20121381651 Uriel Nascimento

Buscarei traçar nas seguintes linhas um pequeno paralelo, ou, pelo menos, uma pequena comparação entre o materialismo de Feuerbach aplicado à religião e o materialismo de Marx aplicado ao mesmo tema. Trata-se, então, de analisar os pontos de vista de cada ume a partir de onde ambos os autores partem, expor as semelhanças, os avanços – se algum – e os retrocessos – novamente, se alguns. Assim sendo, trata-se aqui de uma analise comparativa, através da via traçada em comunidade por ambos, a saber a da dialética herdada de Hegel a qual cada um inverteu a seu modo. Ambos também trafegam a via do materialismo e, novamente, tentarei fazer a política do to each his own, i.e. expor seus métodos e suas análises de forma o menos parcial quanto possível. Vamos a isso. Iniciaremos por Feuerbach. Feuerbach é, à época, de seu Wesen, um filósofo cujo posicionamento pode ser classificado como hegeliano de esquerda. Não à toa, suas “leituras de Hegel” o vão inscrever entre o que hoje chamamos de antropologia e o que chamamos de psicologia. Notemos que, nos dois casos, o centro da sua problemática é o homem qua homem e também a partir do próprio homem em direção à ideia. Isso significa que Feuerbach rejeita qualquer possibilidade aventada por Hegel de que a ideia preceda à realidade e a formate-forme de algum jeito, sendo, ao contrário, a realidade que precede a ideia, esta última sendo uma abstração da primeira. Não se trata de uma simples pergunta do ovo e da galinha: se a realidade é precedida pela ideia, basta que se mude a ideia para que se mude a realidade efetiva vivida; se a ideia é precedida pela realidade, a mudança deve ser na realidade efetiva vivida para que se mude tanto a ideia quanto a realidade efetiva vivida. Num exemplo comportado pelo presente texto, se a ideia precede a realidade basta que se esclareça a essência do cristianismo dessa ou daquela forma para que haja a “libertação” dessa religião; se a realidade efetiva, entretanto, precede a ideia, a religião seria apenas um fruto ou efeito da realidade vivida. É esta uma das trilhas que Feuerbach seguirá. Com efeito, para Feuerbach (2007), sendo o homem diferenciado do animal apenas no fato de possuir consciência, “mas consciência em sentido rigoroso” (p.35), ou seja, aquela que indica que o homem é o animal capaz de “saber seu gênero”(ibid), sendo capaz, portanto, de englobar-se numa categoria maior do que apenas sua experiência imediata, i.e. experiência sem mediação, portanto uma experiência não decantada, irrefletida e, portanto, “bruta”, por assim dizer. Sendo o homem, grosso

Isto se dá porque aos cultos anteriores é relegado um lugar de inferioridade. toda a religião se tornaria escombros.modo. dar a ele uma resposta. amor este que tem a mesma estrutura do dever: faça. o sacrifício de seu único e próprio filho para que Ele mesmo possa perdoar os pecados do homem. Não que seja “do homem” ser religioso. do problema da finitude e é aqui que pode a religião e Deus entrarem como respostas. mas o problema do Homem é um problema de todo o gênero e. A religião entra com a resposta para esse problema. porque. não pense. aqui. Se assim o é. ao mesmo tempo. muito exatamente. exclusivamente para que este demonstre para Ele seu amor incondicional. se assim o fosse. Para além disso. mas antes deve se colocar enquanto religião. não cogite. total de explicação de mundo e um sistema que. não reflita acerca das ordens.45). profundamente próximo do homem. Por qual processo pode uma religião se estabelecer assim? Sempre e a cada vez que uma nova religião busca se estabelecer numa comunidade. de atraso frente à religião atual. Isto significa. O que se faz é unicamente rebaixar a anterior e estabelecer-se em seu lugar como mais próxima da verdade. etc. que a religião é um sistema. ao se estabelecer. deve ser um problema com o qual o homem tenha se deparado indefinidas vezes e precise. de fato. É também assim que Deus decreta o fim de Sodoma e Gomorra. apesar de sua perfeição. pelas ações no mundo fazer parte dele e construí-lo). Faça. É assim que Deus demanda o sacrífico do único filho de Abraão. sempre. mas nada é dito da religião em geral. da religião em si. É sabido que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. para que povoasse esta terra. Uma análise mais detida da Bíblia nos faz ver que Deus parece. pela sua construção. nega o politeísmo pagão pela concatenação de várias características positivas dos Deuses em um único Deus. portanto. o ser capaz de englobar-se em uma comunidade nesse duplo sentido (pela consciência definir seu gênero. É tudo. o afogamento lento e sádico da Terra por uma chuva de 40 dias e 40 noites. Tudo isto aponta para um Deus profundamente humano. Trata-se. “deve negar as anteriores como idolatria. produz sentido e conforto. o que deixa uma questão no ar: por quê? Feuerbach responde a esta pergunta de forma completamente simples: porque Deus foi criado pelo homem e sua transcendência resulta de um . mas sim que a religião se arrede exatamente nos pontos fundamentais daquilo que o humano enquanto tal preza. Pensemos na “criação dos homens por Deus”. a criação da figura divina é algo particularmente enredado na condição humana. sim. algo que perpassa gerações. temos que os problemas dos homens são particulares. mas não a si mesma”(p. É assim que o cristianismo.

assim. Daí a posição de Jung quanto aos arquétipos ser. finalmente se conhecer sem saber que of az. infantil e ultrapassada. amoroso e bondoso” na medida mesma em que o homem se torna criatura imperfeita. Nota-se. sendo Deus. o lugar de um pai. na medida mesma em que são afastadas do homem. a noção de que o próprio Deus habita em cada um dos homens porque os criou. o homem. ou seja. ainda que sejam coisas humanas. se seguirmos o fio de Feuerbach. Ainda um outro passo será necessário para que passe a efetivamente conhecer sua essência de forma “direta e estranhada”. a saber amor incondicional. Depois disto. o além-mundo. pela posição de autoridade. cada vez mais que conheço a Deus e suas criações. em termos quase psicanalíticos. Eventualmente o homem começa a se dar conta de sua finitude e passa a necessitar de uma explicação para o fenômeno da morte. Estranhado e alienado porque todas as características das quais falamos anteriormente são igualmente transportadas a este Deus. incompleta. Ora. de alguma forma. uma relação de pertencimento e de reconhecimento. Nota-se aí que o homem conhece as coisas porque conhece e crê em Deus. Inicialmente. O homem. uma séria de características humanas é atribuída aos Deuses1. Neles é reconhecida a essência humana enquanto outra essência. lentamente. Assim. o homem passa a tornar o relacionamento de Deus consigo como um relacionamento do homem com sua essência ainda não alienada. Se Deus criou a cada um dos homens e habita seu mais íntimo. Deus e o homem ainda são. Deus e o homem estavam na relação real: Deus havia sido criado e estava abaixo de seu criador. mediante o conhecimento daquele Deus. por exemplo. que a essência estanhada do homem se projeta em Deus. De tudo isto decorre que o conhecimento de Deus é o conhecimento estranhado/alienado de si. Deus se torna “misericordioso. na estrutura psíquica. Deus ocupa. próximos. a projeção que o homem faz de si num ser transcendente2. quando mais fé possuo mais conheço. porque se torna vida verdadeira. Cria. aí. o mundo para o qual a vida se torna ainda mais vida do que era aqui na terra. é precisamente conhecendo a Deus que me conheço. pureza. veremos como se deu o processo.estranhamento/alienação do homem frente ao que produz – bem ao gosto do último Marx. São. qual seja. a um só tempo. etc. Isto é um primeiro passo em direção à transcendência divina. perfeição. mais me ilumino e mais fé possuo. os Deuses antropomórficos com seus ídolos. o homem pode. Este argumento anterior é parte do círculo virtuoso de Agostinho acerca do conhecimento. começa a projetar em sua criatura várias de suas características positivas. O que mais tarde vai levar Freud a afirmar que. sendo uma outra essência a sua própria. 2 1 .

o filho de Deus. Trata-se. é a encarnação da moralidade que se transforma em ideal a ser atingido pelas mulheres3. também. Vejamos. Os infinitos atributos da essência divina. seguindo e rompendo com Feuerbach. nada mais são dos que as infinitas possibilidades do homem projetadas num ser divino. sendo tanto os challenges às posições quanto as pulsões recalcadas. bondosa e misericordiosa. sem relações sexuais. a partir de uma situação material e econômica. o agnus dei (cordeiro de Deus).finita.e. Até aqui. em relação a uma sociedade concreta específica e . em termos marxianos: se cessar a miséria na Terra. tanto de avanço quanto tem de retrocesso. mas da miséria condicional humana. mas aos quais busca. Com efeito. nada mais há na histeria do que repressão de pulsões sexuais e constantes challenges à essa autoridade repressora. Jesus. uma projeção estranhada do homem que busca ser o filho perfeito e obediente aos seus pais4 Até aqui definimos o ponto fundamental de Feuerbach acerca da religião. mas também enquanto situação concreta vivida. é o modelo de subserviência à figura paterna. se os que são pobres deixarem de se pobres. Assim sendo. i. A ruptura final se dá na concepção de realidade: não só a realidade enquanto condição humana. ou seja. 3 . se houverem condições similares a todos. ou de “essência do cristianismo” salvo por um tour de force: o que cabe falar é de uma situação particular na qual o cristianismo ou o judaísmo se manifestam enquanto uma relação com a realidade. Para Marx (2010) toda a questão da religião se dará. Não à toa a histeria é a grande doença da segunda metade do século XIX e começo do XX. A virgem Maria. é. primeiro. de características que todo homem tem e compartilha que o levam a necessitar de um Deus e de como este processo se dá dentro do cristianismo. não analise a necessidade da religião desde um ponto de vista da miséria contingente. A tese de Marx tem. Nesse sentido. de um ponto de vista psicológico e antropológico porque se foca no homem e não nas condições sócio históricas do humano. 4 Ou também uma subserviência pela via da fantasia. aspectos imutáveis. e pelo seu caráter remissivo. Esta se define a partir da alienação do homem frente à sua criação. nos quais o homem não se reconhece. visto que centra a discussão na necessidade material ou na miséria material contingencial vivida pelo homem. dificilmente precisará de religião ou. a quem é dada a tarefa de conceber. numa leitura freudiana. Por fim. nesse sentido. não cabe falar de cristianismo em geral. sendo a experiência daquelas condicionadas por estas. a religião deixará de ser algo necessário.segundo. O homem que experimenta sua finitude de tal modo que possa dela esquecer.

caberia apenas se contentar com a religião. que se termine com a miséria concreta existente decorrente da exploração.Isso indica que o fruto da miséria real. mas sim das contingências nas quais eles estar inserido o alinharem de sua possibilidade de abundância tanto espiritual quanto econômica. para Marx o que motiva a existência religiosa é a alienação frente aos produtos do trabalho. além de completa ignorância do sofrimento vivido no momento em que se está nessa bolha religiosa. fantasticamente (pelo processo da fantasia). após a morte. Essa miséria. entretanto. É nesse sentido que a religião funcionaria como o ópio do povo: o ópio inibe a capacidade reflexiva.do processo religioso. não decorre do homem ser pobre em si. frente àquilo que produz. a fome tudo o mais unicamente em detrimento do uso da droga. Assim.como queria Bruno Bauer . bastando. bastando uma vida de retidão para. porque esta se funda na miséria concreta existente. financeira e espiritual é a religião. ou seja. econômica. fazendo com . O que modifica é o motivo dessa alienação. a impossibilidade de decisão frente aos processos de produção da qual decorre a expropriação e consequente tomada dos produtos produzidos pelo trabalhador. A necessidade de uma vivência de um mundo de abundâncias após a morte revelaria a impossibilidade de desfrutar desse mundo de abundâncias durante a vida. de um inferno de miséria. A crítica da religião só pode ser feita em conjunção com a crítica da realidade material de tal modo que a crítica das armas se juntem às armas da crítica. ou seja.a alienação da própria “essência” é o motivo principal da existência de religião. inibe o sofrimento. ambas decorrentes da impossibilidade de possuir os meios de produção. Se para Feuerbach a religião se destruiria no momento em que o homem passasse a buscar a sua essência de forma não alienada. impele o homem na direção da criação de um oásis do qual teria sido expulso por um pecado inicial.aqui tanto quanto para Feuerbach. do dia a dia do trabalho estranhado/alienado. a percepção de uma realidade profundamente miserável e desigual porque fornece contentamento e prazeres imediatos. O vale de lágrimas concreto da Terra. Se para Feuerbach o homem se conhece de maneira alienada a partir da religião esta alienação frente aos atributos humanos projetados em Deus é o que motiva a existência religiosa. para Marx a religião deixaria de existir no momento em que uma compensação pela miséria deixasse de ser necessária. para os que trabalham e sustentam o sistema que os explora. por si. seriam a causa e não o fruto . portanto. Nesse sentido. Lembremos que para Marx . Cria-se um paraíso da abundância para se escapar. Inibe. buscasse uma solução ideal para um problema material. retornar a esse paraíso perdido. para isso.

vemos como é possível. vol. Reclam s/a. S. de inverter famosa passagem bíblica de Mateus 6:33: “Mas. e a sua justiça. como pôs Hegel em carta citada por Benjamin em suas Teses “cuidai da alimentação e do vestuário e o reino dos céus virá por si mesmo”. mesmo com um grande esclarecimento. Quando digo que Marx avança tanto quanto retrocede. não. Tradução de José da Silva Brandão. por exemplo. de alguma forma. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. enquanto a de Marx. No primeiro caso. buscai primeiro o reino de Deus. a explicação marxiana consegue explicar de forma muito mais profunda o uso do dinheiro em dízimos e promessas do que Feuerbach. Referências FEUERBACH. quero dizer exatamente o seguinte: a explicação feuerbachiana consegue explicar a crença religiosa por pessoas ricas ou em condições favoráveis e detentoras dos meios de produção. vez que o torna sempre hetero conhecimento. vemos como. Freud. 21.” Busca-se. funcionará. 2007. . ou seja. pode-se acreditar no pensamento mágico e crer que este. O mal-estar na civilização. Trata-se. Wesen des Christenthums. e todas estas coisas vos serão acrescentadas. primeiro. Stutgartt. tendo por elucidado os principais pontos dos argumentos de cada autor. (1930). Neste último caso. descerá o reino dos céus. por sua vez. É. buscar se esclarecer de forma alienada exclusivamente porque a projeção para fora de si é algo que adia o auto reconhecimento. Petrópolis. esse início de discussão se encerra por aqui. ______________.que o reino dos céus desça à Terra. L. Rio de Janeiro: Imago. portanto. RJ: Vozes. De alguma forma. Caminha-se para dentro buscando-se caminhar adiante. o dinheiro dado a uma igreja. será multiplicado (geralmente por 10) por Deus e retornará num futuro como fruto de um investimento bem feito. Por tudo isto. vez que dá a entender ou deixa subentendido como funciona o processo de investimento e fuga de uma realidade atual para uma realidade futura a partir do investimento financeiro. A essência do cristianismo. 1969. modifique as condições materiais e você terá as condições da ideia de abundância se manifestar. “todas estas coisas” e. isto feito.

Boitempo Editorial. 2010.Marx. K. São Paulo. Sobre a Questão Judaica. .