuropsicoses de defesa e em Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa. Para tal. apresentaremos um diálogo entre vários autores alemães e franceses a respeito do delírio. No item dois do primeiro capítulo.8 INTRODUÇÃO A questão que nos impulsionou a desenvolver uma pesquisa junto ao Programa de Mestrado – Pesquisa e Clínica em Psicanálise. nos apoiamos nas obras consagradas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Nesse sentido.

referentes a Lacan e a Apollon. como ressaltara em seu texto de 1911 sobre o presidente Schreber quando escrevera que a formação delirante. Assim. ao acrescentar que a perda da realidade não é exclusividade da psicose. esses últimos aspectos recolhidos da trajetória de Freud. A concepção teórica sustentada por Freud revoluciona o saber. não é patológica em si. abrem a perspectiva de uma articulação entre o delírio e a fantasia. em que afirma que “o delírio se apresenta como um remendo colocado no lugar donde originalmente se produziu um rasgo no vínculo do eu com o mundo exterior” (Freud. Como podemos encontrar. Nesse sentido.157). enfocaremos a contribuição de Lacan a respeito da psicose. mas uma tentativa de reconstrução. Ele subverte essa definição de Kraepelin. por exemplo. na medida em que a sua obra representa um avanço incontestável do projeto freudiano nos mais diversos temas da psicanálise. ao apregoar que o delírio é uma tentativa de cura já posterior a um momento silencioso de ruptura com a realidade. incluídos no terceiro item de nosso primeiro capítulo. e concluiremos o segundo item do primeiro capítulo apoiando-nos no texto freudiano a respeito do juiz-presidente Schreber. em seu texto Neurose e Psicose de 1924. Freud também surpreende em um outro texto escrito em 1924. mas também quanto ao tipo de reconstrução que esta induz em ambas as clínicas. como abordaremos também nos capítulos dois e três.9 Gradiva. na citação acima. No segundo capítulo. que considerava até então o delírio somente como uma alteração patológica ao nível das representações. faremos algumas observações a propósito das contribuições da psiquiatria clássica ao ensino de Lacan no que . respectivamente. especialmente o psiquiátrico. portanto. não só uma diferença entre essas estruturas no que tange ao processo de perda da realidade. embora o manancial de significantes do qual se nutrem para se afugentarem da realidade exterior indesejada provenha do “mundo da fantasia” (Freud. em que ele esboça uma distinção interessante entre delírios histérico e psicótico. por exemplo. na realidade. p. no primeiro item do segundo capítulo. E propõe nesse texto que tão importante quanto a perda da realidade é a questão relativa ao substituto para esta realidade indesejada tanto na neurose como na psicose. Freud. intitulado “A perda da realidade na neurose e na psicose”. 1924a. está reforçando a sua original concepção a respeito da capacidade de cura que a própria atividade delirante oferece ao psicótico. apresentando-se também na neurose. como já indica o próprio título do artigo. havendo. Então. 1924b).

Silvestre. Séglas. apesar de mantermos a distinção fundamental entre as três principais posições subjetivas – neurose.10 tange à psicose – especialmente Neisser. o enlaçamento borromeano dos três registros – real. No último item do segundo capítulo. o sujeito. alguns pontos em comum a respeito da questão do sujeito e da fantasia nas clínicas da neurose e da psicose. Soler.2 a partir da experiência clínica acumulada por eles em praticamente duas décadas de existência do “388”. Com isso. percorreremos brevemente as posições de alguns desses autores lacanianos – Caligaris. detendo-nos. Dessa forma. um psiquiatra. permitiremos uma interlocução mais interessante com as propostas de Apollon. um assistente social e o próprio usuário). nesse último item. retomaremos o diálogo de Lacan com a produção freudiana a respeito do delírio. os ateliês de criação. simbólico. Ao longo do segundo item do capítulo três. a fantasia. o primeiro item consistirá em uma pequena apresentação do “388” – Centro psicanalítico para jovens psicóticos –. a estrutura. após um percurso não-linear. principalmente. em interlocução com os membros do GIFRIC. no qual. No segundo item do capítulo dois. Laurent –. abordadas no terceiro capítulo. imaginário. com as posições de Kraepelin e Jaspers. . Tal direção repercute até hoje. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose –. por exemplo. entre muitos lacanianos. psicose e perversão –. as reuniões clínicas semanais – facilita a sustentação de uma psicanálise com o psicótico daquela instituição. que corroboram a indicação inicial de Lacan em relação à construção da metáfora delirante como paradigma de cura para a psicose. cunhou a expressão “metáfora delirante” como indicação teórico-clínica para a estabilização da psicose. Clérambault –. a articulação de algumas modalidades de trabalho – como as equipes de tratamento (formadas por um interveniente clínico. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. No terceiro capítulo. no entanto. como a principal direção no tratamento da psicose. em seu ensino do final da década de cinqüenta – Seminário III (As psicoses). assim como as divergências presentes nesse diálogo fecundo que ele travou com a psiquiatria – principalmente. esboçaremos uma leitura mais transversal da obra de Lacan para melhor enfocarmos vários aspectos trabalhados por Lacan no seu ensino mais tardio como. Enfim. 2 Grupo Interdisciplinar Freudiano de Pesquisa e de Intervenções Clínicas. a partir da leitura que Neuza Santos realizou da obra de Lacan. abordaremos a concepção que Apollon desenvolve a respeito do delírio. valorizaremos. no qual.

de modo geral. O psicótico. em decorrência da foraclusão do Nome-do-Pai (Apollon. apresentaremos três recortes clínicos de sujeitos psicóticos que permitirão uma melhor articulação com os tópicos teóricos – especialmente. construção do fantasma e restauração do desejo no laço social –. na medida em que privilegiaremos. Assinalamos previamente que a nossa dissertação não terá como ponto central a questão a respeito da construção do fantasma na psicose. questionaremos a tese principal de Apollon que afirma. como. levando-se em conta o seu estilo particular de leitura que valoriza muito o aporte antropológico. No entanto. Lacan e Apollon. impõe-se a “missão” de fundar uma “nova ordem” de representações para prosseguir em sua existência. reconstituição da imagem corporal. Freud. impede que o sujeito estabeleça laço social. a “crise de inscrição” – quando o sujeito se engaja no laço transferencial (Apollon.11 Portanto. como. por exemplo. Apollon sustenta que o delírio apresenta-se na estrutura psicótica com a função de realizar uma “missão”. principalmente. Nesse sentido. no terceiro capítulo. na hipótese de Apollon. geram alguns momentos críticos. a questão do delírio – abordados nos três capítulos anteriores do texto – Psiquiatria clássica. Os quatro momentos lógicos do tratamento analítico sustentado com psicóticos no “388” – (re)construção da história subjetiva. a ponto de Apollon assinalar em sua teorização a respeito da prática clínica desenvolvida no “388” que crises psicóticas fazem parte do tratamento. o lugar do delírio na direção de cura da psicose. por se encontrar desprovido da amarração que o Nomedo-Pai confere ao sujeito para poder compartilhar dos mesmos mitos fundantes da ordem simbólica. 1990). problematizaremos a direção de cura alternativa que Apollon propõe à clínica da psicose. 1999). No último item do capítulo. como o eixo principal do tratamento psicanalítico do psicótico – a desmontagem do delírio e a produção de um fantasma na psicose –. interrogaremos sobre alguns aspectos das propostas de Apollon. por exemplo. Então. No quarto e último capítulo de nossa dissertação. enfocaremos a leitura realizada por Apollon das obras de Freud e Lacan no que tange à psicose. a solução delirante. a questão a respeito da construção do fantasma na psicose. na medida em que o delírio consiste no trabalho espontâneo da psicose. . Ele sugere quatro etapas lógicas que se desdobram ao longo da análise de um psicótico para que haja o resgate do “desejo do sujeito” nas trocas que caracterizam o laço social.

faremos um cotejamento entre as duas experiências clínicas – a canadense e a brasileira –. apresentaremos o caso Serquequerser – um psicótico em surto que acompanhamos no HPJ –. Niterói. nos apresentaram claramente o estilo de intervenção analítica que segue bem de perto os pressupostos teóricos sustentados pelo GIFRIC. O terceiro caso clínico que trabalharemos nesse capítulo. ao abordarem as direções de tratamento de Phillip e André – como. Dessa forma. as contribuições de Freud. a partir de sua produção delirante. apesar das enormes diferenças sócio-cultural e institucional que distinguem os contextos. Lacan e Apollon a respeito de questões muito importantes no que tange à clínica da psicose. Portanto. a relação entre o delírio e a verdade. como. . e publicados no livro Traiter la psychose. que nos permitiu articular também. Por fim. respectivamente. Lucie Cantin e Danielle Bergeron. baseia-se na escuta analítica de um psicótico que acompanhamos no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba.12 Os dois primeiros casos clínicos foram acompanhados pelas psicanalistas Lucie Cantin e Danielle Bergeron no “388”. o real da clínica nos permitirá interrogar a respeito de alguns pontos que balizam a práxis desenvolvida no “388”. por exemplo. nomearam os sujeitos em questão –.

da vontade e da ação” (Kraepelin apud Cacho. há uma superposição entre o delirante e o louco. ocorrendo. para podermos extrair a definição de delírio que a psiquiatria propõe. instaurada no final do século XVIII. praticamente uma sinonímia entre o ato delirante e a própria loucura. há um desenrolar teórico que vai da conceituação de Verrücktheit à paranóia. que culminará na psicose alucinatória crônica de Ballet. a contribuição da escola francesa através do delírio crônico de Magnan. não é menos confrontada por essa problemática que se impõe na construção de sua clínica. Na psiquiatria clínica alemã. Analisaremos. 1991. Inicialmente.1 O delírio na tradição psiquiátrica Ao longo da história moderna. “um bom tipo clínico” em contraposição à demência precoce que reputava um mau termo nosográfico. com a proposição do conceito de paranóia da seguinte forma: “desenvolvimento insidioso sob a dependência de causas internas e segundo uma evolução contínua de um sistema delirante durável e impossível de abalar que se instaura com uma conservação completa da clareza e da ordem do pensamento. no senso comum. Heinroth propõe o termo Verrücktheit. Então. A tradição psiquiátrica. em correspondência com Jung. p. tem-se a síntese de praticamente todo o esforço de quase um século da escola alemã. “desordem intelectual” para retomar a antiga significação de loucura. privilegiaremos em nossa pesquisa um breve recenseamento histórico através das duas escolas dominantes. reportar-nos-emos à entidade clínica paranóia – uma construção teórica da escola alemã. também. sendo fonte de grande debate entre os autores especialmente das duas grandes escolas da psiquiatria clássica. cujo sintoma central é o delírio – considerada por Freud (1908) . pois talvez seja o delírio o tema mais relevante e complexo para o saber psiquiátrico.13 1 FREUD 1. termo que o Corpus Hipocraticum designava pela palavra . a alemã e a francesa.19). Na obra de Emil Kraepelin. Em 1818. tributária da inclusão da medicina no campo da ciência. pelo menos do Ocidente.

por último. haverá. instintivo e alucinatório (Cacho. a paranóia emerge como termo e como categoria. ao lado das formas melancólica e exaltada. Em 1845. Hoffmann. idéias de perseguição. não dependendo de causas exteriores e também não dependendo de uma enfermidade anterior. Em 1865. Aguda – caracterizada por alucinações súbitas. 1991). aquelas que afetam o entendimento e o juízo. Krafft-Ebing separa a forma aguda da loucura sistematizada e designa pelo termo paranóia uma síndrome delirante que corresponde à Verrücktheit. Snell modifica a concepção de seu contemporâneo. se subdivide em quatro formas: 1. fruto de um funcionamento lógico mesmo que as premissas sejam falsas (Cacho. . cujo delírio primitivo organizado. ao sugerir que. não secundário a transtornos afetivos. era composto por temas de perseguição e de grandeza (Cacho. Em 1862. sem apresentar um caráter sistemático. e noos – espírito (Cacho. as afecções que envolvem a vontade e. assim. refere-se ao último tipo de afecção (Miller. 3. em oposição a –. 1991). isto é. na obra de Griesinger. 1991). Hoffmann utiliza o termo Verrücktheit para definir um tipo de doença mental que se desenvolve a partir de alucinações sensoriais. desenvolvimento organo-psíquico defeituoso (Cacho. 1991). 1985). podendo conceber o nascimento de um sistema delirante organizado.14 “para-noia”. exaltado. em sua evolução. mas. A paranóia. Em 1861. nesta tripartição. haveria uma Verrücktheit primária. que em grego tem a seguinte acepção: para – contra. no qual se distinguem as afecções que envolvem os afetos. Hipocondríaca – queixas hipocondríacas associadas a transtornos de sensibilidade geral formam o substrato do delírio de perseguição sucessivo. Em 1879. 2. Os principais sintomas da síndrome são idéias delirantes sistematizadas que organizam um verdadeiro “edifício delirante”. Original – sistematização de ideação persecutória em indivíduos herdeiros de degenerescência. Westphal sublinha um traço específico do delírio organizado e estabelece uma classificação da loucura sistemática (Verrücktheit) que. Em 1878. Crônica – o delírio de perseguição não é precedido por idéias hipocondríacas. 1991). classificado conforme a paixão dominante: melancólico. 4. tratando-se de uma afecção considerada primitiva. a presença de idéias de grandeza. Kalhbaum retoma esse termo num marco kantiano.

o de grandeza com duas variedades. A primeira evolui através dos seguintes temas delirantes: hipocondria. A segunda forma de paranóia primitiva apresenta um único tema delirante. invariável é secundário ao afrouxamento intelectual devido a um estado melancólico. que apresenta o delírio de grandeza. a religiosa e a erótica. . 1991). Desde a segunda edição. O período clássico da escola alemã se encerra com as publicações. entre 1883 e 1913. às vezes. das oito edições da obra de Kraepelin. perseguição e grandeza com um subtipo. cujo delírio monótono. Ele a considera como constitucional. representando um exagero dos traços de caráter da personalidade do doente. tendência imaginativa. a excentricidades (Cacho. o delírio de querulância. na medida em que as funções lógicas do pensamento permanecem intactas. – a segunda classe de paranóia é chamada secundária. cujas idéias delirantes se constituem na ausência de qualquer processo prévio de reflexão ou de um transtorno emocional. na sexta edição. Em 1899. que Kraepelin descreve como “delírio de referência” (Cacho. O aspecto mais relevante desta edição é a ultrapassagem da investigação ao nível semiológico e evolutivo para a nomeação do mecanismo patológico fundamental da paranóia. inclinação à violência.15 Krafft-Ebing classifica a paranóia em duas categorias: – a primitiva. Essa categoria primitiva é dividida em duas formas. ao valorizar o caráter de sistema delirante durável e impossível de abalar. como já supracitado. maníaco que a precede. Krafft-Ebing atrela a paranóia a esta síndrome delirante que se origina da “constituição paranóica”. emotividade não adaptada. 1991). não provoca demência. orgulhoso. dividindo essas últimas entre a forma depressiva – que inclui o delírio de perseguição. classificando-a em delírios sistematizados primitivos – cujas integridades afetiva e intelectual são mantidas – e estados secundários em que o delírio é “descolorido. Kraepelin separa as psicoses agudas (Wahnsinn) das psicoses crônicas (Verrücktheit). pálido” e a personalidade se encontra “dissociada” (Cacho. Somente na quarta edição de sua obra. 1991). Essa paranóia é estável. termo que acabou por se tornar clássico ao descrever os seguintes traços psicológicos do paciente: caráter desconfiado e fechado. que constantemente as revisou durante esses trinta anos para proporcionar uma enorme síntese na psiquiatria de língua alemã. Kraepelin adota o termo paranóia para definir a loucura sistematizada (Verrücktheit). delírio hipocondríaco e o delírio de querulância de Krafft-Ebing – e a forma expansiva. Kraepelin apresenta a definição mais acabada de paranóia.

Assim. Em 1892. A principal acepção da palavra alemã Eigenbeziehung indica uma referência a “si próprio”. de 1932. Debate que atravessa também a obra de Jaspers no início do século XIX e se desdobra em Lacan tanto em sua tese de medicina. 1988). a partir dessa apropriação teórico-clínica a respeito do mecanismo fundamental da paranóia. a fonte do curso de pensamentos formalmente corretos e lógicos. como. Citemos Neisser: “esses pacientes sem o querer nem o saber. p. em sua tese de medicina (1932). aprisionando-o ao relacioná-las a sua própria pessoa. Lacan unifica sob o termo de “significação pessoal” os quatro tipos de fenômenos . o mal-estar corporal. propõe o termo krankhafte Eigenbeziehung para localizar o mecanismo gerador da paranóia. em fins do século XIX. por exemplo. em torno da questão a respeito do mecanismo fundamental da paranóia. assim como o próprio sistema delirante é considerado em si mesmo secundário e variável. há um importante debate que já se inicia. em 1955-56 (Sauvagnat. Clemens Neisser. mas falsos e delirantes do ponto de vista do conteúdo. 1988). como em seu Seminário sobre as psicoses. em um artigo intitulado Discussões sobre a paranóia questiona-se sobre qual o processo que determina o delírio e. Tiling. Portanto. 1988). Heilbronner) e traduz esse termo por “significação pessoal” (Sauvagnat. apoiado apenas em observações clínicas de casos os mais unívocos possíveis de delírio de perseguição. e as próprias alucinações. Clemens Neisser. entre Kraepelin – mestre da escola de Munique – e outros autores de sua época. Entretanto.16 Todavia. por esse fato. em estados sem afeto. alternadas com momentos de abatimento. 1988. Lacan. o sujeito apreende aleatoriamente determinadas representações que irrompem em sua consciência. representando o sistema delirante propriamente dito (Sauvagnat. ao buscar também um fenômeno elementar na origem da interpretação paranóica retoma a importância do fenômeno da Eigenbeziehung descrito por alguns clínicos alemães (Neisser. esses pensamentos são freqüentemente sutis. o ponto de partida que caracteriza a Eigenbeziehung congregaria o sentido último de toda uma série de sintomas da paranóia como a hipocondria. agarram as representações que se apresentam em suas consciências como estando em relação particular com sua própria pessoa” (Neisser apud Sauvagnat.22). tornando-se. Como abordaremos no capítulo seguinte. Então. as agitações mais ou menos desordenadas. Esse mecanismo é considerado por Neisser o sintoma primário da paranóia por falsificar a percepção sensorial assim como a reprodução das representações.

Será Jaspers quem mais fortemente se oporá à concepção kraepeliniana ao apontar. tanto em seu Seminário intitulado As Psicoses – quando relaciona que na psicose alguma coisa se apresenta como uma significação que visa o sujeito – como em seu escrito De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. exclusivamente. a idéia delirante será teorizada como o resultado de uma alteração global do psiquismo do enfermo.17 elementares que observa no caso Aimée: estados oniróides. por exemplo. Posteriormente. sendo esta decorrente da foraclusão do significante Nome-do-Pai. justamente. para as quais não se encontram antecedentes psicológicos. impossibilidade de sua modificação pela experiência e impossibilidade de conteúdo. Jaspers considerará a idéia delirante um erro global do psiquismo e não mais. por sua vez. sendo a certeza psicótica diretamente proporcional ao vazio enigmático que se apresenta no lugar da falta de significação. 1982). . Jaspers. Já as idéias deliriformes são psicologicamente compreensíveis devido a manifestações de estados afetivos e até mesmo a obnubilações da consciência (Leme Lopes. ou seja. 1988). incompletude. Jaspers define o delírio como “um juízo patologicamente falseado”. 1982). a significação é efeito da cadeia significante. Em 1913. Então. interpretação. em seu livro Psicopatologia Geral. uma “necessidade de delírio”. faz uma distinção entre “idéias delirantes” (Wahn Ideen) e “idéias deliriformes” (Wahnhaften Ideen). uma fraqueza de julgamento. na expressão de Jaspers (Leme Lopes. Primeiramente. Mas Kraepelin. Essa apropriação terá um alcance muito importante na obra de Lacan. reconhecido através de três critérios: extraordinária convicção que equivale a uma certeza subjetiva incomparável. ilusões da memória (Sauvagnat. os conceitos de desenvolvimento e de processo. As primeiras representam um fenômeno primário (Urphanomen) irredutível a si mesmo. na medida em que preconizava um desenvolvimento insidioso para a paranóia e não um processo que subvertesse completa e bruscamente a vida psíquica do paciente. considerava relativa a importância desse fenômeno da “significação pessoal” como o mecanismo fundamental da paranóia. as idéias delirantes se apresentam como uma coisa última intransponível (Letzheit). ou seja. Lacan considera a significação enigmática como um efeito da língua fundamental de Schreber. como principais critérios para construir a sua psicopatologia compreensiva das afecções mentais.

essa forma clínica pertencerá à “demência precoce verdadeira” na grande síntese da escola francesa que Gilbert Ballet realiza . afirmar que o delírio é sempre uma idéia espontânea gratuita (1982). Na primeira fase. Magnan descreve o “delírio crônico de evolução sistemática” como uma psicose que se caracteriza por uma longa resistência do paciente à irrupção mórbida. o significado é em si mesmo uma idéia espontânea (Einfall). sistematização do delírio persecutório e demência.18 Jaspers classificava as vivências delirantes em percepções e representações delirantes. na realidade. idéias de perseguição. eixo da nosologia do autor mais influente na França até a chegada das concepções de Kraepelin (Bercherie. Mais tarde. Lasègue apresenta a descrição do “delírio das perseguições”. nas duas formas. p. como quarta fase. a um quadro clínico bem marcado por quatro fases: incubação. completando o quadro clínico. Nesse momento. 1987). então. a ponto de Kurt Schneider. Em 1852. será rebatizada por Magnan como “delírio crônico de evolução sistemática”. conduzindo-o. em 1882.1987). A percepção delirante caracteriza-se por uma percepção seguida imediatamente por um significado que comporta um sentimento de estranheza. que culmina em um delírio de grandeza. Embora haja na percepção delirante um estímulo externo e a representação delirante nasça da própria vida psíquica. situaremos em linhas gerais a produção da escola francesa concernente ao campo das afecções delirantes crônicas para podermos cotejar com a escola alemã. Magnan oporá ao quadro clínico regular do “delírio crônico de evolução sistemática” um delírio “polimorfo” que se caracteriza pela anarquia em seu desencadeamento e se desdobra sob a forma de “bouffées delirantes”. restando apenas. o período de demência correspondente ao enfraquecimento psíquico terminal do paciente (Bercherie.12). que será afinada posteriormente por Morel (1860) e Jules Falret e. Na passagem da segunda para a terceira fase. há a sistematização do delírio persecutório. discípulo de Jaspers. A representação delirante como “novas colorações ou interpretações para as lembranças da vida pregressa ou uma súbita idéia espontânea” (Einfall). a idéia espontânea já surge portadora de um significado especial (Lemes Lopes. a de incubação. o paciente apresenta mal-estar. 1982. na qual haverá o aparecimento de alucinações acústico-verbais e sensitivas. o humor delirante. inquietude e uma tendência interpretativa que se desdobra em idéias de perseguição já caracterizando a segunda fase.

no qual o sujeito se sente habitado psiquicamente (1987). mas o predomínio de alucinações que nomeou como motrizes. que privilegiava justamente o contrário. em 1911. a sua monografia a respeito do grupo das . Bleuler já havia publicado. em 1911 (1987). que se tornara mundialmente hegemônica a partir de 1899 ao dividir o campo das psicoses em três grandes grupos: os estados agudos resolutivos (“loucura maníacodepressiva”). o “delírio de possessão”. à nosologia kraepeliniana e ao reagrupar as formas mais organizadas de delírios crônicos como “psicose alucinatória crônica”. embora mantenha a “paranóia” kraepeliniana e uma “demência precoce” em uma concepção mais restrita em sua nosografia.19 ao contrapor-se. Os franceses criticaram a extensão da desintegração psíquica que estaria na base da demência precoce. em parte. na passagem do século XIX para o XX. esta última consistindo no reagrupamento dos delírios crônicos alucinatórios (ex-paranóias fantásticas) com o grupo da hebefreno-catatonia. este considerado uma superestrutura explicativa tardia. Ballet fundamenta psicopatologicamente a descrição da “psicose alucinatória crônica” apoiando-se em trabalhos como os de Cotard. Ballet opta pela análise de Séglas e de seus discípulos. apresenta. que priorizaram uma síndrome alucinatória na base do delírio em detrimento da concepção de Magnan. a escola francesa diferencia-se da escola alemã através da “psicose alucinatória crônica”. ou seja. em que a palavra se emancipa da boca do paciente. aspecto bastante ressaltado por Kraepelin ao privilegiar uma evolução terminal nessas afecções mentais. Observações essas que descrevem uma síndrome alucinatória primária antecedente ao delírio. Assim. a alucinação ocorreria posteriormente ao delírio persecutório (1987). No entanto. Assim. assim como o próprio critério de demenciação. Contudo. através da construção do conceito de “psicose alucinatória crônica”. a escola francesa. Dessa forma. que põem em evidência observações clínicas caracterizadas por estados alucinatórios crônicos sem delírio. em 1913. quando Ballet finaliza a descrição da “psicose alucinatória crônica”. nos últimos anos do século XIX. E estas alucinações motoras estariam na base de um delírio de perseguição particular. os delírios crônicos não-alucinatórios (“paranóia”) e a “demência precoce” (futura esquizofrenia bleuleriana). aluno de Séglas. Séglas consagrou-se ao descrever uma segunda forma de “delírio crônico alucinatório sistematizado” cuja característica principal não era a apresentação de alucinações acústico-verbais no quadro clínico. mais tarde rebatizado como “delírio de influência”. uma resposta à nosologia de Kraepelin.

na realidade. Esta se relaciona ao “fundo material” . psicomotoras e o próprio delírio (Clérambault. tais como “emancipação do pensamento abstrato. 79). 1987. intuições abstratas. Portanto. Clérambult investigou ao longo de sua obra a causa primeira da psicose. investigáveis em termos psicológicos. não sendo. E. parada do pensamento abstrato. p. ainda que contemporâneo da passagem da psiquiatria clássica para a moderna . A partir de 1920. Desse modo. notamos que não há uma teoria homogênea a respeito do delírio em psiquiatria que produza conseqüentemente uma definição única sobre o tema. longe de ser a psicose. fisiológico . esvaziamento do pensamento”. A sua definição de delírio consiste em reportá-lo ao conjunto dos temas ideicos e sentimentos anexos. por intermédio de Jung.permaneceu arraigado à psiquiatria clássica como seu último representante.devido à revolução freudiana. assim. que.20 “esquizofrenias”. “um produto intelectual sobreacrescido”. principalmente em relação à definição de paranóia sintetizada por Kraepelin. a produção clássica da psiquiatria francesa nesse debate com os autores alemães a respeito das psicoses. tentativa de explicação consciente do efeito dos fenômenos elementares que em si não trilham uma ideação consciente em sua gênese. Entretanto. ecoou na corrente psicodinâmica de Bleuler e também à introdução da fenomenologia por Jaspers na pesquisa em psicopatologia .que se expressa psiquicamente através dos fenômenos elementares. começando a suplantar com esse conceito a própria “demência precoce” de Kraepelin em termos de difusão mundial. portanto. Observamos também que a psicanálise parte do edifício nosológico da psiquiatria. nomeada por ele como o mecanismo gerador da psicose. pois. tanto à consagrada obra kraepeliniana como à promissora proposta de Bleuler. ideorréia. através da “síndrome do automatismo mental” e de suas intervenções junto à “psicose alucinatória crônica”. que são sucedidos pelas alucinações auditivas. Clérambault ocupou uma posição muito peculiar em seu tempo. os franceses praticamente responderam.histológico. a obra de Freud subverte . através da “psicose alucinatória crônica”. O delírio para Clérambault apresenta-se como um “Romance”. apoiou-se inicialmente em estudos a respeito dos delírios coletivos. a obra de Gaëtan Gatian de Clérambault vai coroar. para realizar tal tarefa. chegando a distinguir o delírio da psicose propriamente dita.

a operação necessária para se diminuir ou até mesmo eliminar qualquer modificação que pusesse em risco a economia psíquica do sujeito. Clérambault -. na medida em que o inconsciente e o significante é que sobressaem na teoria psicanalítica.21 profundamente o conceito de delírio subjacente à concepção psiquiátrica alemã. Freud. observamos que Lacan enriqueceu a sua teorização a respeito da psicose a partir. entretanto. Em 1894. Mas. como veremos no próximo item deste capítulo. como veremos no próximo capítulo. Contudo. uma posição angular no edifício psicanalítico. a partir de 1900. desde sua correspondência com Fliess – no início de sua original criação – até seus últimos textos no exílio londrino. inovadora. inconclusa a respeito. não podemos deixar de ressaltar que há uma profunda diferença entre as duas disciplinas – psiquiatria e psicanálise –. a neurose obsessiva e a paranóia como tendo em comum a produção de uma defesa (Abwehr) . do processo gerador da psicose. então. 1. detevese em elaborar uma “teoria da defesa” que possibilitasse uma melhor intervenção clínica assim como teórica através da definição de defesa. portanto. o recalque é que se constitui na principal defesa. multifacetada. Séglas. Esta era considerada. o rigor da observação clínica da psiquiatria clássica permitiu a preparação do terreno para uma abordagem estrutural dos fenômenos psíquicos que vem sendo desenvolvida pela psicanálise. agrupou a histeria. enquanto a psiquiatria se reporta à consciência e ao significado. opera importantes modificações a respeito da paranóia e do delírio. Freud. assim como da contribuição de Clérambault a respeito dos “fenômenos elementares” que irrompem na psicose. Portanto. da proposta de “significação pessoal” (Eigenbeziehung) de Neisser. por exemplo. ocupando. embora. Entretanto. em seu artigo As Neuropsicoses de Defesa. a produção freudiana a respeito da psicose é vasta. O ensino de Lacan mantém também um extenso diálogo com a psiquiatria clássica Kraepelin. Contudo. principalmente.2 O delírio segundo Freud A questão da clínica da psicose perpassa toda a obra de Freud. no período anterior ao da escritura de Interpretação dos Sonhos (1900).

enquanto na neurose obsessiva. porque já ocorrera sua inscrição mnêmica com o afeto correspondente.22 por parte do eu ante uma representação inconciliável de caráter sexual. este processo produz como resultante o desatamento total ou parcial da realidade (Realität). o recalque se daria através da “conversão” à inervação somática. a defesa desencadeada pelo eu produz o divórcio entre a representação e a soma de excitação que a acompanha. e como esta representação está ligada de maneira inseparável a um fragmento da realidade objetiva. como exemplifica Freud nesse texto. de certa forma. a partir de então. entretanto. essas entidades clínicas diferenciam-se pela modalidade como o recalque incide sobre a representação indesejável. Freud propõe “uma modalidade defensiva muito mais enérgica e exitosa. Em relação à paranóia. Portanto. como a histeria e as representações obsessivas.59). Segundo Freud. através do quadro clínico da confusão alucinatória. Inicialmente. entretanto. Freud publica um novo artigo. mas que. tese já esboçada no Rascunho K na correspondência com Fliess. Na neurose obsessiva. ao se encontrar liberado da representação intolerável adere a outras representações inconciliáveis em si mesmas. p. a rejeição da representação insuportável pelo eu na psicose escapa tanto à autopercepção do enfermo quanto à análise psicológico-clínica. tanto a histeria como a neurose obsessiva têm em comum a modificação da representação sexual intensa em uma representação débil qualquer. o afeto permanece no âmbito do psíquico por não haver o escoadouro para o componente somático. o sujeito que logra tal defesa é conduzido à psicose. intitulado Novas Observações sobre as Neuropsicoses de Defesa – que. é um desdobramento das teses do texto supracitado – reafirmando que a paranóia é. Os sintomas dessas três enfermidades são determinados em sua forma pelo conteúdo do recalcado. na medida em que é impossível para o eu tratá-la como “non-arrivée” (não-acontecida). na histeria. embora esse quantum de excitação se transponha ao corporal. em virtude dessa sobrecarga energética. Em 1896. caracterizando o que Freud denomina “conversão histérica” (1894). por “substituição” da representação intolerável ao longo de certas redes . Na histeria. transformam-se em representações obsessivas (1894). na qual o eu rejeita (verwerfen) a representação insuportável junto com seu afeto e se comporta como se a representação nunca houvera comparecido” (1894. Assim. uma neuropsicose de defesa proveniente do recalque de recordações penosas.

. Dessa maneira. Mas. a antipatia. como na neurose obsessiva. os sintomas que brotam da defesa primária são os delírios de desconfiança. No entanto. não é nesse aspecto que a psicanálise demonstra a sua originalidade em relação à psiquiatria. oriundos do recalque de alguns pensamentos de reprovação na ocasião de uma vivência análoga ao trauma infantil. enquanto na obsessão. sintomas do retorno do recalcado. partem do recalque de uma vivência sexual infantil. a perseguição dos outros. contudo. inicialmente. “pensamentos ditos em voz alta”. E quanto às vozes alucinadas. Freud afirma que não poderiam ser imagens ou sensações reproduzidas por via alucinatória. Em relação à paranóia. esta é compensada pela entrada em vigência do escrúpulo da consciência moral que o protege da reprovação que retorna como representação obsessiva. segundo Freud. sim. podemos perceber um dos aspectos da concepção de Freud a respeito do delírio ao enfatizá-lo como a função de interpretar as alucinações (1896). Freud propõe também uma comparação entre a neurose obsessiva e a paranóia. um caso clínico para propor algumas nuances a respeito do modo particular como o recalque ocorre na psicose (1896). no intuito de uma melhor distinção estrutural. assim como formam sintomas decorrentes de uma defesa primária e secundária. Ele considera vivazes as alucinações visuais por não serem outra coisa que fragmentos do conteúdo das vivências infantis recalcadas. ao invés de desconfiar de si mesmo. Freud descreve minuciosamente nesse texto. como citado no item precedente desse capítulo. Esse caso clínico relatado por Freud é entremeado por uma riqueza de alucinações visuais e auditivas – embora não apresentasse nenhum delírio – a ponto de ele afirmar que a paciente ou lhe escondera as “formações delirantes” que serviriam para “interpretar as alucinações” ou ainda não as tinha produzido. Assim. na neurose obsessiva é lícita a reprovação a que o sujeito é submetido devido à vivência prazerosa em relação à cena recalcada. Na paranóia. ou seja. Ambas. embora sofram também o efeito da desfiguração como todo retorno do recalcado. ainda. mas. na medida em que a questão a respeito da anterioridade do delírio ou da alucinação já era debatida entre os psiquiatras. na paranóia.23 associativas. Freud ousa mais ao relacionar as alucinações da paciente à sua revolucionária conceituação a respeito da formação do sintoma. o recalcamento da reprovação toma o rumo da “projeção”. a reprovação inicial é recalcada pela formação do sintoma defensivo primário: a desconfiança de si mesmo. ou seja.

neurose obsessiva e paranóia). permitindo. sendo desfalcado. ou seja. . para melhor examiná-lo. por exemplo: Hamlet. Então. ao escrever sobre o delírio e os sonhos a partir da obra Gradiva. deslocamento e projeção. ou seja. estipula a defesa como se encontrando universalmente nas principais patologias analisadas. as idéias delirantes que chegam à consciência em virtude da solução de compromisso entre as forças recalcadoras e as recalcadas imprimem uma demanda de trabalho ao eu para adaptar-se a essas neoformações psíquicas que são os delírios. um destino trágico que. atingindo um duplo objetivo. Jensen narra a trajetória de um jovem arqueólogo alemão que é envolvido por uma súbita e “inexplicável” paixão por uma imagem feminina que se encontrava petrificada em um baixo-relevo que conhecera em um museu de Roma. A imagem da jovem mulher o fascinava principalmente por retratar um caminhar muito peculiar. como na obsessão. segundo a fantasia do arqueólogo. por isso. há produção de sintomas de defesa secundária. de Shakespeare. delimitar novos mecanismos na particularidade de cada afecção (conversão. Freud observa também que. neste momento de sua trajetória. Portanto. Em 1907. uma posição social. O jovem arqueólogo compra. a cidade na qual habitava e. resultando disso a construção de fantasias a respeito dela. na paranóia. uma réplica do baixo-relevo e o transfere para o seu laboratório em uma universidade alemã. Freud. uma origem familiar. Freud. assim como propor a sua concepção sobre o delírio. debruça-se sobre as “neuroses de defesa”. de uma proteção contra as reprovações que retornam como idéias delirantes (1896). por exemplo. Em segundo lugar. ocorrera na famosa erupção do Vesúvio em Pompéia.24 o paranóico desconfia dos outros. o delírio de interpretação desemboca numa alteração do próprio eu no transcorrer da paranóia. então. anterior à delimitação do recalque propriamente dito. Em primeiro lugar. responde à questão etiológica das psiconeuroses (histeria. apóia-se pela primeira vez integralmente em um texto literário para retomar as suas teses a respeito da “ciência dos sonhos”. Freud já tinha se referido anteriormente a outros textos literários para desenvolver seu trabalho. e Édipo-Rei. respectivamente). inclusive. descreve as diversas manifestações clínicas. de Sófocles. como. a partir do próprio processo defensivo. até mesmo. na qual trabalha. de Wilhem Jensen. um nome. ou seja. no início da era cristã. como.

o que se dá sempre ao meio-dia. ele havia tido um contato muito próximo e bastante amoroso com Zoe Bertgang. Zoe é quem encarna Gradiva nos diálogos com Hanold. não os reconhecia. Desvelando-se assim o amor pela menina Zoe Bertgang que cativou Hanold em sua infância (1907). essas recordações somente podem tornar-se eficientes na qualidade de inconscientes. sendo possível acompanhar isso até na própria significação deste sobrenome: Bert – brilho – e gang – andar. Neste ponto. transtornado por seu delírio. Hanold. em sua busca desesperada por algum contato com Gradiva. Nas ruínas de Pompéia. E. o protagonista da obra de Jensen. p. mas Hanold. Na realidade. Devido à censura.25 Norbert Hanold. p. nomeou a figura feminina representada no baixo-relevo como Gradiva (“a jovem que avança”) e entregando-se a suas fantasias. E. o protagonista é interpelado por uma jovem alemã que também se encontrava em viagem ao sul da Itália acompanhando seu pai. Na verdade. mais do que simples vizinhos. porque Zoe também possuía o mesmo andar peculiar retratado pela escultura. Por isso. Portanto. na medida em que Gradiva era o substituto de Bertgang. a partir dessa estratégia de Zoe. Freud nos indica uma direção para se abordar o delírio: “o tratamento sério de um estado patológico real dessa índole não poderia fazer outra coisa que se situar no começo no terreno do edifício delirante e então explorá-lo da maneira mais exaustiva possível” (1907. eram vizinhos na Alemanha. estas se ampliam a tal ponto que se constituem em um delírio. mas dentro do sublime propósito de uma “missão científica”. a partir das “intervenções” de Zoe. mas que esquecera por completo na vida adulta por se recusar firmemente a qualquer aproximação com o amor. Hanold elaborou associações entre dois sonhos produzidos por ele. acaba por encontrá-la. revela-se algo do material recalcado que se encontra na própria origem do delírio de Hanold. . durante a sua infância. quando esta retorna de sua eterna morada. Portanto. produzindo-se. assim como uma articulação com o próprio delírio. Freud afirma que o que se exterioriza desta luta é um delírio (1907). uma luta entre o poder do erotismo e as forças que o recalcam. por isso.19). conforme nos aponta Freud em seu texto (1907. um eminente professor de Zoologia da mesma cidade universitária na qual Hanold morava. O baixo-relevo antigo reacende em Hanold o erotismo adormecido em suas recordações da infância. neste momento. passando a influenciar inclusive as suas ações. Hanold se lança a buscar nas cinzas petrificadas da Pompéia atual algum traço das pegadas de Gradiva. Nesta empreitada.13).

Jean-Claude Maleval. Contudo. senão que só se expressam mediante indícios anímicos”. através da seguinte citação. p. ou seja.52). Assim. o importante são as pertinentes observações de Freud a respeito do delírio de uma maneira . uma distinção entre o delírio histérico – efeito do retorno do recalcado – e o delírio das psicoses – efeito da foraclusão do Nome-do-Pai – já baseado na formulação de Lacan. Os sintomas do delírio – tanto fantasias como ações – são resultados de um compromisso entre as correntes anímicas. a partir de sua leitura do texto de Jensen. como Freud articula as fantasias ao delírio: “o determinismo inconsciente somente poderá conseguir aquilo que ao mesmo tempo satisfaça ao determinismo científico consciente. Inicialmente. ou seja. 1996). é apenas da ordem do pensamento. busca justamente resgatar a categoria nosográfica de loucura histérica. mesmo havendo essa indicação de que o delírio de Hanold seja histérico. em uma pequena nota de rodapé. que o delírio de Hanold teria que ser designado como histérico e não paranóico. Dessa forma. neste momento da obra freudiana. por também considerar o delírio histérico como uma formação do inconsciente. p.26 Então. E relaciona também o delírio à fantasia de uma forma inequívoca ao singularizá-lo “pelo fato de que nele umas ‘fantasias’ alcançaram o governo supremo. ganharam crença e cobraram influxo sobre a ação” (1907. sendo aquelas substituições de recordações recalcadas devido à censura (1907). Portanto. por não haver nenhum indício de paranóia (1907). Assim. Freud afirma que o delírio “pertence àquele grupo de estados patológicos que não corresponde a uma ingerência imediata sobre o corporal. como também podemos observar na conexão que estabelece – “sonho e delírio provêm da mesma fonte: o recalcado” (1907. como um retorno do recalcado. busca perpetuar a categoria de loucura histérica que caíra em desuso nas nosografias ao longo do século XX. inclusive. p. a questão a respeito do delírio nesse texto de Freud se complica um pouco mais porque afirma. inclusive para a própria psicanálise (Maleval. Freud considera que fantasias precursoras se encontrariam subjacentes à própria formação delirante.38). da fantasia e dos sonhos. o delírio ganha um estatuto muito próximo a uma formação do inconsciente. Levando-o a propor. Entretanto. vale dizer. e em um compromisso se leva em conta as demandas de cada uma das partes” (1907. podemos constatar. Freud ressalta alguns pontos importantes a respeito de sua posição diante do delírio.44). em sua obra Loucuras histéricas e psicoses dissociativas.

algo da ordem da verdade para o sujeito. . Em 1911. a ponto de amá-lo como a si mesmo: “Se o enfermo crê com tanta firmeza em seu delírio. ou seja. o que lhe proporcionou sustentar-se de certa forma no laço social. há nele algo que realmente merecia crença. não só escreveu sobre o processo de construção de seu delírio paranóico. Como retorno do recalcado ou do foracluído – conforme se trata de um delírio na histeria ou na paranóia. a suspensão da custódia que lhe pesava no asilo psiquiátrico.27 geral. como nos aponta toda tradição psiquiátrica. segundo Cabas. que vários desses aspectos serão retomados pelo GIFRIC. Antes o contrário. produzindo. como é comumente designado – introduz no relato desta experiência justamente a posição do sujeito em jogo na psicose. respectivamente –. como também conquistou. que portanto está justificada nessa medida” (1907.67). E Freud. Schreber. em todo delírio se esconde um granito de verdade. Parecendo-nos. Neste momento. para encerrar essa pequena incursão por esse texto de Freud. já que se encontrava internado há oito anos. Portanto. então. inclusive. define o falseamento do juízo como o pilar de toda construção delirante com sua conseqüente crença inabalável. ao fazer de um livro de memórias de um psicótico um caso clínico – o caso Schreber. 1982). por exemplo. e essa é a fonte da convicção do enfermo. talvez. assim como sua reconstrução. em seu livro. E para tal. Entretanto. Memórias de um doente dos nervos. a posição de Freud se dirige muito mais para a questão da verdade que estaria em jogo no próprio cerne do delírio do que para a questão do juízo. como veremos no terceiro capítulo. Freud parte de duas hipóteses – homossexualidade e projeção – para alcançar a causa da brutal experiência psicótica de desmoronamento do mundo. em particular da paranóia. E. Freud. A obra de Kraepelin. explora o livro autobiográfico do magistrado alemão Daniel-Paul Schreber. ressaltamos a questão da crença que o sujeito deposita em seu delírio. a partir deste escrito. em sua concepção a respeito do delírio. a sua maior contribuição a propósito para o estudo da psicose. p. o que importa é o que se torna presente no delírio. Produzindo. o primeiro grande texto da tradição psicanalítica a respeito da psicose: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia (Dementia paranoides) descrito autobiograficamente. isso não se produz por um transtorno de sua capacidade de julgar nem se deve ao que há de errôneo em seu delírio. incluindo aí a sua original concepção a respeito do delírio (Cabas. Freud persevera em seu estilo ao abordar a psicose a partir da tessitura de um texto publicado. desloca a questão da falha na capacidade de julgar que o delirante apresentaria.

Dez anos depois. a seguir um breve percurso entremeando alguns pontos da vasta história clínica de Schreber com a abordagem de Freud a respeito do nosso tema: o lugar do delírio na direção do tratamento psicanalítico da psicose. passando aos cuidados do Dr. aproximadamente por meio ano. No período inicial do surto. que realiza várias tentativas de suicídio como a única saída possível para o seu sofrimento. idéias hipocondríacas. Após breve estada na clínica do Dr.28 Faremos. Daniel-Paul Schreber é um advogado bem-sucedido na Alemanha da segunda metade do século XIX. começam a brotar também as primeiras idéias persecutórias relacionadas ao Dr. Schreber apresenta uma severa insônia. manipulações corporais. principalmente. como houve remissão da sintomatologia. o mais alto posto que poderia ocupar na hierarquia jurídica. Dr. . é transferido para o sanatório de Sonnenstein. além de idéias de perseguição. apesar de grande anseio. permanecerá seus próximos oito anos em um longo e árduo trabalho psíquico para produzir uma resposta ao real que irrompe. a de que seu cérebro estaria amolecendo. estados de hiperestesias e hipersensibilidade à luz e a ruídos. apresenta pouco tempo depois um grave quadro hipocondríaco que o leva a ser internado pela primeira vez. uma fantasia que lhe surge em estado hipnagógico.14). Flechsig em Leipzig. p. então. poucos meses após a sua nomeação como juiz-presidente da Corte de Apelação de Dresden. embora o casal tenha permanecido sem filhos. ou seja. diante de sua derrota em uma disputa eleitoral para ocupar uma cadeira no Parlamento. por parte dos Schreber. por exemplo. Isso se dá de tal forma. E o que resta deste período. que se apresenta como “a representação do formosíssimo que é sem dúvida ser uma mulher submetida ao coito” (Freud. contava com 42 anos. é uma profunda gratidão ao eminente médico. por exemplo. Em Sonnenstein. mas que se expressam também por sensações cenestésicas. 1911. há uma piora no quadro clínico de Schreber devido ao transbordamento ocasionado por fenômenos alucinatórios verbais. retomou o trabalho e a vida conjugal. Schreber é novamente internado em Leipzig por ser acometido por um surto psicótico. Neste local. Nesta época. Weber. Nesta fase. como. Flechsig e a Deus. sob os cuidados do Prof. Schreber apresenta um sonho relevante no qual a sua enfermidade retorna e. No intervalo entre a nomeação para o cargo e seu curtíssimo exercício. na clínica psiquiátrica da Universidade de Leipzig. Paul Flechsig. Contudo. como. galgando importantes postos na magistratura. e.

em um segundo tempo. há uma reordenação subjetiva em Schreber devido a sua aceitação em ser transformado em mulher em prol de um resgate da bemaventurança do mundo. o lugar de Deus é dimensionado por salas. Portanto. Schreber.271). simplesmente. Porém crê que somente conseguirá após ser transformado de homem em mulher” (1911. para se alcançar essa mudança de homem em mulher. o que o indignava profundamente por julgá-la contrária à ordem do universo. como os de Schreber. na medida em “que o lugar de Schreber é precisamente o lugar do morto”. Contudo. caso em que também se encontrariam os profetas bíblicos. Enfim. Assim. p. recebe uma mensagem divina que lhe revela o seu destino em promover a salvação dos homens. com a intervenção divina. o fato de não compreender os homens vivos e apenas se comunicar com poucos privilegiados através de nervos superexcitados. Chega a ver não só o comunicado no jornal a respeito de sua morte como o seu próprio funeral. através dos nervos.29 Então. ou para. em seu processo delirante. p. como também perceber os outros como verdadeiros simulacros: “homens feitos às pressas”. 1982. no segundo tempo do delírio. uma nova geração que salve a humanidade. Schreber deveria ser emasculado. deixá-lo de lado. abandonado à corrupção. ou seja. . especialmente os da caixa torácica. ele vivencia o extremo de uma desestruturação subjetiva. um lugar que representa a morte do sujeito (Cabas. sofreu profundas intervenções no corpo a ponto de ter vivido por muito tempo com a sensação de estar sem vários órgãos. Neste delírio. porque fora vítima de um “assassinato de almas” (1911). porque esta é sempre o resultado de uma construção. cujo conteúdo é o da transformação de seu corpo em um corpo feminino para poder procriar.17). além de uma hierarquização em que há um Deus superior e outro inferior. Freud remete-se à sentença judicial para resumir o conteúdo do sistema delirante de Schreber que se considera “chamado a redimir o mundo e devolver-lhe a bem-aventurança perdida. Alertando-nos sobre a fragilidade de toda subjetividade humana. em um primeiro tempo do complexo delírio de Schreber – cujos aspectos. E. ante-salas. somente alguns serão abordados – havia uma aliança entre o médico e Deus para transformálo em uma mulher passível de toda sorte de sevícias por parte principalmente de Flechsig. Schreber. neste primeiro tempo do delírio. e que tem como característica particular. a fase final do delírio de Schreber assume um caráter místico.

30 Freud posiciona-se diferencialmente em relação aos psiquiatras que assistiram Schreber ao afirmar que “a mudança em mulher (emasculação) foi o delírio primário. uma fantasia privilegiada encontra-se no bojo do próprio delírio. Schreber apresentava-se travestido de mulher diante do espelho. a emasculação vindo a ser apenas um meio para alcançar aquele fim. previamente ao desencadeamento do surto psicótico. e que somente secundariamente entrou em relação com o papel de redentor” (1911. depois substituído por Deus. Em momentos íntimos. Enquanto para o Dr. Dessa forma. para Freud. o psiquiatra correlaciona o delírio de Schreber ao mito religioso cristão – um dos vetores da própria constituição do Ocidente – diluindo com esse procedimento a particularidade do sujeito ao generalizar a construção delirante a um dado que se dispõe como universal: a encarnação do Messias. julgado no começo como um ato de grave dano e de perseguição. como veremos no terceiro capítulo. Enquanto Freud opera no sentido de escutar a singularidade do sujeito em detrimento de um dado universal a priori que generalize justamente a questão do sujeito. Flechsig. p. sobrevivendo inclusive no período de seu restabelecimento. E Freud articula a natureza primária da fantasia de emasculação à representação já citada acima – o prazer de ser uma mulher submetida ao coito – que aflorara em Schreber entre o estado de sono e vigília. Portanto. Weber. houve a transformação de um delírio persecutório de cunho sexual em um delírio religioso de grandeza. há um aspecto muito intrigante a ser ressaltado que é a utilização do termo fantasia também para nomear a necessidade lógica da emasculação no processo .18). Freud articula a presença de uma fantasia com a produção do próprio delírio como um “ponto saliente” que perpassa todo o processo do sujeito ao se deparar com o real. por exemplo. verificando a sua feminização oriunda da intervenção dos nervos divinos em seu corpo (1911). quem originalmente ocupava a função de perseguidor. Problemática que será retomada pelo GIFRIC em sua abordagem da clínica da psicose. seu primeiro médico. algo dessa presença real se perpetua. Então. No texto freudiano. Esta fantasia sustenta toda a construção delirante de Schreber como o punctum saliens até se desdobrar em sua transformação em mulher. sustentando-o. mesmo quando um longo desbastar se opera na torrente delirante. sendo o Dr. o papel de redentor é que seria o principal no delírio schreberiano.

mas melhor inteligirmos que o cancelado de dentro retorna desde fora” (1911. afinal. Freud constrói a gramática pulsional do delírio persecutório. ao único e mais velho irmão. Schreber infere que o Dr. . Freud. Entretanto. engendrando uma narrativa delirante que transforma o homem Schreber em mulher de Deus para gerar produtos imaculados? Em relação à etiologia da paranóia. o sujeito reage através da formação de um delírio persecutório. do delírio de ciúmes e da megalomania (1911). como considerava Freud em seus primeiros textos. a redenção da humanidade. No caso Schreber. da erotomania. Mas. na qual ocupa uma posição feminina. um delírio consiste em quê? Um desdobrar incessante de fantasias? Como em Schreber poderíamos constatar o deslizar desse movimento através da seguinte seqüência de fantasias fundamentais: a cena do coito. Com o desdobrar de sua psicose. admite que não há nesta a especificidade necessária para dar conta da distinção entre a paranóia e as outras formas de neuroses. Afirmação muito bem lida por Lacan. Para tal. Mas.66). Flechsig é quem ocupa a posição masculina de sua fantasia. reconsidera a sua primeira abordagem em relação à projeção ao afirmar que: “não era correto dizer que a sensação interiormente sufocada é projetada para fora. Esse significante tão crucial na constituição do delírio schreberiano é veiculado por Freud através da expressão: “fantasia de emasculação” (1911). pressupõe que a formação do sintoma e o próprio recalque são distintos na paranóia. p. Além disso. a emasculação. mesmo articulando o complexo paterno à fantasia de desejo homossexual. quando. e a Deus. Freud imputa como fator desencadeante do surto psicótico de Schreber a irrupção de uma moção homossexual através da emergência da citada fantasia de desejo.31 delirante de Schreber. devido à fantasia central de desejo. Flechsig oriunda da série de figuras de autoridade que remonta ao pai. introduz o complexo paterno no mecanismo da paranóia justamente ao relacionar uma transferência de moções pulsionais ao perseguidor Dr. A partir da frase nuclear da fantasia de desejo homossexual: eu (um homem) o amo (a um homem). que se suicida. Freud reconhece em seu texto o desconhecimento a respeito das razões pelas quais uma fantasia homossexual passiva derivou-se em um delírio persecutório. a ponto de lhe permitir fundamentar o conceito de foraclusão do Nome-do-Pai como o mecanismo gerador específico da psicose. como veremos no segundo capítulo. a reação que engendra o delírio paranóico não se restringe mais ao mecanismo de projeção.

Assim.3 Perspectivas da produção freudiana a respeito da psicose A trajetória freudiana a respeito da psicose talvez possa ser lida através dos três grandes momentos que caracterizam o próprio desenrolar da invenção da psicanálise: a teoria da defesa como o ponto de partida. encontra-se em um segundo tempo em relação à falha particular que estrutura o paranóico: o radical desinvestimento pulsional que se processa em um dado momento da história do sujeito. há a possibilidade de se resgatar a trilha na qual emerge o sujeito. no entanto. nunca reconhecendo que.32 E Freud realmente avança a teoria psicanalítica a respeito do delírio ao considerar que o desarranjo subjetivo que ocorre na paranóia – “a catástrofe do mundo” – se deve a um processo particular de recalque que produz um desatamento da libido em relação às pessoas e coisas antes amadas. embora mantenham uma articulação orgânica. Freud já está determinado a delimitar o mecanismo gerador específico da psicose diferentemente do que ocorre na neurose. No primeiro tempo. a primeira e a segunda tópicas. é. São momentos que podem ser recortados como distintos. o trabalho de construção do delírio. o delírio propriamente dito. o acompanhará em todo o seu percurso sem que alcance. Wahnbildungsarbeit. tarefa que. que detecta nele apenas um índice patológico. o sucesso desejado. na realidade. Freud propõe a inovadora concepção da psicanálise em relação ao delírio ao afirmar que “o que nós consideramos a produção patológica. Ou seja. Dessa forma. na própria dinâmica do discurso delirante. Mas lançará uma inovadora perspectiva. a formação delirante. a posição freudiana.65). aliás. diferencia-se da concepção psiquiátrica tradicional. como já encontramos em sua primeira tese: na psicose . ao escutar o delírio de uma outra perspectiva. 1. Processo mudo que somente admite sua aferição no ruidoso desdobramento subseqüente: o restabelecimento que reconduz a libido em direção aos objetos outrora abandonados através justamente do delírio (1911). p. a reconstrução” (1911. confundindo-se com a própria construção da metapsicologia freudiana. o intento de restabelecimento.

1915). tais como: inacessibilidade ao processo analítico. que nesta manifestação da psicose haveria uma antítese entre o eu e o objeto. o investimento objetal é abandonado e. Portanto. encontramos O Inconsciente. inicialmente. no qual Freud aborda a esquizofrenia justamente para ampliar o alcance de seu propósito teórico deste momento por que passa sua obra. como também questões mais específicas do período que compreende a segunda tópica. acarretando com isso um retorno da energia libidinal ao objeto “fantasiado” e até mesmo ao objeto “recalcado”. mas retorna para o próprio eu. Freud escreve diversos textos que foram agrupados por Strachey como “artigos sobre a metapsicologia”. a libido retirada do objeto “real” não é mais investida em um novo objeto. Então. insuportável em contraponto ao recalque (Verdrängung) da mesma representação na neurose. Reconhecendo. Nas neuroses de transferência. algumas formulações na transição entre a primeira e a segunda tópicas. hipercatexia do eu. com o desejo e a fantasia – como também nos oferece a sua concepção a respeito do delírio como uma tentativa de cura que não será suplantada no restante de sua obra. O terceiro tempo é o efeito da introdução da pulsão de morte na teorização da clínica que a renova e lhe confere mais capacidade lógica para enfrentar os desafios que vão sempre surgindo no caminho da psicanálise. Na esquizofrenia. completa apatia em relação aos objetos em geral (1915). Para desvendar essa peculiaridade da psicose – o famoso “inconsciente a céu . abordaremos. Freud não só articula a psicose com a sua original teoria dos sonhos – portanto. não se encontrando nenhuma relevância a esse respeito nas neuroses de transferência: fobia. juntamente com Abraham. Uma grande parcela do investimento objetal permanece inalterada nas neuroses. histeria e neurose obsessiva. Freud observa que muito do que é expresso por um esquizofrênico está recalcado em um neurótico. Em 1915. a ponto de Freud afirmar que justamente por haver essa energia ligada ao objeto que a transferência analítica é possível (Freud. neste caso. Dentre eles. Gerando uma série de conseqüências devido à incapacidade de transferência na esquizofrenia. que compreende a produção teórica dentro da perspectiva da primeira tópica. reconfigura-se um narcisismo primitivo. após o “recalque”. e por fim. No segundo tempo. haveria uma renúncia ao objeto “real” devido a uma frustração.33 haveria uma rejeição (Verwerfung) muito mais radical da representação sexual. neste terceiro e último item do capítulo dedicado a Freud. repúdio ao mundo exterior.

p. e muito bem pode suceder que com este propósito empreendam o caminho até o objeto passando por seu componente de palavra. aproxima de forma inquietante o pensar filosófico que toma as coisas concretas como abstratas. e por deslocamento se transferem umas às outras seus investimentos completamente.200). como já propusera no caso Schreber. Identifica a “fala dos órgãos” ou “fala hipocondríaca” como uma característica marcante entre os esquizofrênicos. tome sobre si a subrogação de uma cadeia íntegra de pensamentos” (1915. o processo pode avançar até o ponto em que uma só palavra. enquanto no sistema Ics encontram-se apenas as representações de coisa: oriundas dos restos mnêmicos. O recalque opera justamente impedindo a tradução das representações de coisa em representações de palavra. devendo não obstante conformar-se depois com as palavras no lugar das coisas” (1915. Assim. Freud. o que diferencia os dois sistemas não é conteúdo representacional propriamente. e que temos chamado o processo psíquico primário. . Dessa forma. Portanto. deduzindo daí uma fórmula: “na esquizofrenia as palavras são submetidas ao mesmo processo que desde os pensamentos oníricos latentes cria as imagens do sonho. São condensadas. sendo necessária uma ligação entre uma representação de objeto inconsciente com uma representação de palavra pré-consciente para que a “coisa” se articule (1915).196). se interroga se o processo de recalque que acabamos de citar procede da mesma forma. Freud. A representação de coisa mantém-se em estado de recalque ao haver a instauração de uma barreira entre os sistemas Ics e Pcs .34 aberto” –. Freud não só descreve acuradamente um fato clínico muito importante da esquizofrenia como também afina a sua primeira consideração a respeito do retraimento do investimento objetal na psicose. Entretanto. A representação consciente que compõe o sistema Pcs é dividida em uma representação de coisa (Sachvorstellung) e uma representação de palavra (Wortvorstellung). mas a localização da representação. Freud apóia-se abertamente na fala do esquizofrênico por ser muitas vezes construída de forma “afetada”. p. em relação à psicose. E sugere que a representação de palavra permanece hipercatexizada em detrimento da representação de coisa em decorrência da busca de reinvestimento do mundo. ao concluir o texto. “Esses empenhos pretendem reconquistar o objeto perdido. o processo primário que caracteriza o inconsciente é transposto ao préconsciente em uma organização mais elaborada através da palavra. idônea para isso por múltiplas referências. ao pensamento esquizofrênico.

Aqui. Freud. que se desdobra três anos depois na formulação da segunda tópica. E nesse desdobramento. De um modo geral poderia falar-se de uma psicose alucinatória de desejo. atribuindo-a ao sonho e à amência por igual” (Freud. produz como resultado o delírio em sua forma acabada. Os outros dois caminhos posteriores a esse momento do processo de formação do sonho seriam uma descarga motora direta e o próprio desdobrar de um sonho noturno. 228). Freud produz dois textos sob a influência desta recente construção metapsicológica. que amiúde se ordena por inteiro como um cabal sonho diurno. deter-nos-emos em um de seus comentários sobre o delírio nesse texto intitulado Complemento Metapsicológico à Doutrina dos Sonhos. entre uma moção pulsional inconsciente e a sua expressão delirante propriamente dita. o delírio seria a irrupção na vida de vigília de uma moção pulsional que parte do Pcs. decanta-se uma releitura da clínica psicanalítica no que tange também à psicose. como frisamos acima. secundariamente. Freud relaciona o delírio como um dos três caminhos possíveis ulteriores ao encontro de uma moção de desejo que se formou no Pcs como um desejo onírico (uma fantasia que cumpre um desejo). a fantasia estaria envolvida nesse desenrolar. entretanto. Freud mantém ao longo de sua trajetória a perspectiva de que o delírio em sua formação relaciona-se estreitamente com um desejo inconsciente através de uma fantasia que cumpriria a função de ponto de ligação. instaura-se uma torção na obra freudiana com a escritura da pulsão de morte através da publicação do texto Além do princípio do prazer. “O delírio alucinatório da amência é uma fantasia de desejo claramente reconhecível. Em 1924. pré-consciente e inconsciente.35 Em 1917. a própria fantasia seria submetida ao processo de censura que. Quando a partir de uma nova tripartição da estrutura subjetiva – eu. Ou seja. Freud compara os dois aspectos fundamentais do trabalho de um sonho – a formação da fantasia de desejo e sua marcha regressiva até a alucinação – ao que ocorre na confusão alucinatória aguda (“amência de Meynert”) e na fase alucinatória da esquizofrenia. cujo conteúdo é o cumprimento de um desejo inconsciente. Portanto. Assim. Assim. 1917. não abandona totalmente as contribuições da primeira tópica – consciente. utiliza em larga medida a clínica da psicose para poder esclarecer determinados pontos do tema em questão. supereu e isso – como Freud escreve em O eu e o isso. ao retomar a sua construção a respeito da teoria dos sonhos. Neurose e Psicose e A Perda da Realidade . que permite a expressão de uma moção inconsciente dentro do material dos restos diurnos pré-conscientes. p. Em 1920.

ou seja. da trajetória freudiana a respeito da psicose. resultando daí um . cuja origem se encontra nos influxos vocalizados pelos pais. Freud propõe. Em seu ensino não há uma oposição entre as duas realidades. Contudo. A lei aqui é da linguagem. Em um primeiro tempo. o “eu” age sob os ditames do “supereu”. no fantasma. correlativa ao sistema percepção-consciência. logo de saída. a diferença clássica entre uma realidade psíquica e uma realidade objetiva. empírica ou exterior. Nas neuroses de transferência (histeria. neurose obsessiva e fobia). nas neuroses de transferência. na neurose. ocorrem entre o “eu” e o “isso”. A formulação da teoria freudiana a propósito do fantasma desvincula a necessidade de uma realidade traumática empírica para organizar o psiquismo. entre o “eu” e o “mundo exterior”. através da metáfora paterna. constitui-se um “supereu” mais arcaico que se refere ao primeiro Outro do sujeito – a mãe – por esta introduzir o infans na linguagem. a realidade psíquica – produto da construção fantasmática da relação do sujeito com o objeto – mescla-se estreitamente com a realidade dita exterior. representa um certo equívoco. não avançaremos com os desdobramentos da questão do supereu para a clínica psicanalítica. embora o recalcado retorne pela via do compromisso que é o sintoma. No entanto. permite a irrupção da voz do supereu que. O importante é frisar que. como a lei paterna é falha. Assim. em um segundo tempo. Todavia.36 na Neurose e na Psicose são. o “supereu” é produto de uma dupla herança: tanto a paterna quanto a materna. mas ele próprio as produz. porque o sujeito não percebe apenas imagens vindas do exterior. os desenlaces do conflito. sendo não menos herdeiro do “isso” pulsional. o “eu” leva a cabo um conflito com o “isso” a favor do “supereu” e da realidade dita exterior. Em Neurose e Psicose. e na psicose. impera como mandato de gozo. que. porque escaparia ao nosso tema. Este seria o caso da psicose. na leitura da obra freudiana. como herança do complexo de Édipo (Freud. pelo contrário. embora inacabado. o “eu” não permite o escoamento motor de uma moção pulsional do “isso” através do recalque. Enfim. concluindo assim a travessia edípica. Somente com a intervenção da função paterna. 1924a). como reconheceu Freud quando reformulou sua teoria a respeito do trauma. de alguma maneira o coroamento. e ao submeter o sujeito ao capricho materno não lhe garante a entrada no discurso. que o sujeito submete-se à lei do discurso. como nos aponta Lacan. como a mais importante diferença entre a neurose e a psicose.

O primeiro termo é traduzido por Lacan como operatividade. portanto. isto é. E na amência de Meynert haveria tanto a recusa das novas percepções como dos traços mnêmicos armazenados. Ainda assim. E reafirma que os fenômenos do processo patógeno que caracterizam esse conflito são ocultados pelo intento de cura ou reconstrução. Poderíamos pensar que o delírio é construído justamente para ressuturar a fronteira entre o “aparelho” psíquico e o real? Isso porque a realidade dita exterior é exterior ao "aparelho” anímico. relacionada ao fantasma. Porque quem se divide é o próprio sujeito diante de uma realidade que se presentifica defasada entre o real e o significante. efeito da ruptura do “eu” com o “mundo externo” devido a uma grave frustração (Freud.37 afrouxamento no limite entre as duas realidades. Freud compara a gênese das formações delirantes a um remendo colocado no lugar onde originariamente se produziu um rasgo no vínculo entre o “eu” e o “mundo exterior”. o real – em uma realidade regida pelo significante. efeito da própria estrutura de linguagem. e o tesouro mnêmico das percepções anteriores que formam o “mundo interno”. retorna como causa (Souza. 1924a). que o mundo exterior governa o “isso” por duas vias: percepções atuais. criando-se a partir de moções de desejo do “isso” um novo mundo. A realidade psíquica é fruto da transformação dos signos de percepção – Wahrnemungszeichen. A operatividade relaciona-se tanto à operação simbólica do significante na estrutura como também à operatividade do real. O delírio proporcionaria então uma amarração entre as três dimensões do sujeito? Uma ficção totalizante. por estar fora da simbolização. E a realidade psíquica não estaria subordinada a uma verificação que a confrontaria a uma realidade empírica considerada mais verdadeira. ao resto inassimilável produzido pela própria cadeia significante. que são sempre renováveis. Freud recapitula. Freud utiliza dois significantes para designar a realidade de que se trata em psicanálise: Wircklichkeit e Realität. a realidade psíquica é justamente a construção do fantasma como resposta à divisão do sujeito (1996). enquanto o segundo por realidade psíquica. Quanto à psicose. Contudo. pertencente ao registro do real. manteremos a terminologia empregada por Freud em nossas considerações apesar das ressalvas realizadas acima em relação tanto ao supereu como à realidade. cuja característica principal é a não-percepção do mundo exterior. Desse modo. ou seja. embora se encontrando aqui sob a luz da segunda tópica. Assim. componente do “eu”. Freud reporta-se novamente em Neurose e Psicose à confusão alucinatória aguda. então. 1996). . ou seja. tese a respeito do delírio já exposta na análise do presidente Schreber. mas que.

que produziria o desenlace entre o “eu” e o “mundo exterior”. Freud avança suas considerações. limita-se a não querer saber nada dela. que é sempre ilusória. pelo menos. a psicose. se retira de um fragmento da realidade. e no segundo tempo. Freud considera a possibilidade de deformações. em resposta à irrupção de um fora-sentido? Freud também ordena em Neurose e Psicose a “nosografia” psicanalítica ao considerar a neurose de transferência correspondente ao conflito entre o “eu” e o “isso”. afirmando que a perda da realidade (Realität) transcorre em ambas as formas clínicas. e na psicose. com o diferencial de que. E adianta. mas. No primeiro. criando uma nova realidade. E mesmo visando uma completude. A psicose também se estrutura em dois tempos lógicos. partições e até mesmo segmentações do “eu”. Assim. segundo Freud. a serviço da vida pulsional (isso). Em A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose. ao conflito entre o “eu” e o “mundo exterior”. em ambas estruturas clínicas.38 imaginária. o eu constitui-se submetido ao descompasso entre a realidade e as exigências . ocorre uma reação contra este gerando um certo fracasso no recalcamento devido à busca de ressarcimento dos setores prejudicados do “isso”. cujo conflito ocorre entre o “eu” e o “supereu”. sim. a melancolia como o paradigma da neurose narcísica. 1924b). diferenciando-se apenas na organização do processo – a neurose não desmente a realidade. Freud conclui o texto questionando-se a respeito de qual mecanismo ocorre afinal na psicose. há um reinvestimento do “isso” em detrimento da realidade. para dar conta de uma não-ruptura total do “eu” em relação às outras instâncias psíquicas na situação em que o sujeito não adoece. apresenta tentativas de reparação do laço com a realidade. no campo das psicoses. que estaria relacionado a um débito do investimento enviado pelo “eu” aos objetos. na constituição da própria neurose. Entretanto. enquanto a psicose a rejeita e busca substituí-la (1924b). O fato estrutural ressaltado por Freud é a cisão do eu – Ichspaltung – presente em ambas estruturas clínicas: neurose e psicose. Portanto. há a perda do vínculo com a realidade. apesar de os conflitos que sempre se apresentam (1924a). e por distinguir. na neurose sufoca um fragmento do “isso” a favor da realidade. após o recalque de uma moção pulsional. embora não limitando o “isso” como é o intento da neurose. na neurose. o “eu”. estruturada obviamente pelos significantes que compõem o simbólico no qual o sujeito está imerso. análogo ao recalque. há também um afrouxamento do nexo com a realidade (Freud. inicialmente. o “eu”.

ao “mundo da fantasia”. A psicose também recolhe material desse “mundo da fantasia” para edificar sua neorealidade. Portanto. O moi representa a consistência imaginária do eu. para tal. ambas estruturas clínicas relacionam-se ao campo da fantasia não só no que se refere à perda da realidade como principalmente à construção de um substituto para esta perda. a partícula do código lingüístico que apenas aponta a pessoa que enuncia “eu”. Em Lacan. embora desloque o mundo exterior de uma forma mais radical. em seu esforço em delimitar os pontos de contato e de fuga entre neurose e psicose. representações. cindido. definido por Freud como uma espécie de reservatório segregado do mundo exterior real quando da instauração do princípio de realidade. será retomada pelo GIFRIC em sua proposta teórico-clínica na direção de tratamento a psicóticos.39 pulsionais. necessitando de um complemento para emitir a mensagem do sujeito. recorrendo. 1996). Portanto. Freud. e o je. Entretanto. assinala uma convergência importante ao ressaltar que a neurose também busca substituir a realidade indesejada por outra mais de acordo com o seu desejo. Acrescenta que as próprias alucinações que ocorrem na psicose são radicais produções perceptivas para ratificar a nova realidade construída. divide-se entre moi e je. como o recalque na neurose. . a partir deste “mundo da fantasia”. juízos. a cisão do eu é tratada como divisão do sujeito. enquanto a neurose conserva um fragmento de realidade. o sujeito se divide entre uma instância imaginária que busca a completude e outra instância que denuncia sempre a falta constituinte do sujeito em psicanálise (Souza. a neurose se abastece do material mnêmico de uma pré-história real mais satisfatória para instituir suas neoformações de desejo (Freud. 1924b). que. Enigma soterrado pela escolástica psicanalítica ao consagrá-los como excludentes – delírio e fantasia – por pertencerem a campos distintos: psicose e neurose. constatamos que Freud mantém em aberto o enigma a respeito das relações entre o delírio e a fantasia. Assim. Ao concluir este capítulo. esse processo de plasmar a realidade via o delírio não transcorre sem angústia e resulta também em um certo fracasso que gera insatisfação. como veremos no capítulo três e quatro. Esta questão. E quanto ao material utilizado para o remodelamento da realidade – tarefa do delírio – Freud indica que são os sedimentos psíquicos que marcaram a trajetória do sujeito através de traços mnêmicos.

Lacan encontrava-se no centro do debate psiquiátrico francês através de alguns textos a respeito da psicose paranóica – como. uma vez que nunca desmereceu o valor que concedia à sua formação médica. a condensação e o deslocamento do sujeito do inconsciente é que proporcionam as figuras de retórica – metáfora e metonímia – presentes na escritura literária. pelo contrário. simbólico e imaginário para abordar o sujeito de que se trata na experiência psicanalítica (Lacan. ao realizar “o retorno a Freud” através do comentário crítico do texto freudiano. Tanto que no início da década de trinta. a démarche lacaniana caracteriza-se por construir a tese de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. desde o princípio. principalmente. por ser linguagem. “é. Em 1953.1997. por exemplo. O problema do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranóicas da experiência e Motivos do crime paranóico: o crime das irmãs Papin. o estilo de um sujeito que só existe no e pelo seu representante” (Nasio. iniciou seu primeiro Seminário já apresentando a estrutura triádica do real. em relação a essa questão. as figuras de retórica: metáfora e metonímia – termos oriundos da lingüística de Jakobson – para delimitar os mecanismos de condensação e de deslocamento. p. Nasio. o inconsciente se estrutura como cadeia significante recalcada e se presentifica no discurso do ser falante . na qual apóia-se no caso Aimée para sustentar sua proposta a respeito da paranóia de autopunição. Lacan. Assim. utilizando inúmeras referências teóricas. e. utilizando.1 O diálogo de Lacan com a psiquiatria a propósito do delírio Lacan. dentre outras contribuições. intitulada Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade.10). Assim. ao iniciar sistematicamente seu ensino na década de cinqüenta do século XX. já havia acumulado uma longa experiência como psicanalista – e porque não dizer como psiquiatra. por exemplo.40 2 LACAN 2. reforça a concepção lacaniana de que os fenômenos de linguagem não são tributários da retórica. propostos por Freud como processo primário inconsciente. por exemplo. A metáfora. através da publicação de sua tese em 1932.1979 [1953-54]).

como a noção caracteriológica de anomalia da personalidade. é o fato de ele aparecer no real. delimitando-se aqui o recalque como mecanismo fundador dessa posição subjetiva que é a neurose. E concede maior ênfase à paranóia em relação à esquizofrenia tanto como Freud. chiste e sintoma. ato falho. em seu Seminário de 1955-56. como vimos no primeiro capítulo. não articulado pelo sujeito. ou seja. quanto a essa constatação. intitulado As Psicoses. que abordará a “questão” das psicoses e não o “tratamento” das psicoses. Ponto fundamental da clínica com psicóticos que levará Lacan articular tanto a contribuição de Freud – especialmente através do caso Schreber – como a de Clérambault – através da síndrome do automatismo metal – para ordenar a sua concepção a respeito do desencadeamento da psicose. Lacan. neste caso. Aliás. Kurt Schneider (Leme Lopes. Lacan ressalta que mais importante do que o inconsciente na psicose encontrar-se na superfície a céu aberto. 1988 [1955-56]). de um limite ao método compreensivo.41 através de suas ditas formações: sonho. que a respeito do delírio primário – Wahn Ideen – Jaspers postula a ocorrência. que afirma não haver psicogênese. 1982). não podemos deixar de reconhecer. assim como seus principais fenômenos (1988 [1955-56]). comenta. Aspecto que Lacan valoriza por estar em consonância com o próprio movimento estrutural da psicanálise. o posicionamento de Jaspers. Lacan critica a concepção psiquiátrica que busca uma compreensibilidade psicogenética dos fenômenos psicóticos. . Embora a crítica lacaniana recaia acertadamente sobre o excesso de compreensibilidade que Jaspers propõe em sua análise dos fenômenos psíquicos em geral. Lacan retoma o ensino de Clérambault por este ter tido o cuidado de demonstrar o caráter fundamentalmente anideico – não conforme o trilhamento de uma seqüência de idéias – dos fenômenos que se apresentam na psicose. e salienta que Freud também não aborda a questão do tratamento da psicose. Quanto à clínica da psicose. inicialmente. questão que se desdobrará ao longo de todo seu ensino não se restringindo apenas ao tema da paranóia como reconhece nesse Seminário (Lacan. dentre eles. A crítica se refere especialmente à noção de “relação de compreensão” instituída pela psicopatologia de Jaspers (1988 [1955-56]). que tenta definir a paranóia. foi duramente criticado por vários dos seguidores da escola fenomenológica de Heidelberg. porque aquela forma clínica apresenta uma situação um pouco mais privilegiada que é a de um nó.

28). que pode faltar – como no caso da psicose. considerados por Clérambault bem mais antigos que o delírio. conservando a clareza e a ordem do pensamento. é. “o delírio não é deduzido. 1988 [1955-56]. mas a recalca. Lacan faz uma crítica contundente à definição de Kraepelin. que a caracteriza por apresentar um desenvolvimento insidioso que produz um sistema delirante de evolução contínua. Lacan se distingue de Clérambault por discordar da hierarquização que este propõe ao situar o delírio como uma dedução intelectual consciente. afirma Lacan. Entretanto. o sujeito na psicose rejeita o acesso ao seu mundo simbólico de um elemento estrutural diferenciador que é a castração. essa significação se torna perfeitamente compreensível. mesmo sem ele saber qual a sua motivação. Para Lacan. ele reproduz a sua própria força constituinte. num certo momento do delírio. p. No entanto. pontos de ruptura no próprio delírio. E o que é rejeitado pelo sujeito no simbólico reaparece no real. 2000). Sendo esta a tese fundamental de Lacan a respeito tanto da estruturação como do próprio desencadear da psicose. para o delirante.42 A assunção do sujeito ao campo do Outro é conquistada através de uma afirmação primordial – Bejahung – na ordem simbólica. Lacan assinala no Seminário III que. Em relação aos dados da clínica. durável e impossível de ser abalado. E retornando à paranóia. Para refutar as ambigüidades da tradição psiquiátrica. construída secundariamente a partir dos fenômenos elementares. o delírio constituir-se-ia em um “romance” acrescido aos fenômenos elementares. E não nos esqueçamos de que a influência de Neisser ressoa em Lacan desde a sua tese de medicina (1932). enquanto na neurose não a rejeita. a partir de um certo momento. quando se apropriou da contribuição do . um fenômeno elementar” (Lacan. Ou seja. nada mais falso. podemos reconhecer a influência do conceito de “significação pessoal” – Eigenbeziehung – proposto por Neisser como o mecanismo primário responsável pela geração do delírio. por conta da evolução em acessos. Isto é. Neste momento do percurso de Lacan. ganhando o estatuto do que identificamos como certeza delirante. em decorrência de abalos que o sujeito apreende na rede significante na qual está imerso (1988 [1955-56]). Lacan toma emprestado de Clérambault o termo “fenômeno elementar” para sustentar a tese a respeito da estranheza que ocorre tanto na alucinação como no delírio em relação a qualquer dedução ideica – compreensibilidade que escapa também ao próprio psicótico (Schaustz. o que está em primeiro plano é uma significação que se impõe ao próprio sujeito. ele também. fases.

No Seminário III. Lacan também ressalta que a questão “Quem fala?” deve dominar a investigação a respeito da paranóia. a partir do delírio schreberiano. p. noções estruturais que podem ser reconhecidas em outros casos. e quase teorizada” (1988 [1955-56]. para avançar esse questionamento. e retoma. mas realmente explicitada. Ao dialogar com os mestres da tradição psiquiátrica – embora. definindo o significante como o material da linguagem e o significado como a significação. como a questão da verdade que ali “não está escondida. aspecto ressaltado por Lacan como a pequena revolução séglasiana (1988 [1955-56]). Lacan avança em seu projeto em cernir a estrutura de que se trata na psicose. a contribuição da psiquiatria considerada clássica na obra de Lacan é inquestionável.2 O diálogo de Lacan com Freud a respeito do delírio Reler minuciosamente os significantes freudianos ao longo de seu percurso é uma das principais tarefas a que se propôs Lacan. o relevo é dado ao caso Schreber uma retradução de Freud do fio condutor da “língua fundamental” do magistrado alemão. reconheça apenas Clérambault como o seu verdadeiro mestre em psiquiatria –. Neste Seminário. como acontece nas neuroses. Ou seja. Mesmo havendo importantes diferenças na concepção a respeito de vários aspectos ligados à psicose. Lacan subverte as categorias lingüísticas de significante e significado formalizadas por Saussure e as utiliza também para elucidar a sua concepção a respeito do delírio. a alucinação é articulada verbalmente pelo próprio sujeito mesmo sem reconhecer. Estas são descritas como uma articulação verbal que o próprio alucinado produz no momento em que está se referindo às vozes como externas durante o episódio alucinatório. e neste momento de seu ensino relaciona a linguagem a esse movimento que sempre remete a uma nova significação. . Lacan aborda.43 psiquiatra alemão para delimitar o que estava em jogo tanto na irrupção dos fenômenos elementares como no próprio delírio em Aimée.37). não tendo a sua origem no exterior. a contribuição de Séglas quanto às alucinações psicomotoras. 2.

articula a função paterna ao . E relembra que a insistência de Freud em encontrar o complexo de Édipo por toda parte é decorrente de se ter aí um nó. enfatizando que a cadeia de que se trata é a significante. Lacan retoma esses pontos a respeito da psicose ao escrever o texto intitulado De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. constrói os esquemas “R” e “I” que se apresentam como superfícies. ou seja. em seu escrito A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. Em 1958. do céu de nossos pensamentos. 1998.506). a partir desses pressupostos. Lacan compara esse significante “pai” a uma estrada principal que. Lacan. no qual há uma significação que só remete a ela própria. Portanto. reformula suas considerações a respeito da supremacia da significação em relação ao significante. Portanto. se faltar ao ser evocado. p. E somente no enlaçamento dos significantes que se produz a significação como produto. “donde se pode dizer que é na cadeia do significante que o sentido insiste. apoiado na topologia geral ou combinatória. no próprio Seminário III. um significante organizador da cadeia significante que possibilita situar retroativamente o que se passa no discurso através deste ponto de amarração entre o significante e o significado. Lacan distingue o delírio da linguagem comum por aquele apresentar o neologismo. no cerne de todos os fenômenos psicóticos encontra-se a impossibilidade de abordar esse significante como tal em decorrência do que Lacan nomeia forclusão do Nome-do-Pai. ano seguinte ao Seminário III. fora dos traços da rota de nossos sonhos. No primeiro esquema. Mas. de que a noção de pai estaria ligada ao ponto de basta. “A forclusão é o nome da fratura que os enclausurou fora de toda inscrição.8). desorganiza a estrutura de linguagem devido à perda desse ponto de convergência significativo.44 Então. no qual. Lacan. em que há de certa forma uma maior articulação entre as significações (1988 [1955-56]). é no ponto de ruptura do encadeamento das significações que Lacan apreende o delírio como distinto da linguagem comum. p. segundo Eidelsztein. significando alguma coisa de inefável. da casa de nossa dor ou de nossa alegria: longe de nosso heimlich” (Rabinovitch. impedindo assim o próprio desenrolar de novas significações. ao trabalhar as noções de metáfora e metonímia. tradução que sugere ao termo freudiano Verwerfung (1988 [195556]). Em 1957. mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que ele é capaz nesse mesmo momento” (1998 [1957]. define um ponto no discurso como ponto de basta.

Portanto. por intervir no terceiro tempo como aquele que tem o falo. ou seja. . 1992). não é mais o pai onipotente do segundo tempo. No lugar originário. ao atravessar os labirintos da castração. deslocamentos ocorrem na construção do esquema R tanto em relação ao lugar que a criança ocupava até então. p. no qual a criança se identifica ao pai que intervém como aquele que tem o falo. ou seja. Portanto. a criança encontra-se presa à dinâmica desejante da mãe ao ocupar o lugar de falo que a esta falta. o pai é um pai potente – ele tem o falo –. o representante da lei e não a lei em si. e não mais apenas como o objeto do qual o pai pode privar” (Lacan. o discurso materno introduz o pai como o que porta uma lei onipotente que priva a mãe. No primeiro tempo. a criança percebe que o pai possui o falo e não é o falo. Portanto. Com isso. trata-se também da saída. localiza o processo delirante final de Schreber (Eidelsztein. Com o avançar do processo em direção ao terceiro tempo do Édipo. que se pode produzir a báscula que reinstaura a instância do falo como objeto desejado da mãe. Joël Dor propõe que o esquema R é construído em diferentes etapas lógicas para que se possa apreender a articulação dos três registros – RSI – ao Édipo freudiano. produzindose o esboço do triângulo simbólico. célula base do esquema R (Dor. a criança reconhece que o pai é o suporte. 1999 [1957-58]. do declínio do Édipo. a criança identifica-se ao objeto de desejo da mãe (falo imaginário). 1995). Nesse momento. “. a criança assume a condição de sujeito desejante. ao constatar o interesse da mãe pelo pai. Nesse último tempo. do dom (1995). assim como a percepção de que nunca chegará a preencher totalmente a falta da mãe. Em um segundo tempo. assim como ao de sua mãe. No segundo tempo do Édipo. abre-se para a criança a possibilidade de possuir o falo e não ser o falo. e no segundo esquema.. por possuir o falo. Lacan nomeia essa identificação como Ideal do eu.45 enodamento RSI que caracteriza a neurose. Nesse processo.200). “m”. permaneceram os vestígios de uma representação imaginária do objeto fundamental do desejo (a mãe). resultando em uma reconsideração da identificação fálica por parte da criança. Compondo-se assim.. a imagem especular “i” e uma representação imaginária da própria criança: eu (moi). O pai ocupa então uma posição de rival fálico imaginário. criança e falo – a triangulação que organiza o espaço do registro do imaginário. há a intrusão do pai no triângulo imaginário. e não que o é. através desses três elementos – mãe. pode concedê-lo ou não à mãe por intermédio da doação. é o discurso materno que indica o pai como o objeto de desejo da mãe e não a criança. E o pai. isto é.

tendo como ponto de partida a seguinte enunciação em De uma questão preliminar. portanto. Portanto. compõem o vetor mI. é chamado o Nome-do-Pai. p. E as representações imaginárias formadoras do eu. de 1932. Ao construir o esquema I.. 1998 [1958]). barrado. forma um quadrângulo composto pelos vetores MimI.. produz uma distorção na configuração do esquema R tanto em relação aos triângulos simbólico e imaginário como à própria faixa da realidade.. que. Em 1966. expresso pelo símbolo a’. quando analisou os fenômenos da paranóia em sua tese. que por sua vez. realizando um denso tratamento topológico ao esquema R. provocará um furo correspondente no lugar da significação fálica” (1998 [1958]. a nova posição da criança refere-se ao que pode vir a ser. : “no ponto em que. Os triângulos imaginário e simbólico são entremeados pela faixa da realidade que é delimitada pelas representações do outro imaginário através do vetor iM expresso pelo símbolo i (a) – imagem especular. p. assujeitadas ao Ideal do eu. pode pois responder no Outro um puro e simples furo. por sua vez. encontra-se. permitindo unir os triângulos imaginário e simbólico. pela carência do efeito metafórico. sustenta o campo da realidade justamente pela extração do objeto a que dá o seu enquadramento (Lacan. correlato de a na relação imaginária do sujeito com seus objetos. Lacan baseou-se no caso Schreber de Freud para realizar uma análise estrutural da psicose por se caracterizar como a melhor via na condução do fenômeno à estrutura que se trata na posição subjetiva psicótica. o qual. acabou atingindo a psicanálise em seu limiar. Lacan constrói o esquema I para abordar a psicose. Ao partir da recente teorização a respeito do objeto pequeno a. e como o objeto a também é real.46 Em oposição ao vestígio imaginário. veremos de que maneira. Com isso. Lacan propõe que a realidade barra o real. regulada pela instância do Ideal do eu “I”. por esta possibilitar a apreensão dos “mais radicais determinantes da relação do homem com o significante” (1998 [1958]. principalmente no que se refere ao quadrângulo da realidade. quando publica os Escritos. a faixa da realidade. é tributária da incidência simbólica do pai. 1999).564). Ou seja. a conclusão de todo esse processo de translação do imaginário ao simbólico é decorrente da intervenção da metáfora paterna que introduz o significante Nomedo-Pai no Outro do sujeito como falo simbólico (Dor. Lacan acrescenta uma famosa nota de rodapé ao texto De uma questão preliminar. .543). E aproxima a realidade à estrutura da fantasia. Relembra também que. que será renomeada posteriormente por Lacan como o real..

Segundo Eidelsztein. e Falo simbólico. a leitura rigorosa desenvolvida por Eidelsztein. utilizando elementos da matemática para trabalhar o esquema I de Lacan. Portanto. também como índice zero. – imobilidade de M – primeiro Outro do sujeito. os dois buracos existentes correspondem a uma geometrização da falta e não a uma topologização da falta. . neste momento. como veremos no próximo capítulo. no qual encontra-se apoiado. devido à não incidência da castração no Outro. – desaparecimento da função do Outro como inconsciente. conclui que tanto o fantasma como o sujeito estão excluídos da estrutura psicótica. se confronta com alguma injunção que desarranja o par imaginário a . Concepção bastante diferente da teorização do GIFRIC a respeito da psicose. sendo substituído pelo ideal do eu. 1992). não exclusivamente porque a elisão do falo simbólico também é necessária para haver a falha no registro imaginário que acarreta a regressão tópica ao estádio do espelho. desdobrando-se no esquema I.a’. Sendo esses dois buracos representados como P. a distorção produzida no esquema R. – ausência da borda do fantasma na estrutura psicótica gerando a infinitização das retas encontrada no esquema I – hipérbole e assíntota (1992). E lançamos à posição de Eidelsztein a seguinte questão: a “morte do sujeito” e a impossibilidade de se construir um fantasma na psicose são efeitos da foraclusão do Nomedo-Pai durante o surto psicótico ou se apresentam cristalizados irreversivelmente na estrutura da psicose? A foraclusão do Nome-do-Pai – impossibilidade de inscrição do Pai ao nível simbólico – apresenta-se como precondição para o desencadeamento da crise psicótica quando o sujeito. que. decorrente da ausência de toda elaboração simbólica da mesma (Eidelsztein. Um elemento terceiro se interpõe ao eixo imaginário desencadeando a manifestação fenomênica da psicose. provoca as seguintes conseqüências para a psicose: – desaparecimento do sujeito sob a significação fálica. aposta justamente no contrário: há sujeito e fantasma na psicose. É o único termo do esquema I que não modifica de lugar em relação ao esquema R. Portanto. sendo substituído pela imagem narcísica (regressão tópica ao estádio do espelho).47 No esquema I. Porém. índice zero. a foraclusão do significante Nome-doPai no registro simbólico é condição de produção da falha na significação fálica.

Na psicose. Ou seja. diferentemente do que havíamos citado de sua posição no início do Seminário III. 1998 [1958]). Lacan. defrontando-se com a ausência do significante primordial. apresenta uma extrema dificuldade em se ancorar em um dos dois campos possíveis da sexuação humana: homem ou mulher.48 O delírio seria uma resposta possível por parte do psicótico ao não fechamento do quadrângulo da realidade que se encontra aberto devido às ausências do Nome-do-Pai e do falo. que. o psicótico. conforme a apropriação que Lacan realizou da lingüística. na psicose. apenas a “questão” da psicose e não o “tratamento” da psicose. o ponto M (significante do objeto primordial) liga-se ao I (ideal do eu)” (Freire. apresenta fenômenos de código e de mensagem. a falta de uma significação fálica é ocupada por uma “significação” extremada em seu grau de certeza. como nos aponta o esquema R. Em 1958. ou seja. reconstruir esse campo da realidade. Os primeiros fenômenos apresentam-se como vozes através de neologismos que pertencem à língua fundamental – Grundsprache – significantes cuja composição é modificada na forma ou por empregos inusual e particular inseridos na “língua fundamental” do sujeito em questão (Lacan.120). ao esclarecer a questão preliminar de que se trata no manejo da transferência no tratamento com psicóticos – a foraclusão do Nome-do-Pai –.119 . segundo Freire. avança em relação à obra freudiana ao delimitar o mecanismo gerador da psicose. como escutamos no delírio (1998 [1958]). o ponto i (as imagens especulares do esquema) liga-se ao eu do sujeito. não se produz a significação que confere uma posição sexuada do sujeito no discurso. do lado do Nome-do-Pai. A posição sexual do ser falante é tributária da significação fálica. como Freud. ligando os pontos do esquema R em sua origem: do lado do falo. 1999. “o delírio tem como função ‘costurar’. Entretanto. a significação é um efeito do significante para todo ser falante. p. em suas alucinações. em decorrência da ausência do significante paterno – foraclusão do significante Nome-do-Pai –. . Portanto. a não-inscrição do significante paterno no Outro do sujeito – ternário simbólico – corresponde a uma falha na significação do sujeito apreendida no ternário imaginário. Schreber. quando afirmara que abordaria. encontra-se rechaçada em decorrência da rejeição do Nome-do-Pai. Portanto. E sinaliza para um possível tratamento psicanalítico para o psicótico. E Lacan sublinha que o significante é o indutor de significação.

no caso Deus. Na neurose. jamais advindo no lugar do Outro. então. Na condição de enunciado do sujeito. a mensagem recebida do Outro apresenta-se como invertida. ao ser invocado. ele erra num saber metonímico. Entretanto. embora. a partir desse momento do ensino de Lacan. afirma que o significante Nome-do-Pai. Em relação à “etiologia” da paranóia. um dos contornos possíveis aos efeitos da foraclusão. Lacan. pretensamente determinante da psicose paranóica” como “um sintoma articulado em seu processo” e não a causa em si da paranóia (1998 [1958]. que o obriga a completá-las para conferir-lhes. geralmente o que se constata é a impossibilidade em se realizar tal dimensão da linguagem devido à quebra da ordenação simbólica pela foraclusão do Nome-do-Pai. é a constituição de uma metáfora que se faz delirante. p. Como acompanharemos a seguir em alguns autores de orientação lacaniana. Na psicose. . até que seja alcançado o nível em que significante e significado se estabilizam na metáfora delirante” (1998 [1958]. existe a possibilidade de se fazer desses enunciados recebidos do Outro alguma enunciação que implique a diferença que caracteriza o sujeito do desejo. a construção da metáfora delirante é o que se visa em um tratamento psicanalítico com psicóticos. p. produz a fenomenologia psicótica. pelo furo que abre no significado. na medida em que o ser falante a emite como se fosse uma produção própria (1998 [1958]). em oposição à passagem ao ato suicida ou homicida.550). como veremos no próximo capítulo. produza algum efeito metafórico ao construir uma significação através do delírio. Freud aponta para a irrupção de uma moção homossexual em Schreber – a idéia hipnopômpica descrita em suas Memórias – como a causa da enfermidade. Essas frases são interrompidas justamente no ponto onde a posição do sujeito estaria indicada a partir da mensagem provinda do Outro. algum sentido. Talvez a única exceção a essa orientação no tratamento da psicose seja o que se desenvolve no “388”. Então.49 Lacan situa os fenômenos de mensagem nas frases interrompidas proferidas pelo interlocutor de Schreber. como podemos ler no texto de Lacan: “É a falta do Nome-do-Pai nesse lugar que. nessa errância. de certa forma. A metáfora é uma operação que supõe a primazia do significante sobre a significação e a significação que o sujeito neurótico obtém da referência paterna é o ganho da sua filiação.584). já o sujeito psicótico não dispõe desta referência. refuta a posição freudiana ao localizar a “homossexualidade. dá início à cascata de remanejamentos do significante de onde provém o desastre crescente do imaginário. Lacan. ao escrever a respeito do desencadeamento da psicose.

pois. trata-se. por exemplo. Portanto. 1989). então uma filiação e a sua relativa significação. 1991. p. para construir uma metáfora substitutiva da metáfora paterna. por “Um Pai”. 1993). Apesar de haver nesse caso um processo artístico sublimatório importante. o que acontece é que um tal lugar organizador volta para ele. “A Mulher” que falta aos homens é encarnada por Schreber em seu delírio de mulher de Deus. que deve se manter assim porque o desencadeamento do surto psicótico caracteriza-se pela ocupação. porque nesse Simbólico não há essa função. 1989. um delírio é isso: “o trabalho de constituir uma metáfora paterna. Laurent propõe que o lugar do delírio é dado pela lógica do “todo”. o trabalho da psicose será sempre para o sujeito uma maneira de tratar os retornos no real – efeito da foraclusão do Nome-do-Pai – buscando formas de contornar o gozo não submetido à ordem fálica através de uma metáfora de suplência: a metáfora delirante (Soler. que não está simbolizada por ele. ao apresentar em linhas gerais o tratamento de uma psicótica sob transferência. Laurent aponta que o que se consagrou como metáfora delirante num determinado momento da obra de Lacan carece da posterior teorização a respeito do objeto a. O sujeito se produz como o objeto que falta no universo do discurso. permitindo-o sustentar-se fora do discurso. lidando com uma função paterna não simbolizada.. nesse sentido. desse lugar vacante (Laurent. mesmo assim depende fortemente da presença de um homem e da analista. metáfora que tenha efeito de significação. como. . de metáfora delirante” (Silvestre. embora um todo sempre parcial. Portanto.129). Soler. por exemplo. Donde conclui que essa estabilização não está vinculada a um final de análise. mas enfatiza também que a estabilização psicótica é frágil.50 Segundo Caligaris.. em que algo falta. que o delírio advindo a partir da instauração do trabalho analítico “será utilizado pelo sujeito para produzir a significação que lhe falta – quer dizer.) Por certo fala-se habitualmente.9). mas sim no Real” (1989. neste caso. “quando o sujeito psicótico encontra uma injunção a referir-se a uma metáfora paterna. de fazer-se representar neste universo pela invenção de um significante novo para enfrentar o gozo que sempre se opõe ao funcionamento do significante na psicose (1989). p. então volta no Real” (Caligaris. Ele propõe que a não-operação do pai gera um lugar vazio na estrutura psicótica. mas não volta no Simbólico. segundo Soler. afirma que o efeito da construção do delírio é manifestamente tranqüilizador. Silvestre afirma. p.22). (.

retoma durante cinco anos sua “vida civil”: retorna ao laço conjugal. após um episódio transitório de afasia em sua esposa e a morte de sua mãe. Daniel Gottlieb Moritz Schreber. em introdução à edição brasileira de Memórias de um doente dos nervos. como . mantém-se estabilizado graças à borda ante o real que a metáfora delirante lhe permitia (Carone. levando-o a uma reinternação hospitalar até o final de seus dias. a doença da mulher e a morte da mãe pode ser modificada a partir de várias pesquisas realizadas na década de 50. Segundo Carone. Baumeyer (1955) reúne os três dossiês de internação de Schreber. 1995). A clínica da psicose nos reserva o fato de que mesmo constatando o sucesso da constituição da metáfora delirante como direção de tratamento em alguns casos clínicos – guardando-se necessariamente a particularidade de cada caso – observamos que nem sempre é possível não só a sua construção como também a própria sustentação da metáfora delirante. cujo ponto culminante era a missão de redimir o mundo através de sua transformação em mulher de Deus. Schreber recai em um novo e derradeiro surto psicótico. por exemplo. assim como à advocacia privada. fracassou em sustentar essa metáfora por muito tempo. Schreber. quando pós-freudianos debruçaram-se novamente sobre o caso Schreber. A estabilização se sustenta.51 Apesar de a trajetória de Lacan se desdobrar a respeito da psicose como. por cinco anos. não observamos nenhuma mudança na posição dos lacanianos em relação ao caráter definitivo da constituição da metáfora delirante como direção da cura na psicose. a correlação tradicional entre o desencadeamento do terceiro surto. O famoso médico e pedagogo. adota uma adolescente como filha. Mas. Carone. O Sinthoma (1976). Nesta última internação psiquiátrica. após sua alta hospitalar – conquistada judicialmente com o auxílio de seus escritos publicados –. no qual há um desmantelamento da sua metáfora delirante. mesmo sendo o exemplo princeps por ter construído a célebre metáfora delirante. constrói uma casa em Dresden. No entanto. que perdura por quatro anos. no Seminário XXIII. ao que parece. que contêm preciosas informações a seu respeito como também de sua família (1995). Schreber apresenta um quadro clínico que se assemelha a um estupor melancólico. Tais pesquisas nos permitem sugerir como hipótese para o desencadeamento desse terceiro e último surto psicótico o fato de membros das Associações Schreber convocarem Daniel Paul a ratificá-los como os legítimos representantes para prosseguirem com os ideais higienistas de seu pai. Ou seja. no qual aborda a escritura de James Joyce e a psicose. relata-nos que Schreber.

por haver esse tipo de impasse a respeito da construção da metáfora delirante como acabamos de verificar até mesmo no caso no qual Lacan se apoiou para a elaboração deste conceito. que cifra e decifra uma Outra Cena – ein anderer Schauplatz –. Então. justamente. Schreber . como veremos no terceiro capítulo. Foi o que se constatou em seu primeiro surto após a disputa por uma vaga no Parlamento. mas.um sujeito desprovido do Nome-do-Pai para apelar diante do real –. experimentada orgulhosamente entre os próprios filhos. pregava uma doutrina educacional implacavelmente rígida. quando teve que ocupar a cadeira de presidente do Tribunal de Apelação da Saxônia. por fim. com resultados bastante nefastos em sua própria família – dois filhos psicóticos e um suicida – o que não era levado em conta pelos membros das Associações Schreber. e. a construção de um delírio paranóico a partir do surto esquizofrênico na segunda internação. desde o ato fundante de Freud até a sua formalização pelo ensino de Lacan. quando convidado a falar a partir de um lugar não simbolizado por ele – a posição que ocupava na linhagem a qual pertencia –. 2. tem a linguagem como a estrutura por excelência. observamos em Schreber três momentos clínicos distintos: um delírio hipocondríaco na primeira internação. Caminho bastante diferente este da psicanálise em relação à psicologia e à psiquiatria. É interessante constatarmos que o segundo momento clínico da psicose de Schreber é caracterizado por um início esquizofrênico que se desdobra em uma paranóia. o GIFRIC busca um novo caminho ao propor a desmontagem do delírio e a concomitante construção da fantasia como direção da cura para a psicose.3 Alguns aspectos da obra mais tardia de Lacan A psicanálise. como o próprio título do artigo de Freud ressalta: Pontuações psicoanalíticas sobre um caso de paranóia (Dementia paranoides) descrito autobiograficamente.52 se sabe. a avassaladora desconstrução da metáfora delirante que perduraria por todo o último período de sua vida. responde novamente com um surto psicótico. constitutiva de todo ser falante. E. Assim. que consideram a linguagem apenas como . e no segundo.

1996).53 uma das funções cognitivas do ser humano. O estádio do espelho é o momento lógico de formação da imagem narcísica unificada do sujeito. O estádio do espelho revela as relações do sujeito com o seu semelhante. 1999. a constituição de todo ser falante se processa em relação à linguagem. Então. na medida em que amor e ódio se mesclam nesse encontro especular entre a incompletude do sujeito e a plenitude imaginária do outro. como a clínica pode nos revelar através da neurose. o eu do sujeito encontra-se enredado por um movimento que o lança incessantemente “do amor ao ódio. o infans assume uma imagem de completude corporal em contraponto à precariedade motora real na qual se encontra imerso. Nesse sentido. caracteriza-se. no laço entre o sujeito e o significante. do aniquilamento ao júbilo” (Souza. a castração. por sua vez. a partir do espelhamento com o semelhante. para a psicanálise. mesmo sendo um processo que se desenrola no registro imaginário. perversão ou psicose. Enlaçamento que apresenta o estatuto de um axioma para a psicanálise (Milner. ou seja. excluído. apesar de todas as dificuldades em teorizá-lo e principalmente em manejar a transferência psicótica na direção de tratamento.31). o outro imaginário. um sujeito na psicose encontrase aí implicado e não. por consistir-se em três elos equivalentes atados de uma forma tal. Portanto. p. Lacan vai da geometria bidimensional à topologia do nó que. podendo ou não vir a apresentar algum tipo de transtorno psicopatológico. isto é. Território das paixões. há sempre um sujeito implicado na estrutura de linguagem. A nova concepção de Lacan a respeito do imaginário desloca o espelho plano em benefício do nó borromeano. da submissa captura erótica ao ímpeto de destruição. Portanto. o estádio do espelho encontra-se apoiado desde sempre no simbólico: é a palavra do Outro que corta e recorta a imagem do sujeito no espelho. Segundo Souza. perversão e psicose – é a posição tomada pelo sujeito ante a diferença sexual. independentemente de sua manifestação fenomenológica. Essas relações apresentam um caráter de dualidade e ambivalência. se um deles se romper. em suas elaborações a partir dos anos sessenta. Entretanto. quando. Portanto. no caso desse tipo de nó. da exclusão à intrusão e à dependência do outro. os . A constituição do sujeito apresenta precisamente duas encruzilhadas estruturais: o estádio do espelho e o complexo de Édipo. a partir dos percursos de Freud e Lacan. que. Lacan não se restringe mais a uma conceituação do imaginário apoiada apenas na ambivalência irredutível entre o amor e o ódio: hainamoration. o que difere nos três arranjos subjetivos – neurose. da completude à falta.

é a condição de possibilidade de um novo espaço não mais referido à completude da figura do espelho. o que difere as estruturas clínicas é a resposta dada à castração: recalque. O nó borromeano articula os três registros através do imaginário. Todavia. não concedendo primazia propriamente aos órgãos genitais. No entanto. esvazia-se a imagem aparentemente completa do outro semelhante que se encontra no primeiro imaginário. recusa ou rejeição. sem rupturas. simbólico e imaginário (1999). Assim. mesmo sofrendo deformações. Portanto. transforma a “luva da mão esquerda” na “luva da mão direita”. esse nó feito de buracos – os elos são vazios contornados por uma borda –. Então. em um primeiro tempo na infância. O vazio da abertura da luva é que gera a consistência da imagem. o imaginário apresenta como efeitos a consistência e a efetividade. Nesse sentido. Freud depreende de sua experiência clínica que o sujeito. 1992). a partir de sua abertura. o simbólico insiste e o real ex-siste. estuda as propriedades de um objeto que. Lacan utiliza a topologia para dar conta de propriedades invariantes a despeito de transformações contínuas. Os elos do nó borromeano são nomeados por Lacan como real. velando tanto a aridez da combinatória significante como a radical ausência de sentido que caracteriza o real para o falante.54 outros dois também se desatam. constrói uma teoria sexual na qual todos os seres humanos possuem o mesmo órgão genital: o pênis. Consistência que propicia corpo ao espaço do falante. Nesse momento. 1999). como podemos observar metaforicamente. Portanto. não apresenta roturas (Eidelsztein.32). p. que doa corpo com seus disfarces. mas à potência do vazio” (Souza. O imaginário consiste. em um segundo tempo na . uma nova imagem simétrica e invertida vem se produzir como imagem do eu. o que há de fundamental é a castração que se presentifica como o operador estruturante para qualquer experiência subjetiva. Freud denominou este primeiro tempo como o da primazia do falo. 1999. por um processo contínuo. Agora. A topologia geral. no exemplo do reviramento de uma luva que. efetividade que mantém os três elos unidos borromeanamente (Souza. a realidade psíquica de cada sujeito se constitui a partir do modo particular de enodamento borromeano (1999). a partir do vazio da imagem. comentaremos brevemente a outra encruzilhada estrutural que se apresenta na constituição do sujeito: a travessia do complexo de Édipo – momento lógico articulado ao complexo de castração. “A cadeia borromeana. segundo Eidelsztein. a partir dos furos que compõem os elos do nó borromeano.

por exemplo. a constatação da diferença sexual repercute de outra maneira: impera a reivindicação de um pênis. Portanto. Em se cumprindo a lei. a castração é abordada pelo sujeito através da fantasia de que o pênis fora castrado nas mulheres. que o leva a ressignificar as ameaças recebidas até então. na posição feminina. estamos fazendo uma distinção no sentido relativamente lato a . ao escrevermos. pode vir a sê-lo. O significante paterno tanto produz a interdição do incesto como barra o desejo da mãe em reintegrar o seu produto. principalmente a respeito da interdição de seu objeto privilegiado: a mãe. não como uma fantasmagoria imaginária. A fantasia da castração é construída para dar conta da diferença sexual anatômica. manifesta-se a inveja do pênis como efeito do complexo de castração. tendo como premissa o primado universal do falo. segundo Lacan. a metáfora paterna possibilita a amarração da cadeia discursiva através do ponto de capiton que articula significante e significado. E a castração é tomada como a Lei que ordena o desejo do falante. No coração da triangulação edípica – desejos amorosos e hostis que a criança vivencia em relação aos pais –. o sujeito é confrontado com a diferença sexual anatômica. conduzindo o sujeito a buscar uma via diferente da masculina nos labirintos do Édipo. a castração é formulada. que pode vir através de um filho do pai. punese com a castração. experiência desconcertante que o lança à difícil tarefa de produzir algum sentido diante dessa constatação. mas sim como um significante que nomeia o desejo organizador da sexualidade infantil. Obviamente que esta saída do Édipo será realizada com um parceiro não-interditado. e nos homens. Assim. se houver desobediência. o Édipo – como segunda encruzilhada estrutural na constituição do sujeito – é articulado à estrutura de linguagem através do significante Nome-do-Pai. mas como Lei (Souza. Assim. Portanto. Em relação ao sujeito que ocupa a posição feminina. 1999). o falo é tomado pela psicanálise não como um órgão corporal – pênis ou clitóris –. Portanto. o que pesa sobre o sujeito que ocupa a posição masculina é a ameaça da castração. Souza assinala que. Portanto. Dessa forma. falarmos sobre estrutura neurótica ou estrutura psicótica. declina-se o Édipo – o sujeito abandona a mãe como objeto de desejo e identifica-se com o pai –. Busca-se aí um ressarcimento pela falta do pênis. Prosseguiremos no avanço de Lacan a respeito da concepção de estrutura na psicanálise.55 infância. instaurando-se o devir da sexualidade masculina. a letra da Lei é clara: o incesto é proibido e.

S2. O encontro entre o sujeito e o Outro como estrutura de linguagem é sempre faltante. na medida em que a questão a respeito do que o Outro quer do sujeito está para todo ser falante. mas é justamente por sujeitar-se à linguagem que o sujeito pode transitar no possível do humano. a. da articulação significante. perversão e psicose são configurações diferentes da inserção do sujeito na estrutura. Portanto. Nesse sentido. O próprio sujeito é efeito do trauma que a estrutura de linguagem confere ao vivente. algo que escapa sempre. “Dizer que a estrutura é S (A) é dizer os quatro termos que a constituem: S1. S. Lacan formaliza a estrutura mínima presente na experiência psicanalítica através desse matema: S(A). recusar ou foracluir. como bem explanou Santos na citação acima. Ao condensar nesse matema da estrutura os quatro elementos que a constituem. Com essa fórmula enuncia um limite à cadeia simbólica – a incompletude do Outro – como discurso inconsciente. o ensino de Lacan toca nesse ponto de impossível que a linguagem impõe a todo ser falante. É que S (A) é o significante da falta de significante. Rigorosamente não seguimos o que Lacan nos propôs no Seminário inédito D’un Autre à l’autre. p. respondem ao real com a fantasia” (1999. neuróticos e psicóticos. portanto. E mais. “a estrutura é S (A). e a diferença reside na resposta possível de cada sujeito. Ou seja. dizer S(A) é. o sujeito pode “escolher” uma das três vias para lidar com essa inconsistência: recalcar. a própria estrutura é marcada pela incompletude. ante a incompletude do Outro. S. S(A) é enunciar pelo menos dois significantes: S1 – S2. em que afirmou que. 1999. para qualquer construção de uma organização subjetiva. Dessa maneira. a ponto de afirmar que “os sujeitos. . dizer S” (Souza. Dizer. Segundo Souza. Portanto. a. reporta-se à posição de Lacan que sustenta que a fantasia é a resposta do sujeito perante o S(A). a fantasia é o que permite mediar de certa forma o descompasso entre o sujeito e o Outro. só isso” (Lacan.79). todavia. estrutura essa que. 1969).80). portanto. desencontros assinalam a desproporção entre o sujeito e o Outro. o significante por excelência. condição de possibilidade da cadeia. efeito sujeito dividido entre. p. E porque esta articulação implica necessariamente uma perda. como entre o que se articula e o que escapa sempre emerge um efeito. a fantasia é afirmada como o recurso principal que o sujeito possui para lidar com o real da linguagem. neurose. A questão é como o sujeito acolhe esse “convite” que a estrutura lhe faz. S2. dizer S(A) é também dizer a. apresenta os mesmos elementos: S1.56 respeito da estrutura em psicanálise. por último. E a diferença entre os arranjos neurótico e psicótico reside mais no estilo como cada fantasia é construída do que em considerá-la apenas um fato de estrutura exclusivo da neurose.

mas apresenta-se principalmente como uma certeza que não vacila. Embora. a fantasia delirante não admita falhas.81). obturar no sujeito sua falta-a-ser” (1999). ou seja. vazio que constitui o desejo como indestrutível para a neurose.81). não deixa dúvida alguma para o sujeito. Dessa forma. “com a fantasia neurótica. incertezas. Souza pinça o termo “fantasia delirante” do texto de Freud intitulado As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade para demarcar um outro tipo de posicionamento ante a questão do Outro. p. Mas como a resposta neurótica claudica. brechas. é sempre demanda de amor. então. é incompleta. p. ao oferecer-se como objeto que completa à demanda do Outro. não se estrutura. assim. Em relação à psicose. o amor é vivido como uma obturação do vazio constitutivo do ser falante. na construção da fantasia neurótica. Assim. a própria resposta neurótica é a colocação de uma pergunta que. como se constata em muitos casos. por sua vez. não aceita resposta fácil. que. Portanto. Mas o neurótico quer se defender justamente dessa fissura que se apresenta tanto para o Outro – vivida pelo neurótico como desejo do Outro – quanto para o próprio sujeito. desfazendo. A fantasia delirante. porque é impossível suturar tudo que tange a não-proporção entre o sujeito e o Outro. é considerada por Souza uma fantasia porque cumpre a função maior de “oferecer ao sujeito uma significação absoluta ao desejo do Outro e. um vazio perpassa o intervalo entre a pergunta e a resposta. sendo da ordem do impossível que a resposta preencha totalmente o que lhe é questionado (1999).57 A fantasia neurótica responde a questão a respeito do Outro ao elevá-lo à condição de enigma. a precariedade que lhe é própria. A fantasia delirante pauta-se não apenas em ser uma resposta assustadora. por ser enigmática. . o enigma sempre mantém aberta uma lacuna entre a pergunta e a resposta. assim. Neste momento da construção da fantasia neurótica. Então. conservando um certo enigma a respeito do desejo do Outro – pressupõe de antemão uma resposta certeira que não vacila em afirmar que “o Outro quer o meu mal” (1999. resta um saber inacessível ao próprio sujeito. é vivida como um bloco compacto que aglutina a pergunta à resposta – operação que não deixa resto. o neurótico ilusoriamente se completa aí também. O saber não sabido é justamente o que é da ordem do inconsciente. dúvidas – como a fantasia neurótica comporta –. Assim. que inventa essa saída ante o enigma do desejo do Outro. E o neurótico se defende do desejo reduzindo-o à demanda. o sujeito inventa o inconsciente” (1999.

foraclui justamente um saber que não se fecha em si mesmo. a máquina significante – é apreendido diferentemente pelas configurações neurótica e psicótica. Na psicose. em decorrência do recalque que barra o Outro. do lado do sujeito. p. a fantasia delirante apresenta uma carência em sua construção. atormentando o sujeito através dos fenômenos elementares quando se constata que o Outro goza do sujeito. sem lacuna. demonstra que não suporta a operação de linguagem que o divide como a todo ser falante. ou seja. Em Televisão. Carece do próprio furo que constitui o inconsciente. ou seja. o gozo do Outro está intimamente relacionado à questão do saber: “O saber todo do lado do Outro é um dos nomes de Seu gozo” (Souza. não se desvelando como a verdade ficcional do neurótico. carece de um saber não-todo. sobreviver é crucial que se defenda criando um saber que faça barreira ao gozo do Outro. e nenhum. 1999. compacta. discreto. O saber da fantasia do psicótico confunde-se aqui com a verdade toda. Portanto. Contudo. este se presentifica barulhento. Na psicose. a linguagem. para o psicótico. a fantasia delirante. esvazia o gozo do Outro. a esse saber completo provindo do Outro. um saber que apresenta uma precariedade porque algo sempre se perde no furo do turbilhão que constitui o seu próprio umbigo. o delírio pode ser definido como um saber metafórico porque. Rechaça. com a sua fantasia delirante – que nos parece nada mais que o próprio delírio –. devido à falha em barrar o Outro. Lacan afirma que o psicótico rechaça o inconsciente (1993).58 Nesse sentido. A neurose. rejeita. tem-se o saber do lado do Outro. revelando-se apenas em momentos fugazes como uma das formações do inconsciente. que porta sempre uma certa inconsistência do próprio sujeito e do Outro. que se deixa apreender como meio-dizer nas pulsações do inconsciente (1999). apresenta-se até mais bem sucedida do que a fantasia neurótica. O psicótico. Nesse sentido. O Outro – o inconsciente. que então se apresenta silencioso. A fantasia delirante não só justifica a existência do sujeito como objeto da maldade do Outro como produz por isso a consistência tanto de si como de um Outro perseguidor. ensurdecedor. Segundo Souza. como esclarece Souza. mesmo constituído por significações não vinculadas à metáfora paterna e à significação fálica – .85). justamente por sempre se dotar de um saber sem fissura. indicando a sua precariedade. por constituir-se marcada por um saber sem vacilação a respeito do que o Outro deseja – o mal do sujeito –.

Dessa forma. excluído da norma fálica –. Assim. a posição sustentada por Souza. isto é: as questões a respeito da origem. . o delírio na condição de metáfora também opera uma substituição significante e se confronta com uma temática comum também ao saber neurótico. como veremos nos próximos dois capítulos. a partir de sua leitura de Freud e Lacan.59 portanto. transforma o caos significante em uma ordem sistematizada. se aproxima em alguns aspectos das postulações do GIFRIC a respeito do delírio e da fantasia. do sexo e da morte.

teórica e administrativa. para que haja a sustentação desse desafio de conduzir uma cura psicanalítica junto a psicóticos. foi criado pelo GIFRIC. não havendo uma primazia médica. E. foram criados alguns dispositivos no “388” para possibilitar o trabalho analítico. desde o princípio. O eixo principal que rege o “388” está em possibilitar uma psicanálise junto aos psicóticos que procuram a instituição a partir de uma demanda espontânea ou indicada por algum profissional da área de saúde mental. Assim.60 3 A QUESTÃO DO DELÍRIO NA EXPERIÊNCIA TEÓRICO-CLÍNICA DO GIFRIC 3. um Centro psicanalítico de tratamento para adultos jovens psicóticos denominado “388”. o trabalho desenvolvido no Centro é norteado pela psicanálise nas dimensões clínica. que intervém junto à clínica da psicose através da palavra como primeiro e principal instrumento a partir da ética da psicanálise em contraponto às práticas biologizantes tão difundidas atualmente tanto na América do Norte como em todo mundo. em Québec. a psiquiatria se encontra presente e articulada ao tratamento psicanalítico dos psicóticos. em 1970. em colaboração com o Centro Hospitalar Robert-Giffard. voltou-se muito para o desafio sempre renovador que a clínica da psicose desperta. após seu doutoramento em filosofia pela Universidade de Paris (Sorbonne) e formação psicanalítica realizados concomitantemente na França.1 O Centro psicanalítico para jovens psicóticos: uma breve apresentação A obra de Jacques Lacan foi introduzida em solo canadense. desde Sigmund Freud. foi constituído o Grupo Interdisciplinar Freudiano de Pesquisa e Intervenção Clínica – GIFRIC –. um . por Willy Apollon. o Centro é estruturado basicamente por duas modalidades de suporte ao tratamento psicanalítico individual: equipes compostas de um interveniente clínico. Em 1982. ou seja. que. Como fruto dessa transmissão da psicanálise de orientação lacaniana que se desenvolveu no Canadá ao longo da década de 70. mais especificamente a partir da cidade de Québec. Em função disso. entre os psicanalistas. uma instituição extra-hospitalar. No entanto. sendo acolhidos somente após entrevistas junto a uma comissão de admissão.

realizado em conjunto entre o usuário e os técnicos. passeios pela cidade.80). mesmo tendo o ensino de Lacan como o eixo de sua prática e de suas pesquisas. a produção de um jornal. pintura. mas sim a oportunidade de uma prática estética nos seguintes campos: escultura. escritura. inicialmente. o caráter de intervenção clínica não está presente.61 psiquiatra. está no papel do interveniente clínico. trabalhos e pesquisas nenhuma linha diretriz nem uma orientação eficaz para a clínica das psicoses que respondessem à situação pela qual somos confrontados” (Apollon.2 O Lugar do Delírio na Produção Teórico-Clínica do GIFRIC Os principais autores que integram o GIFRIC – Apollon. 3. Nos ateliês de criação. Bergeron e Cantin –. um trabalhador social e o próprio usuário. teatro. que se disponibiliza a acompanhar o usuário tanto no dia-a-dia do “388” como no espaço comunitário quando necessário. O diferencial observado no trabalho da equipe de acompanhamento. culinária. música. esporte (badmington) e o ateliê de viagem no qual os usuários vendem os alimentos produzidos na cozinha para angariar fundos para a realização de viagens pelo país e mesmo pelo exterior. paradoxalmente faz uma crítica ao ensino lacaniano como verificamos na seguinte afirmação: “não encontramos nesses ensinamentos. da clínica e do . Então. a fidelidade a Lacan apresenta-se de uma maneira peculiar em Apollon. decantaram em suas publicações uma certa ousadia em teorizar a direção de tratamento aos psicóticos. que. a participação em uma equipe de acompanhamento e nos ateliês até que haja uma demanda explicitada por parte do usuário a se engajar em uma cura analítica num segundo tempo. em decorrência de todas as iniciativas realizadas no “388” que permitem a sustentação de uma clínica psicanalítica da psicose há praticamente 20 anos. Entretanto. p. 1999. Apollon sustenta um caminho próprio quando considera as neurociências o novo interlocutor ao qual somos hoje confrontados no debate a respeito da pesquisa. embora se mantendo “fiéis” tanto à obra de Freud como à de Lacan. com exceção das atividades nos ateliês de arte. ao sujeito que ingressa na instituição é ofertada. ateliês dirigidos por artistas ou profissionais – de determinada especialidade – inseridos na própria cidade de Québec.

Mas. no que se refere à direção de tratamento propriamente dita junto à psicose. ainda mais o psicótico (1999). já mencionada.17). p. etc. Mas a afirmação de Apollon nos faz refletir e interrogar a respeito da proposta do GIFRIC em manter-se apoiado nos conceitos fundamentais desenvolvidos por Freud e Lacan. topologia. A crítica. mesmo trazendo algum progresso discursivo. psiquiatria. lingüística. . Isso marca uma diferença em relação aos interlocutores de Lacan que lotavam seu anfiteatro durante seus Seminários. antropologia. não toca na questão decisiva quanto ao tratamento da psicose. o problema é que Apollon posiciona-se como se essa escuta da palavra do psicótico fosse um privilégio exclusivo do trabalho deles. nunca fizeram mais que mostrar a inteligência do clínico. buscava testemunhas tanto entre sua audiência quanto alhures para tecer da forma mais radical possível a originalidade do passo freudiano. isto é. tanto quanto os fragmentos clínicos que pretendem esclarecê-la. levar a sério a palavra do psicótico é sair da postura clínica da psiquiatria. desvalorizando um pouco a contribuição de Lacan ante a psicose ao considerá-lo ainda como o secretário do alienado numa menção indireta ao Lacan do caso Aimée.62 financiamento junto aos gestores públicos (1999). literatura. mesmo afirmando que “Lacan não nos deixou uma problemática clínica para o tratamento das psicoses. Ponto fundamental a se sustentar sempre que nos encontramos na função de analistas diante de qualquer ser falante. que não reconhece nesta palavra a presença de um sujeito nem mesmo a possibilidade do advento de uma enunciação subjetiva como efeito de uma escuta analítica. senão o saber pretenso do psicanalista” (1999. Como se toda a produção lacaniana tivesse se estagnado no momento de sua tese de medicina (1932). mesmo que reivindicando para si um avanço teórico-clínico. “Os melhores discursos teóricos sobre a psicose. matemática. uma compreensão teórica que. E é justamente este “avanço” em relação ao legado de Freud e Lacan que constitui um dos pontos centrais desta pesquisa. Segundo Apollon. e ainda menos uma estratégia para guiar sob transferência a experiência psicótica até produzir um saber que faça suplência ao delírio” (1999. quando Lacan nem se dedicava ao ofício de psicanalista. priorizando-se o lugar que o delírio ocupa em toda a concepção clínica da psicose desenvolvida pelo GIFRIC. p. se apoiando em diversos saberes como a filosofia. tributário da experiência no “388”. que Apollon faz ao lacanismo oficial recai também sobre a postura intelectualizante dos discípulos de Lacan em relação ao que seria uma psicose. Entretanto..21). pois.

225). Leitura de Apollon a respeito do laço social que cruza as abordagens antropológica e psicanalítica de sua formação intelectual. é tributária também de todo o avanço que representa a obra de Lacan a respeito da psicose. Apollon delimita as relações entre paternidade e psicose para abordar o delírio e o lugar que este ocupa na direção de tratamento. A ponto de o próprio Apollon partir dessa pedra angular para definir a psicose como residindo “essencialmente na perda do laço social causado pela foraclusão dos Nomes-do-Pai” (1999. . indicando-se nisso o mecanismo da Verwerfung freudiana. fundamental na constituição do sujeito – o da entrada no universo simbólico através das primeiras marcas significantes herdadas da rede que habitamos – ocorre um tipo de falha quando se trata da psicose. quando delimitou a foraclusão do Nome-do-Pai como o passo definitivo na distinção estrutural entre neurose e psicose. Levando-se em conta que o laço social é definido por Apollon como “a capacidade do sujeito em negociar a satisfação e a coexistência com o outro na língua da sociedade que. p.225). Assim. No entanto. A partir dessa preciosa contribuição de Lacan. diferentes daquelas encontradas para a neurose. A produção de um saber que faça suplência ao delírio é o aspecto fundamental a ser investigado em nossa pesquisa em relação à prática clínica desenvolvida pelo GIFRIC. em um tempo primeiro. e. como ainda se escuta fora dos meios lacanianos. mas uma perda do laço social. na medida em que o recalque concernente ao campo das neuroses já havia sido muito bem definido por Freud. Mas a direção conferida à cura psicanalítica no “388” não prescinde. p. A rejeição desses significantes primordiais da cena inconsciente do sujeito implica. traduzido por Lacan como foraclusão (1999). abre-se uma maior possibilidade de tratar a psicose pela psicanálise. A psicose solicita outras soluções. muito pelo contrário. A começar pela própria questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. como já foi dito acima. por seus valores e suas leis define as regras em jogo nessa negociação” (1999. Os primeiros significantes identificadores e constituintes do sujeito são rejeitados. ele se apóia nos resultados clínicos obtidos no “388” para sustentar um caminho próprio. principalmente a partir do desencadeamento do surto psicótico. a que Lacan se ateve no final dos anos 50. Nessa trajetória.63 Apollon reconhece que os seus próprios avanços se dão no campo aberto pelo ensino e prática de Jacques Lacan. a partir do legado freudiano que sustenta a questão do pai como o determinante estrutural na instauração do psiquismo humano. não uma perda da realidade.

O mito do pai surge no lugar em que não há nada. o segundo. autorizando-se a portar uma verdade. o pai significa o fundamento. E Apollon enfatiza que essa passagem que a leitura lacaniana proporciona nos permite fazer uma distinção entre os dois mitos construídos por Freud: o do Édipo e o do Pai-Morto. portanto. não o atrelando às soluções encontradas para abordar a psicose. p. Portanto. uma produção ex-nihilo.134). Em um primeiro tempo imaginário. Assim. nos fenômenos religiosos ao longo das histórias e na própria metafísica iniciada pelos gregos. o pai da . não havia nada. A produção mítica do pai encontra-se na busca da origem. na instauração do simbólico. na medida em que introduz a questão fundamental da autoridade. de uma autoridade para selar uma origem fundadora. o “Infundado” do simbólico como designa Apollon para nomear o hors-sens na qual encontra-se a impossibilidade real de saber sobre a origem (1999). Isto é. numa tentativa de suplantar justamente o que havia antes da instauração do mito. E. O primeiro referindo-se ao mito individual da castração. haveria dois tempos. Essa busca pelo fundamento primeiro também pode ser observada. p. o que amplia o seu campo de investigação clínica. relacionado à morte do pai como a possibilidade de instauração da própria ordem simbólica humana (1999). por exemplo. dotando-se o pai. principalmente. Como podemos acompanhar na seguinte citação: “esse deslocamento se opera da questão do Édipo como mito da castração e da impossível satisfação do desejo. a origem. O mito do Pai-Morto que funda a própria ordem simbólica é essencial para a possibilidade de constituição da metáfora paterna para cada sujeito falante em particular. a questão da morte do pai como mito fundador da articulação do sujeito humano. decorrente da abordagem da questão do pai pela psicanálise.130). em Totem e tabu e Moisés e o monoteísmo. do fundamento da própria ordem simbólica.64 Apollon afirma que Lacan desloca o acento que Freud concede ao Édipo na problemática da psicose. em direção ao ‘mal-estar na civilização’. à ordem infundada do simbólico” (1999. “O Pai é assim a figura do começo simbólico que o mito produz no lugar da ausência de Fundamento ou de Verdade em última instância” (1999. habitualmente relacionado à neurose. Apollon depreende do texto freudiano Totem e tabu a construção de um mito fundador da ordem simbólica e do real. sendo por isso “o Símbolo por excelência”. o Pai é gerador de sentido. apresentado. Significante privilegiado que vetoriza na maior parte das vezes as manifestações da cadeia discursiva do ser falante.

E é dessa forma que os Nomes-do-Pai estão implicados na metáfora paterna. um real instituído pela própria produção do simbólico e. se produz no lugar do Pai-morto. não. fruto da leitura do ensino mais tardio de Lacan – considerando os Nomes-do-Pai como os significantes “guardiões” do real. E é justamente essa satisfação total e imediata em que se constituirá o impossível após a sua morte pelos filhos. fruto de estruturas físicas de uma realidade sensível. O significante funda-se diretamente sobre esse vazio. portanto. Com a promoção da Lei. Portanto. veiculando um sentido na estrutura da neurose. por sua vez. um real. O que confere sentido à existência humana é produto de um discurso mítico que. fruto da lei do mais forte. devido à foraclusão dos Nomes-do-Pai. esse furo. é o que aponta ao escrever que “a psicose coloca imediatamente o sujeito ao trabalho da produção de uma solução que diagnosticamos delirante” (1990. justamente o que fracassa quando se trata da psicose. como poderemos acompanhar nos casos clínicos do próximo capítulo. Apollon parte da enunciação freudiana de que a tentativa de cura espontânea da psicose já é a construção do delírio. Mas o analista. ausência do pai como fundamento último da ordem simbólica. restando no que Freud definiu como o inconsciente. sustentado por seu desejo. todo poderoso e gozador de todas as mulheres. das Ding. Convém lembrarmos que Apollon considera que esse pai da horda é o Outro imaginário ao qual o psicótico é muitas vezes submetido da forma mais cruel (1999). ou seja. um vazio. o que impossibilita um gozo que seria total. garantiriam arbitrariamente um sentido (1999). o gozo é mediatizado e parcial. por invocarem a credibilidade da palavra e da boa fé. p. Com isso. Em um segundo tempo. encontrar-seia no reino do gozo absoluto. Constatamos na clínica que a foraclusão da metáfora paterna gera um desarranjo simbólico no psicótico. a partir desse impossível. Então.65 horda. É o advento do simbólico que torna real uma impossibilidade.78). confrontaria eticamente o . sendo o delírio uma tentativa de reparação dessa falta da metáfora paterna. essa “Coisa” inapreensível pela malha significante. produz-se. os Nomes-do-Pai. a morte engendra o símbolo. O parricídio promove a lei de que nenhum dos filhos usufruirá desse lugar de gozo sem limite. Apollon pluraliza o Nome-do-Pai – talvez. repousa sempre sobre o “Infundado” do simbólico. e este é efeito da própria construção do psiquismo humano.

Portanto. E a postura desse Outro ante o psicótico é de imposição de gozo. o que está em jogo no tratamento da psicose é a tentativa de (re)constituir um sujeito enunciador. na .66 psicótico a buscar uma solução diferente do delírio ante os fenômenos elementares desencadeados pelo surto psicótico. o delírio estrutura-se ao redor de uma “missão” em que o psicótico encontra-se como objeto de um Outro. a metafórica. então. um Outro arcaico irrompe na psicose. a missão que o delírio concede ao psicótico cria uma barreira aos fenômenos psíquicos ou vocais intrusivos na cadeia discursiva. segundo Apollon. como veremos ao longo desse capítulo. observa-se que. O psicótico necessita reparar a falta de fundamento que compromete a ordem simbólica. uma proposta bastante ambiciosa de Apollon. o analista não trabalharia na produção de uma metáfora delirante como se preconiza tradicionalmente entre os lacanianos. Esses três tempos relacionam-se essencialmente à função princeps da linguagem. na constituição do sujeito habitado pela palavra. ao desembaraçar a fantasia que o sustenta. Entretanto. ao preconizar a desmontagem do delírio. Apollon delimita três tempos na construção do delírio para orientar a posição do analista no tratamento. perante os fenômenos de automatismo mental. Retornando à questão do delírio como nos propõe Apollon. p. tão bem descritos por Clérambault no resgate realizado por Lacan. para tal. Assim. mas a direção de tratamento visaria uma desconstrução da solução delirante. de um novo sentido. Podemos observar. modificar esse trabalho e acompanhá-lo até o ponto onde deixa seu espaço próprio ao sujeito do desejo. Assim. A tese central de Apollon quanto ao tratamento psicanalítico da psicose baseia-se “no esforço de penetrar o trabalho do delírio para desembaraçar a fantasia que o sustenta. os esclarecimentos teóricos a respeito dessa afirmação não são amplamente desenvolvidos em suas publicações. Essa missão singulariza o psicótico na medida em que se identifica com a eleição proveniente do Outro. na busca de um novo laço social” (1990. o psicótico constrói o delírio. Portanto.79). o delírio o lança na empreitada de fundação de uma nova ordem. possibilitando uma ordem ao caos do universo psicótico (1999). segundo Apollon. nessa tese. Então. no lugar do buraco deixado pela foraclusão da metáfora paterna. através de uma “missão”. O Outro do psicótico empresta corpo à lógica do delírio que identifica aí o imperativo de gozo numa busca de produzir consistência ao discurso que tenta reparar as falhas da rede simbólica.

objetos ocupam o lugar dos neologismos sempre onde a metáfora paterna faz falta. para que a psicanálise possa se lançar ao tratamento da psicose com melhores resultados. através de manifestações neológicas. fazem-se presentes no discurso delirante em forma de aparições lingüísticas destacadas de seu conjunto. o psicótico se identificaria com esse objeto. No segundo tempo. 3. inclusive. quando se esperaria algum tipo de enunciado metafórico. nesta empresa. o delírio tem como tarefa reorganizar a linguagem para neutralizar as ingerências desse Outro não castrado. Os neologismos. o delírio organiza-se como uma maneira de interromper a irrupção alucinatória de significantes destrutivos vindos do Outro e que esvaziam e veiculam a morte do sujeito. Algum objeto como um “órgão interno”. Como a função metafórica da linguagem está comprometida no psicótico – o que o dificulta a se representar e se metaforizar para um outro a partir de uma posição subjetiva própria –.67 medida em que o psicótico encontra-se geralmente privado da dimensão metafórica. No primeiro tempo. residindo aí talvez a “esperança” que orienta toda a construção delirante. como já morto. como novas formas semânticas ou combinações sintáticas. Então. é necessário fazer algumas mudanças teóricas e técnicas . como já mencionado acima. é investido pelas palavras do Outro.3 A Direção de Tratamento da Psicose no “388” O GIFRIC sustenta que. para elevá-lo à categoria de significante. Essa é a forma como o delírio se orienta para construir uma alternativa à falha estrutural presente na simbolização primeira do psicótico (1999). podendo representar-se. não é suficiente. Talvez numa busca de colocar em ação a morte do pai. que apontam a morte do sujeito. Nesse caso. numa tentativa de fundar seu ser a partir desse objeto impossível. segundo Apollon. Então. E. um objeto particular ocupa esse lugar vazio deixado pelo significante. no terceiro tempo. Finalmente. instaura-se um lugar vazio onde seu ser é capturado por um Outro devorador. Mas essa forma de pagamento ao Outro. que não se deu para o psicótico. ou o psicótico sucumbe a esse sacrifício ou busca construir uma nova linguagem que escape a esse aniquilamento. os neologismos vêm em socorro para tomar o lugar desse “inaudível” que o Outro profere. na terminologia de Apollon. permanecendo muitas vezes preso apenas ao deslizamento metonímico da linguagem (1999).

o remanejaria. ao contrário. a escritura. Aspecto intrigante. obviamente o “388” é o lugar onde o sujeito se endereça à psicanálise para reestruturar-se através de um longo percurso. não importando que esse saber seja revelado ou tecnologicamente adquirido. Como notamos em relação ao desejo. na medida em que tradicionalmente entre os lacanianos não se afirme que haja um sujeito do desejo na estrutura psicótica. O fundamental é que Apollon aposta basicamente na constituição de um sujeito do desejo como resultante de uma psicanálise. na medida em que o . que necessitará melhor enquadramento por nossa pesquisa. Em relação à atividade artística propriamente dita. por fim. Assim. esta participa ou não como efeito de uma cura analítica no “388”. p. pressupondo.78). enquanto a possibilidade do desejo se referiria apenas à estrutura neurótica. Apollon postula quatro vias pelas quais os psicóticos podem transitar no laço social: – a prática artística que promete um espaço ao desejo do sujeito.68 dentro do seu próprio campo. – e. – a religião ou a ciência. pretende-se a contraposição aos enormes preconceitos do atual ensino oficial relativo às neurociências. a fantasia. eticamente implicado em seus dizeres. segundo Apollon. Dentre essas vias de possível retomada do laço social pelo psicótico. na qual o psicótico se implica em cada uma das vias precedentes. cuja ética requer o retorno do sujeito do desejo ao campo do saber e ao laço social. mas. numa tentativa de fundar um laço social. que é o delírio. mesmo mantendo-se uma distinção estrutural entre neurose e psicose – recalque e foraclusão – Apollon pressupõe a presença das mesmas categorias tanto para uma como para a outra estrutura subjetiva. situados no campo do saber. Entretanto. Com isso. – a psicanálise. O tratamento analítico. o psicótico estaria fadado a ocupar o lugar de objeto de gozo de um Outro. sustentando a escolha do seu delírio (1990. que não reconhece qualquer possibilidade de tratamento psicanalítico da psicose. regularia em última instância o trabalho da psicose. quatro momentos lógicos em que o sujeito psicótico. para tal. ou seja. o sintoma (o delírio é considerado por ele um sintoma psicótico). a restituição do desejo pelo sujeito. sem perder o rigor da invenção de Freud. a diferença está no arranjo dessas categorias teóricas que são depreendidas da experiência clínica em cada posição subjetiva.

poderíamos pensar que o que varia entre as três grandes estruturas clínicas – neurose. psicose e perversão – é a resposta que cada uma delas fornece à questão fundamental do ser falante: qual o fundamento último que justifica a “ex-sistência” humana? É interessante observar que. mesmo que delirante. independentemente da estrutura clínica. é considerado como um sintoma da estrutura psicótica. enquanto a cura analítica proporciona um remanejamento do delírio (1999). estabilizando. De acordo com Apollon. mas que interromperia a cascata significante desencadeada pelo surto. então. inclusive. o sujeito. a uma cura analítica propriamente dita. Consideramos que há uma diferença entre delírio e metáfora delirante. . não pertencendo. portanto. O tratamento corresponde à psicoterapia que visa “apenas” à estabilização pela via do próprio delírio (metáfora delirante). que. E não podemos desconsiderar que o delírio apreendido como um sintoma é o procedimento da psiquiatria. encontra-se presente para todo ser falante. O próprio delírio. Aspecto delicado de se sustentar quando se levam em conta as teorizações de Freud e de Lacan a respeito do sintoma e do fenômeno elementar. Apollon diferencia em sua teorização o que é da ordem de um tratamento e o que pertence à cura analítica. praticamente em nenhuma passagem dos textos do GIFRIC.69 remanejamento mesmo do delírio é o que constitui o cerne do tratamento desenvolvido pelo GIFRIC. que se dispõe a produzir uma mudança na posição subjetiva do psicótico diante do delírio. Talvez pelo fato de o grupo canadense considerar que a metáfora delirante em si já faça parte do processo de estabilização espontânea da psicose. a metáfora delirante um sinônimo de delírio para Apollon? Talvez possamos responder que sim porque a omissão sistemática do termo “metáfora delirante” nos textos do GIFRIC e a exclusiva consideração a respeito do delírio representem para eles que ambos os termos se equivalem. mesmo representando uma tentativa espontânea de cura. assim. O delírio. se menciona o termo “metáfora delirante” desenvolvido por Lacan em seu texto De uma questão preliminar. por sua vez. O remanejamento do delírio produz uma fantasia fundamental que melhor posiciona o psicótico ante o “Infundado” do simbólico. como nos define Lacan a propósito da metáfora delirante. Seria. se caracterizaria mais por fragmentos não ordenados decorrentes do deslizamento da cascata significante do que uma produção de significação metafórica.

– tempo do objeto interno. esta metáfora não facilitaria um certo laço no social. por último. por não estar barrado. a construção dessa metáfora exige um enorme trabalho do psicótico quer seja espontâneo ou sob transferência.70 Reconhecemos que é muitas vezes problemático calcar o tratamento exclusivamente nessa significação delirante que a metáfora delirante construída pelo psicótico fornece. nó de gozo louco. na medida em que o sujeito psicótico habita seu corpo como um escrito do Outro que se desdobra como o pivô de sua relação com o outro e com a sua própria gestão do espaço e do tempo. que se caracteriza pela exploração dos fundamentos estéticos de uma ética do laço social quando o sujeito já se encontra em posse de um saber para constituir um laço social (1990). este teria por função suprir a falha do significante paterno em relação a um gozo mortífero que. . O terceiro tempo – talvez a proposta mais enigmática de Apollon – é o tempo do objeto interno. Surgem. O segundo tempo lógico do tratamento implica a reconstrução da imagem corporal. o quarto tempo lógico. questões: é possível a todos os psicóticos construírem uma metáfora delirante? E. portanto. No primeiro tempo lógico do tratamento. – tempo da reconstrução da imagem corporal. – tempo de uma ética do laço social (1990). É o tempo da (re)construção de uma história subjetiva assentada na palavra do psicótico. dependendo da particularidade da situação? O tratamento proposto pelo GIFRIC alcança um remanejamento tão positivo assim do delírio? Apollon sugere quatro tempos lógicos para que haja o remanejamento do delírio na cura analítica proposta aos psicóticos do “388”: – tempo da reconstrução de uma história subjetiva. mas que é considerado também o momento da saída dos fenômenos psicóticos. se bem constituída. Analisaremos detalhadamente cada um desses tempos. ao redor do qual o desejo do sujeito é tomado pelo gozo do Outro. haveria a produção de um limite. não sem antes os resumir. invade o espaço subjetivo. Todavia. E.

Assim. e mais um. é a partir dela e do fantasma posto em cena no trauma que o sujeito poderá reorganizar a sua presença no mundo e seus laços com o outro.71 3. no entanto. assim. engajando-se aí tanto o seu desejo na cura quanto o desejo do analista em sustentar essa cura. Então. para que o trabalho analítico possa ser abordável na clínica da psicose. inclusive. para Apollon “o . um mínimo de laço transferencial. o delírio e os perigos físicos que o sujeito pode vir a ter. é a partir dessa brecha que o psicanalista deve manter aberta que se instaura uma demanda de tratamento. a teorização de Apollon pressupõe a presença da fantasia na estrutura psicótica a ponto de articular a desmontagem do delírio à construção do fantasma. mantém-se lacaniano ao afirmar que a estrutura não se modifica.82).3. O trabalho analítico parte do próprio delírio quando este já está implicado. que se produza uma brecha na certeza delirante. para “desembaraçá-lo dos pensamentos parasitários” (1990. Relação essa caracterizada como pulsão de morte que ele experimenta como um gozo desse Outro: uma perseguição ou uma possessão (1990).1 Primeiro tempo lógico: reconstrução da história subjetiva do psicótico Inicialmente. ao contrário. como o sofrimento. permite-se que a estrutura e a significação singular do delírio sejam desdobradas para o próprio sujeito psicótico. Portanto. A maioria dos tratamentos a psicóticos se propõe a estabilizar o delírio para que um certo alívio do sofrimento seja possível. o sujeito é tomado em sua palavra justamente no ponto em que esta é parasitada pela voz do Outro. para que haja a produção de uma posição subjetiva. na demanda de tratamento que o paciente formula. “para recomeçar uma nova civilização”. um outro. como podemos acompanhar em alguns exemplos dados por Apollon: um paciente procura o “388” “para ser sacerdote”. Embora Apollon proponha uma grande modificação na fenomenologia da psicose em decorrência do tratamento. primeiro. possibilitando. Apollon também faz uma distinção entre o fenômeno e a estrutura da psicose. é necessário. é de fundamental importância que o psicótico tome para si a responsabilidade do seu tratamento. Ao se escutar a palavra delirante como ponto de partida do tratamento analítico. Enquanto a estrutura da psicose relaciona-se ao rapport singular do sujeito psicótico com o Outro. E. p. ainda. Os fenômenos da psicose – a doença – englobam as particularidades de cada um.

portanto. conduzindo-o. o delírio se estrutura em torno de uma “missão” na qual o psicótico é o objeto por parte de um Outro. mais do que a perda mesma que a linguagem impõe a todo ser falante. ao gozo do Outro. o psicótico ordena os fenômenos psíquicos e vocais que fazem intrusão na sua consciência. O tratamento analítico colocará em causa a certeza delirante do sujeito psicótico sob transferência ao levar a sério a sua palavra. da medicação. segundo Apollon. já para o psicótico essa escolha pelo pai está de partida foracluída. E.84). essa demanda pela palavra do psicótico remete a construções anteriores de suplência em relação à falha da linguagem. uma autoridade que garante a lei. o neurótico responde escolhendo o pai. Desse modo. é conduzido ao limite do que lhe faz sentido. por exemplo. p. podendo-se com isso modificar os suportes de sua psicose. Contudo. Através desse processo. é na ordem da linguagem e do sentido que o delírio do psicótico procura organizar-se ao redor da certeza onde se funda sua psicose (1999). dando um sentido a seu universo subjetivo. às vezes. não suprime as vozes. que o invade até a possessão de seu espaço subjetivo. Segundo Apollon. à tentativa de construir um fundamento privado através do delírio (1990). que lhe aparece como um mal absoluto. um mal que lhe foi feito. o sujeito. desencadeando-se como resposta uma . Assim. Como pontuamos no item anterior desse capítulo. ou seja. fundando a ordem do sentido. que. na medida em que o delírio permite ao sujeito psicótico elaborar uma identificação a partir da eleição de um Outro. impedindo com isso a única oportunidade que o sujeito psicótico tem para elaborar e integrar essas vozes nisso que lhe parece ser o universo de sentido. Enquanto para o psicótico. é através da palavra delirante mesmo que o analista escuta os significantes a partir dos quais pode interpelar o delírio até reconstituir os fragmentos da história subjetiva do psicótico. no entanto. o neurótico. então. ao ser convocado a tomar uma posição em seu nome próprio. aspectos relacionados à castração.72 delírio é precisamente a resposta do sujeito psicótico à descompensação psicótica a às vozes que a determinam” (1990. ou seja. De fato. o delírio. Em relação a essa falha estrutural da própria linguagem. para evitar esse momento de profunda vacilação que o sujeito vivencia. pode delirar para reparar um erro subjetivo. procura-se abafar o delírio através. construir uma barreira ante as vozes. um sofrimento pessoal. necessitando. produzindo-se assim novas referências à identificação do sujeito. esses fragmentos são colocados em oposição aos aspectos do delírio. ou seja. Nesse sentido. é a própria falha da linguagem em representar o real.

na direção de tratamento traçada por Apollon. nas quais a posição de sujeito é mantida graças ao trabalho do analista e da equipe de intervenientes ao longo do labirinto em que o sujeito se encontra para modificar radicalmente a sua relação com os fenômenos da psicose. Ou seja. tradicionalmente. Porque isso reduziria enormemente o alcance inovador da proposta de Apollon. procura-se evitar qualquer tipo de crise no transcurso dos tratamentos aos psicóticos. Na maioria das vezes. Entre o momento de entrada do psicótico nas atividades do Centro e o surgimento da primeira crise. Como podemos reconhecer na própria nomeação concedida à primeira delas: “crise de inscrição” no “388” (1990). Apollon constata a ocorrência de três crises psicóticas. a desorganização têmporo-espacial. somente a partir dessa crise que o sujeito se inscreve verdadeiramente no “388”. a ocorrência de crises é esperada como resultado do convite oferecido aos psicóticos para que tomem a palavra. na medida em que. Nesta primeira fase do tratamento. os significantes privilegiados que compõem a “missão” delirante do psicótico se encontram velados. ele ainda não se encontra em análise porque a demanda de análise geralmente se efetua em um segundo tempo em relação à participação do psicótico nos ateliês de criação e na equipe de acompanhamento.73 descompensação psicótica. pode transcorrer um bom espaço de tempo. Nesse caso. tanto o psiquiátrico como até mesmo o psicanalítico. As três crises que ocorrem neste primeiro tempo do tratamento são consideradas lógicas. Mas essa crise não terá as mesmas características de uma crise acompanhada apenas por medicação dentro de um panorama hospitalar. Assim. por exemplo. A primeira crise é um ponto de partida decisivo tanto para um engajamento definitivo do sujeito em seu tratamento como para que a equipe de intervenientes possa recolher desde os sinais precursores até a perda do laço social. os . Proporcionando-se com isso a criação de novos laços sociais. a diferença se encontra na presença do desejo do analista e da equipe de intervenientes clínicos. porque até então não se conhece realmente a posição do sujeito perante a sua psicose. O importante para Apollon é detectar as passagens lógicas que caracterizam cada uma das três para se evitar inclusive uma leitura cronológica a respeito desses momentos. mesmo que inúmeras crises psicóticas possam acontecer nesta etapa da cura. Mas.

assim como pelo reconhecimento dos elementos que estão em jogo em seu arranjo subjetivo. Assim. numa tentativa de analisá-la. Possibilitando. Como também a identificação dos significantes maiores que regem o sujeito. o sujeito é convidado a falar sobre o que lhe ocorreu durante a crise.74 fenômenos de intrusão na estrutura de linguagem do sujeito. A segunda crise se caracteriza por um maior estreitamento na relação entre o psicótico e a equipe que o acompanha. durante a crise. decorrente de uma nova interrogação – escritura – no fechado campo de linguagem do psicótico. mas utilizam alguns pontos apreendidos durante a crise para ajudarem o psicótico a corrigir a percepção da própria crise. é composto um vasto dossiê sobre as etapas e a evolução da crise. evitando-se situações de perigo tanto para ele como para o outro. . o objetivo mais imediato é manter o psicótico em posição de sujeito em face dessa nova crise. E para tal. buscando produzir alguma ordem para o que foi vivido. Ou seja. os significantes privilegiados da história subjetiva do psicótico são orientados ainda mais para limitar as interpretações delirantes. Os intervenientes não falam no lugar do sujeito sobre o que este vivenciou. A presença da equipe ao lado do sujeito. toda a gama fenomenológica decorrente da posição do psicótico ante o gozo do Outro. os tipos de injunções superegóicas que ele crê estar obrigado a responder. Atendo-se mais aos fragmentos de sua história do que às injunções do supereu e das vozes que comandam as passagens ao ato. as vozes às quais encontra-se subjugado. Enfim. permitindo-se com isso uma certa limitação nas interpretações delirantes. mesmo durante os momentos críticos. Enfim. a (re)construção de uma história subjetiva a partir desses significantes até então esparsos para o sujeito permite uma distinção entre o discurso delirante que o incita a desempenhar uma “missão” e a produção de uma narrativa histórica por meio da qual se protege dessa invasão do Outro. um certo saber sobre a crise é empreendido para se conter a perda do lugar do sujeito gerada pelas manifestações da psicose (1990). Nas semanas seguintes. Portanto. discutir com a equipe a respeito das injunções que o atravessam e obter uma assistência para gerar melhor sua vida. permite aos poucos a saída da crise. por exemplo. Durante a segunda crise. uma certa distância começa a ser traçada entre o delírio e o sujeito. em um acompanhamento contínuo e particularizado.

dependendo do caso. Um gozo Outro se escreve no ser do sujeito psicótico através dos fenômenos de linguagem. por exemplo. Mas. p. Mas esse saber que começa a ser construído sobre si e sua psicose. da desorganização em sua moradia. os intervenientes reconhecem a crise através da lentidão no ritmo do psicótico. Nesta ocasião. a respeito da distinção entre letra e significante. em outras situações. entre a maioria dos usuários do “388”. no entanto. etc. A terceira crise psicótica apresenta-se em um momento em que o psicótico já pode gerir seus horários de atividades tanto no Centro como em seu dia-a-dia.75 Entretanto. segundo Apollon. mas o início de uma torção em relação ao uso e à mestria que essas certezas concedem ao sujeito. embora tenha o apoio dos intervenientes. da dificuldade em respeitar os horários de suas atividades. Apollon salienta que isso representa uma primeira aproximação sobre o que está em jogo no tratamento da psicose pela psicanálise: “constranger o trabalho e a criatividade próprios à psicose na produção de um limite” (1990. a conferir um valor de verdade as suas certezas delirantes. Trata-se de passar “de uma posição passiva em relação à escritura que trabalha seu ser a uma posição de criatividade e de produção. não tratemos. Mas o gozo do Outro começa a ser limitado não apenas pelo significante. em que o psicótico recupera uma parte dessa escritura para produzir um “objeto interno” em suplência à foraclusão do Nome-do-Pai. com a alimentação. possibilita pela primeira vez a distinção entre as montagens delirantes do restante de sua subjetividade. Entretanto. o sono. . mas o que está em profunda mudança é a posição do sujeito diante das manifestações da psicose. os elementos delirantes retornam. Em algumas vezes. assim como a gestão de sua crise. como as alucinações e os delírios nos indicam na clínica. mas pela borda que uma escritura produz através da letra. em seu trabalho ou em seus estudos. o psiquiatra fornece um apoio maior através de medicação específica. Embora. Esta é a primeira crise que o sujeito controla sozinho. do psiquiatra e do seu analista.91-92). o psicótico detém um certo saber sobre a fenomenologia de sua psicose. p. não há o abandono das certezas delirantes por parte do psicótico. continuando.90). somente o analista toma conhecimento da crise. e daí rearticular o significante para fazer sentido” (1990. nessa pesquisa. uma fração desse gozo pode ser subtraída se houver uma outra tomada de posição subjetiva por parte do psicótico. Após a segunda crise.

“real cru”. efeito do reposicionamento do sujeito. apresenta uma relação particular com o corpo. como propõe Rabinovitch (1998) para diferenciar do real pulsional já marcado pelo significante. o corpo da psicanálise não é o dos órgãos nem o da carne (1990). possuído por um Outro real. Portanto. é uma escrita traçada a partir do sujeito do inconsciente. O corpo. o recobrimento da imagem e o furo do real se enodam para dar suporte ao sujeito do inconsciente. Este é atravessado por um Outro que exerce um controle.76 A questão fica por conta do estatuto desse “objeto interno” teorizado por Apollon. . Seria um novo significante produzido em decorrência da subtração de gozo do Outro? O psicótico. No entanto. ou o sujeito se engaja ainda mais no trabalho de análise. embora. 3. Por isso. então. mesmo ao nos aproximarmos de seus limites. perante a psicose. o nomear de “objeto interno”? Então. em alguns casos. que porta a marca da história deste sujeito. Enquanto o organismo ocupa um lugar Outro. Na medida em que o significante paterno que delimita a amarração imaginária do corpo claudica. O organismo parece ser um dos nomes da alteridade radical que “co-habitamos”. impossível de se apreender pelo sujeito. possuindo seu próprio espaço-tempo. desnaturaliza a coisa. há uma desistência no processo de remanejamento do delírio. não escapamos da lógica do significante. Pulsional por excelência.2 Segundo tempo lógico: a reconstituição da imagem corporal Apollon propõe a reconstituição da imagem corporal como o segundo tempo lógico na direção de tratamento à psicose. a partir dessa terceira crise. necessita da própria estrutura de linguagem que mortifica. encontra-se um corpo perseguido. tomado pelas vozes e injunções do supereu. o organismo. para ser nomeado como tal. por que. que proporciona uma reconstrução em sua vida ao criar novos laços sociais ou. o corpo é uma construção em que o corte do significante.3. produziria uma suplência à foraclusão ao delimitar esse “objeto interno”? Mas se for um novo significante. na medida em que o psicótico. por não se balizar no Nome-do-Pai. vigiado. para a psicanálise. possamos pressupor um para-além do significante. muitas vezes obsceno (1990).

então. limita de alguma forma os efeitos da psicose sobre o corpo. de produzir uma articulação da pulsão em produções que engajem o sujeito no laço social através de manobras da transferência. para que haja uma mudança na relação do psicótico com seu corpo. nunca um dado a priori para o ser falante. E a clínica da psicose nos aponta muito radicalmente em alguns exemplos o quanto a desestruturação da linguagem é acompanhada por uma desestruturação da representação do corpo. O interveniente. Segundo Apollon. Assim como um questionamento sobre a posição que ocupam ou possam vir a desempenhar como homens ou mulheres no espaço comunitário. O psicótico. atravessados pelo inaudito de um Outro não castrado (Schaustz. ou mesmo a busca de um novo trabalho ou o . Apollon busca articular nessa segunda etapa do tratamento a reconstrução de uma história subjetiva com a reconstituição da imagem corporal. o trabalho. Assim. o corpo da psicanálise é uma longa construção correlativa à própria estruturação da linguagem. tende a buscar uma reapropriação de seu corpo no campo particular da sexualidade. Apollon aposta que o início do remanejamento do delírio através da reconstituição de uma história subjetiva mais ou menos fictícia. 2000). nesse momento. é mantida pela análise a exigência de limitar o gozo e transformá-lo em outra coisa por parte do sujeito. a fenomenologia da psicose se estrutura na perda do laço social como negociação da satisfação e coexistência com o outro. o corpo e o sujeito passam a ser habitados. a partir dos significantes colhidos do discurso do sujeito durante as crises – possibilita a reconstrução de uma história subjetiva na primeira etapa da cura analítica (1990). em que o delírio domina toda sua subjetividade. quando houver. intensificam-se os dispositivos estruturados no “388” que possibilitam um melhor engajamento do psicótico no laço social. como espaço de investimento do desejo. Desse modo. o exercício de uma vida sexual propriamente dita ainda não acontece para a maioria dos usuários do “388”. por exemplo. interroga o psicótico no sentido da sustentação de seu desejo na retomada e gestão de algum projeto. Lembremos que. Entretanto. povoados. No segundo tempo lógico. ao ser interpelado pelo analista através dos elementos do seu delírio – principalmente. uma inquietação a respeito dos efeitos da psicose no corpo passa a ocorrer com os psicóticos nesta etapa do tratamento.77 Assim. Então. ao começar a sair do campo fenomenológico. a realidade. como os estudos. a partir dos fragmentos da história do próprio sujeito. o psicótico. para Apollon. Trata-se.

78

aprendizado de algum ofício – assim como a reinserção do psicótico em seu espaço domiciliar. Um acompanhamento médico de clínica psiquiátrica também se faz necessário para assegurar a saúde psíquica do psicótico, garantindo o repouso, o sono, a alimentação para que o sujeito suporte o trabalho analítico dessa fase. Mas, neste momento, a prática estética nos ateliês de criação é muito importante por possibilitar um espaço particular que permite ao psicótico, afetado pelo gozo do Outro no corpo, produzir um objeto. Nesse sentido, a prática estética conduz o sujeito a lidar com o real de outra forma ao investir o seu desejo em outra coisa que não somente em sua psicose. Apollon considera a estética como “um espaço aberto no significante ao real do sujeito e aos aspectos do seu desejo, quando a referência da linguagem às coisas encontra-se abandonada”, compreendendo-se então a necessidade de uma prática estética no “388” (1990, p.96). Não cabendo considerar essa experiência como arte-terapia ou uma prática artística necessariamente, porque somente um pequeno número de usuários apresenta talento suficiente em transformar essa prática estética em uma prática artística. O objeto resultante dessa prática enoda os três registros do sujeito: no imaginário, produz uma significação que articula a experiência real do corpo fragmentado às regras simbólicas que geram a construção de um objeto estético. Ao mobilizar o desejo do sujeito em uma produção criativa que permite reescrever o gozo do Outro que trabalha o corpo do psicótico. Resulta daí, um certo recuo do Outro perseguidor, uma limitação do delírio e uma transformação de seus objetos, permitindo-se, conseqüentemente, a formação de uma fantasia que venha estruturar o imaginário do sujeito. A prática estética gera um sentido frente o vazio ao qual o psicótico é confrontado quando sai dos estados de crise do primeiro tempo do tratamento. Assim, a aposta ética do analista conduz o psicótico ao espaço estético onde o significante delirante é golpeado, permitindo-se um esboço de metáfora, relançando o sujeito a reinvestir a libido nos objetos na medida em que participa do laço social. Contudo, mesmo sendo considerada a restauração do laço social pelo psicótico o eixo principal na direção de tratamento, não se exclui a persistência real de um “núcleo do delírio em que se situa a estrutura do trauma que sustenta a psicose” (1990, p.95). A própria retomada do laço social se funda a partir desta estrutura traumática que particulariza a psicose. Nesse sentido, o texto de Apollon concede uma relevância ao significante trauma do discurso

79

freudiano, obviamente não como trauma sexual empírico, mas como o real traumático desencadeado pela sexuação inerente à constituição de todo ser falante. Assim, o que ocorre com a psicose, durante o tratamento no “388”, é uma reestruturação da relação do sujeito com gozo do Outro. Apollon preconiza que o “núcleo delirante” toma a forma de “objeto interno”, objeto esse que vem demonstrar a insistência da estrutura psicótica para além do fenômeno psicótico (1990). Ou seja, não há mudança de estrutura, mas, sim, mudança subjetiva ante a própria estrutura, na medida em que a manifestação da estrutura de linguagem pode se modificar, mas não ser suprimida totalmente, porque aí se aloja o próprio sujeito, quer seja psicótico, neurótico ou perverso. Enfim, o trabalho conjunto dos psiquiatras, dos intervenientes clínicos e dos ateliês produz uma modificação importante na relação do sujeito com o corpo. O psiquiatra minimiza, através da medicação, os efeitos da psicose no ritmo do sono, na nutrição, etc. Uma melhor gestão do espaço e do tempo é trabalhada pelos intervenientes nas atividades do dia-adia e a prática estética mobiliza o desejo do sujeito a uma criatividade artística. Com isso, inicia-se, juntamente com a análise, a reapropriação de um lugar de desejo e de satisfação com o outro até então inéditos para o sujeito.

3.3.3 O terceiro tempo lógico: a produção do fantasma

A produção do fantasma, considerada a terceira fase lógica do tratamento, é denominada por Apollon como a externalização do objeto. O “objeto interno” é apreendido, então, como uma fonte de elementos significantes para uma fantasmatização na estrutura psicótica, em que o desejo apresenta uma modalidade particular. A mobilização do desejo na prática dos ateliês de criação, no momento em que o sujeito se reapropria de seu corpo, “é um tempo de passagem da sintomatização (escritura do gozo do Outro) à fantasmatização (estruturação do trauma e subjetivação do sentido no objeto interno)” (1990, p.98). O delírio é lido por Apollon como um sintoma psicótico, um escrito do gozo do Outro que habita o sujeito. Leitura que nos intriga por localizar na psicose um sujeito sintomático, dividido, portanto, e por não privilegiar o delírio como um fenômeno elementar, como nos ensina Lacan.

80

A questão é como pensar a constituição de um sujeito psicótico dividido pelo recalque originário, obviamente uma proposição contrária ao avanço que o próprio conceito de foraclusão engendra. Ou seria possível pensar que, ao longo do tratamento desenvolvido pelo GIFRIC, uma certa barra em relação ao gozo do Outro é construída em ambos os campos: o do sujeito e o do Outro? Apollon propõe, em decorrência do remanejamento do delírio através das intervenções realizadas no “388”, a passagem do sintoma (delírio) à construção de um fantasma fundamental na psicose. Proposta bastante complexa, que requer que discorramos de forma sucinta a respeito da fantasia fundamental em nossa dissertação, embora saibamos de antemão que não esgotaremos essa questão no âmbito dessa pesquisa, principalmente ao articulá-la à psicose. A clínica inventada por Freud, ao escutar inicialmente as histéricas, é um trabalho que, segundo Vidal, possibilita aproximações e afastamentos entre as formações do inconsciente e a estrutura do fantasma a ser produzida em análise. Portanto, o fantasma é fundamental no campo psicanalítico, não sendo um dado a priori, mas algo a ser construído no transcurso de uma análise (Vidal, 1991). O ponto que articula uma formação do inconsciente e o fantasma é o sintoma – sintoma como divisão do sujeito e em estreita relação com um gozo silencioso. O sintoma tem uma articulação com o fantasma, uma vez que ele representa um gozo. Esse gozo implica uma posição de punição do sujeito ante o Outro que é a encarnação, no sintoma, da estrutura do fantasma fundamental do sujeito: ser batido pelo pai –, como Freud decanta ao longo de seu percurso clínico no texto Bate-se em uma criança. O ponto de afastamento entre as formações do inconsciente e o fantasma diz respeito à própria diferença entre o inconsciente – lugar do Outro, cadeia significante – e o isso – lugar do silêncio da pulsão e da dimensão real do gozo. O sujeito fala em análise causado por algo que é disjunto do inconsciente, embora se constitua como sujeito do inconsciente. E o fantasma se separa das formações do inconsciente por ser um ponto onde não há mais nada a dizer (1991). Segundo Vidal, o fantasma é, pois, sempre uma construção a posteriori em que os restos das cenas primárias encontram um suporte. Um real primeiro, excluído do significante, é matéria do fantasma. Processa-se, então, uma passagem do acontecimento traumático real ao

E a teoria analítica recorre à construção do mito do fantasma para dizer em metáfora a respeito desse real impossível (1991). Segundo Forbes. que é a do significante. que articula o sujeito à cadeia dos significantes. é necessário relançar a discussão que rege a estática do fantasma por um lado e a dinâmica do sintoma pelo outro. Na cura. mostra que há algo estático em uma análise – diferentemente da vertente do sintoma. por essa vertente. vacilante e confrontado com seu próprio desaparecimento. 1984).81 real indizível do trauma. Portanto. A vertente do sintoma é a que é operada na associação livre. está o sujeito do inconsciente – atravessado pelo significante –. mas também. De um lado do algoritmo. indica todas as relações possíveis. numa acentuação própria ao fantasma. se sustenta em um objeto. O fantasma é. a necessidade da construção se desprende da impossibilidade que o recalque primário instaura: algo que nunca teve acesso à consciência. Um “não-eu” se perfila em seu horizonte mais ou menos próximo. ao impor o mandato do gozo. à palavra. Sabemos que um sintoma se altera em uma análise pela mobilização das cadeias significantes e. porém não compreendidas pelo sujeito. pelo contrário. Uma vez estabelecida a primazia do fantasma na direção da cura. E abordar a clínica do sintoma é falar de uma clínica do supereu. o que liga o sujeito e o objeto. o sujeito. embora os fantasmas não estejam ali no inconsciente à espera de interpretação. No algoritmo. se opõe à lei do desejo (1984). Aqui. É a articulação lógica de que não há proporção sexual (Forbes. menos a igualdade. mais-além de seu desaparecimento. Do outro lado do algoritmo. Por esta impossibilidade radical. é produzida a frase que articula o fantasma. Um supereu que. uma análise implica a travessia do fantasma. na articulação do S1 com S2. O estabelecimento dessa relação (do sujeito do inconsciente e do objeto a) aparece como o mínimo constitutivo do fantasma. o a (1984). a fórmula de Lacan S<>a põe juntos dois elementos de natureza diferente: o sujeito sintomal. efeito da ordem significante. intersticial. justamente. a “punção”. pois falta o significante último que daria a significação absoluta e final (1984). e o a da ordem do objeto (1984). a análise torna-se interminável. a verdade é condenada à estrutura de ficção (1991). resposta à não relação sexual. A vertente do fantasma. A construção tem a função de estabelecer um texto ali onde há algo impossível de ser dito. Texto construído a partir das coisas vistas e ouvidas. .

fala o fantasma do supereu. Cosentino realiza uma leitura do matema da fantasia proposto por Lacan (S<>a). p. substituindo o S por um sujeito do delírio articulado a um supereu no real. Trata-se igualmente.95). Na neurose. (. o supereu como mandato imperativo de gozo vocifera o fantasma no sintoma (1984). por não o ter. por exemplo. talvez.. Para a psicose. ou seja. Portanto. são irredutíveis umas às outras. de “um ser ou não ser” o objeto quanto de um “têlo e não o ter”. em 1958. Situado isto. senão desde onde se conduz uma psicanálise. A alucinação é uma voz imperativa – eis aí talvez a dimensão real do supereu que Cosentino articula ao “sujeito do delírio” – contudo. Tornando-se interessante cotejar um pouco a sua abordagem com a do GIFRIC. pode em um final de análise alcançar uma dimensão ética do supereu. enquanto tais.) Para a neurose. não tivesse ocorrido esse “passo a mais” realizado tanto pelo GIFRIC como por Cosentino. do fantasma impossível. 1984. Assim. levando-se em conta a determinação do fantasma nesta estrutura. Neurose. que. sendo a alucinação uma encarnação do objeto a enquanto uma “voz”. sendo o sintoma a presentificação desse fracasso como retorno do recalcado. mais precisamente. a saber: um axioma (1984). totalmente cortada do simbólico. Para a perversão. um “passo a mais” do que foi a instauração da foraclusão do Nome-do-Pai como uma preliminar a toda abordagem possível da psicose realizada por Lacan. para o sujeito. sem o próprio avanço do ensino de Lacan. como verdade histórica. Cosentino realiza uma leitura da clínica que aborda a estrutura do fantasma nas três posições subjetivas. o recalque fracassa. ao elaborar a dimensão imperativa do supereu do início do tratamento (Fernández. Cosentino também atribui um tratamento possível. o supereu fala do fantasma. Quanto à psicose. diferindo-se da psiquiatria. o fantasma é fundamental. E. A partir daí. o sintoma fala do fantasma ou.. no sintoma. a psicanálise reconhece nesse “objeto” a materialidade real da alucinação. . a alucinação fala no delírio. um fundamento. o “momento” do fantasma é aquele do eclipse do sujeito e de sua passagem para o objeto. pensamos que o fantasma é um dos lugares que permite uma diferenciação das estruturas que. no sintoma. Perversão. Essa exclusão do simbólico proporciona uma grande diferença em relação à clínica da neurose. “A direção da cura não implica até onde.82 O fantasma fundamental é o lugar onde o sujeito consiste como objeto do Outro. ou seja. que sempre considerou a alucinação como uma “percepção sem objeto” (1984). Nesse sentido. A castração é alucinatória” (Cosentino. 1997). assim como o GIFRIC. Psicose. como veremos a seguir.

se localiza nesse “objeto interno”. haveria uma parte “sã” no psiquismo do psicótico. ainda. que é a relação do sujeito ao gozo do Outro que escapava ao início do . identificado no lugar da verdade. frase-voz. limitado. um apressamento da estrutura como resposta à foraclusão. trata-se de uma microcâmera. o delírio é um tempo de pressa. o fim do período precedente. na neurose.234). Então. segundo Cosentino. senão pergunta por que não lhe crêem. o núcleo do delírio? Por outro lado. a alucinação encontra-se como uma frase-objeto. pelo seu ser.83 No entanto. a perda da realidade psíquica. a análise com o psicótico não pode prescindir de produzir uma fissura na certeza delirante como ponto de partida de uma mudança subjetiva. localizado e ao mesmo tempo dividido. O núcleo do delírio toma a forma de um “objeto interno” que marca. Escutar o delírio será então estabelecer um tempo de suspensão na certeza. Assim. sob o seu dente. e. o “objeto interno” é a testemunha do que não se desfaz na estrutura do trauma para além da fenomenologia da psicose. causa gozante do delírio que tenta cerzi-la ao produzir um texto. Assim. p. situando um dos termos do fantasma na psicose. deixando para o sujeito um resto no universo psíquico (Apollon. Segundo Apollon. então. uma parte importante da estrutura da psicose. a alucinação é a ordem insensata que se constitui em objeto no real. Todos exemplos de um enxugamento da fenomenologia do delírio a ponto deste se concentrar apenas nesse “nó de gozo louco” (1990). o fantasma que oferece um objeto ao desejo está regulado pela subjetivação do gozo como gozo fálico. então. instalada pelo dentista. O gozo se encontra. Certeza delirante decorrente de um modo particular de o psicótico entrar na linguagem: “o paranóico não pergunta quem é. Portanto. a diz” (Cosentino. em um outro. 1984. assim. livre dos efeitos foraclusivos de sua constituição? Apollon apresenta como exemplos de “objeto interno” os seguintes fragmentos de casos clínicos: um paciente cujo núcleo delirante se centra na perda de um órgão interno. isto é. na psicose. Portanto. que o sujeito disponha do resto de seu espaço subjetivo. o objeto que alimenta o fantasma vem como sustentação de um sentido retirado do delírio. permitindo. 1990). inclusive. enquanto na psicose. se ele. Poderíamos. o delírio se concentra. reconhecê-la como a verdade histórica não simbolizada. Quando da delimitação do delírio através da construção de uma posição subjetiva e da reconstituição da imagem corporal. um paciente que relata a presença de uma agulha em sua cabeça.

nestes momentos ocorrerá a entrada da fantasmatização na clínica da psicose. Entretanto. quando a psicose no espaço simbólico do desejo e do laço social expulsa esse objeto interno já produzido pela fantasmatização. No momento atual. Cabe ressaltar que Apollon identifica o gozo do Outro à pulsão de morte freudiana. Ela articula o sujeito a isso que ele pode retirar de vida e de sentido do gozo do Outro. em preparação. Apollon sugere que a produção de um fantasma na psicose resultaria na retirada de um sentido do delírio. permitindo ao sujeito produzir algum sentido em relação ao gozo do Outro. ao mobilizar esse real do delírio na produção de um espaço para a “externalização do objeto interno” (1990). A fantasmatização. que abordará de forma mais detida os aspectos lógicos da cura psicanalítica com psicóticos (1999).84 tratamento. o paciente. se refere a uma futura publicação do GIFRIC. Apollon. está fora de nosso propósito” (1999. Inicialmente. ou seja. Por exemplo. à pulsão de morte. 229). será abordada nas terceira e quarta fases visando à gestão dessa parte perdida do ser. . Assim. Não trataremos disso aqui. mas esse real delirante é transformado simbolicamente através da fantasmatização que a ética psicanalítica pode obter do sujeito psicótico. No entanto. estrutura mínima de possessão do Outro. graças à ética psicanalítica. vem dar forma e conteúdo imaginários à pulsão proveniente do gozo do Outro. o objeto interno é vivido como aquele que destrói o sujeito do interior. Esse termo “externalização do objeto interno” foi escolhido devido a uma observação clínica encontrada nesse momento do tratamento. iniciou um modo de articulação social que incluía seu pai – com o qual não falava há anos – em uma atividade esportiva semanal cujo nome – jogar “quilhas” em um mastro de madeira – apresenta um fragmento do significante decantado de seu delírio: aguilles e quilles (1990). como retomada da estrutura do trauma. anteriormente citado a respeito da “agulha”. o próprio texto de Apollon se esquiva em aprofundar a descrição do processo de fantasmatização na psicose como podemos acompanhar na seguinte afirmação dele: “evidentemente a questão clínica da maneira como se opera essa fantasmatização é uma questão psicanalítica fundamental. dividir e transformar em manifestações de desejo o retorno do gozo na pulsão. p. segundo Apollon. esse processo de fantasmatização na psicose produz três aspectos fundamentais para um contorno ao gozo do Outro: limitar. E. em nota de rodapé.

Apollon. O psicótico permanece extremamente lúcido e embora vivencie um grande sofrimento psíquico. Mas no esquema R. É como se fosse uma “quarta crise” – rápida. Então. então. na elaboração inicial de Lacan. 101) . O sujeito se depara com a seguinte questão: “Não tenho mais a psicose. nos parece que Apollon não toma o fantasma em sua dimensão real. é delimitado pelo simbólico e pelo imaginário. não só reconhece a produção de um fantasma na psicose – retirada de um sentido do delírio –. assim. p. p.85 Mas será que Apollon não reduz a questão do fantasma apenas à sua dimensão imaginária? Quando o fantasma é apresentado em termos de roteiro “forma e conteúdo”? Não estaria. de maneira mais ou menos deformada pelos processos defensivos. de um desejo inconsciente?” (Laplanche e Pontalis. por sua vez. O fantasma vela e desvela o real da castração quando o objeto se faz limitado pelo imaginário e pelo simbólico em relação à falta no Outro. o fantasma também se revela a partir de uma dimensão imaginária como podemos destacá-lo na estrutura do esquema L: o objeto e o eu marcados para sempre pela alienação e a rivalidade. a realização de um desejo e. Em nota de rodapé ao esquema R. seu cotidiano profissional ou estudantil é preservado. e que figura. p. Então.101). seguindo uma maneira freudiana “clássica” como na definição de fantasia por Laplanche e Pontalis no Vocabulário de Psicanálise: “um roteiro imaginário em que o sujeito está presente. Lacan não se restringe à dimensão imaginária do fantasma. mantendo a ilusão da proporção sexual... para Lacan. que. eixo que se interpõe e obstaculiza a mensagem proveniente do Outro. eu-outro do esquema L. No momento. Então o que faço de minha vida?” (1990. mas o localiza sustentando o campo da realidade. do ultrapassamento do fantasma. o fantasma não se reduz a sua versão imaginária. 1991. Lacan especifica o estatuto real do objeto a ao desvelar a borda topológica que sustenta o campo da realidade. surpreendentemente. como também propõe. em última análise. o sujeito está susceptível a um “acidente psíquico”: “fenômeno particular em que o sujeito vive um desmoronamento global aparentemente do novo universo que começa apenas a se criar” (1990.169) Contudo. o seu ultrapassamento por considerá-lo frágil. embora profundamente violenta – que decorre da tentativa de enquadrar o vazio vivido pelo sujeito ao se separar desse Outro que o coloca no lugar de “abjeto” (1990). O fantasma corresponderia ao eixo a-a’. na medida em que o Outro está castrado e é disto que não se quer nada saber.

seus mitos (científicos. ao contestar essa “realidade”. há ainda um caminho a se percorrer que é designado como a instauração do desejo no laço social: o quarto momento lógico do tratamento. Apollon faz uma distinção entre o laço social e a sociabilidade. 103). ideológicos ou religiosos) e seus rituais (políticos. E o delírio. é a última questão a ser enfrentada pelo tratamento no “388”. E. ainda. o quarto momento do tratamento visa a que o sujeito se articule ao outro na busca de uma certa satisfação sob uma Lei comum. exige de seus membros um . tem-se a construção do próprio fundamento da “realidade” para a maioria dos membros da sociedade. Justamente esse fundamento que organiza os laços sociais é que está perdido para o psicótico. cria uma “neorealidade” mais satisfatória. inclusive. E a retirada do sujeito dessa posição de gozo – que. Pois o objetivo final do tratamento na psicose requer do sujeito do desejo a criação de um novo laço social (1990).4 O quarto tempo lógico: o desejo no laço social Segundo Apollon. ao abordar o desejo no laço social. Como resultante desse processo de enlaçamento social.86 Apollon compara esse momento crítico vivido pelo psicótico quando sai do círculo infernal da psicose ao episódio depressivo que pode ocorrer no final de uma análise de um neurótico. culturais ou simplesmente profissionais) funda as leis que regulam essas relações” (1990. p. o dificulta a estabelecer laço social – não mais por causa do delírio. Produzindo-se assim o estamento em que se localiza a organização do “bem comum” compartilhado pelos membros de uma dada sociedade. a sociabilidade encontra-se na base do laço social na medida em que este legitima os discursos que nela são reconhecidos. de um final de análise propriamente para o psicótico. não se trata. dentro da perspectiva do psicótico.3. Entretanto. Assim. 3. A psicanálise é um discurso que problematiza e resiste ao posicionamento sempre recorrente da cultura dominante que. na busca de corrigir suas falhas. ao psicótico que chegou a ponto de fantasmatizar o objeto resta uma satisfação oculta que permanece no gozo silencioso do fantasma. de forma totalizadora. “A sociabilidade refere-se aos diferentes modos de relações e de articulações dos sujeitos em uma dada sociedade que por suas crenças. para todos os membros da sociedade (1990). Segundo Apollon.

O delírio não faz laço na sociabilidade comum porque submete o sujeito como objeto do gozo do Outro. a postura ética do sujeito ante o real que está em jogo (1990). etc. “A psicanálise exige um novo laço social. o tratamento do psicótico chega a termo quando o paciente consegue criar um espaço estético para “fundar o risco de viver e/ou morrer a partir de seu próprio desejo. Pai. Portanto. buscando reparar as falhas na sociabilidade. não se trata de alçar a psicanálise ao lugar de uma ideologia. Mas o Outro com o qual o psicótico se relaciona é exclusivamente um Outro imaginário? Ou a dimensão real do Outro – que exclui todo e qualquer sentido – não estaria também presente no caso da psicose de uma maneira muito crua? Retomando a questão a respeito da (re)instauração do desejo na psicose. Mas o que seria essa superação do fantasma na psicose? Segundo Apollon. Ou seja. que mobiliza inicialmente a criatividade do sujeito a produzir sua articulação ao Outro (outro e/ou a linguagem) numa relação ao gozo. numa sociedade onde as relações sociais são fundadas sobre crenças comuns” . na medida em que o sujeito psicótico não suporta o seguinte ponto de partida: remeter-se à boa fé da palavra mesmo que esta não possa conferir toda garantia (1990). é a partir de sua posição na estrutura em relação à pulsão de morte (como gozo do Outro) que o sujeito deve se articular socialmente ao negociar a sua própria satisfação.106). Revolução. Ciência. o discurso analítico ao operar através da lógica do não-todo. interroga inclusive os significantes fundadores de nossa cultura quando revestidos de um caráter unitário: Deus. porque isso seria uma empresa delirante também. Diferentemente do neurótico. Assim. na direção de tratamento. para Apollon. Portanto. ao suportar a Lei. O fundamental é o desejo do sujeito como essencial à consistência mesma da Lei. O psicótico sacrifica seu ser em proveito de um Outro todo-poderoso (perseguidor) ao qual imputa a responsabilidade última por seu sofrimento. Sua gestão da metáfora é delirante. p. p.87 assujeitamento aos seus ideais e imperativos. o psicótico não tem a mestria da metáfora a ponto de sustentar sua própria palavra em relação ao Outro. Capital. aí também falha de certa forma em todas as estruturas subjetivas. ou um novo mito. (1990) Contudo.104). a psicanálise não se apresenta como uma simples contestadora dos valores sociais. mas reconhece a fragilidade dos fundamentos sociais na medida em que o próprio significante Nome-do-Pai. e não em conformidade à crença comum” (1990. “exige uma palavra verdadeira que sustenta o desejo do sujeito além do fantasma como fonte de sua criatividade” (1990. o analista.

88 (1990. . a respeito da falta de fundamento das crenças sociais. segundo seus autores. conquistado no tratamento. uma ética nova que não é fundada sobre nenhuma verdade última. mas sobre um desejo assumido quanto a suas conseqüências pessoais e sociais. o sujeito encontra-se apoiado em um saber. O trabalho no “388” requisitaria do psicótico. Entretanto. de outra parte. nenhum mito nem ideologia coletiva. Assim. O quarto tempo é considerado por Apollon o momento mais difícil na cura do psicótico.107). E para tal. porque o sujeito deve sustentar o espaço onde o vazio é enquadrado. o sujeito passa a ter a capacidade de criar novos laços sociais a partir da letra de seu desejo reconquistado (1990). mas que não gera mais o horror nem a inércia no psicótico. p. é uma confrontação com a falha de estrutura da própria linguagem. levando-o sim a produzir algo com isso no seu exercício particular com outros sujeitos no laço social. um final de análise para a psicose é proposto pelo GIFRIC – aposta enorme calcada no desejo do analista – quando um certo saber a respeito da falta no simbólico é produzido em análise. assumindo o desejo mesmo de criar seu próprio espaço de vida em uma sociedade sem um projeto definido (1990).

aventuramo-nos a cotejar alguns aspectos da clínica com psicóticos. Durante três semanas que lá estivemos. a partir desses três casos clínicos. sendo esta última uma vivência muito especial. Aproveitamos esse momento do texto para mencionar uma viagem que fizemos à cidade de Québec em outubro de 2000. Nesse capítulo. apresentamos também um caso de nossa experiência clínica acompanhado no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba. dos encontros com as equipes de intervenientes. não só da análise pessoal dos participantes. assim como com outros técnicos. mas da própria base teórica na qual se apóia o savoir-faire do GIFRIC no “388” em relação à psicose. Tivemos em nossa viagem a oportunidade de participar das reuniões clínicas semanais. interlocução com os autores acima referidos. mas. Foi enriquecedor conhecer um lugar estruturado para receber o psicótico como sujeito. Freqüentamos também alguns ateliês com os próprios usuários e os artistas locais. proveitosa. Niterói. coordenadores de ateliês e usuários do “388”. foi possível constatarmos a seriedade – e ao mesmo tempo uma leveza incomum – com que o árduo trabalho com psicóticos é realizado no “388”. fruto talvez. . Embora reconheçamos uma diferença muito grande em termos de organização social. institucional e teórico-clínica existente entre a experiência canadense e a nossa aqui no Brasil. das entrevistas psiquiátricas. no qual o exercício diário com e entre os usuários se desenrola em um ambiente com muita tranqüilidade.89 4 CASOS CLÍNICOS O quarto e último capítulo dessa dissertação de Mestrado apóia-se em dois casos clínicos publicados por Lucie Cantin e Danielle Bergeron na seção “Problemática Clínica” do livro Traiter la psychose em que abordam mais de perto a clínica desenvolvida no “388”. a partir da teorização proposta principalmente por Willy Apollon. apesar de uma certa dificuldade com a língua francesa. com o intuito de melhor problematizar a questão que perpassa a nossa pesquisa a respeito do lugar do delírio na direção de cura da psicose. quando não só acompanhamos o dia-a-dia do “388” como também mantivemos uma curta.

até certo ponto. preconizar que a psicose se restringe apenas a um “acidente da natureza” ao nível molecular (Cantin. surdo a esse discurso que o atravessa através das formações do inconsciente. marcando a vida e a carne do infans desde a sua entrada no mundo. Freud busca um sentido para essas experiências ao desvelar o que definiu como inconsciente. o discurso do Outro – constituído pela rede significante que cerca o sujeito – é o próprio inconsciente. Obviamente. a despossessão egóica infligida ao sujeito que a vivencia. Portanto.90 4. a ponto de a corrente dominante atual – “biológica” –. o delírio. em muitos casos pelo menos. tais produtos relacionam-se aos percalços sempre presentes de uma forma ou de outra no golpe que faz do vivente um sujeito ao ser inscrito no campo da linguagem. Assim. ao escrever o texto intitulado Le psychotique. restringindo-se apenas à clínica da neurose. Inicialmente. das alucinações. 1990). mesmo aparentemente apresentando-se como um interminável sem sentido. justamente em uma sociedade que tanto elogia a ilusão narcísica do personagem social. malade au père no livro acima citado. No percurso freudiano. Cantin refuta a idéia consagrada em muitos meios do campo da saúde mental de que a psicanálise não é apropriada para tratar a psicose. Com efeito. a psicanálise desde a sua criação por Freud.1 O caso Phillip Cantin. o sintoma. a alucinação são as produções mais profundamente humanas por apontarem radicalmente algo da verdade do sujeito. O psicótico já não pode compartilhar da surdez neurótica porque o seu discurso é radicalmente capturado por isso que nele fala sozinho através das palavras impostas. percorre um outro caminho ao constatar que o sonho. Ela reconhece que a psicose desencadeia um mal-estar no social por estampar cruamente. é apreendido por Freud como uma invenção de sentido por parte do . pode-se mostrar. Esse mal-estar chega a provocar um medo entre os profissionais da área da saúde mental em relação à psicose. baseia-se em um caso clínico para delinear as suas considerações a respeito da psicose e de seu estilo na condução da clínica psicanalítica orientada para os psicóticos que buscam o “388”. o delírio. O neurótico. devido ao recalque. do delírio. a criança já existe no discurso parental mesmo antes de seu nascimento. Então. o lapso de linguagem.

achava que todo o espetáculo repousava sobre ele. instiga o sujeito a se posicionar diante do real de sua estrutura. me sinto quase obrigado a remontar a Adão e Eva e às origens do planeta para resolvê-lo. vive da seguridade social há três anos após o primeiro surto psicótico. Cantin inicia o relato do caso de Phillip. Fazia parte de um projeto de intercâmbio cultural com possibilidade de representá-la na Inglaterra.” E prossegue: “Cada vez que me chega um problema. É. não era o meu verdadeiro pai que eu procurava.. Então. Refugiei-me em uma igreja. fui procurar meu pai. que nessa posição subjetiva se autonomiza a céu aberto. Foi hospitalizado por cinco vezes com o diagnóstico de esquizofrenia paranóide. quando abandonou a faculdade de Direito. De repente.114). Phillip tem 23 anos quando chega ao “388”.91 psicótico para poder sair de uma situação de impasse. depois ao sair da igreja. p. podemos pensar que o impasse relaciona-se ao aspecto sempre parasitário da palavra... Phillip faz uma demanda de análise. até um dia que lhe ocorreu: . (. Eu via uns signos do bem e do mal. Ensaiávamos uma peça que deveríamos representar um mês mais tarde. porque o neurótico dispõe da ilusão que o eu lhe confere ao acreditar que é ele quem fala. como denomina seu paciente. a gente não fica mais com os dois pés na terra e não conhece o piloto. Como se tivesse um câncer em meu espírito” (1990. mas Um pai. enquanto na neurose esse fato de estrutura para todo ser falante não ocorre tão manifestamente. p. tenho a impressão de ser uma espécie de fantasma. “Há três anos. eu fazia parte de um grupo de teatro amador na universidade.. aproximando os ditos do paciente ao legado de Freud e Lacan que concede à função do significante o condicionamento da paternidade do sujeito: “É por causa do meu pai que estou doente. No caso da psicose. Levaram-me até o hospital” (1990. Sou um acidente da natureza. (. Andei por toda noite. fui andar pelas ruas e procurar as estátuas e os monumentos históricos. desde o princípio. fiz uma oração e desmaiei. De manhã. Realizou várias tentativas de suicídio. Alguns meses depois. Nessa ocasião. é solteiro e mora com a sua mãe.13).) Não compreendo o que vim fazer nesse mundo porque ele nunca me significou nada a esse respeito. Phillip apresentaria um segundo episódio psicótico quando dirigia uma peça de teatro infantil intitulada “É o tempo da União”. estava muito inquieto por ter que tomar um avião. um estilo bastante ativo de acolhimento por parte do analista que.) Nesses momentos. A primeira intervenção da analista é demandá-lo a contar o que lhe ocorreu durante os seus episódios psicóticos. portanto. Um mês após a sua chegada ao “388”. Uma noite. não conseguia mais dormir.

Nesse primeiro tempo do tratamento. em resposta ao desejo do analista. em que uma primeira história se organiza a partir de fragmentos esparsos liberados durante a crise psicótica: pedaços de lembranças. tinha medo da noite. novos elementos. graças ao convite da analista em colocar em palavras o que se passara na crise. à analista. o delírio (1990). Um dia. Ele busca “Um pai” e não o confunde com o homem que se figura como seu pai em sua vida. eles o largaram. as vozes. mas os principais significantes da sua narrativa sempre retornam. E em seus repetidos relatos a respeito de sua psicose. Dessa forma. Em outra sessão. Cantin reconhece que Phillip. acrescenta. Phillip. meus brinquedos caíram sozinhos do móvel. tenta dizer o que era posto em cena no real da crise psicótica. na psicose. Phillip recorda um outro fato ocorrido em sua infância durante uma exposição em Montreal. lembra-se de alguns fatos que ratificam a sua percepção de que fora sempre “uma criança sem pai”.114-115). às vezes. de repente. se encontra foracluído. Pensei que alguém os derrubara. Chamei o meu pai mas ninguém veio” (1990. p. proporcionando. “Quando era criança. Fiquei aterrorizado. ao longo das sessões. o sujeito. Phillip busca desesperadamente algo que possa substituir o que Lacan designou como o Nome-do-Pai. pela primeira vez. Então. até me pegar rodeando o edifício do jornal Le Soleil pensando que era o edifício da Bolsa e que era o centro vital. A sua tia e seu irmão mais velho seguravam as suas mãos. O psicótico não obtém a resposta demandada pela procura do significante paterno justamente porque este se encontra foracluído desde sempre na psicose. o material significante suficiente para “sustentar a construção da história que empreende em sua cura” (1990. deixei o teatro e fui andar pelas ruas.115).117). significante privilegiado que condiciona a filiação simbólica do sujeito. p. A própria elaboração do delírio por Phillip conduz ao crucial de que se trata para a psicose: a questão do pai. Por isso. torna-se possível a entrada do psicótico no campo da representação. o lugar onde tudo se decidia e de onde emanavam as ondas negativas” (1990. Cantin considera essas lembranças .92 “eu estava no posto de piloto de uma nave espacial enviada por extraterrestres que me escolheram para cumprir uma missão. quando então foi atropelado por um carro. p. então. coloquei os meus brinquedos sobre a escrivaninha e durante a noite. engendrando por isso um lugar para o sujeito na cadeia simbólica como desejante e que. teve a oportunidade de relatar o que vivera como catastrófico. buscando em sua errância desesperada um sentido que o orientasse.

ou seja. não seria possível alcançar. entretanto. Cantin demarca o primeiro tempo da cura de Phillip através dos seguintes processos: a narração dos episódios psicóticos. a crise psicótica encena de uma maneira muito particular como o sujeito encontra-se comandado pelo Outro através das imposições. A crise psicótica é lida pelo GIFRIC como uma resposta do sujeito ante o desejo do analista. representando um momento fecundo de abertura que permite um acesso à verdade do sujeito. Então. Desta vez não é internado em um hospital porque já avisara a seus familiares que em caso de alguma recaída o levassem ao “388”. Quanto ao sonho. a analista demanda ao paciente que associe a partir de algum elemento do sonho ou de algum fato ocorrido nos últimos dias. Então. lhe avisa que só ela pode decidir se terá a criança ou não. para minimizar os estragos da intrusão do Outro. é o tempo de instauração da transferência analítica. de outra forma. Phillip apresenta um novo episódio psicótico. e também permite reconhecer a resposta que o sujeito produz através do delírio. Esses fatos se sucedem no mesmo período em que Phillip começa a trabalhar em um curta-metragem cujo tema versa sobre querubins que querem perseguir a história e o passado do Bom Deus.93 de Phillip como fenômenos elementares que apontam o buraco ocasionado pela foraclusão do Nome-do-Pai. da passagem ao ato. por último. p.119). Portanto. Cantin refuta essa reprovação à psicanálise que visa tratar psicóticos. na medida em que não associa essas lembranças a nada em sua história. a produção de um sonho em análise: “sonhei que meu pai é qualquer um” (1990. porque verifica que os elementos significantes liberados durante a crise permitem um acesso privilegiado a fragmentos da história do sujeito que. Uma crítica muito freqüente ao trabalho desenvolvido no “388” recai basicamente sobre a desestabilização desencadeada pelo convite para que o psicótico fale em análise. das alucinações. apresentando-se como um fora de sentido inassimilável para o sujeito. Cantin afirma que essa crise psicótica de Phillip decorre da entrada do sujeito em análise. devido à confluência desses fatores que se desenrolam em sua vida. E acrescenta também que uma garota lhe comunicara que estava grávida e que ele era o pai da criança que estava esperando. o início da elaboração de uma história do sujeito e. . Phillip lhe conta que dois dias antes vira seu pai sendo levado ferido a um carro de polícia após um tumulto em frente a um hotel. local onde pôde continuar endereçar as suas questões ao permanecer por um tempo como residente temporário.

permitindo que o sujeito construa algo no lugar deixado vazio pela foraclusão. muita experiência clínica e um referencial teórico bastante claro de quem dirige a cura. Portanto. ou seja. como também assinala um elemento em comum entre um sonho e o delírio. a analista facilita uma certa ordenação da história do sujeito a partir de pedaços de cadeias significantes. Nesse sentido. Enfim. levando-o a dividir a sua família em dois . no momento em que precede a sua última crise psicótica – a crise que marca a sua inscrição no trabalho analítico –. Segundo Cantin. para que esse tipo de intervenção analítica possa conduzir bem o tratamento. A questão a respeito de um contrato de casamento entre um homem e uma mulher já havia sido mencionada por Phillip no início de seu tratamento. que quando elaborados posteriormente em análise. Cantin nos revela que Phillip. a partir dos próprios significantes do sujeito. p. Cantin recorreu às seguintes manobras após a crise de Phillip: contoulhe alguns aspectos que se passaram durante a sua crise. o psicótico tem a oportunidade de dizer alguma coisa. assim como o sonho ou o sintoma. Entretanto. associa que se recusa a assinar um contrato com o Sr. embora nos pareça realmente necessário que se trabalhe assim em alguns momentos da clínica com psicóticos. Ele justifica que estaria inscrito na “União” e que isso lhe era impossível porque “o único contrato que um homem pode assinar é com uma mulher” (1990. buscando reconstituir uma história subjetiva. X a propósito de sua participação no curta-metragem. retomando o que o sujeito dissera. tentar representar em palavras justamente isso que submerge nos momentos críticos. afirmara que um tal contrato não se consumara entre os seus pais.94 Significantes. conta-se com muita análise pessoal. Acreditamos que através desse tipo de intervenção da analista possamos reconhecer a principal modalidade de técnica analítica desenvolvida no “388” nos momentos que se sucedem à crise psicótica. a crise psicótica é considerada como uma produção do inconsciente. A analista exerce uma função ativa na cura do psicótico. a analista o reconduz a alguma lembrança já contada em outra ocasião. permitirão ao psicótico aceder a um lugar de sujeito e não permanecer apenas como objeto dessas crises (1990). Contudo. fornecendo os significantes privilegiados que marcam a posição do sujeito na estrutura parental. como já assinalamos acima. a partir da crise. mesmo que o sujeito não possa dizer muito a respeito da crise. com o intuito de que o sujeito possa inscrever a crise em uma cadeia associativa. Retornemos ao caso clínico. Naquela ocasião. assim como indicou também algum material que o sujeito deveria trabalhar em análise (1990).120).

possibilitando a ligação entre alguns significantes desconectados até então. após a sua intervenção. etc. e pela primeira vez. por exemplo. não se localizava em nenhum deles. ele relata um sonho no qual os seus pais estavam na casa da analista. a analista relembra que ele havia dito anteriormente que tinha “sangue índio” proveniente da linhagem paterna. por estar inscrita no simbólico. ao mesmo tempo em que inaugura o próximo momento. p. Nesse momento. prescindindo do corpo ou da passagem ao ato para se colocar (1990). relata um sonho no qual desenterra um túmulo que apresenta um monumento vazio. como. Cantin afirma que. observa um sentimento amoroso de sua mãe em relação a seu pai. devido à “falência” paterna. lembranças. segue-se um tempo em que Phillip fala da inexistência de seu pai na família. assim como a presença de alguns índios. obrigando a família a emigrar para o Canadá.122). a trabalhar e tudo controlar” (1990. Phillip já havia afirmado também que era ambidestro e bilíngüe porque a sua mãe era francesa e seu pai era escocês. a analista intervém: “a ter os cordões da bolsa”. a uma lei. portanto. fragmentos do delírio são religados. retomando do discurso do sujeito a possibilidade de inscrevê-lo em uma filiação mítica. Phillip recorda uma ocasião em que viu a sua mãe lendo uma carta do seu pai quando este se encontrava em viagem. Phillip produz um sonho que Cantin utiliza para delimitar o primeiro tempo da cura. assumindo para si a missão de unir as duas partes da família. Dessa forma. p. aludindo ao primeiro surto do sujeito. quando. a partir dessa data. .123). Nesse período. sua mãe “passou a portar os culotes. Em seguida a esta lembrança. fatos ocorridos em sua vida. Ele relata também que. esta por sua vez. quando tinha seis anos. Inicialmente. aponta para o sujeito um lugar outro que pode recorrer para dizer. A analista utiliza uma expressão idiomática para interpretar o sujeito. a trapaça que a mãe realizou para adquirir uma bolsa de estudos para Phillip. ele dava voltas em torno da Bolsa de Valores buscando desativar as ondas negativas que dali emanavam. no entanto. Após um breve período de férias. considerado pelo discurso materno um “homem acabado e doente” (1990. seu pai falira a empresa que havia herdado. o poder de controle da mãe na família.95 clãs compostos por três pessoas mais velhas e por três pessoas mais jovens. o elemento real vivido nas crises (girar em torno da Bolsa de Valores). Sem contar que a própria expressão idiomática. obedecendo. dirige-se ao seu pai e lhe permite falar. E. Apesar de a dificuldade de Phillip fazer a associação a partir do sonho.

96

Portanto, a primeira etapa da cura, caracteriza-se por resgatar a palavra do psicótico. Nesse sentido, Cantin afirma que se deve terminantemente evitar enquadrá-lo em critérios preconcebidos a respeito de um “paciente ideal”, que possa usufruir de uma psicanálise. O fundamental é interpelar o psicótico como sujeito, além das manifestações de sua psicose, na medida em que ele também se endereça ao analista como sujeito em alguns momentos (1990). Na segunda etapa da cura, Phillip não responde mais ao desejo do analista através de uma crise psicótica, mas através da produção de sonhos e de alguns sintomas. Neste momento da cura, Cantin reconhece um “enquistamento da pulsão de morte por meio de um sintoma, enquistamento do gozo do Outro no qual o psicótico é tomado como objeto” (1990, p.124125). Portanto, a analista escuta Phillip alcançar uma posição de sujeito, porque, até então, ocupava o lugar de objeto do Outro. Durante essa mudança, pela primeira vez, ao retomar um trabalho, ele pôde concluí-lo. Neste trabalho, cria uma história fantástica em que uma criança inventa um pai. Cantin retoma três sonhos de Phillip: “Eu vou porque há um outro Phillip atrás de mim”; “Eu estou em um outro universo, ou melhor, é o mesmo, mas o vejo de uma maneira diferente”; “Eu trabalho para um espetáculo, mas, desta vez, trabalho nos acessórios”. Apesar dessa produção inconsciente, Phillip tem medo de uma recaída e relata que escutara as seguintes vozes: “você é um vagabundo, você é nada, você é repugnante” (1990, p.125). A analista pergunta novamente o que lhe ocorrera nos últimos dias. Ele responde que encontrou a sua mãe bêbada em casa, assim como a jovem que esperava um filho dele, embora tivesse percebido que ela não estava mais grávida. Dessa maneira, Phillip não só relacionou de alguma forma esses últimos fatos com as vozes, como também falou muito a respeito de suas crises anteriores, produzindo com isso um certo sentido ao que estava vivendo, sem que ganhasse um caráter de verdade absoluta. Então, o que lhe ocorria sob a forma de um delírio nos momentos críticos passou a apresentar-se através de sonhos ou sintomas. Em vez de encarnar uma crise, submetendo-se ao real que retorna de fora e o persegue, ele pôde produzir uma palavra na medida em que um espaço para a representação começou a ser construído. E segundo Cantin, o próprio sonho é uma resposta ao desejo do analista, ou seja, uma “outra cena” regida pelo significante que passa a ocupar o espaço subjetivo de Phillip (1990). Phillip relata mais um sonho no qual estava em uma cabana comprada pelo “388”, perto de um riacho. Pensa que Jean-Pierre Ferland se inspirou ali para compor a sua canção

97

que se chama Maria Clara. Phillip menciona que o sonho não estava muito claro para ele. Cantin em sua escuta leva em conta que o significante “claro” pertence ao patronímico da mãe de Phillip e lhe pergunta então se ele conhece a canção. Phillip responde que é uma canção de amor. E a analista cantarola um trecho da letra: “Ela me levou até um riacho. Ela me disse, eu gostaria de ser mãe. Faça como se deve. Faça como é preciso” (1990, p.126). Cantin aponta, através desse tipo de intervenção, que uma mulher pede a um homem que seja pai de seu filho, mas ao nível simbólico foi justamente o que falhou na constelação parental de Phillip, levando-o a errar em busca de um pai. E Cantin aponta também que o sonho coloca uma representação significante no lugar do evento real que precipitou a sua última crise: quando uma moça o designou como o pai do bebê que estava esperando (1990). Segundo Pommier, não basta uma mulher desejar um homem por procurar aí o falo, ou seja, restringi-lo à função falófora, cessando de demandar o falo à criança, para que esse homem seja considerado pai pela criança. “É preciso ainda que essa última passe este homem pela engrenagem edipiana segundo os arcanos da morte do pai. Sua função de nominação será assim acompanhada, o nome sendo tudo isso que resta do pai após essa operação” (Pommier, 1993, p.11). Phillip continua produzindo sonhos para contornar de uma outra maneira o que a sua missão delirante o incumbia, ou seja: ser “ambidestro”, ser “a língua que toca o palato” para poder soldar a família, ser o que une o pai e a mãe como um casal. Assim, tenta reaproximar os pais para que possa nascer simbolicamente, isto é, ter um pai. Um dos sonhos desse período de seu tratamento relata que ele não tem passaporte; em outro sonho, fala uma outra língua – russo. E associa que, quando está em surto, fala uma língua que não conhece, algo fala nele, mas lhe é estranho. Cantin reconhece nessa associação de Phillip que um “alhures” como Freud designou o inconsciente, começa a ser tecido, algo lhe fala, mas está nele, prescindindo da crise psicótica que admite apenas um “de fora” como causa de suas vivências (Cantin, 1990). Então, o real começa a ser enquadrado a partir das construções sustentadas pela analista, ou seja, o retorno do real – o trabalho da pulsão de morte, segundo Cantin –, começa a ser trilhado por outras vias. Nesse momento da cura, Phillip produz um sintoma – furúnculos no rosto – a ponto de o dificultar a falar em algumas ocasiões. É um período que transcorre com muita depressão. Ele associa que esse problema de pele é freqüente na família

98

do seu pai, passando a falar de um tio paterno preferido, que compara a um pai (furoncle / oncle). A questão a respeito da filiação de Phillip em relação a seu pai também retorna porque no discurso da mãe este se ausentara de casa por um ano antes do nascimento do filho devido a uma internação hospitalar em decorrência de um grave acidente automobilístico. Phillip sempre acreditou que era a prova viva de que o pai não ficou estéril como os médicos afirmaram na época do acidente. Portanto, o insabido a respeito de sua filiação que até então era veiculado somente pelo delírio começa a se circunscrever no corpo. Cantin, a propósito dessa etapa do tratamento de Phillip, cita uma intervenção de Apollon em um seminário não publicado de março de 1986:
“A interpretação na cura do psicótico visa a obter o sintoma em um primeiro tempo, ou seja, que concentre e enode o gozo do Outro sobre um objeto constituído nos significantes do Outro. O sintoma (...) conjuga o significante do Outro ao real de um gozo em que o sujeito padece. Essa produção do sintoma oferece ao analista um ponto de trabalho no qual pode ser requisitada a produção da cadeia aí onde estava o gozo do Outro” (1990, p.128-129).

Portanto, o sintoma no corpo de Phillip se oferece como uma via pela qual o real faz seu retorno. Nesse sentido, Cantin afirma que o que era produzido pelo delírio e os fragmentos da história de Phillip – “ser ambidestro”; “falar duas línguas”; “dever fazer o laço entre os dois clãs da família”; “dever unir a família”; “não estar na União”; “desarmar a Bolsa” – retorna como sintoma no corpo através dos furúnculos. Phillip escuta de seu médico que o seu problema de acne é proveniente de uma taxa de colesterol elevada, determinada hereditariamente. Nesse caso, tal herança provém da família da mãe. Assim, o furúnculo une em seu corpo as famílias do pai e da mãe ao suprir a falha da aliança parental. Phillip, em sua tentativa de enodar o casal parental – “je noue” –, passa também a apresentar um problema no joelho (genou), ou seja, em uma articulação. E ele menciona, a partir de seu problema articular, que sua mãe também apresenta bursite. Quando, então, a analista intervém: “le site de la Bourse”, elevando esse pedaço do corpo ao estatuto de significante justamente por focalizar aí falha na articulação entre os pais de Phillip em desejálo como sujeito. Entretanto, Cantin reconhece que o sintoma corporal mantém o sujeito ainda preso a uma alienação mortífera, na medida em que a analista considera esse sintoma uma produção do inconsciente da mãe, na qual Phillip encontra-se capturado. Portanto, interrogamo-nos se esses significantes ditos pelo paciente – je noue, genou, boursite –, ao

a mãe é posta de lado. mas admite que não é isso que deseja. Contudo. e. mas se entregou ao uso de drogas para conter a angústia que o avassalava. nesta história. interessa-se por escultura. após um hiato de quatro anos. o desenho. do delírio. como o fez antes de abandonar o “388”. “uma outra cena” é produzida em vez da crise psicótica. isto é. um dispositivo no qual se grafa o texto. Phillip. E abandona o tratamento por não saber até onde este pode levá-lo (1990). Cantin considera que essa crise marca o final de um tempo. Tinha passado cinco anos e meio sem nenhuma crise psicótica. volta a demandar uma cura analítica no “388”. permitem realmente uma significação para o sujeito ou permanecem restritos ao saber da analista (1990). não responsabiliza mais os extraterrestres por lhe infligirem um mal.133). Após a conclusão desse trabalho. Cantin observa que a cenografia se decompõe em um dispositivo cênico e em uma grafia. Phillip utiliza então uma maquete. prescindindo de uma escritura no corpo. a ausência de um mito a respeito do pai é suprida temporariamente. Citamos acima que na segunda etapa de seu tratamento. como Phillip o designa. Cantin reconhece que o nome do personagem é uma inversão dos fonemas do nome da analista. ao cinema. Phillip havia não só conseguido. tratando-se de uma participação como cenógrafo em um espetáculo teatral. apesar do voto contrário de sua família que ridiculariza seu talento. p. mas concluído um trabalho. como Cantin define o sintoma físico. da lesão corporal. Reconhece sua capacidade em trabalhar com teatro. mas sim a . não apresentou nenhum episódio psicótico. Cantin afirma que Phillip circunscreve em seu corpo – através do sintoma de acne e colesterol – a “coisa” que até então capturava todo seu ser como objeto nos momentos das crises psicóticas. seu interesse volta-se para a escultura. Phillip compõe uma história na qual um garoto de 10 anos que se chama Sully cria o seu pai. cinema. um traçado como forma de escritura. Phillip busca novamente o “388” por apresentar um novo episódio psicótico em decorrência de um retorno ao mesmo meio que vivia antes de seu primeiro surto. Com esse “conto”. a droga é uma tentativa de conter a pulsão de morte. Nesse período. destruindo todas as suas possibilidades de laço social. Portanto. Após seis meses de abandono do tratamento.99 serem enodados a partir da intervenção da analista – le site de la bourse –. assim como buscar aqueles velhos amigos. “Quero retomar a cura para chegar a produzir alguma coisa minha e que me permita viver” (1990. Nessa mesma linha. porque Phillip decide definitivamente não retornar ao teatro.

coisa que permita o retorno do real não mais com o mesmo efeito destrutivo sobre o corpo. “qualquer coisa que seja externa e destacada de seu corpo” (1990. o sujeito constrói uma existência que. Assim. por não lhe permitir viver nem criar no laço social. Dessa forma. sintomas corporais. percebemos como se desenrolou o processo analítico . a vida. Ela indica que a função do analista é manter um lugar por onde o real possa se deslocar para um objeto artístico produzido pelo sujeito. produz uma escritura e uma possibilidade de expressar a pulsão de morte em uma estética que se articula no laço social (1990). A arte proporciona que o pulsional dirigido para o corpo até então seja transformado em obra.135). a produção de um objeto no lugar do sintoma. delírios. Phillip passa a produzir objetos de arte. desejando que eles também sejam expostos publicamente: “A arte abre um campo para a metáfora. como terceiro e último tempo do tratamento de Phillip. ele busca então a arte. ao ser trabalhado. isto é. mas. Então. Como a droga é uma solução inviável. através das principais vertentes do caso clínico de Phillip – a reconstrução da história do sujeito. Phillip produzia vozes. Até então. deslocando assim um pedaço do corpo a ser consumido pela “coisa”.134). delimita um corpo. Cantin retoma mais uma vez uma indicação de Apollon em um dos seus seminários. fenômeno toxicômano. p. a constituição de um sintoma corporal e a produção do objeto artístico que rearticula o sujeito no laço social –. vindo a metaforizar de alguma forma “o vazio de sentido” que perpassa a vida do psicótico. Cantin propõe. mas uma “estética do agir”. prescindindo com isso de utilizar o corpo ou a vida como ocorre freqüentemente no sintoma ou na crise psicótica. p. e o próprio sujeito. Apollon prossegue afirmando também que o gozo que está em jogo na “coisa” se satisfaz no próprio objeto. Cantin conclui o caso clínico de Phillip observando que na terceira etapa da cura não encontramos mais a reconstrução de uma história nem mesmo a produção de uma ficção que gere algum sentido a partir da falha significante. buscando suprir a falha em produzir uma significação para a sua existência. um lugar onde se escuta isso que não se pode dizer. no qual afirma que o objeto produzido nessa etapa do tratamento apresenta as seguintes características: composto por um material que não tenha sentido em si. onde pode ser aprendido o inapreensível ou tornar-se visível o imperceptível” (1990. seja tomado como um objeto do desejo. mesmo sem recorrer ao pai compartilhado pelo mito edipiano.100 própria droga que buscou como solução para suas dificuldades.

e ele morreu no dia seguinte” (Bergeron. não abordaremos todos os aspectos ressaltados por ela. Bergeron nota que o psicótico não justifica a sua vida como o neurótico.101 sustentado por Lucie Cantin no “388”. que lhe chega com a seguinte interrogação: “Eu me pergunto por que se vive. porque.139). Eu perguntara ao meu tio doente como. A dor de existir do psicótico não se refere ao sofrimento provocado pela “fantasmatização da falta de um objeto” como ocorre com o . Se eu não tivesse tido a minha depressão. mas. como acompanhamos na teorização de Apollon no capítulo precedente.2 O caso André Danielle Bergeron. O caso clínico em questão baseia-se na análise de André. publicado também no livro Traiter la psychose. penso que teria encontrado a resposta a esta questão. na medida em que vários pontos já foram trabalhados no capítulo três e no item anterior do atual capítulo. aos avanços tecnológicos. 4. a sua busca pelo sentido derradeiro da existência o conduz às religiões. uns objetos teriam sido colocados nele na ocasião de intervenções cirúrgicas” (1990. No caso de André. O seu texto articula a descrição do caso clínico com as suas considerações a respeito da psicose dentro do estilo desenvolvido pelo GIFRIC. como Bergeron nomeia o paciente. Focalizaremos apenas os posicionamentos que acrescentam algo à concepção clínica do GIFRIC. A invenção do delírio é a resposta privilegiada que o psicótico dispõe para explicar a vida. à parapsicologia. à física nuclear. Portanto. Entretanto.140). O paciente acredita que esta pergunta precipitara a morte do tio. 1990. porque não compartilha das mesmas leis e mitos fundantes da sócio-cultura que compõem a ordem simbólica na qual também está imerso. permanecemos com a interrogação a respeito de uma melhor correlação entre essas etapas do tratamento de Phillip e a produção do fantasma na psicose. mesmo assim. por que se vivia. questionar o sentido da vida é uma questão de vida ou morte para o psicótico. p. seres maléficos dirigem seus comportamentos. segundo Bergeron. insiste em respondê-la. que ele seria o único a regular os conflitos entre as grandes potências. nos apresenta um caso clínico acompanhado por ela no “388”. Ele supõe também que “forças atravessam o seu corpo. p. em seu texto Enjeux de la cure du psychotique.

mas presentifica-se persecutoriamente como Outro real através dos fenômenos elementares. abdicando de uma posição de sujeito por crer que deve ser o objeto que tampona a falta do Outro – momento em que tanto o corpo como o próprio delírio expressam justamente a captura do sujeito pelo gozo do Outro. que nenhum objeto poderá preencher a falta de base do simbólico. a sua falta-a-ser estará abolida. fato de estrutura já suficientemente desenvolvido em passagens anteriores de nossa dissertação.102 neurótico. gostaríamos de ressaltar que Bergeron. que acredita que. na falta do significante paterno para ligá-la. Portanto. segundo Bergeron. o psicótico se oferece em sacrifício ao Outro em sua dimensão imaginária. p. se encontrar o objeto. tendo como efeito a foraclusão do Nome-do-Pai. O real desse gozo não permite que o sujeito se enode metaforicamente às leis e às regras da ordem simbólica. mesmo que delirante? O sujeito é efeito da articulação entre dois significantes – um significante representa um sujeito para . Afirma também que se o gozo se deixar enlaçar pelo significante de alguma maneira na psicose. “no vazio deixado pela impossível adequação do real ao simbólico”. um enlaçamento entre o real e o simbólico. ou seja. o psicótico “chegaria a ocupar uma posição imaginária de sujeito” (1990. além disso. Segundo Bergeron. Esse gozo permanece como energia não ligada na estrutura psíquica. apresenta uma “consciência aguda”. Mas será que ela está propondo que o “imaginário do sujeito” se refere à significação que ocorre no imaginário como efeito de alguma metáfora. mesmo que se construam todas as divindades para que o homem aceite melhor o seu destino (1990). Simbólico do significante e Imaginário do sujeito.144). E Bergeron acrescenta que se o enodamento dessa energia ao simbólico puder se fazer. mas. Entretanto. retoma também a teorização que correlaciona o psicótico ao objeto que satisfaz a demanda do primeiro Outro – imaginariamente identificado à mãe –. constituindo assim o Outro real que persegue o sujeito (1990). a autora reconhece que o Outro para o psicótico não se restringe à dimensão imaginária. faz menção a um Outro real na psicose que até então não havia sido apontado por Apollon ou Cantin. ao considerar o lugar que o psicótico ocupa na constelação familiar. Mas qual será o estatuto dessa posição imaginária de sujeito? Afirmação intrigante que nos faz pensar que Bergeron a utilizou para dar conta de um provável enodamento borromeano: Real do gozo. O psicótico não transita satisfatoriamente no laço social devido a uma falha na função paterna que se encontra em jogo na constituição do sujeito. O psicótico. encontramos uma posição imaginária de sujeito.

ocupa o lugar de objeto causa de desejo. . será que a assunção a uma posição de sujeito na psicose através do tratamento analítico ocorre pela via imaginária. por ocupar o lugar de vazio. Em relação à posição do analista na cura do psicótico. egóica? Ou será que esse “imaginário” estaria mais referido à noção de “semblante”? As questões ficam em suspenso. Assim. Mas afirmar que o analista ocupa o lugar de semblante de objeto a também não deixa de ser complicado. assim como a ausência de um fundamento último à representação” (1990. Reconhecemos que. mas ele em si não é simbólico. encontra-se em posição de objeto a. Portanto. convida o psicótico a colocá-lo como o seu perseguidor. A questão a respeito da posição do analista na clínica da psicose é espinhosa. p. Bergeron afirma que o analista se encontra. esse buraco criado pela disponibilidade limitada e estruturada do analista simbolizará o buraco no Outro. portanto. se o analista ocupa a posição do Outro. posicionando-se como uma baliza para que o sujeito contorne o vazio e a ausência de sentido da vida. do significante do Outro barrado. porque nesta última clínica o analista também se posiciona como semblante de objeto a (1990). um sujeito imaginário e um sujeito real também? Por fim. não haveria diferença entre a posição do analista na psicose e na neurose. Dessa forma.144). não só escuta o sujeito sem dar sentido aos seus ditos como também suporta o buraco deixado pela foraclusão do Nome-do-Pai. para Bergeron. o arbitrário das regras de funcionamento de uma sociedade. pelo contrário.103 outro significante –. aquele que goza do sujeito como objeto. Bergeron sugere que a análise se constitui em um espaço onde o sujeito pode escapar da captura do Outro – imaginário e real –. orientado a conduzir o psicótico a se confrontar com a presença de uma ausência. Bergeron considera que o analista. Embora o GIFRIC trabalhe justamente dentro da perspectiva de que crises são inevitáveis na direção de tratamento da psicose. Ou haveria um sujeito simbólico. a ausência de referência aos mitos e leis que o homem cria para viver em grupo. na medida em que faz semblante do objeto faltante. O analista ocupa o lugar da falta. o analista não ocupa o lugar do Outro para o sujeito. desde o princípio. porque as próprias regras que regulam a sessão analítica não são estipuladas pelo outro em decorrência de uma relação de força nem o espaço da análise é invadido pelo gozo do Outro: “Na cura do psicótico. porque inevitavelmente desencadeia algum tipo de crise ante o vazio estrutural que o objeto a encarna.

1998. 1990). o paciente apresentado por Bergeron em seu texto. permite ao psicótico utilizála em sua relação com o outro. tenta dar conta da origem do mundo através de uma construção delirante. a analista solicita que André escreva a respeito de sua teoria que busca um sentido para a vida.104 Rabinovitch trabalha também na perspectiva de que. p. A ficção construída em análise recolhe os significantes dispersos que atravessam o discurso do sujeito. Nessa perspectiva. ou seja. Em um segundo tempo. Então. o analista “é esse outro qualquer” (ocuparia. a transferência deve responder. O nêutron é o sol. O próton gira sobre . Havia uma grande pressão sobre a esfera a explodindo. sem a pretensão de compor uma narrativa bem organizada em torno de fatos vividos na realidade.23).24). então. o lugar do outro imaginário?) para responder “a essa figura de um Outro nem suposto. algum tipo de crise também pode ser deflagrada pela proposta clínica de Rabinovitch. mas conhecido como o que goza do sujeito” (1998. É a partir da matéria significante do delírio que se constrói uma história mais relativa. André. nem buscado. ante a fragmentação do tecido psíquico desencadeada pela foraclusão. um elétron e um próton). Entretanto. nasceu o primeiro átomo (um nêutron. quando.” Segundo Rabinovitch. ao sugerir que o analista intervenha reproduzindo justamente o momento do desencadeamento da psicose para que algo possa ser nomeado de outra forma que delirante. E essa nova ficção. p. em um primeiro tempo. foi uma explosão e fizeram o nêutron. por sua vez. André escreveu para a analista: “A vida começou por uma esfera e um vazio. o retorno do foracluído faz endereço no psicótico. Dessa forma. no início do tratamento. oscila entre períodos em que prevalece o pensamento de se suicidar porque não vale a pena viver em um mundo repleto de bombas atômicas que a qualquer momento podem destruir tudo e. há uma elaboração desse “percebido” – como “vindo de fora” – através do delírio. O analista deve se fazer de endereço do que vem de fora e “completar o tecido esburacado. A vida também começou com duas forças que se juntaram como o próton e o elétron. e o elétron que gravitava. “o dispositivo do tratamento consiste em reproduzir o momento do desencadeamento da psicose” (Rabinovitch. o que ela propõe é que o analista ocupe o intervalo entre o retorno do foracluído e a significação delirante. Portanto. contudo. em outros períodos. nem desejado. até então. Bergeron parte do delírio como a via mestra pela qual a análise com o psicótico pode ser possível. o delírio colocava o psicótico fora das trocas sociais (Bergeron. Assim.

p. Assim.151) Bergeron reconhece na teoria delirante de André. portanto. não ocupando o lugar de separador.152). elétron/atmosfera. Nesse caminho. o elétron/atmosfera ao filho e o nêutron/sol ao pai. não introduz o significante que suporta o vazio deixado pela hiância entre os dois (1990). encontrava-se atrelada ao fato de que sempre ouviu o seu pai xingar a sua mãe de puta. constata-se que o hidrogênio não tem nenhum elétron enquanto que o hélio tem dois. o próprio delírio aponta a falta do quarto termo na estrutura – o Nome-do-Pai – para “enodar no simbólico. o pai reforça a atração entre mãe e filho. embora. “quem é o meu pai se a minha mãe é uma puta?” (1990. e o elétron é a atmosfera. Assim. Segundo Bergeron. Bergeron observa que todo o empenho de André em forjar uma origem para a vida. mãe e filho –. a direção de cura proposta por Bergeron recai justamente em produzir um separador que livre o paciente da “compacidade alienante do delírio”. No entanto. ou seja. o paciente associa que tem medo de novas recaídas. então é a terra. p. para a questão a respeito do pai. a analista tenta produzir uma abertura no sentido fechado do delírio ao interrogar o sujeito relacionando o próton/terra à mãe. assim como não conseguir realizar nenhum projeto profissional porque seu pai também fracassou em sua carreira. ou seja. arbitrário em si mesmo e sem valor de verdade. o considere delirante porque não há deslizamento entre os significantes. Neste caso. nêutron/sol –. A vida começou entre o negativo e o positivo. Mas quando se segue os símbolos químicos. todas as três duplas estão coaguladas pela força de atração que as mantém na mesma relação entre si. o imaginário do sujeito ao real do gozo” (1990. nessa intervenção da analista. que tenta criar uma ordem de representação. duas forças contrárias” (1990. p. André relatou também para a analista que se sentia manipulado por forças que não só se batiam contra ele como também se apresentavam sob a forma de vozes.150-151). . não há a possibilidade de um quarto termo que marcaria um vazio entre os elementos significantes. Assim. nesse novo trio significante introduzido pela analista – pai. reúne os outros dois. Entre o próton e o elétron há uma força de atração ou uma força centrífuga em relação ao nêutron (o sol). o pai não destaca a mãe e o filho. permitindo com isso uma circulação entre eles. A partir do percurso do paciente em análise. que instaurou a primeira bateria significante. por sua vez. que. um primeiro grupamento significante – próton/terra.105 si mesmo. permitindo que se porte como sujeito e não mais como objeto alienado ao gozo do Outro. a analista relaciona para o paciente o fracasso profissional do pai ao fracasso do sujeito em conduzir mudanças em sua vida.

objeto interno. em posição de objeto a no lugar mesmo tido pelo analista” (1990. isto é. a analista ao fazer semblante de objeto a. depois. A externalização do objeto faz parte da travessia do fantasma na psicose. articula os grupamentos significantes que até então perseguiam o sujeito quando desatados uns dos outros.106 Nessa ocasião. Assim. André falara sobre uma agulha deixada por cirurgiões em sua cabeça quando fraturou o crânio em um acidente. um cachorro e um pássaro. pelos sonhos. mas abaixo deste há um barco. que se chama quille. . o analista opera em posição de objeto a (1990. encontra-se a transformação do objeto que persegue o sujeito – aiguille – no fonema do jogo – quille – significante que permite a André introduzir o pai. a transformação do objeto como um “sintoma” que se apresenta na cura do psicótico é identificado por Bergeron como o momento da articulação do fantasma psicótico. enquanto que quilha. se deslocar do gozo do Outro. três meios de transporte que permitem ao sujeito se salvar. Mas o próximo passo da análise é a “aparição de um objeto ou de um órgão interno que faça sintoma. “Essa agulha parece funcionar como objeto interno introduzido pelo Outro como significante de sua captura no gozo do Outro” (1990. um trem e um avião. as séries de trios. Esses trios construídos primeiramente pelo delírio. André começa a jogar com seu pai um esporte muito popular em Québec. por fim. O sujeito justifica que as suas dificuldades na vida são decorrentes do implante dessa agulha. Objeto impossível. isto é. a partir da intervenção analítica. A passagem do objeto interno a externo. p. impalpável. p. um tempo necessário a todo tratamento psicanalítico com psicóticos (1990). segundo o GIFRIC. portanto.156). “constituem um início de organização do significante que torna possível um lugar vazio mantido pelo analista ao ocupá-lo”.154).156). dois sonhos são produzidos. assim como os fenômenos psicóticos que vivencia. ou seja. anteriormente ocultada pela certeza delirante.155). pela intervenção analítica e. Dessa maneira. há um cogumelo atômico. regula a relação a um Outro barrado que tem lugar com o semelhante” (1990. vindo no lugar do grupamento significante que sustenta a falha do Outro. objeto externo. Segundo Bergeron. No primeiro sonho. p. “A agulha. No início do tratamento. Após dois anos de trabalho intenso sobre os grupamentos significantes. p. O segundo sonho se refere a um peixe. o coloca em relação com o Outro não barrado. permitindo com isso uma certa limitação do gozo do paciente.

Aproveitamos também para ressaltar alguns aspectos divergentes entre as experiências do GIFRIC e do HPJ. em um quadro aceito socialmente. por exemplo. O paciente também ingressou na universidade para cursar Ciências. há cinco anos. teoria e verdade. também. Nesse sentido. 4. mais verdade do que as pessoas estão. Sabemos que a nossa situação clínico-institucional difere em muito da prática desenvolvida pelo GIFRIC no “388”. em que ficções serão propostas para relançar a ação do significante e desbloquear o impasse do delírio” (1990. que até então produzia as desorganizações psíquicas e as passagens ao ato.158). por enquanto. no entanto. fica para o futuro decidir se a teoria contém mais delírio do que eu quisera. p.72). cotejaremos as propostas de Freud. observando. ou o delírio. “Assim. com quem não se relacionava há anos. acreditamos. a cura analítica do psicótico tenta lhe oferecer balizas imaginárias em que hipóteses vão ser possíveis. ao longo de três meses de internação no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba.. disputando até torneios regionais. Lacan e Apollon a partir de fragmentos de um caso clínico de um psicótico de 30 anos que acompanhamos. aproximando dessa maneira moineau/oiseau à série que André sonhou poisson/chien/oiseau. em seu texto sobre Schreber escreve: “. Freud. onde poderá. nome de um pássaro muito veloz. 1911. Bergeron ressalva que badmington em Québec leva a designação de jouer au moineau. começou a partir da análise. como também se interessou por badmington. a participar dos jogos de quilles com seu pai. p. que relações existem entre o delírio e a verdade do sujeito. preparadas para acreditar” (Freud.3 O Caso “Serquequerser” Neste último item do capítulo.107 André. . dela poder tirar conseqüências. dar outros sentidos à sua vida.. Niterói. o psicótico é surpreendido com a desmontagem de suas certezas delirantes ao ser confrontado a dar conta da falha do Outro – mas dentro de um suporte em que uma mudança gradual possa ocorrer e a angústia ser amenizada –. que chegou ao “388” com um diagnóstico de deficiente mental. diariamente. Com esse desafio nos lega essa peculiar articulação: delírio.

mas só um é o Deus Altíssimo. manifestamente psicótico desde a adolescência. “Conhecimento universal. muito receosa de sua agressividade. passa dois dias na rua. “O que isso significa?”. encontra a porta trancada porque a sua mãe. Portanto. corpo são e mente sã”. eu quero que o Sr. o que caracteriza uma situação bastante diferente da prática no “388”. Quero passar na prova para ser o agente Serquequerser. todo conhecimento do corpo e do espírito. Eu li na Bíblia que existem muitos senhores. de “rejeição de um significante primordial em trevas exteriores. mas realmente explicitada. um duplo legível. pergunto-lhe.21) Tratando-se.) nós nos vemos na posição de discernir pela primeira vez as noções estruturais cuja extrapolação é possível em todos os casos (. vou ser o agente especial Serquequerser. desse modo. reaparece no real?” (Lacan. o paciente responde: “Serquequerser”.) Encontramos também no próprio texto do delírio uma verdade que lá não está escondida. como acontece nas neuroses. Nesse momento. p.. O paciente em questão. No atendimento seguinte. algum trabalho subjetivo é realizado..108 Lacan. onde é internado. relata: “Eu vou até a Polícia Federal. a polícia é convocada e o leva até o HPJ. como poderemos acompanhar a seguir. sem família. muitos mestres.174). discriminada. que exige uma demanda clara de tratamento por parte do psicótico. o paciente não procura espontaneamente um tratamento. muitos deuses. não lhe permite a entrada..37-38).” Qual verdade no texto do próprio delírio que nos testemunha o psicótico? Seria “tudo o que é recusado na ordem simbólica. após um grave desentendimento com sua mãe. mas desde o momento em que o tomemos por aquilo que ele é. entre em contato com aquela mulher porque eu não quero voltar para aquela casa”. se referindo à mãe. 1988 [1955-56]. Na primeira entrevista. Quando retorna à sua casa. também se refere a esta última articulação ao se reportar ao caso Schreber no Seminário III: “(. acometido por mais um episódio de ira. significante que faltará desde então nesse nível” (1988 [1955-56].. acompanhado apenas por sua cachorra. p. p. no sentido da Verwerfung. Então. arromba a porta. O delírio a fornece. e quase teorizada. sem identidade. . vou fazer uma prova escrita. sem descendentes. não se pode mesmo dizer a partir de quando se tem a chave dele. sem documentos. Mas.1988 [1955-56]. E continua: “quero sair daqui no próximo quarto dia útil do mês. do que aborda a investigação teórica” (Lacan. Sou o senhor mestre Serquequerser do Deus Altíssimo. responde. ao ser perguntado pelo seu nome.

mas eu não quero. Psicologia. hoje. por isso cuido dele da melhor forma possível: só como frutas. se nutra sempre de alguns elementos significantes provindos do real. sou Serquequerser. Sou muito inteligente.109 Outros fragmentos desse tempo: “. (.. escutamos tão repetidamente em seu discurso: “sou sozinho. legumes e verduras cruas.. eu vim do nada. Eu tenho uma missão até o final de 1995. . vindo do nada. eu me chamo Serquequerser. na medida em que.74. podemos escutar precisamente a questão da “missão do psicótico” como Apollon considera em sua teorização. o que vemos? Um delírio que permitiu ao sujeito se filiar a um Outro sagrado – “Deus Altíssimo” –.) Serquequerser. Direito.. Em decorrência disso. A partir do quarto dia útil do próximo mês. graças à glória do Deus Altíssimo (. Eu renego o meu nome. soldado comandante agente especial da Polícia Federal Serquequerser. se refere a si mesmo como não tendo nome. Matemática e Português. tudo junto. não se escreve separado.” A lógica do delírio demonstra todo o esforço do psicótico em construir “um remendo” para a falha ocorrida no processo de filiação simbólica e. mesmo que o “remendo” produzido – como Freud denominou o delírio –.09. conseqüentemente. Eu não tenho nome. na nomeação do sujeito.” O paciente prossegue: “As mulheres gostam de mim. esse é o meu destino. O delírio também possibilitou uma nomeação ex-nihilo para o sujeito. eu vou seguir o meu caminho guiado por Deus Altíssimo. na busca de superar a ausência radical de laço social em que se encontra. mantenho o meu corpo puro. uma nova criatura que nasceu 05. Nesse caso. Eu sou um novo ser. eu recebi uma mensagem de Deus para eu ser agente especial da Polícia Federal. quero ser a eternidade. a lógica do delírio não prescindiu da aprovação de um outro em posição de suporte da lei – “um juiz” – para designar o sujeito como: “soldado comandante agente especial da Polícia Federal Serquequerser. o meu corpo é do Deus Altíssimo. curiosamente. inicialmente.) ser grande. Mas. Preciso ir até o juiz para ele me aprovar. O sujeito nos relata que tem uma “missão” porque “recebeu uma mensagem de Deus para ser agente especial da 3 Nome fictício. nem nervos. elas me procuram para namorar.. eu não tenho pressão. só tenho o Deus Altíssimo”.. Sou formado em Engenharia Naval. só tenho o Deus Altíssimo.sou sozinho.” Nesse fragmento do delírio do paciente. assim como na própria constituição do corpo como erógeno. aportuguesado. Carlos Antônio de Azevedo Colin3. eu já passei por coisas inimagináveis.. mas eu não as procuro.

. Em uma das sessões. Eu preciso sair daqui e voltar ao C.. que nos permitimos retomar as indicações de Freud e Lacan. Eu renego o meu pai e a minha mãe e o meu nome. o pai do pai do meu pai. voltar no tempo de 30 para 3 anos. o meu pai.. como supracitado: “um duplo legível do que aborda a investigação teórica”. que referem que o delírio explicita radicalmente não só a verdade do sujeito. porque ao voltar a ser criança. tenho todo poder. era do almirantalado. portanto. Parece-nos. depois virou uma serviçal e ficou ao Deus dará. Serquequerser. não se escreve separado”. Em uma entrevista na presença de sua mãe. só porque o homem usava colarinho. o sujeito nos disse: “Eu gostaria de falar que essa mulher renegou o pai dela que era um lorde. O que é? O que é? É.” Nesse trecho do delírio do paciente. . missão essa amalgamada à própria nomeação do sujeito.. tudo junto. o que é? Funabem. E aí. em holófrase. simbólico e imaginário. No caso clínico em questão. está me fugindo a palavra. Ele conseguia emprego para milhares de pessoas porque tinha uma pica muito grande. vou remanejar. mas da própria psicanálise. logo que chegou ao hospital no dia de sua internação.. o pai do pai da minha mãe. Ela era uma cinderela. que há uma estreita relação entre a alucinação como fenômeno psicótico primário e o “núcleo” do delírio portador da mensagem do Outro que redunda em uma “missão”. à 1a série. Escutamos também na psicose a desarticulação dos três elos do nó borromeano que sustentam o sujeito da psicanálise – real. achava que ele era doutor. não vou mais para a Polícia Federal. O homem que se diz meu pai dormia com ela. Eu sou Serquequerser. Carlos Antônio de Azevedo Colin.. mas era um analfabeto. que do real surge: “Serquequerser. reconstruir minha identidade porque quem não tem pai nem mãe é.110 Polícia Federal Serquequerser”. o pai do meu pai. nos confidenciou que recebeu tal mensagem (missão) através de uma voz que escutou – “Serquequerser” –. mas minha nova identidade é Serquequerser. podemos acompanhar todo o drama do psicótico em relação à questão paterna de uma forma tão cristalina. eu via ele levando a filha dele para o quarto e fechando a porta. mas só porque ele fumava cachimbo e bebia uma bela tequila. sou Funabem.A. almirante da Marinha Mercante e da Marinha de Guerra em Minas Gerais. eu hipnotizo as pessoas.. Eu quero passar o Natal fora daqui.. ela o renegou... e fazer até o último grau. mas não vou ficar na rua.. e me alfabetizar com minha nova identidade. o Deus Altíssimo me disse que vou viver centenas de anos. Eu tenho uma mente forte. vou ser racional. Eu renego o pai da minha mãe. Eu vou continuar para a minha perícia e para a minha aposentadoria sendo Carlos Antônio de Azevedo Colin porque preciso de dinheiro para habitar e comer.

como define a Matemática.. não se tem o Nome-do-Pai? Quando se é “uma reta sem margem”? Margem pensada aqui como borda. 1975. Constatamos também a disjunção do elo imaginário do sujeito através do indício de uma “regressão tópica do imaginário” quando relata que precisa voltar aos 3 anos de idade para refazer a sua identidade. ao se identificar com o nome que o registra na dimensão simbólica. se nomear junto ao médico perito para continuar recebendo o dinheiro do benefício previdenciário. na psicose.. limite. Eu sou uma reta sem margem. Entretanto. 328). encontramos muito mais uma nomeação como efeito da presença real de um fenômeno elementar – ou seja.. segundo o dicionário Aurélio. de estâncias. enquanto significante. pelo contrário. demonstrando claramente a sua perda de laço social. implicando. estão contidos todos os elementos de uma seqüência infinita . p. indignadas.845). portanto. nos parece que os ditos do sujeito não apontam para uma divisão subjetiva como na neurose. 1988 [1955-56]. “elemento L em cuja vizinhança de dimensão arbitrária . justamente a referência do Nome-do-Pai como um limite é que se encontra excluída. elas não se castram a si próprias. só tempo. nos remete novamente ao Seminário III As psicoses. As mulheres são impuras.” O paciente.. por exemplo. Portanto. Nesse sentido. Prossegue o paciente: “Eu fui ao futuro. nesse momento. só amo o Senhor Deus Altíssimo. a nomeação calcada na dimensão simbólica do laço social desenrola-se paralelamente à nomeação que o sujeito sustenta ante o analista – “Serquequerser” –.) Sou casto.. não me prostituo com mulheres.. (. o sujeito. apontam muito mais para uma disjunção entre os três registros do nó borromeano. estou no passado de 1995. Na estrutura psicótica.. a sua “verdadeira” identidade. ao presente. ao conjugar seu ser a uma reta – “sou uma reta sem margem” –. não abre mão de se manter no laço social para participar de alguma forma na troca social. a partir de um n0” (Ferreira. Mas o que se passa quando não se tem a estrada principal. um desenodamento discursivo . Dessa maneira. de Lacan. quando precisa.111 o paciente se nomeia como Carlos Antônio de Azevedo Colin. mas que também se polariza. uma “voz” que irrompe quando chega ao hospital –. que aborda o significante Nome-do-Pai através da seguinte metáfora: “a estrada principal é um sítio em torno do qual não só se aglomerou todas as espécies de habitações. caracterizando com isso a desarticulação do elo do real do nó borromeano. as significações” (Lacan. p. porque este se encontra todo desatado para o sujeito na psicose.

Inicialmente. nos diz: “. mas. por se apresentar de certa forma fora do laço social. assim como “eu fui ao futuro.” O discurso delirante do sujeito não abdica de se referir à “castração” como escutamos no trecho acima. 4 até Platão.. só o Deus Altíssimo que tem toda a sabedoria.112 tanto em sua versão espacial quanto temporal. aos neuróticos – não se encontra da mesma maneira na psicose. Lacan. esta. quero ser. resoluto. E no caso. Eu já passei por provas duríssimas. futuro – produto também da significação fálica comum. “voltar no tempo de 30 para 3 anos. proliferará... quando era internado. Jung e Jung. gritei muito de dor. estou no passado de 1995”. todo conhecimento..nem é um fato real. Freud morreu dizendo que não sabia nada. eles me seguraram e isso não é fantasia. ficava num buraco. o Deus da saúde e o Deus da sabedoria. E em relação à desarticulação da dimensão temporal do discurso do sujeito psicótico em questão.” Em outra sessão. como se escreve: “jung”. sou o escolhido. quando fui circuncidado. conduz a outros ordenamentos temporais como. presente. o delírio faz uma menção ao fato de que as mulheres não se castram a si mesmas. eu. “vou viver centenas de anos”. ou seja. O desatamento da dimensão espacial do discurso pode ser constatado através da própria metáfora do sujeito referida acima: “sou uma reta sem margem”. ou seja. 4 Inicialmente.. evidenciamos que a seta do tempo que ordena passado. posso ser um psicanalista. . não quero ter. porque Deus disse que um se salvará. realmente as outras pessoas não sabem de nada.. de certa forma. ao presente. só tempo”. por exemplo. Poderíamos pensar que ele está fazendo alusão à não castração da mãe – primeiro Outro do sujeito – como ocorre na psicose? Porque nos parece verdadeiro que a mulher que sustenta a função materna na constituição de um sujeito necessita ser “castrada” pelo pai. Naquela época. fui escolhido pelo Deus Altíssimo como o Deus da beleza. eu fiquei com um pênis de menino e agora sou admirado. o sujeito qualifica as mulheres de “impuras. ficava num quarto no subterrâneo. nem. eu li Freud. mas em seguida pronunciava o j. Eu passei por várias transformações. hoje. o paciente pronunciava corretamente o sobrenome suíço-alemão de Jung ao substituir o j por i: “iung”. eu lia a Bíblia porque eu não tinha todo o conhecimento ainda. a função paterna opera intervindo como um elemento terceiro tanto em relação à mãe como em relação à criança. Este mundo vai acabar. a eternização do tempo ligada ao ser: “eu sou . Até um dia que eu caí no chão e um grupo dos melhores especialistas em Medicina me pegou e me fizeram uma circuncisão no meu pênis. tanto em relação à “castração” das mulheres como a dele próprio. mas não tocado. mas só eu ficarei pra sempre.. mas as pessoas copulam e o mundo proliferará.

na medida em que o significante “falo” permite a constituição de um conjunto fechado compreendido pelos seres fálicos. no particular de cada uma. também está referido à castração simbólica. um conjunto aberto. As mulheres só podem ser tomadas uma a uma. não estar totalmente submetida ao significante. apresenta um gozo suplementar ao fálico. O homem está preso ao gozo que o significante proporciona – gozo fálico –. com exceção de um “homem” – o Pai da horda primeva. na medida em que este artigo sem a barra da castração confere um caráter universal a um determinado conjunto – o que não ocorre entre as mulheres. ao enunciar que “A Mulher não existe”. então. ou seja. por se constituir levando-se em conta a não-castração da . porque em “essência” – A mulher – é não toda (Lacan. remete à questão de que dentro da lógica da sexuação do ser falante só existe um sexo – o masculino. por situá-lo também do lado do não-todo submetido à regra fálica – ou seja. No Seminário XX. enquanto o sujeito que se posiciona como mulher. O conjunto é aberto porque não há exceção à regra para fundar o universal de todas as mulheres como temos no conjunto que compõe os homens. O “sexo” feminino não se inscreve na linguagem. proporcionando com isso. que ao menos um elemento do conjunto não se encontre submetido à castração. isto é. permitindo-nos constatar. mas não o está totalmente. E Lacan aproxima o gozo feminino ao gozo místico. só pode existir fora do simbólico. edípica. o sujeito que se posiciona como homem encontra-se todo submetido à castração. Lacan. Assim. para que isso se sustente logicamente é necessária uma exceção à regra. Lacan formula que “A mulher” não existe porque só se pode escrever “A Mulher”. que nesse delírio há um saber que de alguma forma aponta para a necessidade fundamental da castração do Outro na constituição do sujeito. justamente por não se castrarem. no qual se localizam os seres femininos.113 indignadas”. enquanto a mulher. barrando-se o artigo definido “A”. para o neurótico. o que possibilita justamente a consistência de um agrupamento universal. entretanto. o psicótico. como tão bem ilustra Teresa d’Ávila. 1982 [1972-73]). Poderíamos também nos perguntar a respeito da relação entre a não-castração das mulheres – como o discurso delirante do paciente aporta – e a questão da existência da Mulher. ou seja. segundo o mito freudiano –. ao gozo fálico. na partilha dos sexos. por não ser toda. Portanto. a mulher é não-toda em relação à norma fálica. Entretanto. um gozo fora do significante. “A Mulher” ex-siste. à norma fálica. indeterminado. elas não formam um conjunto fechado.

mas apenas certeza. não está vindo a palavra. pergunto-lhe. completa. Pai. o lugar do Outro é presentificado diretamente através dos fenômenos elementares. a certeza delirante proveniente desta relação com um Outro sem falta. como o Outro primordial. escreve que “o Nome-do-Pai reduplica no lugar do Outro o significante ele mesmo do ternário simbólico. o lugar da simbolização primordial como o primeiro Outro materno. E qual a relação entre este sujeito e o Outro como “Deus Altíssimo”? Lacan. dois lugares – M. inclusive. dúvida diante de um saber absoluto. além de deter todo saber. fálica. portanto. O paciente continua: “Eu estou em condições de conduzir a minha vida. Quero sair pelo mundo. que ocupam. matar . “Matar. Na psicose. A “castração” para o sujeito psicótico se localiza fora da cadeia significante como retorno do foracluído. tenta fazer existir “A Mulher”. E o interessante também é que o sujeito ressalta que a cena da circuncisão não é uma fantasia nem um fato real como realidade “objetiva”. apresentando-se apenas para ser “admirado.” “O quê?”. que impõe ao sujeito um gozo. A circuncisão se processou em uma dimensão do real. ou seja. o conduz a ser “o escolhido pelo Deus Altíssimo” e coroado megalomanamente como o Deus da beleza. não articulada a uma ordenação na cadeia simbólica. portanto. mas que resulta em “um pênis de criança”. não operante como falo. O delírio do paciente também explicita uma cena traumática na qual o sujeito é circuncidado. o significante Nome-doPai é rejeitado. não havendo possibilidade na psicose para vacilação. castrado. lugar do tesouro dos significantes – e – P. em uma tentativa de abolir a diferença sexual. matar.114 mulher. Mãe. mas não tocado”. gostaria que o Sr. Aspecto que. produzindo todo o acidente na história do sujeito quando solicitado. na psicose. E o que se presentifica no buraco deixado pela falta do Pai como Lei que ordena a cadeia significante são os fenômenos elementares. como o sujeito nos afirmou resolutamente: “não quero ter. sem barra.559). portanto. cristalizando-o na posição de ser o falo e não ter o falo. Outro este não barrado pelo significante da castração. sem matar o pai. Desse modo. lugar da lei significante. enquanto ele constitui a lei do significante” (Lacan. em De uma questão Preliminar. como já salientado várias vezes. p. pelas ruas sem ser importunado. mas não dentre a família. da saúde e da sabedoria. Reduplicação esta que instaura.. não me importunasse quando eu estivesse falando.. quero ser”. 1995 [1958].” .

Fui escolhido pelo Deus Altíssimo como superior a Jesus Cristo. portanto.. à falha na associação referente ao pai. ocorre a irrupção de uma voz alucinada – “Serquequerser”. não sendo. O enigma concernente aos familiares eu resolvi. na medida em que ele também apresentou o desencadeamento de sua psicose na adolescência e por tratar-se ainda de um adulto jovem. o paciente não só especificou a retirada do sobrenome do pai de seu nome próprio. Lacan. como superior a Jesus Cristo! “Ele se casou e teve filhos. o significante “pai” que foi expulso da própria cadeia associativa do psicótico. escutamos um ponto fundamental que não pôde ser elaborado simbolicamente pelo sujeito. A partir das indicações de Freud e Lacan. sem o complemento verbal. Mas.. a multifacetada construção delirante. Ela é minha única família. De um e de dois se chega lá. Em seguida a essa associação.” Mais uma vez. poderíamos estender essas orientações para o sujeito que abordamos em nosso caso clínico. ou seja. de um e de dois se chega lá. E quando o sujeito foi interpelado pelo analista para melhor enunciar essa questão.. Já li Freud. ou melhor. mas todos registrados. porque Colin existem milhares por aí. isto é. um certo remanejamento do delírio que permitiu algum enlaçamento social..” Podemos pensar o desdobramento desse caso clínico em três tempos: no primeiro. é importante também que frisemos um pouco a respeito do lugar que o analista ocupa no desenrolar desse processo. Alberti demarca muito claramente alguns pontos a propósito da posição que o analista ocupa na direção de tratamento de adolescentes esquizofrênicos. Sócrates e Platão. embora. que o meu nome é Carlos Antônio de Azevedo. por isso não tenho mais porque falar. e só sei que sou o primogênito de Enarzina. o texto delirante do paciente aponta para elementos cruciais na constituição do sujeito.. registrado pelo pai como os “milhares” de “Colin” que existem pelo mundo – como também especificou o lugar que ocupa junto à mãe – “sou o primogênito de Enarzina . Neste último fragmento do delírio. Então. de um e de dois se chega lá.. no segundo. E repete várias vezes a fórmula que o enreda no duplo especular: “de um e de dois se chega lá” – a ponto de ser eleito pelo Deus Altíssimo. portanto. pela via do delírio.115 “Eu gostaria de dizer para o Sr. Jung e Jung.. retornando. no terceiro. De um e de dois se chega lá. Deus Altíssimo proverá. e. Todos morreram sem saber nada. . antes de delimitarmos os três tempos do tratamento do paciente. o parricídio – “quero sair pelo mundo. sem matar o pai” –. o que encontramos foi a repetição do verbo “matar”. Ela é minha única família”. ele se casou e teve filhos..

os efeitos imaginários daí advindos. não há idealização nem identificação em relação ao analista na psicose. p. na medida em que a possibilidade do terceiro elemento comparecer está foracluída.127). inicia-se o engendramento do delírio que situa o sujeito em uma ordem dual. sentava-se e falava sucintamente um trecho de seu delírio. este “presentifica o próprio saber do real” (1999. era muito implicado com o trabalho realizado: quando chegávamos na enfermaria. no primeiro tempo. um saber ao analista. O que estava em jogo na análise. o Nome-do-Pai. como o neurótico. p. como nos afirmara: “já passei por coisas inimagináveis. para o psicótico. para o psicótico. ao exercer a sua função. mesmo sendo semelhante aos outros. “o verdadeiramente diferente é ele próprio. O segundo aspecto ressaltado por Alberti.” Então. em nosso caso clínico. em relação ao primeiro tempo do tratamento. da tradição judaico-cristã. conseqüentemente. não tenho pressão.116 O primeiro ponto abordado por Alberti consiste em que.127). tempo em que o discurso nos oferece exemplarmente o significante do qual se trata na foraclusão. Nomeação que permite uma pluralidade de interpretações a partir da própria teoria psicanalítica. ou seja. p. o corte da sessão era dado por ele ao esgotar o que queria dizer naquele dia. No segundo tempo. O paciente que apresentamos. a construção delirante renomeia o sujeito como “Carlos Antônio de Azevedo” porque “Colin existem milhares por aí”. constatamos que a não-inscrição simbólica do Pai no Outro do sujeito afeta-o na cadeia geracional. na maioria das vezes. entrava no consultório. embora como objeto no gozo do Outro. pelo contrário. era a oportunidade do sujeito decantar de alguma maneira o gozo que se excedia demasiadamente. Dessa maneira. Portanto.127). a partir das indicações acima. refere-se ao fato de que. 1999. “o analista sabe do real” (Alberti. Embora .127). hoje.127). assim como do Deus. o terceiro ponto indicado por Alberti. “intervém sobre o próprio gozo do sujeito” (1999. o analista não difere dos outros com os quais o sujeito se relaciona. O psicótico não supõe. “o sujeito esquizofrênico escancara a verdade que os neuróticos tanto fazem para velar: não há intersubjetividade na relação psicanalítica” (1999. podemos reconhecer que realmente não havia relação intersubjetiva e. Portanto. poucas intervenções eram feitas e. p. Entretanto. p. sujeito a e de experiências que os outros não têm” (1999. considera que o analista. ele nos aguardava. retornando alucinatoriamente no real através da enigmática autonomeação: “Serquequerser”. por exemplo. depois. nem nervos.

117

não haja necessariamente uma correspondência entre o significante Nome-do-Pai e o sobrenome do pai. E retomando o caso como um terceiro e último tempo: “Depois que nós chegamos a um denominador comum, eu gostaria que o Sr. tirasse aquelas cifras de remédios, eu sei que o que penso se transforma em realidade, que Amplictil é vitamina A, que Haldol é vitamina C, que tudo o que penso o Deus Altíssimo transforma, mas sempre fica uma toxina que não deixa os funcionamentos do meu corpo não acontecerem direito. Chegamos a uma harmonia, a uma união, gostaria que o Sr. retirasse a cifra de medicação por causa da singular simpatia que há entre o Sr. e eu, o Sr. é igual a mim, porque o Sr. é formado e eu sou formado também.” “Mas eu não sou igual a você, existem diferenças”, intervém o analista. “Eu gostaria que o Sr. reduzisse as cifras dos remédios porque há uma sintonia cada vez maior entre a gente. Ao longo desse percurso e decurso dessa trajetória que estou aqui, estou melhor e no próximo quarto dia útil de março vou sair. Deus Altíssimo em quem penso o tempo todo, ele é por quem o sentimento de que só um se salvará.” No final de seu período de internação, nos disse: “Entre mãe e filho há sintonia, reciprocidade, nós nos perdoamos. E, então, hoje encerram as duas cifras de clorpromazina?” “O que significa cifra?”, pergunto-lhe. “Ah, são controvérsias, cifris de money e cifris de inexatidão, uma harmonia, uma comunhão entre o Sr. e eu, um diálogo”, responde. Nesse momento da escuta do sujeito, recolhemos o significante “cifra” que insiste em seu discurso, o que nos leva ainda a uma breve menção da questão da “cifra” em psicanálise. Freud inventa a psicanálise ao decifrar um saber – o inconsciente, até então cifrado para o falante –, e como toda operação de decifração, produz como efeito um sentido. E ele descobre que o sentido da estrutura é sexual. Embora não haja um signo com o qual se possa escrever a relação sexual. Dessa maneira, segundo Vidal, “na cifra do saber inconsciente está o gozo sexual que impossibilita que a relação sexual se escreva. No gozo se trata pois, de algo diferente ao sentido” (Vidal, 1993, p.44). O saber inconsciente é o ciframento do gozo sexual. A cifra, por sua vez, remete ao real do número, na medida em que “no enraizamento do sujeito ao significante encontra-se o número” (1993, p.41). O filósofo Badiou nos interpela afirmando que sabemos para que servem os números – “eles normatizam o Tudo” –, mas o que são, nós o ignoramos (Badiou, 1993, p.11). E sustenta que, por não sabermos o que são os números, não sabemos o que somos. Restando-nos, então, a árdua tarefa de subtrairmos, da “idéia” de número, um sujeito.

118

Contudo, não podemos nos esquecer que a psicanálise parte do seguinte axioma: há sujeito. Segundo Elia, “o sujeito com que opera a psicanálise – o sujeito do inconsciente – é precisamente um sujeito sem qualidades” (Elia, 2000, p.22), quer sejam, “sensoriais, perceptuais, anímicas, enfim, numa palavra, empíricas” (2000, p.21). Ou seja, retomando o ensino de Lacan, Elia sugere que o sujeito da psicanálise é coextensivo ao sujeito da ciência, que por sua vez, foi instaurado pelo passo cartesiano. Então, a psicanálise sempre supõe um sujeito no saber inconsciente – cifrado, nãosabido –, porque, antes de qualquer possível deciframento, o inconsciente representa uma escritura. Segundo Vidal, “o inconsciente é uma escritura efetuada pelo recalque originário, a operação que representa o sujeito por um significante para outro sem com isso revelar ao sentido a cifra do desejo” (Vidal, 1993, p.41). A palavra cifra, antes de significar o signo numeral, como empregamos hoje em dia, transporta em sua história etimológica o vazio – e, é correlativa à introdução do zero no Ocidente pelos árabes no séc. V. Os árabes traduziram a palavra hindu synia pela palavra sifr para designar o vazio, que depois foi latinizada como zephirum (séc. XIII), até alcançar o vocábulo zero (1993). Assim, a operação de ciframento que caracteriza o trabalho do inconsciente está intimamente relacionada a um lugar vazio do qual o sujeito da psicanálise emerge. No entanto, como podemos pensar essa operação de ciframento na psicose? Pois, o recalcamento originário – instaurador do “zero como verdade da falta” –, não se processa na psicose, o que encontramos aí é a foraclusão (1993). Todavia, a clínica nos testemunha que quando se desenrola um percurso analítico – quer se trate de uma neurose ou de uma psicose – algum ciframento de gozo, algum esvaziamento desse “a mais” que caracteriza o gozo, se opera na estrutura do sujeito. Retornando à última sessão do paciente – que não se deu no quarto dia útil do mês! Porque esse ponto do delírio também se enxugou no percurso do tratamento –, escutamos: “Depois de tanto tempo de dissertação sobre a minha vida, hoje, volto para casa, e a propósito, o Sr. não vai tirar mais uma cifra de clorpromazina, hoje?” “Não, não vou tirar nenhuma cifra”, digo-lhe. “É, vou estudar Gramática; primeiro, estudo Gramática, Português, depois, secundariamente, Matemática, preciso sempre me aportuguesar, vou estudar Gramática porque Gramática é fundamental, a gente tem que estudar Gramática todo dia pra não esquecer.”

119

A psicose, por não produzir o recalque originário devido à foraclusão de um significante primordial em detrimento de uma afirmação primeira, acarreta efeitos na constituição do sujeito. No terceiro tempo do tratamento, sobressai, então, devido à elisão do significante “falo”, o duplo imaginário que sustenta a psicose num convite a uma união sem barreiras, reunião essa com o outro imaginário como nos testemunha as seguintes referências: “entre mãe e filho há sintonia, reciprocidade”, “chegamos a uma harmonia, a uma união”, “o Sr. é igual a mim”, etc. A psicose ao rechaçar a impossibilidade da proporção sexual numa tentativa de anular a diferença, devido à precária condição do sujeito de se confrontar com a sua incompletude, assim como com a incompletude do Outro, obtura o furo do Outro num retorno a uma mítica completude primordial, como se esboça no discurso do paciente através da demanda de retirada das “cifras”: “por causa da singular simpatia que há entre o Sr. e eu”. Nesse terceiro tempo do tratamento, a estrutura psicótica, mesmo não apresentando a divisão subjetiva como se encontra na neurose, introduz uma pequena fissura nesse discurso tão esférico. Haja vista que o sujeito define “cifra” como “controvérsias” – “cifris de money e cifris de inexatidão” –, assim como “harmonia” – “comunhão entre o Sr. e eu”, “diálogo”. Portanto, a “cifra” mescla uma alienação ao outro com um esboço de separação. Por isso, foi importante em nossa intervenção manter a “cifra” de medicação por ser um significante privilegiado do sujeito no final de sua internação, na medida em que a “cifra” porta “controvérsias”, “inexatidão”, justamente algo da não-relação sexual tão insuportável para o psicótico. O caso clínico que acabamos de relatar permitiu-nos acompanhar, em linhas gerais, um pouco das teorizações de Freud, Lacan e Apollon a respeito do lugar do delírio na estrutura da psicose, levando-se em conta a estreita relação entre o delírio e a verdade do sujeito, assim como o lugar central que o delírio ocupa na escuta analítica de um psicótico. A propósito do primeiro aspecto – o lugar do delírio na psicose –, acreditamos que tanto Lacan como Apollon não diferem em muito da tese freudiana que considera o delírio como uma tentativa de cura na psicose, apesar das nuances destacadas por cada um em suas considerações teóricas. Existe uma diferença maior em relação ao segundo aspecto que aborda o manejo do delírio na direção de cura do psicótico. Sobre esse ponto, como exposto em capítulos anteriores, Freud pouco deixou escrito, embora, nos legou balizas fundamentais a respeito da clínica da psicose. Lacan avançou em muito a abordagem psicanalítica para um tratamento

mesmo diferindo em muito do contexto canadense. Os casos clínicos relatados por Bergeron e Cantin nos reportam ao estilo trilhado pelo GIFRIC. como. A posição dual – aliás. Portanto. ao nos dizer. ao final de sua internação. como através de um projeto em seguir uma carreira no serviço público. a partir das seguintes experiências: alguns aspectos do caso Aimée revalorizados posteriormente. uma mudança subjetiva tão radical na psicose. obviamente não foi atingida. produzir uma teorização própria a respeito das etapas de um tratamento psicanalítico de psicóticos.120 possível da psicose. que “entre mãe e filho há sintonia. Reconhecemos que a posição do sujeito. Nesse sentido. inclusive. produzida pelo tratamento. além das inúmeras linhas teóricas que caracteriza a sua obra. pudemos também perceber que. No entanto. alguma construção pôde se esboçar malgrado o estreito “raio de ação” que tínhamos para intervir junto ao paciente. pouco antes de sua alta hospitalar. ainda era muito precária. a sua experiência clínica privada. ao estabilizar o sujeito. onde o acompanhamos ainda por um ano. o seu rigoroso empreendimento em escutar psicóticos nas “apresentações de doentes” ao longo de toda a sua carreira. apesar de o sujeito não estar mais acossado pelo imperativo delirante – “Serquequerser” – verificado no princípio do tratamento. através do retorno da cumplicidade especular com a sua mãe. tendo prevalecido mesmo depois no atendimento de ambulatório. alguns aspectos desses avanços para outros pontos da teoria psicanalítica. Contudo. estendendo. a ponto de certa forma permitir um resgate do laço social – tanto em termos familiares. como aquela em que aposta o GIFRIC. reciprocidade”. A experiência clínica sustentada pelo GIFRIC no “388” permitiu principalmente a Apollon. . Apollon busca um caminho singular para orientar a cura analítica com psicóticos ao cruzar vários elementos das obras de Freud e Lacan. fato de estrutura na psicose – na qual o sujeito se encontra desde sempre. por exemplo. alguma “cifra”. atrapalha essa completude imaginária. pouco se modificou ao longo do período de internação. ao privilegiarmos os principais significantes do delírio. por exemplo. esses fatores articulados permitiram que o ensino de Lacan avançasse em relação à clínica da psicose. Então. apesar das críticas que pudemos levantar quanto à sua abordagem teórica. alguma “toxina”. Em relação à nossa experiência clínica. como constatamos. constatamos que houve uma superação do surto. a construção de um fantasma na psicose.

mesmo que seja para que a pesquisa em psicanálise sonde novas perspectivas em relação à psicose.121 Assim. para melhor lidar com o real –. não tivemos elementos clínicos para avaliar a questão da construção de um fantasma na psicose – a partir da desmontagem do delírio. mesmo havendo uma modificação na produção delirante do sujeito. Mas isso não quer dizer que a proposta clínica a respeito da construção do fantasma na psicose não tenha o seu valor. como o GIFRIC preconiza para os pacientes do “388”. .

isto é. é posto em funcionamento para que o delírio seja remanejado. por exemplo.122 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao finalizar a nossa dissertação. prescindindo. o delírio se constituiria em uma tentativa de restauração de uma ordenação subjetiva. A proposta dele não tem como intuito localizar o delírio no lugar da fantasia – como ocorre na neurose. gostaríamos de lançar algumas questões. permitindo um novo posicionamento do sujeito ante o seu delírio. desmontado. Nesse sentido. Em nossa viagem ao Québec. permitindo com isso um (re)enlaçamento social. como de Lacan – a construção da “metáfora delirante”. que. no esquema R . a céu aberto. do saber total que o delírio desesperadamente almeja? Produzindo-se. a produção de sonhos pelo sujeito é fundamental. Um primeiro aspecto refere-se à posição de Apollon que sustenta que a atividade delirante estaria intimamente relacionada a uma “missão”. proporcionando alguma modalidade de laço social. O segundo aspecto diz respeito à delimitação do discurso delirante do psicótico – a partir dos próprios significantes produzidos pelo delírio do sujeito –. no sentido de produzir um saber para dar conta do real desencadeado pela foraclusão do Nome-do-Pai. O terceiro aspecto que gostaríamos de destacar refere-se à teorização de Apollon que pressupõe a produção de um fantasma na psicose em decorrência da desmontagem do delírio. ocupando a faixa da realidade. mesmo que mantenha o sujeito fora do laço social. o saber inconsciente até então disperso. poderíamos pensar que o fundamental da experiência do GIFRIC é a “instauração” do inconsciente na psicose? Por apostarem que a análise conduziria o psicótico em direção à falha no saber irredutível a toda estrutura de linguagem – S(A) –. Ou seja. o sujeito do desejo na psicose? Ainda gostaríamos de ressaltar três aspectos em relação à direção da cura na psicose. na medida em que a intervenção analítica propiciaria uma reordenação da economia de gozo do psicótico. fragmentado. então. ao longo da análise com o psicótico. ouvimos dos integrantes do GIFRIC. como podemos ler. Eles sustentam que o saber oriundo da “Outra cena” é sempre utilizado na cura do psicótico para se contrapor ao saber do delírio. Ou seja. Depreendemos da concepção de Apollon ressonâncias tanto das posições de Freud – o delírio como “tentativa de cura” –. assim. no sentido freudiano de “via régia ao inconsciente”.

não se estaria construindo um “fantasma” com o qual o sujeito lidaria com o real que o causa de uma outra maneira? Verificar-se-ia. ao sugerir que em todo delírio há uma fantasia que o sustenta. . mas não encerramos as questões. Esse aspecto da teorização de Apollon deixa várias questões em aberto porque a própria fundamentação apresentada por ele. mas o próprio ultrapassamento desse fantasma no desdobrar do percurso analítico do sujeito. A clínica psicanalítica da psicose. assim como Freud. a uma travessia do fantasma? Ao se enxugar a “floresta delirante”. perguntamos: o próprio remanejar do delírio ao longo da escuta analítica não corresponderia. ele não só preconiza uma construção fantasmática na psicose. não consegue dar conta desta hipótese. em linhas gerais. até o momento. assim como toda clínica. Entretanto. assim. Apollon não deixa de relacionar o delírio à fantasia. As indagações abordadas por nossa pesquisa exigir-nos-ão. algum tipo particular de mudança na posição subjetiva do psicótico? Nesse momento.123 de Lacan. não admite o fechamento das interrogações que fazem o próprio saber avançar. encerramos a nossa dissertação. A proposta de Apollon é mais ousada. em um futuro próximo. Então. como pudemos analisar no terceiro capítulo. maiores desdobramentos no âmbito da universidade.

1999. 4 . W.124 REFERÊNCIAS ALBERTI.. A.história e estrutura do saber psiquiátrico. Paris. BERCHERIE. BADIOU. 2. CABAS. Sônia Alberti). 1987. Rio de Janeiro. Navarin Editeur. Publication de l’Association Freudienne. Navarin Editeur. – De la Verrückheit à la Paranoïa in Le Trimestre Psychanalytique 4. São Paulo. Rio de Janeiro. – La forclusion. D. L. préhistoire d’un concept in Ornicar? Revue du Champ Freudien no 28. . Transferência. – Psychoses: l’offre de l’analyste. A. Direção da Cura. 1993. Fantasma.Les édifices du délire in Analytica 50. – Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. 1989. Paris.. Rios Ambiciosos. – Traiter la Psychose. 1991. P. – É preciso pensar o número in 1. _______________ – Présentation . J. BERGERON. S. – O surto esquizofrênico na adolescência in Autismo e Esquizofrenia na Clínica da Esquize (org. Revista Letra Freudiana n° 14. C. ______________ – Présentation . Paris. APOLLON. APOLLON. CACHO. GIFRIC. – Curso e Discurso da Obra de Jacques Lacan. Navarin Editeur. S. 3. 1987.Número. W. Editora Espaço e Tempo. 1990. 1982. Artes Médicas. Jorge Zahar Editor. Québec. APARICIO. 1989. Porto Alegre. 1984. 1999. CANTIN. – Os fundamentos da clínica .La psychose irréversible in Analytica 49. Paris. GIFRIC. Editora Moraes. Rio de Janeiro. Québec. G. CALIGARIS.

op. – El fantasma en analisis in Como se analysa hoy?. A. 2000. J. . – Correspondência Completa. – Modelos. FREUD. ______ – A ‘psicose lacaniana’: elementos fundamentais da abordagem lacaniana das psicoses in Sobre a psicose. G. 1975. ELIA. Buenos Aires. – Introdução à leitura de Lacan . Sônia Alberti e Luciano Elia). DOR. J. v. B. Revinter. S. – La dirección de la cura. Ediciones Manantial. III (1979). Paz e Terra. 1984. G.125 CARONE. FERNÁNDEZ. esquemas y grafos en la enseñanza de Lacan. Buenos Aires. II. J. 1999. Rio de Janeiro. e JUNG. – Da loucura de prestígio ao prestígio da loucura in Memórias de um doente dos nervos. R. Amorrortu Editores. G. C.1976. v. FREUD. – Psicanálise: clínica & pesquisa in Clínica e Pesquisa em Psicanálise (org. Rios Ambiciosos. CLÉRAMBAULT. – Prova de realidade e/ou rejeição: psicose e ciência in Sobre a Psicose (org. EIDELSZTEIN. Imago Editora. Contra Capa. Rio de janeiro. op. C. reflexiones sobre el fantasma in Como se analysa hoy?. Rio de janeiro.Estrutura do Sujeito. Joel Birman). – Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. cit. Editora Nova Fronteira. cit. – Ouevres Psychiatriques. A. Artes Médicas. FERREIRA. COSENTINO. Revista Letra Freudiana n° 21. A. M. 1995. B. H. FREIRE. Porto Alegre. L. FORBES. Ediciones Manantial. 1987. Paris. – Supereu: do imperativo do gozo à ética do desejo in Do Pai . São Paulo.O Limite em Psicanálise. – Las neuropsicosis de defensa [1894] in Obras Completas. Rio de Janeiro. S. Buenos Aires. F. Édition Frénési. M. 1992. 1995. 1997.

v.126 __________ – Nuevas observaciones sobre las neuropsicosis de defensa [1896] in Obras Completas.. Rio de Janeiro. cit. Jorge Zahar Editor. 1993. v. _________ – O Seminário. __________ – Lo inconciente [1915] in Obras Completas. LACAN. XIV. – Gaëtan Gatian de Clérambault: morceaux choisis pour un parcours historique in Clérambault . inédito. Jensen [1907] in Obras Completas. Jorge Zahar Editor. op.. v.. cit. cit. 1999. GIRARD. Livro III: As Psicoses [1955-56].... __________ – Neurosis y Psicosis [1924] in Obras Completas. – O Seminário. Jorge Zahar Editor. LACAN. __________ – La pérdida de realidad en la neurosis y la psicosis [1924] in Obras Completas. IX. Livro I: Os escritos técnicos de Freud [1953-54].. cit. op. Livro XVII: O aveso da psicanálise [1969-70]. J. Rio de Janeiro. __________ – Complemento metapsicológico a la doctrina de los sueños [1917] in Obras Completas. v. __________ – El delirio y los sueños en la “Gradiva”de W. v. Rio de Janeiro. Delagrange. J. _________ – O Seminário. – O Seminário. M. Paris. op. _________ – O Seminário. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. cit. XIV. v. Livro V: As formações do Inconsciente [1957-58]. op. Livro XVI: D’un Autre à l’autre [1968 –69]. 1988. op. op. v. XII. cit. III.maître de Lacan. XIX. . cit. XIX. 1992. op. __________ – Puntualizaciones psicoanalíticas sobre un caso de paranoia (Dementia paranoides) descrito autobiograficamente [1911] in Obras Completas. 1979.

MELMAN. 1982. G. J. J. Buenos Aires. Livro XX: Mais. op. 1982.. a ciência. J. Rio de Janeiro. Ediciones Manantial. 1997. cit. D. Jorge Zahar Editor. praticável e metáfora delirante in Sobre a psicose. – Estabilizaciones en las psicosis.Tratamento. 1989. J. Martins Fontes. – Delírio . _________ – Televisão. E. MILLER. J. Paidos. ainda [1972-73]. Buenos Aires. _________ – Formulações sobre a causalidade psíquica [1946] in Escritos. 1996. Jorge Zahar Editor. cit. C. Rio de Janeiro. São Paulo. _________ – De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose [1958] in Escritos. LEME LOPES. PONTALIS. Jorge Zahar Editor. B. op. 1993. – Equilíbrio psicótico. a filosofia. J. LAURENT. A. MALEVAL. Jorge Zahar Editor. LAPLANCHE.127 _________ – O Seminário. J. Rio de Janeiro. 1991. 1998.Perspectivas . – Esquizofrenia y Paranoia in Psicosis y Psicanalisis. 1991. MICHAUD. MILNER. Atheneu. – Locuras histericas y psicosis disociativas. NASIO. Rio de Janeiro. Ediciones Manantial. _________ – A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud [1957] in Escritos. Buenos Aires. Jorge Zahar Editor. 1996. cit. – A Alucinação e outros estudos lacanianos. Porto Alegre. op. C. Artes Médicas. Rio de Janeiro. – A Obra Clara – Lacan. . – Estrutura lacaniana das psicoses. C. – Vocabulário da Psicanálise. 1985. Rio de Janeiro.

– A Psicose . SOUZA. – Estudios sobre las psicosis. Memórias de um doente dos nervos. SCHREBER. 1996. Buenos Aires... op. cit. – Remarques sur la conception lacanienne de la structure psychotique in L’Abord des psychoses après Lacan. F. Rio de janeiro. Point Hors Ligne. 1994. B. – Sobre o fantasma in Direção da Cura. . D. – O fenômeno elementar na psicose ou Lacan com Clérambault in Clínica e Pesquisa em psicanálise. SOLER. Revista Letra Freudiana. 1999. VIDAL. 1994. – Teoria e clínica da psicose. série HanS. Editora 34.um estudo lacaniano. São Paulo. n° 1. 1988. G. Rio de Janeiro.Coletânea. Rio de Janeiro. Paz e Terra. SAUVAGNAT. 1991. Rio de Janeiro. C.128 POMMIER. – Histoire des phénomènes élémentaires . FREIRE. S. 1997. SCHAUSTZ. F. Contra Capa. A. – La forclusion . Editora Forense Universitária. S. Paris. N. SOUZA. 1995. N. FERNANDES. SIMANKE. 1998. – A formação da teoria freudiana das psicoses.Um Comentário.enfermés dehors. P. – A Ciência e a Verdade . Revinter Editora. RABINOVITCH. QUINET. R. T. Edições Pirata. Paris. Rio de Janeiro. _________ – Corpo e psicose in O Corpo da Psicanálise. L. Rio de Janeiro. _________ – Textos Psicanalíticos . 1998. 2000. F. A. A. Revista Letra Freudiana n° 27. 1991. Revinter. E. S. Revue du Champ freudien. Paris. Érès. A. Ediciones Manantial.A propos de la “signification personnelle” in Ornicar?.

129 _________ – A cifra e o nó in 1. . 2. cit. Direção da Cura. op. Revista Letra Freudiana n° 14.Número. Transferência. 4 . 3. Fantasma.