POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (do pensamento único à consciência uni e!

sa"# Mi"ton $antos

Neste livro, Milton Santos propõe uma interpretação multidisciplinar do mundo contemporâneo, em que realça o papel atual da ideologia na produção da história e mostra os limites do seu discurso frente à realidade vivida pela maioria das nações. tirania da informação e a do dinheiro são apresentadas como os pilares de uma situação em que o progresso t!cnico ! aproveitado por um pequeno n"mero de atores glo#ais em seu #enef$cio e%clusivo. & resultado ! o aprofundamento da competitividade, a produção de novos totalitarismos, a confusão dos esp$ritos e o empo#recimento crescente das massas, enquanto os 'stados se tornam incapa(es de regular a vida coletiva. ) uma situação insustent*vel. & autor en%erga nas reações agora percept$veis na +sia, mas tam#!m na +frica e na m!rica ,atina e nos movimentos populares protagoni(ados pelas t-nica desta hora camadas mais po#res da população, a semente de uma evolução positiva, que dever* condu(ir ao esta#elecimento de uma outra glo#ali(ação. todos os povos e pessoas. 'ste novo livro de Milton Santos trata da glo#ali(ação como f*#ula, como perversidade e como possi#ilidade a#erta ao futuro de uma nova civili(ação planet*ria. &s atores mais poderosos desta nova etapa da glo#ali(ação reservam.se os melhores pedaços do /erritório 0lo#al e dei%am restos para os outros. Mas a grande perversidade na produção da glo#ali(ação atual não reside apenas na polari(ação da rique(a e da po#re(a, na segmentação dos mercados e das populações su#metidas, nem mesmo na destruição da Nature(a. espaço unipolar de dominação. novidade aterradora reside na tentativa emp$rica e sim#ólica de construção de um "nico tirania do 1inheiro e da 2nformação, produ(ida pela concentração do capital e do poder, tem ho3e uma unidade t!cnica e uma converg4ncia de normas sem precedentes na história do capitalismo. ! a mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, #om para

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& seu car*ter glo#almente destrutivo aca#a por!m sendo contraditório, levando à resist4ncia parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos 5lugares6. & velho otimismo do grande geógrafo #rasileiro reaparece em relação às cidades, como espaço de li#erdade para a cultura popular em oposição à cultura midi*tica de massas, como espaço de solidariedade na luta dos 5de #ai%o6 contra a escasse( produ(ida pelos 5de cima6. que condu( a uma nova utopia. 7rodu(.se assim, di( ele, uma nova centralidade do social que constitui a #ase para uma nova pol$tica. Não podendo a esmagadora maioria 5consumir o &cidente glo#ali(ado6 em suas formas puras 8financeira, econ-mica e cultural9, aumentar* a resist4ncia à dominação ultrali#eral e consumista propagandeada pelas grandes organi(ações dos meios de comunicação de massas. dos valores mercantis mas sim a da solidariedade e da cidadania. unificação da t!cnica e das normas instrumentais poder* servir então, dialeticamente, de trampolim para uma nova humanidade, para novos valores sim#ólicos que em sua interfecundação e espalhamento a#ra caminhos a uma nova civili(ação planet*ria. :istória ;niversal seria então a da nossa humanidade comum e não mais a dos dominadores. Ma!ia da %oncei&'o Ta a!es <<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< Milton Santos ! geógrafo, professor em!rito da ;niversidade de São 7aulo, ganhador do 7r4mio 2nternacional de 0eografia =autrin ,ud em >??@ e autor de mais de AB livros e @BB artigos cient$ficos, pu#licados em diversos idiomas. alienação tende a ser su#stitu$da por uma nova consci4ncia, uma nova filosofia moral, que não ser* a visão de uma nova hori(ontalidade na luta dos oprimidos contra a verticalidade dos opressores ! comovedora e estimulante, 3*

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Sum*rio
Prefácio 06

I( Int!odu&'o Ge!a" )*
>. & mundo como f*#ula, como perversidade e como possi#ilidade BC & mundo tal como nos fa(em crerD a glo#ali(ação como f*#ula & mundo como !D a glo#ali(ação como perversidade & mundo como pode serD uma outra glo#ali(ação BC B? B?

II( A P!odu&'o da G"o+a"i,a&'o -Introdução 11 E. A. F. unidade t!cnica converg4ncia dos momentos cognosci#ilidade do planeta >> >A >A >F >F

@. & motor "nico G. ;m per$odo que e uma crise

III( Uma G"o+a"i,a&'o Pe! e!sa -*
Introdução 18 H. tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico >C viol4ncia da informação I*#ulas viol4ncia do dinheiro s percepções fragmentadas e o discurso "nico do 5mundo6 >C >? E> E> EE EA E@ E@ EF EH EH EH EC E? AB A> AE AA AA A@ A@ AF

C. Jompetitividade, consumo, confusão dos esp$ritos, glo#alitarismo EE competitividade, a aus4ncia de compai%ão & consumo e o seu despotismo informação totalit*ria e a confusão dos esp$ritos 1o imperialismo ao mundo de ho3e 0lo#alitarismo e totalitarismos ?. viol4ncia estrutural e a perversidade sist4mica & dinheiro em estado puro competitividade em estado puro pot4ncia em estado puro perversidade sist4mica EG

>B. 1a pol$tica dos 'stados à pol$tica das empresas Sistemas t!cnicos, sistemas filosóficos /ecnoci4ncia, glo#ali(ação e história sem sentido s empresas glo#ais e a morte da pol$tica >>. 'm meio s!culo, tr4s definições da po#re(a po#re(a 5inclu$da6 marginalidade po#re(a estrutural glo#ali(ada & papel dos intelectuais

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>E. & que fa(er com a so#erania

AG

I.( O Te!!it/!io do 0in1ei!o e da 2!a3menta&'o 4*
Introdução 38 >A. & espaço geogr*ficoD compartimento e fragmentação compartimentaçãoD passado e presente Kapide(, fluide(, fragmentação Jompetitividade versus solidariedade >@. agricultura cient$fica glo#ali(ada e a alienação do território demanda e%terna de racionalidade cidade do campo AC A? @B @> @E @E @A @@ @@ @F @G @G @H @H @C @? FB FB FE FA F@ F@ F@ FF

>F. Jompartimentação e fragmentação do espaçoD o caso do Lrasil & papel das lógicas e%ógenas s dial!ticas endógenas

>G. & território do dinheiro @G 1efinições & dinheiro e o territórioD situações históricas Metamorfoses das duas categorias ao longo do tempo & dinheiro da glo#ali(ação Situações regionais 'feitos do dinheiro glo#al 'p$logo >H. =erticalidades e hori(ontalidades s verticalidades s hori(ontalidades #usca de um sentido >C. esqui(ofrenia do espaço Ser cidadão num lugar & cotidiano e o território ;ma pedagogia da e%ist4ncia FB

.( Limites à G"o+a"i,a&'o Pe! e!sa
Introdução >?. 57

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vari*vel ascendente

FH FC F? F? GB G> G> GE GA GA GF GF GG GH

EB. &s limites da racionalidade dominante E>. & imagin*rio da velocidade =elocidadeD t!cnica e poder 1o relógio despótico às temporalidades divergentes EE. Must.in.time versus o cotidiano EA. ;m emaranhado de t!cnicasD o reino do artif$cio e da escasse( 1o artif$cio à escasse( 1a escasse( ao entendimento E@. 7apel dos po#res na produção do presente e do futuro EF. metamorfose das classes m!dias idade de ouro escasse( chega às classes m!dias ;m dado novo na pol$tica

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.I( A T!ansi&'o em Ma!c1a
Introdução 68

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EG. Jultura popular, per$odo popular Jultura de massas, cultura popular s condições emp$ricas da mutação preced4ncia do homem e o per$odo popular EH. centralidade da periferia ,imites à cooperação & desafio ao Sul nação ativa, a nação passiva &caso do pro3eto nacionalN lienação da nação ativa Jonscienti(ação e rique(a da nação passiva glo#ali(ação atual não ! irrevers$vel dissolução das ideologias pertin4ncia da utopia &utros usos poss$veis para as t!cnicas atuais 0eografia e aceleração da história ;m novo mundo poss$vel história apenas começa humanidade como um #loco revolucion*rio nova consci4ncia de ser mundo grande mutação contemporânea

GC G? HB HB H> HE HE H@ H@ H@ HF HG HG HH H? H? CB CE CE CA CA

EC.

E?.

AB.

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7ref*cio
'ste livro quer ser uma refle%ão independente so#re o nosso tempo, um pensamento so#re os seus fundamentos materiais e pol$ticos, uma vontade de e%plicar os pro#lemas e dores do mundo atual. Mas, apesar das dificuldades da era presente, quer tam#!m ser uma mensagem portadora de ra(ões o#3etivas para prosseguir vivendo e lutando. & tra#alho intelectual no qual ele assenta ! fruto de nossa dedicação ao entendimento do que ho3e ! o espaço geogr*fico, mas ! tam#!m tri#ut*rio de outras realidades e disciplinas acad4micas. 1iferentemente de outros livros nossos, o leitor não encontrar* aqui listagens copiosas de citações. /ais livros enfocavam questões da sociedade, verdadeiras teses, isto !, demonstrações sustentadas e am#iciosas, dirigidas so#retudo à seara acad4mica, levando, por isso, o autor a fa(er, ao pequeno mundo dos colegas, a concessão das #i#liografias copiosas. /odo mundo sa#e que esta se tornou quase uma o#rigação de scholarship, 3* que a academia gosta muito de citações, quantas ve(es ociosas e at! mesmo rid$culas. Sem d"vida, este livro tam#!m se dirige a estudiosos, mas so#retudo dese3a alcançar o vasto mundo, o que dispensa a o#rigação cerimonial das refer4ncias. Não quer isso di(er que o autor imagine haver so(inho redesco#erto a rodaO sua e%peri4ncia em diferentes momentos do s!culo e em diversos pa$ses e continentes ! tam#!m a e%peri4ncia dos outros a quem leu ou escutou. Mas a originalidade ! a interpretação ou a 4nfase própria, a forma individual de com#inar o que e%iste e o que ! vislum#radoD a própria definição do que constitui uma id!ia. 'ste livro resulta de um longo tra#alho, *rduo e agrad*vel. maioria grande dos seus cap$tulos ! in!dita em sua forma atual. ' ! tam#!m, de algum modo, uma reescritura de aulas, confer4ncias, artigos de 3ornais e revistas, entrevistas à m$dia, cada qual oferecendo um n$vel de discurso e a respectiva dificuldade. Somos muit$ssimo gratos a todos os que cola#oraram para esse di*logo e at! mesmo àqueles que desconheciam estar participando de uma troca. 1entre os primeiros, quero destacar os atuais companheiros do pro3eto acad4mico am#icioso que, desde >?CA, venho condu(indo no 1epartamento de 0eografia da ;niversidade de São 7auloD minha incans*vel cola#oradora, doutora Mar$a ,aura Silveira, que leu o con3unto do manuscrito, e a professora doutora Maria Pngela Iaggin 7ereira ,eite, assim como as doutorandas driana Lernardes, Jilene 0omes e M-nica rroQo e os mestrandos 'li(a lmeida, I*#io Jontel, Il*via 0rimm, ,$dia ntongiovanni, Marcos Ravier, 7aula Lorin e Soraia Kamos. o 1epartamento de 0eografia da Iaculdade de Iilosofia, ,etras e Ji4ncias :umanas que me acolhe e estimula e particularmente ao ,a#oratório de 0eografia 7ol$tica e 7lane3amento /erritorial e m#iental 8,apo#an9, coordenado por meu velho amigo rmen Mamigonian, vão, tam#!m, meus agradecimentos. 'stes tam#!m incluem os colegas Maria d!lia . de Sou(a, Kosa 'ster Kossini e na Jlara /orres Ki#eiro, com quem cola#oro h* cerca de EB anos. os cola#oradores gratuitos, encontrados em in"meras viagens pelo pa$s ou participantes de confer4ncias, de#ates e congressos, sou tam#!m devedor pelas suas intervenções e sugestões. Sou grato à Folha de S Paulo e ao !orreio "ra#iliense pela autori(ação para repu#licação de artigos meus na sua forma original ou modificada. inda no cap$tulo dos agradecimentos, uma palavra especial vai à geógrafa Il*via 0rimm, que teve a paci4ncia de acolher os cansativos ditados de manuscrito de que resulta este livro. assist4ncia da geógrafa 7aula Lorin outra ve( mostrou.se valiosa. Sou, tam#!m, muito sens$vel ao apoio rece#ido do Jonselho Nacional de 1esenvolvimento Jient$fico e /ecnológico 8JN7q9, da Iundação de mparo à 7esquisa do 'stado de São 7aulo 8I 7'S79. 'ssas ag4ncias não contri#u$ram diretamente para este tra#alho, mas a produção intelectual ! sempre unit*ria, uma o#a ou pesquisa sendo sempre um su#produto das demais. /am#!m, como sempre, o est$mulo rece#ido de minha mulher, Marie :!lSne, foi muito precioso. o contr*rio de um autor franc4s MoTl de KosnaQ, que, no pref*cio ao seu livro ,e Macroscope, sugeriu aos seus leitores começar a leitura por onde quiserem, devo fa(er uma outra advert4ncia. Se algu!m ler inicialmente ou separadamente os primeiros cap$tulos, pode considerar o autor pessimistaO e quem preferir os "ltimos, poder* imagin*.lo um otimista. Na realidade, o que #uscamos foi, de um lado, tratar da realidade tal como ela !, ainda que se mostre pungenteO e, de outro lado, sugerir a realidade tal como ela pode vir a ser, ainda que para os c!ticos nosso vatic$nio atual apareça risonho. 4nfase central do livro vem da convicção do papel da ideologia na produção, disseminação, reprodução e manutenção da glo#ali(ação atual. 'sse papel ! tam#!m, uma novidade do nosso tempo. 1a$ a necessidade de analisar seus princ$pios fundamentais, apontando suas linhas 6

de fraque(a e de força. Nossa insist4ncia so#re o papel da ideologia deriva da nossa convicção de que, diante dos mesmos materiais atualmente e%istentes, tanto ! poss$vel continuar a fa(er do planeta um inferno, conforme no Lrasil estamos assistindo, como tam#!m ! vi*vel reali(ar o seu contr*rio. 1a$ a relevância da pol$tica, isto !, da arte de pensar mudanças e de criar as condições para torn*.las efetivas. li*s, as transformações que a história ultimamente vem mostrando permitem entrever a emerg4ncia de situações mais promissoras. 7odem o#3etar.nos que a nossa crença na mudança do homem ! in3ustificada. ' se o que estiver mudando for o mundoN 'stamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provir* de um movimento de #ai%o para cima, tendo como atores principais os pa$ses su#desenvolvidos e não os pa$ses ricosO os deserdados e os po#res e não os opulentos e outras classes o#esasO o indiv$duo li#erado participe das novas massas e não o homem acorrentadoO o pensamento livre e não o discurso "nico. Jomo acreditamos na força das id!ias U para o #em e para o mal U nesta fase da história, em filigrana aparecer* como constante o papel intelectual no mundo de ho3e, isto !, o papel do pensamento livre. 7or isso, nos primeiros pro3etos de redação havia o intuito de dedicar um cap$tulo e%clusivo à atividade intelectual genu$na. /odavia achei melhor discutir esse papel em diferentes momentos da redação, sempre que a ocasião se levantava. & livro ! formado de seis partes, das quais a primeira ! a introdução. segunda inclui cinco cap$tulos e #usca mostrar como se deu o processo de produção da glo#ali(ação. 'ste tema 3* havia sido tratado de alguma forma em outras pu#licações e livros meus. terceira parte, formada por seis cap$tulos, #usca e%plicar por que a glo#ali(ação atual ! perversa, fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos esp$ritos e na viol4ncia estrutural, acarretando o desfalecimento da pol$tica feita pelo 'stado e a imposição de uma pol$tica comandada pelas empresas. quarta parte mostra as relações mantidas entre a economia contemporânea, so#retudo as finanças, e o território. 'sta parte ! constitu$da de seis cap$tulos, dos quais o "ltimo poderia tam#!m se incluir na parte seguinte, pois, por meio da noção de esqui(ofrenia do território, mostramos como o espaço geogr*fico constitui um dos limites a essa glo#ali(ação perversa. ) essa id!ia de limite à história atual que se impõe na quinta parte, em que são mostrados ao mesmo tempo os descaminhos da racionalidade dominante, a emerg4ncia de novas vari*veis centrais e o papel dos po#res na produção do presente e do futuro. se%ta parte, uma esp!cie de conclusão, ! dedicada ao que imaginamos ser, nesta passagem de s!culo, a transição em marcha. qui, os temas versados realçam as manifestações pouco estudadas do pa$s de #ai%o, desde a cultura at! a pol$tica, racioc$nio que se aplica tam#!m à própria periferia do sistema capitalista mundial, cu3a centralidade apresentamos como um novo fator dinâmico da história. ), e%atamente, porque esses atores, efica(es mas ainda pouco estudados, são largamente presentes, que acreditamos não ser a glo#ali(ação atual irrevers$vel e estamos convencidos de que a história universal apenas começa.

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I 8 I9TRO0UÇÃO G:RAL

-( O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade
=ivemos num mundo confuso e confusamente perce#ido. :averia nisto um parado%o pedindo uma e%plicaçãoN 1e um lado, ! a#usivamente mencionado o e%traordin*rio progresso das ci4ncias e das t!cnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais que autori(am a precisão e a intencionalidade. 1e outro lado, h*, tam#!m, refer4ncia o#rigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. /odos esses, por!m, são dados de um mundo f$sico fa#ricado pelo homem, cu3a utili(ação, ali*s, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente perce#ido. '%plicações mecanicistas são, todavia, insuficientes. ) a maneira como, so#re essa #ase material, se produ( a história humana que ! a verdadeira respons*vel pela criação da torre de #a#el em que vive a nossa era glo#ali(ada. Vuando tudo permite imaginar que se tornou poss$vel a criação de um mundo vera(, o que ! imposto aos esp$ritos ! um mundo de fa#ulações, que se aproveita do alargamento de todos os conte%tos 8M. Santos, $ nature#a do espaço, >??G9 para consagrar um discurso "nico. Seus fundamentos são a informação e o seu imp!rio, que encontram alicerce na produção de imagens e do imagin*rio, e se põem ao serviço do imp!rio do dinheiro, fundado este na economi(ação e na monetari(ação da vida social e da vida pessoal. 1e fato, se dese3amos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado ! verdadeiro, e não queremos admitir a perman4ncia de sua percepção enganosa, devemos considerar a e%ist4ncia de pelo menos tr4s mundos num só. & primeiro seria o mundo tal como nos fa(em v4.loD a glo#ali(ação como f*#ulaO o segundo seria o mundo tal como ele !D a glo#ali(ação como perversidadeO e o terceiro o mundo como ele pode serD uma outra glo#ali(ação.

O mundo ta" como nos ;a,em c!e!< a 3"o+a"i,a&'o como ;=+u"a
'ste mundo glo#ali(ado, visto como f*#ula, erige como verdade um certo n"mero de fantasias, cu3a repetição, entretanto, aca#a por se tornar uma #ase aparentemente sólida de sua interpretação 8Maria da Jonceição /avares, %estruição não criadora, >???9. m*quina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade ! feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema. 1amos aqui alguns e%emplos. Iala.se, por e%emplo, em aldeia glo#al para fa(er crer que a difusão instantânea de not$cias realmente informa as pessoas. partir desse mito e do encurtamento das distâncias U para aqueles que realmente podem via3ar U tam#!m se difunde a noção de tempo e espaço contra$dos. ) como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. ;m mercado avassalador dito glo#al ! apresentado como capa( de homogenei(ar o

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planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. :* uma #usca de uniformidade, ao serviço dos atores hegem-nicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. 'nquanto isso, o culto ao consumo ! estimulado. Iala.se, igualmente, com insist4ncia, na morte do 'stado, mas o que estamos vendo ! seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cu3a vida se torna mais dif$cil. 'sses poucos e%emplos, recolhidos numa lista intermin*vel, permitem indagar.se, no lugar do fima da ideologia proclamado pelos que sustentam a #ondade dos presentes processos de glo#ali(ação, não estar$amos, de fato, diante da presença de uma ideologi(ação maciça, segundo a qual a reali(ação do mundo atual e%ige como condição essencial o e%erc$cio de fa#ulações.

O mundo como >< a 3"o+a"i,a&'o como pe! e!sidade
1e fato, para a grande maior parte da humanidade a glo#ali(ação est* se impondo como uma f*#rica de perversidades. & desemprego crescente torna.se cr-nico. se generali(am em todos os continentes. Novas enfermidades como a S21 doenças, supostamente e%tirpadas, fa(em seu retorno triunfal. despeito dos progressos m!dicos e da informação. inacess$vel. cinismos, a corrupção. perversidade sist4mica que est* na rai( dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracteri(am as ações hegem-nicas. /odas essas ma(elas são direta ou indiretamente imput*veis ao presente processo de glo#ali(ação. po#re(a aumenta e as fome e o desa#rigo se instalam e velhas classes m!dias perdem em qualidade de vida. & sal*rio m!dio tende a #ai%ar.

mortalidade infantil permanece, a

educação de qualidade ! cada ve( mais

lastram.se e aprofundam.se males espirituais e morais, como os ego$smos, os

O mundo como pode se!< uma out!a 3"o+a"i,a&'o
/odavia, podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante uma glo#ali(ação mais humana. s #ases materiais do per$odo atual são, entre outras, a unicidade da t!cnica, a converg4ncia dos momentos e o conhecimento do planeta. ) nessas #ases t!cnicas que o grande capital se apóia para construir a glo#ali(ação perversa de que falamos acima. Mas, essas mesmas #ases t!cnicas poderão servir a outros o#3etivos, se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e pol$ticos. 7arece que as condições históricas do fim do s!culo RR apontavam para esta "ltima possi#ilidade. /ais novas condições tanto se dão no plano emp$rico quanto no plano teórico. Jonsiderando o que atualmente se verifica no plano emp$rico, podemos, em primeiro lugar, reconhecer um certo n"mero de fatos novos indicativos da emerg4ncia de uma nova história. & primeiro desses fen-menos ! a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes. isso se acrescente, graças aos progressos da informação, a 5mistura6 de filosofias, em detrimento do racionalismo europeu. ;m outro dado de nossa era, indicativo da possi#ilidade de mudanças, ! a produção de uma população aglomerada em *reas cada ve( menores, o que permite ainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias. s massas de que falava &rtega Q 9

0asset na primeira metade do s!culo 8&a re'eli(n de las )asas, >?AH9, ganham uma nova qualidade em virtude da sua aglomeração e%ponencial e de sua diversificação. /rata.se da e%ist4ncia de uma verdadeira sociodiversidade, historicamente muito mais significativa que a própria #iodiversidade. Munte.se a esses fatos a emerg4ncia de uma cultura popular que se serve dos meios t!cnicos antes e%clusivos da cultura de massas, permitindo.lhe e%ercer so#re esta "ltima uma verdadeira revanche ou vingança. ) so#re tais alicerces que se edifica o discurso da escasse(, afinal desco#erta pelas massas. população aglomerada em poucos pontos da superf$cie da /erra constitui uma das #ases de reconstrução e de so#reviv4ncia das relações locais, a#rindo a possi#ilidade de utili(ação, ao serviço dos homens, do sistema t!cnico atual. No plano teórico, o que verificamos ! a possi#ilidade de produção de um novo discurso, de uma nova metanarrativa, um novo grande relato. 'sse novo discurso ganha relevância pelo fato de que, pela primeira ve( na história do homem, se pode constatar a e%ist4ncia de uma universalidade emp$rica. universalidade dei%a de ser apenas uma ela#oração a#strata na mente dos filósofos para resultar da e%peri4ncia ordin*ria de cada homem. 1e tal modo, em um mundo datado como o nosso, a e%plicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de uma história concreta. ) isso, tam#!m, que permite conhecer as possi#ilidades e%istentes e escrever uma nova história.

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II 8 A PRO0UÇÃO 0A GLOBALIZAÇÃO

Int!odu&'o
glo#ali(ação !, de certa foma, o *pice do processo de internacionali(ação do mundo capitalista. 7ara entend4.la, como, de resto, a qualquer fase da história, h* dois elementos fundamentais a levar em contaD o estado das t!cnicas e o estado da pol$tica. :* uma tend4ncia a separar uma coisa da outra. 1a$ muitas interpretações da história a partir das t!cnicas. ', por outro lado, interpretações da história a partir da pol$tica. Na realidade, nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. s t!cnicas são oferecidas como um sistema e reali(adas com#inadamente atrav!s do tra#alho e das formas de escolha dos momentos e dos lugares de seu uso. ) isso que fe( a história. No fim do s!culo RR e graças aos avanços da ci4ncia, produ(iu.se um sistema de t!cnicas presidido pelas t!cnicas da informação, que passaram a e%ercer um papel de elo entre as demais, unindo.as e assegurando ao novo sistema t!cnico uma presença planet*ria. Só que a glo#ali(ação não ! apenas a e%ist4ncia desse novo sistema de t!cnicas. 'la ! tam#!m o resultado das ações que asseguram a emerg4ncia de um mercado dito glo#al, respons*vel pelo essencial dos processos pol$ticos atualmente efica(es. &s fatores que contri#uem para e%plicar a arquitetura da glo#ali(ação atual sãoD a unicidade da t!cnica, a converg4ncia dos momentos, a cognosci#ilidade do planeta e a e%ist4ncia de um motor "nico na história, representado pela mais. valia glo#ali(ada. ;m mercado glo#al utili(ando esse sistema de t!cnicas avançadas resulta nessa glo#ali(ação perversa. 2sso poderia ser diferente se seu uso pol$tico fosse outro. 'sse ! o de#ate central, o "nico que nos permite ter a esperança de utili(ar o sistema t!cnico contemporâneo a partir de outras formas de ação. 7retendemos, aqui, enfrentar essa discussão, analisando rapidamente alguns dos seus aspectos constitucionais mais relevantes.

?( A unidade técnica
& desenvolvimento da história vai de par com o desenvolvimento das t!cnicas. Want di(ia que a história ! um progresso sem fimO acrescentemos que ! tam#!m um progresso sem fim das t!cnicas. cada evolução t!cnica, uma nova etapa histórica se torna poss$vel. s t!cnicas se dão como fam$lias. Nunca, na história do homem, aparece uma t!cnica isoladaO o que se instala são grupos de t!cnicas, verdadeiros sistemas. ;m e%emplo #anal pode ser dado com a foice, a en%ada, o ancinho, que constituem, num dado momento, uma fam$lia de t!cnicas. 'ssas fam$lias de t!cnicas transportam uma história, cada sistema t!cnico representa uma !poca. 'm nossa !poca, o que ! representativo do sistema de t!cnicas atual ! a chegada da

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t!cnica da informação, por meio da ci#ern!tica, da inform*tica, da eletr-nica. 'la vai permitir duas grandes coisasD a primeira ! que as diversas t!cnicas e%istentes passam a se comunicar entre elas. t!cnica da informação assegura esse com!rcio, que antes não era poss$vel. 7or outro lado, ela tem um papel determinante so#re o uso do tempo, permitindo, em todos os lugares, a converg4ncia dos momentos, assegurando a simultaneidade das ações e, por conseguinte, acelerando o processo histórico. o surgir uma nova fam$lia de t!cnicas, as outras não desaparecem. Jontinuam e%istindo, mas o novo con3unto de instrumentos passa a ser usado pelos novos atores hegem-nicos, enquanto os não hegem-nicos continuam utili(ando con3untos menos atuais e menos poderosos. Vuando um determinado ator não tem as condições para mo#ili(ar as t!cnicas consideradas mais avançadas, torna.se, por isso mesmo, um ator de menor importância no per$odo atual. Na história da humanidade ! a primeira ve( que tal con3unto de t!cnicas envolve o planeta como um todo e fa( sentir, instantaneamente, sua presença. 2sso, ali*s, contamina a forma de e%ist4ncia das outras t!cnicas, mais atrasadas. s t!cnicas caracter$sticas do nosso tempo, presentes que se3am em um só ponto do território, t4m uma influ4ncia marcante so#re o resto do pa$s, o que ! #em diferente das situações anteriores. 7or e%emplo, a estrada de ferro instalada em regiões selecionadas, escolhidas estrategicamente, alcançava uma parte do pa$s, mas não tinha uma influ4ncia direta determinante so#re o resto do território. gora não. t!cnica da informação alcança a totalidade de cada pa$s, direta ou indiretamente. Jada lugar tem acesso ao acontecer dos outros. & princ$pio de seletividade se d* tam#!m como princ$pio de hierarquia, porque todos os outros lugares são avaliados e devem se referir àqueles dotados das t!cnicas hegem-nicas. 'sse ! um fen-meno novo na história das t!cnicas e na história dos territórios. ntes havia t!cnica hegem-nicas e não hegem-nicasO ho3e, as t!cnicas não hegem-nicas são hegemoni(adas. Na verdade, por!m, a t!cnica não pode ser vista como um dado a#soluto, mas como t!cnica 3* relativi(ada, isto !, tal como usada pelo homem. s t!cnicas apenas se reali(am, tornando.se história, com a intermediação da pol$tica, isto !, da pol$tica das empresas e da pol$tica dos 'stados, con3unta ou separadamente. 7or outro lado, o sistema t!cnico dominante no mundo de ho3e tem uma outra caracter$stica, isto !, a de ser invasor. 'le não se contenta em ficar ali onde primeiro se instala e #usca espalhar.se, na produção e no território. 7ode não o conseguir, mas ! essa sua vocação, que ! tam#!m fundamento da ação dos atores hegem-nicos, como, por e%emplo, as empresas glo#ais. 'stas funcionam a partir de uma fragmentação, 3* que um pedaço da produção pode ser feita na /un$sia, outro na Mal*sia, outro ainda no 7araguai, mas isto apenas ! poss$vel porque a t!cnica hegem-nica de que falamos ! presente ou pass$vel de presença em toda a parte. /udo se 3unta e articula depois mediante a 5intelig4ncia6 da firma. Senão não poderia haver empresa transnacional. :*, pois, uma relação estreita entre esse aspecto da economia da glo#ali(ação e a nature(a do fen-meno t!cnico correspondente a este per$odo histórico. Se a produção se fragmenta tecnicamente, h*, do outro lado, uma unidade pol$tica de comando. 'ssa unidade pol$tica do comando funciona no interior das firmas, mas não h* propriamente uma unidade de comando do mercado glo#al. Jada empresa comanda as respectivas operações dentro da sua respectiva topologia, isto !, do con3unto de lugares da sua ação, enquanto a ação dos 'stados e das instituições supranacionais não #asta para impor uma ordem glo#al. ,evando ao e%tremo esse racioc$nio, poder. se.ia di(er que o mercado glo#al não e%iste como tal.

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:* uma relação de causa e efeito entre o progresso t!cnico atual e as demais condições de implantação do atual per$odo histórico. ) a partir da unicidade das t!cnicas, da qual o computador ! uma peça central, que surge a possi#ilidade de e%istir uma finança universal, principal respons*vel pela imposição a todo o glo#o de uma mais.valia mundial. Sem ela, seria tam#!m imposs$vel a atual unicidade do tempo, o acontecer local sendo perce#ido como um elo do acontecer mundial. 7or outro lado, sem a mais.valia glo#ali(ada e sem essa unicidade do tempo, a unicidade da t!cnica não teria efic*cia.

4( A convergência dos momentos
unicidade do tempo não ! apenas o resultado de que, nos mais diversos lugares, a hora do relógio ! a mesma. Não ! somente isso. Se a hora ! a mesma, convergem, tam#!m, os momentos vividos. :* uma conflu4ncia dos momentos como resposta àquilo que, do ponto de vista da f$sica, chama.se de tempo real e, do ponto de vista histórico, ser* chamado de interdepend4ncia e solidariedade do acontecer. /omada como fen-meno f$sico, a percepção do tempo real não só quer di(er que a hora dos relógios ! a mesma, mas que podemos usar esses relógios m"ltiplos de maneira uniforme. Kesultado do progresso cient$fico e t!cnico, cu3a #usca se acelerou com a Segunda 0uerra, a operação planet*ria das grandes empresas glo#ais vai revolucionar o mundo das finanças, permitindo ao respectivo mercado que funcione em diversos lugares durante o dia inteiro. & tempo real tam#!m autori(a usar o mesmo momento a partir de m"ltiplos lugaresO e todos os lugares a partir de um só deles. ', em am#os os casos, de forma concatenada e efica(. Jom essa grande mudança na história, tornamo.nos capa(es, se3a onde for, de ter conhecimento do que ! o acontecer do outro. Nunca houve antes essa possi#ilidade oferecida pela t!cnica à nossa geração de ter em mãos o conhecimento instantâneo do acontecer do outro. 'ssa ! a grande novidade, o que estamos chamando de unicidade do tempo ou converg4ncia dos momentos. aceleração da história, que o fim do s!culo RR testemunha, vem em grande parte disto. Mas a informação instantânea e glo#ali(ada por enquanto não ! generali(ada e vera( porque atualmente intermediada pelas grandes empresas de informação. ' quem são os atores do tempo realN Somos todos nósN 'sta pergunta ! um imperativo para que possamos melhor compreender nossa !poca. desse ideal, todavia alcanç*vel. história ! comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. &s homens não são igualmente atores desse tempo real. Iisicamente, isto !, potencialmente, ele e%iste para todos. Mas efetivamente, isto !, socialmente, ele ! e%celente e assegura e%clusividades, ou, pelo menos, privil!gios de uso. Jomo ele ! utili(ado por um n"mero redu(ido de atores, devemos distinguir entre a noção de fluide( efetiva. Se a t!cnica cria aparentemente para todos a possi#ilidade da fluide(, quem, todavia, ! fluido realmenteN Vue empresas são realmente fluidasN Vue pessoasN Vuem, de fato, utili(a em seu favor esse tempo realN quem, realmente, ca#e a mais.valia criada a partir dessa nova possi#ilidade de utili(ação do tempoN Vuem pode e quem não podeN 'ssa discussão leva.nos a uma outra, na fase atual do capitalismo, ao tomarmos em conta a emerg4ncia de um novo fator 13 ideologia de um mundo só e da aldeia glo#al considera o tempo real como um patrim-nio coletivo da humanidade. Mas ainda estamos longe

determinante da história, representado pelo que aqui estamos denominando de )otor *nico.

@( O motor único
'ste per$odo dispõe de um sistema unificado de t!cnicas, instalado so#re um planeta informado e permitindo ações igualmente glo#ais. t! que ponto podemos falar de uma mais.valia à escala mundial, atuando como um motor "nico de tais açõesN :avia, com o imperialismo, diversos motores, cada qual com sua força e alcance própriosD o motor franc4s, o motor ingl4s, o motor alemão, o motor portugu4s, o #elga, o espanhol etc., que eram todos motores do capitalismo, mas empurravam as m*quinas e os homens segundo ritmos diferentes, modalidades diferentes, com#inações diferentes. :o3e haveria um motor "nico que !, e%atamente, a mencionada mais.valia universal. 'sta tornou.se poss$vel porque a partir de agora a produção se d* à escala mundial, por interm!dio de empresas mundiais, que competem entre si segundo uma concorr4ncia e%tremamente fero(, como 3amais e%istiu. s que resistem e so#revivem são aquelas que o#t4m a mais.valia maior, permitindo.se, assim, continuar a proceder e a competir. 'sse motor "nico se tornou poss$vel porque nos encontramos em um novo patamar da internacionali(ação, com uma verdadeira mundiali(ação do produto, do dinheiro, do cr!dito, da d$vida, do consumo, da informação. 'sse con3unto de mundiali(ações, uma sustentando e arrastando a outra, impondo.se mutuamente, ! tam#!m um fato novo. ;m elemento da internacionali(ação atrai outro, impõe outro, cont!m e ! contido pelo outro. 'sse sistema de forças pode levar a pensar que o mundo se encaminha para algo como uma homogenei(ação, uma vocação a um padrão "nico, o que seria devido, de um lado, à mundiali(ação da t!cnica, de outro, à mundiali(ação da mais.valia. /udo isso ! realidade, mas tam#!m e so#retudo tend4ncia, porque em nenhum lugar, em nenhum pa$s, houve completa internacionali(ação. & que h* em toda parte ! uma vocação às mais diversas com#inações de vetores e formas de mundiali(ação. 7retendemos que a história, agora, se3a movida por esse motor "nico. Ja#e, assim, indagar qual seria a sua nature(a. Ser* ele a#stratoN Vue ! essa mais.valia considerada ao n$vel glo#alN 'la ! fugidia e nos escapa, mas não ! a#strata. 'la e%iste e se impõe como coisa real, em#ora não se3a propriamente mensur*vel, 3* que est* sempre evoluindo, isto !, mudando. 'la ! 5mundial6 porque entretida pelas empresas glo#ais que se valem dos progressos cient$ficos e t!cnicos dispon$veis no mundo e pedem, todos os dias, mais progresso cient$fico e t!cnico. atual competitividade entre as empresas ! uma forma de e%erc$cio dessa mais.valia universal, que se torna fugidia e%atamente porque dei%amos o mundo da competição e entramos no mundo da competitividade. & e%erc$cio da competitividade torna e%ponencial a #riga entre as empresas e as condu( a alimentar uma demanda diuturna de mais ci4ncia, de mais tecnologia, de melhor organi(ação, para manter.se à frente da corrida. Vuando, na universidade, somos solicitados todos os dias a tra#alhar para melhorar a produtividade como se fosse algo a#strato e individual, estamos impelidos a oferecer às grandes empresas possi#ilidades ainda maiores de aumentar sua mais.valia. Novos la#oratórios são chamados a encontrar as novas t!cnicas, os novos materiais, as novas soluções organi(acionais e 14

pol$ticas que permitam às empresas fa(er crescer a sua produtividade e o seu lucro.

cada avanço

de uma empresa, outra do mesmo ramo solicita inovações que lhe permitam passar à frente da que antes era a campeã. 7or isso, tal mais.valia est* sempre correndo, quer di(er, fugindo para a frente. ;m corte no tempo ! idealmente poss$vel, mas est* longe de e%pressar a realidade atual cruelmente inst*vel. 7or isso não se pode, desse modo, medi.la, mas ela e%iste. Se ela pode parecer a#strata, a mais.valia agora universal na verdade se impõe como um dado emp$rico, o#3etivo, quando utili(ada no processo da produção e como resultado da competitividade.

5( A cognoscibilidade do planeta
& per$odo histórico atual vai permitir o que nenhum outro per$odo ofereceu ao homem, isto !, a possi#ilidade de conhecer o planeta e%tensiva e aprofundadamente. 2sto nunca e%istiu antes, e deve.se, e%atamente, aos progressos da ci4ncia e da t!cnica 8melhor ainda, aos progressos da t!cnica devidos aos progressos da ci4ncia9. 'sse per$odo t!cnico.cient$fico da história permite ao homem não apenas utili(ar o que encontra na nature(aD novos materiais são criados nos la#oratórios como um produto da intelig4ncia do homem, e precedem a produção dos o#3etos. t! a nossa geração, utili(*vamos os materiais que estavam à nossa disposição. Mas a partir de agora podemos conce#er os o#3etos que dese3amos utili(ar e então produ(imos a mat!ria.prima indispens*vel à sua fa#ricação. Sem isso não teria sido poss$vel fa(er os sat!lites que fotografam o planeta a intervalos regulares, permitindo uma visão mais completa e detalhada da /erra. 7or meio dos sat!lites, passamos a conhecer todos os lugares e a o#servar outros astros. & funcionamento do sistema solar torna.se mais percept$vel, enquanto a /erra ! vista em detalheO pelo fato de que os sat!lites repetem suas ór#itas, podemos captar momentos sucessivos, isto !, não mais apenas retratos momentâneos e fotografias isoladas do planeta. 2sso não quer di(er que tenhamos, assim, os processos históricos que movem o mundo, mas ficamos mais perto de identificar momentos dessa evolução. &s o#3etos retratados nos dão geometrias, não propriamente geografias, porque nos chegam como o#3etos em si, sem a sociedade vivendo dentro deles. & sentido que t4m as coisas, isto !, seu verdadeiro valor, ! o fundamento da correta interpretação de tudo o que e%iste. Sem isso, corremos o risco de não ultrapassar uma interpretação coisicista de algo que ! muito mais que uma simples coisa, como os o#3etos da história. 'stes estão sempre mudando de significado, com o movimento das sociedades e por interm!dio das ações humanas sempre renovadas. Jom a glo#ali(ação e por meio da empirici(ação da universalidade que ela possi#ilitou, estamos mais perto de construir uma filosofia das t!cnicas e das ações correlatas, que se3a tam#!m uma forma de conhecimento concreto do mundo tomado como um todo e das particularidades dos lugares, que incluem condições f$sicas, naturais ou artificiais e condições pol$ticas. s empresas, na #usca da mais.valia dese3ada, valori(am diferentemente as locali(ações. Não ! qualquer lugar que interessa a tal ou qual firma. cognosci#ilidade do planeta constitui um dado essencial à operação das empresas e à produção do sistema histórico atual.

7( Um período que é uma outra crise
história do capitalismo pode ser dividida em per$odos, pedaços de tempo marcados por 15

certa coer4ncia entre as suas vari*veis significativas, que evoluem diferentemente, mas dentro de um sistema. ;m per$odo sucede ao outro, mas não podemos esquecer que os per$odos são, tam#!m, antecedidos e sucedidos por crises, isto !, momentos em que a ordem esta#elecida entre as vari*veis, mediante uma organi(ação, ! comprometida. /orna.se imposs$vel harmoni(*.las quando uma dessas vari*veis ganha e%pressão maior e introdu( um princ$pio de desordem. 'ssa foi a evolução comum a toda a história do capitalismo, at! recentemente. & per$odo atual escapa a essa caracter$stica porque ele !, ao mesmo tempo, um per$odo e uma crise, isto !, a superposição entre per$odo e crise, revelando caracter$sticas de am#as essas situações. Jomo per$odo e como crise, a !poca atual mostra.se, ali*s, como coisa nova. Jomo per$odo, as suas vari*veis caracter$sticas instalam.se em toda parte e a tudo influenciam, direta ou indiretamente. 1a$ a denominação de glo#ali(ação. Jomo crise, as mesmas vari*veis construtoras do sistema estão continuamente chocando.se e e%igindo novas definições e novos arran3os. /rata.se, por!m, de uma crise persistente dentro de um per$odo com caracter$sticas duradouras, mesmo se novos contornos aparecem. 'ste per$odo e esta crise são diferentes daqueles do passado, porque os dados motores e os respectivos suportes, que constituem fatores de mudança, não se instalam gradativamente como antes, nem tampouco são o privil!gio de alguns continentes e pa$ses, como outrora. /ais fatores dão. se concomitantemente e se reali(am com muita força em toda a parte. 1efrontamo.nos, agora, como uma su#divisão e%trema do tempo emp$rico, cu3a documentação tornou.se poss$vel por meio das t!cnicas contemporâneas. & computador ! o instrumento de medida e, ao mesmo tempo, o controlador do uso do tempo. 'ssa multiplicação do tempo !, na verdade, potencial, porque, de fato, cada ator U pessoa, empresa, instituição, lugar U utili(a diferentemente tais possi#ilidades e reali(a diferentemente a velocidade do mundo. 7or outro lado, e graças so#retudo aos progressos das t!cnicas da inform*tica, os fatores hegem-nicos de mudança contagiam os demais, ainda que a preste(a e o alcance desse cont*gio se3am diferentes segundo as empresas, os grupos sociais, as pessoas, os lugares. 7or interm!dio do dinheiro, o cont*gio das lógicas redutoras, t$picas do processo de glo#ali(ação, leva a toda parte um ne%o cont*#il, que avassala tudo. &s fatores de mudança acima enumerados são, pela mão dos atores hegem-nicos, incontrol*veis, cegos, egoisticamente contraditórios. & processo da crise ! permanente, o que temos são crises sucessivas. Na verdade, trata.se de uma crise glo#al, cu3a evid4ncia tanto se fa( por meio de fen-menos glo#ais como de manifestações particulares, neste ou naque pa$s, neste ou naquele momento, mas para produ(ir o novo est*gio de crise. Nada ! duradouro. 'ntão, neste per$odo histórico, a crise ! estrutural. 7or isso, quando se #uscam soluções não estruturais, o resultado ! a geração de mais crise. & que ! considerado solução parte do e%clusivo interesse dos atores hegem-nicos, tendendo a participar de sua própria nature(a e de suas próprias caracter$sticas. /irania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção da história atual do capitalismo glo#ali(ado. Sem o controle dos esp$ritos seria imposs$vel a regulação pelas finanças. 1a$ o papel avassalador do sistema financeiro e a permissividade do comportamento dos atores hegem-nicos, que agem sem contrapartida, levando ao aprofundamento da situação, isto !, da crise. associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação condu(, desse modo, à

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aceleração dos processos hegem-nicos, legitimados pelo 5pensamento "nico6, enquanto os demais processos aca#am por ser deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando.se hegemoni(ados. 'm outras palavras, os processos não hegem-nicos tendem se3a a desaparecer fisicamente, se3a a permanecer, mas de forma su#ordinada, e%ceto em algumas *reas da vida social e em certas frações do território onde podem manter.se relativamente aut-nomos, isto !, capa(es de uma reprodução própria. Mas tal situação ! sempre prec*ria, se3a porque os resultados localmente o#tidos são menores, se3a porque os respectivos agentes são permanentemente ameaçados pela concorr4ncia das atividades mais poderosas. No per$odo histórico atual, o estrutural 8dito dinâmico9 !, tam#!m, cr$tico. 2sso se deve, entre outras ra(ões, ao fato de que a era presente se caracteri(a pelo uso e%tremado de t!cnicas e de normas. & uso e%tremado das t!cnicas e a proemin4ncia do pensamento t!cnico condu(em à necessidade o#sessiva de normas. 'ssa pletora normativa ! indispens*vel à efic*cia da ação. Jomo, por!m, as atividades hegem-nicas tendem a uma centrali(ação, consecutiva à concentração da economia, aumenta a infle%i#ilidade dos comportamentos, acarretando um mal.estar no corpo social. isso se acrescente o fato de que, graças ao casamento entre as t!cnicas normativas e a normali(ação t!cnica e pol$tica da ação correspondente, a própria pol$tica aca#a por instalar.se em todos os interst$cios do corpo social, se3a como necessidade para o e%erc$cio das ações dominantes, se3a como reação a essas mesmas ações. Mas não ! propriamente de pol$tica que se trata, mas de simples ac"mulo de normati(ações particularistas, condu(idas por atores privados que ignoram o interesse social ou que o tratam de modo residual. ) uma outra ra(ão pela qual a situação normal ! de crise, ainda que os famosos equil$#rios macroecon-micos se instalem. & mesmo sistema ideológico que 3ustifica o processo de glo#ali(ação, a3udando a consider*.lo o "nico caminho histórico, aca#a, tam#!m, por impor uma certa visão da crise e aceitação dos rem!dios sugeridos. 'm virtude disso, todos os pa$ses, lugares e pessoas passam a se comportar, isto !, a organi(ar sua ação, como se tal 5crise6 fosse a mesma para todos e como se a receita para afast*.la devesse ser geralmente a mesma. Na verdade, por!m, a "nica crise que os respons*veis dese3am afastar ! a crise financeira e não qualquer outra. nosso tempo. $ est*, na verdade, uma causa para mais aprofundamento da crise real U econ-mica, social, pol$tica, moral U que caracteri(a o

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III 8 UMA GLOBALIZAÇÃO P:R.:R$A

Int!odu&'o
&s "ltimos anos do s!culo RR testemunharam grandes mudanças em toda a face da /erra. & mundo torna.se unificado U em virtude das novas condições t!cnicas, #ases sólidas para uma ação humana mundiali(ada. 'sta, entretanto, impões.se à maior parte da humanidade como uma glo#ali(ação perversa. Jonsideramos, em primeiro lugar, a emerg4ncia de uma dupla tirania, a do dinheiro e a da informação, intimamente relacionadas. m#as, 3untas, fornecem as #ases do sistema ideológico que legitima as ações mais caracter$sticas da !poca e, ao mesmo tempo, #uscam conformar segundo um novo ethos as relações sociais e interpessoais, influenciando o car*ter das pessoas. competitividade, sugerida pela produção e pelo consumo, ! a fonte de novos totalitarismos, mais facilmente aceitos graças à confusão dos esp$ritos que se instala. /em as mesmas origens a produção, na #ase mesma da vida social, de uma viol4ncia estrutural, facilmente vis$vel nas formas de agir dos 'stados, das empresas e dos indiv$duos. corol*rios. 1entro desse quadro, as pessoas sentem.se desamparadas, o que tam#!m constitui uma incitação a que adotem, em seus comportamentos ordin*rios, pr*ticas que alguns dec4nios atr*s eram moralmente condenadas. :* um verdadeiro retrocesso quanto à noção de #em p"#lico e de solidariedade, do qual ! em#lem*tico o encolhimento das funções sociais e pol$ticas do 'stado com a ampliação da po#re(a e os crescentes agravos à so#erania, enquanto se amplia o papel pol$tico das empresas na regulação da vida social. perversidade sist4mica ! um dos seus

6( A tirania da informação e do din eiro e o atual sistema ideol!gico
'ntre os fatores constitutivos da glo#ali(ação, em seu car*ter perverso atual, encontram. se a forma como a informação ! oferecida à humanidade e a emerg4ncia do dinheiro em estado puro como motor da vida econ-mica e social. São duas viol4ncias centrais, alicerces do sistema ideológico que 3ustifica as ações hegem-nicas e leva ao imp!rio das fa#ulações, a percepções fragmentadas e ao discurso "nico do mundo, #ase dos novos totalitarismos U isto !, dos glo#alitarismos U a que

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estamos assistindo. A io"ência da in;o!ma&'o

;m dos traços marcantes do atual per$odo histórico !, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação. Jonforme 3* vimos, as novas condições t!cnicas deveriam permitir a ampliação do conhecimento do planeta, dos o#3etos que o formam, das sociedades que o ha#itam e dos homens em sua realidade intr$nseca. /odavia, nas condições atuais, as t!cnicas da informação são principalmente utili(adas por um punhado de atores em função de seus o#3etivos particulares. 'ssas t!cnicas da informação 8por enquanto9 são apropriadas por alguns 'stados e por algumas empresas, aprofundando assim os processos de criação de desigualdades. ) desse modo que a periferia do sistema capitalista aca#a se tornando ainda mais perif!rica, se3a porque não dispõe totalmente dos novos meios de produção, se3a porque lhe escapa a possi#ilidade de controle. & que ! transmitido à maioria da humanidade !, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. 2sso tanto ! mais grave porque, nas condições atuais da vida econ-mica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescind$vel. Mas na medida em que o que chega às pessoas, como tam#!m às empresas e instituições hegemoni(adas, !, 3*, o resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia. & fato de que, no mundo de ho3e, o discurso antecede quase o#rigatoriamente uma parte su#stancial das ações humanas U se3am elas a t!cnica, a produção, o consumo, o poder U e%plica o porqu4 da presença generali(ada do ideológico em todos esses pontos. Não ! de estranhar, pois, que realidade e ideologia se confundam na apreciação do homem comum, so#retudo porque a ideologia se insere nos o#3etos e apresenta.se como coisa. 'stamos diante de um novo 5encantamento do mundo6, no qual do discurso e a retórica são o princ$pio e o fim. 'sse imperativo e essa onipresença da informação são insidiosos, 3* que a informação atual tem dois rostos, um pelo qual ela #usca instruir, e um outro, pelo qual ela #usca convencer. 'ste ! o tra#alho da pu#licidade. Se a informação tem, ho3e, essas duas caras, a cara do convencer se torna muito mais presente, na medida em que a pu#licidade se transformou em algo que antecipa a produção. Lrigando pela so#reviv4ncia e hegemonia, em função da competitividade, as empresas não podem e%istir sem pu#licidade, que se tornou o nervo do com!rcio. :* uma relação carnal entre o mundo da produção da not$cia e o mundo da produção das coisas e das normas. pu#licidade tem, ho3e, uma penetração muito grande em todas as atividades. ntes, havia uma incompati#ilidade !tica entre anunciar e e%ercer certas atividades, como na profissão m!dica, ou na educação. :o3e, propaga.se tudo, e a própria pol$tica !, em grande parte, su#ordinada às suas regra. s m$dias nacionais se glo#ali(am, não apenas pela chatice e mesmice das fotografias e dos t$tulos, mas pelos protagonistas mais presentes. Ialsificam.se os eventos, 3* que não ! propriamente o fato o que a m$dia nos d*, mas uma interpretação, isto !, a not$cia. 7ierre Nora, em um #onito te%to, cu3o t$tulo ! 5& retorno de fato6 8 in +ist(ria, -ovos pro'le)as. 1/709, lem#ra que, na aldeia, o testemunho das pessoas que veiculam o que aconteceu pode ser cote3ado com o testemunho do vi(inho. Numa sociedade comple%a como a nossa, somente vamos sa#er o que houve na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada pelos humores, visões,

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preconceitos e interesses das ag4ncias. & evento 3* ! entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e ! tam#!m por isso que se produ(em no mundo de ho3e, simultaneamente, f*#ulas e mitos. 2=+u"as ;ma dessas fa#ulações ! a tão repetida id!ia de aldeia glo#al 8 1ctávio Ianni. 2eorias da 3lo'ali#ação. 1//69. & fato de que a comunicação se tornou poss$vel à escala do planeta, dei%ando sa#er instantaneamente o que se passa em qualquer lugar, permitiu que fosse cunhada essa e%pressão, quando, na verdade, ao contr*rio do que se d* nas verdadeiras aldeias, ! freqXentemente mais f*cil comunicar com quem est* longe do que com o vi(inho. Vuando essa comunicação se fa(, na realidade, ela se d* com a intermediação de o#3etos. senão interesseira, dos fatos. ;m outro mito ! o do espaço e do tempo contra$dos, graças, outra ve(, aos prod$gios da velocidade. Só que a velocidade apenas est* ao alcance de um n"mero limitado de pessoas, de tal forma que, segundo as possi#ilidades de cada um, as distâncias t4m significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio não permite igual economia do tempo. ldeia glo#al tanto quanto espaço.tempo contra$do permitiriam imaginar a reali(ação do sonho de um mundo só, 3* que, pelas mãos do mercado glo#al, coisas, relações, dinheiros, gostos largamente se difundem por so#re continentes, raças, l$nguas, religiões, como se as particularidades tecidas ao longo de s!culos houvessem sido todas esgarçadas. /udo seria condu(ido e, ao mesmo tempo, homogenei(ado pelo mercado glo#al regulador. Ser*, todavia, esse mercado reguladorN Ser* ele glo#alN & fato ! que apenas tr4s praças, Nova 2orque, ,ondres e /óquio, concentram mais de metade de todas as transações e açõesO as empresas transnacionais são respons*veis pela maior parte do com!rcio dito mundialO os @H pa$ses menos avançados representam 3untos apenas B,AY do com!rcio mundial, em lugar dos E,AY em >?GB 8Z. Lerthelot, 50lo#alisation et r!gionalisationD une mise en perspective6, in &4inte3ration r53ionale dans le )onde, 0'M1'=, >??@9, enquanto @BY do com!rcio dos 'stados ;nidos ocorrem no interior das empresas 8N. Jhoms[Q, Folha de São Paulo, EF de a#ril de >??A9. Iala.se, tam#!m, de uma humanidade desterritoriali(ada, uma de suas caracter$sticas sendo o desfalecimento das fronteiras como imperativo da glo#ali(ação, e a essa id!ia dever.se.ia uma outraD a da e%ist4ncia, 3* agora, de uma cidadania universal. 1e fato, as fronteiras mudaram de significação, mas nunca estiveram tão vivas, na medida em que o próprio e%erc$cio das atividades glo#ali(adas não prescinde de uma ação governamental capa( de torn*.las efetivas dentro do território. humanidade desterritoriali(ada ! apenas um mito. 7or outro lado, o e%erc$cio da cidadania, mesmo se avança a noção de moralidade internacional, !, ainda, um fato que depende da presença e da ação dos 'stados nacionais. 'm mundo como f*#ula ! alimentado por outros ingredientes, entre os quais a politi(ação das estat$sticas, a começar pela forma pela qual ! feita a comparação da rique(a entre as nações. No fundo, nas condições atuais, o chamado 7roduto Nacional Lruto ! apenas um nome fantasia do que poder$amos chamar de produto glo#al, 3* que as quantidades que entram nessa informação so#re o que acontece não vem da interação entre pessoas, mas do que ! veiculado pela m$dia, uma interpretação interessada,

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conta#ilidade são aquelas que se referem às operações que caracteri(am a própria glo#ali(ação. firma.se, tam#!m, que a 5morte do 'stado6 melhoraria a vida dos homens e a sa"de das empresas, na medida em que permitiria a ampliação da li#erdade de produ(ir, de consumir e de viver. /al neoli#eralismo seria o fundamento da democracia. &#servando o funcionamento concreto da sociedade econ-mica e da sociedade civil, não ! dif$cil constatar que são cada ve( em menor n"mero as empresas que se #eneficiam desse desmaio do 'stado, enquanto a desigualdade entre os indiv$duos aumenta. Sem essas f*#ulas e mitos, este per$odo histórico não e%istiria como !D /am#!m não seria poss$vel a viol4ncia do dinheiro. 'ste só se torna violento e tirânico porque ! servido pela viol4ncia da informação. 'sta se prevalece do fato de que, no fim do s!culo RR, a linguagem ganha autonomia, constituindo sua própria lei. 2sso facilita a entroni(ação de um su#sistema ideológico, sem o qual a glo#ali(ação, em sua forma atual, não se e%plicaria. A io"ência do din1ei!o

internacionali(ação do capital financeiro amplia.se, recentemente, por v*rias ra(ões. Na fase histórica atual, as megafirmas devem, o#rigatoriamente, preocupar.se com o uso financeiro do dinheiro que o#t4m. s grandes empresas são, quase que compulsoriamente, ladeadas por grandes empresas financeiras. 'ssas empresas financeiras das multinacionais utili(am em grande parte a poupança dos pa$ses em que se encontram. Vuando uma firma de qualquer outro pa$s se instala num pa$s J ou 1, as poupanças internas passam a participar da lógica financeira e do tra#alho financeiro dessa multinacional. Vuando e%patriado, esse dinheiro pode regressar ao pa$s de origem na forma de cr!dito e de d$vida, quer di(er, por interm!dio das grandes empresas glo#ais. & que seria poupança interna transforma.se em poupança e%terna, pela qual os pa$ses recipiend*rios devem pagar 3uros e%torsivos. & que sai do pa$s como ro6alties, intelig4ncia comprada, pagamento de serviços ou remessa de lucros volta como cr!dito e d$vida. 'ssa ! a lógica atual da internacionali(ação do cr!dito e da d$vida. aceitação de um modelo econ-mico em que o pagamento da d$vida ! priorit*rio implica Nas condições atuais de economia internacional, o financeiro ganha uma esp!cie de autonomia. 7or isso, a relação entre a finança e a produção, entre o que agora se chama economia real e o mundo da finança, d* lugar àquilo que Mar% chamava de loucura especulativa, fundada no papel do dinheiro em estado puro. 'ste se torna o centro do mundo. ) o dinheiro como, simplesmente, dinheiro, recriando seu fetichismo pela ideologia. & sistema financeiro desco#re fórmulas imaginosas, inventa sempre novos instrumentos, multiplica o que chama de derivativos, que são formas sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos especuladores. & resultado ! que a escalação e%ponencial assim redefinida vai se tornar algo indispens*vel, intr$nseco, ao sistema, graças aos processos t!cnicos da nossa !poca. ) o tempo real que vai permitir a rapide( das operações e a volatilidade dos assets. ' a finança move a economia e a deforma, levando seus tent*culos a todos os aspectos da vida. 7or isso, ! l$cito falar de tirania do dinheiro. Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, isso tam#!m se deve ao fato de que tudo se torna valor de troca. monetari(ação da vida cotidiana ganhou, no mundo inteiro, um enorme a aceitação da lógica desse dinheiro.

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terreno nos "ltimos EF anos. 'ssa presença do dinheiro em toda parte aca#a por constituir um dado ameaçador da nossa e%ist4ncia cotidiana. As pe!cep&Aes ;!a3mentadas e o discu!so único do BmundoC ) a partir dessa generali(ação e dessa coisificação da ideologia que, de um lado, se multiplicam as percepções fragmentadas e, de outro, pode esta#elecer.se um discurso "nico do 5mundo6, com implicações na produção econ-mica e nas visões da história contemporânea, na cultura de massa e no mercado glo#al. s #ases materiais históricas dessa mitificação estão na realidade da t!cnica atual. t!cnica apresenta.se ao homem comum como um mist!rio e uma #analidade. 1e fato, a t!cnica ! mais aceita do que compreendida. Jomo tudo parece dela depender, ela se apresenta como uma necessidade universal, uma presença indiscut$vel, dotada de uma força quase divina à qual os homens aca#am se rendendo sem #uscar entend4.la. ) um fato comum no cotidiano de todos, por conseguinte, uma #analidade, mas seus fundamentos e seu alcance escapam à percepção imediata, da$ seu mist!rio. /ais caracter$sticas alimentam seu imagin*rio, alicerçado nas suas relações com a ci4ncia, na sua e%ig4ncia de racionalidade, no a#solutismo com que, ao serviço do mercado, conforma os comportamentoO tudo isso fa(endo crer na sua inevita#ilidade. Vuando o sistema pol$tico formado pelos governos e pelas empresas utili(a os sistemas t!cnicos contemporâneos e seu imagin*rio para produ(ir a atual glo#ali(ação, aponta.nos para formas de relações econ-micas implac*veis, que não aceitam discussão e e%igem o#edi4ncia imediata, sem a qual os atores são e%pulsos da cena ou permanecem escravos de uma lógica indispens*vel ao funcionamento do sistema como um todo. ) uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se #aseia em noções que parecem centrais à própria id!ia da democracia U li#erdade de opinião, de imprensa, tolerância ., utili(adas e%atamente para suprimir a possi#ilidade de conhecimento do que ! o mundo, e do que são os pa$ses e os lugares.

*( "ompetitividade, consumo, confusão dos espíritos, globaritarismo
Neste mundo glo#ali(ado, a competitividade, o consumo, a confusão dos esp$ritos constituem #aluartes do presente estado de coisas. competitividade comanda nossas formas de ação. & consumo comanda nossas formas de inação. ' a confusão dos esp$ritos impede o nosso entendimento do mundo, do pa$s, do lugar, da sociedade e de cada um de nós mesmos. A competiti idadeD a ausência de compaiE'o Nos "ltimos cinco s!culos de desenvolvimento e e%pansão geogr*fica do capitalismo, a concorr4ncia se esta#elece como regra. de compai%ão. gora, a competitividade toma o lugar da competição. concorr4ncia atual não ! mais a velha concorr4ncia, so#retudo porque chega eliminando toda forma competitividade tem a guerra como norma. :*, a todo custo, que vencer o outro, esmagando.o, para tomar seu lugar. &s "ltimos anos do s!culo RR foram em#lem*ticos, porque neles 22

se reali(aram grandes concentrações, grandes fusões, tanto na ór#ita da produção como na das finanças e da informação. 'sse movimento marca um *pice do sistema capitalista, mas ! tam#!m indicador do seu paro%ismo, 3* que a identidade dos atores, at! então mais ou menos vis$vel, agora finalmente aparece aos olhos de todos. 'ssa guerra como norma 3ustifica toda forma de apelo à força, a que assistimos em diversos pa$ses, um apelo não dissimulado, utili(ado para dirimir os conflitos e conseqX4ncia dessa !tica da competitividade que caracteri(a nosso tempo. &ra, ! isso tam#!m que 3ustifica os individualismos arre#atadores e possessivosD individualismos na vida econ-mica 8a maneira como as empresas #atalham umas com as outras9O individualismos na ordem da pol$tica 8a maneira como os partidos freqXentemente a#andonam a id!ia de pol$tica para se tornarem simplesmente eleitoreiros9O individualismos na ordem do território 8as cidades #rigando umas com as outras, as regiões reclamando soluções particularistas9. /am#!m na ordem social e individual são individualismos arre#atadores e possessivos, que aca#am por constituir o outro como coisa. Jomportamentos que 3ustificam todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das #ases da socia#ilidade atual. lugar da lógica das finalidades, e convoca os pragmatismos a que se tornem triunfantes. 7ara tudo isso, tam#!m contri#uiu a perda de influ4ncia da filosofia na formulação das ci4ncias sociais, cu3a interdisciplinaridade aca#a por #uscar inspiração na economia. 1a$ o empo#recimento das ci4ncias humanas e a conseqXente dificuldade para interpretar o que vai pelo mundo, 3* que a ci4ncia econ-mica se torna, cada ve( mais, uma disciplina da administração das coisas ao serviço de um sistema ideológico. ) assim que se implantam novas concepções so#re o valor a atri#uir a cada o#3eto, a cada indiv$duo, a cada relação, a cada lugar, legitimando novas modalidades e novas regras da produção e do consumo. ' novas formas financeiras e da conta#ilidade nacional. 'sta, ali*s, se redu( a ser, apenas, um nome fantasia de uma suposta conta#ilidade glo#al, algo que ine%iste de fato, mas ! tomado como parâmetro. 'st* ! uma das #ases do su#sistema ideológico que comanda outros su#sistemas da vida social, formando uma constelação que tanto orienta e dirige a produção da economia como tam#!m a produção da vida. 'ssa nova lei do valor U que ! uma lei ideológica do valor U ! uma filha dileta da competitividade e aca#a por ser respons*vel tam#!m pelo a#andono da noção e do fato da solidariedade. 1a$ as fragmentações resultantes. 1a$ a ampliação do desemprego. 1a$ o a#andono da educação. 1a$ o desapreço à sa"de como um #em individual e social inalien*vel. 1a$ todas as novas formas perversas de socia#ilidade que 3* e%istem ou se estão preparando neste pa$s, para fa(er dele U ainda mais U uma pa$s fragmentado, cu3as diversas parcelas, de modo a assegurar sua so#reviv4ncia imediata, serão 3ogadas umas contra as outras e convidadas a uma #atalha sem quartel. O consumo e o seu despotismo /am#!m o consumo muda de figura ao longo do tempo. Ialava.se, antes, de autonomia da produção, para significar que uma empresa, ao assegurar uma produção, #uscava tam#!m manipular a opinião pela via da pu#licidade. Nesse caso, o fato gerador do consumo seria a produção. Mas, atualmente, as empresas hegem-nicas produ(em o consumidor antes mesmo de produ(ir os produtos. ;m dado essencial do entendimento do consumo ! que a produção do li*s, a maneira como as classes m!dias, no Lrasil, se constitu$ram entroni(a a lógica dos instrumentos, em

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consumidor, ho3e, precede à produção dos #ens e dos serviços. 'ntão, na cadeia casual, a chamada autonomia da produção cede lugar ao despotismo do consumo. 1a$, o imp!rio da informação e da pu#licidade. /al rem!dio teria >Y de medicina e ??Y de pu#licidade, mas todas as coisas no com!rcio aca#am por ter essa composiçãoDpu#licidade \ materialidadeO pu#licidade \ serviços, e esse ! o caso de tantas mercadorias cu3a circulação ! fundada numa propaganda insistente e freqXentemente enganosa. :* toda essa maneira de organi(ar o consumo para permitir, em seguida, a organi(ação da produção. /ais operações podem tornar.se simultâneas diante do tempo do relógio, mas, do ponto de vista da lógica, ! a produção da informação e da pu#licidade que precede. 1esse modo, vivemos cercados, por todos os lados, por esse sistema ideológico tecido ao redor do consumo e da informação ideologi(ados. 'sse consumo ideologi(ado e essa informação ideologi(ada aca#am por ser o motor de ações p"#licas e privadas. 'sse par !, ao mesmo tempo, fort$ssimo e fragil$ssimo. 1e um lado ! muito forte, pela sua efic*cia atual so#re a produção e o consumo. Mas, de outro lado, ele ! muito fraco, muito d!#il, desde que encontremos a maneira de defini.lo como um dado de um sistema mais amplo. & consumo ! o grande emoliente, produtor ou encora3ador de imo#ilismos. 'le !, tam#!m, um ve$culo de narcisismos, por meio dos seus est$mulos est!ticos, morais, sociaisO e aparece como o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente. 7or isso, o entendimento do que ! o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, am#os fundados no mesmo sistema da ideologia. Jonsumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, tam#!m, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão. ) certo que no Lrasil tal oposição ! menos sentida, porque em nosso pa$s 3amais houve a figura do cidadão. s classes chamadas superiores, incluindo as classes m!dias, 3amais quiseram ser cidadãsO os po#res 3amais puderam ser cidadãos. s classes m!dias foram condicionadas a apenas querer privil!gios e não direitos. ' isso ! um dado essencial do entendimento do LrasilD de como os partidos se organi(am e funcionamO de como a pol$tica se d*, de como a sociedade se move. ' a$ tam#!m as camadas intelectuais t4m responsa#ilidade, porque trasladaram, sem maior imaginação e originalidade, à condição da classe m!dia europ!ia, lutando pela ampliação dos direitos pol$ticos, econ-micos e sociais, para o caso #rasileiro e atri#uindo, assim, por equ$voco, à classe m!dia #rasileira um papel de moderni(ação e de progresso que, pela sua própria constituição, ela não poderia ter. A in;o!ma&'o tota"it=!ia e a con;us'o dos espF!itos /udo isso se deve, em grande parte, ao fato de que o fim do s!culo RR erigiu como um dado central do seu funcionamento o despotismo da informação, relacionando, em certa medida, com o próprio n$vel alcançado pelo desenvolvimento da t!cnica atual, tão necessitada de um discurso. Jomo as atividades hegem-nicas são, ho3e, todas elas, fundadas nessa t!cnica, o discurso aparece como algo capital na produção da e%ist4ncia de todos. 'ssa imprescindi#ilidade de um discurso que antecede a tudo U a começar pela própria t!cnica, a produção, o consumo e o poder U a#re a porta à ideologia. ntes, era corrente discutir.se a respeito da oposição entre o que era real e o que não

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eraO entre o erro e o acertoO o erro e a verdadeO a ess4ncia e a apar4ncia. :o3e, essa discussão talve( não tenha sequer ca#imento, porque a ideologia se torna real e est* presente como realidade, so#retudo por meio dos o#3etos. &s o#3etos são coisas, são reais. 'les se apresentam diante de nós não apenas como um discurso, mas como um discurso ideológico, que nos convoca, malgrado nós, a uma forma de comportamento. ' esse imp!rio dos o#3etos tem um papel relevante na produção desse novo homem apequenado que estamos todos ameaçados de ser. t! a Segunda 0uerra Mundial, t$nhamos em torno de nós alguns o#3etos, os quais comand*vamos. :o3e, meio s!culo depois, o que h* em torno ! uma multidão de o#3etos, todos ou quase todos querendo nos comandar. ;ma das grandes diferenças entre o mundo de h* cinqXenta anos e o mundo de agora ! esse papel de comando atri#u$do aos o#3etos. ' são o#3etos carregando uma ideologia que lhes ! entregue pelos homens do )ar7etin3 e do desi3n ao serviço do mercado. 0o impe!ia"ismo ao mundo de 1oGe & capitalismo concorrencial #uscou a unificação do planeta, mas apenas o#teve uma unificação relativa, aprofundada so# o capitalismo monopolista graças aos progressos t!cnicos alcançados nos "ltimos dois s!culos e possi#ilitando uma transição para a situação atual de neoli#eralismo. gora se pode, de alguma forma, falar numa vontade de unificação a#soluta alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produ(indo em toda parte situações nas quais tudo, isto !, coisas, homens, id!ias, comportamentos, relações, lugares, ! atingido. 'm cada um desses momentos, são diferentes as relações entre o indiv$duo e a sociedade, entre o mercado e a solidariedade. t! recentemente, havia a #usca de um relativo reforço m"tuo das id!ias e da realidade de autonomia individual 8com a vontade de produção de indiv$duos fortes e de cidadãos9 e da id!ia e da realidade de uma sociedade solid*ria 8com o 'stado crescentemente empenhado em e%ercer uma regulação redistri#utiva9. s situações eram diferentes segundo os continentes e pa$ses e, se o quadro acima referido não constitu$a uma realidade completa, essa era uma aspiração generali(ada. o longo da história passada do capitalismo, paralelamente à evolução das t!cnicas, id!ias morais e filosóficas se difundem, assim como a sua reali(ação pol$tica e 3ur$dica, de modo que os costumes, as leis, os regulamentos, as instituições 3ur$dicas e estatais #uscavam reali(ar, ao mesmo tempo, mais controle social e, tam#!m, mais controle so#re as ações individuais, limitando a ação daqueles vetores que, dei%ados so(inhos, levariam à eclosão de ego$smos, ao e%erc$cio da força #ruta e a desn$veis sociais cada ve( mais agudos. Na fase atual de glo#ali(ação, o uso das t!cnicas conhece uma importante mudança qualitativa e quantitativa. 7assamos de um uso 5imperialista6, que era, tam#!m, um uso desigual e com#inado, segundo os continentes e lugares, a uma presença o#rigatória em todos os pa$ses dos sistemas t!cnicos hegem-nicos, graças ao papel unificador das t!cnicas de informação. & uso imperialista das t!cnicas permitia, pela via da pol$tica, uma certa conviv4ncia de n$veis diferentes de formas t!cnicas e de formas organi(acionais nos diversos imp!rios. /al situação permanece praticamente por um s!culo, sem que as diferenças de poder entre os imp!rios fosse causa de conflitos dur*veis entre eles e dentro deles. & próprio imperialismo era 5diferencial6, tal caracter$stica sendo conseqX4ncia da su#ordinação do mercado à pol$tica, se3a a pol$tica

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internacional, se3a a pol$tica interior a cada pa$s ou a cada con3unto imperial. Jom a glo#ali(ação, as t!cnicas se tornam mais efica(es, sua presença se confunde com o ec"meno, seu encadeamento praticamente espontâneo se reforça e, ao mesmo tempo, o seu uso escapa, so# muitos aspectos, ao dom$nio da pol$tica e se torna su#ordinado ao mercado. G"o+a"ita!ismos e tota"ita!ismos Jomo as t!cnicas hegem-nicas atuais são, todas elas, filhas da ci4ncia, e como sua utili(ação se d* ao serviço do mercado, esse am*lgama produ( um ide*rio da t!cnica e do mercado que ! santificado pela ci4ncia, considerada, ela própria, infal$vel. 'ssa, ali*s, ! uma das fontes do poder do pensamento "nico. /udo o que ! feito pela mão dos vetores fundamentais da glo#ali(ação parte de id!ias cient$ficas, indispens*veis a produção, ali*s acelerada, de novas realidades, de tal modo que as ações assim criadas se impõem como soluções "nicas. Nas condições atuais, a ideologia ! reforçada de uma forma que seria imposs$vel ainda h* um quarto de s!culo, 3* que, primeiro as id!ias e, so#retudo, as ideologias se transformam em situações, enquanto as situações se tornam entre si mesmas 5id!ias6, 5id!ias do que fa(er6, 5ideologia6, e impregnam, de volta, a ci4ncia cada ve( mais redutora e redu(ida, mais distante da #usca da 5verdade6. 1esse con3unto de vari*veis decorrem, tam#!m, outras condições da vida contemporânea, fundadas na matemati(ação da e%ist4ncia, carregando consigo uma crescente sedução pelos n"meros, um uso m*gico das estat$sticas. ) tam#!m a partir desse quadro que se pode interpretar a seriali(ação de que falava M.. 7. Satre em 8uestions de )5thode. !riti9ue de la :aison dialecti9ue , >?GB. 'm tais condições, instalam.se a competitividade, o salve.se.quem.puder, a volta ao cani#alismo, a supressão da solidariedade, acumulando dificuldades para um conv$vio social saud*vel e para o e%erc$cio da democracia. 'nquanto esta ! redu(ida a uma democracia de mercado e amesquinhada como eleitoralismo, isto !, consumo de eleições, as 5pesquisas6 perfilam.se como um aferidor quantitativo da opinião, da qual aca#a por ser uma das formadoras, levando tudo isso ao empo#recimento do de#ate de id!ias e a própria morte da pol$tica. Na esfera da socia#ilidade, levantam.se utilitarismos como regra de vida mediante a e%acer#ação do consumo, dos narcisismos, do imediatismo, do ego$smo, do a#andono da solidariedade, com a implantação, galopante, de uma !tica pragm*tica individualista. ) dessa forma que a sociedade e os indiv$duos aceitam dar adeus à generosidade, à solidariedade e a emoção com a entroni(ação do reino do c*lculo 8a partir do c*lculo econ-mico9 e da competitividade. São, todas essas, condições para a difusão de um pensamento e de uma pr*tica totalit*rias. 'sses totalitarismos se dão na esfera do tra#alho como, por e%emplo, num mundo agr$cola moderni(ado onde os atores su#alterni(ados convivem, como num e%!rcito, su#metidos a uma disciplina militar. & totalitarismo não !, por!m, limitado à esfera do tra#alho, escorrendo para a esfera pol$tica e das relações interpessoais e invadindo o próprio mundo da pesquisa e do ensino universit*rios, mediante um cerco às id!ias cada ve( menos dissimulado. Ja#e.nos, mesmo, indagar diante dessas novas realidades so#re a pertin4ncia da presente utili(ação de concepções 3* ultrapassadas de democracia, opinião p"#lica, cidadania, conceitos que necessitam urgente revisão, so#retudo nos lugares onde essas categorias nunca foram claramente definidas nem totalmente

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e%ercitadas. Nossa grande tarefa, ho3e, ! a ela#oração de um novo discurso, capa( de desmitificar a competitividade e o consumo e de atenuar, senão desmanchar, a confusão dos esp$ritos.

H( A violência estrutural e a perversidade sistêmica
Iala.se, ho3e, muito em viol4ncia e ! geralmente admitido que ! quase um estado, uma situação caracter$stica do nosso tempo. /odavia, dentre as viol4ncias de que se fala, a maior parte ! so#retudo formada de viol4ncias funcionais derivadas, enquanto a atenção ! menos voltada para o que preferimos chamar de viol4ncia estrutural, que est* na #ase da produção das outras e constitui a viol4ncia central original. 7or isso, aca#amos por apenas condenar as viol4ncias perif!ricas particulares. o nosso ver, a viol4ncia estrutural resulta da presença e das manifestações con3untas, nessa era da glo#ali(ação, do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e da pot4ncia em estado puro, cu3a associação condu( à emerg4ncia de novos totalitarismos e permite pensar que vivemos numa !poca de glo#alitarismo muito mais que de glo#ali(ação. 7aralelamente, evolu$mos de situações em que a perversidade se manifestava de forma isolada para uma situação na qual se instala um sistema da perversidade, que, ao mesmo tempo, ! resultado e causa da legitimação do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e da pot4ncia em estado puro, consagrando, afinal, o fim da !tica e o fim da pol$tica. O din1ei!o em estado pu!o Jom a glo#ali(ação impõe.se uma nova noção de rique(a, de prosperidade e de equil$#rio macroecon-mico, conceitos fundados no dinheiro em estado puro e aos quais todas as economias nacionais são chamadas a se adaptar. noção e a realidade da d$vida internacional tam#!m derivam dessa mesma ideologia. & consumo, tornado um denominador comum para todos os indiv$duos, atri#ui um papel central ao dinheiro nas suas diferentes manifestaçõesO 3untos, o dinheiro e o consumo aparecem como reguladores da vida individual. & novo dinheiro torna.se onipresente. Iundado numa ideologia, esse dinheiro sem medida se torna a medida geral, reforçando a vocação para considerar a acumulação como uma meta em si mesma. Na realidade, o resultado dessa #usca tanto pode levar à acumulação 8para alguns9 como o endividamento 8para a maioria9. Nessas condições, firma.se um c$rculo vicioso dentro do qual o medo e o desamparo se criam mutuamente e a #usca desenfreada do dinheiro tanto ! uma causa como uma conseqX4ncia do desamparo e do medo. & resultado o#3etivo ! a necessidade, real ou imaginada, de #uscar mais dinheiro, e, como este, em seu estado puro, ! indispens*vel à e%ist4ncia das pessoas, das empresas e das nações, as formas pelas quais ele ! o#tido, se3am quais forem, 3* se encontram antecipadamente 3ustificadas. A competiti idade em estado pu!o necessidade de capitali(ação condu( a adotar como regra a necessidade de competir 27

em todos os planos. 1i(.se que as nações necessitam competir entre elas Uo que, todavia, ! duvidoso. e as empresas certamente competem por um quinhão sempre maior no mercado. Mas a esta#ilidade de uma empresa pode depender de uma pequena ação desse mercado. so#reviv4ncia est* sempre por um fio. Num mundo glo#ali(ado, regiões e cidades são chamadas a competir e, diante das regras atuais da produção e dos imperativos atuais do consumo, a competitividade se torna tam#!m uma regra da conviv4ncia entre as pessoas. necessidade de competir !, ali*s, legitimada por uma ideologia largamente aceita e difundida, na medida em que a deso#edi4ncia às suas regras implica perder posições e, at! mesmo, desaparecer do cen*rio econ-mico. Jriam.se, deste modo, novos 5valores6 em todos os planos, uma nova 5!tica6 pervasiva e operacional face aos mecanismos da glo#ali(ação. Joncorrer e competir não são a mesma coisa. concorr4ncia pode at! ser saud*vel sempre que a #atalha entre agentes, para melhor empreender uma tarefa e o#ter melhores resultados finais, e%ige o respeito a certas regras de conviv4ncia preesta#elecidas ou não. M* a competitividade se funda na invenção de novas armas de luta, num e%erc$cio em que a "nica regra ! a conquista da melhor posição. competitividade ! uma esp!cie de guerra em que tudo vale e, desse modo, sua pr*tica provoca um afrou%amento dos valores morais e um convite ao e%erc$cio da viol4ncia. A potência em estado pu!o 7ara e%ercer a competitividade em estado puro e o#ter o dinheiro em estado puro, o poder 8a pot4ncia9 deve ser tam#!m e%ercido em estado puro. & uso da força aca#a se tornando uma necessidade. Não h* outro telos, outra finalidade que o próprio uso da força, 3* que ela ! indispens*vel para competir e fa(er mais dinheiroO isso vem acompanhado pela desnecessidade de responsa#ilidade perante o outro, a coletividade pró%ima e a humanidade em geral. 7or e%emplo, a id!ia de que o desemprego ! o resultado de um 3ogo simplório entre formas t!cnicas e decisões microecon-micas das empresas ! uma simplificação, originada dessa confusão, como se a nação não devesse solidariedade a cada um dos seus mem#ros. & a#andono da id!ia de solidariedade est* por tr*s desse entendimento da economia e condu( ao desamparo em que vivemos ho3e. Mamais houve na história um per$odo em que o medo fosse tão generali(ado e alcançasse todas as *reas da nossa vidaD medo do desemprego, medo da fome, medo da viol4ncia, medo do outro. /al medo se espalha e se aprofunda a partir de uma viol4ncia difusa, mas estrutural, t$pica do nosso tempo, cu3o entendimento ! indispens*vel para compreender, de maneira mais adequada, questões como a d$vida social e a viol4ncia funcional, ho3e tão presentes no cotidiano de todos. A pe! e!sidade sistêmica Se3a qual for o ângulo pelo qual se e%aminem as situações caracter$sticas do per$odo atual, a realidade pode ser vista como uma f*#rica de perversidade. fome dei%a de ser um fato isolado ou ocasional e passa a ser um dado generali(ado e permanente. 'la atinge CBB milhões de pessoas espalhadas por todos os continentes, sem e%ceção. Vuando os progressos da medicina e da informação deviam autori(ar uma redução su#stancial dos pro#lemas de sa"de, sa#emos que >@

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milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano de vida. 1ois #ilhões de pessoas so#revivem sem *gua pot*vel. Nunca na história houve um tão grande n"mero de deslocados e refugiados. & fen-meno dos sem.teto, curiosidade na primeira metade do s!culo RR, ho3e ! um fato #anal, presente em todas as grandes cidades do mundo. & desemprego ! algo tornado comum. o mesmo tempo, ficou mais dif$cil do que antes atri#uir po#re(a tam#!m aumenta. No fim educação de qualidade e, mesmo, aca#ar com o analfa#etismo.

do s!culo RR havia mais GBB milhões de po#res do que em >?GBO e >,@ #ilhão de pessoas ganham menos de um dólar por dia. /ais n"meros podem ser, na verdade, ampliados porque, ainda aqui, os m!todos quantitativos da estat$stica enganamD ser po#re não ! apenas ganhar menos do que uma soma ar#itrariamente fi%adaO ser po#re ! participar de uma situação estrutural, com uma posição relativa inferior dentro da sociedade como um todo. ' essa condição se amplia para um n"mero cada ve( maior de pessoas. & fato, por!m, ! que a po#re(a tanto quanto o desemprego agora são considerados como algo 5natural6, inerente ao seu próprio processo. Munto ao desemprego e à po#re(a a#soluta, registre.se o empo#recimento relativo de camadas cada ve( maiores graças à deterioração do valor do tra#alho. No M!%ico, a parte de tra#alho na renda nacional cai de AGY na d!cada de >?HB para EAY em >??E. =ivemos num mundo de e%clusões, agravadas pela desproteção social, apan*gio do modelo neoli#eral, que ! tam#!m, criador de insegurança. Na verdade, a perversidade dei%a de se manisfestar por fatos isolados, atri#u$dos a distorções da personalidade, para se esta#elecer como um sistema. o nosso ver, a causa essencial da perversidade sist4mica ! a instituição, por lei geral da vida social, da competitividade como regra a#soluta, uma competitividade que escorre so#re todo o edif$cio social. & outro, se3a ele empresa, instituição ou indiv$duo, aparece como um o#st*culo à reali(ação dos fins de cada um e deve ser removido, por isso sendo considerado uma coisa. 1ecorrem da$ a cele#ração dos ego$smos, o alastramento dos narcisismos, a #anali(ação da guerra de todos contra todos, com a utili(ação de qualquer que se3a o meio para o#ter o fim colimado, isto !, competir e, se poss$vel, vencer. 1a$ a difusão, tam#!m generali(ada, de outro su#produto da competitividade, isto !, a corrupção. 'sse sistema da perversidade inclui a morte da 7ol$tica 8com um 7 mai"sculo9, 3* que a condução do processo pol$tico passa a ser atri#uto das grandes empresas. Munte.se a isso o processo de conformação da opinião pelas m$dias, um dado importante no movimento de alienação tra(ido com a su#stituição do de#ate civili(atório pelo discurso "nico do mercado. 1a$ o ensinamento e o aprendi(ado de comportamentos dos quais estão ausentes o#3etivos final$sticos e !ticos. ssim ela#orado, o sistema da perversidade legitima a preemin4ncia de uma ação hegem-nica mas sem responsa#ilidade, e a instalação sem contrapartida de uma ordem entrópica, com a produção 5natural6 da desordem. 7ara tudo isso, tam#!m contri#ui o esta#elecimento do imp!rio do consumo, dentro do qual se instalam consumidores mais que perfeitos 8M. Santos, 1 espaço do cidadão, >?CC9, levados à neglig4ncia em relação à cidadania e seu corol*rio, isto !, o menospre(o quanto à li#erdade, cu3o culto ! su#stitu$do pela preocupação com a incolumidade. 'sta reacende ego$smos e ! um dos fermentos da que#ra da solidariedade entre pessoas, classes e regiões. 2ncluam.se tam#!m, nessa lista dos processos caracter$sticos da instalação do sistema da perversidade, a ampliação das desigualdades de todo g4neroD interpessoais, de classes, regionais, internacionais. ]s antigas desigualdades, somam.se novas.

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&s pap!is dominantes, legitimados pela ideologia e pela pr*tica da competitividade, são a mentira, com o nome de segredo da marcaO o engodo, com o nome de mar[etingO a dissimulação e o cinismo, com os nomes de t*tica e estrat!gia. ) uma situação na qual se produ( a glorificação da esperte(a, negando a sinceridade, e a glorificação da avare(a, negando a generosidade. 1esse modo, o caminho fica a#erto ao a#andono das solidariedades e ao fim da !tica, mas, tam#!m, da pol$tica. 7ara o triunfo das novas virtudes pragm*ticas, o ideal de democracia plena ! su#stitu$do pela construção de uma democracia de mercado, na qual a distri#uição do poder ! tri#ut*ria da reali(ação dos fins "ltimos do próprio sistema glo#alit*rio. 'stas são as ra(ões pelas quais a vida normal de todos os dias est* su3eita a uma viol4ncia estrutural que, ali*s, ! a mãe de todas as outras viol4ncias.

-)( #a política dos $stados % política das empresas
Iaçamos um regresso, muito #reve, ao começo da história humana, quando o homem em sociedade, relacionando.se diretamente com a nature(a, constrói a história. Nesse começo dos tempos, os laços entre território, pol$tica, economia, cultura e linguagem eram transparentes. Nas sociedades que os antropólogos europeus e norte.americanos orgulhosamente chamaram de primitivas, a relação entre setores da vida social tam#!m se dava diretamente. Não havia praticamente intermediações. 7oder.se.ia considerar que e%istia uma territorialidade genu$na. cultura, e a pol$tica tam#!m estava com ele intimamente relacionada. :avia, por conseguinte, uma territorialidade a#soluta, no sentido que, em todas as manifestações essenciais de sua e%ist4ncia, os moradores pertenciam àquilo que lhes pertencia, isto !, o território. 2sso criava um sentido de identidade entre as pessoas e o seu espaço geogr*fico, que lhes atri#u$a, em função da produção necess*ria à so#reviv4ncia do grupo, uma noção particular de limites, acarretando, paralelamente, uma compartimentação do espaço, o que tam#!m produ(ia uma id!ia de dom$nio. 7ara manter a identidade e os limites, era preciso ter clara essa id!ia de dom$nio, de poder. pol$tica do território tinha as mesmas #ases que a pol$tica da economia, da cultura, da linguagem, formando um con3unto indissoci*vel. Jriava.se, paralelamente, a id!ia de comunidade, um conte%to limitado no espaço. $istema t>cnicosD sistemas ;i"os/;icos /oda relação do homem com a nature(a ! portadora e produtora de t!cnicas que se foram enriquecendo, diversificando e avolumando ao longo do tempo. Nos "ltimos s!culos, conhecemos um avanço dos sistemas t!cnicos, at! que, no s!culo R=222, surgem as t!cnicas das m*quinas, que mais tarde vão se incorporar ao solo como próteses, proporcionando ao homem um menor esforço na produção, no transporte e nas comunicações, mudando a face da /erra, alterando as relações entre pa$ses e entre sociedades e indiv$duos. s t!cnicas oferecem respostas à vontade de evolução dos homens e, definidas pelas possi#ilidades que criam, são a marca de cada per$odo da história. vida assim reali(ada por meio dessas t!cnicas !, pois, cada ve( menos su#ordinada 30 economia e a cultura dependiam do território, a linguagem era uma emanação do uso do território pela economia e pela

ao aleatório e cada ve( mais e%ige dos homens comportamentos previs$veis. 'ssa previsi#ilidade de comportamento assegura, de alguma maneira, uma visão mais racional do mundo e tam#!m dos lugares que condu( a uma organi(ação sociot!cnica do tra#alho, do território e do fen-meno do poder. 1a$ o desencantamento progressivo do mundo. No s!culo R=222, aconteceram dois fen-menos e%tremamente importantes. ;m ! a produção das t!cnicas das m*quinas, que revalori(am o tra#alho e o capital, requalificam os territórios, permitem a conquista de novos espaços e a#rem hori(ontes para a humanidade. 'sse s!culo marca o reforço do capitalismo e tam#!m a entrada em cena do homem como um valor a ser considerado. & nascimento da t!cnica das m*quinas, o reforço da condição t!cnica na vida social e individual e as novas concepções so#re o homem se corporificam com as id!ias filosóficas que se iriam tornar forças da pol$tica. 'ste ! um outro dado importante. & s!culo R=222 produ(iu os enciclopedistas e a revolução americana e a Kevolução Irancesa, respostas pol$ticas às id!ias filosóficas. Num momento em que o capitalismo tam#!m se reforçava, se as t!cnicas houvessem sido entregues inteiramente às mãos capitalistas sem que, pelo outro lado, surgissem as id!ias filosóficas 8que tam#!m eram id!ias morais9, o mundo teria se organi(ado de forma diferente. Se ao lado desses progressos da t!cnica a serviço da produção e do capitalismo não houvesse a progressão das id!ias, ter$amos tido uma eclosão muito maior do utilitarismo, com uma pr*tica mais avassaladora do lucro e da concorr4ncia. o contr*rio, foi esta#elecida a possi#ilidade de enriquecer moralmente o indiv$duo. respons*vel. mesma !tica glorificava o indiv$duo respons*vel e a coletividade m#os eram respons*veis. 2ndiv$duo e coletividade eram chamados a criar 3untos um

enriquecimento rec$proco que iria apontar para a #usca da democracia, por interm!dio do 'stado Nacional, do 'stado de 1ireito e do 'stado Social, e para a produção da cidadania plena, reivindicação que se foi afirmando ao longo desses s!culos. Jertamente a cidadania nunca chegou a ser plena, mas quase alcançou esse est*gio em certos pa$ses, durante os chamados trinta anos gloriosos depois do fim da Segunda 0uerra Mundial. ' essa quase plenitude era paralela à quase plenitude da democracia. cidadania plena ! um dique contra o capital pleno.

TecnociênciaD 3"o+a"i,a&'o e 1ist/!ia sem sentido glo#ali(ação marca um momento de ruptura nesse processo de evolução social e moral que se vinha fa(endo nos s!culos precedentes. ) ir-nico recordar que o progresso t!cnico aparecia, desde os s!culos anteriores, como uma condição para reali(ar essa sonhada glo#ali(ação com a mais completa humani(ação da vida no planeta. Iinalmente, quando esse progresso t!cnico alcança um n$vel superior, a glo#ali(ação se reali(a, mas não a serviço da humanidade. glo#ali(ação mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva do cada um por si e, como se volt*ssemos a ser animais da selva, redu( as noções de moralidade p"#lica e particular a um quase nada. & per$odo atual tem como uma das #ases esse casamento entre ci4ncia e t!cnica, essa tecnoci4ncia, cu3o uso ! condicionado pelo mercado. 7or conseguinte, trata.se de uma t!cnica e de uma ci4ncia seletivas. Jomo, freqXentemente, a ci4ncia passa a produ(ir aquilo que interessa ao mercado, e não à humanidade em geral, o progresso t!cnico e cient$fico não ! sempre um progresso

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moral. 7ior, talve(, do que issoD a aus4ncia desse progresso moral e tudo o que ! feito a partir dessa aus4ncia vai pesar fortemente so#re o modelo de construção histórica dominante no "ltimo quartel do s!culo RR. 'ssa glo#ali(ação tem de ser encarada a partir de dois processos paralelos. 1e um lado, d*.se a produção de uma materialidade, ou se3a, das condições materiais que nos cercam e que são a #ase da produção econ-mica, dos transportes e das comunicações. 1e outro h* a produção de novas relações sociais entre pa$ses, classes e pessoas. nova situação, conforme 3* acentuamos, vai se alicerçar em duas colunas centrais. ;ma tem como #ase o dinheiro e a outra se funda na informação. 1entro de cada pa$s, so#retudo entre os mais po#res, informação e dinheiro mundiali(ados aca#am por se impor como algo aut-nomo face à sociedade e, mesmo, à economia, tornando.se um elemento fundamental da produção, e ao mesmo tempo da geopol$tica, isto !, das relações entre pa$ses e dentro de cada nação. informação ! centrali(ada nas mãos de um n"mero e%tremamente limitado de firmas. :o3e, o essencial do que no mundo se l4, tanto em 3ornais como em livros, ! produ(ido a partir de meia d"(ia de empresas que, na realidade, não transmitem novidades, mas as reescrevem de maneira espec$fica. pesar de as condições t!cnicas da informação permitirem que toda a humanidade conheça tudo que o mundo !, aca#amos na realidade por não sa#4.lo, por causa dessa intermediação deformante. & mundo se torna fluido, graças à informação, mas tam#!m ao dinheiro. /odos os conte%tos se intrometem e superpõem, corporificando um conte%to glo#al, no qual as fronteiras se tornam porosas para o dinheiro e para a informação. l!m disso, o território dei%a de ter fronteiras r$gidas, o que leva ao enfraquecimento e à mudança de nature(a dos 'stados nacionais. & discurso que ouvimos todos os dias, para nos fa(er crer que deve haver menos 'stado, vale.se dessa mencionada porosidade, mas sua #ase essencial ! o fato de que os condutores da glo#ali(ação necessitam de um 'stado fle%$vel a seus interesses. s privati(ações são a mostra de que o capital se tornou devorante, guloso ao e%tremo, e%igindo sempre mais, querendo tudo. l!m disso, a instalação desses capitais glo#ali(ados supõe que o território se adapte às suas necessidades de fluide(, investindo pesadamente para alterar a geografia das regiões escolhidas. 1e tal forma, o 'stado aca#a por ter menos recursos para tudo o que ! social, so#retudo no caso das privati(ações caricatas, como no modelo #rasileiro, que financia as empresas estrangeiras candidatas à compra do capital social nacional. Não ! que o 'stado se ausente ou se torne menor. 'le apenas se omite quanto ao interesse das populações e se torna mais forte, mais *gil, mais presente, ao serviço da economia dominante. As emp!esas 3"o+ais e a mo!te da po"Ftica pol$tica agora ! feita no mercado. Só que esse mercado glo#al não e%iste como ator, mas como uma ideologia, um s$m#olo. &s atores são as empresas glo#ais, que não t4m preocupações !ticas, nem final$sticas. 1ir.se.* que, no mundo da competitividade, ou se ! cada ve( mais individualista, ou se desaparece. 'ntão, a própria lógica de so#reviv4ncia da empresa glo#al sugere que funcione sem nenhum altru$smo. Mas, se o 'stado não pode ser solid*rio e a empresa não pode ser altru$sta, a sociedade como um todo não tem quem a valha. gora se fala muito num

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terceiro setor, em que as empresas privadas assumiriam um tra#alho de assist4ncia social antes deferido ao poder p"#lico. Ja#er.lhes.ia, desse modo, escolher quais os #enefici*rios, privilegiando uma parcela da sociedade e dei%ando a maior parte de fora. :averia frações do território e da sociedade a serem dei%adas por conta, desde que não convenham ao c*lculo das firmas. 'ssa 5pol$tica6 das empresas eqXivale à decretação de morte da 7ol$tica. pol$tica, por definição, ! sempre ampla e supõe uma visão de con3unto. 'la apenas se reali(a quando e%iste a consideração de todos e de tudo. Vuem não tem visão de con3unto não chega a ser pol$tico. ' não h* pol$tica apenas para os po#res, como não h* apenas para os ricos. eliminação da po#re(a ! um pro#lema estrutural. Iora da$ o que se pretende ! encontrar formas de proteção a certos po#res e certos ricos, escolhidos segundo os interesses dos doadores. Mas a pol$tica tem de cuidar do con3unto de realidades e do con3unto de relações. Nas condições atuais, e de um modo geral, estamos assistindo à não.pol$tica, isto !, à pol$tica feita pelas empresas, so#retudo as maiores. Vuando uma grande empresa se instala, chega com suas normas, quase todas e%tremamente r$gidas. Jomo essas normas r$gidas são associadas ao uso considerado adequado das t!cnicas correspondentes, o mundo das normas se adensa porque as t!cnicas em si mesmas tam#!m são normas. 7elo fato de que as t!cnicas atuais são solid*rias, quando uma se impõe cria.se a necessidade de tra(er outras, sem as quais aquela não funciona #em. Jada t!cnica propõe uma maneira particular de comportamento, envolve suas próprias regulamentações e, por conseguinte, tra( para os lugares novas formas de relacionamento. & mesmo se d* com as empresas. ) assim que tam#!m se alteram as relações sociais dentro de cada comunidade. Muda a estrutura do emprego, assim como as outras relações econ-micas, sociais, culturais e morais dentro de cada lugar, afetando igualmente o orçamento p"#lico, tanto na ru#rica da receita como no cap$tulo da despesa. ;m pequeno n"mero de grandes empresas que se instala acarreta para a sociedade como um todo um pesado processo de desequil$#rio. /odavia, mediante o discurso oficial, tais empresas são apresentadas como salvadoras dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e modernidade. 1a$ a crença de sua indispensa#ilidade, fator da presente guerra entre lugares e, em muitos casos, de sua atitude de chantagem frente ao poder p"#lico, ameaçando ir em#ora quando não atendidas em seus reclamos. ssim, o poder p"#lico passa a ser su#ordinado, compelido, arrastado. ] medida que se impõe esse ne%o das grandes empresas, instala.se a semente da ingoverna#ilidade, 3* fortemente implantada no Lrasil, ainda que sua dimensão não tenha sido adequadamente avaliada. ] medida que os institutos encarregados de cuidar do interesse geral são enfraquecidos, com o a#andono da noção e da pr*tica da solidariedade, estamos, pelo menos a m!dio pra(o, produ(indo as precondições da fragmentação da desordem, claramente vis$veis no pa$s, por meio do comportamento dos territórios, isto !, da crise praticamente geral dos estados e dos munic$pios.

--( $m meio século, três definiç&es da pobre'a
&s pa$ses su#desenvolvidos conheceram pelo menos tr4s formas de po#re(a e, paralelamente, tr4s formas de d$vida social, no "ltimo meio s!culo. primeira seria o que ousadamente chamaremos de po're#a inclu;da, uma po#re(a acidental, às ve(es residual ou 33

sa(onal, produ(ida em certos momentos do ano, uma po#re(a intersticial e, so#retudo, sem vasos comunicantes 1epois chega uma outra, reconhecida e estudada como uma doença da civili(ação. 'ntão chamada de )ar3inalidade, tal po#re(a era produ(ida pelo processo econ-mico da divisão do tra#alho, internacional ou interna. dmitia.se que poderia ser corrigida, o que era #uscado pelas mãos dos governos. ' agora chegamos ao terceiro tipo, a po#re(a estrutural, que de um ponto de vista moral e pol$tico eqXivale a uma d$vida social. 'la ! estrutural e não mais local, nem mesmo nacionalO torna. se glo#ali(ada, presente em toda a parte do mundo. :* uma disseminação planet*ria e uma produção glo#ali(ada da po#re(a, ainda que este3a mais presente nos pa$ses 3* po#res. Mas ! tam#!m uma produção cient$fica, portanto volunt*ria da d$vida social, para a qual, na maior parte do planeta, não se #uscam rem!dios. A po+!e,a Binc"uFdaC ntes, as situações de po#re(a podiam ser definidas como reveladoras de uma po#re(a acidental, residual, estacional, intersticial, vista como desadaptação local aos processos mais gerais de mudança, ou como inadaptação entre condições naturais e condições sociais. 'ra uma po#re(a que se produ(ia num lugar e não se comunicava a outro lugar. 'ntão, nem a cidade, nem o território, nem a própria sociedade eram e%clusiva ou ma3oritariamente movidos por drivin3 forces compreendidas pelo processo de racionali(ação. presença das t!cnicas, coladas ao território ou inerentes à vida social, era relativamente pouco e%pressiva, redu(indo, assim, a efic*cia dos processos racionali(adores porventura vigentes na vida econ-mica, cultural, social, e pol$tica. 1esse modo, a racionalidade da e%ist4ncia não constitu$a um dado essencial do processo histórico, limitando.se a alguns aspectos isolados da socia#ilidade. produção da po#re(a iria #uscar suas causas em outros fatores. Na situação que estamos descrevendo, as soluções ao pro#lema eram privadas, assistencialistas, locais, e a po#re(a era freqXentemente apresentada como um acidente natural ou social. 'm um mundo onde o consumo ainda não constitu$a um ne%o social o#rigatório, a po#re(a era menos discriminatória. 1a$ poder.se falar de po#res inclu$dos. A ma!3ina"idade Num segundo momento, a po#re(a ! identificada como uma doença da civili(ação, cu3a produção acompanha o próprio processo econ-mico. gora, o consumo se impõe como um dado importante, pois constitui o centro da e%plicação das diferenças e da percepção das situações. 1ois fatores 3ogam um papel fundamental. mpliam.se, de um lado, as possi#ilidades de circulação, e de outro, graças às formas modernas de difusão das inovações, a informação constitui um dado revolucion*rio nas relações sociais. & radiotransistor era o grande s$m#olo. e novas definições. ampliação do consumo ganha, assim, as condições materiais e psicológicas necess*rias, dando à po#re(a novos conte"dos l!m da po#re(a a#soluta, cria.se e recria.se incessantemente uma po#re(a relativa, que leva a classificar os indiv$duos pela sua capacidade de consumir, e pela forma como o

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fa(em. & esta#elecimento de 5$ndices6 de po#re(a e mis!ria utili(a esses componentes. inda nesse segundo momento, que coincide com a generali(ação e o sucesso da id!ia de su#desenvolvimento e das teorias destinadas a com#at4.lo, os po#res eram chamados de marginais. 7ara superar tal situação, considerada indese3*vel, torna.se, tam#!m, generali(ada a preocupação dos governos e das sociedades nacionais, por meio de suas elites intelectuais e pol$ticas, com o fen-meno da po#re(a, o que leva a uma #usca de soluções de 'stado para esse pro#lema, considerado grave mas não insol"vel. & 4%ito do estado do #em.estar em tantos pa$ses da 'uropa ocidental e a not$cia das preocupações dos pa$ses socialistas para com a população em geral funcionavam com inspiração aos pa$ses po#res, todos comprometidos, ao menos ideologicamente, com a luta contra a po#re(a e suas manifestações, ainda que não lhes fosse poss$vel alcançar a reali(ação do estado de #em.estar. Mesmo em pa$ses como o nosso, o poder p"#lico ! forçado a encontrar fórmulas, sa$das, arremedos de solução. :avia uma certa vergonha de não enfrentar a questão. A po+!e,a est!utu!a" 3"o+a"i,ada & "ltimo per$odo, no qual nos encontramos, revela uma po#re(a de novo tipo, uma po#re(a estrutural glo#ali(ada, resultante de um sistema de ação deli#erada. '%aminando o processo pelo qual o desemprego ! gerado e a remuneração do emprego se torna cada ve( pior, ao mesmo tempo em que o poder p"#lico se retira das tarefas de proteção social, ! l$cito considerar que a atual divisão 5administrativa6 do tra#alho e a aus4ncia deli#erada do 'stado de sua missão social de regulação este3am contri#uindo para uma produção cient$fica, glo#ali(ada e volunt*ria da po#re(a. gora, ao contr*rio das duas fases anteriores, trata.se de uma po#re(a pervasiva, generali(ada, permanente, glo#al. 7ode.se, de algum modo, admitir a e%ist4ncia de algo como um plane3amento centrali(ado da po#re(a atualD ainda que seus autores se3am muitos, o seu motor essencial ! o mesmo dos outros processos definidores de nossa !poca. po#re(a atual resulta da converg4ncia de causas que se dão em diversos n$veis, e%istindo como vasos comunicantes e como algo racional, um resultado necess*rio do presente processo, um fen-meno inevit*vel, considerado at! mesmo um fato natural. lcançamos, assim, uma esp!cie de naturali(ação da po#re(a, que seria politicamente produ(ida pelos atores glo#ais com a cola#oração consciente dos governos nacionais e, contrariamente às situações precedentes, com a conviv4ncia de intelectuais contratados U ou apenas contratados U para legitimar essa naturali(ação. Nessa "ltima fase, os po#res não são inclu$dos nem marginais, eles são e%clu$dos. divisão do tra#alho era, at! recentemente, algo mais ou menos espontâneo. gora não. :o3e, ela o#edece a cânones cient$ficos U por isso a consideramos uma divisão do tra#alho administrada U e ! movida por um mecanismos que tra( consigo a produção das d$vidas sociais e a disseminação da po#re(a numa escala glo#al. Sa$mos de uma po#re(a para entrar em outra. 1ei%a.se de ser po#re em um lugar para ser po#re em outro. Nas condições atuais, ! uma po#re(a quase sem rem!dio, tra(ida não apenas pela e%pansão do desemprego, como, tam#!m, pela redução do valor do tra#alho. ) o caso, por e%emplo, dos 'stados ;nidos, apresentado como o pa$s que tem resolvido um pouco menos mal a questão do desemprego, mas onde o valor m!dio do sal*rio caiu. ' essa queda

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do desemprego não atinge igualmente toda a população, porque os negros continuam sem emprego, em proporção talve( pior do que antes, e as populações de origem latina se encontram na #ase da escala salarial. 'ssa produção maciça da po#re(a aparece como um fen-meno #anal. ;ma das grande diferenças do ponto de vista !tico ! que a po#re(a de agora surge, impõe.se e e%plica.se como algo natural e inevit*vel. Mas ! uma po#re(a produ(ida politicamente pelas empresas e instituições glo#ais. 'stas, de um lado, pagam para criar soluções locali(adas, parciali(adas, segmentadas, como ! o caso do Lanco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, financia programas de atenção aos po#res, querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos, quando, estruturalmente, ! o grande produtor da po#re(a. ativa dos governos nacionais. =e3am, então, a diferença entre o uso da palavra po#re(a e da e%pressão d$vida social nesses cinqXenta anos. &s po#res, isto !, aqueles que são o o#3eto da d$vida social, foram 3* inclu;dos e, depois, )ar3inali#ados, e aca#am por ser o que ho3e são, isto !, e<clu;dos. 'sta e%clusão atual, com a produção de d$vidas sociais, o#edece a um processo racional, uma racionalidade sem ra(ão, mas que comanda as ações hegem-nicas e arrasta as demais ações. &s e%clu$dos são o fruto dessa racionalidade. 7or a$ se v4 que a questão capital ! o entendimento do nosso tempo, sem o qual ser* imposs$vel construir o discurso da li#eração. 'ste, desde que se3a simples e vera(, poder* ser a #ase intelectual da pol$tica. ' isso ! central no mundo de ho3e, um mundo no qual nada de importante se fa( sem discurso. O pape" dos inte"ectuais & terr$vel ! que, nesse mundo de ho3e, aumenta o n"mero de letrados e diminui o de intelectuais. Não ! este um dos dramas atuais da sociedade #rasileiraN /ais letrados, equivocadamente assimilados aos intelectuais, ou não pensam para encontrar a verdade, ou, encontrando a verdade, não a di(em. Nesse caso, não se podem encontrar com o futuro, renegando a função principal da intelectualidade, isto !, o casamento permanente com o porvir, por meio da #usca incansada da verdade. ssim como o território ! ho3e um território nacional da economia internacional 8M. Santos, $ nature#a do espaço, >??G9, a po#re(a, ho3e, ! a po#re(a nacional da ordem internacional. 'ssa realidade o#riga a discutir algumas das soluções propostas para o pro#lema, como, por e%emplo, quando se imagina poder compensar uma pol$tica neoli#eral no plano nacional com a possi#ilidade de uma pol$tica social no plano su#nacional. No caso #rasileiro, ! lament*vel que pol$ticos e partidos ditos de esquerda se entreguem a uma pol$tica de direita, 3ogando para um lado a #usca de soluções estruturais e limitando.se a propor paliativos, que não são verdadeiramente transformadores da sociedade, porque serão inócuos, no m!dio e no longo pra(os. coerente com as demais pol$ticas 8econ-mica, territorial etc.9. Não se trata, pois, de dei%ar aos n$veis inferiores de governo U munic$pios, estados U a #usca de pol$ticas compensatórias para aliviar as conseqX4ncias da po#re(a, enquanto, ao n$vel s chamadas pol$ticas p"#licas, quando e%istentes, não podem su#stituir a pol$tica social, considerada um elenco catam.se, funcionalmente, manifestações da po#re(a, enquanto estruturalmente se cria a po#re(a ao n$vel do mundo. ' isso se d* com a cola#oração passiva ou

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federal, as ações mais dinâmicas estão orientadas cada ve( mais para a produção de po#re(a. & dese3*vel seria que, a partir de uma visão de con3unto, houvesse redistri#uição dos poderes e de recursos entre diversas esferas pol$tico.administrativas do poder, assim como uma redistri#uição das prerrogativas e tarefas entre as diversas escalas territoriais, at! mesmo com a reformulação da federação. Mas, para isso, ! necess*rio haver um pro3eto nacional, e este não pode ser uma formulação automaticamente derivada do pro3eto hegem-nico e limitativo da glo#ali(ação atual. tam#!m constituir uma promessa de reformulação da própria ordem mundial. Nas condições atuais, um grande complicador vem do fato de que a glo#ali(ação ! freqXentemente considerada uma fatalidade, #aseada num e%agerado encantamento pelas t!cnicas de ponta e com neglig4ncia quanto ao fator nacional, dei%ando.se de lado o papel do território utili(ado pela sociedade como um seu retrato dinâmico. /al visão do mundo, uma esp!cie de volta à velha noção de technolo3ical fi< 8uma "nica tecnologia efica(9, aca#a por consagrar a adoção de um ponto de partida fechado e por aceitar como indiscut$vel e inelut*vel o reino da necessidade, com a morte da esperança e da generosidade. '%clusão e d$vida social aparecem como se fossem algo fi%o, imut*vel, indeclin*vel, quando, como qualquer outra ordem, pode ser su#stitu$da por uma ordem mais humana. o contr*rio, partindo das realidades e das necessidades de cada nação, deve não só entend4.las, como

-?( O que fa'er com a soberania
1e que maneira a glo#ali(ação afeta a so#erania das nações, as fronteiras dos pa$ses e a governa#ilidade plena ! uma questão que, volta e meia, ocupa os esp$ritos, se3a teoricamente, se3a em função de fatos concretos. Nesse terreno, como em muitos outros, a produção de meias.verdades ! infinita e somos freqXentemente convocados a repeti.las sem maior an*lise do pro#lema. :*, mesmo, quem se arrisque a falar de desterritorialidade, fim das fronteiras, morte do 'stado. :* os otimistas e pessimistas, os defensores e os acusadores. /omemos o caso particular do Lrasil para discutir mais de perto essa questão, ainda que nossa realidade se aparente à de muitos outros pa$ses do planeta. Jom a glo#ali(ação, o que temos ! um território nacional da economia internacional, isto !, o território continua e%istindo, as normas p"#licas que o regem são da alçada nacional, ainda que as forças mais ativas do seu dinamismo atual tenham origem e%terna. 'm outras palavras, a contradição entre o e%terno e o interno aumentou. /odavia, ! o 'stado nacional, em "ltima an*lise, que det!m o monopólio das normas, sem as quais os poderosos fatores e%ternos perdem efic*cia. Sem d"vida, a noção de so#erania teve de ser revista, face aos sistemas transgressores de âm#ito planet*rio, cu3o e%erc$cio violento acentua a porosidade das fronteiras. 'stes, são, so#retudo, a informação e a finança, cu3a a fluide( se multiplica graças às maravilhas da t!cnica contemporânea. Mas ! um equ$voco pensar que a informação e a finança e%ercem sempre sua força sem encontrar contrapartida interna. 'sta depende de uma vontade pol$tica interior, capa( de evitar que a influ4ncia dos ditos fatores se3a a#soluta. o contr*rio do que se repete impunemente, o 'stado continua forte e a prova disso ! que nem as empresas transnacionais, nem as instituições supranacionais dispõem de força normativa para impor, so(inhas, dentro de cada território, sua vontade pol$tica ou econ-mica. 7or interm!dio de suas normas de produção, de tra#alho, de financiamento e de cooperação com outras firmas, as 37

empresas transnacionais arrastam outras empresas e instituições dos lugares onde se instalam, impondo.lhes comportamentos compat$veis com seus interesses. Mas a vida de uma empresa vai al!m do mero processo t!cnico de produção e alcança todo o entorno, a começar pelo próprio mercado e incluindo tam#!m as infra.estruturas geogr*ficas de apoio, sem o que ela não pode ter 4%ito. ) o 'stado nacional que, afinal, regula o mundo financeiro e constrói infra.estruturas, atri#uindo, assim, a grandes empresas escolhidas a condição de sua via#ilidade. & mesmo pode ser dito das instituições supranacionais 8IM2, Lanco Mundial, Nações ;nidas, &rgani(ação Mundial do Jom!rcio9, cu3os editos ou recomendações necessitam de decisões internas a cada pa$s para que tenham efic*cia. & Lanco Jentral !, freqXentemente, essa correia de transmissão 8situada acima do 7arlamento9 entre uma vontade pol$tica e%terna e uma aus4ncia de vontade interior. 7or isso, tornou. se corriqueiro entregar a direção desses #ancos centrais a personagens mais comprometidas com os postulados ideológicos da finança internacional do que com os interesses concretos das sociedades nacionais. Mas a cessão de so#erania não ! algo natural, inelut*vel, autom*tico, pois depende da forma como o governo de cada pa$s decide fa(er sua inserção no mundo da chamada glo#ali(ação. & 'stado altera suas regras e feições num 3ogo com#inado de influ4ncias e%ternas e realidades internas. Mas não h* apenas um caminho e este não ! o#rigatoriamente o da passividade. 7or conseguinte, não ! verdade que a glo#ali(ação impeça a constituição de um pro3eto nacional. Sem isso, os governos ficam à merc4 de e%ig4ncias e%ternas, por mais desca#idas que se3am. 'ste parece ser o caso do Lrasil atual. Jremos, todavia, que sempre ! tempo de corrigir os rumos equivocados e, mesmo num mundo glo#ali(ado, fa(er triunfar os interesses da nação.

I. 8 O T:RRITIRIO 0O 0I9J:IRO : 0A 2RAGM:9TAÇÃO

Int!odu&'o
No mundo da glo#ali(ação, o espaço geogr*fico ganha novos contornos, novas caracter$sticas, novas definições. ', tam#!m, uma nova importância, porque a efic*cia das ações est* estreitamente relacionada com a sua locali(ação. &s atores mais poderosos se reservam os melhores pedaços do território e dei%am o resto para os outros. Numa situação de e%trema competitividade como esta em que vivemos, os lugares repercutem os em#ates entre os diversos atores e o território como um todo revela os movimentos de 38

fundo da sociedade.

glo#ali(ação, com a proemin4ncia dos sistemas t!cnicos e da informação,

su#verte o antigo 3ogo da evolução territorial e impõe novas lógicas. &s territórios tendem a uma compartimentação generali(ada, onde se associam e se chocam o movimento geral da sociedade planet*ria e o movimento particular de cada fração, regional ou local, da sociedade nacional. 'sses movimentos são paralelos a um processo de fragmentação que rou#a às coletividades o comando do seu destino, enquanto os novos atores tam#!m não dispõem de instrumentos de regulação que interessem à sociedade em seu con3unto. agricultura moderna, cientifi(ada e mundiali(ada, tal como a assistimos se desenvolver em pa$ses como o Lrasil, constitui um e%emplo dessa tend4ncia e um dado essencial ao entendimento do que no pa$s constituem a compartimentação e a fragmentação atuais do território. &utro fen-meno a levar em conta ! o papel das finanças na reestruturação do espaço geogr*fico. & dinheiro usurpa em seu favor as perspectivas de fluide( do território, #uscando conformar so# seu comando as outras atividades. Mas o território não ! um dado neutro nem um ator passivo. 7rodu(.se uma verdadeira esqui(ofrenia, 3* que os lugares escolhidos acolhem e #eneficiam os vetores da racionalidade dominante mas tam#!m permitem a emerg4ncia de outras formas de vida. 'ssa esqui(ofrenia do território e do lugar tem um papel ativo na formação da consci4ncia. & espaço geogr*fico não apenas revela o transcurso da história como indica a seus atores o modo de nela intervir de maneira consciente.

-4( O espaço geográfico( compartimentação e fragmentação
o longo da história humana, olhado o planeta como um todo ou o#servado atrav!s dos continentes e pa$ses, o espaço geogr*fico sempre foi o#3eto de uma compartimentação. No começo havia ilhas de ocupação devidas à presença de grupos, tri#os, nações, cu3os espaços de vida formariam verdadeiros arquip!lagos. o longo do tempo e à medida do aumento das populações e do intercâm#io, essa trama foi se tornando cada ve( mais densa. :o3e, com a glo#ali(ação, pode.se di(er que a totalidade da superf$cie da /erra ! compartimentada, não apenas pela ação direta do homem, mas tam#!m pela sua presença pol$tica. Nenhuma fração do planeta escapa a essa influ4ncia. 1esse modo, a velha noção de ec"meno perde a antiga definição e ganha uma nova dimensãoO tanto se pode di(er que toda a superf$cie da /erra se tornou ec"meno quanto se pode afirmar que essa palavra 3* não se aplica apenas ao planeta efetivamente ha#itado. Jom a glo#ali(ação, todo e qualquer pedaço da superf$cie da /erra se torna funcional às necessidades, usos e apetites de 'stados e empresas nesta fase da história. 1esse modo, a superf$cie da /erra ! inteiramente compartimentada e o respectivo caleidoscópio se apresenta sem solução de continuidade. Kedefinida em função dos caracter$sticos de uma !poca, a compartimentação atual distingue.se daquela do passado e freqXentemente se d* como fragmentação. Seu conte"do e definição variam atrav!s dos tempos, mas sempre revelam um cotidiano compartido e complementar ainda que tam#!m conflitivo e hier*rquico, um acontecer solid*rio identificado com o meio, ainda que sem e%cluir relações distantes. /al solidariedade e tal identificação constituem a garantia de uma poss$vel regulação interna. M* a fragmentação revela um cotidiano em que h* parâmetros e%ógenos, sem refer4ncia ao meio. 39 assimetria na evolução das

diversas partes e a dificuldade ou mesmo a impossi#ilidade de regulação, tanto interna quanto e%terna, constituem uma caracter$stica marcante. A compa!timenta&'o< passado e p!esente t! recentemente, a humanidade vivia o mundo da lentidão, no qual a pr*tica de velocidades diferentes não separava os respectivos agentes. 'ram ritmos diversos, mas não incompat$veis. 1entro de cada *rea, os compartimentos eram soldados por regras, ainda que não houvesse contigXidade entre eles. & mesmo pode ser dito em relação ao que se passava na escala internacional. & melhor e%emplo, desde o "ltimo quartel do s!culo R2R, ! o da constituição dos imp!rios, fundado cada qual numa #ase t!cnica diferente, o que não impedia a sua coe%ist4ncia, nem a possi#ilidade de cooperação na diferença. 1urante um s!culo conviveram imp!rios como o #ritânico, portador das t!cnicas mais avançadas da produção material, dos transportes, das comunicações e do dinheiro, com imp!rios desse ponto de vista menos avançados, por e%emplo o imp!rio portugu4s ou o imp!rio espanhol. 7ode.se di(er que a pol$tica compensava a diversidade e a diferenciação do poder t!cnico ou do poder econ-mico, assegurando, ao mesmo tempo, a ordem interna a cada um desses imp!rios e a ordem internacional. 7or interm!dio da pol$tica, cada pa$s imperial regulava a produção própria e a das suas col-nias, o com!rcio entre estas e os outros pa$ses, o flu%o de produtos, mercadorias e pessoas, o valor do dinheiro e as formas de governo. & famoso pacto colonial aca#ava por compreender todas as manifestações da vida histórica e os equil$#rios no interior de cada imp!rio se davam paralelamente ao equil$#rio entre as nações imperiais. 1e algum modo, a ordem internacional era produ(ida por meio da pol$tica dos 'stados. 1entro de cada pa$s, a compartimentação e a solidariedade presumiam a presença de certas condições, todas praticamente relacionadas com o territórioD uma economia territorial, uma cultura territorial, regidas por regras, igualmente territoriali(adas, na forma de leis e de tratados, mas tam#!m de costumes. 7or meio da regulação, a compartimentação dos territórios, na escala nacional e internacional, permite que se3am neutrali(adas diferenças e mesmo as oposições se3am pacificadas, mediante um processo pol$tico que se renova, adaptando.se às realidades emergentes para tam#!m renovar, desse modo, a solidariedade. No plano internacional, esse processo cumulativo de adaptações leva às modificações do estatuto colonial, aceleradas com o fim da Segunda 0uerra Mundial. No plano interno, a #usca de solidariedade condu( ao enriquecimento dos direitos sociais com a instalação de diferentes modalidades de democracia social. Rapide,D ;"uide,D ;!a3menta&'o :o3e, vivemos um mundo da rapide( e da fluide(. /rata.se de uma fluide( virtual, poss$vel pela presença dos novos sistemas t!cnicos, so#retudo os sistemas da informação, e de uma fluide( efetiva, reali(ada quando essa fluide( potencial ! utili(ada no e%erc$cio da ação, pelas empresas e instituições hegem-nicas. fluide( potencial aparece no imagin*rio e na ideologia como se fosse um #em comum, uma fluide( para todos, quando, na verdade, apenas alguns agentes t4m a

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possi#ilidade de utili(a.la, tornando.se, desse modo, os detentores efetivos da velocidade. & e%erc$cio desta !, pois, o resultado da disponi#ilidades materiais e t!cnicas e%istentes e das possi#ilidades de ação. ssim, o mundo da rapide( e da fluide( somente se entende a partir de um processo con3unto no qual participam de um lado as t!cnicas atuais e, de outro, a pol$tica atual, sendo que esta ! empreendida tanto pelas instituições p"#licas, nacionais, intranacionais e internacionais, como pelas empresas privadas. s atuais compartimentações dos territórios ganham esse novo ingrediente. Jriam.se, paralelamente, incompati#ilidades entre velocidades diversasO e os portadores das velocidades e%tremas #uscam indu(ir os demais atores a acompanh*.los, procurando disseminar as infra. estruturas necess*rias à dese3ada fluide( nos lugares que consideram necess*rios para a sua atividade. :*, todavia, sempre, uma seletividade nessa difusão, separando os espaços da pressa daqueles outros prop$cios à lentidão, e dessa forma acrescentando ao processo de compartimentação ne%os verticais que se superpõem à compartimentação hori(ontal, caracter$stica da história humana at! data recente. & fen-meno ! geral, 3* que, conforme vimos antes, tudo ho3e est* compartimentadoO incluindo toda a superf$cie do planeta. ) por meio dessas linhas de menor resist4ncia e, por conseguinte, de maior fluide(, que o mercado glo#ali(ado procura instalar a sua vocação de e%pansão, mediante processos que levam à #usca da unificação e não propriamente à #usca da união. & chamado mercado glo#al se impõe como ra(ão principal da constituição desses espaços da fluide( e, logo, da sua utili(ação, impondo, por meio de tais lugares, um funcionamento que reprodu( as suas próprias #ases 8Mohn 0raQ, Falso a)anhecer. os e9u;vocos do capitalis)o , >???9, a começar pela competitividade. literatura apolog!tica da glo#ali(ação fala de competitividade entre 'stados, mas, na verdade, trata.se de competitividade entre empresas, que, às ve(es, arrastam o 'stado e sua força normativa na produção de condições favor*veis àquelas dotadas de mais poder. ) dessa forma que se potenciali(a a vocação de rapide( e de urg4ncia de algumas empresas em detrimento de outras, uma competitividade que agrava as diferenças de força e as disparidades, enquanto o território, pela sua organi(ação, constitui.se num instrumento do e%erc$cio dessas diferenças de poder. Jada empresa, por!m, utili(a o território em função dos seus fins próprios e e%clusivamente em função desses fins. s empresas apenas t4m olhos para os seus próprios o#3etivos e são cegas para tudo o mais. 1esse modo, quanto mais racionais forem as regras de sua ação individual tanto menos tais regras serão respeitosas do entorno econ-mico, social, pol$tico, cultural, moral ou geogr*fico, funcionando, as mais das ve(es, como um elemento de pertu#ação e mesmo de desordem. Nesse movimento, tudo que e%istia anteriormente à instalação dessas empresas hegem-nicas e convidado a adaptar.se às suas formas de ser e de agir, mesmo que provoque, no entorno pree%istente, grandes distorções, inclusive a que#ra da solidariedade social. %ompetiti idade versus so"ida!iedade 7ode.se di(er então que, em "ltima an*lise, a competitividade aca#a por destroçar as antigas solidariedades, freqXentemente hori(ontais, e por impor uma solidariedade vertical, cu3o epicentro ! a empresa hegem-nica, localmente o#ediente a interesses glo#ais mais poderosos e, desse modo, indiferente ao entorno. s solidariedades hori(ontais pree%istentes refa(iam.se

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historicamente a partir de um de#ate interno, levando a a3ustes inspirados na vontade de reconstruir, em novos termos, a própria solidariedade hori(ontal. M* agora, a solidariedade vertical que se impõe e%clui qualquer de#ate local efica(, 3* que as empresas hegem-nicas t4m apenas dois caminhosD permanecer para e%ercer plenamente seus o#3etivos individualistas ou retirar.se. Jomo cada empresa hegem-nica no o#3etivo de se manter como tal deve realçar tais interesses individuais, sua ação ! raramente coordenada com a de outras, ou com o poder p"#lico, e tal descoordenação agrava a desorgani(ação, isto !, redu( as possi#ilidades do e%erc$cio de uma #usca de sentido para a vida local. Jada empresa hegem-nica age so#re uma parcela do território. & território como um todo ! o#3eto da ação de v*rias empresas, cada qual, conforme 3* vimos, preocupada com suas próprias metas e arrastando, a partir dessas metas, o comportamento do resto das empresas e instituições. Vue resta então da nação diante dessa nova realidadeN Jomo a nação se e%erce diante da verdadeira fragmentação do território, função das formas contemporâneas de ação das empresas hegem-nicasN palavra fragmentação impõe.se com toda força porque, nas condições acima descristas, não h* regulação poss$vel ou esta apenas consagra alguns atores e estes, enquanto produ(em uma ordem em causa própria, criam, paralelamente, desordem para tudo o mais. Jomo essa orde) desordeira ! glo#al, inerente ao próprio processo produtivo da glo#ali(ação atual, ela não tem limitesO mas não tem limites porque tam#!m não tem finalidade e, desse modo, nenhuma regulação ! poss$vel, porque não dese3ada. 'sse novo poder das grandes empresas, cegamente e%ercido, !, por nature(a, desagregador, e%cludente, fragmentador, seqXestrando autonomia ao resto dos atores. &s fragmentos resultantes desse processo articulam.se e%ternamente segundo lógicas duplamente estranhasD por sua sede distante, long$nqua quanto ao espaço da ação, e pela sua inconformidade com o sentido pree%istente da vida na *rea em que se instala. 1esse modo, produ(. se uma verdadeira alienação territorial à qual correspondem outras formas de alienação. 1entro de um mesmo pa$s se criam formas e ritmos diferentes de evolução, governados pelas metas e destinos espec$ficos de cada empresa hegem-nica, que arrastam com sua presença outros atores sociais, mediante a aceitação ou mesmo a ela#oração de discursos 5nacionais. regionais6 alien$genas ou alienados. &utra reação condu( à ela#oração paralela de discursos reativos dotados de conte"do espec$fico e destinados a mostrar inconformidade com as formas vigentes de inserção no 5mundo6. Jriam.se, em certos casos, novas so#eranias, como, por e%emplo, na antiga 2ugosl*via, ou autonomias ampliadas, entroni(ando o que se poderiam chamar re3i=es>pa;ses, cu3o e%emplo em#lem*tico nos vem da 'spanha. Jomo resolver questão de dentro de um mesmo pa$s, quando o passado não ofereceu como herança con3unta a e%ist4ncia de culturas particulares solidamente esta#elecidas, 3unto a uma vontade pol$tica regional 3* e%ercida como poderN 'sse pro#lema se torna mais agudo na medida em que as compartimentações atuais do território não são en%ergadas como fragmentação. 2sso se d*, geralmente, quando a interpretação do fato nacional ! entregue a visões aparentemente totali(antes, mas na realidade particularistas, como certos enfoques da economia e, mesmo, da ci4ncia pol$tica, que não se apropriam da noção do território considerado como territ(rio usado e visto, desse modo, como estrutura dotada de um

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movimento próprio. ) melhor fa(er a nação por interm!dio do seu território, porque nele tudo o que ! vida est* representado.

-@( A agricultura científica globali'ada e a alienação do territ!rio
1esde o princ$pio dos tempos, a agricultura comparece como uma atividade reveladora das relações profundas entre as sociedades humanas e o seu entorno. No começo da história tais relações eram, a #em di(er, entre os grupos humanos e a nature(a. & avanço da civili(ação atri#ui ao homem, por meio do aprofundamento das t!cnicas e de sua difusão, uma capacidade cada ve( mais crescente de alterar os dados naturais quando poss$vel, redu(ir a importância do seu impacto e, tam#!m, por meio da organi(ação social, de modificar a importância dos seus resultados. &s "ltimos s!culos marcam, para a atividade agr$cola, com a humani(ação e a mecani(ação do espaço geogr*fico, uma consider*vel mudança de qualidade, chegando.se, recentemente, à constituição de um meio geogr*fico a que podemos chamar de meio t!cnico.cient$fico.informacional, caracter$stico não apenas da vida ur#ana mas tam#!m do mundo rural, tanto nos pa$ses avançados como nas regiões mais desenvolvidas dos pa$ses po#res. ) desse modo que se instala uma agricultura propriamente cient$fica, respons*vel por mudanças profundas quanto à produção agr$cola e quanto à vida de relações. 7odemos agora falar de uma agricultura cient$fica glo#ali(ada. Vuando a produção agr$cola tem uma refer4ncia planet*ria, ela rece#e influ4ncia daquelas mesmas leis que regem os outros aspectos da produção econ-mica. ssim, a competitividade, caracter$stica das atividades de car*ter planet*rio, leva a um aprofundamento da tend4ncia à instalação de uma agricultura cient$fica. 'sta, como vimos, ! e%igente de ci4ncia, t!cnica e informação, levando ao aumento e%ponencial das quantidades produ(idas em relação às superf$cies plantadas. 7or sua nature(a glo#al, condu( a uma demanda e%trema de com!rcio. & dinheiro passa a ser uma 5informação6 indispens*vel. A demanda eEte!na de !aciona"idade Nas *reas onde essa agricultura cient$fica glo#ali(ada se instala, verifica.se uma importante demanda de #ens cient$ficos 8sementes, inseticidas, fertili(antes, corretivos9 e, tam#!m, de assist4ncia t!cnica. &s produtos são escolhidos segundo uma #ase mercantil, o que tam#!m implica uma estrita o#edi4ncia aos mandamentos cient$ficos e t!cnicos. São essas condições que regem os processos de plantação, colheita, arma(enamento, empacotamento, transportes e comerciali(ação, levando à introdução, aprofundamento e difusão de processos de racionali(ação que se contagiam mutuamente, propondo a instalação de sistemismos, que atravessam o território e a sociedade, levando, com a racionali(ação das pr*ticas, a uma certa homogenei(ação. 1a.se, na realidade, tam#!m, uma certa militari(ação do tra#alho, 3* que o crit!rio do sucesso ! a o#edi4ncia às regras sugeridas pelas atividades hegem-nicas, sem cu3a utili(ação os agentes recalcitrantes aca#am por ser deslocados. Se entendermos o território como um con3unto de equipamentos, de instituições, pr*ticas e normas, que con3untamente movem e são movidas pela sociedade, a agricultura cient$fica, moderna e glo#ali(ada aca#a por atri#uir aos agricultores modernos a velha condição de servos da gle#a. ) atender a tais imperativos ou sair. 43

Nas *reas onde tal fen-meno se verifica, registra.se uma tend4ncia a um duplo desempregoD o dos agricultores e outros empregados e o dos propriet*riosO por isso, forma.se no mundo rural em processo de moderni(ação uma nova massa de emigrantes, que tanto se podem dirigir às cidades quanto participar da produção de novas frentes pioneiras, dentro do próprio pa$s ou no estrangeiro, como ! o caso dos #rasiguaios. s situações assim criadas são variadas e m"ltiplas, produ(indo uma tipologia de atividades cu3os su#tipos dependem das condições fundi*rias, t!cnicas e operacionais pree%istentes. Numa mesma *rea, ainda que as produções predominantes se assemelhem, a heterogeneidade ! de regra. :*, na verdade, heterogeneidade e complementaridade. 1esse modo, pode.se falar na e%ist4ncia simultânea de continuidades e descontinuidades. ) dessa maneira que se enriquece o papel da vi(inhança e, a despeito das diferenças e%istentes entre os diversos agentes, eles vivem em comum certas e%peri4ncias, como, por e%emplo, a su#ordinação ao mercado distante. /al e%peri4ncia ! tanto mais sens$vel porque decorre de uma demanda 5e%terna6 de 5racionalidade6 e das respectivas dificuldades de oferecer uma resposta. Kesta, como conseqX4ncia, a tomada de consci4ncia da importância de fatores 5e%ternos6D um mercado long$nquo, at! certo ponto a#stratoO uma concorr4ncia de certo modo 5invis$vel6O preços internacionais e nacionais so#re os quais não h* controle local, improv*vel, tam#!m, para outros componentes do cotidiano, igualmente ela#orados de fora, como o valor e%terno da moeda 8câm#io9, de que depende o valor interno da produção, o custo do dinheiro e o peso so#re o produtor dos lucros auferidos por todos os tipos de intermediação. A cidade do campo agricultura moderna se reali(a por meio dos seus #elts, spots, *reas, mas a sua relação com o mundo e com as *reas dinâmicas do pa$s se d* por meio de pontos. ) o que e%plica, por e%emplo, o importante relacionamento e%istente entre cidades regionais e São 7aulo. Nessas localidades d*.se uma oferta de informação, imediata e pró%ima, ligada à atividade agr$cola e produ(indo uma atividade ur#ana de fa#ricação e de serviços que, fruto da produção regional, ! largamente 5especiali(ada6 e, paralelamente, um outro tipo de atividade ur#ana ligada ao consumo das fam$lias e da administração. cidade ! um pólo indispens*vel ao comando t!cnico da produção, a cu3a nature(a se adapta, e ! um lugar de resid4ncia de funcion*rios da administração p"#lica e das empresas, mas tam#!m de pessoas que tra#alham no campo e que, sendo agr$colas, são tam#!m ur#anas, isso !, ur#ano.residentes. ]s atividades e profissões tradicionais 3untam.se novas ocupações e às #urguesias e classes m!dias tradicionais 3untam.se as modernas, formando uma mescla de formas de vida, atitudes e valores. /al cidade, cu3o papel de comando t!cnico da produção ! #astante amplo, tem tam#!m um papel pol$tico frente a essa mesma produção. Mas, na medida em que a produção agr$cola tem uma vocação glo#al, esse papel pol$tico ! limitado, incompleto e indireto. & mundo, confusamente en%ergado a partir desses lugares, ! visto como um parceiro inconstante. Sem d"vida, os diversos atores t4m interesses diferentes, às ve(es convergentes, certamente complementares. /rata.se de uma produção local mista, mati(ada, contraditória de id!ias. São visões do mundo, do pa$s e do lugar ela#oradas na cooperação e no conflito. /al processo ! criador de am#igXidades e de perple%idades, mas tam#!m de uma certe(a dada pela emerg4ncia da cidade

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como um lugar pol$tico, cu3o papel ! duploD ela ! um regulador do tra#alho agr$cola, sequioso de uma interpretação do movimento do mundo, e ! a sede de uma sociedade local compósita e comple%a, cu3a diversidade constitui um permanente convite ao de#ate.

-5( "ompartimentação e fragmentação do espaço( o caso do )rasil
& e%ame do caso #rasileiro quanto à moderni(ação agr$cola revela a grande vulnera#ilidade das regiões agr$colas modernas face à 5moderni(ação glo#ali(adora6. '%aminando o que significa na maior parte dos estados do Sul e do Sudeste e nos estados de Mato 0rosso e Mato 0rosso do Sul, #em como em manchas isoladas de outros estados, verifica.se que o campo moderni(ado se tornou praticamente mais a#erto à e%pansão das formas atuais do capitalismo que as cidades. 1esse modo, enquanto o ur#ano surge, so# muitos aspectos e com diferentes mati(es, como o lugar da resist4ncia, as *reas agr$colas se transformam agora no lugar da vulnera#ilidade. O pape" das "/3icas eE/3enas 1e tais *reas pode.se di(er que atualmente funcionam so# um regime o#ediente a preocupações su#ordinadas a lógicas distantes, e%ternas em relação à *rea da açãoO mas essas lógicas são internas aos setores e às empresas glo#ais que as mo#ili(am. 1a$ se criarem situações de alienação que escapam a regulações locais ou nacionais, em#ora arrastando comportamentos locais, regionais, nacionais em todos os dom$nios da vida, influenciando o comportamento da moeda, do cr!dito, do gasto p"#lico e do emprego, incidindo so#re o funcionamento da economia regional e ur#ana, por interm!dio de suas relações determinantes so#re o com!rcio, a ind"stria, os transportes e os serviços. 7aralelamente, alteram.se os comportamentos pol$ticos e administrativos e o conte"do da informação. 'sse processo de adaptação das regiões agr$colas modernas se d* com grande rapide(, impondo.lhes, num pequeno espaço de tempo, sistemas de vida cu3a relação com o meio ! refle%a, enquanto as determinações fundamentais v4m de fora. Num mundo glo#ali(ado, id4ntico movimento pode ser tam#!m rapidamente implantado em outras *reas, num mesmo pa$s ou em outro continente. ssim, a noção de competitividade mostra.se aqui com toda força, politicamente a3udada pelas manipulações do com!rcio e%terior ou das #arreiras alfandeg*rias. Ja#e perguntar, nessas circunstâncias, o que pode acontecer a uma *rea agr$cola que, mediante um desses processos, se3a esva(iada do seu conte"do econ-mico. Vue acontecer*, por e%emplo, às novas *reas de agricultura glo#ali(ada do estado de São 7aulo no caso da mudança internacional da con3untura da economia da laran3a, do aç"car ou o *lcoolN ' como, diante de tal mudança, poderão reagir a região, o estado de São 7aulo e a naçãoN apreciação das perspectivas a#ertas a essas *reas moderni(adas, com tend4ncia a particulari(ações e%tremas, deve levar em conta o fato de que o sentido que ! impresso à vida, em todas as suas dimensões, #aseia.se, em maior ou menor grau, em fatores e%ógenos. 1e um ponto de vista nacional, redefine.se uma diversidade regional que agora não ! controlada nem control*vel, se3a pela sociedade local, se3a pela sociedade nacional. ) uma diversidade regional de novo tipo, em que se agravam as disparidades territoriais 8em equipamento, recursos, informação, força econ-mica e 45

pol$tica, caracter$sticas da população, n$veis de vida etc.9. o menos em um primeiro momento e so# o impulso da competitividade glo#ali(adora, produ(em.se ego$smos locais ou regionais e%acer#ados, 3ustificados pela necessidade de defesa das condições de so#reviv4ncia regional, mesmo que isso tenha de se dar à custa da id!ia de integridade nacional. 'sse caldo de cultura pode levar à que#ra da solidariedade nacional e condu(ir a uma fragmentação do território e da sociedade. As dia">ticas end/3enas :*, todavia, uma dial!tica interna a cada um dos fragmentos resultantes. & produto 8ou produtos9 com a responsa#ilidade de comando da economia regional inclui atores com diferentes perfis e interesses, cu3o $ndice de satisfação tam#!m ! diferente. 1entro de cada região, as alianças e acordos e os contratos sociais impl$citos ou e%pl$citos estão sempre se refa(endo e a hegemonia deve ser sempre revista. & processo produtivo re"ne aspectos t!cnicos e aspectos pol$ticos. &s primeiros t4m mais a ver com a produção propriamente dita e sua *rea de incid4ncia se verifica mormente dentro da própria região. parcela pol$tica do processo produtivo, ao contr*rio, relacionada com o com!rcio, os preços, os su#s$dios, o custo do dinheiro etc., tem sua sede fora da região e seus processos freqXentemente escapam ao controle 8e at! mesmo ao entendimento9 dos principais interessados. ) isso que leva à tomada gradativa de consci4ncia pela sociedade local de que lhe escapa a palavra final quanto à produção local do valor. Nessas circunstâncias, a cidade ganha uma nova dimensão e um novo papel, mediante uma vida de relações tam#!m renovada, cu3a densidade inclui as tarefas ligadas à produção glo#ali(ada. 7or isso, a cidade se torna o lugar onde melhor se esclarecem as relações das pessoas, das empresas, das atividades e dos 5fragmentos6 do território com o pa$s e com o 5mundo6. 'sse papel de encru(ilhada agora atri#u$do aos centros regionais da produção agr$cola moderni(ada fa( deles o lugar da produção ativa de um discurso 8com pretensões a ser unit*rio9 e de uma pol$tica com pretensão a ser mais que um con3unto de regras particulares. /odavia, tais pol$ticas aca#am, no longo pra(o e mesmo no m!dio pra(o, por revelar sua de#ilidade, sua relatividade, sua inefic*cia, sua não. operacionalidade. & que reclamar do poder local vistos os limites da sua compet4nciaO que reivindicar aos estados federadosO que solicitar efica(mente aos agentes econ-micos glo#ais, quando se sa#e que estes podem encontrar satisfação aos seus apetites de ganho simplesmente mudando o lugar de sua operaçãoN 7ara encontrar um começo de resposta, o primeiro passo ! regressar às noções de nação, solidariedade nacional, 'stado nacional. 1e um ponto de vista pr*tico, voltar$amos à id!ia, 3* e%pressa por nós em outra ocasião, da constituição de uma federação de lugares, com a reconstrução da federação #rasileira a partir da c!lula local, feita de forma a que o território nacional venha a conhecer uma compartimentação que não se3a tam#!m uma fragmentação. 1esse modo, a federação seria refeita de #ai%o para cima, ao contr*rio da tend4ncia a que agora est* sendo arrastada pela su#ordinação aos processos de glo#ali(ação.

-7( O territ!rio do din eiro

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queda.de.#raço entre governos municipais e estaduais e o governo federal ! mais que uma discussão t!cnica para sa#er quem deve arcar com o -nus das dificuldades financeiras dos EH estados e dos mais de F.FBB munic$pios. questão ! a federação e sua inadequação aos tempos da nova história com a emerg4ncia da glo#ali(ação. & que est* em 3ogo ! o próprio sistema de relações constitu$do, de um lado, pelos novos conte"dos demogr*fico, econ-mico, social de estados e munic$pios e a manutenção do conte"do normativo do território, agora que face à glo#ali(ação se produ( um em#ate entre um dinheiro glo#ali(ado e as instâncias pol$tico.administrativas do 'stado #rasileiro. 0e;ini&Aes & território não ! apenas o resultado da superposição de um con3unto de sistemas naturais e um con3unto de sistemas de coisas criadas pelo homem. & território ! o chão e mais a população, isto !, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. & território ! a #ase do tra#alho, da resid4ncia, das trocas materiais e espirituais e da vida, so#re os quais ele influi. Vuando se fala em território deve.se, pois, de logo, entender que se est* falando em território usado, utili(ado por uma dada população. ;m fa( o outro, à maneira da c!le#re frase de JhurchillD primeiro fa(emos nossas casas, depois elas nos fa(em... depois, de 'stado nacional decorre dessa relação tornada profunda. & dinheiro ! uma invenção da vida de relações e aparece como decorr4ncia de uma atividade econ-mica para cu3o intercâm#io o simples escam#o 3* não #asta. Vuando a comple%idade ! um fruto de especiali(ações produtivas e a vida econ-mica se torna comple%a, o dinheiro aca#a sendo indispens*vel e termina se impondo como um equivalente geral de todas as coisas que são o#3eto de com!rcio. Na verdade, o dinheiro constitui, tam#!m, um dado do processo, facilitando seu aprofundamento, 3* que ele se torna representativo do valor atri#u$do à produção e ao tra#alho e aos respectivos resultados. O din1ei!o e o te!!it/!io< situa&Aes 1ist/!icas Num primeiro momento trata.se do dinheiro local, e%pressivo de um hori(onte comercial elementar, a#rangente de conte%tos geogr*ficos limitados ou para atender às necessidades de um com!rcio e de uma circulação long$nquos, nas mãos de comerciantes itinerantes, avalistas do valor das mercadorias. /al mundo ! caracteri(ado por compartimentações muito numerosas, mas um mundo sem movimento, lento, est*vel e cu3os fragmentos quase seriam autocontidos. /ais m-nadas, numerosas, e%istiriam paralelamente, mas sem o princ$pio geral sugerido por ,ei#ni(. Nesse primeiro momento, o funcionamento do território deve muito às suas feições naturais, às quais os homens se adaptam, com pequena intermediação t!cnica. s relações sociais presentes são pouco numerosas, simples e pouco densas. & entorno dos homens aca#a por lhe ser conhecido e os seus mist!rios são apenas devidos às forças naturais desconhecidas. /ais condições materiais terminam por se impor so#re o resto da vida social, numa situação na qual o valor de cada pedaço de chão lhe ! atri#u$do pelo seu uso. ssim, a e%ist4ncia pode ser interpretada a partir de relações o#servadas diretamente entre os homens e entre os homens e o meio. & território usado id!ia de tri#o, povo, nação e,

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pela sociedade local rege as manifestações da vida social, inclusive o dinheiro. Metamo!;oses das duas cate3o!ias ao "on3o do tempo Jom a ampliação do com!rcio produ(.se uma interdepend4ncia crescente entre sociedades at! então relativamente isoladas, cresce o n"mero de o#3etos e valores a trocar, as próprias trocas estimulam a diversificação e o aumento de volume de uma produção destinada a um consumo long$nquo. & dinheiro se instala como condição, tanto desse escam#o quanto da produção de cada grupo, tornando.se instrumental à regulação da vida econ-mica e assegurando, assim, o alargamento do seu âm#ito e a freqX4ncia do seu uso. Na realidade, o que cresce, se e%pande e se torna mais comple%o e denso, não ! apenas o com!rcio internacional, mas, tam#!m, o interno. reclamando uma medida homog4nea e permanente. ssim, cada ve( mais coisas tendem a ssim, o dinheiro aumenta sua tornar.se o#3eto de intercâm#io, valori(ado cada ve( mais pela troca do que pelo uso e, desse modo, indispensa#ilidade e invade mais numerosos aspectos da vida econ-mica e social. 7aralelamente, o território se apresenta como uma arena de movimentos cada ve( mais numerosos, fundados so#re uma lei do valor que tanto deve ao car*ter da produção presente em cada lugar como às possi#ilidades e realidades da circulação. & dinheiro !, cada ve( mais, um dado essencial para o uso do território. Mas a lei do valor tam#!m se estende aos próprios lugares, cada qual representando, em dada circunstância e em função do com!rcio de que participam, um certo $ndice de valor que !, tam#!m, a #ase dos movimentos que deles partem ou que a eles chegam. Vuanto mais movimento, maior se torna a comple%idade das relações internas e e%ternas e aprofunda.se a necessidade de uma regulação, da qual o dinheiro constitui um dos elementos, ainda que o seu papel não se3a o papel central. 'ste ! atri#u$do à categoria estado, cu3a necessidade se levanta como um imperativo, atri#uindo.se limites e%ternos 8as fronteiras esta#elecidas9, limites internos 8as su#divisões pol$tico.administrativas em diversos n$veis9 e conte"dos normativos 8as leis e costumes9, em mat!ria de compet4ncias e recursos. ) assim que se instalam na história, categorias interdependentesD o 'stado territorial, o território nacional, o 'stado nacional. São eles que, em con3unto, regem o dinheiro. :*, por conseguinte, um dinheiro nacional que, apesar de um com!rcio e%terno crescente, tem a cara do pa$s e ! regulado pelo pa$s. 1ir.se.ia que esse dinheiro ! relativamente comandado de dentro. O din1ei!o da 3"o+a"i,a&'o Jom a glo#ali(ação, o uso das t!cnicas dispon$veis permite a instalação de um dinheiro fluido, relativamente invis$vel, praticamente a#strato. Jomo equivalente geral, o dinheiro se torna um equivalente realmente universal, ao mesmo tempo em que ganha uma e%ist4ncia praticamente aut-noma em relação ao resto da economia. ssim autonomi(ado, pode.se at! di(er que esse dinheiro, em estado puro, ! um equivalente geral dele próprio. /alve( por isso sua e%ist4ncia concreta e sua efic*cia se3am resultado

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das normas com as quais se impõe aos outros dinheiros e a todos os pa$ses, permitindo.se, desse modo, a ela#oração de um discurso, sem o qual sua efic*cia seria infinitamente menor e a sua força menos evidente. ), ali*s, a partir deste car*ter ideológico, equivalente a uma verdadeira falsificação do crit!rio, que o dinheiro glo#al ! tam#!m despótico. Nas condições atuais, as lógicas do dinheiro impõem.se àquelas da vida socioecon-mica e pol$tica, foçando mimetismos, adaptações, rendições. /ais lógicas se dão segundo duas vertentesD uma ! a do dinheiro das empresas que, respons*veis por um setor da produção, são, tam#!m, agentes financeiros, mo#ili(ados em função da so#reviv4ncia e da e%pansão de cada firma em particularO mas, h*, tam#!m, a lógica dos governos financeiros glo#ais, Iundo Monet*rio 2nternacional, Lanco Mundial, #ancos travestidos em regionais como o L21. ) por interm!dio deles que as finanças se dão como intelig4ncia geral. 'ssa intelig4ncia glo#al ! e%ercida pelo que se chamaria de conta#ilidade glo#al, cu3a #ase ! um con3unto de parâmetros segundo os quais aqueles governos glo#ais medem, avaliam e classificam as economias nacionais, por meio de uma escolha ar#itr*ria de vari*veis que apenas contempla certa parcela da produção, dei%ando praticamente de lado o resto da economia. 7or isso, pode.se di(er que, adotado esse crit!rio de avaliação, o 7roduto Nacional Lruto apenas constitui um nome.fantasia para essa famosa conta#ilidade glo#al. ) por meio desse mecanismo que o dinheiro glo#al autonomi(ado, e não mais o capital como um todo, se torna, ho3e, o principal regedor do território, tanto o território nacional como suas frações. ntes, o território continha o dinheiro, em uma dupla acepçãoD o dinheiro sendo representativo do território que o a#rigava e sendo, em parte, regulado pelo território, considerado como território usado. :o3e, so# influ4ncia do dinheiro glo#al, o conte"do do território escapa a toda regulação interna, o#3eto que ele ! de uma permanente insta#ilidade, da qual os diversos agentes apenas constituem testemunhas passivas. ação territorial do dinheiro glo#al em estado puro aca#a por ser uma ação cega, gerando ingoverna#ilidades, em virtude dos seus efeitos so#re a vida econ-mica, mas tam#!m, so#re a vida administrativa. No território, a finança glo#al instala.se como a regra das regras, um con3unto de normas que escorre, imperioso, so#re a totalidade do edif$cio social, ignorando as estruturas vigentes, para melhor poder contrari*.las, impondo outras estruturas. No lugar, a finança glo#al se e%erce pela e%ist4ncia das pessoas, das empresas, das instituições, criando perple%idades e sugerindo interpretações, que podem condu(ir à ampliação da consci4ncia. $itua&Aes !e3ionais vontade de homogenei(ação do dinheiro glo#al ! contrariada pelas resist4ncias locais à sua e%pansão. 1esse modo, seu processo tende a ser diferente, segundo os espaços socioecon-micos e pol$ticos. :*, tam#!m, uma vontade de adaptação às novas condições do dinheiro, 3* que a fluide( financeira ! considerada uma necessidade para ser competitivo e, conseqXentemente, e%itoso no mundo glo#ali(ado.

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constituição do Mercado Jomum 'uropeu, isto !, da Jomunidade 'con-mica 'urop!ia, a instituição da S' N e o pretendido esta#elecimento da ,J o#edecem a esse mesmo princ$pio, de modo a permitir às respectivas economias, mas so#retudo aos 'stados l$deres e às empresas neles situadas, que possam participar de modo mais agressivo do com!rcio mundial, #uscando U o que lhes parece necess*rio U a co#içada hegemonia. 'uropa ! o su#continente mais avançado no que toca a essa questão. ) verdade que o processo de unificação europ!ia se inicia após a Segunda 0uerra Mundial e vem reali(ando etapas sucessivas, sendo a "ltima, em data, a constituição do mercado comum financeiro, do qual a moeda "nica, o euro, constitui o s$m#olo. s etapas precedentes constitu$ram uma esp!cie de preparação para unificação financeira e inclu$ram medidas o#3etivando a fluide( das mercadorias, dos homens, da mão.de.o#ra e do próprio território, inclusive nos pa$ses menos desenvolvidos, de modo a que a 'uropa como um todo se pudesse tornar um continente igualmente fluido. Sem isso e sem o reforço da id!ia de cidadania U uma cidadania agora multinacional para os signat*rios do /ratado de Schengen ., seria imposs$vel pensar numa moeda "nica sem aumentar as diferenças e desequil$#rios 3* e%istentes. Jompletando esse pano de fundo, a unificação monet*ria ! considerada um fator indispens*vel ao esta#elecimento de uma economia europ!ia competitiva ao n$vel glo#al, mediante uma divisão de tra#alho renovada, segundo a qual alguns pa$ses v4em reforçadas algumas de suas atividades e devem renunciar a outras, após uma concertação, às ve(es longa e penosa, em Lru%elas. Na verdade, por!m, essa unificação e equali(ação intra.europ!ia aca#a por ser mais um episódio de uma guerra, porque destinadas a fortalecer a 'uropa para competir com os outros mem#ros da /r$ade e tirar proveito de suas relações assim!tricas com o resto do mundo. & caso latino.americano e #rasileiro ! diferente. & próprio Mercosul mant!m, por enquanto, uma pr*tica limitada ao com!rcio, e seu próprio pro3eto ! menos a#rangente quanto às relações sociais, culturais e pol$ticas. Não h* uma clara preocupação de #uscar um desenvolvimento homog4neo e as iniciativas de investimento t4m muito mais a ver com o crescimento do produto, isto !, com o florescimento de certo n"mero de empresas voltadas para o com!rcio regional, das quais, ali*s, algumas são igualmente inseridas no com!rcio mundial. 7or outro lado, diferentemente do caso europeu, as moedas nacionais não são propriamente convers$veis, nem comunic*veis diretamente entre elas. Sua relação com o mundo ! po#re, tanto quantitativa como qualitativamente, 3* que são moedas dependentes, cu3o desvalimento aumenta face à glo#ali(ação, constituindo um elemento a mais de agravamento de sua própria depend4ncia. :;eitos do din1ei!o 3"o+a" 'sta ! uma das ra(ões pelas quais a decisão de participar passivamente da glo#ali(ação aca#a por ser danosa. Vuanto melhor ! o e%erc$cio do modelo, pior ! para o pa$s. 'ssa situação ! ainda mais grave nos pa$ses comple%os e grandes, na medida em que a vocação homogenei(adora do capital glo#al vai ser e%ercida so#re uma #ase formada por parcelas muito diferentes umas das outras e cu3as diferenças e desigualdades são ampliadas so# tal ação unit*ria. & dinheiro regulador e homogenei(ador agrava heterogeneidades e aprofunda as depend4ncias. ) assim que ele contri#ui para que#rar a solidariedade nacional, criando ou

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aumentando as fraturas sociais e territoriais e ameaçando a unidade nacional. & conte"do do território como um todo e de cada um dos seus compartimentos muda de forma #rusca e, tam#!m, rapidamente perde uma parcela maior ou menor de sua identidade, em favor de formas de regulação estranhas ao sentido local da vida. ) por esse prisma que deveria ser vista a questão da federação e da governa#ilidade da naçãoD na medida em que o governo da nação se solidari(a com os des$gnios das forças e%ternas, levantam.se pro#lemas cruciais para estados e munic$pios. questão ! estrutural e, desse modo, o pro#lema de estados e munic$pios !, no fundo, um sóO esse pro#lema ! constitu$do pelas formas atuais de compartimentação do território e o seu novo conte"do, que inclui as formas de ação do dinheiro internacional. :pF"o3o questão que se põe como uma espada de 1âmocles so#re as nossas ca#eças ! a seguinteD vamos reconstruir a federação para servir melhor ao dinheiro ou para atender à populaçãoN gora, tudo est* sendo feito para refa(er a federação de modo a que se3a instrumental às forças financeiras. São o Lanco Jentral e o Minist!rio da Ia(enda, em com#inação com as instituições financeiras internacionais, que orientam as grandes reformas ora em curso. 1evemos, então, nos preparar para a nova etapa que, ali*s, 3* se anuncia U a da reconstrução do arca#ouço pol$tico. territorial do pa$s ao serviço da sociedade, isto !, da população.

-6( *erticalidades e

ori'ontalidades

& tema das verticalidades e das hori(ontalidades 3* havia sido tratado por mim no livro $ nature#a do espaço 25cnica e te)po :a#ão e e)oção 8>??G9, so#retudo no cap$tulo >E. =amos agora a#ord*.lo segundo novos ângulos e am#icionando uma visão prospectiva, a partir desses dois recortes superpostos e complementares do espaço geogr*fico atual. As e!tica"idades

s verticalidades podem ser definidas, num território, como um con3unto de pontos formando um espaço de flu%os. id!ia, de certo modo, remonta aos escritos de Irançois 7errou% 8&45cono)ie du ?? si@de. 1/619, quando ele descreveu o espaço econ-mico. /al noção foi recentemente reapropriada por Manuel Jastells. 8 $ sociedade e) rede. 1///9. 'sse espaço de flu%os seria, na realidade, um su#sistema dentro da totalidade.espaço, 3* que para os efeitos dos respectivos atores o que conta !, so#retudo, esse con3unto de pontos adequados às tarefas produtivas hegem-nicas, caracter$sticas das atividades econ-micas que comandam este per$odo histórico. & sistema de produção que se serve desse espaço de flu%os ! constitu$do por redes U um sistema reticular ., e%igente de fluide( e sequioso de velocidade. São os atores do tempo r*pido, que plenamente participam do processo, enquanto os demais raramente tiram todo proveito da fluide(. /ais espaços de flu%os vivem uma solidariedade do tipo organi(acional, isto !, as relações 51

que mant4m a agregação e a cooperação entre agentes resultam em um processo de organi(ação, no qual predominam fatores e%ternos às *reas de incid4ncia dos mencionados agentes. Jhamemos macroatores àqueles que de fora da *rea determinam as modalidades internas de ação. ) a esses macroatores que, em "ltima an*lise, ca#e direta ou indiretamente a tarefa de organi(ar o tra#alho de todos os outros, os quais de uma forma ou de outra dependem da sua regulação. & fato de que cada um deva adaptar comportamentos locais aos interesses glo#ais, que estão sempre mudando, leva o processo organi(acional a se dar com descontinuidades, cu3o ritmo depende do n"mero e do poder correspondente a cada macroagente. 7or interm!dio dos mencionados pontos do espaço de flu%os, as macroempresas aca#am por ganhar um papel de regulação do con3unto do espaço. Munte.se a esse controle a ação e%pl$cita ou dissimulada do 'stado, em todos os seus n$veis territoriais. /rata.se de uma regulação freqXentemente su#ordinada porque, em grande n"mero de casos, destinada a favorecer os atores hegem-nicos. /omada em consideração determinada *rea, o espaço de flu%os tem o papel de integração com n$veis econ-micos e espaciais mais a#rangentes. /al integração, todavia, ! vertical, dependente e alienadora, 3* que as decisões essenciais concernentes aos processos locais são estranhas ao lugar e o#edecem a motivações distantes. Nessas condições, a tend4ncia ! a preval4ncia dos interesses corporativos so#re os interesses p"#licos, quanto à evolução do território, da economia e das sociedades locais. 1entro desse quadro, a pol$tica das empresas U isto !, sua polic6 U aspira e consegue, mediante uma 3overnance, tornar.se pol$ticaO na verdade, uma pol$tica cega, pois dei%a a construção do destino de uma *rea entregue aos interesses privat$sticos de uma empresa que não tem compromissos com a sociedade local. Na situação acima descrita, instalam.se forças centr$fugas certamente determinantes, com maior ou menor força, do con3unto de comportamentos. ', em certos casos, quando conseguem contagiar o todo ou a maioria do corpo produtivo, tais forças centr$fugas são, ao mesmo tempo, determinantes e dominantes. /al dominância ! tam#!m portadora da racionalidade hegem-nica e cu3o poder de cont*gio facilita a #usca de uma unificação e de uma homogenei(ação. s frações do território que constituem esse espaço de flu%os constituem o reino do tempo real, su#ordinando.se a um relógio universal, aferido pela temporalidade glo#ali(ada das empresas hegem-nicas presentes. 1esse modo ordenado, o espaço de flu%os tem vocação a ser ordenador do espaço total, tarefa que lhe ! facilitada pelo fato de a ele ser superposto. & modelo econ-mico assim esta#elecido tende a reprodu(ir.se, ainda que mostrando topologias espec$ficas, ligadas à nature(a dos produtos, à força das empresas implicadas e à resist4ncia do espaço pree%istente. & modelo hegem-nico ! plane3ado para ser, em sua ação individual, indiferente a seu entorno. Mas este de algum modo se opõe à plenitude dessa hegemonia. 'sta, por!m, ! e%ercida em sua forma limite, pois a empresa se esforça por esgotar as virtualidades e perspectivas de sua ação 5racional6. & n$vel desse limite define a operação respectiva do ponto de vista de sua renta#ilidade, comparada à de outras empresas e de outros lugares. Se considerada insatisfatória, leva à sua migração. s verticalidades são, pois, portadoras de uma ordem implac*vel, cu3a convocação incessante a segui.la representa um convite ao estranhamento. ssim, quanto mais 5moderni(ados6 e penetrados por essa lógica, mais os espaços respectivos se tornam alienados. & elenco das

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condições de reali(ação das verticalidades mostra que, para sua efetivação, ter um sentido ! desnecess*rio, enquanto a grande força motora seria aquele instinto animal das empresas mencionado, h* dec4nios, por Stephan :Qmer e agora multiplicado e potenciali(ado a partir da glo#ali(ação. s verticalidades reali(am de modo indiscut$vel aquela id!ia de Mean 0ottmann 85/he evolution of the concept of territorQ6, Infor)ation sur les Sciences Sociales, >?HF9 segundo a qual o território pode ser visto como um recurso, 3ustamente a partir do uso pragm*tico que o equipamento moderni(ado de pontos escolhidos assegura. As 1o!i,onta"idades s hori(ontalidades são (onas da contigXidade que formam e%tensões cont$nuas. =alemo.nos, outra ve(, do voca#ul*rio de Irançois 7errou% quando se referiu a e%ist4ncia de um 5espaço #anal6 em oposição ao espaço econ-mico. & espaço #anal seria o espaço de todosD empresas, instituições, pessoasO o espaço das viv4ncias. 'sse espaço #anal, essa e%tensão continuada, em que os atores são considerados na sua contigXidade, são espaços que sustentam e e%plicam um con3unto de produções locali(adas, interdependentes, dentro de uma *rea cu3as caracter$sticas constituem, tam#!m, um fator de produção. /odos os agentes são, de uma forma ou de outra, implicados, e os respectivos tempos, mais r*pidos ou mais vagarosos, são im#ricados. 'm tais circunstâncias pode.se di(er que a partir do espaço geogr*fico cria.se uma solidariedade orgânica, o con3unto sendo formado pela e%ist4ncia comum dos agentes e%ercendo.se so#re um território comum. /ais atividades, não importa o n$vel, devem sua criação e alimentação às ofertas do meio geogr*fico local. /al con3unto indissoci*vel evolui e muda, mas tal movimento pode ser visto como uma continuidade, e%atamente em virtude do papel central que ! 3ogado pelo mencionado meio geogr*fico local. Nesse espaço #anal, a ação atual do 'stado, al!m de suas funções igualmente #anais, ! limitada. Na verdade, mudadas as condições pol$ticas, ! nesse espaço #anal que o poder p"#lico encontraria as melhores condições para sua intervenção. & fato de que o 'stado se preocupe so#retudo com o desempenho das macroempresas, às quais oferece regras de nature(a geral que desconhecem particularidades criadas a partir do meio geogr*fico, leva à ampliação das verticalidades e, paralelamente, permite o aprofundamento da personalidade das hori(ontalidades. Nestas, ainda que este3am presentes empresas com diferentes n$veis de t!cnicas, de capital e de organi(ação, o princ$pio que permite a so#reviv4ncia de cada uma ! o da #usca de certa integração no processo da ação. /rata.se, aqui, da produção local de uma integração solid*ria, o#tida mediante solidariedades hori(ontais internas, cu3a nature(a ! tanto econ-mica, social e cultural como propriamente geogr*fica. so#reviv4ncia do con3unto, não importa que os diversos agentes tenham interesses diferentes, depende desse e%erc$cio da solidariedade, indispens*vel ao tra#alho e que gera a visi#ilidade do interesse comum. /al ação comum não ! o#rigatoriamente o resultado de pactos e%pl$citos nem de pol$ticas claramente esta#elecidas. própria e%ist4ncia, adaptando.se a situações cu3o comando freqXentemente escapa aos respectivos atores, aca#a por e%igir de cada qual um permanente estado de alerta, no sentido de apreender as mudanças e desco#rir as soluções

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indispens*veis. 7ode.se di(er que tal situação assegura a perman4ncia de forças centr$petas. 'stas, ainda que não se3am determinantes 83* que as hori(ontalidades rece#em influ%os das verticalidades9 são dominantes. /ais forças centr$petas garantem sua so#reviv4ncia pelo fato de que o âm#ito de reali(ação dos atores ! limitado, confundindo.se todos num espaço geogr*fico restrito, que !, ao mesmo tempo, a #ase de sua atuação. s hori(ontalidades, pois, al!m das racionalidades t$picas da verticalidades que as admitem a presença de outras racionalidades 8chamadas de irracionalidades pelos que dese3ariam ver como "nica a racionalidade hegem-nica9. Na verdade, são contra.racionalidades, isto !, formas de conviv4ncia e de regulação criadas a partir do próprio território e que se mant4m nesse território a despeito da vontade de unificação e homogenei(ação, caracter$sticas da racionalidade hegem-nica t$pica das verticalidades. presença dessas verticalidades produ( tend4ncias à fragmentação, com a constituição de alv!olos representativos de formas espec$ficas de ser hori(ontal a partir das respectivas particularidades. A +usca de um sentido o contr*rio das verticalidades, regidas por um relógio "nico, implac*vel, nas hori(ontalidades assim particulari(adas funcionam , ao mesmo tempo, v*rios relógios, reali(ando.se, paralelamente, diversas temporalidades. /rata.se de um espaço à vocação solid*ria, sustento de uma organi(ação em segundo n$vel, enquanto so#re ele se e%erce uma vontade permanente de desorgani(ação, ao serviço dos atores hegem-nicos. 'sse processo dial!tico impede que o poder, sempre crescente e cada ve( mais invasor, dos atores hegem-nicos, fundados nos espaços de flu%os, se3a capa( de eliminar o espaço #anal, que ! permanentemente reconstitu$do segundo uma nova definição. 7ode.se di(er que, ao contr*rio da ordem imposta, nos espaços de flu%os, pelos atores hegem-nico e da o#edi4ncia alienada dos atores su#alterni(ados, hegemoni(ados, nos espaços #anais se recria a id!ia e o fato da 7ol$tica, cu3o e%erc$cio se torna indispens*vel, para providenciar os a3ustamentos necess*rios ao funcionamento do con3unto, dentro de uma *rea espec$fica. 7or meio de encontros e desencontros e do e%erc$cio do de#ate e dos acordos, #usca.se e%pl$cita ou tacitamente a readaptação às novas formas de e%ist4ncia. & processo acima descrito ! tam#!m aquele pelo qual uma sociedade e um território estão sempre à #usca de um sentido e e%ercem, por isso, uma vida refle%iva. Neste caso, o território não ! apenas o lugar de uma ação pragm*tica e seu e%erc$cio comporta, tam#!m, um aporte da vida, uma parcela de emoção, que permite aos valores representar um papel. & território se metamorfoseia em algo mais do que um simples recurso e, para utili(ar uma e%pressão, que ! tam#!m de Mean 0ottmann, constitui um a#rigo. Na realidade, a mesma fração do território pode ser recurso e a#rigo, pode condicionar as ações mais pragm*ticas e, ao mesmo tempo, permitir vocações generosas. &s dois movimentos são concomitantes. Nas condições atuais, o movimento determinante, com tend4ncia a uma difusão avassaladora, ! o da criação da ordem da racionalidade pragm*tica, enquanto a produção do espaço #anal ! residual. 7ode.se, todavia, imaginar outro cen*rio, no qual o comportamento do espaço de

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flu%os se3a su#ordinado não como agora à reali(ação do dinheiro e encontre um freio a essa forma de manifestação, tornando.se su#ordinado à reali(ação plena da vida, de modo que os espaços #anais aumentem sua capacidade de servir à plenitude do homem.

-*( A esqui'ofrenia do espaço
Jomo sa#emos, o mundo, como um con3unto de ess4ncias e de possi#ilidades, não e%iste para ele próprio, e apenas o fa( para os outros. ) o espaço, isto !, os lugares, que reali(am e revelam o mundo, tornando.o historici(ado e geografi(ado, isto !, empirici(ado. &s lugares são, pois, o mundo, que eles reprodu(em de modos espec$ficos, individuais, diversos. 'les são singulares, mas são tam#!m glo#ais, manifestações da totalidade.mundo, da qual são formas particulares. $e! cidad'o num "u3a! Nas condições atuais, o cidadão do lugar pretende instalar.se tam#!m como cidadão do mundo. verdade, por!m, ! que o 5mundo6 não tem como regular os lugares. 'm conseqX4ncia, a e%pressão cidadão do mundo torna.se um voto, uma promessa, uma possi#ilidade distante. Jomo os atores glo#ais efica(es são, em "ltima an*lise, anti.homem e anticidadão, a possi#ilidade de e%ist4ncia de um cidadão do mundo ! condicionada pelas realidades nacionais. Na verdade, o cidadão só o ! 8ou não o !9 como cidadão de um pa$s. Ser 5cidadão de um pa$s6, so#retudo quando o território ! e%tenso e a sociedade muito desigual, pode constituirO apenas, uma perspectiva de cidadania integral, a ser alcançada nas escalas su#.nacionais, a começar pelo n$vel local. 'sse ! o caso #rasileiro, em que a reali(ação da cidadania reclama, nas condições atuais, uma revalori(ação dos lugares e uma adequação de seu estatuto pol$tico. multiplicidade de situações regionais e municipais, tra(ida com a glo#ali(ação, instala uma enorme variedade de quadros de vida, cu3a realidade preside o cotidiano das pessoas e deve ser a #ase para uma vida civili(ada em comum. ssim, a possi#ilidade de cidadania plena das pessoas depende de soluções a serem #uscadas localmente, desde que, dentro da nação, se3a institu$da uma federação de lugares, uma nova estruturação pol$tico.territorial, com a indispens*vel redistri#uição de recursos, prerrogativas e o#rigações. partir do pa$s como federação de lugares ser* poss$vel, num segundo momento, construir um mundo como federação de pa$ses. /rata.se, em am#as as etapas, de uma construção de #ai%o para cima cu3o ponto central ! a e%ist4ncia de individualidades fortes e das garantias 3ur$dicas correspondentes. por!m, muito longe da reali(ação desse ideal. Jomo, então, poderemos alcanç*.loN O cotidiano e o te!!it/!io & território tanto quanto o lugar são esqui(ofr4nicos, porque de um lado acolhem os vetores da glo#ali(ação, que neles se instalam para impor sua nova ordem, e, de outro lado, neles se 55 #ase geogr*fica dessa construção ser* o lugar, considerado como espaço de e%erc$cio da e%ist4ncia plena. 'stamos,

produ( uma contra.ordem, porque h* uma produção acelerada de po#res, e%clu$dos, marginali(ados. Jrescentemente reunidas em cidades cada ve( mais numerosas e maiores, e e%perimentando a situação de vi(inhança 8que, segundo Sartre, ! reveladora9, essas pessoas não se su#ordinam de forma permanente à racionalidade hegem-nica e, por isso, com freqX4ncia podem se entregar a manifestações que são a contraface do pragmatismo. ssim, 3unto à #usca da so#reviv4ncia, vemos produ(ir.se, na #ase da sociedade, um pragmatismo mesclado com a emoção, a partir dos lugares e das pessoas 3untos. 'sse !, tam#!m, um modo de insurreição em relação à glo#ali(ação, com a desco#erta de que, a despeito de sermos o que somos, podemos tam#!m dese3ar ser outra coisa. Nisso o papel do lugar ! determinante. 'le não ! apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto !, de e%peri4ncia sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação so#re o presente e o futuro. e%erce um papel revelador so#re o mundo. 0lo#ais, os lugares ganham um quinhão 8maior ou menor9 da 5racionalidade6 do 5mundo6. Mas esta se propaga de modo heterog4neo, isto !, dei%ando coe%istirem outras racionalidades, isto !, contra.racionalidades, a que, equivocadamente e do ponto de vista da racionalidade dominante, se chamam 5irracionalidades6. Mas a conformidade com a Ka(ão :egem-nica ! limitada, enquanto a produção plural de 5irracionalidades6 ! ilimitada. ) somente a partir de tais irracionalidades que ! poss$vel ampliação da consci4ncia. Se este ! um dado geral, ele se d* com variações segundo as coletividades e os su#espaços. =e3am.se, por e%emplo, as diferenças, ho3e, entre campo e cidade. No campo, as racionalidades da glo#ali(ação se difundem mais e%tensivamente e mais rapidamente. Na cidade as irracionalidades se criam mais numerosa e incessantemente que as racionalidades, so#retudo quando h*, paralelamente, produção de po#re(a. ) este o fundamento da esqui(ofrenia do lugar. /al esqui(ofrenia se resolve a partir do fato de que cada pessoa, grupo, firma, instituição reali(a o mundo à sua maneira. pessoa, o grupo, a firma, a instituição constituem o de dentro do lu3ar, com o qual se comunicam so#retudo pela mediação da t!cnica e da produção propriamente dita, enquanto o mundo se d* para a pessoa, grupo, firma, instituição como o de fora do lu3ar e por interm!dio de uma mediação pol$tica. mediação t!cnica e produção correspondente, local e diretamente e%perimentadas, podem não ser inteiramente compreendidas, mas são vividas como um dado imediato, enquanto a mediação pol$tica, frequentemente e%ercida de longe e cu3os o#3etivos nem sempre são evidentes, e%ige uma interpretação mais filosófica. ;ma filosofia #anal começa por ser instalar no esp$rito das pessoas com a desco#erta, autori(ada pelo cotidiano, da não.autonomia das ações e dos seus resultados. 'ste ! um dado comum a todas as pessoas, não importa a diferença de suas situações. Mas outra coisa ! ultrapassar a desco#erta da diferença e chegar à sua consci4ncia. Uma peda3o3ia da eEistência 2sso, todavia, não ! tudo. consci4ncia da diferença pode condu(ir simplesmente à e%ist4ncia na9uele espaço

defesa individualista do próprio interesse, sem alcançar a defesa de um sistema alternativo de id!ias e de vida. 1e um ponto de vista das id!ias, a questão central reside no encontro do caminho que vai

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do imediatismo às visões final$sticasO e de um ponto de vista da ação, o pro#lema ! ultrapassar as soluções imediatistas 8por e%emplo, eleitoralismos interesseiros e apenas provisoriamente efica(es9 e alcançar a #usca pol$tica genu$na e constitucional de rem!dios estruturais e duradouros. Nesse processo, afirma.se, tam#!m, segundo novos moldes, a antiga oposição entre o mundo e o lugar. informação mundiali(ada permite a visão, mesmo em flashes, de ocorr4ncias distantes. & conhecimento de outros lugares, mesmo superficial e incompleto, aguça a curiosidade. 'le ! certamente um su#produto de uma informação geral enviesada, mas, se for a3udado por um conhecimento sist4mico do acontecer glo#al, autori(a a visão da história como uma situação e um processo, am#os cr$ticos. 1epois, o pro#lema crucial !D como passar de uma situação cr$tica a uma visão cr$tica U e, em seguida, alcançar uma tomada de consci4ncia. 7ara isso, ! fundamental viver a própria e%ist4ncia como algo de unit*rio e verdadeiro, mas tam#!m como um parado%oD o#edecer para su#sistir e resistir para poder pensar o futuro. 'ntão a e%ist4ncia ! produtora de sua própria pedagogia.

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. 8 LIMIT:$ K GLOBALIZAÇÃO P:R.:R$A

Int!odu&'o
an*lise do fen-meno da glo#ali(ação ficaria incompleta se, após reconhecer os fatores que possi#ilitaram sua emerg4ncia, apenas nos detiv!ssemos na apreciação dos seus aspectos atualmente dominantes, de que resultam tantos inconvenientes para a maior parte da humanidade. Ja#e, agora, verificar os limites dessa evolução e reconhecer a emerg4ncia de certo n"mero de sinais indicativos de que outros processos paralelamente se levantam, autori(ado pensar que vivemos uma verdadeira fase de transição para um novo per$odo. 'm primeiro lugar, o denso sistema ideológico que envolve e sustenta as ações determinantes parece não resistir à evid4ncia dos fatos. velocidade não ! um #em que permita uma distri#uição generali(ada, e as disparidades no seu uso garantem a e%acer#ação das desigualdades. vida cotidiana tam#!m revela a impossi#ilidade de fruição das vantagens do chamado tempo real para a maioria da humanidade. promessa de que as t!cnicas contemporâneas pudessem melhorar a e%ist4ncia de todos caem por terra e o que se o#serva ! a e%pansão acelerada do reino da escasse(, atingindo as classes m!dias e criando mais po#res. s populações envolvidas no processo de e%clusão assim fortalecido aca#am por relacionar suas car4ncias e vicissitudes ao con3unto de novidades que as atingem. ;ma tomada de consci4ncia torna.se poss$vel ali mesmo onde o fen-meno da escasse( ! mais sens$vel. 7or isso, a compreensão do que se est* passando chega com clare(a crescente aos po#res e aos pa$ses po#res, cada ve( mais numerosos e carentes. 1a$ o rep"dio às id!ias e às pr*ticas pol$ticas que fundamentam o processo socioecon-mico atual e a demanda, cada ve( mais pressurosa, de novas soluções. 'stas não mais seriam centradas no dinheiro, como na atual fase da glo#ali(ação, para encontrar no próprio homem a #ase e o motor da construção de um novo mundo.

-H( A variável ascendente
&s fen-menos a que muitos chamam de glo#ali(ação e outros de pós.modernidade 8Kenato &rti(, Aundiali#ação e cultura, >??@9 na verdade constituem, 3untos, um momento #em demarcado do processo histórico. 7referimos considera.lo um per$odo. Jomo em qualquer outro per$odo histórico, funcionam de forma concertada diversas vari*veis cu3a visão sist4mica ! indispens*vel para entender o que se est* reali(ando. /am#!m como em todo per$odo, a partir de

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certo momento h* vari*veis que perdem vigor, verdadeiras vari*veis descendentes, e outras que passam a se impor. São as vari*veis ascendentes que revelam a produção de um novo per$odo, isto !, apontam para o futuro. & momento atual da história do mundo parece ainda indicar a emerg4ncia de numerosas vari*veis ascendentes cu3a e%ist4ncia ! sist4mica. 2sso, e%atamente, permite pensar que se estão produ(indo as condições de reali(ação de uma nova história. 7or enquanto, renunciamos , aqui, a fornecer uma lista e%austiva dos fen-menos, mas não a apontar alguns fatos que nos parecem #em caracter$sticos das mudanças em curso. ;m deles ! o crescente desencanto com as t!cnicas, acompanhado por uma gradativa recuperação do #om senso, em oposição ao senso comum, isto !, em oposição à pretensa racionalidade sugerida tanto pelas t!cnicas em si mesma como pela pol$tica do seu uso. &utro dado significativo se levanta com a impossi#ilidade relativamente crescente de acesso a essas t!cnicas, em virtude do aumento da po#re(a em todos os continentes. Munte.se a esse dado o fato de que, apesar da capacidade invasora das t!cnicas hegem-nicas, so#revivem e criam.se novas t!cnicas não hegem-nicas. 7ode. se arriscar um vatic$nio e reconhecer, no con3unto do processo, o an"ncio de um novo per$odo histórico, su#stituto do atual per$odo. 'star$amos na aurora de uma nova era, em que a população, isto !, as pessoas constituiriam sua principal preocupação, um verdadeiro per$odo popular da história, 3* entremostrado pelas fragmentações e particulari(ações sens$veis em toda parte devidas à cultura e o território.

?)( Os limites da racionalidade dominante
& 7ro3eto Kacional começa a mostrar suas limitações talve( porque este3amos atingindo aquele paro%ismo previsto por ^e#er 8 Bcono);a 6 sociedad, >?EE9 para reali(ar.se quando o processo de e%pansão da racionalidade capitalista se tornasse ilimitado. /udo indica que estamos atingindo essa fronteira, agora que, nos diversos n$veis da vida econ-mica, social, individual, vivemos uma racionalidade totalit*ria que vem acompanhada de uma perda da ra(ão. & de#oche de car4ncia e de escasse( que atinge uma parcela cada ve( maior da sociedade humana permite reconhecer a realidade dessa perdição. ;ma #oa parcela da humanidade, por desinteresse ou incapacidade, não ! mais capa( de o#edecer a leis, normas, regras, mandamentos, costumes derivados dessa racionalidade hegem-nica. 1a$ a proliferação de 5ilegais6, 5irregulares6, 5informais6. 'ssa incapacidade mistura, num processo de vida, pr*ticas e teorias herdadas e inovadas, religiões tradicionais e novas convicções. ) nesse caldo de cultura que numerosas frações da sociedade passam da situação anterior de conformidade associada ao conformismo a uma etapa superior da produção da consci4ncia, isto !, a conformidade sem o conformismo. 7rodu(.se dessa maneira a redesco#erta pelos homens da verdadeira ra(ão e não ! espantoso que tal desco#rimento se d4 e%atamente nos espaços sociais, econ-micos e geogr*ficos tam#!m 5não conformes6 à racionalidade dominante. Na esfera da racionalidade hegem-nica, pequena margem ! dei%ada para a variedade, a criatividade, a espontaneidade. 'nquanto isso, surgem, nas outras esferas, contra.racionalidades e racionalidades paralelas corriqueiramente chamadas de irracionalidades, mas que na realidade 59

constituem outras formas de racionalidade. 'stas são produ(idas e mantidas pelos que estão 5em#ai%o6, so#retudo os po#res, que desse modo conseguem escapar ao totalitarismo da racionalidade dominante. Kecordemos o ensinamento de Sartre, para quem a escasse( ! que torna a história poss$vel, graças à 5unidade negativa da multiplicidade concreta dos homens6. /al situação ! o#3etivamente esperançosa porque agora assistimos ao fim das espectativas nutridas no após.guerra e, ao contr*rio, testemunhamos a ampliação do n"mero de po#res, assim como o estreitamento das possi#ilidades e das certe(as que as classes m!dias acalentavam at! a d!cada de >?CB. &utro dado o#3etivo ! o fato de que a reali(ação cada ve( mais densa do processo de glo#ali(ação ense3a o caldeamento, ainda que elementar, das filosofias produ(idas nos diversos continentes, em detrimento do racionalismo europeu, que ! o #isav- das id!ias de racionalismo tecnocr*tico ho3e dominantes.

?-( O imaginário da velocidade
Na fam$lia dos imagin*rios da glo#ali(ação e das t!cnicas, encontra.se a id!ia, difundida com e%u#erância, de que a velocidade constitui um dado irrevers$vel na produção da história, so#retudo ao alcançar os paro%ismos dos tempos atuais. Na verdade, por!m, somente algumas pessoas, firmas e instituições são altamente velo(es, e são ainda em menor n"mero as que utili(am todas as virtualidades t!cnicas das m*quinas. Na verdade, o resto da humanidade produ(, circula e vive de outra maneira. 0raças à impostura ideológica o fato da minoria aca#a sendo representativo da totalidade, graças e%atamente à força do imagin*rio. 'ssa transformação de uma fluide( potencial numa fluide( efetiva, por meio da velocidade e%acer#ada, todavia não tem e nem #usca um sentido. Sem d"vida, ela serve ao e%erc$cio de uma competitividade desa#rida, mas esta ! uma coisa que ningu!m sa#e para o que realmente serve. .e"ocidade< t>cnica e pode! 7ode.se di(er que a velocidade assim utili(ada ! duplamente um dado da pol$tica e não da t!cnica. 1e um lado, trata.se de uma escolha relacionada com o poder dos agentes e, de outro, da legitimação dessa escolha, por meio da 3ustificação de um modelo de civili(ação. ) nesse sentido que estamos afirmando tratar.se mais de um dado da pol$tica que, propriamente, da t!cnica, 3* que esta poderia ser usada diferentemente em função do con3unto de escolhas sociais. 1e fato, o uso e%tremo da velocidade aca#a por ser o imperativo das empresas hegem-nicas e não das demais, para as quais o sentido de urg4ncia não ! uma constante. Mas ! a partir desse e de outros comportamentos que a pol$tica das empresas arrasta a pol$tica dos 'stados e das instituições supranacionais. No passado, a ordem mundial se constru$a mediante uma com#inação pol$tica que condu(ia à não.o#edi4ncia aos ditames da t!cnica mais moderna. 7ensemos, por e%emplo, no s!culo do imperialismo, nos cem anos que vão do quarto quartel do s!culo R2R ao terceiro do s!culo RR. &s imp!rios, em sua qualidade de grandes con3untos pol$ticos e territoriais, viviam e evolu$am segundo idades t!cnicas diversas, utili(ando, cada qual, dentro dos seus dom$nios, con3untos de avanços t!cnicos disparatados e que mostravam n$veis diferentes. & imp!rio #ritânico estava à frente dos 60

demais quanto à posse de recursos t!cnicos avançados. Mas isso não imedia sua conviv4ncia com outros imp!rios. 1entro de cada um, o uso do con3unto dos recursos t!cnicos era comandado por um con3unto de normas relacionadas ao com!rcio, à produção e ao consumo, o que permitia a cada #loco uma evolução própria, não pertur#ada pela e%ist4ncia em outros imp!rios de avanços t!cnicos mais significativos. No fundo, a politica comercial aplicada dentro de cada imp!rio assegurava a pol$tica do con3unto do mundo ocidental 8M. Santos, $ nature#a do espaço, >??G, pp. AG.AH e pp. >FE. >FA9. & e%emplo mostra não ser certo que ha3a um imperativo t!cnico. & imperativo ! pol$tico. 1esse modo, não h* uma ineluta#ilidade face aos sistemas t!cnicos, nem muito menos um determinismo. li*s, a t!cnica somente ! um a#soluto enquanto irreali(ada. ssim, e%istindo apenas na vitrine, mas historicamente ine%istente, equivaleria a uma a#stração. Vuando nos referimos à historici(ação e à geografi(ação das t!cnicas, estamos cuidando de entender o seu uso pelo homem, sua qualidade de intermedi*rio da ação, isto !, sua relativi(ação. No per$odo da glo#ali(ação, o mercado e%terno, com suas e%ig4ncias de competitividade, o#riga a aumentar a velocidade. Mas a população em seus diferentes n$veis, os po#res e os que vivem longe dos grandes mercados o#rigam a com#inações de formas e n$veis de capitalismo. ) o mercado interno que freia a vontade de velocidade de que 3* falava M. Sorre 8$nnales de 35o3raphie, >?@C9, porque todos os atores dele participam. /odavia, os dois mercados são intercorrentes, interdependentes. 2nvadindo a economia e o território com grande velocidade, o circuito superior #usca destruir as formas pree%istentes. Mas o território resiste, so#retudo na grande cidade, graças, entre outras coisas, à menor fricção da distância. s pequenas e m!dias empresas locais t4m mais acesso potencial que, por e%emplo, uma grande empresa de Manaus, pois podem alcançar uma parte significativa da cidade 8por e%emplo, os supermercados menores9. Jontri#uir* tam#!m para esse maior acesso potencial o fato de estarem num meio que ! um tecido e um emaranhado de normas concernentes, o que torna essas empresas menos dependentes de uma "nica norma para su#sistir. Mas, com a glo#ali(ação e seu imagin*rio comum ao da t!cnica hegem-nica, uma e outra são dadas como indispens*veis à participação plena no processo histórico. 0o !e"/3io desp/tico às tempo!a"idades di e!3entes ) fato, tam#!m, que, com a interdepend4ncia glo#ali(ada dos lugares e a planetari(ação dos sistemas t!cnicos dominantes, estes parecem se impor como invasores, servindo como parâmetro na avaliação da efic*cia de outros lugares e de outros sistemas t!cnico. ) nesse sentido que os sistema t!cnico hegem-nico aparece como algo a#solutamente indispens*vel e a velocidade resultante como um dado dese3*vel a todos que pretendem participar de pleno direito, da modernidade atual. /odavia, a velocidade atual e tudo que vem com ela, e que dela decorre, não ! inelut*vel nem imprescind$vel. Na verdade, ela não #eneficia nem interessa à maioria da humanidade. 7ara qu4, de fato, serve esse relógio despótico do mundo atualN s crises atuais são, em "ltima an*lise, uma resultante da aceleração contemporânea, mediante o uso privilegiado, por alguns atores econ-micos, das possi#ilidades atuais de fluide(. Jomo tal e%erc$cio não responde a um o#3etivo moral e, desse modo, ! desprovido de sentido, o resultado ! a instalação de situações em que o movimento encontra 3ustificativa em si mesmo U como ! o caso do mercado de capitais especulativos U tal autonomia sendo uma das ra(ões da desordem caracter$stica do per$odo atual.

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Vuando aceitamos pensar a t!cnica em con3unto com a pol$tica e admitimos atri#uir.lhe outro uso, ficamos convencidos de que ! poss$vel acreditar em uma outra glo#ali(ação e em um outro mundo. & pro#lema central ! o de retomar o curso da história, isto !, recolocar o homem no seu lugar central. /al preocupação de mudança inclui uma revisão do significado das palavras.chave do nosso per$odo, todas contaminadas pelo respectivo sistema ideológico. Iiquemos com a questão da velocidade, que pode ser vista como um paradigma da !poca, mas tam#!m como o que ela representa de em#lem*tico. Na verdade, se3a qual for o corpo social, a velocidade hegem-nica constitui uma das suas caracter$sticas, mas a definição da realidade somente pode ser o#tida considerando.se as diversas velocidades em presença. ', se3a como for, a efic*cia da velocidade não prov!m da t!cnica su#3acente. efic*cia da velocidade hegem-nica ! de nature(a pol$tica e depende do sistema socioecon-mico pol$tico em ação. 7ode.se di(er que, em uma dada situação, tal velocidade hegem-nica ! uma velocidade imposta ideologicamente. Jomo em tudo mais, a interpretação da história não pode ser dei%ada ao entendimento imediato do fen-meno t!cnico, e%igindo entender como, nessa mesma situação, se relacionam a t!cnica e a pol$tica, atri#uindo a esta o papel central no entendimento das ações que conformam o presente atual e que podem tornar poss$vel um outro futuro.

??( +ust,in,time versus o cotidiano
& tema das verticalidades e das hori(ontalidades pode comportar numerosas reinterpretações. ;ma delas, refletindo o 3ogo contraditório entre essas categorias, ! a verdadeira oposição e%istente entre a nature(a das atividades Cust>in>ti)e, que tra#alham com um relógio universal, e a realidade das atividades que, 3untas, constituem a vida cotidiana. No primeiro caso trata.se da vocação para uma racionalidade "nica, reitora de todas as outras, dese3osa de homogenei(ação e de unificação, pretendendo sempre tomar o lugar das demais, uma racionalidade "nica, mas racionalidade sem ra(ão, que transforma a e%ist4ncia daqueles a quem su#ordina numa perspectiva de alienação. M* no cotidiano, a ra(ão, isto !, a ra(ão de viver, ! #uscada por meio do que, face a essa racionalidade hegem-nica, ! considerada como 5irracionalidade6, quando na realidade o que se d* são outras formas de ser racional. & mundo do tempo real, do 3ust.in.time, ! aquele su#sistema da realidade total que #usca em sua lógica nessa mencionada racionalidade "nica, cu3a criação !, todavia, limitada, atri#uto de um pequeno n"mero de agentes. & mundo do cotidiano ! tam#!m o da produção ilimitada de outras racionalidades, que são, ali*s, tão diversas quanto as *reas consideradas, 3* que a#rigam todas as modalidades de e%ist4ncia. & funcionamento dos espaços hegem-nicos supõe uma demanda desesperada de regrasO quando as circunstâncias mudam e, por isso, as normas reguladoras t4m de mudar, nem por isso sua demanda dei%a de ser desesperada. /al regulação o#edece à consideração de interesses privat$sticos. M* o cotidiano supõe uma demanda desesperada de 7ol$tica, resultado da consideração con3unta de m"ltiplos interesses. No caso das atividades Cust>in>ti)e, uma só temporalidade ! consideradaD ! a fórmula de so#reviv4ncia no mundo da competitividade à escala planet*ria. Jomo dado motor, uma só 62

e%ist4ncia, a dos agentes hegem-nicos, !, ao mesmo tempo, origem e finalidade das ações.

vida

cotidiana a#range v*rias temporalidades simultaneamente presentes, o que permite considerar, paralela e solidariamente, a e%ist4ncia de cada um e de todos, como, ao mesmo tempo, sua origem e finalidade. & con3unto das condições acima enunciadas permite di(er que o mundo do tempo real #usca uma homogenei(ação empo#recedora e limitada, enquanto o universo do cotidiano ! o mundo da heterogeneidade criadora.

?4( Um emaran ado de técnicas( o reino do artifício e da escasse'
Sa#emos 3* que as t!cnicas presentes em uma dada situação não são homog4neas. 'nquanto as t!cnicas hegem-nicas se dão em redes, al!m delas outras t!cnicas se impõem. Mas, em uma dada situação, todas as t!cnicas presentes aca#am por ser ine%tric*veis. /al solidariedade não !, propriamente, entre as t!cnicas, mas o fruto da vida solid*ria da sociedade. 0o a!ti;Fcio à escasse, :o3e, tanto os o#3etivos quanto as ações derivam da t!cnica. s t!cnicas estão, pois, em toda parteD na produção, na circulação, no território, na pol$tica, na cultura. 'las estão tam#!m U e permanente U no corpo e no esp$rito do homem. =ivemos todos num emaranhado de t!cnicas, o que em outras palavras significa que estamos todos mergulhados no reino do artif$cio. Na medida em que as t!cnicas hegem-nicas, fundadas na ci4ncia e o#edientes aos imperativos do mercado, são ho3e e%tremamente dotadas de intencionalidade, h* igualmente tend4ncia à hegemonia de uma produção 5racional6 de coisas e de necessidadesO e desse modo uma produção e%cludente de outras produções, com a multiplicação de o#3etos t!cnicos estritamente programados que a#rem espaço para essa orgia de coisas e necessidades que impõem relações e nos governam. Jria.se um verdadeiro totalitarismo tendencial da racionalidade U isto !, dessa racionalidade hegem-nica, dominante . , produ(indo.se a partir do respectivo sistema certas coisas, serviços, relações e id!ias. 'sta, ali*s, ! a #ase primeira da produção de car4ncias e de escasse(, 3* que uma parcela consider*vel da sociedade não pode ter acesso às coisas, serviços, relações, id!ias que se multiplicam na #ase da racionalidade hegem-nica. situação contemporânea revela, entre outras coisas, tr4s tend4nciasD >. uma produção acelerada e artificial de necessidadesO E. uma incorporação limitada de modos de vida ditos racionaisO A. uma produção limitada de car4ncia e escasse(. Nessa situação, as t!cnicas a velocidade, a pot4ncia criam desigualdades e, paralelamente, necessidades, porque não h* satisfação para todos. Não ! que a produção necess*ria se3a glo#almente imposs$vel. Mas o que ! produ(ido U necess*ria ou desnecessariamente U ! desigualmente distri#u$do. 1a$ a sensação e, depois, a consci4ncia de escasse(D aquilo que falta a mim, mas que o outro mais #em situado na sociedade possui. id!ia vem de Sartre, quando registra que 5não h* #astante para todo o mundo6. 7or isso o outro consome e não eu. & homem, cada homem, ! afinal definido pela soma dos poss$veis que lhe ca#em, mas tam#!m pela soma dos seus imposs$veis. 63

& reino da necessidade e%iste para todos, mas segundo formas diferentes, as quais simplificamos mediante duas situações U tipoD para os 5possuidores6, para os 5não possuidores6. Vuanto aos 5possuidores6, torna.se vi*vel, mediante possi#ilidades reais ou artif$cios renovados, a fuga à escasse( e a superação ainda que provisória da escasse(. Jomo o processo da criação de necessidades ! infinito, impõe.se uma readaptação permanente. Jria.se um c$rculo vicioso com a rotina da falta e da satisfação. Na realidade, para essa parcela da sociedade a falta 3* ! criada como a e%pectativa e a perspectiva de satisfação. s negociações para regressar ao status de consumidor satisfeito condu(em à repetição de e%peri4ncias e%itosas. 1esse modo, a parcela de consumidores contuma(es o#t!m uma conviv4ncia relativamente pac$fica com a escasse(. Mas a #usca permanente de #ens finitos e por isso condenados ao esgotamento 8e à su#stituição por outros #ens finitos9 condena os aparentemente vitoriosos à aceitação da contrafinalidade contida nas coisas e em conseqX4ncia ao enfraquecimento da individualidade. Vuanto aos 5não.possuidores6 sua conviv4ncia com a escasse( ! conflituosa e at! pode ser guerreira. 7ara eles, viver na esfera do consumo ! como querer su#ir uma escada rolante no sentido da descida. Jada dia aca#a oferecendo uma nova e%peri4ncia da escasse(. 7or isso não h* lugar para o repouso e a própria vida aca#a por ser um verdadeiro campo de #atalha. Na #riga cotidiana pela so#reviv4ncia, não h* negociação poss$vel para eles, e, individualmente, não h* força de negociação. so#reviv4ncia só ! assegurada porque as e%peri4ncias imperativamente se renovam. ' como a surpresa se d* como rotina, a rique(a dos 5não.possuidores6 ! a prontidão dos sentidos. ) com essa força que eles se e%imem da contrafinalidade e ao lado da #usca de #ens materiais finitos cultivam a procura de #ens infinitos como a solidariedade e a li#erdadeD estes, quanto mais se distri#uem, mais aumentam. 0a escasse, ao entendimento e%peri4ncia da escasse( ! a ponte entre o cotidiano vivido e o mundo. 7or isso, constitui um instrumento primordial na percepção da situação de cada um e uma possi#ilidade de conhecimento e de tomada de consci4ncia. & nosso tempo consagra a multiplicação das fontes de escasse(, se3a pelo n"mero avassalador dos o#3etos presentes no mercado, se3a pelo chamado incessante ao consumo. Jada dia, nessa !poca de glo#ali(ação, apresenta.se um o#3eto novo, que nos ! mostrado para provocar o apetite. noção de escasse( se materiali(a, se aguça e se reaprende cotidianamente, assim como, 3* sociedade atual vai dessa maneira, agora, a certe(a de que cada dia ! dia de uma nova escasse(.

mediante o mercado e a pu#licidade, criando dese3os insatisfeitos, mais tam#!m reclamando e%plicações. 1ir.se.ia que tal movimento se repete, enriquecendo o movimento intelectual. escasse( de um pode se parecer à escasse( do outro e a escasse( de ho3e à escasse( de ontem, mas quando não ! satisfeita ela aca#a por se impor como diferente da de ontem e da do outro. lteridade e individualidade se reforçam com a renovação da novidade. Vuanto mais diferentes são os que convivem num espaço limitado, mais id!ias do mundo a$ estarão para ser levantadas, cote3adas e, desse modo, tanto mais rico ser* o de#ate silencioso ou ruidoso que entre as pessoas se esta#elece. Nesse sentido, pode.se di(er que a cidade ! um lugar privilegiado para essa revelação e que, nessa fase da glo#ali(ação, a aceleração contemporânea ! tam#!m aceleração na produção da

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escasse( e na desco#erta da sua realidade, 3* que, multiplicando e apressando os contatos, e%i#e a multiplicidade de formas de escasse( contemporânea, as quais vão mudando mais rapidamente para se tornarem mais numerosas e mais diversas. 7ara os po#res, a escasse( ! um dado permanente da e%ist4ncia, mas como sua presença na vida de todos os dias ! o resultado de uma metamorfose tam#!m permanente, o tra#alho aca#a por ser, para eles, o lugar de uma desco#erta cotidiana e de um com#ate cotidiano, mas tam#!m uma ponte entre a necessidade e o entendimento 8M. Santos, Dornal do "rasil, BG.B@.>??H9.

?@( -apel dos pobres na produção do presente e do futuro
& e%ame do papel atual dos po#res na produção do presente e do futuro e%ige, em primeiro lugar, distinguir entre po#re(a e mis!ria. aniquilamento, ou quase, da pessoa. mis!ria aca#a por ser a privação total, com o po#re(a ! uma situação de car4ncia, mas tam#!m de luta, um

estado vivo, de vida ativa, em que a tomada de consci4ncia ! poss$vel. Miser*veis são os que se confessam derrotados. Mas os po#res não se entregam. 'les desco#rem cada dia formas in!ditas de tra#alho e de luta. ssim, eles enfrentam e #uscam rem!dio para suas dificuldades. Nessa condição de alerta permanente, não t4m repouso intelectual. memória seria sua inimiga. herança do passado ! temperada pelo sentimento de urg4ncia, essa consci4ncia do novo que !, tam#!m, um motor do conhecimento. socialidade ur#ana pode escapar ao seus int!rpretes, nas faculdadesO ou aos seus vigias, nas delegacias de pol$cia. Mas não aos atores ativos do drama, so#retudo quando, para prosseguir vivendo, são o#rigados a lutar todos os dias. :aver* quem descreva o quadro material dessa #atalha como se fosse um teatro, quando, por e%emplo, se fala em estrat!gia de so#reviv4ncia, mas na realidade esse palco, 3unto com seus atores, constitui a própria vida concreta da maioria das populações. cidade, pronta a enfrentar seu tempo a partir do seu espaço, cria e recria uma cultura com a cara do seu tempo e do seu espaço e de acordo ou em oposição aos 5donos do tempo6, que são tam#!m os donos do espaço. ) dessa forma que, na conviv4ncia com a necessidade e com o outro, se ela#ora uma pol$tica, a pol$tica dos de 'ai<o. constitu$da a partir das suas visões do mundo e dos lugares. /rata.se de uma pol$tica de novo tipo, que nada tem a ver com a pol$tica institucional. 'sta "ltima se funda na ideologia do crescimento, da glo#ali(ação etc. empresas. e ! condu(ida pelo c*lculo dos partidos e das pol$tica dos po#res ! #aseada no cotidiano vivido por todos, po#res e não po#res, e !

alimentada pela simples necessidade de continuar e%istindo. Nos lugares, uma e outra se encontram e confundem, da$ a presença simultânea de comportamentos contraditórios, alimentados pela ideologia do consumo. 'ste, ao serviço das forças socioecon-micas hegem-nicas, tam#!m se entranha na vida os po#res, suscitando neles e%pectativas e dese3os que não podem contentar. Num mundo tão comple%o, pode escapar aos po#res o entendimento sist4mico do sistema do mundo. 'ste lhes aparece ne#uloso, constitu$do por causas pró%imas e remotas, por motivações concretas e a#stratas, pela confusão entre os discursos e as situações, entre a e%plicação das coisas e a sua propaganda. Mas h* tam#!m a desilusão das demandas não satisfeitas, o e%emplo do vi(inho que prospera, o cotidiano contraditório. /alve( por a$ chegue o despertar. Num primeiro momento, este !, 65

apenas, o encontro de uns poucos fragmentos, de algumas peças do pu##le, mas tam#!m a dificuldade para entrar no la#irintoD falta.lhes o próprio sistema do mundo, do pa$s e do lugar. Mas a semente do entendimento 3* est* plantada e o passo seguinte ! o seu florescimento em atitudes de inconformidade e, talve(, re#eldia. Sem d"vida, os #rotes individuais de insatisfação podem não formar uma corrente. Mas os movimentos de massa nem sempre resultam de discursos claros e #em articulados, nem sempre se dão por meio de organi(ações conseqXentes e estruturadas. & entendimento sistem*tico das situações e a correspondente sistematicidade das manifestações de inconformidade constituem, via de regra, um processo lento. Mas isso não impede que, no âmago da sociedade, 3* se este3am, aqui e ali, levantando vulcões, mesmo que ainda pareçam silenciosos e dormentes. Na realidade, uma coisa são as organi(ações e os movimentos estruturados e outra coisa ! o próprio cotidiano como um tecido fle%$vel de relações, adapt*vel às novas circunstâncias, sempre em movimento. organi(ação ! importante, como o instrumento de agregação e multiplicação de forças afins, mas separadas. 'la tam#!m pode constituir o meio de negociação necess*rio a vencer etapas e encontrar um ovo patamar de resist4ncia e de luta. Mas a o#tenção de resultados, por mais compensadores que pareçam, não deve estimular a cristali(ação do movimento, nem encora3ar a repetição de estrat!gias e t*ticas. &s movimentos organi(ados devem imitar o cotidiano das pessoas, cu3a fle%i#ilidade e adapta#ilidade lhe asseguram um aut4ntico pragmatismo e%istencial e constituem a sua rique(a e fonte principal de veracidade.

?5( A metamorfose das classes médias
Jada !poca cria novos atores e atri#ui pap!is novos aos 3* e%istentes. 'ste ! tam#!m o caso das classes m!dias #rasileiras, desafiadas agora para o desempenho de uma importante tarefa histórica, na reconstituição do quadro pol$tico nacional. A idade de ou!o & chamado milagre econ-mico #rasileiro permite a difusão, à escala do pa$s, do fato da classe m!dia. Na realidade, entre as muitas 5e%plosões6 caracter$sticas do per$odo, est* esse crescimento cont$nuo das classes m!dias, primeiro nas grandes cidades e depois nas cidades menores e no campo moderni(ado. 'ssa e%plosão das classes m!dias acompanha, neste meio s!culo, a e%plosão demogr*fica, a e%plosão ur#ana e a e%plosão do consumo e do cr!dito. /al con3unto de fen-menos tem relação estrutural com o aumento da produção industrial e agr$cola, como tam#!m do com!rcio, dos transportes, das trocas de todos os tipos, das o#ras p"#licas, da administração e da necessidade de informação. :*, paralelamente, uma e%pansão e diversificação do emprego, com a difusão dos novos terci*rios e a consolidação, em muitas *reas do pa$s, de uma pequena #urguesia oper*ria. Jomo a moderni(ação capitalista tende ao esva(iamento do campo e ! sempre seletiva, uma parcela importante dos que se dirigiram às cidades não p-de participar do circuito superior da economia, dei%ando de incluir.se entre os assalariados formais e só encontrando tra#alho no circuito inferior da economia, impropriamente chamado de setor 5informal6. =ale realçar que no Lrasil do milagre, e at! durante #oa parte da d!cada de >?CB, a 66

classe m!dia se e%pande e se desenvolve sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o 'stado lhe ofereciam para a melhoria do seu poder aquisitivo e do seu #em.estar material. /odos iam su#indo 3untos, em#ora para andares diferentes. Mas todos das classes m!dias estavam c-nscios de sua ascensão social e esperançosos de conseguir ainda mais. 1a$ sua relativa coesão e o sentimento de se haver tornado um poderoso estamento. competição foi, na realidade, com os po#res, cu3o o acesso aos #ens e serviços se torna cada ve( mais dif$cil, à medida que estes se multiplicam. =ale a pena lem#rar as facilidades para a aquisição da casa própria, mediante programas governamentais com que foram privilegiados, enquanto os #rasileiros mais po#res apenas foram incompletamente atendidos nos "ltimos anos do regime autorit*rio. classe m!dia ! a grande #enefici*ria do crescimento econ-mico, do modelo pol$tico e dos pro3etos ur#an$sticos adotados. /al classe m!dia, ao mesmo tempo em que se diversifica profissionalmente, aumenta seu poder aquisitivo e melhora qualitativamente por meio das oportunidades de educação que lhe são a#ertas, tudo isso levantado à ampliação do seu #em.estar 8o que ho3e se chama de qualidade de vida9, condu(indo.a a acreditar que a preservação das suas vantagens e perspectivas estivesse assegurada. Jonforme mostraram m!lia Kosa S. Larreto e na Jlara /. Ki#eiro 85 d"vida da d$vida e a classe m!dia6, &astro, 277;K, ano A, n_ G, a#ril de >???9 5o acesso ao cr!dito transforma.se em instrumento para alcançar a esta#ilidade social6. /udo o que alimenta a classe m!dia d*.lhe, tam#!m um sentimento de inclusão no sistema pol$tico e econ-mico e um sentimento de segurança, estimulado pela constantes medidas do poder p"#lico em seu favor. /ratava.se, na realidade, de uma moeda de troca, 3* que a classe m!dia constitu$a uma #ase de apoio às ações do governo. Iorma.se, dessa maneira, uma classe m!dia sequiosa de #ens materiais, a começar pela propriedade, e mais apegada ao consumo que à se cidadania, sócia despreocupada do crescimento e do poder com os quais se confundia. 1a$ a tolerância, senão a cumplicidade com o regime autorit*rio. & modelo econ-mico importava mais que o modelo c$vico. 'ram essas, ali*s, condições o#3etivas necess*rias a um crescimento econ-mico sem democracia. Vuando o regime militar esgota o seu ciclo, a democracia se instala incompletamente na d!cada de >?CB, guardando todos esses v$cios de origem e sustentando um regime representativo falsificado pela aus4ncia de partidos pol$ticos conseqXentes. Seguindo essa lógica, as próprias esquerdas são levadas a dar mais espaço às preocupações eleitoras e menos à pedagogia propriamente pol$tica. desempenham os partidos. A escasse, c1e3a às c"asses m>dias /al situação tende a mudar, quando a classe m!dia começa a conhecer a e%peri4ncia da escasse(, o que poder* lev*.la a uma reinterpretação de sua situação. Nos anos recentes, primeiro de forma lenta ou espor*dica e 3* agora de modo mais sistem*tico e continuado, a classe m!dia conhece dificuldades que lhe apontam para uma situação e%istencial #em diferente daquela que conhecera h* poucos anos. /ais dificuldades chegam em em um tropelD a educação dos filhos, o cuidado com a sa"de, a aquisição ou aluguel da moradia, a possi#ilidade de pagar pelo la(er, a falta de garantia no emprego, a deteori(ação dos sal*rios, a poupança negativa e o crescente g4nese e as formas de e%pansão das classes m!dias #rasileiras t4m relação direta com a maneira como ho3e se

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endividamento estão levando ao desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto ao futuro, tanto o futuro remoto quanto o imediato. /ais incerte(as são agravadas pelas novas perspectiva da previd4ncia social e do regime de aposentadorias, da prometida reforma dos seguros privados e da legislação do tra#alho. tudo isso se acrescentam, dentro do próprio lar, a apreensão dos filhos em relação ao futuro profissional e as manifestações cotidianas desse desassossego. M* que não mais encontram os rem!dios que lhe eram oferecidos pelo mercado ou pelo 'stado como solução aos seus pro#lemas individuais emergentes, as classes m!dias ganham a percepção de que 3* não mandam, ou de que 3* não participam da partilha do poder. costumadas a atri#uir aos pol$ticos a solução dos seus pro#lemas, proclamam, agora, seu descontentamento, distanciando.se deles. 'las 3* não v4em espelhadas nos partidos e por isso se instalam num desencanto mais a#rangente quanto à pol$tica propriamente dita. 2sso ! 3ustificado, em parte, pela visão de consumidor desa#usado que alimentou durante d!cadas, agravada com a fragmentação pela m$dia, so#retudo televisiva, da informação e da interpretação do processo social. certe(a de não mais influir politicamente ! fortalecida nas classes m!dias, levando.as, não raro, a reagir negativamente, isto !, a dese3ar menos pol$tica e menos participação, quando a reação correta poderia e deveria ser e%atamente a oposta. atual e%peri4ncia de escasse( pode não condu(ir imediatamente à dese3*vel e%pansão da consci4ncia. ' quando esta se impõe, não o fa( igualmente, segundo as pessoas. =isto esquematicamente, tal processo pode ter, como primeiro degrau, a preocupação de defender situações individuais ameaçadas e que se dese3a reconstituir, retomando o consumo e o conforto material como o principal motor de uma luta, que, desse modo, pode se limitar a novas manifestações de individualismo. ) num segundo momento que tais reivindicações, fruto de refle%ão mais profunda, podem alcançar um n$vel qualitativo superior, a partir de um entendimento mais amplo do processo social e de uma visão sist4mica de situações aparentemente isoladas. & passo seguinte pode levar à decisão de participar de uma luta pela sua transformação, quando o consumidor assume o papel de cidadão. Não importa que esse movimento de tomada de consci4ncia não se3a geral, nem igual para todas as pessoas. & importante ! que se instale. Um dado no o na po"Ftica Se3a como for, as classes m!dias #rasileiras, 3* não mais aduladas, e feridas de morte nos seus interesses materiais e espirituais, constituem, em sua condição atual, um dado novo da vida social e pol$tica. Mas seu papel não estar* completo enquanto não se identificar com os clamores dos po#res, contri#uindo, 3untos, para o rearran3o e a regeneração dos partidos, inclusive os partidos do progresso. 1entro destes, são muito os que ainda aceitam as tentações do triunfalismo oposicionista U sempre que as ocasiões se apresentam U e se rendem ao oportunismo eleitoreiro, limitando.se às respectivas mo#ili(ações ocasionais, desgarrando.se, assim, do seu papel de formadores não apenas da opinião mas da consci4ncia c$vica sem a qual não pode haver neste pa$s pol$tica verdadeira. s classes m!dia #rasileira, agora mais ilustradas e, tam#!m, mais despo3adas materialmente, t4m, agora, a tarefa histórica de forçar os partidos a complementar, no Lrasil, o tra#alho, apenas começado, de implantação de uma democracia que não se3a apenas eleitoral, mas, tam#!m, econ-mica, pol$tica e social. e%peri4ncia da escasse(, um revelador cotidiano da

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verdadeira situação de cada pessoa !, desse modo, um dado fundamental na aceleração da tomada de consci4ncia. Nas condições #rasileiras atuais, as novas circunstâncias podem levar as classes m!dias a forçar uma mudança su#stancial do ide*rio e das pr*ticas pol$ticas, que incluam uma maior responsa#ilidade ideológica e a correspondente representatividade pol$tico.eleitoral dos partidos.

.I 8 A TRA9$IÇÃO :M MAR%JA

Int!odu&'o
gestação do novo, na história, d*.se, freqXentemente, de modo quase impercept$vel para os contemporâneos, 3* que suas sementes começam a se impor quando ainda o velho ! quantitativamente dominante. ) e%atamente por isso que a 5qualidade6 do novo pode passar desperce#ida. Mas a história se caracteri(a como uma sucessão ininterrupta de !pocas. 'ssa id!ia de movimento e mudança ! inerente à evolução da humanidade. ) dessa forma que os per$odos nascem, amadurecem e morrem. No caso do mundo atual, temos a consci4ncia de viver um novo per$odo, mas o novo que mais facilmente apreendemos ! a utili(ação de formid*veis recursos da t!cnica e da ci4ncia pelas novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais igualmente novas. Não se pode di(er que a glo#ali(ação se3a semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que havia antes, e%atamente porque as condições de sua reali(ação mudaram radicalmente. ) somente agora que a humanidade est* podendo contar com essa nova qualidade da t!cnica, providenciada pelo que se est* chamando de t!cnica informacional. Jhegamos a um outro s!culo e o homem, por meio dos avanços da ci4ncia, produ( um sistema de t!cnicas presidido pelas t!cnicas da informação. 'stas passam a e%ercer um papel de elo entre as demais, unindo.as e assegurando a presença planet*ria desse novo sistema t!cnico. /odavia, para entender o processo que condu(iu à glo#ali(ação atual, ! necess*rio levar em conta dois elementos fundamentaisD o estado das t!cnicas e o estado da pol$tica. :*, freqXentemente, tend4ncia a separar uma coisa da outra. 1a$ nascem as muitas interpretações da história a partir das t!cnicas ou da pol$tica, e%clusivamente. Na verdade, nunca houve, na história 69

humana, separação entre as duas coisas.

história fornece o quadro material e a pol$tica molda as

condições que permitem a ação. Na pr*tica social, sistemas t!cnicos e sistemas de ação se confundem e ! por meio das com#inações então poss$veis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a história e a geografia se fa(em e se refa(em continuadamente.

?7( "ultura popular, período popular
7ara a maior parte da humanidade, o processo de glo#ali(ação aca#a tendo, direta ou indiretamente, influ4ncia so#re todos os aspectos da e%ist4nciaD a vida econ-mica, a vida cultural, as relações interpessoais e a própria su#3etividade. 'le não se verifica de modo homog4neo, tanto em e%tensão quanto em profundidade, e o próprio fato de que se3a criador de escasse( ! um dos motivos da impossi#ilidade da homogenei(ação. &s individuos não são igualmente atingidos por esse fen-meno, cu3a difusão encontra o#st*culos na diversidade das pessoas e na diversidade dos lugares. Na realidade, a glo#ali(ação a heterogeneidade, dando.lhe mesmo um car*ter ainda mais estrutural. ;ma das conseqX4ncias de tal evolução ! a nova significação da cultura popular, tornada capa( de rivali(ar com a cultura de massas. &utra ! a produção das condições necess*rias à reemerg4ncia das próprias massas, apontando para o surgimento de um novo per$odo histórico, a que chamamos de per$odo demogr*fico ou popular 8M. Santos, Bspaço e sociedade, >?H?9. %u"tu!a de massasD cu"tu!a popu"a! ;m e%emplo ! a cultura. ;m esquema grosseiro, a partir de uma classificação ar#itr*ria, mostraria, em toda a parte, a presença e a influ4ncia de uma cultura de massas #uscando homogenei(ar e impor.se so#re a cultura popularO mas tam#!m, e paralelamente, as reações desta cultura popular. ;m primeiro movimento ! resultado do empenho vertical unificador, homogenei(ador, condu(ido por um mercado cego, indiferente às heranças e às realidades atuais dos lugares e das sociedades. Sem d"vida, o mercado vai impondo, com maior ou menor força, aqui e ali, elementos mais ou menos maciços da cultura de massa, indispens*vel, como ela !, ao reino do mercado, e a e%pansão paralela das formas de glo#ali(ação econ-mica, financeira, t!cnica e cultural. 'ssa conquista, mais ou menos efica( segundo os lugares e as sociedades, 3amais ! completa, pois encontra a resist4ncia da cultura pree%istente. Jonstituem.se, assim, formas mistas sincr!ticas, dentre as quais, oferecida como espet*culo, uma cultura popular domesticada associando um fundo genu$no a formas e%óticas que incluem novas t!cnicas. Mas h* tam#!m U e feli(mente U a possi#ilidade, cada ve( mais freqXente, de uma revanche da cultura popular so#re a cultura de massa, quando, por e%emplo, ela se difunde mediante o uso dos instrumentos que na origem são próprios da cultura de massas. Nesse caso, a cultura popular e%erce sua qualidade de discurso dos 5de #ai%o6, pondo em relevo o cotidiano dos po#res, das minorias, dos e%clu$dos, por meio da e%altação da vida de todos os dias. Se aqui os instrumentos da cultura de massa são reutili(ados, o conte"do não !, todavia, 5glo#al6, nem a incitação primeira ! o chamado mercado glo#al, 3* que sua #ase se encontra no território e na cultura local e herdada. /ais e%pressões da cultura popular são tanto mais fortes e capa(es de difusão quanto reveladoras daquilo 70

que poder$amos chamar de regionalismos universalistas, forma de e%pressão que associa a espontaneidade própria à ingenuidade popular à #usca de um discurso universal, que aca#a por ser um alimento da pol$tica. No fundo, a questão da escasse( aparece outra ve( como central. &s 5de #ai%o6 não dispõem de meios 8materiais e outros9 para participar plenamente da cultura moderna de massas. Mas sua cultura, por ser #aseada no território, no tra#alho e no cotidiano, ganha a força necess*ria para deformar, ali mesmo o impacto da cultura de massas. 0ente 3unta cria cultura e, paralelamente, cria uma economia territoriali(ada, uma cultura territoriali(ada, um discurso territoriali(ado, uma pol$tica territoriali(ada. 'ssa cultura da vi(inhança valori(a, ao mesmo tempo, a e%peri4ncia da escasse( e a e%peri4ncia da conviv4ncia e da solidariedade. ) desse modo que, gerada de dentro, essa cultura endógena impõe.se como um alimento da pol$tica dos po#res, que se d* independentemente e acima dos partidos e das organi(ações. /al cultura reali(a.se segundo n$veis mais #ai%os de t!cnicas, de capital e de organi(ação, da$ suas formas t$picas de criação. 2sto seria, aparentemente, uma fraque(a, mas na realidade ! uma força, 3* que se reali(a, desse modo, uma integração orgânica com o território dos po#res e o seu conte"do humano. 1a$ a e%pressividade dos seus s$m#olos, manifestados na fala, na m"sica e na rique(a das formas de intercurso e solidariedade entre as pessoas. ' tudo isso evolui de modo insepar*vel, o que assegura a perman4ncia do movimento. cultura de massas produ( certamente s$m#olos. Mas estes, direta ou indiretamente ao serviço do poder ou do mercado, são, a cada ve(, fi%os. Irente ao movimento social e no o#3etivo de não parecerem envelhecidos, são su#stitu$dos, mas por uma outra sim#ologia tam#!m fi%aD o que vem de cima est* sempre morrendo e pode, por antecipação, 3* ser visto como cad*ver desde o seu nascimento. ) essa a sim#ologia ideológica da cultura de massas. M* os s$m#olos 5de #ai%o6, produtos da cultura popular, são portadores da verdade da e%ist4ncia e reveladores do próprio movimento da sociedade. As condi&Aes empF!icas da muta&'o ) a partir de premissas como essas que se pode pensar uma reemerg4ncia das massas. 7ara isso devem contri#uir, a partir das migrações pol$ticas ou econ-micas, a ampliação da vocação atual para a mistura intercontinental e intranacional de povos, religiões, gostos, assim como a tend4ncia crescente à aglomeração da população em alguns lugares, essa ur#ani(ação concentrada 3* revelada nos "ltimos vinte anos. 1a com#inação dessas duas tend4ncias pode.se supor que o processo iniciado h* meio s!culo levar* a uma verdadeira colori(ação do Norte, à 5infomali(ação6 de parte de sua economia e de suas relações sociais e à generali(ação de certo esquema dual presente nos pa$ses su#desenvolvidos do Sul e agora ainda mais evidente. /al sociedade e tal economia ur#ana dual 8mas não dualista9 condu(irão a duas formas im#ricadas de acumulação, duas formas de divisão do tra#alho e duas lógicas ur#anas distintas e associadas, tendo como #ase de operação um mesmo lugar. & fen-meno 3* entrevisto de uma divisão do tra#alho por cima e de uma outra por #ai%o tender* a ser reforçar. primeira prende.se ao uso o#ediente das t!cnicas da racionalidade hegem-nica, enquanto a segunda ! fundada na

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redesco#erta cotidiana das com#inações que permitem a vida e, segundo os lugares, operam em diferentes graus de qualidade e de quantidade. 1a divisão do tra#alho por cima cria.se uma solidariedade gerada de fora e dependente de vetores verticais e de relações pragm*ticas freqXentemente long$nquas. racionalidade ! mantida à custa de normas f!rreas, e%clusivas, implac*veis, radicais. Sem o#edi4ncia cega não h* efic*cia. Na divisão do tra#alho por #ai%o, o que se produ( ! uma solidariedade criada de dentro e dependente de vetores hori(ontais cimentados no território e na cultura locais. atores, uma adapta#ilidade endógena. sociedade local e regulado por ela. divisão do tra#alho por cima ! uma campo de maior velocidade. Nela, a rigide( das normas econ-micas 8privadas e p"#licas9 impede a pol$tica. 7or #ai%o h* maior dinamismo intr$nseco, maior movimento espontâneo, mais encontros gratuitos, maoir comple%idade, mais rique(a 8a rique(a e o movimento dos homens lentos9, mais com#inações. 7rodu(.se uma nova centralidade do social, segundo a fórmula sugerida por na Jlara /orres Ki#eiro, o que constitui, tam#!m, uma nova #ase para a afirmação do reino da pol$tica. A p!ecedência do 1omem e o pe!Fodo popu"a! ;ma outra glo#ali(ação supõe uma mudança radical das condições atuais, de modo que a centralidade de todas as ações se3a locali(ada no homem. Sem d"vida, essa dese3ada mudança apenas ocorrer* no fim do processo, durante o qual rea3ustamentos sucessivos se imporão. Nas presentes circunstâncias, conforme 3* vimos, a centralidade ! ocupada pelo dinheiro, em suas formas mais agressivas, um dinheiro em estado puro sustentado por uma informação ideológica, com a qual se encontra em sim#iose. 1a$ a #rutal distorção do sentido da vida em todas as suas dimenções, incluindo o tra#alho e o la(er, e alcançando a valoração $ntima de cada pessoa e a própria constituição do espaço geogr*fico. Jom a preval4ncia do dinheiro em estado puro como motor primeiro e "ltimo das ações, o homem aca#a por ser considerado m elemento residual. 1essa forma, o território, o 'stado.nação e a solidariedade social tam#!m se tornam residuais. prima(ia do homem supõe que ele estar* colocado no centro das preocupações do mundo, como um dado filosófico e como uma inspiração para as ações. 1essa forma, estarão assegurados o imp!rio da compai%ão nas relações interpessoais e o est$mulo à solidariedade social, a ser e%ercida entre indiv$duos, entre o indiv$duo e a sociedade e a vice.versa e entre a sociedade e o 'stado,redu(indo as fraturas sociais, impondo uma nova !tica, e, destarte, assentando #ases sólidas para uma nova sociedade, uma nova economia, um novo espaço geogr*fico. & ponto de partida para pensar alternativas seria, então, a pr*tica da vida e a e%ist4ncia de todos. nova paisagem social resultaria do a#andono e da superação do modelo atual e sua su#stituição por um outro, capa( de garantir para o maior n"mero a satisfação das necessidades essenciais a uma vida humana digna, relegando a uma posição secund*ria necessidades fa#ricadas, impostas por meio da pu#licidade e do consumo consp$cuo. ssim o interresse social suplantaria a atual preced4ncia do interesse econ-mico e tanto levaria a uma nova agenda de investimentos como a uma nova hierarquia nos gastos p"#lico, empresarais e privados. /al esquema condu(iria, qui são as relações de pro%imidade que avultam, este ! o dom$nio da fle%i#ilidade tropical com a adapta#ilidade e%trema dos cada movimento novo, h* um novo reequil$#rio em favor da

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paralelamente, ao esta#elecimento de novas relações internacionas. Num mundo em que fosse a#olida a regra da competitividadecomo padrão essencial de relacionamento, a vontade de ser pot4ncia não seria mais um norte para o comportamento dos estados, e a id!ia de mercado interno ser* uma preocupação central. gora, o que est* sendo privilegiado são as relações pontuais entre grandes atores, mas falta sentido ao que eles fa(em. ssim, a #usca de um futuro diferente tem de passar pelo a#andono das lógicas infernais que, dentro dessa racionalidade viciada, fundamentam e presidem as atuais pr*ticas econ-micas e pol$ticas hegem-nicas. atual su#ordinação ao modo econ-mico "nico tem condu(ido a que se d4 prioridade às e%portações e importações, uma das formas com as quais se materiali(a o chamado mercado glo#al. 2sso, todavia, tem tra(ido como conseqX4ncia par todos os pa$ses uma #ai%a de qualidade de vida para a maioria da população e a ampliação do n"mero de po#res em todos os continentes, pois, com a glo#ali(ação atual, dei%aram.se de lado pol$ticas sociais que amparavam, em passado recente os menos favorecidos, so# o argumento de que os recursos sociais e os dinheiros p"#licos devem primeiramente ser utili(ados para facilitar a incorporação dos pa$ses na onda glo#alit*ria. Mas, se a preocupação central ! o homem, tal modelo não ter* mais ra(ão de ser.

?6( A centralidade da periferia
id!ia da irreversi#ilidade da glo#ali(ação atual ! aparentemente reforçada cada ve( que constatamos a inter.relção atual entre cada pa$s e o que chamamos de 5mundo6, assim como a interdepend4ncia, ho3e indiscut$vel, entre a hitória geral e as histórias particulares. Na verdade, isso tam#!m tem haver com a id!ia, tam#!m esta#elicida, de que a história seria sempre feita a partir dos pa$ses centrais, isto !, da 'uropa e dos 'stados ;nidos, aos quais, de modo geral, o presente estado de coisas interessa. Limites à coope!a&'o Vuando, por!m, o#servamos de perto aspectos mais estruturais da situação atual, verificamos que o centro do sistema #usca impor uma glo#ali(ação de cima para #ai%o aos demais pa$ses, enquando no seu âmago reina uma disputa entre 'uropa, Mapão e 'stados ;nidos, que lutam para guardar e ampliar sua parte do mercado glo#al e afirmar a hegemonia econ-mica, pol$tica e militar so#re as nações que lhes são mais diretamente tri#ut*rias sem, todavia, a#andonar a id!ia de ampliar sua própria *rea de influ4ncia. 'ntão, qualquer fração de mercado, não importa onde este3a, se torna fundamental à competitividade e%itosa das empresas. 'stas põem em ação suas forças e incitam os governos respectivos a apoi*.las. & limite da cooperação dentro da /r$ade 8'stados ;nidos, 'uropa, Mapão9 ! essa mesma competição, de modo que cada um não perca terreno frente ao outro. 'ntretanto, 3* que nesses pa$ses a id!ia de cidadania ainda ! forte, ! imposs$vel descuidar do interesse das populações ou suprimir inteiramente direitos adquiridos mediante lutas seculares. & que permanece como lem#rança do 'stado de #em.estar #asta para contrariar as pretensões de completa autonomia das empresas transnacionais e contri#ui para a emerg4ncia, 73

dentro de cada nação, de novas contradições. Jomo as empresas tendem a e%ercer sua vontade de poder no plano glo#al, a luta entre elas se agrava, arrastando os pa$ses nessa competição. /rata.se, na verdade, de uma guerra, protagoni(ada tanto pelos 'stados como pelas respectivas empressas glo#ai, da qual participam como parceiros mais fr*geis os pa$ses su#desenvolvidos. gora mesmo, a e%peri4ncia dos mercados comuns regionais 3* mostra aos pa$ses chamados 5emergentes6 que a cooperação da tr$ade, em con3unto ou separadamente, ! mais representativa do interesse próprio das grandes pot4ncias que de uma vontade de efetiva cola#oração. Nessa guerra, os organismos internacionais capitaneados pelo Iundo Monet*rio, pelo Lanco Mundial, pelo L21 etc., e%ercem um papel determinante, em sua qualidade de int!rpretesdos interesses comuns aos 'stados ;nidos, à 'uropa e ao Mapão. /ais realidades levam a duvidar da vontade de cada um e do con3unto desses atores hegem-nicos de construir um verdadeiro universalismo e permite pensar que, nas condições atuais, essa dupla competição perdurar*. O desa;io ao $u" &s pa$ses su#desenvolvidos, parceiros cada ve( mais fragili(ados nesse 3ogo tão desigual, mas cedo ou mais tarde compreenderão que nessa situação a cooperação lhes aumenta a depend4ncia. 1a$ a inutilidade dos esforços de associação dependente face aos pa$ses centrais, no quadro da glo#ali(ação atual. 'sse mundo glo#ali(ado produa( uma racionalidade determinante, mas que vai, pouco a pouco, dei%ando de ser dominante. ) uma racionalidade que comanda os grandes negócios cada ve( mais a#rangentes e mais concentrados em poucas mãos. 'sse grandes negócios são de interesse direto de um n"mero cada ve( menor de pessoas e empressas. Jomo a maior parte da humanidade ! direta ou indiretamente do interesse deles, pouco a pouco essa realidade ! desvendada pelas pessoas e pelos pa$ses mais po#res. :*, em tudo isso, uma grande contradição. #andonamos as teorias do su#desenvolvimento, o terceiro.mundismo, que eram nossa #andeira nas d!cadas de >?FB.GB. /odavia, graças à glo#ali(ação, est* ressurgindo algo muito forteD a história da maioria da humanidade condu( à consci4ncia da so#reviv4ncia dessa tercer)undi#ação 8que, de alguma forma inclui, tam#!m, uma parte da população dos pa$ses ricos9 8Samuel 7inheiro 0uimarães, 8uinhentos anos de periferia. >???9. ) certo que a tomada de consci4ncia dessa situação estrutural de inferioridade não chegar* ao mesmo tempo para todos os pa$ses su#desenvolvidos e, muito menos ser*, neles, sincr-nica a vontade de mudança frente a esse tipo de relação. 7ode.se, no entanto, admitir que, mais cedo ou mais tarde as condições internas a cada pa$s, provocadas em #oa parte pelas suas relações e%ternas, levarão a uma revisão dos pactos que atualmente conformam a glo#ali(ação. :aver*, então, uma vontade de distanciamento e posteriormente de desenga3amento, conforme sugerido por Samir min, rompendo.se, desse modo, a unidade de o#edi4ncia ho3e predominante. Mungidos so# o peso de uma d$vida e%terna que não podem pagar, os p$ses su#desenvolvidos assistem à criação incessante de car4ncias e de po#res e começam a reconhecer usa atual situação de ingoverna#ilidade, forçados que estão a transferir para o setor econ-mico recursos que deveriam ser destinados à *rea social. Na verdade, 3* são muito numerosas as manifestações de desconforto com as

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conseqX4ncias da nova depend4ncia e do novo imperialismo 8Keinaldo 0onçalves, Elo'ali#ação e desnacionali#ação. >???9. tornam.se evidentes os limites da aceitaão de tal situação. 7or diferentes ra(ões e meios diversos, as manifestações de irredentismo 3* são claramente evidentes em pa$ses como o 2rã, o 2raque, o feganistão, mas, tam#!m, a Mal*sia, o 7aquistão, sem contar com as formas particulares de inclusão da `ndia e da Jhina na glo#ali(ação atual, que nada t4m de simples o#edi4ncia ou conformidade, como a propagando ocidental quer fa(er crer. 7a$ses como a Jhina e `ndia, com um terço da população mundial e uma presença internacional cada ve( mais ativa, dificilmente aceitarão, uma ou outra, assim como a K"ssia, 3ogar o papel passivo de nação.mercado para os #locos economicamente hegem-nicos. ;ma reação em cadeia poder* ense3ar o renascimento de algo como o antigo 5lan terceiromundista tal como o presidente NQerere, da /an(ânia, havia sugerido em seu livro 1 desafio ao Sul. l!m dessa tend4ncia veross$mil, considerem.se as formas de desordem da vida social que 3* se multiplicam em numerosos pa$ses e que tendem a aumentar. & Lrasil ! em#lem*tico como e%emplo, não se sa#endo, por!m, at! quando ser* poss$vel manter o modelo econ-mico glo#alit*rio e ao mesmo tempo acalmar as populações crescentemente insatisfeitas. s pot4ncias centrais 8'stados ;nidos, 'uropa, Mapão9, apesar das diverg4ncias pela competição quanto ao mercado glo#al t4m interesses comuns que as incitarão a #uscar adaptar suas regras de conviv4ncia à pretensão de manter a hegemonia. Jomo, todavia, a glo#ali(ação atual ! um per$odo de crise permanente, a renovação do papel hegem-nico da /r$ade levar* a maiores sacrif$cios para o resto da comunidade das nações, incentivando, assim, nestas, a #usca de outras soluções. com#inação hegem-nica de que resultam as formas econ-micas modernas atinge diferentemente os diversos pa$ses, as diversas culturas, as diferentes *reas dentro de um mesmo pa$s. diversidade sociogeogr*fica atual o e%emplifica. Sua realidade revela um movimento glo#ali(ador seletivo, com a maior parte da popuação do planeta sendo menos diretamente atingida . e em certos casos pouco atingida U pela glo#ali(ação econ-mica vigente. Na +sia, na +frica e mesmo na m!rica ,atina, a vida local se manifesta ou mesmo tempo como uma resposta e uma reação a essa glo#ali(ação. Não podendo essas populações ma3orit*rias consumir o &cidente glo#ali(ado em suas formas puras 8financeira, econ-mica e cultural9, as respectivas *reas aca#am por ser os lugares onde a glo#ali(ação ! relativi(ada ou recusada. ;ma coisa parece certaD as mudanças a serem introdu(idas, no sentido de alcançarmos uma outra glo#ali(ação, não viram do centro do sistema, como em outras fses de ruptura na margem de capitalismo. s mudanças sairão dos pa$ses su#desenvolvidos. ) previs$vel que o sistemismo so#re o qual tra#alha a glo#ali(ação atual erga.se como um o#st*culo e torne dif$cil a manifestação da vontade de desenga3amento. Mas não impedira que cada pa$s ela#ore, a partir de caracter$sticas próprias, modelos alternativos, nem tão pouco proi#ir* que associações de tipo hori(ontal se d4em entre pa$ses vi(inhos igualmente hegemoni(ados, atri#uindo uma nova feição aos #locos regionais e ultrapassando a etapa das relações meramente comerciais para alcançar um est*gio mais elevado de cooperação. 'ntão, uma glo#ali(ação constitu$da de #ai%o para cima, em que a #usca de classificação entre pot4ncias dei%e de ser uma meta, poder* permitir que preocupações de ordem social, cultural e moral possam prevalecer.

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?*( A nação ativa, a nação passiva
glo#ali(ação atual e as formas #rutas que adotou para impor mudanças levam à urgente necessidade de rever o que fa(er com as coisas, as id!ias e tam#!m com as palavras. Vualquer que se3a o de#ate, ho3e, reclama a e%plicitação clara e coerente dos seus termos, sem o que se pode facilmente cair no va(io ou na a#igXidade. ) o caso do próprio de#ate nacional, e%igente de novas definições e voca#ul*rio renovado. Jomo sempre, o pa$s deve ser visto como uma situação estrutural em movimento, na qual cada elemento est* intimamente relacionado com os demais. Ocaso do p!oGeto naciona" L gora, por!m, no mundo da glo#ali(ação, o reconhecimento dessa estrutura ! dif$cil, do mesmo modo que a vi(uali(ação de um pro3eto nacional pode tornar.se o#scura. /alve( por isso, os pro3etos das grandes empresas, impostos pela tirania das finanças e trom#eteados pela m$dia, aca#am, de um 3eito ou de outro, guiando a evolução dos pa$ses, em acordo ou não com as instâncias p"#licas freqXentemente dóceis e su#servientes, dei%ando de lado o desenho de uma geopol$tica propria a cada nação e que leve em conta suas caracter$sticas e interesses. ssim, as noções de destino nacional e de pro3eto nacional cedem freqXentemente a frente da cena a preocupações menores, pragm*ticas, imediatistas, inclusive porque, pelas ra(ões 3* e%postas, os partidos pol$ticos nacionais raramente apresentam plataformas condu(idas por o#3etivos pol$ticos e sociais claros e que e%primam visões de con3unto 8cesar Len3amin e outros, $ opção 'rasileira, >??C9. id!ia de história, sentido, destino ! amesquinhada em nome da o#tenção de metas estat$sticas, cu3a "nica preocupação ! o conformismo frente às determinações do processo atual de glo#ali(ação. 1a$ a produção sem contrapartida de desequil$#rios e distorções estruturais, acarretando mais fragmentação e desigualdade, tanto mais graves quanto mais a#ertos e o#edientes se mostrem os pa$ses. A"iena&'o da na&'o ati a /omemos o caso do Lrasil. ) mais que uma simples met*fora pensar que uma das formas de a#ordagem da questão seria considerar, dentro da nação, a e%ist4ncia, na realidade, de duas nações. ;ma nação passiva e uma ativa. 1o fato de serem as conta#ilidades nacionais glo#ali(adas U e glo#ali(antesa . , a grande ironia ! que passa a considerar como nação ativa aquela que o#eece cegamente ao des$gnio glo#alit*rio, enquanto o resto aca#a por costituir, desse ponto de vista, a nação passiva. fa(er valer tais postulados, a nação ativa seria a daqueles que aceitam, pregam e condu(em uma moderni(ação que d* preemin4ncia aos a3ustes que interessam ao dinheiro, enquanto a nação passiva seria formada por tudo ou mais. Serão mesmo adequadas essas e%pressõesN &u aquilo a que, desse modo, se est* chamado de nação ativa seria, na realidade, a nação passiva, enquanto a nação chamada passiva seria, de fato, a nação ativaN chamada nação ativa, isto !, aquela que comparece efica(mente na conta#ilidade nacional e na conta#lilidade internacional, tem seu modelo condu(ido pelas #urguesias internacionais 76

e pelas #urguesias nacionais associadas. ) verdade, tam#!m, que o seu discurso glo#ali(ado, para ter efic*cia local, necessita de um sotaque dom!stico e por isso estimula um pensamento nacional associado produ(ido por mentes cativas, su#vencionadas ou não. rique(a e, paralelamente, a produção da conformidade. nação chamada ativa alimenta sua ação com a preval4ncia de um sistema ideológico que define as id!ias de prosperidade e de 5nação ativa6 aparece como fluida, velo(, e%ternamente articulada, internamente desarticuladora, entrópica. Ser* ela dinâmicaN Jomo essa id!ia ! muito difundida, ca#e lem#ra que velocidade não ! dinamismo. 'sse movimento não ! próprio, mas atri#u$do, tomado emprestado a um motor e%ternoO ele não ! genu$no, não tem finalidade, ! desprovido de tecnologia. /rata.se de uma agitação cega, um pro3eto equivocado, um dinamismo do dia#o. %onscienti,a&'o e !iMue,a da na&'o passi a nação chamada passiva ! constitu$da pela grossa maior parte da população e da economia, aqueles que apenas participam de modo residual do mercado glo#al ou cu3as atividades conseguem so#reviver à sua margem, sem, todavia, entrar ca#almente na conta#ilidade p"#lica ou nas estat$sticas oficiais. & pensamento que define e compreende os seus atores ! o do intelectual p"#lico enga3ado na defesa dos interesses da maioria. s atividades dessa nação passiva são freqXentemente marcadas pela contradição entre a e%ig4ncia pr*tica da conformidade, isto !, a necessidade de participar direta ou indiretamente da racionalidade dominante, e a insatisfação e inconformismo dos atores diante de resultados sempre limitados, da$ o encontro cotidiano de uma situação de inferiori(ação, tornada permanente, o que reforça em seus participantes a noção de escasse( e convoca a reinterpretação da própria situação individual diante do lugar, do pa$s e do mundo. 5nação passiva6 ! estaticamente lenta, coloda às rugosidades do seu meio geogr*fico, localmente enrai(ada e orgânica. ) tam#!m a nação que mant!m relações de sim#iose com o entorno imediato, relações cotidianas que criam, espontaneamente e à contracorrente, uma cultura própria, endógena, resistente, que tam#!m constitui um alicerce, uma #ase sólida para a produção de uma pol$tica. 'ssa nação passiva )ora, ali onde vive e evolui, enquanto a outra apenas circula, utili(ando os lugares como mais um recurso a seu serviço, mas sem outro compromisso. Num primeiro momento, desarticulada pela 5nação ativa6, a 5nação passiva6 não pode alcançar um pro3eto con3unto. li*s, o imp!rio dos interesses imediatos que se manifestam no e%erc$cio praguim*tico da vida contri#ui, sem d"vida, para tal desarticulação. Mas, num segundo momento, a tomada de coinsci4ncia tra(ida pelo seu enrai(amento no meio e, so#retudo pela sua e%peri4ncia de escasse(, torna poss$vel a produção de um pro3eto, cu3a a via#ilidade prov!m do fato de que a nação chamada passiva ! formada pela maior parte da população, al!m de ser dotada de um dinamismo próprio, aut4ntico, fundado em sua própria e%ist4ncia. 1a$, sua veracidade e rique(a. 7odemos desse modo admitir que aquilo que, mediante o 3ogo de espelhos da glo#ali(ação, ainda se chama de nação ativa !, na verdade, a nação passiva, enquanto o que, pelo mesmo parâmetros, ! considerado a nação passiva, contitui, 3* no presente, mas so#retudo na ótica do futuro, a verdadeira nação ativa. Sua emerg4ncia ser* tanto mais vi*vel, r*pida e efica( se se reconhecem e revelam a conflu4ncia dos modos de e%ist4ncia e de tra#alho dos respectivos atores e

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aprofunda unidade do seu destino. qui, o papel dos intelectuais ser*, talve(, muito mais do que promover um simples com#ate às formas de ser da 5nação ativa6 . tarefa importante mas insuficiente, nas atuais circunstâncias . , devendo empenhar.se por mostrar analiticamente, dentro do todo nacional, a vida sist4mica da nação passiva e suas manifestações de resit4ncias a uma conquista indiscriminada e totalit*ria do espaço social pela chamada nação ativa. /al visão renovada da realidade contraditória de cada fração do território deve ser oferecida à refle%ão da sociedade em geral, tanto à sociedade organi(ada nas associações, sindicatos, igre3as, partidos como à sociedade desorgani(ada, que encontrarão nessa nova interpretação os elementos necess*rios para a postulação e o e%erc$cio de uma outra pol$tica, mas condi(ente com a #usca do interesse social.

?H( A globali'ação atual não é irreversível
glo#ali(ação atual ! muito menos um produto das id!ias atualmente poss$veis e, muito mais, o resultado de uma ideologia restritiva adrede esta#elecida. M* vimos que todas as reali(ações atuais, oriundas de ações hegem-nicas, t4m como #ase contruções intelectuais fra#ricadas antes mesmo da fa#ricação das coisas e das decisões de agir. intelectuali(ação da vida social, recentemente alcançada, vem acompanhada de uma forte ideologi(ação. A disso"u&'o das ideo"o3ia /odavia, o que agora estamos assistindo em toda a parte ! uma tend4ncia à dissolução dessas ideologias no confronto com a e%peri4ncia vivida dos povos e dos indiv$duos. & próprio credo financeiro, visto pelas lentes do sistema econ-mico a que deu origem, ou e%aminado isoladamente, em cada pa$s, aparece menos aceit*vel e, a partir de sua contestação, outros elementos da ideologia do pensamento "nico perdem força. l!m das m"ltiplas formas com que, no per$odo histórico atual, o discurso da glo#ali(ação serve de alicerce às ações hegem-nicas dos 'stados, das empressas e das instituições internacionais, o papel da ideologia na produção das coisas e o papel ideológico dos o#3etos que nos rodeiam contri#uem, 3untos, para agravar essa sensação de que agora não h* outro futuro senão aquele que nos vir* como um presente a)pliado e não como outra coisa. 1a$ a pesada onda de conformismo e inação que caracteri(a nosso tempo, contaminando os 3ovens e, at! mesmo uma densa camada de intelectuais. ) muito difundida a id!ia segundo a qual o processo e a forma atuais da glo#ali(ação seriam irreverss$veis. 2sso tam#!m tem a ver com a força com a qual o fen-meno se revela e instala em todos os lugares e em todas as esferas da vida, levando a pensar que não h* alternativas para o presente estado de coisas. No entanto, essa visão repetitiva do mundo confunde o que 3* foi reali(ado com as perspectivas de reali(ação. 7ara e%orci(ar esse risco, devemos considerar que o mundo ! formado não apenas pelo que 3* e%iste 8aqui, ali, em toda parte9, mas pelo que pode efetivamente e%istir 8aqui, ali, em toda parte9. & mundo datado de ho3e deve ser en%ergado como o que na verdade ele nos tra(, isto !, somente, o con3unto presente de possi#ilidades reais, concretas, todas fact$veis so# 78

determinadas condições. & mundo definido pela literatura oficial do pensamento "nico !, somente, o con3unto de formas particulares de reali(ação de apenas certo n"mero dessas possi#ilidades. No entanto, um mundo verdadeiro se definir* a partir da lista completa de possi#ilidades presentes em certa data e que incluem não só o que 3* e%iste so#re a face da terra, como tam#!m o que ainda não e%iste, mas ! empiricamente fact$vel. /ais possi#ilidades, ainda não reali(adas, 3* estão presentes como tend4ncia ou como promessa de reali(ação. 7or isso, situações como a que agora defrontamos parecem definitivas, mas não são verdades eternas. A pe!tinência da utopia ) somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso tempo, que se torna possiv!l retornar, de maneira concreta, a id!ia de utopia e de pro3eto. 'ste ser* o resultado da con3ugação de dois tipos de valores. 1e um lado, estão os valores fundamentais, essenciais, fundadores do homem, v*lidos em qualquer tempo e lugar, como a li#erdade, a dignidade, a felicidaO de outro lado, surgem os valores contingentes, devidos à história do presente, isto !, à historia atual. densidade e a facti#ilidade histórica do pro3eto, ho3e, dependem da maneira como empreendamos sua com#inação. 7or isso, ! l$cito di(er que o futuro são muitosO e resultarão de arran3os diferentes, segundo nosso grau de coinsci4ncia, entre o reino das possi#ilidades e da vontade. ) assim que iniciativas serão articuladas e o#st*culos serão superados, permitindo contrariar a força das estruturas dominantes, se3am elas presentes ou herdadas. identificação das etapas e os a3ustamentos a empreender durante o caminho dependerão da necess*ria clare(a do pro3eto. Jonforme 3* mencionamos, alguns dados do presente nos a#rem, desde 3*, a perspectiva de um futuro diferente, entre outrosD a tend4ncia à mistura generali(ada entre povosO a vocação para uma ur#ani(ação concentradaO o peso da ideologia nas contruções históricas atuaisO o empo#recimento relativo e a#soluto das populações e a perda de qualidade de vida das classes m!diasO o grau de relativa 5docilidade6 das t!cnicas contemporâneasO a 5politi(ação generali(ada6 permitida pelo e%esso de normas 8 Mar$a ,aura Silveira, F) pa;s. u)a re3ião Fi) de s5culo e )odernidades na $r3entina, >???9O e a reali(ação possiv!l do homem com a grande mutação que desponta. ,em#ramos, tam#!m, que um dos elementos, ao mesmo tempo ideológico e empiricamente e%istencial, da presente forma de glo#ali(ação ! a centralidade do consumo, com a qual muito t4m a ver a vida de todos os dias e suas repercussões a produção, as formas presentes de e%ist4ncia e as perspectivas das pessoas. Mas as atuais relações inst*veis de tra#alho, a e%pansão de desemprego e a #ai%a do sal*rio m!dio constituem um contraste em relação à multiplicação dos o#3etos e serviços, cu3a a acessi#ilidade se torna, desse modo, improv*vel, ao mesmo tempo que at! os consumos tradicionais aca#am sendo dif$ceis ou imposs$veis para uma parcela importante da população. ) como se o feitiço virasse contra o feiticeiro. 'ssa recriação da necessidade, dentro de um mundo de coisas e serviços a#undantes, atinge cada ve( mais as classes m!dias, cu3a definição, agora, se renova, à media que, como tam#!m 3* vimos, passam a conhecer a e%peri4ncia da escasse(. 'sse ! um dado relevante para

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compreender a mudança na visi#ilidade da história que est* processando. 1e tal modo, às visões oferecidas pela propaganda ostensiva ou pela ideologia contida nos o#3etos e nos discursos opõem. se as visões propociadas pela e%ist4ncia. ) por meio desse con3unto de movimentos, que se reconhece uma saturação dos s$m#olos pr!.constru$dos e que os limites da tolerância às ideologias são ultrapassados, o que permite a ampliação do campo da consci4ncia. Nas condições atuais, essa evolução pode parecer imposs$vel, em vista de que as soluções at! a qual o "nico dinamismo poss$vel ! o da grande economia, com #ase nos reclamos do sistema financeiro. 7or e%emplo, os esforços para resta#elecer o emprego dirigem.se, so#retudo, quando não e%clusivamente, ao circuito superior da economia. Mas esse não ! o "nico caminho e outros rem!dios podem ser #uscados, segundo a orientação pol$tico.ideológica dos respons*veis, levando em conta uma divisão do tra#alho vinda 5de #ai%o6, fen-meno t$pico dos pa$ses su#desenvolvidos 8M. Santos, 1 espaço dividido, >?HC9, mas que agora tam#!m se verifica no mundo chamado desenvolvido. 7or outro lado, na medida em que as t!cnicas cada ve( mais se dão como normas e a vida se desenrola no interior de um oceano de t!cnicas, aca#amos por viver uma politi(ação generali(ada. rapide( dos processos condu( a uma rapide( nas mudanças e, por conseguinte, aprofunda a necessidade de produção de novos entes organi(adores. 2sso se d* nos diversos n$ves da vida social. Nada de relevante ! feito sem normas. Neste fim do s!culo RR, tudo ! pol$tica. ', graças às t!cnicas ultili(adas no per$odo contemporâneo e ao papel centrali(ador dos agentes hegem-nicos, que são planet*rios, torna.se u#$qua a presença de processos distorcidos e e%igentes de reordenamento. 7or isso a pol$tica aparece como um dado indispens*vel e onipresente, a#rangendo praticamente a totalidade das ações. ssistimos, assim, ao imp!rio das normas, mas tam#!m ao conflito entre elas, incluindo o papel cada ve( mais dominante das normas privadas na produção da esfera p"#lica. Não ! raro que as regras esta#elecidas pelas empresas afetem mais que as regras criadas pelo 'stado. /udo isso atinge e desnorteia os indiv$duos, produ(indo uma atmosfera de insegurança e at! mesmo de medo, mas levando os que não sucum#em inteiramente ao seu imp!rio à #usca da consci4ncia quanto ao destino do 7laneta e, logo, do :omem. Out!os usos possF eis pa!a as t>cnicas atuais &s sistemas t!cnicos de que se valem os atuais atores hegem-nicos estão sendo ultili(ados para redu(ir o escopo da vida humana so#re o planeta. No entanto, 3amais houve na história sistemas tão prop$cios a facilitar a vida e a proporcionar a felicidade dos homens. materialidade que o mundo da glo#ali(ação est* recriando permite um uso radicalmente diferente daquele que era o da #ase material da industriali(ação e do imperialismo. t!cnica das m*quinas e%igia investimentos maciços, seguindo.se a massividade e a concentração dos capitais e do próprio sistema t!cnico. 1a$ a infle%i#ilidade f$sica e moral das operações, levando a um uso limitado, direcionado, da intelig4ncia e da criatividade. M* o computador, s$m#olo dasd t!cnicas da informação, reclama capitais fi%os relativamente pequenos, enquanto seu uso ! mais e%igente de intelig4ncia. & investimento necess*rio pode ser fragmentado e torna.se poss$vel sua adptação aos mais diversos meios. 7ode.se at! falar da emerg4ncia de um artesanato de novo tipo, servido por velo(es instrumentos de produção e de distri#uição.

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1ir.se.*, então, que o computador redu( U tendencialmente U o efeito da pretensa lei segundo a qual a inovação t!cnica condu( paralelamente a uma concentração econ-mica. &s novos instrumentos, pela sua própria nature(a, a#rem possi#ilidades para sua disseminação no corpo social, superando as clivagens socioecon-micas pree%istentes. So# condições pol$ticas favor*veis, a materialidade sim#oli(ada pelo computador ! capa( não só de assegurar a li#eração da inventividade como torn*.la efetiva. s denecessidade, nas sociedades comple%as e socioeconomicamente desiguais, de adotar universalmente computadores de "ltima geração afastar*, tam#!m, o risco de que distorções e desequil$#rios se3am agravados. ' a id!ia de distância cultural, su#3acente à teora e à pr*tica do imperialismo, atinge, tam#!m, seu limite. s t!cnicas conteporâneas são mais f*ceis de inventar, imitar ou reprodu(ir que os modos de fa(er que as precederam. s fam$lias de t!cnicas emegentes com o fim do s!culo RR U com#inando inform*tica e eletr-nica, so#retudo U oferecem a possi#ilidade de superação do imperativo da tecnologia hegem-nica e paralelamente admitem a proliferação novos arran3os, com a retomada da criatividade. 2sso, ali*s, 3* est* se dando nas *reas da sociedade em que a divisão do tra#alho se produ( de #ai%o para cima. qui, a produção do novo e o uso e a difusão do novo dei%am de ser monopoli(ados por um capital cada ve( mais concentrado para pertencer ao dom$nio do maior n"mero, possi#ilitando afinal a emerg4ncia de um verdadeiro mundo da intelig4ncia. 1esse modo, a t!cnica pode voltar a ser o resultado do encontro do engenho humano com um pedaço determinado da nature(a U cada ve( mais modificada . , permitindo que essa relação se3a fundada nas virtualidades do entorno geogr*fico e social, de modo a assegurar a restauração do homem em sua ess4ncia. Geo3!a;ia e ace"e!a&'o da 1ist/!ia própria geografia parece contri#uir para que a história se acelere. Na cidade U so#retudo na grande cidade ., os efeitos de vi(inhaça parecem impor uma posi#ilidade maior de identificação das situações, graças, tam#!m, à melhoria da informação dispon$vel e ao aprofundamento das possi#ilidades de comunicação. 1essa maneira, torna.se poss$vel a identificação, na vida material como na ordem intelectual, do desamparo a que as populações são relegadas, levando, paralelamente, a um maior reconhecimento da condição de escasse( e a novas possi#ilidades de ampliação da consci4ncia. partir desses efeitos de vi(inhaça, o indiv$duo refortificado pode, num segundo momento, ultrapassar sua #usca pelo consumo e entregar.se à #usca da cidadania. primeira supõe uma visão limitada e unidirecionada, enquanto a segunda inclui a ela#oração de visões a#rangentesl e sist4micas. No primeiro caso, o que ! perseguido ! a reconstrução das condições materiais e 3ur$dicas que permitem fortalecer o #em.estar individual 8ou familiar9 sem, todavia, mostrar preocupação com o fortalecimento da individualidade, enquanto a #usca da cidadania apontar* para a reforma das pr*ticas e das instituições pol$ticas. Irente a essa nova realidade, as aglomerações populacionais serão valori(adas como o lugar da densidade humana e, por isso, o lugar de uma coa#itação dinâmica. Ser* tam#!m a$, visto pela mesma ótica, que se o#servarão a renascença e o peso da cultura popular. 7or outro lado, a precariedade e a po#re(a, isto !, a impossi#ilidade, pela car4ncia de recursos, de participar

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plenamente da ofertas materiais da modernidade, poderão, igualmente, inspirar soluções que condu(am ao dese3ado e ho3e poss$vel renascimento da t!cnica, isto !, o uso consciente e imaginativo, em cada lugar, de todo tipo de oferta tecnológica e de toda modalidade de tra#alho. 7ara isso contri#uir* o fato histórico concreto que !, ao contr*rio do per$odo histórico anterior , o grau de 5docilidade6 das t!cnicas contemporâneas, que se apresentam mais prop$cias à li#eração do esforço, ao e%erc$cio da individualidade e à floração e multiplicação das demandas sociais e individuais. Se a reali(ação da história, a partir dos vetores 5de cima6, ! ainda dominante, a reali(ação de uma outra história a partir dos vetores 5de #ai%o6 ! tornada possiivel. ' para isso contri#uirão, em todos os pa$ses, a mistura de povos, raças, culturas, religiões, gostos etc. aglomeração da pessoas em espaços redu(idos, com o fen-meno de ur#ani(ação concentrada, t$pico do "ltimo quartel do s!culo RR, e as próprias mutações nas relações de tra#alho, 3unto ao desemprego crescente e à depressão dos sal*rios, mostram aspectos que poderão se mostrar positivos em futuro pró%imo, quando as metamorfoses do tra#alho informal serão vividas tam#!m como e%pansão do tra#alho livre, assegurando a seus portadores novas possi#ilidades de interpretação do mundo, do lugar e da respectiva posição de cada um, no mundo e no lugar. s condições atuais permitem igualmente antever uma reconversão da m$dia so# a pressão das situações locais 8produção, consumo, cultura9. m$dia tra#alha com que ela própria transforma em o#3eto de mercado, isto !, as pessoas. Jomo em nenhum lugar as comunidades são formadas por pessoas homog4neas, a m$dia deve levar isso em conta. Nesse caso, dei%ar* de representar o senso comum imposto pelo pensamento "nico. 1esde que os processos econ-micos, sociais e pol$ticos produ(idos de #ai%o para cima possam desenvolver.se efica(mente, uma informação vera( poder* dar.se dentro da maioria da população e ao serviço de uma comunicação imaginosa e emocionada, atri#uindo.se, assim, um papel diametralmente oposto ao que lhe ! ho3e conferido no sistema da m$dia. Um no o mundo possF e" partir dessas metamorfoses, pode.se pensar na produção local de um entendimento progressivo do mundo e do lugar, com a produção ind$gena de imagens, discursos, filosofias, 3unto à ela#oração de um novo ethos e de novas ideologias e novas crenças pol$ticas, amparadas na ressurreição da id!ia e da pr*tica da solidariedade. & mundo de ho3e tam#!m autori(a uma outra percepção da história por meio da contemplação da universalidade emp$rica constitu$da com a emerg4ncia das novas t!cnicas planetari(adas e as possi#ilidades a#erta a seu uso. dial!tica entre essa universalidade emp$rica e as particularidades encora3ar* a superação das pr*%is invertidas, at! agora comandadas pela ideologia dominante, e a possi#ilidade de ultrapassar o reino da necessidade, a#rindo lugar para a utopia e para a esperança. Nas condições históricas do presente, essa nova maneira de en%ergar a glo#ali(ação permitir* distinguir, na totalidade, aquilo que 3* ! dado e e%iste como um fato consumado, e aquilo que ! poss$vel, mas ainda não reali(ado, vistos um e outro de forma unit*ria. ,em#remo.nos da lição de . Schmidt 82he concept of nature in Aar<, >?H>9 quando di(ia que 5a realidade !, al!m disso, tudo aquilo em que ainda não nos tornamos, ou se3a, tudo aquilo que a nós mesmos nos pro3etamos como seres humanos, por interm!dio dos mitos, das escolhas, das decisões

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e das lutas6. crise por que passa ho3e o sistema, em diferentes pa$ses e continentes, põe à mostra não apenas a perversidade, mas tam#!m a fraque(a da respectiva construção. 2sso, conforme vimos, 3* est* levando ao descr!dito dos discursos dominantes, mesmo que outro discurso, de cr$tica e de proposição, ainda não ha3a sido ela#orado de modo sist4mico. & processo de tomada de consci4ncia U 3* o vimos U não ! homog4neo, nem segundo os lugares, nem segundo as classes sociais ou situações profissionais, nem quanto aos indiv$duos. velocidade com que cada pessoa se apropria da verdade contida na história ! diferente, tanto quanto a profundidade e coer4ncia dessa apropriação. desco#erta individual !, 3*, um consider*vel passo à frente, ainda que possa parecer ao seu portador um caminho penoso, à medida das resist4ncias circundantes a esse novo modo de pensar. & passo seguinte ! a o#tenção de uma visão sist4mica, isto !, a possi#ilidade de en%ergar as situações e as causas atuantes como con3untos e de locali(*. los como um todo, mostrando sua interdepend4ncia. partir da$, a discussão silenciosa consigo mesmo e o de#ate mais ou menos p"#lico com os demais ganham uma nova clare(a e densidade, permitindo en%ergar as relações de causa e efeito como uma corrente cont$nua, em que cada situação se inclui numa rede dinâmica, estruturada, à escala do mundo e à escala dos lugares. ) a partir dessa visão sist4mica que se encontram, interpenetram e completam as noções de mundo e de lugar, permitindo entender como cada lugar, mas tam#!m cada coisa, cada pessoa, cada relação dependem do mundo. /ais racioc$nios autori(am uma visão cr$tica da história na qual vivemos, o que inclui uma apreciação filosófica da nossa própria situação frente à comunidade, à nação, ao planeta, 3untamente com uma nova apreciação de nosso próprio papel como pessoa. ) desse modo que, at! mesmo a partir da noção do que ! ser um consumidor, poderemos alcançar a id!ia de homem integral e de cidadão. 'ssa valori(ação radical do indiv$duo contri#uir* para a renovação qualitativa da esp!cie humana, servindo de alicerce a uma nova civili(ação. reconstrução vertical do mundo, tal como a atual glo#ali(ação perversa est* reali(ando, pretende impor a todos os pa$ses normas comuns de e%ist4ncia e, se poss$vel, ao mesmo tempo e rapidamente. Mas isto não ! definitivo. da crise. 'sse mundo novo anunciado não ser* uma construção de cima para #ai%o, como a que estamos ho3e assistindo e deplorando, mas uma edificação cu3a tra3etória vai se dar de #ai%o para cima. s condições acima enumeradas deverão permitir a implantação de um novo modelo econ-mico, social e pol$tico, que, a partir de uma nova distri#uição dos #ens e serviços, condu(a à reali(ação de uma vida coletiva solid*ria e, passando da escala do lugar à escala do planeta, assegure uma reforma do mundo, por interm!dio de outra maneira de reali(ar a glo#ali(ação. evolução que estamos entrevendo ter* sua aceleração em momentos diferentes e em pa$ses diferentes, e ser* permitida pelo amadurecimento

4)( A

ist!ria apenas começa
o contr*rio do que tanto se disse, a história não aca#ouO ela apenas começa. ntes o

que havia era uma história de lugares, regiões, pa$ses. 83

s histórias podiam ser, no m*%imo,

continentais, em função dos imp!rios que se esta#eleceram a uma escala mais ampla. & que at! então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um pa$s ou continente so#re os outros, considerados #*r#aros ou irrelevantes. Jhegava.se a di(er de tal ou tal povo que ele era sem história ... A 1umanidade como um +"oco !e o"ucion=!io & ec"meno era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta. Somente agora a humanidade pode identificar.se como um todo e reconhecer sua unidade, quando fa( sua entrada na cena histórica como um #loco. ) uma entrada revolucion*ria, graças à interdepend4ncias das economias, dos governos, dos lugares. & movimento do mundo revela uma só pulsação, ainda que as condições se3am diversas segundo continentes, pa$ses, lugares, valori(ados pela sua forma de participação na produção dessa nova história. =ivemos em um mundo comple%o, marcado na ordem material pela multiplicação incessante do n"mero de o#3etos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que aos o#3etos nos unem. Nos "ltimos cinqXenta anos criaram.se mais coisas do que nos cinqXenta mil precedentes. Nosso mundo ! comple%o e confuso ao mesmo tempo, graças à força com a qual a ideologia penetra o#3etos e ações. 7or isso mesmo, a era da glo#ali(ação, mais do que qualquer outra antes dela, ! e%igente de uma interpretação sist4mica cuidadosa, de modo a permitir que cada coisa, natural ou artificial, se3a redefinida em relação com o todo planet*rio. 'ssa totalidade.mundo se manifesta pela unidade das t!cnicas e das ações. grande sorte dos que dese3am pensar a nossa !poca ! a e%ist4ncia de uma t!cnica glo#ali(ada, direta ou indiretamente presente em todos os lugares, e de uma pol$tica planetariamente e%ercida, que une e norteia os o#3etos t!cnicos. Muntas, elas autori(am uma leitura, ao mesmo tempo geral e espec$fica, filosófica e pr*tica, de cada ponto da /erra. Nesse emaranhado de t!cnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem pouco a pouco desco#re suas novas forças. M* que o meio am#iente ! cada ve( menos natural, o uso do entorno imediato pode ser menos aleatório. s coisas valem pela sua constituição, isto !, pelo que mpliam.se e podem oferecer. &s gestos valem pela adequação às coisas a que se dirigem. umentam a previsi#ilidade e a efic*cia das ações. ;m dado importante de nossa !poca ! a coincid4ncia entre a produção dessa história universal e a relativa li#eração do homem em relação à nature(a. denominação de era da intelig4ncia poderia ter fundamento neste fato concretoD os materiais ho3e respons*veis pelas reali(ações preponderantes são cada ve( mais o#3etos materiais manufaturados e não mais mat!rias. primas naturais. 7ensamos ousadamente as soluções mais fantasiosas e em seguida #uscamos os instrumentos adequados à sua reali(ação. Na era da ecologia triunfante, ! o homem quem fa#rica a nature(a, ou lhe atri#ui valor e sentido, por meio de suas ações 3* reali(adas, em curso ou meramente imaginadas. 7or isso, tudo o que e%iste constitui uma perspectiva de valor. /odos os lugares fa(em parte da história. s pretensões e a co#iça povoam e valori(am territórios desertos. A no a consciência de se! mundo

diversificam.se as escolhas, desde que se possam com#inar adequadamente t!cnica e pol$tica.

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0raças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde este3a. & outro, isto !, o resto da humanidade, parece estar pró%imo. Jriam.se, para todos, a certe(a e, logo depois, a consci4ncia de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual. & próprio mundo se instala nos lugares, so#retudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e tra(endo consigo interpretações variadas e m"ltiplas, que ao mesmo se chocam e cola#oram na produção renovada do entendimento e da cr$tica da e%ist4ncia. ssim, o cotidiano de cada um se enriquece, pela e%peri4ncia própria e pela do vi(inho, tanto pelas reali(ações atuais como pelas perspectivas de futuro. s dial!ticas da vida nos lugares, agora mais enriquecidas, são paralelamente o caldo de cultura necess*rio à proposição e ao e%erc$cio de uma nova pol$tica. Iunda.se, de fato, um novo mundo. 7ara sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria ! o )undo como realidade histórica unit*ria, ainda que ele se3a e%tremamente diversificado. 'le ! datado com uma data su#stantivamente "nica, graças aos traços comuns de sua constituição t!cnica e à e%ist4ncia de um "nico motor para as ações hegem-nicas, representado pelo lucro à escala glo#al. ) isso, ali*s, que, 3unto a informação generali(ada, assegurar* a cada lugar a comunhão universal com todos os outros. &usamos, desse modo, pensar que a história do homem so#re a /erra dispõe afinal das condições o#3etivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos o#3etos t!cnicos e enfrentar o começo de uma nova tra3etória. qui, não se trata de esta#elecer datas, nem de fi%ar momentos da folhinha, marcos num calend*rio. Jomo o relógio, a folhinha e o calend*rio são convencionais, repetitivos e historicamente va(ios. & que conta mesmo ! o tempo das possi#ilidades efetivamente criadas, o que, à sua !poca, cada geração encontra dispon$vel, isso a que chamamos te)po e)p;rico, cu3as mudanças são marcadas pela irrupção de novos o#3etos, de novas ações e relações e de novas id!ias. A 3!ande muta&'o contempo!Nnea 1iante do que ! o mundo atual, como disponi#ilidade e como possi#ilidade, acreditamos que as condições materiais 3* estão dadas para que se imponha a dese3ada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponi#ilidades e possi#ilidades serão aproveitadas pela pol$tica. Na sua forma material, unicamente corpórea, as t!cnicas talve( se3am irrevers$veis, porque aderem ao território e ao cotidiano. 1e um ponto de vista e%istencial, elas podem o#ter um outro uso e uma outra significação. glo#ali(ação atual não ! irrevers$vel. mesma gora que estamos desco#rindo o sentido de nossa presença no planeta, pode.se di(er que uma história universal verdadeiramente humana est*, finalmente, começando. materialidade, atualmente utili(ada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Lasta que se completem as duas grandes mutações ora em gestaçãoD a mutação tecnológica e a mutação filosófica da esp!cie humana. grande mutação tecnológica ! dada com a emerg4ncia das t!cnicas da informação, as quais U ao contr*rio das t!cnicas das m*quinas U são constitucionalmente divis$veis, fle%$veis e dóceis, adapt*veis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual se3a su#ordinado

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aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utili(ação for democrati(ada, essas t!cnicas doces estarão ao serviço do homem. Muito falamos ho3e nos progressos e nas promessas da engenharia gen!tica, que condu(iriam a uma mutação do homem #iológico, algo que ainda ! do dom$nio da história da ci4ncia e da t!cnica. 7ouco, no entanto, se fala das condições, tam#!m ho3e presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capa( de atri#uir um novo sentido à e%ist4ncia de cada pessoa e, tam#!m, do planeta.

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