Processos híbridos e uma produção artística – Shirley Paes Leme Gilara da Cunha Cabral Mestranda em Artes Visuais – Teoria

, história e crítica, Faculdade Santa Marcelina gilara@terra.com.br

Resumo A pesquisa em andamento tem como objeto uma produção artística contemporânea. Trabalhando com o conceito de hibridismo cultural como metodologia para análise e crítica da produção e do processo artístico da artista Shirley Paes Leme. Considerando que o foco seria uma análise do popular na Arte Contemporânea.

Artigo Este trabalho se encontra em processo como parte de pesquisa de dissertação de mestrado e tenta delinear o conceito de hibridismo cultural para dentro das artes visuais brasileira, tentando exemplificar através de um ou mais artistas, como os processos híbridos de criação vão acontecem no decorrer do processo artístico, e como uma obra acaba por representar diferentes influências e vivências culturais. Assim, é complicado categorizar uma obra ou um artista, e o conceito de hibridismo cultural possibilita múltiplas interpretações e indicações, ou seja, demostrando as possibilidades da vida contemporânea, na qual os contatos culturais são: efêmeros, diversificados, espontâneos ou planejados, mas além de tudo são responsáveis pela formação de uma nova ordem cultural. Onde temos “morte da arte, ressurreição das culturas visuais híbridas” (Canclini, 2006, p. 366).

e sim. religião etc. – que podem compor a produção da obra híbrida. O autor descreve os diferentes objetos híbridos. o conceito pode e será operado nas artes visuais como processo entre e interpretação das diversas linguagens – foto. vídeo etc. Farnese de Andrade. o fogo. e de certa forma é um olhar reduzido. de circularidade cultural. Shirley Paes Leme entre outros. como: Hélio Oiticica. como tema maior. falar em oposições se torna desproprorcional ao tema. assim exemplificando os grupos que reagem de forma xenofóbica ao contágio e outros não. a mata. Alfredo Volpi.arte.Os conceitos estudados no decorrer da pesquisa foram problematizados por diversas vezes conforme as leituras e análises eram aprofundadas. em aberto. alguns artistas brasileiros foram surgindo na pesquisa. visualizamos diversos artistas que possuem uma produção híbrida. 2003. Além disso. escultura. . Os conceitos teóricos sobre hibridismo cultural são recentes e ainda pouco pesquisados nas Artes Visuais. principalmente em um país que foi colonizado e recebe influências de uma gama variada de sociedades.. instalação. E como objeto. ou seja. uma elaboração de possiblidades de exemplos de processos hibrídos em diferentes sociedades e grupos. características de uma vida rural em uma produção contemporânea. Além desse aspecto para descrever os processos híbridos. levou necessariamente o projeto ao conceito de hibridismo cultural. O conceito de hibridismo cultural também se mostrou adequado para uma pesquisa de artes visuais no Brasil. nesse caso. artes). Mas o interesse ficou totalmente voltado para um/o artista contemporâneo. Após as leituras teóricas relativas ao hibridismo cultural. geradas pela aceitação ou não desses contatos pelos grupos envolvidos. Burke. A literatura utilizada no trabalho vem de dois teóricos do campo das Ciências Sociais: Burke e Canclini.1 Para Burke2 não existe um foco em uma área específica . 2003. política. as terminologias dos processos híbridos e exemplos em diversos campos da cultura (esporte. o foco da pesquisa se fechou em um ponto: aspectos do popular na arte contemporânea brasileira. No decorrer histórico. Ambos trabalham em 1 2 Título e conceito do livro Hibridismo cultural de Peter Burke. Maria Martins. um artista contemporâneo que traz uma específica característica no seu trabalho: a questão da terra. a obra de Shirley Paes Leme. Após os textos sobre um primeiro conceito. Burke também elabora uma descrição das reações ao hibridismo. pintura.

na qual desenvolve o conceito de hibridismo. ele não traz nomes nem os descreve. Esta pesquisa associa duas de suas obras: Hibridismo cultural5 e O que é história cultural?6 Em O que é história cultural?7 Burke não tem a pretensão de esgotar o assunto. 2005. . realizam sempre conexões e reflexões de seus conceitos com as Artes Visuais. Canclini não realizou uma pesquisa sobre as nomenclaturas que tentam descrever os processos híbridos. 4 Título completo: Culturas híbridas – estratégias para entrar e sair da Modernidade. Universidade de Buenos Aires. Na obra. 8 Burke. 5 Edição da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Paulo: Edusp. no entanto realiza um trabalho que é altamente didático para pesquisadores das áreas de Humanas. ele deixa de lado as teorias sobre as lutas de classes e oposições ultrapassadas de classes sociais.foi apresentado para docentes desta universidade. de apenas 116 páginas. Mais especificamente na obra Culturas híbridas4. 7 Burke.8 apesar de ser uma obra textual pequena. 6 Editora Jorge Zahar. em seus livros sobre o conceito. E foi uma obra editada apenas no Brasil. e não para o objeto híbrido em si. Ele utiliza um método demonstrativo. em formato reduzido de impressão. Primeiramente editado em inglês pela Polity Press. Duas de suas obras foram premiadas: Las culturas populares en el capitalismo e Culturas híbridas. Assim sendo.. 2005. 1° ed. mais especificamente em história da cultura. 2006. por meio de exemplos históricos. indica como é importante olhar para os processos híbridos. norte-americanos e europeus como Stanford. Burke aprofunda no sentido de esboçar e exemplificar o hibridismo no campo da cultura. esboçando debates nos campos da cultura. onde este livro -. se encontra na Universidade Autónoma Metropolitana do México. Nestor García Canclini3 volta seus estudos para a América Latina. Já o historiador inglês Peter Burke desenvolve sua pesquisa na Universidade de Cambridge. Em Hibridismo cultural. Universidade de Barcelona. onde é considerado válido detectar o hibridismo cultural como metodologia 3 Pesquisador de origem argentina que vem desenvolvendo seus trabalhos em universidades em vários países latino-americanos. no Programa de Estudos sobre Cultura Urbana. no ano de 2003. 2003. política e sociologia. apenas fala de hibridismo cultural e seus processos.uma idéia do autor -.áreas interdisciplinares e. A pesquisa desenvolvida na dissertação de mestrado avalia o processo de criação. em 2004. Atualmente. para assim esboçar um panorama social e cultural em que várias regionalidades e camadas sociais vão delineando uma pesquisa para chegar ao que é designado como história cultural. na Inglaterra. apesar de não serem historiadores de arte. para afirmar seus conceitos e teorias.

Nesse período9. na John F. optei por uma artista que possui vivências híbridas no seu percurso histórico. especificamente a produção de Shirley Paes Leme. sendo eles também de origem híbrida: o vídeo. A artista Shirley Paes Leme nasceu no interior de Goiás. doutorado. onde a vida da metrópole se funde com a vida rural ou da cidade próxima ao meio rural. que conectam esse hibridismo em suas obras. sendo seu currículo dessa época com mais de dez formações complementares. a artista se graduou em Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais e especializouse em artes pela Universidade Federal de Uberlândia. o fogo. Seus processos de criação são mais do que influenciados por essas vivências. E as obras também conteriam um hibridismo de linguagens. onde realizou mais de trinta formações complementares. verificar as diferentes influências que foram surgindo no decorrer da formação acadêmica da artista e se esses contatos foram repassados em sua produção artística. o galho. o desenho e a escultura também formam uma produção de instalação da artista. Além de observar que o hibridismo.para uma análise de uma produção artística. e passou sua infância em fazendas desse estado e em Minas Gerais. é claro. nesse caso. Permaneceu cerca de três anos nos Estados Unidos. Shirley usa do vídeo juntamente com a instalação. dessa vivência rural já estar intrínseca em sua história. nesta pesquisa. A intenção de enfatizar as formações complementares tem o intuito principal de. outra. sob influências diversas e constantes. Na tentativa de compreender os processos híbridos que geram uma produção artística. além. Shirley Paes Leme vem desenvolvendo sua produção. Seu contato com duas realidades é constante e ininterrupto. Ela se encontra nesse viver atual de divisão de espaços. Shirley começa sua pós-graduação. Principalmente. O período citado compreende os anos de 1975 a 1982. Em 1983. focando em uma produção que realiza o encontro entre características de uma cultura popular rural e. que possam ter dado origem às obras híbridas. Kennedy University. leciona em São Paulo e mantém um ateliê em Uberlândia – Minas Gerais. também ocorre nos materiais selecionados para produção das obras. Obteve sua primeira formação em artes em Universidades do estado de Minas Gerais. o papel etc. 9 . Dados extraídos do Sistema de Currículos Lattes – CNPq. erudita da metrópole.

Exposição realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo. procuro traçar um caminho para descrever as influências que surgiram e como elas foram representadas em algumas obras. ao mesmo tempo. ela não busca representá-las (Chiarelli. por meio de entrevistas e da coleta de material editorial de mostras e exposições. . viram desenho quando passam pelo processo de captação da artista. tem como materiais e objetos para produção da instalação uma camisola. Os processos híbridos de criação estão sendo verificados na pesquisa pela trajetória pessoal e profissional da artista. a presença do rural.com a cultura popular rural. apesar de Shirley utilizar recursos estritamente figurativos e diretos. No entanto. galhos e uma antiga mesa de madeira com marcas de fogo e fuligem. ela não representa diretamenta a fazenda. de uma tentativa de padronizar a obra para aceitação de um mercado específico de arte popular. Todos os elementos transportam o observador a um mundo rústico. a paz a representação rural pode criar. Trabalha o contemporâneo – a instalação em si -. e conseqüentemente. instalação. não explora o bucólico. uma chama. papel artesanal aquarelado – galhos secos e arame. Sendo essa ruralidade da cultura popular apresentada sem nenhum interesse de resgate de uma vida bucólica ou. não a transforma em simples objeto comercial. 1986.A vivência rural. Tadeu. Ela instala a fazenda na galeria. o orgânico e. de 1º de outubro a 8 de dezembro de 1996.. 2007). 15 artistas brasileiros: colocando dobradiças na arte contemporânea..] percebe essas formas tão frágeis muitas vezes como representações em constante mutação. a um universo rural. ainda tão marcante em um país como o Brasil. a cozinha da fazenda. campestre. as interpretações que a obra pode gerar deixam em aberto infinitas interpretações. 10 Catálogo. Chiarelli. 1996. os campos verdes. O picumã. A imagem da instalação Pela Fresta. Assim. A artista [. Mais uma vez.“Inside out”. pois nada mais é que sua experiência pessoal e se apresenta de forma persistente na produção da artista no decorrer do seu aprendizado e de sua produção. São Paulo: MAM. a saber: . que sofreu uma industrialização devassada e descontínua10 está presente na obra de Shirley. a teia de aranha enrijecida pela poeira e por resíduos da cozinha da fazenda.

desenho. . instalação. Washington D. 1996. São Paulo: JC. 2003. Curadoria Nair Barbosa Lima. p. São Paulo: JC.C.Quasar.“Como luz”. Shirley Paes Leme. Brazilianartbook VI. . CIRILO. “Brasilidade na arte brasileira (à luz de um pouco de história)” in Projeto Brazilianart. 1998. . 2002. MORAES. Curadoria Nair Barbosa. 1996. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. madeira e arame. ( 1ª reimpressão.: 22 de novembro a 16 de dezembro de 1996. Referências bibliográficas ANDRADE. Brazilianartbook ΙΙ. . 2001. 1990. ARAÚJO. São Paulo: JC. Peter. p. 1531. “Percurso atual da arte no Brasil” in Projeto Brazilianart. NESTOR García.) ---------. Texto Tadeu Chiarelli. São Leopoldo: Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Angélica. Olívio Tavares. 4ª ed. picumã sobre papel. Marco Pasqualini de. CANCLINI.sem título.p. 1980. instalação. 2005. Aparecido José. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.. 1990. . fumaça congelada. Curadoria Nair Barbosa Lima. madeira e arame. 1999.“TODO”. . instalação. instalação.“Muitas chamas”. “Uma chama para animar um espaço” in Projeto Brazilianart. Hibridismo cultural. . madeira – fogo. Brazilianartbook VI.“Pela fresta”. galhos. Imagem-lembrança: comunicação e memória no processo de criação. 2005. ----------. BURKE. Latinoamericanos buscando lugar en este siglo. Flame. 2004 (tese).“UNO”. Periódicos e catálogos BACI GALLERY. papel artesanal aquarelado – galhos secos e arame. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 426435. 2006. Buenos Aires: Paidós. 2005. 10-25.

Alberto Beuttenmüller. São Paulo: 8 de outubro a 8 de novembro de 2002.com. www. Textos Ronaldo Brito e Tadeu Chiarelli. MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO RIO GRANDE DO SUL. Texto Stella Teixeira de Barros. Berlim: 1999. Paris: 3 a 30 de dezembro de 1996. Acesso e impressão 31 de julho de 2007. Shirley Paes Leme.br. cronologia Margarida Sant´Anna. . SKULPTUR. Galeria Xico Stockinger. Texto Maria Alice Milliet. Currículo do Sistema de Currículos Lattes. Fogo Fel e São. São Paulo: Museu de Arte Moderna de São Paulo.asp?idartista=49. Pela fresta. GALERIA DEBRET. Eduardo Luppi. und MUSEE CANTONAL DES BEAUX ARTS. Lausanne: 4 de abril a 28 de junho de 1992. Galeria Soteo Cosme. Porto Alegre: 13 de agosto a 6 de setembro de 1998. Ana Maria Maiolino e Bella Feldman. 1º de outubro a 8 de dezembro de 1996. “15 artistas brasileiros – colocando dobradiças na arte contemporânea” in Artistas Brasileiros. Acessado em 30/7/ 2007. Shirley Paes Leme.CHIARELLI. Shirley Paes Leme. GALERIA BORO.nararoesler. Texto Olívio Tavares de Araújo.br/artistas_txt_p. Shirley Paes. LEME. Web sites CHIARELLI. VALU ORIA GALERIA DE ARTE. Uberlândia: 15 de maio a 5 de junho de 1998. Texto Maria Alice Milliet. Tadeu. GALERIA JASPERS. Objetos e instalações. http://www. Shirley Paes Leme. Texto Marilia Andrés Ribeiro. Texto Katia Canton. Shirley Paes Leme São Paulo: 3 a 6 de setembro de 1996. Tadeu. Shirley Paes Leme e a Captação do Fugaz. Correr o risco. INSTALLATION. ZEICHNUNG. GALERIA DE ARTE DE UBERLÂNDIA. Porto Alegre: 13 de agosto a 12 de setembro de 1998 . Shirley Paes Leme.cnpq. Deux artistes bresiliens. Shirley Paes Leme. Shirley Paes Leme.