ENDOMETRIOSE CUTÂNEA UMBILICAL: RELATO DE CASO E REVISÃO DE LITERATURA

ENDOMETRIOSIS OF UMBILICAL CICATRIX: CASE REPORT AND REVIEW OF THE LITERATURE
ANTONIO MARCOS CABRERA GARCIA Cirurgião Plástico, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Membro da International Society of Aesthetic Plastic Surgery. PAULO SÉRGIO DA SILVEIRA JR. Residente em Cirurgia Plástica BEATRIZ GOMES BIANCO E CABRERA GARCIA Dermatologista- Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Mestre em Clínica Medica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. MICHELLE GUSMÃO DE ASSIS Patologista ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA Specialite Centro Médico - Rua: Saldanha Marinho, 542 - Bairro: Trianon - Guarapuava - PR - CEP: 85012-270 Telefones: (42) 3622-7294 - Email: antoniogarcia@specialitecentromedico.com.br - amcgarcia@uol.com.br DESCRITORES ENDOMETRIOSE, UMBIGO/PATOLOGIA, UMBIGO/RECONSTRUÇÃO. KEYWORDS ENDOMETRIOSIS, UMBILICUS/PATHOLOGY, UMBILICUS/RECONSTRUCTION.

RESUMO Introdução: Endometriose é a presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina1,2,3. Acomete 12% das mulheres em idade fértil, sendo mais comum intra pélvico1,4. A forma cutânea é rara porém é a mais comum extra pélvica, podendo acometer a região umbilical1,2,3,4. Métodos: Relatamos um caso de endometriose umbilical espontânea numa paciente de 36 anos e a estratégia usada para a reconstrução do umbigo após a exérese da lesão. Discussão:A endometriose cutânea primária umbilical descrita por Villary em 1886 é rara, representando 0,5 a 1%1,2,3,4,5. Clinicamente: lesão acastanhada ou azulada, nodular, circular, de 0,5 a 5 cm de diâmetro, endurecida, com história de variações de volume e dor cíclica1,2,5.A etiologia da endometriose e, especialmente, da forma umbilical não está clara, porém parece existir uma predileção das células endometriais por cicatrizes1,2,4.Histologicamente, tem padrões da fase secretora e proliferativa1,2,3,4. Diagnóstico diferencial inclui processos benignos como: hérnia umbilical encarcerada, granuloma piogenico e de corpo estranho,cistos e quelóide; lesões malignas como: melanoma, metástases de tumores gastrointestinais e anexiais1,3,4. Tratamento é cirúrgico, com exérese completa da lesão e reconstrução umbilical quando necessária, como no caso aqui relatado1,2,3,4,5,6. Conclusões: A endometriose cutânea umbilical primaria é rara. Tratamento cirúrgico e reconstrução imediata levam a bons resultados como descrito na literatura.

ABSTRACT Background: Endometriosis consists of extrauterine endometrial growths and it is a relatively common condition affecting as many as 12% of females of childbearing age. Although it is usually located in the pelvis it can also be found in other sites. Primary cutaneous endometriosis is a very rare disease, but should be considered on the differential diagnosis of umbilical lesions. Methods: We present a 36-year-old woman with a umbilical nodule as a clinically characteristic form of spontaneous cutaneous endometriosis. Results: Umbilical endometriosis, like described by Villary in 1886, has an estimated incidence of 0,5 a 1% of all patients with endometrial ectopia. Presentation may be atypical and the diagnostic, difficult, mimicking other acute diseases, e.g., skin neoplasm, folliculitis, etc., but it should be suspected in any female presenting mass in the umbilicus. The histopathological examination confirmed the clinical diagnosis. Surgical treatment with immediate umbilical reconstruction appears to be effective. Conclusions: Umbilical endometriosis is a rare entity. Surgical treatment and immediate umbilical reconstruction allow good results like those described in the literature. INTRODUÇÃO A endometriose é definida como a presença de tecido endometrial funcionante (glândulas e estroma) fora da cavidade uterina1,2,3. Estima-se que acometa 12% das mulheres em idade fértil e o sítio mais comum é intra pélvico1,4.

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Arquivos Catarinenses de Medicina - Volume 38 - Suplemento 01 - 2009

4. A forma cutânea primária umbilical descrita por Villary em 1886 é rara. Realizou-se então a exérese da lesão. tem padrões da fase secretora e proliferativa. As formas secundárias. hemangiomas.3. O tratamento de escolha é o cirúrgico. criando uma estrutura com aspecto natural. com história de variações de volume e dor em episódios cíclicos1. O umbigo é uma unidade anatômica da parede abdominal e a sua ausência causa dano estético e grande constrangimento6. Histologicamente. que permite uma reconstrução imediata. 36 anos. MATERIAL E MÉTODOS L.2. são representadas pelos casos que surgem sobre cicatrizes cirúrgicas prévias de histerectomias. que nesse grupo são as mais comuns.2. permanência de tecido endometrial mulleriano e metaplasia de células pluripotenciais mesenquimais1. especialmente.2.3. circular. metástases de tumores gastrointestinais (nódulo da Irmã Maria José) e metástases de tumores anexiais1. endurecida. e um selo de músculo reto abdominal. Figura 1. sem uma correlação clara com o ciclo menstrual.7. nevo melanocítico. Na primeira avaliação queixava-se de uma lesão no umbigo. tumor desmóide e quelóide. septo retovaginal. optamos pela técnica descrita por Kokuba e cols. porém negava sangramento ou ulceração local (Fig1).5. O local mais frequentemente acometido é o ovário (27%). DISCUSSÃO A endometriose é definida como a presença de tecido endometrial extrauterino e afeta aproximadamente 12% das mulheres em idade fértil1.2. de 0. aspecto cerebriforme. As formas primárias ou espontâneas são muito mais raras e podem se localizar na cicatriz umbilical. onfalites.Volume 38 . como: melanoma. é uma lesão acastanhada ou azulada. seguido pelas trompas (22%).Suplemento 01 .3. ligamentos sacro-uterínicos (16%). Assim. implantação metastática por fluxo retrógrado.3. a associação entre algumas delas.K.4. isso explicaria esses casos1.. quando necessária. granuloma piogênico e de corpo estranho.9. fem. Biópsia local: estroma celular denso com glândulas endometriais compatível com endometriose cutânea. constitui a localização mais comum extra pélvica1.Intra-operatório Arquivos Catarinenses de Medicina . como no caso aqui relatado1. O tratamento cirúrgico e a reconstrução imediata levam a bons resultados como descrito na literatura. aderida a fáscia profunda.3.Pré-operatório Figura 2.4. Clinicamente.5 a 5 cm de diâmetro. nodular. A etiologia da endometriose e. laparotomias e episiotomia. Lesões malignas também devem ser descartadas. cistos. que apresentava variação de volume compatível com o ciclo menstrual.3. representando 0.F. Como parece existir uma predileção das células endometriais por cicatrizes e o umbigo é uma cicatriz fisiológica. Relatamos um caso de endometriose umbilical espontânea e a estratégia usada para a reconstrução umbilical após a exérese da lesão. com exérese completa da lesão e reconstrução umbilical. ceratose seborréica. da forma umbilical não está clara.2. sendo classificada em formas primária e secundárias1. porém. tais como: embolização de tecido endometrial por via linfática ou sanguínea. Na parede abdominal pode aparecer em cicatrizes cirúrgicas e até em trajetos de aminiocentese1.5.3. com dez anos de evolução. de crescimento lento.4.5.4. peritoneo pélvico e intestinos (5-25%)2. na região perianal ou inguinal1. com gestação prévia há 13 anos.4. Dúvidas diagnósticas: resolvidas com imuno-histoquímica1. Exame físico: nodulação umbilical de cor ocre. com 3 cm de diâmetro. até.5 a 1% do total1.2.4. deformando a arquitetura umbilical.A endometriose cutânea é rara.2.8. porém. deve ser aventada quando do diagnóstico diferencial de lesões dessa região em mulheres em idade fértil como no caso descrito. de consistência endurecida. CONCLUSÃO A endometriose cutânea umbilical primária é rara. Diagnóstico diferencial inclui processos benignos como: hérnia umbilical encarcerada. sendo propostas varias teorias e. cesáreas. sendo reconstruído a parede abdominal e o umbigo. com uma depressão permanente e cicatriz final aceitável6.2009 255 . com margem de segurança incluindo a fáscia.

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