OS DESTRUIDORES Graham Greene [tradução de Christian Schwartz1

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1 Foi numa véspera de feriado em agosto que o último dos membros a ser recrutado se tornou o líder da gangue de Wormsley Common. Ninguém além de Mike se surpreendeu, mas, aos nove anos, Mike se surpreendia com tudo. “Se você não fechar essa boca”, certa vez alguém lhe disse, “vai acabar engolindo um sapo.” Depois dessa, Mike mantinha os dentes bem cerrados sempre, exceto quando a surpresa era muito grande. O novo membro já estava na gangue desde o começo das férias de verão, e todos reconheciam possibilidades em seus silêncios pensativos. Nunca desperdiçava sequer uma palavra, nem para dizer o nome, até que alguma regra o obrigasse a isso. Dizer “Trevor”, para ele, tinha sido como enunciar um fato, e não, como teria sido para os outros, a expressão de uma vergonha ou de um desafio. E tampouco alguém riu, só Mike, que, vendo-se sem companhia e deparando-se com o olhar sombrio do recémchegado, abriu a boca e novamente a calou. Várias poderiam ser as razões para que T., conforme passou a ser chamado a partir dali, fosse alvo de gozação – havia o nome (substituído pela inicial porque, do contrário, não teriam como evitar rir dele), e o fato de seu pai, antes arquiteto e agora escriturário, ter “descido na vida” e de sua mãe se achar melhor do que os vizinhos. Que mais senão uma estranha aura de perigo, de imprevisível, poderia tê-lo entronizado na gangue sem alguma ignóbil cerimônia de iniciação? O bando se encontrava todas as manhãs num estacionamento improvisado, o local onde explodira a última bomba do primeiro dos grandes bombardeios. O líder, conhecido como Neguinho, afirmava tê-la ouvido cair, e ninguém era capaz de fazer as contas para apontar que, na tal data, ele devia ter um ano de idade, um bebê dormindo tranquilo numa das plataformas da estação subterrânea de Wormsley Common. Num dos lados do estacionamento, jazia a primeira casa reocupada da Vila Northwood, a de número 3 – jazia, literalmente, porque tinha sido bastante danificada pela bomba e as paredes laterais eram sustentadas por vigas de madeira. Uma bomba menor e outras incendiárias haviam caído mais além, de modo que a casa permaneceu de pé feito um dente amolecido e ali ficou, amparada nos resquícios da parede do vizinho, num friso do teto, nos restos de uma lareira. T., cujas palavras se limitavam a praticamente “sim” e “não” na votação diária dos planos de ação propostos por Neguinho, daquela vez surpreendeu toda a gangue ao dizer, ruminando pensamentos: “Meu pai me disse que foi Wren quem construiu aquela casa”. “Quem é Wren?” “O cara que projetou a Catedral de St. Paul.” “E daí?”, falou Neguinho. “É só a casa do Velho Casmurro.” Velho Casmurro – cujo nome verdadeiro era Sr. Thomas – algum dia havia sido um empreiteiro e decorador. Morava sozinho na casa estropiada, muito discreto: uma
Christian Schwartz é professor, jornalista e tradutor de vários autores, entre eles Jonathan Coe, Philip Pulmann, Matt Haig, Dinaw Mengestu, Hanif Kureishi, Philip Roth, Sam Shepard, Lou Reed, Nathaniel Hawthorne e F. Scott Fitzgerald. Atualmente cursa doutorado em História Social na Universidade de São Paulo (USP), com projeto sobre tradução cultural.
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tinha responsabilidades.” . T.” “Você surrupiou alguma coisa?” “Não. Não havia nada nas regras que proibisse aquilo.” “Eu estava lá”. Conseguiu redecorá-lo a preço de custo. alguém sugeriu. Soturno. falou. “Aposto que estavam caídos no chão e ele juntou”. outro pensava alto. disse: “Vocês são daquele bando que brinca no estacionamento?” Mike já ia responder quando Neguinho o impediu. “Isso é propina”. como se tivesse pensamentos a esconder.?”. Mike e um menino magro e de aspecto amarelado. “Tenho uns chocolates”. falou Summers. Chegou atrasado ao encontro e a votação sobre a ação do dia aconteceu sem ele. quis saber: “Você arrombou?” “Não. No dia seguinte. Por sugestão de Neguinho. Cheio de expectativa. comentou um dos garotos. palmilhava terreno perigoso. O Sr.” “E o que ele fez?” “Me mostrou a casa.” A boca de Mike se abriu e. em seguida. o encontraram na pracinha.vez por semana era possível vê-lo atravessando a pracinha. Thomas. desde os bombardeios. o qual por alguma razão era chamado pelo sobrenome. para ver quantos trajetos cada um era capaz de fazer sem pagar passagem.” “Vamos mostrar pro velho que a gente não aceita propina”. pois era de conhecimento geral que. “Eu mesmo não gosto. “E daí se a gente for?”. um buraco no formato de uma estrela – que ficava nos fundos do estreito quintal: tinha escapado da explosão que esmagara a casa vizinha e arrancara as esquadrias da própria casa de número 3. falou Neguinho. Mirava o chão. chegou. mas nunca fora encanador. O banheiro era uma casinha de madeira – na porta. ambíguo. espiou-os por sobre o muro semidestruído do quintal. Mais surpreendente foi a aparição seguinte do Sr. Como líder. Você conhece as regras. e então dedicaram a manhã toda a brincar de paredão. Cada dupla combinava sua área de atuação quando T. A gangue ficou confusa e perturbada com a atitude do velho. “Acabou de ir no banheiro”. embasbacou a todos. E entregou aos meninos três pacotes de Smarties. o encanamento da casa não funcionava bem. Thomas. quando os meninos brincavam no estacionamento. “Surrupiou e depois ficou se cagando”. Taí. perguntou Neguinho. Thomas os abordou. “Na casa do Velho Casmurro?”. acho. Neguinho. ele acrescentou. voltando das compras. e certa vez. com uma convicção sombria. T. Summers. se fechou de novo com um clique. depois de ter ido buscar pão e fazer a feira. às expensas de motoristas distraídos (a operação deveria acontecer aos pares para evitar que alguém trapaceasse). Bati a campainha. “Onde você estava. tentavam achar uma explicação. disse Neguinho. “Não pode mais votar agora. “Onde?” “Na casa do Velho Casmurro. mas ele tinha a sensação de que T. Nem sinal do Sr. formariam duplas que se dispersariam tomando ônibus ao acaso. Tinha se lembrado do sapo. jogo para o qual apenas Mike era considerado muito novo. “Está querendo que a gente pare de bater bola no muro dele. Thomas. disse o Sr. mas o Velho Casmurro era pão-duro demais para se permitir botar dinheiro no imóvel. Não dá pra todo mundo. respondeu T.” “E o que você disse?” “Que eu queria ver a casa dele. Nunca dá”.

ele se achava em posição perigosa. não vai ter mais nada. “Tem uma escadaria de uns duzentos anos de idade que parece um saca-rolhas. se calou.” “A gente ia acabar no xilindró”. como paródia. “Se você tivesse arrombado. e aí arrumamos um jeito de derrubá-las. A gente destrói de dentro pra fora.” “Como assim. Neguinho se sentiu tentado a dizer: “Meu querido Trevor.” “Que mais?” “Forração nas paredes.” “Não estou querendo roubar nada”. “Vamos derrubar a casa”. “E a polícia no meio disso?”. se pudesse. “Fiz melhor”. falou T. o Velho Casmurro disse. com uma afetação dos infernos. . falou Neguinho. que nem vermes numa maçã. uma linda casa?”.”. um mundo que ainda era possível encontrar. “Tenho uma ideia melhor. feito Mike. Arrombar já está de bom tamanho. num sujeito de cartola e monóculo com um sotaque entojado. no primeiro dia das férias. respondeu T.” Continuava a encarar os próprios pés. não tem nada segurando? Ela flutua?” “Tem a ver com forças opostas. perguntou. ainda com os seus pregados no chão. “Nem vai perceber. escarnecendo. depois para o outro. “Que coisas?” “O Velho Casmurro vai ficar fora a partir de amanhã e o feriado inteiro. A palavra “linda” era o que o havia inquietado – aquilo pertencia a outro mundo. alguém quis saber. nada além das paredes. A reunião tinha um tom sério. e sem olhar nos olhos de ninguém.” Aliviado. Descobri um jeito de entrar. dera as caras no estacionamento. lambeu os lábios para um lado. falou: “É uma linda casa”. perguntou Neguinho. bom amigo”. falou.” Falava com uma espécie de intensidade: “Vamos agir que nem vermes.” “Qual?” T.“Então pra que fez isso?” A gangue tinha se reunido em torno dos dois: era como se um tribunal improvisado estivesse a ponto de se formar para o julgamento de um litígio. né? A gente não quer ter problemas com a lei. tirou do chão um olhar plúmbeo e nublado como aquele dia pardacento de agosto. Não tem nada segurando ela no ar. Quando sairmos de lá. Neguinho disse: “Então podemos ir lá e arrombar. no bando. é isso?” “E surrupiar uns troços?”.” Neguinho soltou uma risada avulsa e. sim. sem levantar a vista para ninguém. como que absorto em algum sonho que não desejava – ou tinha vergonha de – compartilhar. “Descobri coisas. nem forração.. perguntou Neguinho. vocês não percebem?. “Como assim. em termos de classe social..” “O Velho Casmuro tem duzentos anos?” Mike riu de repente e logo se calou outra vez. perturbado por aquele olhar sério e implacável. com tristeza – isso. Estava sendo justo. “Destruir. T. queria ansiosamente manter T. Pela primeira vez desde que T.” “Que nem no Blue Boar?” “Duzentos anos de idade. Bastaria alguém mencionar seu nome verdadeiro ali e a gangue não largaria mais do pé dele. Neguinho retomou: “Ninguém vai surrupiar troço nenhum. seria uma ação digna da gangue. nem escadaria. não tinha ciúme. no Wormsley Common Empire. “Pra que você fez isso?”. disse.

“Não ia dar tempo de fazer”. Neguinho voltou para perto de T. fora os caminhões. Alguém mais que possa trazer um martelo e uma chave de fenda? Vamos precisar de muitos.” Neguinho se deu conta de que levantava a mão como se fosse um integrante qualquer da gangue. e um martelo.” “Somos em doze”. A fama da gangue do estacionamento de Wormsley Common certamente se espalharia por toda Londres. nas dores da adolescência. disse T.. não era seguro. os maiores que conseguir encontrar. Foi até os fundos do estacionamento e começou a chutar uma pedra.. “A gente se organiza. “Por onde a gente começa?”. que estava parado à sombra do muro do Velho Casmurro. então.” “A gangue tem que votar. ele disse para Mike. Pensou em voltar para casa. “Você tem um plano melhor?” “Hoje”.. o que T. “Você”. ponderando-o e amadurecendo-o. sem prestar mais atenção a ele do que prestaria a um estranho. cheio de dedos. disse: “Está aprovado”. no fim. “traga uns pregos bem grandes. depois para o outro. também.. em deixar que todos eles descobrissem como era frágil a liderança de T. atalhou T. “a gente ia pegar uns ônibus de graça. . e agora. falou Summers. Neguinho tomava consciência. eram poucos os carros deixados ali: sem alguém que os olhasse. Haveria manchetes nos jornais. Ao longe. Até as gangues de adultos que controlavam as apostas da luta livre e os feirantes da cidade escutariam respeitosos a história de como a casa do Velho Casmurro fora destruída. disse T.“E quem ia poder provar? E. o restante da gangue rodeava T.. topo”. sombrio. “Nunca ouvi falar de alguém que foi pro xilindró por destruir coisas”. “Um de verdade.. Formões também. Era o fim de sua liderança. do caráter volúvel de uma ascendência. mas e se. Dava suas ordens com decisão: era como se tivesse carregado aquele plano a vida inteira. Neguinho. Alguém que traga um serrote?” “Eu posso trazer”. retrucou T. se prefere.” “O que é um arco de serra?”. “Quem é a favor?” T.” Sem jeito. Encarou Neguinho. “Não um de brinquedo”. em nunca mais aparecer. falou Neguinho. acrescentou: “Não teria nada pra roubar depois que terminássemos”..” “Coloque em votação.” “Ônibus de graça”. Movido pura e simplesmente pela ambição altruísta de que a gangue ficasse famosa. o plano se cristalizasse.. O maior número possível. pois. Neguinho.” “Nenhum de nós sabe como. falou Mike.. falou um menino gordo chamado Joe. Precisamos de um arco de serra. Havia apenas um velho Morris estacionado por perto. “Certo. “Ele vai dizer pra vocês”. não vamos ter roubado nada. você traz um serrote. falou Mike. tirando um pouco de tinta do para-lama traseiro. “Você não precisa participar. Neguinho deu uma voadora contra o único carro. alguém perguntou. aos quinze anos. perguntou Summers.” “Eu sei”. Neguinho disse: “A proposta é amanhã e no feriado a gente destruir a casa do Velho Casmurro”. driblando para um lado. propunha fosse possível – nada parecido havia sido tentado até então. falou Neguinho. disse Summers. Mas tem um problema. “Tem pra vender na Woolworth‟s”. “Já vi arrombadores em ação. “Topo.” Sem a menor centelha de entusiasmo.

Espirais de fios elétricos saíam dos rodapés danificados. Summers. Joe levantava os tacos do parquê. Mas. pôde distinguir uma confusão de sons. adormecida. Ninguém lhe dirigia a palavra: ele sentia no ar uma grande urgência. sentado no chão. falou T. Por fim. arranhares. “O que vai acontecer?” . “Não quero dinheiro de vocês. Chegou à casa por uma viela que dava no quintal. Talvez ninguém tivesse aparecido. à procura de T. de repente o lamento de um estalido. O interior da casa estava sendo cuidadosamente demolido sem que as paredes externas denunciassem a ação. e assobiou. Sei onde os caras vão deixar as ferramentas durante o feriado”. ouvindo os sons que subiam para aquele que era o mais abandonado dos cômodos da casa.” 2 No domingo de manhã todos apareceram pontualmente. até Mike. Na escadaria curvilínea.” Neguinho disse: “Estão reformando o número 15. “Você levou a coisa a sério mesmo”. no banheiro – estava ali. com a serra e o martelo. arrancava os rodapés da sala de jantar. Mike tinha dado uma sorte. pouco mais do que o fervilhar de uma colmeia: uns clique-claques. disse Neguinho com espanto. menos Neguinho. Não havia sinal de ninguém em parte alguma. “Então é isso”. Sua mãe ficara indisposta. que entrou. com medo da ronda policial na rua da frente. Os ciprestes cansados ofereciam trégua contra o sol que chamava chuva braba: mais um feriado úmido era tramado no Atlântico. “A gente se encontra aqui às nove em ponto. a adega. já se anunciando nos redemoinhos de poeira sob as árvores. Neguinho escalou o muro e saltou para o quintal do Casmurro. com um martelo e um formão. cara de poucos amigos. ao se aproximar da porta dos fundos. divertia-se em cortar a fiação. Neguinho se deparou com metade do corrimão largada no vestíbulo. lembrou Mike. e já começava a vislumbrar o resultado do plano. e Mike. foi encontrar T. Mas não tenho como comprar um martelo de forja. dois membros da gangue se empenhavam na destruição do corrimão com uma inadequada serra de brinquedo – quando viram Neguinho com a de verdade.” “Vou ter que ir na missa”. Naquele mesmo cômodo. e depois de volta. As cortinas estavam fechadas. mais tarde. De imediato teve uma impressão de organização. Botamos você pra dentro. “Eu mesmo consigo uma”. desaminado. no térreo: já havia arrebentado a forração da porta. rangeres. Neguinho tivera dificuldades para surrupiar o arco de serra e também para achar o martelo de forja nos fundos do número 15. Ao voltar ao local. Abriram a porta dos fundos para ele. falou T. A casinha do banheiro se erguia como uma sepultura num cemitério abandonado. afinal: o plano fora uma louca invenção: o dia seguinte os trouxera de volta à razão. não sem ouvir muitas advertências sobre o que aconteceria caso se extraviasse. disse: “Sabia que isso ia virar uma lista interminável”.O menino gordo chamado Joe. abaixo. “Pule o muro e assobie. com gestos sinalizaram que a emprestasse. deixando expostas as tábuas do assoalho que recobriam. bem diferente do antigo estilo cada-um-por-si de sua liderança. Passou um tempo circulando do andar de baixo ao de cima. Neguinho foi se chegando. uns tum-tum-tuns. o pai estava cansado da noitada de sábado e ele foi mandado sozinho à igreja. Pensou: o negócio é pra valer. A casa.

T. “Achou aquela cosa especial?”. mas todos os outros. a destruição é uma forma de criação. tinham trazido seus farnéis. “Quem mais?”. a luz do dia havia praticamente ido embora e. “olha isso. mas não viu. disse. Isso fica pra depois. falou T. falou. Mike falou: “Preciso ir pra casa almoçar”. “Claro que não”. A sala de jantar estava sem o parquê. Quando Mike retornou. Não abra as torneiras – não queremos causar uma enchente – por enquanto. “Vamos queimar”. disse. Um tipo de imaginação havia vislumbrado aquela casa do jeito que estava agora. disse T. “Mike rasgou os colchões. Está bom por agora.” “O que você vai fazer? Dividir?” “A gente não é ladrão”. “Você odeia ele tanto assim?”. A cozinha fica no porão. A cozinha era uma confusão de vidro e porcelana quebrados. Destrua todos os papeis e enfeites que encontrar. quebre o gesso do corredor com o martelo de forja. usando de uma desculpa ou outra. O caos avançava. para evitar chamar a atenção. “Estou procurando alguma coisa especial”.” “O que você vai fazer?”. T. Era quase hora do almoço quando Neguinho terminou e saiu em busca de T. continuou. “As economias do Velho Casmurro”.. Quebre tudo que conseguir achar de porcelana e copos e garrafas. quis saber Neguinho. para .” De ambos os bolsos sacou maços de libras. “uma por uma”. disse T. T. os rodapés arrancados. tinham alcançado o sótão. quando tentaram ligar um interruptor. “Ninguém vai roubar nada desta casa. “é frescura. As portas todas arrancadas. deu suas ordens – todos ali às oito da manhã seguinte – e. cada nota foi erguida na vertical e. assim como os rodapés. besteira.” Ajoelhou-se no chão e contou as notas – setenta libras no total. Riscas de luz entravam pelas persianas nas quais trabalhavam com o afinco de criadores – e. Neguinho.” A última nota em chamas iluminou seu rosto pensativo. os móveis saqueados e rachados e arrebentados – ninguém teria podido dormir na casa. “Muito bem. O quarto fica aqui em frente. Acamparam nas ruínas da sala e trocaram sanduíches para os quais não tinham apetite. pularam um de cada vez o muro do quintal de volta para o estacionamento. e os estragos mais aparentes já estavam completos. ele disse. quando terminar aqui. Rasgue todos os travesseiros e lençóis. A cinza flutuava no ar e descia sobre cabeças agora envelhecidas. Depois vá a cada um dos quartos e revire as gavetas. “Queria ver a cara do Velho Casmurro quando a gente tiver acabado o serviço”. no fim das contas. É bom trazer uma faca da cozinha. a porta retirada das dobradiças. Só dê umas voltas por aí agora. perguntou Neguinho. “Todo esse negócio de amor e ódio”. respondeu T. não teria graça.”. “Vem cá”. quis saber T. a não ser numa cama feita de pedaços de reboco. nada aconteceu – Mike tinha cumprido sua tarefa à risca. Não se preocupe com o encanamento. ficaram para trás. assentiu. Neguinho”. e os destruidores haviam se transferido para o andar superior. Só o que há no mundo são coisas. Olhou para o martelo de forja e deu instruções. perguntou Neguinho. “Se odiasse. Meia hora de almoço e já estavam de volta ao trabalho. e olhou ao redor. Peça ajuda pra um dos outros pra arrombar as que estiverem trancadas. de modo que a chama queimasse devagar até alcançar-lhes os dedos. “Você fica aqui e quebra a banheira e a pia.“A gente está apenas no começo”. E você. passaram a acender cada uma pela parte de cima. Apenas Neguinho e T. falou T. revezando-se. Guardei o dinheiro pra nós dois – uma comemoração.” Mike apareceu na porta: “Terminei com a fiação.

Você votou como todo mundo. Summers estava inquieto. Muito frio e chuva. T. Não tiramos uma única janela. parecido com os primeiros disparos dos antigos bombardeios. “Ganhei um conto pra jogar nas máquinas.” A água os apanhou na altura da escada e despencou para os cômodos já sem chão. não se enxerga nada.” Recomeçaram pelo térreo. ele falou. era tarde demais para conseguir chegar a elas. Tinha aprendido com a prática.. “Uau”. não. “Mas como?”. O teto está vazando?” “Quando tempo ele vai demorar?” “Cinco minutos. 3 A destruição maior começou na manhã seguinte.” E protestou com a fúria da criança que nunca fora: “Não é justo”. Dois dos meninos estavam faltando – Mike e um outro. apesar dos pingos de chuva quente começando a cair e do ribombar de trovão para os lados do estuário. “Vou correr pra casa. Fachadas tinham valor. Vamos destruir esta casa. “Vim correndo”. recuaram para o corredor enquanto o que havia sobrado do assoalho adernava e submergia. disse Summers.” Parou para observar a água. respondeu Mike. Escapei da minha mãe e corri pra cá. “Não dá tempo”. “Ele tinha me dito que. “Tem alguma coisa errada”. Não vai ter sobrado nada quando terminarmos. disse Mike. falou com orgulho.” “Ah. ainda temos os assoalhos todos e a escada. falou. e o segundo andar desabou mais facilmente. Foi quando ouviram Mike assobiar nos fundos. “O Velho Casmurro”. Chegada a noite. “Caramba. e mais bonito do que antes. disse T.” “Melhor a gente cair fora”.” “Mal começamos”. reagiu T. vocês fizeram uma tempestade aqui. Dava para escutar a respiração urgente do outro quando lhe abriram a porta. Haviam corrido riscos e cometido erros: quando se lembraram das janelas. falou T. T. disse um dos meninos. “e estava no trem. “Abram as torneiras”. Aquilo ali voltar a ser um lar. “Por que começamos com isso?”. Qualquer um podia ter feito isso –” “Isso” era o buraco vazio dentro de uma casa destruída e destituída de tudo menos as paredes. estarrecido. Ouviram-na quicar e rodopiar em meio ao vidro quebrado. Mas as paredes poderiam ser reutilizadas. de coisas despedaçadas. “Ele tinha viajado pra Southend”. Neguinho”. “Ora. falou. Seria possível reconstruir todo o interior. voltando. quis saber Summers. e soltou uma moedinha naquele poço seco atulhado de destroços. de ex-coisas. falou com raiva: “Precisamos terminar. afastando o entulho e abrindo espaço junto à parede externa. Isto aqui é que nem trabalho. “Já fizemos que chega mesmo. Me deixem pensar”. que então serraram. “Já está escuro demais. “Está vindo pra cá. e de manhã não vai mais adiantar. uma estranha alegria tomou conta dos meninos ao olharem para o grande vazio que se tornara a casa. . pois os pais deles tinham resolvido viajar para Southend e Brighton.o cômodo apinhado dos vultos estranhos de pedaços de coisas. já estava de volta ao térreo. perguntou. “Já não fizemos que chega?”. não fizemos. arrancando as tábuas do assoalho próximas à parede externa e deixando expostas as vigas. “Os tiras?”. Não se mexam. “Temos que nos apressar”. perguntou Summers. falou Joe.. disse Neguinho.” Baixou a cabeça à altura dos joelhos e resfolegou.

Espere. Um assobio soou em algum lugar. Não fizemos. vendo seus sonhos vacilarem e escapulirem. “Por favor”. “Não dá pra gente chegar até aqui e. não é ele.” “É mesmo. “Sr. A casinha do banheiro. “Por favor”.” “Vigiem os fundos também. Deu uma espiada rápida pela persiana entreaberta. Não. Ele não confiava em assobios. Você fica aqui.” “Venha logo.” T. Thomas. não.?” “Não se preocupe.. T. como um boxeador golpeado até ficar grogue contra as cordas. T. falou Neguinho.” “Onde você vai. e súbito. Sr. Sr.” “Ele pode chegar pelos fundos. Preciso passar por dentro de casa. Eu mesmo carrego..” . deu o golpe de misericórdia.” “Rápido. que antes preciso colocar minha mala pra dentro de casa. “Vou vigiar a frente.” “Já fizemos muito”. ficou parado.” “Não consigo chegar ao quintal por aí.” “O que foi?” “Sinto muitíssimo. Então. até eu gritar. passou a um tom de súplica.” “Ele não tinha nada que – já não te vi antes?” “O senhor me mostrou sua casa.” “Ah. e cautelosamente abriu a persiana do vestíbulo. Até a claraboia no alto da porta da frente sobrevivera intacta ao impacto da bomba.” T. Neguinho tomou uma atitude e fez Summers recuar.” “Bobagem. “Me deem um minuto só que vou resolver. “Ele está vindo. qualquer coisa. Mike?”. T. não precisa.” Mas. Neguinho. usando o nome fatal.” “Entendeu.” “Não tem como fazer mais nada. disse.. Tinha lama nos sapatos e parou para raspar as solas no meio-fio. Vou dar um jeito nisso. Um menino da turma ficou apurado. empurrando-o. antes que o bando tivesse tempo de começar a rir. garoto?” “Ficou preso no seu banheiro. Thomas. O menino vai sufocar.”. úmida e cinzenta.” “Gritar o quê?” “Ah. chamava. Juro que vou dar um jeito. perdida a ambiguidade que era sua característica. “Não. Não queria embarrar a casa. Mike. falou Neguinho. Alguém vigia aqui na frente. vocês todos. T. “Sr.“Tem que ter um jeito”. Qual é o seu plano. Trevor. disse T. Mostrei mesmo.” “Como assim. aí a gente pensou que o senhor não se importaria. Então um menino saiu correndo para a rua. Ele era só mais um da gangue.” “Por aqui. continuou ele. Quanto ele ouvir meu assobio. que jazia instável e escura em meio aos locais bombardeados.. vindo do estacionamento. A pracinha se estendia ali em frente. Thomas”. ele acreditava. Uma criança gritava: parecia vir do quintal de sua própria casa. Não tem como sufocar. a autoridade tinham ido embora também. e agora ele não consegue sair de lá. T. Isso não te dá o direito de. Falei que ia. Estava sem palavras. „socorro‟. Sr. salva por um triz da destruição. de costas para o entulho. as lâmpadas dos postes refletindo nas poças. “Alguém está vindo. Thomas.?” “Diga pro Mike ir até a casinha do banheiro e se esconder bem junto dela. Thomas.” “Eu carrego sua mala. “Corra pra casa. tem que contar até dez e começar a gritar. não falei?” O Velho Casmurro avançava mancando pela pracinha. debochou Summers. Tinha voltado a ser o líder.

Sr. pensou. falou. mas. pelo buraco em formato de estrela na porta.” “Ele não corre nenhum perigo no meu banheiro”. tomando-o pelo cotovelo. “Me devolva minha mala”.” “Está vendo. Tenho que tomar cuidado.” “Está tudo certo com a sua mala.” “Tire ele daí. “Vou chamar a polícia. Não me importo que vocês brinquem aí nos sábados de manhã. disse o menino. Qualquer um que passasse por ela estaria voltando apressado para casa. “Me deixe sair”. às vezes. Thomas”. Mas desde que as coisas sejam feitas como devem. Sr. meu rapaz”. Me dê a mão..“Mas o senhor pode. e não pararia para verificar o que certamente ia imaginar que fossem os gritos de um bêbado. “se o senhor ficar quieto. se berrasse “socorro”. Só que tudo como deve ser. disse o Sr. a ponderar com a sabedoria da idade. ninguém o escutaria na rua da frente. Thomas. A gente sempre entra. e o Sr. Ficou de pé e espiou pelo buraco de ventilação – numa das . “Estou indo. Pode ver. Venha. E vocês vão entrar pela porta da frente pra sair no quintal. um dos braços esticados. o menino o amparou. dirigindo-se ao garoto a seu lado: “Não estou sendo intransigente. Não vou estar a fim. “Não se preocupe. e pronto.” Tropeçou na trilha do quintal. E. Sabe o que dizia o meu horóscopo ontem? „Evite qualquer atividade na primeira metade da semana. a voz disse.” Parou junto à porta do banheiro. Thomas. Thomas falou. sim. o Sr. e ouviu o ruído da chave girando na fechadura.‟ Pode acontecer nesta trilha”. Não houve resposta. “Aqui está sua mala. “Talvez ele tenha desmaiado”. Sr. Thomas. Outras vezes vou dizer não.” “Sempre entra?” Seguiu o menino com uma fascinação escandalizada. Thomas escalava o muro do próprio quintal. “Qual é o problema aí dentro?”.? O muro é baixo. a ponto de quase cair quando ela facilmente se abriu. você aí. automaticamente. ele gritou. e se sentiu trêmulo e confuso e velho. Thomas. À sua direita. meu reumatismo”. e estava certo de que o motorista não voltaria para buscá-lo antes do amanhecer. espiando. murmurou.” “É assim que a gente faz. obrigado. Também já fui menino. Thomas falou. E. “Sempre piora por essa época. Ele deu com a cabeça na parede oposta e caiu com todo o peso no chão. Uma mão primeiro o amparou. e a viela dos fundos raramente tinha movimento. Thomas ficou ali. “Não no meu banheiro. o Sr. Uma voz lhe falou. e deu um forte encontrão na porta. outro lá. não vamos machucá-lo. em seguida o empurrou com força. Thomas. inquiriu. Tem umas pedras soltas ali.. Nada de pular muros. Agora um pouco acima. teria coragem de investigar? O Sr. Sr. “Esses textos falam por parábolas e duplos sentidos. “Uma queda séria”. Um pé aí. entrar por aqui.” O menino botou a cara ali. sentado no banheiro. Thomas.” O Sr. pareceu-lhe ouvir ruídos no silêncio – eram abafados e vinham dos lados da casa. quem. disse. Passado um tempo.” “Vou mandar aumentar este muro”. Sr. Gosto de companhia. À sua esquerda. Um de vocês pede pra ir lá atrás. Da casinha do banheiro.” O Sr. numa noite de feriado solitária. Thomas enfiou a cabeça entre as mãos e ponderou. estou indo”. caminhando aos tropeços no quintal. “Não quero mais esse negócio de vocês vindo aqui usar o meu banheiro. “Obrigado. devolveu o Sr.” “Não vou ficar pulando muro pra entrar no meu próprio quintal. “Mas quando? Que direito vocês. Alguém gritou novamente na escuridão. “Ah. Thomas viu sua mala ser apanhada e colocada para o outro lado do muro. Thomas. Um pé aqui. Risco de uma queda séria. A mala acertou-lhe o pé. um menino gritava e gritava.. Dali. saia”. continuou o Sr. Isso é absurdo.. Uma mão puxou a chave da fechadura e a porta bateu. Tinha notado que havia apenas um caminhão no estacionamento. suave. digo sim.

Ouvia vagamente uma voz que chamava. continuou a voz. garoto?”. na manhã seguinte. A casa dilapidada jazia ali. “Queremos que o senhor passe a noite com conforto. foi momentaneamente seguro. Sr.” O velho suplicava. Imaginou arrombadores – talvez tivessem usado o menino. Ficou menos preocupado. 4 Mike tinha ido para a cama. sem ter de manobrar. Thomas experimentou um grito. Preciso de um lugar confortável pra dormir. Não havia mais casa junto ao estacionamento. mas não era com ele. “Pãezinhos – passamos manteiga neles – e rolinhos de salsicha.” “Me deixe sair”. enxergou uma luz. Não teria sido suficiente nem mesmo para que seus inimigos o escutassem. enquanto pedras atingiam o teto da cabine. Contornou . para avisar se alguém passasse na rua. não mesmo. soava como uma forma clandestina de carpintaria? O Sr. Ao desembarcar. A questão da liderança não dizia mais respeito à gangue.persianas entreabertas. voou de volta à imensidão silenciosa. Às sete. Thomas. Freou. Uma voz lhe falou pelo buraco. mas ninguém respondeu. Thomas. O Sr. Summers foi colocado de vigia. O motor finalmente respondeu. apenas uma montanha de entulho. e isso o reconfortou um pouco. e o Sr. incrédulo. mas por que arrombadores se dedicariam a algo que. falou a voz. garoto. Não queremos que o senhor passe fome. Thomas. disse o velho. equilibrada sobre alguns centímetros de argamassa entre a camada isolante e os primeiros tijolos. e foi Neguinho quem. severo. num bater de asas abafado. num dos extremos da área dos bombardeios. em resposta. O motorista se espantou com aqueles tijolos que despencavam. Então teve a impressão de que escutava o som de marteladas e coisas sendo arranhadas e lascadas. Começaram de uma altura muito grande. se deu conta de que teriam a metade do trabalho se tratassem de minar os rejuntes logo acima do isolamento.” “Como assim. formões. Não vinha mais dos lados da casa. “Aqui”. mas o restante deles ficou. chaves de fenda. Subiu à cabine e tentou dar a partida no motor. Thomas tentou mais uma vez gritar. e um rolo cinzento foi introduzido no buraco e se abriu sobre a cabeça do Sr. mas o silêncio. ao alcançar a camada isolante próxima à fundação. Thomas. Foi uma longa. Assim poderia sair em linha reta para a rua.” “A noite”. Talvez os outros ruídos também não fossem nada de mais. disse a voz. qualquer coisa que tivesse ponta afiada. repetiu o Sr. como se alguma coisa o puxasse para trás. O caminhão avançou. não a luz de uma lâmpada. uma coruja berrou e. “Pegue este cobertor”. mas os passos se afastaram. sentado na casinha do banheiro. “Não é nada pessoal”. Thomas. desesperado. “Sr. mas a luz bruxuleante que talvez fosse a de uma vela. viu uma paisagem subitamente alterada. Restou apenas o silêncio da noite: nenhum som de serra. e o motorista deu ré no caminhão até encostá-lo à grande escora de madeira em que se apoiava a casa do Sr. e em seguida voltou a se mover adiante.” “O senhor não encontraria conforto em casa. cansativa e monótona tarefa. percorreram as paredes internas trabalhando na argamassa entre os tijolos. o motorista apareceu para buscar seu caminhão. mais e mais. mas finalmente estava acabada. Faltava a mais perigosa etapa de todas. provocando um longo e troante estrondo. Tenho reumatismo. a céu aberto. “Chega dessa brincadeira. aos gritos. Não mais. Com pregos. o desencorajou e repreendeu – muito longe dali. Thomas. agora ouvia claramente um som de serra. Me deixe sair que não conto nada.

feito um senhor de cartola. O homem falou: “Desculpe.” “Desculpe”. Enrolava-se num cobertor cinzento salpicado de farelos. respondeu o caminhoneiro. mas o senhor tem que admitir: é engraçado”. a coisa mais parecida com uma casa naquela desolação de tijolos quebrados. Sr.o caminhão para verificar o estrago na traseira e descobriu ali uma corda que. esforçando-se heroicamente. Thomas. Soltou um lamento alto. Thomas saiu do banheiro. disse. quando lembrou do súbito tranco no caminhão. dava a volta em parte de uma viga. Nada pessoal. de pé. falou o caminhoneiro. na outra ponta. Thomas. mas. não sobra nada – nadinha. Uma hora a casa estava lá. Não consigo me conter. “Como se atreve a rir?”. . Minha casa. O Sr. do estrondo dos tijolos que despencavam. “Era minha casa. voltou a se sacudir de riso. e aí catabum. “Cadê minha casa?” “E eu é que sei?”. Não tinha sobrado nada em parte alguma. toda digna no meio do local dos bombardeios. Os gritos vinham da construção de madeira. disse o Sr. “Minha casa”. O caminhoneiro novamente percebeu alguém chamando. O homem escalou a parede derrubada e destrancou a porta. Pôs os olhos nos escombros de uma banheira e no que antes fora uma cômoda e começou a rir.

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