Tadeu Sarmento

Carta a meu pai

1

É sempre que nos vemos. (Não, não sempre:) Sempre aos domingos, quero dizer. Ele é pontual como uma equação algébrica, frio como uma – uma apendicite estrangulada entre dois relógios de ciática velocíssima, inflamatória. Toda vez que chega – atabalhoado, os bolsos arrepanhados em estardalhaço metálico com suas moedas e chaves e cédulas gastas e isqueiro zipo e celular transparente e maço de cigarros retinindo feito guizo – olho para ele e fico me perguntando se o que fiz realmente foi um filho ou um Cartum, visto ser sempre em velocidade alucinada de personagem de desenho animado (o que a Tartaruga disse mesmo a Aquiles?) que abre a porta da cozinha – ele tem suas chaves, deixei que ficassem consigo –, me beija – sem estalar, e não sem certo nojo da minha barba gigantesca, repleta de nós cerdosos –, correndo em seguida para a pia, para lavar os pratos, todos os pratos, sempre sujos. É de deixar qualquer um atônito, sem jeito (seus movimentos são rápidos como a velocimetria dos de canais de TV sendo zapeados), quando resolvo ir à cozinha e dizer: se for para vir só lavar os pratos, não precisa. Mas ele não responde, e continua a lavá-los: gordo Pantagruel das louças. Às vezes me olha de través quando digo isso, feito me visse por um retrovisor, o pescoço de borracha uma geringonça girando flexível, circular, como se reprovando o fato de eu não ligar muito para o asseio da cozinha, da casa, dos pratos sempre sujos, mas é só. Seu silêncio inicial é constrangedor, como um daqueles lapsos momentâneos de som nos mictórios públicos masculinos: zzzzzzzzzzzzzzz. Eu nunca sei o que ele quer de mim, de fato, nesses domingos. E talvez não saiba porque nunca tenha pensado sobre isso, ou urinado ao seu lado, quando decido voltar para a sala, para ler o meu jornal (quem sabe hoje não encontro erros ortográficos nele) sossegado, o deixando lá em seu ofício esquisito, habitual, musicalíssimo (pratos e talheres sendo lavados erguem no ar uma partitura sinfônica bizarra, gramatical, bem no meio de nosso silêncio costumeiro, de domingo).

Confesso: a comparação de meu filho com um Cartum não é minha, mas de Seu Cavalcanti, nosso qualificado (e chegado, como nenhum outro, em clímaces retóricos de farsa dramática) vigia de condomínio. “Esse seu filho pisca-pisca. Parece aquele pisca. Lobo coiote do piscapisca-pisca. Desenho animado lá pisca. Do lugar onde pisca-pisca. Caxete é comprimido piscapisca-pisca-pisca-ponto”, disse ele certa vez. Seu Cavalcanti, o de olhos tristes de doninha, o de

2

cabelo ralo parecendo pelo de bode castanho, o das grandes e bondosas patas de dedos de metacarpos alongados sempre coçando algum lugar (seu uredo escuro) na medida em que trepidam as abas de suas orelhas flácidas de asno feito quisessem aspergir polvilho sobre pratos. Certo. Descendente direto de uma numerosa família nordestina que aqui chegou em 1846 arrastando os folhos no chão para trabalhar na sinistra e ambiciosa construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, também conhecida como Ferrovia do Diabo, vestia uma camisa com a frase Sabedoria Prudência Moderação quando disse: “morreram ponto quase todos pisca”. E é assim que ele costuma sempre dizer, como se constantemente lhe coçasse o hioide em forma de ferradura, histriônico e ridículo como se dirigido pelo Person em um teleteatro da extinta Tupi: “não só familiares meus pisca. Mas mais de pisca-pisca. Mil trabalhadores pisca. Aquilo lá pisca-pisca-pisca. Foi uma tragédia pisca ponto”. Então desanda em seguida a falar dos seus mortos, de todos os seus familiares mortos que (segundo ele) costumam assombrá-lo de noite, uma penca infernal de fantasmas mizocéfalos desesperados, que sempre se manifestam (ainda segundo ele) sob as ordens de um picaresco Controle que só se comunica em norreno; espécie de maestro nórdico a reger a horda de fantasmas desesperados, e desesperados porque sem descanso, sem sossego, sobretudo seu velho pai, um cearense de crânio ucraniano que se tornou alcoólatra logo depois do lançamento do Marafo Zé do Caixão, aguardente que lhe valeu várias cicatrizes fibrosas e a dolorosa cirrose hepática que o matou, matou seu velho pai, na época Auxiliar de Serviços Gerais da Shiting and Walking Comunicação Dirigida, pai que sempre que bêbado tinha por hábito saudável espancar seu pobre filho (este mesmo), cujo sistema sonoro composto de frases entrecortadas e um cacoete nos olhos era uma espécie de herança nervosa das surras paternas, quando: “Tão rápido quanto pisca-pisca. O lobo coiote pisca. É esse seu filho ponto”.

Filho que, segundos depois de chegar e lavar os pratos, lá está agora na sala comigo, em aparente calma, mais uma vez pontualíssimo, certo, o trabalho terminado rápido, com espuma de sabão esbranquiçada borbulhando no hiato estratigráfico dos dedos magros feito salivassem ossudos, curvos, flexíveis. Então se senta ao meu lado e, o perfil guenzo, esquálido, soturno, o

3

semblante de quem exige uma reparação imediata, total, pergunta: quando é que você vai mandar consertar essa televisão, pai?

Como (Ele é tão previsível, sempre falsificando sua verdadeira intenção com a embalagem plástica de um ato mecânico, cotidiano)? Os olhos dois semáforos mortos, apagados, tediosos – talvez entediados – neles por ora nenhuma expressão de vida, negros, imóveis, reparadores, dois cus tímidos piscando no instante em que sentou ao meu lado e me fez a pergunta, a língua um músculo sempre adiantado para me reprovar, a pergunta óbvia de sempre em sua ponta a lhe continuar os movimentos oblongos, mastigados, urticários, articulados, pergunta a qual já tive tempo o suficiente para encenar uma resposta, para pensar acerca dela, caso achasse necessário respondê-la, refleti-la, esclarecê-lo, mas, não. Decido sempre deixá-la (a pergunta) estalando no ar articulada sem nenhuma resposta que a satisfaça, meu silêncio minha melhor moeda de troca, silêncio que só aumenta sua curiosidade, seu sentimento de zelo para comigo, embora eu não consiga enxergar ainda os seus motivos, suas razões, afinal de contas, eu sou seu pai e ele meu filho, não o contrário, e não o contrário, eu penso, enquanto o observo ali ao meu lado, não, não está nervoso, ou com medo de mim, aliás, nunca nele esse temor natural que os filhos sentem em relação aos pais se manifestou, está apenas esperando uma resposta que julga necessária, merda, sereno até (Sócrates diante da cicuta), pálido, palidez de quem tem calma, as pálpebras repousas, fixas a meio mastro nos olhos, olhos que acabaram de avistar a TV desligada, coberta de poeira, com teias de aranha deslizando ao longo da urdidura de sua tela vazia feito terminações nervosas transparentes, trançadas, uma TV enorme, de setenta e duas polegadas, que comprei quando tinha motivos para comprá-la, para mandar Seu Cavalcante subir com ela as escadas, agora não mais, é o que tenho vontade de dizê-lo: não mais, filho, enquanto o observo passar os dedos (ainda espumando) em círculo vagarosos sobre o couro nodoso do sofá, como fósforos que se quisesse acender, riscar, queimar por meio do atrito, Seu Cavalcante na certa mais tarde sofrerá de cifose por ter carregado a TV até aqui, sim, o sofá está imundo, empoeirado, e daí, pensei, gorduroso até, cheio de ácaros, de marcas de suor, pedaços de unha, cotonetes usados, restos de comida, pelos pubianos & folhas impressas do jornal de ontem e

4

anteontem, rançoso, úmido e sebáceo como um prepúcio suando esmegma, mas, é meu, e eu (não sou o dono da porcaria da casa?) não ligo para isso. Para nada. Para porra nenhuma. Semana que vem mando consertar, respondi. (Resolvi responder, na tentativa de encerrar o assunto por ali, antes que avançasse mais). Semana que vem, semana que vem... A semana que vem é hoje pai, ele me disse, afiado feito um cortador de unha, as sobrancelhas negras formando um V acima de suas pestanas de arestas angulosas. Semana passada pelo menos era, concluiu, a espuma entre os dedos ainda um amálgama sendo desfeito aos poucos, em seus anéis de sabão, diluindo-se. Você por acaso é algum inspetor municipal da vigilância sanitária, pensei em perguntar, passou em algum concurso público recente para exercer esta função, pensei em concluir, desta forma o ferindo em seu orgulho ao insultá-lo, um riso malévolo impresso na face, mas, deixei quieto, barato, resumindo meu próximo movimento a um silêncio arenoso, largo, difícil, extensivo a nós dois. Era só o que me faltava: nesse mundo há gente para tudo, e ainda sobra um para tocar o acordeom de madrugada, disse para mim mesmo, como se subitamente ranzinza por ter sido despertado do meu sono por esse tipo de músico inconveniente, tão presente nos contos do Borges.

Não, não sou inspetor da vigilância sanitária, sou escritor, ele provavelmente responderia, enquanto que do meu lado eu ficaria pensando porquê não o mandei quando criança dançar nu sob a canícula durante o solstício de verão. Escritor? Tudo bem, então porque insiste tanto em reprovar meu pouco trato com a casa, com a minha casa, eu perguntaria... E não é esta a função do escritor, ver e ouvir tudo mais claramente do que o restante das pessoas, para alertá-las? Não, não é, a função do escritor é falsear a própria memória e a memória do seu tempo, eu responderia, não passa de um espelho deformando a realidade o escritor, eu concluiria, se quisesse realmente conduzir a discussão para esse campo, o das subversões, o das caricaturas, da inteligência calculista e artificialismo de frases e parágrafos escritos por alguém que acredita possuir uma espécie de mandato moral e artístico para isso, então... Só estou querendo te ajudar pai, olha o estado do teu apartamento, o fato do Afonso ter sido condenado a não sei quantos anos não te dá o direito de ser desleixado com o, droga, não deve ser lá muito saudável viver

5

aqui... Sim, nem um pouco saudável, a casa está imunda de fato, a máquina de lavar também quebrou sabia? Acho que há semanas. Agora a uso para jogar as roupas sujas lá dentro: cuecas com lastros amarelos de merda, calças enlameadas, meias encardidas, camisas polo com bolachas de chope suando na região das axilas. Depois vá até o banheiro. Veja por si só: todas as toalhas estão úmidas, tuberculosas, com cheiro de mofo, uma afronta ao seu bom-gosto e inteligência, o sanitário entupiu até, está fedido, azedo, com a tampa quebrada, a descarga não funciona (acho que a mola enferrujou devido às infiltrações), o ralo da pia está cheio de cabelos, pentelhos, baratas, pedaços de gengiva e vidro, e catarro, nossa, minha escova de dente não troco faz alguns meses, talvez um ano ou mais, as cerdas estão de um jeito que sangra minha gengiva toda vez que escovo os dentes, e os escovo todos os dias, apesar do que se me aparente meu sorriso torto. Cuspo nacos dela: veja, parece que tenho escorbuto, ou lepra, ou outra bizarra doença desta natureza. O Diabo mora nesses detalhes sórdidos, e quem a eles muito se prende tende a ir para o inferno. Sim, Inferno (é você Strindberg?), poderia conduzir esse meu filho inspetor cornetão concursado pela casa inteira. Seria o seu Virgílio, ele o poeta italiano defrontando-se com o vestíbulo do inferno. Eu (Virgílio) diria: o inferno é composto por oito círculos, veja: o Aqueronte é o sanitário entupido. É o início do primeiro círculo. O limbo é a sala, onde as almas que não escolheram Cristo na devida hora vivem em sua virtude silenciosa a imaginar a vida depois da morte. Sim, não há mais para elas a esperança de se ir ao céu, pois estas almas da sala, digo, do limbo, não viveram sob a fé em Cristo. Ou isso ou não foram batizados. Veja: Homero está em nossa sala. E assim como ele, Horácio. Agora o meu quarto, o segundo círculo e etecetera... Sim, olhe, olhe para o quarto do seu pai (aqui ficam os luxuriosos, eu poderia dizer, mas, não sei como esse meu filho carola interpretaria a notícia): os lençóis da cama empedraram de tão sujos, imundos, ensebados, assim como a cortina da sala, urinária, olhe para ela agora: gangrenosa, movimentando-se lutulenta – uma língua mofada. Sim, há mofo em tudo. Nos meus discos de vinil principalmente. Os discos... Espere um pouco.

(Meu celular toca, vibrando sobre a plataforma de vidro-que-se-parte-facilmente da mesa de madeira. Ele desliza: na direção dos meus dedos. Uma ligação a cobrar – é foda – do presídio

6

estadual, Afonso Epifânio, meu senhorio: ex-barítono, ex-piloto de avião, vulgo O Nariz Que Foi Chamado, preso por tráfico internacional de drogas; quer saber se estou cuidando bem das cinzas do menino, favor que me pediu dias antes de ser preso, não sei, as cinzas pertenciam ao antigo locatário do apartamento; cinzas as quais, segundo segredou-me Epifânio, correspondem a tudo o que sobrou da metade do corpo do filho precocemente falecido do locatário anterior que, antes de ser devidamente internado em um hospício, fez Epifânio jurar – em triestino – que cuidaria bem delas... Para quê? Sabe Deus).

“Certo, o aluguel já foi depositado ontem, sim, direto na conta e, é óbvio que felizmente o nosso apartamento está bem cuidado, porra, todas as tomadas funcionando graças a São Nikola Tesla e sua maravilhosa descoberta dos circuitos trifásicos, como? Não: disse : felizmente, felizmente e Tesla, que também é o nome da unidade de medida de densidade de fluxo magnético do sistema de distribuição de energia elétrica, pooorra, o quê? A sala? Sim, continua um cubo, faixa limítrofe entre vigília e sono, ou marco lógico do pesadelo ou, tudo bem, estamos aqui para recordar, construir memória, manifestar o Atavismo, tudo relacionado ao nosso grau de desordem e, não, não se preocupe, o caubói da Marlboro foi criado na década de 50 com o intuito de aumentar as vendas dos cigarros, mas: ele não existe, não, nem o Grande Irmão, nem o Rei Arthur, nem a Barbie ou o Monstro do Lago Ness, como? As cinzas estão bem, estão no mesmo pote de vidro e sobre o guarda-roupa de madeira do quarto e recomendam lembranças suas, certo, estou brincando, e não deveria brincar com isso, afinal, como? Deus te guie também, mas, caso você tenha habilitação: vá sozinho”. E desligo.

Muito bem... Quer ouvir uma música, pergunto, logo após finalizar a ligação e na mesma medida em que levanto do sofá, decidido a ouvir uma mesmo que ele não queira. Perguntaria novamente se soubesse que iria responder, embora não seja absolutamente necessário que o faça. Não, não persigo mais esse ideal. Nenhum. Levanto-me, apenas isso, e apenas porque desejo escutar música. Beatles. Afonso gostava dos Beatles, sempre cantando um ou outro refrão naquela sua voz de barítono arranhada pela cocaína, e nas vezes em que aparecia aqui em

7

casa nós sempre escutávamos o... Ah. Desde 1964 sou fã incondicional dos quatro fabulosos. E quem não era à época? Aprendi a tocar violão, inclusive, escutando suas músicas, tirando-as de ouvido (com cera e tudo). Deixei cabelo e barba crescer. A barba conservo grande até hoje – faz cócega na barriga. Só os cabelos que não. Caíram todos, como uma névoa dedilhada, ou dedilhando. Os discos também os tenho desde aquele tempo. São os únicos que não mofaram, os únicos que trato pelo menos uma vez por semana, limpando-os com um pano embebido em álcool. Quer ver? Está aqui. Vamos ouvir o Revolver?

(Dedilho minha coleção de discos em busca dos microssulcos sagrados do meu segundo Longplay preferido do quarteto de Liverpool. Tenho todos, afinal de contas, termino sempre sendo um materialista a despeito de mim mesmo. Na época em que estudava na faculdade de engenharia mecânica cheguei a montar um grupo para estudar as mensagens subliminares que diziam existir nas canções dos Beatles. Sou afeito à paranoia, assim como meu pai. Certo, nós realmente não tínhamos o que fazer. A ditadura militar engrossando seus velcros por aqui e nós, os escapistas, catando pelo em ovo. O problema é que curiosamente algumas das mensagens procediam de fato. Há um Álbum Branco em algum lugar? Pegue-o. Escute a faixa Revolution 9. Ouça: a música inicia-se com os ruídos de sons de sirenes, gemidos de crianças, grunhidos de porcos sendo castrados e rajadas de metralhadoras. Agora observe: no meio de toda essa panaceia sonora ouve-se a frase number nine number nine number nine number nine, entoada como um mantra. Muito bem: agora, com a ponta dos dedos, gire o disco ao contrário (backward masking)... O que você ouve? Turn me on dead man? Sim: excite-me homem morto, em boa tradução. Mas, não importa. Nunca gostei muito do Álbum Branco mesmo. Revolver é o meu segundo preferido. O primeiro? Ah, bem que os quatro fabulosos poderiam ter colocado o Paracelso na capa também... Além do quê, não acredito que aqueles quatro rapazes ingênuos incentivavam na época atitudes tão grotescas quanto a necrofilia, ainda que Lennon tenha se casado com quem se casou).

8

De fato ele não me respondeu se gostaria de ouvir o disco. Não importa. Talvez se lhe contasse essas estórias acerca das mensagens subliminares dos Beatles... Tampouco isso é importante também. Reconheço que seu silêncio é o melhor do que possui (isto sim é importante para a nossa compreensão) embora não o tenha herdado do pai. Nós quase não conversamos, e todos os domingos vêm sendo assim, Confusio Linguarum em silêncio, e desde que saiu de casa para morar sozinho, para, segundo ele mesmo diz: conseguir escrever o romance. A pergunta que me faço é se ele não poderia escrevê-lo aqui em casa, na casa que antes era sua. O seu quarto está aí até hoje: intacto e vivo. Uma memória imaculada de sua passagem por aqui: espécie de seta desenhando o vórtice de sua recente estadia. Tudo bem, a cama ainda está do jeito em que a deixou, quando a deixou pela primeira vez para, segundo ele: “buscar a beleza de que fala Aschenbach”. Sim: será que a achou então? Todos os objetos no mesmo exato lugar... Às vezes abro a porta do seu quarto apenas para me lembrar de que meu filho existe, e que existe um domingo no final de cada semana, e que é justamente neste dia que ele entrará pela porta da cozinha para fazer a sua visita, sempre regular, sempre habitual. A saudade que sinto dele é uma saudade curiosa, pontualíssima. Saudade de camareira de hotel. Sim, por que isto aqui é um hotel para ele, é como se fosse um. Mas um hotel em que o hóspede se preocupe com o asseio do estabelecimento. Uma verdadeira disfunção da hotelaria moderna, ainda que o gerente, que sou eu, não ligue muito para as novas terminologias administrativas. Se ele quer se preocupar com isso ele que se preocupe. Não estou aqui para sondar-lhe os anseios secretos, dominicais. Curioso é que não sinto estas suas visitas como uma obrigação para ele, muito menos para mim. Sequer partiu de nós a ideia de acordarmos o domingo como o dia em que nos veríamos. Não. Aconteceu assim, simplesmente, assim como acontece o nascimento dos cogumelos na merda. Nada foi dito cuidadosamente, nenhum papel assinado, registrado em cartório. Nenhuma testemunha também, ou carta de intenções. Em uma quarta-feira ele se mudou, e já no domingo seguinte veio me visitar. Pronto. Não houve acordos sobre isso, sobre nada. Tampouco nenhuma reunião. Tanto me parece natural que ele venha aos domingos quanto para ele a mesma naturalidade se apresenta factual: em seus gestos, mal formulados, em seu silêncio, regular. Isso

9

para não falar de seus questionamentos, sempre despropositados, porém sempre naturais (para ele, pelo menos).

One two three four one two three four Fiquei duas horas na fila para conseguir este disco. Uma fila imensa, ruidosa, repleta de cabeludos, que dava nós no quarteirão, e enquanto observava todos aqueles homens de cabelos longos e filamentosos eu pensava, certo, sobre a franca crítica de Platão ao homossexualismo. Quer dizer: Genet, Proust, Freddie Mercury, todos condenados pelo De Ombros Largos e naquela tarde eu ainda não havia deixado o cabelo crescer, porra, e pensava nas relações sexuais como a favor ou contra natura. Muito bem. Os cabeludos chegavam em matilha, fedorentos, suados, estacionando suas Vespas ruidosas e magras Marinetes e Berlinetas singelas onde desse. E sempre dava, e desciam como descem os dançarinos com pulga na cueca ao som da Pata-Pata quando toca. Ah. E como os discos estrangeiros demoravam em chegar por aqui. Mesmo os discos dos Beatles, que na época de seus lançamentos vendiam como água, demoravam. Disco comprado, corri à casa de Zé Bodinho, dentre meus amigos, o único que tinha um violão. Bodinho, O Intemerato, também era um fã dos Beatles, um beatlemaníaco, por assim dizer, embora gostasse mesmo do Rei Roberto Carlos. Em seu quarto desarrumado, capas de revista e de vinis estampando fotos do Rei da Jovem Guarda forravam quase todas as paredes. Aquilo beirava à obsessão. Só do Louco Por Você ele tinha (reconheço o cacófato) quatro, sabe, aquela coisa do primeiro disco do Carlos e tal. O restante? Bem, ele comprava sempre três Lps do Rei: um para escutar, outro para usar a capa como quadro, e o terceiro para não dar a mínima. Veja só este exemplo: na escola, espalhou para todo o mundo que havia tirado uma foto com o Rei. Ele, o Zé Bodinho, disse isso. Mas ninguém nunca acreditou nele porque só falava e falava e falava, mas nunca mostrava a porra da foto. Amanhã eu trago, então vocês vão ver só. E não trazia nunca. Sabíamos da foto apenas saída de sua boca. Quando eu aparecia em sua casa e perguntava por ela, ele desconversava, dizendo que ainda não era o momento certo de mostrá-la. Imagine só: o quarto forrado de fotos do Rei, o quarto repleto de tranqueiras – números espalhados da Flying Saucer Review, das Cartas-símbolo de Zener, revistas como Globo

10

Juvenil, O Guri, O Mirim, jogadas pelos cantos, amontoadas ao lado de quadrinhos do Mandrake, do Príncipe Valente; Flash Godon e Buck Rogers ao lado das incríveis Coleções King e de pilhas e mais pilhas da National Geographic e da Informe-Ufo, enfim, (os livros de ocultismo e do Ernst Kreuder escondidos debaixo da cama) ... Já contei como o conheci? Eu estava dentro de um ônibus, vazio, voltava da escola para casa, já era noite, começo da noite quando vi na rua quatro garotos lutando contra dois, a dança: socos no ar musicais cortando rápidos a brisa, às vezes pegando em cheio nas faces (aquele eco arenoso que fica em seguida) nossa, não importa, aquilo me injuriou, me revolveu o estômago, achei uma covardia, uma sacanagem, o ônibus parado no sinal vermelho, relaxe: pedi para o motorista abrir a porta, narrativa clássica: desci – tropeçando na pirâmide geométrica de minhas próprias pernas, você sabe, adolescentes são todos desconjuntados realmente – entrando na briga de supetão, e já batendo, e já o sangue quente, nervoso, sentindo o grande corpo de aço em expansão, as veias da garganta pulsando dilatadas, espessas, os olhos compactos fixos em todos e os de todos fixos compactos em você, ou seja, cheguei distribuindo cacete pelos poros, sem nem perguntar o porquê de nada, afinal de contas, aquilo lá era uma briga, não um congresso de psicanalistas, sim, tomei o partido do lado mais fraco, é óbvio, agora eram quatro contra três (o gosto da violência deixa um salgado agridoce nas papilas), sete se somados varados em escala gradual por uma violência gratuita, juvenil, exatamente como naquela música do Rei, quarta faixa daquele disco Roberto Carlos Canta Para a Juventude, ah, Lili & seus ângulos ímpares, mas, enfim, não importa, a juventude era aquela então, toda aquela virilidade mal formulada, todo aquele simulacro, no qual cai de boca, vertiginoso como um trem desgovernado, chegando, de fato, para equilibrar a situação um pouco, aumentar o peso do lado mais leve da balança, na certa inspirado na época pelo A Sina do Aventureiro, que eu havia assistido dois anos antes no Cine Tangará, em Santo André, porra, e bati para valer mesmo, para foder, apanhei muito também, fiquei com um olho roxo, com os lábios inchados, além de um talho no sulco da testa do tamanho de um zíper, quer dizer, quase do tamanho de uma diácope feita para retirar um cérebro inteiro da abóbada craniana com o auxílio de um trépano, e não saberia dizer quanto tempo durou a peleja, o baile do pau comendo no couro, só sei que em determinado momento

11

juntou mais gente e nos separaram, não, nada de brigas aqui, disseram (os adultos sempre estragando nossa festa) cada grupo para o seu lado: fomos andando. A certa altura da caminhada perguntei para um dos dois que andavam comigo: como começou a porra da briga? Ele me respondeu: não sei, pergunta para esse aí, completou, apontando com o queixo para o terceiro entre nós, entre nós o que mais havia se ferido, nossa, um corte em seu rosto feito por uma corrente de bicicleta sangrava como nunca, mas, o terceiro resolveu sair correndo deixando nossa pergunta sem resposta, no ar, estalando. Então você não sabe como começou a briga, perguntei novamente ao que ficou. Não sei, só sei que estava em um ônibus, vazio, indo para casa, quando vi na rua quatro garotos batendo em um, sim, naquele lá que correu, aquilo me injuriou, achei uma covardia, o ônibus parado no sinal, pedi para o motorista abrir a porta, desci, entrei na briga já batendo... E era o Zé Bodinho, e ficamos amigos, esse Bodinho... Já disse porque seu apelido era Zé Bodinho, perguntei, e seus olhos fitaram os meus daquele jeito morto, morno, liso e negro como uma melancolia impressa em gris, calado estando e calado se mantendo, assim mesmo, quase sem se mover, em uma espécie de reumatismo voluntário. É que quando éramos adolescentes nós roubávamos bode, sabe? Conhece bode? O macho da cabra. E roubávamos para comer, tomar com cachaça. E era sempre o Zé quem agarrava o bode. Eu dirigia o Jeep Willys, cujo rádio sempre tocava o Uliguli, entende? Para embalar o ferro. Bons tempos aqueles. Éramos uma verdadeira quadrilha saída direto das páginas do Ferec Mólnar. O Willys era do meu pai, teu avô. Não sei se você lembra bem dele. Quando morreu, você ainda era bem pequeno. O que me diz? Você gosta mesmo deste disco não gosta pai?

A Vera Mentira (que mulher: os cabelos longos e negros à Electra Assassina, os seios volumosos e suspensos como se fizessem uso de Bach e flutuassem) certa vez reclamou para mim sobre este tipo de atitude de meu filho: “ele é liso como um Gessy”, disse ela ao cruzar comigo no corredor, acho que há semanas. Somos vizinhos. Ela é jornalista, sócia de uma empresa de comunicação (a S&W Comunicação Dirigida) e, assim como Henriette de Inglaterra, tem pouco ou nenhum apreço pelos best-sellers da moda e seus ridículos heróis e ficção ligeira dirigida para as massas, em suma: ela detesta Dickens, o continuador da antiga

12

novela sensacionalista barata e inventor do moderno thriller. No entanto, ela confessou para mim que, na ocasião em que encontrou com meu filho por acaso, contara a ele sobre o ovo que ela guarda consigo desde 1986. Um ovo onde se lê escrita a frase: “Cristo vem aí”. Incrível, mas, segundo ela, o ovo foi colocado por uma galinha santa, a qual: “colocará em breve o décimo quarto ovo, como anúncio do fim dos tempos”. Certo. Cloaca-câmara-comum das dejeções santas. Um disparate, convenhamos, que pouco combina com seu gosto literário sofisticado e com o cargo que ocupa na Shiting and Walking; disparate que quando revelado para o meu filho fê-lo desenhar na face esta mesma expressão de indiferença que agora dirige para mim. O que fazer? É como se não fizesse questão de responder as perguntas que faço, como se não quisesse começar uma conversa, então me calo. Liso, assim como disse minha vizinha. Droga, não sabia que éramos tão estranhos assim um ao outro. Sempre pensei que os pais soubessem tudo de seus filhos, mas ei-lo: é um estranho para mim agora, e a cada domingo que vem parece ser outra pessoa, a cada domingo uma pessoa diferente entra pela porta da cozinha. Quando ainda morava aqui nada era desse jeito, assim, tão obscuro. Sequer me lembro se alguma vez reclamou do asseio da casa. Parecia não se importar com isso. Com nada. Seu quarto era arrumado e isso parecia lhe bastar. E nós conversávamos bastante, eu lembro, e ele também gostava de falar sobre tudo, assim como seu pai. Hoje, quando chega, quase não fala nada, ao menos no início, como se chegasse aqui tartamudeando e aos poucos fosse reaprendendo a falar alto e claro. Então falo eu enquanto isso. E fico falando e falando e falando sem parar na tentativa de despertar seu interesse, mas ele é quase nulo, quase zero, inexistente. Então permanece exatamente nessa posição em que está: ao meu lado, quieto, visivelmente incomodado, na prática é como se fosse desprovido de qualidades humanas, a exemplo da curiosidade, que nele não parece se manifestar de nenhuma forma. Sequer teve curiosidade de saber mais acerca do ovo da Vera, mesmo que com a inscrição sagrada e tudo. Parece mais estar sempre em posição de defesa, esta é a verdade, protegido por uma zona escura, extrema, silenciosa, que o mantém sempre assim: distante, frio, sem forma definitiva. Parece a todo o momento fazer associações que desconheço, entre as coisas que falo e os objetos que nos cercam: seu conhecimento. Um estranho, realmente, deslocado, pensativo, quem sabe pensando

13

em seu romance, não sei ao certo, pode ser isso. Mas pode também seu romance ser apenas uma desculpa para se manter assim, tão alheio a tudo, tão falso, quem sabe amedrontado, com o quê não faço ideia. Acho que não existe romance nenhum, sim, é isto o que acho. O que existe é essa sua animosidade em relação ao seu pai, sustentada por uma falsa preocupação com a higiene da casa, apenas isso. Esta é a tessitura de sua invenção, a máscara que encobre o seu recente pedantismo, feito fosse um escritor realmente, e um já publicado, imagine, com uma coleção de ótimas críticas a respeito de seu último trabalho, o qual alguns críticos qualificaram como “mamute bizarro”, ou “Ulisses excêntrico da pós-modernidade”, mas, não importa, já que ao lado de cada adjetivo desses viria sempre impressa a palavra gênio. Quando ele se transformou em gênio é coisa que não sei. Quando começou a ser assim? Ele olha ao redor de tudo e é como se não me enxergasse, como se estudasse, refletisse, fotografasse algo que está além de mim, de nós, desta sala onde estamos e onde impera a imundície. Mas como dizer a ele que não me importo nem um pouco com isso? Com a sujeira, quero dizer. Quero dizer: nada mais faz sentido, nada mais faz tanto sentido assim no mundo, então, porque será que ele se importa tanto com tudo? Não sei ao certo. Talvez importe a ele, como eu disse, algo que nem mesmo seu pai saiba ainda o quê, e não saiba porque seu filho, de repente, tornou-se um estranho para ele.

“Não Isaque, agora não posso, estou aqui com o meu, certo, há dias e dias, e não é afinal de contas nenhum fim do mundo sua filha não ter ganhado o concurso estadual da Rainha do Peladão, tudo bem cacete, olha, sei que seu sobrenome é Montalban, e que sua família descende em linha direta de Rosaura de Montalban, Ok, mulher de extraordinária beleza que desfez lares e arruinou fortunas inteiras na Florença do século XVI e a b c d tralalás, nossa, sei também que foi denunciada na época como bruxa, sendo sempre absolvida porque seu sorriso enfeitiçava os juízes, porra, sei essa estória de cor e salteado, mas, o que isso tem a ver com o, droga, não, respira, respira, agora: acontece que, veja bem, não acredite tanto assim no GPS de sua, ah, mas a probabilidade é que um raio não caia duas vezes no mesmo, não, não estou dizendo que sua filha é feia, longe disso, aliás, tudo na vida é estratégia de sedução, o problema todo é que,

14

entenda, isso é ciência: dentro da elipse histórica a tuba às vezes precisa ser sacodida para tirar o cuspe de suas válvulas, será que você, não, discordo, Michelangelo não passava de um pagão lutando contra os mistérios do cristianismo, quer dizer, a questão toda se resume ao ciclo de afrescos de Giotto na Cappella dell‟Arena, você, tudo bem: outro abraço”. O quê?

Perguntei se posso fumar, pai. Ah. Claro que sim meu filho, respondo, e ele já está com um cigarro entre os dedos (a espuma agora totalmente desfeita) magros, que o seguram cilíndrico e sem filtro, pronto para acendê-lo, feito juntos compusessem uma pata cabeluda de caranguejo pronta para manuseá-lo: um alicate de ossos. E ele acende seu cigarro murmurando entre os dentes quase perfeitos o nome: Montalban, Montalban, feito quisesse decorá-lo. Para quê? Não faço ideia, e não é por que parei de fumar que não possa mais ver ninguém fumando na minha frente, não, não, não sou esse tipo chato de ex-fumante. E olha que, em geral, ex-fumante é bem pior que ex-espírita convertido a qualquer igreja evangélica dessas. Tive um problema de pressão, e precisei parar de fumar. Apenas isso. Quando fumava, meus pés inchavam como se sofressem de elefantíase. Horrível. Uma intumescência volumosa, azul, meus dedos do pé encostavam-se como carros mal estacionados. Aquilo me assustou um pouco. No início foi duro parar de fumar. À noite, antes de dormir, esfregava cigarros por todo o meu rosto, enfiava-os nas narinas. Meus amigos evitavam fumar na minha frente quando saíamos juntos. Até que descobri o teatro e acabei de vez com essa bobagem, portanto: fique à vontade. E ele ficou. Quanto a mim, recordo que em todos os domingos é sempre a mesma pergunta, sempre, e sempre a mesma resposta diametralmente idêntica, sempre, então, fico pensando: porquê ele insiste tanto em me perguntar se pode acender um cigarro, se ele mesmo sabe que pode, e sabe porque já o disse N vezes N vezes N vezes N vezes. Deve haver alguma falha em algum ponto de nossa existência juntos, só pode ser isso, um rangido de disco qualquer, de frequência estática, talvez falemos dialetos diferentes agora, não sei, algo que nos desfavoreça a compreensão mútua é o que deve ter acontecido entre nós. Nossa, e pensar que somos pai e filho, pai e filho... A vida é dura demais para nós, é o que nos diz o Herr Doktor Alegria, sempre citado em paráfrase pelo Comandante que, ao lado de Dona Mácula, costuma com frequência

15

manobrar citações como ninguém: “Posso pendurar essa Comandante, pago próximo dia 15 sem falta”. “Não posso negar, posso? Sou um inibido, e minha inibição é o sintoma de algum processo patológico, e não apenas uma restrição normal de uma função”. “Certo. Dia 15 então?”...

Liguei para você várias vezes mas o celular só dava fora de área, disse meu filho de súbito, o cigarro queimando rápido entre seus dedos: um incêndio curto andando para trás. Troquei de número recentemente e esqueci de te falar, respondi. Mas para o restante você não esqueceu de falar não é? Que restante? Seus amigos esquisitos. Ah, mas não posso deixar de passar o número para o Isaque, e você sabe muito bem disso, afinal de contas, ele é meu fiador. Sei. E que fiador melhor do que ele eu arranjaria nos dias de hoje, diga para seu pai, ou será que você não sabe que Isaque é judeu, sionista ainda por cima? Sei sim, ele respondeu, tragando seu cigarro... Sim, olhe para ele, aprendeu a fumar comigo, tenho certeza disso. A sociabilidade burguesa transmitida: pedra do toque da custódia do segredo da iniciação. Ponto. Trocou de número de novo porquê pai, ele resmungou, a língua um slogan movendo-se como se escrevesse uma rubrica no ar, é ou não é um fato: veja o jeito com que fuma: os filhos aprendem tudo observando os pais. Somos os seus modelos, o futuro de seus gestos na temporalidade presente. Mas isto quando são pequenos, crianças. Isto quando ainda nos temem, quando a realidade ainda é para eles um fato novo. Depois que saem de casa, assim como este me saiu, ganham o mundo a partir de suas próprias experiências. São, por assim dizer, corrompidos pelo mundo, feito mulas que se coçam mutuamente. Desta forma, não me sinto nem um pouco culpado pelo jeito como está agora. Afetado. Não quero mais falar com ninguém de lá filho, cansei de ser xingado, por isso troquei de número de novo, respondi (omitindo a parte responsável de minha paranoica pesquisa com O Número), e veja como ele segura seu cigarro agora: o mindinho levantado e levemente descrito em curvatura. Parece fumar com nojo. Talvez seja um charme. Ou o sistema social reproduzido, buscando legitimação. Onde será que aprendeu a fumar desse jeito? Isto é o que acontece a quem assiste filmes norte-americanos. Por isso prefiro os expressionistas alemães, o cinema para mim começa e termina na figura do Conde Orlock

16

(Acredita-se que F.W. Murnau conheceu Max Schreck na O.G. – sociedade secreta germânica fundada em 1912 por Theodor Fritsch e Herman Pohl. Ao menos isso o que dizia meu pai). Aliás, essa afetação de meu filho é fruto de um jeito novo, recente, domingo passado não era dessa forma. Domingo passado ele não fumava assim, parecendo a Marlene Dietrich em um de seus ataques frequentes de melancolia. Mas pai, são teus filhos também, ele disse, você não pode simplesmente deixar de atender às suas ligações, ele completou, o cigarro entre os dedos uma ponte preênsil fraudulenta. Filhos não xingam o próprio pai, respondi, na voz um leve tom de amargura. Leve, não dosado. Começou a fumar aos dezessete anos, isto é certo. Pelo menos foi essa a época em que descobri que fumava. Achei um maço de cigarros dentro de sua gaveta. Não, não o inspecionava, tampouco era por causa do seu... Ah, achei por acaso (ainda que durante toda a minha infância tenha ouvido de meu pai a frase: O Acaso não existe). E não tive como reprová-lo, logo eu, que aos treze anos já fumava. O que também aprendi com meu pai. Já disse que aprendi a fumar com teu avô, perguntei, na tentativa de mudar o rumo do assunto, do assunto dos números, assunto este que tanto me aflige (A Pesquisa), tendo ele dito que sim com um plástico movimento ondulado de cabeça, um esgar esquálido de osga, previamente dosado, algo entre um teatro de marionetes, uma fanfarra, e uma prateleira de vidro caindo. Que seja. Estamos evoluindo, não importa, sigamos em frente: quando completei treze anos teu avô disse já que já é um homem então vai acender meu cachimbo e traz ele aqui depois. Eu obedeci, não havia outra solução. Tua avó ficou uma fera, bravíssima vai querer matar esse teu filho também, ela perguntou, os olhos queimando acesos uma irônica violência, a boca espumando silício, um movimento peristáltico engraçado no ventre (todas as vísceras concordes)... Como assim também, ele perguntou de súbito, e seus olhos antes mortos, apagados, tediosos – ou entediados – inexpressivos, negros, acenderam-se líquidos, vivos, curiosos, costurados por novos nós de luzes, um segundo de vida enfim, resvalando no zinco vítreo de suas retinas. Diante de tamanha manifestação de curiosidade, decidi continuar: não te falei do dia em que meu pai chegou bêbado em casa, disse rapidamente, como se quisesse agora catar as migalhas de sua atenção súbita, a língua serrilhada entre os caninos adiantando-se para dizer: tua avó tinha acabado de ter um filho, meu irmão caçula, que estava dormindo em um berço improvisado no meu quarto

17

sempre com a janela aberta berrou meu pai lá de dentro, completamente embriagado, o hálito de enxofre espargindo pela casa seus azedos por isso esses mosquitos que não deixam o bebê dormir em paz ele completou, nas mãos agora um inseticida, daqueles da Bayon, sabe, pesado, gordo, verde, inseticida com o qual aspergiria veneno para matá-los, o que conseguiu, mas não só a eles... E antes que você pergunte qualquer coisa me adianto em responder: aquilo foi uma fatalidade. O bebê morreu sufocado pelo veneno, a asfixia impressa nos lábios que azularam como os do frágil Tadzio. Uma triste fatalidade. Mas sua avó o perdoou. Mamãe, bela como uma corista, os olhos dois cinzéis azuis, tremeluzindo, ainda por cima católica. O perdoou. Mas não vá ficar pensando bobagens a respeito de papai, era um homem bom, um herói de guerra. Aliás, por que você nunca se interessou em saber dessas histórias sobre teu avô? Só fica me perguntando sobre o pai da tua mãe, que foi um grande homem, não há dúvidas quanto a isso, mas papai também foi um. Ele trabalhava na agência de correios e telégrafos, já te falei a respeito não foi, perguntei, ele soprando círculos ovalados de fumaça azul no ar, ai, como eu gostava de fazer isso, ainda se parece um pouco comigo esse meu filho, que quase não fala com o pai, embora eu insista, ainda. Além do mais: este seu interesse súbito me excitou, estes olhos ainda arregalados em minha direção, dilatados, quando lhe contei que... Nossa, como as pessoas gostam de ouvir estórias sobre fatos horríveis. Comentar um crime, assistir às imagens de um desastre aéreo pela TV. E em tempo real. Como elas gostam disso. Algo dessa natureza as deixam sob uma inquietação úmida, multiplicada. Está no espírito dos homens gostar dos detalhes de um crime, de um acidente, algo que os faça ir além da vil e decepcionante mecânica do cotidiano. Algo indecifrável. E como arregalam os olhos para ver, assim como esse meu filho, e como levantam bem as orelhas na intenção de não deixarem escapar nenhum detalhe, por menor que seja. Nenhum. Exatamente como meu filho faz agora. Talvez ele precise disso, de saber sobre coisas escabrosas, afinal de contas, é um homem comum, comum, não um gênio. Homem comum enfim, disse Burgess a respeito de Joyce. Um homem ordinário esse meu filho, desses que dariam sem pestanejar um dedo da mão para estar no local de um acidente de proporções catastróficas. Assim ele deve ser, quase não me restam dúvidas quanto a isso. Deve ser um desses homens comuns que necessitam do enigma, da mágica, de algo ainda intacto,

18

ainda intocável, para seguirem suportando suas vidinhas. Sim, talvez seu pai consiga dar o que queira, o que está me pedindo agora. Aliás, o que bem está merecendo. Mas não será a estória de um crime, ou de um acidente, mas alguma outra coisa. Algo que o mantenha assim, sempre nas rédeas curtas. Ah, look at all the lonely people

“Corto cabelo e pinto” diz o anúncio dos classificados. Não são apenas erros ortográficos o que procuro no jornal. Mas, deliciosos erros como este também. Nonsense. Wittgenstein, por exemplo, já provou por A mais B que uma sentença de sintaxe perfeita pode perfeitamente não fazer sentido... Sócrates tu corre e Sócrates corre não têm o mesmo sentido, e um monge foi enforcado por sustentar essa tese... Teu avô... Mamãe, inclusive, o conheceu na época da segunda grande guerra mundial, quando ele serviu ao exército brasileiro em uma das praias do litoral nordestino. Ele ficava lá, decifrando códigos morse secretos, entendeu, interceptando e decifrando mensagens de navios e submarinos inimigos, do Eixo, sabe? Um homem inteligentíssimo, esse teu avô, e Getúlio Vargas não passando de um baixinho esperto, de um aproveitador... Teu avô gostava de dizer que homem pequeno só serve para levar peido na cara e recado de rapariga, e isso quando se referia ao presidente da república, veja bem. O apoio do Brasil ao bloco aliado rendeu a Getúlio o financiamento para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e para o armamento do país. Não dava ponto sem nó, o fumador de charutos, o toco de amarrar cavalo. Aliou-se em função das vantagens que cada bloco de poder era capaz de lhe oferecer na ocasião. Um aproveitador, como disse. E papai decifrando os códigos, compenetrado, era um gênio nisso. Além do mais, seu caráter obsessivo, metódico, paranoico, facilitava seu trabalho. Ele gostava daquilo, essa é a verdade. Era um obcecado por números, palavras, labirintos algébricos e gramaticais, além de toda sorte de possibilidades de combinações e sincronias que pudesse interpretar durante seu ofício. Pesquisador autodidata da Cabala, não acreditava em coincidência, não senhor, antes em uma espécie de Destino Matemático que nos regia a todos. Lembro-me dele sempre dizendo: “a variedade de fenômenos heterogêneos do universo forma uma unidade essencial, pois Tudo é parte de um Um; um Um

19

governado por Leis Secretas indicando ligações ocultas entre fatos aparentemente não relacionados na superfície, e apenas os números e as letras são a Chave para se descobrir O Esquema do Universo, enfim... Deus é uma Equação com Três Incógnitas”. Nossa. Uma visão bastante particular, grotesca até, do mundo, era o que possuía. Um quase gnóstico: profundo conhecedor da doutrina dos Nominalistas, segundo a qual não existe ideias gerais, mas signos gerais. E era este Signo Geral Máximo o que ele tanto buscava. Acreditava na sincronicidade, e não apenas nela, mas em todo o Sistema de Valentinus, composto pela Verdade Oculta como Consorte do Mundo; crença que o levava a acreditar nas relações de significado entre certas coincidências – coincidências entre aspas – que acontecem a todo o instante, e quase simultaneamente, aqui e ali, pipocando em pequenas demonstrações da Divindade Oculta no cotidiano. Discípulo de Joseph Gikatila, acreditou desde o início que conhecer mamãe foi uma dessas (para ele) aparentes coincidências, e tudo por que: “En-sof lê a Árvore da direita para a esquerda, assim como o hebraico escrito”. Foi em um de seus dias de folga que a conheceu, imagine: descendente de ingleses, branca como a tecla de um piano, os cabelos ruivos descendo longos ao redor do pescoço como uma serpente magenta, que o negrão se apaixonou. Mas não foi apenas isso. Nada é tão simples assim como se imagina: “Coesão e fluxo, o natural como o planejado, assim como uma parte de Deus está exilada do próprio Deus”. Mamãe havia ido à praia para refletir. Estava noiva de um sujeito com o qual não sabia ao certo se queria realmente se casar. Estava, como hoje se diz, dando um tempo. Mas, imagine comigo: um mar daqueles pela frente, silencioso, desenhado de estanho, que não resistiu. Mergulhou. Quando voltava em direção à margem, notou que sua aliança havia se perdido nas águas. Ficou aflita, desesperada, e menos por ter perdido o anel de noivado e mais por enxergar naquilo um mau presságio. Sua avó, digamos assim, também tinha seus surtos paranoicos, surtos que a levavam a empregar sinistras técnicas respiratórias e determinadas posturas especiais do corpo. Merda, somos uma, por assim dizer, família afeita à paranoia, é isso. Então ela ficou algum tempo sentada na areia, quieta, pensativa, exercitando o terceiro estágio da Hatha-ioga cuja função era a de exercer controle sobre o plexo solar, dentro dela um engenho moendo dúvidas, no momento em que meu pai passou à sua frente, caminhando – uma árvore levada pela correnteza. Um negro alto do

20

caralho, mouro, digo a você: o último galho de uma árvore genealógica cujas raízes fincam-se lá trás, na raça dos pilhadores, imagine, uma raça como a daqueles piratas espanhóis do cinema norte-americano, exatamente, dos assassinos da bandeira negra, é o que quero dizer, para com isso afirmar que mamãe também se apaixonou, nossa, ele quebrou sua concentração ao passar por ela ruidoso e trotando, talvez mamãe nunca tivesse visto um homem daquela altura (mais de dois metros): a voz grossa de um cavalo gripado, rouco, o farfalhar da combinação de seus músculos leoninos uma cifra líquida a deslizar na tablatura, o olhar oblíquo e concupiscente, enfim, de cio de esterco queimando, os ombros largos, ossudos, extensos como uma encosta que foi aquilo mesmo que se esperava: amor à primeira vista. Conversaram muito, enquanto no rádio Oswaldo Aranha (com aquela sua voz de pato com cólicas sodomizado a domicílio) reiterava o rompimento das relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo do Mal. Seria até pouco romântico, mas, a beleza das praias de Natal favoreceu o encontro dos dois. Como se não bastasse, no meio da conversa mamãe retirou da bolsa um lenço – branco – para enxugar a testa (fazia calor). Um lenço unicolor bordado por sua mãe, minha avó, que fazia parte do enxoval do casamento. Na borda do lenço, estava escrito em linha vermelha: L & L, que nada mais era que as iniciais do nome de mamãe e de seu respectivo noivo. Quando olhou aquilo, tua avó pensou novamente na aliança que se perdera, bem como em seu casamento e no enxoval, todo pronto, todo bordado com as iniciais dos dois pombinhos. Não deu outra: começou a chorar, contando para papai tudo o que havia acontecido. Rapidamente (esperto que era e, já na época pesquisador do Número, pesquisa que lhe valeu um raciocínio assombrosamente veloz) ele disse para ela não se preocupar, pois o enxoval não se perderia. Você sabe não é, o nome de papai também começa com L, assim como o de mamãe e o do seu antigo noivo, que foi dispensado dias depois. Coincidência? Bem, eu estou aqui não estou? Fui concebido naquela mesma tarde, minha mãe deitada macia sobre a areia de uma das praias de Natal... L. não passava de uma apaixonada ouvinte cativa do programa Página Sonora na Voz de Ângela Maria, programa que escutava todas as noites, debruçada sobre seu Rádio com Olho Mágico feito de madeira e baquelita, enquanto ia chorando e tomando as maravilhosas Pílulas de Vida do Dr. Ross (que desciam não com as lágrimas, mas com um bom gole de Grapette)... Sim,

21

papai serviu em Natal nessa época, na chamada “esquina do continente”, ou: “esquina do atlântico”. O principal ponto estratégico no Brasil durante a segunda grande guerra. E para lá só iam os maiores, os grandes, os mais bem preparados, os fodões enfim, e entre eles teu avô, que chegou a interceptar (e decifrar uma) duas mensagens do próprio Hitler (aquele roncolho filho de uma anteversão, que botou o mundo pelo avesso só por que tinha um testículo a menos) em junho de 1942, tendo com isso alertado a tempo o governo brasileiro ao informar que o país seria alvo de uma blitzkrieg submarina. Ganhou uma medalha por isso. Guardo comigo até hoje, quer ver? Preciso ir ao banheiro pai. Claro, claro, ao banheiro.

“Você agora me colocou dentro da Batata da Formiga”, costuma dizer o Comandante (sempre ao lado de sua digníssima) toda vez que peço para ele pendurar a dolorosa no prego. Mas sempre termina cedendo, por isso continuo freguês (tem tanto tempo) do Panamérica Mercadinho & Miudezas. Ele é fã de esportes e psicanálise. Tanto que seu filho recém-nascido foi batizado com o nome de ESPN. ESPN Montana da Silva. O próximo se chamará Freud. Recordo que sempre que ia ao Panamérica meu filho me pedia para... Meu filho: ouço-o entrar no banheiro, tréc, trancando a porta como se fosse necessário. O que ele pensa? Que alguém irá entrar para assisti-lo enquanto mija, ou caga? Eu que não vou fazer isso, e só nós dois estamos aqui, não é mesmo? Não sei por que insiste tanto em desprezar aquilo que falo. Um desprezo sempre regular, ritmado. Acho que é importante para ele saber quem seu avô foi, e não apenas seu avô materno, o qual ele endeusa tanto, o qual ele tanto supervaloriza, e na mesma medida em que despreza e desvaloriza o meu pai. Engraçado isso. Vive me pedindo para lhe mostrar aquela foto do seu avô materno, parece que elegeu para si as únicas memórias que lhe interessam. Como se fosse possível algo dessa natureza: assumir a complexidade da seleção das lembranças, só que nunca ouvi falar em memória seletiva consciente. Nunca. O banheiro está silencioso, nenhum micromilímetro de som detectado. Nada. É como se não houvesse ninguém lá dentro. Ou houvesse, mas fosse um alguém que flutue, alguém cintilante, um espécime perfeito, fantasma, feito de vidro e pena. Talvez esteja com nojo do sanitário. É possível. Sou capaz de imaginar a expressão azedada de sua face. Está sujo, realmente. Realmente fedido,

22

abafado, um mormaço cedendo à pressão barométrica. Cague de cócoras, tenho vontade de gritar daqui, mas, não grito. Imóvel e sem definição, como um Ulrich. Mijar para ele não deve ser problema, com aquele troço descomunal que... Sim, isso lhe dá uma boa distância para... Talvez tenha observado o lixo, meu filho estúpido, o lixo entupido até a boca de papéis higiênicos melados de merda pendendo da borda como línguas-de-plástico-de-sogra. Melados de merda, imagine. E sangue. Não, nunca irei me operar das hemorroidas, não faz sentido isso. Permanecerei virgem e intacta. Além do mais, elas já estão comigo há bastante tempo. Aprendi a conviver com seus ataques sazonais, regulares, já previstos. Com seus humores. São como relógios trabalhando o implacável maquinismo de sua inconveniente precisão: sei a hora e o dia exato em que acordarão estupefatas e famintas, dentadas e loucas de vontade de tecer suas filandras sinistras. No entanto, prefiro conviver com elas a suportar o desconforto de uma operação como essas. Imagine, ficar cagando semanas a fio através de um mavioso e escorregadio tubo de borracha enfiado em seu intestino até que os pontos cicatrizem. Não deve ser lá muito simpático. É como ter um trampolim anexado às vísceras. Isso para não falar do constrangimento de se ter um homem mexendo em você, o tocando de um jeito espectral bem lá, no ponto secreto, enrugado, singelo, mimoso. Não. Nunca. Meu irmão teve essa coragem difícil, quem sabe a inclinação necessária para tanto. Foi constrangedor. Ele me disse que durante os exames pré-operatórios sempre pedia para segurar o pau do médico. Estranhei aquilo. Perguntei por que. Disse que era para ter certeza de que o médico estava lhe tocando apenas com o dedo. Uma questão de segurança, concluiu, paranoico, não sem antes dizer: vai que ele descobre o centro cerebral desse prazer específico... É possível não é? Não sei, não quero nem saber. Será que existem mulheres proctologistas? Talvez, mas, mesmo que haja, nunca farei a operação. Já estou velho demais para isso. Que deixem minha graciosa e hílare próstata em paz, bem como seus aposentos contíguos. Quero-os todos intocáveis. Além do mais, não deve existir muitas médicas com este tipo de especialização. Muitas mulheres gostam de dar o cu, é verdade, mas não de mexer neles. É preciso estômago para isso, além de certa maciez de pijama no espírito. Como está calado esse meu filho, no banheiro. Silencioso como um mau conselho. A mãe dele gostava de sexo anal. Revirava os olhos, gritava como uma húngara varada por

23

valorosos hussardos, Justine salivando mais que um bicarbonato de sódio. Mas era ingênua, tão ingênua quanto um espartilho. Demorei em convencê-la de que esta prática não engravidava ninguém. Imagine só uma coisa dessas. Nós namoramos por dois anos antes de nos casarmos, e só no segundo ano ela consentiu em fazê-lo, e isto depois da segurança que lhe deu o anel de noivado que lhe dei, afinal de contas, era seu desejo casar virgem. E quando digo virgem estou me referindo ao selo meloso que guarda o colágeno frontal das fêmeas. Falo da ruge cereja aqui. Do hipógino. Da peça floral da, enfim, vocês entenderam. Naquela época era a única garantia que importava. Hoje nem isso. Mas na bunda podia. Era a nossa primeira opção. Insisti muito, até que consentiu ceder, a bundeira. Mas ainda teve a pachorra de ir consultar-se com um médico à época para certificar-se de que não engravidaria. Saiu apavorada do consultório, os olhos espantados, perplexos, os dentes de gesso rangendo um uníssono ruído de serrilha. Perguntei o que acontecera. Disse que assim perguntara ao médico: doutor; corro o risco de ficar grávida se mantiver relações anais? Claro que sim minha filha, disse que assim respondera o médico, afinal de contas, como é que a senhora acha que nascem os advogados? Era um piadista, um pícaro, sem sombra de dúvida, mas essa piada me valeu o fechamento dos únicos ductos prazerosos possíveis à época. Agora meu amigo, só depois de casar, ela me disse.

“... ponto”. “Faz sentido. Você gosta mesmo desse desenho animado, não gosta? Não importa: concordo com você, afinal de contas, nosso imaginário moderno é construído hoje basicamente pela TV (nossa Hidra de Lerna, ou Górgona) e, além do mais: meu filho anda esquisito mesmo, e não é só você quem me diz isso, mas a Vera, o Carlos Branco, quer dizer, o Branco até me falou que há um personagem do seu livro (o Um Estranho em Benjamin Constant) que é parecido com ele, assim”... “... pisca-pisca”. Seu Cavalcanti (recordo) movia as mãos no ar agitadas, feito quisesse romper através da ficção dos gestos a elefantíase do projeto em que às vezes se torna para ele a (nem tão simples assim) simples arte de se comunicar.

24

“... pisca-pisca-ponto”. “Someone in Texas loves me. Aliás, não faça tempestade em um copo d‟água homem, merda, o que significa, no fim das contas, um fígado para o alcoólatra? Ou uma rolinha-na-mão-rolinhana-boca para o ornitólogo? Não estamos falando aqui sobre amputação de membros, estamos? Citei para você algum provérbio dos Cárpatos, por acaso?”. “... pisca-ponto”. “Então por que a cara feia? Maurice Blanchot guardava em seu quarto um molde de gesso de máscara mortuária mais bonito que essa sua...”. Uma careta de fato isósceles, os cílios frisados como se enfurecido, e aqueles dedos longos lá, coçando em ângulo reto o oleaginoso de seus pruridos. “... pisca-ponto”. “Shaggadélico. Fique absolutamente à vontade. Pelo menos os dedos foram inventados antes dos garfos, não é”?

Tréc tréc (será que emperrou ou é nervosismo?) e a porta se abre. Ele emerge do seu silêncio feito fosse presidir alguma inauguração, o ar solene, estralando os dedos móveis para demonstrar naturalidade, ou pouco caso, enfim: tranquilo ao sair. Não é nenhum advogado, tampouco ouvi qualquer música de câmara tocando no banheiro. Não quis pôr os morenos para nadar, escorregar na cerâmica, é o que gostaria de perguntá-lo, mas, é melhor não. Melhor mergulhar em meu mutismo áspero novamente, repleto de dúvidas, e me calar. Sim, tenho dúvidas a respeito do que foi fazer lá. Dúvidas: fecais e urinárias. Ontológicas. Cruciantes. Penso em Nietzsche escondido atrás de seu bigode cerrado (negro) ao afirmar: o espírito, senhores, é um estômago. Penso em Kurt Schwitters, que nos anos vinte do século passado chamava suas obras de Merz, enquanto as construía acumulando restos de lixo com urina e merda, Kurt Schwitters, para quem as imagens (assim como na Idade Média) cumpriam um dever pedagógico, Schwitters, que chegou a declarar: sabem vocês o que é a arte? Um pavilhão de merda, isto é que é a arte. Certo. Meu filho não tem espírito então? Não entende nada de arte? Não saberia dizer, sei apenas que ele agora para por instantes à minha frente, depois de

25

atravessado o umbral que liga banheiro e sala, as sobrancelhas grossas de zíper tocando-se, quem sabe um movimento declarando uma parte menor de si mesmo (a respiração presa armada sobre um telhado), uma que o esteja remoendo por dentro e crescendo cada vez mais, bifurcando-o, abrindo pouco a pouco todas as suas portas fechadas, sim, o vértice de suas vértebras sacras alargando-se. Talvez esteja querendo me dizer algo. Mas não diz, apenas o silêncio confuso e seus acordes gêmeos, com os Beatles ao fundo. Também não vou perguntar, traçar um painel de minhas dúvidas. Se o fizer, saberá que fiquei aqui quieto, calado, de cernelha imóvel, filosofando, as orelhas eriçadas tentando ouvir o que fazia lá dentro. E pouco me interessa saber também. Não sou como o James Joyce, que enxergava o extraordinário em todas as coisas que o cercavam, mesmo as mais ordinárias, não senhor. Tentei escutar sim, mas mais para afinar os ouvidos do que por curiosidade, um diapasão preso aos lóbulos. Queria me certificar de que ainda tenho um bom feixe de nervos óticos, apenas isso.

Rápido, não foi...

Merda, mas saiu sem querer, a língua sonolenta em seu espasmo peristáltico produziu a gafe. O que ele vai pensar agora? O quê pai, ele pergunta, ainda em pé, ainda diante de mim, meu filho meu duplo, entre nós nada menos que uma paralaxe solar decorada de espelhos. Não respondo, embora ele insista: o que foi rápido? O que foi rápido o quê, eu pergunto, para confundi-lo na própria distração da pergunta. Não sei, é o que estou perguntando a você, ele devolve, a voz lhe saindo como se de borracha, análoga à própria laringe transmissora dos seus acordes. E eu perguntando a você o mesmo (assim respondo) – sempre fui bom no jogo de damas, um perito em montagem eisensteiniana. Deixa para lá, ele diz, sentando-se ao meu lado (as garras separadas em toque-de-senha-de-recolher). É um escritor, definitivamente. Não um advogado. Talvez devesse continuar a história do seu avô, sei lá, mostrar a medalha que guardo até hoje, mas, é melhor não. Voltamos ao silêncio.

26

Dias depois (estou brincando) ele me pergunta: para quê você precisa de sete escovas de dente pai? Como? Achei a pergunta engraçada, graciosa até, por isso respondi: não preciso de sete, para mim basta uma apenas, aquela das cerdas duras. Sei, ele resmunga, reticência em contralto, tamborilando os dedos na coxa como se pensasse em algo. Poderia levar a brincadeira à exaustão, mas decidi dizer: você por acaso está se referindo àquelas seis escovas sobressalentes na farmacinha do banheiro? (Ah, o ângulo perfeito da bomba de gás lacrimogêneo, segundos antes de explodir no chão). Mas ele não me responde, utilizando-se do limite imposto por mim, por mim, ou seja: mordendo a isca, morrendo pela boca como uma truta lôbrega (daquelas descritas por Brautigan: bêbadas), afinal de contas, eu sou o seu pai, e já estou na castanha faz tempo, enquanto ele ainda refestela-se no caju. Agora é esperar que mordiscasse os próprios lóbulos... Mas ele não mordisca, talvez seja mais esperto do que o julguei há pouco, mantendo-se calado, insípido, quieto como uma verruga, uma tapeçaria guardada, pega outro cigarro do maço (com sua tímida e articulada pata peluda de caranguejo), o acende (o mindinho mais uma vez levemente curvado e elegante)... Decido conversar sobre outra coisa qualquer, para quebrar a tensão um pouco: filho, já te falei o que é uma bundeira...? Ele me olha de repente, de soslaio, aquele olhar estilo Sim-Magnífico-Reitor como tivesse um chapéu florido (com guizos enfeitando a aba, enfileirados em dezenas) sobre a cabeça e desdenhasse de mim, dizendo: sou o único que tem esse chapéu, quá quá quá. Na minha época – decido continuar assim mesmo, não dando a mínima importância para o seu chapéu florido com vinte guizos ou mais – bundeira era aquela menina, você deve saber não é, que fazia uso de outros canais de prazer, entende? Aquele mesmo (roxinho) em que você está pensando agora (orifício posterior das flores monopétalas), certo, aquele análogo ao dábliu que todo o homem persegue e pelo qual muitos morrem (alguns cedo demais, conheço vários). E era Bodinho quem sabia distinguir como ninguém uma boa bundeira em um grupo de até seis garotas. Inclusive esta, segundo ele, era a proporção esperada. Sua precisão era surpreendente. Bodinho possuía, digamos assim, um olhar clínico sobre o assunto. Como ele estabelecia a distinção não me pergunte, por que não sei. Talvez ele acreditasse, como Husserl, que os fenômenos devam ser (de fato) apreendidos na

27

medida em que são vivenciados pela consciência intuitiva. E seguia um modelo científico (segundo ele), esse Bodinho. Algo a ver com uma Entidade Física que habitava o interior de um sistema termodinâmico proposto, Entidade esta capaz de separar as moléculas de temperatura elevada e de maior velocidade das de menor temperatura e conseguinte velocidade reduzida. Isso causa uma diferença de temperatura perceptível a olho nu (ele dizendo), cuja medição leva a um aumento compensatório das chances de se distinguir uma boa bundeira em um grupo de até seis garotas, tudo através da queda de informação do modelo fotônico das demais, entendeu? Não? Pouco importa. Não vamos enveredar por este campo, não é, de fato hermético até o talo. Além do mais, esse método era segredo dele, de ele mesmo, que dizia: não gosto de espelho nem de boceta porque multiplicam o número de homens. Ah. Uma máxima digna de nota, você não acha? E esse era o Zé Bodinho, o meu amigo Bodinho, a língua sempre esmerilhada em suas conclusões científicas, metafísicas, filosóficas, um demônio inteligentíssimo trajando camisas Volta-ao-mundo, sempre alerta quando avistando um grupo de gazelas em círculo conversando amenidades (gazelas enfiadas em vestidos de organdi recendendo a Acqua Velva e English Lavanda Atkinsons, todas ruidosas, ruidosas, serpenteando rápidas o afilado dos pescoços, todas viciadas em Postafen, todas matracando para todos os lados com suas meias soquete brancas quadripack minguando para o amarelo). E graças a ele teu pai sempre arranjava uma boa bundeira para engarrafar. (Não, não, nenhum sorriso, talvez não conheça a piada). Entendeu, não foi? Não? Engarrafar, filho, engarrafar... (Talvez se lhe dissesse que sua mãe outrora também foi uma excelente bundeira... Não, é melhor não, determinadas coisas não se deve dizer a um filho).

E quanto à foto pai, ele perguntou, a pergunta na certa engatilhada desde há muito, não importa, finalmente saindo do seu mutismo áspero, cerdoso, de gelo, as palavras movendo-se rápidas, melífluas, como alisassem meias, suassem sal, leves e agradáveis como se conduzidas em um coma sedoso de aerodinâmico halo vibracional, deslizando, deslizando, deslizando, que foto, perguntei, feliz que estava por seu interesse súbito, sempre irregular, porém sempre bem-vindo, quando: está vendo, é por isso pai, não tem como conversar contigo. Como assim não tem

28

como? Você acabou de me falar da foto, droga, agora me pergunta qual, parece que não consegue mais segurar o fio da meada de nenhuma conversa, de nenhuma narrativa, está ficando velho pai, ele disse, quatro rolos de vapor continuando-lhe a língua (acabara de expelir a fumaça do cigarro), a língua bailarina agora mais uma vez com navalhas nas sapatilhas, emergindo da fumaça a riscar o ar na intenção de me ferir. Mas antes nós não falávamos do teu avô? Não, não, está vendo só, antes nós estávamos falando sobre as seis escovas sobressalentes na (era isso, inteligente esse meu filho, filho da mãe, conseguiu voltar à questão das escovas sem que se percebesse sua intenção e curiosidade, mas eu percebi), ah, as escovas, mas elas estão lá (sou horrível, quando quero). E de quem são (não aguentou não foi?)? De algumas amigas minhas. Seis amigas, para ser mais exato, uma para cada escova. Elas dormem aqui? Está com ciúmes filho? Que ciúmes pai, ficou louco, ele respondeu, meio desconcertado, trêmulo, talvez percebendo o círculo que fiz para abocanhá-lo no exato epicentro onde agora estava, para aonde o empurrei, e onde eu mesmo me encontrava, aguardando as primeiras ondas sísmicas chegarem, assim como chegaram.

“... pisca-pisca-ponto”. “SPFW é o puteiro dos ricos. Tenho o direito de ter um só para mim, não tenho? Ronaldo não sai da MODA, nem eu. Gozo de popularidade não gozo? E não precisa derramar lágrimas... Não, estes são os nomes de minhas amigas, vou deixá-los anotados aí na portaria, sabe como é: norma de segurança do condomínio”. “... pisca”. “Tudo dentro da agradável piscina do clube: Mirtes, Íole, Agriônia, Laódice Cospingole, Úrsula e, finalmente: Pi”. Recordo Seu Cavalcanti neste dia em específico usando boné cinza da FVA debaixo do qual seus cabelos suados brilhavam. Um terçol no olho esquerdo completava o traje, produzindo um incômodo simbléfaro. “Pasífae se fantasiou de vaca para foder o touro, daí os chifres do Minotauro, que na verdade pertenciam ao rei Minos... E eu sou descendente de Wildgans Spitzer, o primeiro travesti – autor

29

do sucesso: Cristo ou Cristina? Aliás: todos aqui neste prédio descendem de alguma família secular: você, o Isaque, o...”. “... ponto”. “Você é esquisito. Meus casos estão a serviço da luta contra o princípio da monogamia, que nasceu junto da noção do conceito de propriedade, conceito este intensificado quando do advento do liberalismo. Ok?”. “... pisca-pisca”.

Ciúmes, onde já se viu um negócio desses, resmungou meio de lado meu filho (o que me devolveu à sua atenção) que, resmungando ainda mais baixo que seus resmungos habituais de domingo, produziu ao final da frase um rãrrãrrã estranho, rouco, assim mesmo, como se lhe estivesse inflamada a garganta e uma meningite que amiúde lhe perdurasse monótona e sintomática no colo oleaginoso o fizesse soprar com sofreguidão lenta as palavras que ondulando juntas aos microrganismos insalubres através de duas anemias equidistantes chegassem até meus ouvidos atentos naquele tom monocórdio e franzino e aguado e michuruco e enfraquecido de resmungo, de muxoxo mesmo. Ponto. Um breve silêncio novamente, espaçado, sedimentando nossa distância, nosso pouco trato mútuo, nossa falta de tradução um do outro, quando lembrei (e de fato havia me esquecido, não havia dito de brincadeira, de forma alguma) a que foto ele estava se referindo: a foto do Zé Bodinho não é, para a qual ele afirmava ter posado ao lado do Rei, perguntei a ele de um jeito firme, a ele que agora mastigava os lábios nervoso um vertiginoso ruído de látex triscando, de córtex cerebral boiando deslocado em um colágeno. Então conseguiu recordar, ele disse, droga, ele: meu filho, meu filho porra, fazendo pouco do pai desse jeito, será que nunca imaginou que quando for ficando velho terá também estes lapsos de memória? (Uma sensação trágica, terrível, você mergulha lento em uma perda gradual das lembranças como quem mergulha na água de um rio negro, rio onde todas as filhas de Mnemosine, todas elas, morreram afogadas). É, recordei, respondi, a voz esmorecida, triste, timbrada em melancolia, porque isso realmente me magoou, o seu desdém, quero dizer, o seu pouco caso, estou colecionando mágoas a respeito do meu filho, mágoas, feridas, cicatrizes,

30

chego a anotá-las em um papel para não esquecê-las, um dia, quando a lista estiver cheia, vou lê-la para ele tim-tim por tim-tim, talvez nesse dia ele me diga então o porquê de todas elas, ou que razões ele teria para tratar o pai desse jeito, com tamanha animosidade. Além do mais: gosto de colecionar coisas, mesmo que seja uma coleção de mágoas e feridas e cicatrizes ocasionadas pelo meu próprio filho. Não importa. Trata-se de uma mania que herdei de meu pai. Erros ortográficos e de sentido em jornais impressos, por exemplo. Também adoro colecioná-los. Faço isso todos os dias, em honra a Wittgenstein. E Deleuze.

When I wake up early in the morning

“... Na certa ele deve ter lido o A Arte de Insultar”. “... Se comparado a William Gaddis não passará de um autodidata um pouco mais educado que o de costume”. “... A série de triunfos do canalha Dickens teve início com o As Aventuras do Sr. Pickwick, que em fascículos semanais caiu como uma luva em uma época de crises repleta de agitação revolucionária e desilusões e convulsões e...”. “... 040377, 150278, vamos, continue, está ficando divertido”. Lembro os cabelos soltos e negros de Electra Assassina, da camisa branca onde lia-se escrito Berlim; da dissimulada vergonha com que desviava o olhar do meu – como se me visse em nu frontal. “...A galinha é um símbolo, sabe, não dissociado do Sistema de Simpatias Ocultas e intimamente ligado à concepção hermética do Ovo do Filósofo Queimando na Água”. “... Pffff. E a S&W?”. “Atualmente estamos desenvolvendo um trabalho junto a um grupo de historiadores revisionistas, trabalho que colocará a dúvida como evidência no que se refere à data em que se deflagrou no Brasil a Revolução de 1964”. “Trinta e um de março ou primeiro de abril?”. “Trabalhamos com a hipótese de quem paga, que é a do primeiro de abril”.

31

“E quem está bancando a...”. “A Central”. “Nossa”.

Eles te xingam sempre quando ligam para você pai, perguntou meu filho, enfiando em seguida o cigarro entre os lábios, quando: quem, devolvi (perguntando), nossa pai, teus outros filhos... Ah sim, sempre, respondi, calando-me em seguida... E é como dizia Zé Bodinho: procrie com moderação, ou, melhor: não procrie nunca. Por isso era o rei das bundeiras, esse Bodinho. Não sei nem se está vivo ainda, faz anos perdi o contato com ele. Se estiver vivo, na certa deve ser um dos filiados daquele movimento, o Movimento de extinção humana voluntária. Talvez tenha sido até mesmo o seu idealizador. Sim, Bodinho era (ou é, ainda não sei ao certo) capaz de qualquer coisa. Recebi um folheto dessa organização semana passada. Uma ideologia bastante imaginativa, para dizer o mínimo: “somos um movimento, não uma instituição, um movimento do qual participam pessoas que se preocupam com a vida no planeta. Não somos um bando de misantropos, de malthusianos desajustados a se deliciar sempre que um desastre atinge proporções catastróficas. Nada poderia estar mais longe da verdade. Pelo contrário, acreditamos que a extinção humana voluntária é a única alternativa aos desastres humanos. Além do mais, não discorremos sobre como a raça humana mostrou ser um parasita ganancioso e amoral sobre a então saudável epiderme deste planeta. Esse tipo de negativismo não oferece solução aos inexoráveis horrores causados pela ação humana. Ao contrário disso, nós apresentamos uma alternativa animadora à fria exploração e à liquidação da ecologia terrestre. Como todos os voluntários bem o sabem, a única alternativa à extinção de milhões de espécies de plantas e animais terrestres é a extinção voluntária de uma espécie apenas: nós, os homo sapiens. Cada vez que alguém decide não acrescentar outro de nós aos bilhões que, continuando a se multiplicar, acabam ocupando este planeta de uma forma desordenada, um raio de luz brilha nas trevas. Quando cada ser humano escolher parar de procriar, a biosfera terrestre poderá voltar à sua primeira glória, que é aquela sob a qual todas as criaturas restantes serão livres para viver, morrer e evoluir (se é que cremos ainda na evolução, temos nossas dúvidas). Desta forma, a

32

ecologia terrestre terá sua boa saúde restaurada”. Nossa, eles bem que poderiam ter acrescentado neste final um efusivo “e viva as bundeiras”! Este folheto poderia muito bem ter sido escrito pelo Zé, não tenho dúvidas quanto a isso. Parece que o estou vendo agora à minha frente: os cabelos loiros, encaracolados, ondulando melífluos em cima da caixa óssea que encerra e protege o encéfalo (como um circunflexo), os olhos miúdos, pornográficos, exclamativos, a felpa tímida a lhe cobrir mínima e sedosa o pequeno par de orelhas pontudas de Dr. Spock enquanto dizia aquela ali é bundeira, tenho certeza. E acertava sempre. Nunca desperdiçou munição. Nenhuma vez. Na certa baseava-se em algum formulário-padrão ainda desconhecido por nós. E eu era o único que acreditava nele piamente. Acreditava-o uma espécie de profeta vestindo camisa Lunfor (sempre na quinta-feira), ou cuspindo (para lustrar) sobre seus sapatos Clark de Cromo uma saliva espessa, grossa, enquanto anotava com sua Parker 51 todas as setas cujos vértices somados indicariam as probabilidades de se conseguir uma boa bundeira neste ou naquele grupo. Os demais garotos que nos acompanhavam na empresa ainda guardavam alguns receios (nossa, como éramos ingênuos à época), ainda acreditavam, imagine, que poderiam engravidar a menina se lhes comessem a bunda, da mesma maneira que minha primeira esposa, quando namorávamos, acreditava, não adiantando em quase nada as aulas ministradas por Bodinho às vésperas de cada ataque (anal): mas não é possível seus idiotas, ou vocês acham que nossos espermatozoides são ciclistas ciclotímicos que irão esquecer-se do caminho e migrar do reto direto para as trompas de falópio? Incrível, parece que estou vendo neste exato instante os olhos arregalados (popas úmidas) daqueles garotos. Onde Zé Bodinho aprendia aquelas coisas nós nunca soubemos, mas discursava com tanto rasgo, com tanta convicção e propriedade (parecia um deputado federal, juro) que era difícil não acreditar nele (assim como é difícil não acreditar em deputados federais), ainda mais quando aproveitava para, na sequência, espanar toda e qualquer dúvida de nossas cabeças encaracoladas, confusas, de préadolescentes: também foder em pé não engravida, e isto tem a ver com a lei da gravidade de Newton seus porras, modus operandis, perceberam? Mas, se algum de vocês um dia comer uma mulher na vertical, o que eu acho difícil, quase impossível mesmo, por via das dúvidas é bom mandar lavar-se logo depois do uso, sim, não façam essas caras, e de preferência com sabão,

33

daqueles com nitroglicerina na fórmula, entenderam, lavar melhora, e se possível, mande-a dar uma mijadinha logo depois do banho, que o risco de ela emprenhar diminui... Agora, se mesmo depois de tomadas essas devidas providências vocês ainda estiverem receosos, com medo, enfim, fazendo caretas de espanto exatamente como agora, recomendo então um tiro na nuca da garota no espaço de três dias, que setenta e duas horas é o tempo em que os espermatozoides permanecem vivos e serelepes zanzando incógnitos pelo cálculo uterino cavernoso do corpo da mulher feito fossem donas de casa fofoqueiras passeando pelo shopping...

Já te contei de uma prima minha que acreditava (coitada) que se sentasse em uma cadeira ainda quente da bunda de outro garoto ela engravidaria, perguntei, como se mandasse um touro para assustar os cavalos e desequilibrar a biga sobre a qual meu filho se encontrava – e ainda pescando as reminiscências destes mitos antigos, imemoriais, completamente tapados e transmitidos de geração em geração através da língua negra do pânico, ele me olhando áspero como se seus olhos estivessem pendurados em pregos, hastes, fixos piscando, negros, sim, tantos mitos (a intenção de nossos pais era a de corrigir, amedrontando) : a masturbação afina o pênis, a voz, o nariz, deforma a boceta, as pernas, os dedos, dá espinhas no rosto, na laringe, nas costas, seca os testículos, os pulmões, descalcifica os ossos, causa estrabismo, aneurisma, murcha os músculos e emagrece, derruba os seios e deixa rouco, estoura as varizes e enlouquece, definha o corpo e corrói, estraga os nervos e espuma a boca, e entorta a língua e torce o palato, e entope os vasos sanguíneos e as artérias, fazendo crescer pelos na palma das mãos, dos pés, nossa: não lancem a semente sobre rochas e pedras, assim falava aos sábados o padre manco do Sagrado Vurmo... Sabia que a palavra “masturbação” (quero ver agora) vem do latim manus stuprare, que significa sujar com as mãos, e que por isso carrega esse significado tão negativo, tão maléfico, e que ainda por este mesmo motivo alguns psicólogos (sempre munidos de suas boas intenções florais cor de rosa) vêm tentando mudar o nome “masturbação” para “auto erotização”? Nada, nenhum movimento vindo dele, quieto como uma têmpora, imóvel, então continuei: hoje em dia vocês sabem (ou acreditam saber) de tudo, são bem informados, saudáveis, têm pais liberais, conta bancária conjunta, páginas no Orkut, TV digital

34

(de plasma), internet banda larga, relações normais antes do casamento, democracia, mas na minha época era difícil, muito difícil mesmo, nossos pais eram uns estúpidos quadrados elevados ao cubo quando o assunto era sexo – o hímen é a prova da virgindade, imagine, o selo, a garantia da honra sexual (nossa, na época eu tinha a leve impressão de que sobretudo a questão do hímen ocupava todas as discussões em todas as esferas da sociedade), a mulher tem menos prazer sexual do que os homens (esta afirmação falaciosa era o pilar, a base das discussões empreendidas pelas autoridades políticas, religiosas, profissionais, assim eu acreditava pelo menos, enquanto seguia a refletir à época que afirmar tamanha bobagem era de primordial importância para a manutenção da família e da honestidade sexual de todos) os advogados são concebidos durante o coito anal (isso aí talvez seja verdade), o sexo oral entre um homem e uma mulher indica tendências homossexuais que remontam à época de Laios, dentre outras bobagens, que hoje em dia já saíram de moda, mas na minha época eram muito frequentes, nos deixando com um nó danado nos neurônios. Por isso precisávamos de um libertador, entende, de um anarquista, de um maluco verborrágico (Antônio Conselheiro de calças curtas) como o Zé Bodinho, que com sua bufonaria chapliniana e erudição gnóstica nos abria o campo da imaginação em vez de nos mandar sublimar a atividade sexual através do cultivo da música e do esporte, sabe? Não, você não quer saber não é, já sabe de tudo, quer saber da foto, não é mesmo? A Ana sabe dessas tuas seis amigas pai, ele perguntou assim do nada, o cabelo em desalinho (começava a ventar na sala, o que nesta cidade – onde uma brisa qualquer por si só já é um fato estranho – é algo quase novo), como é invasivo esse meu filho, sem reservas, fazendo a pergunta como se seu pai tivesse a obrigação de respondê-la, como se estivesse depondo, sim, estou depondo então? Tudo bem, vou responder: não, ela não sabe, aliás, a Ana tem lá os seus problemas demais para ficar se prendendo a detalhes, você sabe não é, a mãe dela... Sei sim pai, ele respondeu. Pausa. Em todo o caso, ela nem precisa ficar sabendo não é, disse a ele em seguida, esboçando um sorriso cínico plastificado na borda dos meus lábios, retorcendo preênsil com a ponta suada dos dedos o meu bigode grisalho, fechado, amarelo na época em que eu fumava, como se a fumaça do cigarro expelida pelas minhas narinas o fosse enferrujando com o passar do tempo, o tingindo de gangrena, de urina, sim,

35

entendo, ela não precisa, ele respondeu, a voz lhe saindo como se com as palavras descalças, patinando, patinando, quando emendou: mas ela nunca contou as escovas da farmacinha, nunca percebeu isso? Não. E como não? Quando ela vem aqui em casa eu as escondo, respondi, cínico novamente e, como se fosse realmente preciso responder, completei: por via da dúvida sabe – os dedos ainda brincando enrolados no áspero monótono do meu bigode, um belo bigode, diga-se de passagem, bem fechado (para esconder os meus dentes podres, os únicos que me sobraram depois da leitura do Romance com Cocaína). Outra pausa. (Nos casos agudos de intoxicação pelo uso da cocaína, pode haver perfuração do septo nasal, quando a droga é aspirada ou friccionada nas narinas, além da queda dos dentes, quando a fricção se der nas gengivas, certo Afonso? Ou seja, na melhor das hipóteses: ficar praticamente banguela foi a única herança que a literatura me deixou, além desse meu filho que, assim se diz, é escritor).

“... Hora do Caratê Colombiano. Vamos cheirar essa antes do início do equinócio de outono. Já fez isso antes?”. “Arcturus. Só no final dos anos sessenta, junto com a turma do Os Diamantes”. “Cuidado: com uma fileira dessas o Kuala Lumpur entrou em uma de cortar o próprio pau fora. Paranoia”. “... Perpetuum mobile da existência”. “O verdadeiro elixir da vida criado por Epimênides”. Recordo Epifânio aspirando sua carreira assim como aspira o porco a cisticercose enquanto cantarolava White Rabbit com sua ex-voz de barítono. “... O melhor violão é o do Macalé em Transa”. “... Conheci uma dona que sempre tirava a roupa quando escutava essa música... Não: White Rabbit. O irmão dela era um Macareu filho da...”. “Acho que eu sei quem era”. “O irmão”? “Não, a...”. “O ser humano é ou não é a medida de todas as coisas”?

36

Ele volta a passar os dedos sobre o couro empoeirado do sofá, agora como se folheasse páginas (quem sabe a Vera não esteja certa, talvez sejam páginas do A Arte de Insultar), páginas, ou cavasse no barro: coveiro sonâmbulo trabalhando os dedos em um curso contínuo, automático, espécie de ideia fixa dentro de suas articulações. (Mas não era isso o que eu queria dizer: quando ela vem aqui em casa eu as escondo. A ideia era outra, era outro o plano. Diferente. Mas na maioria das vezes as palavras me saem assim, impensadas. Qual era o outro plano e a outra ideia é tudo aquilo o que não recordo agora. Sempre me foi difícil lembrar de dizer algo sobre o todo. O Agueiev conseguia fazê-lo, apesar da rinite crônica, da sinusite, da necrose...). E onde você as esconde, ele pergunta, certo, talvez esteja querendo jogar conversa fora, eu penso, respondendo: dentro dos sapatos. Dentro dos sapatos, ele devolve, perguntando. É, dentro dos sapatos, o único lugar onde não há perigo de ela achá-las, respondo, assistindo delinear-se uma expressão súbita de nojo no rosto do meu filho, como se acabasse de lamber a casca de um limão, ou um azedo cabo de guarda-chuva, muito afetado, não sei de quem ele puxou isso, na certa de sua mãe, que era louca e afetada como só ela era. E depois? Como assim: e depois? Depois que a Ana vai embora, pai. Muito simples: retiro as escovas do sapato e as coloco de volta na farmacinha. Pai, isso é muito pouco higiênico você não acha, ele pergunta, a expressão enojada cada vez mais nítida, mais larga: duas cascas de limão, dois cabos de guarda-chuva, um corrimão de escada de rodoviária, uma tampa de lata de fruta em conserva... Não tem problema filho, eu digo, como assim não tem problema, quer dizer que as outras escovam os dentes com a escova que você acabou de tirar dos sapatos, é isso? Filho, porque você se incomoda tanto com tudo, pergunto, mas ele não responde, apenas fica lá, enfiado em sua máscara de nojo, de aversão, repugnância, tão antipático, desde que se disse escritor ficou assim: antipático, cheio de não-me-toques, de dedos, como comprimisse estômago coração rins e vasos sanguíneos em um ataque palindrômico, merda, não sei dizer ao certo o quê, só acho que deveria levar a vida com mais leveza, porra, e não ficar apontando defeitos em tudo, em todos, em todos menos nele. Mas, é para isso que estou aqui, não é? Não quer saber da minha prima, perguntei, querendo mudar de assunto, traçando o espaço, a divisa, a linha pela qual nossa conversa teria que seguir, afinal de contas, sou seu pai, e a casa é minha, e as namoradas são minhas, e (ora vá à merda)

37

por acaso não sou eu quem as beija a boca logo depois de elas terem escovado os dentes com as escovas embebidas em chulé? E por falar nisso: eu não tenho chulé, nunca tive... Não, não quero, quero saber da foto. Vocês chegaram a ver essa foto que o Bodinho dizia ter? Rapaz, essa foto virou um mito na escola, respondi. Chegamos a até entrar, sem o conhecimento do Zé, em uma sociedade secreta onde se discutia se ela de fato existia ou não. Verdade? Verdade, ela se chamava Sociedade Secreta do Guarda-chuva. Engraçado, mas, por que esse nome, ele perguntou, ao menos achando graça naquilo (como tudo muda de repente não?), então continuei: não lembro bem o porquê, você sabe não é naquela época eu estudava no Sagrado Vurmo de Cristo, que é uma tradicional escola católica recifense fundada em 1750 pelos jesuítas, e como todas as escolas deste tipo ela possuía lá suas várias tradições, entende, e dentre elas a de manter clandestinas diversas sociedades secretas funcionando paralelas ao Poder Instituído, nossa, e isso apesar de Dom João VI, O Clemente, ter proibido no século XVIII a existência de tais organizações. Muito bem: pelo que me lembro a Sociedade Secreta do Guarda-chuva havia sido fundada em 1854 por um tal Abade Boullan, conhecido como O Licantropo, na época professor de Teologia Aplicada à Balística do Sagrado Vurmo. Diz a lenda que o sujeito (sempre ereto debaixo de sua batina negra-oclusa) se apaixonou por uma belíssima freira (a cavernosidade sempre pertenceu a Satã) que acudia pelo nome de Adèle Chevalier, enfim, um romance proibido, que mantiveram oculto dentro das Associações em Segredo, o que significa dizer que ninguém na escola ficou sabendo de nada. E foi desta forma que, secretamente juntos e simulando grande religiosidade, eles fundaram a Sociedade Secreta do Guarda-chuva (tiveram dois filhos também), que na verdade já existia há muito tempo, só que com outro nome, que no momento não recordo, lembro apenas que sua primeira versão surgiu (creio) na antiguidade clássica (acho que no período helenístico) através das mãos de uma dissidência radical da Escola Mística de Mitra, dissidência formada por seguidores da deusa Ísis e do Canto do Bode Imolado, que se agruparam em torno da liderança de Epicuro de Samos (O Prático) e sob o propósito comum de promover a luxúria do mal dos coribantes por meio do tráfico ilegal de mimos – peças naturalistas que retratavam o cotidiano clássico, pornográficas demais para a época – como forma de desestabilizar com seu cordacismo desenfreado as escolas

38

filosóficas que aos poucos surgiam, ameaçando a existência das milenares escolas místicas (a exemplo da Egípcia Escola de Mistérios) ao contrapor o ensino de uma nova filosofia, sobretudo a Filosofia Moral (a exemplo da Escola de Lúcio Aneu Sêneca) aos ensinamentos míticos antigos de consulta e interpretação dos Oráculos, percebe? Bem, tudo o que posso dizer além disso é que desde então, e através de séculos e séculos e séculos, várias versões dessa Sociedade Secreta foram colocadas em prática, passadas adiante, especialmente durante a instalação do Cristianismo Oficial na Europa, época em que o sectarismo cristão criou uma terminologia teológico-religiosa no intuito de adulterar os conceitos helênicos como forma de desmerecer as seitas gnósticas julgadas heréticas dentro da nova concepção dúbia maniqueísta de mundo criada pela Igreja para condenar antigas visões de mundo a exemplo da doutrina da reencarnação, herdada da filosofia grega dos pitagóricos. Acontece que nenhuma lei ou regra é mais poderosa do que o conhecimento. Ah. Ironia do destino então o fato de que várias versões da Sociedade Secreta do Guarda-chuva tenham se perpetuado graças ao trabalho silencioso realizado principalmente por, ah, ah, teólogos (sobretudo os nascidos sob o signo de Saturno, como Ficino) e magos (como Cornélio Agrippa) e médicos (como Paracelso) e filósofos (como Giordano Bruno, o herege que testemunhou a verdade), além de toda a sorte de curiosos astrólogos e cardeais, e mercenários e trovadores, e cortesões e condottieri, e mercadores e artesãos, e humanistas de chancelaria e funcionários de gabinetes de contabilidade, isso para não falar das mulheres tidas como bruxas, ou devassas, a exemplo de Túlia de Aragão (autora do Diálogos da Infinidade do Amor), ou Veronica Franco (que no Terceiras Rimas prometia: certas intimidades em mim ocultas). Havia também um outro grupo difusor, o dos estranhos bibliotecários esquizofrênicos, todos tão feios quanto um consorte húngaro, a exemplo do enigmático onanista Democritus Junior, autor do bizarro-maçante A Anatomia da Melancolia, livro excepcional, magnífico, publicado em 1626, cuja edição espanhola em volume simétrico nós tínhamos guardada no porão onde nos reuníamos para... Ah, não sei para quê toda essa erudição excessiva, já que recordo apenas que todos os integrantes tinham de ir às reuniões portando um guarda-chuva, negro, de preferência. Só isso? Só... Não, não. Era preciso conseguir “catecismos”, para trazê-los às reuniões. Catecismos? Sim, as famosas revistinhas pornográficas

39

vendidas clandestinamente pelos jornaleiros. Nossa, como era difícil de achá-las. Eram escritas e desenhadas pelo Carlos Zéfiro... Já ouviu falar? Não. Fizeram sucesso (em minha adolescência pelo menos) porque fáceis de esconder, e fáceis porque pequenas, nossa, elas cabiam no bolso certinho, entendeu? Quer dizer, a História se repete sempre como farsa, e nossas mães desconfiadas de todas aquelas nossas prisões de ventre repentinas dentro de banheiros trancados. Os catecismos ficaram no imaginário da minha geração durante anos, porra, e quem esqueceria daquelas viúvas sedentas, daquelas donas-de-casa sacanas, daquelas desquitadas carentes, daqueles padres devassos com suas freiras pecaminosas, alguns enredos chegaram a se tornar clássicos. Lembro do A Viúva, do As Três Cabras de Lampião, do As aventuras de João Cavalo (meu preferido), do A Pagadora de Promessas... E porque era preciso trazer os “catecismos” para as reuniões, ele perguntou, visivelmente interessado, menos resistente do que antes. Por que, como disse a você anteriormente, catecismos eram difíceis de achar, e quem os conseguisse, merecia ou não merecia entrar para a Sociedade Secreta do Guarda-chuva? E o que acontecia nessas reuniões, pai? Nada demais: na maioria das vezes abríamos nossos guardachuvas e ficávamos batendo punheta, sabe, cada um com seu catecismo à vista. E quanto às discussões sobre a foto do Zé Bodinho? Quase não aconteceram, ah, ah, a coisa foi se desvirtuando com o tempo, mas o guarda-chuva nos protegia da porra um do outro, cada jato um filete de água sanitária riscando o ar em s s s s s...

Each day just goes so fast

(O celular transparente soou de dentro de um dos bolsos do meu – agora novamente contrariado – filho que, saltando para fora do sofá para atendê-lo na cozinha – portanto longe de mim – fez um sinal com uma das mãos para que eu esperasse, o quê eu não sei, talvez a antecipação de uma nova antipatia sua, revelada no modo estrondoso como fechou a porta da cozinha no intuito de que seu pai não desfrutasse sequer de uma fatia mínima da conversa que estava para ter com quem só Deus sabe)

40

“... Uma vez cavalgando um tigre não há como desmontá-lo no caminho é o que dizem os orientais. De qualquer forma, na época eu era Diretor da Comissão de Esgoto e Saneamento Básico da vila de Elsa, entendeu, e isso em 1966, quer dizer: como eu poderia adivinhar que logo depois de assumir o honroso cargo aquela tragédia aconteceria”? “... Dar de ombros às vezes é mais difícil que segurar uma avalanche. A racionalidade do mundo não se funda mais em um modelo estático e imutável assim como o descrito pela ideia platônica, Isaque. Em suma: merdas acontecem meu amigo”. “... O problema é que foi muita merda: o estouro de um tanque com toneladas de esterco líquido de porco”. Recordo Isaque empurrando os óculos de aros grossos até quase colá-los na cútis suada e excessivamente branca na medida em que rangia seus dentes de ouro: uma espécie de exibicionismo crônico da própria riqueza. “Alcoolismo com salaminho que nada. Você não está entendendo: sei que a O.G. estava por trás de tudo, percebeu agora”? Isaque: adorador de Pluto: um exemplo acabado de bissexual ambidestro: portador de uma sífilis hereditária: homem de natureza amoral adorável. Meu fiador. É preciso suportá-lo. “A mesma frase que disse Manson quando inquirido no tribunal sobre como ele poderia ter certeza que as mensagens do Álbum Branco se dirigiam para ele: e para quem mais seria, ele devolveu”. “... Adoro o senso de humor do David Letterman, mas estou falando de antissemitismo aqui, dos psicopatas filhos da mãe fanáticos racistas da O.G., que anteciparam todos os planos de ação da Campanha Antissemita dos Nacional-Socialistas, entendeu? Falo de todas aquelas ilusões sobre a raça e a santidade do sangue puro germânico, ilusões que perduram até hoje, quer dizer, eles ainda estão por aí: Gold-und-Rosenkreuzer Orden, a O.T.O. ressuscitada, a Associação dos Arianos Invisíveis”... “Meu pai falava muito dessa O.G.”...

41

“Um bando de malucos que se reuniam em uma sala na qual figurava como mobília e símbolo um relógio que (diziam) pertenceu ao Hanns Hörbiger, criador da teoria da Cosmologia Glacial, teoria, aliás, muito apreciada por Hitler, Himmler e caterva”. “... Ape or artist? Certo, mas, voltando ao assunto: você não poderia segurar o do aluguel este mês, Isaque”? “... Os Paranóicos estão certos: Taranto foi de fato fundada por Taras”.

Pai, está vendo porque não gosto de conversar contigo, ele disse ao retornar da cozinha (duro como um grão corneado: dureza córnea), agora esfregando as mãos de nervoso (sua nova antipatia?), agora novamente sentado e amarfanhado entre duas almofadas sujas, empedradas, os dedos entrelaçando-se em nós circinais (retornamos novamente à animosidade habitual), quando completou: você é confuso, atrapalhado, desordenado, atravacante (essa eu não conhecia, meu filho: um Houaiss) fica dando voltas e voltas e voltas e nunca responde as perguntas que faço, não do jeito correto, pelo menos. E o que você quer saber? Nada demais, deixa para lá, ele disse, como se quisesse realmente deixar para lá, esquecer, fazer de conta que não, o problema é que você me corta sempre no meio da conversa, eu ia chegar lá, eu disse. Ah é, e quando? Quando o quê? Quando você ia chegar lá? Amanhã, respondi, brincando. Só que amanhã não vai dar, amanhã vai ser muito tarde, ele completou.

O que será que ele quis dizer com isso, pensei, meu pensamento um marcador amarelo entre as margens de uma página, em coma de sanguessuga saciado. Talvez ele não saiba, mas, se for preciso medir um filósofo pela barba os primeiros a serem elogiados serão os bodes. E eu sou O Bode desta casa. Mas o fato é que já tirou o rei na sorte e, abençoado por Santa Bárbara, até já falou do asseio da casa, das escovas de dente, já falou de Ana (era Ana, era Ana Pedro, era Ana a minha fome), da foto de Bodinho, já desdenhou de meu pai, de mim, não sabe nem quem o avô dele foi, não faz ideia, a mínima ideia. Meu pai, além de trabalhar na agência de correios e telégrafos, foi um grande jogador com as palavras: um construtor: um maestro. Gostava de inventar palavras novas, sonoras, musicais, além de palíndromos, anagramas, acrósticos,

42

paródias, alusões, o cacete. Ele era bom nisso: fazia miséria. E ainda era pago pelo trabalho, e por encomenda. Por exemplo: durante muito tempo trabalhou para A Recreativa, que era para onde enviava suas palavras-cruzadas, seus jogos de linguagem, que inventava nas horas vagas dos finais de semana. Nas horas vagas: imagine. E isto logo depois da guerra, época que coincidiu com o início de sua Pesquisa com O Número, pesquisa que se deu logo depois da intercepção do criptograma das duas mensagens enviadas ao Eixo pelo próprio (até hoje acredita-se que foi ele) Hitler. A primeira mensagem foi decifrada a tempo (através do, já na época pouco utilizado modelo, traço-ponto-espaço): um número de operações combinadas para localizar e destruir submarinos no Atlântico (dentre eles seis embarcações brasileiras) como forma de evitar o reabastecimento das tropas aliadas e em retaliação à Reunião dos Chanceleres que acontecera uns meses antes no Rio de Janeiro, quando o Brasil se declarou alinhado aos Estados Unidos da América, permitindo inclusive o funcionamento de bases de tropas norteamericanas no nordeste brasileiro. A segunda mensagem, no entanto, não foi decifrada, o que levou meu pai ao início de sua Pesquisa, já que acreditava que a transmissão da segunda mensagem por banda lateral única (SSB) escondia dele algo de muito pior. Meu pai: o paranoico. Nossa, sequer passou pela sua cabeça o fato do Brasil se encontrar tecnologicamente defasado em relação aos outros países do mundo, visto o Exército Brasileiro ainda utilizar a telegrafia em uma época em que ela foi perdendo força com a utilização do Single Side Band. Em suma: um homem inteligentíssimo esse meu pai, excêntrico, não linear, um gênio obsessivo, enciclopédico e autodidata, que passou a viver imerso em um mundo diferente do nosso, paralelo, mundo de alfabetos cifrados onde as palavras giravam soltas, convulsas, matemáticas, dentro de lapsos de tempo prontas para serem combinadas de n formas diferentes, e ele passou a pescar essas palavras aqui e ali – nos jornais, em letreiros, em conversas alheias, em revistas e livros e capas de disco –sempre baseando-se na música (nem sempre) aleatória que elas sugeriam. Era pela música das palavras, esse meu pai-glossário, só que seu neto não sabe disso, nem desconfia. E ainda diz-se escritor. É triste sentar e olhar para seu filho sem quase reconhecê-lo mais. Muito triste. É quase um estranho para mim, agora. Não sabe que o avô gostava de palavras como vértebra, como cedrol, como cadafalso, como semicírculo, como

43

oblívio, como semicúpio, semifusa, gris, amplo-reinante, paralaxe, e que ganhou uma medalha (embora nunca tenha se vangloriado disso) por serviços prestados durante a segunda guerra mundial, não, não direi isso a ele, se não quiser, não direi que seu avô aprendeu alemão sozinho, e com o mínimo de recursos disponíveis, e apenas para ler Fichte no original, e que também escrevia poemas, sim, poemas, imagine, um homem imenso, cerebral, de caráter empreendedor, com fineses de sarcasmo na ponta da língua venal, musculosa, mordaz como só a dele era, brincava com todos os que serviram com ele na época da guerra, lembro que me contou de um medroso com o qual dividia o quarto, um que vivia dizendo que queria arranjar um uniforme camuflado para o caso de um ataque surpresa alemão (imagine), um que insistiu tanto no assunto até que meu pai se cansasse disso e dissesse: descobri quem tem um uniforme camuflado, só que é para você esperar mais um pouco que ele ainda o está procurando. Esse meu pai... Difícil imaginar como terminou a vida. Só que talvez não seja culpa de seu neto não se interessar pelo avô, não, talvez a culpa seja minha, afinal de contas, o avô morreu quando o neto ainda era muito novo, uma criança ainda, e nessa época meu pai já estava velho, doente, fraco, nas mãos o cetro com guizos erguido, o câncer quase o devorando por completo, talvez meu filho só se lembre dele arrastando lento as sandálias de couro no colágeno oleaginoso do assoalho liso, sim, dele resmungando pelos cantos, encurvado, gemendo, dopado pela morfina (administrada via intravenosa ou muscular, três salvas de palmas para a negligência das agulhas hipodérmicas), nada mais daquele homem viril, raivoso, inteligente, de outrora, mas o que sobrou dele, sua sombra e escombro, imerso na sordidez da doença (sim, o câncer é uma doença sórdida) balbuciando com lentidão de staccato (ainda que só para se mostrar lúcido, ou de posse de seu conhecimento enciclopédico de construtor de palavras-cruzadas): a morfina foi criada em 1816, pelo farmacêutico alemão Friedrich Wilhelm Adam Sertürner, sim papai, e ele lhe deu esse nome em honra de Morfeu, que é o deus grego do sono não é, agora, venha se sentar, eu dizia, mas ele se mantinha em pé, sem reação, aéreo, as mãos escorando o corpanzil entre as paredes do corredor da sala formavam um triângulo como extensão do apoio trapezoidal dos polegares, droga, triste para eu recordar esse período, meu pai incapacitado pela doença, gemendo entre os lábios o número 5040 na medida em que sibilava: cifra de grandeza

44

moderada com o maior número possível de divisores, ou ainda: todos os Doze estão acima de minha cabeça, forçando-me a reconhecer como regra universal que as divisões e variações dos números são aplicáveis a todos os propósitos ocultos – tanto às suas próprias variações aritméticas quanto às variações geométricas das superfícies e sólidos e também àquelas dos sons e movimentos, seja em linha reta ascendente ou descendente ou circular, enfim, meu pai era um gênio, gênio arrastando-se na falência múltipla dos órgãos, sentindo-se pequeno, minúsculo, humilhado, a todo o instante tendo a impressão de ser observado Pelos Que Circulam à Volta, rente ao abismo tentando (ainda que doente) calcular todo o Espectro Semântico do Mistério com uma fralda geriátrica presa à cintura em S (na época passou a ter incontinência fecal): a décima segunda parte de 5040 é 420, resultado da multiplicação de 20 por 21, por isso não posso culpar esse meu filho: O astrólogo caído em um poço, como é possível que, talvez estas sejam as únicas lembranças que, que lhe restem do avô: os cinco universais segundo a lista de Porfiro são O Gênero A Espécie A Diferença O Próprio e O Acidente, talvez a culpa seja minha, sim, talvez não o tenha idealizado o bastante perante seu neto, sim, quem sabe, talvez eu consiga induzir-lhe algumas lembranças, algumas novas lembranças sobre seu avô, isso é possível, e não deve ser difícil, basta dizer determinadas coisas com convicção, com rasga convicção, que logo ele passará a acreditar nelas, e de elas até se lembrará, afinal de contas, a memória é construída no presente, no presente, refere-se ao passado, mas é formada no presente, e a cada instante, a cada volta arbitrária dos ponteiros do relógio, sendo para tanto o bastante apenas modelá-la novamente, com cuidado, mas remodelála...

“... Sou sionista porque não concordo com o tão citado em metáfrase Temístocles na boca dos covardes: a verdadeira Atenas não é onde se acham seus muros, mas onde se acham seus cidadãos”. “... Pã é o único deus mortal dentro do ciclo dos deuses”. “... O que seu pai falava da O.G.”? “Disse ter sido nela que F.W. Murnau conheceu Max Schreck”.

45

Lembro-me de a filha do Isaque passar nessa hora: víbora magra, na certa anorética: doze dúzias de ostras no lugar das vértebras. “... Ele acreditava que O Número não seria um mero elemento abstrato criado pela razão, antes algo ontológico ligado ao que há de divino no ser humano”. “... O cidadão ao mesmo tempo aplicador extraoficial e executor da lei, assim como sonhava Platão... E quais as formas de movimento passíveis de classificação numérica”? “... Tudo está repleto de deuses”. “Tales de Mileto”.

Bem que estas suas amigas poderiam dar um jeito na casa quando viessem passar a noite aqui não é pai, ele perguntou, como se lhe estalasse a ideia (ainda não ventilada por aqui) naquele exato segundo, clic, feito fosse pertinente perguntar aquilo, ou transmitisse verdade, os cabelos castanhos esvoaçando claros eram atualizações sedosas daquilo que pensava, quando respondi: são minhas amigas, não minhas empregadas domésticas, não meus inimigos bem pagos. Amigas, sei, disse ele com desdém, sua língua um móvel malhete de mágoas, dançando solta várias versões do sarcasmo dentro de sua boca, de seus suspiros curtos, boca que quase só é aberta para me reprovar, como fosse eu o filho, e estivéssemos aqui vivendo papéis invertidos, quando: você bem que poderia contratar alguém da Servir Bem é Servir Sempre não poderia, ele perguntou. E você acha que eu tenho problemas, devolvi perguntando, na medida em que, silenciosamente, discordava de Demócrito de Abdera, filósofo que sempre achou cômico o espetáculo da humanidade. E não tem não, ele devolveu a pergunta (irônico como Silésio no Elogio da Calvície), quer dizer: a Ana não se incomoda com essa sujeira toda? Não. Como não? Ela acha que é capricho de executivo excêntrico. Sei, ele respondeu. Sei: movendo levemente o masseter como se mastigasse (algodão). Merda, tenho seis filhos, e esse é o mais velho, também o único que mora nesta cidade comigo (Manaus e seu sistema quadricular de engrenagem de roda produzindo o movimento dextrovolúvel de traços desenhando a disposição de suas ruas e avenidas e praças quadridimensionais arborizadas jogadas a Deus-que-o-diga), o único que não me abandonou, por que não me abandonou é o que me pergunto agora, talvez para ficar aí, me

46

reprovando dentro de sua afecção, tentando me desestruturar, se metendo na minha vida como se seu pai tivesse as orelhas de burro de Midas, mas, quero ver conseguir, quero ver... E amigas sim, porque o sarcasmo? Acho engraçado, só isso. E o que é engraçado? Não sei... Seis mulheres pai? Poderiam ser dez, o que importa? Mas só em Manaus mesmo, responde meu filho, deve ser o calor, a umidade, as mulheres aqui ficam loucas para foder (isso aí é verdade). Ah, quer dizer então que por eu ser velho, não ter dinheiro (a Ana não sabe disso), não ter carro... O que aconteceu com o carro? Ôpa, não te falei não foi, eu perguntei, privilegiando os acentos tônicos da frase. Não, não falou, vi que o carro não estava na garagem, mas achei que estivesse lavando. Que nada, ele estava dando muitos problemas, na caixa de marchas, não funcionava nunca, mandei consertar duas vezes, mas não adiantou, então, uma noite ele quebrou pela terceira vez, já era quase madrugada, quebrou em uma das esquinas do Prédio da Alfândega, ah, deixei para lá. Como assim deixou para lá? Larguei ele na rua, com a chave na ignição e tudo... E? Não fui mais buscá-lo. Como assim: não foi mais buscá-lo? Não fui, simplesmente. Mas pai... Quê? Você poderia vendê-lo, pelo menos. Não estou precisando de muito dinheiro no momento. E como você vai trabalhar agora? Andando, gosto de andar, além do mais, é saudável. Pai, você... (E se levanta do sofá – as mãos apoiadas no quadrívio do estofado – e esfrega as mãos, e retorce a cara: um vértice áspero, esfregando ruidoso o nariz fino de organsim como um rascolnique praguejando contra Nikon: as narinas dois guarda-chuvas de glacê – efélides surgem o cobrindo a pele de raiva – não sabe onde pô-las – as mãos – fica girando pela sala, atônito, nauseado, em forrobodó celíaco, díscolo, ágil como páginas de calendário folheadas, dentro de um impulso ininterrupto girando – um carrossel infreme de tetráceros gonococos esféricos-trânsfugas produtores de pus – feito estivesse com dor de dente ou de barriga, ou coçando as sarnas ou dançando, sim, o esqueleto é bem maleável, parece de fibra, um bucrânio de isopor, poderia, quem sabe, até ser bailarino – aliás: porque as bailarinas caminham na ponta dos pés, as companhias de dança não conseguem arranjar mulheres mais altas? – bailarino ou dançarino de tango, um tango tocado no caos que é o espaço escancarado segundo Hesíodo e, enfim, poderia ser qualquer coisa, menos um escritor, mas ei-lo: nitidamente nervoso, diria transtornado até, girando em um círculo imaginário como se dentro

47

de uma reação alérgica, leprosa, chegando a até suar, ainda que levemente, já que não fazia tanto calor assim, digo, para os padrões manauaras de calor estava até bastante agradável o clima, e agora essa brisa, sim, uma tarde sem aquele mormaço habitual que sopra corrosivo e carcome as vigas de ferro do Cais Flutuante, espécie de hálito morno, asfixiante, suspenso sob as gordas ampolas de sangue das calçadas do Mercado Municipal Adolpho Lisboa; mormaço que, segundo meu filho especialista, deixa as mulheres loucas para foder, foder, foder, com fungos e comichões enfezando o Uragus da boceta quando volta e senta-se no sofá novamente, apanha outro cigarro, a cena inteira um caleidoscópio irritante) E a TV pai, ele pergunta, sim, voltamos ao assunto importantíssimo da TV, ele acendendo outro cigarro (nem percebeu que o segundo ainda queima no cinzeiro em minúsculos estalidos), tragando-o com força, soprando seus círculos azuis, circinais, parece que se acalma um pouco agora – Greta Garbo dopada – quando respondo: sem TV eu leio mais. Ah é, e por quê? Sobra mais tempo, você sabe que eu gosto de ler não sabe, aliás, você é um escritor, teve a quem puxar. Sei, ele diz, sei, um sei gutural, desdenhoso, glótico, fechado, feito dissesse para dentro, para si apenas, engolindo, um sei sussurrado chiando afinado por um pistão tuberculoso a partir da disposição melancólica de sua laringe dentro da escala cromática – Garbo posando para autorretratos p&b. E o que você está lendo no momento, ele pergunta, cínico, acho que duvida que esteja lendo, que o tempo que perderia assistindo TV (a compor com os outros macacos sem cérebro sua audiência sem áudio) esteja empregando em outra atividade mais criativa, mais produtiva: é um pedante esse meu filho, transformou-se em um, e desde que se mudou de casa pensa que é a bala que matou Kennedy, porra, está achando que é muita coisa agora (em que pese a invectiva de sua pergunta cínica), tudo bem, vamos brincar então: no momento estou lendo Morri, e agora? O quê? É um livro, chama-se: Morri, e agora? O título é este mesmo, é uma pergunta? Exatamente... Quer saber o enredo? Não, obrigado, não gosto de livros de autoajuda...

“Sei que você não dá a mínima para isso, mas poderia pelo menos me deixar arrumar um pouco a...”.

48

Recordo Mirtes nervosa como um salmão andando pela casa. Ela é casada, daí seu nervosismo em estar ali comigo. Ex-namorada de Jards Macalé, disse para mim certa vez que a ideia de ele gritar Viva as Sapatões ao final da Atrás do Trio Elétrico partiu dela. “O mólio é uma planta mágica, poderíamos jogar suas raízes negras no sanitário e...”. Íole indecifrável: altruísta: nela o desejo imediato de possuir sem aquisição gradual o posto máximo de a Número Um. “Deixe que pelo menos lave os pratos”. Agriônia: a que finge orgasmos, como se eu realmente me importasse com isso. Neste dia em específico estava triste: a mãe (que morava em um asilo ao sul da Suécia) havia sido atacada por um alce bêbado que não respeitava espartilhos antigos. As demais: Laódice, Úrsula e Pi, nunca se incomodaram muito com o asseio da casa. “Vamos colar páginas do Velho Testamento nas paredes”?

Certo: e pensar que fui eu quem o ensinou a ler, eu, seu pai, e isso quando tinha quatro anos de idade, portanto um pouco depois de Ilitía ter lhe colocado no mundo – os dedos dele naquela época gordinhos, roliços, nervosos engolidos pelo interlúdio veloz das mãozinhas sempre serelepes, fornidas; o ensinava no estilo rédea dupla dos balõezinhos dos gibis da Marvel Comics, mostrando pacientemente como se montavam as vogais, as consoantes, brincando com ele como quem brinca de um jogo de encaixes, de charadas, um lego de espelhos, fácil, simples, mostrei a ele como era fácil, simples, nessa época já desmamado de sua Amaltéia tinha também aqueles cabelinhos loiros, saudáveis e encaracolados, que dançavam como dançam as notas quando venta em uma harpa de origem egípcia dedilhada, sim, sempre calçado com seu par azul-branco-estica-para-cima de botas do Capitão América que lhe dei de presente no Natal, ou soprando com força luminosa os pulmõeszinhos frágeis (dois cateteres anêmicos) aquela sua cornetinha de plástico cinza desafinada, arregalados pelo esforço os olhinhos curiosos, tímidos, atentos, admirados, o muco sempre a lhe escorrer pelo nariz em bolas de tristeza e espanto, com o tempo é que foram ficando castanhos (seus cabelos), o tempo tratou de enferrujá-los, não sei em que momento cresceu desse jeito tão triunfante esse meu filho, quando pequeno não era

49

assim tão teimoso, tão orgulhoso, antes um pouco amedrontado, sim, e isso para não falar daquele seu... Nossa, era grande realmente, talvez hoje ainda o seja, não sei, não vou perguntar sobre isso agora, sobretudo agora em que acredita estar em posição de vantagem em relação ao pai, esse orgulhoso do meu filho, não, isso não, mas, droga, acho que a primeira vez em que notei que era de fato desproporcional à sua idade foi na época em que passamos a tomar banho juntos, tentei esconder minha surpresa quando vi aquilo lá (e isso para não envergonhá-lo, afinal de contas, ele devia ter uns seis anos de idade), tentei pensar em outra coisa qualquer, enfim, o problema é que foi difícil, muito difícil, porque eu ficava olhando para o meu (e era esse troço comum, débil, enrugado, enxuto), depois para o dele (grande, grande demais, amplo, cabeçudo), merda, eu comparava os dois, essa é a verdade, e me sentia lamentável por conta disso, lamentável, tanto que demorou um pouco até que decidisse voltar a tomar banho com meu filho, meu filho o bem-dotado, tempo suficiente para que me acostumasse com a ideia de... Droga, a vida é de fato um relógio trabalhando sequencialmente a cronologia do tempo, mas devo ter perdido alguma volta dos ponteiros, não sei, ou talvez tenha sido eu o arbitrário, eu o ausente, e não o tempo, ou Deus (aliás, segundo Agostinho o tempo não é Deus, antes uma de suas criações, já que o tempo depende das coisas que vem-a-ser e são, portanto coisas criadas, todas por Deus, o Arquiteto), não sei ao certo, quem sabe... Quando dei por mim já estava até fumando, O Tripé, achei o maço amassado e escondido dentro de uma de suas gavetas, a das cuecas (todas elas tamanho super G), lembro que gostava das revistas do Hulk (o maço era de Marlboro), lembro-me de ter comprado toda a coleção para ele à época, da primeira à última edição, nossa, eu sempre lhe dei revistas de presente, sempre: Conan o Bárbaro, O Demolidor, X-man, enfim, quem sabe uma forma de me redimir do fato de nunca ter me sacrificado o bastante por ele, por ele e por nenhum dos meus filhos, merda... E quando finalmente aprendeu a ler? Que felicidade, ele vinha e me perguntava: pai, o que é invulnerável? É o que não pode ser ferido meu filho, então o Hulk não pode ser ferido? Não, ele não, mas, eu sim, veja, ainda está me fitando com esse tédio todo impresso no rosto, o único filho que não me abandonou, mas, para quê? Quando perdi o emprego minha segunda mulher (a com sardas no rosto, talvez porque filha do tipógrafo escocês casado com holandesa) foi embora de Manaus levando junto

50

nossos três filhos (as segundas esposas são sempre as piores: nenhum senso de justiça, de moral, só gratuidade fútil), e ele foi o único que ficou, o único que não se afastou de mim: meu filho homem mais velho, filho do meu primeiro casamento (casei com a bundeira em 1972. Tocou Eleanor Rigby quando saímos da igreja, apressados para pôr em prática o que não podíamos antes). Tenho mais duas filhas do primeiro casamento também, mas estas não vieram para cá, ficaram em nossa cidade natal (ambas haviam casado) só ele veio, quis vir, e só ele quis ficar, sim, não importava para ele eu ter perdido o trabalho, o emprego, vamos dar um jeito pai, ele dizia, na época sempre interessado nos meus negócios, depois arranjei outro, ganhando menos, é claro, afinal de contas, ninguém contrataria um homem na minha idade assinando a carteira com salário de executivo e, além do mais, Manaus não é mais o paraíso de antes, hoje impera aqui uma agonia econômica semelhante à do fim do período áureo da borracha (1920: o comércio decaindo: os prédios sendo abandonados: fortunas acabando do dia para a noite: da Paris das selvas construída no coração da floresta amazônica resta hoje apenas o luxo decadente e a extravagância torpe de suas construções, obras de famílias inteiras que se tornaram milionárias da noite para o dia graças à extração da borracha, e que investiram maciçamente no embelezamento da cidade, fantasmas, nada além disso, Seu Cavalcanti que o diga) e eis agora o escritor à minha frente, mudou da água para o vinagre, não sei o que houve, não sei em que ponto da vida mudou tanto assim, sabe que eu nunca dei muito valor para essas coisas materiais (TV carro máquina de lavar e o caralho a quatro), não faz sentido isso: quando tínhamos tudo minha segunda mulher me amava (tinha sardas nas coxas também, adorava que as lambesse, adorava passear pelos prédios luxuosos do centro fantasmagórico da cidade, prédios que no passado reproduziram os estilos arquitetônicos em moda na Europa, onde a constante transcendente empregada na arte calculava tudo na proporção entre o comprimento e a largura de um retângulo de número quase mágico 1,61803398872862135448 associado por algumas antigas correntes místicas com a mimosa glândula pineal... Admirava no Teatro Amazonas seu símbolo de desenvolvimento econômico, sua vértebra descomunal erguida em sistema pitagórico quaternário 1 2 3 4 enquanto assistia com a frivolidade do ditado Hoe ouder, oe botten Hollander as orquestras que lá se revezavam rememorando as antigas companhias

51

europeias de ópera), quando perdi tudo ela foi embora com nossos filhos, que hoje só me ligam para exigir dinheiro e xingar o pai, então, o homem é só aquilo que possui? Não acredito nisso, sei que não é, mas a vida vai se desdobrando de um jeito, de um jeito... Até que chegamos aqui, e aqui estamos, e aqui estou eu diante do meu filho escritor, do que se diz escritor pelo menos, sim, porque nunca vi página nenhuma escrita por ele, suas páginas são fantasmas para mim, não passam de um efeito colateral do seu recente pedantismo, é um exibicionista, forjou essa imagem de felicidade literária para si, agora este nariz empinado, estas repreensões, vamos ver até aonde quer chegar com isso tudo, sim, porque ele diz que eu faço rodeios, rodeios, mas quem sempre volta aos mesmos assuntos é ele, não é um homem esse meu filho, mas uma curva fechada de Moebius, é desorientador, fica dando voltas e voltas e mais voltas (como o tempo para Vico) e sempre em parâmetro de variáveis contínuas para quando voltar em definitivo, tudo estar de ponta-cabeça, ainda que no mesmo lugar, no exato mesmo lugar (o de um nistagmo): é como girar em um carrossel (montado em um cavalo de madeira cego) lotado de autistas, nossa, só de pensar já me vêm ânsias de vômito, ânsias, soubesse isso e não o teria ensinado a ler, deu no que deu, começou cedo a ler, habituou-se à leitura como quem se habitua a um travesseiro velho e vejam bem no que se transformou: Morri, e agora? Não, obrigado, não gosto de livros de autoajuda, tudo bem, tampouco eu gosto, mas, precisa fazer essa careta de quem sabe tudo sobre álgebra e relojoaria, careta de quem decidiu que o elétron vai agora girar em sentido contrário ao de sua órbita usual, isso é o que dá o excesso de estudo, de leitura, é um Homem Vitruviano esse meu filho, ou pior: virou a porra de um pavão colorido, com raízes quadradas no lugar das penas, é bem ruinzinho isso, sobretudo quando cair do carrossel e quebrar as pernas, porque mais dia menos dia elas quebram, ele cai, tenho certeza disso, já vivi muito, embora ele acredite que saiba mais do que eu só porque está alguns cartapácios à frente de mim, claro, teve mais tempo para ler do que seu pai, que teve de começar cedo a trabalhar, ainda bem novo, e tudo para poder se formar no colégio, depois na faculdade de engenharia, e tudo para dar uma boa vida para seus filhos e agora olhem só para esse: não é um marcador de páginas de um metro e oitenta de altura?

52

Você ainda coleciona erros ortográficos de jornais pai, ele perguntou, quebrando nosso gelo de silêncio recíproco, vindo leve e sedoso como se arrependido pedisse desculpas, não sei, desculpas as quais aceitei (a pergunta tão macia quanto uma adenoide, quanto os maravilhosos papéis higiênicos Scott, quando apontou para o jornal desfolhado sobre o sofá sujo), sim, ainda coleciono, respondi, curto áspero grosso, e só para ver se notava que havia me chateado de fato com nossa conversa anterior, que quase beirou o erro irreparável, a ferida de difícil cicatrização (semelhante à que Vulcano fez a machadadas no crânio de Júpiter, abrindo uma cratera de onde saiu Palas toda armada), mas, talvez fosse esta a hora de tocar novamente no nome do meu pai (plantar as lembranças, remodelá-las): afinal de contas, aprendi com teu avô a gostar de brincar com as palavras... Já te contei que ele fazia palavras-cruzadas para a A Recreativa? Já contou pai, mas, conte de novo (ôpa). Então, era craque nisso, gênio, passava finais de semana inteiros entretido com isso, queimando os neurônios como uma chaleira, um reator. Acontece que os jogos de linguagem que inventava à guisa de passatempo atendiam secretamente à Pesquisa, entende? Pesquisa? Lembra que te falei da medalha que ele ganhou na segunda grande guerra? Lembro sim pai, você – então me adiantei a ele: – pois, pois, o problema todo foi que a primeira mensagem decifrada pelo teu avô se revelou um blefe dos alemães, já que o ataque que ela ordenava através de seu criptograma não aconteceu, percebe, o que levou a Inteligência Militar a crer na hipótese de Cortina de Fumaça, sobretudo o Coronel Stendec, que concedeu a medalha ao teu avô na mesma medida em que cobrava dele com urgência a leitura da modificação codificada da segunda mensagem, fato que não aconteceu até o final da guerra, está acompanhando? Sim. Quer dizer: terminada a guerra, teu avô resolveu continuar sozinho o trabalho, sabe, trabalho este que tentou a todo o custo concluir até o final de seus dias... Nossa, parece que o estou vendo agora, sentado em frente à mesa da sala: páginas e páginas e mais páginas de rabiscos ao seu redor, silencioso como uma lâmpada esse teu avô, pensando, pensando, e ai de quem fizesse barulho... E ele gostava mesmo era de inventar palíndromos não é? E como, praticamente teu avô pensava através de frases anacíclicas, vivia mergulhado nelas, alheio ao mundo feito fosse o próprio São Jerônimo em seu escritório labutando a língua das línguas (que seria uma espécie de mistura do hebraico com o grego e o latim mas também o

53

caldeu e o dálmata) e se alguém falasse com ele enquanto estivesse trabalhando: ele explodia. Nossa. Às vezes tua avó esquecia desse detalhe e lhe perguntava algo (trivial), mas em seguida logo se arrependia. Oh Lara, caralho! Ele gritava, bufando pelas narinas um óleo negro, comatoso, como um cavalo com arreios de couro relinchando ao ser esporeado (e ainda dizem que é para estimular a montaria. Quem diz isso deveria também ser estimulado da mesma forma). Depois, seguia resmungando o número 5040, resultado que ele calculou através da soma das letras com os números e os sinais de pontuação que ele entendeu como ocultos nas duas faixas laterais de frequência exata para poder fazer a transposição espectral inversa da segunda mensagem, número (que depois ele passou a acreditar) que escondia a verdadeira cifra do Número, oculta na divisão perfeita das quatro consoantes místicas que os judeus inscreveram dentro de um triângulo para representar o nome secreto e misterioso de Deus. Puta merda. Pois então... Nossa, e como ele tentou e tentou e tentou decifrar o Tetragrama que, segundo ele, seria a Chave da Mensagem Cifrada no 5040, para tanto recorrendo até à concepção gnóstica dos abraxasianos (que ele conhecia tão bem), cuja reunião de letras numéricas daria ao teu avô a fórmula: a =1, b = 2, r =100, a =1, x =60, a =1, s =200, fórmula que segundo os gnósticos calculava a projeção (representada em uma Esfera Armilar) dos planos de inclinação do mecanismo do universo e do movimento dos astros vistos por um observador em terra, percebe? Pai, pai, e quanto à vovó? Mamãe às vezes o atrapalhava, certo? Mas como foi apaixonado pela tua avó, enfim... Quer ver alguns erros ortográficos que tenho guardado? Daqui a pouco... O vovô também colecionava erros de jornais impressos? Não, gostava de jogar com as palavras, gostava de anagramas também, já te disse isso? Acho que sim, ele respondeu, ficando pensativo logo em seguida, como se digerisse algo que eu acabara de dizer. Algo em suas vísceras era digerido, dentado, continuei: sabia que aquele palíndromo, o mais famoso deles eu acho, o socorram-me, subi no ônibus em Marrocos foi ele quem inventou? Não, não sabia. Mas já tinha ouvido falar nele? Ah, sim, ele disse, as sobrancelhas negras voltando a se tocar feito quisesse me dizer algo, franzidas em zíper, enrugando agora sua testa um pouco, como se pequenos chifres lhe despontassem. O que foi, eu perguntei, receoso (mas taxativo). Nada não, ele respondeu. Novo silêncio. Não tenho certeza se o socorram-me, subi no ônibus em Marrocos foi

54

criado realmente por meu pai, o que não preciso levar em conta já que palíndromos, em geral, são de autoria desconhecida, mas tenho certeza de que meu pai inventou algum, de outra forma, não iria ficar perdendo tempo sentado de frente àquela mesa (de minha memória) apenas para decifrar uma mensagem que poderia muito bem não dizer mais nada aos dias de hoje.

“Meu pai falava muito sobre esta Central”. “... Corporação que a tudo impregna; uma versão oculta do hipotético Reservatório Universal de Memórias: seu banco de dados é um sistema controlado pela A Agência, chamado: Arquivos Akáshicos. A ideia surgiu depois do advento do ISBN”. Vera Verdade... Recordo seu olhar estranho tocando em mim seus condutores de medo, pulsando nevrálgico um microcosmo construído sobre o vidro infinitesimal. Estranho, parecia ter um arame farpado oculto debaixo do jeans Lee da calça vincada de rugas: quem sabe uma nova versão do biquíni de lata da Marcianita-do-coração-de-aço. “... Um farto material coletado que vem somar-se à nossa disposição em aceitar sugestões”. “... A Central começou lançando mão das pesquisas feitas pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas sobre as Correspondências Cruzadas...”. “... Criando um Sistema Internacional de Padrões de Controle, que identifica numericamente cada indivíduo do planeta: seus gostos, suas opiniões, suas inclinações para...”. “... Marcianita-do-coração-de-aço eu vou fazer um passo com você no carnaval...”. “O que é isso Eri...”. “Para seu biquíni de lata meu bem: eu comprei um abridor. Para seu biquíni de lata m-e-u b-em: eu com-prei um a-bri-dor ...”. (Ritmo: Frevo de Bloco).

“O médico encontrado morto atendia em uma clínica de ginecologia adulta e infantil...”... Nossa, como as crianças andam precoces hoje em dia, não? Este na certa figurará no rol dos erros crassos, preciso me lembrar de... Ele gostava de putas também, não gostava? Quem? Meu avô, teu pai, ele respondeu, serpenteou, serpenteou (dentro de si) e caiu na esparrela da pergunta

55

que, é claro, é a mesma pergunta que o estava há pouco bifurcando os meandros neurotransmissores. Quem te disse isso, eu perguntei, insatisfeito com o novo rumo da narrativa (íamos tão bem). Fiquei sabendo. Como assim: fiquei sabendo, deu no jornal das oito por acaso? Vovó me contou. Não, dona Lara foi quem te disse isso? Por que o espanto? Filho, ele gostava sim, mas, as coisas não são assim, tudo preto no branco. (A memória é uma região argilosa, densa, alvacenta, em permanente construção, jogue a fração certa da semente de lobotomia negra em desuso sobre o lobo temporal e colha da esfera côncava de seu crânio as árvores de córtex parietal, imensas árvores sustentadas por raízes RF & CF que se fincam no gramado sombrio, úmido, no solo lodoso do lobo temporal, imagine a vista a ser alcançada, imensa, ampla, reinante, repleta de flores alfa-CaMKII coloridas, monte os degraus descritivos, de mármore, deixe fluir as analogias entre os traços fragmentados, cole novamente os pedaços de vidro do espelho recém-quebrado da região encefálica, e se estiver inteiro: quebre-o para colá-lo mais uma vez, recolocá-lo no mundo, tudo tridimensional, tudo colorido, tudo um motocontínuo de desvios paraláticos registrado na entomologia do inseto oculto-ferruginoso deslizando como uma lingueta em seu encaixe de metal trançado em um sem-número de emaranhados neurofibrilares, afinal de contas, todas as lembranças são imperfeitas). E como elas são então pai? As coisas? Sim. Bem, seu avô... Ou melhor, o seu gosto por prostitutas, veja bem (ele apertava os lábios duas ameixas secas agora enquanto me ouvia tentar explicar, a língua uma serpentina trepidando dentro, respirando em asfixia, lúgubre e malemolente língua... O terrível é ele vir reto), não se tratava em hipótese nenhuma de uma debilidade de caráter, de uma fraqueza de espírito, entende, toda aquela sua inclinação para frequentar prostíbulos (não trace círculos, ou rodeios, vá em linha reta, seja firme, veja: ele já está desviando o olhar, desatento), enfim, o que quero dizer é que tudo isto fazia parte do seu projeto com a Pesquisa, sabe, do projeto eleito por ele, sim, não me olhe desse jeito, projeto que se tornou sua principal obsessão, assim como sua obsessão pela carpintaria das palavras e dos números, sei que deve estar parecendo estranho, imagino, mas não estamos aqui falando de um homem qualquer, seu avô definitivamente não era um homem simples, fácil de julgar (só os rasos são fáceis de julgar, só os rasos já nascem com prescrição): era um homem estranho mesmo, quase barroco,

56

complexo, repleto de contradições, ainda que a contradição fosse enxergada apenas por quem estivesse de fora, sabe, o observador neutro enxergaria aquilo como uma contradição, mas, não teu avô, para ele aquela sua pequena tara quase linguística era convergente ao seu ofício, sabe, ao seu ofício com as palavras, com os números, não sei se me fiz entender... Não, não se fez, ele respondeu, a voz espectral ondulando em curvas sinuosas, estaladas em hertz que determinando o comprimento da onda sonora envolviam a frequência do som em íngremes graves e agudos, ou seja, respondeu quase debochando, quando lhe disse (para consertar, reverter o quadro): certos homens (A torre da derrota. Ei- la)... Certos apetites de certos homens, digo, são condizentes à necessidade que possuem em desenvolverem melhor os seus trabalhos, veja bem, mamãe (ainda não acredito que Dona Lara tenha falado sobre isso com o neto, merda, o que será que passou pela linda cabeça grisalha dela?) é uma mulher muito cordata, muito boa, católica até os ossos – uma santa – e quando papai era vivo ela criava todas as condições necessárias para que ele se desenvolvesse plenamente naquilo que quisesse fazer. Não sei se disse isso a você, mas, ela fazia o possível, sabe, para conservar o ambiente doméstico suficientemente ordeiro, suficientemente simples e calmo, como meio de deixar o marido se sentindo seguro, confortável, à vontade o bastante para seguir com suas reflexões rotineiras acerca do que quer que fosse, do que quer que fosse e veja bem: quando digo do que quer que fosse estou afirmando que ela não fazia a menor ideia sobre o que o marido tanto escrevia, tanto pensava, tanto calculava, mantendo-se daquele jeito silencioso na maior parte do seu tempo livre, enfiado daquele jeito entre páginas e mais páginas, prescindindo na maioria das vezes até mesmo do contato com os próprios filhos, afinal de contas, nós éramos pequenos e incômodos realmente (como tumores ladeando as bordas de um cu), além de muito, mas muito mesmo, barulhentos, e até disso Dona Lara conseguia livrar o marido, do nosso barulho, levando-nos para longe de nosso pai, fazendo-nos girar – a mim e a meus quatro irmãos – na órbita circunscrita de sua saia, e tudo isso para deixar nosso pai ainda mais à vontade, observe bem: sequer ele se sentia culpado em deixar todo o exaustivo e monótono trabalho doméstico nas mãos da esposa, na medida em que esta se mostrava sempre solícita, sempre disposta a realmente fazer tudo sem se importar, e não apenas se mostrando solícita ou disposta, mas realmente satisfeita em fazê-lo, o

57

que livrava nosso pai até mesmo de um posterior sentimento de culpa por abandoná-la, por assim dizer, no epicentro daquele verdadeiro terremoto doméstico todo. Ela faz porque gosta, era o que afirmava meu pai sem maiores dificuldades, e o que lhe dizia a perfeita e sempre pronta disposição da esposa em cuidar de tudo, e era sobre o espaldar dessa afirmação corroborada que meu pai, teu avô, se escorava, para assim melhor deixar fluir suas ideias, sempre tão claras, tão iluminadas, na medida em que seguia com a Pesquisa, cujos métodos eram uma extensão natural da crença que sustentava teu avô de que a variedade e confusão dissociadas e aparentes do universo ocultavam na verdade um padrão unificado de letras correspondentes a um Número que oferecia a Chave para a compreensão do padrão distinto que dava origem às inúmeras combinações e permutações dos infinitos fenômenos deste mesmo universo, não sei se me fiz entender agora, filho. Pai, porra, mas o que isso tem a ver com o fato do (os olhos reparadores estavam em mim, mas ao mesmo tempo movendo-se rápidos ao largo dos objetos que nos cercavam, como estudassem algo, mas, não importa: havia vida neles agora) seu avô frequentar prostíbulos, adiantei a língua em dizer, cortando sua frase ao meio. Sim, ele respondeu, seco e sem graça e visivelmente atormentado pelos meus rodeios sintáticos intermináveis (quem sabe não apreende alguma coisa deles?). Você ainda não percebeu não foi, perguntei a ele, jogando para si a responsabilidade pelos meus círculos infinitos, espirais incessantes, quase irreversíveis, o que significava dizer: se tivesse percebido antes, não chegaríamos até aqui depois de tantas voltas e mais voltas e mais... Não, perceber o quê (estava visivelmente aborrecido por jogar o meu jogo, e perder, vergonhosamente, tão orgulhoso, tão pedante, tenho a impressão de que não fôssemos pai e filho ele já teria me acertado um soco na cara), o que eu não percebi? Tudo estava ordenado demais meu filho, ainda que oculto e correto demais, quer dizer, a verdade é que não existem sistemas perfeitos, este é o ponto principal, tudo estava arrumado demais, ordeiro demais, calmo demais, todas aquelas cadeiras no lugar, entende, nenhum resquício de sujeira em parte alguma, toda aquela perfeição higiênica circunscrita à nossa casa, porra, falo da exemplaridade sendo notada em cada mínimo detalhe, entende, todos aqueles móveis sendo polidos, o chão sempre encerado, a TV exibindo Jeanie é um Gênio e Rintimtim, e nenhum prato sujo sobre a pia, e nenhuma gilete cega esquecida na

58

saboneteira do banheiro, e nenhum chumaço de cabelo entupindo o ralo ao lado do sanitário tinindo de limpo, todo aquele silêncio, enfim, quebrado apenas quando teu avô decidia esfriar a cabeça um pouco ao ouvir um Long-play da Rosenblitz, ou o Carlos Galhardo em Audições Musicais, ou ainda o melancólico Piano ao Cair da Tarde, em suma: tudo tão correto e ordeiro e musical e sanitário e sacrossanto e perfeito demais que a normalidade acabou tomando o caminho inverso, você me entendeu? (Não respondeu, mas os olhos disseram que não, não, não havia entendido nada, porra nenhuma, uma vírgula sequer que fosse). Falo aqui da Geladeira Kelvinator ano 1941, filho, da Cama Patente do Selo Azul, falo do Pente Pantera sempre à mão... Filho: por que você acha que seu avô gostava de inventar jogos de linguagem, hein, e de observar suas analogias com os números, suas coincidências, tudo entre as palavras e os números uma dança secreta diante de seus olhos? Por que você acha que seu avô apreciava a sonoridade das palavras, e mais que sua sonoridade: a possibilidade combinatória que ela implicava dentro da Pesquisa? (Ainda sem responder, mas, de olhos curiosos, admirados, acesos, uma luz líquida como quando era pequeno eu o ensinando a ler seus olhos dois cordões luminosos, piscando). Era para ordenar o caos que o fazia meu filho, para dissipar a Paranoia através do processo de reversão da Entropia, entendeu, isso o que teu avô imaginava pelo menos, isso o que o impulsionava, esta, enfim, era a sua principal tara linguística: ordenar o caos através de uma nova ordenação das palavras e dos números. Eis aí sua obsessão delineada, seu temperamento, sua razão admitindo também o irracional (O Oculto). Só assim conseguia existir no mundo o teu avô. Para ele o mundo só fazia sentido quando resolvido seu caos dentro da nova ordem imposta por seu trabalho com as palavras e os números, uma ordem simbólica que o renomeasse dentro de uma nova intenção de uso moral. Teu avô brincava com símbolos, com epifanias obscuras, através de pensamentos labirínticos funcionando em espirais, como se através dos símbolos surgisse uma nova compreensão do mundo, uma nova possibilidade de compreensão para o mundo, compreensão secreta que ele buscava obsessivamente por meio de novas ordenações lógicas para as palavras dentro da Pesquisa, e ele as queria nascendo virgens novamente para o mundo, sabe, virgens a partir das páginas que escrevia, e destas páginas em puzzle de palavras cruzadas para o mundo, ordenar o caos já sistematizado por Vico era o que

59

queria teu avô e ... Nossa, é exatamente isso o que busco quando escrevo, ele disse, no rosto a expressão satisfeita de quem acabara de encontrar um pensamento gêmeo, coadunado, com o seu. Está vendo só, vocês têm muito em comum, eu sempre soube. Só não entendi ainda o que... Isso tem a ver com as putas, adiantei-me em dizer, cortando novamente sua frase como uma fresa (certeira, calculada previamente, afiadíssima). Ora meu filho, veja bem, a intenção de sua avó em manter a perfeição circunscrita ao nosso ambiente doméstico era boa, muito boa, mas chegou a um ponto em que teu avô se viu asfixiado, imagine só comigo: era ordem sob ordem, ordem familiar e ordem simbólica, a última fruto de um trabalho intelectual que a enxergava como sendo o único meio de ordenar o caos, percebe, ambas correndo em paralelo até o momento em que se confrontaram, nossa, se tocaram como lâminas, como dedos, o que sufocou papai de um jeito que ele precisou... Veja bem: um universo em que tudo funcione com precisão e de acordo com uma lei rígida, inexorável, com uma organização ainda oculta e nem por isso menos metódica, inequívoca, euclidiana: aquilo foi uma overdose de harmonias de cifras obscuras subordinadas a um único princípio útil, tanto que se chegou a um ponto em que papai decidiu buscar o caos novamente, a outra regularidade, entende, os fractais, as bifurcações, os atratores estranhos, tratava-se de um paradoxo, percebe, sem o qual ele não teria parâmetros para continuar o seu trabalho, sua Pesquisa, o seu ofício com as palavras e os números no final das contas, que era a sua principal obsessão, aquilo que o mantinha são, uno, coeso, movimentando-se dentro do mundo. Mas não era isso o que ele buscava: a ordem, ele perguntou, no rosto uma máscara enigmática desenhada em gesso, era isso sim, respondi, só que é preciso haver um equilíbrio de forças, senão, o mundo vira um formulário muito bem organizado, um fichário, entende, a partir do qual nada mais poderá se fazer a não ser cumprir o modelo impresso, o receituário, o organograma, e definitivamente não era isso o que teu avô buscava. Ele buscava a ordem, você disse bem, mas uma ordem criada por ele (ordem no caos, por repetição), e uma que ecoasse a antecipação calculada do cerne de suas reflexões, do cerne de seu trabalho, de seu ofício, não sei se... Se se fez entender, ele perguntou, acho que sim agora, ele mesmo respondeu, calando-se em seguida.

60

To lead a better life, I need my love to be here Não estou querendo convencê-lo de nada (e o que estava fazendo até aqui então?), só quero dizer mais uma coisa: não era qualquer puta que teu avô procurava. Ah não? Não, digamos que ele tinha (continuo sabendo do cacófato. Paciência) um, por assim dizer, gosto bastante esdrúxulo quanto às suas escolhas, o que só corrobora com tudo o que te disse até aqui. (A memória necessita do falso, do falso marcado no tempo, circunscrito à ele, delineando suas linhas, construído, buscando sempre satisfação e evitando a dor através do simulacro reproduzido para classificar os objetos sensíveis: nenhuma lembrança é verdadeira, ao menos não como o objeto o qual rememora – este compacto, sem oposição –, antes o exemplo do nosso fracasso diante dos relógios, de seu pulso de disparo, do maquinismo inexorável dos relógios que, fatiando nossa falha neurótica tiquetaqueiam ininterruptamente, que pisca-piscam coçacoçam, conduzindo todos rumo à ruína, à corrupção, certo, o passado é irrecuperável, sua última nota levando tudo à queda dos cilindros, das trombetas, um imenso quadro de nossos preconceitos mais velados, de nossas pressuposições mais doloridas, todas massageadas em seu vagar negro, mudo, herniário, e desta forma o falso, ao contrário do que se diz, não é a reprodução mecânica da mentira, mas o sintoma de uma perda irreparável, a perda da verdade daquilo que se viveu, daquilo que se viveu e que nunca mais se poderá recuperar, a não ser de uma forma falsificada, distorcida, mnemônica, espécie de elaboração de um duplo que se quer comunicar por ouvir dizer). E que gosto era esse, ele perguntou, como se ferido pela própria curiosidade fizesse a pergunta, quem sabe esperançoso de que fosse algo cruel, algo bizarro, crudelíssimo mesmo, o que iria lhe contar a seguir, sim, exatamente como de fato seria. Teu avô apreciava as putas mais feias, as mais desgraçadamente feias que houvesse, nossa, e não só as mais feias, nada disso, mas as que fossem mesmo deformadas, ou velhas demais, se portassem cicatrizes espalhadas pelo corpo melhor ainda, ou se tivessem halitose, nossa, axilas peludas, caspas, piolhos, sarna, pedra nos rins, verrugas na virilha e ceratose, um apetite pantagruélico pelo horror, pelo caos sexual que o horror implica era o que possuía teu avô, um homem, como bem disse a você há pouco, bastante complexo, difícil de julgar, imagine, uma esposa linda em casa e sair à caça dessas bestas feridas por Deus (bestas descritas no Syphilidis, na Nau das

61

Damas Desvirtuosas), desses demônios com algum tipo de deformação, de desvio, um apetite disfuncional pelo sexo, mas que correlacionava-se com seu projeto de retorno ao caos, ou seja, tudo fazia parte, veja bem, de sua monumental empresa ontológica, cada movimento que fazia, digo a você agora: era previamente calculado. Mas como (ah, a curiosidade que se desencadeia na arquitetura dos próprios nervos, no trançado quadrilátero de suas fibras)... Você quer saber se existiam prostitutas assim? Eu não acredito que (estamos no palco, ótimo, e logo depois do número dos acrobatas anunciado pelo solista: em seguida: todo o decoro estilístico da mímica; por hora, estamos aqui e agora jogando do puro jogo de contas do teatro, da grandeza sublime do desenlace, Voix de Ville, O Zootrópio de Horner, O Mistério apresentado em plena cidade, Athanasius Kircher e sua estranha e mirabolante Lanterna Mágica deslizando nas páginas do Ars Magna Lucis et Umbrae; sim: a cena simultânea usada a partir do século XII se desenha; não, as cortinas ainda não baixaram, e as pessoas esperam o canto trêmulo final da Paixão; sim: o público lota o auditório, ninguém boceja, conversa, respira, um tenso silêncio invertebrado vibra no ar, uma semelhante vibração interior baila dentro da sala e são borboletas, coloridas, vibrando feito um vestido de seda trepidando, respirando azuis em seu movimento geométrico de pólen aspergido, estamos nos entendendo agora)... É claro que existiam, afinal de contas, há gosto para tudo. Mas só um prostíbulo em especial oferecia toda essa sorte de personagens de um circo de horrores como este: era o Circe Drinks & Petiscos, o único que teu avô frequentava com assiduidade, acabou virando freguês. Nossa, ele suspirou, continuei: já ouviu falar em um medicamento chamado talidomida? Não, ele respondeu, as mãos entrelaçadas como nós de gravata, línguas-de-plástico-de-sogra, linhas de costura, navalha dobrada na bainha, pois bem, hoje em dia ele é empregado de forma restrita, entende, controlada, e apenas na prevenção das lesões resultantes da hanseníase e de outras doenças dermatológicas, um medicamento de etiqueta negra ou, por assim dizer: peso-pesado. O problema foi terem descoberto que além de sua prescrição usual, o talidomida fazia milagres como sedativo contra dores, e que também funcionava no combate à ansiedade, às náuseas e à tensão comuns nos períodos de gravidez. Não deu outra: foi tomado em larga escala por mulheres grávidas em todo o mundo, inclusive no Brasil. O resultado foi um quadro de Hyeronimus Bosch: o nascimento de milhares de

62

crianças com graves deformidades físicas e mutilações em 146 países. Eram bebês que nasciam sem braços, sem pernas, sem dedos, e sem que a medicina conseguisse descobrir de imediato a causa. Logo, porém, descobriu-se o que as mães tinham em comum: elas consumiam o medicamento amida naftilica de ácido glutâmico, o famigerado talidomida. Então você está querendo dizer que (os sinais monstruosos da curiosidade: olhos fixos, boca seca, uma pequena quantidade de suor insólito escorrendo feito vidro pela testa, sobrancelhas compactas tocando-se como se costuradas agora em negro W)... O que estou dizendo é que Dona Polifema... A proprietária do Circe Drinks & Petiscos, sim, a cafetina que comandava tudo por lá, acolheu algumas dessas, digamos assim, filhas da talidomida. Por pena, mas também por curiosidade mórbida, como se só para ver como funcionavam aqueles toquinhos de gente zanzando por ali. Começaram trabalhando na limpeza dos quartos, da cozinha, dos banheiros, atendendo às mesas, só que com o passar do tempo – e sempre que solicitadas – passaram a atender clientes com tais apetites grotescos, tétricos, sobretudo meu pai, teu avô. E como elas conseguiam? É incrível o que as mulheres conseguem fazer com a boca, filho. Não, estava me referindo ao fato de como elas conseguiam trabalhar na limpeza dos quartos, da cozinha, dos banheiros, no atendimento às mesas... Eu também filho, também me referia a isso. (Ah, a tradição de se contar estórias ao redor do fogo...).

Imagino meu pai, teu avô, sentado à mesa do Circe Drinks & Petiscos – imagina comigo? –: é noite, quase madrugada, ele acabou de entrar (sem espalhafatos maiores), de subir lentamente a escada em série de degraus em espiral esmaltada que desemboca na rua como uma língua saltando da faringe desemboca nos dentes, sim, os ombros largos onde a escápula se une à clavícula e ao úmero formando duas cordilheiras de músculo deltoide em ângulos opostos, enfim, um enorme trapézio negro, negro, de dupla curvatura, sustentando uma cabeça maciça de gênio, erguida (dentro a oficina filológica funcionando a toda), ele pede uma cerveja, como de praxe, um gesto grave, inaugurado, áspero, longitudinal, prontamente atendido (a garçonete salta muscular e nervosa de onde estava e já chega com a marca que sempre bebe quando vem de 0 a 180 graus e), ao seu redor a fauna circula demoníaca e ruidosa como se em um palco,

63

nada menos real que isso, um palco, de tábuas rangentes, carcomidas, sobre ele os homens ocos, empalhados, encenando, as mesas todas cheias, cinco cadeiras para cada, dispostas de maneira duvidosa, pentacêntrica, atabalhoada, a casa como sempre lotada (todos os cotovelos com cúbito e rádio promovendo o movimento para que se toquem uns aos outros, suados), com seus cantos afundados em intervalos de luzes mortiças, baças, cor de muco-pus, os insetos que perambulando no ar dançam valsas mercuriais com as bandejas ensebadas de alumínio 13 que conduzem o trânsito espiralado dos copos a se chocarem, trimmmm, a suarem um sal de granito escorrendo de seus vidros, eles suam, todos suam, faz calor, um mormaço abafado do caralho, fedido, com miasmas anômalos deslocando-se pestíferos graças às hélices dos ventiladores de teto, que giram cortando suas seções retas em um ângulo oblíquo constante rangendo sua ferrugem espargida como veneno, como sífilis (primária, secundária e terciária), feito saliva, esperma, sangue carmesim, treponema pallidum, die malafrantzos vertreiben, o embotamento do sono respirado por cada narina ali presente (coador peludo), cada uma delas reagindo com espirros como a reagina rápida do plasma, a música brega tocada alta misturando-se metálica ao ranger semelhante do feltro dos chapéus (inchados feito nódulos) que cobrem cabeças de Fracastor empastadas por pressão e polimento da sarna da dança figurada dos crânios calvos, dos dentes (todos podres em sua maioria, carcomidos de cáries, da erosão produzida por féculas esquecidas entre os caninos ainda não extraídos), quando ao redor de tudo vigias noturnos inchados em noites de folga ajeitando suas dentaduras frouxas e blenorragias e jornalistas alcoólatras deprimidos discutindo o corte de suas matérias pelo editor que não entende nada de liberdade de expressão e pequenos comerciantes endividados e com nome sujo na praça esticando as pernas varicosas que suam como barris de carvalho, além de ladrões de quinta, de assassinos de aluguel de terceira, de médicos viciados em morfina, de advogados caçados pela Ordem, de aposentados sifilíticos broxas, de estudantes receosos com o dinheiro certo contado para tirar o queijo, a anemia dos testículos, a escória enfim, a espuma oleosa da cena divisada através da perspectiva dos retângulos deformados produzidos pela fumaça dos cigarros, sim, cigarros sempre acesos são bulbos erguidos, elevados, incandescentes, de vidro, são fístulas, cancroides, direito de herança e estadia na Tamarineira, as cervejas sempre repostas sobre a

64

mesa expelem lágrimas de seus cascos de fractais sanguíneos, fixos em um véu branco, de gelo, o ambiente úmido, abafado (asfixia de orifício peniano), com vírus diversos crepitando soltos e dançarinos, adentrando narinas, bocas, membranas mucosas e poros latejando, úlceras bucais, nenhuma janela aberta ali onde gira o linfogranuloma, a reação de Jarisch-Herxheimer, nada, nenhuma corrente de ar além da produzida pelos ventiladores lentos, no teto soturnos, mal agourados, tudo muito ruidoso, babélico, febril, o amarelo-esverdeado do piso, da confusão sugada para um centro, e o centro é meu pai, teu avô, o negro enorme, concupiscente, construtor de novas linguagens, de novas diversões mentais, o mouro belicoso, severo, primeiro varão do libertino espanhol que se fingia de cego para tocar as coxas das noras, sim, teu bisa, ex-figurante de vários filmes do Buñuel, ex-marinheiro, o rosto vermelho e sombrio sempre escorado em um silêncio, certo, mas falamos de teu avô agora, o de olhar repousado, enigmático, tornou-se freguês do Circe, todos já o conhecem a carranca férula, conhecem seus gostos, todos grotescos, acaba de tomar um gole da cerveja macia espumando em deslizes de língua de borracha geladíssima para fora da borda do copo de requeijão recém-reaproveitado, ah, ele não mexe com ninguém tampouco ninguém mexe com ele, é o observador, o cientista, o flâneur, a camisa social branca abotoada até a gola, o relógio de prata no pulso um mecanismo de ancoragem o recordando da hora exata de voltar para casa, os vincos da calça erguidos um pouco para refrescar as canelas ossudas, maciças, com poucos pelos, um gigante impondo respeito dentro de seu silêncio de mármore, pensativo, ciente da velocidade de nossa passagem pelas palavras, apenas as putas mais assíduas, enfim, as de sua predileção, brincam com ele, na colagem polifônica de seus ruídos elas o chamam de Neve, Neve, chegou o Neve, elas dizem do balcão ao avistá-lo entrar e sentar-se à mesa, e de lá elas gargalham o fulvo de seus risos piados de borracha (em contraponto), de coruja com íngua, macabros, coçando suas candidíases os dedos gordos de poliéster cheios de sujeira, espuma vaginal, hipertrofia glandular, trottoir rangendo seus colares de tétano no pescoço sujo, seus cílios postiços que só franzem quando lembram os Deus-que-diga-quantos filhos abortados, cuspidos fora, gerações inteiras a agonizar na rotação de látex do tempo, será que estamos bastante suadas para ele hoje, bastante sujas, uma delas pergunta, Dejanira, a que não possui pernas (suicidou-se dois anos depois), mas comichões nos

65

pentelhos pruriginosos da virilha crespa, ruiva, convidativa aos micróbios (papilomavírus & câncer cervical), correndo em direção do meu pai, teu avô, com sandálias havaianas calçadas nas mãos com vitiligo, serelepe como um caranguejo dedilhando suas patinhas imundas no chão, melindrosa como uma lontra enlameada, um metronidazol, linfonodos dolorosos, ossos de patelas aracnoides a arrastá-la asquerosa no solo um ré de lisol sonoro de faca na banha da margarina ensebada, ela chega: não vai me querer hoje coronel, ela pergunta, esbaforida, o hálito uma mistura de fel e cortiça, de bolhas rompendo e se fundindo novamente, rompendo e se fundindo: micção, ele respondendo com um sorriso cínico – que nem que sim que nem que não que nem que sim que nem que não que nem que – sim: coronel, Neve, assim elas o chamam, os únicos trinta e cinco centímetros de neve que pegaremos nesse verão filha da puta, brinca outra delas, entre elas a mais fofoqueira, barulhenta, a mais nervosa ao falar com as mãos, Hipólita (com seus condilomas acuminados, nascida, vejam só, no Amazonas, chegou a ser rainha do carnaval amazonense por dois anos consecutivos), a iguaria finíssima entre as mulheres públicas dali, a única anã albina do Circe, banguela, por isso também a melhor boquete ding-dong do prostíbulo de nome grego, secreto, o pescoço gorduroso desenhado em dobras onde estagnam pequenas bolas de sebo e sudorese, os olhos sem pigmentação como se mortos, frios, pálidos-leucocitários, atrás do balcão Dona Polifema – o olho de vidro (esse de fato) morto, acidente com uma panela de pressão – manda todas circularem, ir circulando, rapidinho, garantirem sua janta porque chegou um dos poucos que prefere vocês, sim, ele chegou, o urso negro, geométrico, o esquisito, o inteligente e calado devorador de putas deformadas, o que é diferente de todos os demais da clientela (Baudelaire negro caçando sua prostituta de ébano), e elas correm em sua direção, em debandada inflamatória, atravessando o salão em bando de pássaros mórbidos, carniceiros, revoando ao redor dele, de ele que pensa palíndromos, anagramas, acrósticos, sorvendo da cerveja um gemido em srsrsrsrsrsr, algumas se recostam na parede em frente de sua mesa e são carnes expostas em açougue, rede sutil de sortilégios de carnes de segunda, rebotalho de banhas, salgando e ficando lá, salgando e ficando lá: silenciosas, digerindo a bílis negra de tinta óleo que lhes fermenta dentro (colo uterino e útero e tubas uterinas e ovários e reto), em pandemônio rindo daqueles risos falsos que são um

66

misto de asma com muxoxo, de líquida cretinice, sebácea, a parede agora um imenso painel do Canto III do Inferno, um sortimento de Cérberos a se escolher a dedo, tabes dorsalis, náuseas, pruridos, cefaleia, infecções no trato urinário, um homem à esquerda coça o lacre de suas sarnas de lã avermelhada os dedos sinistros enfiados na virilha úmida e rebuliça, mastiga, mastiga, mastiga, imagina comigo meu filho – os monstros tentando subir no Carro de Feno, os ânimos burlescos que têm, a asfixia, o violento coça-coça-coçar de suas unhas postiças quebradas sangrando o couro cabeludo infestado de caspas, de piolhos, ele sangra, os dedos voltam manchados, meu pai teu avô escolhe uma, Issa, a que não possui braços, a que preferia mulheres a homens, a mãe ingeriu talidomida para passar os enjoos, apenas as pernas lhe sobraram, mas são tortas, uma é maior que a outra, um estrabismo nas canelas oleosas fendidas por uma broca óssea, sim, ele a chama com um aceno, ela vem: um dois um dois um dois um dois, até que chega, gárgula abrupta, de perto parece um travesti, um catálogo de fantasmagorias, um sorriso quase tique mefistofélico ao canto do lábio, meu pai teu avô levanta-se da mesa, a acompanha, eles passam pelo homem à esquerda coçando sua sarna com as patas retráteis, coça como caçasse dáctilos, vasos linfáticos, a música segue alta, de péssimo gosto, uma eutanásia sonora e estridente, alguns casais já dançam na pista oleaginosa em coreografia de serpentes ensebadas, de girinos plastificados, trasgos, bactérias, giram a regerem no ar o vírus, o gonococo, a inflamação, o terçol, a estenose retal, chlamydia trachomatis e sífilis terciária cobrando suas vesículas, suas gomas, suas ulcerações, suas lesões ósseas, sua mucopurulência, o casal passa pelo banheiro onde homens aflitos verificam suas verrugas nos testículos, acham uma, duas, três, quatro: um cacho de uvas e carambolas, crista-de-galo, Dona Polifema ao corredor lhes cede (os dedos mórbidos esticados pingando) as chaves do quarto, número cinco, o V em formato de ovário entalhado ornamenta a porta, eles entram, meu pai teu avô bem que poderia abrir a porta, mas gosta de observar a Issa abrindo-a com a boca, os dentes fechados sobre o trinco com ferrugem, eles entram, ela a fecha do mesmo modo, Issa não possui braços, nunca dará adeus a ninguém, nunca aplaudirá nada, nada, sequer coçará as orelhas no instante em que meu pai teu avô a olha daquele jeito libidinoso metálico dentro deste quarto imaginado por nós como fedendo à água clorada, úmido, ela diz: já sei o que esse olhar quer me dizer coronel, mas

67

hoje, estou com aquele problema, as hemorroidas me atacaram mais uma vez, então... Sem o cu tu comes?

Nossa... Você diz as coisas de um jeito, pai... Quer dizer então que a Issa era a preferida do meu avô, ele perguntou, a voz remodulada em um timbre de doçura – linóleo no alumínio – talvez falso, e falso porque escondendo um desejo libidinoso, úmido, ainda não lido por mim, não identificado, visto tratar-se de uma ruptura quase ilegível nas entrelinhas de seus lábios, mas, não importa, doce ou falsamente doce, sua voz me despertava de um sonho, de uma alucinação, de uma representação eficaz de minha memória, quando disse: não era a preferida, mas uma de suas preferidas. E quais eram as outras (estava curioso como nunca, as pupilas dilatadas em espelhos refletindo inquéritos científicos, dúvidas, desejos, cada impulso luminoso protegido por um envoltório negro, escamoso, espectral) ele perguntou, abrindo um largo sorriso em seguida, sorriso sem som (mais impulso de afirmação do que tudo) mas que bem mostrava seus dentes brancos – ainda não amareleceram por conta do cigarro – em fileira de coluna fotorreceptora a refratar a luz pálida da – ainda inicial – tarde. Várias, várias, eu respondi, coçando as linhas crespas da minha barba felpuda, feito estivesse dando pouca atenção ao assunto, ou fizesse de conta que. Pausa.

“Mesas de frutas, cestas de café da manhã, decoração tropical, ligue até 24h30...”. “... pisca-pisca”. “A foto de uma mulher na praia, cheia de areia grudada no corpo, não me agrada muito. Clichê demais. Já com farinha: siiiiim... Há quanto tempo você está na Servir Bem para Servir Sempre, Seu Cavalcanti”? “... pisca-ponto”. “Talvez eu devesse contratar uma empregada doméstica de lá. Alguém com Bilocação, quem sabe”. “... pisca”. “Exatamente: duas pelo preço de uma”.

68

“... pisca-pisca-pisca”. “Um dos sócios da S&W era de lá, assim como o seu finado pai alcoólatra – não me leve a mal: que Deus o tenha na mais alta conta... Não: falo do Dr. Dee, tradutor de linguagem enóquia, hoje Gerente-Geral dos Mentecaptos do Setor de Imaginação da S... Ideias mirabolantes. Quer dizer: ele sempre tentou fugir da mulher na praia com areia grudada no corpo. E conseguia. Especialista na área de Convenções para Empresas, inventava coisas como simulações de viagens espaciais com direito a pouso de aeronave nos auditórios dos hotéis de onde saíam rechonchudos Diretores de Produção e Treinamento fantasiados de astronauta-crepom debaixo de fervorosa salva de palmas e de um coral esquelético de meninos e meninas de Ongs para crianças soropositivas cantando a versão em português para o tema do Mágico de Oz... Em seguida? A promoção de um almoço especial de abertura com o de-muito-gorda-a-porca-já-nãoanda-Milton-Nascimento ao fundo cantando seus maiores sucessos, todos duvidosos, e deixeme ver o quê mais...”. “... ponto”. “Alongamento no café da manhã, workshops com divertidos anões equilibristas, vacinação de funcionários, orações com sorridentes membros da prelazia católica Leopold-Von-Opus-DeiSacher-Masoch, todos trajando cilício sob as calcinhas de couro modelo Guido Crepax estampadas com a frase Use e abuse C&A, isso para não falar das atualizações das últimas da Convenção de Genebra e dos ambientes fechados tocando Quartetos em Fá Menor para incentivar o uso nobre do dinheiro, tudo com direito a jantar dançante na beira da piscina ao final, quando se brinca de empurrar estagiários na água e de dedada no cu de terceirizados, além da gostosa e saudável brincadeira de gozar dentro da boca de secretárias bilíngues – mas isso só para Gerência & Diretoria...”. “... pisca-pisca”. “Clássico imediato. Segundo Dr. Dee, suas ideias partiam de sua comunicação com os anjos, de forma que ninguém nunca se atreveu a contestá-las, não sem que ele logo dissesse: Madariatza das perifa Lil cabisa micaolazoda saanire caosago de fifia balzodizodarasa iada Nonuca gohulime, entendeu”?

69

“... ponto-ponto”. Ele (meu filho) manteve-se parado, quieto, como se renascendo em outro pensamento, um de lantejoula fosforescente, o olhar distante indo perder-se lá fora, lá entre os nós vertebrais amarrados nas costas de até onde a vista alcançar (meu filho porra), pensei em mudar de assunto então, em fazer mais um daqueles meus rodeios, intermináveis – sobretudo por uma questão de estilo – mas, não, na certa se cansaria, e decidi agora não mais cansá-lo, antes mantê-lo nas rédeas de minha imaginação, quando: havia a Astéria também... Astéria? Sim, na época em que conheceu teu avô trabalhava há pouco tempo no Circe, antes disso, era obrigada a entregar o lucro da ventilação vaginal a um gigolô que a agenciava, só que se cansou dessa exploração, levando dezessete facadas (ou mais) por conta desse cansaço. Nossa. Teu avô me contou que tinha tantas cicatrizes espalhadas pelo corpo que ficava difícil distinguir o seu umbigo, ou chakras, e que ela parecia uma rocha erodida, uma ilha sulcada, por conta disso... Era exatamente isso que eu ia te perguntar agora pai. Diga. Foi meu avô mesmo quem te contou todas essas histórias?

(Sim?) Penso em meu pai agora, o gótico, envolto em uma sombra longa imantada pela luz mortiça do final daquela tarde. Final de tarde, e a luz fria escorrendo através das frestas da janela fechada tinha dedos hidráulicos de cobre 29, meu pai (o próprio drama sem movimento), ele também imantado pela sombra, que imantada pela luz pontilhava seus contornos decalcados como uma córnea negra o envolvendo. A sala é feita de lembranças dispostas à revelia, ainda que ordenadas em blocos de lapsos de tempo detalhados, como a memória. A sala é a memória, da qual dispomos sem assim a sabê-la, em sua condição de sonho rememorado, para salvar o que está morto no espírito. Morto. Era enorme, negro, cerebral, o cachimbo aceso que segurando entre os dedos seu dobrar tenso tragava com força e lentidão de golpe, e eu criança daquele tamanho o achava maior ainda, maior, cada vez maior, tanto que minha impressão constante era a de que logo não caberia mais na quadrilateralidade daquele cômodo mal iluminado, onde estávamos, a sós. Tudo parecia enorme para mim, quando criança. Sobretudo meu pai, mas também a cadeira na qual me apoiava quando sofria os danos de meus ataques

70

súbitos de bronquite. De onde me encontrava respirando pesado, lento, difícil, a cadeira era um muro enorme, intransponível. Todas as manhãs minha mãe me colocava para secar ao sol, um Proust em miniatura secando ao sol como uma roupa mofada, um guarda-chuva, meus pulmões latejando portas-de-forno dentro de minhas costas desnudas, viradas de frente para o calor, secando. Mas naquele final de tarde não havia sol, a luz morrendo aos poucos, centímetro a centímetro deslocando-se, feito viesse calculando sua corrosão desde de manhã, meu pai sentado de frente para a mesa escrevia em seus papéis, silencioso e decorativo, como se ausentado dali adquirisse uma personalidade de exceção, uma que usasse apenas em suas horas vagas, e aquela era uma das horas vagas dele, a em que em específico penso agora. Cabala. Havia método em seu trabalho, esteticismo, rigor, a mão sempre conduzindo reto o câmbio ainda que escondido na visão aparente de desordem que suas páginas jogadas sobre a mesa denotavam. Muitos livros também – O Caso do Ataque Aéreo a Dieppe, A Chave Pictórica, O Pênis Perplexo, Boogie O Seboso – jogados, contribuindo para o caos suposto, disposto em figuras geométricas aleatórias, alguns abertos, feito cumprissem um programa de passagens sublinhadas (assim eu imagino), um caminho de palavras em negrito desobstruídas que ele ia traçando a lápis, o qual ora apontava, ora mastigava entre os dentes, feito quisesse apontá-lo duas vezes. Seu trabalho era sua afecção ainda não diagnosticada, seu mundo melodramático imune aos ruídos do outro mundo, este em que vivemos, e no qual ele também vivia, ainda que obrigado, ainda que só de segunda à sexta. Forno Crematório do Mundo. Eu o observava calado, sem atrito, do ponto em que estava aglutinando com os olhos todos os objetos da sala, decorando-os a meu modo feito soubesse que teria de me lembrar deles depois. Era como se sabendo que logo desapareceriam para sempre eu elaborasse o ressentimento de uma perda irreparável, válida para datas futuras, guardando as imagens dos objetos da sala e de meu pai como quem guarda a proximidade de tudo o que fosse anterior àquela queda antevista por mim. Desta forma eu estava, por assim dizer, anacrônico em relação ao tempo daquela sala, um informe que apresentasse erro de data, não coincidindo em nada com os relógios presos aos pulsos, pendurados na parede, tocando e tocando e tocando o uníssono maquinário de suas músicas estaladas, pontuais, todas atonais e fora de ritmo para meus ouvidos, deslocados. Caso

71

semelhante foi descrito no Medical Times de oito de julho de 1844: Alexis Didier, sensitivo francês, exercitando sua clarividência através da leitura do passado de determinados objetos simbólicos, mas enfim... Eu estava silencioso, e este é o ponto, e assim como minha mãe disse que deveria ficar sempre que meu pai estivesse trabalhando em casa. Só que meu silêncio traçava tangentes cada vez mais próximas de minha angústia, sim, uma angústia nascida da dúvida, da dúvida da falsificação, dúvida a qual eu esperava que ele me esclarecesse, assim que fosse possível. Além disso, meu silêncio originava-se no medo, medo de incomodá-lo em seu trabalho, temor de que se aborrecesse comigo, com minha pergunta, mas ainda mais medo de que sua resposta esclarecedora desfizesse o trabalho que eu trazia fechado entre os dedos assim como a fumaça de seu cachimbo desfazia-se no ar em círculos cada vez menores, que se apagavam cilíndricos. Espirais. Esperei pacientemente a tarde ir morrendo até o ponto onde toda a luz se extinguisse por completo, na esperança de que meu pai cessasse seu ofício por ali, porque sua vista doeria mediante o esforço de ler na escuridão, os olhos de petróleo latejando, cansados. Mas, bem mal a luz fosse engolida pelo centro nervoso da noite recém-chegada, meu pai resmungou algo em um dialeto obscuro, ininteligível, desencantado, esticando o braço esquerdo para modular a chave que acenderia a lâmpada. Uma nova luz, agora artificial, abria um guarda-chuva de fótons, de raízes quadradas luminosas, sobre ele, que continuou seu trabalho, que arregalando os olhos como se os acostumando à força àquele novo ambiente opaco seguiu carpindo aquela língua alienígena de resmungos iconográficos, feito a tivesse inventado ali, naquele exato segundo, musicalíssima. 5040. Sempre tive uma disposição de espírito para a paciência, o silêncio, de forma que me mantive lá, quieto, entre os objetos da sala o mais silencioso, o mais inexpressivo, uma mercadoria impessoal que quase nem respirava mais, os pulmões duas brânquias equiláteras suspensas no hiato de suas próprias membranas respiratórias, operando no mínimo, no mínimo, sim, no...

Pai, está tudo bem, ele perguntou, como se preso ao peso das próprias sílabas oscilasse a língua em um pêndulo asmático, o que aconteceu, perguntei, gemendo no lugar de falando, não menos asmático do que ele, não menos pausado, ambos acabados de sair de um inventário de

72

melancolias, você saiu do ar, ele disse, repetindo: do ar. Nossa, respondi, ainda que mais interjeição do que resposta: Projeção Astral na certa, completei... O que foi que você havia me perguntado antes, perguntei, revelando ao meu filho que a memória de seu pai nada mais era que um fracasso lastimável e definitivo (e que por isso mesmo necessitava ser remodelada pela imaginação) quando: nada, nada, ele devolveu, como se agora cúmplice de minha desmemória, não mais irritado ou fazendo pouco dela, mas cúmplice, construtor (junto comigo) de sua manipulação e farsa.

To lead a better life, I need my love to be here

Já te falei que quando garoto fui apaixonado pela minha prima, perguntei, e as letras da frase foram pássaros no não-uso de suas asas, em pleno voo, caindo todos de bico ante o peso paternal da gravidade, em arco velocíssimo, eles caíam. Não, acho que não, ele respondeu, lançando suas letras no mesmo círculo de queda das minhas, pois fui, respondi, uma paixão fulminante, de pré-adolescente, mas que guardo comigo até hoje, dentro de uma lembrança de cócegas no córtex cerebral. Você fala as coisas de um jeito pai... De um jeito como? Não sei explicar... Então, Evelise era belíssima, lembro da tarde em que a vi: loira, a pele branca como a prata, os olhos azuis modulando os tons do céu feito fosse um espelho não-euclidiano refletindo todas as variações cerúleas em uma única regra fixa – a de suas retinas – nossa, só de falar nela já fico assim. Assim como? Não sei explicar, mas posso dizer que me apaixonei por ela no dia em que a vi no clube, de biquíni, nós éramos crianças ainda, ela se preparava para pular na piscina, eu nunca a tinha vista sem camisa, nunca, embora já a considerasse como alguém que possui algo de especial desde muito antes, não importa: ela se aproximou da borda da piscina, era um daqueles domingos em que se reúne toda a família, você sabe, domingo estilo Valdir Calmon para tirar fotos, toda aquela hipocrisia, toda aquela sinfonia wagneriana – todos falando ao mesmo tempo – mas estavam afastados de nós, graças a Deus, próximos à piscina apenas eu e ela, o restante das crianças brincava no parque, que ficava em outra área do clube, uma coberta, afinal de contas, ninguém ali detinha a coragem necessária para pular na piscina em

73

uma manhã chuvosa como aquela, veja só você, eu sempre soube que ela era especial, que tinha um Q de alguma coisa a mais, parecia não se importar com a chuva, que dedilhava o espelho líquido da piscina feito tocasse um piano de cauda, vibrando e produzindo um som harmonioso de zinco arranhando (levemente) um clavicórdio, aquilo era uma música, e Evelise a bailarina deslizando em um sostenuto – já sei por que as bailarinas entram em cena sempre na ponta dos pés, é para não acordar as pessoas que as estão assistindo – pronta para saltar, da pauta para a água, quando puxou sua camisa e, pronto, eu estava apaixonado para sempre. E o que tinha de tão especial pai, debaixo daquela camisa, ele perguntou, na voz um timbre de concupiscência, não, não era o que tinha de especial, mas, exatamente o que ela não tinha, respondi. Como assim? Evelise não tinha umbigo meu filho, já imaginou uma coisa como essa? Ah, pai, eu não acredito, ele disse, desatando a rir, a rir, rir feito tivesse acabado de ouvir uma piada (e não foi isso realmente?), rindo, rindo pelo supetão matemático que toda boa piada proporciona, uma espécie de lógica aliada a um bom funcionamento buco-maxo-facial muscular, exatamente isso, mas: do que você está rindo, não sei onde está a graça (embora soubesse, assim o dizendo apenas para apimentar ainda mais a gargalhada não provocada intencionalmente por mim, o que juro). Onde está a graça, onde está a graça, pai, você, você narra uma cena como essa, cheia de meandros poéticos, eflúvios e quê tais, e termina com um: ela não tinha umbigo? Porra pai... E as risadas continuaram, flexíveis, constantes, um acorde demorado fremendo no ar, quando: e não tinha mesmo, e você sabe por acaso o que significa o fato de ela não possuir umbigo? Não, não sei não pai, diz aí. Trata-se de um símbolo meu filho, respondi, o cerne de uma visão alegórica, um tipo, digamos assim, de cicatriz de Ulisses, no sentido de que a ausência de seu umbigo representava uma marca perceptível à olho nu, indicando a sua origem. E qual era a origem dela pai? Da Evelise? Exatamente. Você sabe o que significa a palavra umbigo? Não pai, não sei. Ela tem sua origem no latim “umbilicus”, que é diminutivo de “umbo”, que tem o sentido de saliência arredondada em uma superfície qualquer. E daí, ele perguntou, sim, a voz novamente em um timbre de desdém (onde a cumplicidade agora?), e daí, e daí, e daí, perguntei em seguida, também desdenhoso, embora não fizesse a mínima ideia do que fosse dizer na sequência... Bem, você não acha interessante o fato de que uma palavra cujo significado original

74

era o de proeminência, ter evoluído semanticamente para designar hoje uma depressão anatômica, como, por exemplo, uma cicatriz umbilical? Não pai, não acho interessante, acho engraçado, ele respondeu, gargalhando novamente, alto, sonoro, não tive como dizer de outro jeito: você está subestimando a importância do umbigo, meu filho (essa foi demais, acho) . Eu estou o quê pai, ele perguntou, pai, porra, nossa, olha: para mim umbigo só servia para acumular sujeira, ele disse, só se for o seu, que não deve ser lavado diariamente, o que é muito pouco higiênico, respondi, a língua ferina, metálica, sacada para ferir diretamente do coldre de couro, quando: olha só quem está falando de higiene, ele disse (não, não posso deixar a conversa retornar ao velho assunto do asseio da casa). Filho, observe só um fato: nos grandes clássicos da antiguidade (eis o ás escondido na manga da camisa) a palavra “umbigo” significava tanto o local de inserção do cordão umbilical quanto o próprio cordão, percebe? Não, e o que isso tem a ver com tudo? (É verdade: o quê?)... Pois saiba você então de uma vez por todas que... Na Ilíada (royal flush), Homero usou o termo para indicar a cicatriz umbilical... Assim como em seu livro sétimo, Polimnia, Heródoto (uma segunda mão: quadra). Mas pai... Escute só: Hipócrates, Sorano e Galeno, contudo, empregaram o termo para indicar apenas o cordão, e do mesmo modo Celsus, que referiu-se a umbilicus apenas no sentido restrito de cordão umbilical (straight flush), entende, Omphalos filho, a ilha de Calipso para Odisseu... Pai, pai, o que você está querendo dizer com tudo isso? Estou apenas dizendo que o umbigo é um símbolo, filho, só isso, ele representa o elo biológico que liga a mãe ao filho, expressando assim a relação de dependência entre uma vida e outra, no nosso subconsciente, o umbigo é a metáfora da vinculação do ser vivo com o mundo exterior, além de ser identificado como o centro do corpo. Mas (não, não permita, adiante-se à ele)... Estou apenas dizendo que Evelise àquela manhã me deixou estupefato filho, sem saber o que dizer, ou o que pensar, ela não tinha umbigo, merda, você não consegue enxergar isso, não tem imaginação... É preciso imaginação para ser um escritor... Tudo bem, agora vamos discutir literatura então, ele devolveu, como se realmente magoado pela minha afirmação, tentei consertar: você tem imaginação filho, eu é que falo demais, desculpe, entupo você com todas essas imagens, com toda esta falsa erudição, nossa, só queria dizer que fiquei desconcertado, só isso, afinal de contas, não é lá muito comum as

75

pessoas nascerem sem umbigo, a maioria das pessoas o tem, creio eu, e apenas posso crer, já que, droga, eu que não vou ficar pedindo para olhar o umbigo ou o não-umbigo de seu ninguém, de qualquer um, apenas creio que isso seja uma exceção, não uma regra. Sei, sei, ele disse, tudo bem pai, olha, imagino mesmo que deva ter sido um susto, ele completou. E de fato foi, mas o pior talvez tenha sido ficar pensando sobre isso, sabe, ali, próximo da piscina, vendo Evelise mergulhar, nadar, um visão única, privilegiada, enquanto imaginava que talvez ela não tivesse nascido, não da forma usual pelo menos, e como então, eu me perguntava, interpretando meus pensamentos como uma aberração teológica, então ela é um anjo, essa a pergunta que me fazia, ou um demônio, ou Eva, e se ela é Eva então sou Adão, sim, sou Adão – veja, eu já a amava – porque primeiro foi formado Adão, depois Eva, mas (eu me dizia) como? Não tenho umbigo, eu me perguntava, sim, tenho umbigo – disse para mim novamente ao constatá-lo com os dedos – nossa, eu suspirava, pensava em mim, em Evelise, pensava no apóstolo Paulo, o inspirado que certa vez disse: de um só se fez todas as raças dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, imagine só comigo meu filho: O Único Concebido, quer dizer, aquilo tudo era um mistério para mim, Corpus Hermeticum, Fabre des Essarts poeta e animador da Igreja Gnóstica, esta é a questão, o enigma, o drama, um estudo da própria tragédia inerente ao Homem, e eu fui Adão ali, porra, à beira daquela piscina, daquele abismo, que era uma espécie de Diagrama Hermético de Robert Fludd, enfim: Adão, Adão, o próprio, o feito do pó do solo, observando minha Eva nadar e nadar e nadar... Era como se tocasse Banho de Lua, entende? Como se de repente eu houvesse decifrado toda a tabuada de Teobaldo Miranda enquanto a observava ali, totalmente alheia às minhas reflexões: minha Eva minha costela: têm de tornar-se uma só carne, era o que se repetia dentro de mim, têm de tornar-se uma só carne, feito entoasse um mantra, feito vivesse ainda sob as determinações de Deus, de Deus o Barro Primeiro, a primeira Vértebra a dar sustentação ao mundo, Vértebra Originária, nossa, veja como já estou prolixo novamente... E ela? O que tem ela? Você algum dia chegou a dizer a ela tudo isso o que está me contando? Não, não tive coragem. Sei. Nós éramos primos filho, e eu não gostaria que nenhum filho meu nascesse com retinose pigmentar, ou qualquer outra doença genética degenerativa dessas. Tudo bem pai. Ironia do destino ou não, quando ela casou com um namorado dos

76

tempos da escola – um desgraçado filho da mãe que ganhara certa vez uma capa de toureiro das mãos do próprio Mazzaropi como prêmio de melhor cantor em um concurso de circo no qual se apresentou com a Porta Aberta de Vicente Celestino – fui eu quem a levou ao altar. Nossa, pai. Imagine só: levar para o altar a mulher que você mais amava no mundo. Realmente... Já te contei que logo depois deste incidente na piscina eu escrevi um poema para ela? Não, acho que não. Bem, na verdade eu não o escrevi de fato, digamos que o tomei emprestado de uns versos que li no Paraíso Perdido, de John Milton. Já ouviu falar dele?

(Não?) Mantive meu silêncio durante algumas horas ainda, um asterisco escondido ao canto da página, mudo, quieto, quase não existindo (terceiro movimento da sonata Opus 111, de Beethoven), minha mãe da cozinha acenava para eu ir jantar, mas não fui, não conseguiria sair dali nem se quisesse, a dúvida ainda clicando em minha mente todos os centros motores me mantinha estático, disposto a esperar mais, imerso na ilusão de crianças que observam o pai como observassem um padrão exemplar, rigoroso, a ser seguido, comigo a impressão de que esperaria durante a noite inteira, se fosse preciso, o momento certo de poder falar com ele, de perguntá-lo, o papel enfiado entre os dedos, nervosos, na verdade eu me beneficiava da dúvida, assim como os filósofos – e todas as crianças não são um? – ou os anatomistas da alma, e eu fui um ali, esperando por meu pai, na medida em que desautorizava qualquer verdade universal, qualquer resposta fácil para minha questão, um filósofo desde cedo, e não um poeta, embora o que tivesse na mão fosse um poema, versos, e não um tratado sobre o raciocínio dedutivo, um poema, nada menos que isso, e ainda que – em minha condição de filósofo – desautorizasse aqueles que falam em nome do Desconhecido, ou seja, os poetas, os portadores do oráculo, os fabuladores, sofistas, visionários, pregadores da fé e da obediência, eu não era menos do que isso, do que um deles, portanto agindo contra mim mesmo, sim, me desautorizando também, desta forma, dentro do negro canto em que me encontrava, observando tudo calmamente, sem participar de nada, sem usufruir, assim o digo, das vantagens do reconhecimento do que há de fundamental na perda, na perda de tudo o que ali me rodeava, sobretudo o poema, o qual temia que desaparecesse à mera menção do seu conteúdo.

77

E quem não ouviu falar pai, ele respondeu, o nariz não empinado, mas apontando para mim seu ângulo oblíquo, seu soslaio nasal, foi o poeta da redenção, do messianismo, acreditava que o Paraíso Perdido era mesmo aqui na terra, e não nos céus, ele complementou, como se para me convencer de que conhecia mesmo, e continuou: para Milton, Deus havia criado a terra para ser uma dádiva ao Homem, um lar paradisíaco para a humanidade, só que este sentido foi se perdendo, você sabe, os homens sempre estragam tudo, mas o que o poeta afirmava era que este sentido primitivo e, digamos assim, mágico, poderia ser recuperado por um redentor, um messias, que premiaria a multidão dos justos, em suma: era um coroinha esse John Milton, prefiro o Dante. (Disse isso e se calou, a expressão no rosto angélico-luciferino demonstrava satisfação, a mesma que sente uma enciclopédia ao ser folheada por um analfabeto). Então (decidi continuar)... Teu avô tinha uma edição antiga do Paraíso Perdido, e quando eu voltei para casa depois daquela tarde no clube, fiquei dedilhando os livros de sua estante (ainda que isso me fosse expressamente proibido por minha mãe), um movimento que me mantivesse imerso, entende, atado às minhas lembranças, apenas isso, imerso e atado e pensando em Evelise, na verdade, aquela estante repleta de livros nunca me foi indiferente, não, eu sempre a via lá, com curiosidade, mas naquela tarde em específico, fiquei dedilhando seus livros como quem toca delicado um instrumento, retirando dele melancolia, tristeza, satisfação momentânea. Quando enfim decidi retirar um volume da prateleira para folheá-lo, não sei se por mera curiosidade ou não, advinha qual o que me veio à mão? Não sei, deixe-me ver... Paraíso Perdido, ele perguntou, em seu desdém habitual há pouco extinto mas agora retornando mais vivo, mais malicioso, mas: exatamente, respondi, decidido a não ceder um milímetro que fosse, Paraíso Perdido, você está certo – de certa forma até ironizando seu próprio desdém – foi o Paraíso Perdido o livro que me veio à mão, o Paraíso Perdido, exatamente isso... O disco arranhou, pai? Não, só estou dizendo que você está correto, corretíssimo, que acertou em cheio, enfim: livro em mãos, folheei-o aleatoriamente, tocando suas páginas feito tocasse lâminas, acho que antes nunca havia pegado um livro assim nas mãos, não lembro, acho que não, havia algo de severo naquele livro, algo que parecia desdobrar-se no tempo em reflexões atemporais,

78

as quais não entendia sequer uma vírgula, uma pausa, mas não importava, estava ali pelo simples prazer de tocá-lo, de: estava escrito em português pai, ele perguntou, menos desdenhoso do que antes, é certo, movendo seus cílios negros como se para espantar moscas em sentido horário, sim, eu respondi, era uma tradução para o português, salvo engano feita pelo Antônio José Lima Leitão, mas, não importa, afinal de contas, o grande tradutor opera no invisível, no anonimato, os grandes tradutores são aqueles que não são citados, o que significa dizer que seu trabalho foi bem feito, que ele apagou-se, e apagou-se por completo, engolido pela elipse graças à sua eficiência em dar voz ao outro, ao autor do original, então você está me dizendo que o trabalho do Lima Leitão não foi bom, ele perguntou, não, não estou dizendo isso, respondi, sim, porque se ele foi citado por você... Ah, filho, não vamos entrar em detalhes, não tenho nem meios de julgar qualquer tradução que seja, lembrei por lembrar, merda, deve ser difícil não é? O quê? O ofício da tradução literária. Imagine, você é um tradutor, está traduzindo um autor que admira, quer ser fiel aquilo que ele está dizendo, fiel à autoridade daquelas palavras, quer apagar-se por completo na exata inversa proporção em que deseja que o autor brilhe, brilhe e brilhe no esplendor da unidade acabada, então você pensa: sem o resultado dessa regra de três não há tradução literária que se preze, pois bem, o problema é que isto é quase impossível – você, o tradutor, resmunga: – é quase impossível, já que não existe a mínima possibilidade de se imprimir em sua língua toda a riqueza do texto escrito originalmente em uma língua alienígena à sua, não, não há, afinal de contas, as arestas das diferenças entre as línguas são muitas, várias, todas afiadas, e sem essa possibilidade, porra, todo o seu empenho, droga, todo o seu trabalho está, inadiavelmente, fadado ao fracasso, ao logro, à falsificação, não adiantando em nada o tradutor – você – se colocar em segundo plano, visto que o reconhecimento da autoridade do outro mais cedo ou mais tarde esbarrará na afirmação do tradutor como pessoa, pessoa que lê e interpreta aqueles símbolos todos dispostos, nossa, então o tradutor fica ali, perdido, fechado em um sistema concatenado de falhas de proporções onde duas grandezas inversamente proporcionais variam em razões diferentes, ambas girando em torno do nada, do vácuo, espremidas no cálculo de um gráfico polissêmico torto, esquisito, gráfico o qual Leonardo de Pisa não descreveu em seu O Livro do Ábaco...

79

In the town where I was born

“Junho, mês dos namorados no motel Cê que sabe: promoção: almoço executivo ou caldo de piranha na madrugada...”. “Reza a lenda que Sousândrade, também helenista, tinha um caralho com, digamos assim, enfoque”. “Maior que o de Dioscuros Pigmalião? Duvido”. “Mas, voltando ao assunto: Montalban...”. “Não: falávamos da O.G.”. “Os malditos nazistas... Chuck-a-luck é um bom filme, mas, quem se importa? A única contribuição considerável que os nazistas legaram ao mundo foi a invenção da contagem regressiva, descoberta por Fritz Lang no filme Frau im Mond”. “Lang não era nazista”. “Mas Metropolis era o filme preferido do Hitler-de-um-ovo-só. A eterna batalha entre ciência moderna e ocultismo medieval. Você não entende não é? Das Kabinett des Doktor Caligari, OSS, J.J. Oppenhaimer, Água Pesada e Los Alamos: tudo está intricado”. “No quê”? “Em três ou quatro modos diferentes de...”. “A contagem regressiva foi mesmo descoberta por Lang”? “Graças à consultoria de Hermann Oberth e Willy Ley, dois especialistas em astronáutica que acompanhavam as filmagens. O Pigmalião a usava muito quando se divertindo com sua sedosa bomba de alargamento peniano. Que homem. E não apenas a contagem regressiva foi antecipada por Lang no Frau im Mond: mas o ambiente de gravidade zero, os estágios de lançamento de um foguete, tanto que os nazistas chegaram a confiscar o filme, temendo a divulgação de segredos científicos-militares relativos às bombas V2”. “Nossa”.

80

Pai, pai, sem mais digressões, por favor, isso cansa para caralho, além do mais, é muito pouco recomendável, ele disse, parecendo na hora um editor mutilando as páginas de um romance extenso, sim, exatamente como um (preciso marcar esse anúncio, é fabuloso: O mundo gira... E a Quero Você enterrando desde 1922), continuei: tudo bem... Mas: qual era mesmo o ponto principal da conversa? Nossa, pai... Tudo bem, tudo bem, adiantei-me em dizer, já lembrei, falávamos do Paraíso Perdido, certo? Exatamente. Então, fiquei folheando o livro por algum tempo, não sei precisar quanto, já que quando se está mergulhado em uma leitura o fator tempo deixa de existir, de importar, enfim, Deus, fiquei lendo um ou outro daqueles versos estranhos, melodiosos, que versavam sobre o anjo rebelde, Satã (em seus olhos se hospedam tédio e morte), bem como sobre sua inexorável derrota, aquilo, meu filho, era uma longa enumeração de demônios (pandemonium) proclamando a glória de terem tentado a Alta Empresa, discutindo em concílios infernais onde as paixões se agitavam, exacerbadas, Satanás anunciando o tema da discussão (nunca me esqueci dessa parte), que era o de que continuassem firmes em seu propósito de prolongar a luta contra Deus, Deus, guerra aberta, ele gritava, nos lábios de cobalto impresso ainda o sabor da derrota, uma nova guerra, mais aberta, mais clara, mais violenta, mais, pai, pai, ele gritou, tudo bem, eu disse, o que estou querendo dizer é que o trecho que mais me impressionou foi o em que aparecem pela primeira vez Adão e Eva, ou seja: eu e Evelise, que levavam (levávamos) uma esplêndida vida nos jardins do Éden. Acontece que Satanás os (nos) espreitava com raiva, inveja, mordido realmente, tanto que decide balançar o coreto um pouco, entrando em contato com Eva através de um sonho, e, ele perguntou, e, visivelmente chateado (agora), tudo bem, respondi... Adam vero veniet ad Evam moleste ferens quod cum ea locutus sit Diabolus et dicei ei... Só queria dizer que foi este o trecho exato do poema de onde colhi uns versos, não lembro bem quais, recordo apenas que havia em um dos versos uma frase belíssima de Eva (Evelise), que, referindo-se a Adão (eu), dizia: contigo conversando, esqueço-me de todo o tempo, e eu achei a frase de uma beleza tão extrema, tão delicada, não sei dizer o porquê, recordo apenas de ter copiado quatro ou cinco versos daqueles, em um dos quais a frase estava escrita, os copiando para que me inspirassem, entende, me inspirassem a escrever um poema, sim, e advinha só para quem?

81

(Quem?) Talvez imerso demais em seu trabalho ele sequer me notasse, feito um médico compenetrado a retalhar um corpo no anfiteatro da dissecação, mas, não importa, certo era que eu permaneceria ali o tempo que fosse preciso, o esperando. Ele lia silenciosamente cada página daquela jogada sobre a mesa, os olhos correndo linha por linha em seu exame não linear como decifrassem códices, exigissem critérios, fosse a página que fosse o seu método era o mesmo, seu rosto sem expressão (gesso de máscara mortuária), nem respirar parecia mais, o cachimbo enfiado na boca uma ponte a lhe continuar a língua levemente móvel, a mente bicameral com um dos hemisférios funcionando mais que o outro, o hemisfério da leitura muda, onde em seu mutismo exercitado se mastigam as palavras como pólens sonoros, essenciais, não compartilhados em sua revelação do texto, leitura pelo prazer individual em se degustar os sons de baixíssima frequência, apenas isso. Nada o retirava de sua aura de ouvinte de si mesmo, ou de ouvinte de outro (lia Melville?) não sei ao certo se ouvinte de ele mesmo ou se do ausente autor das palavras que lia, não posso afirmar isso com certeza aqui: em que ponto ambas as vozes misturavam-se, confundiam-se, não posso, afirmo apenas que lia, que escrevia, e que lia novamente, e que novamente escrevia, e que lia páginas soltas com anotações suas e de outros, e que lia livros diversos, antigos, novos, com ou sem capa, funcionando em sua cosmogonia como se sequer se importasse com a luz mortiça da sala dificultando sua leitura, seu autoritarismo intelectual, sem descansar um só instante, um só instante, agindo assim como se a vida fosse justa, feito fosse receber uma recompensa por isso (como a que Goethe imaginou para Fausto), como se conseguisse (e estivesse de fato) renomea(r)(ndo) o mundo. E eu seguia afinando com ele o mesmo silêncio, a mesma seriedade, o papel com o poema dobrado entre os dedos, apenas insinuando que eu estava ali, à sua espera, harmonizando com ele, ainda que nem tivesse notado minha presença até então. Existíamos no mesmo espaço, isto o que nos unia, além do fato de ambos estarem decifrando algo, um algo coberto por um húmus decorrente de páginas amarelecidas de códigos embaralhados, sem agrupamento de sentido, quando: o que você está fazendo aí menino? Está aí parado há quanto tempo?

82

Para a Evelise é claro, ele afirmou, o fôlego entrecortado pela fumaça do terceiro cigarro recémaceso esta tarde, sim, para a Evelise, respondi, esperando para ouvir o que me diria em seguida (e como não dissesse nada) até que: sabe, esse poema que escrevi, fiquei confuso por sua causa, tanto que depois de tê-lo, entre aspas: escrito, passei uma tarde inteira esperando por uma oportunidade de falar com meu pai, teu avô, sobre ele, você entende, estava com uma dúvida medonha e esperava que o velho pudesse me esclarecer algo. E que dúvida você tinha? Não era bem uma dúvida, eu disse, antes um pudor com o poema que acabara de, entre aspas: escrever... Pai, por que você fica repetindo isso? Isso o quê? Esse “entre aspas”. Espere um pouco, já vou explicar. Sei, ele respondeu, o cigarro enfiado entre os lábios lhe dificultando a saída do sei, as pálpebras erguidas com uma firmeza desnecessária ao final do sei, feito estivesse se preparando para mais uma de minhas digressões, e desta forma se preparasse para enfrentá-las: as pálpebras erguidas, um cigarro entre os lábios, no rosto a expressão fulgurante e estúpida de quem se arma para o combate, sim, este aí é meu filho, O Cartum, que tem em relação ao pai sentimentos tão volúveis, tão contraditórios, ora oscilando entre o silêncio e a antipatia, ora entre a curiosidade e a aversão, feito voltasse para casa cheio de referências, de intuições, de manias tão estranhas quanto esta de me olhar às vezes de soslaio como se interrompido por mim em sua leitura silenciosa marcasse com o dedo indicador a página ímpar onde havia parado para pacientemente me fitar com aquela expressão falsa de quem estava lendo um livro e o fechou apenas para ouvir a coisa tão importante que você teria a dizer acerca do mundo, merda, não sei de onde parte toda essa sua animosidade, o jeito como me olha às vezes, como se eu tivesse dois cornos despontando trançados da testa, trançados em X, com diversos escapulários pendurados em suas extremidades, é deprimente observá-lo quando se encontra neste tipo de posição de defesa, arrogante (Chesterton e sua capa) de onde não arreda o pé enquanto não lhe diga o que quer saber, o que acabou de perguntar, tudo tão falso, tão artificial, tão sem necessidade alguma que às vezes fico pensando se a necessidade realmente não existiria, talvez, talvez ela exista, e apenas eu não a enxergue, sim, ela deve estar em algum lugar, correndo em alguma história paralela a esta, a este tempo presente em que estamos aqui, na sala, onde há pouco meu filho acabou de entrar, logo depois de ter lavado os pratos como sempre faz e vem fazendo, uma

83

atitude mecânica, cronológica, estudada, feito viesse à casa de seu pai apenas para fazer uma pesquisa, pesquisa que requeira métodos bem específicos, tão específicos quanto este, este de ficar me reprovando vez ou outra, como fosse prazeroso para ele fazer isso, muito prazeroso, tão prazeroso quanto coçar a sarna da língua. Tudo bem, vou te responder então, eu disse.

(Quando?) A voz de meu pai soou súbita e anasalada e grave (compressor de notas roucas) o que me assustou um pouco ao estalar assim metálica e de repente (no ar), mas não o incomodei em nada, disse para mim mesmo ali, assustado, apreensivo, permaneci quieto o tempo todo, disso tenho certeza, completei, quando: o que você quer, ele perguntou, os dedos esfregando nervosos os olhos como quisesse enxugá-los, ou acendê-los, mas, já estavam enxutos, acesos, levemente oleosos, talvez apenas um pouco cansados de tanto ler no escuro. E então, ele resmungou, inclinando-se em minha direção de um jeito ameaçador, fatídico, Torre de Pisa inexorável prestes a desabar, nada não pai, respondi, dando dois passos para trás, assim como Augusto dos Anjos na ponte Buarque de Macedo: dois passos, meus passos duas vírgulas tímidas, curtas, tremulando em seus espaços na linha, tênues, as mãos suando um suor granuloso, vítreo, o papel com o poema fechado ainda mais entre os dedos magros porque agora eu o queria escondido, sim, não havia mais necessidade de mostrá-lo, eu pensei, amedrontado, quando: o que é esse papel aí, ele perguntou, e no mesmo instante o retirava da minha mão com uma rapidez e facilidade sem precedentes. Um poema, ele disse espantado, ao ler os garranchos escritos no papel amassado e úmido pelo suor que me brotava das palmas, sim, balbuciei temeroso: um poema. Nossa, eu estava quase aflito, quase desesperado, sem saber o que esperar – a respiração presa. Certo, deixe-me ver (e coçou a cabeça gigantesca com a ponta dos dedos de tétano feito quisesse conciliar as múltiplas dúvidas implicadas na existência daquele poema extraído abruptamente da mão de seu filho de nove anos)... De onde você tirou isso, ele perguntou (e as sobrancelhas grossas levantaram-se feito fossem trotar), na certa andou mexendo nos meus livros não foi, ou vai querer me dizer agora que virou poeta, que foi você quem o escreveu, ele disse, aproximando-se ainda mais de mim, de mim que pensava: se disser que mexi em sua estante de livros estou ferrado, e durante todo o tempo em que o esperei havia

84

esquecido desse pequeno detalhe. Mas ferrado por que pai, perguntou de súbito meu filho, que me observava paciente como a um linotipista cego compondo um léxico ao catar vagaroso suas letras no teclado, ora porquê, eu devolvi, ora porquê, porquê, porquê... Se não era essa uma das mais expressas ordens de nossa mãe, a de não mexer em hipótese nenhuma na estante de livros de nosso pai, veja bem, ele nutria um ciúme danado por eles, faziam parte do seu trabalho, de sua Pesquisa com o Número, entende, lembra, todos aqueles livros, enfim... Mas então... O que você queria que eu fizesse? Não tive alternativa a não ser afirmar que o poema era meu, na esperança de que meu pai sequer lembrasse aquela passagem em específico do Paraíso Perdido. (Olhe para ele agora: imerso novamente em um bolsão de dúvidas, o cabelo completamente desgrenhado, as sobrancelhas que ora tocam-se ora retornam para sua horizontalidade natural, escura, gesto movendo-se de acordo com sua respiração às vezes presa, às vezes curta e cautelosa, agora velocíssima como se rabiscada de giz em um quadro próprio para este uso. Será que pensava realmente que eu havia escrito o poema?). Então o poema não foi escrito por você pai, ele perguntou, com uma afabilidade morosa, lenta, de mormaço claudicante, é claro que não foi, respondi... Bem, de fato acho que foi, sim, mas: em parte. Como assim? Você sabe: entre aspas... Lá vem você com esse “entre aspas” novamente pai, ele disse, a expressão fixa e fria de uma espinha dorsal, quando: filho, quando eu digo entre aspas só estou querendo dizer que escrevi o poema, mas... Quê? Que o escrevi... Pai? Como vou dizer... Não enrola, pai... Com as mesmas palavras do autor, entende? Não, não entendo, ele respondeu, jogando a cabeça para trás na intenção de estralar o pescoço krék krék krék, o que conseguiu, não sei, talvez estivesse naquela posição há bastante tempo, o que lhe facilitou estalá-lo em um único movimento brusco que, confesso, me deu um susto daqueles, além de me ter feito perceber pela primeira vez na tarde o enorme caroço pontudo que lhe sobe-descia na garganta a (creio) todo o instante, um sobe-descer de elevador, de cuco, de pêndulo ao contrário, quando resolvi brincar um pouco com isso: o que à Evelise faltava em umbigo a você sobra em pomo de adão, não é mesmo filho, disse a ele em tom jocoso, para levemente quebrar a animosidade que mais uma vez voltava a ser o tom de nossa conversa, só que: pai, o poema pai... Tudo bem, eu respondi, o poema... Então, tive que sustentar até o fim a tese inicial de que havia sido eu mesmo quem havia escrito

85

o poema, mas, nossa, como foi difícil. De início meu pai não acreditou muito naquilo, mas como, ele se perguntava, não é possível, ele mesmo respondia, encetando seu monólogo exasperado, nove anos você só tem nove anos, ele repetia, enquanto dedilhava seus livros na estante na intenção de verificar (assim eu acreditava) se não faltava nenhum realmente, ou se estavam todos em ordem, o que por sorte deveriam estar, já que imediatamente recordei que havia posto o Milton no exato cantinho que lhe pertencia (graças a Deus) na estante, e meu pai lá, passando uma olhadela em todos, esbravejando, dedilhando-os rápido, vez ou outra olhando para o papel em sua mão, sim, vez ou outra o lendo novamente (não sei como conseguia decifrar os meus garranchos) feito fizesse um esforço tremendo para lembrar se aquele poema parecia-se com alguma passagem qualquer de alguns dos seus livros ali dispostos e, veja bem, todos dispostos aparentemente na ordem estabelecida por ele, ordem a qual não me pergunte nada a respeito, pois adianto que não saberia responder, já que pareciam não obedecer a nenhuma, os livros, pelo menos a nenhuma ordem cronológica, ou alfabética, enfim, a ordem sob a qual se enfileiravam na certa atendia a uma disposição interna imposta por meu pai, sim, por ele que bufava pelas narinas um óleo taurino, de cólera, quando minha mãe saiu da cozinha para ver o que era aquele espalhafato todo: é esse menino Lara, que anda mexendo nos meus livros, assim disse meu pai, as veias pulsando na garganta como se em uma estufa de vidro se debatessem sanguíneas, estilhaçadas, e que livro ele pegou, perguntou minha mãe, o pano de prato amarrado na cintura, úmido, com frutas sorridentes desenhadas em relevo, não sei, respondeu meu pai, depois de uma breve pausa, e apenas para calar-se novamente em seguida, pronto, na certa não querendo entrar em detalhes por orgulho, por não querer admitir que sua memória já ali começava a falhar, a falhar, sim, de que livro ele extraiu esse trecho de poema, na certa ele se perguntava, sem contudo obter nenhuma resposta, droga, não deve ter pegado nenhum Lara, ele disse, depois do seu segundo mergulho no mutismo, talvez eu tenha me enganado, ele completou, devolvendo a contragosto o poema às minhas mãos: silencioso pela terceira vez, vencido pela primeira (sobretudo por seu orgulho), vamos jantar senhor Leds Gaetano, disse minha mãe ao meu pai, você está cansado, ela completou, sim, sim, cansado, murmurou entre os

86

lábios o velho mouro agora curvado, agora vencido, que ao passar por mim ainda disse (resmungando): bom trabalho meu filho. Um bom trabalho realmente.

She said I know what it’s like to be dead

“Funerária Vai que é Tua: Paraíso... Mas, não se apresse: temos plantão...”. “A Shiting and Walking inventa cada uma. Muito aço essa”. “E o livro? Como é mesmo o...”. “Um Estranho em Benjamin Constant. O arco narrativo – boa – se concentra em um boato popular de que Che Guevara, depois de ter saído de Cuba em 1965, apareceu em Benjamin Constant, cidade localizada a oeste do Estado do Amazonas, na fronteira com a Colômbia e o Peru. Isso depois do Congo e da Bolívia, quer dizer: por volta de 196...”. Recordo Branco as mãos oblíquas quando falava; a inescrutabilidade tranqüila de seu rosto em formato bodoque; os sapatos sempre cambaios, sujos de lama – chapéu de palha de barqueiro e camiseta da Glass Onion completavam o traje. Gostava de dizer que a vida não passava de uma tragédia envolvendo nomes esquisitos. “... Nils Björnstrand, Gunnar Funkquist, em suma: todos tarados pelo Djävulens Öga”. O hálito era de algum tipo de vinho envelhecido em meias coloridas. Tosse crucial de cachorro tuberculoso vez ou outra lhe cortava as reticências. Todo o dinheiro arrecadado com a venda do livro foi para o Bordel das Beldades Aposentadas. “As pessoas da cidade o chamavam de Russo. Pensavam se tratar de um mendigo. Até que começou a liderar uma rebelião dos índios ticunas contra a polícia militar local. Além disso, seduziu uma bela e inteligente moça de família – viciada em borra de cocaína – e trocou com um marceneiro uma carabina .30 semi-automática por um batelão. Um gênio. Mas até hoje não se sabe se o Russo era de fato o Guevara ou não. Ficou a lenda. A Fraude”. “E onde meu filho se encaixa nisso”? “Na Fraude”. “Certo”.

87

Ainda estou boiando, pai, ele disse, voltando a passar os dedos sobre o couro sujo (e sem botões) do sofá (um movimento talvez imaginado por ele como indutor de raciocínio, não sei ao certo) a produzir um ruído estranho de crepom (prata) crepitando no fogo, quando: pois vou explicar a você: meu pai não teve alternativa, além da de deixar passar dessa vez, sabe, não queria admitir que não recordava de onde eu havia retirado aquele poema, um homem orgulhoso demais, não foi por menos que morreu de câncer na próstata, como o Zappa... Minutos depois e minha mãe saía da cozinha para me chamar para comer, antes disso, porém, me pediu para ler o poema, droga, poema que ainda se encontrava trancado entre meus dedos trêmulos e, o que eu iria dizer, que desculpa daria? Deixei que lesse. Ela ficou orgulhosa, como qualquer mãe ficaria, acariciando minha cabeça com o veludo de sua mão leve, frágil, pálida, mão de fada mesmo, deslizando enquanto dizia: meu filho, nove anos, um poeta. E? Calma: entramos na cozinha, meu pai comeu silencioso durante todo o jantar, um engenho de rancores roendo dentro, derrotado, os olhos voltados para baixo escuros pareciam de chumbo, mortos: dois guardachuvas fechados, negros, esquecidos atrás da porta do banheiro, nossa, e aquelas duas frases, sabe, me ferindo por dentro, por dentro entende, ecoando dentro de mim sua trituração de remorsos, de arrependimento. Que frases, pai, ele perguntou, os dedos ainda tecendo caligrafias ruidosas sobre o couro sujo sobre o qual sentávamos: Bom trabalho meu filho e meu filho, nove anos, um poeta, sim, afinal de contas, aquele poema não havia sido de fato escrito por mim, sabe, ou seja: meu trabalho inteiro foi o de apenas reescrevê-lo, entende, quer dizer, tudo o que eu fiz foi tão somente dizer com outras palavras aquilo que o John Milton já havia dito séculos atrás. Entendo, ele respondeu, feito agora modelasse suas palavras para meus ouvidos, suaves, decorativas, quando: por isso o “entre aspas”, ele perguntou, a frase agora bem mais acolchoada, agora bem mais convidativa, bailarina envolta em seda, estávamos finalmente nos entendendo bem. Exatamente, respondi, e agora pensando com calma, talvez tenha sido por isso que meu pai não tenha recordado aquele trecho, quer dizer, o meu plágio talvez tenha ficado praticamente perfeito. O que em si já é um grande feito para um menino de nove anos você não acha, assim disse meu filho a sua frase, a pequena frase que por si só já me encheu de esperança, de alegria,

88

da esperança de que finalmente eu o houvesse conquistado por completo, quando: sabe, aos nove anos de idade eu também cometi o meu pequeno plágio literário (agora minha alegria se completava, havíamos chegado a um consenso finalmente), ele disse. Não me diga, respondi perguntando, quase sem conseguir esconder a minha recente felicidade, que chegava impressa nos botões de sangue que se desataram do meu rosto em círculos de rubor concêntricos, sim, digo sim, ele respondeu, não sei se já te falei que foi nessa idade que li pela primeira vez o Retrato do Artista Quando Jovem? Não lembro, filho, mas, me fale novamente, respondi, jogando a corda para que se enforcasse o quanto quisesse em suas reminiscências agora declaradas, agora expressas, literárias, tudo dentro de um entusiasmo novo, inocente, então, ele me respondeu, foi aos nove anos de idade que o li realmente e, nossa, como esse livro me tocou, sabe, na época, e tocou de um jeito que depois de lê-lo eu não tinha mais dúvidas: eu era, de fato, Stephen Dedalus, ele disse, os olhos agora acesos e úmidos e arregalados eram duas anáguas erguidas além do decoro, além do pudor das coxas, desnudado, meu filho finalmente desnudando-se, um falsário assim como o pai, quando: semanas depois e estava com o meu plágio do Retrato escrito e terminado. Não me diga, exclamei, você também, eu perguntei (completando:), olha, quem diria viu, mas teve a quem puxar, teve a quem puxar... E, pai... Sim? Tenho esse romance plagiário guardado comigo até hoje, ele me disse, os dedos agora quietos eram uma aranha gorda e comatosa sobre o vidro limpo, sobre o couro, na verdade, o estou reescrevendo faz alguns meses, ele completou, fico feliz meu filho, fico feliz, eu respondi, e veja bem: eu você e seu avô meu pai, temos muitas coisas em comum, você não acha? É, talvez, ele disse, calando-se em seguida, como se quisesse encerrar a narrativa por aqui, só que decidi continuá-la: ironia do destino você ter plagiado o Joyce, não acha, já que ele foi o mestre nesse assunto. Como assim, como assim, ele perguntou, erguendo a cabeça como se pronto para ouvir os ouvidos afiados e a postos (duas antenas equiláteras) ... Sim, o mestre, como não, é o seguinte: o Ulisses, assim como o A Terra Desolada de Eliot, (e é bom sempre lembrar que o Joyce chamava o Eliot de plagiário das ideias dele) estabeleceram, naquele glorioso ano de 1922, um dos procedimentos mais usuais daquilo que viria a ser chamado de modernismo, sabe, procedimento que segundo Eliot poderia ser muito bem definido como uma espécie de método

89

mítico, entende, método que se baseava na ideia de que escrevendo uma estória contemporânea sobre um molde de referências clássicas você ofereceria novas possibilidades de leitura tanto a uma quanto a outra. É verdade, disse meu filho, entusiasmado pelo novo rumo da conversa, acho que sei onde você está querendo chegar, ele completou, e éramos novamente dois amigos conversando, como há muito não vínhamos sendo, então, eu respondi, esta é a tradição segundo Eliot: um elemento que associa um grande autor aos seus antecessores, de modo que o passado possa ser alterado pelo presente, tanto quanto este é regido pelo passado, percebe, basta pensar no judeu traído de Joyce e no quanto ele desmistifica o herói de Homero, porque fornecendo uma leitura moderna do clássico, porra, revitalizando com isso a tradição instaurada, quer dizer, o conceito de originalidade, neste sentido, é tudo aquilo que possibilita a releitura, aliás, isso tudo vem bem a calhar se quisermos pensar naquilo que nos diz o outro Bloom, o Harold, que escreveu certa vez não ser possível reconhecer nenhuma efetiva cisão entre romantismos, modernismos e pós-modernismos, sem esse culto ao passado e à mitificação e à paráfrase e à ironia e à paródia, inaugurados sobretudo pelo Ulisses joyceano, que é, não por acaso, o romance mais emblemático do século XX, entendeu? Mais ou menos pai, entre aspas, como você mesmo gosta de falar (senhoras e senhores, meu filho já está devidamente no papo, conquistado, brincando com seu pai, com o jeito de ele falar, até que enfim uma conversa leve de domingo, como todas as conversas dominicais deveriam ser, continuei:), o que estou querendo dizer é apenas que o Ulisses, porra, é a primeira grande paródia literária moderna, um grande e delicioso e genial plágio da Odisseia, o que não desmerece em nada o trabalho feito pelo Joyce, muito pelo contrário, não é a toa que o romance é considerado hoje um dos mais importantes romances da história da literatura ocidental, percebeu agora? Acho que sim, ele respondeu, com naturalidade, confidência, curiosidade, quando: e digo mais (adiantei a língua em dizer) não é apenas da Odisseia que o Joyce chupou suas ideias geniais, todo o Ulisses, meu filho, é recheado de citações de autores os mais diversos, quem quiser se dar ao trabalho de procurar, vai encontrar vários. Nossa. É verdade, e digo ainda mais: toda essa história de autoria, enfim, todo esse bibibi bobobó gastroduodenostômico todo em torno da autonomia de uma obra de arte só se consolidou no século XVIII, com a acepção romântica do conceito de

90

gênio artístico original, antes disso, a coisa não era bem assim. Aliás, o desenvolvimento do conceito de gênio começa com a ideia de propriedade intelectual, que foi amplamente difundida durante o padedê meloso do romantismo. Os românticos sempre fodem com tudo não é, perguntei, mas, sem que abrisse nenhum espaço para respostas, visto que já engatava a terceira na lata da sequência (estava eufórico, excitado): tudo bem, historicamente a valorização da autoria surgiu como aspecto distintivo entre os conceitos de artífice e artista, só que, aí está o pulo do gato, na Grécia antiga, por exemplo, o que sempre se prestigiou foi a obra de arte em si, e não o artífice subalterno que a fazia, entende, esse negócio da plena emancipação do artista, da valorização da autoria e da ideia da obra de arte como expressão hiperbólica de uma personalidade independente só começou a vingar no Renascimento, época em que o artífice ganhou rapidamente o status professoral de sábio – artifex polytechnes – em uma ascensão que se deu graças à crescente demanda de obras de arte durante a Renascença, que elevou o artista do nível de artesão pequeno-burguês para o de trabalhador intelectual livre, percebe, percebe Miguel Ângelo realizando sua obra-prima aos trinta anos, aos trinta anos a Pietà, o David, e eis que lá estava então o sábio professor, com todos aqueles discípulos babões ao seu redor, o babando, o lambendo os testículos, assim começaram Giotto e Duccio com Cimabue, por exemplo, ou Gozzoli com Angelico, e Leonardo com Verrocchio, e do status de sábio para o de gênio foi um salto, status esse consolidado bem depois, graças aos românticos cabaços, queijudos, aquele bando de onanistas que precisando se afirmar diante do novo mercado livre que substituiu o mecenato... Pai, pai... Deixe-me completar, filho: na Idade Média, veja bem, todo mundo adulterava os textos de todo o mundo, não havia essa não de xixi minha nêga o texto me pertence, ora, o século XV é um dos grandes séculos da técnica, da técnica e das formas jurídicas contratuais que permitiram toda a sorte de vantagens para que o boom acontecesse, quer dizer: studium et diligentia; e tantos copistas, porra, uma combinação mágica de energia e excesso de energia aproveitado, todas aquelas oficinas espalhadas nas ruas das cidades, pense só na facilidade que não foi aquilo: tantos artistas trabalhando juntos – em Florença, em Veneza, em Milão – tantos falsários escrevendo à luz de velas, ou seja, os meios artísticos não gozavam de boa reputação, não senhor, as rivalidades surgidas entre os artistas na

91

disputa pelo dinheiro geravam a difamação, o crime, a embriaguez do vinho, os escândalos, a libertinagem dentro dos serões privados, das festas com dança e música, o surgimento de corporações secretas, de confrarias, I Compagni della Calza como exemplo, quer dizer, a imprensa moderna porra, recém-criada por Gutemberg, que a sonhou apenas como um substitutivo mecânico para o trabalho dos manuscritores sem saber que logo ela se tornaria um efeito multiplicador da falsificação desde o prelo, ou seja: a primeira tradução da bíblia para o alemão, por exemplo, a porra toda, enfim, acontecendo na época de ouro da quintessência de todos os mal-entendidos e observe só isso: tudo acontecendo ao mesmo tempo, tudo um escândalo só, imagine por um segundo a força subversiva que não foi aquilo, pense no semnúmero de alusões, de citações, dentro de um mesmo texto, texto que assim permeado da ideia de outros crescia e se afirmava como novo, com a autoridade do novo, enfim, o reconhecimento do roubo era geral, multiplicado, disseminado, costurado por críticas injuriosas, baseado em uma cadeia artesanal de produção contínua, através da qual alunos tentavam superar mestres, e mestres de gênio sarcástico tentando impor sua vontade férrea diante do cavalete, do retábulo, da escultura, do texto, e no meio dessa briga de orgulhos luciferinos o bom artesão dócil, silencioso, sereno, diluidor das cores no claustro da Annunziata, este sim o falsificador, o disseminador das cópias, das paródias, e se teu pai soubesse disso à época em que escreveu, entre aspas, aquele poema de merda, não teria ficado se sentindo tão mal, entende, já que o plágio, desde as priscas eras até hoje em dia, está amplamente consolidado e manifesto na consciência infeliz do autor moderno, é isso. Nossa, e pensar que isso ainda me angustia tanto pai, ele disse, jogando a cabeça para trás novamente, estralando mais uma vez o pescoço, krék krék krék feito quisesse rompê-lo, ou esticá-lo (vagem de borracha) pois não deveria filho, respondi, ora porra, nos meios literários de hoje em dia, sobretudo nos de hoje em dia, a ideia de que a história da literatura nada mais é do que uma sucessão de roubos é comum, bem comum, veja bem, os exemplos são infindáveis, Shakespeare, só para começar com um dos grandes, buscava material para suas peças em obras de Ovídio, de Chaucer, em lendas italianas e crônicas históricas inglesas, sabe, era um veadinho esperto, e Pascal então, desse já se disse que sempre escrevia com um volume dos Ensaios de Montaigne aberto à sua frente, tamanha a

92

profusão de citações e apropriações que fazia daquela obra, nossa, e o Baudelaire então hein, roubou alguns versos do Poe no maior descaramento, aquela lagarta francesa bêbada esquálida e sifilítica, enquanto que por aqui o Gonçalves Dias decalcou, para usar o termo exato do que fez, sua famosa Canção do Exílio de um poema do maluco do alemão judeu do Heine, percebe, e por aí vai: Henry Miller não escrevia nada sem ter à sua volta vários livros com várias páginas onde se lia frases sublinhadas – livros do Spengler, Dostoiévski, Strindberg, até mesmo a Bíblia filho – e agora chegamos aqui, ao nosso tempo, onde essa tendência ancestral ao plágio criativo passou a ser ainda mais valorizada pelo chamado pós-pós-pós-modernismo, com sua ênfase no pastiche e na paródia, e quem inaugurou tudo isso? Deixe-me ver... O Joyce, filho, e até mesmo a crítica literária contemporânea tem se mostrado sensível a esse fenômeno, contemplando-o nas mais diversas teorias, da intertextualidade defendida por Julia Kristeva à angústia da influência apontada pelo Harold Bloom. Talvez você esteja sofrendo disso meu filho, dessa angústia da influência, mas, não deveria, afinal de contas, depois do Ulisses, o quê? Depois do Tristam Shandy, o quê? Aliás, o Jaime Rodrigues bem sabia disso quando escreveu o seu Phutatorius, você não acha, perguntei a ele, o cérebro excitado chacoalhando solto dentro da caixa do encéfalo azul (l'ágite du bocal, era assim que o Céline desbocado chamava Sartre: o excitado da cachola) chegando a me produzir náuseas, tonturas, quando: e o que significa essa angústia da influência pai, ele perguntou, o pomo-de-adão deslizando silencioso e oblíquo garganta acima garganta abaixo, garganta abaixo garganta acima, mole e indecoroso como um joelho de porco engordurado, bem, segundo o Bloom lá, respondi, angústia da influência é o que sente um autor quando produz uma obra – de arte ou não – em que verifica elementos demais de uma ou de várias outras obras anteriores à sua, e ainda que isso aconteça à sua revelia e ... Como assim à sua revelia, ele perguntou, como se com a boca cheia d‟água espumasse ao estímulo de um choque que o conduzisse a um reflexo condicionado, ora, à sua revelia por que, você imagine, tantos livros já escritos, já lidos, que com toda a certeza um autor qualquer de hoje em dia ou de outrora irá fatalmente repetir uma ideia, até mesmo uma frase, quem sabe um parágrafo inteiro, já registrado em outra obra, eu disse, e completei: observe, isso é probabilidade, estatística, não há para aonde fugir, todo escritor produz e produzirá sempre pisando nas pegadas de outros

93

escritores anteriores a ele, ou sobre seus ombros, ou sob a sua sombra, o que é perfeitamente normal, só que depois da obra produzida, alguns entram em colapso ao verificar que, um, isso aqui está me soando a tal autor beltrano, ou ainda: isso me lembra da passagem daquele livro do autor sicrano, e por aí vai, a questão é como determinados escritores lidam com isso, se se angustiam ou não com a influência de outro, em suma... Já ouviu falar no Alfred Döblin, perguntei ao meu filho atento, de olhos arregalados duas libélulas de vidro debatendo-se, acho que sim, mas, não tenho certeza, ele respondeu.

Good day sunshine, good day sunshine, good day sunshine I need to laugh, and when the sun is out

Imagine comigo o escritor alemão caminhando apressado nas ruas de Berlim, é inverno – como em um poema do Pushkin – o gelo de tonalidade similar à prata entrincheirado junto ao limo unicelular das calçadas faz escorregar damas estrábicas e incautas e cães com hanseníase cobertos de lepromas do tamanho de laranjas, o geometrismo cortante do frio nivelado à pressão barométrica (solas trotando, espirros, acenos, peidos congelados na diástole dos intestinos), muito frio realmente, o vento dando nós górdios de vidro no ar, e Döblin trajando um passadohá-pouco-a-ferro e grosso sobretudo de duplo couro negro atravessa a passos largos a cinzenta Berlim Alexanderplatz em direção ao Círculo do Livro, onde fará leituras e falará sobre a criação e o estilo de sua obra épico-tragicômica editada em 1929 – Berlim Alexanderplatz – pense comigo em seu nervosismo, na velocidade com que caminha, apressado, rangendo os dentes, as juntas estralando, pois só ele sabe que na verdade está se encaminhando para a embocadura do pelotão de fuzilamento, sim, sim, como o Dostoiévski condenado, exatamente, onde deverá posicionar-se com firmeza frente às críticas feitas ao seu livro, críticas recentemente veiculadas pela imprensa alemã, nossa, filho, já te contei do quanto aporrinharam este homem, perguntei a ele, notando pela primeira vez em detalhes o suor de farinha que começava agora a brotar de sua testa, a espelhando, não, não contou, ele respondeu, enxugando com a costa de uma das mãos o humor aquoso e incolor (de sabor um tanto salgado) que se

94

separava lentamente de sua pele através dos poros da mesma, pois o aporrinharam muito, realmente, respondi, o observando derreter a tez (o dia já entrado na tarde começava a esquentar, como de hábito) e se abanar, quando: quer um ventilador, perguntei, não pai, obrigado, ele respondeu, quero saber por que o aporrinhavam, ele completou, visivelmente interessado no assunto, suando em bicas de acetona, então continuei: é sobre aquilo que falávamos antes, a questão da angústia da influência, sabe, da qual Döblin certamente não sofria, mas que talvez sofresse boa parte dos seus contemporâneos, que não mediram esforços em apontar no Berlim Alexanderplatz vários pontos em comum com o Ulisses de Joyce, e veja bem: isso sete anos após o lançamento do Ulisses, e apesar das centrípetas negativas do velho Alfred, O Taciturno, que sempre que podia defendia-se afirmando não ter lido o romance joyceano durante a feitura do seu épico particular sobre o proletariado marginal alemão ambientado nos bas-fonds berlinenses, não senhor, afinal de contas, só em 1932 (época em que estamos imaginando o Döblin caminhando rápido em direção ao Círculo do Livro) foram publicadas as primeiras difusoras edições inglesa e norte-americana do livro proibido do caolhomaior James Joyce, só que eu, teu pai, particularmente discordo da tese cronológica usada como escudo pelo escritor alemão, já que é do conhecimento de todos o fato de que edições piratas do Ulisses passaram a circular na Europa com uma rapidez impressionante no instante em que se viu que o livro (considerado obsceno demais para a época) demoraria anos para receber o imprimatur nos países onde fora proibida sua circulação, entende, naquela época então, ler o Ulisses ou parte do Ulisses se tornou uma espécie de marca secreta do expatriado culto, e é o que digo a você agora: Franz Biberkopf tem muito do Leopold Bloom, assim como o estilo narrativo de Berlim Alexanderplatz tem muito do estilo inconfundível do Ulisses, e isto é fato, e com toda a certeza o velho e bondoso Döblin deve ter lido sim, uma edição pirata do Ulisses antes de ter tido a ideia de escrever sua versão germânica para o clássico irlandês joyceano, porra, ficar negando isso é dizer que, sim, sim, tudo bem, não sofro de angústia da influência pelo simples motivo de não ter sido influenciado por ninguém, sabe, ficar escondendo as influências é pior do que sofrer de sua angústia, você não acha, perguntei a ele, que agora parecia sofrer de hiperidrose (a testa mantendo-se suada, betuminosa, o suor já escorrendo para

95

outras partes do corpo), como se suas glândulas sudoríparas acordadas de repente fossem dois trompetes gagos sonolentos tocando de dentro do eixo do circuito tálamo-cortical durante um sono NREM Estágio Um uma música líquida, sim, suando como um porco, um exorcista, quando: mas você não acha, pai, que uma mesma época pode produzir, de modo independente, obras semelhantes e até mesmo iguais, em diversos lugares e ao mesmo tempo, ele perguntou, e duas bolachas de chope se fizeram notar desenhadas em sua camisa, na região das axilas – está calor filho, não quer tirar a camisa, perguntei, visivelmente preocupado, você está em casa, acrescentei, com medo de que o calor trouxesse novamente à tona a animosidade entre nós (calor, inclusive, que não me afetava de nenhuma maneira, estranho), não pai, estou bem assim, ele respondeu, pegando em seguida uma das folhas do jornal do dia que estava sobre o sofá, na intenção de se abanar como só o imperador Felipe I (que desposou Joana a louca) se abanaria, quando: não, não acho não, talvez você não tenha lido o Berlim Alexanderplatz, respondi, sabe, se tivesse lido, notaria que são muitas as coincidências entre ele e o Ulisses, coincidências demais até, gritantes, em suma é como afirmou o Euclides: duas linhas retas complanares dizem-se paralelas apenas se não se intersectam, entende, e há intersecções demais entre esses dois romances, de modo que o Alfred Döblin seria mais honesto consigo mesmo e com todos os de sua época se ali diante do pelotão de fuzilamento reconhecesse de fato ter se inspirado livremente em outro romance para escrever o seu, droga, o que não teria problema nenhum em ser dito, entendeu, muito pelo contrário, se dissesse talvez cessassem naquele instante todas as aporrinhações que vinha sofrendo desde o lançamento do Berlim (aliás, belamente filmado por Fassbinder em 1980), mas, não, preferiu continuar encenando o seu teatro grotesco até o fim, até o talo, feito fosse Max Schreck para sempre aprisionado na persona tétrica do Conde Orlok, merda, e quando finalmente chegou ao Círculo do Livro (as orelhas congeladas, o lábio rachado, de fato um dia muito frio aquele) apresentou-se disposto a versar sobre linhas filosóficas, metafísicas, sobre obras épicas e formas artísticas, e criminalidade e temporalidade, e medicina e primeira guerra mundial, e nenhuma palavra sobre o Joyce porra, embora esse assunto viesse sempre à tona, sempre, e, mas pai, o quê, então como você explicaria o fato do Döblin ter escrito aquela trilogia, a Amazonas, composta pelos livros Viagem ao País sem Morte, O Tigre

96

Azul e Nova Floresta, sem nunca ter viajado aqui para o Brasil, ele perguntou, a expressão jocosa de quem acaba de bater a mesa toda, inteira, quando: como você sabe disso, perguntei, você não disse que não conhecia o Alfred Döblin, completei, mas eu não disse isso, ele respondeu, disse que achava que conhecia, mas que não tinha certeza, ele completou, só que agora me lembrei dele e desses seus outros romances, todos posteriores ao Berlim, imagine só, o primeiro livro da trilogia descreve o mundo dos índios, o segundo trata das missões jesuíticas, e o terceiro livro faz uma alegoria da floresta com a Alemanha Nazista, e isso tudo escrito por um autor que nunca botou os pés no Amazonas nem nada, agora... E o que isso tem a ver com tudo, adiantei-me em dizer, essa trilogia só foi escrita por causa do momento histórico, continuei, que era o em que várias organizações judaicas (e Döblin era judeu) procuravam criar um território para o povo hebraico fora da Europa, e o Brasil Amazônico aparecia como uma das alternativas para a concretização da utopia judaica, apenas isso, além do mais... Podemos dizer o mesmo do Ulisses, não podemos, sim, agora ele adiantava-se em dizer isso, não, não podemos, eu mais que rápido respondi, e tem mais, pai, diga, você também conhece bastante de literatura não é, digo, para quem está lendo um Morri, e agora?

You tell that you’ve ev’rything you want

Senhoras e senhores: eis o retorno do bem-dotado marcador de página de um metro e oitenta de altura, sim, deve ser o calor, talvez, já que não sei ao certo o quê (ainda), sei apenas que não leu esses livros todos do Döblin, não senhor, na certa (no máximo) deve ter lido um resumo no Guga, foi isso não foi, descobri: onde você ficou sabendo dessa trilogia, no Guga? Que Guga pai, ele perguntou, agora a costa das duas mãos ficando cada vez mais oleosa de tanto servir de toalha para a sua testa, nossa, que continuava minando água, água, uma fonte mágica escondida entre suas sobrancelhas e a raiz de seus cabelos, quando: que Guga, que Guga, devolvi, perguntando, ora, o Guga da Internet, completei, quando: você quer dizer o Google não é, nossa, essa é velha hein pai, bem velha mesmo, ele respondeu, meu filho, o sem senso de humor respondeu, exatamente, devolvi, não sem antes achar um jeito para tentar consertar tudo: filho,

97

você sabia que na Internet o Ulisses vem sendo atualmente relido como o romance que antecipou o imaginário do ciberespaço, perguntei, engatando a segunda: há ensaios interessantíssimos disponíveis na rede que discutem a descoberta no romance do Joyce da presença de um núcleo ciberespacial (pooorra), bem como de suas afinidades eletivas até mesmo com a teoria do caos e do efeito borboleta, completei, engatando a terceira: e observe só, essa antecipação do funcionamento da Web através da complexa estrutura de temporalidades múltiplas estudadas no Ulisses corrobora de alguma maneira com o pensamento contemporâneo a respeito da importância da estrutura do imaginário literário durante a passagem do meio impresso ao eletrônico (peeega), passagem esta que vem sendo muito discutida hoje em dia você não acha, quando (a quarta): e veja bem, na época em que o Joyce conseguiu publicar o Ulisses, o que se revelou para o mundo não foi apenas mais um escritorzinho de merda qualquer, não, e sim um escritor altamente qualificado que andou fazendo verdadeiras experiências com a (antes limitadíssima) máquina-livro (quinta): e tem mais: você não acha que o Joyce poderia perfeitamente ser interpretado hoje como um programador escrevendo códigos para o banco de dados operacional de uma plataforma de uma máquina impressora, não poderia, hein, (sexta): não importa, eu mesmo respondo a você, o fato é que o Joyce escreveu na verdade um software sofisticadíssimo para um hardware projetado originalmente por Gutenberg, quando: pai, pai, para quê isso tudo (diminuição da marcha) ele perguntou, agora visivelmente perturbado, mais uma vez nervoso, não sei se pelo calor, ou pela falação, ou se por ambos, sim, a testa praticamente liquefeita em vermelho de coágulos estourados no instante em que devolvi: isso tudo o quê filho, isso tudo pai (os olhos azeitonados, a exata volta da violência na sístole de suas sílabas), toda essa falsa erudição, onde só você fala, e fala, e fala, e fala, e não são estes os nossos papéis, respondi, perguntando, cada um em seu lugar, completei, afinal de contas, que dia é hoje filho, perguntei a ele, a frase me saindo a soar superciliosa, áspera, incisiva demais, tanto que decidi consertá-la: uma conversa de domingo filho, como sempre, apenas isso, acrescentei, agora mavioso, terno, cada palavra necessária para a compreensão do todo, quando: tudo bem pai, deixa para lá, ele respondeu, preciso ir ao banheiro lavar o rosto, completou. Claro, ao banheiro.

98

Your day breaks, your mind aches, you find that all her words of kindness linger on, when she no longer needs you

“Serão sempre três horas da manhã na noite da alma”. “Há provas quanto a isso”? “Suposições bastante prováveis. Meu pai, quando vivo, em sua Pesquisa com o Número, desconfiou de algo parecido, quer dizer, acabou descobrindo por acaso que o resultado não seria raiz de nenhuma equação polinomial, servindo portanto à representação das aplicações físicas para as quantidades imaginárias do Reservatório Universal de Memórias, percebe”? Branco: magro como o Rango, acende – com gesto de homossexual latente – um cigarro com um fósforo Lúcifer, aproximando a chama ainda acesa de seus olhos negros de fechadura. “Precisamos ver... Os falsificadores estão infiltrados até nos obituários do jornal”. “A Central trabalhou no Revisionismo do Holocausto, ocultando documentos, falsificando documentos, manipulando fontes para promover as ideias dos historiadores revisionistas, e agora a Verinha...”. “... Eles vão usar das mesmas táticas... Você sabia que uma das fontes que a A Agência usa para nutrir de informações o Sistema Internacional de Padrões de Controle é o Google”? “Isso para não falar da Central Telefônica de Reclamações, dos programas interativos da TV, e pesquisas eleitorais, e formulários, e fichas do Serviço de Proteção ao Crédito...”. “... Nova Ordem dos Séculos, O Olho que Tudo Vê, o sustento dos governos se dá com a pobreza humana, a vigilância das opiniões, a destruição do meio ambiente, o racismo, mas, onde os Arquivos Akáshicos entram na história”? “Oferecendo a todos tantas informações ao mesmo tempo em que ninguém terá mais visão global a respeito de nada”. “Paralelo a isso: vícios, pânico, greves, dívidas financeiras, diversões populares, competições esportivas...”. “Distração Pão & Circo para as massas, assim como os leões na época de Cristo”. “O que mais a Verdade disse”?

99

“Não sei: comecei a cantar um frevo na hora e...”. “1975”. “Boa”.

Engraçado: em freqüentes enquetes o Revolver é apontado como álbum favorito pelos fãs dos Beatles. Discordo fraternalmente, prefiro o Sargents Pepper‟s – 1967, no entanto foi um ano difícil por aqui – e embora não seja o meu preferido, Revolver é um bom disco, o preferido do Harrison: perfeito, inovador, que marca a adesão oficial do grupo ao psicodelismo festivo bundalelê dos sessenta. Abre com Taxman, de George Harrison, que é uma espécie de crítica corrosiva ao fisco inglês, engraçadíssima, só que a minha preferida ainda é a Eleanor Rigby. Tocou no meu casamento, apesar do seu clima de solidão lúgubre, de tristeza, mas, isso não teve a menor importância, já que a bundeira com a qual me casava não entendia uma palavra que fosse do inglês, sim, alguns amigos meus do tempo da faculdade tinham um grupo de rock formado nessa época, Os Diamantes, e cantaram à capela a música, foi bonito, bem bonito mesmo. Recordo ter escutado o disco inteiro na casa do Zé Bodinho, 1966, a eleição presidencial direta estava prevista para esse ano, mas não aconteceu, eles nos enganaram, os militares, o AI-2 publicado no ano anterior dissolveu os partidos, instaurando o bipartidarismo (ARENA e MDB), droga, vários amigos sendo presos, a tortura de centenas de estudantes, talvez milhares, o líder camponês e ex-deputado do PCB Gregório Bezerra sendo amarrado e arrastado pelas ruas, uma cena horrível, eu tinha acabado de sair da casa de Bodinho, aquilo me assustou um pouco, a lista dos presos e cassados agora chegando a 441 nomes (entre eles Juscelino, Jânio, Jango): vários congressistas, sobretudo do PTB, além de diplomatas, militares, sindicalistas, intelectuais, músicos, estudantes, esta foi a época em que a paranoia de meu pai mais se acentuou – passou a esconder os resultados parciais de sua Pesquisa dentro do De Revolutionibus Orbium Coelestium – ou seja, 2.985 funcionários civis e 2.757 militares demitidos ou forçados à aposentadoria, a chamada Linha Dura com sua lista de cinco mil “inimigos do país” terminada, enfim, passamos por tudo isso e agora o quê, eu me pergunto, meu filho em um silêncio de bronze maciço lá dentro do banheiro, o escritor, merda, o John

100

Holmes das letras nacionais, o Caralho-com-asas, na certa se vangloriando de frente para o espelho do seu instrumento de trinta e quatro centímetros, vejam só: número estimado por mim, segundo o modelo geocêntrico híbrido, mas, não passou por um terço do que passei quando tinha a sua idade, o golpe de 1964, um maldito golpe de direita a serviço exclusivo da burguesia nacional e internacional, um maldito golpe de direita que estava em gestação há dez anos e que, quando veio, não encontrou resistência imediata, não senhor, só espero agora que quando sair do banheiro não me venha de novo com aquela ladainha das seis escovas sobressalentes, merda, prefiro continuar com nosso assunto anterior, afinal de contas, preciso caminhar sobre o terreno que melhor conheço, ganhar dele em algo, que seja, e além do mais: detesto a sensação de déjàvu que às vezes me assalta de súbito, sensação, aliás, que venho tendo constantemente há vários domingos, uma impressão de já ter visto ou experimentado algo em relação ao meu filho durante estas suas visitas rotineiras, sim, só que (estranho) de primeira essa sensação não me aparenta como se experimentada pela primeira vez, não, não, tudo fica relativamente irreal, é isso, apenas isso, e irreal provavelmente porque a experiência original não deva ter sido plenamente decodificada, o que nesse caso me parece provável que a situação presente dispare a recordação de um fragmento do passado, espécie de memória vaga, sonolenta, perdida nas páginas de um Almagesto qualquer, como por exemplo quando me fala desse seu romance que está escrevendo: nunca o vi, nunca, e não o vi pelo simples motivo de ele nunca ter mostrado ao seu pai uma página que fosse dele, nada, absolutamente nada, é como se se tratasse de uma advertência o momento em que me fala sobre seu livro, um cartão amarelo esse seu romance nunca visto por mim, quando em um lapso de segundo solto no tempo tenho a impressão de já tê-lo lido, sim, ou seja: a sensação de sua leitura é na verdade um falso reconhecimento de algo que já devo ter lido antes, ou ouvido falar (que seja), meus lóbulos cerebrais pulsando como se excitados eletricamente por Wilder Penfield dissessem em coro sonoro: já visto, já lido, já visto, já lido, já – para em seguida dissolverem esta mesma sensação de lembrança dentro de uma haste cilíndrica costurada por ilusões epilépticas contidas em uma esfera de cristal onde as estrelas estão incrustadas formando o Primo Mobile, nossa, as palavras definitivamente arruínam o pensamento, não é mesmo, e agora, de que adianta tergiversar, perguntar a ele (por

101

exemplo): filho, já imaginou se o Joyce tivesse às mãos o Guga para pesquisar enquanto escrevia seu Ulisses, a miséria que ele faria hein, já imaginou isso, seria um impacto semelhante ao que sentiu Bruno ao acreditar em um universo infinito, merda, eu poderia perguntar isso, mas, não riu da primeira vez da piada do Guga, não vai rir da segunda também, é um afetado, a mãe quem o estragou, certamente, antes eu tivesse lido o Órfãos de Pais Vivos quando de nossa separação litigiosa, a Lazinha Brito fez muito sucesso na década de cinquenta com esse romancezinho (hoje esquecido, graças a Deus), ou lido esse ou o Homens Mulheres e Pianos, do Arthur Loesser, quem sabe o Casamentos em Conflito, do Ira Silva, talvez me valesse de algo a leitura do Esposa: Manual do Usuário, do Dido Varela, ou do clássico His Monkey Wife, do John Collier, porra, tivesse eu lido a merda do De Nobilitate et Praecellentia Foeminei Sexus Declamatio do Cornelius Heinrich Agrippa Von Nettesheim e quem sabe eu tivesse mudado de ideia, não sei, voltado atrás, difícil seria depois convencê-la a fazer o mesmo, estava decidida a se separar realmente (os olhos dois atóis negros, rígidos, raivosos), ela definitivamente não compreendeu a filosofia do Zé Bodinho, e insistiu em ter filhos, mas, para quê, eu agora me pergunto, para abandoná-los depois, logo em seguida, assim como fez? Deveria ter feito uso da lei consuetudinária da Regra do Polegar, mas, com amor, não com fúria, como ditava Frei Cherubino, certo... Talvez se assim disser a ele: você não acha filho, que se o Google (e aqui acabo de vez com a piada) existisse na época do Goethe ele não teria reescrito o Fausto, nossa, tenho até medo em pensar que continuaria: sim, porque se a ideia de Fausto era a de vender a alma ao demônio em troca de conhecimento completo isso não seria mais necessário graças ao advento do Google, você não acha: Google, o conhecimento completo ao alcance da mão, e por um clique apenas, nosso Uraniburgo moderno, não é isso, não é isso, eu perguntaria, ora, o Google hoje é o nosso Demônio Contemporâneo, nosso Mefistófeles, e ele não quer a sua alma não senhor, apenas a assinatura de uma internet a cabo já deve bastar, merda, na certa vai achar tudo isso de um extremo mau gosto, exatamente, e me olhar daquele jeito lânguido, debochado, com que às vezes me olha, um silêncio sepulcral no banheiro, não deve estar fazendo o número um, na certa nem o número dois (haverá um número três?)... Só me falta agora quando sair do banheiro perguntar mais uma vez sobre a foto do seu avô materno, sim, porque já devemos estar

102

na hora exata da pergunta da foto do seu avô materno, ou será que não, talvez... Como ele endeusa esse seu avô, como o superestima, tudo bem, o que ele passou durante o regime militar de 64 não foi fácil, mas, não foi fácil para ninguém aquela época, todas aquelas prisões, todas aquelas torturas, vários amigos meus caíram nos porões dos quartéis e deles nunca mais se recuperaram, até hoje, o Matteus Remela, por exemplo, foi espancado até que tivesse três ou quatro ossos quebrados, hematomas por todo o corpo e sangue a escorrer de seus ouvidos e nariz, o deixaram nu e lhe deram um banho com uma mangueira de alta pressão (daquelas usadas por bombeiros), hoje, sofre dos nervos, da síndrome do pânico... O Amadeus de Lorme estudava medicina, nos conhecemos em um daqueles torneios de dominó no refeitório do campus, no interrogatório de uma tarde os covardes arrancaram as unhas de seus pés e mãos, o colocando em seguida em um pau de arara com o corpo (dedos sem unhas pênis ouvidos e língua) ligado a fios entrelaçados em uma máquina que produzia eletrochoques, mantendo seu corpo molhado para que a corrente pudesse deslizar mais fácil, para queimá-lo com maior intensidade, nossa, e o Otto Lunemede então, várias queimaduras de cigarro na pele, submetido ao que os torturadores chamavam de afogamento, método que consistia em colocar uma mangueira na boca e narinas da vítima, na intenção clara de sufocá-la, asfixiá-la, depois, o velho Otto preso em uma geladeira, uma espécie de câmara frigorífica onde foi mantido sem roupas e com o corpo molhado, cheio de queimaduras, escoriações, ferimentos das mais variadas espécies e envergaduras, isso para não falar do Mário Azeredo, que teve seus testículos perfurados por pregos, droga, e era o bom Azeredo porra, que nunca fez mal a ninguém, um homem com ânsia de cometer grandes pecados embora nunca tivesse ido além de bailarinas, enfim, se quiser ver a foto de seu avô eu a mostrarei, não há por que não mostrá-la, afinal de contas, não sou o Zé Bodinho, com todo aquele seu queijo em nos mostrar a foto que supostamente havia tirado com o Rei, nossa, até que um dia mostrou e...

Ring my friend I said you’d call Doctor Robert

103

Tréc tréc (talvez tenha emperrado realmente) e ele sai do banheiro, áspero, ainda que pisando um pincel macio no chão, mas apenas para empunhar em sua língua móvel uma pergunta alfinetada na ponta: pai, o que você quis dizer com a prisão de ventre me lembra dos porões da ditadura hein (ele enxugava o rosto com uma toalha, a espuma do sabão ainda aglutinada na aba das orelhas, sim, rosto recém-lavado na torneira da pia, com certeza, por que:) aliás, a pia do banheiro está imunda você não acha (sim, o ralo está cheio de cabelos, pentelhos, ampulhetas, baratas, clepsidras, vidro, velas, catarro), o que eu quis dizer com o quê, devolvi, perguntando, ainda que tivesse entendido a frase em todas as suas sílabas distintas, musicais, claras para mim, com a frase pai, a que você escreveu a lápis na parede do banheiro (na certa deve ter feito o número dois, é isso, pois só na posição do número dois teria percebido o que escrevi), ah, aquela bobagem lá, respondi, como se recordasse naquele instante, não quis dizer nada demais não, foi só para matar o tempo, entende, eu tinha acabado de ler o Faz Escuro Mas Eu Canto Porque o Amanhã Vai Chegar do, sei bem quem escreveu esse livro pai, ele adiantou-se em dizer, sentando-se ao meu lado de um jeito meio Hamlet eu sou a verruma de teu pai, nossa, quem sabe estivesse tendo o cuidado de não amassar os testículos, afinal de contas, acidentes acontecem (não com as coxas delicadamente cruzadas daquele jeito) o número dois então foi bem executado, tive vontade de perguntar, mas, não perguntei, pois é, um livro de poemas muito bom do, a questão não é essa pai, ele novamente adiantou-se em dizer, cortando minha frase mais uma vez, ao meio, mais uma vez feito uma fresa, uma lâmina clínica fazendo funcionar a máquina do pensamento, quando: e qual seria a questão, perguntei, quase resmungando, quase a contragosto, como se com uma hóstia entre os molares mastigasse seu trigo azedado, indigesto, a questão é que você nunca foi preso pai, durante a ditadura militar, essa é a questão, ele respondeu, e um sorriso cínico congelou-se em sua face, cínico, prepotente, discreto, porém perturbador (como um espartilho): e quem te disse isso, devolvi, perguntando, isso o quê, ele perguntou, respondendo, isso de eu nunca ter sido preso durante o regime ditatorial de, pai, pai, eu sei pai, aliás, é sabido, ele respondeu, mais uma vez me interrompendo, o que começava a me deixar nervoso, quando: você nunca foi preso, pai, porque meus tios retiraram a sua ficha do Doi-codi, lembra, você ia ser preso, mas não foi, ele disse, a impressão

104

sensível do sarcasmo conduzindo seus músculos faciais a leves espasmos de satisfação, elétricos, sim, quer dizer: não, eu respondi, a língua atrapalhada tropeçando dentro da boca (bailarina no limo), isso é verdade sim, mas, em parte, continuei respondendo, tentando responder, que seja (merda), pai, pai, ele disse, quase gargalhando, olha filho, adiantei-me em dizer, você não deveria rir disso assim, o assunto é sério, muito sério e, só quero que você admita pai, ele assim me disse, engolindo um riso e outro ao dizer, um riso e outro ao, admitir o quê filho, que meus tios assassinos o ajudaram na época pai, apenas isso, ele respondeu (noventa por cento do corpo humano é constituído de água e tudo em minhas veias agora, me irrigando de sangue, de sangue, de), e o que você quer dizer com isso, eu perguntei, não quero dizer nada pai, só achei engraçada aquela frase escrita lá no banheiro e, olha, acho que o disco pulou...

Want to tell you, my head is filled with things to say

“Foi inaugurada hoje, na nossa bela cidade de Manaus, a ponte „Pênis Pedro Henning‟. Com sua extensão de trinta e seis metros, largura de cinquenta, e capacidade para uma pessoa, é a mais recente (e arrojada) obra da prefeitura municipal. Em seu discurso de inauguração, o ilustre prefeito da cidade atentou para os seguintes cuidados ao utilizá-la: não empurrar uns aos outros, não pular, não correr, não balançar-se nem fazer algazarra, não subir em suas proteções laterais e muito menos encenar as Quatorze Estações da Cruz ou pendurar-se em seus cabos de aço...”... Li no jornal dia desses: milhares de pessoas sem perturbações mentais estão convencidas de que foram raptadas por extraterrestres e transportadas para naves espaciais para serem submetidas a experiências vexatórias Como pode alguém sensato acreditar em semelhante história? Viaje ao fascinante universo da memória induzida, das perturbações do sono e das falsas recordações nesta matéria, e agora fico me perguntando: por que com meu filho parece ser tão difícil? Nada do que lhe disse sobre mim, sobre seu avô meu pai, parece ter adiantado, droga, merda, e não me venha você agora dizer que é a história o que promove os fatos que serão lembrados, no lugar do que está latente na memória induzida, que é formada no presente,

105

não senhor, o passado também pode ser inventado, não tenha dúvidas quanto a isso, o passado também pode ser a lembrança incorreta dos detalhes do que aconteceu de fato, sim, a discordância em relação a eles, de outra maneira não existiria a Sugestão Hipnótica, não existiria a Literatura, o Tarô, a A Central, a A Agência, o Processo de Mumificação, o Cinema, o Número, o Adultério, Deus e a própria História não existiriam sem aquilo que a doutora Elisabeth Loftus chamou de memória implantada, enfim, o problema é que esse meu filho parece possuir uma memória bastante seletiva, sim, talvez devido ao seu recente trabalho de escritor e, sim, já que o que os escritores fazem de fato não é escrever sobre o que viveram realmente, mas escrever sobre o que pensam estar recordando naquele momento mágico em que estão (deuses criadores) diante da página ainda em branco, nossa, a memória não depende de nós, seus leitores, ou deles, nossos autores preferidos, é autônoma e está acima de todos porque na verdade nós só recordamos daquilo que ela deseja que recordemos, nada além disso, e a memória de meu filho parece ser ainda mais seletiva, ainda mais, feito as lembranças de um jogador patológico, compulsivo, que sempre que pode afirma: não, mas às vezes eu ganho, levo a mesa toda, sem se dar conta do tempo que levou até conseguir ganhar, ou de quantas vezes perdeu dinheiro até aquele jogo onde ganhou algum, nossa, como Dostoievski... Filho, nossa, já te contei do inferno de Dostoievski em Baden-Baden, perguntei, observando sua testa voltar a suar lentamente, lentamente como se derretesse, suasse sal, grosso, ou vidro, quando: não pai, mas, chega ouviu, quero falar sobre outras coisas, ele respondeu, as sobrancelhas mais uma vez em W erguidas, negras, um risco negro impresso no oleaginoso brilhante de sua testa agora enrugada, úmida, e sobre o que você quer falar, perguntei, sentindo retornar novamente sua animosidade habitual para comigo, como se transmitido através de minha própria medula espinhal um reflexo patelar formigasse no arco, nossa, o dedilhando, me fazendo começar a suar também, quero falar da morfina que nossos tios assassinos conseguiam para meu avô quando ele estava com câncer, ele disse, a língua (como se por baixo de folhas) lambendo os lábios suave, melíflua, e o que isso tem a ver com tudo, perguntei, mãos e face molhando (em erosão hidráulica), então você acha certo ter aceitado a ajuda daqueles dois torturadores, ele perguntou, daqueles dois assassinos filhos da puta, ele completou, e seus olhos se fizeram dois escorpiões

106

mordendo os genitais debaixo de uma máscara desgastada pelo ator, dois musculosos e enervados artrópodes de silício cinza, um opaco venéreo nas retinas desenhado, algo novo até agora, uma expressão nova, de máscara mortuária raivosa, de sífilis enrolada na gangrena, quando: e o que você queria que eu fizesse, perguntei, deixasse meu pai teu avô agonizar de dor, completei, e você sabe muito bem e sabe por que já conversamos sobre isso várias vezes que naquela época só se conseguia morfina através do exército não sabe (ele me olhava de um jeito enviesado, violento, como se me reprovasse, feito fosse eu o filho aqui, eu, e não o contrário, e não o), dois torturadores pai, é isso, e se você tivesse passado pelo que vô Eugênio passou não teria aceitado a ajuda deles, não senhor, vô Eugênio não aceitaria, ele disse, lançando para mim (estátua de borracha) um sarcástico sorriso de Mona Lisa afogada, os olhos agora escurecendo e murchando, escurecendo e murchando, como se asfixiados, ou calmos novamente, por hora, quando: você e esse seu avô, você e esse seu avô, olha, eu também gostava dele, e você sabe disso, e só você bem sabe o quanto sofri no dia em que ele morreu, acontece que, veja bem, você não pode, digo, não deve, guardar só para ele as melhores lembranças e ao restante do mundo essa memória enraivecida, você me entende, perguntei a ele, entende, filho...

I was alone, i took a ride, i didn’t know what i would find there

O disco, pai... Deixa a porra do disco para lá, olha, meu pai teu avô... Ele gostava de putas e de palíndromos pai, só isso, ele adiantou-se em dizer, mordaz, áspero, os dedos da mão esquerda nervosos jogando par ou ímpar entre eles, sobre o couro sujo do sofá (sem botões) como assim, perguntei, não diga uma coisa dessas, não repita nunca mais isso, nunca mais, completei, exaltado, é a mesma coisa que dizer que Krishna seduziu dezesseis mil donzelas, mas apenas isso, droga, ele era um poeta, sabia, teu avô paterno: um grande poeta – disse a ele – mas, não, você não sabe não é, pois saiba agora: ele também escrevia poemas e os enviava para os jornais, entendeu, poemas belíssimos, noturnos, dolorosos, tanto que na época da ditadura usou um pseudônimo para continuar a escrevê-los, nossa, um anagrama com as letras do seu próprio nome e, sabe como era o nome do livro? Não pai, eu... Apre Para Anel, filho, Apre Para, mas

107

pai, ele adiantou-se em dizer, quê, o romance que estou escrevendo... Sim, eu respondi, você sabe porque já te disse não é, ele perguntou, disse sim, eu respondi, completando: mas, o que você disse mesmo, olha pai, merda, te falei que estou trabalhando em cima do meu plágio do Retrato do Artista Quando Jovem não falei, ah, sim, sim, esse plágio... E é o que estou dizendo a você agora: você, meu filho, tem muitas coisas do meu pai teu avô, portanto, só que (ele corta novamente a minha frase, feito estivesse aflito, ou competisse comigo, feito combatêssemos em uma Batracomiomaquia e fosse ele um rato e eu uma rã, ou, o contrário disso, mas, não importa, pois)... Você sabe em que circunstâncias eu li o Retrato não sabe, ele perguntou, não, não sei, acho, respondi, sem entender para aonde aquela conversa toda estava nos levando, esses rodeios, quando: na biblioteca do namorado de mamãe, pai, você sabe sim, merda, ela havia me colocado lá de castigo, recorda, trancado e com fome (e estralou os dedos de mão fechada, cessando o jogo de par ou ímpar por ali, empurrando uns contra os outros, como se com raiva), não me lembro disso, respondi, sereno e inocente, a expressão de calma virgiliana impressa no rosto, tudo bem pai, ele respondeu, não importa mesmo, logo, nada mais disso importará mais, ele completou, só que... Foi lá que o li de fato, entende, a capa vermelha, acho que era daquela edição Os Grandes Romances da Literatura Universal, com desenhos dourados em relevo e um marca página que mais parecia uma gravata amarela enforcando um executivo, quando passei rapidamente as páginas em revista, todas elas, e eram apenas palavras, sabe, sonoras palavras, um universo inteiro delas, soltas, conexas, deslizando no branco dos espaços como sangue, feito esperma, pólen, vidro, comecei a ler o primeiro parágrafo então, e aquilo foi como o surto súbito de uma doença contagiosa, entende, a leitura que fiz naquela noite me marcou muito, muito, dada as circunstâncias em que me encontrava e, filho, adiantei-me em dizer, só tem uma coisa: espera um pouco pai, agora espera um pouco apenas, ele disse, tudo bem filho, eu respondi, então (ele continuou): meus olhos correram pausados e tensos sobre essas páginas do Joyce, com elas esquecia o calor, da fome, do sono, do remorso, do alcatifa dolorido daquela biblioteca, a urdidura do texto me fascinava um espanto, foda isso, um salto para dentro de mim mesmo, e naquele instante passei a falar através da boca do impostor, percebe, eu não poderia... O livro foi meu espelho reverso naquela noite, pai, espelho especular, topográfico, o cheiro da

108

cerveja irlandesa impregnando minhas narinas, meus poros, uma devassa no meu espírito atormentado, em meu cérebro confuso, o tempo poendo entre as brechas da parede, e Stephen Dedalus foi o professo do exílio falando dentro de meus lábios, sabe, dentro bem dentro, tantas gotas de suor e lágrimas corando as páginas que pensei ter achado o meu comum, o meu igual, um irmão enfim, sob as sinfonias de barulho das máquinas tipográficas, irmão-herói caminhando apenas porque sabe seu destino, seu livro, suas palavras, ele contou a sua história para mim pai, o debruçar na página: seu confessionário, história que começa sob o ponto de vista da criança que guarda no peito, mas que depois toma a forma de outras faces, sua vida pai, cada parágrafo vivido intensamente por mim, Stephen Dedalus, o construtor de labirintos das palavras que inventa, foge para Paris, cidade de todos os párias do mundo, volta para ver sua mãe morrer de câncer e encontra Nora Barnacle em Dublin, o gênio e a deusa, suas ancas dançando móveis dentro do vestido azul impressiona o poeta, ele a conhece, eles passeiam juntos pelas ruas desertas que vão dar no cais, no cais, a deusa desabotoa a calça do herói grego, meu velho, porra, ela toca-lhe uma punheta com maestria rítmica, musical, sim, eles se apaixonam, o gênio feito homem decidindo-se de vez pelo exílio definitivo, pela pobreza esperada e pela literatura, a visão santa de uma menina à beira da praia, a mesma praia onde Leopold Bloom encontrará Gerty Mcdowell, é a única coisa que carregará consigo, e eu li o livro em uma sentada só pai, só fechando a última página quando amanheceu aos poucos sobre a cidade, Recife, as pessoas acordando e o perfume dos cafés invadindo narizes e poros em ondas de grãos crescentes, dedilhados, uma ópera sendo tocada, em silêncio, estava impressionado pai, porra, com o que acabara de ler entende, estava tenso, ainda segurava o livro nas mãos bem depois de ter amanhecido, como se não quisesse mais largá-lo, droga, você consegue enxergar isso não, ele esteve ali o tempo todo e só agora fui conhecê-lo, foi o que pensei, o castigo que me deram terminou em um benefício o qual só colheria os frutos mais tarde, e o mais tarde é hoje, pai, é agora, fiquei imaginando como alguém pode transformar a sua vida e a si próprio em uma obra que lhe sobreviverá, entendeu, será que James Joyce sonhou, foi o que pensei pela manhã, quando escreveu o livro em 1916, o quanto essa obra seria importante para mim, e veja bem: setenta e três anos depois de feita, merda, quer dizer: eu me enxerguei ali pai, nas

109

peripécias do herói, nas agruras pelas quais passou e nos momentos difíceis que teve de enfrentar para poder tecer sua literatura, entende, é isso, não bem amanhecia e eu já tinha uma certeza guardada comigo, a única: eu era, definitivamente, Stephen Dedalus.

Turn off your mind relax and float down-stream, It is not dying, it is not dying, Lay down all thought surrender to the void, It is shining, it is shining. That you may see the meaning of within, It is speaking, it is speaking, That love is all and love is ev’ryone, It is knowing, it is knowing. When ignorance and haste may mourn the dead, It is believing, it is believing, But listen to the color of your dreams, It is not living, it is not living. Or play the existence to the end. Of the beginning, of the beginning. Of the beginning. Of the beginning.

“A questão não é saber de que cor eram as meias do Hitler no dia em que ele se suicidou em seu bunker, entendeu: existe uma diferença clara entre erudição e cultura. Funes El Memorioso se lembrava de tudo, de absolutamente tudo o que havia acontecido em sua vida, por isso era um perfeito idiota, percebe”? “Não me preocupo com o asseio da casa, sei que quando vamos ficando velhos começamos a perceber a natureza das coisas do exato jeito que uma criança percebe. Além do mais, evocado ou não: Deus estará presente”. “Mas, Pi, o meu filho...”. “Baise-moi mon cherri”. “O nome Elpenor Encédalo te diz alguma coisa? Ele foi um dos únicos que...”. “... pisca-ponto”. “Para Antonioni não existe a cor em absoluto. É sempre uma relação: entre o objeto e o observador; entre o objeto e a direção dos raios que o iluminam. Isso o que quis dizer quando falei que teu filho era a Fraude. Quis dizer e disse”.

110

“ESPN sim, por que não? O filho é meu e o chamo como quiser. Aliás, gosto de esportes, e os nomes e as palavras são os únicos substitutos possíveis para o infinito, sabe? E há nomes bem piores por aí... Meu pai sempre foi um grande fã das atrizes Ava Gardner e Gina Lolobrigida, e quando minha irmã nasceu ele quis homenagear as duas... Advinha só como é o nome da minha irmã”? “DDI, ou seja: Distúrbio Dissociativo da Identidade. Uma mulher em Londres que convive com vinte e quatro pessoas dentro dela afirma que está difícil pagar impostos desse jeito”. “Foi demitido porque o pegaram dormindo no serviço. E quem não dormiria? Passar horas monitorando a atividade elétrica de neurônios de gafanhotos enquanto estes assistem ao Guerra nas Estrelas é um pouco enfadonho, o que me diz”? “Um museu de História Natural em Oslo traz a primeira exposição sobre homoss exualidade no reino animal. Um casal feminino de cisnes, um grupo gay de pingüins-rei, quer dizer, os pingüins-rei nunca me enganaram mesmo”. “... Niso Noto afirmou estar distraído quando atropelou toda aquela gente. Disse que quando criança ganhou livros sobre astronomia, passando então suas noites a observar as estrelas... Mas nós dois sabemos que ele é pela extinção humana voluntária, não é mesmo? Só quis dar um empurrãozinho nesse voluntarismo todo”. “Diga a verdade e corra. O que você me diz desse provérbio iugoslavo”? “Por que os urubus quando avistam uma pessoa, vomitam”? “Gostaria de ter estado na Rua Toneleros naquela hora, entendeu? De ter visto o atentado, enfim, participar da História ao menos uma vez na vida, e não ser apenas seu figurante, consumidor de fatos já consumados, isso é para idiotas”. “Minha tatatatatataravó era linda, mais bonita que a Charlize Theron. Morreu queimada por se negar a desaparecer no anonimato do vínculo matrimonial. Foi a primeira mulher a exigir que médicos homens assistissem a doentes do sexo feminino, fato que só se deu no Renascimento, graças à prolífica produção de literatura pornográfica da época. Sacanagem erudita e desbocada em meio à redescoberta do homem como alvo da investigação estética, científica, filosófica e tralalá”.

111

“Em Budapeste as coisas funcionam; os distritos da cidade, por exemplo, são numerados em sentido horário. Detalhe para os nomes impronunciáveis: Pestszentlorinc ou Káposztásmegyer”. “A Ferrovia do Diabo foi uma das mais eficientes máquinas de matar nordestinos que eu já conheci. Um trabalhador morto para cada dormente fixado nos trilhos. Seis mil dormentes. Um verdadeiro marco do Genocídio do Ciclo da Borracha. O avô de Seu Cavalcanti morreu no trecho de Guarajá-Mirim”. “O que explica a citação. Niezstche geralmente é usado para reparar o dano causado por Hegel”. “Parabéns ao psicanalista José Ângelo Gaiarsa, por sua lucidez, honestidade, e sensatez”. “Não dá para acreditar em um ditador coreano que pensa que é o Elvis Presley, com aquele seu penteado bufante, aqueles óculos dos Hell Angel‟s e um sapato plataforma à Carmen Miranda. O sujeito é surreal demais, acho que o papo da bomba atômica mandando o CTBT e o TNP à merda é tudo teatro de operações”. “As siglas surgiram para facilitar a expressão literária na escrita automática dos surrealistas, ainda que hoje, por exemplo, a prosa de Breton nos pareça tão correta e elegante quanto a de Saint Simon. Ou S.S., para entrar no clima. Mas ficaram as siglas, fruto solitário da última corrente do surrealismo. Hoje elas estão em tudo: do estudo das Mensagens-Mercadorias ao significado secreto das Corporações e Produtos, assim como disse William Blake em sua época acerca das demoníacas O.F.S da Revolução Industrial. Mas a sigla mais emblemática, para mim, é a F.K. Diz respeito às duas maiores figuras simbólicas do século XX – uma do campo das artes plásticas, a outra do literário. Sigla do siglo: duas iniciais que representam a dor e a doença transformadas em arte quando posicionadas rente ao abismo do mundo. A agonia do ideal romântico”. “O cu do gado francês é a principal ameaça ao planeta terra. Seus gases provocam o efeito estufa de forma ainda mais violenta do que as refinarias de petróleo”. “... pisca-pisca-ponto”. “E o que mais”? “Um folheto: Ad Rhenum e Triplo Contínuo. Junto dele todos aqueles mandamentos do Movimento pela Extinção Voluntária da Humanidade... É esse mesmo o nome não é? E vou

112

dizer a você mais uma coisa: gostei do que li. Percebi naquelas palavras um novo culto de Dostoiévski e de seu karamazovismo trilhando um novo caminho em direção ao caos”. “Que poder ainda resta aos tradicionais meios de comunicação na formação da opinião pública e na opção eleitoral”? “A mudança de uma data histórica é capaz de eliminar todo o discurso anterior sobre o fato datado. Trata-se da substituição dos slogans habituais por fenômenos singulares ligados ao novo calendário. Sairmos de 31 de março para Primeiro de Abril produz um aparte para o cumprimento de um novo cânon da História. Afinal de contas, uma revolução eclodida no Dia Nacional da Mentira pode muito bem nunca ter acontecido, é ou não é”? “Um livro interessantíssimo. Obra notável que calcula a pressão acumulada dentro de um pingüim, quando... Chama-se: Pressões Produzidas Quando os Pingüins Evacuam – Cálculos sobre Defecação Aviária”. “Por isso não voto mais. Prefiro continuar vítima do que me tornar cúmplice”. “No mais, é como disse Smoluchowski sobre as mulheres: até onde sabemos hoje, não há uma máquina de moto-perpétuo automática que seja sempre efetiva apesar das flutuações moleculares. Porém, talvez tal dispositivo pudesse funcionar regularmente se fosse operado de maneira apropriada por seres inteligentes”. “A pergunta pela origem eficiente das coisas – Aristóteles – implica outra: a origem define o destino”? “Debussy opondo a frieza de tom e uma estrutura harmônica pura à sentimentalidade babosa do romantismo alemão. E essa espécie de anti-romantismo se ver intensificado em Stravinski, em Schoenberg – inventor do sistema dodecafônico – Hindemith...”. “Os tribunais concedendo às corporações direitos como se elas fossem pessoas físicas... Fascismo, Bolchevismo, e agora Corporativismo... Um sistema de poder maciço e concentrado, como todos os sistemas tirânicos do século XX...”. “Dodecafônico”? “É. Significa: doze vezes mais cafona”. “Ópera”?

113

“Sim, é uma canção com mais de duas horas de duração”. “Hoje, a China é o principal fornecedor mundial de cadáveres mumificados – leia-se Hebe Camargo – para o mercado internacional de exposições em museus”. “O governo hoje não passa de uma empresa comercial que reparte apenas entre os seus as melhores fatias do bolo, trocando entre si e os seus as dicas importantes como forma de cederem-se mútuos presentes de transações e concessões”. “Mas deixe eu te perguntar umas duas coisas”. “A privataria não cessou durante a gestão dos predadores tucanos. Só faltou a eles vender a luz do nosso sol para a White Light/White Heat”. “A Central baseia-se na regra 80-20: 20% de seus clientes rendem-lhe 80% de seus lucros. Sendo assim, apenas esses 20% serão bem atendidos, terão os serviços, e não serão monitorados”. “Por favor: não atirem no pianista”. “... pisca-pisca”. “A nova tendência de corte de cabelo para a próxima estação promete acabar de vez com a chapinha. É o que esperamos”. “Treinamento de satélites hipócritas. Um cruel drama político no qual todos os atores não passam de intriguistas sem talento”. “Desconheço também como funciona o mecanismo da formação dos números nos visores digitais. E não apenas isso: desconheço a idade de Deus. Desconheço as pessoas que falam nos cinemas, que tossem nos teatros, que ficam paradas em frente da escada rolante. Também acredito que o espaço público seja uma extensão da minha casa, mas aí já é um pouco demais, não acha”? “Reza a lenda que, quando faltava o Marafo, o velho saciava a sede-do-tonel-sem-fundo com um desodorante Mistério por rodada. E rodava mais que pneu de caminhão. Acho que o pai do homem tinha uma queda pelos produtos do Mojica Marins”. “Agora o fundador da Coalizão Cristã da América defendendo em um programa de TV que é obrigação dos Estados Unidos impedir que o Hugo Chávez construa na Venezuela uma

114

plataforma para a – segundo ele – infiltração comunista e extremista. Como? O assassinando. Simples, não acha”? “Então perguntaram ao Lennon o que a música dos Beatles tinha de tão diferente que empolgava tanta gente em todo o mundo. E sabe o que ele respondeu? Se soubéssemos formaríamos outra banda e seríamos seus empresários”. “A Fraude Técnica se baseia e se alimenta dos números. Nos números e no fato de que a natureza complexa dos contratos sempre dá margem a mais de uma opinião”. “Uma rosa não é uma rosa não é uma rosa não é uma rosa”. “Cristo vem aí: não duvide. Está acontecendo... No Egito acaba de nascer uma menina com três mãos. A terceira brotou no meio da coluna vertebral da criança. Os pais eram primos”. “A dieta dos Ets é balanceada: compostos de enxofre, sulfato e gás carbônico... Não demora muito e será lançada no mercado”. “Corporações Amorais: Tiranias Privatizadas & Particulares, ainda que os liberais clássicos tenham condenado o corporativismo no início do século XX. Não adiantou. Novo espírito da nossa época: conquistar riqueza a todo o custo: flexibilidade nos mercados de trabalho contribuindo para a eficiência, é claro: insegurança gera eficiência, além de várias doenças mentais... Mas para elas existe o Panóptico. A Economia de Contos de Fadas”. “Nunca terá problemas para coçar as costas”. “Uma noite, o velho encheu a cara de Mistério e tentou dormir, mas sem sucesso, porque uma galinha não parava de cacarejar no quintal, você sabe, ele criava galinhas no quintal, assim como naquele blues... Não teve dúvidas: apanhou uma faca e saiu pelado no meio da noite disposto a dar cabo da desgraçada. Acontece que – estava escuro – confundiu o pescoço da galinha com o próprio pau. Imediatamente veio o cachorro e comeu seu Olegário – era assim que ele o chamava – recém-amputado”. “É assim: as corporações inventam códigos de responsabilidade social – ambientais e trabalhistas – pressionadas pelo Governo, que facilita a Fraude destes mesmos códigos fornecendo firmas de auditoria já corrompidas pelo Sistema, quer dizer, não existe nestes casos nenhum tipo de monitoramento externo. Tudo uma grande barganha. E as pessoas se tornando

115

amorais em escala de massa, já que todo um Sistema Estatístico de Doutrinação para torná-las inconscientes de seus atos é projetado dentro das corporações via Central, através da Propaganda e da Arregimentação. Isso corrói o caráter moral, isentando as culpas individuais”. “As pessoas estão enlouquecendo. Ontem um ladrão tentou assaltar o Panamérica, mas a esposa do Comandante espantou o sujeito a gargalhadas. E não foi para menos: o bandido estava com uma máscara do Pluto. Imagine: alguém aponta uma arma para você e manda que entregue todo o dinheiro da caixa registradora. Só que o sujeito está com uma máscara do Pluto. Não deu outra: a esposa do Comandante desatou a rir, espantando o ladrão”. “Corporações adquirindo patentes de genes com pesquisas subsidiadas com dinheiro público. Um paradoxo: O público pagando pela privatização do bem comum”. “Mais uma carreira? Digo: uma estrofe introdutória”. “Santo Agostinho adoraria pegar um cineminha. Sua distinção sutil entre o res e o signum foi essencial para a teoria cinematográfica. Pas Pro Toto”. “Um sonâmbulo molestador de mulheres. Psiquiatras alegam que ele sofre de sexsônia”. “Depois, meu pai começou a achar que o Número serviria também para diminuir o risco de contágio caso o mercado financeiro sofresse um colapso. O Número uma espécie de proteção para o lucro do investidor, uma segurança a mais que teria frente ao Risco Sistêmico”. “Caratê colombiano... Outro dia quase cheirei por engano as cinzas do garoto, acredita nisso...? Não sei: na prática tudo é uma questão de metonímia”. “Homem do piano rompe o silêncio e diz ser gay”. “Antonioni e a descrição das funções da luz segundo o Photogénie de Delluc; Antonioni e a análise do movimento e do tempo cinematográfico no estudo de Tinianov...”. “E seu filho”? “Um escritor. Diz que adora escrever porque é a única maneira de conseguir falar sem que eu o interrompa”. “O autor escreve apenas metade do livro. A outra metade fica por conta do leitor”.

116

“Esse frevo que você cantou é do tempo do Afonso não é? Do tempo da publicação nos jornais do obituário do Jules Rimet...? E por que você o cantou assim de repente para mim, ficou doido foi? Olhando fixo para minha calça jeans, ainda por cima”? “O relógio alemão que a O.G. venerava e que – diziam – havia pertencido ao Hanns Hörbiger passou de mão em mão depois da dissolução da seita. Atualmente está no Recife, salvo engano levado para lá pelo Flávio de Carvalho, lembra...? Aquele arquiteto que idealizou o Traje do Futuro para o verão paulistano, como forma de libertar o homem do calor e dos seus maléficos efeitos”? “Bach está morto: de 1750 até os dias de hoje”. “Mozart morreu jovem. Sua maior obra foi a composição da trilha sonora do filme Amadeus”. “Na verdade, o Um Estranho em Benjamin Constant é a primeira parte de uma trilogia que estou escrevendo. Chama-se: A Trilogia dos Boatos. O próximo livro será sobre o poeta húngaro Sándor István, desaparecido em outubro de 1956, durante a rebelião dos estudantes contra o domínio soviético e a falta de liberdades civis na Hungria. A única foto que se conhece dele é uma em que está ao lado de um rebelde húngaro – depois se descobriu tratar-se do arquivistachefe Ernö Gyurcsanyrév – que posa impávido diante de cadáveres de soldados soviéticos em Budapeste”. “Somos todos Zeligs da História. Não importa se na Rua Toneleros ou se no... Lembra-se daquele advogado que defendeu o Lennon na época em que o governo Nixon queria estraditá-lo por causa de suas manifestações pacifistas? Passou o resto da vida se lamentando de ter ganhado a causa, talvez o primeiro advogado a se lamentar por... Ele dizia: se Lennon tivesse sido extraditado na época não estaria em Nova Iorque naquela fatídica noite de oito de dezembro de 1980...”. “F.K. C.C.C.P. C.P.B.V. J.K. F.A.B. W.W.W. C.S.I. O.M.C. C.I.A. O.T.O. O.S.S. D.F.W. J.R.T. T.P.M. W.W.F. K.K.K. S.P.F.W. G.L.S. V.H.E.M.T. M.K.S. A.E.L.C. D.C.B. F.M.I. O.E.C.D. U.E. L.C. B.I.D.”... “Ou apenas olha para o belíssimo pátio de pedras perfeitas”. “E o que me importa descobrir quem matou Kennedy, ou Odete Roittman, ou Barbosa”?

117

“Enquanto fores bigorna: aguenta; quando fores martelo: bate”. “Max Schreck, com aquela expressão tétrica de você-paga-pelo-que-obtém, daria um ótimo M – eine Stadt sucht den Mörder... Mas Murnau o descobriu antes, durante um criminoso jantar artístico organizado por Theodor Fritsch, em 1912. F.W. achou no mínimo curioso aquele sujeito – branco como as ilusões racistas de Jörg Lanz Von Liebenfels – chegar com um pinguim a tiracolo, dizendo tratar-se de um coronel das forças militares da Noruega de férias de verão na Alemanha. E é o que digo a você: esses nazistas são todos loucos. O pinguim chamava-se Nils Olav”. “A ideia do Primeiro de Abril não é minha, apenas a apresentei aos Agentes da Central naquela noite em que fomos todos tão pouco sinceros. Disse que era minha, mas nunca foi. Ouvi a ideia da boca de um brasileiro exilado em Paris na década de setenta. Ele morava na St. Germain des Prés, assim como tantos expatriados da época. Era um mentiroso, amante das lolitas que perambulavam de bicicleta pelas praças parisienses. Um homem incomum, arquitetônico, mentia como só ele. „Ontem cruzei com o Sartre na...‟. Tudo mentira. Ele sempre cruzava com alguém conhecido na imaginação fértil dele”. “O terceiro volume tratará do Caso do Ataque Aéreo a Dieppe, que conta a história de duas singelas senhoras que, no verão de 1951, se achavam – se procuravam? – de férias perto de Dieppe, na França, onde ouviram ruídos que julgaram semelhantes aos que teriam ouvido nove anos antes, durante o ataque aéreo que aquela localidade sofreu na segunda grande guerra”. “E o que mais”? “L. descendente de ingleses. L. mais leve que o Demoiselle flanando no ar diante do gigante de fósforo. Nunca fez um exame mamográfico de rotina: ressonância magnética nuclear não era para ela. L. & as aréolas acesas – L. sigla acastanhada que esconde seus olhos imaginando que iria morrer de forma elevada”. “... pisca-pisca-pisca-ponto”.

Um silêncio de pizzicato executado em instrumentos de arco se fez entre nós, não sei precisar por quanto tempo – sobretudo depois da publicação das Tabelas Alfonsinas, nossa, o que estou

118

pensando? – como se minutos antes do polegar vibrar as cordas um morse quase imperceptível roesse a acústica dos instrumentos de arco, certo, entre meu filho e eu distâncias curtas e longas se dando entre ataques surdos de látex incolor esticando as páginas finais, articuladas durante nossa despedida, sim, nossa Nova e Previamente Nunca Vista Estrela, os domingos então findaram por aqui, dia dezessete de dezembro de 2003, ano da Abertura Cósmica, calculada no erro de um mês de atraso e para nunca mais, nunca mais, afinal de contas, ele está indo embora (nota que começa em quarteto e termina em ponto e traço), veio se despedir, apenas isso, dizendo tudo o que tinha para dizer, e hoje, e urgente, e para já, e até o final de nossos dias, definitivamente um escritor, a simbologia negra do que disse parecendo querer arcar com todo o peso de sua tradução melancólica, os impulsos curtos e longos de sua tristeza e raiva, e melancolia, um artista, nada menos que isso, que Dedalus, ei-lo, hoje sabemos que a sensação de déjà-vu é resultado de uma espécie de curto-circuito em nível neuronal, só que, sim, houve espírito nisso, não apenas nervos, espírito também, imerso em determinadas situações da memória (música circunstancial e imprevisível), portanto: ficção, e o seu aspecto confuso de sonho, de pesadelo em luz a máquina mágica e engenhosa do tempo de repente nos arrastando durante breves segundos em direção ao passado, empregada à força a mecânica da contradição do dogma do grego Aristóteles, e é assim que funciona a vida, sim, sua sextante de escala calibrada em minutos, seus ecos de outras músicas e culturas e estilos ocupando o limbo olvido e impreciso do tempo, a antecipação do futuro (relógios com ponteiros adiantados por um segundo infinitesimal e momentâneo que seja rege a nova operação dos dois centros nervosos sensoriais conectados que em regra deveriam funcionar simultaneamente), enfim, eis onde foram fincar o parafuso de Arquimedes: ele escreve para se vingar, ele, meu filho, e sem permitir a existência de outra possibilidade de uso para seu dom (sim, agora o sei um dom), uma aberração da memória a sua literatura, e não da percepção, antes da memória, da memória, pelo menos isso o que me pareceu quando falou dela daquele jeito esquisito, ressentido, o olhar de Diógenes louco, tudo soando maciço ao sair de sua boca, venenoso, profético, uma vingança, apenas isso, vingança, assim como D.H. Lawrence e Djuna Barnes, assim como Leonard Woolf e Henry Miller: vingança – um ótimo combustível para a escrita, diga-se de passagem, que

119

aliado à imaginação é capaz de fazer horrores, verdadeiras catástrofes (penso em Arquíloco de Paros, existe uma lenda a respeito dele que diz que ao ser desprezado por sua amada o poeta grego esquisito escreveu versos tão terríveis, tão amargurados, que ela e seu respectivo pai cometeram suicídio ao lê-los), sendo a vingança um sentimento tão vil, tão perverso, mas que empresta tanta humanidade a tantos autores, sim, e pensar que fui eu quem o ensinou a ler, eu, seu pai, e que do seu avô tão menosprezado por ele na certa deve ter herdado o jeito com as palavras, os números, sim, eis o monstro gerado por nós, que geramos, um coágulo de amoníaco na língua, nos dedos, o nascido em pecado (sendo o sexo a mimese da morte), afiando as unhas há quanto tempo e em silêncio este meu filho, que acaba de bater a porta para nunca mais, nunca mais, nevermore, nevermore, assim grasna o corvo emigrado do inferno, e não sem estrondo foi com que a bateu, seguir o meu caminho, ele disse, então vá, e sob o signo circular do péssimo zodíaco, do sangue azedo, azedado, disse que ia morar em São Paulo o que tem raiva de sua própria espécie, raiva, porque finalmente havia conhecido a sua Penélope, fato que me escondeu até agora, e é lá que terminará o seu romance, sim, ao lado dela, romance com o qual pretende nos destruir, nós, a família inteira, mas como, eu perguntei, como, talvez você esteja superestimando o alcance da literatura hoje em dia filho, eu completei, pretende que nos suicidemos então, depois de lê-lo, eu perguntei, quando: dentro de mim pai, vocês desaparecerão de dentro de mim, ele respondeu, a voz saída como um último suspiro, feito esperasse há muito essa sua última exclamação, e ela assim lhe saísse de súbito, agoniada, peremptória, ela tem um poema tatuado nas costas, ela quem, Penélope, filha de Icário, a que trabalhava continuamente cumprindo o piedoso dever, você está louco Ahasverus, volte aqui, eu disse, respeite seu pai: eu sou o Carpinteiro de Jerusalém, meu nome é Cartaphilus, ele disse, repetindo: Cartaphilus, para em seguida bater a porta, nada de judaísmos, eu gritei, não quer saber da foto, gritei novamente, na intenção de segurá-lo ainda nas escadas, ainda mais um pouco, o quanto desse, da foto do Zé Bodinho, eu completei – Alma deixando o caco de vidro para a sra. Vogler pisar – mas aí já era tarde, tarde demais, já que isso aconteceu em uma época tardia, quando morri definitivamente, passando a habitar em seu quarto vazio e silencioso e intacto, o quarto de meu filho, o escritor, cômodo por onde me arrasto nesta minha nova

120

condição de pânico, abandonado, inepto para a vida, com minhas pinças e vértebras e antenas erguidas, deslizando com todas as minhas cerdas de porco e ásperas pernas e sem barba agora, um artrópode, apenas isso, inseto sem encargos de consciência, rente ao chão e faminto, alimentando-me durante a noite de restos de álbuns de fotografia, e para sempre assim, em minha peregrinação noturna e voluntária, suspirando: Odradek, odradek, ainda que contente em saber que meu filho deverá me sobreviver, exatamente como será.

121