X Encontro de Pós-Graduação e Pesquisa

Universidade de Fortaleza 20 a 22 de Outubro de 2010

O ORGÂNICO E O INORGÂNICO NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: A EMERGÊNCIA DE UMA NOVA CONCEPÇÃO DE VIDA A PARTIR DA TÊNDENCIA FORMATIVA
Palavras-chave: Tendência formativa. Tendência Atualizante. Inorgânico. Orgânico. Vida

Resumo
Carl Rogers, um dos mais renomados psicólogos do século passado, postulava que todo organismo possui a capacidade de atualizar seus potenciais, de se tornar mais complexo. A esta qualidade da vida orgânica Rogers denominava tendência atualizante. Na década de 1970 e 1980, entretanto, nos dez últimos anos de sua vida, Rogers formulou que não apenas os seres vivos possuíam esta qualidade, mas que todo o universo, em suas várias expressões inorgânicas, tendia a se tornar mais complexo e interdependente, denominando a esta força presente na dimensão inorgânica de tendência formativa. Ainda que Rogers tenha alçado a tendência atualizante e a tendência formativa como construtos basilares de sua escola, Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a dinâmica entre estas duas tendências, entre o orgânico e o inorgânico, permanece até esta primeira década do século XXI inexplorada no campo da Psicologia. Isto ocorre porque muitos teóricos da ACP afirmam que o conceito de tendência formativa é apenas uma mera extensão da racionalidade presente no conceito de tendência atualizante. Esta pesquisa objetivou, através de uma investigação teórico-bibliográfica que inclui elementos de uma genealogia conceitual, investigar a relação entre orgânico e inorgânico no contexto sócio-cultural que Rogers estava inserido, e como esta dinâmica se insere na teoria de Rogers. Concluímos que tendência formativa não apenas se distingue conceitualmente da tendência atualizante, mas que a modifica ao postular uma noção de vida não mais como força vital individual, mas como uma malha coletiva que inclui aspectos orgânicos e inorgânicos.

Introdução
A Terapia Centrada no Cliente (TCC) foi desenvolvida por Carl Rogers e figurou como uma das teorias e práticas mais importantes da terceira força em Psicologia, denominada Humanista. Rogers foi um dos primeiros a utilizar gravações de sessões psicoterapêuticas, testes psicológicos e estruturas metodológicas de inspiração positivista para compreender as nuanças do atendimento psicoterápico, bem como buscar comprovar a eficácia de seus resultados. Em razão deste caráter científico inovador, a Terapia Centrada no Cliente recebeu um status privilegiado entre as abordagens de psicoterapia e se firmou como uma das grandes escolas em voga na Psicologia. Na década de 1960, quando Rogers se aposentou da Universidade de Wisconsin, a formação de novas e diversas práticas, conceitos e racionalidades pautados numa “filosofia” que já existia, em certa medida, latente na Terapia Centrada no Cliente fizeram surgir a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Esta abordagem, entretanto, que passa a diferir profundamente da TCC, nasceu quando seu criador se encontrava desvinculado da Academia, incapaz de refazer o percurso de validação que fizera com a Terapia Centrada no Cliente décadas atrás. Isto significa, por um lado, que as formulações conceituais e metodologias práticas elaboradas por Rogers na constituição da Abordagem Centrada na Pessoa foram altamente inovadoras para o campo da Psicologia, em grande parte porque seu pensamento não estava atrelado à vertente positivista de ciência que dominava as universidades norte-americanas e que por décadas havia exigido de Rogers um esforço descomunal para atestar, através de concepções operacionais e pesquisas experimentais, suas idéias formuladas já no início da década de 1950; enquanto que, por outro, significou que estes elementos terapêuticos e conceituais elaborados por
ISSN 1808-8457

em 1975 e publicado em 1978. entretanto. incluindo práticas de mediações de conflitos raciais e internacionais. descrita por Carl Rogers a partir de uma experiência que lhe ocorreu na infância.134. que deu origem ao nosso universo. Rogers valeu-se desse conceito sintrópico para também compreender suas implicações e desdobramentos no campo da Psicologia. neste mesmo livro. além de que suas interfaces e adaptações com a teoria desenvolvida anteriormente por Rogers ficou como uma tarefa a ser realizada em anos vindouros. Quando criamos um clima psicológico que permite que as pessoas sejam – sejam elas clientes. tudo o que existe como expressão da vida. nos seres orgânicos e. de duas formas: (1) considerar tendência formativa como um “pensamento tardio” de Rogers e não um conceito. crescendo. 1978). um capítulo no livro Um Jeito de Ser (1983). de forma particular. da modesta ameba até a mais sensível e talentosa das pessoas [. mas que todo o universo. por discípulos de Rogers e praticantes da ACP – atividade que até o momento permanece incompleta. quando ainda era denominada de aconselhamento não diretivo. pelo próprio significado da palavra tendência. que tendência formativa e tendência atualizante são as pedras basilares da Abordagem Centrada na Pessoa (ROGERS. no cerne da criação de sua abordagem em Psicologia. trabalhadores ou membros de um grupo – não estamos participando de um evento casual. em particular. uma base filosófica para a Abordagem Centrada na Pessoa. Rogers verificou. dentre outros autores (KRIZ. desordem. parece existir um “acordo implícito” entre considerável parcela dos teóricos e praticantes desta abordagem em considerar o conceito de Tendência Formativa como não sendo parte integrante e essencial da ACP (CAVALCANTE. ELLINGHAM. da sua Abordagem Centrada na Pessoa e os significados do processo de mudança e crescimento organísmico.. É de notório conhecimento esta concepção de crescimento dos organismos na TCC. no porão de sua casa. está num movimento em direção a maior complexidade. Em uma escala ainda maior. ainda que de forma distorcida. explicitado por Rogers como um dos dois pilares de sustentação da Abordagem Centrada na Pessoa. seja orgânico ou inorgânico. Segundo argumentou o autor. A esta visão Cornelius-Whyte (2007). concepção que foi bem elaborada por meio de uma imagem. tornou-se. mais tarde. da química (Illya Prigogine) e de sua própria experiência para contrapor-se a uma visão simplista da segunda lei da termodinâmica. . 2008). Um destes elementos principais é o conceito de tendência formativa. no ser humano. Esta manipulação e entendimento equivocados do conceito são feitos. Rogers desenvolveu o conceito de tendência formativa a partir de suas próprias experiências como facilitador de pequenos e grandes grupos (alguns que chegaram a se constituir com mais de 800 pessoas) e outras atividades da Abordagem Centrada na Pessoa. esta é a representação concreta da atuação da tendência atualizante em uma expressão orgânica. ou seja. que afirma que a tendência dos sistemas físicos é evoluir para estados de mais alta entropia. creio que estamos sintonizando uma tendência criativa poderosa [tendência formativa]. seminalmente. explicitamente. De uma aplicação nas chamadas ciências naturais. no artigo The Formative Tendency. produzindo um conceito relacionado com o postulado básico da Terapia Centrada no Cliente: tendência atualizante.] Esse tipo de formulação é para mim. Em geral. Estamos tateando uma tendência que permeia toda a vida orgânica – uma tendência para se tornar toda a complexidade que um organismo é capaz.. 1983). com recursos externos insuficientes. Apresentado. Desde cedo no pensamento de Rogers. em condições ambientais precárias. no Journal of Humanistic Psychology (ROGERS. em direção a uma pequena fresta de luz. (p. entretanto. Ao utilizar idéias provenientes de teóricos da filosofia (Micheal Polanyi). ainda que o próprio Rogers tenha afirmado. 2006. que não somente isso ocorria. vindo a desenvolver o conceito de tendência formativa. a dinâmica entre permanência e mudança (MARQUES-TEIXEIRA. Trata-se. Rogers ressaltou a complementaridade sintrópica nos processos da vida e do universo. em linhas gerais. de uma nova formulação de sua teoria.Rogers neste período não foram suficientemente lapidados e investigados. 2008). a concepção de que os organismos possuíam uma capacidade inata para desenvolver as próprias potencialidades foi crucial – pensamento desenvolvido a partir do contato com as escolas funcionalistas norteamericanas. em primeira instância. da biologia (Murayama). geralmente. que traz. estudantes. de uma batata. grifos do autor). De acordo com Rogers. Ela justifica meu engajamento com um jeito de ser que é afirmativo da vida. desde o menor floco de neve até a maior galáxia.

tanto respondendo a questões próprias da contemporaneidade. fazendo referência à derrocada de uma concepção de vida que não reducionista. identificar todos os processos químicos e fisiológicos necessários para o surgimento da vida e seus processos de crescimento. (4) e. De fato. ser considerado um ser vivo. o pêndulo consideravelmente se inclinou para o lado do reducionismo. artigos e documentos referentes às noções de “orgânico” e “inorgânico”. principalmente depois da descoberta do DNA. podendo ser explicados apenas pela existência de uma força vital. pouco se sabia sobre o vírus. mas sem alterar a racionalidade geral do antigo conceito. foi patente a escolha de um enfoque qualitativo para a investigação. por Francis Crick e James Watson. ou (2) compreender que tendência formativa é um conceito integrante da teoria rogeriana. Nessa época. existindo somente enquanto transposição às fronteiras das expressões orgânicas da vida. por fim. Ao mesmo tempo. discussão dos dados coletados. . 1991). em 1953. que Rogers sedimentava sua inspiração intelectual nas Ciências Biológicas. tanto a partir de suas experiências pessoais na fazenda de seu pai como no âmbito dos seus interesses intelectuais. portanto. De fato. apenas como um adendo sem importância. (2) diálogo conceitual destas duas noções. após experimentos que cristalizaram um tipo específico de vírus (TMV) declarouse ter sido criada vida em um contexto artificial de laboratório (MORANGE. pelas concepções da Biologia. MARCONI. onde ocorreram: (1) identificação. que propunha justamente que os organismos são irredutíveis às leis da Física e da Química. que acreditava poder compreender as funções e qualidades complexas dos organismos pelo estudo de seus aspectos químicos e fisiológicos. como anota Morange (2008). além de assinalar as mudanças que o conceito de tendência formativa provocou. entretanto. a maioria dos biólogos concluiu que havia sido desvelado o segredo da vida e que todos os mistérios que envolviam a vida orgânica estavam para serem revelados (MORANGE. as Ciências Biológicas oscilaram desde o século XVIII entre estes dois pólos. demonstra que tendência formativa possui todos os elementos necessários para se constituir como um conceito. Não por acaso o primeiro curso no qual Rogers se matriculou foi o de Agronomia. e ainda provoca – tendo em vista que muitas das questões propostas por este conceito permanecem desafiando os teóricos da ACP -. 2008). entretanto. delineado o modo como o conceito de tendência formativa se insere na teoria da Abordagem Centrada na Pessoa. nas premissas básicas da Abordagem Centrada na Pessoa. como código genético da criação. Metodologia Tendo a intenção de trabalhar com paradigmas que implicam fenômenos complexos e subjetivos sobre a discussão do lugar conceitual da tendência formativa no pensamento rogeriano e no substrato histórico-cultural que permitiu a sua emergência. principalmente aquelas referentes ao final do século XX – período em que Rogers desenvolveu mais profundamente o conceito de tendência formativa. e uma perspectiva vitalista. localização e compilação de uma população de livros. Em 1935. sendo ele compreendido por alguns pesquisadores como o elemento básico da vida. quanto abrindo lacunas prenhes de desdobramentos futuros inesperados. podemos atualmente argumentar que o vírus não pode nem ao menos. evidenciando as suas diferentes concepções e origens. esta viveu períodos conturbados de mudanças durante o século XX. a pesquisa se desenvolveu com um delineamento metodológico teórico-bibliográfico (LAKATOS. mas considerá-lo apenas uma expansão da lógica já presente na tendência atualizante. No princípio do século XX. Destarte. no entanto. O objetivo desta pesquisa foi. O DNA poderia. 2008). analisar as relações entre os conceitos de tendência atualizante e tendência formativa nas idéias de Carl Rogers. a partir das suas relações com as concepções de vida latentes ou explícitamente presentes no enquadre sóciocultural no qual Rogers estava inserido. Como resultado deste experimento..2002). orgânico e inorgânico. Resultados e Discussão Rogers vinha de uma história de vida intimamente ligada ao cultivo orgânico. Marcadas pelos embates entre uma perspectiva reducionista da vida. o jornal New York Times publicou uma matéria com o título “Crepúsculo da vida”.

Nesta concepção. nas suas múltiplas relações entre o orgânico e o inorgânico. a vida deixa de ser um elemento localizado num determinado organismo para ser um manto que se entrelaça dos organismos. ocorrendo em solventes outros que não água ou envolvendo oxidação-redução sem dioxigênio. cerceamento e desconfiança. Tratava-se. as marcas da contracultura ficaram enraizadas na memória coletiva dos Estados Unidos e se espalharam por outras paragens. Foi desta marca. O emergentismo é. num sentido particular de uma matriz não diretiva e experiencial. Simultaneamente a esta recodificação da vida na teoria rogeriana. incluindo a ACP. 2007. mas tendo sido uma das suas principais características apagar as linhas solidificadas entre alta cultura e baixa cultura. Nos anos seguintes ao movimento de contracultura. tradução nossa). Tal retorno da concepção de vida. No caso da astrobiologia. inclusive em seus aspectos orgânicos.1. considera todo o planeta Terra um sistema vivo. a vida e a liberdade retornaram à berlinda. principalmente inspirado na Teoria Geral dos Sistemas. tal perspectiva se chocava frontalmente com os lemas de controle e reducionismo presentes na ciência e na política. Em grande parte. O intuito de retomada do poder emancipatório da vida. agora numa perspectiva nova. de livre expressão e criatividade. desta permissão cultural. representadas por aquelas concepções que se compadeciam ao reducionismo presente na ciência. Obviamente. seriam absolutamente diferentes? A tendência natural em direção a “terracentricidade” requisita que nós façamos um esforço consciente para ampliar nossas idéias de onde a vida é possível e que formas poderiam tomar. porém. mas então com delineamentos teóricos singulares à época. já que as condições de formação da vida. grosso modo.Na mesma época. paz. Não por acaso. sem energia suficiente para mover batalhas de grande porte. que a Abordagem Centrada na Pessoa se tornou mais do que uma disciplina científica. ao mesmo tempo em que os produz enquanto tal. quando eclodiam justamente os movimentos vários no interior da contracultura. É fácil conceber reações químicas que podem suportar vida envolvendo componentes não-carbônicos. Naquele período. começou a ser questionada quando expedições espaciais passaram a buscar vida fora do planeta Terra. experimentação do corpo. p. a concepção “tradicional” de vida. teve várias frentes de atuação e aliados teóricos. entre saber popular e científico. porém. (NASA. de James Lovelock (2006). a vida incorpora em suas feições tanto elementos orgânicos como inorgânicos. requisitava também uma resposta às próprias concepções de vida que estavam ou ultrapassadas. ou manipuladas. então. no interior das próprias disciplinas da Química. Como bem exemplifica este ponto. reinvidicando liberdade. Ainda que um movimento relativamente breve. Não que o movimento de contracultura possa ser glorificado ou alavancado ao status hierárquico de cura de todos os males sociais. A vida arrefecia nos reducionismos e pressões dos sistemas humanos. mais um espaço cultural de liberdade. o surgimento de propriedades específicas que não podem ser reduzidas aos elementos que lhe deram origem. Estas questões sobre a vida já estavam presentes nos problemas e interesses que fizeram Rogers conceber o conceito de tendência formativa. Física e Biologia. esta foi a época em que Rogers expandiu cada vez mais suas áreas de atuação. tal perspectiva é um desdobramento das concepções holísticas anteriores. A longa história da química terrestre nos tenta a tornamo-nos fixados no carbono porque a vida terrestre é baseada no carbono. que se apresentaram em diversos contextos onde tais frentes de batalhas se sucederam: o emergentismo e a astrobiologia. Vale ressaltar que um ponto revolucionário para a sedimentação da ACP foi o fervilhar dos EUA nos anos 1960. surpreendemente ocorria. focando considerável quantidade dos seus esforços no âmbito da política. Qual seria o parâmetro para identificar vida extraterrestre. mas no seu caso sendo principalmente o reducionismo psicológico o seu maior inimigo. como é demonstrado em Um Jeito de Ser . evidenciadas por Morange (2008). a vida foi reposicionada enquanto “espaço” primeiro de liberdade. a Psicologia Humanista. Mas princípios básicos da química nos alertam contra “terracentricidade”. O seu recrudescimento reforçou os valores de controle e de poder. dois “movimentos”. de um dos baluartes do Movimento do Potencial Humano. ele proporcionou mobilidade social para que elementos sufocados da vida social pudessem respirar. num momento em que as próprias investidas reducionistas estavam sendo tragadas pelas ventanias de questões as quais eram incapazes de responder. era desenvolvida no lastro de um movimento amplo contrário ao reducionismo. Ressaltamos. o ambiente que circunda suas funções. que se tornaram palavras de ordem. a retomada da vida. Nesta perspectiva. a teoria Gaia.

Rogers discorre sobre as bases da Abordagem Centrada na Pessoa: tendência atualizante e tendência formativa. ainda que possam existir pontos centrais de discordância. Neste livro. Apesar deste processo implícito de evolucionismo. Conclusão Concluímos. foi num período em que o substrato dominante da ciência buscava restringir a concepção de vida à biologia molecular. Se a opção ética de Rogers sempre foi a favor da vida. destituindo a vida de seu caráter imprevisível e “não domado” (uma prova atual desta vida escravizada é a produção do primeiro organismo industrial. Rogers concebeu na TCC um organismo autônomo e auto-direcionado que respondia aos estímulos do meio. 1983). Como vimos. ou qualidade primeira . como alguns autores afirmam. ao assinalar que o código genético não contêm “[. Matéria. coordenado por Craig Venter. a partir da tendência formativa de uma malha de vida. ou seja. retomando uma noção já entrevista por Jan Smuts. ainda não existia.] todas as informações necessárias para especificar as características de um organismo maduro” (ROGERS. p. a consciência aparece da matéria orgânica. porquanto não se entende que seja apenas um organismo que se atualize. De forma interessante. instaurou algo que teria uma mesma função do Processo de Smuts. de acordo com a Teoria da Evolução. a discussão anterior à apresentação do conceito de tendência formativa é justamente a apresentação das idéias de Murayama. mas isso não significa que estão em tensão). Por sua vez. tanto orgânica quanto inorgânica. por exemplo. e oferece para a Evolução. 1980. SOUSA. onde ambiente e organismo se entrelaçam enquanto um tecido vital comum (podem não ser harmônicos. que Rogers concebeu o conceito de tendência formativa. longe de serem descontínuos e separados. Quando se fala. ou seja. de acordo com as idéias filosóficas e científicas atuais. a concepção de organismo e também de consciência. que a vida surdiu da matéria. que não apenas o conceito de tendência formativa não é uma mera extensão do conceito de tendência atualizante. que na Abordagem Centrada na Pessoa se caracteriza por uma malha de vida. É importante frisar que é esta reformulação que permitiu a emergência das práticas. E será demonstrado que este Processo subjaz e suporta as características de todos os três. 16.(ROGERS. de grandes grupos e de comunidades centradas na pessoa. ou seja. a dimensão orgânica aflorou da dimensão inorgânica.. salvaguardando a ética da ACP. a tensão entre organismo e meio ambiente era o que produzia a necessidade do organismo de estar sempre em constante mutação. Na teoria da Terapia Centrada no Cliente. cientista que pretende conceber em laboratório organismos que possam servir a propósitos humanos). O argumento de Smuts (1926) era de que. Vida e Mente. Assim como a tradição funcionalista em geral. ao mesmo tempo em que alguns pioneiros do saber científico criavam novas perspectivas sobre a vida e o ser humano. tradução nossa). a diferença a priori entre o orgânico e o inorgânico é o que estabelece a fronteira entre organismo e ambiente. (p. Rogers ao formular o conceito de tendência formativa. então. a consciência surgia desta relação de oposição. mas que este se constitua com e na malha de vida que lhe entrelaça e que está em constante forma-atividade. do potencial vital que não poderia ser manipulado ou previsto pela razão humana. Questionando a noção de que a vida é uma propriedade. tradução nossa). criadas por Rogers. um organismo que seja detentor de uma força vital. nenhuma teoria geral ou perspectiva ampla que compreendesse a ligação entre estes três elementos que perfazem o universo. De forma semelhante. portanto. com o conceito de tendência formativa ele reafirma esta posição. É deste contexto que Rogers irá conceber uma tendência formativa. um tecido vital amplo que engloba tanto aspectos orgânicos como inorgânicos. mas que o primeiro reformulou as linhas gerais que oferecem consistência teórica ao segundo. que alguns teóricos denominam simplesmente de Vida (SALES. na ACP. 2008) Ora. 121. que a vida é mais do que elementos genéticos que organizam e conduzem o desenvolvimento de um organismo individual.. tanto psíquica como espiritual uma unidade e continuidade fundamental a qual não parece possuir. devem ser reformuladas. na época de Smuts. vão aparecer [no decorrer do livro] como mais ou menos séries progressivas conectadas ao mesmo grande Processo.

estrelas e etc.up. Washington. Nas enseadas do silêncio.pt/bitstream/10216/6838/2/Tend%c3%aancia%20formativa%20e%20te nd%c3%aancia%20actualizante%20reflex%c3%b5es%20%c3%a0%20luz%20das%20teorias%20d o%20caos%20e%20da%20complexidade%20II. Psicologia Humanista Experiencial. São Paulo: Cultrix. A (Org. Rogers inclui o inorgânico. p. The limits of organic life in planetary systems. MORANGE. Disponível em <http://repositorioaberto. The formative tendency.1991 LOVELOCK. In: CAVALCANTE Jr.nap. Sousa. Justamente por esta nova visão ser um produto de exigências e contextos vividos por Rogers na década de 1970 e 1980 ela tem muito a contribuir com a compreensão de questões atuais.S. 2006. J. é na emergência de novas perguntas. Campinas: Alínea. 192 6. como a problemática ambiental e climática. (2007).pertencente a um organismo. no contexto das culturas pós-humanas.2. I. como dimensão que constitui um tecido de vida. Ademais. Saúde mental.S. indagações inesperadas. Client-centered and st experiential psychotherapy in the 21 .php?record_id=11919&page=1. CT: Yale University Press. . SMUTS.). a partir de menções aos cristais.S. como pensar atualmente o direcionamento ético postulado na Terapia Centrada no Cliente. que podemos avistar a guinada epistemológica que está no cerne do conceito de tendência formativa.409-424. DC: The National Academies Press. 2008. 1980. 2008. de http://www. v. _____________. Fundamentos da metodologia científica. 1983. In: CAVALCANTE Jr. n. A (Org. A. mas é justamente nestas lacunas que o conceito de tendência formativa demonstra a sua inovação em relação a concepção de tendência atualizante. Gaia: cura para um planeta doente.2009. v..). The actualizing and formative tendencies: Priorizing the motivacional constructs of the person-centered approach. UK: PCCS Books. quando é esta mesma concepção de autonomia e liberdade individual que é o centro da degradação social e ambiental? Será que. Holism and evolution. M. Life explanained. Self-Actulization: Person-Centred Approch and Systems Theory. _____________. do humano como suficiente a si próprio? Estas são questões ainda abertas. caso este não fosse formulado. Referências CAVALCANTE Jr. n. 2008 NASA. consequentemente. de que cada ser humano é digno de confiança por ele mesmo. Tendência formativa e tendência actualizante: reflexões à luz da teoria do caos e da complexidade I. CORNELIUS-WHYTE. diante da crise ambiental que assola toda a vida poderíamos continuar restringindo esta política radical de confiança apenas ao organismo humano individual? O que seria expandir esta confiança para todo o universo. 2007. Lisboa. tais perguntas não poderiam surgir e. LAKATOS. SP: Alínea. New Haven. e a todas as pessoas que contribuíram diretamente ou indiretamente para a formulação desta pesquisa.18.edu/openbook. ROGERS. SOUSA.X. Humanismo de funcionamento pleno: Tendência formativa na Abordagem Centrada na Pessoa – ACP. Afinal. Agradecimentos Agradeço a Universidade de Fortaleza – UNIFOR pelo apoio. incluir em nossa prática psicológica o conceito de Tendência Formativa? Quais os impactos desta guinada conceitual na nossa experiência e como esta mudaria os contextos de destruição e colapso referendados por nossa atual política da autonomia humana. v. as suas potenciais respostas também não. São Paulo: Atlas. E. Acesso em: 22 dez. ou seja. a presença. sem respostas claras. J. Humanistic Psychology and beyond: The nature and logic of Carl Rogers “Formative Tendency”. Boston: Houghton Mifflin. Campinas. 2002. Foundation for a Person-Centred. In: Watson. p. J. London: MacMillan.C.1. MARCONI. J. que não está passível de controle humano. ELLIGHAM. 1978. F. A way of being. Um jeito de ser. Person-Centered and Experiential Psychotherapies. 2009. Journal of Humanistic Psychology. Recuperado em 27 de novembro.C (org. C. F. SALES. J. Humanismo de funcionamento pleno: tendência formativa na Abordagem Centrada na Pessoa – ACP.2.. R.. Y. F. KRIZ. SOUSA. 2006 MARQUES-TEIXEIRA. 2008.6. n.. 21-44. São Paulo: EPU.).pdf>. UK: PCCS Books. J.. M.