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Considerações sobre a Filosofia Primeira de Aristóteles.

Por Adílio Jorge Marques & André Vinícios Dias Senra em 18/01/2010
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Introdução A proposta de abordagem da temática „científica‟ em Aristóteles tem a ver com o fato de que foi este pensador quem originou um vasto campo de investigações racionais, a tal ponto de a maioria das ciências modernas disporem, como pressupostos, das referências dos trabalhos de Aristóteles. E isto se verifica, inclusive, no modo como Aristóteles utiliza a linguagem de modo, digamos, “objetificante”, e que termina por influenciar o tipo de escrita denominada científica. Assim, pois, em uma época da história do pensamento ocidental em que a admiração e o assombro predominavam e eram tratados como motivos para a investigação racional, Aristóteles se diferencia de outros gregos, pois, sua explicação é contida, seu estilo de escrita é „seco‟ e não possui aquela tendência de poetizar o conhecimento. Os escritos de Aristóteles, por exemplo, não possuem a beleza de imagens que os estilos de Platão ou de Parmênides proporcionam. A concepção aristotélica do conhecimento estava mais para uma categorização de certos aspectos do real, do que propriamente para a configuração de um modelo científico com características do período moderno. Neste trabalho, pretende-se compreender o sentido da concepção aristotélica acerca do conhecimento. E, sobretudo, pretende-se mostrar que há uma hierarquia entre conhecimentos que foi estabelecida por Aristóteles, onde a forma de conhecimento superior é a denominada como Filosofia Primeira. A ciência é, para este filósofo, um modo de reconhecimento da causa pela qual esse algo é e, este algo, apresentando certa característica, não pode ser de outro modo. Assim, o conhecimento, para Aristóteles, é definido em termos de relações causais e necessidade. No entanto, nesta concepção sobre Filosofia Primeira, existe mais platonismo do que se supõe usualmente. Texto publicado no Congresso Scientiarum Historia/2008. Discussão Costuma-se dizer que o aparecimento do termo „Metafísica‟ para designar o conjunto referente aos quatorze manuscritos que constituem o título do livro homônimo do Aristóteles não foi assim denominado pelo próprio filósofo. O título deste livro não pode ser atribuído ao próprio Estagirita. E isto porque este jamais teria usado esse termo em nenhum de seus escritos para referir-se à Filosofia Primeira. Muito embora, esta obra tenha ficado famosa com este título, e seja considerado um dos mais importantes tratados de Filosofia já escritos até hoje. Isto se deve a que tal conjunto dos escritos de Aristóteles permaneceu perdido desde a sua morte (estimada em 322 a.C.), até o primeiro século antes de Cristo, quando, então, reapareceu e foi editado por Andrônico de Rodes. Segundo a versão corrente, Andrônico teria denominado tais escritos aristotélicos como pertencentes à Metafísica por razões meramente editoriais. Assim, por uma questão de ordem cronológica entre os

Contudo. Tanto que um dos escritos de Aristóteles sobre a mudança recebe o nome de corrupção. além de receber o nome de Metafísica. não haveria sentido em considerar que a ordem deveria ser necessariamente permanente. a metafísica já pode ser considerada como um saber que mantém proximidade com a idéia de mereologia. Como tudo o que é da ordem natural está sujeito às modificações em seu aspecto material. este nome quer dizer àquilo que „ultrapassa a física‟ ou a consideração filosófica em prol da transcendência dos objetos naturais a partir de sua causa material. daí se conclui que este princípio primeiro ordenador do mundo não poderia ser material. Tomás de Aquino. O estudo do Ser enquanto Ser foi denominado de Filosofia Primeira. ou a unidade e a multiplicidade. ou seja. Tendo como referência. Por supra-sensível. sabe-se que o termo Metafísica seria equivalente à idéia de Filosofia Primeira. a busca por uma analogia que comportasse. foi responsável por esta assimilação da filosofia primeira de Aristóteles pela Igreja Católica). O objeto do qual se trata a partir da referência ao termo filosofia primeira. e. (b) o conhecimento do ser enquanto ser. o imutável e o devir. Caso o princípio de ordenação fosse sujeito à mudança. As finalidades da Filosofia Primeira são pelo menos quatro: (a) o conhecimento das causas ou princípios primeiros. pois. também deve ser entendida como a noção aristotélica de „ciência‟ teórica por excelência. (c) a indagação sobre a substância. associada com a dimensão religiosa da experiência humana. Mas isto não caracteriza que o estudo ontológico sirva apenas ao propósito da religião. que pudesse ser tratado como o motivo causador e mantenedor da ordem do universo. E isto porque Aristóteles procura desenvolver um modo de integração da filosofia pura em composição com aspectos realistas. Assim. e não da ciência. infundadas em muitos autores contemporâneos ligados à perspectiva científica. Este é o sentido do estudo da physis no pensamento grego. o modo como Aristóteles classificava a hierarquia entre conhecimentos. A abordagem metafísica é. isto não indica que necessariamente esta seja a característica do pensamento metafísico. por vezes. foi denominado como razão pura. na época moderna. a idéia da Filosofia Primeira. Em Aristóteles. parece mais plausível considerar que a opção de Andrônico pelo termo “Metafísica” foi porque. pode-se concluir que a Filosofia Primeira deveria tratar daquilo que vai além da física. (d) a indagação sobre Deus e a substância supra-sensível. posteriormente. que buscavam um princípio racional que estabelecesse certo finalismo em relação à filosofia grega da natureza. filosoficamente. É fato que a metafísica possui uma parte de sua história como sendo relacionada aos aspectos medievais (um dos doutores mais representativos do pensamento cristão. é o suprasensível.escritos. se entendem as formas puras. ou seja. tal como este pensamento tornou-se alvo de muitas críticas. etimologicamente. geralmente. ou seja. análogas ou semelhantes às Idéias platônicas. em clara analogia . a relação do todo com as partes. em um esquema racional. O conhecimento das causas ou princípios primeiros é um tipo de investigação que foi intentada pelos pré-socráticos. daquilo que a transcende. A permanência é tida como característica essencial da ordem. Este estudo consiste na análise das formas separadas dos aspectos materiais. os ensaios sobre Filosofia Primeira deveriam ser após os estudos da Física. A ordem pode ser identificada como a razão ontológica das coisas. E ainda que seja possível utilizar tal abordagem para esta finalidade. De qualquer modo.

Aristóteles achava que a filosofia primeira é. o ser da categoria de substância. Por esta razão. o ser se diz de múltiplos modos. Se observarmos a filosofia da natureza na Grécia Antiga. e esse modo de questionar nos conduz ao ser por si mesmo. ou seja. metafisicamente. A pergunta por um ente singular indica que a metafísica abrange. subdivide-se em regiões (ontológicas) singulares do ente. A indagação sobre o ser enquanto ser. falso. convencionalmente. por isso. veremos que vários pensadores estabelecem tanto princípios puros. a posteriori. isto seria a objetivação de um particular. pois ela não depende de qualquer aplicação prática. verdadeiro. Aristóteles parece enxergar o perigo existente nesta multiplicidade. ambos pertinentes ao que é sensível. são todos pensadores que tematizam estes dois tipos de princípios em suas filosofias. o ser do ente. bem como sensíveis. O que varia é o projeto filosófico de cada um deles. categorial). em sua consideração sobre a Filosofia Primeira. o que pertence ao domínio científico-natural. O tratamento aristotélico dado ao conhecimento metafísico indica que este é o mais difícil porque seus objetos. se considerarmos que as ciências investigam o mundo entitativo. Portanto. Nesse sentido. O acidental seria o mesmo que o contingente. potência e ato. nos leva à questão dos vários sentidos do ser (acidental. que não assume nenhuma determinação. a mais nobre e superior. sem uma referência. Contudo. o ente. Para Aristóteles. quanto pode se referir a um fim particular sobre o real. A filosofia primeira seria o estudo da necessidade a priori. existe a possibilidade (ainda que não tenha sido realizada pela falta de um método) de integrar o supra-sensível e o sensível. Talvez. . Todavia. que é o uso de sua razão e inteligência. A indagação sobre a substância. Platão e Plotino. Desde os mais associados com a filosofia pura. Tanto que este problema só aparece com força na época moderna. Para Aristóteles. até os mais realistas como Aristóteles. inclusive. pois. o objeto da metafísica interroga tanto a filosofia primeira na busca por um fim universal. Aristóteles é considerado um autor „científico‟. sendo os mais universais. A multiplicidade da qual Aristóteles fala refere-se à variedade com que podemos observar os aspectos do mundo entitativo. ou os atomistas como Demócrito. o ser é o mesmo que pensar em um gênero. por fim. ou nos termos de Leibniz. constituem aquilo que se encontra mais distante dos sentidos. como Pitágoras. No entanto. o conhecimento material sobre o ente indica o estudo dos acidentes. o problema é que na Grécia não havia um modo adequado de unificar estes princípios através de um método. e chamam o ente de objeto de estudo metodológico. na medida em que a diversificação. conduziria à involução do conhecimento. Isto não é verdade. a crítica que se estabeleceu quanto ao conhecimento metafísico é de que este teria a função de condicionar e inviabilizar o conhecimento de toda a realidade sensível. a finalidade com que cada um atribui um valor a estes princípios nas respectivas filosofias. sendo o motivo para a investigação metafísica um puro e desinteressado desejo de saber advindo daquilo que o homem tem de mais essencial. pois.platonista entre aspectos naturais e aspectos morais-políticos. vem ao encontro da nossa experiência como algo em geral. A questão do supra-sensível teve início quando Parmênides começou a investigação sobre o ser e concluiu que o ser é Um. dentre as ciências. deve conduzir à questão de se saber se só existem as substâncias sensíveis ou se existem também as substâncias supra-sensíveis. Na filosofia aristotélica. pois.

Referências & Notas Aristóteles. mas que existem apenas como aspectos possíveis de distinção nas realidades concretas (matemática). A necessidade não é um item natural. pois. Metafísica. simultaneamente. filosofia segunda e metafísica em Aristóteles. b) as que estão livres da mudança. Beatriz Rodrigues Barbosa. 1982. Met. Marco Zingano (org. Filosofia primeira. Aristóteles nos fala que existem três tipos de entes. Para Aristóteles. Mansion. Peters.” (ARISTÓTELES. ou categorias. estudados cada qual por um tipo diferente de saber: a) as que possuem existência substancial separada. Odysseus Lisboa. este projeto filosófico está voltado para a identificação das categorias ou espécies mais gerais das coisas. c) as substâncias que possuem. ou seja. 2005. trad. A tematização da Filosofia Primeira de Aristóteles na condição de ciência que investiga o ser enquanto ser. Madrid. existência separada e estão livres da mudança (metafísica). comporta certo tipo de necessidade. indica uma orientação que procura identificar as mais universais características da realidade ou do ser. uns dos outros. a Filosofia Primeira pode interrogar o objeto da metafísica tanto no sentido universal quanto em relação ao particular determinado. 1061.). Yebra.E. bem como a sua multiplicidade se caracteriza como referência à diversidade dos aspectos do mundo entitativo. trad. mas ideal. trad. Termos Filosóficos Gregos – Um léxico histórico. 1982). ou ainda.“Para todo e qualquer ente. mas estão sujeitas à mudança (física). Valentin G. que se encontra baseada em uma concepção de realismo robusto. Conclusões Uma vez que a idéia aristotélica de conhecimento seja referente ao real. F. contudo. Calouste Gulbenkian. Editorial Gredos. Parece que esta interpretação sugere que a unidade do ser é a unidade do conhecimento. pois. Ficando evidente que a “Ciência” de Aristóteles precisa admitir o mundo externo. . para todo ente de toda e qualquer significação. esta concepção só pode encontrar sustentação em um saber puro que a justifique. pp. São Paulo.. Editora. ainda assim. apenas na metafísica eles são teoricamente conciliáveis. in Sobre a Metafísica de Aristóteles. não se pode vê-la em um sentido empírico. 123-176. e a identificação dos tipos de relação que ligam objetos de diferentes categorias entre si são as tarefas pertinentes à investigação sobre a Filosofia Primeira. A. este deve ser o posicionamento teórico que todo e qualquer conhecimento deve ter como fim a ser alcançado. Marisa Lopes. de outro modo. A especificação do que distingue esses tipos. Por esta razão. No início do livro E da Metafísica. há o movimento que conduz ao surgimento e o movimento de recondução para algo assim como Um.

*Adílio Jorge Marques é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. *André Vinícius Dias Senra é professor de Filosofia da rede estadual de ensino. da The British School – RJ. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições. e da Pós-Graduação em Filosofia Medieval da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ .