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Anais do IV Encontro Estadual de História, Natal: ANPUHRN, 2010.

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Católicos a postos! A relação entre a Ação
Católica e a Ação Integralista no Rio Grande do
Norte até o Levante Comunista de 1935

Renato Amado Peixoto
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Este trabalho tem dois objetivos: o primeiro, o de
complementar os poucos estudos que se fizeram sobre a
história política do Rio Grande do Norte da década de 1930
por meio de uma interpretação que explicite movimentos
pouco trabalhados, como o Integralismo e a Ação Católica.
Nosso segundo objetivo é o de instituir a hipótese de que a
Igreja norte-rio-grandense se tornou, por meio da liderança da
Diocese de Natal, um dos principais atores na cena política do
estado nesse período. Para isto, centraremos nossa análise no
exame dos acontecimentos de 1935, por entender que estes
são centrais, não apenas para a nossa aproximação, mas
também porque permitem o entendimento da política e da
sociedade norte-rio-grandense nos dias atuais.
Inicialmente, buscaremos situar nossa
aproximação em relação à historiografia sobre período. Os
bons estudos feitos por José Antônio Spinelli Lindoso buscam
trabalhar a década de 1920 no Rio-Grande do Norte a partir de
uma interpretação centrada no exame das relações
oligárquicas, entendendo que a balança de poder no estado
pende do núcleo açucareiro sediado na região litorânea para o
Seridó, a partir das transformações deslocaram o centro
econômico do estado para a área algodeiro-pecuária. No caso,
dentre outros eventos, a elevação dos preços do algodão
permitiriam a essas elites consubstanciar suas posições de
facto alterando a velha ordem pedrovelhista, mas não a
eliminando de todo. O sentido da convivência forçada entre
esses dois núcleos oligárquicos, segundo Lindoso, seria sua
dependência das elites que controlavam o poder federal, o
que, de resto, seria subsumido como o contexto geral da
Primeira República: o arranjo local em função da ordem geral.
No mesmo sentido, no final dos anos 20, se daria a ascensão
de um novo segmento social, as classes médias, insatisfeitas
com os arranjos oligárquicos que as excluíram do poder. Esse
fenômeno que também se reproduziria no Rio Grande do
Norte permitiria explicar a ascensão de duas novas correntes:
o cafeísmo, que se articulava às lideranças sindicais e assim se
revestia de um caráter popular; e a dissensão sertaneja,
emblematizada pela figura de Dinarte de Medeiros Mariz.
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Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Renato Amado Peixoto

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Em relação à década de 1930, a interpretação de
Lindoso integra a ascensão dessas novas lideranças locais no
final da década de 1920, ou seja, um fator interno explicável
pela conjuntura geral, a um problema da organização do poder
no nível nacional: a Revolução de 30 teria alçado essas
lideranças ao poder por meio da sua participação no governo
das Interventorias Federais. Por conseguinte, a década de
1930 seria explicada a partir de um sentido inicial, a saber, de
que nesta se dava um embate desigual entre as novas
lideranças e os representantes das antigas forças desalojadas
do poder por Getúlio Vargas. Contudo, a partir de 1935 essa
situação de disputa se estabilizaria numa nova constante
política, a partir do desafio lançado pelo Levante Comunista, já
que sua repressão propiciaria aos representantes das antigas
forças a reconciliação com Getúlio Vargas e o afastamento de
seus antagonistas locais. Depois, a custa do sacrifício de alguns
princípios, se daria novamente a acomodação local numa nova
ordem nacional que seria consubstanciada na ditadura do
Estado Novo.
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A explicação do local por meio de uma
interpretação que se estrutura na explanação da influência de
um ou mais fatores externos também vai ser utilizada em
outros dois estudos. O primeiro destes é ‘História de uma
Campanha’ de Edgar Barbosa, autor que foi alçado por José
Augusto Bezerra de Medeiros, ex-governador do Rio Grande
do Norte na década de 20, à condição de historiador e escritor
da raça. ‘História de uma Campanha’ relata as disputas que
levaram ao poder o Partido Popular e é construído a partir da
metaforização de seus personagens, narrando “uma luta
encarniçada e cruel entre o Direito, que é a luz, que é o bem, e
a tirania, que é a treva, que é o mal”.
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A enunciação da
dicotomia fundamental entre o Mal e o Bem significa na obra a
constituição de uma contraposição entre o papel assinalado
respectivamente aos norte-rio-grandenses e aos forasteiros.
Assim, Barbosa opera, pela primeira vez, uma distinção que
seria depois repetida em relação a outros episódios da história
do estado, como é o caso, por exemplo, da ‘Campanha de José
da Penha’.
À ditadura de Getúlio Vargas (anacronicamente, já
que se trata na obra, dos eventos que se desenrolam de 1933
a 1935), são atribuídas atitudes e ideias que não condizem
com o solo, a identidade e os hábitos norte-rio-grandenses.
Constitui-se, não apenas uma distinção dos atores da trama,
mas também uma elisão dos personagens e instituições, como
a Igreja, que não se adequavam á grandiloquente distinção
entre o Mal e o Bem, enxergada por José Augusto.
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Se a Igreja Católica não se encaixa bem numa
interpretação norteada pelo econômico e pelo político, como
é o caso do trabalho de Lindoso, menos ainda se prestaria a
participar de uma construção, como a de Barbosa, que se
presta a intenção de elaborar valores simbólicos fundamentais
para a inscrição de certa espacialidade e identidade norte-rio-
grandense. No caso, a atuação fundamental da Diocese de
Natal nos eventos da década de 1930, quando esta se opunha
ativamente aos representantes das antigas oligarquias e,
consequentemente ao Partido Popular, foi simplesmente
apagada.
O outro trabalho a que nos referimos
anteriormente é a obra de Alceu Ravanello Ferraro ‘Igreja e
Desenvolvimento’. Nesta obra se busca mais analisar a
atuação da Igreja norte-rio-grandense nas décadas de 1940-
1960, análise esta centrada naquilo que denomina de
Movimento de Natal. Sua interpretação é a de que, embora
tendo sido formulado numa região “tradicional e
tradicionalmente católica”, o Nordeste, o Movimento teria
sido motivado pelos valores religiosos e sociais do grupo e das
lideranças excepcionais formadas no ambiente da Igreja norte-
rio-grandense. Esses valores teriam possibilitado uma atuação
não apenas inovadora no âmbito católico, mas, também
transformadora e desenvolvimentista, capaz mesmo de
constituir de um legado de aplicação universal. A emergência
desses valores seria motivada por uma situação limite,
constituída por um fator de origem exógena, a saber, o grande
crescimento populacional da cidade de Natal, provocado pela
instalação das bases estadunidenses durante a Segunda
Guerra.
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Embora Ferrari observe que o Movimento de Natal
surgiu a partir da Ação Católica, de indicar que o jornal A
Ordem antes de ser integrado ao Movimento em 1960 possuiu
grande influência política e de entender que parte do grupo
que fundou o jornal “estava sob a influência de ideia
integralistas”,
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em nenhum momento da análise o autor
procurou explicar essas convergências ou buscar alguma
conexão entre os problemas.
Como se pode depreender pelo exame da
historiografia sobre o período, nossa hipótese de que a
Diocese de Natal possuiu um papel central no jogo político da
década de 1930 não se opõe, mas complementa e também
integra as diferentes interpretações sobre o período, na
medida em que permite aproximar trabalhos como o de
Lindoso e o de Ferraro. Essa aproximação, contudo, depende
de uma abordagem teórico-metodológica diferente das que
basearam àqueles trabalhos. Ao invés de procurar entender a
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história local enquanto dependente ou tendo sido
desencadeada por eventos, ideias ou movimentos
provenientes de escalas exteriores (o nacional ou o
internacional), buscamos trabalhar a partir do pressuposto de
que a história regional interage com aquelas escalas. Nesse
caso, não procuramos entender a história local como uma
continuidade ou enquanto inserida numa visão de progresso,
mas, enquanto um conjunto de possibilidades. Se existe um
desdobramento da história regional num ou noutro sentido
das escalas (o nacional, o internacional) este depende mais
das opções oferecidas aos atores e de uma percepção das
possibilidades aberta pelo contexto histórico.

A fundação do jornal A Ordem

Examinaremos, inicialmente, essas possibilidades
por meio do rebatimento dos enunciados dos discursos
recolhidos do jornal A Ordem com o exame do complexo
contexto norte-rio-grandense. Devemos fazer notar, de saída,
que o jornal oficial da Diocese de Natal foi lançado em 14 de
julho de 1935, dia em que se comemorava o aniversário da
Revolução Francesa. Longe de ser coincidência, uma vez que a
publicação jornal “não se improvisou”, mas foi longamente
meditado, conforme o seu primeiro editorial, o lançamento do
jornal no aniversário da Revolução Francesa visava firmar
simbolicamente a posição contra o esquecimento dos
“deveres do homem” e dos “direitos de Deus”.
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Esses enunciados certamente faziam sentido para
uma audiência que se acostumou a receber as notícias
governamentais por meio de um diário chamado A República e
que viu esvaziar, desde o início do regime do mesmo nome, o
espaço simbólico e político da Igreja Católica. Afinal, foi
justamente na Primeira República que a Maçonaria ganhou
maior representatividade no governo e na sociedade norte-
rio-grandense, e foi por meio de A República que a maçonaria
veiculou mais abertamente suas opiniões e propagandeou
suas reuniões. Foi também nesse mesmo período que credos
religiosos concorrentes com o catolicismo, no caso o
protestantismo e o espiritismo, alcançaram maior divulgação e
conquistaram adeptos entre a elite norte-rio-grandense,
especialmente em Natal e seus arredores.
A Ordem nascia ainda em meio a uma agitação
política sem precedentes no Rio Grande do Norte, às vésperas
da eleição onde se enfrentariam os aliados da Interventoria
Federal, reunidos na ‘Aliança Social’, e os representantes das
oligarquias que governaram o estado até a Revolução de 30.
Estes últimos compunham, em sua maioria, o ‘Partido
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Popular’, o qual mantinha um diário chamado A Razão. Ao
mesmo tempo, os sindicalistas, os cafeístas e o Partido
Comunista promoviam greves, manifestações e tentavam
organizar a ‘Frente Popular pelas Liberdades’. Por conseguinte,
novamente devemos fazer notar que o nome do periódico da
Igreja Católica não foi escolhido por acaso, pois este nome
remetia ao combate de um estado de coisas que era
entendido enquanto convulsionado, um caos que se estendia
do meio político à sociedade e, desta, até o campo moral.
Por um lado, buscava-se uma ordem julgada
aviltada pela possibilidade de retorno ao regime da Primeira
República, execrado por aqueles que editavam o jornal.
Sintomaticamente, A Ordem se opunha ao jornal denominado
A Razão, algumas vezes abertamente, como, por exemplo, ao
condenar as opiniões do seu editor Eloy de Souza, então
convertido ao catolicismo, acusado então de ridicularizar Dom
Marcolino Dantas, bispo de Natal. Neste caso especial, A
Ordem tratou de mostrar o quão importante era que os
católicos mantivessem o respeito à autoridade moral e
espiritual da hierarquia católica.
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Mas, na maioria das vezes, o
enfrentamento se deu mais no campo dos enunciados, como,
por exemplo, na exaltação da unidade da nação e do
nacionalismo, contra os interesses locais e estaduais,
denominados de “regionalismos”. De certo, A Ordem apoiou
abertamente a Interventoria Federal e a Aliança Social, mesmo
após a derrota destes nas eleições para a Constituinte Estadual
de 1935.
Por outro lado, buscava-se uma ordem julgada
ameaçada por aqueles que estariam dispostos não apenas a
derrubar o Governo, mas também a destruir a Igreja. A Ordem
denunciava o regime nazista e a União Soviética, enquanto
governos que perseguiam os católicos e que trabalhavam por
meio de uma diplomacia secreta para espalhar suas ideologias.
Enquanto o regime nazista era acusado de propalar o
neopaganismo e de empregar a eutanásia e a esterilização, a
União Soviética era acusada de restringir a religião mesma e
de destruir a família e afrontar a moral cristã. A Ordem
estendia ainda suas denúncias àqueles que eram considerados
seguidores do comunismo no Brasil, notadamente acusando-
os de planejar uma revolução no país e arrolando nesse
propósito os partidários da Aliança Nacional Libertadora (ANL).
Ainda que A Ordem não apontasse diretamente os partidários
da ANL e do comunismo no Rio Grande do Norte, movia
continuamente oposição a estes, por meio de suas colunas,
editoriais e de notícias que mostravam as mazelas e os
desmandos ocorridos na União Soviética, bem como a
movimentação nacional contra os militantes da ANL.
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Mais diretamente, A Ordem veiculou a perseguição
que teria sido movida aos integralistas pelos comunistas norte-
rio-grandenses, relatando os atentados contra a vida e a
propriedade dos integralistas. Este jornal se posicionou
também contra a greve na Great Western e contra a Frente
Parlamentar pelas Liberdades, movimentos imediatamente
precedentes ao levante comunista de 1935.
Mais importante que a citação direta, é que A
Ordem procurava oferecer uma concorrência aos argumentos
que eram apresentados pelos seus adversários, articulando
contraenunciados que municiavam ideologicamente os
católicos.
Se contra os populistas (como eram denominados
então os que formavam no Partido Popular) se argumentava
em favor do nacional e de uma compreensão do plano
espiritual que se contrapunha ao liberalismo, contra os
comunistas se esgrimia a incompatibilidade total da fé com
sua ideologia. Ao lado disto, se mostrava que a Igreja não
defendia a propriedade, mas uma ‘função social da
propriedade’ que colidia com o capitalismo e que esta deveria
se articular com uma visão espiritual da sociedade onde a
família estava em seu centro.
A opinião à respeito da greve era colocada por
meio da ideia de que um “salário justo” e não um salário-
mínimo era essencial à classe trabalhadora e de que a greve,
direito do trabalhador, poderia ser utilizada desde que
respeitasse alguns limites e enquanto um instrumento de
reivindicação e não como um meio de combate político.
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Ao lado destas ideias gerais, eram então
trabalhados certos pontos que, muito provavelmente, eram
esgrimidos pela propaganda adversária, como, por exemplo, a
ideia de que Jesus ou os primeiros cristãos haviam sido
comunistas.
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Ainda, no caso da campanha contra a guerra,
movida pela ANL, fazia-se questão de mostrar que a Igreja
sempre fora a grande amante da paz e que o discurso da ANL
era meramente interesseiro porque era construído apenas a
partir de suas necessidades imediatas.
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Por conseguinte, podemos entender que A Ordem
não era apenas um periódico publicado pela Igreja, mas um
diário que veiculava um pensamento e buscava articular e
orientar uma atuação político-social-moral de maior
envergadura, enxergando o local em sincronia e não em
dependência do exterior, entendendo suas transformações e
procurando se adaptar a elas.
Para que esta nossa aproximação possa ser mais
bem endossada, procuraremos, a seguir, examinar as
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circunstâncias que animaram o grupo fundador do jornal A
Ordem.



A Ação Católica e A Ordem

As posições adotadas por Pio XI em seu pontificado
são por demais conhecidas e explicitadas, bem como as
encíclicas nas quais estas foram veiculadas. ‘Quadragesimo
anno’, ‘Non abbiamo bisogno’, ‘Mit brennender Sorge’, ‘Divini
Redemptoris’, são documentos fundamentais da História
Contemporânea, não apenas por condenarem o liberalismo, o
fascismo, o nazismo e o comunismo, mas por constituírem e
colocar um pensamento católico ativamente em contraposição
àquelas ideologias. Embora esse pensamento tenha sido
continuamente formulado desde o pontificado de Leão XIII,
especialmente na encíclica ‘Immortale Dei’, foi Pio XI quem
procurou objetivar sua veiculação. É nesse sentido, o de
pensar e organizar uma comunidade de leigos e sacerdotes em
face dos contextos particulares e gerais, que percebemos as
posições e articulações que iriam nortear a Ação Católica no
Brasil e sua aplicação no Rio Grande do Norte pela
‘Congregação Mariana de Moços’.
No Brasil essa articulação já havia conquistado
diversos ganhos na Constituinte de 1934, por conta dos
parlamentares eleitos a partir do apoio dado pela Liga Eleitoral
Católica, que foi então liderada pelo Cardeal Leme e
coordenada por Alceu Amoroso Lima. A este último, que
passaria a chefiar oficialmente o Centro D. Vital em 1935, seria
dada a tarefa de organizar a Ação Católica Brasileira e, nesse
âmbito, constituir uma Associação Jornalística Católica e uma
rede de jornais católicos. No Rio Grande do Norte, coube à
Congregação Mariana de Moços levar adiante o esforço de
constituir um periódico com o perfil adequado ao esforço
esboçado pela Ação Católica.
Por conseguinte, A Ordem fazia parte de um
esforço que buscava articular continuamente a presença e a
aplicação do pensamento social católico, orientando sua
relação com a sociedade e o governo. Por conta disto,
constituiu-se um esforço de produção intelectual voltada para
subsidiar esses periódicos que incluía tanto a incorporação de
trabalhos de intelectuais locais quanto de textos produzidos
ou publicados em outros jornais do Brasil e do exterior. Note-
se que tudo isto se dava num momento em que as agências de
notícia ainda engatinhavam no Brasil.
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Portanto, podemos pensar que A Ordem seguia
uma linha editorial harmonizada tanto com as diretrizes da
liderança nacional da Ação Católica, enfeixada naquele
momento por Alceu Amoroso Lima, quanto com a liderança
mais imediata de D. Marcolino Dantas, em última análise, o
responsável por coordenar no Rio Grande do Norte esses
esforços, até porque, segundo o art. 9 dos Estatutos da Ação
Católica Brasileira, a diretoria diocesana tinha de ser nomeada
diretamente pelo seu Bispo. Ora, nas mãos de um bispo
dinâmico, como era o caso de D. Marcolino Dantas, a Ação
Católica seria quase sempre presente e eficiente.
Um dos exemplos mais eloquentes dessa sintonia e
que reforça nossa hipótese é o fato de que, desde seu
primeiro número, uma das colunas do jornal chama a atenção:
em 1935 A Ordem publicou quase que diariamente uma seção
denominada ‘Notas Integralistas’, cuja responsabilidade era
assumida diretamente pela secretaria de propaganda da Ação
Integralista do Rio Grande do Norte. Não coincidentemente,
essa função era ocupada por Oto de Brito Guerra, também
redator-chefe de A Ordem e que, às vezes, ainda representava
o Interventor Federal em algumas solenidades. Vale a pena
lembrar que Otto tinha então apenas vinte e três anos e
descendia de uma das mais antigas e prestigiosas organizações
familiares norte-rio-grandenses.
Torna-se necessário explicar que, apesar da Ação
Católica Brasileira se definir enquanto “fora e acima dos
partidos”,
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Alceu Amoroso Lima e outros intelectuais do
Centro Dom Vital entendiam que, dadas as circunstâncias da
cena política brasileira, com o conflito aberto entre a esquerda
e o eminente do fim do liberalismo, se deveria optar pelo
perigo menor e tolerar a presença dos católicos,
especialmente dos jovens, na Ação Integralista.
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Abriu-se, assim, a possibilidade de uma aliança
que, em nossa interpretação, impediu a radicalização do
integralismo, por conta do isolamento das suas correntes mais
radicais, como foi o caso de Gustavo Barroso, mas que
colocou, pelo menos no caso do Rio Grande do Norte, o
integralismo sob a tutela direta da Igreja, haja vista que
aqueles que pertenciam à Ação Católica aceitavam, conforme
o estatuto da Ação estabelecia, em primeiro lugar, a
obediência à consciência e à hierarquia religiosa. Em nossa
opinião, esta leitura é a chave que permite entender, pelo
menos no caso do Rio Grande do Norte, o súbito
desaparecimento do integralismo e a absorção de boa parte
dos seus membros nas organizações católicas, tão logo foi
posto fora da lei.

Renato Amado Peixoto

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A Ação Integralista e A Ordem

O apoio do jornal A Ordem, bem como a
participação dos membros da Ação Católica, constituiu uma
aura de credibilidade que propiciou em 1935 a expansão do
integralismo para além dos limites da capital. Sob o chefia do
maestro Waldemar de Almeida, a liderança de Oto Guerra e a
militância do padre Walfredo Gurgel, foram inaugurados
diversos núcleos integralistas, um deles num dos bairros mais
populares de Natal, o Alecrim, e vários outros no interior do
estado e nas regiões produtoras de açúcar próximas à capital.
O crescimento vertiginoso do integralismo nessas áreas,
especialmente na área do vale do Açu, constituiria uma tensão
contínua com os comunistas que iria resultar em vários
confrontos entre as duas militâncias. Entre julho e outubro de
1935, A Ordem registrou vários episódios de depredações de
residências e propriedades, sabotagem de bens públicos e
atentados contra a vida dos integralistas, os quais, se somados
aos confrontos entre os partidários do Partido Popular e da
Aliança Social que Edgar Barbosa relatou, permitem arriscar
que 1935 foi um dos anos de maior violência política no Rio
Grande do Norte. A marcada divisão ideológica existente entre
as novas facções políticas, bem como a fratura profunda entre
as instituições e as organizações familiares tradicionais,
resultou num descrédito e enfraquecimento do aparelho de
estado.
Nesse sentido, podemos adiantar outra hipótese, a
de que o estudo do Levante Comunista de 1935 no Rio Grande
do Norte deve incluir obrigatoriamente uma digressão sobre
essas disputas. Note-se que o levante aconteceu em Natal
num vácuo de poder, no momento mesmo em que se elegia
na Assembleia Constituinte Estadual o governador que iria
substituir o Interventor Federal. Essa disputa foi tão acirrada
que, inclusive, segundo Edgar Barbosa, os deputados eleitos
do Partido Popular tiveram de se refugiar no vizinho estado da
Paraíba, para fugir das retaliações dos membros da Aliança
Social. Outro indício em favor de nossa hipótese é que, logo no
início do Levante Comunista, as instalações do jornal A Ordem
foram ocupadas pelos revolucionários, que, além de destruir a
tiragem dominical, prenderam seus funcionários, mudando
depois os dísticos e emblemas de sua placa para ‘Tipografia da
Aliança Libertadora’, juntando-lhe o símbolo da foice e do
martelo. Os boletins e avisos do governo revolucionário foram,
portanto, impressos na sede do periódico oficial da Igreja
Católica.
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Pode-se entender que A Ordem fora identificada
pelos revolucionários como o símbolo maior da disputa e que
urgia reelaborar sua representação adequadamente, um
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sentido que não escapou aos editores de A Ordem já que no
primeiro número do jornal publicado após o Levante se
destacava a humilhação “da população católica do Estado”.
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Por fim, resta-nos colocar que antes do Levante
percebemos uma tensão interna na relação entre o
integralismo e a Ação Católica. Embora a condenação ao
nazismo fosse reiterada constantemente por meio de
colaborações externas, A Ordem noticiava rotineiramente o
cotidiano do regime alemão, sua política e suas realizações
científicas, permitindo aventar que existiria certa admiração
dos editores por estes. Note-se que ajudava muito o fato dos
Zepelins, que eram uma vitrine do regime hitlerista, passarem
quase que rotineiramente sobre Natal, efeméride que era
sempre anunciada e saudada por A Ordem.
Por outro lado, os feitos do regime salazarista e de
Mussolini eram abertamente celebrados. Fazia-se do fascismo
italiano quase que um espelho do que era desejado para nossa
política, a despeito deste regime também já ter sido
condenado em encíclica papal. Nesse ponto, como um
exemplo eloquente dessa tensão, nota-se uma mudança da
pauta do jornal entre julho e outubro no que diz respeito a um
dos episódios de maior repercussão na época, a invasão da
Etiópia. Em julho, repercutindo a orientação nacional da Ação
Católica, A Ordem estampa a condenação ao imperialismo e à
política de expansão belicista de Mussolini. Contudo, em
setembro, as críticas cedem lugar a descrições cada vez menos
neutras da guerra, que culminariam em novembro com uma
discussão ambígua a respeito da condenação à guerra, onde se
pondera se a condenação à guerra na Etiópia não seria apenas
um pleito interesseiro da ANL.

Conclusões
No ano de 1935 a Diocese de Natal conduziu uma
experiência pioneira no sentido de se constituir enquanto ator
político e de integrar as experiências político-sociais a partir de
uma estratégia de divulgação do pensamento social católico
que incluía táticas que visavam à aproximação com segmentos
novos da sociedade e um afastamento em relação aos setores
tradicionais. O resultado disso é que em novembro de 1935, D.
Marcolino Dantas já havia se tornado um interlocutor
reconhecido e saudado mesmo pelos que lhe faziam oposição.
A Igreja e as representações do catolicismo voltaram a fazer
parte do cotidiano político norte-rio-grandense que, a partir
do estabelecimento mesmo da Assembleia Constituinte
Estadual, voltaria a reconhecer a pertinência destes à prática
política.
Renato Amado Peixoto

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O integralismo se tornou, nesse momento, parte
dessa experiência que visava uma maior participação na
sociedade, mas que, no entanto, deixou marcas no laicato e no
clero norte-rio-grandense, pela intensidade que as formas e a
luta política tomaram no Rio Grande do Norte. O integralismo
legou à Igreja não apenas o ônus de uma associação, mas,
também uma aproximação com preocupações, com políticas e
com setores da sociedade que iria lhe permitir urdir
estratégias, táticas e experiências ainda mais ousadas nas
décadas seguintes. Além disso, a Igreja herdou quadros
experimentados, atuantes e reconhecidos pela sociedade
local, bem como contatos em outros estados, o que permitiu,
futuramente, uma maior projeção e divulgação dos resultados
de suas atividades.


1
LINDOSO, Jose Antonio Spinelli. Coronéis e oligarquias na Primeira
República. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2005 (Texto publicado na
internet), p. 28-29.
2
LINDOSO, Jose Antonio Spinelli. A reação da oligarquia potiguar ao
modelo centralizador de Vargas: 1930-1935. Dissertação de Mestrado.
UNICAMP, 1989, p. 330-331.
3
BARBOSA, Edgar. História de uma campanha. Natal: EDUFRN, 2008, p. 31-
32.
4
FERRARO, Alceu Ravanello. Igreja e desenvolvimento - O movimento de
Natal. Natal: Fundação José Augusto, 1968, p. 220-221.
5
FERRARO, Alceu Ravanello. Igreja e desenvolvimento - O movimento de
Natal. Natal: Fundação José Augusto, 1968, P. 47.
6
A Ordem, 14/07/1935, nº 01.
7
A Ordem, 09/08/1935, nº 22.
8
A Ordem, 12/11/1935, nº 98.
9
A Ordem, 06/11/1935, nº 93.
10
A Ordem, 23/11/1935, nº 106.
11
A Ordem, 14/07/1935, nº 01.
12
A Ordem, 23/07/1935, nº 07.
13
A Ordem, 01/12/1935, nº 107.
14
A Ordem, 01/12/1935, nº 107.