POLÍTICAS PÚBLICAS E REGIÃO: NOTAS SOBRE O CONTEXTO REGIONAL NO PLANO NACIONAL DE CULTURA

Ronaldo Bernardino Colvero1 Tiago Costa Martins2

Resumo: Cultura e região, devidamente articuladas em termos teóricos, carregam elementos constitutivos de ordem simbólica e material (funcional). Nesse sentido, o presente estudo procura, a partir das políticas públicas, compreender como o contexto regional está articulado com a cultura no Plano Nacional de Cultura - PNC. A partir da análise das diretrizes, estratégias e ações do Plano caracteriza-se o contexto regional pela noção funcional e/ou simbólica. Para tanto, faz-se uma breve descrição de cultura e política cultural, bem como de território e região. Os dados coligidos no Plano Nacional evidenciam uma caracterização do contexto regional voltado para os aspectos funcionais de recorte, delimitação e articulação do espaço geográfico em contraposição aos aspectos simbólicos de representação, práticas, identidades, etc. Palavras-chave: Território; Produção cultural; Desenvolvimento regional.

Introdução
Dentre as inúmeras possibilidades de relacionar cultura e região, uma delas está na compreensão da construção social que permeia ambos os conceitos. Mas a apropriação adequada de determinadas concepções teóricas pode delimitar melhor essa relação. A cultura em si é simbólica, sentido, ato espiritual (CANCLINI, 1983). No entanto, cultura também pode ser funcional. Os usos e apropriações da produção cultural na contemporaneidade adentra numa ordem recursiva à cultura. George Yúdice (2004), ao sugerir que a cultura já não pode ser pensada somente como uma condição antropológica, ou como alta cultura, ou cultura de massa, mas como uma ação recursiva, propõe uma visão transversal: recurso econômico; recurso social (principalmente de inclusão); recurso político. Por seu turno, região, devidamente associada com território, carrega consigo uma constituição social orientada para uma funcionalidade. Haesbaert (2010) entende que a

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Professor Doutor do Curso de Ciência Política, Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA, Campus São Borja. Professor efetivo no Programa de Pós-graduação em Memória Social e Patrimônio na Universidade Federal de Pelotas – UFPel. Contato: rbcolvero@gmail.com 2 Professor do Curso de Relações Públicas – ênfase em produção cultural – Universidade Federal do Pampa UNIPAMPA. Mestre e doutorando em Desenvolvimento Regional, Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. Bolsista no Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, PDSE/CAPES, processo nº 18017-12-6, Universidade da Beira Interior – UBI, LabCom, Covilhã, Portugal. Contato: tiagomartins@unipampa.edu.br

Crises do Capitalismo, Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul, RS, Brasil, 4 a 6 de setembro de 2013

também. a partir das políticas públicas. manifestações e apropriações. analisa o Plano Nacional de Cultura a partir dos conceitos estruturados anteriormente. Reconhecida pela sua característica transversal. passando. Nesse contexto fala-se em cultura como recurso (YÚDICE. diversão e distração (HORKHEIMER. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. do gado. A ascensão do capitalismo e da industrialização “absorveu” a cultura na ordem econômica. passando. os costumes. por exemplo. dentro de um processo material vinculado as formas materiais de reprodução da vida social. até a definição a partir de um valor cognitivo. a analisar a conceituação de território e região. Por fim. daquilo que é apreendido pelo indivíduo. estratégias e ações do Plano procura-se responder como está caracterizado o contexto regional: funcional. pelas manifestações intrínsecas a determinado local. 4 a 6 de setembro de 2013 . em meados do século XIX. do campo. 1995). O surgimento e a expansão dos meios de comunicação de massa alterou a dimensão da cultura para outra dinâmica. compreendendo a linguagem.região responde a uma análise da organização e diferenciação do espaço geográfico. os mitos. na tentativa de responder ao questionamento base deste estudo. 2004). etc. É nessa perspectiva que se insere o presente estudo. mas também remete às questões simbólicas quando. Brasil. Busca-se. Cultura e políticas culturais Em diferentes instâncias. pertencimento. a cultura encontra na dinâmica social diferentes formas de criações. pode-se dizer que tanto a cultura quanto a região carregam consigo elementos materiais e simbólicas. compreender como o contexto regional está articulado com a cultura. recurso econômico. cidadania. Assim. Cultura como uma mercadoria de lazer e entretenimento. ADORNO. numa perspectiva simbólica e. nomeadamente o Plano Nacional de Cultura. A partir da análise das diretrizes. Recurso social de inclusão. como referência estritamente geográfica. posteriormente. Desde uma definição mais “primitiva” voltada ao cultivo da terra. bens materiais e processos construídos pela relação material e simbólica. trata dos regionalismos ou das identidades regionais. Nesse entendimento a cultura pode ser vista como o que caracteriza uma sociedade. 2000). usos. a definição de cultura sofre variações na dinâmica social. simbólico ou ambos? O texto a seguir apresenta brevemente as noções de cultura e política cultural. como Crises do Capitalismo. em um sentido agrícola (THOMPSON. RS. numa construção material representada por produtos.

202).. as políticas culturais atuam nos circuitos culturais. circulação e consumo dos bens culturais. Essa relação está dentro da perspectiva de análise do presente estudo. o no existe realmente. Brasil. educação. com o intuito culturais e consensuar uma ordem ou Na mesma linha de pensamento Brunner (1987. especialmente os espaços sociais de afirmação cultural (erudita. como propõe Martinell (1999.. Assim. democratização. cruzado com os diversos modos de relação com os bens culturais (criação cultural. e recepção). indústria cultural. Afinal. sendo que tais circuitos combinam uma série de agentes e instâncias institucionais que abarcam e estão contidos nas diferentes fases de produção.. participação. Ou seja. as políticas culturais também fazem uma interface com o território. desde apropriações eleitorais até lutas complexas de poder.gerador de emprego e renda. as instituições civis e os grupos comunitários organizados. RS.) una política cultural no puede ponerse en marcha. espaços coletivos. como a preservação. los cuales entran en relación con su realidad territorial y asumen algunas responsabilidades en el conjunto de los objetivos que la propia política les propone. Ele considera o foco de realização. e recurso político. No entanto. as políticas no campo da cultura possuem algumas peculiaridades que merecem destaque. De modo geral as políticas culturais podem ser pensadas como um conjunto de intervenções realizadas pelo Estado. de maneira geral. ou com ênfase nos agentes culturais que constituem determinada produção cultural. (. etc. Cabe um breve levantamento da noção de território e região para entender a articulação no contexto do Plano Nacional de Cultura. expressão cultural. difusão. e espaços domésticos). 178) entende que as políticas culturais possuem como terreno e objetivo “la combinación típica de agentes y de instancias institucionales de organización” que formarão a matriz básica dos circuitos culturais. p. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. si no es a través de unos agentes o actores concretos. O sociólogo português António Firmino da Costa (1997) expõe as possíveis configurações que as políticas culturais podem tomar. procuram intervir na realidade social a partir dessa ação recursiva. Crises do Capitalismo. 4 a 6 de setembro de 2013 . Além disso. é possível visualizar políticas nos vetores estruturantes. As políticas culturais se inserem na transversalidade da cultura e. p.

Neste sentido. no presente trabalho. O espaço está voltado para a natureza-superfície. Milton Santos. este autor ressalta a economia e a política como peças basilares para a compreensão da construção e da alteridade do espaço. reorganizado. território também era um conceito bastante comentado e presente em todas as obras daquele autor. normatizado. RS.51). Já o território seria a categoria principal do estudo da geografia. Crises do Capitalismo. enquanto o espaço reúne a materialidade e a vida que a anima (SANTOS. p. Ele é usado. negando. era o palco para a realização das atividades criadas pela herança cultural de cada povo.Território e região O primeiro ponto a ser estabelecido é a compreensão de espaço e de território. Para isso. o território apresenta uma materialidade histórica que o define e o ressignifica com o tempo. Neste sentido. 4 a 6 de setembro de 2013 . 51) que: A configuração territorial é dada pelo conjunto formado pelos sistemas naturais existentes em um dado país ou numa dada área e pelos acréscimos que os homens superimpuseram a esses sistemas naturais. 2009). uma matéria encontrada ou acessível a partir da terra. Seguindo a linha crítica dialética desenvolvida pelo materialismo. 1979) Da mesma forma. o território nada mais seria que um recorte do espaço. no qual estariam interligados trabalho e consumo. (SANTOS. Raffestin (1993). No bojo de sua compreensão está o conjunto de relações do sistema tridimensional composto pela sociedade-espaçotempo (SAQUET. configurado. racionalizado. vários autores vêm se debruçando sobre o tema desde muito tempo. cada vez mais. articulada ao espaço mundial. apontava Santos (1996. a “natureza natural”. para os recursos naturais. Seria uma porção do espaço apropriada pelo Estado-nação que. Cada qual. um dos pioneiros no estudo deste tema. fundamenta a base da análise sobre as práticas culturais a serem desenvolvidas no Brasil a partir do PNC. aplica abordagens distintas para classificar essa categoria que. Para ele. A configuração territorial não é o espaço. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. Brasil. pôs o conceito de espaço com papel central em toda sua obra. um dos mais laureados geógrafos contemporâneos. já que sua realidade vem de sua materialidade. p. apresentando-se como produto e condição da dinâmica sócio-espacial. a seu turno. 1996. aponta que o espaço é uma categoria que antecede o território. Portanto. aponta que o mesmo abarca a totalidade da vida social.

ou no "territorium" são impedidos de entrar.Marcelo de Souza (2001). Ao mesmo tempo.] terra-territorium quanto de terreo-territor (terror. p. por outro lado. A noção estabelecida pelo continuum é em sentido relacional. “carregado das marcas do ‘vivido’. para aqueles que têm o privilégio de plenamente usufrui-lo. do valor de uso. os quais servem de palco para a disputa do poder entre os grupos sociais. Aquele autor aponta que o território é um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder. Nessa ótica. há certa visão de que. formando territórios no conflito pelas diferenças culturais. está presente uma representação material e simbólica. podemos dizer que. consciente ou inconscientemente sua própria visão dessa categoria subjetiva. o território pode inspirar a identificação (positiva) e a efetiva "apropriação". Além disso. funcional e vinculado ao valor de troca” (HAESBAERT. ficam alijados da terra. o conceito de território deve abarcar mais que o território do Estado-Nação. do medo . Ou seja. Brasil. e que o poder não se restringe ao Estado e não se confunde com violência e dominação. Para Haesbaert (2007) o termo se aproxima de: [. está na apropriação e dominação.especialmente para aqueles que.. entre o material e o simbólico. A associação com o poder que prevalece nesse pensamento é notória. Ele não deve ser relativizado apenas no que Crises do Capitalismo. o segundo mais co ncreto. ou seja. O poder para Haesbaert (2007). há uma articulação entre territórios com uma carga funcional. com esta dominação. podemos vincular tal acepção com territórios regionais. até aqueles com uma maior carga simbólica. na origem do termo Território.. por sua vez. constituindo. Raffestin (1993) posiciona o território como o espaço socialmente produzido. tem a ver com dominação (jurídico-política) da terra e com a inspiração do terror. Assim. quanto ao poder no sentido mais simbólico de apropriação (HAESBAERT. 4 a 6 de setembro de 2013 . dando forte ênfase à dimensão política. também material. onde as interações humanas moldam. 2007. não está somente numa base tradicional do “poder político”. aplica uma lente de aumento sobre o conceito de território e afirma que o mesmo possui uma raiz política e também cultural. RS. aterrorizar). 20). 2007. 21) e dominação no sentido político-econômico. mais concreta e funcional. mas que sofre a interferência da produção e das relações sociais. Apropriação no sentido mais implícito ou simbólico. em que pesem todas as aspirações de dada sociedade. O território diz respeito tanto ao poder no sentido concreto. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. de dominação. p. desse meio. visto que identifica nas grandes metrópoles grupos sociais que estabelecem relações de poder. um espaço socializado (mesmo que em regiões rurais). Pode-se dizer que o espaço existe como base para a realização humana.

178). 178). em suas diversas manifestações (desde o poder em seus efeitos mais concretos até suas manifestações mais simbólicas) (HAESBAERT. em primeiro lugar. por sua vez. buscando superar esse dualismo. obviamente. O que define cada conceito. Evidentemente que a discussão teórica e prática que envolve o uso de tais conceitos é densa. esteja ela ligada a fenômenos como a divisão espacial (inter-regional) do trabalho. porém. 1999. afirmando que o primeiro não se presta a uma análise mais aprofundada. a que chamamos de região. A despeito dessas compreensões faz-se a partir deste momento uma correlação com a noção de região. não sendo possível dar conta de tal discussão neste breve estudo. dirigido à questão das relações entre espaço e poder (se quisermos. pois mantém constante sua relação com o todo (macro). mas também ao tempo e aos fenômenos sociais. p. o território tem o foco nas práticas sociais (principalmente nas de poder) e a região tem o foco nos processos gerais e mais amplos no articular.” (NORONHA. o território. As regiões ou o local são zonas de densificação da problemática de incorporação e apropriação do nacional. interferindo e sofrendo interferências deste. RS. os regionalismos ou as identidades regionais. Entretanto. p. um dos elementos centrais para aquela “diferenciação e articulação” regional).tange ao território. ambientais. diferenciar e recortar o espaço. mas que inclui. políticos e econômicos que ocorrem dentro e fora dele. p. Brasil. A essa correlação o autor irá chamar de “focal”. o que se entende por região serve justamente para demonstrar que “a região e o local acabam por dizer mais a respeito do Brasil [mas não só dele] do que se pode esperar quando se detém ao nível macro da ideologia nacional. culturais. “O que implica [para a região] trabalhar no entrecruzamento – ou no limiar – entre diferenciação como construção social efetiva e como recorte espacial classificatório/analítico” (HAESBAERT. É fundamental comentarse aqui. 2010. 34) Crises do Capitalismo. Várias são as discussões que visam chocar os enfoques regionais com os nacionais ou internacionais. Isto é. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. a análise da organização e diferenciação do espaço geográfico (e seu “recortamento”). 2010. a própria natureza prática dessa articulação/diferenciação. pois não apresentaria as condições necessárias à construção de uma relação com o todo. A isso. pode ser feito um recorte. que tal recorte não deve ser encarado como “uma porção separada”. a fim de que sejam ressaltadas particularidades de um dado espaço. é a problemática à qual ele está ligado: a região responde também a uma questão de ordem teóricometodológica. 4 a 6 de setembro de 2013 .

95) Este problema advém. A região responde à própria natureza prática da articulação/diferenciação e o território é um dos elementos centrais para essa “diferenciação e articulação” regional em suas inúmeras práticas e representações sociais (HAESBAERT. p. 1997.” (VISCARDI. um dos principais problemas que podem ser percebidos nos trabalhos que optam pela história regional. 1987. apresentada como um “constructo de seus agentes”. como veremos mais adiante. que enfoca a questão regional na historiografia. Weber. que território e região estão na (i) ordem do espaço socialmente produzido por um ator social (conjunto) imbricado de relações apropriação e dominação e (ii) implicam diferentes dimensões (material e simbólica). ela faz parte da primeira dimensão a ser afetada pela nova política cultural. na qual podemos destacar a interação como processo mediador da formação/construção de tal elemento. RS. deve ter “suas fronteiras delimitativas [. o qual é afetado pelas políticas culturais do Estado: a identidade. 96) É pelas práticas e construções sociais que é possível compreender. como Florestan Fernandes e José de Souza Martins. muitas vezes. Brasil. é “que a região estudada tende a vir isolada do contexto em que se insere. p. haja vista que o mesmo desenvolve suas análises sobre a “pós-modernidade”. 1997. As assertivas deste autor indicam que. 4 a 6 de setembro de 2013 .” (Hall. bem como da psique nesse processo. Diante de tão difusas propostas.] fluidas e que variam em função das circunstâncias em que são delineadas. no foco deste trabalho. Wallon. Aliado aos dois conceitos aqui elencados. 1213) Crises do Capitalismo. atualmente: “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. a identidade cultural faz-se presente e aumenta a complexidade das possíveis consequências da aplicação de um plano em nível nacional. Dentre aqueles podemos destacar Lacan. apontamos os estudos de Stuart Hall como importantes no atual contexto.. não nos é possível analisá-las detalhadamente neste trabalho. da tentativa em se delimitar um espaço por formas rígidas. devemos ressaltar a importância de outro. Kardiner. sendo que a região. Inclusive. contudo. 2010)..” (VISCARDI. Como uma base comum.Conforme Cláudia Viscardi. e até mesmo brasileiros. Inúmeros pesquisadores debruçaram-se ao longo do tempo na tentativa de desvendar os meios pelos quais as identidades são formadas e a contribuição do meio. p. Poucas ou nenhumas relações são feitas com outras regiões ou com a totalidade. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul.

49). sobre as quais afirma poder existir “identidades partilhadas”. A dimensão simbólica sugere que tais políticas devem buscar o reconhecimento e a valorização do capital simbólico do brasileiro. estimulando a criação. mediadas pelos meios de comunicação e fazendo com que as identidades nacionais passem a ser vínculos com o local e o regional. sob aquilo que Gellner chama de "teto político" do estado-nação. A lei apresenta uma série de princípios norteadores. de interação entre elementos mais circunscritos e outros mais gerais. afirmando que uma sociedade que se pretende nacional só o é a partir do momento que a representação cultural indica como os indivíduos devem agir enquanto partícipes de uma comunidade simbólica. étnica e regional brasileira”. à cultura nacional. Dividida em cinco capítulos. Mesma discussão que aplica aos efeitos da globalização sobre as identidades. assim como 16 objetivos pontuais do Plano Nacional. p. uma fonte poderosa de significados para as identidades culturais modernas. O Plano Nacional de Cultura O Plano Nacional de Cultura foi instituído pela Lei nº. nas sociedades ocidentais. eram dadas à tribo. que se tornou. em dezembro de 2012. assim. o autor desenvolve sua teoria das comunidades imaginadas. Brasil. numa era pré-moderna ou em sociedades mais tradicionais. 12. 4 a 6 de setembro de 2013 . de forma subordinada. conclui que: As culturas nacionais são uma forma distintivamente moderna. identidade. Para tanto é preciso uma ação de fomento a este capital que gere qualidade de vida. como o autor mesmo aponta no transcorrer da sua obra. traçando um paralelo entre nação e identidade cultural. Contudo. é construída pelos fragmentos regionais que são coadunados num amálgama dialético. Assim. Busca-se um acesso universal à cultura. essa cultura nacional. a lei procura apresentar sistematicamente a proposta nacional para cultura até o ano de 2020. a democratização e levando em conta os (novos) meios de Crises do Capitalismo. O primeiro objetivo é “reconhecer e valorizar a diversidade cultural. gradualmente. pertencimento. A cidadã é a segunda dimensão. pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva. 2006. As diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas. (HALL.343. à religião e à região. RS. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. ao povo.Nesse sentido. A lealdade e a identificação que. foram transferidas. Operacionalmente o Ministério da Cultura (2013) relacionou a política pública e a cultura em três dimensões dentro do Plano.

que busca relacionar cultura e região pela conexão simbólico/material (funcional). 4 a 6 de setembro de 2013 . Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. 2010). Elementos que posicionam ou que induzem ações racionalmente elaboradas. Assim. costumes. ações e contexto “região” I – PNC. É o que se busca abaixo. práticas. identidades. Contexto regional Simbólico Funcional Associação Aspectos que destacam as representações sociais. Ação Incentivar a formação de consórcios intermunicipais. Por fim. Brasil.difusão e fruição para isso. Dentre as 9 funções do Estado uma sugere a territorialização e a regionalização das políticas culturais. de modo a elevar a eficiência e a eficácia das ações de planejamento e execução de políticas regionais de cultura. difusão e fruição cultural. vale destacar a categorização do que será representado como simbólico e funcional. a dimensão econômica. o Plano Nacional apresenta um conjunto de diretrizes e ações que articulam cultura e região. Tabela 01 – Categorização do contexto regional. Fonte: próprios autores baseado em Haesbaert (2007. alteridades. A tabela abaixo procura elucidar essa separação. articular um espaço geográfico. Estratégia Estimular a diversificação dos mecanismos de financiamento para a cultura e a coordenação entre os diversos agentes econômicos (…). Aspectos que procuram recortar. RS. Abaixo as estratégias e ações que relacionam o contexto regional. vista e aproveitada como fonte de oportunidades para a geração de emprego e renda. Promover o investimento para a pesquisa de inovação e a produção cultural independente e regional. Consolidar a execução de políticas públicas para a cultura Nessas diretrizes vale destacar a manifesta preocupação com as questões regionais. Intensificar o planejamento de programas e ações voltadas ao campo cultural. visando ao equilíbrio entre as diversas fontes e à redução Funcional Crises do Capitalismo. de acesso. para sistematizar a análise proposta far-se-á uma apresentação das diretrizes e um enquadramento das estratégias e ações que envolvem o contexto regional. de apoio à produção independente e de pesquisa para o incentivo a projetos com recursos Contexto “região” Funcional Simbólico Ampliar e desconcentrar os investimentos em produção. Para tanto. Quadro 01 – Estratégias. Dentro da perspectiva adotada nesse estudo.Fortalecer a função do Estado na institucionalização das políticas culturais. Ampliar e regulamentar as contrapartidas socioculturais. de desconcentração regional. delimitar. Do Estado .

de forma a aproveitar seus recursos no sentido da desconcentração regional. proteger e promover as artes e expressões culturais O elemento da diversidade é um dos eixos principais do Plano Nacional de Cultura. Ação Realizar campanhas nacionais. Fomentar a difusão nacional e internacional das variações regionais da culinária brasileira. revistas.das disparidades regionais e desigualdades sociais. com prioridade para os perfis populacionais e identitários historicamente desconsiderados em termos de apoio. sustentabilidade e alinhamento às políticas públicas. Aprimorar o mecanismo de incentivo fiscal. regionais e locais de valorização das culturas dos povos e comunidades tradicionais. internet. 4 a 6 de setembro de 2013 . RS. em parceria com as embaixadas brasileiras e as representações diplomáticas do País no exterior. especialmente aqueles sujeitos à discriminação e marginalização (…). Funcional Desenvolver políticas públicas para estimular o trânsito da arte e das manifestações culturais nas regiões fronteiriças brasileiras. fomento e difusão do patrimônio e da expressão cultural dos e para os grupos que compõem a sociedade brasileira. Quadro 02 – Estratégias. ampliando o relacionamento com outros países do continente. Dinamizar as políticas de intercâmbio e difusão da cultura brasileira no exterior. ações e contexto “região” II – PNC. Da diversidade – Reconhecer e valorizar a diversidade. investimento e interesse comercial. A relação entre identidade e alteridade traz consigo elementos simbólicos fundamentais à cultura brasileira. Funcional Fonte: BRASIL (2010). televisão. a fim de afirmar a presença da arte e da cultura brasileiras e seus valores distintivos no cenário global (…). Estratégia Realizar programas de reconhecimento. por meio de conteúdos para rádio. com adaptações. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. valorizando o modo de fazer tradicional. preservação. os hábitos de alimentação saudável e a produção sustentável de alimentos Contexto “região” Funcional Simbólico Crises do Capitalismo. materiais didáticos e livros. exposições museológicas. entre outros. oriundos da renúncia fiscal. Brasil.

4 a 6 de setembro de 2013 . Estratégia Ampliar e diversificar as ações de formação e fidelização de público. estimulando sua interação com referências nacionais e internacionais. Do acesso – Universalizar o acesso dos brasileiros à arte e à cultura. com adaptações. valorizando as expressões locais e intensificando o intercâmbio no território nacional. Funcional Fonte: BRASIL (2010). com adaptações. Ampliar os programas voltados à realização de seminários. Contexto “região” Funcional Estimular o equilíbrio entre a produção artística e as expressões culturais locais em eventos e equipamentos públicos. internet. Induzir estratégias de sustentabilidade Crises do Capitalismo. Brasil. ações e contexto “região” III – PNC. inclusive com as de outros países. estaduais e municipais dedicadas a elevar a inserção de conteúdos regionais. privilegiando as iniciativas que contribuam para a regionalização e a promoção da diversidade. valorizando as manifestações e a economia da cultura regional. Simbólico Simbólico Fonte: BRASIL (2010). jornais e outros impressos culturais. Quadro 03 – Estratégias. com constante troca de referências e conceitos. assegurando sua articulação indispensável com as dinâmicas de produção e fruição simbólica das expressões culturais e linguagens artísticas. atendendo às comunidades de todas as regiões brasileiras. revistas. Promover as condições necessárias para a consolidação da economia da cultura. cinema e outras mídias. oferta de bens e produtos culturais. Permitir aos criadores o acesso às condições e meios de produção cultural Uma das dimensões da cultura contempla os aspectos da cidadania. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul.Fortalecer e preservar a autonomia do campo de reflexão sobre a cultura. populares e independentes nas redes de televisão. Essa diretriz trata especificamente desse ponto ao apresentar alternativas para ultrapassar o estado de carência e falta de contato com os bens simbólicos e conteúdos culturais. Ação Fomentar unidades móveis com infraestrutura adequada à criação e à apresentação artística. promovendo calendários de eventos regulares e de apreciação crítica e debate público. rádio. brasileiras e internacionais e aproximar as esferas de recepção pública e social das criações artísticas e expressões culturais. RS. Qualificar ambientes e equipamentos culturais para a formação e fruição do público. Integrar as políticas nacionais. a fim de qualificar o contato com e a fruição das artes e das culturas. ao uso da mídia eletrônica e da internet. à publicação de livros. Ampliar a circulação da produção artística e cultural. Do desenvolvimento sustentável – Ampliar a participação da cultura no desenvolvimento socioeconômico. para a produção e a difusão da crítica artística e cultural.

Ampliar o diálogo com os agentes culturais e criadores Esta diretriz estabelece as estratégias e ações pertinentes ao estabelecimento de uma eficiente e eficaz relação entre Estado e sociedade. Avançar na qualificação do trabalhador da cultura. por meio da exploração comercial de bens. serviços e conteúdos culturais. televisão. Estratégia Incentivar modelos de desenvolvimento sustentável que reduzam a desigualdade regional sem prejuízo da diversidade. internacional e residências artísticas de estudantes e profissionais da cultura em instituições nacionais e estrangeiras do campo da cultura. estimulando a geração de trabalho.nos processos culturais Neste tópico a cultura está direcionada à dimensão econômica. circulação e consumo dos bens e serviços culturais em diferentes segmentos e escalas. assegurando condições de trabalho. internet e outras mídias. cinema. RS. Retoma-se a dimensão cidadã do Plano Nacional dando ênfase a participação social. dando atenção a áreas de vulnerabilidade social e de precarização urbana e a segmentos populacionais marginalizados. Quadro 04 – Estratégias. renda e o fortalecimento da economia. Funcional Fonte: BRASIL (2010). com adaptações. emprego e renda. Construir mecanismos de participação da sociedade civil. Associa-se ao circuito de produção. Ampliar o alcance das indústrias e atividades culturais. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. emprego. Funcional Fomentar atividades de intercâmbio interregional. ações e contexto “região” IV – PNC. promovendo a profissionalização do setor. Brasil. por meio da expansão e diversificação de sua capacidade produtiva e ampla ocupação. Crises do Capitalismo. Da participação social – Estimular a organização de instancias consultivas. 4 a 6 de setembro de 2013 . Contexto “região” Funcional Fomentar a associação entre produtores independentes e emissoras e a implantação de polos regionais de produção e de difusão de documentários e de obras de ficção para rádio. Ação Inserir as atividades culturais itinerantes nos programas públicos de desenvolvimento regional sustentável.

na qual se considera as relações sociais. assim como na garantia da preservação e promoção do patrimônio e da diversidade. Estaria o contexto regional não associado ao Plano Nacional de Cultura? Dentro da proposta do estudo a ideia de associação pode ser entendida no contexto simbólico. Primeiro é importante verificar que o contexto regional está inserido em três estratégias e em 15 ações. Ampliar a transparência e fortalecer o controle social sobre os modelos de gestão das políticas culturais e setoriais.SNIIC. Contexto “região” Funcional Funcional Fonte: BRASIL (2010). Crises do Capitalismo. a apropriação e. acompanhamento e avaliação das políticas públicas de cultura. a construção regionalizada das políticas públicas. Já no funcional prevalece uma ação racional com relação a fins. com base em indicadores nacionais. Estado e Desenvolvimento Regional Santa Cruz do Sul. ampliando o diálogo com os segmentos artísticos e culturais. Considerações finais A apresentação dos dados requer uma compreensão aprofundada em termos de conteúdo. Ao traduzir essa noção pode-se dizer que usar o contexto regional pode ser o meio recursivo mais adequado para se atingir os fins estabelecidos no Plano. neste caso uma representação do contexto regional. regionais e locais de acesso e consumo. a dominação dos agentes sociais sobre o espaço. na geração de sustentabilidade. até mesmo. Cabe lembrar que no primeiro está contido um forte viés identitário. No entanto. governo eletrônico e a transparência pública. Ação Aperfeiçoar os mecanismos de gestão participativa e democrática. No universo de 274 ações do Plano as que mencionam o contexto regional é ínfimo. para usar um conceito weberiano. 4 a 6 de setembro de 2013 . e na perspectiva funcional.Quadro 05 – Estratégias. ações e contexto “região” V – PNC. integrando todo o território nacional com o objetivo de reforçar seu alcance e eficácia. com adaptações. implementação. mensurando resultados das políticas públicas de cultura no desenvolvimento econômico. algumas leituras são inicialmente possíveis. Brasil. Estratégia Aprimorar mecanismos de participação social no processo de elaboração. RS. Promover o monitoramento da eficácia dos modelos de gestão das políticas culturais e setoriais por meio do Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais .

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