A ciência histórica e sua matéria-prima

Denise Eldochy1 Marc Bloch em seu livro “Apologia da História” diz que o o !eto da história n"o # o passado # sim os $homens no tempo%&'((')* +, outro representante do Annales.ucien /e vre- disserta que nossa 0orma de pensar est, intimamente ligada 1s nossas “0erramentas mentais” &'((2)- isto #- os homens- sua sensi ilidade e tecnologias est"o im ricados e # precisamente porque os homens mudam com o passar dos anos que a maneira de 0azer história tam #m muda* 3odavia- isto que nos parece ó vio ho!e só come4ou a se desenhar ao 0inal dos anos '( do s#culo 55- uma #poca e0ervescente e de intensas mudan4as nos homens e no mundo* A opul6ncia dos anos dourados chegava ao 0im com uma traum,tica recess"o econ7mica que anunciava momentos di08ceis para a humanidade e a reestrutura4"o de valores- costumes e ag6ncia da sociedade- incluindo o pensar cient80ico* 9 movimento da Escola dos Annales surge dentro deste conte:to em oposi4"o ao positivismo e sua cren4a na imparcialidade dos documentos e dos cientistas* A consolida4"o das ci6ncias ditas sociais como geogra0ia- antropologia- sociologia ampliaram o arca ou4o teórico da ci6ncia histórica e o leque metodológico para an,lise das 0ontes introduzindo- mesmo que suavemente- o relativismo no conhecimento das coisas humanas* 9 positivismo- assim como os movimentos anteriores e posteriores a ele- surgiu devido 1s demandas cient80icas do s#culo 5;5 que perce ia a necessidade de esta elecer a história no rol das ci6ncias e a d<vida n"o era uma aliada no es0or4o de rompimento com a meta08sica* Ao levar para a 0iloso0ia os m#todos das ci6ncias naturais- o ocidente ganhava o seu equivalente de “leis gerais naturais” = os conceitos = a0inal- se era poss8vel desco rir as leis da natureza- era per0eitamente poss8vel desco rir as leis que regem a sociedade &>A?39>- '((@- p* A(BA')* 9s conceitos trou:eram concretude aos valores a stratos- tornandoBos mold,veis e ensin,veis tornandoBos guias de condutas e posturas- onde- atrav#s de um discurso organizado e coerente- todos os indiv8duos de oa 0# se su meteriam- pela raz"o- a ele &CHD3E.E3- 122- p*AE)* A história tinha assim um m#todo que lhe garantia a “verdade” dos eventos eem nome da Faz"o que governa o mundo e que levaria a humanidade 1 paz e a li erdade- o historiador poderia classi0icar povos em mais ou menos avan4ados-

rios.rios “monstros” cu!os su0i:os terminam em “ ismos” comoK racismos.nazismos.p*E() As na4Ies europeias se converteram em arautos da li erdade e do progresso cu!a miss"o era levar.a humanidade ao encontro do seu 0uturo glorioso* 9s cientistas sociais positivistas do s#culo 5.era produto dos homens e sociedades que o 0izeram e n"o sendo poss8vel e:trair a “verdade” e o passado tal como ocorrera.h.agora tido como o segredo revelado da história.criaram v.al#m das artes e literatura logo alargando a ideia de 0onte lan4aBse outros olhares e interpreta4Ies so re os 0en7menos humanos* A amplia4"o documental somouBse a an.>.dever8amos nos utilizar de todos os vest8gios dei:ados pelo homem na terraK do testemunho religioso ao pol8tico.pois di0erentemente dos e:perimentos das ci6ncias naturais reproduzidos de maneira controlada em la oratórios.com seus motivos e circunstMncias sociais* Entretanto isso ainda n"o era su0iciente para dar conta da comple:idade humana e mesmo olhando criticamente para os documentos.um determinado 0en7meno veri0icado em uma sociedade x n"o ser.que neste momento ainda era prioritariamente escrita e o0icial.documentos.o0erecendo argumentos.os comunismos e anarquismos* 9 s#culo 55 chegou levantando d<vidas quanto 1s certezas positivistas e a rilhante evolu4"o humana prognosticada por eles* 9s m#todos e an. ser cr8tico ao se de ru4ar so re o documento.sociologia que por sua vez .0ascismos.precisar.lises cient80icas do s#culo 5.'((J.mesmo que 1 0or4a. o servado com os mesmo resultados na sociedade y* ?"o sendo poss8vel dominar o am iente e os o !etos das e:peri6ncias tais m#todos se mostraram 0alhos para a realidade humana e social* Lma vez detectado que a documenta4"o.5 tiveram uma prol80ica produ4"o que impactaram a organiza4"o social pelo mundo e se por um lado eles colocaram em 0oco atores sociais at# ent"o e:clu8dos da narrativa histórica como povos “primitivos” e prolet.outro m#todo era necess. perguntar “quem” o 0ez e porque.in0orma4Ies e legitima4"o #tica” &FE.a história dita cient80ica do s#culo 5.superiores e in0eriores e aseandoBse “nas 0iloso0ias da história e no discurso da modernidade.os homens s"o muito mais que seus registros em cartórios e censos e que para realizar uma pesquisa histórica que se pretenda s#ria.lises teóricas e metodologias de outras disciplinas sociais como geogra0ia.dessa 0orma a cr8tica visa e:por os homens em seu tempo.5 se p7s a servi4o do eurocentrismo e do G grafocentrismoH. quem diga que se incluem nesta lista tam #m os socialismos.5 mostraram sua 0raqueza naquilo que lhes era mais caroK na in0ali ilidade e na reproduti ilidade da e:peri6ncia.por outro.antropologia.rio para analisar as 0ontes* 9 historiador dever.

por e:emploK registros de campotestemunhos orais.“produz coisas.contri u8ram com suas 0ontes espec80icas como.&P) cu!as multiplicidades e cu!o car.a academia acompanhava este movimento contestador e /oucault procura nos discursos o entendimento das sociedades* Qara este 0ilóso0o a 0orma como 0alamos.'(11.rela4Ies de poder* Lm poder que permeia.ter per0ormativamente negociado &anos 12J().as constru4Ies de linguagem entranhamBse nas almas humanas.#vy &1222.lises 0isiológica de solo e demogra0ia* N medida que a no4"o de humano se constitu8a e se modi0icava atrav#s dos anos tam #m se alterava a ideia de cultura e o olhar do pesquisador so re a mesma* Cultura # &1) aquele todo relacional &c*1@E@).p* 12) Qierre .que as imagens.an.guerras e opressIes.0eito este e:erc8cio.nem dos humanos que os inventam.as palavras.meios de comunica4"o e rela4Ies iot#cnicas* &/.n"o podemos separar material B e menos ainda sua parte arti0icial = das ideias por meio das quais os o !etos t#cnicos s"o conce idos e utilizados.&O) assim como pelas novas e emergentes tecnoci6ncias.&') comple:o &anos 1@O().produzem e utilizam* Acrescentemos.1222p* '') ?os anos J( do s#culo 55 os “ismos” cienti0icistas mostravam seus “0ilhos 0eios” e a humanidade coloca em cheque suas decisIes anteriores provocando rea4Ies por todo o mundo* Enquanto a !uventude ia pra ruas gritar contra ditaduras.&E) mediado por 0ormas sim ólicas potentes e poderosas &anos 12A().a 0avor do amor livre e dos direitos civis.RST.s"o recicladas por grupos organizados e instrumentalizadoscomo tam #m por circuitos de comunica4"o e memórias arti0iciais* &.en0im.assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atri ui sentido 1 vida e ao mundo* Da mesma 0orma.p* 'A) disserta que por ser demais comple:o o constructo humano n"o pode ser determinado como “puramente t#cnico”.ele propIe que escavemos nosso pensamento sempre perguntando no acreditamos e porque acreditamos no que acreditamos e.“puramente cultural” ou “puramente econ7mico” como sugere alguns e n"o sendo a humanidade produto &causa e e0eito) das tecnologias seria interessante esta elecer o olhar para a rela4"o e interpreta4"o entre os homens e suas t#cnicas* R imposs8vel separar o humano de seu am iente natural.&A) cu!as partes n"o podem ser modi0icadas sem a0etar as outras partes &c*121E).0ornece meios e razIes de viver aos homens e suas institui4Ies.0orma sa er.induz ao prazer.pensamos &e agimos) # determinado pelas condi4Ies históricas em que nos encontramos* >o esta ótica.>CHEF.0ormas organizacionais e o alavancamento de sistemas sim ólicos &anos 12@().o que encontraremos n"o ser"o rela4Ies de sentido e sim.&J) s"o trans0ormados por posi4Ies alternativas.produz discurso* DeveBse consideraBlo como uma rede produtiva que atravessa todo corpo social muito .

t#cnicas.mas tam #m no que 0oi perdido e no que 0oi deli eradamente apagado B vide momentos históricos de grande censura e autoritarismo* &CA?/9FA.que.discursos que uma determinada sociedade aceita e de0ine como verdadeiros* ?esse ponto # relevante considerar o papel que algumas institui4Ies e su!eitos t6m na manuten4"o da “verdade”* .nteressante notar a importMncia de /reud e seu conceito de inconsciente para a o ra 0oucaultiana.Darnton &'(1()- .o !etos.atas.3.tornaBse verdade e produz e0eitos reais* .ler nas entrelinhas.0ormas de perman6ncias.quer organizadas* 9 documento n"o # o 0eliz instrumento de uma história que seria em si mesma.'((@.reproduz regimes de verdades.logo temos que ter a no4"o que pensar a memória n"o # pensar somente naquilo que 0oi conservado.narra4Ies.mais do que uma instMncia negativa que tem por 0un4"o reprimir” &/9LCAL.n"o só com o cuidado 0ilológico uscando os signi0icados das palavras.sermos cuidadosos ao monumentalizar os documentos a0inal temos que con0essar que o pouco que conhecemos do passado # resultado de uma amostra muito pequena de te:tos que chegaram at# os nossos dias.1 mostra.institui4Ies como hospitaisprisIes e hosp8cios s"o elementos importantes nas “redes” de controle so re as mentes e corpos humanos e # a partir das pr.mas perseguindo as rela4Ies de poder contidos nelas* R preciso desligar a história da imagem com que ela se deleitou durante muito tempo e pela qual encontrava sua !usti0icativa antropológicaK a de uma memória milenar e coletiva que se servia de documentos materiais para reencontrar o 0rescor de suas lem ran4asU ela # o tra alho e a utiliza4"o de uma materialidade documental &livros.lises.memóriaU a história #.'((.registros.os cientistas sociais do s#culo 55.n"o asta olhar somente para aquilo que est.p* 'AEB'EP) Al#m de todas estas questIes so re an.quer espontMneas.edi08ciosinstitui4Ies. se de ru4am so re o tema ao mesmo tempo em que as mudan4as est"o em curso* Contri ui4Ies 0eitas por Wuinz urg &'(1().ticas vis8veis desta rede # que podemos compreender melhor como o poder implantaBse.portanto.e de pleno direito.te:tos.ntelectuais.pol8ticos.em qualquer sociedade. se veem 1s voltas com um novo pro lema documentalK o que 0azer com o grande volume de in0orma4"o produzido e compartilhado pela humanidade nos <ltimos anos com o advento dos computadores e da internetV Alguns pensadores !.3.isto #.por conseguinte.costumes etc*) que apresenta sempre e em toda a parte.12O2p* OB@)* Qara o autor a verdade # produzida dentro destas rela4Ies de poder.temos que esmiu4ar o n"o dito.regulamentos.para uma sociedade.m#todos e 0ontes. e:plicitamente ditoescrito.uma certa maneira de dar status e ela ora4"o 1 massa documental de que ela n"o se separa* &/9LCAL.p* OB@) Devemos.

o homem nunca dei:ou de perseguir seus próprios rastros para melhor se conhecer* . institui4Ies como i liotecas e arquivos e est"o armazenando uma pequena amostra di.'(1A./ischer &'(11).Castells &desde 1222).Eco e CarriXre &'(1().correspond6ncias trocadas por eBmail numa 0ra4"o de segundo etc* que carregam em si a marca do e06mero* +.est"o nos a!udando a pensar metodologias para arquivar e analisar vasta documenta4"o que inclui imagens est. &MAFYLEZ.i rary recolhendo tweets.ticas e em movimento.evy &desde 122() entre outros.te:tos em logs e redes sociais..tica 0oi a British .ria deste material pra que possa ser utilizados por pesquisadores no 0uturo* Lma das primeiras i liotecas a adotar esta pr.. h.web pages e postagens do Facebook.p* AJ) Qodemos notar que as mudan4as do status documental ocorrem concomitantemente pro0undas mudan4as em nós mesmos* Da tradicional história dos grandes homens a diversidades de atores da contemporaneidade e apesar das mudan4as metodológicas pelo caminho.

+os# Carlos* História e .+eanBclaude* %"o contem com o fim do livro * 3rad* Andr# 3elles* Fio de !aneiroK Fecord.'((J* >A?39>.'(('* CHD3E.Dagomir* A história viva ao alcance de todos* Fevista .+orge Zahar Editor./ran4ois* ma história da ra!"o* Entrevistas com Rmile ?oel* Fio de* +aneiroK +orge Zahar Editor.'((2* /. DAF?39?.MAFC* Apologia da História.eoria$ Historicismo.oder* Fio de +aneiroK Wraal.3.RST.emporalidade e 'erdade$ A] ed* Fio de +aneiroK ed* /WS.C &dir)* O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente* Fio de +aneiroK Ed* L/F+.?. presente e futuro$ >"o QauloK Ed* Cia* das .ria . +odernidade.etras.maio de '(1A.tda* '((@* \\\\\* +icrofísica do .MU +AC9B.etras.[FE.Fio de +aneiro.Fo ert* A #uest"o dos livros: passado. .Boaventura de >ousa* Editora.p*AJ* >"o QauloK Ed* A ril.'(1(* /EBSFE.Lm ertoU CAFF..122A* .'(1A* .E3.Michael* *uturos antropológicos* Fio de +aneiroK Ed* Zahar* '(11* /9CAL.'((2* &Epu )* EC9.>.>CHEF.Michel* A ar#ueologia do saber* Fio de +aneiroK Ed* /orense Lniversit. ou o Ofício do HistoriadorU tradu4"oK Andr# 3elles.n0o.Qierre* -ibercultura* >"o QauloK Ed* AE* 1222* FE.9CH.Bibliografia BAFA3.* O problema da incredulidade no século &'(: A religi"o de )abelais$ >"o QauloK Cia* das .'((@* B.'((@* m discurso sobre as ciências* >"o QauloK Cortez MAFYLEZ.122E..

.para curso 3ópicos Especiais de /iloso0ia .graduanda de licenciatura em História pela /aculdade de /orma4"o de Qro0essores da Lniversidade do Estado do Fio de +aneiro. 2013.1 Artigo produzido por Denise Eldochy. ministrado pelo pro0essor Qedro Campos..