Linguagem e Pensamento

Autora Claudia Rosa Riolfi

1.ª edição

Livro 1.indb 1

26/08/2008 14:06:08

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R585L Riolfi, Cláudia Rosa, 1965Linguagem e pensamento/Cláudia Rosa Riolfi. — Curitiba: IESDE Brasil S.A. 2006. 132 p. ISBN: 85-7638-419-1 1. Linguagem escrita. 2. Alfabetização. 3. Formação de professores. 4. Escrita - Ensino. CDD 372.634

1.ª reimpressão

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Livro 1.indb 2

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Sumário
Apresentação. ...........................................................................................................................5 As intrincadas relações entre pensamento e linguagem. ..........................................................7
Pensar não é tão simples como parece........................................................................................................ 8 O pesadelo dos pesadelos: uma sociedade humana sem pensamentos..................................................... 10 Texto complementar. ................................................................................................................................ 14 Atividades................................................................................................................................................. 15 Para refletir................................................................................................................................................ 15 Dicas de estudo......................................................................................................................................... 16 Referências. .............................................................................................................................................. 16

O imprevisível animal humano. .............................................................................................17
Os animais não se organizam do mesmo modo ....................................................................................... 17 É conversando que a gente não se entende............................................................................................... 19 Modos diferentes para explicar como a gente se torna o que é. ............................................................... 20 O professor-detetive ou, simplesmente, o bom professor......................................................................... 22 Texto complementar. ................................................................................................................................ 23 Atividades................................................................................................................................................. 25 Para refletir................................................................................................................................................ 27 Dicas de estudo......................................................................................................................................... 27 Referências. .............................................................................................................................................. 28

Concepção do homem como ser de linguagem......................................................................29

A linguagem é o que dá nosso contorno................................................................................................... 30 Alguns traços da linguagem humana........................................................................................................ 31 A linguagem antes dos trabalhos de Benveniste....................................................................................... 33 Texto complementar. ................................................................................................................................ 35 Atividades................................................................................................................................................. 37 Dicas de estudo......................................................................................................................................... 39 Referências. .............................................................................................................................................. 40

Analisar os modos de falar e de pensar: difícil conquista do ser humano..............................41
A capacidade para a reflexão lingüística se ganha na cultura................................................................... 43 A língua como objeto de análise pode gerar muito prazer........................................................................ 45 Texto complementar. ................................................................................................................................ 47 Atividades................................................................................................................................................. 49 Para refletir................................................................................................................................................ 50 Dicas de estudo......................................................................................................................................... 51 Referências. .............................................................................................................................................. 51

A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano...................................53
Os sustos que a gente leva quando encontra quem sabe mais.................................................................. 53 Introduzindo o pensamento de Vygotsky.................................................................................................. 55 A perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano................................................................. 56 Texto complementar. ................................................................................................................................ 58 Atividades................................................................................................................................................. 60 Para refletir................................................................................................................................................ 62 Dicas de estudo......................................................................................................................................... 62 Referências. .............................................................................................................................................. 63

Livro 1.indb 3

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....................................................115 Referências................................................65 No início era o corpo................................................................................ 71 Atividades............................................................................ ...................... ............................................ ........................................................................................................................................ ........................... 102 O papel do professor no processo de aprender a escrever....... 97 Dicas de estudo............................................................................................................................................... 74 O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança....... ........................................................................119 A aula de escrita gerando desenvolvimento subjetivo para o professor e seu aluno.............................................................. 79 Texto complementar......................... 82 Atividades................................................................................................................................................................................................................................................................................................75 A linguagem torna o homem mais complexo..........indb 4 26/08/2008 14:06:09 ........................................................ ..................117 A interlocução verbal na aula de Língua Portuguesa. ......... 69 Texto complementar .................................................................................. 67 A dupla função organizadora da palavra.................................................... 76 O conceito de internalização e sua relevância para refletir o ato educativo.......................................................................................................... 122 Texto complementar..............................................................................................................................................................................89 O papel da escola no desenvolvimento intelectual.... ..............................115 Perspectiva histórico-social: a aula de língua portuguesa e seus textos aí produzidos............................. 73 Para refletir................................................ 85 Para refletir......................................................................................................Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem........................................................................................... ............................. 124 Atividades................................................................................................................................................................................................... 65 O conceito de pensamento verbal em Vygotsky ................................................................ 106 Texto complementar......................................... 92 Construindo uma relação pedagógica na qual seja possível explorar os conteúdos........................................................................ ................................ .................................................................................................................................................... 73 Dicas de estudo................................................. 99 Referências.......................................................................................................................................................................................................................................................................101 A inveção da escrita............................................................................ 108 Atividades............................................ 96 Atividades............................................................................................ ........................................................................................................................................................................... 95 Texto complementar.. ............... 101 A mutação das funções sociais da escrita........ 129 Dicas de estudo............................................................................................................................ 86 Dicas de estudo............ ................................................................................111 Dicas de estudo...............................................131 Livro 1.................................. ............................................................... 74 Referências.................117 O pensamento sobre a alfabetização no Brasil........................................................................................................................................................................ 105 Auxiliar a criança a se apropriar do código alfabético exige saber o que estamos fazendo.......................................................... 90 Construir uma educação desafiadora para promover o desenvolvimento humano............................................ 86 A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança......................................... 99 O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje.................................................................................................................... 86 Referências.................................................................................................................................................................................................................... 129 Referências................................................................................................... 125 Para refletir..................................................................................... 77 A zona de desenvolvimento proximal e sua aplicabilidade para refletir sobre a educação........................................................................................................................................................ 129 Anotações .................... ....................................................................

“suaram sua camisa”. Tentei tornar o seu caminho o menos árduo possível e. Claudia Rosa Riolfi Livro 1. terão seus nomes registrados nas enciclopédias – enfim. ofereçam-nos o inestimável presente de um novo modo de pensar sobre o mundo? Onde estão. posteriormente. aceitei o convite para preparar este curso para você.Apresentação Prezado aluno O material que agora lhe chega em mãos é um desdobramento de quase 20 anos de meu trabalho de pesquisa sobre a escrita.. no final. aqueles intrépidos pensadores que. Quem sabe você não se encanta com essa linha de reflexão e. por esse motivo. foram perseguidos por aqueles que questionavam suas “idéias exóticas” e.indb 5 26/08/2008 14:06:09 . honrando o meu esforço. você se engaje no percurso que ora se inicia e que goste do trabalho. para isso. Espero que. Diante dessa ironia. muito se fala que o jovem de hoje não tem muita coisa para dizer. muitas vezes prejudicaram sua saúde. alterarão o estado atual do conhecimento humano? Eu quero muito saber isso e. Se um dia desejei estudar esse assunto foi porque conclui que conhecê-lo me ajudaria a refletir sobre o advento de uma passagem que vem se tornando cada vez mais rara: o momento em que um sujeito abandona sua dificuldade para escrever e se autoriza a pensar com a sua própria cabeça e. agora. os novos pensadores que se tornarão conhecidos mundialmente. Ao pensar sobre essa dificuldade. muito pelo contrário. meu colega professor. eu terei uma companhia agradável para continuar o meu trabalho investigativo? Você deve estar entendendo que meu interesse sobre o tema pensamento e linguagem não consiste em uma questão abstrata. assim. tenho tentado circunscrever uma questão que me intriga desde que sou muito pequena: por que em nossos dias não surge um pensador revolucionário que formule uma idéia que altere tudo o que hoje sabemos sobre o mundo? Onde estão hoje os gênios de outrora.. mas pouco se diz que seu silenciamento foi causado por ruídos que ele não produziu. a tornar públicos os resultados de sua reflexão. Por meio dele. tive que trabalhar muito. convoco você. a assumir comigo a responsabilidade de se indagar a respeito de que respostas a nossa geração de adultos poderá deixar para as crianças que ― muitas vezes tendo perdido a esperança de construir para si um futuro melhor ― se interrogam sobre o sentido de ler e escrever na escola. ao longo da história da humanidade.

indb 6 26/08/2008 14:06:09 .Livro 1.

que as relações entre pensamento e linguagem vêm sendo. Doutora em Lingüística pela Unicamp. tem toda sua vida mental desorganizada. tem mais relevância social do que nunca: as conseqüências éticas da compreensão da necessidade de nós. não deixa dúvidas: o pobre infeliz que está privado de trocas verbais com outros humanos logo perde o interesse em manter os cuidados de higiene e de aparência pessoal. Mesmo agora. quando somos adultos. entretanto. há muito Psicanalista. optamos por trazer alguns elementos que permitem introduzir a reflexão sobre o pensamento humano desde uma óptica que dá primazia à linguagem. uma vez que o leva a agir contra a sua natureza. sem poder contar como você está se sentindo para alguém a quem confia – em suma. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. “esquece” de comer nas horas costumeiras. Por que isso acontece? Porque não poder falar é uma das maiores agressões que podem ser imputadas ao ser humano. Recentemente.A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento Claudia Rosa Riolfi O objetivo deste capítulo é convidar o leitor a se interessar por um tema que. muito particularmente. como por exemplo doentes graves ou prisioneiros. a de ser um “ser de linguagem”. No que se segue. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. insistirmos vigorosamente em nos mantermos no exercício do pensamento criativo e no desafio que é a mediação da linguagem nas trocas com nossos semelhantes. É claro para todos que um ser humano não sobrevive muito tempo se for privado de água e de alimento. sem falar e sem ouvir palavras? Você já imaginou como seria sua vida se fosse impedido de verbalizar seus gostos e opiniões? A observação de pessoas que passaram por longo período de isolamento. desenvolve distúrbios do sono. tem toda relevância para refletir sobre os sucessos e os impasses da educação dos alunos que nos foram confiados. tem se tornado evidente que.indb 7 26/08/2008 14:06:09 . para além dessas necessidades classicamente reconhecidas como sendo as básicas. sem ouvir a voz de seus familiares. dificilmente qualquer um de nós teria sobrevivido aos primeiros anos da infância sem receber ao menos um pouquinho de amor daqueles que cuidaram de nós. professores. a extensão do poder que a linguagem tem sobre nós. Livro 1. perde a noção do tempo. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. é importante esclarecer. conseqüentemente. ou seja. hoje em dia. Resumindo. compreendida como sistema de articulação de signos verbais exclusivo do homem. é de suma importância para refletir sobre a construção e a manutenção de nossa cultura em geral e. Compreender esse traço de nossa essência. você pode imaginar quanto tempo agüentaria. Antes de começarmos. por exemplo.

sequer estaríamos aqui para estudar e contar a história de nossa vida de homens e de mulheres. além de depreciativo com relação às nossas qualidades e potencialidades. tenha sido possível alcançar um consenso total na forma de conceber como linguagem e pensamento se articulam para o humano. nem que fosse para lhe imputar uma origem mística. não existe apenas um lugar onde o sol brilha. sem qualquer mediação de uma reflexão mais elaborada. senhor leitor.indb 8 26/08/2008 14:06:09 . como em tudo na vida. a acusação de outro menos esclarecido que. Vamos conhecer uma delas. Por esse motivo. em especial. aquele que pensa desse modo acredita que nós temos um cérebro apenas para servir como uma espécie de quadro-negro onde escrevemos. 8 Livro 1. entretanto. Por esse motivo. essa modalidade de olhar o mundo é interessante porque exemplifica um tipo de raciocínio que acredita na correspondência direta e imediata entre uma causa e sua conseqüência – no caso. frente a um pensamento mais estranho. sem que. Se for legítimo crer que para todo efeito manifesto no mundo será possível encontrar uma causa lógica. com certeza o leitor já teve oportunidade de testemunhar.. a medicina. acabaremos por funcionar na crença que foi aquela dos nossos antepassados macacos. Sempre houve alguém interessado em dizer de onde tinha se originado uma idéia qualquer ocorrida a outro alguém. a psicologia e a lingüística. sendo necessário “escolher a nossa praia!”. São várias as áreas que se dedicam a elucidar essa questão. ainda permanece em nossa cultura.Linguagem e Pensamento tempo. antes de avançarmos nesta reflexão sobre as relações entre pensamento e linguagem. os homens têm se interessado por esclarecer as obscuras origens de seus pensamentos. Embora há muito tempo tenhamos superado a chamada “época das trevas”. Você acredita mesmo que somos assim tão idiotas? Com certeza não! Esse modo de ver as coisas. Deixando de lado as crenças religiosas. para além do senso comum. piamente declara: “Isso deve ser coisa do capeta!”. disfarçado de ciência. do que uma bofetada. mas não exclusivamente. nada mais nada menos. tem conseqüências nefastas para a nossa vida em sociedade. a biologia. Ou seja. Não seria muito difícil imaginar até que ponto de destruição a sociedade humana teria ido se todos nós tivéssemos mantido o modo de ver as coisas de nossos primitivos antepassados. a sugestão feita pelo diabinho como causa e o surgimento do “pensamento” na cabeça de um sujeito como conseqüência. mais comumente demonológica. alvo de polêmica entre os mais diversos estudiosos. Pensar não é tão simples como parece Desde que o mundo é mundo. é importante fazer a crítica de todos os resquícios desse modo de pensar que.. segundo a qual uma reação “natural” de um sujeito que tivesse acabado de levar um empurrão seria. Com certeza. as idéias que recebemos dos outros. como se fossem nossas.

e não porque. em vez de só obtê-las a partir de um estímulo externo. 9 Livro 1.cobra. a força da vontade e assim por diante. em 1906. que associavam o som com o gosto da carne. ao longo de sua vida. ele acabou percebendo que apenas o som de seus passos no laboratório. ao menos. na sua maioria oriundas de suas pesquisas com os animais. Com experimentação sistemática.nom. 1957). esse psicólogo americano se tornou o mais famoso representante do behaviorismo. A elaboração de Skinner no que tange à linguagem é bastante coerente com os demais aspectos de sua teoria (SKINNER. por meio da linguagem. portanto. por Você conhece as sua vez. de novo sem mobilizar a categoria do pensamento como uma instância elaborada que pode mediar. pela concisão e objetividade. o autor elaborou o conceito de condicionamento operante. após sucessivos pareamentos com um bolo de carne que sempre era apresentado aos seus animais. do qual retiramos alguns dados a respeito da vida do autor: http://www. portanto. publicou achados experimentais sobre o reflexo do behaviorismo? condicionado: Ivan Petrovisch Pavlov (1849-1936). empenhou-se grandemente em fazer publicidade de suas próprias idéias. a construir uma noção de pensamento mais adequada para ser mobilizada no interior da escola. a exemplo do que Pavlov havia demonstrado acontecer com os animais. nos moldes daquelas desenvolvidas pelo fisiólogo russo principais idéias que. provavelmente o primeiro nome de autor que nos ocorre é o de Burrhus Frederic Skinner (19041990). dava origem à resposta de salivação dos cães. todos os comportamentos humanos são moldados pela nossa experiência de punição e recompensa e não por instâncias mais “subjetivas”. 1 Dentre inúmeros sites que contém dados sobre a bibliografia de Skinner. Ao longo de sua realização. ou seja. realizadas. destaca-se o seguinte endereço. Conseqüentemente. vamos recuperar alguns dos traços de uma das escolas da psicologia que se inscreveu dentre aquelas que não davam a devida relevância ao papel da linguagem na manutenção da nossa organização social: o behaviorismo e as linhas que dele se originaram. A principal descoberta do russo ficou conhecida como condicionamento pavloviano. acrescenta-se a consideração da possibilidade de o organismo emitir respostas.1 De fato. Ressalte-se.indb 9 26/08/2008 14:06:10 . que o autor tentou explicar o aprendizado e a linguagem verbais dentro do paradigma do condicionamento operante.A liguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento A ciência que ignorou a importância da linguagem Visando. ele reduz a linguagem a mais um dos comportamentos que podem ser controlados. ele teria.html. um relativo livre-arbítrio para agir deste ou daquele modo. Skinner acreditava que. Nessa nova elaboração. modalidade de manifestação comportamental que ele percebeu por meio de estudos que realizava sobre a atividade digestiva de cães. Dentro dessa tradição de pesquisa empirista e coerente com sua postura pessoal de materialista e ateu. as relações entre o homem e o mundo. tais como a moral. Quando nos referimos a essa corrente do pensamento.pages. Skinner costumava afirmar que o homem bom só faz o bem porque o bem é recompensado. dados alguns traços de seu caráter. br/ecp-skinner. ligeiramente diferente da noção de condicionamento (uma junção simples de estímulo e resposta) que vinha sendo desenvolvida nas formas anteriores de behaviorismo. uma vez que. isto é.

que parte do princípio de uma aprendizagem mecânica. em face dessa idealização tentadora. Ou seja. que todos aqueles que são diferentes de si são “maus”? Como ele faria para ter certeza de uma certa neutralidade e isenção para formar os parâmetros adotados para diferenciar o bem do mal? Uma olhada mais objetiva na história da humanidade logo nos mostra para onde caminhamos todas as vezes que um poder totalitário foi implementado: para uma pasteurização da linguagem em uso e para um embotamento do pensamento. É possível pensar numa sociedade totalitária e controladora? Nesses seus devaneios. se assim podemos dizer. o behaviorismo deu origem a uma abordagem aplicada com o intuito de se obter um determinado comportamento previamente escolhido. o que o protegeria de decretar. como elogios. notas. mas. E antes que você. talvez mesmo sem o saber. prezado leitor. dada a complexidade do ser humano. o ensino consiste em um arranjo e um planejamento de condições externas que levam os estudantes a aprender. Um exemplo do que vem sendo chamado de “sociedade de controle” está descrito na obra de ficção Walden II (SKINNER. resta saber como o governante do local faria para evitar os riscos inerentes à tentativa de tornar o mundo à sua imagem e semelhança. Para tal fim.Linguagem e Pensamento Como o behaviorismo é traduzido na educação? Na educação. Ressalte-se que essa maneira de conceber o ser humano como se fosse totalmente passível de ser controlado pelos estímulos recebidos do meio impeliu o autor a chegar ao absurdo de conceber uma comunidade utópica ― criada e desenvolvida de acordo com os princípios behavioristas ― em que. 1977). costuma-se dar muita ênfase à utilização de condicionantes e reforçadores arbitrários. Skinner imaginou uma cultura que poderia ser inteiramente controlada por meio de um dispositivo extremamente simples: a recompensa automática dos bons e a eliminação automática dos maus. prêmios. sendo de responsabilidade do professor unicamente assegurar a aquisição do comportamento. O pesadelo dos pesadelos: uma sociedade humana sem pensamentos É visando encontrar um caminho alternativo para introduzir as complexas e estreitas relações entre linguagem e pensamento que vamos recorrer a uma 10 Livro 1. graus. pense que estamos nos desviando aqui de nosso assunto principal para discutir política. com repetições sistemáticas do tipo estímuloresposta automáticas.indb 10 26/08/2008 14:06:10 . uma vez que todos os seus atos seriam geridos por terceiros. Para quem acredita nesta orientação teórica. reconhecimento do mestre e dos colegas etc. o homem estaria livre do desconforto de ser possuidor da faculdade do pensamento. Uma olhada mais ingênua naquela sociedade poderia até nos levar a concluir que a eliminação dos maus poderia ser uma boa idéia. é importante ressaltar que o assunto que se segue só nos interessa à medida que nos oferece uma interessante abertura para refletir sobre a linguagem humana e suas relações com o pensamento.

esse órgão onipotente e onipresente exercia feroz vigilância sobre os modos de pensar de cada cidadão. como seria possível controlar o pensamento humano? Com relação a essa questão. Sabe-se que essa novela foi inspirada na opressão dos regimes totalitários das décadas de 1930 e 1940. todos os dias. sob o pseudônimo de George Orwell (2004): o livro 1984. juntamente com outros colegas. dito popular que aponta para uma relativa impossibilidade de mandar nos modos de pensar de alguém. já que seu controle total se dava. uma vez que as pessoas não pudessem concretamente se referir a algo. incluindo o pensamento. do desencorajamento às atividades solitárias. em certa medida. a partir dessa impressionante metáfora. é verdade que “cada cabeça é uma sentença”. o autor cria uma imagem de cientista de aluguel. justamente.indb 11 26/08/2008 14:06:10 . Por sua vez. como. Ao contrário. No fictício ano de 1984. surgem palavras novas na mídia. saboreemos ao menos um fragmento entrecortado da fala do lingüista. a obra de Orwell nos oferece um importante subsídio para reflexão. O pensamento de um homem é independente do tempo no qual ele vive? Antes de prosseguir com a recuperação de alguns fragmentos do texto de Orwell. nomeado como crimidéia. A idéia que guiava os “intelectuais” do partido era a de que. criado por Orwell. uma interessante questão se coloca para nós. trata-se de um idioma fictício desenvolvido não pela criação de novas palavras. aquele algo passaria a não existir. o ficcionista nos mostra que. compreender que o pensamento humano não é um processo isolado e independente das contingências histórico-culturais e sim intimamente ligado a elas. Antes de prosseguir. o principal instrumento de controle e de manipulação do homem era a alteração artificial de sua linguagem. mas pela condensação e a remoção delas. escrita por Eric Arthur Blair. a obra-prima conta a história de Winston Smith. na sociedade de controle que ele vinha denunciando. trata-se de uma metáfora atualíssima que nos alerta contra os perigos da pasteurização da sociedade pela redução do indivíduo em peça para servir ao Estado ou ao mercado por meio do controle total. Narrado em terceira pessoa. exerce a função de reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. um tipo de jornalista ou historiador que. pelas diversas técnicas utilizadas para abolir o livre pensar. em um diálogo com o personagem principal. funcionário do Ministério da Verdade. em certa medida. Para nos mostrar isso. mas não se resume a uma crítica contra o stalinismo e o nazismo. publicada pela primeira vez em 1949. No contexto da novela. Se. determinam-no. Neste ponto. uma espécie de lingüista contratado pelo onipotente Partido Ingsok para. inventar uma língua artificial para substituir a natural: a novilíngua.A liguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento brilhante obra de ficção. é importante frisar que não é a narrativa em si aquilo que nos interessa. que. que se interessou por conhecer maiores detalhes sobre o seu trabalho: 11 Livro 1. para além da vigia concreta da população pelo meio das câmaras de vídeo e dos microfones ocultos. já que é bastante difícil remeter-se a um objeto cujo nome ignoramos. da tortura física e da pura e simples eliminação dos membros dissonantes. mas a possibilidade de. aparenta ser o caso dos tempos contemporâneos nos quais.

Ortodoxia quer dizer não pensar. menos e menos palavras. pre cursores e problemáticas to talmente diferentes. Afinal de contas.. quanto a sua fundamentação. o maior desperdício é nos verbos e adjetivos.] Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim... completamente anestesiados pela ordem dominante. Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples. uma vez que.. em concepções teóricas opostas. ajudar o indivíduo a interromper comportamentos qualificados como alterados e a substituí-los por comportamentos que o terapeuta julga serem mais saudáveis. se for abolido o conceito de liberdade? Todo mecanismo do pensamento será diferente. interesse este que o leva a abstrair a “mente”. para um cognitivista “histórico” o que interessa são os processamentos.2 As TCC visam a incidir sobre o modo como o homem se comporta alterando-lhe os aspectos cognitivos. pois elas contêm uma idéia que nos é bastante cara: a de que.] É lindo destruir palavras. mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. podemos claramente perceber que a tese de Orwell é a de que. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. pelo menos quanto à psicolo gia cognitiva. Os praticantes das diversas modalidades desta terapia tomam um determinado homem e. o cognitivo e o comportamental se inscreviam. um governo totalitário seria capaz de impedir que idéias indesejáveis viessem a ocorrer aos cidadãos. Como será possível dizer “liberdade é escravidão”. em sua origem. e a gama de consciência sempre uma pausa menor. 2004. Ortodoxia é inconsciência. Não deixa de ser curioso notar que. tradições. identificam o que julgam ser as formas distorcidas e não realistas de pensar para.. não estaremos longe disso. todos os dias.. Na atualidade. e cada significado subsidiário eliminado. Estamos longe da ficção na sociedade contemporânea? Lendo o excerto acima. sob a luz da psicologia cognitivista. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050.] Até a literatura do Partido mudará. Não apenas os sinônimos. tendo origens. compreendê-los adquire uma urgência ímpar. Já na Décima Primeira Edição. às centenas.] Não percebes a beleza que é destruir palavras. são especialmente preciosas as três últimas linhas do excerto que você acabou de ler. [. Naturalmente. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra.. [. Se para um comportamentalista “histórico” o que interessa são os inputs (entradas) e os outputs (saídas). 2 12 Livro 1. por meio do controle sobre a linguagem. um empobrecimento teórico brutal.Linguagem e Pensamento Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar palavras. não haverá pensamento. Nada disso! Estamos é destruindo palavras. Por esse motivo. não precisar pensar. [.. como hoje o entendemos. nos últimos 15 anos. em primeiro lugar. esquecido. Com efeito. tanto na medicina quanto na educação. 54-55. Funcionando com a premissa da existência de um parâmetro “adequado” para nortear o comportamento do humano. p. os antônimos também. Mudarão as palavras de ordem. nos dias de hoje. Sabes que a Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano? [. disseminaram-se e consolidaram-se. restaria aos cidadãos apenas um simulacro de “pensamento”. revisitam os estudos comportamentalistas emprestando-lhes uma roupagem atual e dando-lhes um caráter de prática “cientificamente comprovada”. o modo de funcionar da “mente” em si. (ORWELL.. tornaremos a crimidéia literalmente impossível. se. grifos do autor).indb 12 26/08/2008 14:06:10 . porque não haverá palavras para expressá-la. às dezenas.. o pensamento humano é fruto dos efeitos da linguagem sobre um sujeito. Para nós. Ou seja: a aliança entre as duas correntes implicou. depois. Cada ano. as teses behavioristas ganharam nova releitura: as terapias cognitivo-comportamentais (TCC) que. desejamos viver em um mundo diferente do horror retratado por Orwell. que justificativa existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário da outra? Cada palavra contém em si o contrário. em sua dimensão crítica e criativa. de sentido rigidamente definido. As TCC consistem em técnicas que. as TCC se propõem a livrar os cidadãos das dificuldades inerentes ao ato de decidir de acordo com o seu próprio desejo. efeitos estes que o engendram.

no fim de abril de 2005.google. é próprio do humano: sua singularidade. antes de tudo. inclusive. padronizar as condutas e cientificizar a avaliação dos resultados. Com o advir do século XXI. Uma breve leitura de seus conteúdos mostra que é vasto o menu de distúrbios que. nas universidades e. Concluindo.indb 13 26/08/2008 14:06:10 . nesse movimento de resistência contra o ressurgimento desse fantasma que. Na contramão dessa tendência. é importante ressaltar que nossa reflexão sobre pensamento e linguagem se inscreve. há em jogo um sério problema ético cujos resultados são dramáticos: a exclusão do sujeito da sua cultura. Estes pensadores têm em comum a idéia de que. Uma pesquisa utilizando uma ferramenta de busca na internet ― no caso. isto é. “livram” a população do livre-arbítrio. do ministro francês Blazy e. somos contrários a qualquer abordagem que pregue a redução do homem a um autômato privado daquilo que. o que mais nos interessa. mais se acaba por causar o aumento de fenômenos “bizarros” na cultura. não levando em conta as intrincadas relações entre linguagem e pensamento. do que queremos nos afastar completamente. embora adotando diversas perspectivas para refletir sobre as relações entre linguagem e pensamento. portanto. recentemente.A liguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento Para tal fim. 650 páginas que as veiculam no país. respeitando profunda e amorosamente os modos de pensar e de 3 Seguindo o padrão mundial. recebeu adesão de muitos intelectuais brasileiros. queremos convidar você a somar esforços para a construção de um modo de refletir sobre a linguagem e o pensamento humano que. na tentativa de dominar o pensamento. no momento mesmo em que esta conduta ganhava hegemonia. na educação básica. paulatinamente. não concordam com a existência de quaisquer técnicas ou abordagens que levem alguém a uma coerção mental. com. 13 Livro 1. Estamos nos deixando controlar passivamente? Não é de se estranhar que. disseminando-se entre os clínicos franceses) que.br ― mostra que havia. quanto mais se tenta domesticar o real. segundo seus responsáveis. reduzindo o ser humano ao estatuto de um cérebro reprogramável. o Google. iniciou-se na França um grande movimento de denúncia contra as TCC (tendo adesão. é importante frisar que. de maneira maciça e extravagante. nas revistas científicas.3 Antes que o leitor se deixe contaminar por um certo tom cinzento presente nessa denúncia do que vem ocorrendo na sociedade contemporânea no que tange ao controle do pensamento. por definição. na terapia oferecida na rede pública e nos consultórios privados e. os crimes sem motivo. provavelmente você notou que. na formação médica e psicológica. seu jeito próprio de pensar e de relacionar-se com a linguagem. julgávamos esquecido: a sociedade de controle. há algum tempo. Por esse motivo. queremos frisar agora que. os idealizadores das TCC acabam por incidir em uma tentativa de controle do pensamento. ensinam àqueles que tratam “o modo correto” de pensar e de agir. Por acaso. esse modo de agir faz você lembrar do Partido do livro de Orwell? Se estivermos nos entendendo. nos hospitais. atualmente. posteriormente. podem ser eficaz e comprovadamente superados por meio das TCC. Por esse motivo. como a violência gratuita. é importante salientar que não estamos assistindo passivamente aos acontecimentos. a conduta profissional inspirada nas TCC consiste em um fenômeno mundial que se expressa. no Brasil a presença das TCC é uma realidade incontestável. Trata-se de um grupo de pessoas que. cujo acesso se faz no endereço http://www. o fracasso escolar generalizado etc.

que pensei inicialmente andasse à procura desse prazer em falar comigo.indb 14 26/08/2008 14:06:11 . mas estava certo de que não me movia qualquer prazer na chamada. Esses informatas são de matar. Os economistas pegaram a palavra apoio e a substituíram por suporte. quando ouvi um avião de traficante dizer numa entrevista que seu chefe mandara “deletar o cara”. Ultimamente. que eu tenho lá em casa para não deixar a estante cair. aeromoças. Desliguei. sem a menor preocupação com a existência de uma palavra apropriada na língua-mãe.Linguagem e Pensamento aprender de cada um de nossos alunos. Não entendeu nada. Onde é que estão padronizando esse linguajar? Por que substituíram o “quem quer falar”. Liguei. parentes foi substituída por familiares. 1999) Há um novo linguajar na praça. não tenho dúvida. o possível prazer só pode ser dele. responsabilizarem-se solidariamente pelos rumos da humanidade. A moça atendeu e tascou: “Quem gostaria?” Tive um momento de indecisão. pôr virou colocar (exceto para o sol que se põe e para as galinhas poedeiras. aliás foi trocada por inclusive. Já havia me acostumado ao verbo deletar. os fonemas são da boa língua portuguesa. Eu já estava até suportando essa palavra quando li num texto que me enviaram para revisão: “as ações serão suportadas”. ou “da parte de quem devo anunciar”? Já fomos mais bem educados e bem mais simples. porque soa como português. estamos nos transformando em autômatos repetidores de chavões decorados. Até bem pouco tempo. enfim. já que o uso dos dedos é muito óbvio no caso do computador – e ainda assim dia desses 14 Livro 1. Que seria? Ele não estava sendo encontrado no seu posto de trabalho? Quem inventou essa fórmula confusa para substituir outra muito mais simples (“Ele não está”)? Não faz muito tempo. Morrer tornou-se falecer. Não era bem isso. palavra de boa origem latina. Ora. Mexo no computador cheio de dedos – melhor dizer “pisando em ovos”. recepcionistas. Todas foram mudanças impróprias. A secretária me disse o seguinte: “Ele não se encontra. A novilíngua (GUERRANTE. possa ajudá-los não só a se inserirem na nossa cultura mas também a ousarem pensar criativamente e. economistas.” Entendi o que ela falou. um português que pede tradução a cada palavra. Cada vez entendo menos telefonistas. respondi. Mas estão aí. Trouxeram diretamente do inglês. naturalmente”. jornalistas. um dialeto incompreensível. e eu não o conheço. Não dá! De algum tempo para cá venho notando uma substituição eufemística de algumas palavras por outras supostamente mais sofisticadas. mas importada pelos informatas. “Ele. se o cidadão pediu que eu ligasse. definir ocupou o lugar de decidir. muitas vezes mal traduzido. e não conseguia se achar. recebi um recado grosseiro para ligar para um cidadão que desconheço. que me obriga a refletir cada vez que ouço como se estivessem falando comigo numa língua estrangeira qualquer. impulsionadas pela mídia. Ele estava se procurando. ter virou possuir. Dia desses liguei para um amigo meu. É bem parecido com o português que aprendi. Ele. mas. vender foi vencida por comercializar. não voltou a ligar. Ela ficou muda. ao inovarem. talvez filho da globalização. o verbo deles era apagar. felizmente). estou me isolando no meio de um palavreado confuso.

revistas masculinas. de Dante Milano (1994. luzes. jornais variados. revistas femininas. parece que veio para ficar. apitos. culinária etc. essa novilíngua. sinais. Logo eu. acima de tudo.indb 15 26/08/2008 14:06:11 . Operação ilegal? Me senti o próprio traficante. elencar as idéias recorrentes na análise de todos os grupos. hoje. a publicidade é um fator determinante na construção do pensamento da população brasileira? Leia.). O mundo não é mais a paisagem antiga. organizar um quadro demonstrativo dos resultados da pesquisa. mastros. A paisagem sagrada. 15 Livro 1. a seguir. Estudando a mídia brasileira Preparação 1. Exposição oral dos resultados do levantamento por cada um dos grupos. fios. 89). Se possível. Dado esse levantamento inicial. Torres. anotando não só os produtos que se procura vender mas também. um arremedo do admirável mundo novo. pontes. Em plenária. surfe. edifícios a pique. p. Cidades vertiginosas. Desenvolvimento Fazer um levantamento das propagandas presentes em cada um dos veículos. mandando deletar pessoas. um fragmento do belíssimo poema Salmo perdido. revistas para adolescentes. que nunca fui parar sequer no cadastro negativo do Clube de Diretores Lojistas. Dividir a turma em seis grupos. 2. os valores agregados à venda desses produtos. Cada grupo ficará responsável por conseguir exemplares variados e atualizados (de preferência da mesma semana) dos seguintes tipos de publicação: revistas para crianças.A liguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento surgiu na tela uma enorme advertência: “Você executou uma operação ilegal e o programa será desligado. Ah. revistas para público interessado em temas específicos (trabalhos manuais. debater a seguinte questão: em que medida.” Tremi nas bases.

13. Aldous. 1957. Antes da obra 1984. SKINNER. 2005. ORWELL. Chico.navedapalavra. Romildo. BUARQUE. ed. Porto Alegre: Editora Globo.htm. publicado em 1932. Deus não nos reconhece mais. MILANO.indb 16 26/08/2008 14:06:11 . sobre os modos de pensar dos cidadãos. n. _____. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1989. Acesso em: 27 ago. A novilíngua. Walden II: uma sociedade do futuro. tendem a ser usados para que estes sequer tenham condições de perceber a seriedade de sua situação. 1981. tomamos conhecimento dos estragos do totalitarismo sobre a cultura e. Romance inglês. Rubem Queiroz. seguindo as aventuras e desventuras do pobre Bernard Marx. 2005. Huxley conta uma história na qual. Poesias. COBRA. 1994. já denunciava alguns dos efeitos da utilização de técnicas de inspiração behaviorista na educação das novas gerações. de quando em vez. em especial no que tange ao tratamento desumano que. Fazenda modelo: novela pecuária. Dante. Burrhus Skinner. ordinariamente. 2004. GUERRANTE.pages. 15 out. Admirável mundo novo. Porto Alegre: Editora Globo. Aldous.br/cronicas/novilingua. 1984. BUARQUE. De forma instigante e extremamente cativante. Verbal Learning. A partir desta leitura. 29. quando utilizadas como coadjuvantes da manutenção do poder dos governos totalitários. Nova Iorque : Appleton-Century-Crofts. 1981. Disponível em: http:// www. 1999. vamos refletir sobre uma questão que se enquadra naquelas que vêm sendo classificadas como “paradoxo Tostines”: foi o progresso do mundo que levou a uma alteração do pensamento humano ou a alteração do pensamento humano que o levou a uma percepção diferente do mundo? HUXLEY. 1977. HUXLEY.cobra. os montes. São Paulo: EPU. Fazenda modelo: novela pecuária. Por meio de uma alegoria.br/ecpskinner. 16 Livro 1. 1989. Petrópolis: Firmo.com. conseqüentemente.htm. Admirável mundo novo. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Acesso em: 27 ago.nom. em especial. Chico Buarque busca nos levar a uma séria reflexão sobre a realidade brasileira. Chico. as nuvens não nos reconhecem mais.Linguagem e Pensamento Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais. As aves. Nave da Palavra. Burrhus Frederic. é reservado para as classes populares e aos meios que. a criação de uma novela na qual os personagens principais são bovinos falantes e pensantes. George. Disponível em: http://www.

os objetivos do presente capítulo são fazer uma comparação inicial entre os modos de organização social dos homens e dos animais. Ao definir o padrão do desenvolvimento humano. conceberam-se modelos teóricos para explicar como nos tornamos adultos. com ou sem gás etc. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. Mãos à obra! Os animais não se organizam do mesmo modo Se você tem um animal de estimação que passa muito tempo em companhia dos humanos. ao crescer um irmão se torna diferente do outro com relação aos hábitos. essa questão tem despertado o interesse de vários estudiosos. obrigados a esperar sua reação frente ao que lhe oferecemos para. desconfiado do fato de que. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. Psicanalista. com certeza concordará com a seguinte afirmação: não é possível prever como um ser humano vai se desenvolver. mesmo se tratando de filhos de um casal que. a posteriori. crenças. é proveniente de família com vários irmãos ou teve a oportunidade de conviver de perto com diferentes crianças por um tempo prolongado.indb 17 26/08/2008 14:06:11 . Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. Livro 1. Doutora em Lingüística pela Unicamp. portanto. A experiência nos mostra todos os dias que. Particularmente quando os criamos. Assim sendo. supostamente. problematizar as pretensas relações “transparentes” entre linguagem e pensamento. talvez. seria impossível descobrir se ele prefere mineral. temos esta impressão de que a coisa funciona quase como se pudéssemos entender o que eles “pensam” e “desejam”.O imprevisível animal humano Claudia Rosa Riolfi S e você é pai ou mãe de vários filhos. em outro momento. Esta aparente “compreensão” dos modos de pensar de nossos animais se dá porque sua gama de necessidades é bastante limitada se comparada às nossas. dizendo de outro modo. ofereceu a mesma criação para todas as crianças. Somos. por exemplo. a questão das relações entre pensamento e linguagem possam ser mais bem colocadas. Qualquer um sabe dizer quando um cachorrinho precisa de água. Você já parou para pensar por que isso acontece? Ao longo do tempo. deu-se para essa questão diferentes tipos de resposta. vamos conhecer resumidamente alguns desses modelos para que. modos de levar a vida e assim por diante. as diferenças entre nós e eles não sejam assim tão grandes como pensamos que sejam. ou. venhamos e convenhamos. e expor alguns modelos diferentes que explicam como o ser humano chega a tornar-se aquilo que ele é. poder afirmar se era aquilo que ele “queria” ou não. deve estar. no mínimo. Neste capítulo. mas. importada.

Não podem “comunicar-se” para além do registro limitado de suas necessidades básicas. 18 Livro 1. com as crianças. Podem utilizar a linguagem não apenas para comunicar suas necessidades imediatas mas também para criar. uma vez que se acha mergulhado no “mundo real” e premido por suas necessidades instintuais. a coisa é muito diferente. alterar a própria realidade etc. Estudando o Quadro 1. pelo contrário. Quadro 1: Modos de organização social dos humanos e dos demais animais que conseguem viver em grupo Os animais Os seres humanos São regidos por seus instintos. alterá-lo.indb 18 26/08/2008 14:06:12 . sem levar em conta sua inserção cultural e sua relação com a linguagem. aquilo que compreendemos serem as nossas necessidades básicas não é plenamente dominado pelo bom senso da sobrevivência da espécie. consigo. emocionar. não conseguindo estão inseridos e. a linguagem como um campo no qual é possível planejar e projetar o futuro. mas. de uma demanda que vem repleta de especificações. Têm seus modos de evolução grandemente variáveis. Podem encontrar seu “lugar social” Têm uma organização grupal bastante dentro da organização grupal na qual rígida e limitada. mas. somos imprevisíveis. é pensar que não passamos de animais que sabem se vestir de modo um pouco mais enfeitado. São muitíssimo previsíveis no que tange aos seus padrões de evolução. muito freqüentemente. enquanto um animal é bastante previsível. que venha com cinco roupas para trocar e não pode ser igual àquela que você me deu no ano passado!”. grandemente determinado pela discursividade de nosso tempo. se assim o desejarem. inovar em sua “vida social”. Não podem planejar o futuro.Linguagem e Pensamento Quem tem contato com filhos ou sobrinhos sabe que. Sofrem fortíssima influência da cultura na qual estão inseridos. Utilizam. Não conseguem transmitir a Acolhem e educam os novatos. não se trata de um presente qualquer. Como somos seres de linguagem. experiência por meio das gerações: introduzindo-os na cultura e no saber o que um animal “aprende” morre acumulado pelos seus antepassados. é importante compreender que refletir sobre o pensamento humano. mas “Eu quero uma boneca Polly. Quando uma delas decide nos pedir um presente. humanos. com o cabelo loiro. E ai de você se não achar o modelo exato! Em suma. Não nos dizem simplesmente “Eu quero um brinquedo!”. por meio desses exemplos iniciais. nós. estamos tentando mostrar que.

Mas não há qualquer problema nisso. Passemos então a esse tópico. suas mães ignoram esse fato e tratam suas produções rudimentares. compreender que.indb 19 26/08/2008 14:06:12 . na sua imensa sabedoria. essa fala. dando mostras de estar adorando a homenagem que estava recebendo. por meio de alguns indícios (pequenos ruídos. em sua juventude. A informação que se segue fica entre nós para que não corramos o risco de levar uma mamãe a parar de fazer o que é tão importante que elas façam: eles não entendem nada! Somos nós. Isso significa que. atento e silencioso ao seu lado. falando com fornecedores responsáveis pelo aluguel do salão. e ele tem conseqüências. Um longo tempo se passa até que possamos declarar que o filhote do humano está de posse de um sistema lingüístico constituído à moda dos adultos. essa amiga estava ao telefone. essas mamães podem entrever no jovem humano uma inteligência igual à sua.O imprevisível animal humano Nós que nos preocupamos com a educação e com a formação das novas gerações precisamos ir um pouco além disso. O problema se coloca quando nós. que. e seu filho único. os adultos. Seu filho. permanecia sentado muito quieto. De repente. gestos e olhares). para poder nos aproximar do padrão de pensamento de nossos alunos. interpretamos o que os nossos filhos “dizem” como se fosse linguagem. esquecemo-nos desse processo inicial e sequer levamos em consideração que. pelos convites etc.. Onde quer que olhemos mais de perto. embora ele ainda não tenha tido tempo de vida para se traduzir por meio de palavras articuladas. tem de ser lida como sendo uma produção que está sendo efetuada por um sujeito para quem o sistema lingüístico ainda está em constituição.. o menino se levantou e disse: “Mãe. Supomos quais sejam essas palavras e nos dirigimos aos nossos filhos muito jovens como se eles pudessem entender o que estamos falando.1 Trabalhando nos preparativos para a festa de aniversário de seu filho. Precisamos. vamos narrar uma pequena historieta verídica. Felizmente para os bebês. Embora ele “fale” aproximadamente desde os 13 meses. frágeis e imperfeitas como se fossem análogas àquelas que saem de nossas bocas. A seguir. 19 Livro 1. os educadores. assim como o faz o bebê pequeno. prestes a comemorar o seu quinto aniversário. na ocasião. embora pareça o contrário. ocorrida com uma amiga. para ser analisada convenientemente. há equívoco. que é fonoaudióloga. entretanto. as relações entre nós não são nem tão homogêneas nem tão estáveis como parecem. muitos de nossos alunos também não entendem o que estamos falando. É conversando que a gente não se entende. como já adiantamos. Não sou mais seu amigo. como conseqüência do fato de falarmos. eu não poderia imaginar que logo você ia fazer 1 Sinceros agradecimentos à Cláudia Alaminos por ter compartilhado esta saborosíssima história comigo e com meus alunos da Universidade de São Paulo. pois. também reagem à nossa fala. estou muito decepcionado com você. muito feliz e animado com os cuidadosos preparativos.

Combinando os detalhes da vinda de sua mãe para a festa. pudesse perceber. nosso jovem amigo. impondo sua presença no curso dos pensamentos de nossos alunos e fazendo com que. ele respondeu: “Mãe. trouxesse também a Má Licuia! Prosseguindo com nossa reflexão. sem saber o que dizer. mesmo assim. venha na sexta. desse modo entediando seu filho. mas elas estão por aí. ela. “trazer a mala e cuia” ― interpretoua como pôde. você talvez não ache tão engraçado passar a imaginar que. dado que a homofonia é um fato concreto. conversa vem. Modos diferentes para explicar como a gente se torna o que é É chegada a hora de esclarecer que a discussão que estamos desenvolvendo ao longo deste capítulo só tem sentido a partir da óptica de um referencial teórico que leve em conta a imprevisibilidade do animal humano. já de mala e cuia. que desejava tê-la em casa durante todo o final de semana. eles pensem de modos que sequer podemos imaginar. 20 Livro 1. É compreendendo que não é possível fazer uma correspondência imediata entre o homem e modelos preestabelecidos de desenvolvimento que podemos nos responsabilizar pelo ato educativo e nos posicionar de modo mais eficaz em nossas salas de aula.Linguagem e Pensamento uma maldade dessa comigo!” Muito surpresa. em seu último telefonema. perguntando que maldade ela havia feito para perder sua amizade. entendendo que sua mãe havia pedido a sua avó que. ao ouvir uma expressão idiomática que ignorava — no caso. conversa vai. nós combinamos que só convidaríamos gente legal para a minha festa e você me trai e convida a Má Licuia. dirigido a sua própria mãe.” Como nossas palavras são escorregadias. a mãe permaneceu perplexa por alguns momentos. de modo muito sucinto. foi conversar com o filho. Você já imaginou quantas “Licuias” moram na cabeça de nossos jovens alunos? Mais calma. todos os dias centenas de Licuias nasçam em nossas salas de aula sem que sequer sejamos comunicadas ou comunicados de seu aparecimento no mundo. Muito sério. isso não seria uma maldade. o leitor encontrará. Nós as desconhecemos.” Não tendo qualquer pessoa na sua lista de convidados que se chamasse Licuia. ao vir para a sua festa. Mas. até que. até pelo seu treinamento como fonoaudióloga. No Quadro 2. Ela se interrogava o que teria ofendido tanto o seu filho? Sua única hipótese era a de que. uma sinopse de três grandes vertentes da análise do desenvolvimento humano. que esse exótico personagem havia nascido durante a conversa com a avó do garoto. a mamãe estava cada vez mais confusa. havia dito “Mamãe. entretanto. ela tivesse se alongado um pouco demais.indb 20 26/08/2008 14:06:12 . ao contrário do que costumeiramente esperamos.

indb 21 26/08/2008 14:06:12 . Pelo contrário. não tem o curso de seu pensamento completamente determinado pelas leis que nos são impostas pela biologia de nossa espécie. Não podemos ser reduzidos a este nível da existência de um contato pleno. a partir disso.O imprevisível animal humano Quadro 2: Três possibilidades de modos de análise do desenvolvimento humano Grande modelo Comportamentalista Teleológico Rizomático Crença predominante Existe influência onipotente dos estímulos do meio sobre o humano. fornecer-lhe um amplo leque de experiências culturais para que ele possa fazer seu próprio percurso. Ficar atento às manifestações da criança. construímos nosso padrão de pensamento. temos nosso encontro com a realidade de maneira parcelar e fragmentada e. em alguma medida. independente do meio. Embora de forma muito esquemática. Existe um padrão de desenvolvimento biológico que segue seu próprio curso. e correndo o risco de algum reducionismo simplificador. o quadro acima nos mostra que. de modo a proporcionar um aprendizado feito de “modo correto”. conseqüentemente. Papel do adulto que deseja exercer uma influência do tipo educativo Controlar rigidamente os estímulos fornecidos pelo meio para a criança. na contemporaneidade. de modo a perceber se ela está se desenvolvendo de “modo correto”. ao contrário de outros animais. 21 Livro 1. nem nos padrões de comportamento nem na história de vida de cada um de nossos alunos. Não existe unicidade. entre o corpo e o mundo. caminhamos cada vez mais para a compreensão de que um ser humano. Respeitar a singularidade de cada sujeito e. não mediado.

92-93). foi um genial escritor americano que se tornou conhecido em todo o mundo. uma vez que questiona a crença na existência. ficou conhecido como “modelo rizomático”. Do ponto de vista dos autores. intacta. que vamos concluir este capítulo. que constituíram uma fonte de inspiração direta para a renovação literária européia no final do século XIX. o sujeito. vamos. Trata-se de uma obra muito importante para o aprofundamento do assunto que estamos aqui tratando. em que se postula um sujeito capaz de conectar-se com as multiplicidades. O professor-detetive ou. tematizando o papel central que a pesquisa sobre os padrões de pensamento de cada um de nossos alunos tem para nossa prática docente. p. tendo sido concluída dois anos depois. Para concluir esta parte de nosso estudo. de uma tendência natural para uma verdade única. total. convido o leitor para refletir sobre um fragmento do importantíssimo trabalho em que Milton Santos (2002) versa sobre a precariedade da percepção que podemos ter sobre as coisas. parcelares. trazer como exemplo a literatura de mistério. Devido ao fato de que o principal interessado neste mecanismo. Em particular. 2002. Pelo contrário. não devemos pensar que nossos alunos são completamente previsíveis. interessa-nos de perto a introdução do primeiro volume (Introdução: rizoma).Linguagem e Pensamento Gilles Deleuze e Félix Guattari são os precursores de um modo de pensar que. Edgar Allan Poe (1809-1849). de maneira não linear. por levar em conta as diversas ramificações de uma dada realidade. se assim podemos dizer. ou seja. será bastante saudável ter em mente a necessidade de “realizar um trabalho de detetive” para elucidar o modo pelo qual cada um aprende.indb 22 26/08/2008 14:06:12 . Este é o resultado da apreensão da realidade contida em um objeto. é ao mesmo tempo um ser objetivo e um microcosmo. compreendemos que. cuja edição brasileira iniciou-se em 1995. cujo precursor básico é Edgar Allan Poe. É com essa lição de humildade sobre o quanto podemos compreender de nossa realidade nos bolsos. Sua obra mais conhecida denomina-se Mil platôs. o bom professor Se entendermos que o pensamento humano está longe de se desenvolver de forma linear. no pensamento humano. para sermos eficazes em nosso ato pedagógico. desta vez. As abordagens fundamentadas na percepção individual têm seu ponto de partida no processo do conhecimento. a escrita rizomática realiza um mapeamento e uma experimentação no real que contribui para a abertura máxima das multiplicidades sobre um plano de consistência. freqüentemente deformantes. Tendo escrito várias histórias que têm como personagem 22 Livro 1. sobretudo por seus contos de mistério e terror. simplesmente. A coisa permanece una. (SANTOS. Para ilustrar que tipo de trabalho estamos nomeando por meio da metáfora do detetive. o encontro entre objetividade da coisa (ou a coisa objetificada) e a subjetividade de seu decifrador permite uma variedade de percepções. mas as modalidades de sua percepção são diversas.

Subitamente.? ― Aqui detive-me para certificar-me. com precaução. e sem reparar a princípio (tão absorto que estivera em minha meditação) a maneira extraordinária pela qual as palavras de meu companheiro coincidiam com o objeto de minhas reflexões. tarefa que era facilitada por seu caráter extremamente observador. isto passa as raias da minha compreensão. relembrar um de seus personagens mais célebres: Auguste Dupin.. Materialista congruente. certa noite. justamente. não é menos verdade que investigar seus padrões de pensamento pode se tornar um aliado importantíssimo na tarefa pedagógica. Poe escreveu uma obra tão extensa quanto famosa. se ele realmente sabia em quem pensava eu. a pensar que o tamanho diminuto dele não se adequava à representação de tragédias? 23 Livro 1. Dupin pronunciou as seguintes palavras: ― A verdade é que ele é mesmo um sujeito muito pequeno e daria mais para o teatro de variedades. Como é possível que soubesse você que eu estava pensando em.em Chantilly? ― disse ele. sem sombra de dúvida. inconscientemente.. são imprevisíveis. Um instante depois dei-me conta do fato e meu espanto não teve limites. ― Por que parou? Não estava você. o magnífico francês conseguia descobrir os padrões de pensamento daqueles a quem se dedicava. 133-136) Passeávamos. e examinava atentamente os indícios materiais que cercavam a cena do crime.. Neste momento. sem dúvida. Alertando o leitor para não se esquecer do modus operandi do detetive. de acordo com métodos investigatórios. ― Não pode haver dúvida alguma a respeito ― respondi. podendo compreender melhor o curso de suas ações. 1974. por uma comprida e suja rua. ― Dupin ― disse eu com gravidade ―. p.. Se é verdade que os alunos. aparentemente ambos nós ocupados com os próprios pensamentos. ― . No entrecruzamento dessas duas vertentes. nas vizinhanças do Palais Royal. interessa-nos. inteligentíssimo nobre decaído que se dedica a desvendar crimes insolúveis como fonte de diversão e de estímulo intelectual. direcionava as investigações de maneira bastante objetiva. vamos terminar este texto convidando-o a encarnar um pouco o Dupin quando entra em sala de aula. como todo ser humano. Não hesito em dizer que estou maravilhado e mal posso dar crédito a meus sentidos. do qual era exímio conhecedor. por este motivo. Dupin não ficava trancado em sua mansão fantasiando como os crimes teriam ocorrido: ele trabalhava em uma dupla vertente: levava em conta o caráter particular de cada um dos suspeitos. em especial. Estando. Dupin enfatizava todos os pormenores relativos ao caso de seu interesse. analisando. todas as estranhas possibilidades de comportamento do gênero humano. buscando sistematizar qual modo de agir era ou não condizente com a linha de conduta em geral. não acreditava no misticismo e.O imprevisível animal humano principal o francês Auguste Dupin. Os crimes da rua Morgue (POE. havia já uns 15 minutos que nenhum de nós dizia uma só sílaba. digna de comentários.indb 23 26/08/2008 14:06:12 . acabou por fundar a moderna novela de detetive. Você conhece o famoso Dupin? Mestre do raciocínio lógico.

de fato. Ao cruzarmos na direção da avenida. se bem me lembro. Você manteve os olhos fixos no chão. para que você possa primeiro compreender tudo claramente.. até que alcançamos a pequena travessa Lamartine.. Não estava particularmente atento ao que você fazia. até o do encontrão com o tal fruteiro. mais surpreso do que desejava parecer. carregando na cabeça um grande cesto de maçãs. resmungou umas palavras.. Qual não foi pois o meu espanto quando ouvi o francês falar daquela maneira. não tive dúvida que você murmurava a palavra esterotomia. com grande cesto sobre a cabeça. Epicuro. para a avenida em que nos achávamos. qual foi o processo ― se é que há algum ― que o capacitou a sondar o íntimo da minha alma. tendo por isso merecido críticas violentas. Eu estava. Lembrei-me então de que. lançou você de encontro a um monte de pedras soltas. Não havia em Dupin uma partícula sequer de charlatanice. a estereotomia. quase me derrubara acidentalmente. desde o momento em que lhe falei. solidamente reajustados e fixos. Dinis que. Ali. voltou-se para olhar o monte de pedras e depois continuou a caminhar em silêncio. do mesmo nome. ― O fruteiro?! Você me assombra. Os elos mais importantes de cadeia são estes: Chantilly. os buracos e sulcos do pavimento (de modo que vi que você continuava pensando ainda nas pedras). pareceu aborrecido ou contrariado. Como não faz muito tempo que discutimos este assunto. quando havíamos passado na rua C. na tragédia de Crébillon. Mas o que tivesse ido que ver com Chantilly é que eu não podia compreender. a título de experiência. vamos primeiro retroceder. Foi o último assunto que discutimos.. sua fisionomia se iluminou e percebendo que seus lábios se moviam. torceu levemente o tornozelo. lembro-me de lhe haver mencionado quão singularmente. Órion. não poucas vezes. um fruteiro. uma espécie de necessidade. se atrevera a desempenhar o papel de Xerxes. embora muito pouco notado. Há bem poucas pessoas que não tenham. ― Diga-me. com tacos de madeira. Chantilly era um antigo sapateiroremendão da rua de S. Esta ocupação é. procurado divertir-se remontando os degraus pelos quais atingiram certas conclusões particulares de suas idéias. ― Foi o fruteiro ― respondeu meu amigo ― quem levou você à conclusão de que o remendador de solas não tinha bastante altura para o papel de Xerxes et id genus omne. mas é que a observação se tornou para mim. com expressão mal-humorada. ultimamente. fanático pelo teatro. justamente antes de deixar a rua C. sem vir a pensar em átomos e portanto nas teorias de Epicuro. Nichols..Linguagem e Pensamento Era esse precisamente o assunto de minhas reflexões. cheia de interesse e o que a experimenta pela primeira vez fica admirado diante da aparente distância ilimitada e da incoerência que há entre o ponto de partida e a chegada. pelo amor de Deus ― exclamei ―. em algum momento de sua vida. passando a toda pressa à nossa frente. as pedras da rua.. seguindo o curso de suas meditações. Continuou: ― Estávamos conversando a respeito de cavalos. o fruteiro.indb 24 26/08/2008 14:06:12 . Não conheço fruteiro de espécie alguma. e não pude deixar de reconhecer que ele havia falado a verdade. Dr. que foi calçada. quando entramos nesta rua há talvez 15 minutos. e vi que você não se conteve e erguesse os olhos para a grande nebulosa de Órion. coisa que eu esperava que você 24 Livro 1. ― O homem que lhe deu um encontrão. na verdade. ― Vou explicar ― disse ele ― e. um fruteiro. escorregou. as vagas conjecturas daquele nobre grego tinham tido confirmação. olhando. com a recente cosmogonia nebular.

Era. para cima e tinha então a certeza de haver acompanhado estritamente o fio de suas idéias.O imprevisível animal humano não deixaria de fazer. mas naquele momento você se endireitou. levando-o sempre consigo. Até então estivera você a caminhar meio curvado. pare e registre no seu bloco de anotações a) o que você estava fazendo quando tocou. que antigamente se escrevia Urion. por causa de certa mordacidade. Repita o processo até conseguir cerca de 20 anotações. a respeito do qual temos tantas vezes conversado. Pensou na imolação do pobre remendão. ficando bem espigado. estava eu certo de que você não poderia tê-la esquecido. como a que exemplificamos. fazendo algumas maldosas alusões à mudança de nome do remendão ao calçar coturnos. como. vão ser necessárias alguma coragem e bastante disciplina.indb 25 26/08/2008 14:06:13 . ligada a esta explicação. não importa o que você estiver fazendo. era ele um sujeito muito baixo. no quadro a seguir. como por exemplo aqueles disponíveis no celular. e. papel pardo comprado por metro). ontem. o tal Chantilly daria melhor para representar no teatro de variedades. citou um verso latino. o satirista. Neste ponto interrompi suas meditações para observar que. em tamanho pequeno. Refiro-me ao verso Perditit antiquum litera prima sonum. Que você as havia combinado vi pela espécie de sorriso que lhe pairou nos lábios. bem claro que você não deixaria de combinar as duas idéias de Órion e Chantilly. Em um papel bem grande (por exemplo. que. Você olhou. a toda altura. Naquela crítica ferina que apareceu a respeito de Chantilly. papel bem grande. um pequeno bloco de anotações que caiba no seu bolso ou bolsa. b) o que você estava pensando. no Museu. desenhe uma grande tabela. Passo a passo Parte I: preparação prévia antes da aula Coloque o seu alarme para tocar a cada hora. portanto. Para tal fim. de fato. A cada vez que o seu alarme tocar. segundo expliquei a você aludia a Órion. A proposta agora é você se tornar um pouco mais consciente dos seus padrões de pensamento. 25 Livro 1. papel normal para o relatório final. pois. além do material restante: algum tipo de alarme que você possa carregar sempre consigo. Certifiquei-me então que você estivera pensando na pequena estatura de Chantilly.

trata-se de um padrão linear e firmemente relacionado com a atividade concreta que estamos realizando ou.Linguagem e Pensamento Modalizações das relações entre as atividades (conscientes) e os pensamentos (inconscientes) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 Horário Atividade Frase que sintetiza o pensamento que foi interrompido pelo alarme Marque um x quando houver relação direta entre a atividade e o pensamento Estude o produto registrado em sua tabela buscando estabelecer em que medida há correlação direta entre o que você estava fazendo e o que estava pensando. a sala deve responder à seguinte pergunta: no que tange ao pensamento humano. nosso próprio pensamento nos escapa? 26 Livro 1. a todo momento. elegendo um relator. 20 Parte II: discussão em sala Formar grupos de cerca de cinco participantes. as quais serão sintetizadas no quadronegro por um relator geral previamente eleito pela classe. Prepare-se para expor suas conclusões de modo organizado para seu grupo de trabalho. Parte III: plenária Cada relator expõe as conclusões dos pequenos grupos. Discutir os exercícios feitos individualmente e organizar uma exposição sobre as conclusões do grupo. Com base em todos os dados recolhidos.indb 26 26/08/2008 14:06:13 .

ao contrário do que parece. Com um estilo claro e bastante didático. Os humores da língua: análises lingüísticas de piadas. In: LIMA. um hábito do mal.O imprevisível animal humano Aos 4 anos e 11 meses. podendo prestar-se como importante auxiliar na construção de uma relação menos autoritária entre adulto e criança. uma coisa negativa. acabar sendo solidária com o exercício da expressão verbal criativa e espirituosa. não é mais uma sorte. e sim. Você concorda com a criança? RIOLFI. Campinas: Mercado de Letras. Criação  (BARZOTTO. que a transcrevem seguindo sua instrução. o filho caçula desta autora afirma já ter decidido: quando crescer. Aqui vai uma das piadas analisadas por Sírio para animá-lo para a leitura: 27 Livro 1. começou a ditá-la. ainda por cima. Equívoco e singularidade: subjetividade na fala de uma criança. Sírio. inclusive. Como diz querer ter uma obra vasta. Não é mais uma fortuna. p. dar boas gargalhadas é o que o leitor conseguirá como lucro ao estudar o livro de Possenti. Se bem utilizada. aos seus pais. 1998. textos de piadas – para mostrar os dispositivos lingüísticos utilizados comumente para fazer rir. neste trabalho procuramos mostrar como a propriedade de a linguagem causar o equívoco nas trocas verbais não é. um hábito do mal. Analisando exemplos concretos de diálogos entre adultos e uma mesma criança em dois diferentes momentos de sua vida (aos dois e aos sete anos). Campinas: Mercado de Letras. Aprender muito sobre a linguagem e seu funcionamento e. POSSENTI.indb 27 26/08/2008 14:06:13 . pode.). e sim. o autor parte de exemplos de peças lingüísticas concretas – no caso. 2005. jogador de handebol e poeta. 219-233. quando se repete. Leitura: múltiplos olhares. Mesmo uma fortuna. vai ser biólogo. Claudia Rosa. 2005) Quando uma coisa se repete. desde já. Regina Célia de Carvalho Paschoal (Org. Leia abaixo o seu terceiro poema.

219-233. 133. 1998. 2002. Campinas: Mercado de Letras. SANTOS. Linguagem e desenvolvimento intelectual na criança. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. bem como no desvelamento dos modos pelos quais ela nos faz rir. Claudia Rosa. Porto Alegre: Artes Médicas. capitalismo e esquizofrenia.pdf>. Disponível em: <http:// www.  DELEUZE. Edgar Allan. Os humores da língua: análises lingüísticas de piadas.Linguagem e Pensamento ― Sabe o que o passarinho disse pra passarinha? ― Não. 1974.). Milton. In: LIMA. 2005. Regina Célia de Carvalho Paschoal (Org. POSSENTI. ― Qué danoninho? Gostou? Então leia o livro para entender porque a fonologia é um importante recurso na concepção desta piada. Mimeo. Equívoco e singularidade: subjetividade na fala de uma criança. Criação. Alexandre Romanovich. 1985. GUATTARI.br/pdf/mana/v4n2/2423. 28 Livro 1. Victor Iosifovich. São Paulo: Edusp. Gilles. In: _____. 2005. 2005.scielo. LURIA. Poesia e pensamentos. Domenico Riolfi.136. In: _____. RIOLFI. Campinas: Mercado de Letras.indb 28 26/08/2008 14:06:13 . 1997. POE. Ovídio. Por uma geografia nova. BARZOTTO. Félix. Contos. Sírio. YODOVICH. p. Acesso em: 08 set. Resenha: mil platôs. São Paulo: Editora Três. ABREU FILHO. Os crimes da rua Morgue. p. Rio de Janeiro: Editora 34. Leitura: múltiplos olhares.

convencer. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. acabou de cometer um desastre total no cabelo e perguntou entusiasmada: “não ficou lindo?” Numa situação dessas. Livro 1. mesmo quando uma pergunta embaraçosa é feita. Todo mundo já deve ter presenciado uma resposta do tipo “Por que não fui com sua cara!” quando um adulto imprudente perguntou a um molequinho “Por que você não me deu um beijo?” Que efeito tem sobre você um adulto que fala tudo o que pensa. se formos escrupulosos. se o seu superior hierárquico chega bravo. pensar rápido nos leva. Quando somos muito pequenos. doa a quem doer? Ou seja: quando somos crianças. confiamos em todo mundo e não calculamos que. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. saber utilizar as Psicanalista. costumamos responder tudo o que nos vem à cabeça.indb 29 26/08/2008 14:06:13 . você mudou bastante!” Ou seja. seduzir. justamente. Não pense você que nascemos sabendo nos utilizar desses dispositivos retóricos em nome da diplomacia. legitimamente. Quem tem dúvida sobre isso se lembre do que respondeu a última vez que sua chefe. ainda inocentes. Quando adultos. a encontrar uma forma polida de não contrariar a dama. Como éramos ingênuos! Desconhecíamos a ironia. Às vezes. aprendemos que a vida social tem muito mais matizes do que podíamos alcançar em nossa inexperiência. na nossa inocência. às vezes. precisamos. as convenções sociais – enfim. para dizer. a parcela de nossos pensamentos que conseguimos atingir. com quem você tem mantido relações delicadas. a ocultação deliberada de nossas idéias. perguntando “Por que você não começou a tarefa que eu lhe pedi ainda?”. utilizamos a linguagem primordialmente para nos comunicar. usamos as palavras para lisonjear. não podem ser chamadas de comunicação. Isso porque. em grande parte da vida da sociedade. um prejuízo a nossa imagem pode ter resultados catastróficos para o andamento da nossa vida. Doutora em Lingüística pela Unicamp. acalmar-nos e muitas outras funções que. com clareza. mais tarde. dizendo algo como “De fato. inclusive. Por exemplo. tudo aquilo que faz com que. sem exatamente mentir. virar determinada situação a nosso favor. a denegação. usemos uma língua justamente para ocultar o que estamos pensando.Concepção do homem como ser de linguagem Claudia Rosa Riolfi V ocê já parou para pensar em quantas pequenas mentiras inocentes estamos prontos a contar ao longo do dia em nome da manutenção de nossa boa convivência social? Estamos tão acostumados com esse tipo de procedimento que sequer chamamos essas pequenas omissões de mentira. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. parece-nos perfeitamente normal responder algo como “Hoje o dia foi muito corrido!” quando a resposta verdadeira seria: “Estou morta de preguiça!”.

indb 30 26/08/2008 14:06:13 . pois é de nosso interesse manter as informações que possuímos no mais absoluto sigilo.Linguagem e Pensamento palavras sem comunicar absolutamente nada. ou na argumentação ou na tentativa de manter nossa privacidade intocada. De onde partiu este modo de ver as coisas? A formalização de um modo de ver a linguagem como sendo parte da natureza específica do homem encontra-se nas idéias que o lingüista francês Émile Benveniste (1902-1976) pôde criar e registrar na passagem da década de 1960 para a de 1970. consistindo em uma faculdade específica do ser humano. Se não tivéssemos a linguagem. de concebê-lo como alguém que é feito por ela. ao contrário. esperamos que o leitor perceba que. Por um motivo ou por outro. Lendo esse fragmento que acabamos de citar. portanto. Por esse motivo. que uma coisa fique clara: é o exercício da linguagem. Admitir a idéia de que somos “seres de linguagem” exige abandonar a concepção de que a linguagem verbal é um instrumento de comunicação como outro qualquer. Tratase da idéia de que a linguagem é um sistema articulado que. pouco mais lhe resta de diferente dos animais. Trata-se de uma atividade exclusiva do homem. A linguagem humana é muito mais do que um instrumento de comunicação. mas. nosso direito a um espaço próprio cuja conquista deve se renovar todos os dias. humano e linguagem são feitos da mesma matéria. como. tirando-se a linguagem de um sujeito. organiza seu mundo e suas relações sociais e. Conseqüentemente. que tematizam o fato de que o uso de uma linguagem é uma capacidade meramente humana e foram publicados originalmente em 1952 e em 1958. por exemplo. dificilmente formaríamos famílias que se mantêm por um longo tempo ou realizaríamos sonhos de infância ou enterraríamos nossos mortos. que nos ajuda a perceber nossa identidade. uma vez que. ao constituí-la. p. a utilização dos sinais de fumaça entre os indígenas. dá um estilo peculiar aos seus modos de expressão em diversas instâncias. vamos nos limitar a dois de seus trabalhos. Para ele. Na impossibilidade de expor aqui toda a extensa obra desse autor. para esse autor. não é aqui o caso de pensar o homem como alguém que tem a linguagem. homem e linguagem formam uma unidade indecomponível. na luta intransigente contra os fofoqueiros. os intrometidos. fornece-lhe sua essência de ser de linguagem. que. não podendo ser separados um do outro. 286). “na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito” (BENVENISTE. o objetivo deste capítulo é convidá-lo para se aproximar do conceito de linguagem tal como é visto no interior dos estudos lingüísticos. 1958. Benveniste trabalhou duramente para convencer seus pares de que esse modo de ver as coisas consistia em um erro. A linguagem é o que dá o nosso contorno Da perspectiva que ora adotamos. as pessoas que gostam de se aproveitar dos outros e assim por diante. a linguagem é aquilo que transforma cada ser humano que vem ao mundo em humano. É. 30 Livro 1. a partir desta organização.

com certeza. encontrando. não é compartilhada com nenhum outro ser vivo. veremos que não há outro testemunho objetivo da identidade do sujeito que não seja o que ele dá assim. A abelha volta depois à sua colméia. Ao entrar em contato com alguns estudos que biólogos vinham fazendo para elucidar o comportamento das abelhas. ao inserirmos um jovem humano no sistema lingüístico e na produção linguageira.Concepção do homem como ser de linguagem O corajoso francês se afastou. aplicada ao mundo animal. da concepção de linguagem que estava em alta naquela época afirmando que. vê-se chegar ao mesmo lugar um grupo de abelhas entre as quais não se 31 Livro 1. viu aquela sua certeza vacilar e teve necessidade de se aprofundar mais nessa comparação. como podemos compreender os fenômenos de comunicação que. Neste ponto da reflexão. 1958. É um homem falando que encontramos no mundo. para ter uma identidade. Compreendendo que uma pessoa só pode se anunciar como Se bicho não fala. as idéias de Benveniste (1952) também são importantes o suficiente para que nela nos detenhamos com mais detalhes. de fornecer-lhe os dispositivos para se reconhecer como um eu. e a linguagem ensina a própria definição do homem. p. o experimentador cuida em marcá-la. De acordo com Benveniste. compreendendo-se como diferente de todos os demais de sua espécie. teve sua certeza abalada ao considerar que. Enquanto se alimenta. sujeito quando se refere a si próprio por meio da utilização da primeira pessoa do singular (eu). A linguagem tem nessa missão a dupla tarefa de fazer de um humano aquilo que ele é e. a noção de linguagem só tem crédito por um abuso de termos.” (BENVENISTE. é comum que ocorra ao leitor a seguinte dúvida: se não podemos chamar de linguagem aquilo que um animal faz. portanto. a saber: Uma abelha operária colhedora. 288). imediatamente se alimenta. Ou seja: poder referir-se a si próprio. Por um momento. como tudo parecia indicar. como é o caso do papagaio. que nossa cultura vem acumulando ao longo do tempo. eles não configuram um modo de expressão que tenha os caracteres e as funções da linguagem humana. estão lá presentes? Neste momento. 1988. p. para além disso. sendo efeito de linguagem. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do outro. não se pode criar uma ilusão segundo a qual ela estaria fora da natureza humana. é prerrogativa do homem.indb 31 26/08/2008 14:06:13 . Se quisermos refletir bem sobre isso. Assim discorre o estudioso: Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca inventando-a. as abelhas tinham um modo muito eficaz de se comunicarem entre si. durante o vôo uma solução açucarada por meio da qual cai numa armadilha. Alguns instantes mais tarde. ao se refletir sobre a linguagem. estamos fazendo com que esse pequeno animal se torne um homem. o autor faz uma importante afirmação sobre o que é que ele faz? fundamento da subjetividade: “É portanto verdade ao pé da letra que o fundamento da subjetividade está no exercício da língua. um homem falando com outro homem. por exemplo. Mesmo quando emitem ruídos. uma vez que. (BENVENISTE. 285). o Alguns traços da linguagem humana Benveniste sempre foi muito claro ao afirmar que. ele sobre si mesmo.

Sua mensagem não provoca qualquer tipo de resposta no ambiente. cada enunciado permite análise e rearranjo de suas partes com as de outros enunciados. Ou seja: as abelhas conseguem comunicar-se com seus pares transmitindo informações úteis para a sobrevivência da espécie. Descobrir isso sanou a dúvida de Benveniste. Vai muito além de um código de sinais. p. 32 Livro 1. mas não o fazem com o auxílio de qualquer tipo de interação verbal. 56). No diálogo. ou seja. que as abelhas conseguem ser muito precisas no repasse de dados. Esta deve haver prevenido as companheiras. o autor descobriu. sem intervenção de um aparelho vocal. no Quadro 1. Não sofre os limites da percepção visual. as abelhas que vêm após a sua volta se atirarão a essa e abandonarão as outras. Linguagem humana Comunicação vocal: a mensagem restrita tem a voz como seu principal suporte. freqüentemente. sua posição exata e a natureza do achado por meio da dança. não há diálogo. 1952. Trata-se de um código de sinais. Caracteriza-se pela capacidade de ser potencialmente infinita. sempre provocamos algum tipo de resposta no ambiente. para ele. p. Falamos com aqueles que nos falam. a referência à experiência objetiva e a reação à manifestação lingüística se misturam ao infinito. É realmente necessário que estas hajam sido informadas com precisão.indb 32 26/08/2008 14:06:14 . uma sinopse da comparação feita pelo autor. a abelha exploradora indicou às companheiras o lugar de onde veio. a comunicação animal e a linguagem humana são bastante diversas em relação a sua essência. 61). (BENVENISTE. Não há erro nem excitação na localização: se a primeira escolheu uma flor entre outras que poderiam igualmente atraí-la. Aparentemente. então. O caráter específico da primeira é “o de propiciar um substituto da experiência que seja adequado para ser transmitido sem fim no tempo e no espaço. Retomando os estudos de Karl von Frisch. tais como distância da flor encontrada. Verifique. Não há possibilidade de reprodução da mensagem desvinculada do testemunho empírico. uma vez que é fonte de criatividade. o que é típico do nosso simbolismo e o fundamento da tradição lingüística” (BENVENISTE. pois chegam sem guia ao local que se encontra. 1952. livremente. Não é possível analisar a mensagem das abelhas: podemos ver apenas seu conteúdo global. da experiência objetiva. uma vez que.Linguagem e Pensamento encontra a abelha marcada e que vêm todas da mesma colméia. a grande distância da colméia e sempre fora de sua vista. Só ocorre em condições que permitem a percepção visual. Conclusivamente. Quadro 1: Comunicação das abelhas versus linguagem humana Comunicação da abelha Comunicação gestual: a mensagem é restrita à dança.

mesmo que não conheçamos a língua na qual ele foi originariamente cunhado. O significante – trata-se da “imagem acústica” de uma palavra. pensava-se que uma língua é uma coletânea de palavras que. você vai ouvir muitas “palavras”. podemos muito bem discutir o conceito veiculado por um dado significante. Apenas por amor à clareza. Saussure pôde dar um segundo passo bastante importante para a lingüística moderna: postular que não há correspondência exata entre significantes e significados. a menor unidade completa que tem um significado. de 1907 a 1911. pela primeira vez. e não de uma ou outra língua em particular. voltando para nosso exemplo de sua chegada em Tóquio. você pode muito bem. Essa visão da linguagem como uma espécie de coleção de palavras foi superada quando. ou seja.Concepção do homem como ser de linguagem A linguagem antes dos trabalhos de Benveniste Até o século XIX.indb 33 26/08/2008 14:06:14 . isto é. trata-se de uma unidade de duas faces. não fala nem entende nenhuma palavra de japonês e acaba de chegar em Tóquio. mesmo que não entendamos a língua em questão. O significado – trata-se do conceito ao qual a palavra remete. Ferdinand de Saussure ofereceu na Universidade de Genebra três cursos nos quais transmitiu oralmente os fundamentos da lingüística moderna. discutir o significado do haraquiri na cultura tradicional japonesa com o primeiro japonês que fale português que você encontrar. o leitor encontrará de forma esquemática o modo pelo qual Saussure concebeu o signo lingüístico. propomos a seguinte situação para exemplificar: se você. mesmo que não aprenda a pronunciar a palavra corretamente. No Quadro 2. Os sons articulados que saem da boca dos japoneses e chegam aos seus ouvidos são os seus significantes. Combatendo a visão do leigo. antes que os estudos de gramática comparada estivessem se solidificado. digamos. Quando temos conhecimento de mundo. ele substituiu o conceito de palavra pelo de signo lingüístico. aquilo que nossos ouvidos captam e o cérebro registra. leitor. pôde perceber que a palavra não é monolítica. Esse deslocamento é muito importante para que reflitamos sobre as complexas relações entre pensamento e linguagem. 33 Livro 1. podemos perceber que Saussure. Quadro 2: Composição do signo lingüístico Signo Lingüístico: Significante Significado Analisando a composição do signo lingüístico registrada no Quadro 2. Desse modo. serviam para a expressão do pensamento. conforme segue. Por meio dessa dissociação. não vai ter acesso ao signo como um todo. mas não vai entender nenhuma. ao darem nome aos objetos do mundo. uma vez que os significados relacionam-se ao campo das idéias. ou seja. Ao contrário.

128). o cavalo). e reciprocamente. fora de sua casa e das outras condições do jogo. Eis porque. na sua materialidade pura. o que nos une e o que nos separa das coisas e das pessoas. pois. Por outro lado. a cultura) que lhes dá consistência. a partir dele. os significantes acabam por adquirir um valor lingüístico. o autor nos explica que. A esta altura. que nos sistemas semiológicos. Suponhamos que. Lendo o excerto acima. em definitivo. ao se oporem uns aos outros em uma rede de relações. sabemos que nossos pensamentos são sempre fugidios e apenas parcialmente compartilháveis como nossos pares. não representa nada para o jogador e não se toma elemento real e concreto senão quando revestido de seu valor e fazendo corpo com ele. pouco importa a peça em si. contanto que se lhe atribua o mesmo valor. mas o fato de que os dois jogadores tenham pactuado de que se trata de uma peça legítima. Concluindo.indb 34 26/08/2008 14:06:14 . será por si só um elemento do jogo? Certamente que não. é justamente na medida em que elas se encontram organizadas em um sistema (a linguagem. Traduzindo: se é verdade que “o que os olhos não vêem o coração não sente”. possamos fazer algum tipo de troca de idéias: a linguagem como um sistema. no decorrer de uma partida. fomos paulatinamente compreendendo que a linguagem é. (SAUSSURE. acabam por fazer sentido para nós. nos quais os elementos se mantêm reciprocamente em equilíbrio de acordo com regras determinadas. Vê-se. Saussure explica essa noção por meio de uma bela metáfora: a do jogo de xadrez. a noção de valor recobre as de unidade. Trata-se de uma excelente questão. é importante o leitor perceber que o principal deslocamento causado pela ciência lingüística foi mostrar que as palavras em si não significam absolutamente nada: se podemos usá-las para suporte de nosso pensamento. mas por funcionarem dentro de uma lógica de ordenamento de significantes. ao mesmo tempo. pois. isto é. Liga-nos ao mundo porque fornece um aparelho por meio do qual podemos manter o contato com a realidade: a possibilidade de nomear os objetos. a noção de identidade se confunde com a de valor. mesmo não falando a mesma língua. Comparando uma palavra a uma peça do jogo (no caso. essa peça venha a ser destruída ou extraviada: pode-se substituí-la por outra equivalente? Decerto: não somente um cavalo. Para o autor. p. como chegamos a nos entender? uma vez que. Vale dizer: a partir das elaborações da lingüística. 34 Livro 1. por meio de um percurso de mais de 100 anos dessa ciência. mas uma figura desprovida de qualquer parecença com ele será declarada idêntica. não é menos verdade que “o que a linguagem não nomeia a percepção não registra”. Saussure nos mostra que não há qualquer possibilidade de recobrimento dos objetos do mundo e de nossos pensamentos utilizando nossas palavras. o leitor deve estar se perguntando como os humanos chegam a se entender. a linguagem nos separa dos objetos justamente porque nos torna dependentes de um conceito para apreendê-lo.Linguagem e Pensamento Se a relação significante e significado é frágil. para que o jogo funcione. Em benefício da clareza. uma vez que ela nos remete a uma ordem maior que organiza as palavras e faz com que. como a língua. transcrevemos um trecho do autor: Tomemos um cavalo. 1962. de entidade concreta e de realidade. Saussure nos mostrou que os significados podem ser compartilhados entre nós não por remeterem a objetos do mundo.

. imaginando. Fecha aquela porta. na magistratura. que te levantes acima da obscuridade comum. [. meu peralta. senhor. chegaste aos teus 21 anos.. e falemos como dois amigos sérios. meu querido filho. conversemos um pouco. refiro-me ao gesto correto e perfilado 35 Livro 1.]. assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice.].. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha.. pode-se. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina. dia da tua maioridade. (ASSIS. mas que ofício.. [. [. dissimular o defeito aos olhos da platéia. os malogrados inúmeros. nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida. os prêmios são poucos. ouve-me e entende. porque esse fato. A vida.] ― Entendo.indb 35 26/08/2008 14:06:14 . ― Tu. 1994) ―Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. mas era muito melhor dispor dos dois. é uma enorme loteria. e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. escondê-las até à morte. Uma vez entrado na carreira.. as instruções de um pai. abafá-las. meu filho. pareces dotado da perfeita inópia mental. ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Isto é a vida [. Janjão. coisa que entenderás bem. conveniente ao uso deste nobre ofício. e acabo como vês. mas nem essa habilidade é comum. Senta-te e conversemos... ― Entretanto. no comércio. e vice-versa. vou dizer-te coisas importantes. O melhor será não as ter absolutamente. nas letras ou nas artes. Vinte e um anos. porém. ― Venhamos ao principal. um ator defraudado do uso de um braço. na lavoura. ― Sim. senhor. O mesmo se dá com as idéias. por exemplo.] Não te ponhas com denguices. Abre a janela. um diploma. ― Creia que lhe agradeço. na imprensa.Concepção do homem como ser de linguagem Teoria do medalhão ― Estás com sono? ― Não. Ouve-me bem. com violência. além das esperanças que deposito em ti. É isto o que te aconselho hoje. deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. ― Mas quem lhe diz que eu. podes entrar no parlamento. Não. ― Nem eu. algumas apólices. Há infinitas carreiras diante de ti. faltaram-me. posto indique certa carência de idéias. ou pelo menos notável. Que horas são? ― Onze.. não me dirá? ― Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Com que. assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem. o meu desejo é que te faças grande e ilustre. ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. na indústria. por um milagre de artifício. Ele pode. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade. sem outra consolação e relevo moral.. se me não engano.

das dimensões de um chapéu. podes empregar umas quantas figuras expressivas. deves decorá-la. mas um tal obstáculo é invencível. dezoito meses – suponhamos dois anos –.] ― Creio que assim seja.. ou por qualquer outra razão que me escapa. como tens de ser medalhão mais tarde. elas irrompem e precipitam-se.. há grande conveniência em entrar por elas. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término. As livrarias. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora. as locuções convencionais. porém. ― Entendamo-nos. pode adquirir uma tal ou qual atividade. versos célebres... de felicitação.] Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova. louvo a denominação.] ― Upa! que a profissão é difícil! ― E ainda não chegamos ao cabo. é utilíssimo. porque a solidão é oficina de idéias. convém tomar as armas do teu tempo. é lançar mão de um regime debilitante. Não trato do vocabulário.. [.] Com este regime. mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Eis aí um sintoma eloqüente. Condeno a aplicação.. eis aí uma esperança. por mais pródigo que seja.. ― Não é. e. coisas miúdas. ― Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo? ― Não faz mal. Melhor do que tudo isso. O passeio nas ruas. de quando em quando. em que toda a poeira da solidão se dissipa. incrustadas na memória individual e pública. ouvir certos discursos etc. e o espírito deixado a si mesmo. [.. tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios. ou de agradecimento. No entanto... e as ciências sejam obra do movimento humano.. à disciplina. original e bela. [. mormente nas de recreio e parada. de um contrabando. podendo acontecer que. [. porque ele está subentendido no uso das idéias. ditos históricos. ― Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo. almofadinhas. ― Vamos a ele. do ranger ou calar das botas novas. de uma calúnia. reduzes o intelecto. ler compêndios de retórica. de qualquer coisa. [.indb 36 26/08/2008 14:06:14 . que tu deves requestar à força de pequenos mimos.] Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. ao equilíbrio comum. durante oito. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia. ― Podes. mas às escâncaras.] ― Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos. não digo às ocultas. mas fá-lo-ei por escrito. que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. não são propícias ao nosso fim. urge aparelhar fortemente o espírito. A publicidade é uma dona loureira e senhoril.. de quando em quando. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas. que afinal não passa de mero adorno. dez. da anedota da semana. à sobriedade. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica. sem cores de clarim.Linguagem e Pensamento com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete. máximas. ― Não te falei ainda dos benefícios da publicidade.] O bilhar é excelente.. venhas a ser afligido de algumas idéias próprias.. há um meio. brocardos jurídicos. tíbio. embora no meio da multidão. confeitos. [. [.. de um cometa. por mais que as sofremos... não obstante. são as frases feitas.. [. com a idade.. com a condição de não andares desacompanhado. ou por causa da atmosfera do lugar. apoucado. as fórmulas consagradas pelos anos. é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa. Que Dom Quixote 36 Livro 1..] Sentenças latinas. há de ser naturalmente simples. sem notas vermelhas.

come tempo.. ― Somente não deves empregar a ironia. vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. meu filho. prazenteiro. mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros.. a conversa desta noite vale O príncipe de Maquiavel.. ações heróicas ou custosas. Uma notícia traz outra. Este manual ao mesmo tempo nos diverte e. franca. não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo. podes brincar e rir alguma vez. é uma locução que deves empregar com freqüência. ― Diga.] Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.Concepção do homem como ser de linguagem solicite os favores dela mediante. ― Conforme. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre.. gorducha. a exemplo do que Machado de Assis fez no texto 37 Livro 1. etc. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão. e arrebentar de riso os suspensórios.. estás definitivamente maior. cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. redonda. a nossa boa chalaça amiga.. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros. “Filosofia da história”. Rumina bem o que te disse. que se mete pela cara dos outros. ― Nenhuma filosofia? ― Entendamo-nos: no papel e na língua alguma. muito sério. sem biocos. contraído por Luciano.] Percebeste? ― Percebi. transmitido a Swift e Voltaire.].. Usa a chalaça. cheio de mistérios. Tens um gênio folgazão. Vamos dormir. cinco. Que é isto? ― Meia-noite. e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! [. É difícil. [. dez.. leva anos. por exemplo. esse movimento ao canto da boca. trabalho. ― Nem eu te digo outra coisa. originalidade etc. Somente – e este ponto é melindroso. que é tarde. compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar. paciência. Refletindo sobre o ato de falar sem nada dizer A reflexão que ora propomos foi inspirada em um livro escrito por Carlos Queiroz Telles (1991). inventado por algum grego da decadência. na realidade nada. Guardadas as proporções.. Vamos dormir. estala como uma palmada. faz pular o sangue nas veias. muito tempo. ― Meia-noite? Entras nos teus 22 anos. Não. [.. Medalhão não quer dizer melancólico. é um sestro próprio desse ilustre lunático.indb 37 26/08/2008 14:06:14 . nem véus. ― Farei o que puder.. ― Também ao riso? ― Como ao riso? ― Ficar sério. antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.. meu peralta. feição própria dos céticos e desabusados. Usa antes a chalaça. Nenhuma imaginação? ― Nenhuma. O verdadeiro medalhão tem outra política.

sem repetir segmentos e falando quanto tempo quiser. sempre nesta ordem. deseja causar uma falsa boa impressão. você encontrará um exemplo de quadro que. ao contrário de Janjão (Machado de Assis) e de Telles (Cara-de-Pau). ele pensou antes e durante a escrita de seu trabalho? Tabela 1: Um exemplo de fala cara-de-pau COLUNA I COLUNA II COLUNA III COLUNA IV das condições financeiras e administrativas exigidas. Cada grupo deve ter previamente coletado material escrito por seus alunos para análise (textos variados e respostas de questões abertas). montar grupos para realizar um exercício de análise mais fundamentado. Antes de irmos adiante. cheia de frases de efeito. pode ser a salvação de um empresário ou político que deve falar e não pode dizer nada de concreto. o autor sintetiza um conjunto de vocábulos supostamente mais usados por diferentes profissões para demonstrar a “erudição” do locutor quando aquele que fala. III e IV que constituem a Tabela 1. não podemos esquecer que 38 a estrutura atual da organização auxilia a preparação e a composição Livro 1. Caros colegas a execução das metas do programa nos obrigará a análises Por outro lado a complexidade dos estudos efetuados cumpre um papel essencial na formulação No entanto. Primeiro passo Como funciona? Aquele que deve “enrolar” sua platéia só tem uma regra a seguir: escolher quaisquer segmentos das colunas I.indb 38 26/08/2008 14:06:15 . II. Brincando conosco.Linguagem e Pensamento complementar que você acaba de ler.. tentar responder a seguinte questão: quais marcas lingüísticas presentes na materialidade observável do trabalho do aluno indiciam que. mesmo sem ter preparo para tanto. Divirtam-se! Segundo passo Após esse exercício informal. convidamos você e seus colegas a exercitarem um pouco as possibilidades de compor um texto oral com aparência de ser perfeitamente normal utilizando-se da tabela para montar falas convincentes. A seguir. com prosódia entusiasmada e entonação convincente. das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições. denuncia a existência de uma mediocridade que acaba ficando disfarçada por meio da linguagem empolada. do sistema de participação geral.. Com esse material na mão.

finalmente. TODOROV. expõe os domínios da pesquisa sobre a linguagem e. assim como a consolidação das estruturas obstaculiza a apreciação da importância das condições inegavelmente apropriadas. 1988. o início da atividade geral de formação de atitudes das formas de ação. é fundamental ressaltar que O incentivo ao avanço tecnológico. Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem. 39 Livro 1. a consulta com diversos militantes oferece uma interessante oportunidade acarreta um processo de reformulação e modernização dos índices pretendidos. Tzvetan. explica de modo claro e compreensível os principais conceitos metodológicos e descritivos com os quais a lingüística trabalha. este dicionário discorre sobre as principais escolas. São Paulo: Perspectiva.indb 39 26/08/2008 14:06:15 . DUCROT. A prática cotidiana prova que o desenvolvimento contínuo de distintas formas de atuação das direções preferenciais no sentido do progresso. uma vez que Acima de tudo. Nunca é demais lembrar o peso e o significado destes problemas.Concepção do homem como ser de linguagem COLUNA I COLUNA II o novo modelo estrutural aqui preconizado COLUNA III durante a contribuição de um grupo importante na determinação assume importantes posições no estabelecimento COLUNA IV Do mesmo modo das novas proposições. Obra fundamental para o leitor iniciante que se interessou por aprofundar seu estudo sobre a linguagem. Oswald.

1962. Da subjetividade na linguagem. DUCROT. Manual do cara-de-pau. ed. Curso de lingüística geral. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. In: _____. Tzvetan. Oswald. p.Linguagem e Pensamento ASSIS. _____. Vol. São Paulo: Perspectiva. Comunicação animal e linguagem humana. SAUSSURE. p. Campinas: Editora da Unicamp. Teoria do medalhão. São Paulo: Cultrix. 2. ed. Problemas de lingüística geral I. Carlos Queiroz. In: _____. 284-293. ed. São Paulo: Best Seller. Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem.indb 40 26/08/2008 14:06:15 . Obra completa. 1988. 3. Machado de. Ferdinand. 40 Livro 1. 1988. Campinas: Editora da Unicamp. BENVENISTE. 60-67. 2. 1988. Problemas de lingüística geral I. In: _____. 1994. 1991. TODOROV. TELLES. 2. Émile.

Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano Claudia Rosa Riolfi eralmente. informamos que os excertos que se seguem estão disponíveis no seguinte endereço: http://www. profissionais da educação. A página de abertura convida os seus participantes a darem depoimento sobre o que merece ser registrado do que seus filhos andam falando. Acesso em: 18 set. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp.orkut. se uma pessoa fala sem pensar. Essas piadas podem ser muito divertidas. Por que. vamos iniciar o trabalho ao qual nos propomos neste capítulo nos deleitando com alguns exemplos que mostram o modo diferente da criança pensar sobre a língua. Se quisermos entender melhor como a mente humana funciona. É justamente por essa razão que. essa pessoa que fez a crítica tem certa razão naquilo que diz.aspx?cmm= 68850&tid=2970165. com/CommMsgs. Mesmo respeitando as variações individuais de ritmo do desenvolvimento humano. nós. circulam piadinhas sobre o caráter extravagante do raciocínio das crianças. Eles foram recortados da comunidade virtual Criança Diz cada Uma. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. Doutora em Lingüística pela Unicamp. o ser humano pode falar. a capacidade de tomar a linguagem como objeto específico de análise é uma conquista que raramente ocorre antes do término da chamada “primeira infância”. o que a criança pequena diz nos parece exótico? Como o objetivo aqui é elucidar algumas das diferenças entre o pensamento dos pequenos e dos adultos. contando histórias engraçadas e inusitadas acontecidas com crianças”. Livro 1. logo aparece algum conhecido pronto para diagnosticá-la: “Fulano parece uma criança!” Maldade à parte. 1 Ressalvando que só podem entrar neste site as pessoas que forem convidadas por um amigo. que consiste em um ponto de encontro virtual baseado “na coluna que o falecido jornalista e dramaturgo Pedro Bloch escrevia na extinta revista Manchete. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. freqüentemente.1 Psicanalista. Entretanto. uma vez que depende de um longo processo de inserção do jovem na cultura em que vive. necessitamos nos interrogar sobre as causas desta dificuldade. 2005. Está hospedada no site de relacionamentos pessoais Orkut. em toda parte. é preciso fazê-lo. G Quando muito pequeno. mas em si não nos ajudam muito a transcender a denúncia da ingenuidade dos pequenos em nossas conversas em diversos âmbitos.indb 41 26/08/2008 14:06:15 . mas não pode escutar de forma crítica e distanciada o que ele mesmo diz. uma vez que demora muito para conquistarmos a capacidade de nos distanciar de nossa própria fala e analisar nossos modos de expressão e de pensamento.

causados por uma ignorância vocabular e cultural. perceba que.. enquanto esperávamos para atravessar a rua: “tem que morrer um para eles colocarem uma sinaleira”. do jeito que pôde. Ou seja: sem conhecer o significado culturalmente partilhado dessas expressões.. eu achava que isso era o lugar de origem da dona Francisca! “atirei o pau no gato-to/ mas o gato-to/ nao morreu-rreurreu/ dona Chica-ca/ dimiro-se-se/ do berro/ do berro/ que o gato deu . iniciado em 18 de setembro de 2005. 42 Livro 1. algum jeito para se virar com seu desconfortável desconhecimento. e Grande Elenco! Mirocecê. quando eu era criança eu pensava que cheque sem fundo era algum tipo de cheque sem nada no fundo. miau!” Ana Selene Camila Zé Roberto Esperamos que os exemplos acima. com um buraco. nosso riso foi causado por um mesmo motivo: trata-se de um equívoco por parte da criança. eu ficava com pena da pessoa que tinha morrido naquele lugar. Quadro 1: Fragmentos de depoimentos dos participantes da comunidade virtual Criança Diz cada Uma Andréa Cara.” Esse fórum destacou-se porque ao ler seu conteúdo torna-se evidente que aqueles que aceitaram o convite da proponente foram forçados a se lembrar do período de sua vida no qual ele teve predominantemente pensamentos exóticos e inconsistentes. Trata-se do seguinte: uma das participantes instigou os participantes a completarem a seguinte frase “Quando eu era criança eu pensava que. Os significados “errados” atribuídos pela criança às expressões “cheque sem fundo” e “grande elenco” foram.. como o Grande Otelo. selecionamos alguns fragmentos de textos que podem ser encontrados em um dos tópicos do fórum da comunidade virtual. Toda vez que eu via um sinal de trânsito.. muito saborosos. ou seja. transcritos no Quadro 1 do modo como foram escritos pelos participantes da comunidade. tenham lhe causado riso! Agora. em todos eles. do modo como chegam aos seus ouvidos. Eu achava que “Grande Elenco” era um ator muito famoso..indb 42 26/08/2008 14:06:15 . a criança criou. muito provavelmente. ao pé da letra. se assim podemos dizer. Uma amiga da minha mãe disse braba. Paulo Autran. que toma algumas expressões. sempre citado junto com os melhores atores: Fernanda Montenegro. Só que eu nunca o tinha visto ainda porque ele era um ator de teatro. Vejamos alguns fragmentos desses depoimentos.Linguagem e Pensamento Para ilustrar nosso trabalho.

não conseguimos analisar convenientemente os segmentos que compõem os enunciados e. interrogar a realidade que nos circunda. 1990. Em segundo lugar. que é o da repetição da última sílaba das palavras.Analisar os modos de falar e de pensar Por sua vez. p. Isto é. nosso pensamento tende a ser. há uma insuficiência da relação entre signo e coisas. por esse motivo. quando estamos imersos em uma prática. o autor partiu das seguintes perguntas que vêm sendo repetidas há muitos séculos: “Até que ponto o universo dos signos lingüísticos coincide com a realidade extralingüística: como é possível conhecer a realidade por meio de signos lingüísticos? Qual o alcance da língua sobre o pensamento e a cognição?” (BLIKSTEIN. na teoria do conhecimento etc. por assim dizer. embora semelhante. limitado e limitante. 43 Livro 1. na antropologia.indb 43 26/08/2008 14:06:15 . vamos agora explorar o trabalho de Blikstein (1990. de reconhecer a função do pronome reflexivo se. enquanto não nos é possível manter um certo distanciamento das palavras que falamos. para poder criar. ela praticamente se torna invisível para nós. O que esses exemplos nos mostram? Esses exemplos nos mostram que. por este motivo. Para aprofundar um pouco mais esta idéia. 86). uma vez que. que escreveu um livro visando a cutucar um pouco a nossa inércia e levar-nos a uma interrogação sobre nossa “confortável ilusão referencial”. como a linguagem humana é. nós a automatizamos e. Retomar aqui essas questões antigas se justifica porque elas vêm nos mostrando que. É importante ressaltar que. mais ou menos. o que acabou fazendo com que ela ignorasse o padrão da canção. fato este mostram? que nos indicia que esta criança também não era capaz. Essa insuficiência vem sendo insistentemente assinalada na lingüística. depois de uns 30 minutos. o nascimento da cidade “Mirocecê” O que esses é um pouco mais complexo. escorregadia quando ainda não temos a vivência cultural de um adulto. é necessário. ao mesmo tempo. 71). na psicologia. como tentar se lembrar. A capacidade para a reflexão lingüística se ganha na cultura A capacidade de interrogar os modos de dizer que são habituais na comunidade em que vivemos é uma tarefa bastante complexa. por qual mecha você começou a desembaraçar seus cabelos no meio do banho. conseqüentemente. naquela ocasião. no processo da cognição. antes de tudo. Para fazê-lo. tendo gerado inúmeras tentativas de construção de modelos teóricos que possam servir de modos pelos quais possamos nos aproximar da intrincada relação entre a linguagem e as coisas. Em primeiro lugar. é evidente que a criança desconhece o significado do verbo “admirar”. É. não nos é possível nem delimitar convenientemente seus segmentos nem articulá-los de modo adequado com os demais segmentos que compõem o enunciado. não foi exemplos nos capaz de delimitar onde começava e onde terminava uma palavra. p..

Mesmo reconhecendo a pertinência dessa tripartição. essa população não vê a neve em 44 Livro 1. criado em 1956 (ver Figura 1). p. defendeu a necessidade de recuperar o trabalho de Schaff (1974). é bastante conhecido o seu exemplo que trata a percepção que os esquimós têm da cor branca. Blikstein ficou incomodado com a ausência de uma reflexão sobre a influência da prática cultural em nosso modo de ver as coisas. a cognição. esse modelo despertou bastante interesse. tornando claro que tanto a percepção quanto a linguagem estão indissoluvelmente ligadas à práxis social. Você já ouviu falar do trabalho de Schaff? Trata-se de um pensador que ficou bastante famoso por suas tentativas de ligar a linguagem à práxis social.indb 44 26/08/2008 14:06:15 . e impede o indivíduo de ver qualquer realidade que já não esteja previamente marcada em sua língua. Nas palavras de Blikstein.Linguagem e Pensamento Um dos modelos mais clássicos para explicar como pensamento e linguagem estão entrelaçados é o triângulo de Odgen e Richards. e já se tornou lugar comum afirmar que ela é o ‘molde do pensamento’ ou ‘o instrumento de análise ou recorte da realidade’” (BLIKSTEIN. percepção e pensamento. e 3) os pensamentos/percepções que podemos ter tanto de uma coisa quanto de outra. 40). Por esse motivo. Segundo o autor. Em especial. Figura 1: O triângulo de Odgen e Richards Quando surgiu. 2) as palavras que usamos para nomear os objetos que lá se encontram. 1990. uma vez que ele poderia nos ajudar a reformular a lição clássica a respeito das relações entre linguagem. foi este triângulo que deu origem a uma tendência dominante na lingüística moderna: considerar a língua como “organizadora da estrutura conceitual do universo. a língua amarra a percepção. articulando-o ao modelo já descrito. Segundo Blikstein. uma vez que mostrava claramente a existência de uma separação entre três instâncias: 1) o mundo real.

Mas isso não é coisa fácil! É preciso “suar a camisa” e investir na direção de tomar a própria língua como objeto de análise. Ameaça: “Maluf chora e ameaça continuar na política”. Simão. com algum treino. Para pontuar apenas uma das muitas brincadeiras feitas Como alguém por Simão nesse excerto. Um promotor baiano pediu habeas corpus para uma macaca não ficar enjaulada no zoológico de Salvador. que de fato consegue fazer existe e é usada na linguagem jurídica: habeas corpus (linha 1). o homem torna-se o único animal que tem o privilégio de contar com esta grande fonte de prazer: tomar sua língua materna como objeto de reflexão e nela efetuar transformações para criar “efeitos especiais”. na ocasião da escrita de sua coluna havia sido recentemente preso. inventou a expressão “habeas macacus” (linha 3) para finalmente. em certa medida. o Maluf vai se sentir injustiçado! Depois do habeas macacus. Ao isso? ironizar sobre um advogado que tomou uma macaca como cliente. somos capazes de atravessar. A língua como objeto de análise pode gerar muito prazer Quando cresce. HABEAS MACACUS! E quer devolver a macaca para seu habitat em Sorocaba. que. os humoristas que fazem o chamado “humor inteligente” costumeiramente utilizam-se desse recurso para nos fazer rir. os efeitos homogeneizadores da cultura e tornar nossa vida mais refletida e nossos modos de pensar. Por exemplo. pois distinguem-na de acordo com as diversas tonalidades de branco que seus olhos conseguem distingüir. Leia.indb 45 26/08/2008 14:06:15 . inventou ainda o habeas brimus (linha 8). 45 Livro 1. os esquimós têm palavras para nomear 30 tipos de neve. o Maluf vai pedir um HABEAS BRIMUS! Rarará! E olha a notícia: “Maluf chora e ameaça deixar a política”. Bem diferente de nós. O quê? Ela é de Sorocaba? E o que ela foi fazer na Bahia? Foi passar o Carnaval na Bahia e ficou! Essa macaca vai acabar entrando para o É o Tchan! e substituir a Scheila Carvalho! E depois do habeas corpus pra macaca. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Brasil Urgente! Habeas corpus pra macaca. muito trabalho e dedicação. Então não é ameaça. não podemos deixar de ressaltar que. aludindo à etnia de Paulo Maluf. mais criativos. Como. por exemplo. não é mesmo? Mesmo concordando parcialmente com a conclusão do autor.Analisar os modos de falar e de pensar geral. do mesmo modo como faríamos nós que habitamos regiões temperadas. um fragmento de uma das colunas do famosíssimo José Simão (2005). para eles. basicamente. observe as seguintes transformações feitas pelo humorista a partir da expressão latina. conhecer a neve muitíssimo bem consiste em uma questão de vida ou de morte. que. trabalhamos com as categorias “branco bem lavado” e “branco encardido”.

Terminamos. LOCUTOR 2: A composição química da água é H2O. como já vimos apontando. como é o caso desta amostra que acabo de examinar. então. nada sabemos sobre suas preferências. sabemos que ele é maduro o suficiente para conseguir refletir sobre a linguagem. Em vez de explicitar aqui a “moral da história”. no segundo. quando ela recebe esgotos. analisada e descrita com relação a sua estrutura e seus modos de funcionamento em diferentes tempos e espaços. sabemos que. enquanto o locutor 1 fala uma frase que tem como objeto principal os seus gostos pessoais. Do mesmo modo como aconteceu no primeiro par de exemplos. vivenciada por uma garota de quase oito anos e alguns de seus familiares. deixaremos registrado um exemplo que nos parece mostrar. a linguagem se torna passível de ser observada. agora. Feitas todas as considerações precedentes. é exclusiva do humano: a possibilidade de refletir também sobre a forma de expressão e não meramente sobre o conteúdo.Linguagem e Pensamento Brincar com a linguagem pressupõe a construção prévia de uma capacidade que. no primeiro dos casos. por outro lado. LOCUTOR 2: Bonito é um adjetivo vago. LOCUTOR 1: Eu só namoro homem bonito. mas isso não é nada fácil. Trazer esse exemplo para o contexto específico de nossa discussão deve ajudar-nos a sermos mais claros. propomos. Ao lê-la. com uma pequena historieta verídica. os enunciados abaixo. a potência de deslocamento que tem a reflexão sobre a linguagem. o locutor tem como tema específico de sua enunciação o seu gosto particular no que tange à água. deste modo. Mas. ao contrário. de modo especialmente claro. neste momento. a comparação entre os seguintes enunciados fictícios: LOCUTOR 1: Eu só bebo água mineral. esperamos que o leitor se sinta convocado a. É fácil refletir sobre a linguagem? Ao se concretizar em uma língua que pode ser falada ou escrita. já ficou transparente para o leitor ao longo de sua leitura.indb 46 26/08/2008 14:06:15 . 46 Livro 1. esperamos. que. optamos por concluir esta reflexão sobre a capacidade de refletir sobre a língua de um modo um pouco diferente. uma vez que a determinação de seu sentido depende do gosto pessoal do falante. um investigador pôde referir-se à sua composição estrutural. após ter realizado exames apropriados em uma amostra de água qualquer. em seu dia-a-dia. No segundo caso. Se. Para ficar mais clara qual a diferença entre uma ação e outra. encontram-se também coliformes fecais. Comparem. fazer o mesmo tipo de trabalho lingüístico que foi feito pela menina e. Exige uma experiência de vida na cultura que proporcione ao sujeito um repertório que lhe permita analisar devidamente os enunciados que nela circulam. porém. nada sabemos da pessoalidade do locutor 2. criar novas realidades.

.. O século XIX.] Criado no isolamento e privado de educação. Confira trabalho anterior deste autor (Riolfi.Analisar os modos de falar e de pensar Um pequeno apólogo familiar2 Aos sete anos e seis meses. época em que Kaspar Hauser viveu. não chama sua mãe para refazer o penteado. seu pai lhe dirige abruptamente a palavra: ― L. principalmente os pássaros. sabia falar apenas uma frase: “quero ser cavaleiro” e não sabia andar direito. “cabelo mexido”?!! “Cabelo mexido” deve ser o prato predileto de canibal pobre. colocava seu dedo no fogo e.. Era visto como um “garoto selvagem”. buscou-se selecionar um personagem humano (Kaspar Hauser) que não correspondia. 2005) para uma exploração mais aprofundada desta historieta. Pretende-se analisar neste trabalho o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser. é este processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá em Nuremberg. descritas tanto no filme de Herzog quanto na obra de Masson: conseguia enxergar muito longe.. causava um misto de espanto e interesse. impaciente e já com pressa. XIX).. brinca entusiasmadamente com seu irmão menor. Seu comportamento. aprende que a chama queima. estranho para os padrões socioculturais estabelecidos. 47 Livro 1. pai. buscando a compreensão de fatores que concorreram para a construção de seu psiquismo. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes. você vai sair com este cabelo mexido? Desmanchou tudo! Impassível. sorridente: ― Ó. Numa das cenas. pela qual a sociedade tentará fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação. foi um período marcado pela perspectiva positivista. condicionamento e repressão. e seu instrumento principal será a linguagem. aos padrões de comportamento tidos ou esperados como “normais” dentro da cultura da época. [. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. apesar de demonstrar ser dócil. atraído pela chama de uma vela. Ao notar o desastre. 2001) Trabalhando com a perspectiva histórico-cultural em psicologia. sua mariachiquinha despenca declaradamente.. L. ao sentir dor. na época em que viveu (séc. Graças à sua curiosidade infantil e memória notável. Afeita a pentear o cabelo em inversa proporção a que é à pilhéria espirituosa. que enfatiza que cada ser humano se constitui como uma pessoa totalmente única (por suas experiências e sua história de vida) e que ressalta a importância das práticas culturais na definição do desenvolvimento psicológico do sujeito. no escuro e sabia tratar os animais. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. o garoto não entendia nada do que lhe diziam. [.. simples e gentil. a garota dirige-se para a porta com os cabelos no mesmo estado e responde. L.] Quando apareceu em Nuremberg. já pronta para um passeio familiar.indb 47 26/08/2008 14:06:16 . aprendeu várias coisas muito depressa. Pouco antes de sair. 2 O enigma de Kaspar Hauser (1812[?]-1833): uma abordagem psicossocial (SABOYA.

analisando o caso de Kaspar Hauser. também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam independentemente. somos levados a pensar que não apenas o sistema perceptual. então. estava em seu auge. por signos lingüísticos. Kaspar Hauser esteve isolado de qualquer contexto ou prática social. Kaspar Hauser parece não entender as explicações que lhe dão. Em virtude de não ter sido exposto a essa “modelagem” cultural. permanece. Kaspar Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: “Ninguém aceita Kaspar. indecifrável. parece não ser suficiente para Kaspar Hauser [.. Kaspar Hauser estava despido dos “filtros” e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento. decodifica à sua maneira.] A paisagem em que Kaspar Hauser foi colocado. Todos aqueles que não correspondiam ao protótipo do homem “civilizado” eram classificados como primitivos. fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro. [. não consegue atribuir significado às coisas. com uma lógica diferente da estabelecida. Nesse sentido.indb 48 26/08/2008 14:06:16 ..Linguagem e Pensamento evolucionista e desenvolvimentista. Muitas vezes. que o seu sistema perceptual está desaparelhado de uma prática social necessária para gestar o referencial cultural de interpretação da realidade. percepção e linguagem. Sabemos que. ou seja. teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar uma inverossimilhança no filme de Werner Herzog: numa das cenas.. as práticas culturais “modelam” a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito. É justamente esse processo que Kaspar Hauser não vivenciou. ou seja. pedia para contar histórias que imaginava. A visão de que havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado. Fica evidente.. [.]. como se estivesse sempre em déficit em relação aos outros. tanto pelos homens como pelas sociedades.” 48 Livro 1. para ele. a educação vai estimulando na criança um processo de abstração. ou seja. Kaspar Hauser era visto como um ser “incompleto”.] Com o tempo aprende a falar. É dentro dessa visão de mundo que Kaspar Hauser vai ser socializado. do nascimento à adolescência. Podemos concluir que. o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais.. Assim. As pessoas impõem todos os tipos de signos a ele. são garantidos e reforçados pela linguagem. onde exercitaria a compreensão através da prática social. Assim. O que podemos verificar no seu percurso de desenvolvimento psicológico é que. por signos lingüísticos. mas as estruturas mentais e a própria linguagem são resultantes da prática social.. pelas palavras. Como Kaspar Hauser poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas se não passou por um processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendesse a representatividade dos signos? Blikstein diz que a educação não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade. como Kaspar Hauser não passou por um processo de socialização.] Os objetos não eram percebidos por Kaspar Hauser da forma como a prática social definia previamente. Conhecer o mundo pela linguagem. ou seja. atrasados e deveriam ser “ajudados” a alcançar graus mais avançados na escala de desenvolvimento e evolução. Kaspar Hauser não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. por sua vez.. na certeza de que compreenderá o insólito ambiente que o cerca. mesmo tendo adquirido a linguagem. [. A forma como Kaspar Hauser compreende o mundo e se relaciona com ele indica que a percepção depende sobretudo da prática social.. apesar de explicada pela linguagem. a significação do mundo. Tais “filtros” ou estereótipos. mas não conseguia verbalizar o conteúdo pensado. a despeito da ação da linguagem (adquirida na fase adulta) ou de um eventual “potencial” inato.

Porém. não fazia sentido.] Kaspar Hauser não é reconhecido como parte da sociedade e ele próprio não se reconhece como parte dela. o indivíduo está se socializando. valores e costumes. tomando-se como referência a capital do estado de São Paulo.. Vai sofrendo. Kaspar Hauser se sente perturbado pelo mundo: “o mundo é todo mau”. sendo que os sistemas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo. um processo de estigmatização que o marca.. o indivíduo se integra ao grupo em que nasceu. reprimindo suas características instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais. fazendo. Através desse processo.] O caso de Kaspar Hauser serve para ilustrar o erro básico de uma organização social fundada sobre os princípios do racionalismo positivista. não apenas como “diferente” ou “anormal. entendida como socialização. mas o seu grupo pode criar a sua ou adaptá-la à realidade local. para ele. em que estavam vários membros da alta sociedade. juntamente com um pequeno grupo de colegas. porém. [. [. diz que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta.. que lhe perguntou como era sua prisão e ele respondeu: “melhor do que aqui fora”. Kaspar Hauser não aprendeu nem internalizou este sistema simbólico que. convidamos você. ele tem consciência de sua situação.. assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo. Mostra-nos que a “humanização” do homem. aprendendo suas normas. assim. a “passagem da natureza para a cultura. na realidade.” tornando-se. mas conseqüência de um longo processo de aprendizado com o grupo social. [. comenta com seu tutor após perceber que alguém pisou as flores que plantara no jardim. Para tal fim.Analisar os modos de falar e de pensar Segundo o filme. Participando da vida em sociedade... para investigar a capacidade que as crianças de diferentes idades têm para interpretar metáforas ou expressões idiomáticas. tendo vivido no isolamento. foi apresentado à esposa do prefeito de Nuremberg. como nos disse Charles Dickens. A atividade que se segue visa a familiarizar o professor com a idéia de que refletir sobre a linguagem é uma conquista difícil e tardia para a maioria dos humanos. citado por Oliveira. Kaspar Hauser nunca se transformou nesse animal de costumes. 49 Livro 1. poderia ser visto como “domesticado” pela sociedade da época. Somente depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de representatividade entre os signos e as coisas concretas. Segue-se uma como mera sugestão.” aprendendo a ver com os “óculos sociais. Material necessário Lista de metáforas e de expressões idiomáticas que são usadas cotidianamente pelos adultos de sua região.] Vygotsky. mas uma relação mediada.” mas também como alguém que não possui identidade. parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem instrumental de reflexão internalizado. Em uma reunião para a qual fora convidado a participar. não é uma decorrência biológica da espécie. assim.indb 49 26/08/2008 14:06:16 . no máximo. “um animal de costumes”.

separando-as por faixa etária. Estar com o saco cheio. Vale apelar para filhos.indb 50 26/08/2008 14:06:16 . Preparação Em um lugar calmo. não deixe de anotar os indícios que ela der de que compreende ao menos parcialmente o que você está falando. alunos da creche perto da sua casa etc. por exemplo: “O que é uma pessoa que está com dorde-cotovelo?” Fazer uma frase com a expressão que acabou de explicar. O número de entrevistados não é tão importante: o importante é que você encontre ao menos uma criança de cada uma das faixas etárias – a) crianças de 2 e 3 anos. Se a criança não cumprir integralmente a tarefa. Com base nos dados obtidos.Linguagem e Pensamento Estar com dor-de-cotovelo. responder coletivamente às questões abaixo. b) crianças de 4 e 5 anos. Estar morta de cansaço. Gravador e fitas para gravação. faça a criança realizar as duas tarefas a seguir. Discussão em sala Cada grupo obtém os resultados de suas entrevistas. Explicar como ela entende cada uma das expressões idiomáticas que constam na sua lista. Ser tudo de bom! Ser bacana à beça. Ser mais chato do que gilete. Sujeitos de pesquisa dispostos a responder sua investigação. explicitando quando a criança conseguiu explicar as expressões previamente selecionadas pelo grupo. Foi possível perceber uma idade a partir da qual o número de respostas corretas aumentou visivelmente? Existe alguma idade na qual a ocorrência de respostas corretas revelou-se impossível? É possível descrever um período de transição? Em caso afirmativo. mas interpretações. Pergunte de modo claro e objetivo. Nietzsche Você acha que a afirmação do filósofo é coerente com o que discutimos neste capítulo? 50 Livro 1. Grave e transcreva todas as respostas obtidas. como ele pode ser descrito? Não conhecemos fatos. e c) crianças de 6 e 7 anos. sobrinhos.

105-116. Herzog: em defesa da desrazão pura. um tempo de pesadelo.com. br/sitenovo/site/cronica_ver. ele conseguiu fugir com alguns companheiros. Regina Célia de Carvalho Paschoal (Org. In: LIMA. Kaspar tinha aprendido a falar e a escrever. até o dia em que foi enigmaticamente assassinado. BLIKSTEIN. múltiplos olhares. O enigma de Kaspar Hauser (1812?-1833): uma abordagem psicossocial. ODGEN. está com sorte. São Paulo: Cultrix. durante o qual foi exposto em uma feira de curiosidades. 219-233.verdestrigos. 1974 (109 min).Analisar os modos de falar e de pensar Você gosta de cinema? Se você respondeu afirmativamente. Um dia. melancólico. o pobre rapaz ainda pensava de modo completamente diferente do modo como faziam os outros seres humanos de sua época. RIOLFI.noolhar. The meaning of meaning. 18 anos. mas.php?pid=S0103-65642001000200007&script=sci_arttext&tlng=pt>. Um cidadão o encontrou e o levou para a casa do capitão de cavalaria que o entregou às autoridades. In: Psicologia USP. Izidoro. Campinas. Adam. um homem doce. sugerimos que você assista ao filme que está pressuposto ao longo deste capítulo! O ENIGMA de Kaspar Hauser (Jeder Für Sich und Gott Gegen Alle). São Paulo. Chico.br/ scielo. com. Brace & Co. Ele foi encontrado numa praça de Nuremberg. pois. ao mesmo tempo. SIMÃO. Direção de Werner Herzog.). 2. SABOYA. Ivor A.scielo. 12. Langage et conaissance. Nova Iorque: Hartcout. p. Disponível em: <http://www. em 1829. 1974. já adiantamos que este belíssimo filme se baseia na história verídica e obscura de Kaspar Hauser. tendo sido acolhido por um protetor mais humano. Maria Clara Lopes. Disponível em: <http://www. Para animar você. 1990. SHAFF. Paris: Anthropos. Charles K. Buemba! Galácticos viram farinhaláticos! Disponível em: <http://www. v. Leitura. 1956. Ao que tudo indica. Dois anos depois. 2001. Alemanha. surpreendentemente. Acesso em: 10 out. Kaspar passou. 2005. LOPES. 2005. p.asp?id=303>.com/ opovo/colunas/josesimao/>. 2005. José. Claudia Rosa.indb 51 26/08/2008 14:06:17 .. RICHARDS. acorrentado até o dia em que foi levado por um guarda a uma praça e aí abandonado. presumivelmente. Acesso em: 10 set. generoso e. desta vez. Acesso em: 21 set. 2005. Kasper Hauser ou a fabricação da realidade. Erro de leitura ou equívoco constitutivo (de sujeito)? A singularidade na fala de uma criança. então.. n. 51 Livro 1. cresceu num calabouço.

Livro 1.indb 52 26/08/2008 14:06:17 .

se assim podemos dizer. temos como objetivo primordial tematizar o surgimento do pensamento na espécie humana. a passagem do homem animal para o homem cultural coincidiu com o momento no qual. ou seja. Então. Doutora em Lingüística pela Unicamp. vamos recuperar aqui o filme A guerra do fogo. Você já o assistiu? Se não o fez.indb 53 26/08/2008 14:06:17 . não perca esta oportunidade de fazê-lo por nada neste mundo! Trata-se de um primoroso trabalho que. para começarmos nossa reflexão sobre como o antepassado do homem teria vivido quando ainda era um animal sem pensamento e sem linguagem. de Jean-Jacques Annaud. para seu realizador. o contato ou. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. consiste em uma representação ficcional do momento em que o Homo erectus tornou-se Homo sapiens. Convém ressaltar que. como ninguém entre nós tem máquina do tempo. a fricção entre culturas em diferentes estágios de evolução tem papel central na gênese da linguagem e do pensamento humano. tendo como centro a descoberta do processo para acender o fogo. demandando a utilização de nossa capacidade de abstração. Por esse motivo. Psicanalista. nosso antepassado remoto procurou estreitar laços com seus semelhantes mais evoluídos para aprender como utilizar instrumentos imprescindíveis para a sobrevivência da tribo. o “homem cultural” como o conhecemos. trata-se de um empreendimento bastante ousado e exploratório. Sendo assim. vamos utilizar o que costumamos chamar de muletas para o pensamento. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. N Os sustos que a gente leva quando encontra quem sabe mais Na hipótese que o filme trabalha. aqueles recursos por meio dos quais torna-se mais fácil imaginar como é algo que não podemos ver para que nosso caminho se torne menos árduo. Livro 1.A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano Claudia Rosa Riolfi este capítulo. motivado pela necessidade de sobrevivência.

levado ao cinema por Stanley Kubrick em 1971. acabaram por desenvolver uma habilidade reflexiva que sequer podiam imaginar que tinham. célebre por seu romance A laranja mecânica (1962). gritos. Embora possamos desconfiar que. Annaud é muito cuidadoso para mostrar que. contou com o trabalho especializado de Anthony Burgess. é importante marcar que um dos grupos estava bem mais próximo dos primatas e o segundo já era um pouco mais evoluído: já dominava a tecnologia de fazer o fogo e havia construído alguns elementos culturais. esse desejo de não deixar perecer uma conquista tão importante o levou a sofisticar a sua organização social e. como habitações fixas.indb 54 26/08/2008 14:06:17 . que estava a meio caminho entre a comunicação animal e a linguagem humana tal qual a conhecemos hoje. aproveitar-se dos recursos sonoros que seu corpo oferecia para criar um rudimento de linguagem.1 que assinou o roteiro e ― a partir de um detalhadíssimo estudo das línguas antigas ― escreveu as “falas” dos personagens (na verdade. é particularmente surpreendente o fato de saberem acender o fogo. Que lição podemos tirar dessa história de ficção? Evidentemente. Burges também escreveu O homem de Nazaré (1979) e Poderes terrenos (1980). em um determinado estágio de sua evolução biológica. gemidos.Linguagem e Pensamento Que tal conhecer um pouco o enredo de A guerra do fogo? Annaud partiu da hipótese de que. Para falar desses efeitos. Como todo mundo naquela época gelada dependia do fogo para proteção e aquecimento. o ancestral do homem sentiu necessidade de preservação de um importante conhecimento que tinha acabado de adquirir: a manipulação de instrumentos. grunhidos. que não têm a mínima idéia do que fazer para acendê-lo novamente. Annaud retrata as venturas e as desventuras de dois grupos pré-históricos que teriam vivido há 80 mil anos e mostra os efeitos que um encontro entre eles gerou. Por sua vez. 54 Livro 1. O drama narrado no filme é iniciado pelo apagamento acidental do fogo da tribo menos evoluída. Esse processo torna-se ainda mais acentuado quando os “três mosqueteiros” encontram a tribo mais evoluída e. chegamos à parte que mais nos interessa. evidentemente. como os primitivos foram forçados a encontrar soluções muito rapidamente para não morrerem. Para nos mostrar este “ancestral da linguagem”. Na visão do filme. decidiram enviar três membros da tribo numa perigosa aventura para procurar uma nova chama. rudimentos de palavras articuladas). Por meio de imagens muito impressionantes. os três heróis passaram pelos mais variados problemas em seu caminho e. por conseguinte. em vez de fazer somente uma sonoplastia sem sentido sair da boca dos personagens. possibilidade sequer entrevista anteriormente. Para eles. neste ponto. conseqüentemente. podemos tirar desse trabalho uma importante lição: a gênese do pensamento na espécie humana não ocorreu quando um primeiro homem se 1 Anthony Burgess (19161993) foneticista e escritor britânico. Ou seja: por meio dos contatos com os mais evoluídos. a cada novo esforço conjunto para superar um obstáculo eles acabam ganhando ao menos um rudimento de linguagem e de pensamento. muito se surpreendem com seu modo de organização cultural. sofrem grande influência e desenvolvem um germe de idéia. por se tratar de um filme. o realizador da obra. eles passaram a correr seriíssimo perigo de vida e. as coisas não se passaram bem assim.

sem dúvida.. como já sabemos. Introduzindo o pensamento de Vygotsky Não foram apenas os cineastas os interessados em refletir sobre os modos pelos quais o advento do pensamento ocorreu na humanidade. Por causa de sua pertinência e clareza. teve vontade de que sua grama fosse tão verde como a de seu vizinho. tendo enfrentado as restrições que o isolamento de um sistema político fechado coloca para todo aquele que tem vocação para a vida intelectual. Mas sabemos que. esse brilhante pesquisador viveu apenas 38 anos. b) a afirmação de que o funcionamento mental superior no indivíduo provém de processos sociais. o menos evoluído “descobriu”. em especial o russo Lev Semiótnovitch Vygotsky. essa hipótese é completamente inverossímil. mas será tão inverossímil assim? Não sabemos. Pronto: estava fundada a família e a vida em sociedade. 9). ao descobrir usos cada vez mais sofisticados para os instrumentos. trabalhou e morreu na passagem do século XIX para o XX (1896-1934). por iniciar esta introdução à obra de Vygotsky utilizando-nos de um parágrafo escrito pelo professor James V.. aqui. 55 Livro 1. em especial. referimo-nos às dificuldades de circulação de idéias que. ou formas de mediação. a gênese do pensamento humano ocorreu em situação de franco conflito entre o homem animal e a natureza e. Hipótese curiosa esta: o pensamento adveio da inveja saudável dos seus semelhantes! Curiosa. (WERTSCH apud VYGOTSKY.A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano trancou solitariamente em sua caverna e colocou do lado de fora uma placa com o aviso “gênio pensando”! Apesar de muito divertida. para continuar nossa linha de metáforas. causaram profundas impressões entre os educadores e demais interessados na formação do ser humano. optaremos. A perspectiva teórica delineada por Lev Semenovich Vygosky pode ser compreendida em termos de três temas gerais que estão presentes em todas as suas obras: a) o uso de um método genético. Assim. embora passíveis de alguma crítica. LURIA. Ao encontrar quem “fizesse diferente”. Nasceu. que talvez houvesse mais coisas entre o céu e terra do que sonhava sua vã filosofia.. ou de desenvolvimento. Você sabe quem foi Lev Semiótnovitch Vygotsky? Ex-estudante da Universidade de Moscou. e c) a afirmação de que os processos sociais e psicológicos humanos são moldados fundamentalmente por ferramentas sociais.indb 55 26/08/2008 14:06:17 . Wertsch para apresentar um de seus livros. naquele contexto. Apesar da vida curta e do isolamento. Vygotsky teve tempo suficiente para formalizar algumas idéias que. fazia com que tanto fosse difícil expor sua produção para além de Moscou quanto tomar contato com trabalhos de colegas de outros países. Essa questão interessou profundamente toda uma linhagem de pesquisadores. os homens logo trataram de compartilhá-los com seus semelhantes e preservá-los para seus descendentes.. pois. p. como diria Shakespeare. 1996. Especificamente. entre os diferentes modos de fazer dos membros dos grupos humanóides.

um dos principais avanços do psicólogo russo foi o conceito de atividade mediada. uma vez que um dos pressupostos básicos do autor é o de que o “ser humano constitui-se enquanto tal na sua relação com o outro social” (OLIVEIRA. compreender que as ferramentas sociais moldam nossos modos de lidar com o mundo. uma vez que tanto podemos falar muito sobre algo de que não entendemos nada (talvez até em uma tentativa de entender) como podemos precisar do silêncio por algum tempo mesmo depois de a explicação estar bastante clara. para Oliveira (1992). (VYGOTSKY. mas agora cumpre ressaltar que. O fato mais importante revelado pelo estudo genético do pensamento e da fala é que a relação entre ambos passa por várias mudanças. Você já percebeu que a gente não consegue falar sobre tudo que sabe? Ainda voltaremos a tirar maiores conseqüências do parágrafo acima. falacioso. procurou construir uma teoria geral das raízes genéticas dessa conexão. ao pedir que o aluno reproduza uma explicação que você acabou de dar. por sua vez. o psicólogo russo tentou superar a crise que grassava no campo da psicologia praticada em sua época. O progresso da fala não é paralelo ao progresso do pensamento. Ao fazer essa afirmação. a partir de um exame minucioso de documentos da Igreja 56 Livro 1. 1998. a cultura torna-se parte da natureza humana em um processo histórico. Bruner ― que assina a introdução do livro Pensamento e linguagem (VYGOTSKY. mas acabam se separando novamente. As curvas de crescimento de ambos cruzam-se muitas vezes. p. lembre-se: muita calma nessa hora! A perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano Para entender as relações entre a história e a cultura no desenvolvimento humano. alcançada por ele após a realização de suas pesquisas. podem atingir o mesmo ponto e correr lado a lado.Linguagem e Pensamento Perseguindo os temas citados acima ao longo do seu trabalho. Nessa visada. Dizendo de outro modo. no mínimo. Portanto. ele julga ser a mais importante. e até mesmo fundir-se por algum tempo. p. referir-se a Vygotsky é algo análogo a referir-se à dimensão social do desenvolvimento humano. apresentando uma proposta teórica inovadora: a idéia segundo a qual a consciência humana é determinada historicamente. ou seja. Vygostky se opôs às concepções clássicas das antigas escolas de psicologia que ainda não haviam percebido a conexão entre pensamento e linguagem como sendo originária do desenvolvimento humano e. Em especial. inovando ao longo de seu trabalho. Deixemos. por meio dele. o autor nos dá uma importante pista para refletir sobre a nossa prática de sala de aula: pressupor que o aluno vai ser capaz de falar sobre um determinado assunto tão logo o tenha aprendido é. neste momento. segundo Jerome S. senhores professores.indb 56 26/08/2008 14:06:17 . o próprio psicólogo russo nos apresentar qual conclusão. 1998) ―. interessa-nos seu trabalho que reconstituiu. 1992. 24). 41). Por esse motivo. vamos recorrer a um outro exemplo. o trabalho de um dos maiores historiadores contemporâneos: Carlo Ginzburg.

ele é um tipo de “herói do bem”. Este.A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano Católica.] O velho diz que o seu nariz fora quebrado. Todo mundo que conhece a história da Idade Média sabe que. p. tomemos aqui. 1988. coisa que estavam bem longe de ser. que. confessa abertamente aos juízes que o interrogam ser um lobisomem. Thiess fora ao inferno e lutara contra Skeistan. de Pentecostes e de São João.. porém sua conclusão não pode se manter intacta por muito tempo. como no caso do filme que estudamos). [. por um camponês de Lemburg. (GINSBURG. com meios “mágicos” ― muito parecidos com as simpatias que ainda hoje persistem entre nós ― fazer com que suas colheitas fossem bem sucedidas). Acompanhado por outros lobisomens. o italiano nos mostra que. Você já imaginou em que embrulhada ficaram os pobres que escutaram esse depoimento? “Thiess confessa ser um lobisomem. logo ele é do mal”. 50). mais freqüentemente acusadas de serem bruxas) eram completamente incapazes de defesa própria. Skeistan. os inquisidores não duvidavam: fogueira para eles! Por sua vez. tinha levado as sementes de trigo ao inferno para que as messes não crescessem. Para nós. esse conflito terminou muito mal. na prática. os modos de pensar estiveram sempre em fricção. juntamente com os seus companheiros. até um lugar situado “onde termina o mar”: o inferno. se ele confessa que vai ao inferno. na Itália. morto já há bastante tempo. Você já parou para pensar por que os padres da Idade Média localizavam tantas bruxas no mundo? O exame dos documentos. incapazes de entender a lógica dos inquisidores. pensam os inquisidores. como uma alcatéia. escapava-lhes completamente. na maioria transcrição dos depoimentos dos pobres camponeses torturados. na história da humanidade. pois. Três vezes por ano. justifica que o faz para combater o feiticeiro do mal que estava prejudicando as colheitas (Skeistan) – logo. Thiess. embora neles aparecessem palavras como inferno e diabo. o mais importante do trabalho de Ginzburg é que. confissão essa que os pobres coitados faziam sem sequer entender as conseqüências. Skeistan era um feiticeiro. não apareciam do modo como era esperado pelos torturadores.indb 57 26/08/2008 14:06:17 . um exemplo qualquer no qual dá para ver uma grande “confusão” em andamento: O acusado. havia golpeado o nariz do velho naquela ocasião. Incapazes de compreender uma lógica outra. um velho com mais de 80 anos. por ser tão diferente. eram fruto de pertencer a um determinado grupo histórico-social. Não se tratava de um confronto ocasional. armado de um cabo de vassoura (o atributo tradicional das bruxas) enrolado num rabo de cavalo. a Igreja da época tomou-os como sendo participantes de um culto demoníaco. por meio do exame rigoroso de fatos reais da história (e não mais da ficção. Para maior clareza. Por meio da tortura. dentre os muitos depoimentos analisados pelo pesquisador. no passado.. ou dizendo de outro modo. pois não conheciam o que 57 Livro 1. esses pobres camponeses (em especial as mulheres. essa mesma Igreja buscou fazer com que confessassem seu “pacto com o diabo”. nas noites de Santa Lúcia. antes do Natal. os lobisomens vão a pé. os modos de pensar dos praticantes de um culto da fertilidade que viveram entre o final do século XVI e a primeira metade do século XVII. mostrou que os inquisidores se viam constantemente em maus lençóis. pois. Sem compreender muita coisa das crenças bizarras dos camponeses (que simplesmente buscavam.

era logo transformado em mais um argumento de acusação. o el arte de amar el cuerpo de las palabras. dita-lhe os modos de pensar. Também. Nietzsche nos convidava a sermos filólogos rigorosos. colocar o acento na compreensão ou na interpretação é conceber a relação com as palavras como acesso ao espírito que está encarnado na letra ou como apropriação do 2 3 58 Fragmento da tradução realizada por Claudia Rosa Riolfi para o texto Erótica y hermenéutica. que poderia ser proferido aberta e publicamente.] O corpo das palavras opera como simples portador de seu sentido.Linguagem e Pensamento poderia ser utilizado como um argumento plausível do raciocínio do outro grupo.indb 58 26/08/2008 14:06:17 . leitor amigo. por sua essência incorpórea. a do mundo e a de si próprio. podemos compreender melhor a tese de Vygotsky segundo a qual o ser humano constitui-se na sua relação com o outro social. nem pelo uso. a escrever e a ler é ensinar a falar. quer dizer. torna-se parte da natureza humana.] Nietzsche nos convidava para sermos amante-amigo-apaixonados das palavras com uma forma de amizade e de amor que não passe pelo conhecimento. pois. para interpretar o mundo e a nós mesmos de outro modo.. Livro 1. da encarnação ou da transmissão de algo que é. como o lugar que tem e contém o sentido. Erótica e hermenêutica. [. É com o nome de Nietzsche que eu também apelo aqui. O que foi que eles aprenderam. a portar-se como está ordenado.. mas uma instância que.. a partir de um processo histórico. para se manterem vivos. Docente da Universidade de Barcelona.. talvez essencialmente. Uma palavra sem sentido é só um corpo. ou lugar-tenente de seu sentido. ou a arte de amar o corpo das palavras2 (LARROSA. a compreensão consiste em obter esse sentido arrancando-o do corpo e abandonando depois o cadáver como letra morta. [. para aprender a falar. e algumas práticas nas quais acreditavam para esconder. para a tua cumplicidade de filólogo [. É a sociedade que lhe ensina o que pode e deve ser dito e... Nietzsche nos convidava para sermos amante-amigo-apaixonado do corpo das palavras. a experimentar a realidade. Espanha. para serem feitas na calada da noite e negadas a todo e qualquer preço. então. inanimada. nem pela vontade de apropriação. para ser de outro modo.] Se as palavras não são outra coisa além do lugar da materialização.. O que começou a ser praticado de forma “inocente” passou então a ser feito de forma “maliciosa” e “pecaminosa”. então? Aprenderam que.3 2000) Nietzsche sabia que ensinar a falar.] no amor às palavras. a escrever e a ler como está ordenado. [. Para perverter a ordem e o conformismo.. uma palavra que não expressa nada. Pensando mais detidamente sobre os dois exemplos contidos neste capítulo e concluindo nossa reflexão. havia um “discurso certo” a fazer. Tudo o que diziam. Nesta visada. como está ordenado ou. a escrever e a ler de outro modo. os camponeses agregaram às suas práticas uma carga “maléfica” que anteriormente não estava lá. Desse ponto de vista. devido ao contato com os inquisidores. nas últimas conseqüências. como representante ou vicário. para se defender. que não diz nada. a cultura não é algo separado do humano. o que é o mesmo.

Para mim. Disponível em: <http ://ale ph-arts. ainda que paradoxalmente. Peter. justamente. precisamente. desorganiza a ordem e as regras.. de ininteligíveis. de ilegíveis.. eu só gosto das palavras. aquilo que nós nunca poderemos tornar nosso. e às vezes. Enquanto isto ocorre.. aquilo de que nós não podemos nos apropriar. as possibilidades sintáticas também. a palavra incorpora o desejo e o corpo. Presto atenção ao poder que as palavras. retira-se de nós escapando de qualquer apropriação. deixam de pertencer ao discurso... aquilo que.. têm para transformar o uso normal do discurso.org/accpar/numero1/ derrida1/htm>. Una entre vista con Jacques Derrida. amo as palavras... o léxico e a sintaxe. na maioria de meus textos existe um ponto no qual a palavra funciona de maneira não discursiva. não graças a mim.. Mas. sua relação constitutiva com a ordem e com a esperança: É verdade que só as palavras me interessam. como Garcia Calvo. no corpo das palavras. o corpo das palavras. para os modelos de interpretação simbólica. o objeto da compreensão é o espírito do texto: por isso a interpretação apenas pode realizar-se por meio da marginalização de sua dimensão corporal.indb 59 26/08/2008 14:06:17 . naquilo que podem ser usadas para explodir o discurso. é também por sua capacidade de escapar de sua própria forma. como poderia ser possível amar sem corpo? [.. nem conhecê-las nem usá-las.4 [. o que amamos é.. está nos ensinando a ler e a escrever de outro modo e que. 59 Livro 1.. Quer dizer. sua distância e sua ausência de respeito para consigo própria. e senti-las também no que têm de inapreensíveis.. De repente. Quando as palavras começam a enlouquecer desta maneira e deixam de comportar-se com respeito ao discurso é quando têm mais relação com as demais artes. na esteira de Nietzsche.. ou ainda. Compreender é aceder à profundidade espiritual e invisível encarnada na linguagem ultrapassando nela a superfície material de sua corporeidade visível. me explico a mim mesmo através do corpo das palavras – e creio que apenas se pode falar verdadeiramente do “corpo da palavra” levando em conta as reservas oriundas do fato de que falamos de um corpo que não está presente em si mesmo – e é o corpo de uma palavra o que me interessa no sentido de que não pertence ao discurso. Por isso. então. as trato sempre como corpos que contêm sua própria perversidade – sua própria desordem regulada... de um homem (ou de um nome) que. como o corpo da amante.. WILLS. pelo que tem de não discursivas. inevitavelmente. por interessar-me como coisas visíveis. 4 Em BRUNETTE. se amo as palavras.A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano sentido que está materializado e transportado no signo.. Assim. O que o corpo das palavras revela é. está nos convidando para amar aquilo que nas palavras pode funcionar para destecer o funcionamento servil do sentido. de incompreensíveis. escorre e se extravia de nós. também me interessam as palavras. mas senti-las: senti-las no que têm de perverso.] Escutemos a confissão de um amante-apaixonado do corpo das palavras.. se nos oferece plenamente e sem reservas e.. David.] Amar o corpo das palavras não é. em seu poder para subverter a normalidade própria do discursivo. O que eu faço com as palavras é fazê-las explodir para que o não verbal não apareça no verbal.. Para a hermenêutica tradicional e. E. a alteridade constitutiva da linguagem. Quer dizer. de qualquer captura apropriadora. faço funcionar as palavras de tal maneira que. em um dado momento. a linguagem se abre às artes não verbais. ao mesmo tempo. mas. como letras representando a visibilidade espacial da palavra ou como algo musical ou audível. Assim que estou realmente apaixonado pelas palavras. especialmente. Las artes espaciales..

O corpo das palavras não fica absorvido na significação. Não há nem correspondência. gravada por Ney Matogrosso em Quem não vive tem medo da morte (Gravadora CBS): Chavão abre porta grande (ASSUMPÇÃO. nem harmonia. Amar o corpo das palavras.] Por isso. de desestabilizá-lo. ao não-sentido. de subverter sua normalidade e de transtornar suas regras. a irrupção da nãolinguagem no âmago da linguagem. 1988) Não adianta vir arreganhando Os dentes pra mim Porque sei que isso não é um sorriso Penso logo existo Penso que existo Ou penso que penso Penso que penso Penso que penso Penso que penso Canto logo existo Canto enquanto isso Conto enquanto posso Enquanto posso Entre o sim e o não existe um vão Entre o sim e o não existe um vão Entre o sim e o não existe um vão Você já portou luvas no porta-luvas? 60 Livro 1. mas sim assumir e preservar o perigo de não haver sentido. significa nem iludir nem recalcar. o lugar do colapso do sentido. portanto. é capaz de fazer explodir o discurso. O corpo das palavras é o lugar do desfalecimento da compreensão. porque o corpo das palavras é o que. pode abrir-se à perda do sentido.. pura exterioridade. nem integração entre a letra e o espírito. porém não uma insignificância neutra. contudo.Linguagem e Pensamento O corpo das palavras é a revelação do que nelas não pertence ao discurso. Leia cuidadosamente a letra de canção que se segue. não fica dissolvido na pura função da representação. a ameaça permanente da interrupção da positividade ordenada de nossos discursos produtores de sentido. amar o corpo das palavras é fazê-las explodir. em todo discurso. Como se o corpo das palavras fosse lugar de sua liberdade. fazê-las funcionar pervertendo ou enlouquecendo qualquer tentativa de mediação encaminhada para a fabricação de sentido. O corpo das palavras é sua insignificância. GUARÁ. Mas de uma não-linguagem que subverte a linguagem.. de um não-discurso que. mas tampouco há ausência de relação. [. mas tampouco se mantém exterior a ela.indb 60 26/08/2008 14:06:18 . dado que revela que as palavras são sempre outra coisa além de servidoras do desejo de sentido que determina o bom funcionamento da ordem do discursivo. mas uma insignificância que faz a significação enlouquecer.

prestes a romper o relacionamento. antes mesmo de poder conversar. Que indícios (por exemplo. 3. discutindo em pequenos grupos. paciente.indb 61 26/08/2008 14:06:18 . confiável. 61 Livro 1.] Após a leitura e a discussão da letra. o falso elogio. Tendo esse apontamento em mente.] O real. 2. a promessa sem intenção de ser cumprida e assim por diante. lento para entender as informações. contente. que ele está com raiva de você. Ao fazê-lo. com ciúmes.) fazem com que. preocupado. desconfiado. o eu lírico diz para o interlocutor a quem dirige sua fala: “Não adianta vir arreganhando os dentes pra mim porque sei que isso não é um sorriso”.A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano [. que lhe deram dicas? Você procura ensinar aos mais novos (filhos. Quais são os indícios que fazem com que. você saiba dizer. o real é a rocha que o poeta lapida Doando à humanidade mal-agradecida Poeta talvez seja melhor Afinar o coro dos descontentes [.. refletir. A partir de que idade você pensa que aprendeu fazer a leitura que lhe permitiu responder às questões 1 e 2? Aprendeu sozinho ou teve auxílio dos mais velhos. modo de vestir. 4. tom de voz... expressão facial. por exemplo. sobre as questões abaixo. 1. uma pessoa perigosa? Como faz para que compreendam quais traços. alunos) como reconhecer. antes mesmo de haver uma conversa.. com relação a uma pessoa que você conhece muito bem. uso de maquiagem etc. sobrinhos. quando você observa um desconhecido. prostituído. devem ser observados? Que conclusões sua turma pôde tirar com relação às influências das questões culturais sobre a percepção e o pensamento por meio da reflexão causada pelas perguntas propostas nesta atividade? 5. atente para o fato de que. você fique desconfiado de que se trata de alguém falso. aponta para a dimensão do logro nas relações sociais: o riso amarelo. desonesto. logo no início. em sua opinião.

Linguagem e Pensamento

Leia, a seguir, a letra da canção “Há”, de Luiz Tatit. Ela foi gravada pela cantora Daúde, no CD homônimo, da Natasha Records.


(TATIT, 1995)

Ah! Não pode usar qualquer palavra Então é por isso que não dava ? Eu tentava repetia Achava lindo e colocava se não cabe se não pode tem que trocar de palavra Ah! mas é tão bom essa palavra Carregada de sentido e com o som tão delicado Agora eu vou ter que trocar ? Ah! Vão se danar! Você acha que nós humanos temos mesmo um amor todo especial por algumas palavras?

CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004. Com escolha criteriosa de verbetes e apresentação cuidadosa das diversas acepções nas quais pode ser tomado, este dicionário constitui-se em um instrumento de trabalho imprescindível para todos aqueles que desejam vir a construir um trabalho com as produções verbais de uma perspectiva da análise do discurso, área que, afastando-se de uma concepção de linguagem como expressão do pensamento, ajuda-nos a decifrar o não-dito presente nos enunciados e nos silêncios de um dado sujeito. CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Campinas/Londrina: Editora da Unicamp/Eduel, 2003. Este grande livro, de 683 páginas, é um atual e completo panorama de um dos ramos da lingüística que mais se relaciona com a especificidade do ser humano: a semântica, área de estudo que pretende responder ao que faz com que as palavras e as sentenças signifiquem. Sem perda de qualidade ou de conteúdo, Chierchia aborda a matéria de modo informal e simples, recorrendo, além disso, a outros expedientes para nos ajudar a adentrar nesta área tão complexa: exercícios, exemplos, indicações bibliográficas para leituras suplementares, entre outros.

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A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano

ASSUMPÇÃO, Itamar; GUARÁ, Ricardo. Chavão abre porta grande. In: MATOGROSSO, Ney. Quem não vive tem medo da morte. Rio de Janeiro: CBS, 1988. BRUNETTE, Peter; WILLS, David. Las artes espaciales: una entrevista con Jacques Derrida. Disponível em: <http ://aleph-arts.org/accpar/numero1/derrida1/htm>. Acesso em: 20 set. 2005. CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004. CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Campinas/Londrina: Editora da Unicamp/Eduel, 2003. GINSBURG, Carlo. Os andarilhos do bem: feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. LARROSA, Jorge. Erótica e hermenêutica, ou, a arte de amar o corpo das palavras. Revista Nexos - Estudos em Comunicação e Educação, n. 6, ano IV, jan.-jul. 2000. OLIVEIRA, Marta Khol de. Vygotsky e o processo de formação de conceitos. In: LA TAILLE, Yves de et al. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992, p. 23-34. TATIT, Luiz. Há. In: Daúde. Rio de Janeiro: Natasha Records, 1995. f.8. VYGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998. ______; LURIA, Alxander Romanovich. Estudos sobre a história do comportamento: símios, homem primitivo e criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

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está sofrendo fortes empurrões para todos os lados e sente que. Aposto que você está com medo. alguém mais apostou nessa hipótese e lhe colocou sobre um ventre macio – do lado de fora. Há luz. Como é bom. curiosamente. pela primeira vez. dando-lhe motivos para viver. vai escorregar. Agora. encaixava-se. tato e paladar são convocados e. eis que. ainda na primeira hora de vida de uma criança nascida em condições normais. buscou ajuda profissional para ajudá-la a cumprir essa missão que todas as outras mamíferas fazem sozinhas: dar à luz um bebê. evidentemente. sua mãe está nervosa. Virava. De repente. não mais que de repente. os órgãos dos sentidos entram em ação: audição. Santo Deus. Provavelmente.. pôde perceber que. quando todas as palavras estavam do lado do outro. Há um cheiro lá.Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem Claudia Rosa Riolfi P ara introduzir este capítulo. o gosto do leite inundou o céu de sua boca. até que valeu a pena todo aquele empurra-empurra. então. Como está frio! Os ruídos tornaram-se muito altos e invadem seus ouvidos. Tempo de susto e de perplexidade. era o corpo. Sua língua se mexeu e você sugou e. Alguém lhe pendurou e começou a esfregar um pano no seu corpo. Vamos lá? Até há pouco tempo.indb 65 26/08/2008 14:06:18 . era você quem decidia como e quando mexia seu corpo. Trata-se do seguinte: transporte-se agora para os minutos que precederam seu nascimento. Como o cérebro do bebê reagiu a tanta excitação? Com sorte. mas nada simples. Lá vai você rumo ao desconhecido. encaixava-se perfeitamente em sua boca. Acompanhe-a durante o trabalho de parto. olfato. No início. torcia. Por esse motivo. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. seu corpo deixou o meio líquido e o ar faz fricção em sua pele. Se você conseguiu fazer o exercício proposto. começam a ligar o bebê ao mundo. Doutora em Lingüística pela Unicamp.. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. Livro 1. Ele vai exigir muita imaginação e capacidade de desprendimento. pois seu objetivo é levá-lo para um tempo anterior ao advento de seu pensamento e de sua inscrição na linguagem. de algum modo. querendo ou não. Psicanalista. tentando projetar como esse processo se deu para você. inevitavelmente. Seu instinto falou mais forte e você achou um mamilo que. vamos propor a você um exercício pequeno. visão. que tem como tema específico os modos de enganchamento entre pensamento e linguagem. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP.

mas. ao descrever a experiência de satisfação do bebê humano no texto Projeto para uma psicologia científica. A título de curiosidade. em 1895. seguida da sensação que essa percepção provoca no corpo.Linguagem e Pensamento No início. O mundo é mudo. Essa via de descarga adquire.]. e (3) em outros pontos do pallium chegam as informações sobre a descarga do movimento reflexo liberado que se segue à ação específica. O organismo humano é.. também consegue construir. interrogarmos mais aprofundadamente as relações entre pensamento e linguagem. elimina-se a urgência que causou desprazer em. só pode ser promovida de determinadas maneiras. O bebê passou por uma experiência riquíssima. e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. pois é apenas quando pode dispor de rudimentos de palavras que o humano começa a organizar um pensamento elaborado que difere daquilo que um chimpanzé. a importantíssima função secundária da comunicação. assim. dada a reiteração dessa tese principal. leia agora um fragmento desse trabalho que fala sobre o que acontece quando o bebê precisa lidar com sua sensação de fome. como ação específica. este último fica em posição. (2) produz-se no pallium a catexização de um (ou de vários) neurônio(s) que corresponde(m) à percepção do objeto. o psicanalista austríaco Sigmund Freud aproximava-se muito da perspectiva aqui descrita. como ele ainda não transita por ela. quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de alteração interna. assim. [. É interessante notar que. há o predomínio da pura percepção. não menos de um ano. não nos diz seu nome. estamos aqui afirmando mais uma vez que a linguagem tem uma função primordial na organização de nossas complexas formas de pensar e. com Vygotsky. 66 Livro 1. Ou seja.indb 66 26/08/2008 14:06:18 . a princípio. é chegada a hora de. A totalidade do evento constitui então a experiência de satisfação.. Ela se efetua por ajuda alheia. por meio de dispositivos reflexos. Você já se deu conta de quanto tempo demora para que a educação (familiar ou institucional) tire o bebê desse funcionamento mínimo e o faça interagir com o mundo de maneira refletida? No melhor dos casos. mas nem sabe quem é e nem conseguiria explicar o que de fato viveu. A palavra existe. Estabelece-se então uma facilitação entre as catexias e os neurônios nucleares. Isso porque três coisas ocorrem no sistema: (1) efetuase uma descarga permanente e. animal bastante inteligente.] Quando a pessoa que ajuda executa o trabalho da ação específica no mundo externo para o desamparado. Ele se reduz a seu corpo e às sensações agradáveis ou desagradáveis que este possa lhe proporcionar. a alternância entre prazer e desprazer. portanto. de executar imediatamente no interior de seu corpo a atividade necessária para remover o estímulo endógeno. que tem as conseqüências mais radicais no desenvolvimento das funções do indivíduo. incapaz de promover essa ação específica.. Uma intervenção dessa ordem requer a alteração no mundo externo [.. que. está sujeito a um funcionamento muito parecido aos demais mamíferos.

p. é por meio delas que ele passa a existir” (VYGOTSKY. p.. não é mesmo? Quando nos interrogamos sobre as relações entre pensamento e linguagem.: “Uma mulher feia é aquela em que as partes do corpo não combinam entre si”). 151). “o pensamento não é simplesmente expresso em palavras.indb 67 26/08/2008 14:06:19 . para o autor. 1998. portanto. melhor dizendo. pode-se afirmar que. 156-157). portanto. o pensamento aparece primeiro e nos dá condições de aprender as palavras.] do ponto de vista da psicologia. a palavra é o material do pensamento ou. ela é o meio pelo qual o pensamento se estrutura. 1998. 1998. Para ele. Embora foque na análise dos significados das palavras. a parte da palavra que interessa é o significado. p.: “Que mulher feia!”). Não temos contato direto com o mundo. utilizando os termos do autor. que dá muita importância à aparência física. De fato. [. Neste momento. Para Vygostsky. com certeza absoluta já ouviu a seguinte interrogação: “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?” Também deve saber que nos lembramos de reproduzir essa frase toda vez que nos parece muito difícil determinar onde alguma coisa começou.: “Fulana. ele concebe cada palavra como uma generalização que consiste em “um ato verbal do pensamento e reflete a realidade de modo bem diverso daquele da sensação e da percepção” (VYGOTSKY. seu componente indispensável. pode haver entendimento entre as mentes por meio da linguagem como expressão mediadora. são os significados que associam o pensamento à representação da realidade feita pelos sujeitos. Vygotsky encontra-se dentre os partidários do último grupo. 67 Livro 1. ou de nossas deduções (Ex.” (VYGOTSKY. que é o de pensar que uma palavra refere-se a um objeto isolado do mundo. o significado de cada palavra é uma generalização ou um conceito. de nossos conceitos (Ex. Somente dentro do sistema. O autor não comete o mesmo erro comum entre os não-especialistas em linguagem.. podemos concluir. e para outros ocorre o contrário. Lendo essa citação. o significado. para o autor. é um critério da ‘palavra’. que. é importante ressaltar dois aspectos cruciais na teoria do significado da palavra adotada por Vygotsky. nas palavras do próprio autor. está muito reticente sobre a nova namorada do filho: ela deve ser feia”). logo aparecem acaloradas discussões de igual teor: para alguns. mas incidimos parcialmente sobre ele na forma de nossos juízos (Ex. Muito pelo contrário. 6). Afastando-se desse ponto de vista inadequado. É importante ressaltar que o psicólogo russo não explica o papel de ligação entre pensamento e linguagem exercido pela palavra considerando sua materialidade sonora (significante). o autor não ignora que elas só funcionam na presença de um sistema de signos que lhes dá consistência. essa centralidade do significado: “Uma palavra sem significado é um som vazio.Significado da palavra O conceito de pensamento verbal em Vygotsky Se você tem mais de 15 anos. Como a palavra poderia dar origem ao pensamento? Vejamos.

Observe a Figura 1. no cérebro humano pensamento e linguagem estão ligados numa zona que consiste no pensamento já recortado e formatado por meio da palavra. para o psicólogo russo. eles não nos fornecem qualquer descrição mais concreta de como seria uma mulher considerada feia pelo seu locutor. temos acesso às palavras escolhidas por ele para descrevê-los para nós. No máximo. Ao fazê-lo. na compreensão de que se tratava de fenômenos indissociáveis. embora os três exemplos do parágrafo precedente sejam perfeitamente compreensíveis para todos nós. para uma melhor visualização da teoria de Vygotsky sobre a relação entre pensamento e linguagem. 68 Livro 1. ou seja. Figura 1: O pensamento verbal como locus da união entre pensamento e linguagem Observando a Figura 1 mais atentamente. isto é. a julguemos bastante apresentável. construiu uma terceira vertente aproximativa. quais sejam: a identificação – perspectiva que consiste na fusão entre o pensamento e a fala. na compreensão de que são fenômenos que nada têm em comum. e a disjunção – perspectiva que consiste na segregação entre o pensamento e a fala. ao nos encontrarmos com a pessoa. O que isso significa? Que ninguém tem acesso direto aos objetos que são alvo do pensamento do outro. pode ser que. referindo-se àquele subgrupo de elementos que é comum a dois conjuntos maiores).indb 68 26/08/2008 14:06:19 . isto é. Inclusive. o leitor notará que.Linguagem e Pensamento É importante notar que. para construir sua teoria sobre as relações entre pensamento e linguagem. Dada essa compreensão. Vygotsky (1998) afastou-se de duas tradições de pesquisa que circulavam em sua época. é importante notar que. a intersecção (termo a ser entendido do modo como é feito na teoria dos conjuntos. Vygotsky chama essa entidade híbrida de pensamento verbal.

permite que um sujeito compreenda as coisas que vê e vive e. Em suma: nesta visada. 69 Livro 1. o significado da palavra dá aos homens uma coerência em sua reflexão e mantém aos olhos de seus pares uma consistência de seu lugar no mundo. em grande parte. funcionando tanto em uma vertente interna quanto em uma externa. De acordo com a Figura 2.1 1 Agradeço a Valdir Heitor Barzotto a gentileza de autorizar a divulgação deste encantador parágrafo de uma carta escrita por ele para João Wanderley Geraldi. Não se pode esquecer que. que possa partilhar essa compreensão com seus pares e descendentes. Ao recortar uma massa indistinguível de pensamento em pensamento verbal. Para ilustrar a riqueza em que consiste o acompanhamento da evolução dos modos de pensar sobre o mundo e expressar os pensamentos de uma criança. a classificação e a seriação. trago aqui um testemunho escrito por um pai de uma menina brasileira que. Isto é verdade tanto se considerarmos a história da humanidade quanto se isolarmos a história de uma criança em particular. podemos pensar que. por exemplo. para uma primeira tomada de conhecimento dessa dupla função. Figura 2: A dupla face da palavra Ser uma unidade interna do pensamento generalizante. Confira a Figura 2. função externa da palavra – permitir aos homens que possam a) compartilhar as conclusões a que chegaram a partir da organização prévia de suas idéias.indb 69 26/08/2008 14:06:19 . em 20 de janeiro de 1997.Significado da palavra A dupla função organizadora da palavra Para Vygotsky. não são estáticas. Ser uma unidade do intercâmbio social. c) transmitir esses conceitos aos descendentes de uma cultura. na ocasião em que os fatos relatados ocorreram. estava com 18 meses. a palavra tem importantes funções de organização interna e externa do ser humano. b) inserir-se nas relações sócio-históricas por meio de um lento processo de apropriação dos conceitos. Retomando um pouco mais esquematicamente: função interna da palavra – organizar o pensamento do homem. esse processo se deve ao fato de que as palavras evoluem. também. a palavra tem uma importante função no desenvolvimento intelectual do humano. por meio de operações como.

na qual incluiu todas as aves e as tartarugas.” Morando na França. Nas igrejas. a menininha fala como pode. Agora. sempre de modo mais pertinente. é a mesma coisa. Quando a gente entra. que na ocasião estava fazendo parte de seu doutorado em lingüística em Paris. e as tartarugas. Depois. batô. Para mim. vai perceber que. Acompanhemos sua saborosa narrativa. descobrindo o mundo em duas línguas. ela descobriu o cachorro e o chamou de vau. o português. o mó (englobando geralmente os vaus que têm chifres) e o cavao (os vaus que pareçam meio grandes). que logo foi aperfeiçoada para peixo. ela se inscreve no mundo e.Linguagem e Pensamento Observe que o narrador. Ela já desenvolveu até um balanço de corpo específico para fazer quem estiver com ela no colo ir para o quadro seguinte. E canta uma musiquinha que tem um longínquo parentesco com a nossa A barquinha virou. ela ria quando a gente falava francês com ela. Ainda bastante necessitada de usar a mímica e os movimentos de corpo. achava que era brincadeira. ontem fomos com ela ao Zoológico. Em geral. Ele não se limita a narrar acontecimentos. ficando neste último grupo. Ao fazê-lo. A cada vez. Como grupo isolado. Passou um pouco mais e ela dividiu ainda mais a fauna. sem dúvida. mostra-se encantado com as inegáveis mostras de refinamento conceitual de sua pequena filha e. Penso que a partir de agora sua análise vai ficar ainda mais refinada. segundo seu pai. ovoá (au revoir). Depois. ela vai descobrindo coisas menores nos quadros. ela já sabe que muita gente fala francês e até fala alguma coisa como boju (bon jour). Veio então o tempo de redefinir o grupo vau: ganharam autonomia dois grupos. Laura adora museus. batô. lá está o lingüista. No começo. ela já sabe onde está e vibra. entretanto. Se o leitor prestar bastante atenção. contamina os adultos que a cercam com a agudeza de seu olhar. ela faz voltar várias vezes naquele que ela mais gostou. inventando a categoria pexe. Com um pouco mais de observação e de reflexão. ela resolveu de uma vez por todas o problema de classificação das focas: quando está nadando é peixo. maintnant. os nalijo (nariz) e os pé dos anjos! Sua língua é. ela vê primeiro os bida (umbigo). gasta algum espaço de uma longa carta escrita para seu orientador no Brasil visando a partilhar a experiência que vivia naquele momento narrando uma parte de sua vida familiar. Quem produz conhecimento a todo vapor é mademoiselle Lorrá (Laura para os poucos íntimos que ela tem por aqui). Não se trata. vavá (ça va?). é difícil acompanhála. resolveu incluir toda a fauna nessa categoria. ela já esta em uma situação que é bastante diferente daquela do bebê pequeno com a qual 70 Livro 1. quando põe a cabeça fora d’água é vau. mas o faz estabelecendo as relações existentes entre a ampliação vocabular e a compreensão de mundo testemunhado por sua garotinha. sempre meio estranho. Aproveitando essa fase produtiva. figuram em sua classificação o popote (hipopótamo) e o giiafa. por esse motivo. de uma narrativa vã. mas. Primeiro. Na área de zoologia. ela criou a categoria pato.indb 70 26/08/2008 14:06:19 . dando testemunho dessa delicada operação. para além do pai. tô (manteau). jacarés e cobras foram reclassificadas. é: batô.

sua experiência de vida se tece. não existe isolado. Suas percepções e sensações já não são mais corpóreas: estão sujeitas aos dispositivos culturais e. “Para ele. não se pode sustentar 71 Livro 1. é que se forma a consciência. está impregnada de relações dialógicas. a criatividade do sujeito humano: é influenciado pelo meio. condicionando o discurso do eu. mas se volta sobre ele para transformálo. Se no início da aventura do homem sobre a Terra há o predomínio da pura percepção. Essa operação não é vã: ela nos leva a construir categorias cada vez mais elaboradas para conduzir nossa reflexão.. cujo método de análise é a dialética. a realidade da consciência é a linguagem e são os fatores sociais que determinam o conteúdo da consciência – do conjunto dos discursos que atravessam o indivíduo ao longo de sua vida. apesar de plural. portanto. entrecruza-se e interpenetra com o outro. O próprio humano é um intertexto. Em linguagem bakhtiniana. formando seu repertório de vida. Este é um outro modo de dizer que somos seres de linguagem. como não estamos sozinhos sobre a face da terra. Duas vezes nasce o homem: fisicamente (o que não o faz inserir na história) e socialmente determinado pelas condições sociais e econômicas. na forma de suas palavras. o outro-para-mim. O mundo que se revela ao ser humano se dá pelos discursos que ele assimila. não há um mundo dado ao qual o sujeito possa se opor.] A consciência individual é. a noção do eu nunca é individual. tem uma unidade garantida pela centralidade da linguagem. um fato social e ideológico. não se pode inferir que o ser humano seja meramente reprodutivo. social da produção de idéias e textos. Bakhtin aborda os processos de formação do eu através de três categorias: o eu-paramim.Significado da palavra iniciamos esta investigação. Posto isso. portanto. nossos semelhantes logo passam a dizer os nomes das “coisas do mundo”. 2005) O pensamento de Bakhtin revelado em suas obras. As palavras de um falante estão sempre e inevitavelmente atravessadas pelas palavras do outro: o discurso elaborado pelo falante se constitui também do discurso do outro que o atravessa.indb 71 26/08/2008 14:06:19 .” [. A palavra tem uma importante função no desenvolvimento intelectual do humano.. O que podemos concluir dessa leitura de parte do percurso de construção do pensamento de uma criança? Dialogismo: a linguagem verbal como exercício do social (LUKIANCHUKI. mas social. Dialogismo é o conceito que permeia toda a sua obra. Pelo fato de a consciência ser determinada socialmente. A concepção dialógica contém a idéia de relatividade da autoria individual e conseqüentemente o destaque do caráter coletivo. Pensar em relação dialógica é remeter a um outro princípio — a não-autonomia do discurso. Da formulação dessa tríade. o que se ressalta é. em qualquer campo. É o princípio constitutivo da linguagem. Dito de outra maneira. pode-se entrever sua inquietude frente a algumas questões: Como o eu estabelece sua relação com o mundo? Existe uma oposição entre o sujeito e o objeto? De acordo com Maria Teresa de Assunção Freitas. É o próprio mundo externo que se torna determinado e concreto para o sujeito que com ele se relaciona. o que quer dizer que toda a vida da linguagem. às quais nos apresentam. o eu-para-os-outros. seguida da sensação que esta percepção provoca no corpo e. neles deixam sua marca. Nos seus escritos.

possuem um auditório organizado que mantém a sua permanência. a saber. mas que podem ganhar corpo. A contribuição à complexidade desse conceito também se verifica por implicar outros: interação verbal. pode oferecer obstáculos à sua realização/manutenção provocando rupturas que vão infiltrando sensíveis mudanças iniciais. o nordestino. Sem os signos a atividade interior não existe.] Retomando a questão do dialogismo. são formas de vida em comum relativamente regularizadas.. aproximando-os ou distanciando-os em graus diferenciados. no entanto. A palavra não é só meio de comunicação. a mulher etc. São estas especificidades que vão estabelecer as diferenças entre eles. inclusive.] Por todas essas considerações.. É a idéia da palavra em movimento. O enunciatário. evidência da afirmação de Bakhtin ao dizer que “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência” ou “todo signo é ideológico”. intertextualidade e polifonia. O livro. procura apoio etc. À idéia de diálogo agrega-se um outro elemento que não se refere apenas à fala em voz alta de duas pessoas. Tudo está em constante comunicação. assim. manifestada ou não..indb 72 26/08/2008 14:06:19 . que. ainda com relação à palavra diálogo. O ser social nasce com o exercício de sua linguagem. reforçadas pelo uso e pela circunstância.”. “O discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa. seja pelo enunciador. confirma. a importância desse conceito reside. Conforme Bakhtin. que são determinadas pela situação de sua enunciação e pelo seu auditório. no fato de ratificar o conceito de comunicação como interação verbal e não verbal e não apenas como transmissão de informação. Dessa maneira. qualquer tipo de comunicação verbal. mas também conteúdo da própria atividade psíquica. o judeu. antecipa as respostas e objeções potenciais. o poder da palavra. [. rompem com a arrogância e a onipotência do discurso monológico. Por essa razão é que.Linguagem e Pensamento a idéia — tão propalada pelo idealismo e pelo positivismo psicologista — de que a ideologia deriva da consciência. refletindo. Do ponto de vista comunicacional. os sujeitos são postos em ação para reproduzir ou mudar o social. e nele se amplia pela ação. refuta. A toda essa questão está relacionada a formação de repertórios. ou seja. do qual se emanam as várias e inesgotáveis enunciações. O mais importante é perceber que todos eles. seja pelo enunciatário. exterior ou interior. mesmo em uma aparente simples anedota que se conta sobre o negro. “A situação e o auditório obrigam o discurso interior a realizar-se em uma expressão exterior definida. Daí o entendimento de que todos são sujeitos da enunciação – enunciador e enunciatário – porque o caráter interativo nada mais é do que a possibilidade de transformação. por exemplo. ideologicamente a composição social do grupo. Segundo Bakhtin.. 72 Livro 1. independentemente de suas particularidades. Esses termos parecem designar um mesmo fenômeno com pequenas variações entre si. mas a um discurso interior. que se insere diretamente no contexto não verbalizado da vida corrente. Sob a forma de signos é que a atividade mental é expressa exterior e internamente para o próprio indivíduo. pelo gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes na situação de enunciação.. Por meio dela. os preconceitos que afloram nada mais são do que exercício constante dos elementos culturais desse grupo social. [. e. passando a refletir e refratar a realidade dada.”. pode-se tomá-la também em seu sentido amplo. é um ato de fala impresso. além do seu sentido estrito — o ato de fala entre duas ou mais pessoas —. pode-se perceber por que o dialogismo é vital para a compreensão dos estudos de Bakhtin e das questões referentes à linguagem como constitutiva da experiência humana e seu papel ativo no pensamento e no conhecimento. no dizer de Bakhtin. as formas estereotipadas no discurso da vida cotidiana respondem por um discurso social que as consolida. oral ou escrita.

Faz-se com as palavras. como a criança reage? Ela acompanha com os olhos o que a mãe lhe mostra? Sorri? Tenta balbuciar alguns ruídos que parecem ser uma tentativa de repetir o nome do objeto ou da pessoa apontada? Caso você tenha encontrado uma mãe que não coloca as palavras para os objetos que a criança percebe.). você possa observar dois pontos principais. o bebê parece se incomodar com isso? Desenvolvimento Analise as situações observadas por você à luz da teoria estudada ao longo deste capítulo. em algum parque infantil de sua cidade etc. aponta para animais dizendo seu nome. Posteriormente. explica algum ruído estranho e assim por diante? Ou será que você encontrou uma mãe que está cuidando de seu bebê sem se preocupar em introduzi-lo na cultura contemporânea? Em caso afirmativo. A mãe observada por você mostra o mundo para a criança? Ela. O seguinte diálogo teria ocorrido entre o célebre pintor Degas e o não menos célebre poeta Mallarmé: Degas: ― Não sei por que não faço belos poemas. Tenho tantas belas idéias. na sua igreja. o papel central da palavra na formação da consciência individual e no estabelecimento de laços sociais. O importante é que. por exemplo. Mallarmé: ― Acontece que não se faz poemas com as idéias. Não importa onde ou como você vai fazer isso (entre seus familiares. no seu círculo de amigos. escreva um texto argumentativo composto de três partes: a descrição da relação entre mãe e bebê observada por você. e sua posição pessoal com relação à teoria de Vygotsky a partir do que você pode observar empiricamente. sem interferir na relação do par. mostra conhecidos que passam por eles.Significado da palavra O objetivo da atividade que se segue é estudar.indb 73 26/08/2008 14:06:20 . Seria ideal que você e seus colegas circulassem estes trabalhos de modo que todos se beneficiassem da exposição de diferentes pontos de vista. de forma prática. Preparação Procure observar mães interagindo com bebês de idades variadas até 12 meses. Você concorda com a resposta dada por Mallarmé? 73 Livro 1. as partes do capítulo que a observação desta relação fizeram você lembrar.

que tem por finalidade a expressão verbal. Dialogismo: a linguagem verbal como exercício do social. uma tentativa de estudar o pensamento propriamente dito ou. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria. leitura e escrita. Alexander Romanovich. 1987. Acesso em: 10 set. Porto Alegre: Artes Médicas. _____. portanto. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria. Projeto para uma psicologia científica. Victor Iosifovich. LUKIANCHUKI. a linguagem interior.indb 74 26/08/2008 14:06:20 . Lev Semenovich. Porto Alegre: Artes Médicas. Estudar o projeto de alocução é.cefetsp.Linguagem e Pensamento LURIA. In: _____. destaca-se o conceito de comunicação verbal desdobrada. a linguagem oral e a organização cerebral. Porto Alegre: Artes Médicas. Disponível em: <http://www. mas precedida por um complexo mecanismo interior. São Paulo: Martins Fontes. Alexander Romanovich. VYGOTSKY. Ressalte-se que este é uma publicação de fundamental importância para os professores que trabalham com a expressão oral. melhor dizendo. 1987. Dentre essas tantas contribuições. Cláudia. projeto de alocução) que precede um determinado ato de fala. Linguagem e desenvolvimento intelectual da criança. 2005. uma vez que deixa claro que uma enunciação verbal não é um simples ato de materialização de uma idéia previamente formada. refere-se ao processo psíquico interno (para o autor. a parte deste que é possível conhecer. 74 Livro 1. YUDOVICH. que. por sua vez. Pensamento e linguagem. o desenvolvimento das palavras. 1985. FREUD.html>. Rio de Janeiro: Imago. a palavra e a estrutura semântica. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. campos semânticos. Sigmund. uma vez que ele não se deixa apreender totalmente pela linguagem. Esta obra trata de diversos temas articulados entre si: a relação entre a linguagem e a consciência.br/edu/sinergia/claudia2. 1998. 1998. LURIA.

em determinado momento de sua vida. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. tendo se dado conta. O segundo grupo. sua posição pode ser descrita do seguinte modo: “É de pequenino que se torce o pepino. cada um permanece do jeito que sempre foi e sempre será. portanto. Como uma espécie de múmia viva.indb 75 26/08/2008 14:06:20 .O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança Claudia Rosa Riolfi V ocê já parou para pensar que. ausência de adultos comprometidos com a criança. Ainda recorrendo ao campo dos ditados populares. embora seja verdadeiro que. reconhecem que a possibilidade de alterações não é infinita. Muito comumente. não existe consenso sobre as possibilidades e limitações da educação na formação de uma criança? De um lado. de um erro cometido na educação de um filho. estão os corajosos que assumem o desafio de sustentar o ato educativo desde a mais tenra idade daqueles pelos quais se sentem responsáveis. não é menos verdadeiro que essas tendências ― em certa medida. inserção em uma comunidade de criminalidade etc. Livro 1. não existindo. uma vez que encontra limites no real do corpo e em todo tipo de contingência social (condições socioeconômicas muito precárias. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. tudo aquilo que um homem virá a ser um dia.” O primeiro grupo. desde o nascimento (e talvez até antes) seja possível detectar diferenças de comportamento. Doutora em Lingüística pela Unicamp. gostos. por exemplo. em nossa cultura. Psicanalista.). qualquer possibilidade de sucesso para alguém que. está um grande número de adultos descompromissados que justificam sua falta de habilidade para exercer uma ação formativa por meio de uma posição determinista. da alteração qualitativa da situação de um sujeito. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. Segundo sua lógica. já há no bebê. em nossos bebês. ele vem e vai no mundo sem nunca ter deixado sobre ele qualquer tipo de marca. é partidário da possibilidade do movimento. deseja corrigi-lo. em estado latente. conseqüentemente. Ela pode ser expressa pelo ditado popular “Pau que nasce torto. ao contrário. constitucionais ― possam ser refreadas ou encorajadas de acordo com as normas da cultura na qual a criança está sendo inserida. Do outro lado.” Segundo sua lógica. morre torto. caráter etc. acredita em uma espécie de petrificação do homem: ao longo de sua vida.

não se tratava de uma posição de douto conferencista. São fogos de artifício. previne a criança de que aquela situação tende a se repetir. o adulto tem um papel absolutamente primordial no desenvolvimento intelectual de uma criança. Quando ele defendia a importância do papel dos adultos no desenvolvimento dos pequenos. agora. que besta!” Enquanto isso. 4) usando a palavra sempre.” Analisando os dois enunciados fictícios aqui reproduzidos. ao mesmo tempo é uma pergunta séria. o autor defendia a tese de que toda e qualquer aquisição de conhecimento por parte de um humano é sempre intermediada (explícita ou implicitamente) pelas pessoas que rodeiam a criança. mas simplesmente do fato de poder portar condignamente os significados sociais e históricos das coisas e palavras com as quais o bebê toma contato. diz “Cala a boca. como resultado de suas inúmeras pesquisas. é importante ressaltar que Vygotsky não imaginava que o pai e a mãe de um bebê deveriam se portar como uma espécie de professores antecipados na educação de seus filhos. A linguagem torna o homem mais complexo As teses que devem sua origem ao pensamento vygotskyano defendem uma concepção de homem segundo a qual o adulto humano é um ser que nasce portando várias de suas futuras qualidades em estado latente. Entretanto. 2) nomeia o objeto que está produzindo o ruído. Tomemos o caso de uma criança assustada com o barulho de fogos de artifício. Neste ponto. seu tonto. por sua vez. 3) esclarece a criança sobre os usos sociais do objeto. Por 76 Livro 1. A segunda. mas torna-se um ser capaz de construir e usar um complexo sistema de “processamento de dados” que corresponde aos complexos mentais superiores.indb 76 26/08/2008 14:06:20 . Isto é: ninguém nasce “inteligente”. As pessoas sempre usam para comemorar quando estão contentes. vamos trazer aqui um exemplo muito simples.Linguagem e Pensamento Vamos propor. em que grupo ele estaria? Você disse que estaria no grupo dos que acreditam na necessidade de “torcer o pepino”? Muito bem! Esta resposta indica que você está pronto para compreender o papel que a linguagem exerce no desenvolvimento intelectual de uma criança. Se Vygotsky fosse vivo e estivesse fazendo fofoca sobre os filhos dos vizinhos aí pertinho da sua casa. então. realiza as seguintes operações por meio de sua fala: 1) acalma a criança. aquela que vamos chamar de mãe 2 diz “Não se assuste. uma brincadeira que. veremos que a primeira mãe limita-se a insultar seu próprio filho e opta por mantê-lo na ignorância no que diz respeito às causas de seu medo. portanto. Mesmo correndo o risco de tratar a questão de modo um pouco superficial. Aquela que vamos chamar de mãe 1. Dentro desta visada. Como se porta o adulto que exerce a importante função de introduzir os novatos na cultura elaborada? Ao contrário. ele se afasta da visada que defende a existência de uma espécie de “programação de computador genética” responsável por fazê-lo amadurecer e tornar-se adulto por meio da passagem do tempo e da absorção das informações que um organismo poderia conseguir interagindo diretamente com o meio.

não avaliável. de maneira mais indireta. vamos recorrer ao trabalho de Luria e Yudovich (1985). entretanto. Nas palavras dos autores: As primeiríssimas palavras da mãe. Após um extenso e rigoroso processo de pesquisa envolvendo crianças de variadas idades. de discorrer sobre o que ocorre com a criança a partir da disponibilização deste cabedal de informações. ou seja. pelos adultos? altera-o. atribuindo-lhes uma palavra determinada. dotando-na de formas de análise e de síntese que a criança seria incapaz de desenvolver sem o auxílio de um adulto parecido com aquele que chamamos de mãe 2. não tem medo de fogos de artifício. ele só caminha na direção da complexificação de seus padrões 77 Livro 1. ao contrário. Ou seja. fruto de nossa organização social. acrescentando o seu papel funcional “para beber”. (LURIA. uma vez que pode falar tranqüilamente sobre o assunto. ao fazê-lo. estivemos discorrendo sobre o papel do adulto no desenvolvimento intelectual infantil. testemunha de que. p. quando mostra a seu filho objetos e os nomeia. introduzem diferenças na formação dos complexos processos mentais superiores do homem. inscreve-se num organismo e. a criança ganha uma poderosíssima ferramenta que sofistica a percepção infantil.O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança último. A palavra. Por ser portadora do saber acumulado na cultura e na história. Concluindo: os autores afirmam que a palavra. mas. têm uma importante influência. porém decisiva. ao transmitir a O que a criança faz experiência de gerações tal como foi incorporada à linguagem. também ela. portanto. isola as propriedades essenciais do objeto e inibe as menos essenciais (como seu peso ou forma exterior). 1985. as abordagens educativas que tiveram sua origem na teoria vygotskyana concebem a aprendizagem como um fenômeno que se realiza somente quando há oportunidade de interação de um sujeito com o outro. O conceito de internalização e sua relevância para refletir o ato educativo O bebê humano pressuposto na teoria de Vygotsky não é um ser passivo. a mãe 2 é capaz de portar os significados sociais e históricos das coisas e transmiti-los ao seu filho. mas nada falamos sobre o que ocorre do lado do bebê. a lhe são disponibilizadas palavra “toma corpo”. na formação dos processos mentais da criança. esses seguidores de Vygotsky chegaram a uma conclusão que muito interessa a todos que se responsabilizam pela educação de crianças: a descoberta de que as mudanças qualitativas no uso na linguagem não se fecham em si. Essa posição é coerente com a premissa do psicólogo segundo a qual o desenvolvimento psicológico dos homens é parte do desenvolvimento geral de nossa espécie. Teorizando um pouco mais esse processo que acabamos de tratar de maneira intuitiva. É chegada a hora. De posse da palavra contextualizada. relacionada à percepção direta do objeto. Ao contrário. O fato de nomear o objeto percebido “copo”. Até o presente momento.indb 77 26/08/2008 14:06:20 . isola seus traços essenciais. 12). YUDOVICH. Dizendo de outro modo. liga com as informações que um complexo sistema de conexões no córtex cerebral da criança.

78 Livro 1. estando sujeita às contingências. Por meio de experiências clínicas com crianças de várias idades. 1988. sobre o indivíduo. que os signos têm a importante propriedade de exercer uma ação. Ele cumpre a importante função de fazer com que os elementos que nossa percepção capta façam sentido para nós. ou seja. desse modo. Conseqüentemente. eficiente na realização de seu comportamento tarefas às quais se propõe. 45). pois dificilmente. mediado pela linguagem (VYGOTSKY. portanto. cuja lógica. p. pode permanecer mediado. planejado e refletido com antecedência. oferecendo-lhe não só um campo maior de objetos nos quais ele se autoriza a incidir como igualmente formas de operações psicológicas novas e superiores. Idade escolar Adulto O signo lingüístico age como um A criança já pode controlar instrumento da seu comportamento com o atividade psicológica. e.Linguagem e Pensamento de pensamento caso se engaje em um processo de reelaboração daquilo que “aprendeu” para transformar as palavras que escutou em outras que sejam mais adequadas à sua “linguagem interna”. substitui o processo simples de estímulo e resposta por um ato complexo. neste ponto. ao se impor para o bebê. dando-se da maneira como sistematizada no Quadro 1. isto é. portanto. não só sobre o ambiente externo mas também. Compreendendo que a faculdade da linguagem diferencia o homem dos demais animais inteligentes. Você já notou que nós temos medo de pegar objetos cuja forma não “entendemos”? Ressalte-se. que o signo funciona como elo entre nós e o mundo. Isso ocorre porque o homem é um animal que precisa que as coisas “façam sentido” para que ele se autorize a incidir sobre elas. Quadro 1: A conquista dos processos psicológicos superiores Idade pré-escolar A criança ainda não é capaz de controlar previamente seu comportamento quando deseja realizar tarefas concretas.indb 78 26/08/2008 14:06:20 . para nós humanos. ao escutar uma palavra cujo significado nos escapa ou ao encontrar um objeto cujo uso desconhecemos. é mais Conseqüentemente. auxílio de signos externos organizando-a. Esse processo tem extrema importância para o processo do desenvolvimento humano. o que limita nosso campo de experiência. o psicólogo e seus seguidores perceberam que a conquista dos processos psicológicos superiores demora a ser construída no pequeno humano. ele classifica os signos como estímulos de segunda ordem. Pode-se dizer. em primeiro lugar. o autor destaca que. o uso de signos faz com que se crie um elo intermediário entre o estímulo e a resposta. vamos tentar utilizar uma coisa ou outra.

” Ela incorpora. de todos os ingredientes de que precisa.. o autor parte da premissa de que a troca de palavras em meio social possibilita ao sujeito a apropriação de conhecimentos que circulam no lugar onde vive por meio de uma internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas. A zona de desenvolvimento proximal e sua aplicabilidade para refletir sobre a educação Prosseguindo o raciocínio sobre os processos de internalização que acabamos de mencionar. posteriormente. 1988. podemos escutar. Exemplo: para não esquecer de pegar um livro na biblioteca. Na vida cotidiana. Num segundo momento.O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança Idade pré-escolar Exemplo: não verifica se pegou todos os bonecos que vai precisar para montar a encenação de uma guerra. relembra-se do próximo passo a ser seguido: “Agora tem que fechar a perna do o. fala consigo como o adulto fez durante o primeiro momento. esse processo torna-se intrapessoal. p. que a criança não fica indiferente às atividades dos adultos. Idade escolar Adulto Exemplo: antes de começar fazer um bolo. Quando vê os outros fazendo algo que ela não conhece.indb 79 26/08/2008 14:06:20 . que ela censura: “Você não está fazendo isso direito”. A partir de sua curiosidade. Para responder a essa interrogação. Dada esta sinopse. Vygotsky (1988) busca estabelecer dois níveis de desenvolvimento para compreender como se dão as relações entre o processo de desenvolvimento e a capacidade de aprendizagem. todo processo de aprendizagem se inicia por uma atividade externa. Para ele. Vygostsky conclui desta constatação empírica que o processo de internalização consiste no resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do desenvolvimento humano. tendo que voltar ao seu armário muitas vezes. no nível individual. inclusive. Nas suas palavras. por assim dizer. “a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana. portanto. A criança. em seu armário. 65). percebemos. é a base do salto qualitativo da psicologia animal para a psicologia humana” (VYGOTSKY. a dona-de-casa experiente verifica se dispõe. amarra uma fita em torno do braço. 79 Livro 1. portanto. Curiosamente.. Observandoa mais detidamente. a voz do outro que previamente lhe ensinou. por exemplo. num primeiro tempo se estabelece um processo que é interpessoal. a criança não só costuma observar atentamente como interroga o praticante sobre diversos aspectos de seu interesse. todas as funções no desenvolvimento do homem aparecem duas vezes: uma primeira no nível social e. é necessário nos interrogar como uma fase dá lugar à outra. dá recomendações para si mesma: “Faça isso com mais calma”.

da Disney – grande sucesso de venda entre as crianças e 80 Livro 1. necessitando da ajuda de um adulto ou de uma criança mais experiente que ela para ser bem-sucedida. Concluímos aquele texto defendendo a necessidade de apresentar aos alunos um conteúdo que. Nível que denota desenvolvimento.indb 80 26/08/2008 14:06:21 . consistisse em “um osso duro de roer”. cada um aprende por si próprio. O que o conceito de zona de desenvolvimento proximal nos ensina sobre o professor? Para estudar esse conceito e sua utilidade para a reflexão sobre a prática do professor. ao contrário da “papinha industrial que costuma ser o conteúdo dos nossos livros didáticos”. Nível de desenvolvimento potencial: refere-se àquelas ações que a criança tem dificuldade para realizar. Caracteriza-se. mas em sua desestabilização por novas informações que. o leitor poderá concluir que entre um e outro existe uma zona a ser preenchida. julgamos relevante retomar algumas das considerações desenvolvidas em estudo anterior (RIOLFI. a distância entre o conhecimento real e o potencial. portanto. recorremos ao exemplo do desenho animado O rei leão. entender que. O que o conceito de zona de desenvolvimento proximal nos ensina sobre ser professor? Evidentemente. Só que isto não quer dizer que alguém aprenda seja lá o que for sozinho. afirmávamos que ninguém ensina a ninguém. Examinando os dois níveis que acabam de ser descritos. entretanto. A possibilidade concreta de construção e consolidação de um conhecimento novo não está no eterno repetir daqueles que já foram consolidados. o desejo de sustentar um trabalho que o leve a saber sobre algo que diz respeito ao sujeito que aprende. qualquer que seja a matéria curricular em jogo naquele momento. Já naquela ocasião. Seu papel é o de transmitir um desejo bastante específico: o desejo de saber. o processo de desenvolvimento cognitivo depende da possibilidade de o sujeito ser sempre colocado em situaçõesproblema que. uma vez que não somos capazes de fazer determinadas coisas sem auxílio. ao serem processadas. Ela caracteriza prospectivamente o desenvolvimento mental. mas que já estão presentes na criança em estado embrionário. provoquem a construção de conhecimentos e conceitos.Linguagem e Pensamento Nível de desenvolvimento real: refere-se à capacidade que a criança apresenta para solucionar atividades ou funções sem o auxílio de outra pessoa. O mais importante para a reflexão sobre nossa prática pedagógica é. Para argumentar a favor dessa tese. irão gerar a mobilização de outros conhecimentos e de outros sujeitos. 1999). portanto. Ninguém aprende nada sozinho e para que se aprenda o professor tem um papel absolutamente fundamental. tratava-se de uma metáfora forjada para a compreensão da necessidade de apresentar os conteúdos sempre na forma de um enigma e não previamente mastigados pelo professor. nessa linha de raciocínio. pelo desenvolvimento já consolidado. uma vez que comporta as funções psicológicas ainda não consolidadas. a partir de sua zona de desenvolvimento proximal. Ela é chamada por Vygotsky de zona de desenvolvimento proximal e compreende.

pela ação incisiva de alguém que encarna o papel do sábio. 243-244 . o da crise e o do desemprego.. parece tão incerta.indb 81 26/08/2008 14:06:21 . à juba mal penteada. no caso específico do professor. o jovem leão é forçado a se separar de sua família. Mostra-nos que. mas talvez eu possa acentuar um simples ponto. O que essa história nos ensina? Antes de tudo. Isso somado aos arrotos sonoros. Acho que todo mundo se lembra da história: após uma infância feliz. p. Exilado. a uma exibição de desrespeito pelos conteúdos construídos historicamente por sua comunidade de origem. A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos a quem não pode ser negado o direito de se demorarem em certos estágios do desenvolvimento e mesmo em alguns um pouco desagradáveis (FREUD. Parece-me indiscutível que as escolas falham nisso. afirmando que a escola [. É pena quando os professores são levados a abrir mão também da sua função de adultos. entrega-se aos prazeres de uma vida irresponsável. preparando-o. no mundo moderno. Esta não é a ocasião oportuna para uma crítica às escolas secundárias em sua forma presente. portador de um saber construído e transmitido por gerações: nos ensina? o velho macaco.. para encontrar o seu lugar na linhagem –. esta “explicação” sobre qual era o seu lugar social faz com que o leão se insira novamente na comunidade. já que não estava disposto a arcar com suas responsabilidades. forme família e cumpra seu papel de bom rei. Nessa turma. em 1995.O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança os adultos desde o seu lançamento. que assume seu papel sem vacilação. Freud é preciso com relação a este ponto. desde sempre prometida como sua noiva. o leão apaixona-se por sua ex-companheira de infância. Em um texto muito curto. ele não entabula qualquer relacionamento de compromisso com ela. um adulto cônscio de seu lugar na comunidade e exercendo com sucesso sua função de pai – que é basicamente a de transmitir ao jovem os valores da cultura. cabe a ele mostrar ao aluno que este vai à escola para aprender os valores acumulados durante séculos pela cultura.. mas. Por uma ação decidida (uma pancada com um pedaço de pau para lhe por “algumas idéias na cabeça”).] deve lhes dar [a seus alunos] o desejo de viver e devia oferecer-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar seus vínculos com a casa dos pais e com a família. reencontrada por acidente no meio da selva. o avesso daquilo que seu pai lhe ensinara. Efetivamente. 1969. e a muitos respeitos deixam de cumprir seu dever de proporcionar um substituto para a família e de despertar o interesse pela vida do mundo exterior.. que. às conversas disparatadas – em suma. escrito em 1910 para criticar um diretor de escola que tentava eximir-se da responsabilidade pelo suicídio de alguns de seus alunos. por sua vez. grifo nosso). há muito previsto na cadeia das gerações. 81 Livro 1. Cabe ao professor auxiliar o jovem a encontrar uma direção na vida. vivida lado a lado com seu pai. a fábula do desenho animado nos mostra que é por meio da intervenção da geração precedente que a nova geração assume suas responsabilidades sociais. mais interessados em “curtir a vida” do que em fazer valer sua saída da infância. A saída desse período irresponsável se dá por uma ação decidida O que essa história de um adulto. junta-se a uma turma de outros jovens. à maneira dançante de andar.

será que ele queria sair? Mas a porta estava fechada. ― É pra escrever. p. dona Eunice levantou a mão. como é que prendiam ele assim apertado com tanto lugar pra voar? Escutou a voz de dona Eunice: ― Mas antes você me diz se esses números são divisíveis por três. Maria olhou. por dez e por mil. portanto. Vejamos o que Esteban afirma a esse respeito: Nesta perspectiva. o educador passa a encarar o erro como aquilo que revela o espaço no qual o professor deve oferecer auxílio. Aula particular (NUNES. dona Eunice? ― É. mas de fazer seu papel de educador. Maria fez força pra pensar. cumpre ainda dizer que aqueles que aderem à teoria sócio-histórico-cultural de Vygotsky assumem. (ESTEBAN. Antes? Antes por quê? O que é que ela tinha falado primeiro? Será que tinha explicado muita coisa? Dona Eunice tirou um fiapo que estava preso na saia e botou ele dentro de um pratinho. p. 1988. construírem novos conhecimentos que realimentem o processo. o processo ensino-aprendizagem é fortalecido e. de julgar a criança. uma esbarrando na outra. batia sol no canário. 83). Faz também parte do papel do professor compreender que os erros devem ser vistos como sendo um indício do que a criança não consegue realizar sozinha ainda. Finalmente. depressa. A gaiola estava pendurada na janela. redimensionado. 51-60) O canário na gaiola cantou. é necessário frisar que o educador que procura inspiração na teoria de Vygotsky para conduzir a sua prática encontra-se convocado a conduzir seu cotidiano educacional de modo a formar um aluno que interaja com seu meio.Linguagem e Pensamento Concluindo aqui nossa reflexão sobre o papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança. Apostando em seu papel para o desenvolvimento intelectual da criança. num processo interativo. Trata-se de priorizar a possibilidade de alunos e professores. mas o quê? Uma coisa qualquer. ou seja. Escreveu. portanto. sacudiu o braço.indb 82 26/08/2008 14:06:21 . era melhor escrever logo uma coisa. O coletivo é recuperado como espaço de construção e apropriação do conhecimento. ele parou de cantar e começou a pular de um lado pra outro. correndo. ao mesmo tempo. uma gaiola de nada. Vai ver estava tudo errado. Quando dona Eunice sacudia o braço daquele jeito é porque estava meio sem paciência. 1992. respeitando e compreendendo que o conhecimento adquirido no seu meio e as especificidades dos modos de pensar de seu grupo cultural interferem na aprendizagem e no desenvolvimento do estudante e são instrumentos importantíssimos para serem utilizados a seu favor. Não se trata. A preocupação não se reduz apenas a alcançar a resposta certa e a aceitar os “erros” que porventura a precedam. Dona Eunice foi dizendo: 82 Livro 1. transformar a falha em mais uma das conquistas de uma criança em formação. um importante desafio: conhecer cada um dos seus alunos ao iniciarem suas atividades em sala. e tudo quanto é pulseira foi pro cotovelo. com seus colegas e com o próprio professor.

] O que é mesmo que ela tinha que escrever? Ah! Antes ela tinha feito errado. ― Não. Maria? Maria olhou pra dona Eunice mas continuou pensando no cachorro: e se ele cismava de engolir a borracha? Era uma borracha grandona. rolou pro chão.. prato. Agora escreve certo. subindo. ― Puxou tudo quanto é farelinho de borracha pra palma da mão. fiapo. largou tudo de repente. não! Que tanto não-não era aquele? ― Não risca. bom. A borracha escapou da mão de Maria.. Só quando dona Eunice olhava pro livro é que Maria olhava pro chão. Fração? Mas elas não estavam em número divisível? ― Mas. ― Acorda.. por que que a dona Eunice tinha virado o caderno pra ela? ― Você vai efetuar essas adições e subtrações de frações com denominadores iguais e desiguais.. olha. ― Tá certo. puxou o pratinho pra botar o farelo dentro. Maria! ― Hmm? ― Você não fez errado? Não apagou? Então? Faz direito! Mas vamos de uma vez. começou a apagar com cuidado. Esse aqui tá errado! Maria pegou o lápis.indb 83 26/08/2008 14:06:21 .. não. Maria começou a escrever. Dona Eunice viu um fiapo no tapete e se levantou pra pegar.. que estava dentro de uma caixinha azul. Maria! Eu já disse que não se risca caderno. Imagina se ele ficava todo engasgado e. Dona Eunice sentou de novo. você tá mole demais. ― Isso. caiu tão perto do focinho do cachorro que ele nem precisou se mexer pra começar a cheirar a borracha vendo se era coisa de comer. boa mesmo pra ficar entalada em garganta de cachorro. Maria olhou de rabo de olho e viu dona Eunice descobrindo outro fiapinho no tapete. [..O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança ― Certo.) 83 Livro 1. a dormência do pé foi subindo. farelo.] O espirro não veio e dona Eunice falou: ― E então. Maria já não sentia a perna direito. vinha vindo. O cachorro não se mexia [. Certo. Maria ficou olhando pra ela. escrevia. suja.] vai ver engasgo de borracha não fazia barulho! E se o cachorro tinha se engasgado baixinho? E morrido bem baixinho? Dona Eunice falava. E não tem nada pior do que a sujeira.. o jeito era fazer ao contrário. Certo. [. dona Eunice? Dona Eunice suspirou “até que enfim” e começou a explicar matéria nova. aproveitou e pegou disfarçado a borracha de dona Eunice. pro papel nem enrugar nem rasgar. Maria pegou a borracha. eu quero que você use o MMC. com a perna tava esquisita! Como ia ser bom sacudir ela bem. a vontade de espirrar vinha vindo. ― MMC? (Ai. se antes tava errado. Maria. Mas será que ele tinha engolido mesmo a borracha? Firmou o olho no caderno e acabou de escrever. Usa a borracha. Fica uma coisa feia.

.. ― Temos tempo. Maria sentou na mesma posição que estava antes. [.indb 84 26/08/2008 14:06:21 .. E olha só sua boca. A aula continuou.. só voltou quando a dona Eunice parou de falar pra pegar o lencinho de bolso..] Maria começou a somar as frações. tocava na hora da aula acabar). Maria se debruçou no caderno. (Mas de que jeito? Se sacudia a perna. mal podendo acreditar: ― Mas o que é isso?! ― O quê?.é porque tinha mesmo morrido baixinho. 84 Livro 1.] A aula continuou. Mas Maria não conseguia mais se lembrar o que ela tinha que fazer com o menor múltiplo. não mexia?) ― É.. [.. Desatou a morder o lápis. encolheu as pernas em ― hmm! ― quanto tempo ia agüentar naquela posição? E foi só o cachorro deitar que a dona Eunice botou o pé em cima dele e falou: ― Agora vou explicar contorno...] Maria sentou em câmara lenta. ― Que que tem? (Bom. ― Você sabe o que é uma semi-reta? ― Só reta... Atenção com a coluna.. vamos ver: faça aí as operações. Maria. Não morde o lápis desse jeito. ― Lembrou-se do circo: às vezes eles falavam em botar os cabos de aço paralelos. ― Alguma vez você já ouviu falar em paralelismo e perpendicularismo? ― Bom .Linguagem e Pensamento ― Menor múltiplo comum. figura aberta e figura fechada. ― Você sabe o que é um segmento? ― Um o quê? ― Segmento. temos tempo. O pensamento ficou no circo. [. não.. sim senhora. estraga ele todo.. endireitou as costas em câmara lenta.] Dona Eunice suspirou.. e o cachorro.. ― Olhou pra Maria. franziu a testa.) ― E o MDC? ― MDC? (e se a perna batia. Ou será que você já esqueceu? ― Não esqueci. O cachorro voltou para baixo da mesa e o canário cantou. Resolvendo que só ia pensar no múltiplo e mais nada. A unha de dona Eunice começou a puxar de novo a pelezinha do polegar. ― Não. [. Maria olhou pro relógio em cima da cristaleira (era relógio-despertador.. Endireita as costas.) ― Você está lembrada do MDC? ― Tô. se ele não mexia.) ― Então.. o lábio tá preto! Tudo sujo de casca de lápis. (. batia no cachorro.

O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

― Você tá com a boca toda preta outra vez! Ai: ia começar tudo de novo? Mas o despertador tocou bem comprido e a aula particular acabou.

Em primeiro lugar, convidamos você para ler um fragmento de uma bela canção composta por Gonzaguinha. Ao lê-lo, logo perceberá que seu conteúdo manifesto explicitamente consiste em uma espécie de aconselhamento sobre estratégias para que alguém possa se sair bem em um jogo de futebol. Vejamos.

Geraldinos e Arquibaldos
(GONZAGA JR., 1975)

Olha cama-de-gato Olha a garra dele É cama-de-gato Melhor se cuidar No campo do adversário É bom jogar com muita calma Procurando pela brecha Pra poder ganhar Acalma a bola, rola a bola, trata a bola, Limpa a bola, que é preciso faturar E esse jogo tá um osso É um angu que tem caroço E é preciso desembolar E se por baixo não tá dando É melhor tentar por cima, Oi, com a cabeça dá Você me diz que este goleiro É titular da seleção Só vou saber mas é quando eu chutar. [...] No campo do adversário É bom jogar com muita calma Procurando pela brecha Pra poder ganhar

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Linguagem e Pensamento

A partir dessa leitura, propomos a escrita de um texto argumentativo, cuja tese central seja a seguinte: Nós educadores podemos considerar o fragmento da canção “Geraldinos e Arquibaldos” como uma metáfora de um bom conselho para guiar nossa prática educacional. No jogo de nossa aula, é necessário descobrir maneiras inovadoras e criativas para fazer nosso gol. Na medida do possível, utilize-se dos conteúdos estudados ao longo do capítulo para sustentar sua argumentação.

O diálogo abaixo está no belíssimo romance Ciranda de pedra, de Lygia Fagundes Telles. Tratase da despedida de uma personagem que decidiu ofertar a si mesma a chance de uma vida diferente e da reação de alguém que a amava muito.
— Meu pai me ajudará no começo. Depois, hei de me arrumar, quero dar esta oportunidade a mim mesma. ― Apertou-lhe a mão. ― Uma vez você me citou um verso, era mais ou menos assim: “Nascemos todos os dias quando nasce o sol.” E depois? ― Começa hoje mesmo a vida que te resta.

Você acredita que a perspectiva de recomeço esboçada na conversa entre os dois jovens existe na vida real?

RODARI, Gianni. Gramática da fantasia. São Paulo: Summus, 1982. Neste livro, que traz numerosas sugestões práticas de atividades que podem ser reproduzidas ou adaptadas pelos professores das séries iniciais, Gianni Rodari propõe uma série de expedientes para que os educadores consigam manter um contato prazeroso e afetivo com seus alunos; para que, por meio de atividades muito ricas e divertidas, consigam trabalhar o desenvolvimento da linguagem, da lógica, da estética; e que, por meio do exercício pleno da sua fantasia, consigam o fortalecimento da imaginação e a construção da criatividade, compreendida não como um dom concedido a poucos, mas como sendo parte da essência do humano.

ESTEBAN, Maria Teresa. Repensando o fracasso escolar. Cadernos Cedes. O sucesso escolar: um desafio pedagógico. Campinas: Papirus, 1992, p. 75-86. FREUD, Sigmund. Contribuições para uma discussão acerca do suicídio. In: _____. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, s.d.
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Livro 1.indb 86

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O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

GONZAGA JR., Luiz. Geraldinos e arquibaldos. In: _____. Plano de vôo. Warner/Chapel: 1975, f. 12. LURIA, Alexander Romanovich; YUDOVICH, Victor Iosifovich. Linguagem e desenvolvimento intelectual na criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985. NUNES, Lygia Bojunga. Aula particular. In: _____. A corda bamba. Rio de Janeiro: Agir, 1988, p. 51-60. RIOLFI, Claudia Rosa. Escola e violência: uma dúzia de pontos para pronto socorro. Revista de Estudos de Educação, Sorocaba, ano 1, n. 2, nov. 1999, p. 31-48. TELLES, Lygia Fagundes. Ciranda de pedra. São Paulo: Abril Cultural, 1982. VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1988. _____. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998. _____. VYGOTSKY, Lev Semenovich; LURIA, Alexander Romanovich. Estudos sobre a história do comportamento: o macaco, o primitivo e a criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

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Livro 1.indb 87

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indb 88 26/08/2008 14:06:22 .Livro 1.

Lembremos que.asp?id=431. uma vez que. uma vez que essas idéias demoraram um bom tempo para chegar ao nosso país.A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança Claudia Rosa Riolfi Q ual é a hora certa para ensinar alguma coisa? Será que essa “hora certa” chega ao mesmo tempo para todos? Ela chega como fruto de um trabalho ou é conseqüência do desenvolvimento natural de uma criança? Enfim. na maioria das vezes. 2005) Vygotsky formou-se em literatura e direito pela Universidade de Moscou. geram insegurança quanto ao melhor ritmo para o desenvolvimento de seu trabalho. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. sim. ao contrário. portanto. Livro 1. Lingüística e Alfabetização da Facul­­ dade de Educação da USP. ao contrário. são muitas as perguntas que um professor se coloca quando o assunto em questão é a introdução. talvez a angústia para tentar respondê-las seja um pouco menor. de fazê-la aprender para que possa se desenvolver.indb 89 26/08/2008 14:06:22 . Professora das Metodol­ ogias de Ensino de Língua Portuguesa. nessa orientação. Não concluiu estas Psicanalista. já que. mas. entende que sua principal função é dar origem ao desenvolvimento. embora Vygotsky tenha sido autor de vasta obra ― iniciada quando ele contava apenas 21 anos ―. aprofundamento e progressão de conteúdos. Não se trata. ela tornou-se pública em diversos países apenas a partir do final dos anos 1950 e início da década de 1960. Para você. Por esse motivo. Mais tarde. Quem foi Vygostsky? (http://www. Para os professores que se inspiram na perspectiva vygotskyana para organizar o seu modo de trabalhar. iniciou estudos de história e filosofia na Universidade Popular de Shanyavskii e de Medicina de Kharkov e Moscou. mas. a educação não fica à espera do desenvolvimento intelectual da criança. foram traduzidas para várias línguas. de esperar a criança se desenvolver primeiro para fazê-la aprender depois. ela permaneceu censurada na Rússia (seu país de origem) durante muitos anos.planetaeducacao. essa perspectiva parece muito pouco familiar? Provavelmente. Doutora em Lingüística pela Unicamp.br/new/colunas2. quando algumas de suas obras chegaram às universidades americanas e européias e. Essas interrogações costumam ser desconfortáveis. assim sendo.com.

.] pode-se dizer que o pensamento da criança é sempre concreto e absoluto (VYGOTSKY. criou uma revista literária. mas sua obra não terminou junto com ele. Ainda na cidade de Gomel. a função da escola é a de soterrar as crianças com o maior número de conteúdos possíveis? De forma alguma! Aprender. não é verdade? Você. segundo essa perspectiva. como veremos a seguir. por este motivo. A partir de 1917.indb 90 26/08/2008 14:06:22 . onde esteve até 1923.. Morreu de tuberculose em 1934. LURIA. O papel da escola no desenvolvimento intelectual Desde o início do capítulo.Linguagem e Pensamento últimas formações. dar muita importância aos lugares em que o aprendizado se faz de modo sistemático e socialmente organizado. Você já ouviu falar que “uma andorinha não faz verão”? Isso significa que. 149). nas mais diversas variações. divertem-nos muito. a literatura e a psicologia. estruturou um laboratório de psicologia. p. Lembremos ainda que. frisamos a importância de ensinar uma criança para que ela possa se desenvolver na plena potencialidade como os demais membros de sua espécie. nessa visada. encontram-se as influências marxistas do materialismo histórico. mas nelas encontrou os subsídios que precisava para desenvolver os estudos na área de psicologia. iniciou uma carreira extremamente rica em produções. Essas teses levaram-no a conceber uma teoria que explica o desenvolvimento do comportamento humano em sua relação com o contexto social e. em suas pesquisas para identificar as mudanças qualitativas dos fundamentos do pensamento. 1996. 90 Livro 1. Teve continuidade a partir do trabalho de dois pesquisadores que colaboravam e participavam de seus projetos: Alexei Leontiev e Alexander Luria. com certeza. já ouviu a seguinte anedota circular entre as mães que são suas conhecidas. mas forçar uma passagem: transformar os conceitos espontâneos (aqueles que desenvolvemos na convivência social) em conceitos científicos (aqueles que são formalizados de acordo com as regras da cultura elaborada). não é sinônimo de tomar contato com uma lista de pontos registrada no currículo escolar. fundou uma editora. dirigiu a seção de teatro do departamento de educação e ainda proferiu várias palestras cujas temáticas centrais eram a ciência. Vejamos na citação a seguir o argumento utilizado pelos autores para defender a necessidade da intervenção do adulto no desenvolvimento intelectual da criança: a criança não consegue pensar de maneira suficientemente lógica e consistente para perceber que conceitos associados ao mundo exterior podem ser colocados em vários níveis e que um objeto pode pertencer ao mesmo tempo a uma classe mais estreita e outra mais ampla [. quando são espontâneas. As crianças.

” Esse valor de solidariedade é um valor que é avaliado permanentemente. elas o fazem porque têm indiferença pelas contradições e. não só um ambiente seguro para suas explorações intelectuais como. um cavaleiro da luz que trabalha sozinho e anônimo para o bem comum. 14. elas precisam ser inseridas na lógica da cultura. 199) Lendo o trabalho de Pacheco. vamos trazer aqui o trabalho de Pacheco (2004). famoso mundialmente pelos bons resultados que vem conseguindo com “crianças difíceis” na Escola da Ponte. 2004. defendida por Vygotsky e Luria (1996). o desenvolvimento de uma estrutura social” (VYGOTSKY. Neste ponto. Pacheco afirma que o segredo de seu trabalho é o estabelecimento de uma cultura de escola. Deixemos Pacheco comentar a primeira de suas regras: A primeira delas é: “Quem não é solidário não permanece aqui.] o desenvolvimento da tecnologia e. Para dar um exemplo sobre o tipo de organização ao qual nos referimos. 12. podemos ganhar em nossa compreensão sobre a tese. uma importante constatação se apresenta: a necessidade da organização coletiva do grupo da escola. capaz de. pelo simples testemunho do modo como se organiza. a presença inquestionável do saber acumulado pela geração anterior. não conseguem.indb 91 26/08/2008 14:06:22 .148).. Ninguém se disfarça de solidário. às vezes. (PACHECO. p. 11. todas levadas muito a sério. desafie o aluno e lhe forneça. por exemplo. alcançar soluções para problemas lógicos cujas soluções não podem ser inferidas por meio da observação direta do mundo real. por este motivo. trabalhar no sentido de organizar o grupo é mais importante que imitar um super-herói. Interrogado sobre as razões de seu sucesso. composta por normas. Criança: ― Então compra com cheque. também.. em Portugal. é hora de nos interrogarmos sobre o que os autores chamam de tecnologia. 16 anos ou mais. também não vale a pena pensar que eles vão agir solidariamente. pela qual os fatores mais importantes para o desenvolvimento psicológico são “[. Se o professor não é solidário com o outro professor. tendo pouco “poder de fogo”. daremos privilégio à formulação que foi feita em suas próprias palavras: 91 Livro 1. como um todo. não tenho dinheiro. Tendo aqui concluído nossa exploração sobre o que Vygotsky e Luria chamam de desenvolvimento de uma estrutura social. p. Não se pode disfarçar uma coisa dessas para jovens de 10. necessitando de um cálculo. ué! Por que elas fazem isso? De acordo com a perspectiva aqui exposta. 1996.A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança Criança: ― Me compra aquela boneca? Mãe: ― Não posso. LURIA. dar a ver para um pequeno ser humano que certas soluções não são passíveis de serem alcançadas pela observação direta. podemos salientar a importância de uma cultura de escola que. em correspondência a isso. No nosso caso específico. Eles percebem a mentira nos gestos das pessoas. estabelecidas há cerca de 30 anos. Para tal fim. Para o professor. Para tal fim.

Vejamos. mas é preciso que isso não seja pago com o preço de as pessoas aprenderem menos. 1996. que haja alegria na aprendizagem. em primeiro lugar. é necessário dizer que. entretanto. Se você entendeu a citação que acaba de ler. Para responder a essa pergunta.indb 92 26/08/2008 14:06:22 . a vida social do homem e sua atividade de trabalho começam a exigir requisitos ainda mais elevados para o controle do próprio comportamento. Nós devemos valorizar as características socioculturais. (VYGOTSKY. tornando a questão bizarra. é a questão do “que coitadinhos”. o que Cortesão (2004) tem a nos acrescentar sobre os efeitos positivos e potencialmente negativos daquilo que chama de práticas educativas e interculturais. Esta heterogeneidade de nosso público-alvo. de ser soturnas.. É preciso que as escolas deixem de ser chatas.. Pode-se aprender bem e contente. aposto que você já deve estar se perguntando sobre quais aspectos são os mais importantes se quisermos construir uma educação desafiadora para promover o desenvolvimento humano. Podemos também contribuir com algo que para mim é muito claro. essa melhoria pode ser acompanhada da inculcação da ideologia da incompetência. leva-nos à necessidade de pensar sobre as escolas que adotam o chamado multiculturalismo crítico. Desenvolve-se a linguagem. devemos levar em conta que nossas salas de aula estão longe de serem homogêneas com relação à sua procedência cultural. por sua vez. no que se segue. Que se frise. o comportamento do homem ascende a um nível superior. qual o significado e para que serve o aprendizado. a alegria do processo da aprendizagem. 149. devo dizer que “é aí que a porca torce o rabo”! Construir uma educação desafiadora para promover o desenvolvimento humano Neste momento de nossa reflexão.] paralelamente a um nível superior de controle sobre a natureza. p. seus modos de apropriação pela comunidade do aluno e as maneiras como ela circula no grupo escolar do qual você e o seu aluno fazem parte.Linguagem e Pensamento A tecnologia avançada resulta na separação entre as leis da natureza e as leis do pensamento [. mas ao mesmo tempo podemos. que é o caráter lúdico. LURIA. neste momento: não se pode esperar o aluno escrever por si só – é preciso instigá-lo e desafiá-lo para que tenha vontade de fazê-lo. o cálculo. não vendo as armadilhas postas ali. Com a ajuda desses meios. a escrita e outros recursos técnicos da cultura. Nós podemos contribuir para maior afirmação social de grupos minoritários. nós podemos estar somente folclorizando as diferenças. portanto. bem e feliz. entendeu também um assunto que nos interessa muito de perto: a importância do ensino deliberado e sistemático das funções sociais da escrita. Se você nos permite uma expressão muito popular que bem qualifica este ponto da reflexão. isso acontece quando as pessoas percebem porque estão aprendendo. acentuar o exotismo das diferenças. Podemos ainda contribuir para a melhoria da auto-imagem pessoal e grupal. mas se não estivermos atentos e não analisarmos as coisas profundas. 92 Livro 1. grifo nosso). quando eles se assumem com uma identidade e têm consciência dela.

A professora Cortesão. numa primeira visita a uma escola. na lista de oposições encontradas acima. que mora e leciona em Portugal. sem perceber. Para transpor essa discussão para o contexto brasileiro. por não ser suficientemente digerido. embora o discurso sobre o “respeito às diferenças” esteja muito disseminado. 262-263). (CORTESÃO. Vem cá.A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança Finalmente. podemos produzir um processo de aquisição de poder. fazendo-os se isolarem da sociedade. que. com a folclorização das diferenças e a acentuação do exotismo. Vem cá. meu fio. em uma palestra sobre os discursos que circulam no interior da escola brasileira. muitas vezes. o enfraquecimento e até mesmo a guetização dos grupos. Como ponto de partida. acabam criando na escola um ambiente de segregação para as crianças cujos padrões de pensamento não são os da maioria. Aluno: ― A tia Rose taí? Supervisor: ― Que cê qué c’a Rose? Ahn? Aluno: ― Falá um negócio pr’ela. p. ele acaba sendo uma armadilha para seus defensores. vamos recorrer a um exemplo e a algumas das considerações analíticas desenvolvidas por Barzotto (2005). mostra-nos. mas pode ser uma situação em que. Supervisor: ― Ué. há alguns anos. Trata-se de um diálogo do qual participam um aluno de aproximadamente oito anos e um supervisor escolar. de consciência dos direitos de cidadania. haja o isolamento. negócio é negócio. Supervisor: ― Que negócio cê qué falá c’a Rose? Aluno: ― Um negócio. Supervisor: ― Quem é a outra professora? Que sala que cê foi? Aluno: ― Ahn? 93 Livro 1. o autor utilizou-se de uma gravação em áudio feita por uma de suas alunas.indb 93 26/08/2008 14:06:22 . o isolamento desse grupo diante da sociedade moderna. que. 2004. Tomemos contato com esse diálogo. Esse ponto eu tenho trabalhado com os ciganos. Que conteceu? Aluno: ― (incompreensível) e eu fui lá vê na sala e lá tem outro professor.

a pergunta “De que fala o excerto acima?” nos levaria a uma resposta do seguinte tipo: trata-se do relato envolvendo um aluno. ao invés de responder à pergunta que lhe foi feita. Sem entender direito o que estava acontecendo. as regras do diálogo e da etiqueta social. Para explorar esta vertente da análise. Nesse caso. esclareceu que era para o aluno entrar na sala assim mesmo. No entanto. Barzotto também aponta para a possibilidade de abordar o excerto a partir da pergunta “as falas dos personagens estão em conformidade com as regras da gramática normativa da língua portuguesa?”. Supervisor: ― Uma Leda. que na primeira vez que o supervisor fala. não nos ajuda a aprofundar a reflexão sobre o cotidiano escolar. dado que. um supervisor da escola. que foi até a sala em que estuda e encontrou outra professora. qual a professora que tá lá agora? Aluno acena com a cabeça indicando que não sabe. Barzotto mostrou que um primeiro nível de abordagem ao diálogo que foi transcrito seria o de focalizar o seu conteúdo. ao mesmo tempo. apenas aos fatos narrados. em si. Supervisor: ― E tá. o autor nos propõe um terceiro nível de exploração: refletir sobre a escolha dos enunciados realizada por cada um dos falantes.. Defende que a pergunta proposta por Foucault (1987) como fundamental para a análise do discurso ― “Por que apareceu o enunciado X e não outro possível?” ― tornaria a análise mais produtiva. essa pergunta teria utilidade apenas na medida em que a variedade de língua utilizada pelos dois falantes servisse de indício para se especular sobre a classe social a que podem pertencer os envolvidos no diálogo. procurou por uma pessoa a quem chamava de “tia Rose” e não a encontrou. Supervisor: ― É naquela sala qué pu cê entrá mesmo. para ele. é lá mesmo qué pra entrá. portanto. Qual a professora sua? Aluno: ― Estudo c’a Marta. ele interpela o aluno com uma outra pergunta.Linguagem e Pensamento Supervisor: ― Qual sala que cê foi. é possível formular uma hipótese segundo a qual ela parece estar menos interessada em auxiliar o aluno 94 Livro 1. Então. Afirmando que esse nível de exploração é bastante superficial e não nos leva a compreender de fato o impasse que está em jogo na relação desse adulto com a criança. quebrando.indb 94 26/08/2008 14:06:22 . o autor salienta que é interessante notar. Por esse motivo. por exemplo. atendo. um tanto impaciente. Perseguindo a escolha de enunciados feita pelo supervisor. Na análise desse excerto.. uma de óculos? Aluno: ― É.

que. Tendo acompanhado a exposição feita por Barzotto. portanto. é importante compreender que. mas. mas interativo. o que faz diferença é a instalação de uma relação de confiança na qual a criança.indb 95 26/08/2008 14:06:22 . a partir do que pôde concluir por suas investigações solitárias. como mediador entre a criança e a cultura elaborada. em primeiro lugar. segundo a análise de Barzotto. tenha vontade de fazer as perguntas corretas aos adultos responsáveis por sua formação. 95 Livro 1. o aluno é visto como alguém que aprende junto com o seu grupo social. ele está. a pergunta feita pelo supervisor demonstra que o poder de quem está num determinado lugar de prestígio lhe confere o direito de fazer perguntas que aquele que está em posição desprestigiada não tem. sem dúvida! Construindo uma relação pedagógica na qual seja possível explorar os conteúdos Infere-se do exemplo explorado anteriormente. ela diz apenas “Um negócio. Assim. mostra que a criança não ficou indiferente à posição do supervisor: ao contrário. não é a você que eu confio minhas dificuldades”. julgamos imprescindível que a escola recupere a identidade de ser o lugar onde a intervenção pedagógica intencional visa a desencadear o processo de aprendizagem. recupera-o. Por esse motivo. Na continuidade de sua análise. uma vez que se constitui a partir das relações interpessoais. antes de tudo. mas sim um espaço em que. portanto. a pergunta da criança ameaça o poder do adulto. esconde o jogo. os conhecimentos. o sujeito não é apenas ativo. a criança lhe nega o direito de obter resposta e resiste o quanto pode. Já que este tomou de volta o direito de perguntar (e o poder que tal ato confere). o professor não deve se omitir. que não são tanto os conteúdos em si que contam. ele tem o papel explícito de interferir no processo da criança. na troca com outros sujeitos. em conseqüência de nossos atos. organizar sua prática pedagógica levando em conta que a aula não é um ambiente informal no qual a criança aprende por imersão em um ambiente cultural. Por esse motivo. Barzotto nos mostra que a criança disputa o poder com o supervisor. Ao contrário. De fato. Faz parte do trabalho do professor. a criança também se deu o direito de não responder. de pronto. ela entendeu muito bem que uma disputa estava instalada.A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança e a lhe fornecer um espaço para pensar do que começar uma luta pelo poder. Dentro dessa lógica. embora tenha feito semblante de quem dá uma resposta. nesta visada. De fato. Na concepção vygotskyana. está nos dizendo “eu não quero falar com você”? Muito pouco. bem como de todo trabalho de Vygotsky. os modos de circulação do conhecimento e assim por diante. Assim sendo. Ela é evasiva. seus papéis e suas funções sociais sejam internalizados.” Ou seja. as práticas sociais. agora pensemos juntos: o que é possível ensinar para uma criança que. É como se ela fizesse questão de deixar claro o seguinte: “não é com você que eu quero falar. dizendo simplesmente “Falá um negócio pr’ela”. mantendo sua posição de esquiva quando nova pergunta é feita de novo. amarrado por tudo o que o seu grupo social produz: os valores.

literalmente. mas foi o suficiente para me deixar com os cabelos em pé. Em vez de eleger prefeitos.” Eu. daqui a 50 anos você vai dar com os burros n’água.Linguagem e Pensamento Para concluir. Todos nós nascemos com muito mais sinapses que precisamos. 2005.” A frase não foi exatamente essa. tsk. Só que bons videogames impedem a regressão sináptica. um jogo em que você é o prefeito de uma pequena vila e. com certeza! A favor dos videogames (KANITZ. Aqueles que crescem em ambientes seguros e tranqüilos vão perdendo essas sinapses. fenômeno chamado de regressão sináptica. aos 11 anos. Estimular o cérebro da criança desde cedo é uma das tarefas mais importantes de toda mãe e todo pai modernos. Sempre fui a favor de videogames. eu vivia cortando caminho pelos vários atalhos existentes no jogo. o menino de rua é mais esperto do que filho de classe média que fica tranqüilamente assistindo às aulas de um professor. “Será que nossa relação com nossos alunos e a relação deles entre si está organizada de modo que seja possível aprender alguma coisa?”. O truque é encontrar bons jogos. mas aquelas que não a usam vão perdendoa com o tempo. como se costuma afirmar. balançaram a cabeça em desaprovação: “Tsk. gostaríamos agora de retomar a questão com a qual esta nossa discussão foi aberta “Qual é a hora certa para ensinar alguma coisa e tentar substituí-la por outra que nos parece bastante mais produtiva?”. Pai. e fim de jogo. toda criança nasce com inteligência. analisando meu planejamento urbano inicial. sinal de que vão precisar de todas as sinapses disponíveis. quando novamente me deram o seguinte conselho: “Não se podem queimar etapas. Em caso afirmativo. senão você não adquire a experiência e a competência necessárias para as situações difíceis que ainda estão por vir. considerados uma praga pela maioria dos educadores e pedagogos. e nela não se pode sair apressado. p. Carregar neurônios ou sinapses que interligam os neurônios em demasia é uma desvantagem evolutiva e não uma vantagem. Por isso. Um dia. caí da cadeira. de suas decisões.indb 96 26/08/2008 14:06:22 . Não tendo a paciência de meus filhos. O primeiro videogame que comprei para meus filhos foi o famoso SimCity. eu estava brincando de prefeito quando meus filhos de 11 e 13 anos de idade. dependendo. tks. 96 Livro 1. 22) O cérebro humano é um órgão que absorve quase 25% da glicose que consumimos e 20% do oxigênio que respiramos. porque enganam o cérebro fazendo-o achar que seus filhos nasceram num ambiente hostil e perigoso. Quantos de nós. a boa hora chega. ela pode se tornar uma megalópole ou não. Portanto. a população se mudará para a cidade vizinha. Se você for um péssimo prefeito. que acabam não se conectando entre si. tínhamos consciência de que os feitos na época poderiam ter conseqüências nefastas 50 anos depois? Quantos de nós pensaríamos em prever um futuro dali a 50 anos? A lição que me deram com o famoso videogame Mario Brothers foi ainda melhor. mas não é tarefa impossível. seria muito melhor se empossássemos o vencedor do campeonato de SimCity em cada cidade. Dois garotos estavam me ensinando que cada etapa da sua vida tem seu tempo e aprendizado.

é necessário ter moderação nas horas devotadas ao videogame. um ensaio escrito por Stephen Kanitz. Mas ele é uma ótima forma de estimular o cérebro da criança e impedir sua regressão sináptica. Após considerar esses excertos à luz da releitura do texto todo. você teve a oportunidade de ler. além de ensinar planejamento. A criança tem de investir enormes somas colocando trilhos e locomotivas sem contar com muitos passageiros no início das operações. Nesses casos. além de ensinar planejamento. paciência. Kanitz inclui em seu interessante trabalho a favor dos videogames uma série de críticas mais ou menos veladas ao trabalho dos profissionais da educação. responda às questões. Aprende-se logo cedo que uma empresa começa com prejuízo social e tem de ter recursos para suportar os vários anos deficitários.A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança No jogo Médico. algo que nem sempre se aprende numa sala de aula. com o mouse nesse caso. todo mundo tem um pouco”. nem grandes empresários sabem fazer isso até hoje. as crianças aprendem a fazer um diagnóstico diferencial. e controlar o capital de giro é essencial. por três minutos. que. disciplina e raciocínio. Um dos procedimentos é a assepsia da pele. Como parece ser partidário da lógica segundo a qual “de médico. Que matéria ou professor ensina esse tipo de autodisciplina? Ele (o videogame) é uma ótima forma de estimular o cérebro da criança e impedir sua regressão sináptica. 1. disciplina e raciocínio. Aos 12 anos. e ai de quem não escovar o peito do paciente. elas têm de operar “virtualmente” o paciente seguindo condutas médicas corretas. algo que nem sempre se aprende numa sala de aula. Que matéria ou professor ensinam esse tipo de autodisciplina? Em A-Train. meus filhos já tinham noção de que os primeiros anos de um negócio são os mais difíceis.indb 97 26/08/2008 14:06:23 . Avaliar riscos e administrar o capital de giro. Como em tudo na vida. dentre as quais destacamos as seguintes: O menino de rua é mais esperto do que filho de classe média que fica tranqüilamente assistindo às aulas de um professor. Quem gasta menos do que isso é sumariamente expulso do hospital por erro médico. na qualidade de texto complementar. Neste capítulo. portanto. é administrador de empresas e. leigo no campo da educação. o jogador é um administrador de empresa ferroviária. Estimular o cérebro da criança desde cedo é uma das tarefas mais importantes de toda mãe e todo pai modernos. Que tipo de educação o articulista está criticando? 97 Livro 1. a pior das alternativas sendo uma apendicite. o que é uma eternidade num videogame e para uma criança. de educador e de louco. paciência. segundo a revista Veja.

Na avaliação de seu grupo.indb 98 26/08/2008 14:06:23 . o que sua escola já faz para tornar o ato de aprender tão desafiador quanto o de participar ativamente de um videogame? Argumente a favor dos exemplos de ações elencados por você. 98 Livro 1. Em caso afirmativo. que medidas poderiam tornar a sala de aula um espaço que evite a regressão sináptica? 4. 3. o tipo de educação ao qual ele se refere é o predominante em sua comunidade escolar? Dê exemplos de procedimentos pedagógicos análogos aos criticados pelo articulista e de outros que não têm qualquer relação.Linguagem e Pensamento 2. Em caso negativo.

segundo o autor. VYGOTSKY. n. O arco-íris e o fio da navalha. o primitivo e a criança. Ou seja. Alexander Romanovich. Michel de. 12 out. 99 Livro 1. Organizar a escola para a diversidade. a partir de um certo período histórico. GARCIA. A arqueologia do saber. In: GERALDI. 1996. A favor dos videogames. mas pode mudar a realidade. São Paulo. sob o domínio de uma sociedade na qual a escritura serve como princípio organizacional. o ato de escrever não pode mais ser compreendido como uma ação mecânica. Campinas: Mercado de Letras. a escrita não mais se limita a ser um registro do mundo. p. PACHECO. p. GARCIA. Certeau defende a tese de que o termo escritura é o nome que foi dado a uma triunfal conquista da economia que se consolidou nos séculos XVII e XVIII. Campinas: Mercado de Letras.41. 2005.A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança CERTEAU. 243-285. 1994. Escola Viva: elementos para a construção de uma educação de qualidade social. José. RIOLFI. 22. LURIA. Maria de Fátima (Orgs. Michel. Luisa. 1987. formação de professores e ensino: que química é essa? Conferência proferida no Instituto de Química de Universidade de São Paulo. Análise do discurso. p. KANITZ.br/new/colunas2. Stephen. In: _____. A invenção do cotidiano. Lev Semenovich. Petrópolis: Vozes. Claudia Rosa. Corinta Maria Grisolia. O autor nos explica que. 2004. Porto Alegre: Artes Médicas. CORTESÃO.com. este interessante texto de Certeau nos mostra como. 195-242.planetaeducacao. Acesso em: 4 out. São Paulo: Forense. p. Valdir Heitor. 221-246. RIOLFI. 2005. A economia escriturística. Estudos sobre a historia do comportamento: o macaco. construir um texto sobre a página em branco pode ter um poder sobre a exterioridade. Ao contrário disso. 2004.indb 99 26/08/2008 14:06:23 . asp?id=431>. Partindo de uma perspectiva teórica conhecida como antropologia cultural. FOUCAULT. Escola viva: elementos para a construção de uma educação de qualidade social. ano 38. Veja. Maria de Fátima (Orgs. Claudia Rosa. 2005. BARZOTTO.).). In: GERALDI. Corinta Maria Grisolia. QUEM foi Vygostsky? Disponível em: <http://www.

indb 100 26/08/2008 14:06:23 .Livro 1.

O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje
Claudia Rosa Riolfi

V

ocê já parou para se perguntar por que o ato de escrever é uma dificuldade bastante acentuada para tanta gente? Se não o fez ainda, com certeza pelo menos assistiu a algum filme ou novela que representa a seguinte cena clássica: a pilha de papéis amassados na cesta de lixo ao lado do escritor vai crescendo assustadoramente e o pobre infeliz vai ficando cada vez mais entristecido, pois, apesar de tanto trabalho, ele nada produz...

Pensando sobre essa inibição frente ao ato de escrever afirmamos, em trabalho anterior (RIOLFI, 2005b), que o trabalho com a escrita é, ao mesmo tempo, fascinante e dilacerante. Ressaltamos que a escrita pode ter a magia de perpetuar uma idéia, um pensamento, sentimentos e emoções à condição de que seu autor se autorize a sustentar um exercício constante de reflexão, paciência e perseverança. Reflexão sobre a questão mobilizada antes de escrever; paciência para a busca das palavras mais adequadas; perseverança para reescrever quantas vezes forem necessárias para alcançar a palavra justa. Naquela ocasião, dizíamos ainda que escrever é um exercício constante de transformação. Se aquele que escreve está disposto a pagar o preço de se perder para se reencontrar em seu próprio texto, a escrita pode transformar tudo, inclusive o ser humano. Será que sempre foi assim?

A invenção da escrita
Sabemos que a potência transformadora da escrita demorou a se instalar na humanidade. A escrita surgiu em lugares diferentes, com funções diferentes. Para alguns povos, tinha função predominantemente religiosa. Para outros, de acordo com Manguel (1998), a escrita foi desenvolvida por uma necessidade econômica: a de registrar quantidades de terras e de animais, bem como a de delimitar regiões geográficas. Para tais fins pragmáticos, os sumérios desenvolveram uma tecnologia apropriada para suas necessidades específicas – a escrita cuneiforme. Manguel mostra que, ao se apropriar dessa escrita rudimentar para fins diferentes daqueles originariamente imaginados, nossos antepassados remotos foram, paulatinamente, construindo um instrumento ainda mais potente e que causou uma grande revolução da humanidade: o alfabeto fonético.

Psicanalista. Doutora em Lingüística pela Unicamp. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa, Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP.

Livro 1.indb 101

26/08/2008 14:06:23

Linguagem e Pensamento

Por possibilitar infinitas combinações, podendo ser utilizado para atingir um grande número de pessoas com uma única emissão (como é o caso, por exemplo, dos outdoors) e oferecendo uma fixidez maior que a da fala, essa tecnologia foi, pouco a pouco, tornando-se central na organização e na manutenção de nossa cultura. Registrando normas e procedimentos, compartilhando idéias e checando a aprendizagem, a escrita é o instrumento que pode proporcionar uma coerência de princípios filosóficos e operacionais nas várias instâncias, pois, para além da fala, que pode ser negada ou omitida, a escrita tem força de lei.
Escrita cuneiforme.

Com o advento das chamadas novas tecnologias, que agregaram valor ao alfabeto, oferecendo suportes variados para sua realização, a escrita é utilizada largamente e, em certa medida, tem sofrido mutações muito rápidas. Essas transformações têm sido, inclusive, alvo da brincadeira de diversos humoristas. Dentre estas produções, destacamos, a seguir, o trabalho de Ramil (2003). Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea. Pra piorar ainda mais, inventaram o ICQ, essa praga da internet onde elas ficam horas e horas escrevendo abobrinhas umas pras outras, em código secreto. Tipo assim: “ kct! vc tmb nunk tah trank, kra. Eh d+, sl. T+ Bjoks. Jubys.” Em português: “ Cacete! Você também nunca está tranqüila, cara. É demais, sei lá. Até mais, beijocas. Jubys.” Jubys, que deve ser pronunciado diúbis, é isso mesmo que você está imaginando, a assinatura. Será que estamos caminhando para uma nova mutação das funções sociais da escrita ou o fenômeno que acabamos de trazer como exemplo incide apenas sobre a escrita que se faz em meio eletrônico? Parece muito cedo para responder, mas com certeza não é prematura a tentativa de reflexão sobre esse assunto.

A mutação das funções sociais da escrita1
1
Nesta parte do texto, em decorrência da natureza bastante singular da argumentação que fiz no texto que lhe serve de base (RIOLFI, 2004), aqui apresentado de maneira adaptada, peço licença ao leitor para usar a primeira pessoa do singular.

Nos mais variados lugares de nosso país aonde vou para ministrar cursos de formação de professores, uma mesma pergunta é repetida por aqueles que se dedicam ao ensino da escrita: “É ainda possível transmitir o amor pela escrita às novas gerações?” De uns tempos para cá, mais do que nunca, penso como responder a isso de forma sincera o dia inteiro. Ao fazê-lo, uma vozinha interna me diz: “Claudia, não esquece que você foi formada em outro tempo, é fruto de outras regras e, portanto, tem que explicar direito seu amor pela escrita.” Para contextualizar meu confesso amor pela escrita, devo dizer que nasci em 1965,

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O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

mas como sou filha de pai velho, cresci em cidade do interior, e fui aluna de professores que, na data de minha graduação, tinham bem mais do que 50 anos, a tradição cultural que em mim deixou sua marca indelével é, sem dúvida, aquela anterior aos anos 1950. Com certeza há, entre os meus leitores, pessoas que compartilham dessa herança cultural, mas isto não é verdade para um grande número de pessoas que estão na ativa como professores hoje, e ainda menos verdade para os alunos que, atualmente, povoam as carteiras das escolas básicas. Hoje em dia, o laço cultural que organiza nossas trocas sociais é outro. Cada um vale mais ou por sua (boa) aparência ou pelo que tem do que pelo que é. Ou seja: nos últimos 40 anos, o discurso capitalista se impôs como uma realidade indiscutível, sendo poucos os redutos nos quais não é ele quem dá as cartas e dita as regras do jogo. Seu centro é o objeto, ou seja, aquilo que pode ser comprado por via do dinheiro, usufruído para um prazer ou resultado imediato e, de preferência, rapidamente trocado por um objeto mais novo, mais moderno. Corremos como baratas tontas atrás das novidades, alimentando um mercado que demanda sempre mais dinheiro, enriquece sempre alguém. A maioria de nossos alunos funciona nessa lógica. Confrontados com os conteúdos escolares, os alunos querem saber que tipo de prazer imediato os conteúdos podem lhes dar ou a sua serventia direta para ganhar dinheiro. Tive oportunidade de escutar diversos relatos de professoras magoadas por alunos que as interpelavam em sala de aula dizendo a seguinte frase ou suas variações: “Não vou fazer nada do que a senhora está propondo, ganho mais em um dia ajudando os traficantes do meu bairro do que a senhora em um mês dando aulas aqui.” Eles não estão mentindo, é bom deixar claro. Estão apenas verbalizando em alto e em bom som um processo que, em maior ou menor medida, é comum a todos: a diluição dos valores morais e dos ideais formadores de conduta. Os psicanalistas têm explicado essa diluição nos seguintes termos: eles dizem que rompemos com a lógica de uma cultura centrada no pai, caracterizada por um certo pensamento monotemático, por uma unidade de pensamento e de orientação. É isso que tenho em mente quando me lembro dos meus quase 40 anos. Quando fui educada, os pais tinham poucas dúvidas sobre a direção na qual deveriam encaminhar seus filhos e filhas. Na cabeça do meu pai, fã dos ditos populares, o que valia no exercício de uma profissão era a seguinte frase: “Você pode até ser um coveiro, mas seja um bom coveiro.” Resumindo: o que estou querendo mostrar é que, para essas pessoas “antigas”, a letra tinha muito peso na tradição cultural, tendo quase um valor de fetiche. Aprendíamos a cultuar o bem escrever e a admirar os bons autores. Na corrida matrimonial, ganhava pontos como parceiro quem soubesse escrever uma poesia ou, ao menos, uma bela carta de amor ressaltando nossas qualidades. Valia até copiar uma poesia do outro, mas que fosse bela, transcrita sem erros! Se, por um lado, tratava-se de um tempo em que havia muitos analfabetos, por outro, a letra estava no centro da cultura, e mesmo os analfabetos não lhe negavam o valor. Se verificarmos a história de nossas famílias, com certeza muitos de nós nos depararemos com grandes sacrifícios feitos por algum antepassado
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e a consideramos como uma tecnologia entre tantas outras possíveis. antes de tudo. Independentemente das crenças religiosas de cada um. praticamente não há predomínio de uma opção em detrimento das outras: quase tudo se pode escolher. Manter a letra em seu pleno funcionamento. ou seja. uma vez que a transformamos num objeto como outro qualquer. uma vez que. por longo tempo. tendo. como apontei logo acima.8) está claramente indicado o fato de que as tábuas da aliança entre os homens e o reino dos céus eram tábuas de pedra. Por milhões de anos. pelo menos em algum grau. não é possível estudar os fenômenos ligados ao uso. mais faremos com que a letra perca seu poder. escritas pelo dedo de Deus. e que. como seu advento e seus usos estão completamente ligados com o laço maior da cultura. Estamos em face de um estranho paradoxo: no momento em que caminhamos para “o extermínio” do analfabetismo. Isso que acabo de afirmar no parágrafo precedente equivale a dizer que. demanda. apenas. antes de tudo. mantendo-no.indb 104 26/08/2008 14:06:23 . somos obrigados a admitir que a escrita alfabética como a conhecemos hoje surge na cultura ao mesmo tempo em que a invenção do monoteísmo. mas pelo que pode ofertar em termos de conforto material para sua mulher e filhos. na qual um pai não vale por sua mera condição de pai. O que estou querendo mostrar com este recuo até a instalação do monoteísmo é que o estudo da história da escrita nos mostra. quanto mais “funcionarmos” dentro de uma lógica utilitarista. para aquelas pessoas que são fruto de uma tradição cultural contemporânea. pois havia um certo consenso no fato de que deveria ser preparado um melhor destino para as crianças e que este se obteria por via da introdução dos descendentes na cultura letrada. redigir para ser secretária e dissertar para passar no concurso público são ações solidárias com a lógica da cultura capitalista. estudando a história do advento da escrita. temos pessoas consideradas alfabetizadas. Em seu seio. a letra foi esvaziada do seu valor. Escrever para conseguir emprego. conservação e transmissão sistemática. originariamente inventado para servir de intermediário entre os homens e Deus.Linguagem e Pensamento analfabeto para educar seus filhos. 104 Livro 1. é claro o fato de que há regras a serem cumpridas e ensinadas para as crianças. O que temos hoje é uma insistência no uso da letra como uma tecnologia instrumental. ao ensino e à conservação da letra como prática social sem nos remetermos ao laço social de forma mais ampla. Nossa cultura contemporânea é caracterizada pelo fato de ser plural. É diferente considerarmos a letra como um fragmento do sagrado. Portanto. mantivemos o caráter original da escrita: o de objeto sagrado. a insistência na manutenção de uma sociedade na qual as regras são claras. a letra deixou de ter um valor central. como um fenômeno isolado e pontual. funcionado como aliada na manutenção da cultura centrada nos valores de um pai. Quem conhece a história da Bíblia sabe que em um de seus livros (Ex 31. exigindo cuidado. Perdemos o amor pela escrita como um fator social generalizado. persistindo no difícil esforço de bem articulá-la no texto. como nunca.

sem carinho. ela é positiva para todo aquele que. portanto. sem levar em conta o fato de que. outros modos para trabalhar com a escrita. seja real. A gente pode comprá-lo. reflita sobre sua eventual responsabilidade e participação no estado atual de coisas e ouse criar para si um novo modo de viver e para seus alunos um novo modo de aprender. é necessário ressaltar que sua reposta é. Ela é negativa para todo aquele que pretende transmitir o seu amor pela escrita ao outro. olhe de frente para as mazelas do presente e. é necessário abdicar completamente das vãs esperanças de fazer com que nossos alunos vejam o mundo com os olhos de 50 anos atrás. por sua vez. destruílo. até porque seria impossível. educadores. sem requintes de ternura para com a mulher amada. Entretanto. Conseqüentemente. trocá-lo. Insistir nessa queixa é ajudar a enterrar os restos mortais da letra. negativa e afirmativa. o que resta ao professor fazer? O papel do professor no processo de aprender a escrever Dadas as considerações de cunho cultural que acabamos de fazer no item precedente. na contemporaneidade. mas quase nunca amá-lo. cada vez mais. sem cuidado. Ninguém convence a quem quer que seja a voltar ao passado. Tracemos. o que é pior.indb 105 26/08/2008 14:06:24 . Retomando a pergunta que os professores costumam se fazer (“É ainda possível transmitir o amor pela escrita às novas gerações?”). É hora de nós. convidamos o professor para “deixar de chorar o leite derramado” e olhar de frente a crise em que nossa geração se meteu. 105 Livro 1. traz algumas indicações para facilitar o trabalho no momento de auxiliá-la a redigir melhor. muito evidentemente. incluindo-se nelas. Tendo considerado essa decisão a respeito da importância de exercer seu papel de mediador. Assim sendo. Não é de se estranhar que.O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje O problema principal nessa perda de estatuto sofrida pela letra é o fato de que ninguém ama um objeto. De preferência por escrito. porque. e a segunda. não temendo aprender com as lições do passado. uma mesma queixa sobre a má qualidade da escrita dos alunos se imponha e. Para sermos eficazes no ato de ensinar a ler e a escrever. dada a natureza de nossa profissão. de norte a sul. ao mesmo tempo. transformarmo-nos em “operários do amanhã”. as crianças estão regidas por uma outra lógica. mesmo o professor mais competente não tem uma máquina do tempo. é hora de trazer algumas informações de natureza mais técnica que podem ajudar o professor a ensinar a escrever. usá-lo. Vamos dividir essa reflexão em duas partes: a primeira versa sobre o que não se deve fazer no momento de auxiliar a criança a se apropriar do código alfabético. escreve-se de qualquer jeito.

Eu deixei espaço lá. em linha horizontal e letra cursiva: ma me mi mo mu mão.Linguagem e Pensamento Auxiliar a criança a se apropriar do código alfabético exige saber o que estamos fazendo Para discutir sobre a centralidade do papel de mediador exercido pelo professor para que a criança possa se apropriar do código escrito. 8). neste momento. algumas das falas da professora. Tem que fazer certinho. Tendo constatado essa falha no processo educativo. vamos analisar um fragmento de aula de alfabetização registrado por Smolka (1989. convidamos você a fazer uma reflexão sincera: se entendermos que o trabalho do professor como mediador é. São 35 crianças na sala de aula de uma 1. fazer com que as crianças entendam a função dos conhecimentos que devem aprender para. ― Esse aqui é o bo. A professora pergunta. Para nossa maior comodidade.] De frente para a lousa e de costas para as crianças. ― Quedê.ª série. a autora passa a se ater no que a professora diz aos seus alunos no prosseguimento da aula. Olha lá. p. senão fica aquela misturança.indb 106 26/08/2008 14:06:24 . p. tá errado. A professora pede para as crianças copiarem cada linha no caderno de classe e depois no de casa. A professora começa e escrever na lousa. mas distante da mesa da professora. Elas nem entendem o que era para fazer e nem realizam a tarefa conforme era esperado. virando-se para as crianças: ― Quem falou boneca? Ninguém responde. Tem que melhorar a letra. [. Em sua análise a partir do fragmento acima. que se encontra no canto à direita. fio. você não fez nada? Nem o cabeçalho? ― Tem que fazer. recortamos. As crianças “lêem”. apenas 106 Livro 1. (SMOLKA. As crianças repetem. ― Assim eu não gosto. Pede para as crianças lerem a última sílaba dizendo: ― Aqui vocês vão ler com ão. 1989.. Seu o parece um a. em vez de transcrever a seqüência da aula toda. ― Ta feio! Feio. a professora pergunta: ― Se eu puser isso (aponta bo) aqui (na frente do né). a seguir. Olha bem lá! Já copiou errado. Tá errado. mas. Todos sabemos como é desagradável criticar nossos colegas. Você não deixou espaço. 33). Smolka salienta que as crianças não correspondem às expectativas da professora quando planejou sua aula. Os “ruins” ocupam duas fileiras à esquerda. A professora escreve uma segunda linha e pede para que as crianças leiam: na ne ni no nu não. como é que fica? Uma criança fala: ― Boneca.. em primeiro lugar.

gostaríamos de registrar.. desenvolvessem padrões de pensamento que pudessem proporcionar a instalação do complexo trabalho da escrita propriamente dito. somos obrigados a admitir que ela não ajudou em absolutamente nada para que seus alunos pudessem se apropriar do alfabeto fonético como um instrumento e. 107 Livro 1. Traduzindo em miúdos: se o indivíduo é um leitor sofrível. Para concluir esta parte da reflexão. Não é possível produzir um bom texto apenas andando para frente: é preciso aprender olhar para trás. queremos recuperar as idéias desenvolvidas em um de nossos últimos trabalhos (RIOLFI et al. analisar o que está escrito e deixar que o próprio texto. Auxiliando a criança a redigir melhor Para refletir sobre o trabalho que se faz para ensinar a redigir após a aquisição do alfabeto propriamente dita. Deixemos que Smolka conclua a respeito do que acontece quando um adulto age desse modo: Os efeitos desse ensino são tragicamente evidentes. sua história. Quando o ato de escrever deixa de ser uma tarefa chata e se transforma em um importante ganho cultural. gastamos bastante tempo para explicar isso. 2005). o aluno entra em contato com um tipo bastante específico de trabalho de retroação que pode alterar sua relação com sua palavra. com certeza respondeu que não. de fato. das operações que nos levam a escrever direito) depende da relação que o sujeito tem com o seu outro. o professor sabe onde incidir para levar o seu aluno a aprender a ler criticamente o que ele mesmo escreveu. mas nos resultados de uma alfabetização sem sentido que produz uma atividade sem consciência: desvinculada da práxis e desprovida de sentido. sua vida.O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje em um segundo tempo. que caso tivéssemos tido a oportunidade de dar apenas um conselho para a professora que serviu de informante para a pesquisa de Smolka. para quem escreve. Você já parou para refletir como escrever bem é extremamente difícil? Nossa equipe de pesquisa esteve um tempo muito curiosa para entender porque escrever bem parece ser tão difícil para um grande número de pessoas e.. aí estará um escritor medíocre. p.indb 107 26/08/2008 14:06:24 . 1989. não apenas nos índices de evasão e repetência. A partir de um cuidadoso trabalho de pesquisa. chegamos à conclusão de que a instalação do “trabalho da escrita” (isto é. Embora ela tenha se agitado muito. se for um bom leitor.. 38). Por que isso acontece? Porque. nós poderemos dizer que essa professora sabia o que estava fazendo em sua sala de aula? Se você entendeu o que estivemos discutindo até aqui.. ainda. dominação e alienação. a partir dessa apropriação. diga-nos como melhorá-lo. por assim dizer. olhado os cadernos etc. introduzi-los. andado por todos os lados na sala de aula. Ele se resumiria na seguinte frase: não negue conhecimento aos seus alunos. a escrita se transforma num instrumento de seleção. (SMOLKA. esse conselho seria ao mesmo tempo simples de ser enunciado e bastante complexo de ser cumprido.

supressão ou alteração de cada um dos segmentos que compõem o texto escrito. Buscando responder a essas questões. quando se trata de um texto que tenha vocação à universalidade. as informações comunicadas por seu texto. o lugar de onde vem a minha escrita é o que primeiramente me escapa no momento de interrogar sobre a origem da escrita. que o escritor possa esquecer parcialmente este mesmo lugar. (RIOLFI et al. argumento este que só reforça a importância da função do professor como mediador. rabiscados quando as idéias se apressam e devem ser anotadas antes de desaparecer? Desse modo. observar as primeiras evoluções formais das letras.Linguagem e Pensamento O que determina a qualidade final de um texto? Tomando-se o que uma criança ainda pequena pode produzir como parâmetro. os pensamentos. Livro 1. Eis o motivo para interrogar a história das grafias. Se. podendo. examinar as condições e as modalidades desse desenvolvimento. podemos dizer que um texto está bem escrito quando ele não apresenta grandes dificuldades de compreensão para um grande número de leitores. quem 2 108 Tradução de Cristine Maria Tedeschi Conforti e Andreza Roberta Rocha. O que é necessário para escrever um texto assim? Ora. Prefácio2 (POMMIER. pelo menos de estilo ou legibilidade. na forma de suas letras. e pensando no que queria exprimir. Aquele que acabou de escrever é capaz de dizer de onde procede aquilo que. a mestria sobre as formas que traço usualmente me escapa quando escrevo. A aprendizagem escolar não caracteriza essa proveniência e. Concluindo. Relendo minhas notas. as ficções. 1993. me descubro freqüentemente em falta. para os escritores iniciantes esse cálculo é realizado de modo precário a partir dos indícios que pode obter do seu professor. Não obstante. se não de ortografia. pertence exclusivamente a ele mesmo? Ele poderá explicar facilmente o conteúdo. quando me acontece não poder escrever. mas não dirá nada sobre a origem de sua escrita. sustentar e justificar cada uma das operações discursivas realizadas para a construção da ficção textual. assim. independentemente do que ela significa. ou seja.indb 108 26/08/2008 14:06:24 . para os escritores proficientes. Teria eu verdadeiramente escrito para ser lido? A quem se endereçam os rabiscos feitos na margem de um pedaço de papel. 5-14) Na maior parte das vezes. 2005). é possível já ter incorporado em si o outro que se torna puro cálculo durante o trabalho. aprenderei. minha mão me obedece. deixando que a lógica interna do texto vigore. p.. a qualidade do produto final da escrita é estritamente dependente da representação que faço de meu sujeito leitor e dos modos por meio dos quais o incluo (ou não) no texto que estou escrevendo. essa complexa tarefa demanda duas précondições no que tange a relação com o leitor: que o escritor possa assumir parcialmente o lugar do outro e deixar que seja este lugar que lhe dê as diretrizes norteadoras para decidir sobre a manutenção. não é graças a uma técnica ensinada que consigo superar a angústia da folha em branco.

conhece-se o mesmo destino: é duvidoso que o homem soubesse caminhar ereto se ele crescesse fora do abrigo cultural. se a linguagem constitui o objeto dessa iniciação. Esses aprimoramentos sucessivos de procedimentos de transcrição das mensagens seriam. Segundo uma tal concepção. Quando a hora chega. que um cuidado idêntico ao dos primeiros inventores me habita quando procuro alinhar palavras sobre o papel. em seguida. indubitavelmente. Uma longa história de escrita precede o momento em que uma criança se apodera dos signos do alfabeto. mas transmitir-lhes um instrumento inventado antes delas não será sempre o mesmo que deixá-las descobrir por si mesmas. 109 Livro 1. observar como as crianças se põem a escrever segundo os procedimentos conhecidos das regras gerais e das exceções.? Nos esqueceríamos. por si próprias. Os egípcios. É conveniente. bem ocidental. a letra B graças a balão etc. a língua não se aprende no sentido usual do termo. Mas. No entanto.indb 109 26/08/2008 14:06:24 . o alfabetismo. Trata-se de examinar o importante material arqueológico hoje disponível. a chave da escrita e. eventualmente. que se trata de um método mnemônico inventado pelos adultos e que resiste a numerosos sintomas que têm o valor de uma útil evocação à ordem: um modelo histórico não pode ser comparado a técnicas destinadas a facilitar a aprendizagem. se bem que. assim. Se assim sucede com a escrita. por exemplo. aplicados à aprendizagem a ser cumprida por cada criança. o próprio sujeito faz parte desse objeto. A gênese da escrita pode também ser estudada examinando-se sua aquisição individual. porque elas permitem desembaraçar os pontos de sustentação externa e. por outro lado. pois. Em conseqüência. se elas não fazem esse trabalho solitariamente. cada criança se engaja na palavra segundo seu ato próprio de apreensão. ainda. devem ser novamente transpostas em poucos anos por cada criança. Dentro de um louvável cuidado pedagógico. Uma vez experimentada sua técnica. o conhecimento da história da escrita e de seus estágios poderia ainda ser útil para fazer os escolares compreenderem como formalizar suas letras. as crianças não inventam. as etapas dessa iniciação. Mesmo a possibilidade de falar depende de um aprendizado. Essa apropriação da língua é um fato cultural. ela teria sido em seguida transmitida às gerações seguintes. O problema da origem da escrita pode ser abordado considerando sua evolução ao curso dos últimos milênios. elaboradas em alguns milênios. de organizá-lo segundo suas invariantes e sua cronologia e. pois elas não são. Que analogias existem entre a aprendizagem individual da escrita e as etapas que a humanidade precisou atravessar para descobri-la? Há quem pense que tal semelhança de destino determinaria que a escrita seja um instrumento de comunicação progressivamente aprimorado por aproximações sucessivas. e sua forma mais prática. a escrita teria progredido por etapas. As dificuldades de integração da leitura e da escrita merecem uma atenção particular. teria finalmente superado a pictografia e o silabismo. Quem não seria tentado a imaginar que a descoberta dessas letras se efetua do mesmo modo como o alfabeto continua a ser ensinado às crianças? A letra A não é compreendida graças a sua acrofonia com Ana.O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje sabe. o pesquisador poderá tentar interpretar essa evolução. De outras descobertas. senão de uma técnica. interpretar suas modificações. então. é preciso mostrar que as etapas de certas invenções. por conseqüência. Lá. para sustentar essa hipótese de uma correspondência entre filogênese e ontogênese. a descoberta histórica da escrita e sua aprendizagem individual seguem o mesmo caminho. ela brilhará muito pouco por sua originalidade. não se torna impossível transmitir-lhes as formalizações gráficas próprias de sua cultura? Possivelmente. deseja-se ajudar as crianças com procedimentos supostamente análogos aos da invenção do alfabeto. a própria aprendizagem. utilizavam a acrofonia para isolar algumas de suas consoantes.

localizar o evento diacrônico do recalcamento. no recalcamento. não é porque ela seria incapaz tecnicamente mais cedo. Não obstante. como se. rasurando e descobrindo uma letra que não se parece com nada e. o desenho. cuja lembrança se perde sempre. em que me assemelho ao escriba. sem ela (a estátua). o que este livro deseja explorar: os primeiros desenhos apresentam os fantasmas que estarão sujeitos ao recalcamento até o ponto em que o retorno do recalcado se escreve na letra.. sem exceção. significa.] O que há em comum entre o que hoje me permite traçar letras e aquele que. mais ou menos. seus desenhos são traçados segundo as dimensões oníricas que ela projeta: a evolução de suas representações segue então o mesmo trajeto que o de seus sonhos. há muito tempo. Se ela não pôde fazê-lo até então. recitando-lhe nos ouvidos seus próprios textos. será necessário igualmente examinar uma origem da letra pertinente em todas as ocorrências em que está em questão a transmissão de uma mensagem e estabelecer uma definição mais ampla que aquela à qual estamos acostumados. Da mesma forma. se os primeiros desenhos possuem um valor idêntico ao dos sonhos. em si.. escrito para os deuses! Irmão da criança rabiscando seus desenhos cuja forma não convém mais a suas obsessões. Quando completar um certo caminho com relação aos desenhos. ao mandarim ou à criança? Como os corpos dormindo à noite. não pudesse rememorá-los. [. ela já conduziu a termo operações mais complexas que a de fazer corresponder um som e um signo. conseqüentemente. ainda que cada um deva reinventá-la? Qualquer que seja a maneira pela qual comunique sua mensagem. antes de estar em condições de formar as palavras. não serão eles..] Quando traça um desenho. Se uma criança não consegue escrever antes de certa idade. sujeitos a um recalcamento cujo resto será escrita? Eis. quiseram se fazer portadoras de uma mensagem que ainda se endereça a nós. quão inteligente fosse ela. um número maior de culturas elaborou uma escrita ideográfica.. Por fim. não pudesse tê-lo feito antes. Do sacerdote do faraó. convém. [. atribuiu um significado estável a alguns desenhos? Diante dessa questão. Do adivinho chinês lendo os primeiros signos do destino graças aos bastões incandescentes que ele guiava sobre cascos de tartaruga. seu valor psíquico. é provavelmente porque sua relação com a representação pictórica.] Se alguém deseja manter a hipótese de uma invenção da escrita comum à história da humanidade e à de cada um de seus membros. riscando seu desenho como se explorasse inocentemente o interdito da representação. É verdade que existem sociedades ditas “sem escrita”. Mais raras ainda foram aquelas que utilizaram ideogramas. Com efeito. [. todas as civilizações. ligam-se ao 110 Livro 1. porque é sujeito delas.. descobri. tal como a psicanálise a define. A escrita faz parte dessas descobertas. mestre da escrita. Entre o espaço do desenho e o da letra. o denominador mínimo comum da humanidade. É necessário examinar o que pode haver em comum entre o sonho.. dissolvidos na obscuridade. apenas algumas utilizaram o recurso dos alfabetos. comum a todos. Sabemos no que nossos sonhos transformam: esquecemo-los quase todos. a criança se representa e apresenta inicialmente seus sonhos.Linguagem e Pensamento Existem muitas invenções semelhantes na história da humanidade. seja por meio do desenho ou da escultura. ainda que. escrevendo os primeiros caligramas no fundo de vasos onde a ninguém ocorreria lê-los: no início. a criança se porá a escrever. Suas representações artísticas. portanto. dando seu beijo da manhã à estátua divina. não permite situar essa primeira formalização da escrita. talvez. poder-se-á mostrar que o grafismo do homem descende do pensamento. impedia-a. então. A cada vez que escrevo uma palavra nova. o pictograma e a letra do alfabeto.indb 110 26/08/2008 14:06:24 . pois eles encenam um prazer que ocultamos. que não parecem ter se imposto tal obrigação. A instância da letra no inconsciente. Entre esta universalidade. Cada um deve refazê-las por si. o que me faz irmão do escriba e do mandarim. têm uma prática da arte.

se você tem um mínimo de “antenidade” com o mundo que o cerca. a novela de Salinger é não só uma das mais marcantes obras da literatura norte-americana contemporânea. e elas não lhes permitiriam repousar em paz? Espécies de sentinelas. é que podem dizer com certeza. é também um marco na longa estrada que os jovens trilharam (e ainda trilham) para provar que têm direito a uma voz e a uma visão de mundo próprias. um dos maiores mistérios da história recente da literatura. os adormecidos. em jornal.indb 111 26/08/2008 14:06:24 . O Apanhador narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield. 2004. É bastante possível que você nunca tenha lido O apanhador. elas os acompanham até o despertar e lhes chamam para o dia. ocorridos com um adolescente que não tem nada de extraordinário. No entanto.O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje fio de suas vidas graças à escrita tenaz de seus sonhos? Como aqueles em vigília bem tarde. anote as expectativas que a resenha criou no grupo sobre as possíveis cenas que estarão narradas no livro.3 Fase 1 – Atividade de pré-leitura. jovem de 17 anos. transforme-se na mais acurada e sensível crônica da juventude deste século? Só os espertos que chegaram a ler O apanhador no campo de centeio. Em um pequeno grupo. O apanhador no campo de centeio: o livro que inventou uma geração (BART. Holden. O fato é que este singelo romance de 1951 virou lenda ao longo dos anos. irmãs do hieróglifo onírico. Salinger) em número suficiente para serem lidos em grupo. A partir da sua discussão. volta para casa mais cedo no inverno 3 As atividades que se seguem consistem em uma adaptação daquelas pre viamente apresentadas em Riolfi. Prestes a completar 47 anos de publicação – surgiu em 1951. D. 2004) O que faz com que um livro narrando acontecimentos quase banais. Jerome David Salinger. Como foram traçados os primeiros signos capazes de falar por nós em nossa ausência? Aprenderemos a traçá-los sempre em nós para além de nossa aparência? Material necessário: exemplares do livro O apanhador no campo de centeio (J. 111 Livro 1. D. no comportamento da juventude do mundo todo – ecoa até hoje. quase até a manhã. e fez de seu autor. fazendo parte da cultura da segunda metade de nosso corrente século [século XX]. A pequena revolução que O apanhador causou no comportamento da juventude americana – e por tabela. estudante de um pomposo internato para rapazes. do escritor americano J. vindo de uma família abastada de Nova Iorque. antes mesmo dos pais da maioria de vocês nascerem –. muito provavelmente já leu ou ouviu alguma alusão ao livro no cinema. elas tecem sobre a cidade a rede que impede os sonhadores de se perderem em suas canções. leia a resenha que se segue. revistas ou em outros livros. debruçados sobre o papel branco: as letras que eles traçam não guardariam seus semelhantes. Salinger.

sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça. Antes de se defrontar com os pais. D. toda a loucura de ser jovem. D. na revista The New Yorker) e afinal cortou qualquer contato com a mídia. enlouquecidos ao finalmente conseguirem se identificar de forma tão perfeita com um herói de literatura. Foi a primeira vez na literatura americana (ou mesmo na mundial) que o universo próprio dos jovens foi estudado a fundo e exposto de maneira absolutamente natural. publicando contos em revistas) foi sem dúvida o responsável pelo rumo inesperado que sua carreira (e sua vida) tomou desde então. Salinger odeia cinema). Pode ser difícil de acreditar. o autor penetrou de forma admirável na maneira própria que os jovens têm para se expressar. não se deixa fotografar e nunca permitiu que nenhum dos seus livros fosse adaptado para o cinema (assim como o próprio Holden Caulfield. uma antiga namorada. na história. em 1965. procura algumas pessoas importantes para si (um professor. suas idéias próprias e suas aspirações) não eram levados a sério pelos adultos de forma alguma. Hapworth 16. Vale um aparte aqui: antes de O Apanhador. Depois de vender 15 milhões de exemplares e virar uma celebridade mundial. Salinger é um dos maiores responsáveis pelo status cult do livro até hoje. nunca tinham sido traduzidos de uma maneira tão profundamente sintonizada com a realidade. mas que eram ignorados pelos mais velhos. e não meramente um livro “recomendado para leitores em idade escolar”. conceitos. Engraçado. o escritor. as garotas (claro!). comovente e forte. enfim. O apanhador. ao se preparar para enfrentar o inevitável “esporro” da família. a incerteza de todo o mundo que passa por esta fase.indb 112 26/08/2008 14:06:25 . Depois foi diminuindo o ritmo de produção (publicou seu último conto. de forma realista e convincente. nos anos pré-Elvis Presley. era apenas estar em um estágio irritante entre criança e o “homem feito”. do 112 Livro 1.. J. Em dezembro do ano passado. Apesar de já ter passado longe da adolescência quando escreveu a obra (estava com 32 anos quando o livro saiu). 1924. é só um adolescente voltando para casa. ou dramático. o livro é literatura de primeira: leve e ágil. Na volta para casa. Salinger – notoriamente tímido e agressivamente modesto em relação a seu talento – primeiro isolou-se em uma casa no topo de uma montanha. A grande magia de O Apanhador é justamente esta: ser uma história de e para adolescentes. bobeiras. Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu. O livro marcou época por seu uso ousado de gírias. em uma cidadezinha de mil habitantes. Salinger colocou em Holden Caulfield. Tudo de uma maneira que nunca havia sido vista antes. seu primeiro romance.. próprio para gente jovem (que ainda não “tem paciência com esta coisa de literatura”). Não há nada de mais trágico. Ser jovem. ajudou a tornar a sociedade mais atenta à barra (às vezes pesada) que é ser jovem. inteligência e um raro sentimento de proximidade com o universo jovem. com seu relato sem retoques de tudo aquilo que realmente se passa na mente de um adolescente. e expressões e referências “chulas” – que andavam na boca da rapaziada da época. O mesmo sucesso que consagrou de vez o talento de Salinger (que já vinha. sem nenhuma pretensão ou didatismo. As idéias. com liberdade de estilo. Não concede entrevistas. mas há meros 50 anos os jovens (e sua maneira de pensar. burrices. Mas com estilo totalmente próprio e marcante. E é só isso aí. simplesmente não existia esta coisa que há hoje de “cultura jovem”. O apanhador. uma fase que devia passar o mais rápido possível e sem maiores dores. desde os anos 1940. tornou-se uma coqueluche instantânea entre os jovens americanos. O que não quer dizer que os jovens não tivessem seus anseios e preocupações – que não eram infantis nem adultas –. repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. tudo o que se passa na cabeça de um rapaz de 17 anos: as preocupações com o futuro. E o talento sem tamanho de J.Linguagem e Pensamento depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias.

fala em voz alta com o irmão morto.O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje alto de seus 78 anos. mas nem mantém relações sexuais com ela. Toda a sua luta é para preservar os valores que ele acha verdadeiros e sinceros. Caulfield vai a um bar chamado Ernie’s. que vem buscar o dinheiro devido. Usos da escrita presentes na cena. Confuso e deprimido. Escuta a crítica sobre a qualidade medíocre de seu texto escolar. 1924).) A mística sobre o autor de O apanhador não se sobrepôs ao impacto da obra em si. De volta ao hotel. (Parece o My Bloody Valentine. você encontrará uma tabela na qual o livro O apanhador no campo de centeio está dividido em nove cenas. Mas nem por isto O apanhador deixou de ser um dos livros indispensáveis (talvez o único realmente indispensável) na formação de qualquer jovem que deseja compreender melhor a si mesmo. Fase 2 – Checando as hipóteses construídas durante a atividade de pré-leitura. desce até a boate do hotel. autorizou afinal o lançamento de seu quinto livro (justamente a publicação em capa dura de Hapworth 16. 9 e 10 4 11 a 14 113 Livro 1.indb 113 26/08/2008 14:06:25 . Declara-se “burro”. Uma das notas tristes na “biografia” da obra é que o livro teria inspirado o maluco Mark Chapman a cometer o ato que o tornou macabramente famoso – assassinar John Lennon. é filhote da cruzada de Holden por sua integridade. O livro foi citado por incontáveis bocas célebres ao longo dos anos. Holden Caulfield e suas desventuras se tornaram precursores do mito da juventude rebelde – Holden contesta os mais velhos e não quer se tornar como eles. em filmes e outros livros. e como o mundo o enxerga – e a seus colegas. Compare as cenas que você e seu grupo imaginaram no exercício de pré-leitura com as que você encontrará abaixo. 1 1e2 2 3a7 3 8. em 1980. Será que você pode antecipar muitas das coisas efetivamente descritas no livro? Em caso afirmativo. nem paga integralmente o valor combinado pelo serviço. É violentamente espancado pelo cafetão. a quem considera farsantes. Pode-se dizer que a figura de James Dean. Caulfield permanece em seu quarto e convive com alguns de seus colegas. o primeiro em 34 anos. como conseguiu? Discuta no grande grupo sobre as pistas que usamos em nosso cotidiano para antecipar tanto as ações dos outros quanto as seqüência lógicas dos textos. Despede-se do professor de história. aceita a oferta de receber uma prostituta. o rebelde sem causa. Cena Capítulos Sinopse Caulfield propõe-se a contar como saiu do colégio. Insone. Escreve um texto para servir como lição de casa de terceiros. Caulfield deixa o colégio e vai para um hotel barato. Na seqüência.

114 Livro 1. decide ir até a casa de seus pais. Em um bar grãfino. cada grupo lê os capítulos compreendidos em sua cena. sem sucesso. Com os volumes do romance na mão. Explicita sua incapacidade de aderir a um ideal social e “escolhe uma profissão”: ser apanhador no campo de centeio. Enquanto espera.indb 114 26/08/2008 14:06:25 . Resolve fugir de casa e marca um encontro de despedida com a caçula. Doente. Telefona ao professor Antolini. Explicita que detesta a escola e a hipocrisia de seu meio social. Leva-a para brincar no carrossel. Usos da escrita presentes na cena. Cada grupo escolhe uma das cenas da tabela acima para trabalhar. Decide voltar para casa. vai recuperar-se em um sanatório. 19 e 20 7 21 e 22 8 23 e 24 9 25 Fase 3 – Primeiro contato com o texto literário. Por acidente. Caulfield passeia pela decoração de Natal da Quinta Avenida. para Holden. Caulfield telefona a um amigo mais velho e marca um encontro. Com medo da possível orientação sexual do professor.Linguagem e Pensamento Cena Capítulos Sinopse Caulfield tenta. foge apressadamente. que logo descobre que ele havia sido novamente expulso do colégio. Justifica-se qualificando-o de “nojento”. vai ao cinema. visitar sua irmã. Procura uma ex-namorada e a leva ao teatro. faz. encontrar sua irmã caçula. quebra o disco que havia comprado como presente para sua irmã caçula. 5 15 e 16 6 18. É surpreendido pela resolução dela de fugir com ele. bêbado. uma preleção sobre a necessidade de construir o futuro. embebeda-se. É quase surpreendido pelos seus pais. Vai para a casa do professor Antolini. Finalmente. dividir a turma em nove grupos. mas consegue ir embora sem ter sido percebido. levando um pouco de dinheiro da caçula. Chora. que. Atividade de leitura Para este primeiro contato com o livro propriamente dito.

Se necessário. traduzir. 115 Livro 1. sua apropriação pelos sujeitos e. sentimentos. escolher um título para sua cena – este título pode ser descritivo ou metafórico. Atividade de discussão Esse primeiro contato com o texto é compartilhado no grande grupo. todos aqueles que se dispuserem a pagar o preço de gastar algumas (muitas) horas de estudo perseguindo o raciocínio deste francês incansável para compreender os três registros distintos do ato de escrever que são dissecados pelo psicanalista (transcrever. aquilo que o grupo julgou fundamental nele. conseqüentemente. A resenha que você leu faz jus a O apanhador? Como a escrita se coloca na vida do personagem central? O que há de especial com a luva de beisebol do irmão do personagem central? A partir da discussão sobre o título do livro. ALLOUCH. 1995. opiniões. É importante destacar os assuntos abaixo. emoções que o primeiro contato com O apanhador nos despertou. Este livro não é um daqueles que se destaca por sua clareza e. em todo caso. mas. os comentários devem ser. Vamos fazer um inventário de idéias. Como referência. cada grupo fica responsável por: completar a tabela acima.indb 115 26/08/2008 14:06:25 . Entretanto. apenas. o quanto possível. Neste momento. em caso afirmativo. Rio de Janeiro: Campo Matêmico. Jean. cada grupo terá cerca de dez minutos para expor sua produção aos outros. um narrador pode ser eleito. pelo fato de se tratar de um texto fácil para se ler. ao tomar a letra como seu objeto de estudo ele nos dá alguns elementos muito significativos para refletir sobre a história da escrita na humanidade.O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje Nesta primeira abordagem. para ir explicando o que for necessário para dar coerência à apresentação. Não é necessário expor todo o conteúdo dos capítulos que compõem a cena. sobre seu ensino. mas. os mais livres possíveis. transliterar. o que podemos aprender sobre tornar-se adulto na cultura de hoje ao prestar atenção nessa belíssima metáfora? Fase 4 – Brincando e aprendendo com o texto literário Cada grupo deve preparar uma encenação artística (peça teatral) de sua cena. quais são eles. muito menos. Letra a letra: transcrever. Embora não se trate de um livro sobre o ensino da escrita. anotando se há usos da escrita em sua cena e. A idéia é completarmos esta atividade com a encenação de uma pequena peça caseira baseada no texto. deve adiantar para o grande grupo o que a equipe considerou como essencial nos capítulos que leu. comunicados. traduzir e transliterar) com certeza ganhará em profundidade e em consistência na reflexão sobre o ato de escrever. O exercício de completar a tabela é “corrigido” e os títulos.

O apanhador no campo de centeio. Marco Antônio.com. 1997. 14. 1998. J. LURIA. Andreza Roberta. Alfabetização: quem tem medo de ensinar. Alexander Romanovich. Tradução de: Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. Petrópolis: Rio de Janeiro. Cap. VYGOTSKY. Português. D. 31. p. o primitivo e a criança.screamyell. Lígia Regina. In: TRIVELATO. In: _____. 205-215. Michel de. 116 Livro 1. Tipo assim. 1994. A invenção do cotidiano. Bíblia Sagrada: edição pastoral. PA: RBS Publicações.Linguagem e Pensamento ALLOUCH. 1993. Lev Semenovich. Alfabetização e letramento: um compromisso de todas as áreas. Frateschi. O declínio do império da letra: implicando-se na invenção de uma “nova transa” com a escrita. V. Tradução de: Cristine Marie Tedeschi Conforti e Andreza Roberta Rocha. p. Paris: Presses Universitaires de France. vers. São Paulo: Cia das Letras. SMOLKA. EDM da Faculdade de Educação da USP. In: _____. Rio de Janeiro: Editora do Autor.htm. BART. In: Uma história da leitura. Préface. Jean. Estudos sobre a historia do comportamento: o macaco. _____. 1996. 1999. Sílvia L. 8. _____. Alberto. Êxodo. 1989. RIOLFI. SALINGER. MANGUEL.. Primórdios. Gérard. KLEIN. Letra a letra: transcrever. ed. São Paulo: Cortez. BÍBLIA.indb 116 26/08/2008 14:06:25 . 1990.. São Paulo: Cortez. 2004. p. RAMIL.br/literatura/apanhador.> Acesso em: 10 abr. Claudia Rosa. O apanhador no campo de centeio: o livro que inventou uma geração. transliterar. São Paulo: Fafe/Feusp.T. 1995. 2003. CERTEAU. ROCHA. 221-246. O sujeito e o trabalho da escrita: perseguindo os meandros do ato de escrever. Naissance et renaissance de l’écriture. Disponível em: <http://www. São Paulo: Edusp. Escrevendo para um outro encarnado: há trabalho da escrita na educação à distância? Texto base do projeto de pesquisa em desenvolvimento no Departamento de Métodos e Técnicas de Educação Comparada. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. Porto Alegre: Artes Médicas. 2004. Kledir. Rio de Janeiro: Campo Matêmico. Ana Luiza Bustamante. Emari. 05-14. 2005b. no prelo. POMMIER. traduzir. ANDRADE de Jesus. A economia escriturística. São Paulo: Edições Paulinas.

os discretos consideram-nas como opções particulares necessárias para dar coerência e consistência a sua prática investigativa e pedagógica. convidamos o leitor para se afastar o máximo possível de “sua opinião formada sobre tudo” e. Visando a superar essa prejudicial tendência que apaga nosso passado e. os brasileiros estão sempre tentando se desvencilhar das tradições para que se produzam “novas metodologias”. façamos nossa primeira parada no Brasil. condena-nos a um eterno patinar no mesmo lugar. Para tanto. Lingüística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP. Outros. carregam-nas como se fossem profissões de fé. a autora faz uma rigorosa pesquisa de fundo histórico para mostrar como a crescente importância dada à alfabetização pelos governos esteve sempre atrelada a um projeto político Psicanalista. Por último. contaminados pelo que se pode chamar de furor novidadeiro. que não tiveram a oportunidade de aprofundar seus estudos e compreenderem-nas profundamente. Tão diversos entre si.indb 117 26/08/2008 14:06:25 . O pensamento sobre a alfabetização no Brasil Para melhor contextualizar as diversas tendências de discurso sobre a alfabetização em nosso país. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portuguesa. conseqüentemente. como recomendava nosso saudoso Raul Seixas. Mestre em Lingüística Aplicada pela Unicamp. supostamente mais adequadas para superar os desafios concretos que os professores encontram em sala de aula. com certeza pode perceber o seguinte: alguns professores estão engessados por suas opções teóricas.Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos aí produzidos Claudia Rosa Riolfi V ocê já parou para refletir como são diversificados os modos de relação dos professores com as teorias que circulam no meio universitário? Se já o fez. tão parecidos no seguinte traço: todos acham desagradável quando alguém questiona as suas opções. Doutora em Lingüística pela Unicamp. Os mais aguerridos agitamnas ao público como se tratasse de causas a serem defendidas a qualquer preço. Livro 1. as quais elevaram ao estatuto de dogma. uma vez que é necessária muita coragem para colocar anos de experiência na balança e refletir sinceramente se o que você aprendeu com eles continua valendo no presente. Feiso este primeiro alerta. é importante recuperar uma denúncia que serve como ponto de partida para o trabalho de Magnani (1997): o fato de que. Por esse motivo. iniciamos este capítulo visando a refletir sobre a aula de Língua Portuguesa e analisar os textos aí produzidos sob uma perspectiva histórico-social. estar permeável para tornar-se uma “metamorfose ambulante”.

os profissionais da educação passam a divulgar sua experiência com a certeza de estarem de posse de uma verdade inquestionável (MAGNANI. Começam a se configurar as disputas pela hegemonia de projetos para o ensino inicial da leitura e da escrita em estreita relação com os projetos político-sociais. O construtivismo. sem a necessária reflexão sobre ela. A polêmica criada entre os seguidores de Silva Jardim (partidário do método sintético) e Márcia Browne (partidário do método analítico) começa a decrescer a favor da tentativa de construção de uma solução intermediária: o método misto (ou eclético). Identificados com uma perspectiva que aprendem primeiro “no papel”. iniciam-se as críticas ao construtivismo. objetivando a “organização racional e homogênea” das classes de alfabetização. A discussão sobre o método mais eficaz cede lugar à investigação sobre as causas da repetência e da evasão. baseado na palavração. constrói uma sistematização da cronologia 118 Livro 1. e decompô-lo (método analítico).Linguagem e Pensamento de modernização social.indb 118 26/08/2008 14:06:25 . depois. sobre os condicionantes sociais e econômicos do fracasso escolar. 46). ganha hegemonia em nosso país. Cresce o número de investigações sobre as “patologias” e. para o ensino da leitura (método sintético). Por esse motivo. inspirado nos trabalhos de Piaget e seguidores (em especial. 1997. conforme Magnani. 1930 1934 Década de 1970 Década de 1980 Década de 1990 Magnani justifica o esforço gasto para pesquisar 100 anos de história de nosso país: evitar um efeito nefasto que as discussões levadas a cabo no interior das universidades costuma exercer sobre os professores – cegá-los para o seu cotidiano educacional. o leitor encontrará os principais momentos de um século de discussão sobre a alfabetização. Silva Jardim divulga o “revolucionário método” João de Deus. Quadro 1: Tensão entre os “modernos” e os “antigos” em cem anos de alfabetização no Brasil Antes de 1880 1880 Início da República Predomínio dos métodos que ensinam a escrever a partir da insistência na soletração e na silabação. Lourenço Filho publica os testes ABC – medidas de maturidade para o aprendizado na leitura e na escrita. a seguir. p. Miss Márcia Browne introduz no Brasil a seguinte diretriz: iniciar o ensino de leitura pelo todo. No Quadro 1. Com a “descoberta” do interacionismo. Emília Ferreiro).

Quadro 2: Momentos históricos cruciais para a constituição da alfabetização como objeto de estudo no Brasil Época 1876-1890 Discussão predominante Método João de Deus X métodos sintéticos Métodos analíticos X métodos sintéticos Métodos ecléticos X métodos analíticos No que ela consiste? Os partidários da palavração condenam os partidários da soletração e da silabação. A 119 Livro 1. Os partidários dos métodos ecléticos condenam os partidários dos métodos analíticos. e é exatamente aqui que nosso trabalho começa. Esta recomendação é feita aqui no sentido de nos fornecer um terreno mais seguro para alargar nossa reflexão e interrogar os padrões de interlocução verbal e seus efeitos na aula de Língua Portuguesa. Para conhecê-las. a pesquisa de Magnani conclui-se com o fim do século XX. Guardemos essa lição sobre a relevância de não se “perder o pé” da história de nosso país e agreguemos a ela uma perspectiva política que defenda o aprendizado da leitura e da escrita como um direito da participação do sujeito humano na cultura de seu tempo e também uma perspectiva de ser um produtor de sentidos válidos no presente e aptos a construir um futuro.Perspectiva histórico-social aqui previamente exposta. vamos recorrer brevemente a um exemplo já explorado por nossa equipe de trabalho (RIOLFI et al. Os partidários do construtivismo condenam os partidários de tudo o que foi feito antes. A interlocução verbal na aula de Língua Portuguesa Para melhor contextualizar nossa reflexão. atribuindo a todos a mesma importância: a dos métodos tradicionais. Os partidários dos métodos analíticos condenam os partidários dos métodos sintéticos. 2005) com maior detalhamento. confira o Quadro 2.. desta vez destacando qual era a “verdade inquestionável” que predominava em cada um dos períodos.indb 119 26/08/2008 14:06:26 . a interlocução verbal na aula de Língua Portuguesa. Os partidários do interacionismo condenam os partidários do construtivismo. 1890-1930 Meados da década de 1920final da década de 1970 Final da década de 1970-final da década de 1990 Construtivismo X métodos tradicionais Interacionismo X construtivismo Como você já deve ter percebido.

Depois. e 2) dado que não havia nenhuma outra atividade preparada para o restante da sala. quem já tem o ‘abaixo-assinado’ pronto. beijando-se e cochichando ao mesmo tempo.” Obedientemente. “plantando bananeira” etc. Antes de prosseguirmos com nossa reflexão. traz que eu vou dar visto. . Uma aluna deitou sua cabeça na carteira e dormiu durante a aula toda..enquanto isso. Um casal permaneceu com os rostos encostados na carteira. que os verificava protocolarmente. escrevia o “visto” nos cadernos dos alunos. A professora dirigiu uma única frase para o grupo durante os 45 minutos que lá permaneceu: “Pessoal. A professora continuava indiferente a tudo isso e. cumprindo suas obrigações de estagiária. Algumas alunas olhavam silenciosamente o ambiente de bagunça e a indiferença da professora. olhar este ainda não gasto/contaminado pela indiferença e o descrédito que grassa na contemporaneidade. você vai encontrar um registro de uma aula de Língua Portuguesa feito em 2003 por uma das autoras do livro Ensinar a Língua Portuguesa no século XXI: desafios e perspectivas para o Ensino Fundamental II. no primeiro horário. Acabou a “aula” de Língua Portuguesa. Percebi dois problemas: 1) a professora estava corrigindo somente a forma das redações (no caso..indb 120 26/08/2008 14:06:26 . observei uma “aula” surreal! Com o desenrolar dos eventos. em um momento de sua vida em que ainda não era professora de Língua Portuguesa.. parecendo constrangidas com a situação. Um aluno ficou cantando e beijando o rosto de quase todas as meninas da sala. fiquei pensando que o acompanhamento individual da escrita do aluno é importante. se o mesmo seguia o padrão de “abaixo-assinado”) e ignorando os aspectos ligados à Língua Portuguesa propriamente dita. Trata-se do retrato de um acontecimento registrado pela pesquisadora em seu diário de campo com riqueza de detalhes. inclusive com seus comentários de cunho pessoal. mas não do modo como ele estava sendo feito.Linguagem e Pensamento seguir. Tocou o sinal. É importante perceber preliminarmente o olhar perplexo de quem anotou a aula. 120 Livro 1. Dois ou três grupinhos ficaram conversando baixo. maquinalmente. o acompanhamento individual estava sendo prejudicial à classe como um todo. olhavam para mim. mas aluna de Letras. os alunos levavam o texto até a professora. Um outro aluno fazia ginástica no meio da sala.. Cada qual faz o que quer! Neste dia. examinemos as cenas descritas pela “novata”. dançando capoeira.

(KLEIN. ainda que esses símbolos estejam organizados correta e significativamente como linguagem. que coloca as individualidades em primeiro lugar. a interlocução entre professor e aluno existente em sua aula de escrita não estava inscrita na história – limitava-se a um fazer estereotipado e sem maiores questionamentos. p. Para concluir nossa reflexão sobre a aula de Língua Portuguesa e os textos aí produzidos vistos sob a óptica da perspectiva histórico-social. longe de fazer um discurso partícipe do narcisismo humano. p. sua própria “produção verbal” é muito restrita. que estaria cumprindo sua obrigação de “dar visto nos cadernos”. quem já tem o ‘abaixoassinado’ pronto. É preciso que haja homens utilizando de forma real a linguagem para que ela se configure enquanto tal. conseqüentemente. assumir que o processo de humanização se dá “pela radical e inteira socialização do indivíduo” (KLEIN. 99-100). terá mais dificuldade para fazer uma lista sobre os conteúdos relativos à escrita que foram aprendidos durante essa aula. nossa restrição incide sobre o fato de que não houve nenhum esforço. 1997. muitas vezes. Em suma: aquilo que ela fazia parecia vir de nenhum lugar e ir para lugar algum. pois todos sabemos que. que. Você acha que alguém aprendeu alguma coisa? Não se trata nem do fato de que a professora não apresentou conteúdos novos durante 45 minutos. é necessário permanecer nele por um período maior. É importante frisar. a autora afirma: A partir. desenvolverem um estágio mais elaborado de seus conhecimentos sobre a escrita. traz que eu vou dar visto” é o tipo de fala que mantém os sujeitos exatamente no lugar onde estão. por si sós. você pode até acreditar na boa-fé da professora. Isso porque. Independentemente da filiação teórica declarada pela professora cuja aula nossa estagiária assistiu.indb 121 26/08/2008 14:06:26 . 1997. ou dizendo de outro modo. Especificamente no que tange ao ensino da escrita. é necessário não negar ao aluno as “condições de civilização”. provavelmente. preliminarmente. essa profissional não estava levando em conta a importância que tem sua ação para auxiliar a mediação necessária para a construção dos conhecimentos em aula. de uma compreensão histórica do homem. “Pessoal. por parte da professora. e em primeiro lugar. Paralelamente. é possível afirmar que o contato da criança e sua ação sobre os símbolos da escrita. o aprendiz estará diante de um punhado de “coisas” que não configuram a linguagem escrita. 121 Livro 1. 86). um dos principais expoentes brasileiros no que se refere à investigação sobre a alfabetização vista desta óptica. a autora parte do princípio de que. ou seja. uma coisa é certa: em sua prática concreta. acima de tudo. não garantem. portanto. mas.Perspectiva histórico-social Refletindo sobre a aula de Língua Portuguesa cuja descrição você acaba de ler. em nome de um maior aprofundamento de um ou outro tópico. nesta circunstância. que a criança aprenda a linguagem escrita. para organizar um ambiente de trocas verbais entre os alunos que pudesse levá-los a se engajarem em um trabalho e. Ao contrário disso. vamos recorrer ao trabalho de Klein (1997). apresenta baixíssimo nível de informatividade e não apresenta qualquer desafio intelectual a seus alunos.

na perspectiva adotada pela autora. cujo sumário segue abaixo para maior conhecimento do leitor.4 Salto do Macuco 2. mas. vamos recorrer a um belo trabalho de ensino de Língua Portuguesa já explorado parcialmente em trabalho anterior (RIOLFI. acabaram por poder assumir.3 Marco das Três Fronteiras 2. Não se trata de aprender a escrever por escrever: pelo contrário. os alunos produziram o volume Escrevendo a história de Foz do Iguaçu. História de Foz do Iguaçu 2. sua história de vida.1 Parque Nacional do Iguaçu 2. em primeiro lugar. A aula de escrita gerando desenvolvimento subjetivo para o professor e seu aluno Para concluir de maneira mais concreta nossa reflexão sobre uma prática de ensino de escrita que não alije nem o professor nem seu aluno da história da qual são partícipes. fornece-nos alguns meios para construí-la.indb 122 26/08/2008 14:06:26 . Acompanhando a evolução da humanidade. conseguiu uma preciosa conquista: fazer com que um aluno de 13 anos. trata-se de fazer nosso aluno compreender que aprender a escrever consiste em uma importante conquista de um instrumento precioso. 1.Linguagem e Pensamento Que lições podemos tirar da citação que acabamos de ler? A citação é bastante rica. ao compreender o caráter isso aconteceu? histórico do homem.2 Cataratas do Iguaçu 2. é possível perceber que a escrita não serve apenas para registrar a história ― aliás. uma de suas importantes funções ― mas também. Trata-se aqui apenas de recortar um pequeno fragmento Como será que da prática pedagógica da professora S que. Em equipe. que. em grande medida. produzisse seu primeiro texto escrito. parece-nos necessário destacar que. evidentemente. não se pode tentar ensinar uma criança a escrever sem levar em conta sua inserção no “mundo dos homens”. em primeira pessoa. É importante ressaltar que este primeiro sim dito à escrita não se deu de modo isolado: ele foi contemporâneo à suspensão do emudecimento de alguns alunos. vindo a se envolver profundamente com um longo projeto de trabalho de pesquisa sobre as histórias de suas famílias e da construção da sua cidade ― Foz do Iguaçu ―. ao nos auxiliar a compor textos que possam formatar novos modos de pensar em nossa sociedade.5 Ponte da Amizade 122 Livro 1. levou-o em conta no planejamento de suas aulas e. Pontos Turísticos 2. 1999). que vinha se negando obstinadamente a escrever qualquer coisa que fosse. com bastante insistência. Como será que isso aconteceu? Não vamos recuperá-lo em sua integralidade.

construir um projeto comum. cuja voz mal conhecia. dando a ele um lugar na história de Foz do Iguaçu. seu drama familiar e dá a ver os efeitos da construção da hidrelétrica de Itaipu nas correntes migratórias em seu local de implantação.9 Aeroporto Internacional 2. Comentário 5.Perspectiva histórico-social 2. atividade de transição entre a pesquisa dos documentos oficiais da cidade e a investigação das histórias oficiosas das famílias. ao mesmo tempo. consiste numa bela denúncia sobre as dificuldades O que.7 Itaipu Binacional 2. História de Nossa Turma 4. após quase um ano de trabalho intenso por parte da professora. então.8 Ecomuseu 2. Referências Bibliográficas. de fato.indb 123 26/08/2008 14:06:26 . seu aluno Pedro. Nesse dia. Embora não parecesse muito à vontade. Pedro narra. Tenho 13 anos meu nome e pedro meu pai tem 39 anos seu nome e sebastião e minha mãe tem 39 anos seu nome e maria eu naci no paraguai o meu pai na bahia e minha mae nasceu em minas gerais e eles foram morar no paraguai mas meu pai ouviu falar uma conversa que tinha uma obra grande no brasil e ia ficar muita gente e dai o meu pai comprou um lote aqui no brasil isto já faz 10 anos que nos viemo morar aqui para o meu pai trabalhar na obra logo que nos viemo para ca o meu pai ja fichou na obra e trabalhou seis anos depois eles foi despedido ele voutou para o paraguai trabalhou na agricultura mas ele deijou nos no brasil para estudar e ele de todo 15 dias ele vem visistar nos. Assim sendo. de uma perspectiva histórico-social. após o trabalho quase heróico para organizar uma turma de adolescentes para. o leitor a ler generosamente o texto de Pedro. falou ao grande grupo pela primeira vez. pois. e mesmo quase nada falavam se não se levasse em conta os momentos de bagunça generalizada – teve o prazer de se surpreender com a boa adesão de um de seus alunos ao trabalho em um dia decretado por ela como sendo o “dia de falar sobre a vida”. Convido. nosso aluno escreveu um texto pela primeira vez. Seu texto. ainda que apenas para responder. como o leitor poderá comprovar logo abaixo. embora muito problemático do ponto de vista da norma padrão. inscreve o menino em uma linhagem. o trabalho da professora S nos ensina sobre a aula de Língua Portuguesa? 123 Livro 1. Remontando às suas origens. bastante laconicamente.6 Ponte da Fraternidade 2. às perguntas dos colegas sobre sua vida. durante um longo tempo lamentava o fato de que dois de seus alunos nada escreviam.10 Cassino Acaray e Cidades Paraguaias 3. a professora S – que. Não era um texto qualquer.

Os movimentos estão todos conectados por uma interdependência. Pensem como seria legal: eu. a discussão sobre qual seria o melhor método perde sua centralidade.enfrentadas pelas famílias cujos “chefes”. Ao relembrar o que tem sido a história da humanidade e analisar o papel de cada um dos instrumentos que construímos em suas grandes transformações. Está certo. são obrigados a mudar não só de cidade mas até de país. 2005) Eu. a gente erra. por um lado. conduzir sua prática de um modo que. usando também uma terceira como intermediária? Pois é. Sabe aquele jogo em que você tem que transportar uma “pirâmide” de discos de uma haste para outra. ao longo de todas as fases de seu trabalho. a consideração da jogada anterior é suficiente para antecipar o deslocamento da seguinte. Pronto: tudo se torna passível de previsão e de planejamento. para que outros dela também se beneficiem. o mistério é desfeito. ele não esqueça do caráter histórico do homem. isto é. Afinal.. professora. é verdade que jamais temos inteira consciência de tudo o que fazemos. para além do trabalho mecânico. não podemos esquecer que. o prazer de partilhar as conquistas. desejei que a vida fosse torre de Hanói. Concluindo nossa reflexão sobre a aula de Língua Portuguesa. ou que se recusam a fazer qualquer coisa que não contraria o outro). muitas vezes desejei que a vida fosse como esse jogo.. conseqüentemente. um livro de receitas bastaria para que eu me tornasse uma boa cozinheira. Além disso. fica fácil inferir as regularidades. só teria que procurar a técnica e os meios adequados e planejar o momento certo de sua aplicação. A vida não é torre de Hanói (MITSUMORI.indb 124 26/08/2008 14:06:26 . sua inserção conseqüente na civilização em que grande parcela da população está à margem – exige do professor que. Se. Assim. faz um monte de movimentos totalmente “inúteis”. o objetivo desse jogo é fazer um número mínimo de movimentos. por outro. Como eu ia dizendo. relembremos que levar em conta a necessidade de assumir-se como partícipe no processo de humanização de seus alunos – que se dá pela sua socialização. incluindo ele próprio. aquele que ensina a escrever não corre o risco de tornar-se o títere vivo das tendências da moda e. basta descobrir a lógica da relação entre as ações e estabelecer minimamente a ordem de seu encadeamento. ele não me mostra todos os passos para se fazer um belo bolo. há o gosto por aquilo que fazemos. por tantas e tantas vezes. se atrapalha. frente a um aluno rebelde (desses que adoram desafiar a “autoridade”. até por ele mesmo. acossados pelo desemprego. intercambiando-os de um em um entre essas duas colunas. é ignorado. as leis que compõem a sua estrutura. Nessa direção. volta. uma vez que é substituída por uma reflexão cultural mais ampla na qual a questão dos métodos e técnicas localizados é apenas um detalhe. Mas quando se percebe que o que se tem ali é um sistema lógico. Para isto. por exemplo? Livro 1. no começo o jogo nem sempre é assim tão simples: em geral. a obrigação ética de registrar nossas descobertas.

Caso contrário. porque a pedagogia insiste tanto em falar em planejamento? Planejamento educacional.. ou o torneio de xadrez. 2004.. Uma aposta de que aquele é o melhor caminho. eles normalmente eram usados em minha cidade natal para anotar os “feitos” ilustres de seus habitantes. a vida. seria (quase) perfeita: meus alunos seriam todos uns “anjos”.Sim. ou o concurso municipal de redação promovido pela Caixa Econômica Federal. plano de aula. em última instância. Suas páginas sem tinta eram para mim um permanente convite para preenchê-las... eu era fascinada por esses livros em branco. esse planejamento vira “camisa-de-força”. Mas esse planejar tem que considerar aquele imprevisível que é a marca da vida de todos nós. de prever o imprevisível. a história de alguém que ganhou os cem metros rasos. seguir por rumos totalmente diversos daqueles por nós “planejados”. o mais certeiro. numa busca incessante (e sempre frustrada) de uma vida (quase) perfeita. As regras. Livro 1. se tudo na vida é incerto e se os desdobramentos das ações nunca são passíveis de antecipação. 1 Você se lembra de uma peça que se compra em papelarias ou outras casas do ramo que se chama livro de ouro? Trata-se de um caderno grande. se fosse torre de Hanói. planejar as ações. essa incerteza que nos deixa sempre a sensação de que as coisas “escapam por entre os dedos”. Enfim. como não esperar que esse alguém a quem nos dirigimos saia do lugar em que estava e passe a ocupar uma outra posição? Não é essa causa que abraçamos? Sim. Porém. como possibilidade de previsão dos resultados. com tecido ou couro. Assim. as leis que regem os acontecimentos não estão dadas de antemão e as decisões são quase sempre uma aposta.indb 125 26/08/2008 14:06:26 . Quando criança. cada escola tinha o seu livro de ouro. o que nos ajudará a chegar aonde queremos. Por mais que se reflita. Mas a vida não é assim. normalmente encadernado de maneira primorosa.. com os 1 As atividades que se seguem consistem em uma adaptação daquelas pre viamente apresentadas em Riolfi. planejamento pedagógico. raciocine e planeje uma ação. meu bolo seria comestível. e com certeza é isso que nos orienta e que nos leva a querer. que pode. Não seria tudo isso uma inutilidade. nunca é possível saber ao certo o que virá depois. e para lá iam os registros dos sucessos publicamente reconhecidos de seus alunos.. a marca da vida é essa imprevisibilidade. como professora eu não teria problema algum. onde cumpriam a tarefa de registrar para as famílias quem tinha honrado os funerais de um ente querido. como por exemplo. Na época. talvez possamos dizer que sim. a educação nos lança esse enorme desafio de planejar o implanejável. uma perda de tempo? Se pensarmos nesse tal planejamento como escudo contra toda e qualquer falha no processo. Mas então. Além dos velórios. não pode deixar de levar em conta o desejo do outro sujeito. Enfim. não seria possível pensar nessa questão em outros moldes? Não podemos esquecer que falamos de um trabalho que é direcionado a uma outra vida humana. feito à moda de um livro. projeto de escola. feito torre de Hanói.

(CALKINS. mais tarde. Passo 2 – Trabalho individual Considere atentamente seu primeiro esboço como ponto de partida. Anote os pontos importantes de sua própria narrativa oral e leve para casa. como se lê no belo excerto abaixo sobre o texto ensaístico. uma consciência extra. mas corresponde à opção por um estilo de vida. onde quer que olhem. visando a transformar os esboços trazidos como lição de casa por nós narrando um fragmento de nossa vida real em um belo texto ficcional ou ensaístico. 30). pode ser o testemunho da influência de um escrito sobre sua formação como professor. mesmo que o autor não tenha ficado sabendo de seu sucesso. há poucos anos. cada um vai transcrever lá (na página indicada pelo monitor da turma). acima de tudo.Linguagem e Pensamento pequenos “feitos” de minha vida de menina. organize suas anotações na forma de um esboço descompromissado e informal. Embora em outros tempos. No momento preciso. comovê-lo. Valem lembranças de algo que alguém escreveu para você ou que você escreveu para alguém. Que seja também o melhor que cada um de nós puder produzir! Passo 1 – Preparação em grupo para o trabalho Trabalhando em pequenos grupos por cerca de meia hora. Transcrevi. abaixo. teve o poder de resgatar em mim lembranças adormecidas sobre o início de minha carreira. porque parece muito com sua autora. 126 Livro 1. nós também temos direito ao nosso livro de ouro. também. As pessoas que escrevem regularmente vivem com um senso de “sou alguém que escreve”. sigamos os procedimentos adotados por uma autora americana: Lucy Calkins. um modo de vida. Estamos agora atrás dessa “extra-suscetibilidade”. riso etc. também os escritores vêem histórias em potencial. tentar resgatar nele o prazer de escrever que talvez se esconda ainda em um belo lugar. Para ela. com sua melhor letra. Ou seja: a idéia central do trabalho no pequeno grupo é tentar recuperar historietas verídicas nas quais a escrita exerceu um papel importante em sua prática pedagógica. uma vez que mostra um pouco dela. 1989. e esta consciência engendra uma extra-suscetibilidade. “As estórias acontecem para aqueles que escrevem” diria Tucídides. em voz alta. O ensaio é. Exatamente como os fotógrafos estão sempre observando fotos potenciais. p. um texto que. leia o texto “Um dia de Professor” e. ou seja. pessoa para quem a escrita ainda mantém a sua mística e a sua mágica. quando também eu andava nos ônibus de minha cidade carregando enormes pacotes de redação para corrigir. escrever não é uma ação entre outras. Também pode ser a narrativa dos efeitos da leitura de um texto (de um livro ou de um texto menor). tente lembrar-se de um momento semelhante ocorrido em sua vida. a versão final de seu texto.indb 126 26/08/2008 14:06:26 . expressão de surpresa ou de descrédito. Marque também as eventuais reações de seus companheiros de grupo (perguntas.) e. Escolhi-o como “modelo” porque o achei belo e sensível e. Então. Precisamos tocar o outro com nossa escrita.

Abri a bolsa e logo vi um envelope feito à mão endereçado a mim. Luana. era a vez da 6. onde estou. Agora. Ninguém contabiliza as horas gastas na correção de exercícios. 2 Professora da Rede Municipal de Campinas . Parada no ponto do ônibus. lendo. lembrei-me dos trabalhos que ali estavam para serem corrigidos. já professora efetiva. Lembro-me das aulas daquele dia: nas oitavas e na 6. Os alunos já chegam perguntando: “Algum professor faltou hoje? Tem aula vaga? Vamos sair mais cedo?” As oitavas já tinham me colocado em “modo de segurança”. ela pedia desculpas pelo seu comportamento. por que e para que estou ali. ninguém vê as horas que gastamos para preparar uma atividade pensando em uma aula legal. A bolsa estava pesada sobre a minha perna. pode tudo. mas não conseguia parar de falar. Ela disse que era assim com sua mãe também: ela brigava com a sua mãe sem saber por quê. por favor! Daí por diante. E a beleza daquele momento inundou a minha vida inteira. Chegou o ônibus. Abri. falo menos. na leitura de redações e trabalho”. Comecei a aula pedindo atenção. evito sorrir. alunos suados e recarregados. Comecei a chamá-los pelos nomes: ― André! Volte para o seu lugar que a aula já começou! ― Luana! Você já ouviu o que eu disse? Luana! Cheguei bem perto e apelei para nossa amizade. em tom mais duro: ― Luana. silêncio: umas dez vezes para começar.ª B: depois do recreio. penso eu. movo-me em pensamentos sobre o que sou. E terminou dizendo: — Um beijo. Entrei na sala sem dizer muita coisa. 127 Livro 1. se acalmassem. As oitavas são um desafio a qualquer especialista em motivação de adolescentes. Uma não! Milhares! Penso eu.ª B. Era um bilhete da Luana. Então. Mudar o mundo? Fácil! Ser um professor carismático.indb 127 26/08/2008 14:06:26 . Quando isso acontece. Não adiantava eu chamar para que ela participasse do debate da aula: a Luana tinha ficado muda. ela ficou em silêncio total. competente e influente? Tranqüilo! Mas no meio do caminho havia uma pedra. “Ninguém dá valor ao nosso trabalho. Apaguei a lousa e dei algum tempo para que eles se sentassem. Respirei fundo.SP. Ela disse que gostava das aulas.Perspectiva histórico-social Um dia de professor Gisane Márcia Carvalho Dinnouti 2 Ah! Minhas aulas na graduação! Tantos sonhos! Uma sensação que se sabe de tudo. Não vou corrigir. daquele ônibus que não chega nunca. daquela bolsa cheia de trabalhos para corrigir. já chego em sala colocando os objetivos da aula na lousa. Guardei. te amo. Guardei com cuidado aquele bilhete. não vou devolver. cansada daquele dia. Nele. chutando as pedras que incomodam no meu caminho. começou o trajeto que duraria 50 minutos até a minha casa.

Solitariamente. não se limite a dizer algo genérico como “está ótimo”. por sua vez. coloque um meio de contato. Uma frase ou parágrafo ficou “chata” de se ler. Passo 4 – Finalizando individualmente o trabalho O monitor de sua turma deve organizar um sistema de revezamento por meio do qual todos possam ter a oportunidade de transcrever a versão final de seus textos no livro de ouro. Se tiver vontade. o que você julga ser o ponto alto.Linguagem e Pensamento Passo 3 – Trabalho em grupo Trabalhar em pequenos grupos. Ou seja. de seu texto. Escreva lá um pequeno currículo seu. editando do seu modo. um pouco mais elaborado. Devolva o texto e suas anotações ao seu parceiro e receba o seu. mas ajude o seu parceiro a construir um bom produto escrito. Desfaça esse primeiro grupo de trabalho. 3. anote: as sensações que o texto lhe causou. 2. Como ninguém melhor do que você para saber como ela é. pense sobre tudo que ouviu e decida como é que você vai transcrever a versão final do seu texto no papel almaço. Monte novo grupo de trabalho com um novo parceiro. O importante agora é trabalhar na imagem do seu texto para deixar a sua página do livro “com a sua cara”. Reflitam conjuntamente sobre as sugestões feitas. Após vocês dois terminarem. ajude-o a encontrar alternativas. É a hora de pensar em sua forma! Você prefere transcrever em uma única cor ou vai usar várias? Vai fazer um pequeno desenho ou caricatura como ilustração? Vai desenhar uma bela borda para separar as informações de seu currículo do texto? Vai usar lápis de cor para tornar o fundo de sua página (ou páginas) diferente das demais? Vai colar uma foto sua no cabeçalho? Isso tudo é você quem decide. começa todos os parágrafos com “então”). para as pessoas poderem encontrar você. conversem sobre as mudanças sugeridas. para não atrapalhar a concentração dos demais. Usando um lápis. agora é a hora de usar os dicionários e as gramáticas. uma vez que estão sobrando no texto. torne-a sua. Mostre o seu esboço a um colega e. São sugeridos os passos abaixo. no sentido de colocar a idéia de forma mais precisa. Entregue sua versão final ao monitor. que ainda não leu seu texto. pense em uma nova formulação que possa torná-la mais interessante. mas na sua idéia. Ele usa sempre a mesma estrutura (por exemplo.indb 128 26/08/2008 14:06:27 . Lembre-se que agora não é a hora de trabalhar na correção do texto. não há motivos para se envergonhar. não pule pedaços. as lacunas percebidas por você. receba o que ele trouxe para ser trabalhado. as eventuais estranhezas no encadeamento das idéias. seja muito generoso. Solitariamente. Em uma folha à parte. se possível fazendo bem pouco barulho. não tenha preguiça. Peça a ele para revisar cuidadosamente o que você escreveu e faça o mesmo com o texto dele. Ele também está fazendo isso no seu – logo. 1. 128 Livro 1. considere as anotações recebidas e escreva no papel sulfite um primeiro esboço. rabisque à vontade o texto do parceiro. Com relação ao texto que você recebeu para ler. 4. Colabore e trabalhe ativamente. ajude-o a encontrar sinônimos. Seu parceiro usou palavras repetidas. Na dúvida. as coisas que você eventualmente não teria escrito. 5.

2003. n. Unesp. Contem capítulos sobre o ensino de poesia. Sílvia L. 1999. Tematizando o “ensino de redação”. 1989. p. São Paulo: Fafe/Feusp. A arte de ensinar a escrever: o desenvolvimento do discurso escrito. 1997. IEL/Unicamp. Tese de Doutorado em Educação. as pessoas perguntam-me o que penso ser a mensagem mais importante a transmitir para os professores de crianças pequenas. 40. RIOLFI. 129 Livro 1.Perspectiva histórico-social Leia o fragmento em que Calkins reflete sobre a formação de professores das séries iniciais do Ensino Fundamental. Lucy McCormick. (CALKINS. bastante agradável para se ler. 2005. Nanci Miyo. Tese de doutorado. Porto Alegre: Artes Médicas. CALKINS. São Paulo: Fafe/Feusp. Campinas. por todos aqueles que desejam ensinar a escrever. no prelo. Revista da Associação de Leitura do Brasil. ficção e escrita de relatórios. 1997. KLEIN./jul. escrito de um modo simples. RIOLFI. trata-se de um livro muito abrangente. _____. desde a pré-escola até o segundo grau. em leitura imperdível para todos que estão preocupados com o desenvolvimento do discurso escrito de seus alunos. Maria do Rosário Mortati. Ensinar a língua portuguesa no século XXI: desafios e perspectivas para o Ensino Fundamental II. MITSUMORI. Matizes da educação inclusiva: um diálogo psicanálise-educação. 2004. 58). 47-51. São Paulo. Presidente Prudente. Feusp. Ensinar a escrever: considerações sobre a especificidade do trabalho da escrita. Minha resposta é simples: quero que os professores saboreiem aquilo que os alunos fazem. MAGNANI. 1989. Claudia Rosa. Cláudia Rosa et al. Você concorda com o que ela diz? CALKINS. Às vezes. Está repleto de sugestões que podem ser colocadas em prática. 1989. Lucy McCormick. p. _____. portanto.indb 129 26/08/2008 14:06:27 . O declínio do império da letra: implicando-se na invenção de uma “nova transa” com a escrita. In: TRIVELATO. Os sentidos da alfabetização: a questão dos métodos e a constituição de um objeto de estudo – São Paulo. Porto Alegre: Artes Médicas. Alfabetização e letramento: um compromisso de todas as áreas. Frateschi. A arte de ensinar a escrever: o desenvolvimento do discurso escrito. consistindo. Campinas. Tese de Livre-docência. O discurso que sustenta a prática pedagógica: Formação de professor de língua materna. Alfabetização: quem tem medo de ensinar? São Paulo/Campo Grande: Cortez/ Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. jan. 1876-1994. Lígia Regina.

indb 130 26/08/2008 14:06:27 .Livro 1.

indb 131 26/08/2008 14:06:27 .Anotações Livro 1.

indb 132 26/08/2008 14:06:27 .Linguagem e Pensamento 132 Livro 1.