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MUNDO “GLOBALIZADO” E ESTETIZAÇÃO DA VIDA Rodrigo Duarte UFMG 1. Passagem para o capitalismo monopolista O termo “globalização”, hoje tão amplamente difundido, tem uma préhistória complexa, com a qual nem sonham aqueles que se apressam em usá-lo como uma espécie de explicação prévia para tudo que ocorre no mundo atual. Para conceituá-lo propriamente – e não apenas repetir todos os lugarescomuns que se dizem ultimamente -, é preciso retornar a um autor que realmente não está na ordem do dia, cuja consideração, entretanto, se faz cada vez mais necessária: Karl Marx. Em sua obra máxima, O Capital, que ostenta o significativo subtítulo de “Crítica da Economia Política”, Marx está especialmente preocupado em desvendar os mistérios do funcionamento sistemático do capitalismo, de um modo totalmente não-apriorístico, i.e., importa, antes de pré-julgar com categorias éticas convencionais, compreender como ocorre o processo do trabalho, enquanto relação homem-natureza, da apropriação do mesmo pelos detentores dos meios de produção e da circulação das riquezas na forma específica capitalista, i.e., enquanto mercadorias. A motivação da abordagem não subserviente a interesses do próprio capital, mas essencialmente problematizadora da forma de ser do capitalismo, corporifica-se no termo “crítica” que, como já se observou, comparece já no subtítulo da obra. Dentro desse quadro, a essência do esforço crítico de Marx constitui-se na teoria do valor-trabalho, segundo a qual – de acordo com a inspiração da economia política clássica inglesa – a energia física despendida pelo trabalhador no seu embate com a matéria bruta, medida pelo “tempo médio socialmente necessário” 1 para a produção de determinado bem, é a verdadeira fonte da riqueza humana. Diferentemente de seus antecessores anglo-saxões, que deviam lealdade aos conterrâneos pioneiros do capitalismo, Marx consegue identificar na diferença entre o valor de uso da força de trabalho do operário – a colocação em movimento de sua pura e simples capacidade de produzir – e o seu valor de troca – o seu salário – a base “física” de existência do sistema de exploração capitalista: a mais valia, i.e., aquele trabalho não pago ao trabalhador, do qual o capitalista se apropria para poder continuar existindo enquanto tal.
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Karl Marx, Das Kapital. Volume 1, Berlim, Dietz Verlag, 1981, p.54.

em termos relativos. que só leva em consideração a parcela variável do capital. a taxa de lucro (= m/C). para o capitalista economizar em salários. Isso ocorre porque à diferença da taxa de mais valia (= m/v). resulta na crescente diminuição da taxa de lucro. “a mesma taxa de mais valia. dispendendo mais para a aquisição de equipamentos – bens mais “limpos” e que não fazem greves nem passeatas – se isso não implicasse em reduzir progressivamente. ocasiona uma irrefreável corrida pela produtividade dos capitais industriais aplicados. mas pelo fato de que – como se sabe – o próprio sistema capitalista mundial se muniu de condições artificialmente produzidas no sentido de. o motor que impulsiona sempre para frente essa forma econômica: o lucro. faz diminuir neles a parcela relativa ao pagamento de salários – capital variável – em benefício daquela concernente à maquinaria e insumos – capital constante. parecia favorecer amplamente o capital e seus defensores? A resposta pode ser encontrada no próprio O Capital. já que o compulsório aparecimento da concorrência entre os capitalistas individuais. mas têm um momento inequivocamente verdadeiro: a lei do valor provavelmente não se aplica mais a uma série de realidades econômicas atuais. por assim dizer. onde v = capital variável e c= capital constante). “burlar” a sua vigência. por sua vez. pois com seu volume material. em princípio. já que aquele é inversamente proporcional a essa última. Das Kapital. Seria ótimo. Dessa forma. é uma relação entre a mais-valia (m) e o capital total . Berlim. segundo Marx. a soma das parcelas constante e variável (C = v + c.. em si os germes de sua própria dissolução. para um mesmo grau de exploração do trabalho. segundo a qual. expressar-se-ia numa taxa de lucro decrescente. na teoria da baixa tendencial da taxa de lucro. em tese. qual seria a necessidade de burlar uma lei que. por suprimir a base material de existência do sistema. A tendência “natural” do capitalismo em incorporar cada vez mais tecnologia. 221-2. a fim da aumentar a produtividade. com isso crescendo o do capital total” 2. Volume 3. . mesmo que não seja na mesma proporção. Dietz Verlag. conteria. a concorrência entre os diversos capitalistas individuais acabaria. mais especificamente na seção três da parte um do terceriro tomo. no seu todo. A mentira dessas colocações. também o volume do capital constante cresce. pp. a racionalidade típica do capitalismo. Se se quer. 1981. entretanto. a parcela do capital responsável pela produção do excedente – da mais-valia – a ser embolsado pelo capitalista na forma do seu lucro. o que. por sua vez.e. pois o imperativo do 2 Karl Marx. aliado à maturidade tecnológica considerável à época do desenvolvimento capitalista primevo. ocorre não em virtude de uma pura e simples caducidade da lei do valor. a qual. Mas. redunda no crescimento do capital total (C). Uma análise das conseqüências dessa lei leva a crer que há uma espécie de contradição interna fundamental no desenvolvimento do capitalismo.2 Todas as colocações a respeito da obsolescência da “lei do valor” são naturalmente mentirosas e ideológicas. i.

corroborado pela possibilidade de acesso a 3 No próprio tomo III de O Capital ocorre a famosa passagem em que Marx menciona o “reino da liberdade”.para serem artificialmente estabelecidos por cartéis. por outro..pelo menos para a esperança . tais capitalistas foram se acertando no sentido de neutralizar ao máximo a concorrência entre os pares e de barrar o ímpeto revolucionário dos trabalhadores fazendo concessões que apenas lhes permitissem sonhar com dias melhores sem continuar alimentando o ímpeto de transformar radicalmente a sociedade. pela concorrência dos próprios pares. . a base teórica para a “previsão” . que “na verdade. Essa é. no qual os preços das mercadorias deixam de ter relação imediata com o seu valor . Quem ganha e quem perde com essa conversão do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista? Aparentemente muitos ganham. sobre a qual se erigiria uma humanidade liberta de todas as formas de jugo. 828).com a quantidade de trabalho humano neles impressa . começa lá onde cessa o trabalho que é determinado pela carência (Not) e pela finalidade externa” (op. pela ascenção de um movimento operário cada vez mais politizado e revolucionário. como já se viu. pela lei de sua baixa tendencial. Em virtude das concessões feitas na forma de acréscimos salariais e legislações de amparo aos trabalhadores. Não é preciso muito esforço para ver que isso não aconteceu e é aí que entra a “mágica” feita pelos capitalistas ao fim do ciclo conhecido como “capitalismo liberal” ou “capitalismo concorrencial”: pressionados.3 desenvolvimento tecnológico em virtude da concorrência levaria à situação paradoxal de desaparecimento das condições que. num comunismo autêntico3. por um lado. levaram os capitalistas a concorrerem entre si: a possibilidade de obter lucro a partir da exploração do trabalho alheio. mas para si próprios e suas respectivas famílias um futuro de crescente e qualificado conforto material. pois os capitalistas não precisam mais se preocupar com a iminente bancarrota de seu sistema de exploração e uma parcela considerável do operariado experimenta.de que o capitalismo estaria com seus dias contados e que o seu legado seria uma base tecnológica sólida. p. antes ameaçados. no mundo industrializado de então. sempre no sentido de maximizar os lucros. já no sóbrio Capital. pois elas vislumbram não mais para toda a humanidade um porvir liberto do jugo. a princípio.cit. O mencionado acerto entre pares deu origem ao atual modelo de capitalismo monopolista ou não-concorrencial. um bem estar econômico e social nunca antes sonhado. passa a ocorrer uma evidente despolitização nas classes operárias.

Rückblick auf das Kommende. pois se a lei do valor pode. antes inexistentes. 1998.como uma decorrência direta da metamorfose do capitalismo liberal clássico em monopolista. a qual culmina com a deflagração da primeira guerra mundial em 1914. Essa constelação. as medidas tomadas pelo “sistema” capitalista são uma opção pela irracionalidade. Ela pode ser entendida como um dos acontecimentos fundadores da nova fase do capitalismo. que marcou o início do que se chama de “capitalismo tardio”. com um poder de destruição incomparavelmente maior do que as do passado. A insinuação do estético nos primórdios do capitalismo tardio Num período de vinte anos entre o final do século dezenove e o início do século vinte surgiram todas as invenções que serviram de base para a forma “clássica” da indústria cultural: o cinema e as primeiras transmissões de som 4 Christoph Türcke. talvez não seja errado entender a crise ecológica . aliada à incorporação de conquistas tecnológicas com o objetivo de otimizar o desempenho da economia ao mesmo tempo em que cria coesão ideológica em torno das diretrizes principais do sistema de dominação política.para ser reflexo imediato de relações de poder de homens sobre homens e de homens sobre a natureza.pela primeira vez na história . na verdade. no início da década de quarenta.de máquinas de guerra altamente desenvolvidas. se isso ocorre. na qual já comparecem em germe todos os elementos constitutivos do atual mundo “globalizado”4. de fato ser “contornada” mediante o estabelecimento dos preços considerando-se não os valores das mercadorias. como automóveis e engenhocas elétricas recém-inventadas. Altlasten der neuen Weltordnung. por outro lado. Mas não apenas as relações homem-natureza tornam-se progressivamente esquizofrênicas: também as relações dos seres humanos entre si. pois todo o mundo industrializado engaja-se numa corrida pela ocupação de espaços econômicos e militares. Mas. Büchergilde Gutenberg. .quase “natural” . Essa incorporação não é outra coisa senão aquilo que foi denominado por Adorno e Horkheirmer. Nesse sentido. cujos pressupostos principais serão analisados a seguir. 2. Frankfurt (M).que se agrava exatamente na virada do século . pois aliou o enfrentamento de grandes blocos de interesses econômicos e estratégicos ao emprego .4 mercadorias sofisticadas. Pp. mas necessidades ad hoc dos capitalistas. o preço final dos seus produtos deixa de ter uma base material . é composta principalmente pela existência de grandes conglomerados de interesse econômico e militar. de “indústria cultural”.

por exemplo). aliás. na conta dos faux frais do sistema capitalista. Detenhamo-nos. Argument Verlag. tb. 1980. empregado também com vistas ao primeiro objetivo mencionado). 2. mas também induzir à compra de produtos recémsurgidos. Isso tornara-se cada vez mais necessário em virtude da intervenção artificializante . ampliar tanto quanto possível a adesão “voluntária” das pessoas ao sistema de “economia de mercado” (que. especialmente nessa fase tardia do capitalismo. pode ser inteiramente fictício. a qual tinha o objetivo de interromper sua outrora necessária conexão com a lei do valor-trabalho.. agora massivamente difundida.. tais desenvolvimentos tecnológicos estariam fadados a participar ativamente na consolidação de uma nova ordem que se configurara a partir da entrada do capitalismo em sua fase monopolista. passim e especialmente pp. de fato. com ele. através da manipulação planificada de conteúdos profundamente enraizados em sua economia psíquica (mecanismo. manter o sistema econômico funcionando mediante o estímulo ao consumo. Esse segundo objetivo da indústria cultural passou a ter importância cada vez maior. por enquanto. na medida em que. como ocorre na televisão. desde 1917 havia na Rússia uma alternativa política ao sistema capitalista. V. Suhrkamp. A imediata apropriação dos novos meios pelo sistema econômico tinha como objetivos principais: 1. do mesmo autor. 5 Wolfang Fritz Haug. A partir de então. é a verdadeira realização do valor (-trabalho) que ela possui. Warenästhetik und Kapitalistische Massenkultur (I). . o aspecto estético da mercadoria assume uma dimensão importantíssima.5 por ondas de rádio (as quais possibilitariam posteriormente a transmissão de imagens. a mais-valia) ou se eles se amontoarão por tempo indeterminado nos armazéns. do capitalismo tardio . através da propaganda.nos processos de formação de preço.e. como se viu acima. i. Frankfurt (M). não apenas estimular e manter o consumo de bens tradicionalmente considerados necessários.. a qual ficou depois conhecida como “socialimo real”. decidirá se os objetos produzidos pela indústria satisfarão as condições para fazer com que o valor se realize (e. Em qualquer caso. Berlin. o valor de troca da mercadoria.17 e ss.definitória. já não o era). como se sabe. pois é ele que. Kritik der Warenästhetik. na análise mais detalhada do primeiro objetivo da “indústria cultural”. 1973. Para isso lançarei mão das colocações de Wolfgang Fritz Haug a respeito da “estética da mercadoria”5. Segundo ele. em última análise. só se consuma se ela sinaliza ao possível comprador um valor-de-uso que. que. a partir de uma espécie de criação artificial de novas necessidades mediante a penetração e a quase onipresença dos novos veículos de comunicação.

referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais. 145. antes. na ausência de um mínimo de reflexão.e. já existente nos veículos mais rudimentares da indústria cultural. digamos. mas o sistema de exploração econômica como um todo. Sua função é seduzir o potencial comprador ao ponto de ele permitir.. mas suprimido da veiculação qualquer elemento que poderia conduzir seriamente a questionamentos acerca de sua natureza e pressupostos. o qual visa uma perpetuação do sistema mediante a aceitação tácita dos seus pressupostos mais elementares. cada vez mais. onde ele se encontra ao máximo desarmado e receptivo. apresentados ao público de um modo tal que. com seu ato de compra. “sintese de rádio e filme”7. Idem . o qual “treina” as pessoas para a percepção dirigida apenas ao que lhe interessa e como lhe convém: “A função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito. aumenta consideravelmente com o refinamento dos meios tecnológicos que lhe servem de suporte: o filme sonoro. embora não negue de modo algum essa dimensão estética. da possibilidade de o sujeito perceber o mundo exterior a partir de diretrizes oriundas de sua própria capacidade reflexiva ser roubada pelo sistema de dominação. i. Suhrkamp. 1981. agora não mais essa ou aquela mercadoria. é tomada ao sujeito pela indústria”6. adestra o espectador no aconchego de seu lar. Mais uma vez. a realização do valor que. a saber.e. P. publicidade gráfica. estava apenas potencialmente incrustado na mercadoria. Isso se dá através de processos muito complexos. é de fundamental importância o momento estético implícito nos objetos. mais especificamente econômica no seio do sistema capitalista. não resta ao “consumidor” outra alternativa senão a de “comprar”. Philosophische Fragmente. vitrinismo. radiofônica ou televisiva. envolve a mercadoria na forma de embalagens. “tudo se passa como se uma instância omnipresente houvesse examinado o material e estabelecido 6 7 Dialektik der Aufklärung. os quais Adorno e Horkheimer entendem como uma espécie de “confiscação do esquematismo” i. não apenas é enfatizado o que convém ao sistema. aquele de natureza mais propriamente ideológica. Segundo Adorno e Horkheimer. Essa tendência. Desse modo. é mais abrangente no sentido de indicar o que chamamos aqui de segundo objetivo da apropriação capitalista dos novos meios de difusão imagética e sonora. permite um envolvimento muito maior daquele que o assiste e a televisão. por exemplo. aqui. Frankfurt (M).6 Daí a existência de todo esse aparato sensorial que. layout das lojas. Mas a contribuição de Adorno e Horkheimer a respeito da indústria cultural.

Se assim o fosse..158. O que. o cinema mudo e o rádio galena não teriam tão rapidamente caído nas graças do público como de fato aconteceu: desde seus primórdios. aponta mais uma vez para a enorme relevância do elemento estético no processo de dominação política do capitalismo tardio: nele pode (e deve) já estar completamente suprimido o mercado no plano infraestrutural. cit. desde que na sua “embalagem” i. cit. mostrando também em que medida uma sociedade que suprime o mercado na sua base econômica pode ainda veicular a impressão de que ele existe. no plano da superestrutura ele pareça intacto. a indústria cultural se apresentou como ‘representante’ dos interesses dos seus clientes..7 o catálogo oficial dos bens culturais. uma relativa preservação do mecanismo da oferta e da procura num contexto de seu desaparecimento quase completo na esfera da produção material. Segundo eles. 8 9 Op. deve sempre conduzir não apenas a frustrações pessoais. A aceitação passiva dos padrões ditados pela indústria cultural não depende apenas do estágio de desenvolvimento técnico dos veículos de divulgação por elas empregados. A isso se liga um traço bastante específico da indústria cultural.e. de fato. cujo efeito quase sempre é uma renovada disposição para consumir. a especificidade da indústria cultural reside em grande parte no fato de que seus ‘clientes’ não sejam. p. da “absorção de todas as tendências (. registrando de maneira clara e concisa as séries disponíveis”8. a saber. Op. com a conseqüente oferta de produtos adequados a essa ‘demanda’. p. 156. expediente obtido a partir de cuidadosa perscrutação dos seus anseios mais secretos. . antes mesmo que ela se faça sentir explicitamente nos potenciais consumidores. o que demonstra que as técnicas de marketing e propaganda levam mesmo em consideração processos que compõem a economia pulsional pelo menos da média de sua população-alvo. eles se dispõem a adquirí-los de modo mais ou menos ‘espontâneo’. forçados a consumir o produto A ou B : na maior parte dos casos. cuja explicitação em detalhes fugiria ao escopo da presente exposição..) na carne e no sangue do público”9. mas especialmente a uma postura de genérica resignação e aceitação de tudo que ‘vem de cima’. à qual Horkheimer e Adorno associam ao medo perante a ameaça de castração. apenas mediante a manutenção de um arremedo seu no plano da produção ideológica das imagens. A mencionada intervenção nos processos psíquicos. Entretanto. a meu ver.

o que significa uma remissão ao antigo tema da autonomia da arte. hoje. as próprias pessoas se tornam uma forma de mercadoria. portanto. mercadoria: além dos bens de consumo tradicionais. seria necessário investigar em que medida o tradicional objeto da estética. Antes de passarmos a uma análise da aplicação desses elementos à atual fase do capitalismo tardio. a saúde. a obra de arte. na medida em que “negam o caráter mercantil da sociedade pelo simples fato de seguirem sua própria lei”11. a vida. que tornam-se bens de consumo juntamente com todos outros produtos da indústria cultural. p. Essa é sua própria essência10. o que está muito próximo de obter uma aceitação incondicional do existente tal como ele se apresenta. a cultura industrializada pode se permitir. pelo menos potencialmente. mas possui também uma legislação própria. Pode-se depreender. a existência de meios tecnológicos que propiciem a ilusão de uma realidade ‘reconstruída’. Op. popularmente conhecida como “globalização”. a utilização tanto desses meios quanto de conhecimentos psicanalíticos no sentido de produzir a adesão ‘àquilo que aparece’. retomado por Adorno e Horkheimer com um sentido eminentemente crítico. incluindo-se orgulhosamente entre os bens de consumo. mas o fato de que. 10 11 Op. cit. Mas elas não se igualam pura e simplesmente a esses últimos.é o fato de que já não há nada no mundo que não seja. que a ‘dominação pelo estético’ no capitalismo tardio se dá. a morte.. do acima exposto. o que ela não pode se permitir é a abdicação da ameaça de castração. o que lhe confere o encanto da novidade12. Isso significa que a obra de arte não apenas se submete às leis do mercado. 12 Idem. ele se declara deliberadamente como tal. tanto quanto a cultura nacional-popular (volkisch) no fascismo. Isso não ocorre de modo diferente em relação às obras de arte. Um efeito da imensa difusão do capitalismo em escala planetária mesmo antes da globalização .180. associada à sua forma mais interna de ser enquanto expressão humana.8 Contrariamente ao que se passa na era liberal. no limite. se posiciona com relação à invasão dos produtos estéticos oriundos da indústria cultural. o amor. e é o fato de que a arte renega sua própria autonomia. no intuito de denunciar o perigo a que estão expostas as obras de arte na atualidade: O novo não é ele [o caráter mercantil da obra de arte/rd]. principalmente. 2. em função de dois elementos: 1. a indignação com o capitalismo. p. . cit.163.

as obras de arte tampouco consistiam em exibições sexuais. In: Dissonanzen. mantém o espírito desperto para uma possível transposição do desejo individual. momentaneamente frustrado. a finalidade sem fim. Segundo os autores da Dialética do Esclarecimento: De seu lado. pois “o princípio da estética idealista.ex. A aparência de 13 14 Op. aqui. por assim dizer. Segundo Adorno: Tão densa é a aparência de imediatidade quanto a coerção do valor de troca é inquebrantável. o juízo estético é essencialmente “desinteressado”15. “metabolizam” a libido de seus produtores e potenciais fruidores através de um processo de sublimação que. 161.9 Esse motivo da autonomia da arte.: “Der Fetischcharacter in der Musik und die Regression des Hörens”. com o claro objetivo de estimular um consumo infindável. etc. A concordância social harmoniza a contradição. frustrando-lhes sistematicamente a satisfação de seu apetite. 181. adia a satisfação da pulsão. para quem. 15 Immanuel Kant... apresentando a renúncia como algo de negativo. a qual parece determinar temporariamente a não-subordinação à mediatidade universal da troca. remete a dois tópicos importantes para os objetivos dessa exposição: o primeiro diz respeito às relações entre a obra de arte e a vida pulsional: enquanto o produto cultural industrial se vale da sexualidade como uma espécie de “isca” para atrair a atenção dos consumidores. 1982. 16 Dialektik der Aufklärung. Eis aí o segredo da sublimação estética: apresentar a satisfação como uma promessa rompida. Vandenhoeck & Ruprecht. O conceito moderno de autonomia da arte provém em grande parte da estética idealista de Kant. . O outro tópico associado à “autonomia da arte” diz respeito à reflexão acerca do “fetichismo da mercadoria cultural”. para o plano mais amplo da emancipação humana. se por um lado. p. A indústria cultural não sublima. elas revogavam por assim dizer a humilhação da pulsão e salvavam aquilo a que se renunciara como algo mediatizado. i. como se sabe. perigosamente ameaçada pela simples existência da indústria cultural. presente na Dialética do Esclarecimento e em outros textos de Adorno14. por outro. o contraste com o produto cultural industrial é total. § 1. Göttingen. Musik in der verwalteten Welt. acaba por converter-se em potencial valor de troca. p.e. Mais uma vez. seja de natureza alimentícia. cit. P. Todavia. Isso ocorre porque a “imediatidade” dos produtos culturais. não dependente de qualquer forma de apetição. é a inversão do esquema a que obedece socialmente a arte burguesa: a falta de finalidade para os fins determinados pelo mercado”16. Kritik der Urteilskraft. sexual. as obras de arte. reprime13.

pois o tipo de polarização ideológica que ela causou em toda a Europa pode ter determinado um certo recuo na aplicação unilateral de medidas que poderiam aumentar ainda mais o desemprego. pretendo primeiramente tecer algumas considerações sobre a especificidade econômico-política do momento atual. com o objetivo de impedir que a concorrência entre os capitalistas individuais acabe fazendo com que a incorporação de tecnologia ao processo produtivo leve a uma baixa fatal na taxa de lucro do capitalista.inclusive daquele com pretensões a ser obra de arte autêntica . levar a uma situação prérevolucionária. Se a mercadoria se compõe sempre de valor de troca e de valor de uso. 1. a crise social e.como um tipo de motivação ulterior para a adesão tão voluntária quanto possível ao sistema econômico e político vigente. tenderam. para depois chamar a atenção para a posição nodal assumida pelo elemento estético.10 imediatidade se apodera do que é mediado. do objeto cultural . em fase de clara internacionalização. a 17 Dissonanzen. segundo o momento podem facilitá-la ou inibí-la. cuja ilusão os bens culturais na sociedade hiper-capitalizada têm que preservar. por parte do capitalismo tardio.como já se mencionou -. desde seus primórdios. 20. no limite. Vimos acima que o chamado capitalismo tardio se caracteriza. por exemplo. tenha sido um elemento dificultador da neutralização da lei do valor por parte do grande capital internacional. op. . Há fortes indícios para crer que a revolução russa.cit. por uma artificial intervenção no funcionamento espontâneo da lei do valor. Aqui reside a razão da apropriação. a maior ou menor aplicabilidade da mencionada intervenção depende de injunções macro-políticas que. então o puro valor de uso. o qual exatamente enquanto valor de troca assume enganosamente a função do valor de uso17. p. Pois a propriedade que a grande arte possui – preservada até nossos dias – de interromper momentâneamente nossos grilhões a uma praxis em grande parte perversa. Em virtude disso. por consegüinte. Os capitalismos nacionais. de modo que as massas espoliadas possam também se sentir no “melhor dos mundos possíveis”. O momento atual Nesta última parte de minha exposição. ao contrário . do próprio valor de troca. é explorada e tentativamente ampliada aos produtos heterônomos. é substituído pelo puro valor de troca.

onde ela é minimamente realizável. mais como uma espécie de “estetização da vida cotidiana”.e. onde uma situação de calamidade visível não torne claramente suspeita qualquer tentativa de contemporização. a meu ver. como se sabe. i. por exemplo . mas de necessidades intra-sistêmicas de sobrevalorização do capital. denunciada por Benjamin a respeito do fascismo.aqueles que mais proximamente ameaçavam a supremacia do capitalismo internacional -. foram também. levam à consideração de que a chamada “globalização” não é outra coisa senão o atingimento de condições ideais para a aplicação dos preceitos.e. anunciou-se a utilização de robôs nas linhas de montagem sem que isso tenha ocorrido numa escala importante. por exemplo.. Durante todo esse tempo. a consumação do capitalismo monopolista.. a dimensão estética surge como um elemento importantíssimo no sentido de legitimar a existência humana numa época em que freqüentemente se suspeita de que “nada há mais a fazer”. A crise de super-produção que determinou o crack da bolsa de Nova Iorque. Um indício do que estou sugerindo é o fato de que. a informatização do sistema bancário). . E isso ocorre de um modo bastante específico. mas apenas ajuda a gerenciar a produção de valor mediante remuneração oriunda do setor produtivo propriamente dito. o início e o desenrolar da segunda guerra mundial. a meu ver. do capitalismo monopolista: sem amarras de qualquer espécie: políticas. a automatização invadiu a produção industrial propriamente dita? Isso não teria ocorrido .apenas num momento em que o capital não tinha mais qualquer adversário ideológico de peso? São indagações que. à época.e. no sentido de difusão do socialismo.11 oferecer certos ganhos a seus trabalhadores com o objetivo de deter uma clara tendência. portanto. Nesse contexto. i. já mencionados.com todas as conseqüências em termos de desemprego. por décadas. o qual. bem como a instalação da guerra fria a partir de finais dos anos quarenta. i. Seria mera coincidência o fato de que apenas após a derrocada dos regimes socialistas europeus . não mais apenas enquanto “estetização da política”. com todas suas conseqüências sociais. A chamada “globalização” seria. ideológicas ou mesmo de natureza econômica. de obtenção de superlucro a partir de condições fictícias de produção (controle estrito da incorporação e difusão de tecnologias inovadoras) e consumo (estimulação artificial a partir da propaganda).. não gera valor. a automatização se impôs quase que unicamente no setor de serviços (vide. fatores inibidores da aplicação irrestrita do princípio básico do capitalismo monopolista: a formação de preços não a partir dos custos de produção.

assistimos também. Dessa forma. através dos recursos de informática. como já se sugeriu. Aliás. de um modo eminentemente “estético”. o surgimento da chamada “realidade virtual”. fazendo com que o computador se torne tendenciamente um concorrente direto da televisão e do vídeo. oxímoro terminológico que designa o aparato a partir do qual realidades sensoriais podem ser artificialmente “produzidas” e não apenas reproduzidas.12 Isso ocorre em todo o mundo “desenvolvido” e nas partes industrializadas da periferia do capitalismo internacional. tendo sido facultada ao uso acadêmico apenas ao final dos anos oitenta. de modo especial. Somente a partir do início dessa década . sendo que. p. continua valendo para sua versão atual: “Para demonstrar a divindade do real. é sintomático o fato de que a rede mundial de computadores foi criada durante a guerra fria. já com a roupagem colorida e variegada que conhecemos hoje. como nos meios tradicionais empregados pela indústria cultural até há bem pouco tempo atrás. em virtude das necessidades econômicas e ideológicas do capital. Aqui. Se a dominação no mundo “globalizado” se exerce. mas é avassaladora”18. a obra de arte “autêntica” diferencia-se do produto da indústria cultural pelo fato de conter em si a possibilidade de transcender a dialética entre valor de uso e valor de troca. 18 Dialektik de Aufklärung. a indústria cultural limita-se a repetí-lo cinicamente. cabe ainda refletir sobre as chances que.após a queda do muro de Berlim e de suas conseqüências -. Poderíamos dizer que apenas os meios para a hedionda dominação lá descrita foram grandemente aperfeiçoados e modernizados. de modo que elas percebam apenas o que o sistema permite. o que Adorno e Horkheimer diziam a respeito da versão ‘clássica’ da indústria cultural. Como já se viu. aperfeiçoamento da Internet que permite a incorporação de interfaces gráficas. . teria uma possível emancipação através do estético. media-se a relação que as pessoas têm com seu entorno. a própria idéia da existência real de objetos exteriores em benefício de uma realidade toda artificialmente produzida. a partir do início dos anos noventa. nesse contexto. hoje. Todos esses desenvolvimentos não alteraram em nada aquilo que Adorno e Horkheimer nos anos quarenta denunciaram a respeito da indústria cultural. em cuja efetividade deve-se de fato acreditar. desaparecendo. Mais uma coincidência? Como se isso não bastasse. sem. na verdade. no limite. que constituem uma espécie de “segunda revolução industrial” no âmbito da cultura. com objetivos militares e estratégicos. Um exemplo disso é a “world wide web”. a Internet foi facultada ao grande público. Uma prova fotológica como essa. 170. não é rigorosa. típica da mercadoria.

um pequeno trecho da Teoria Estética: “Existindo as obras de arte. inquirem-na apropriadamente. Essa promessa. levando em conta todas as conquistas do respectivo métier: A arte convincente polariza-se. De outro lado. para usar a expressão de Stendhal que tanto inspirou os representantes da teoria crítica.e. mediado por uma construção que seja totalmente adequada àquela. no sentido de que há de fato algo para além do uso imediato que fazemos dos objetos. que se nega ainda à última reconciliabilidade. Frankfurt (M). extraindo-lhe exatamente a essência.70. como querem muitos arautos da “pós-modernidade”.o que também aponta para seu potencial emancipatório -. ainda que sofisticado. . 1986. segundo a construção sem-expressão. diante de uma verdadeira obra de arte. no entanto. com isso. Tendo em vista essa atitude. inconsolável. só tem sentido para aqueles que. A respeito dessa existência conflituosa das obras de arte num contexto de predomínio quase absoluto do capital . Muito diferente é a obra de arte verdadeira. 19 20 Ästhetische Theorie. a qual expressa a crescente impotência da expressão19. Esse último não visa qualquer expressão do tipo mencionado: seu objetivo é o lucro imediato e tão grande quanto possível. i. Idem. a título de desfecho.com toda sua dor e esperança -. segundo uma expressividade nãosuavizada. da indústria cultural. a qual se torna construção. i. Suhrkamp. apontando para a possibilidade do fim de nossa escravidão com relação às mercadorias. Em outras palavras. de um modo específico o aspecto expressívo a uma construção adequada. elas postulam a existência de algo não existente e entram.. fica praticamente impossível confundir. enseja uma promessa. p. uma promessa de felicidade.93.e. a sinalização efetuada pela obra de arte. cito. P.13 contudo subtrair-se-lhe totalmente. a qual alia. uma obra de arte propriamente dita com um produto. a qual não raro aparece em forma de mercadoria. o caráter de expressão da condição humana . em conflito com sua não existência real”20. de um lado..