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Aula prática 3 de Direito Administrativo.

07/10/2013

A Evolução dos sistemas administrativos O confronto estabelecido na aula passada baseou-se na ‘’pureza teórica original’’ de cada um dos modelos a comparar, no momento histórico em Hauriou e Dickey os fotografaram e descreveram. A evolução dos tempos e o intenso contacto entre os dois Estados ditou uma evolução recíproca entre os dois sistemas: o sistema francês deixou-se influenciar pela a) descentralização e pela b) melhor defesa dos direitos humanos. A nossa cultura (de tipo francês) não nos permite ter um sistema como o do Reino Unido (grande grau de civismo pela lei e pelos direitos fundamentais); e o contrário também é verdadeiro, isto porque não há no Reino Unido verdadeiro sistema administrativo (Common Law). Mais tais sistemas não pararam no tempo e a evolução ocorrida no século XX veio a determinar uma aproximação relativa dos dois sistemas em alguns aspectos. É de notar que é uma aproximação e não é uma fusão entre os dois sistemas. A. Em termos de ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA: 1. A administração britânica tornou-se algo mais descentralizada, dado o grande crescimento da burocracia central, a criação de vários serviços locais do Estado, e a transferência de tarefas e serviços antes executados a nível municipal para órgãos a nível regional, estes mais sujeitos do que aqueles em Inglaterra à tutela e à superintendência do Governo. 2. A administração francesa foi gradualmente perdendo o carácter de total centralização que atingiu no império Napoleónico, aceitando a autonomia dos corpos intermédios, a eleição livre dos órgãos autárquicos, uma certa diminuição dos poderes dos prefeitos e, bem recentemente, uma vasta reforma descentralizadora que transferiu numerosas e importantes funções do Estado para as regiões.

B. Quanto ao CONTROLO JURISDICIONAL DA ADMINISTRAÇÃO: mantém-se no essencial as diferenças de sistema analisados na aula anterior. 1. Na Inglaterra, é certo que surgiram, às centenas, os chamados administrative tribunals; 2. Na França aumentaram significativamente as relações entre os particulares e o Estado submetidas à fiscalização dos tribunais judiciais.

Só na aparência é que este duplo movimento constitui aproximação dos dois sistemas entre si porque:

concede aos particulares a possibilidade de obter dos tribunais administrativos a suspensão da eficácia das decisões unilaterais da APública: o que afinal de contas significa que no direito rances muitas das decisões da administração só vêm a ser executadas se um tribunal administrativo. e não há luz do direito público. as suas decisões são imediatamente obrigatórias para os particulares e não carecem de confirmação ou homologação judicial prévia para poderem ser impostas coactivamente. assim. nalguns períodos pontuada por experiências claramente socializantes. Na Inglaterra. Então como justificar? Cresceu o número de casos em que a Administração actua hoje em dia sob a égide do direito privado. Os ditos administrative tribunals não são. a funcionar nos moldes do direito comercial e com os serviços públicos de carácter social e cultural. mas órgãos administrativos independentes. os administrative tribunals não são semelhantes em nada com os tribunais administrativos da França e a administração inglesa continua submetida/sujeita ao controlo dos tribunais comuns. C. Quanto à EXECUÇÃO DAS DECISÕES ADMINISTRATIVAS. mas medida em que a transição do Estado liberal para o Estado Social de Direito. o intervencionismo económico. embora não todos. obrigadas pela natureza da sua actividade económica. aumentou consideravelmente: 1. a actuar sobre a égide do direito privado: foi o que aconteceu com as empresas públicas.1. mas também se verifica. em diversos domínios. pois. criados junto da Administração central. tribunais administrativos no sentido que esta expressão comporta nos sistemas de tipo francês. 2. dando lugar ao aparecimento de milhares de leis administrativas (daí o numeroso número de manuais e tratados de direito administrativo). Quanto ao DIREITO REGULADOR DA ADMINISTRAÇÃO . D. a pedido do particular interessado. muitos órgãos da Administração britânica. Na Inglaterra. Na Inglaterra.deu-se efectivamente uma aproximação entre os dois sistemas. 2. o DA Francês. o aumento da intervenção dos tribunais judiciais nas relações entre a Administração e os particulares não significa que o controlo da aplicação do Direito Administrativo tenha deixado de pertencer aí aos tribunais administrativos. dispõe de poderes análogos aos que em França são típicos do poder executivo (privilégio de execução prévia) 2. para decidir questões de Direito Administrativo que a lei anda resolver por critérios de legalidade escrita. 1. a tal não se opuser . no século XX surge uma nova entidade denominada administrative tribunals. De seu lado. em muitos casos estatutariamente vinculados a agir nos termos do direito civil. se necessário. Na França. A Administração Francesa teve de passar. Todavia. que não são autênticos tribunais.aproximação entre os dois sistemas é pouco aproximada.

Neste ponto tinha razão Hauriou: os dois sistemas são distintos. no exercício dos quais. uma significativa aproximação entre os dois sistemas. Direito regulador da administração. Regime da execução das decisões administrativas. as diferenças se mantem mais nítidas e contrastantes é nos tribunais a cuja fiscalização é submetida à Administração Públia – na Inglaterra os tribunais comuns. As diferenças que separam os dois sistemas não podem significar. Ou não fossem a Grã-Bretanha e a França duas democracias pluralistas de tipo ocidental. A grande diferença entre o sistema britânico e o sistema francês reside. sendo lhes consentido. que em Inglaterra haja Estado de Direito e em França não. dualidade de jurisdições. . No que diz respeito às GARANTIAS JURÍDICAS DOS PARTICULARES: 1. não podem os tribunais em Inglaterra substituir-se. em casos variados. que declarem o comportamento devido pela Administração sob pena de ilicitude.  Que conclusões podemos tirar desta evolução? Houve. O espaço jurídico europeu já dá os seus primeiros passos. de facto. por via de regra. em França. No sistema francês. Aliás. como queria Dicey.e terá inúmeros reflexos no Direito Administrativo dos países membros. se não podem condenar as autoridades administrativas a fazer ou não fazer alguma coisa. Ali. já podem ir mais longe do que a mera anulação de actos ilegais. de facto. pois. 2. a médio e longo prazo. mas são apenas duas espécies do mesmo género. na França os tribunais administrativos. todavia.E. substituirse à Administração no exercício dos poderes discricionários que a lei lhe atribui. No sistema britânico. unidade de jurisdição. no tipo de controlo jurisdicional da Administração. Elenco de garantis jurídicas dos particulares. Um «direito comum europeu» começa a nascer. os tribunais administrativos ganham cada vez mais poderes declarativos face à Administração. o facto de ambos os países pertencerem hoje à EU não deixará de contribuir. nomeadamente: a) b) c) d) Organização administrativa. Onde. para reforçar ainda mais a linha de aproximação que vem sendo seguida por ambos. garantias jurídicas globalmente superiores às do sistema francês.

temos um sistema europeizado em harmonização com os 28. Sujeição da Administração à lei e aos tribunais administrativos. Dr. e é utilizado um único e harmonizado documento que. até porque hoje temos que esgotar as possibilidades. Os Direitos do Homem. capitais e pagamentos. Dr. mas foi retirado o controlo cerrado (todavia. e ainda mesmo a moeda única permite trocas comuns. Garantias para os particulares. como é o caso dos contratos públicos. a circulação de pessoas e os direitos fundamentais acabaram por consequenciar alguns esbatimentos entre os sistemas pela necessidade de criação e consolidação da União Europeia. onde há apenas a necessidade de se fazer uma prova. Foram equiparados os graus académicos. Primado do Estado de Direito. Sistema Administrativo Europeu: a) b) c) d) e) f) g) Separação de poderes. Na União Europeia foi permitida a livre criação de pessoas.SISTEMA ADMINISTRATIVO EUROPEU Outro movimento traz mais aproximações. cujas matérias estão disciplinadas comummente. Descentralização (maior na Alemanha). tal como outras matérias. acabando por aproximar os Estados. é de notar). evitando inconvenientes: é de notar que continuam a existir fronteiras. o que dura à volta de 15 anos. cota: C04-767 h) . permite vantagens ao comércio e facilita a circulação.A este propósito o Prof. Prof. Direitos fundamentais. de serviços. se não os 40. Fausto Quadros.procura atingir os níveis de protecção do sistema francês) . a liberdade de circulação tem limites. até é de notar que os Códigos de Sociedades são semelhantes. Fausto Quadros alerta para o facto de Portugal não ter recurso de amparo. Em matéria de sistema administrativo. padronizado. Daí que se fale em Sistema Administrativo Europeu (continuam a existir especificidades) e nós (Portugal) continuamos a ser mais próximos do sistema francês. estados membros. Não há normas de Direito Administrativo (ver Nova Dimensão do Direito Administrativo. Exercício da função administrativa através da delegação de funções a entidades privadas.