Créditos © Mario Benedetti c/o Guillermo Schavelzon & Asoc. Agencia Literaria info@schavelzon.com, 1960 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Objetiva Ltda. Rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro — RJ — Cep: 22241-090 Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825 www.objetiva.com.br Título original La Tregua Capa Marcelo Pereira / Tecnopop Imagem de Capa Gueorgui Pinkhassov / Magnum Photos Revisão Sonia Peçanha Lilia Zanetti Isa Laxe Conversão para e-book: Abreu’s System Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B398t Benedetti, Mario A trégua [recurso eletrônico] / Mario Benedetti ; tradução Joana Angélica d’Avila Melo. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2011. recurso dogital Tradução de: La tregua Formato: ePUB Requisitos do sistema: Modo de acesso: 120p. ISBN 978-85-7962-101-7 (recurso eletrônico) 1. Romance uruguaio. 2. Livros eletrônicos. I. Melo, Joana Angélica d’Avila. II. Título. 11-5174. CDD: 868.993953 CDU: 821.134.2(899)-3

Epígrafe Minha mão direita é uma andorinha Minha mão esquerda é um cipreste Minha cabeça, de frente, é um senhor vivo E, por trás, é um senhor morto. VICENTE HUIDOBRO

Segunda, 11 de fevereiro Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos cinco anos que mantenho este cômputo diário do meu saldo de trabalho. Na verdade, preciso tanto assim do ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é do ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem, quem sabe. É bom como descanso ativo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra minha futura e garantida artrite. Mas temo não conseguir agüentar isso diariamente. Violão, outra hipótese. Acho que me agradaria. Mas começar a estudar solfejo aos 49 anos deve ser meio desolador. Escrever? Talvez não o zesse mal; pelo menos, as pessoas costumam gostar das minhas cartas. E depois? Imagino uma notinha bibliográ ca sobre “as notáveis qualidades deste autor estreante que beira os 50”, e a mera possibilidade me causa repugnância. Que eu me sinta, até hoje, ingênuo e imaturo (isto é, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma de suas virtudes) não signi ca que tenha o direito de exibir essa ingenuidade e essa imaturidade. Tive uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa, insistia em mostrá-la a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe havia cado preso aos lábios desde a época em que se exibia para o namorado motociclista, o qual depois se matou numa de nossas tantas Curvas da Morte. Ela se vestia de maneira correta, inteiramente de acordo com seus 53; nisso, e no resto, era discreta, equilibrada, mas aquele sorriso reclamava um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de 20 anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que não chegava nunca a parecer ridículo, porque naquele rosto havia também bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético.

Sexta, 15 de fevereiro Para render passavelmente no escritório, preciso me obrigar a não pensar que o ócio está relativamente próximo. Do contrário, meus dedos se crispam e a letra redonda com a qual devo escrever os itens me sai quebrada e deselegante. A letra redonda é um dos meus maiores prestígios como empregado. Além disso, devo confessar que me dá prazer o traçado de algumas letras como o “M” maiúsculo ou o “b” minúsculo, nas quais me permiti algumas inovações. O que eu menos odeio é a parte mecânica, rotineira, do meu trabalho: repassar um lançamento que já redigi milhares de vezes, efetuar um balanço de saldos e constatar que tudo está em ordem, que não há diferenças a buscar. Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até (por que não dizer a mim mesmo?) também sonhar. É como se eu me dividisse em dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro de onde pisa, e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde corre a pena nem que coisas escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra.

Suas relações com os irmãos às vezes chegam à beira da histeria. O orgulho é para quando se tem 20 ou 30 anos. Jaime herdou dela a testa e a boca. mas o certo é que ele parece um ressentido. Ele me parece sensível. Ainda não sei a quem se dirige seu ressentimento. e a fadiga se instala nas minhas costas e na nuca. no fundo. minhas duas metades devem trabalhar para a mesma coisa. Eu deveria me sentir orgulhoso por haver cado viúvo com três lhos e ter conseguido seguir adiante. e talvez se sinta um pouco escrava da nossa desordem. como um emplastro poroso. mas nunca se sabe. Blanca. eu já não posso pensar no que quiser. para compartilhar comigo seus mais árduos problemas. mais ainda. parecem sempre mais decididos. Que me importa o lucro provável do item Pernos de Pistão no segundo semestre do penúltimo exercício? Que me importa o modo mais prático de conseguir a redução das Despesas Gerais? Hoje foi um dia feliz. Esteban é o mais arredio. Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse me sentir feliz. eles se amem bastante. Esteban e Blanca têm os olhos de Isabel. embora isso de amor entre irmãos traga consigo a quota de exasperação mútua que o costume provoca. é por demais ciosa de sua vida própria. tem algo em comum comigo: também é uma triste com vocação de alegre. como se trata de algo mais do que rotina. mas não me parece fundamentalmente honesto. sim. Então. Creio que tem respeito por mim. disposições e grati cações de m de ano. se pudesse ver Isabel hoje? A morte é uma experiência aborrecida. Terça. Nem sequer sicamente. Quanto ao resto. mas ela sabe dominar-se e. às vezes que me admira. Não. 19 de fevereiro . Talvez. É evidente que existe uma barreira entre nós dois. não estão acostumados a duvidar. Segunda. maduros? Tenho uma pergunta melhor: o que eu pensaria. todos têm mais energias do que eu. Às vezes acho que ele me odeia. das nossas dietas. preocupados. para os outros. e sim cansado. ativos. o insuportável não é a rotina. 18 de fevereiro Nenhum dos meus filhos se parece comigo. Não havia outra solução.Em meu trabalho. só rotina. me parece inteligente. Mas não me sinto orgulhoso. Jaime talvez seja meu preferido. o pedido repentino dessa Diretoria fantasmal que se esconde por trás de atas. da nossa roupa suja. É quem ca mais tempo em casa. não se parecem comigo. Em primeiro lugar. é o problema novo. impermutável. sobretudo para os outros. a urgência com que se reclama um informe ou um balancete analítico ou uma previsão de recursos. O que Isabel pensaria se pudesse vê-los hoje. embora quase nunca possamos nos entender. pelo menos. sabe dominá-los. Seguir adiante com meus lhos era uma obrigação. o único escape para que a sociedade não me encarasse e me dedicasse o olhar inexorável que se reserva aos pais desalmados. e eu segui adiante.

a dos velhos que tomam o ônibus até a Aduana e depois retornam sem desembarcar. nem tocou em nenhum dos incontáveis temas do pileque universal. Era um bêbado estranho. às vezes não chego ao horizonte e me conformo com me acomodar à janela de um café e registrar a passagem de algumas pernas bonitas. O que faz Goya nessa velha casa importadora de autopeças? Não sei o que teria acontecido. desdenhosas. a das mães jovens que nunca saem de noite e entram no cinema. senti-me de repente insuportavelmente vazio. 21 de fevereiro Esta tarde. Às vezes terminam numa humilhação lúcida. Conheço a Montevidéu dos homens com horário. por volta das três e meia da tarde. de me convencer de que não devo me permitir explosões. a das babás que denigrem suas patroas enquanto as moscas devoram as crianças. Bom. Talvez gritasse. numa encarniçada busca do ar livre. numa aceitação irremediável das circunstâncias e de suas diversas e agravantes pressões. Segurou meu braço e disse. perfumadas. O que eu não suportava mais era a parede em frente à minha escrivaninha. ou simplesmente submergisse nas esmeradas páginas do Livro-Razão. sob pena de perder meu equilíbrio. com uma luz especial nos olhos. reduzindo sua módica farra à simples mirada reconfortante com que percorrem a Cidade Velha de suas nostalgias. Tive de pendurar o paletó de lustrina que se usa no escritório e avisar ao Setor de Pessoal que precisava passar pelo Banco República para resolver aquele assunto do capital de giro. a dos aposentados e ociosos vários. os que entram às oito e meia e saem às 12. a horrível parede ocupada por aquela enorme folhinha com um fevereiro dedicado a Goya. um bêbado me deteve na rua. ou iniciasse uma das minhas costumeiras séries de espirros alérgicos. com cara de culpadas. esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos. ao menos por enquanto. quase apoiando-se em mim: “Sabe o que lhe acontece? Que você não vai a lugar nenhum. otimistas. a das frescas moçoilas que no meio da tarde saem recém-banhadinhas. ao passo que eu co neurastênico diante de uma folhinha com seu fevereiro consagrado a Goya. se eu tivesse permanecido olhando a folhinha como um imbecil.” Outro sujeito que passou nesse instante me tou com uma alegre dose de compreensão e até me dedicou uma piscadela de solidariedade. Mas existe a outra cidade. Então saio como saí hoje. Quinta. nem disse que ele e eu éramos irmãos. a dos filhinhos da mamãe que acordam ao meio-dia e às seis da tarde ainda trazem impecável o colarinho branco de tricolina importada. de sei lá quantas coisas mais. Estou convencido de que. como se realmente não me dirigisse a lugar nenhum e só agora o percebesse. que crêem ganhar o céu jogando migalhas aos pombos da praça. Esses são meus desconhecidos. Porque já aprendi que meus estados de préexplosão nem sempre conduzem à explosão. a cidade é outra. Estão instalados muito comodamente na vida. no entanto. os que retornam às duas e meia e vão embora de nitivamente às sete. Mas já faz quatro horas que estou intranqüilo. durante o expediente. de que devo freá-las radicalmente. quando eu vinha do escritório. . en m. Esses rostos crispados e suarentos. espirituosas. do horizonte. Mentira. Gosto. Não protestou contra o governo.Às quatro da tarde.

quando solteiro morei na rua Brandzen.” “Devia estar idoso. sim. quem morava ao lado. porque o homem se deteve e. 23 de fevereiro Hoje almocei sozinho. Quando vinha pela Mercedes. “Claro. a energia aos poucos se relaxem e se acostumem a morrer bem. Primeiro. estendeu-me a mão.” Afinal. rico. mas. qual era a porção de verdade? “E sua velha. esperando que ela me convidasse para almoçar. Mas não. Naturalmente. Naturalmente. ainda descon ado. mostrando no sorriso uma dentadura devastada. Quando eu me aposentar. Faz bem uns trinta anos desde aquela época. talvez o melhor seja me abandonar ao ócio. fui umas três ou quatro vezes. não poderia dizer como era a fachada da casa. e tenho três lhos”. não muito. claro!”. Então ele sofreu um acesso de vergonha: “Bom.” Claro que ele devia estar idoso.. perguntei. a névoa se dissipou um pouco e por um instante vi a barriga. murmurando desculpas e de certa forma confessando minha perplexidade. E isso. “Eu me lembro até da tortilha de alcachofra que sua velha fazia. “E do café da rua Defensa?” Aí. “Sempre?”. “E como vai Isabel? . juro que não me lembro. Devo tê-lo olhado com curiosidade. Então respondi que sim. ainda que me moessem de pancada. Mas não tive coragem de confessar.Sexta. Duas horas e 15 minutos. que me desculpasse. Sábado. e vou achar insuportável me sentir tão vazio e. Claro. 22 de fevereiro Quando eu me aposentar. Que sorte. mas meu desconcerto era cada vez maior.” “Caralho. com alguma vacilação.. E seu velho?” “Morreu há dois anos. “Não se lembra da rua Brandzen?” Bom. O sujeito parecia tão entusiasmado com o encontro. ele esboçou uma saudação. sim. eu sou Mario Vignale. em outros tempos. “Bem. exclamei iluminado. de modo que ele me arruinou a sesta do sábado. do galego Álvarez. ainda por cima. cruzei com um sujeito de marrom. em Tacuarembó.” E soltou uma bruta gargalhada. Há momentos em que tenho e mantenho a luxuosa esperança de que o ócio seja algo pleno. Só então ele formulou a pergunta mais lógica: “E você.” Mario Vignale? Não me lembro. os músculos. Deus do céu. a m de que os nervos. Também estendi a minha. sem dúvida. porque então. Sensacional. tivesse visto com freqüência. acabou se casando com Isabel?” “Sim. que na semana passada me encontrara com um primo e não o tinha reconhecido (mentira). Obstinou-se em me reconstituir pormenores. quantas sacadas tinha. respondi. valeria a pena anotar. Não era uma cara desconhecida. vai bem?” “Morreu há 15 anos. creio que não escreverei mais este diário. a última oportunidade de encontrar a mim mesmo. e não sou famoso por minha memória. “Martín Santomé?”. me acontecerão muito menos coisas do que agora. Martín Santomé. deixar disso um registro por escrito. a uma espécie de modorra compensatória. encurtando o caminho. que chatice. Ele tem cinco. com cinturão largo. perguntou ele. no Centro. que eu era um péssimo sionomista. Estava morando na casa da minha tia Leonor. em me convencer de que havia participado da minha vida. era obrigatório tomarmos um café. Eu ia sempre às onze e meia. Era algo assim como a caricatura de alguém que eu.

Eles são corretos comigo. nosso aluguel vai aumentar 80 pesos. Nossos horários nem sempre coincidem. ou eu poderia fazer algo mais para me comunicar com eles? Em geral. mas foi o mesmo que se tivesse continuado a ler. mas não consigo me sentir diante de seu olhar. e mais nada. a 10 centímetros da sua mão direita”. olhou o relógio. mas não quero sabê-los de segunda mão. são terrivelmente reservados. mas como. Acho ofensivo que as pessoas leiam quando comem com a família. de algum traço de Esteban ou de Blanca. em seguida. Domingo. Mas Jaime perguntou: “Quem é esse Vignale?” “Mario Vignale. de bigode?” Ele mesmo. retrucou Blanca. E não consigo. que acontecimento festejávamos.” No fundo. ferina: “Quer que eu lhe passe?” A sopa estava insossa. Jaime disse que a sopa estava insossa. Mas Blanca perguntou: “Com que então. mas não houve eco. É verdade. a coisa não é tão grave.” “Um sujeito meio careca. Apressou-se em terminar o terceiro café e. “Conheço. 24 de fevereiro Não tenho saída. Tremendo achacador.Sempre bonita?” “Morreu”. vê-los em todos os detalhes diante de mim. A conversa com Vignale me deixou uma obsessão: recordar Isabel. Há uma espécie de reflexo automático nisso de falar da morte e em seguida olhar o relógio. além disso. assim não tenho escrúpulos em me livrar dele. por exemplo. acho-os mais incrédulos do que desatinados. disse Jaime. está sempre se contendo para não discutir minhas opiniões. assim como vejo agora minha cara no espelho. sua correção sempre parece o mero cumprimento de um dever. Passei a registrar quais eram as escassas interrupções do consagrado silêncio. O que nos separa será a simples distância geracional. Disse isso a ele. Perguntei. respondi. quando tinha a mesma idade. Segunda. mas por que aquilo? Esteban informou que. “é colega de Ferreira. Blanca me olhou e sorriu. distante. e acrescentou. Sei que os olhos dela eram verdes. e nossos planos ou nossos interesses. das fotogra as. Hoje jantamos juntos. A palavra soou como um disparo e ele — ainda bem — cou desconcertado. agrada-me que Vignale seja uma porcaria. a partir do próximo semestre. Jaime largou o jornal. porque continuou sisudo. como se quisesse me comunicar que compreendia minhas boas intenções. 25 de fevereiro Encontro meus lhos muito pouco. Como todos contribuímos. Conheço todos os seus dados. e sim recordá-los diretamente. fazendo a cara mais imperscrutável do meu repertório. menos ainda. Relatei meu encontro com Vignale. em tom de brincadeira. mais fechados do que eu. Jaime começou a ler o jornal. Esteban. tentando ridicularizá-lo para trazer ao jantar um pouco de animação. Fazia provavelmente uns dois meses que não estávamos todos presentes num jantar familiar. Já não se trata de resgatar sua imagem por meio das historinhas familiares. Bela peça”. “O sal está bem aí. ele se lembrava de mamãe?” Achei .

Talvez seja por isso. possua a imagem. cheio de problemas. que tenho registradas tantas noites. tem testa larga e boca grande. Quinta. como quem vê o próprio rosto no espelho? Será possível que ele. Tinham umas esplêndidas caras de susto. elas ficam meio atarantadas. além disso. Esses “novos” que entraram não parecem ruins. e de vez em quando dirigiam aos veteranos um olhar de respeitosa inveja. e se normalmente já forem atarantadas. Sempre desconfiei delas em matéria de números. Onde ela estiver. 28 de fevereiro Esta noite conversei com uma Blanca quase desconhecida para mim. agora sou totalmente chefe: tenho nada menos que seis funcionários sob minhas ordens. as sobras. “Sorte dele”. creio que moveu os lábios. tornam-se completamente imbecis. é por isso. De repente cou imóvel. outro inconveniente: durante os dias do período menstrual. e um olhar fugidio e ao mesmo tempo adulador. Talvez olhássemos demais os números. em geral. Além disso. e esta. Estávamos sozinhos. depois do jantar. as somas. ou diretamente. Mas e o dia? Durante o dia. disse Esteban. não reste nada? Fazíamos amor no escuro. e até mesmo nos que os antecedem. e seu olhar era ao mesmo tempo perdido e . tantas noites. delicado. e que a mim. tantas noites. a memória importa alguma coisa? “Às vezes me sinto infeliz. Tem um rosto sem força. Pela primeira vez. e não tivéssemos tempo de nos olhar. daquele mês. com uma carta erguida no alto. mas decidiu car calado. murmurou Blanca. Como será que ele se lembra? Como eu. é direta. A mocinha não parece ter tanta vontade.” “Mas eu. dois traços que. mas tem um aspecto simpático e (ao menos por enquanto) uma evidente vontade de trabalhar. que lembrança terá de mim? A nal. se normalmente forem espertas. Vou deixar com eles os livros de mercadorias e com ela o Auxiliar de Resultados. Tenho uma memória táctil dessas noites. Eu lia o jornal e ela jogava paciência. Eu chegava do trabalho cansado. enquanto repartia os pêssegos em calda. me causam boa impressão.que Jaime ia dizer alguma coisa. Couberam três e meio para cada um. “eu não me lembro. com recordações de recordações. a mim. sim”. 27 de fevereiro Hoje entraram para o escritório sete empregados novos: quatro homens e três mulheres. Seguramente. Às vezes fazíamos contas. O outro é um eterno descabelado. Chamam-se Alfredo Santini. Rodolfo Sierra e Laura Avellaneda. sim. A mim. uma mulher. em contraposição. O de 18 anos é o que menos me agrada. couberam dois pirralhos (um de 18 e outro de 22) e uma moça de 24 anos. acrescentou Blanca. Nunca chegava. se é que está. Quarta. que só tinha 4 anos. mas pelo menos compreende o que a gente explica. Portanto. talvez furioso com a injustiça daquela semana. não estávamos no escuro. só por não saber do que tenho saudade”.

Sexta. Ela então pareceu despertar. em seguida. mas uma menininha. falou-nos do baixo rendimento do pessoal. segui um impulso natural: me levantei. gastos. Quando uma mulher chora diante de mim. leva escondido sob o guarda-pó o suplemento em cores ou a página de esportes. e que no futuro não estava disposto a tolerar que. e isso me parece horrível. de agora em diante. Não estranhei muito. os veteranos também. perguntei em que pensava. às vezes. etc.” Ela então começou a falar atropeladamente. não sei como lidar com aquilo. por m. e não sei em que empregá-la. não sei o que fazer com ela. ela não parecia uma mulher de 23 anos. que zesse o possível para se desligar de nós. Vejo Esteban e vejo Jaime e tenho certeza de que eles também se sentem descontentes. Portanto.melancólico. porque eu sei que você não é opaco. papai). e nada acontece.” Respondi (que outra coisa eu poderia dizer?) que ela estava com a razão. etc. quando vai ao banheiro (exatamente às 10h15). pelo menos. Ela então sorriu. Disse que a Diretoria lhe zera chegar uma observação nesse sentido. Eu mesmo. sequei-lhe os olhos e lhe assoei o nariz com a metade não usada do meu lenço. comentei: “Oh. que me agradava muito vê-la gritar esse inconformismo. disse que eu era muito bom e jogou os braços ao meu pescoço. eu me torno indefeso e. Perguntei o motivo e ela disse que não sabia. Quando. E não somente os novos. Aos poucos ela foi se acalmando e as convulsões chorosas se espaçaram. É certo que Robledo. sem conseguir se conter. É uma menininha ainda. Pelo menos. sua posição se visse gratuitamente afetada. que me parecia estar escutando um grito meu. Durante três quartos de hora. Ninguém chora por nada. e nada me comove até a raiz. Vigiei-a durante alguns instantes. Perguntei se se sentia descontente e ela respondeu que sim. Às vezes (não se aborreça. Mas é também certo que o . ainda por cima. sem dizer palavra. como antes. O que será que eles chamam de “baixo rendimento do pessoal”? Eu. não era. alguma coisa deve haver. de nossa órbita. posso dizer que meus funcionários trabalham. Fico desesperado. como se não quisesse que ninguém profanasse seu pranto. também olho para você e penso que não gostaria de chegar aos 50 anos e ter sua têmpera. desajeitado. É certo que Muñoz aproveita suas saídas até a Inspetoria de Rendas para surrupiar à empresa vinte minutos de ócio diante de uma cerveja. seu equilíbrio. impelida por um desejo repentino de franqueza: “Tenho a horrível sensação de que o tempo passa e eu não faço nada. me aproximei dela e comecei a lhe acariciar a cabeça. Desta vez. por causa da nossa negligência (como gosta de acentuar “negligência”!). dirigiu-me um olhar desolado e. Nesse momento. Sinto em mim uma grande disponibilidade de energia. simplesmente porque os considero sem relevo. É certo que Méndez lê romances policiais habilmente acondicionados na gaveta central da sua escrivaninha. de muitos anos atrás. me sinto infeliz sem motivo concreto. afundou a cabeça entre as mãos. 1º de março O gerente chamou os cinco chefes de seção. momentaneamente infeliz porque uma de suas bonecas se quebrou ou porque não a levaram ao zoológico. Contrariando minha própria experiência. enquanto sua mão direita empunha uma caneta sempre atenta à possível entrada de algum hierarca. baixou as mãos. Acho que você se resignou a ser opaco.

quando eu estava bem no meio de um sonho mais vulgar do que pecaminoso. diziam então em coro: “Chegou don Policarpo!” Don Policarpo era uma espécie de monstro que castigava as crianças que não comiam. Formaram sua la. Quando chegava uma visita. sei muito bem qual era o destinatário do aperto do gerente. Era cômodo para todo mundo. eu só tinha forças para mover as mandíbulas numa velocidade incrível e assim acabar com o insosso e abundante purê. Ameaçar-me com don Policarpo equivalia a apertar um botão quase mágico. Na realidade. que Suárez se deita com a filha do presidente? Não é de se jogar fora. Cada um. sentir as palpitações do meu antigo medo. o medo ia se transformando em fascinação. à medida que passavam os anos. Com esse aspecto. e posso confiar plenamente em que as coisas estão sendo bem-feitas. Às vezes. com uma quase enfermiça sensação de espera. arrastando suas túnicas escuras. guardaram silêncio e se esfumaram. e que. vinha bater à minha janela. Era curioso: em meu sonho. alguma tia. em raras ocasiões. Sempre apareciam em la. depois de trinta anos. todos se afanam e trabalham com verdadeiro sentido de equipe. No final. essa Lidia Valverde. Sábado. como todos nós.trabalho está sempre em dia. Ela vestia um enorme impermeável do meu tio. Depois fui perdendo cada vez mais essa esperança e cheguei insensivelmente à época em que comecei a contar aos estranhos o fácil enredo do meu sonho. em sua reduzida especialidade. voltei a sonhar com meus encapuzados. A empregada. pois era isso o que o impermeável do meu tio zera. todas iguais. E. Durante muitos anos dormi com um inevitável desconforto. uma noite. eu assistia como que hipnotizado àquela cena cíclica. aterrorizante para mim. repleta de faturas. além do susto. nas horas em que o trâmite se acelera e a bandeja aérea do Caixa viaja sem cessar. Paralisado no meu próprio terror. havia minhas noites. Só isso. executa mal sua tarefa. para que chamar-nos todos? Que direito tem Suárez a que compartilhemos sua culpa exclusiva? Será que o gerente sabe. E. como que esperando a vez para ingressar no meu medo. 2 de março Ontem à noite. Até ontem à noite. aquilo se tornara uma diversão famosa. minhas noites cheias de encapuzados silenciosos. eles vieram pela última vez. Quando eu tinha 4 anos ou até menos. como de costume. Ontem à noite. Nunca pronunciavam uma só palavra. mas moviam-se pesadamente numa espécie de balanço intermitente. eu tinha uma obscura consciência de que preferiria sonhar com meus Policarpos. além disso. Então minha avó inventou um método realmente original para que eu engolisse sem maiores problemas a batata amassada. em outro sonho qualquer. minha mãe. mas então. A “Expedição” trabalha sem vontade e. comer era um pesadelo. É curioso como às vezes se pode chegar a ser tão inocentemente cruel. balançaram-se. . Com aquele olhar absorto que a gente costuma ter sob as pálpebras do sonho. colocava o capuz e uns óculos escuros. era trazida até o meu quarto para assistir aos engraçados pormenores do meu pânico. estranha espécie de Policarpos que sempre estavam de costas. mas só conseguia criar a bruma e. é um entendido. Também cheguei a esquecê-lo. Todos sabíamos hoje que o sermão era para Suárez. Porque. Às vezes adormecia decidido a encontrá-los. rodeados por uma bruma espessa. eu sentia menos horror do que na realidade.

Os Policarpos. envergonhado. Hoje. sem lhe fazer nada. ele não estava assustado. sem lhe dizer nada. surgiram todos os meus Policarpos. senhor. Jaime deu de ombros e o outro disse: “Nada que lhe interesse. Quarta. no entanto. duro. 13 de março Esta tarde. antes de sair batendo a porta. no meio da bruma. Já é alguma coisa. Não é uma formosura. entendeu? Mais respeito. Minha nuca doeu quando levantei a cabeça para tá-lo nos olhos.” Que vontade de lhe acertar um soco na boca. Méndez. Quando concluí. nervosa. Enquanto eu falava. Até agora. 12 de março É bom ter uma funcionária que seja inteligente. e por isso se cansa. “Mais respeito com seu pai. Ainda não trabalha automaticamente. e todos eles tinham o rosto da minha avó. de repente. peguei a garrafa de leite e a manteiga. virei-me e o agarrei pelo braço. para testar Avellaneda. Ou em chumbo. Fui até a geladeira. que cuidava disso antes dela. moveu as asas do nariz e disse: “Quando é que você vai crescer?”. Quando diz: “Senhor Santomé”. Ela tem belas pernas. expliqueilhe de uma só vez tudo o que se refere à Controladoria Fiscal. e.. Simplesmente. acho que entendi bastante. sorri passavelmente. Nada que me interesse. não empregava. De repente.” Era uma idiotice dizer isso àquela altura. se me esforçar um pouco. “O que houve?”. E também é inquieta. ela foi fazendo anotações. Estava me sentindo indigno. precisou de nada menos que quatro anos para dissipá-las.todas as imagens se esfumaram e apareceu a bruma. comentou: “Veja. que nada nem ninguém abrandará jamais. inócuos Policarpos da minha infância. Terça. Não era possível que ele me gritasse com o mesmo tom que eu devia empregar com ele e que. Pela primeira vez. É isso o meu lho. esse rosto duro. Acho que minha hierarquia (pobre inexperiente!) a coíbe um pouco.. Consegui ouvir que Esteban dizia ao irmão algo sobre “aqueles seus amigos podres”. Nada que me interesse. posso reconstituir algo daquela emoção. . Mas Jaime tinha os lábios apertados. Quando escutaram meus passos. Era o mínimo que eu podia fazer. mas tenho dúvidas sobre alguns pontos. Depois. como se repentinamente se tivesse transformado em aço. perguntei. sempre pestaneja. e os olhos de Esteban brilhavam. Sei que me senti indizivelmente feliz e horrorizado... eles se calaram e procuraram falar com naturalidade. quando o momento já passara. Jaime e Esteban estavam gritando na cozinha. balançaram-se e. viraram-se. os indeformáveis. zeram algo totalmente imprevisto. Bom. coloquei-a para trabalhar na mesa que ca à minha direita.” Dúvidas sobre alguns pontos. Não era possível que ele me dissesse: “Nada que lhe interesse” e eu casse tão tranqüilo. sacudiu o braço até se soltar. De vez em quando. Cada gole de leite me doía nas têmporas. eternos. só por um momento. dava-lhe uma olhada. Servi-me um copo grande. O braço estava tenso. Não. quando cheguei do Centro.

francamente. usa uma corrente de ouro. o mais sem . sabe?” Enquanto falava. mas ele sorriu docemente antes de obedecer. 17 de março Se eu algum dia me suicidar. As pessoas me olham. “Você não pode deixar quieta essa mão?”. Quem não é atraído pelo próprio passado? Sábado. para me obrigar à piedade. Ele continuava encostado à parede. o tom de mistério com que alguns tipos segredam acerca de si mesmos. há corações que não me atraem. e afastou-se muito ofendido para sua mesa. Sorriu com espontaneidade e limitou-se a comentar: “Que mau gênio. “Deixe-o”. E ela vai bem?” Era minha defesa desesperada. respondeu Jaime. e eu sou viúvo”. Demorou duas horas para me fazer o resumo de fevereiro. “a esta altura nenhum de nós tem remédio. nesse preciso instante. É o dia mais desalentador. “É que também seu irmão. claro. o novo — Santini — tentou se confessar comigo. No pulso. senti que minha raiva congelava. de pé junto à minha escrivaninha. 15 de março Mario Vignale foi me ver no escritório. gritei. “O senhor não me leva a sério”. sabe?” O “sabe?” é uma espécie de tique. Aceitei. o cretino. que mau gênio!” É incrível. sem convicção. falei. apertando os lábios. com uma medalhinha. “Porque eu. foi logo dizendo Santini. antes de que se rompessem os diques do seu último arremedo de escrúpulo e eu me visse de nitivamente inundado pela sua vida íntima. Não trabalha muito depressa. algumas até chegam a fazer a careta que precede o soluço. mas.” Sexta. senhor?. “Não me diga.”. São incríveis a cômoda impudicícia.Minha cara não devia estar muito tranqüila quando me virei para encarar Jaime. E. Quer que eu vá à sua casa na semana que vem. velho... depois se dedicam a abrir o coração. sabe. eu sou órfão”. frágeis e delgados. Mas minha viuvez o comove muito menos do que sua própria orfandade. “Prazer. constituem o preço da minha aceitação. Domingo. Não sei o que tem a minha cara para convidar sempre à con dência. respondi com um gesto ritual. Sem dúvida. “Minha irmãzinha tem 17 anos. disse ele. sobre a capa do meu Livro Diário. Diz que encontrou fotos antigas de todos nós. 16 de março Esta manhã. “Tenho uma irmãzinha. será num domingo. me sorriem. Não as trouxe. ele tamborilava os dedos. destinado a destruir aquela cara-de-pau.

só mesmo para salvar as aparências: “Tudo depende do que você entende por errado. fiz uma estatística sobre o que mais me agradava em cada uma. de quatro. gostei da cara. de modo que não merecia meus resmungos. Ampla vitória dos traseiros. passaram exatamente 35 mulheres interessantes. Blanca à uma da manhã. Então me vesti e fui outra vez ao Centro. Ela não é insolente. no entanto. e me aborreci. dormi a sesta e me levantei pesado. e ela o mandou ir cuidar da própria vida. cada palavrão murmurado. Tomei uns mates. Eu deveria ser os dois ao mesmo tempo. Disse que não me agradava que ela chegasse àquela hora. Quem sabe? Vai ver que me acostumo a despertar às dez horas. Mas acima disso está o dever.” Terça. em tom de admoestação: “O que você andou fazendo? Aonde foi?” Ela então. Desta vez me meti num café. Senti que passava dos limites quando me ouvi perguntar. 19 de março .” Fiquei derrotado. cada um para seu lado. Quem me dera car na cama até tarde. falei somente com Blanca. Escutei todos. do traseiro. isso de nós. partia os pãezinhos a socos. Este é o resultado. eram de Esteban. respondeu: “Por que você se sente obrigado a bancar o mau? Há duas coisas das quais temos certeza: que temos carinho um pelo outro e que eu não estou fazendo nada errado. será que não vou dormir nunca? Hoje de manhã. Os xingamentos. não simpatizarmos uns com os outros. os solitários. Quando Blanca chegou. o dever de pai e mãe. Depois. consegui uma mesa junto à janela. Segunda. cada passo. Esteban disse a ela alguma coisa lá do seu quarto. O que haveria para ele nos meus olhos? Deve ser uma regra geral. e numa oportunidade seus olhos cruzaram com os meus. silêncio. Fui almoçar no Centro. Tive a impressão de que ali havia ódio. Duas mesas adiante. Pelo menos. Para me entreter. simplesmente. Três horas de silêncio. Ainda assim acrescentei. mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Quando eu me aposentar. Nem sequer tive forças para entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os turistas. Comi sozinho. Ou será que. do busto. que nunca bebe. mas estavam amargos. de 15. das pernas. captei minuciosamente cada ruído. somos antipáticos? Voltei para casa. porque os rapazes saíram para o m de semana fora. 18 de março Ontem Esteban voltou à meia-noite. havia outro solitário. de mau humor. de seis. Duas ou três vezes olhei para ele. Às vezes penso o que farei quando toda a minha vida for domingo. A insônia é a peste dos meus ns de semana. e creio que não sou nada. Anotei tudo no guardanapo de papel. Acho que Jaime veio um pouco bêbado. Em um lapso de uma hora e 15. De duas. pelo menos até as nove ou as dez. tropeçava nos móveis e por quase meia hora manteve aberta a torneira da pia. enquanto passava manteiga na torrada.graça. de oito. do cabelo. Jaime à meia-noite e meia. Tinha o cenho franzido.

o cunhado. Do assento subia um calor que me chegava até o peito. tive consciência de que algo estranho estava acontecendo e levantei a vista no meio de uma cifra. Na sala de estar há duas poltronas. com cara de solteirona. Quando ela terminou de me cantar novembro. ela se cansa tanto quanto em qualquer outro que a obrigue a pensar e a buscar soluções próprias. Disse: “Obrigada. A mancha cou ali. Busca de diferenças. pelos ombros. A pessoa tem a sensação de que eles estão lhe subindo pelas costas. ou no olho de um daqueles anjinhos. Geralmente não acontece nada. poderia ser definido assim: tolerar toda postura ou insolência do filho que incomode os outros. Mas havia tantas manchas no tapete que. constantemente fazem barulho. aí incluídas as visitas. cansativa. pode ser perigoso. corados e saudáveis. senhor”. Em busca de pintas? Talvez. a sogra. Movem-se constantemente. a concunhada e — horror dos horrores — os cinco lhos. 21 de março Jantar na casa de Vignale. como este. mas sem excluir tapas perdidos que de repente cruzam o ar e se instalam no nariz. Afundei numa delas. 6. Num determinado instante. de um inde nido estilo internacional. Olhou-me sem me farejar. de que sempre estão prestes a lhe meter um dedo no ouvido ou a lhe puxar o cabelo. O ponto culminante do jantar ocorreu à sobremesa. Pobre Avellaneda. mas o efeito é o mesmo. constantemente discutem aos gritos. Nunca chegam a tanto. Estou tão habituado a esse tipo de busca que às vezes a pre ro a outra espécie de trabalho. compunha-se de duas diferenças contrárias: uma de 18 centavos e outra de 25. outra vez. a nal. Quinta. Num trabalho de estrito automatismo. o sogro. só para ver qual era sua reação: “Mande cauterizar esta pinta. exercitei-me em ir contando as pintas do seu antebraço esquerdo. comecei eu a ditar. Sua monstruosidade está no fato de serem tão incômodos. O maior tem 13 anos (Vignale se casou já maduro) e o menor. mas continuou me ditando terrivelmente encabulada. depois ergueu uma das patas e cometeu o clássico delito de lesa-tapete. excessivamente normais. O ambiente é as xiante.” Ela corou e não sabia onde colocar o braço. Estes poderiam ser de nidos mais ou menos como monstrinhos. por exemplo. Hoje. Os adultos da família se refugiaram numa invejável atitude de abstenção. No físico são normais. alguém podia chegar a crer que elas faziam parte da decoração. Não sabe que eu sou a correção em pessoa e que nunca. A coisa mais aborrecida que existe. . Inclui a mulher dele. Sorri e. por exemplo. enquanto ela me cantava os números e eu ticava os itens da soma. sugeri. uma das quais avultadinha. barulhenta. e tem-se consciência de que na casa de Vignale ca-se à mercê dessa matilha. mas. Sete centavos. Ela estava olhando minha mão. que era a vedete naquele desenho algo assombroso. e ela ia ticando. escuro. A pobrezinha ainda não pegou bem a coisa. carregado. sobre uma cabeça de pavão. Dividem-se em duas categorias: cinco pintas pequenas e três grandes. Quando chegamos a janeiro. ela morreu de vergonha. jamais me aproveitaria de uma das minhas funcionárias. Mas. que na realidade parecem dois anões peludos. na realidade. O método da mãe. num caso em cem.Trabalhei a tarde inteira com Avellaneda. ou na têmpora. Veio receber-me uma cachorrinha desbotada. mas castigar todo gesto ou palavra do lho que a incomode pessoalmente. A família de Vignale é numerosa.

“Esta foto. Soltei uma gargalhada. uma vizinha que depois foi embora para a Espanha.” Evidentemente. uma das minhas melhores gargalhadas deste ano. Respondendo a uma inexistente averiguação da minha parte. e con rmei que ele era estúpido. “mas este aqui se compraz em evitá-los. Eu não me lembrava do seu nome. a mesma carne fofa. “De que você está rindo?”. Mario Vignale e o Bronco eram a mesma pessoa? Olhei para ele. até as mais aborrecidas. foi você quem tirou?”. o mesmo cabelo gomalinado. não sei se dispostas a ir para a cama ou a preparar um coquetel de veneno para amanhã cedo. para referir-se ao que constituía a atração máxima da noite: a exibição das célebres fotos de museu.” “E já estamos casados há sete anos”. Mas. Não foi necessário que Vignale me dissesse nada: ao ver a fotogra a. foi o adequado remate do genro. mas ninguém dizia isso com más intenções. perguntei a Vignale.” Foi Vignale quem nos resgatou a todos de semelhante divagação ginecológica e anticonceptiva. voltei a olhar. eu me lembro) era um imbecil que sempre se grudava a nós. têm algo de irremediável. bastante recente. a concunhada me assinalou: “Nós não temos filhos. cuidando em seguida de divulgar entre nós esse aspecto fundamental da cultura francesa. Na primeira foto. sobre o qual havia escrito com letras de forma: “Fotogra as de Martín Santomé. sim. Testemunho este que consistiu em derramar integralmente sua porção sobre a calça do irmãozinho caçula. de outra bobeira. as crianças desapareceram. E paramos de ver fotografias. Por exemplo. da concunhada. mas o choro do dani cado superou todas as minhas previsões e não cabe em nenhuma descrição. Veja só que gura. não podiam ser. Quem tirou esta foto foi Falero. que o pai tinha uma livraria e que ele lhe roubava revistas pornográ cas.” Então Vignale baixou os olhos. junto do Bronco. Não eram as do Bronco de antigamente. Depois do jantar. mas tinha certeza de que aquele era o Bronco. “Do Bronco. chato e abobalhado. Lembre-se de que Prado era chamado de o Coelho. meu pai e eu mesmo.” “A infância é isto: vida pura”. Acho que balbuciei: “Ora. O Bronco (disso. perguntou Vignale. em tom compungido.” Aquilo me pegou totalmente de surpresa. Com que então. do cunhado. Fiquei sem saber o que fazer e o que dizer. tratava-se de outra estupidez. e disse com voz abafada: “Achei que você não se lembrava desse apelido. disse Vignale. dos sogros. esclareceu a mulher. mas a legenda. “Veja esta outra”. de outra chatice. o envelope era velho. comentou a sogra de Vignale. fabricado caseiramente com papel de presente. o Bronco Vignale. Lembra-se de Falero?” Vagamente. Ele as guardava num envelope verde. evidentemente. A mesma expressão abobalhada. Nunca gostei de que me chamassem assim. Ali também estava eu. . “Eu. Quem estava na porta eram minha mãe. ansioso. minha memória pareceu sofrer um solavanco e mostrou reconhecer aquela imagem amarelenta que havia sido sépia. Meu aspecto era inacreditavelmente desajeitado e ridículo. apareciam quatro pessoas em frente à casa da rua Brandzen.Um dos meninos quis dar testemunho de que o arroz-doce não o agradava. por mim. disse o marido. “Está maluco? Eu nunca tive coragem para empunhar uma máquina fotográ ca ou um revólver. O gesto foi festejado com generoso ruído. e não nos largava de jeito nenhum. Agora. deu uma relanceada envergonhada pelos rostos da mulher. “Que meninos!”. “o que acontece é que eles têm vida.” “Quem dera que me tivessem chamado de o Coelho”. disse. festejava todas as nossas brincadeiras. com uma risada aparentemente maliciosa. teria”.

não muito expressivas. sua boca sem pintura. mas não conseguia identi car se se tratava do meu. Não nos dissemos os nomes nem os telefones nem nada pessoal. Ela. Quando me sentei. Abri o jornal e comecei a ler. mas em quatro passadas consegui alcançá-la. mas acho que a deixei satisfeita. lia um folheto turístico sobre a Áustria. Na tarefa de despir o paletó. Não é minha especialidade. Ela começou a caminhar rapidamente pela Pablo de María. De repente o folheto dela caiu e eu me agachei para apanhá-lo. ao longo de uma quadra e meia. senti o toque felpudo do pêlo. começou seus preparativos para descer. do dela ou do de ambos. Ela não agradeceu. dei uma olhada nas pernas. E mesmo com sua cara séria. Olhei várias vezes para a rua e. decida logo.Sexta. No roçar. 22 de março Corri 20 metros para alcançar o ônibus e quei arrebentado. O braço dela se mexeu três ou quatro vezes. 25 de março . e também a primeira vez em que. o que provava? Ela tanto fez para deixar em evidência sua completa nudez que eu quase acreditei ser aquela a primeira vez em que se encontrava pelada diante de um homem. de desabotoar o colarinho e de me mexer um pouco para respirar melhor. tão logo se vê no motel. por sua vez. Eu ainda estava formulando mentalmente minha frase inicial de abordagem quando ela virou a cabeça para mim e disse: “Se vai falar comigo. mãos largas. o toque se limitava a uma tênue sensação de proximidade na extremidade dos meus pêlos. Ela mais parecia estar exasperada por alguma coisa. não muito magro. Na altura da Sierra. segurou a carteira e pediu licença. Era um braço morno. Caminhamos um junto do outro. com um pequeno curativo no tornozelo. Guardou o folheto. obedecendo a uma inspiração. o da sexta-feira. Devo confessar que esta é a primeira vez em que conquisto uma mulher somente com o cotovelo. mas ainda tive palpitações por todo um quarto de hora. eu juraria que para aquela mulher o sexo não é um gênero de primeira necessidade. informei. mas não parecia querer se separar totalmente do meu. No entanto. Naturalmente. Passáveis. fui respirando melhor. rocei duas ou três vezes o braço da minha companheira de assento. cabelo comprido. uma mulher se despe tão rapidamente e em plena luz. ajeitou o cabelo. pouca pintura. achei que ia desmaiar. como se sua entrega a mim fosse sua curiosa vingança contra não sei o quê. Rosto anguloso. Mas não era nova. No momento que considerou oportuno. Ia e voltava. 24 de março Pensando bem. de passagem. A agressiva desenvoltura com que se deitou na cama. “Eu também vou descer”. Segunda. suplicou que eu lhe dissesse sacanagens. lábios nos. Aos poucos. Às vezes. deu um jeito de sentir prazer.” Domingo. que caso estranho. z a cha da mulher. suas mãos inexpressivas.

trabalhando sem vontade.. E com razão. Às nove. “Hoje em dia.” Eu disse a ele. Acho que me guardaram um pouco de rancor porque eu os escolhi. ninguém falou. O conjunto dá uma impressão de lixo. Ele. “Não é o caso. Imagino que lhe tornarão a vida impossível. De modo algum. É o resultado do seu trabalho no clube. Paciência. atulhadas de pastas e classi cadores. passa por cima de todos os que agora serão seus subordinados. sei que isso já não se usa.Emprego público para Esteban. E. Uma gauchada do gerente. gostaria de ouvi-lo dizer que se sentia constrangido. Fico horrivelmente deprimido por trabalhar fora de hora. Os da Expedição já haviam saído. velho. no meio desse silêncio e dessa escuridão.” Assim me disse. Mas. que vem de fora. com as escrivaninhas grudentas. Não sei se me alegro com essa nomeação para chefe. Bem. Ele me chamou às 18h15 para dizer que precisava daquela porcaria para amanhã. três sujeitos aqui e três ali. E sabe por que ninguém se ofende? Porque todos fariam o mesmo. Desta vez. ninguém se ofende se vier um sujeito qualquer e o ultrapassar no quadro de pessoal. Fomos os três até a Plaza. Quando terminamos. ofereceu-se para car. era a única coisa verdadeiramente necessária. arrastando o cansaço das oito horas prévias. a dor pouco me importava. se tivessem a oportunidade. Avellaneda. minhas costas começaram a doer. por Deus. Simplesmente. o inocente fui eu. Expus minhas dúvidas sobre a justiça de sua nomeação. Estou desejando que a Valverde se encha desse cafetão. Quinta. continuei escrevendo como um autômato as roucas cifras que eles me ditavam. na primeira hora.. claro. mas sim com inveja. Todo o escritório silencioso. paguei-lhes um café no balcão do Sorocabana e nos despedimos. Era um trabalho para três pessoas. de desperdício. pobrezinha. eu escrevia à máquina. Quarta. Às oito horas da noite. o gerente não iria fazer o macho da Valverde trabalhar extra sem lhe amenizar o castigo com o trabalho extra de algum inocente. 28 de março Falei longamente com Esteban. perto do ombro esquerdo. Tenho certeza de que não vão olhar para mim com bronca. Também caram três na Expedição. Eu não pretendia que ele renunciasse. Robledo e Santini me ditavam as cifras. 27 de março Hoje quei até 11 da noite no escritório. sem público. Mas eu tive pena. que importa o que eu ​disse? . você continua vivendo em outra época. Na realidade.

O que seria de mim. mas me senti profundamente ridículo e comecei a imaginar as caras de desconcerto que as pessoas fariam. que panoramas tão diferentes! Às vezes penso o que teria acontecido se eu tivesse me metido a padre. imagino que. mesmo no meio do vento e da chuva. que não são or que se cheire. E não porque não me tenha ocorrido fazer isso. me preguem essas peças. já lhe comunicou que não quer saber mais dele. não teria horário. Sábado. não pôde ir. como eu o escolhi para car. Graças a um impulso do coração. Tomei banho. Já estou cheio dessas gracinhas. ou não acreditar em Deus e também acertar. intuição) não são em absoluto su cientes para nos garantir nem sua existência nem sua não-existência. isto sim. num dia como hoje. Tenho uma frase que pronuncio quatro ou cinco vezes por ano: “Há duas pro ssões para as quais estou certo de não ter a mínima vocação: militar e sacerdote. todos lutando contra o vento. posso acreditar em Deus e acertar. Teria Deus. E também profundamente egoísta. Diz Muñoz que o consola dizendo que é sempre melhor tomar conhecimento desses inconvenientes antes do casamento. custou-me uma trabalheira chegar pela Cidadela da Colonia até a Plaza.Sexta. descon ada. eu . Às vezes. mas não houve jeito. já sei. cem por cento casto). 30 de março Robledo ainda está de tromba comigo. não tive vontade de abrir a porta e chamá-los para que se refugiassem na minha casa e me acom​panhassem num mate quente. nada. e teria religião. A outra. troquei de roupa e me instalei atrás da janela para beber mate. Senti-me protegido. Provavelmente. de puro nervoso. Na realidade. A idéia me passou pela cabeça.” Espirrou. sensibilidade. Via passarem homens. a noiva de Robledo é assustadoramente ciumenta. Pobre sujeito. e ele então me fitou com uns olhos que soltavam faíscas e murmurou: “O senhor bem que sabia. esta dúvida não o desgostaria. no caso de existir Deus. crianças. ele deveria encontrar-se com ela às oito. mulheres. No entanto. levantou a batina. E então? Talvez Deus tenha uma face de crupiê e eu seja apenas um pobre-diabo que joga no vermelho quando dá preto. não sei se creio em Deus. com um amplo gesto de decepção: “Que eles. Perguntei por que não me falou. por causa do trabalho extra da última quarta-feira. se vinte ou trinta anos atrás eu tivesse decidido ser padre? Sim. e vice-versa. não teria escritório. o vento levantou a saia. Segundo me contou Muñoz hoje de manhã. não teria aposentadoria. e agora também contra a chuva. Na quarta. Mas e no resto? Eu teria ganhado ou perdido? Não teria lhos (acho que seria um padre correto. 29 de março Que vento asqueroso. e. velhos. com a garganta ardendo e os olhos cheios de terra. Mas será que não os tenho? Francamente. mas Robledo está com uma cara amarradíssima.” Mas acho que digo isso por vício. Cheguei à minha casa despenteado. Avisou-a por telefone. e acrescentou em seguida. os elementos que ele (ou Ele?) mesmo nos deu (raciocínio. De uma moça. o vento me levantaria a batina. Jesus. De um padre. e minha calça de homem vulgar e simplório caria a descoberto. sem a menor convicção. Hoje eu o chamei e expliquei que não sabia daquilo da noiva.

contabilidade de custos. não se concede a mínima possibilidade de ter êxito. paciência. mas não a interrompeu. acredite. mas creio que nunca poderei esquecer a cara (serena? ressentida?) com que o . às poucas perguntas que lhe formulamos. Portanto. taquigra a em alemão. Não consigo imaginar de que vive. dobraram na Ejido.” Domingo. de modo que concluí. mas. No entanto. com aspecto de desportista e dois dedos de testa. se não achar. na qual o chefe de pessoal de não sei qual instituto de La Paz.” Seria um pouco violento se eu saísse em defesa do seu bom conceito sobre a minha pessoa. francamente me decepciona um pouco. sem se importar muito com todas as negativas que deve enfrentar. informa que sua especialidade é correspondência em três ou quatro idiomas. responde sempre com tranqüilos silêncios. Depois. se preste a imitá-los. Eu não sabia de nada. a expressão do sujeito ca o mais longe possível de toda vontade. Puxa do bolso uma carta em estado de absoluta deterioração. todos os seus argumentos. Ele parece estar inexoravelmente convencido do seu fracasso. Se me reconheceu ou não. a carta sempre lhe sai mal. O gerente não sabe como livrar-se da situação. ponto nal e vá trabalhar. quando o mandamos escrever à máquina. Já conhecemos de cor todos os seus tiques. toda a sua resignação. Bolívia. jogando a cabeça para trás e apertando-se dengosamente contra ele. Vinha com um indivíduo corpulento. mas tinha o senhor em bom conceito. ele aparece por aqui. o “judeu que vem pedir emprego”. Trata-se de um tipo alto. Grande interrogação. Eu nunca lhe disse. Passaram diante de mim e ela me viu no meio de uma gargalhada. eu não poderia assegurar. sem ironia: “Olhe. Fosse como fosse. Eu não saberia dizer exatamente se o espetáculo é patético. para que eu o atendesse. Ela também ria. a “mulher do cotovelo”. e com um movimento vigoroso e coquete encostou a cabeça na gravata com girafas. mas sim a obrigação de ser obstinado. de uns 50 anos. repugnante ou sublime. se você achar que é verdade. 1º de abril Hoje me mandaram. fala horrivelmente o espanhol e talvez o escreva pior ainda. querido”.compreendo. quando eu saía do California. Mas que o senhor. dava vontade de re etir sobre as imprevistas variantes da imbecilidade humana. vi de longe a tal do ônibus. certi ca que o senhor Franz Heinrich Wolff prestou serviços inteiramente satisfatórios e se afastou por sua própria vontade. O que tem a ver essa lambisgóia com aquela que na outra tarde se despiu em tempo recorde? Segunda. própria ou alheia. Quando ele ria. sardento. 31 de março Esta tarde. se não quiser que eu também me decepcione. Em sua cantilena de sempre. Porque ele sempre insiste em que o submetam a um teste. A cada dois ou três meses. um homem todo sério. Seu aspecto é ao mesmo tempo limpo e miserável. disse ao centroavante: “Ai.

. Jaime é o que me parece mais simpático. além disso. que tinham algo desagradável no porte ou no vestir. Ele me deixou com a mão estendida. aqueles lá riem de qualquer bobagem. À noite. culpado pelo seu estado. despedindo-me de Muñoz. Terça.” O que está rigorosamente certo.” Tive a impressão de que ele corava. por sua vez. me olhou fixamente (um olhar bastante complicado. É inevitável que. comentei: “Hoje vi você passando pela Colonia. em compensação. Acho que jamais conseguirá sorrir. Ele ia sério. nem a semi-reverência com que se despede. eu complete 50 anos. Eu estava na Convención com Colonia.. acrescentei. o fato é que. mas estes riam com grande estardalhaço. porque é precisamente Jaime que eu gostaria de encontrar com mais freqüência. Como se eu fosse. Mas o amigo também não pode cuidar muito. em parte. para quando você calcula que estará pronta sua aposentadoria?” Jaime perguntando sobre minha aposentadoria! Respondi que Esteban havia pedido a um amigo que cuidasse disso. quem sabe provinha da convicção de sua superioridade. Não quero mais pensar nisso tudo. tenho uma sensação de desconforto. Mas. Não compreendo e pronto. Não posso lhe arrumar emprego no escritório onde trabalho. bem sei. pela sua miséria. ele me fez uma pergunta pessoal.homem sempre recebe o resultado negativo do teste. Uma idiotice. por exemplo? Não quero nem imaginar a cara com que ele os receberia. junto com outros dois. “Um colega de escritório e o primo dele”. que me havia acompanhado até lá. caminhando devagar ou simplesmente observando o rio de gente que passa e que talvez lhe inspire alguma re exão. é o único que tem senso de humor. mas sua expressão era de satisfação. Hoje. creio que pela primeira vez em sua vida. ele não serve. respondeu. com aquele desagradável sotaque de erres que soam como gês: “O senhor não compgeende. ou o de um sábio. é também o menos transparente. 2 de abril Encontro meus lhos muito pouco. ou o de um simulador. Talvez me tenha equivocado. Não sei qual é o valor da simpatia nas relações entre pais e lhos. embora eu creia que. Mas o certo é que. Mas quais? Conselhos. Não falei . e — o pior de tudo — como se ele soubesse que eu sou culpado. E então? Talvez eu saiba que há outras formas de ajudar um semelhante. mas ele não me viu. ou não. uma pergunta que se referia às minhas próprias preocupações. Dos três. “Ah. Já o vi algumas vezes na rua. Uma experiência curiosa. ou o de alguém que sofreu muito. Eu ri e me limitei a dar de ombros. não me lembro bem. nele. o ingrediente principal era. Especialmente Jaime. “E como você se sente?”. Hoje eu o vi.” Então. perguntou. a cada vez em que o vejo. do claro domínio que naquele momento ele exercia sobre seus acompanhantes. “E. É curioso. senti que me vinha um surto de pena e decidi lhe estender a mão com uma nota de 10 pesos. Não sei o que ele ia dizendo aos outros. Seu olhar poderia ser o de um louco. Ia com outros dois. dos três. porque atentei especialmente para Jaime. antes de mais nada. a pena) e me disse. “Parece que você os divertia muito”. depois de lhe dizer um não pela décima vez. Jaime passou pela calçada em frente.

Três ou quatro vezes. Perguntei: “É bonita?” “Um poema. “Não. pre ro que ele pense que me mantém dominado. chefe. Sexta. que fiquei comovido com esse interesse repentino. devo lhe inspirar menos respeito. Pai e mãe.” Acho que. e a partir desse momento trabalhou mais tranqüila. Vê-se que é uma boa moça. Ante a informação sobre minha viuvez. de gente leal. Triunfou a cordura. a m de tomar banho. O pobre Robledo me tava desa ador. e creio que hesitou entre mudar rapidamente de assunto ou acompanhar meu pesar com vinte anos de atraso. que exagero. 5 de abril .” Eles bem sabem que a única arma para me conquistar é serem francos. “Ah. por duas razões.nada. perguntei à queima-roupa: “Meu aspecto é muito ameaçador? Não que assim. falamos do trabalho. Namorado? Fora do escritório. Quando me passou uma planilha e vi que sua mão tremia. perguntei. Tem traços de nidos. Reuniu toda a sua coragem para averiguar se eu era casado. Ainda o z sofrer um pouco. Por m. Primeira. de modo algum. Sierra não vem há dois dias. precisamos car até tarde. faz só um ano que nos vemos. olhei-a de esguelha. fazer a barba. Muñoz anda com uma unha encravada que o deixa de péssimo humor. Quando se atrapalha um pouco com o trabalho. depois de me confessar que tinha namorado. 4 de abril Mais uma vez. cou muito séria. mas não o escolhi. Agora. e me perguntou até que horas iríamos. a culpa foi nossa: tivemos de procurar uma diferença.” Mas. Então. Apertou minha mão e tudo. É um problema. Quinta. Havia acabado de me contar que ele trabalha no Município quando apareceu seu trólebus. Perguntei onde ela morava e com quem. Sempre tenho de estar a meio caminho entre a severidade e a con ança. Assim que nos vimos sozinhos naquele lugar enorme. falar com ela. Um bom dia. Segunda. muito misterioso.” Ela riu. Santini tinha um aniversário. Só às 9h10 encontramos a diferença. senhor Santomé. Respondi que pelo menos até as nove. porque respondeu a rmativamente e em tom normal. E capricham na franqueza. Claro que o liberei. Também não aceitou um café. cou mais nervosa do que de costume. e isso lhe cai bem. enquanto caminhávamos até a Plaza. Às 19h45. que ainda não sei o que farei com meu ócio. e ela passou a me falar do namorado. “E quando teremos noivado?”. Perguntei se ela queria que eu a acompanhasse. sentiu-se mais protegida e interpretou minhas perguntas como um interesse quase paternal. escolher as pessoas. este de hoje. ele me confessou que às nove tinha um programa e que primeiro queria ir para casa. como é de praxe nesses casos. Avellaneda. trocar de roupa etc. se tinha lhos etc. Pobre Avellaneda. restaram Méndez e Avellaneda. mais misterioso ainda e tomando as máximas precauções para que Avellaneda não o escutasse. inevitavelmente se despenteia. Méndez se aproximou. Um problemão.

vi Avellaneda. categórico. ela ainda me vigiava com certa prevenção. Algum dia. os parentes. não consegui me agüentar e disse: “Que cheiro gostoso de campo!” Ela me olhou com autêntico pânico. e os que chegavam só para cumprimentar. Essa naturalidade foi uma espécie de bálsamo. Quando minha mãe morreu — em agosto fará 15 anos —. o próximo. Eu acabava de atravessar. Para piorar. Aproximei-me sem vacilar. Pelo menos. sinto asco. 7 de abril Quase todos os domingos.Carta de Aníbal. sou eu que o contenho com alguma das minhas dúvidas. sem enfeites nem cinto. isso eu compreendo bem. Tenho poucos amigos. até de minha mãe. eu sou rotineiro e indeciso. Mais uma prova de que é possível ser mais convincente nos sonhos do que na realidade. sem enfeites nem cinto. assim como a mim mesmo em meu afeto pela minha mãe. ao meio-dia. meu argumento foi decisivo. O certo é que. Ela usava um vestidinho liso. Ele é mulherengo. Sábado. quando Avellaneda apareceu com um vestidinho liso. criativo. de pijama. estavam contando piadas obscenas. De repente. teremos de investigar em que se baseia nossa a nidade. sem que houvesse qualquer resistência de sua parte. e. eu estava uma ruína. outras. na calçada de uma casa luxuosa. de sua família. eu não sou nada. ele me impele a tomar uma decisão. aproximou-se. Ele é ativo. A cada vez em que recordo o velório interminável. Não a convenci. dali a dez minutos. e inevitavelmente co melancólico. Estava sentada num banquinho de cozinha. é o único com quem posso falar de certos assuntos sem me sentir ridículo. . Então Aníbal chegou. junto de um eucalipto. de dois andares. o Parque de los Aliados. eu a interpretei como a melhor homenagem que alguém podia fazer à minha mãe. porque imediatamente me dediquei a possuí-la. tive consciência de que já era noite e me aproximei dizendo: “Que cheiro gostoso de campo!” Ao que parece. eu me limito ao indispensável. Aborreceu-se em São Paulo e retorna no m do mês. de verdadeiro consolo. De repente. exatamente como se olha um louco ou um bêbado. e descascava batatas. de si mesmo. almoço e janto sozinho. tentei explicar que estava falando sozinho. Domingo. apertavam minha mão com enjoativa compunção e. um episódio quase insigni cante. Os assistentes se dividiam em duas classes: os que começavam a chorar desde a porta e depois me sacudiam entre seus braços. quando foi embora. e Aníbal é o melhor. diretamente sobre a pele. nem sequer me estendeu a mão e começou a falar com naturalidade: de mim. É apenas um detalhe. Para mim. Ele é católico. Esta manhã. é uma boa notícia. Só me sustentava uma fervorosa raiva contra Deus. muitas vezes. mas aconteceu num desses momentos em que a dor nos deixa exageradamente receptivos. 6 de abril Sonho descabelado.

Não se pode afirmar que minha atitude fosse cretinamente egocêntrica. com sorte. Sentia-me com ânimo para começar e levar a cabo “algo grande”. Creio que meu desejo físico mais veemente me foi inspirado por ela. Saber que tenho em mim mesmo. Porque toda a nossa harmonia.) Quero dizer que. sempre que necessitar. Re ro-me à opinião cem por cento sincera. para os excessos? Simplesmente. a quem tivesse um direito mais compreensível a precisar de mim. não se operaram mudanças irracionais. pelo contrário. não muito. Residirá nessa morte a verdadeira chave do que eu considero minha frustração? Não creio. para endireitar as coisas. apesar da minha incapacidade de reconstituir (com minhas próprias imagens. Mas e o resto? Porque existe a opinião que alguém pode ter de si mesmo. dependia inexoravelmente da cama. no momento em que Isabel desapareceu. se Isabel tivesse vivido os anos su cientes para que seu corpo se afrouxasse (Isabel tinha isto de bom: sua pele lisa e elástica em todos os pontos) e. o contato particular de sua cintura. em pleno auge do desejo. Recordo que houve uma época (entre meus 16 e 20 anos. sob alguns aspectos. quase diria excelente opinião de mim mesmo. de seu ventre. sua presença protetora em meio à insipidez dos dias. Embora eu quisesse receber a aceitação e até o aplauso alheios. Eu suportaria melhor meu estilo de vida se não tivesse consciência de que (só mentalmente. por conseguinte. Bem sei que isso não é caridade pura e cristã. eu tinha 28 anos e ela 25. dos seus seios. para ser útil a muitos. Eu mesmo me horrorizo. eu consiga. domingo. mais ou menos) em que tive uma boa. Hoje me sinto vulgar e. como isto soa vulgar e mesquinho. claro) estou acima dessa vulgaridade. E mais: quanto mais me investigo. digamos. portanto. guinadas insólitas e repentinas. envolvia-nos uma onda de ternura que aplacava todo impulso de rancor. indefeso. em nossa vida cotidiana usava-se uma boa dose de concórdia. (Deus do céu. voltar a sentir em minhas mãos. Se alguma vez o ódio nos tentava e começávamos a apertar os lábios. de suas panturrilhas. inevitavelmente. Meu casamento foi uma coisa boa. Não quero dizer com isso que durante o dia nos comportássemos como cão e gato. creio que meu primeiro objetivo não era usar os outros. A verdade é que essa excelente opinião sobre mim mesmo decaiu bastante. mais me convenço de que essa morte prematura foi uma desgraça. ou os miseráveis (acredito cada vez menos na ajuda caoticamente distribuída). pouco tem a ver com vaidade. em contraposição. da nossa cama. ou tive. Mas qual era o freio para as explosões. Em minha história particular. Não importa. Hoje. inacreditavelmente. aquela que a pessoa não se atreveria a confessar nem ao espelho diante do qual faz a barba. ou os malucos. saber que sou superior. que era certa. algo que. minha capacidade de desejá-la também se afrouxasse. O mais insólito foi a morte de Isabel. mas tampouco me importa muito o sentido cristão da caridade. sinto-me além do irrisório e posso me fazer perguntas desse tipo. à minha esgotada pro ssão. mas ser-lhes útil. o gozo das noites. e não com fotogra as ou recordações de recordações) o rosto de Isabel. posso extrair uma conseqüência: que. não posso garantir o que teria sido do nosso vínculo exemplar. passada ou futura. e então. uma alegre temporada. ser útil aos meus iguais. Estávamos. às minhas poucas .“O que z da minha vida?” é uma pergunta que soa a Gardel ou a Suplemento Feminino ou a artigo do Reader’s Digest. Disso tenho certeza. Recordo que eu não pretendia ajudar os necessitados. voltava aos nossos olhos o atrativo da noite. Talvez seja por isso que. Minha intenção era mais modesta: simplesmente. Por que as palmas das minhas mãos têm uma memória mais el do que a minha memória? De tudo isso. elementos suficientes para galgar outra possibilidade.

não? O resultado é que agora não tenho vícios importantes (fumo pouco. assim vale a pena entregar-se e tomar decisões. mas à tarde. Daí que minha rotina jamais tenha tido caráter nem de nição. Sei que vai chegar. Isso é evidente. antes faz com que eu me sinta mais frustrado. a nal. a morte de Isabel é algo forte. numa espécie de juramento tardio: “Vou ser exatamente o que eu quis ser”. Nisso. Que tolice. Não posso contar por telefone. só por enfado tomo uma caninha de vez em quando). sou categórico: se tenho esta relação (não me atrevo a chamá-la de amizade). Aposentadoria. Assim é fácil. Mandei dizer que não estava. Quarta. que no m das contas é uma arma terrível e suicida. agora. Ele quer ir à minha casa. naturalmente. que freassem meus melhores impulsos. Terça. de nada adiantaria. sei que virá sozinha. não contribui para minha tranqüilidade. e depois porque. importa-me bem menos obtê-lo. apenas para agüentar o dever da jornada durante esse período de preparação que por certo eu considerava imprescindível. sei que não será preciso que eu proponha nada. que me atassem a uma rotina anestesiante. mais inepto a me sobrepor às circunstâncias. que validade tem para mim aquilo que eu quis ser? Seria algo como lançar-me conscientemente a uma senilidade prematura. mas o que é? . mas creio que já não poderia deixar de me postergar: este é meu vício. a ser seguido apenas enquanto durava a postergação. por exemplo. O pior de tudo é que não aconteceram coisas terríveis que me cerceassem (bom.diversões. ao meu ritmo de diálogo: saber tudo isso. O que desejo hoje é muito mais modesto do que aquilo que desejava trinta anos atrás. Primeiro. A segurança de me saber capaz para algo melhor me deu o controle da postergação. aliás incurável. nem posso trazê-lo à minha casa para isso. foi sempre provisória. mas pelo caminho mais simples: a acumulação. 10 de abril Avellaneda tem algo que me atrai. senti-me obrigado a atender. 9 de abril Esta manhã me telefonou o Bronco Vignale. “Algo con dencial. que impedissem meu desenvolvimento. sobretudo. quando ele voltou a telefonar. Porque se agora mesmo eu decidisse me assegurar. Ele irá depois do jantar. É uma aspiração. é talvez porque a mereço. antes de me lançar de nitivamente à concretização do meu destino. velho. e. mas é uma aspiração em declínio. sem dúvida. existe algo mais natural do que ir embora deste mundo?). sempre constituiu um rumo precário. mas não posso chamá-la de terrível. Eu mesmo fabriquei minha rotina. porque me sinto com escassas forças para jogá-las numa mudança de vida.” Combinamos para quinta-feira à noite.

ela tem uns períodos menstruais que duram bem uma quinzena. e não arti cialmente. Depois você não vai conseguir se livrar dela. O que você queria? Minha patroa já está um pouco passada e. meu amigo. É isso que me esfria um pouco os escrúpulos. Vignale vem esta noite. Francisco é um retardado. que. e sabe o que me respondeu? “Quem? Aquele retardado?” E aí está o pior: ela tem razão. continuam coradas mesmo depois que ela lava o rosto. A pura verdade é que. Não os censuro. Os rapazes desapareceram. mas a maneja com prazer. para piorar. se eu soubesse que a Elvira gostava de mim. Eu também fugiria. Depois me disse que eu não era nenhum cego. 11 de abril Falta meia hora para o jantar. vá em frente. meu cunhado. bom. 12 de abril Ontem Vignale chegou às 11 e foi embora às duas da manhã. A verdade é que com freqüência eu ando faminto e devoro com os olhos as panturrilhas da Elvira. O fato é que ela interpretou mal os meus olhares. Primeiro foram uns olhares. mas não era para tanto. E. aproveitar. Embora certo de que isso de nada adiantaria. Vale a pena transcrever. caria de queixo caído. a versão de Vignale: “Não esqueça que eles moram conosco há seis anos. Suas faces estão coradas. porque o que menos quero é armar confusão dentro do meu próprio lar. Gosto de ouvi-la. Seis anos não são quatro dias. lembre-se disso. Seu problema cabe em poucas palavras: a concunhada se apaixonou por ele. no lugar dele. Tem pouca voz. de short. Não vou lhe dizer que até agora eu nunca havia prestado atenção na Elvira. lembrei-lhe a existência do marido. ela se esquece de que estou em casa e começa a cantar. e segundo. Se quiser arruinar toda a sua situação familiar. meu chapa. dentro de casa anda sempre de short. que eu bem sabia que não lhe era indiferente etc. acabou-se. e aí. Evidente que.Quinta. Às vezes. Você já constatou que ela está muito bem. ou seja. não teria problemas: primeiro. que para mim sempre foi sagrado. esgotada pelo trabalho da casa e com as crianças. nem a teria observado. não me sentiria atraído em absoluto pela carne mole da outra veterana. Ainda por cima. se a visse em traje de banho. o que faria no meu lugar?” Eu. ainda que só aproximadamente. não dá para vê-la e imediatamente me encher de paixão. assim sem mais nem menos. Só estaremos Blanca e eu. Mas uma coisa é olhar e outra. e não tive remédio a não ser dizer: “Tome cuidado. O que será que passa pela cabeça dos meus lhos? Estarão no momento das aspirações em ascensão? Sexta.” Ela respondeu: “Não quero tomar cuidado”. etc. . além disso. Mas só pude dizer chavões: “Tenha cuidado. na realidade interpretou bem. depois de 15 anos de casado. Em Blanca operou-se uma mudança. Mas um dia destes ela cruzou as pernas bem na minha frente. e eu me fazendo de desentendido. assim que souberam da visita. então ca muito difícil que minha vontade chegue a coincidir com sua disponibilidade. não me casaria com a idiota da sua mulher. E você.

mesmo assim. Ela se movimenta bem. a coisa tem de ser iniciada agora. Boa manhã. mas eu tampouco seria inocente. Terça. Domingo. Ajudar a movimentá-la talvez signi que molhar a mão de alguém. se eu quiser a aposentadoria no m do ano. Diz que vai me ajudar a movimentá-la. 16 de abril Continuo sem descobrir o que me atrai em Avellaneda. 14 de abril Esta manhã tomei um ônibus e desci na Agraciada com 19 de Abril. Ele tem alguma razão. levará tempo. preocupado.mas. estive estudando-a. como a de um pêssego. sobre as faces tem uma leve penugem.” Ele foi embora compungido. Só agora me dei conta de que me acostumei a viver em ruas sem árvores. Sei que o mais indigno é o outro. Mas à tarde dormi uma sesta de quatro horas e me levantei de mau humor. Há anos não andava por aqueles lados. O que será que faz com o namorado? Ou melhor. 18 de abril . se essa situação lhe importar mais do que tudo. indeciso. Eu não gostaria. recolhe harmoniosamente o cabelo. mas que. Quinta. mas me desalenta que ele tenha razão. o que será que o namorado faz com ela? Bancam o casalzinho decente ou se atracam como qualquer um? Pergunta-chave para um interessado: inveja? Quarta. Seja como for. 17 de abril Diz Esteban que. então não se arrisque. esta de hoje. acho que a testa de Francisco corre perigo. Alimentei a ilusão de estar visitando uma cidade desconhecida. O que é simplesmente honrado num ambiente pode ser simplesmente imbecil em outro. E como podem ser irremediavelmente frias! Uma das coisas mais agradáveis da vida: ver como o sol se filtra por entre as folhas. Hoje. A teoria de Esteban é que convém agir no estilo que o ambiente exige.

bigodudo. pura e simplesmente. começou a era das maiúsculas. “Tem um maiô daqueles de duas peças. eu os escrevera. O “M” e o “H” eram grandes aranhas. ela vai ao quarto dele e dança quase nua na sua frente. Comecei a me sentir velho. Depois me pediu outra discriminação de itens. Fiquei carregando velhos e escalavrados livros desde a manhã até a última hora da tarde. quando vem dançar no meu quarto. as metades inferiores dos “f”. 20 de abril Estarei ressequido? Sentimentalmente. havia sido minha letra de noivo. Nessa época. mas já me mandavam fazer coisas importantes. não passava de um auxiliar. eu tinha uma caligafria escarranchada: os “t” minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os “d”. Em 1945. e eu lhe escrevia pontualmente às terças e sextas. Segunda. disciplinada. O inspetor era um primor: sorria. quando o inspetor me pediu um dado correspondente a 1930. Parece muito mais assustador dizer. xingando mentalmente. Sábado. porque Isabel morava então em Melo. e o inspetor sorriu comigo. aqueles transportes a lápis no Livro-Caixa. dizia: “Mil agradecimentos. que sou um simulador. sem caráter nem vontade. Com a mesma letra que usei para escrever: “Relação de salários pagos ao pessoal no mês de agosto de 1930”. o registrador e o escriba de sua história. 22 de abril Novas con ssões de Santini. eu os escrevera. impuro. já que eu mesmo me tornei complicado. irregular. Sorri. De repente. caótico.Veio o inspetor: amável. O que prova. Agora minha letra se tornou sintética. Começou pedindo dados do último balanço e acabou solicitando uma discriminação de itens que gura no inventário inicial. os “b” ou os “h”. Aqueles dados iniciais de 1929. eu tinha escrito duas vezes por semana: “Querida Isabel”. arrastado pelas recordações. digo. meu capricho em adorná-las com amplas curvas. com essa mesma letra e nesse mesmo ano. espetaculares e inúteis. embora a módica glória fosse só do chefe. Depois. e como minha letra foi mudando! Em 1929. quando os pais não estão em casa. minha caligra a de uma etapa especial. pedia desculpas. . eu os escrevera. clara. dos “g” e dos “j” pareciam uma espécie de franjas indecisas. Ou um quarto de século. Sinto-me um pouco como o Heródoto da empresa. Em 1939. sabe? Bom. reconheci minha caligra a. apenas. respondendo entredentes. aqueles lançamentos e contralançamentos que guravam no rascunho do Livro Diário. Por que não morre? No início fui acumulando minha raiva. com teia e tudo. como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. exatamente como agora ganho minha módica glória pelas coisas importantes que Muñoz e Robledo fazem. Essa.” Um encanto. Outra vez. o sujeito. portanto. Vinte e cinco anos. Não. Conta que. referentes à irmãzinha de 17 anos. a testemunha sobrevivente. 25 anos. no lugar da bronca entrou outra sensação. regular. Cinco lustros. Ninguém pensaria que ele fosse tão exigente.

Bom motivo: aniversário de Esteban. você gosta?” Ele sacudiu outra vez a correntinha e a medalha. não havia perigo. disse. me deu uma piscadela a meio caminho entre o travesso e o asqueroso e. Era só o que me faltava: um maricas na seção. no assombro. Diego não vai fazer aquelas visitas protocolares de segunda.” Quando disse “na casa dele”. Naturalmente. senhor. com lágrimas nos olhos. Que tratante. que não lhes falte o pão nosso de cada dia. devemos ter franzido nossos cenhos. “Não seja impertinente”. quando mexíamos lentamente o café. Seja como for. Parece que é do tipo “com escrúpulos”. comemos bem. perguntou Esteban. o que faz?” “Eu. aqui.” “E a mãe nunca sai?”. Pelo menos por dez dias. perguntou: “Ou será que o senhor não acha?” Peguei-o fazendo cera e lhe passei um trabalho daqueles bem maçantes. no desalento.” Então me resignei a fazer a pergunta que ele estava buscando havia tempo: “E de homens. senhor”.. isso é imoral”. Blanca soltou uma notícia: está namorando. agitando o pulso com a correntinha e a medalha.” “E isso é verdade?” “Bem. Nossa inata vocação de democratas se apóia num velho postulado: “Todos precisamos comer. já um pouco azedo. festejamos Esteban. Esteban perguntou alegremente o nome do “infeliz”. Não tenham medo. creio que quei contente e o deixei transparecer. eu acho.” Nossos crentes só em parte se importam com que Deus lhes perdoe suas ofensas.tira a parte de cima. Bom. Jaime a envolveu num olhar estranho. ele não vai poder nem levantar a cabeça. mesmo que fosse. se ele apenas cava nervoso. num apartamento. alega que eu não gosto de mulheres e que vai me curar. como em todos os 24 de abril. Já eu. isso também predispõe ao bom humor. fez algumas brincadeiras. no Centro. E esse Pão Nosso não é — tenho certeza — um mero símbolo: é um pão alemão comprado a quilo. e em seguida me lançou a pergunta: “Papai. na casa dele. senhor... mas em contraposição pedem de joelhos. na dor. papai. Nós nos encontramos em qualquer lugar.. “Mas. uma coisa é certa: a irmãzinha não é nenhuma santa. Disse: “Mas isso é imoral. “E quando conheceremos essa preciosidade?”. agüentou rme nossos abraços... meu Deus! Na alegria. co nervoso. inde nido (o que é Jaime? quem é Jaime? o que quer Jaime?). Nossa sensibilidade é primordialmente digestiva. que razões lhe dá para ir dançar na sua frente com tão pouca roupa?” “Pois é.” Respondi que.. porque ela se apressou a acrescentar: “Ele mora com a mãe. Nem mesmo Esteban parecia aborrecido.” “E você. No m do jantar. ela não tem por que fazer isso.. 24 de abril Hoje. por ela mesma. Não é de todo absurdo que um frango à portuguesa me deixe mais otimista do que uma tortilha de batatas. antes que eu pudesse acrescentar alguma coisa. Quarta. “Veja bem. “E ela. quarta e sexta. disse Blanca. jantamos juntos. Nunca terá ocorrido a nenhum sociólogo efetuar uma cuidadosa análise sobre a in uência das digestões na cultura. tomamos um bom clarete. quero saber se você con a em . perguntei. na economia e na política uruguaias? Como comemos. O cardápio preparado por Blanca foi o ponto mais alto da noite. Acho que todos nos sentimos um pouco obrigados a nos mostrar alegres.

De todos os chefes. de O cial 1º a Chefe de Expedição. “o que eu busco é uma promoção. mas o escrúpulo nunca foi sua especialidade. menos responsabilidade. Martínez sabe perfeitamente que a única forma de se defender de Suárez é desacreditá-lo totalmente. De mim Martínez não tem o que temer. Jaime continuou calado. os únicos que poderiam aspirar a uma subgerência (cargo a ser preenchido no m do ano) seríamos. Fui recebê-lo no Aeroporto. e nunca me dei bem com aquelas megeras. tem medo de Suárez (e com razão). disse eu. Sexta. esclareceu Martínez. já que Suárez. para isso. no fundo. Admiro sua energia. por sorte pegou uma gripe. E já entendi que o procedimento é esse. por ordem de antiguidade: eu. “Claro que con o”. sabe-se odiado. Sabe-se imune. está certo o que ele faz. é uma calamidade. A mim.” A verdade é que a gente vive melhor sem grandes cargos. Esteban se limitou a registrar sua incredulidade com um sonoro pigarro. Saiu-se bem. Em contraposição. De todo modo. Conversamos muito pouco. mas sabe também que não pode fazer nada. só existe uma coisa que eu posso responder. mais gasto. nada disto importa: o escritório. ele vai me telefonar para o escritório. Martínez aproveitou a ocasião para dizer algumas verdades. Quanto a Martínez. não precisa expressar demais sua imaginação. em matéria de cumprimento das funções. É a única opinião que me importa. mais velho. porque as três irmãs estavam lá. as hierarquias e outras besteiras. Nunca me senti atraído pelas hierarquias. O gerente perguntou o que ele pretendia com isso. porque este. Suárez é intocável.mim. . 26 de abril O gerente convocou outra reunião de chefes. Claro que. Suárez não estava. desde que anda com a Valverde. foi uma alegria vê-lo de novo. Minha lha sabe disso. porque sabe que vou me aposentar. Martínez e Suárez. Pelo menos por enquanto. à queima-roupa. Domingo. há menos de quatro meses. O homem sabe que Martínez tem razão. Você con a em mim?” Quando me fazem uma pergunta assim.” O gerente dava pena. Está mais magro. Martínez lhe perguntou diretamente se “o senhor Gerente não sabia se algum outro membro da Diretoria tinha alguma lha disponível que quisesse dormir com chefes de seção”. se queria ser suspenso. “De modo algum”. os títulos. 28 de abril Aníbal chegou. Meu lema secreto: “Quanto menos hierarquias. teve notáveis progressos: de ajudante do caixa passou a O cial 1º em meados do ano passado. acrescentando que ele estava “às ordens”. Combinamos nos ver um destes dias. Só vendo a cara do gerente quando o outro soltou seu rancor.

creio que já escrevi isso alguma vez. sinto-me. Além disso. sim. apagou inexoravelmente minha animação. não há muito trabalho. apesar de tudo. ela brigou com o namorado. sorriu (como sorri bem!) e não falou nada. creio que estava comovido. sacudiu a cabeça num gesto que parecia uma a rmação. e só me restaram forças para perguntar. Gosto de Avellaneda. balbuciou um “com licença” e saiu correndo para o banheiro. como há muito não me sentia. Apenas mostrou certa alegria nos olhos melancólicos e disse: “É muito bondoso. nós dois nos pusemos a trabalhar como que obedecendo a um acordo secreto. a tristeza lhe cai bem. torna seus olhos melancólicos e a deixa mais jovem ainda. Não estou ressequido. eu ainda desfrutava egoisticamente da minha recente descoberta. E não era o nervosismo comum de alguém que vê uma mulher chorando ou prestes a chorar. Minha agitação era minha. como se se tratasse de um slogan recorrente. a única frase: “Com que então. Aproveitei a solidão e a escassez de trabalho para conversar um pouquinho com Avellaneda.” Por que o “senhor Santomé”. acrescentei: “Isto. nesse momento. Quarta. isto significa um passo à frente. quase triste”. para que meu comentário tivesse o mesmo conjunto de palavras que meu pensamento. O alvoroço vem sempre depois do dia 1º. A na seus traços. Então olhei-a com gratidão. Muñoz e Robledo estavam voltando. fez-se a luz em meu próprio cérebro: Então. em tom ngidamente paternal: “O namorado?” A pobre Avellaneda ficou com os olhos cheios de lágrimas. Terça. No mesmo dia em que descubro que não estou ressequido. e como. Fiquei um tempinho sem saber o que fazer diante dos meus papéis. disse eu. e Robledo teve de revisar as chas com o setor de Vendas. Faltaram três. Perguntei o que estava acontecendo. senhor Santomé.” Ela não o tomou como um galanteio. Senti-me agitado. Isto. Faz alguns dias que a tenho notado apagada. Bom.” E. creio que. a agitação de assistir à minha própria comoção. Ainda bem que. em contraposição.Segunda. e. De repente. 30 de abril Vamos ver: o que me está acontecendo? O dia inteiro. em seguida. “Já faz alguns dias que a noto apagada. 29 de abril A seção hoje estava um deserto. meu Deus? A primeira parte havia soado tão bem. a esta altura do mês. a tristeza lhe cai bem. O “senhor Santomé” me recordou meus quase 50 anos. Ela se aproximou da minha mesa. sim. 1º de maio ... não estou ressequido. quase triste. já sem lágrimas e um pouco encabulada. meu ritmo respiratório se alegrava. só minha. transitou pela minha cabeça. Muñoz foi resolver umas coisas na rua. intranqüilizadoramente egoísta. não estou ressequido! Quando Avellaneda retornou.

absolutamente necessária para que meus brônquios iniciem sua jornada. S. Antes. Com Isabel era diferente. mais tarde liberdade. quando sinto de manhã minha tosse de velho. que nem sequer é de nitivamente linda. Primeiro foi dor. basta uma vez por semana. Todo o mecanismo dos meus sentimentos cou retido há vinte anos. amanhã a contadora que veio para a inspeção. a réplica corresponde a cada pensamento. é verdade. e se torne o centro da minha atenção. o mesmo que fazer as necessidades. Longo. Ah. porque não quero assustá-la. segundo. Minha liberdade é outro nome para minha inércia. então já não me sinto adolescente.A. No começo. Hoje um programa no ônibus. neste escuro e pesado silêncio das sete e meia. tenho de descobrir com precisão o que me está acontecendo. Nunca duas vezes com a mesma. Para piorar: chuvoso. estas varizes dos meus tornozelos. porque havia uma espécie de comunhão e. nunca subscrevi. na minha cama conjugal de um só. O que a natureza pede. ultimamente tédio. E eu no meu quarto. Por que tudo isso? O que eu estava defendendo? A imagem de Isabel? Não creio. que. de vez em quando olhando para a esquerda e encontrando aquela gurinha triste. Primeiro. a enquadrar o futuro numa relação normal. Não é possível que. Minha liberdade? Pode ser. Sinto-me nervoso como um adolescente. sem nada. quando Isabel morreu. Dormir hoje com uma. é o mesmo que comer.O Dia do Trabalho mais aborrecido da história universal. As ruas sem gente. na minha idade. bom. quando fazíamos amor. depois. que cada impulso meu se encontrava matematicamente com seu eco receptor. quero dizer. Quinta. depois de amanhã a moça do caixa de Edgardo Lamas. Mas a técnica foi a das bicadas aqui e ali. durante todas essas etapas o sexo continuou ativo. Sob medida. apareça de repente esta moça. de base permanente. aliás. depois indiferença. mas. 4 de maio . quando vejo minha pele que começa a se afrouxar. e mais nada. concentrada. amanhã com outra. o mesmo que tomar banho. Não me senti vítima desse compromisso trágico. invariável tédio. sem ônibus. porque não sei realmente o que lhe dizer. indefesa. Sábado. deserto. mas são os dois corpos que fazem a figura. prematuramente invernal. mas ridículo. a cada movimento corresponde uma réplica. O mesmo que quando a gente se acostuma a dançar com a mesma pessoa. Uma espécie de resistência inconsciente a me comprometer. Quem pensa é um só. Quem dera já fossem nove da manhã e eu estivesse à minha escrivaninha. quando vejo estas rugas dos meus olhos. parecia que cada duro osso meu correspondia a um brando côncavo dela. 2 de maio Preferi não falar com Avellaneda.

é que geralmente faço essas perguntas por pura distração. mas por que tanta violência? Uma mera pergunta não é um preço invasivo. Percebi isso quando ele começou a fazer perguntas cada vez mais incisivas. agora. à medida que lhe respondia. Percebi que aqueles assuntozinhos que a gente às vezes menciona em conversas de escritório ou de café. os dois partidos que mais progrediram nestes últimos tempos são o dos maricas e o dos resignados. pois então. Mas tanto Jaime como Esteban estão sempre numa disposição de pré-con ito no que se refere a mim. porque já não o acho jovem. a resignados.Aníbal me telefonou. “Não posso nem quero dizer. os semi-rebeldes. Não é meu forte. Perguntou se eu achava que tudo estava melhor ou pior do que cinco anos atrás. onde só me cobrem juros. Porque. guarde. continua se interessando pela política. Para mim. quando lê o jornal durante o desjejum. que trabalhão. claro. o bigode está como que des ado). então? Depois de muito espremer meu cérebro. “Pior”. pre ro conseguir o dinheiro em qualquer outro lugar. como se buscasse explicações para coisas que não consegue compreender. mas depois me dei conta de que era só desencantado. percebi que sobre esses temas eu não tinha uma verdadeira opinião formada. ou sobre os quais pensa vagamente. Ufa. Vá lá. se tenho de pagar esse preço invasivo de lhe abrir minha vida íntima. de relance. falou apenas super cialmente de si mesmo. na realidade. a roupa lhe ca grande. tudo se resume a uma só comprovação: Aníbal perdeu sua alegria de viver. responderam minhas células. Sempre tive a secreta impressão de que ele ia ser jovem até a eternidade. até seus temas de conversa. isto é. parece. pois o que menos quero é me meter nas zonas privadas dos outros. “Não se pode fazer nada”. o suborno sempre existiu. Desde o tom de sua voz. dizem as pessoas.” Dei o dinheiro. desde seu olhar. Juntou algum dinheiro. O pior de tudo. Não falou quase nada de si mesmo. me empreste. a acomodação também. que me parece muito mais opaco do que na minha lembrança. quando ele saiu daqui. De todo modo. o que mais raiva me dá. os corruptos. Ele decaiu sicamente (está magro. Amanhã nos veremos. Domingo. Avellaneda faltou ao escritório. porque. Jaime me pediu dinheiro. dá exatamente no mesmo. meus intestinos etc.. também dá suborno quem quer . meu coração. que se arranjem como puderem. Os rebeldes passaram a ser semirebeldes. que no primeiro momento me pareceu lânguido. mas não é só isso. 5 de maio Aníbal não é mais o mesmo. nesta luminosa Montevidéu. os ossos aparecem mais. Mas depois tive de me explicar. no mesmo. Mas. que antes eram cintilantes e agora são incrivelmente sem brilho. Mas parece que a eternidade chegou. só dava suborno quem queria conseguir algo ilícito. Quer se estabelecer aqui com um negócio. se não quiser. até o movimento das mãos. também. Aníbal insistiu e creio que fui me a rmando. mas ainda não decidiu em que ramo. Acho que. Perguntei para quê. O que está pior. Eles já são uns tremendos marmanjos.” “No mesmo?” “Sim. que perderam vivacidade. Antes. cheguei à convicção de que o que está pior é a resignação. por unanimidade. e muito menos nas dos meus lhos. Se quiser. Nunca havia feito isso.

experiente. Talvez seja também o mais ladrão. Há sempre uma atmosfera fria e uma sensação de imediatez. de coisa urgente. repousado. Terça. porque. depois de feito o amor. até agora. que perverte qualquer tipo de diálogo que eu mantenha com qualquer tipo de mulher.” Naturalmente. Talvez seja esse. ou talvez o sexual importe menos aos 49 anos do que aos 28). talvez me convenha o segundo. o importante é irmos embora. Mas isso já é pedir muito. No princípio foi a resignação. dizer-lhe aproximadamente: “Veja bem. o abandono do escrúpulo. Com o primeiro. porque sabe perfeitamente que ninguém morre de honestidade. bom salário. o ex-resignado tem uma desculpa para sua desonestidade: é a única forma de os outros não levarem vantagem sobre ele. E isso significa afrouxamento total. do contrário. menina. No entanto. não posso saber nada. depois. Seja como for. Sem ter falado com ela. a conivência. ela vê em mim um chefe razoavelmente amável e mais nada. grisalho. O ideal. quais são minhas intenções? A verdade é que não me inclino a pensar em algo permanente. não é tão jovenzinha assim. Até o momento de me deitar com ela. Bom. Pois muito bem (e para falar nos termos de comadre de subúrbio). Vinte e quatro anos não são 14. ela sabe que os tenho. O que é não estar acostumado a pensar nisso tudo! Aníbal foi embora de madrugada e eu fiquei tão inquieto que não quis pensar em Avellaneda. além disso. o namorado era um garoto. sinto-me um tanto cansado dos encontros às escuras. não ajudam. dos encontros em motéis. ela se inclina para o outro extremo. 7 de maio Há dois procedimentos para abordar Avellaneda: a) a franqueza. No entanto.conseguir algo lícito. seria ter Avellaneda sem obrigação de permanência. do tipo “até que a morte nos separe” (escrevi Morte e já apareceu Isabel. posso ser seu pai. a esta altura. Foi um ex-resignado que pronunciou a célebre frase: “Se os de cima roubam. É certo que. b) o ngimento. não recordo uma só conversa reconfortante. escute meus conselhos. agora. Vai ver que é das que preferem os tipos maduros. senhor maduro. acho que. uma só frase comovedora (minha ou alheia). a nal. dessas que estão . tudo ainda está bastante imaturo. o mais hipócrita.” Embora pareça incrível. mais tarde. Os três filhos eu não incluo em minha ficha. tenho minha experiência. ignorar-nos para sempre. voltar cada um à sua cama particular. mas Isabel era outra coisa. seu dinheiro valia cada vez menos e eram mais numerosos os caminhos corretos que se lhe fechavam. Diz que se viu obrigado a entrar no jogo. Tudo são fantasias que faço. e. eu também quero. Mas a resignação não é toda a verdade. seja quem for. pelo menos com ele assim foi. Mesmo assim. arrisco muito. E no outro extremo posso estar eu. mas tampouco me inclino a car sem Avellaneda. Continua mantendo um ódio vingativo e latente contra aqueles pioneiros que o obrigaram a seguir esse rumo. sem maiores achaques. por reação. 49 anos. já que nada faz para safar-se. bem sei. Sem dúvida. o importante é me deitar com ela. Em tantos e tantos anos desse jogo. vamos ver o que acontece”. dizer-lhe aproximadamente: “Gosto da senhorita. pode-se tentar. acho que em Avellaneda o lado sexual me importa menos.

uma mulher me disse esta frase singular: “Você faz amor com cara de empregado. deve fazer uns seis ou sete anos. Ele está radiante. e agora os dois estão em pleno idílio. Num motel da rua Rivera. “E sua mulher?”. como prólogo inevitável a uma hora de confidências. mas sem me adular. e com fome atrasada. para extinguir alguma vacilação. não posso falar com ela. Bom. Almoça com uma amiga. com ar de consciência vigilante.” Quarta. sua cara beatí ca de capão). apóia-se em algo de sua propriedade. Com freqüência. Ao que parece. seguramente. Sabe o que ela me disse um dia destes? Que ultimamente eu andava muito melhor de gênio. 10 de maio Conheci Diego. ele representava apenas o homem que estava mais à mão. É o melhor. Mas agora ele irradia felicidade por todos os poros. Até meu fígado está funcionando bem. 8 de maio Vignale outra vez. a concunhada teve êxito em sua ofensiva amorosa. creme com losanguinhos azuis. Ele tem decisão no olhar. diante da “fome atrasada” da outra (o pobre Francisco não há de desmentir. acariciando a gravata muito juvenil. Tratou-me com respeito. Tem de ser um encontro casual. ela ca para comer no Centro. Tem de ser em outro lugar. Acredita sinceramente que foi sua estampa de varão que a seduziu. de um obscuro marrom inde nido.” Imagino a fome atrasada da robusta Elvira. E tem razão. Primeira impressão: gostei. perguntei. de marido el. e não quero nem pensar no que será do pobre Vignale daqui a seis meses. Sexta. 9 de maio No escritório. a possibilidade de colocar-se em dia. sabe-se lá em que instante confuso. Em . disse.” Quinta. Esperava por mim na saída do escritório.destinadas a reaparecer depois. “Um mulherão. isso não é totalmente certo. Não percebe que. Não tive outro remédio a não ser aceitar um trago. ou seja. rapaz. que ele usava em sua época de marido no seco. “Tem um tesão em mim que parece mentira”. uma gorda que trabalha na London París. que sem dúvida signi cava uma evidente evolução com respeito às muito enrugadas. Estou estudando seu itinerário. meu futuro genro. “Tranqüilíssima. para impelir-nos a tomar uma atitude que exija uma dose mínima de coragem. Mas depois se separam e ela vai tomar alguma coisa num café da Veinticinco com Misiones. fala com uma espécie de orgulho que (assim me parece) não é gratuito.

A camaradagem é uma linda etapa. todos os outros. 11 de maio . tínhamos certeza de que uma espécie de fantasma com xale registrava todos os nossos movimentos. de que outra fonte pode vir senão de suas conversas com Blanca? Eu seria verdadeiramente feliz. a qual se compõe dele e somente dele. a que mereço de Jaime e Blanca. Se alguma vez nos beijávamos. engolindo cheiro de velho em cima dos livros. se soubesse que minha filha tem de mim uma boa impressão. não me importa. ao contrário. sem prima ou irmãzinha acompanhante. embora os três representem muito para mim. uma variante de ódio que ele não se atreve a confessar nem a si mesmo.toda a sua atitude havia algo que me agradou. Talvez a rebuscada razão consista em que. sem dúvida. por sua vez. espigada. a opinião que mereço de Esteban. tão atentos a captar qualquer indício premonitório de sua aparição em qualquer dos pontos cardeais da sala de estar. A menina e o candidato não iam de braços dados. havia entre eles um espaço de pelo menos 20 centímetros. muito de susto. durante o noivado. no fundo. embora eu veja re etidos nos três muitos dos meus impulsos e das minhas inibições. “Não posso me conformar com a perspectiva de me ver sempre ali. e. e bastante. Jaime.” Mas voltei a me afastar do tema Diego. mesmo que fosse o cúmulo da pureza. Gosto disso de eles saírem juntos e sozinhos. uma tarde destas. uma espécie de ojeriza. ao menos neste particular. Em contraposição. que me dirige a palavra como que por obrigação. e creio que agradou também à minha vaidade. que o beijo acabava sendo sempre um contato meramente instantâneo. Ela ainda vive.” Houve uma época em que eu também pensava assim. Ele estava bem predisposto em relação a mim. de curto-circuito. noto em Esteban.. Até naquelas ocasiões — raríssimas. É curioso. Blanca é leal. mas outra coisa. resoluta. sempre me sen​ti longe desse filho que nunca pára em casa. acabam pagando o pato. no entanto. vigiava-nos tão estreita e zelosamente que qualquer um. acompanhando a caçula de suas seis moças e um desgraçado com cara de noivo sob custódia. No entanto. e os outros. inextinguível. mas o certo é que eu também não gosto dele como dos outros. vai fazer bem a Blanca. não sei se melhor ou pior do que isso que faço. O essencial é que ela se sinta protegida. não vai decepcioná-lo. Jaime tampouco se sente muito inclinado a comunicar-se comigo. além disso. mas só temporariamente. mas. e que faz todos nós nos sentirmos como “estranhos” em “sua família”. não nos sentíamos sozinhos. e essa boa predisposição. Isso eu nunca perdoarei à mãe de Isabel. irrecuperável. com pouco de sexo e menos ainda de ternura. É um ano mais novo do que ela. só casado. Tenho certeza de que vou ser e fazer outra coisa. Sábado. mas parece ser quatro ou cinco mais velho. Ele diz que trabalha num escritório. cávamos tão tensos. insubstituível. se sua repulsa ou a minha. por exemplo. de nervo ferido. con nado. em seu caso. não noto esse tipo de repulsa incontrolável. claro — em que ela não estava presente. isso foi evidente. ela sempre se grudava em nós como um emplastro. Esse rapaz parece mais decidido do que eu. eu a vi lá pela Sarandi. iria sentir-se obrigado a convocar todos os pensamentos pecaminosos dos quais dispusesse. é um solitário sem conserto. Via-se que a velha ainda não abriu mão do seu famoso lema: “Braço dado. importa-me.. Não sei o que veio primeiro. Voltando a Diego: agrada-me que o jovem tenha caráter.

Embora exista outra palavra mais certeira: retornei solitário. Somente quando a mulher se encontrava a poucos passos era que eu . na aglomeração. pensei. sua nuca. nesta ou naquela gura. e o parecido se transformava em absurdo. de que cor. Segunda. respondi. Tenho de falar com ela. Das 12h30 até as duas. Àquela altura. talvez com excessiva atenção. “Tenho de lhe falar”. No entanto (só agora isso me ocorre). tudo depende do ponto de vista). Não quero marcar. 15 de maio Estive no café da Veinticinco com Misiones. 12 de maio Também a ouvi dizer que aos domingos vai à feira. De repente. Ou terá interpretado minha atitude como uma atenção paternal? Detesto me sentir paternal. e ela então me perguntou: “O que eu tenho. Duas ou três vezes. chateado.” Acho que ela percebeu. Eu a observava. Fiquei uma hora nessa esquina.” Comecei a “vê-la” em cada mulher que se aproximava pela Veinticinco. mas ela não veio. que lhe estica o olho para baixo. achei que era ela. A única coisa que não engana (assim. eu via entre muitas cabeças um pedaço de pescoço ou um penteado ou um ombro que pareciam os seus. não lhe cai bem) e perguntou de novo: “E agora?” “Agora cou impecável”. com um pouco menos de covardia. Às vezes. “portanto ela tem de aparecer. não sei como são. cinza-azulados. seus quadris. Fiz uma experiência. Ela passou o indicador pela face (um gesto seu bastante característico. tem de ser casual. Ela corou. aturdido. respondi. Retornei cansado. Eu a “via” do mesmo jeito. como traço isolado) é o olhar. um só detalhe que me lembrasse a dela. Uma espécie de jogo mágico (ou idiota. Quarta. senhor?” Ridículo. Mas de repente se voltava. Domingo. uma mulher vista por trás tinha seu mesmo passo. 13 de maio São verdes. Às vezes. mas depois a gura se completava e até o pedaço a m passava a se integrar com o resto e perdia a semelhança. como um covarde. e consegui acrescentar: “Agora não está só impecável: agora está linda. Em nenhum lugar encontrei seus olhos. aborrecido. então fui à feira. Acho que agora sabe que vem acontecendo alguma coisa. Tenho de lhe falar. isso de me tratar por “senhor”. eu a ouvi dizer que nos sábados ao meio-dia se encontra com uma prima na Dieciocho com Paraguay. não me importava tanto o fato de não conseguir reconhecer. “Uma nodoazinha no rosto”.Em algum momento.

e ela se foi.efetuava um brusco retrocesso mental e deixava de vê-la. eu não faria nada. com a perna cruzada. Meu pai está me esperando no Banco. Achei que meu coração se havia instalado nas minhas têmporas. em geral. porque Escayola dizia qualquer coisa (não precisava ser muito engraçada) e todos nós já nos cutucávamos. nela eu vi Avellaneda. o fato é que Escayola soube que Vignale me encontrara e — naturalmente — um jantar consta do programa. Vai ser bom vê-lo de novo. a esta hora?” “Claro”. sem dúvida. Eu disse: “Como vai? O que anda fazendo?” O tom era natural. pura conversa. alto. antes de afastar-se. Escayola também é da época da rua Brandzen. Recordo que às vezes ríamos aos gritos. Uns cinco minutos depois.” Imaginei. sim. Que salto.” Se não o tivesse dito. ficaria desalentado e vazio. sem me dar conta. Creio que o segredo estava no fato de ele se fazer de pândego com grande seriedade: uma espécie de Buster Keaton. acompanhando um convite sem ênfase: “Um café?” “Não. disse ao telefone a voz de Vignale. “Ah. não se esqueça”. No café do galego Álvarez. creio que eu jogaria um copo contra o piso. Meu silêncio foi. que pena. ocorreu que a realidade também era Avellaneda. Era um adolescente magricela. nervoso: para tudo.1 Quinta. menti.” Bom. ou cravaria as unhas nas palmas. creio que agradavelmente surpreendida. No máximo. junto à minha janela. veio o garçom. tão provocador que ele não conseguiu esperar nem três segundos para responder à sua própria adivinhação: “Com Escayola. quando quis efetuar o esperado retrocesso. Escayola era a estrela. . senhor Santomé. ouvir de novo esse sobrenome. de repente. me deu um susto. não posso. um sobrenome antigo. Mas ela disse: “Que pena”. e. sua conversa era hilariante. 16 de maio “Sabe com quem eu me encontrei?”. estávamos todos predispostos ao riso. Dá vontade de cantar e tudo. Ela olhou surpreendida. hem? A gente se sente como novo. mas desta vez disse: “Que pena. eu tinha chegado. à segunda estrofe de Mi Bandera . Evidentemente.” Um só gesto displicente da minha mão direita. quase rotineiro. imagine. transferimos o convite para outro dia.” Só então eu me ouvi. a imagem de Avellaneda. substituía a imagem desejada pela indesejável realidade. Não.” É o segundo café que ela me rejeita. mentira. fez-se o milagre. “Não diga. meu Deus. Até que. olhando para a rua: “Que solzinho agradável. tomara que agradavelmente surpreendida. Mas deste eu me lembro. e como vai ele?” “Parece um gol nho: pesa 98 quilos. de imediato. Uma moça apareceu na esquina e. ainda perguntou: “O senhor está sempre aqui. ou morderia meu lábio inferior. para resolver umas coisas. Escayola? Coisa estranha. insisti. daqueles que já não aparecem. tinha pronto um comentário brincalhão e. Ela estava a dois passos. os dentes apertados e os olhos me doendo de tanto tar a mesma xícara. Mas. trouxe outro café e disse. segurando a barriga. Inconscientemente.” “Bem. “Então. como um velho gramofone no qual alguém põe um disco e depois se esquece.

Recolhi a colherinha.” Sábado. disse. um pouco. “Eu já sabia”. Eu a avisei. e esperou a continuação. respondeu. Desta vez não esperava nada. tropecei na cadeira. antes de conseguir me sentar.” Por m. Respondi: “Não. Acho que fazia contas. confessei. Agradou-me que seu bom humor lhe permitisse zombar de si mesma. Ela olhava xamente a carteira. Eu estava no café. Então prossegui: “Na minha idade e na sua idade. sentimental”. não estava vigiando. Não tema por seu trabalho no escritório. Nem uma palavra. divertiu-se um pouquinho com esse aspecto que lhe pareceu ridículo. 18 de maio Ontem. Ela se sentou. signi caria: “Esta é a cor do seu futuro. “Parece que eu o assustei”. pressenti que o pior momento havia passado. “Bem. E eu continuei: “Veja. disse.” Esperei outra vez. pletórico de dívidas. “Vim cobrar o café daquele dia”. Os garçons olharam. Estava recuperada a naturalidade. de alguns colegas. é bem possível que o que vou dizer lhe pareça uma loucura. enganchei o paletó naquele maldito rebordo que as cadeiras têm no espaldar. não consegui esperar mais e perguntei: “E então?” Sorri um pouco forçadamente e acrescentei. Estava despenteada. não havia levado em conta uma encenação tão movimentada. rindo com franqueza. não prossegui. era uma homenagem que eu lhe devia. Em meu ensaio geral dessa desejada entrevista. eu sei me comportar. ou melhor. como se uma ventania a tivesse atingido apenas desse lado. Ela ria. não se preocupe. Mas não quero fazer rodeios: acho que estou apaixonado pela senhorita. fale-me e pronto. o mais lógico seria que eu calasse a boca. Quando levantou os olhos. mas. Usava um casaquinho verdeescuro sobre uma blusa branca. Avellaneda. contei-lhe vários episódios de tempos idos. Ela puxou da carteira um espelhinho. Eu me levantei. comecei: “Sabe que a senhorita é a culpada de uma das crises mais importantes da minha vida?” Ela perguntou: “Econômicas?”. verdadeiramente outonal. Não prossegui porque quis . quando escrevi o que ela me disse. Ergui os olhos e ela estava ali. Não tentei identi car se o rubor era radiante ou envergonhado. Então. indefesa. me disser basta. e ainda ria. 17 de maio Finalmente aconteceu. Não vou exigir nada. agora ou amanhã ou seja lá quando for.Sexta. Se a senhorita. na vã tentativa de equilibrar os gastos com a renda deste maio tranqüilo. sentado junto à janela. Qualquer coisa que ela dissesse. olhou-se. Se for assim. e ela ficou séria. mas só na metade direita. minha colherinha de café resvalou da mesa com um escândalo que mais parecia provir de uma concha de sopa. disse ela. sim”. Acho que se ruborizou um pouco. qualquer atitude que assumisse. pela tranqüilidade em seu trabalho. não se fala mais do assunto e continuamos amigos. “Por isso vim tomar café. defendida por mim contra mim mesmo. Ela estava ali. “Caramba”. e isso me salvou. mas creio que. de todo modo. com uma voz trêmula que desmentia o gracejo que a frase pretendia ser: “Tem algo a declarar?” Ela parou de olhar a carteira.” Esperei uns instantes. Falamos do escritório. Como uma aparição ou um fantasma ou simplesmente — e muito melhor — como Avellaneda.

Hoje. com esse latejo de esperança. Como vai ser? Na realidade. o empurrãozinho que sua dúvida esperava para fazê-la decidir voltar para ele? E também há a diferença de idade. e estar em condições. os nervos. Mas também ela pode ter desejado que eu afinal fizesse a pergunta.” Amanhã. e me atrapalhei todo com aqueles gestos inábeis e descontrolados. a dúvida? Quando alguém deseja que lhe formulem uma pergunta desse tipo. pelo menos. Serei eu. Se este diário tivesse um leitor que não fosse eu mesmo. como é que não tinha uma opinião formada.” Domingo. Também tinha aventado a possibilidade de me oferecer para aconselhá-la. meus três lhos etc. preciso me recuperar. O discurso me saiu breve e — sobretudo — simples. que na realidade ela pretenda pronunciar o terrível “basta”. Ela chegou com apenas dez minutos de atraso. Seu tailleurzinho dos domingos a melhora muito. cada vez melhor. o ex-namorado. vislumbrei. numa proposição concreta. 19 de maio Esperei-a na Mercedes com Río Branco. No . o que eu sinto. Pressenti que. de uma vez por todas. mas ainda assim é uma surpresa. para pensar. “Eu sabia. não tenha acreditado que eu chegasse a expressá-lo em palavras.que assim terminasse o dia. tensa e pouco à vontade. Mas eu me digo: se sabia que eu sentia o que sinto. evidentemente.” Mas não somente não disse “Basta”. Este último aspecto é mais complicado do que parece. E falta decidir que tipo de relação eu verdadeiramente gostaria de manter com ela. O tailleurzinho era um bom augúrio (queria impressionar bem). por baixo da pintura. Outra explicação: que ela tenha sabido (saber. em suma. de pôr à sua disposição a experiência dos meus anos. Ela não disse: “Basta. à queima-roupa. tudo bem. minha condição de viúvo. suas faces e seus lábios estavam pálidos. quando saí dos meus cálculos e dei com ela na minha frente.” Depois me pediu um dia. para não continuar esperando. estava nervosa. mas. como também disse: “Por isso vim tomar café. como é que pode vacilar quanto à sua atitude a assumir? As explicações podem ser várias: por exemplo. sim. e creio que a simplicidade pode ser uma adequada carta de triunfo diante dela. neste caso. O que se passa com ele? Não nos fatos (os fatos. não. há o namorado. de dizer que não e recuperar o equilíbrio. eu deveria encerrar o dia no estilo dos romances de folhetim: “Se quiser saber quais são as respostas a estas perguntas cruciais. domingo. É verdade que não me sentia muito seguro de que isso fosse o mais conveniente. embora fosse o dia escrito por mim. Não estou arrependido de ter seguido o impulso. signi ca intuir) o que eu sentia. Só que ela veio “por isso” tomar café. indicam o m da relação). Além disso. Daí a vacilação. o impulso que faltava. por conseguinte. mas nela mesma. esquecendo os discursos preparados e as emboscadas prévias. leia nosso próximo número. No entanto. em geral é para responder a rmativamente. embora seja provável que eu estivesse especialmente preparado para achá-la melhor. apesar disso. almoçaremos no Centro. mas achou muito cruel dizer isso assim. umas horas pelo menos. que a única saída para escapar satisfatoriamente do ridículo era dizer o que me ditasse a inspiração do momento e mais nada. O que quer dizer? Que desejava que eu formulasse a pergunta e. meu discurso preparado incluía uma longa explicação que nem cheguei a iniciar. Quer pensar.

“A essa outra perspectiva. E não creia que estou bancando o santo. Nessa outra perspectiva há espaço para o amor. sabia muito bem o que ela tentava me dizer. é difícil que admita outra perspectiva. “Compreende. continuou. ‘Não chega a ser um velho’.” “Pergunte”. “existe o que se chama de realidade e existe o que se chama de aparências. “O senhor quer saber minha resposta”. mas ali estava. escolha a melhor dessas muitas coisas. “e minha resposta é outra pergunta. disse eu. O ritmo oral parecia corresponder a uma conversa entre comerciantes. poderá dizer um otimista ou um adulador. “Bem”. o vinho. pensei. talvez sério demais. respondi. sobretudo no jargão masculino.” “Não tenho outros”. Não me faça dizer isso. “Examinando sua aparência. porque só pensaria em mim. a imaginação popular. ou entre políticos. Bom sinal. escolheu uma mesa do fundo. o mais correto seria que eu lhe oferecesse um namoro sério. Quer que eu lhe especi que. Estar apaixonado pode signi car. Talvez quisesse apenas ver minha cara quando eu disse isso. “O que signi ca isso de estar apaixonado por mim?” Nunca me havia ocorrido que essa pergunta existisse. Avellaneda. mas os problemas surgem quando penso nisso que se chama de aparências. E essa é a di culdade. Então. eu vou me sentir um pouco desgraçado. mas essa atenuação importa muito pouco.” “Ah. um pouco mais animado. Fez bem. sem decidir entre parecer zombeteira ou não. “Por favor. “Minha pretensão. “Não quer que a vejam comigo.” “Que problemas?”. quando lhe disse essa frase. eu já estava decidido a não parar. que costuma ser pobre em denominações. porque essa é a chave de todos os problemas e também porque aí. ou entre quaisquer pessoas dotadas de contenção e equilíbrio. em outras idades). como um idiota. mas não para o casamento. mas não vê inconveniente em que eu pareça ridícula. mas não interrogativamente. calculo que seria muito egoísta. Porém — há sempre um porém —. Quero que minha honestidade fique a salvo. “Não me faça dizer que eu poderia ser seu pai.” Não era um diálogo de amor. ou que a senhorita tem a idade de algum dos meus lhos. com uma clara perspectiva de casamento ao alcance da mão. Mas.” Ela não respondeu nada. A senhorita tem todas as condições para contribuir para minha felicidade. de que falar então? Sei que. não me crive esses olhares de expectativa. de modo algum. é tentar que a senhorita o seja também. Porque é evidente que existe outra perspectiva. puxou o espelhinho e se olhou. “Eu gosto da senhorita nisso que se chama de realidade. quase escondida. mas na senhorita. que esperança. ao meu alcance. desta vez creio que verdadeiramente intrigada. quando lhe digo que nem agora nem dentro de alguns meses poderei reunir forças su cientes para falar de casamento. ela disse: “Por favor. no fundo. Mau augúrio”. além da muito explicável de me sentir feliz ou o mais próximo disso.” “Tem razão. se eu agora lhe oferecesse algo semelhante. sei”. disse ela. Era o menos arriscado. sim. Era a isso que eu me referia ontem. a essa altura. acrescentou. então?”. não me faça parecer mais ridículo ainda. Mas.” Desta vez houve um quarto de hora (enquanto pedíamos o ambre. perguntei. Bem sabe o que quero dizer. ou entre professores. dá o nome . Em outra posição (melhor dizendo. prossegui. “o senhor não quer parecer ridículo. sem esperar resposta.restaurante. como um adolescente.” Ela ergueu os olhos. enquanto passávamos manteiga sobre o pão preto) no qual o tema foram generalidades. “Preste atenção”. e o que mais quero agora não é pensar em mim. muitas coisas diferentes. mas eu tenho muito poucas para contribuir para a sua. por mais que a senhorita entenda. muito sério. Assim que se sentou. perguntou. abriu a carteira.” “E então?” Na realidade. Não posso esquecer — e não esqueça também — que daqui a dez anos eu estarei com 60. De repente. eu não estava bancando o bobo. em que consiste estar apaixonado?” “Não.

Terça. de dedos nos. Eu talvez não me afastasse nem um milímetro do meu centro de sinceridade se lhe dissesse que o que estou buscando denodadamente é um acordo. disse-me Blanca ao meio-dia. uma espécie de combinação entre meu amor e sua liberdade. tenho todo o direito de jogar tudo numa carta única. a Santini. Não há compromissos. 24 de maio É uma espécie de jogo. agora. com unhas tipo garra. “Você está animado. no escritório. claro) um beijo cavalheiresco sobre aqueles nozinhos delicados. do trato normal.” Sexta. só uma entre todos esses que estendem a mão diante da minha mesa para que eu lhes entregue as planilhas. eu também estou assustado. Ali estão a mão de Muñoz. disse. Às nove da manhã. a cada vez em que se aproxima com os outros e estende sua mão. a mão dela.” Nesse momento. Já sei. só que femininos em vez de afeminados. comprida. Não há travas. já sei. eu distribuo o trabalho: a Muñoz. mais contente. estávamos esperando a sobremesa. e ao lado. a mão de Robledo. Ela é esplêndida. Tem todo o direito de pensar assim. A regra é não fugirmos do ritmo. mas reconheça que eu. da rotina. a Avellaneda. Ela diz que não se nota isso em minha cara de . simplesmente por temer que a senhorita creia que estou lhe propondo uma aventura. O garçom trouxe nalmente os manjares do céu e eu aproveitei para pedir a conta. deixar que o tempo corra e reavaliar. rugosa. eu deposito (mentalmente. curta. Para falar a verdade. que o que eu estou buscando é justamente seu amor e minha liberdade. sensíveis. Segunda. Avellaneda é mais uma na lista. Imediatamente depois do último bocado. quase quadrada. com dedos semelhantes aos de Santini. “Eu gosto do senhor”. 21 de maio “O tônico lhe faz bem”. por minha vez. 20 de maio O plano traçado é a absoluta liberdade. e é bastante lógico que a senhorita se assuste um pouco.de aventura ou programa. Conhecer-nos e ver o que acontece. a Robledo. com dois anéis. O sorriso lhe formava uma espécie de risquinhos nas comissuras dos lábios. a mão de Santini. A senhorita está pensando que a realidade é precisamente o contrário. O jogo do Chefe e da Auxiliar. Avellaneda limpou fortemente a boca com o guardanapo e me tou sorrindo. Já lhe avisei que. E essa carta única é a con ança que a senhorita possa ter em mim.

Quando morava na rua Brandzen. fez algumas brincadeiras. Ainda estou impressionado. estivemos muito mais atrasados. a não achar graça em nada do que eu dizia. à medida que contava. Não consegui me conter e disse a Escayola: “Afora esses seus alguns quilos a mais. piadista. “É pelo balanço que se aproxima? Fique tranqüilo. Muñoz? Olhe que depois vêm os prazos do imposto de renda. Eu não gostava de repetir histórias alheias. os rapazes (eu sempre tive minha turma). extraída de sua atividade como corretor da Bolsa. como os dos quadrinhos. A piada que eu contava. Às vezes faz um teste. Mas é preciso dissimular. mas eu me mantenho rme. mas nem nesse momento me retirei. O adolescente alto. que boa memória a sua! Mas um dia me dei conta de que estava cando sem assunto. não quis me retirar a tempo. Antes.” Que me importa o balanço? Quase dei uma risada na cara dele. . e umas bolsas horrorosas que lhe pendem abaixo dos olhos e se sacodem quando ele ri. uma careca com manchas que parecem de café respingado. Eu as inventava e às vezes inventava verdadeiras séries de piadas com um personagem central. quando encontrei Escayola depois de quase trinta anos sem vê-lo.pedra. Pois bem. e. hein?” Domingo. a m de impressionar meu ouvinte e convencê-lo de que a pilhéria era efetivamente muito boa. ninguém a ouvira antes.” Pelos seus olhos perpassou uma faísca de raiva. e em seguida ele começou a me explicar: “Sabe o que aconteceu? Eu sempre fazia as brincadeiras com grande seriedade. e então acrescentei qualquer coisa ao meu repertório. quando percebi que não achava assunto (não sei o que me aconteceu. vai ver que minha cachola se esvaziou). você soltava o gracejo mais pesado do mundo com uma cara de velório que era sensacional. Todos morríamos de rir. e aqueles chatos rejeitam três ou quatro vezes as declarações. transformou-se num monstro pançudo. Diga isso aos rapazes. a e cácia de suas pilhérias residia precisamente em que ele as contava muito sério. com um impressionante cangote. narrou uma ou outra historinha presumivelmente picante. Muñoz se aproximou de mim e perguntou se estava me acontecendo alguma coisa. o que eu mais estranho agora é essa sua risada. E as pessoas. mas ele permanecia impassível. começamos a nos atolar em trabalho. contou uma piada grossa que eu já sabia desde meus tempos de colégio. e aquilo me abastecia por duas ou três semanas. Munõz. não esqueça que este é meu último balanço e quero que ele saia perfeito. tem razão. No jantar de hoje. uns lábios carnudos e moles. “Acha que vai dar tempo. Em outros anos. Os livros podem ser atualizados rapidamente. Você sabe que eu era um criador. No começo eu as selecionava. e então comecei a repetir piadas alheias. como um bom desportista. ou talvez de impotência. chefe. nervoso. Temos de correr. começaram a não rir. Inventei outro recurso: rir eu mesmo. sem saber nada dele. procura me contagiar com sua vontade incontrolável de rir. claro. porque vinha me notando um pouco preocupado já fazia uns dias. mas logo se esgotou também a seleção. Tão rme que. Tinham razão. Porque agora Escayola ri. esta tarde. O máximo que conseguiu foi que eu sorrisse moderadamente e que Vignale (realmente um bobalhão) soltasse uma gargalhada tão arti cial que mais parecia um pigarro. Nunca senti a passagem do tempo com tanto rigor quanto hoje. 26 de maio Hoje jantei com Vignale e Escayola.

de tanto lerem escrituras. Falam freiando-se. Elas me dão a ição. Naturalmente. Tem uma visão muito pessoal e bastante irônica do que a rodeia. que não se repetem em outras pro ssionais. isto não é uma aventura. “Não. lembro-me de uma escrivã que é proprietária do busto mais atraente deste universo e arredores). “A senhorita as conhece?”. de tanto carregarem pastas. Por exemplo. Elas têm traços e hábitos muito especiais. e o senhor nunca as verá olharem-se num espelho. E a que está ao lado tem cara de não saber fazer nem um ovo frito. pelo menos. um segredo compartilhado. masculinizadas. O pior (ou o melhor?) é que ela está muito à vontade nessa inde nição. Nosso Assunto é esse vínculo inde nido que agora nos une. Também nesse caso tinham razão. Porém vou fazendo progressos nesse “algo mais”. é sempre de fora. Conheço algumas. o que é o Nosso Assunto? Por enquanto. totalmente alheias à demolidora crítica que. perfeito. O tom geral da conversa é sempre o da amizade. E aqui estou. é uma espécie de cumplicidade diante dos outros. mas logo aprenderam a se sentir fraudados. por exemplo.No começo. quando o mencionamos. mas eu já não pude deixar de rir. com todo o humor. e no senhor?” Não. sempre consigo reconhecer as mulheres que são escrivãs. ou não sabem segurar suas carteiras. Hoje. Fala-me com toda a con ança. . preciso. Ou pintam os lábios com um só risco duro. todas em torno dos 30 ou 35 anos. à distância de uma mesa. mas tem todos eles bem catalogados. como se não quisessem dizer nada que vá contrariar os códigos. Às vezes. As pobres escrivãs. há anos. a saber que meu riso não era exatamente um prenúncio de comicidade garantida. como você vê. às vezes falamos do Nosso Assunto. a mim elas não dão a ição (e mais. musculosas. como acertou?” “Não sei. Mas. pelo menos de vista. Explico: dizemos. acho até que com carinho. que “no escritório ninguém ainda se deu conta do Nosso Assunto”. transformado num chato. No máximo. nunca as tinha visto.” “Mas então. perguntei. faleme de coisas trágicas. olha ao redor e solta um comentário certeiro.” Terça. não é?” De fato. enérgicas. ou que esta ou aquela coisa aconteceu antes de Nosso Assunto começar. à sua conversa. de amizade e algo mais. ou sofrem de um eterno pigarro. Não gosta de ouvir fuxicos sobre o escritório. nem um programa. No entanto. é algo mais do que uma amizade. à sua postura. eram escrivãs. no café. 28 de maio Quase todos os dias ela vai tomar o cafezinho comigo. continuaram tagarelando. nem — menos ainda — um namoro. ia acrescentando novos reparos ao seu aspecto. a nal. um pacto unilateral. me acompanhavam no riso. Mas. mas me diverte escutá-la quando se entusiasma pró ou contra alguma coisa. a segunda da esquerda: tem umas panturrilhas de vice-campeã atlética. à sua atitude. por exemplo. Observe aquela. havia uma mesa com quatro ou cinco mulheres. Quer um conselho? Se quiser conservar minha amizade. como quem escreve numa lousa. Ela as olhou detidamente e depois me perguntou: “São escrivãs.

quando lhe dizia: “Agora. tirar o máximo partido destes anos que restam. Porque já caí. “Gosto desse moleque como de um irmão. recomendou-me aceitar. Nenhum dos rapazes se lembrou: pelo menos. depois de esquadrinhar minhas rugas: “Mas o senhor ainda é um homem jovem!” Ainda. “porque na minha pro ssão há muitos abusados e gente sem escrúpulos”. Nunca lhe perdoei isso. Hoje em dia. de nossas conversas do domingo 5. sorte. num aniversário. “Uma boneca”. Coloquei-a sobre a cama e pedi a Isabel que adivinhasse. que fazia para mim esse preço especial por ser eu o pai de Esteban. Isso aproxima. Depois de baixar para 40 por cento. que eu podia perguntar por aí. que jamais cobrava menos de 50 por cento. tenho a angustiante sensação de que a vida me foge. Serei o culpado? Nos primeiros tempos. qualquer um pode me dizer. Mas me assegura que não terei de trabalhar nem um só dia além do necessário. também dá suborno quem quer conseguir algo lícito. Porque a vida são muitas coisas (trabalho.Quinta. A tentação é grande. Levei-a para casa numa caixa comprida. que “nos agarramos à vida”.” Sexta. de falar de outra pessoa que não tenha tido nada a ver com minha mulher. 30 de maio Bela peça. Durante quatro anos. dinheiro. mas ninguém vai me negar que. penso que precisaria viver apressado. e disse que não fazia isso com ninguém. Algum dia Avellaneda me esquecerá assim? Eis o mistério: antes de começar a esquecer. de papelão duríssimo. 31 de maio O dia 31 de maio era o aniversário de Isabel. 2 de junho O tempo se vai. jogamos bilhar todas as noites.” Eu me lembrava de Aníbal. Quantos anos me restam de “ainda”? Penso nisso e me dá pressa. ela tem de lembrar. amizade. porque tenho medo de me equivocar. saúde. Bom. Vai me cobrar 50 por cento do prêmio-aposentadoria. E isso signi ca afrouxamento total. meu senhor. Agora. como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. o amigo de Esteban. só porque me era doloroso. antes de que ele se arrependesse. Vida. disse ela. estamos assimilando-a a . Às vezes. quando dizemos. complicações). comprei para ela uma boneca. era grande. Afastaram-se paulatinamente do culto de sua mãe. de começar a lembrar. Acho que Blanca é a única que na realidade tem saudade dela. Como está longe! Uma vez. eu não falava muito de Isabel. por exemplo. quando pensamos nessa palavra. Domingo. não me falaram nada. que movia os olhos e andava. Era uma boneca alemã. a única que a menciona com naturalidade. tampouco falo muito dela.

mas o fato é que. para uma mulher jovem. Para ele essa ruptura signi ca. mas também há outro senhor que pensa obsessivamente na pressa. a trágica pressa destes 50 anos que me pisam os calcanhares. No meio do lme. “Ainda” significa: está acabando. queiramos ou não. quando Alida Valli sofre tanto com o imbecil do Farley Granger. depois. tinha 30 e era jovem. me ameaça a cada dia com me tornar mais achacadiço. E esse é o lado absurdo da nossa combinação: dissemos que iríamos encarar tudo com calma. Mas o tempo corre. mas quantos me restam de prazer? Eu tinha 20 anos e era jovem. menos valente. de expectativa ante a sorte. que depois reavaliaríamos a situação. Creio que foi um movimento re exo. Há dentro de mim um senhor que não quer forçar os acontecimentos. porém. mas de uma versão realmente oficial e autorizada. cujo único valor é ser uma recordação do que se foi. mais mulher. Compreendo que. A Valverde brigou com Suárez. . Ela havia estado muito cordial. chegou com uma equimose na testa e cara de velório. Terça. de saúde passável. numa palavra. senti de repente que sua mão se apoiava no meu braço. de afãs rotineiros. uns quantos anos de amizade. Ainda me restam. Mas não é uma sorte invejável. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. O escritório inteiro está convulsionado. 7 de junho Até agora tínhamos ido duas vezes ao cinema. mais gasto. em contraposição. que ele pensa com a cabeça bem rme sobre os ombros. Isso quer dizer que não se trata de um simples boato. mas como é breve! Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o vigor. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. em nosso caso. mais seguramente importante: estamos assimilando-a ao Prazer. Eu estou agora nesse pouco tempo. Daí a pressa. mais madura. À tarde. A experiência e o vigor coexistem por muito pouco tempo. mais atraente. A cara de Martínez era um hino. eu a acompanhei até sua casa. mas depois ela ia embora sozinha. tinha 40 e era jovem. Suárez não veio de manhã. muito companheira. ela não a retirou. Todos os seus Mais correspondem aos meus Menos. a gente passa a ser uma decorosa peça de museu. O gerente o chamou e lhe deu quatro gritos. pode ser um atrativo saber que aquele sujeito viveu. Agora tenho 50 anos e sou “ainda jovem”. mais fresca. Sexta. depois. o tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível. quando o vigor se vai. o futuro é um inevitável desencontro. É possível que isso seja um atrativo. Temos de nos apressar em direção ao encontro. a subgerência. que há muito ele substituiu a inocência pela experiência. e a mim. porque. assim espero.outra palavra mais concreta. que deixaríamos o tempo correr. menos vital. 4 de junho Sensacional. Hoje.

Naturalmente. Domínguez. quando era criança. 9 de junho Talvez eu seja um maníaco da eqüidistância. mas eu lhe asseguro que há um São Sebastião que parece Gardel. não se queixava. Ela ia caminhando afastada de mim. Ela deve ter visto esses preparativos em algum lme argentino. A porta estava fechada. Mas não estou certo de estar me comportando bem. É possível que essa seja a raiz da minha frustração. “Sim. ou seja: desconfiado. nunca me sinto atraído pelas soluções extremas. do sabor. Agora estou cansado. alguém separou lentamente a própria sombra da sombra de uma árvore. como se entreabrem. Não sei como. Então seus dois braços emergiram no escuro e se apoiaram nos meus ombros. as atitudes extremas provocam entusiasmo. tenho certeza. me presenteava com um apagão. Alerta ante mim mesmo. Imaginei que a maçaneta de bronze devia estar roçando sua coluna vertebral. ante esse único futuro tangível que se chama amanhã. Ela. mas era a clara obscuridade da noite. Sua casa ca no 368 de uma rua com nome e sobrenome. Senhor. como fogem.” “Não seja convencido”. senti que a maçaneta de bronze estava afundando na minha coluna vertebral. mais ou menos um metro. Que avanço. arrastam os outros. mas depois desta jornada há uma coisa que cou estabelecida. Também poderia dizer: feliz. Mas o beijo que se seguiu. Uma coisa é evidente: se. Gutiérrez ou Eduardo Z. e ela o esperava: “Quando eu era criança. as atitudes equilibradas . é um alívio voltar a beijar na boca. me ensinaram que a gente ganha um prêmio. porém. Tem saguão e sacadas. Mas. Gosto dos seus lábios.” Não abriu logo. quero dizer. ouvi-a dizer. por outro. Fiquei bem uma meia hora na porta do 368. ela estava me dando o braço. são indícios de vigor. Eu não lhe via o rosto porque a folhagem de um maldito pinheiro municipal interceptava a luz da lua. Amanhã pensarei. não sei que movimento estranho zemos. um bêbado inofensivo e indefeso que murmurava: “Vivam os pobres de espírito e o Partido Nacional!” Senti que ela sufocava um risinho e afrouxava a tensão dos dedos. Nem ela nem eu o dissemos. mas ela me contou que também há um portão com algo que pretende ser um vitral. Então disse: “O senhor é muito bom. ante a sorte. comporta-se muito bem. Será que não o mereço?” Houve um instante de silêncio. Quero dizer. não me lembro. E daí? A nal. e com con ança. Estava escuro. A UTE. merece”. disse ela. O metro de distância se esfumou e.Desembarcamos na 8 de Octubre e caminhamos as três quadras. com mesa de truco iluminada a vela). que me conheço. Alerta. quando se comporta bem. menti como um santo: “Claro que sou muito bom. Mas estou por demais alerta para me sentir totalmente feliz. quando nos aproximamos de uma esquina (uma esquina com botequim. de repente. Domingo. e com carinho. que quando a gente se comporta bem não deve a rmar isso?” Era o momento. não é a primeira vez que ela beija. só isso. “não lhe ensinaram.” E eu. O dono da sombra era um bêbado. algo como Ramón P. do modo como se colam. “Dizem que o dono quis imitar os vitrais de Notre-Dame. por um lado. antes que eu me desse conta.2 a velha e matreira UTE. Em cada problema que se apresenta. mas o certo é que. Recostou-se maciamente contra a porta. não o viu em nenhum lme.

às vezes desagradáveis. . começo a espirrar e não paro mais. Desgraçadamente. Terça. eu que à margem de um presente como este. mas não se pode evitar que aos outros isso pareça uma demonstração de covardia. aqueles narizes a lados e livres que a gente vê. em vez de nariz. Se tivessem espirrado em seqüências de vinte ou trinta explosões consecutivas. eu gostava do inverno! Agora. Quando me vejo por volta do 35º espirro. Tudo isso. não quero que nosso vínculo arraste consigo a absurda situação de um namoro voltado para o casamento. Que peste. Não há outra. e tampouco que adquira o matiz de um programa vulgar e grosseiro (segunda eqüidistância). 10 de junho Frio e vento. Admiro o nariz dos santos. Bom. ainda por cima. mas me lancei à busca de um apartamento. não consigo evitar sentir-me em inferioridade de condições em relação ao resto do gênero humano. Sem abandonar minha casa. A eqüidistância que eu agora busco tem a ver (o que não tem a ver com ela. O equilíbrio é tedioso. 11 de junho Não contei a ela. E o tédio. com aquela madureza dos tomates dez segundos antes de começarem a apodrecer.são em geral incômodas. não quero (quarta e última eqüidistância) que quemos circulando de motel em motel. em minha vida atual?) com Avellaneda. claro. Admiro o nariz dos santos. porque estes (é evidente) jamais cavam resfriados. por temor a esse futuro. hoje em dia. tenho um tomate maduro. sim. Soluções? Primeira: alugar um apartamentinho. por exemplo. E pensar que. Às vezes. nos santos de El Greco. e tampou​co que fundemos um Lar com maiúscula. é uma grande desvantagem que em geral as pessoas não perdoam. tão atraente e insubstituível (terceira eqüidistância). não quero que o futuro me condene a ser um velho desprezado por uma mulher na plenitude dos seus sentidos. metido na cabeça. E quem blasfema — mesmo no mais simpli cado dos seus maus pensamentos — está fechando para si mesmo o caminho da Glória. Em geral. e quase nunca parecem heróicas. tenho a sensação de que. quando tinha 15 anos. primeira e acabou-se. jamais eram arrasados por estes espirros em cadeia. ideal. eles não poderiam evitar entregar-se devotamente às blasfêmias orais e intelectuais. Tenho um. Não quero prejudicála nem quero me prejudicar (primeira eqüidistância). Jamais. eles sempre saem ​caros. Segunda. a propósito de quê? Ah. para os ideais não há liquidações. e tampouco que. precisa-se de bastante coragem (um tipo muito especial de coragem) para manterse em equilíbrio.

Esta noite vou sair com ela. Tenho a impressão. como seria de esperar. trabalha e o faz bem. tivessem de desinfetar-se.465. Não gosto de vê-lo metido numa situação que aparentemente contraria suas velhas convicções. Sei que Esteban tem outro arranjo. Eles entram resmungando. saem praguejando e voltam de madrugada. talvez o desprezem. Seja como for. Mas seu problema é outro. porque Jaime é hábil. tem caráter. Além disso. são lhinhos de papai. sim. depois de dizê-lo.” Jaime. no fundo. invoquei nosso plano de absoluta liberdade. de ser alguma coisa. Não gosto de que ele vire um cínico. de deixar correr o tempo e reavaliar. Conseguiram para ele.Sexta. desta vez sem apagão. terei de apertar o orçamento. Não pretendo lhe dizer nada. Têm algo de janotas. O pior é que não sei em que consiste. dizem batente como se. no entanto. Ele está sempre nervoso. vêm de Pocitos e. escuto-os protestar: “Rapaz. vai explodir. Grátis. Domingo. Estávamos percorrendo as três quadras da 8 de Octubre até a casa dela. Fica a cinco quadras da Dieciocho com Andes. ao contrário. Nunca se pode contar com você. gostam dele. Tenho certeza de . Às vezes. cheio de asco e piedade. Blanca. no clube. insatisfeito. Algum dia.” Dizem batente como quem faz uma proeza. Tomara que seja logo. Bastante parecido com o ideal e incrivelmente barato. de nos conhecermos e ver o que acontece. Sábado. manualmente hábil. 14 de junho Deve fazer mais ou menos um mês que não mantenho com Jaime ou com Esteban uma conversa que ultrapasse cinco minutos. Nenhum deles trabalha. tem a vantagem de que posso mobiliá-lo com alguns centavos. que droga esse seu batente. Aparentemente. tagarela. e mandará tudo para o inferno. trancam-se em seus quartos. Modo de dizer. Diego eu vejo pouco. Creio que gaguejei. de que começa a se arrepender de ter-se deixado apanhar por completo. mas espero que dê. já percebo. Não me enganei: é um bom sujeito. e sempre está fazendo algo que eles lhe pediram. está amável. um desses falsos cínicos que. reconheço sua presença na face de Blanca. no emprego. Aproveitam-se dele. toca-o com a ponta do sapato. comem em silêncio enquanto lêem o jornal. mas às vezes não sei bem se é caráter ou se é capricho. feliz. Não terei outro remédio a não ser esgotar o saldo de $ 2. 15 de junho Encontrei um apartamento.79 que tenho no Hipotecario. quando chega a hora da reprimenda. 16 de junho Mas disse. Não gosto dos seus amigos. como um salvacionista que se aproxima de um mendigo bêbado e. têm uma desculpa: “É o único modo de progredir.

sobretudo. disse eu. se retoma o equilíbrio. Puxei meu lenço e enxuguei-lhe os olhos. Para falar a verdade. Trato-a por você desde a sexta-feira 7. respondeu. e esse preço era a situação incômoda. porque ninguém pode ajudar e porque se tem consciência de que isso passa e. Ambos pensamos na palavra casamento. porque era muito mais cedo do que no outro dia. . “posso remediar isto de algum modo?” Perguntas inúteis. então é preciso chorar sem ruído. Saquei mais uma. Mas. com público.que gaguejei.” “ Você”. Mas não. com a nuca apoiada na porta. Era triste. Deixou-me arcar com todo o peso da proposta. por m. o momento desagradável. “Não”. que amanhã o céu estaria despojado. de modo que me limitei ao indispensável: “Aluguei um apartamento. a pessoa se sente opaca. De repente.” Estávamos no saguão. com uma cara de estar dizendo adeus a várias coisas. Sei lá. olhando para cima.” Foi uma pena que não houvesse apagão. Portanto. endurecido. Havia luzes aqui e ali. ao passo que ela continua com “o senhor”. “Já passou tudo?”. e. que o apartamento. E se ela tivesse dito que não? Por essa falta de negativa eu estava pagando um preço. ninguém me engana. a normalidade. “Quero propor uma coisa a você”. Só essa outra coisa que se chama silêncio. de vê-la calada diante de mim. passou tudo. pelo método das situações criadas. vale a pena chorar com acompanhamento de tremores. E não era o famoso pranto de felicidade. Entre nós estacionou por um momento uma palavra como uma nuvem. sim. que seu antigo namorado. sem aviso prévio. acho que me interrogam e. Era aquele pranto que sobrevém quando a gente se sente opacamente desgraçada. quase penoso. “Estou chorando porque é tudo uma lástima. algum tempo depois. Não havia lugar para o mistério. que meus três lhos.” Era mentira. “Posso ajudá-la?”. aos 50 anos. como uma nuvem que começou a se mover. que eu tenha 50 anos. quando não resta lugar para a rebeldia. o sacrifício ou o heroísmo. Assim era o pranto dela. A porta estava aberta.” E é verdade. percebo que na realidade estavam me respondendo. já não se pode aspirar a êxitos completos. disse ela. o que signi caria um grande alívio para mim. ambos compreendemos que a nuvem se afastava. “convém me tratar desse jeito. também mudou o tratamento. “Está bem”. Tudo é uma lástima: que não houvesse apagão. eu tinha um nó na garganta. Seu rosto estava tenso. Com a cabeça. Pensei que ia responder: “Já sei”. Nunca fui especialista em prolegômenos. “Sim. um pouco dobrada em seu casaquinho escuro. Quando alguém se sente brilhantemente desgraçado. como se ela tivesse renunciado a uma máscara insuportável. e assim como estava. porque nesse caso eu não teria visto seu olhar. Mas quando. Com o olhar ainda convalescente. tenho certeza. além de desgraçada. mas ambos compreendíamos que ela fazia bem ao mentir. Para nós. Eu também não tomei a iniciativa. Desta vez não adivinhou ou não quis adivinhar. então. começou a chorar. Não me beijou. perguntei. respondi que sim. Comecei a compreender que minha proposta não era um êxito completo. Às vezes. pareceu que todas as cordas se afrouxavam. convulsões. tentando sorrir. “Sem me consultar?”. lá do fundo das minhas dúvidas: “O que houve? Você quer que nos casemos?” Mas a nuvem estava longe. Nunca estive muito seguro sobre o que as mulheres querem dizer quando me olham. Nesse particular. perguntou ela.. Faz um mês que ela apareceu na Veinticinco com Misiones para cobrar seu café. talvez. acrescentou: “Você não deve acreditar que eu sou sempre tão tonta assim. perguntei ainda assim.. que ela seja boa moça. disse ela.

22 de junho . o gerente tinha ordens para defenestrar esse amante em desgraça. Chegava na hora.79. Suárez nem sequer soube dessas remessas. recebeu sua indenização. Pode parecer insólito. mas o clima desta empresa comercial depende. 20 de junho Faz quatro dias que não escrevo nada. dava pena vê-lo. a aceitação da ança. Sexta. seguramente efetuadas por um daqueles rapazes novatos e paspalhões que têm a seu encargo a tarefa de empacotar. que os pacotes foram remetidos com destino errôneo por ordem expressa e con dencial da Gerência. Entre as providências para alugar o apartamento. 21 de junho Demitiram Suárez. até houve dias em que trabalhou alguma horinha extra. mas não pude evitar sentir um pouco de nojo ante essa mudança total e repentina (da qual participaram desde o presidente da Diretoria até o último dos auxiliares). Foi ao Caixa. por outro lado. o saque dos $ 2. ou para lhe dar algum conselho. Num passado não muito distante. O pessoal fomentou alegremente o boato de que a Valverde havia pressionado para que o liquidassem. A Expedição mandou duas encomendas equivocadas. voltou à escrivaninha e começou a esvaziar as gavetas. No sábado à tarde. Quando comunicaram a notícia a Suárez. sem que ninguém se aproximasse para lhe perguntar o que estava acontecendo. Algum malvado sustenta. me levam as coisas. havia passado a ser um indesejável. andei tremendamente agitado. ou para lhe oferecer ajuda. Quanto a mim. em silêncio. Se não tivesse ocorrido essa falha na Expedição. em grande parte. Sábado. Em apenas meia hora. Evidentemente. O surpreendente é que a causa da demissão não podia ser mais tola. Amanhã me entregam o apartamento.Quinta. baseada pura e exclusivamente na suspensão das relações entre Suárez e a lha de Valverde. estava amável. a compra de alguns móveis. de consolo. Suárez fez várias besteiras e ninguém lhe disse nada. disciplinado. É incrível. mas juro que hoje me deu vontade de me aproximar e dizer-lhe alguma palavra de simpatia. humilde. No entanto. Não o z porque o sujeito é uma imundície e não o merecia. tenho certeza de que o demitiriam do mesmo jeito. de um orgasmo privado. mas demitiram. que farejava o que estava para vir. por fumar demais ou por não ter engraxado os sapatos. faz anos que não falo com ele (desde o dia em que me dei conta de que ele extraía dados confidenciais da Contabilidade para transmiti-los a um dos diretores e envenená-lo contra os outros). de nada lhe valeu. andou comportando-se como um menino exemplar.465. mas Suárez. Não me surpreenderia nem um pouco. de três ou quatro dias para cá.

Começou a perguntar sobre qualidades. Nem olhou para o quarto. nós estamos com o Abstrato. senhor. a ele e aos seus amigos. e a família de Isabel deu a sala de jantar. Um e outra brigavam furiosamente entre si. Foi-me concedida com sorrisos e até com o comentário estimulante e risonho de que não sabia como poderiam se arranjar sem o homem-chave do escritório. um delicado que não pisa num restaurante depois de ver ali alguém que use palitos. ​fusíveis. Ela entrou com passinhos curtos. vinha minha sogra e decretava: “Vocês precisam de um quadrozinho na sala de estar. três ou quatro vezes. uma porta e testículos. com aquelas pernas ridiculamente instáveis. justamente esse. baratas. Não me agradam esses espaldares que sempre parecem feitos sob medida para outro usuário. porque “as horas da noite são as mais autênticas”. . mas não importava. porque na verdade a admiração deles tem cara de hipócrita! Um dia. equivocandose. algo que me tirava o apetite por um semestre. certo tio nos mandava gaivotas para pendurar na parede do dormitório ou duas maiólicas com uns pajenzinhos maricas que eram quase repugnantes. me retrucou: “Mas. as gaivotas e os pajenzinhos. Pareceu-me que suas pernas tremiam. Recebi os móveis no apartamento e trabalhei como um escravo. sobre preços. como se quisesse ir absorvendo lentamente a luz. queijo duro. esse. disse. Domingo. garrafas de cerveja. sobre lojas de móveis. Passou a mão pela mesa extensível e depois pelo estofamento do sofá. por exemplo: teias de aranha. pão caseiro.Não fui ao escritório. recortes de jornais. o clima. Não me agradam esses abajures que sempre iluminam o que a gente não tem interesse em ver ou em mostrar. Às vezes os vejo. “Gostei”. de Renoir? Por acaso são ruins?” Então Danielito Gómez Ferrando. Jaime foi enchendo a casa com umas frescuras mal-acabadas que exigem uma explicação periódica. olhando tudo com extrema atenção. Nada raivosamente moderno. disse. Depois que Isabel morreu. minhas distrações e o serviço doméstico foram acabando com as naturezas-mortas. Será que querem me empurrar a lha de Valverde? Bah. um melão. Ficou bom. aparecia uma natureza-morta. mas haverá tempo para esclarecer. extasiados ante uma jarra que tem asas. Não me agradam essas cadeiras funcionais. Creio que é a primeira vez em que decoro um ambiente ao meu gosto. Na manhã seguinte. perguntei: “E por que não trazem alguma vez uma estampa com algo de Gauguin.” Dispensável dizer duas vezes. pedi ao gerente a correspondente autorização para faltar esta manhã.” Ele. Aproveitando o caos jubiloso de ontem. o cheiro. Depois. Outras vezes. Era Filippo Lippi. quis sorrir e não conseguiu. Quando me casei. e os ouço comentar: “Que reprodução bárbara!” Não entendo nem quero entender. com salsichões. não é nada abstrato com sua carinha sem sobrancelhas e sua eterna expressão de gatinha prenhe. minha família nos presenteou com o dormitório. que desmoronam só de a gente olhar para elas com rancor. Olhou as reproduções da parede: “Botticelli”. e à medida que o tempo. geralmente por ocasião de algum aniversário. 23 de junho Abri a porta e me afastei um pouco para deixá-la passar. um pentelho que se deita todos os dias às cinco da manhã. em contraposição. de Monet. Sentou-se. en m.

que não tenho serenidade. Toda segunda-feira. Já não lhe restava nada de pintura. você está assustada só pelo Momento. tirou o casaquinho do tailleur e esticou nervosamente as pernas.” “E sua mãe?” “Minha mãe sabe do nosso assunto.” “Pode ser.Eram sete da noite. a verdadeira felicidade. sim.” “Desde quando?” “Desde que freqüentava o Liceu e estava apaixonada pelo professor de matemática.” Terminou com o champanhe que restava na taça e limpou os lábios com o guardanapo de papel. A teoria dela. No mais. Mas. Nunca lhe encomende um terno. “O que acontece é que preciso me acostumar à idéia”. cam histéricas e chamam a mamãe aos gritos. Horrível. Eu a pedi. “Até que hora você pode car?”. “Está assustada?” “Tenho cara de estar?”. fazendo um esforço. de festival perpétuo. E anarquista. é outra coisa). só que. a grande teoria da sua vida. “Francamente. evidentemente. é um homem afável.” “Em relação ao nosso assunto ou em relação a tudo?” “A tudo. pací co. “A gente sempre imagina essas coisas de um modo um pouco diferente do que depois vem a ser. seus amigos anarquistas vão à nossa casa e discutem aos berros sobre Bakunin e sobre Kropotkin. Ele faz todos na medida do mesmo manequim. Sua atitude não era a mesma daquelas caixeiras que aceitam ir para o motel mas que. por quê?”. às quintas. com aqueles pratos lisos. (Não é totalmente verdadeiro. de todo modo. eu também gostei deles.” “E seu pai?” “Meu pai vive fora do mundo. e o fato é que. Só de mim. Não. o que diz de mim?” Meu trauma psíquico provém da mãe de Isabel. Não. perguntei. Quando chegou o momento de abrir o champanhe. Uma coisa era certa. a que a mantém em forma. porque acreditam estar . Não estava fazendo gênero. quando o sujeito passeia de cuecas pela Sarandí. no exato momento em que o táxi pára. as pessoas acabam se sentindo desgraçadas só por terem acreditado que a felicidade era uma permanente sensação de inde nível bem-estar. Nem havia largado a carteira. “Minha mãe sabe tudo sobre mim. Ela aprovava tudo. disse. perguntei.” “Já sei. muitos desses supostos desgraçados são felizes. Isto que você preparou não diverge muito de tudo o que eu tinha pensado. a felicidade é bastante menos (ou talvez bastante mais. que a empregada do bazar tinha escolhido para mim. mas não se dão conta. em geral. é que a felicidade. cumpri com toda a dignidade o papel de an trião. “Esqueceu que não é visita. mas hoje gostei especialmente. “O que foi?”. Mas devo reconhecer e lhe agradecer uma coisa. “E isso. “De você? Nada. Mas não é por você nem por mim. Assim não vale. “E sua mãe. “Diz que eu sou uma exagerada. é um estado muito menos angelical e até bem menos agradável do que tudo o que a gente sempre tende a sonhar. Aquilo me pareceu um bom presságio para a inauguração de nossa iminente intimidade. é teósofo. talvez para me consolar. em Avellaneda nada é teatro. Ela estava confusa e eu não queria — talvez não me conviesse — indagar demais sobre as causas dessa confusão. amarelos. respondeu. que às vezes me encara com uma doce paciência e me diz coisas muito úteis. não o admitem. mas a tensão não lhe permitia desfrutar de nada.) Servi o ambre.” A mesa estava posta.” Golpe baixo.” Gosto muito de que ela fale dos seus. e as pessoas se divertem de uma calçada a outra. Nunca pergunta nada. Ela diz que. das mais úteis que já escutei na vida.” Pareceu-me que ela se tranqüilizava. com aquela desesperada nudez dos sonhos. o sol poente transformava em alaranjado o papel creme das paredes. na verdade. de êxtase gozoso. ela soltou um pouco o cabelo. perguntando. além disso. já não estava pálida. diz ela. Havia percebido que eu estava um pouco desalentado. reúne-se com seus amigos teósofos e analisa Elena Blavatsky até a madrugada. atrevi-me a perguntar. Sentei-me ao seu lado e ela cou rígida. É alfaiate. “Até tarde. mas a dona da casa?” Então. Eu me senti como se estivesse nu.

e. Na realidade.” Evidentemente. hoje z uma tentativa: “Bom. Quando me viu entrar. “Segundo seu amigo. têm o privilégio de ser e cazes e trabalhadores. não seja tolo. até por uma urgência que ela não havia querido formular. o assunto não será demorado. Não sabe. Deve ser porque a febre o debilitou. que atualizei minha cha. Acho que segue bem. compreensivo.muito longe do bem-estar máximo. Nunca sei do que falar com Esteban.” O tema Minha Aposentadoria é um dos mais freqüentados por mim e Esteban. sem nada mais? Hoje. mas também como uma convicção que ela desejaria fervorosamente possuir.” Senti-me duplamente enraivecido. mas em seguida ruborizou-se. A resposta foi a previsível. Pleurite ou algo pulmonar. “como se visse suas mãos levemente azuis e luminosas?” A interrupção trouxe-a de volta à terra. não pode ser muito complicada.” Fingi não perceber. a frase podia ser entendida como um convite. claro. constatam que todo o milagre consiste em meter as mãos na água e ver que elas caram levemente azuis e luminosas. acabou-se minha vida privada. perguntei. ele não disse nada ofensivo. No entanto. Faz tempo que regularizei todo o meu itinerário. na realidade. Acho que as diz como uma convicção que lhe é inalcançável.” Mas como faltava. que paguei as contribuições atrasadas. assim. Quando os médicos saberão? Após o almoço. Sempre ando de mau humor.” Inesperadamente. funcionários públicos. Respondeu: “Ainda não as introduzi na água”. você tem de fato muito o que fazer na repartição?” Pergunta idiota. Eu não quis dizer isso. só que era uma gruta de fadas. Claro que faltava. A culpa não foi minha. “Claro que deixo.” Eu me senti decepcionado. “E você. com o rádio ligado. Sei lá. somos todos uns desocupados? É isso o que você quer dizer? Claro. à toa. “Você me deixa ir embora.” “Deve ser.” “É verdade. Porque. “Escute aqui. chegou a desculpar-se: “Pode ser que você tenha razão. Esperemos que não. ao chegarem lá. Deve ser porque tanto você quanto eu andamos sempre muito ocupados. só por hoje. Ela se levantou. num tonzinho que pretendia ser simpático mas que. conte um pouco como vão suas coisas. Segunda. Desligou o rádio. Você está suscetível como uma solteirona. porque a culpa era minha. fechou o livro. Encontrei-o lendo. respondi. 24 de junho Esteban está doente. É algo semelhante ao que acontece com os desiludidos da Gruta Azul. Ele me perguntou como ia minha aposentadoria. Era só o que faltava. ao momento especial que era este Hoje. nem sequer pensei. fatalmente acabamos discutindo. Como se dissesse: “Bom. entrei no quarto para ver como ele estava. Prometo que amanhã tudo irá bem. não sabiam muito bem como era. Ou então tem um enorme telhado de vidro. só vocês. Há uma espécie de acordo tácito em mantê-lo sempre em dia. Mais ainda. Seja qual for o tema que abordemos. Eu não sabia do que falar. imbecil. era obviamente inibido: “Posso lhe pedir um primeiro favor?” “Pode”. mas eu não a tinha previsto: “O que você quer dizer? Que nós. encostou-se à parede e me perguntou. os ilustres empregados do comércio. Como se me sentisse incomodado . já temeroso. depois de dobrar o canto superior da página onde estava. mas nisso esteve minha repentina desvantagem. como se sente?”. Quase nunca conversamos. Mas en m. A que eles imaginaram é uma gruta de fadas. Avellaneda gosta de relatar as re exões da mãe. Diz o médico que pode ser algo sério.

” Então. agora. E ele me dedicou um sorriso. Há muito tempo tenho a impressão de que o passo de Esteban não acompanha o de sua consciência.comigo mesmo. de adiar o início da minha “luade-mel”. mas não me sentia com direito a interromper Esteban. 27 de junho Creio que hoje deve ter sido o último dia de sufoco. de suas limitações.” “E a que se deve este rompante?” “Não me pergunte demais. Será possível? Por outro lado. Tive de car no escritório até tarde e. sim. “O principal. ele se lançou a um longo retrato de si mesmo. Deus meu. sem fronteiras. creio que está muito perto da verdade. agora. se você precisar de uma licença por enfermidade. era quase um exagero. Mas. um estranho cheio de simpatia. certo? E faltou bem uns seis meses. Minha única preocupação é que. Eu estava impaciente. e tive de me desculpar com o gerente. foi demitido quando teve tifo? Não foi. Disse o médico que isto pode durar alguns meses. Eu não podia decepcioná-lo. Quinta. eu o contrariava pelo puro prazer de ouvi-lo a rmar-se. Quarta. foi minha vez de falar. Não consegue entender que eu queira mudar?” “Consigo. como autocrítica. Que bom. E é meu filho. E creio que não o assustei. de suas esperanças. em conseqüência. Estou literalmente ​arrebentado. Dei alguns conselhos. Quando saí. “O que você diria. dei-lhe uma palmada no joelho que avultava sob a manta. Nunca vi um pedido de informes tão complicado e tão inútil. Terça. é que você que bom. Não queria assustá-lo. se car. Depois.” Como con dência. 25 de junho Uma barbaridade de trabalho. E co muito contente.” Na realidade. E o balanço já vem aí. mas muito amplos.” “E você. não. Depois a gente vê. Quando eu car bom. se eu deixasse o emprego público?” “Agora?” “Bem. Era a primeira vez em que ele se con denciava comigo. Tão longo que cheguei ao escritório às 15h15. Fica para amanhã. parecia a cara de um estranho. 26 de junho Tive de trabalhar até dez da noite. Esteban passou sem febre. é mais fácil consegui-la no seu trabalho atual. e partindo de Esteban. Ainda bem. .

não pude descobrir. compensar minha falta de juventude com meu excesso de consciência. vou bater na madeira com os nós dos dedos. franciscano. faz uma pausa e passa a ditar regras sobre o caldinho que o convalescente tomará amanhã. e. 28 de junho Finalmente. Quando cheguei. para resgatar a dignidade humana do fundo deste poço sórdido. daquele austero mártir da ciência. até com gratidão. Domingo. Quando a gente pergunta ao doutor. humildemente. Rimos. saí do escritório e fui para o apartamento. 30 de junho Um dia inteiro para nós. tão natural. e você ca meio estupefato ante a cifra. Tudo correu tão bem que não vale a pena escrevê-lo. vem a conta inchada. Ela havia chegado antes. sentindo claramente o vexame de tocar num tema tão vulgar e grosseiro diante de quem sacri ca sua vida e seu tempo pela saúde do próximo: “Quanto é. que não pude tomar nem uma só anotação mental. Depois. Depois. quase com vergonha.Sexta. paternal. Quando se está no próprio foco da vida. recebeu-me alegremente. ele sempre diz. para pressionar Deus. E entre os detalhes que quero verificar está o tom de sua voz.” Em seguida. Comemos. Sábado. Conversamos. Fizemos amor. A radiogra a e as análises desmentiram o médico e seu mau agouro. E eu quero re etir. do desjejum em diante. quando nalmente chega a hora de falar disso. se a realidade não for assim tão tremenda. sem inibições. desde a extrema sinceridade até a ingênua dissimulação. de perigos inde nidos e implacáveis. que comigo o senhor nunca terá problemas. Vim ansioso por veri car. outra vez com um beijo. que eu praticamente não vi. e comumente o alívio familiar é o melhor clima possível para pagar sem aborrecimento. E não se apresse. reconhecer meus próprios sinais. Estou rezando: “Tomara que dure”. foi tão feliz. sobrevém uma grande sensação de alívio. amigo. por comprovar tudo. mais tarde falaremos disso. de anunciar pelo menos a proximidade de graves complicações. pelo correio. 29 de junho Parece que isso de Esteban não é muito sério. está seu corpo. uma conta abusivamente alta. acompanhando suas palavras com um generoso e compreensivo gesto de desagrado: “Por favor. Esse sujeito gosta de aterrorizar. os matizes de sua voz. abrira-o com sua chave e se instalara. que seus nervos . medir o mais aproximadamente possível esta coisa estranha que me está acontecendo. talvez porque nesse momento não está presente o sorriso afável. Tudo passou tão rápido. O que aconteceu na sexta-feira foi uma coisa única. porque preferi pagar deliberadamente esse preço em troca de sentir que a tensão se afrouxava. doutor?”. é impossível re etir. sozinha. mas torrencial. Às sete e meia.

o problema mais árduo. parecia referir-se a um exame. só para provocá-la. se não foi um homem quem o inventou. Quando o dizem. com suas lágrimas prontas. porque. Inventaram e depois des guraram. e outras mais que. pensam na mulher como uma gozadora vocacional. Para vocês. é algo que não entra na cabeça masculina. é muito diferente. Para vocês. incompleta. mais quentes. de onde você tirou que os homens pensam desse modo.” Agora. Mas agora me diga. a melhor felicidade. de cama individual. “Achei engraçado ouvir você defender as solteironas”. para a solteirona. expliquei. Ela tem lá sua própria teoria da felicidade. Você deve ter herdado isso de sua mãe. eu . Olhavame com uma ironia tão segura. limpa de pecado. que não são isso. mais normais. “E nada disso é certo?”. à prova de toda fresta iluminada. a um parto. de seu rito sexual. muito mais simples. de medo.” Estava entusiasmada e até parecia aborrecida comigo. mereceria tê-lo inventado. “Até lhe diria que me sinto sem culpa. mais próprios da entrega. mas nesse momento eu ri. preferi que o escuro fosse realmente impenetrável. que aparentemente poderiam ser encarados como parentes a ns. o caso de uma solteirona e o de um solteirão. fazer amor é uma espécie de trâmite normal. o solteirão se volta para o exterior. Sei que há mulheres que são isso e nada mais. com todo o seu equipamento de seduções para agarrar o homem e transformá-lo no provedor de sua vida sexual. Talvez seja certo que o ego feminino é sinônimo de sexo. que sei eu. com seus enfeites. de sua exigência sexual. a solidão é uma paulada na nuca. porque ela cava muito bonita em sua atitude agressiva. que talvez pudesse ser denominada ‘Sobre as vinculações entre o sexo e a consciência na mulher média’. vê-la tão preocupada com formular sua teoria me agrada e me assombra. às vezes é certo. Compare. embora o sejam. Não sou uma erudita. Mas há outras. “Algo disso é certo. de quem se sabia encurralada: “Sei lá. mas é preciso compreender que a mulher identi ca o sexo com a consciência. de obrigação quase higiênica.” Devo ter feito um gesto de impaciência. ela esclareceu: “Eu sei que isso você não pode entender. como dois frustrados paralelos. mas para o solteirão isso é só um problema de assistência doméstica. Mas. transformaram-no em uma caricatura do que isso verdadeiramente signi ca. “Além disso. torna-se esfuziante. em seguida. se transformassem paulatinamente em outros estremecimentos. O sexo é tudo na mulher.” Foi muito inoportuno da minha parte. É invejável como podem separar esse detalhe que se chama sexo de todas as outras coisas essenciais. ou seja: a vida inteira da mulher. corrente e cotidiana do que a de deitarem-se juntos um homem e uma mulher. Os dois padecem de solidão. perguntei. raras vezes um assunto de consciência. sim. Quais são as reações de uma e de outro?” Ela tomou fôlego e continuou. são também outra coisa. que foram os homens a inventar esse saudável despropósito de que o sexo é tudo na mulher?” Ela fez uma cara de quem sentia vergonha. histérica. Hoje ela me disse: “Estou feliz por tudo ter acontecido”. para sentir que seus estremecimentos de vergonha. a maioria. de todas as outras zonas da vida. “Enquanto a solteirona se torna mal-humorada. com sua arte de enganar. corrente. a qualquer coisa de maior risco e responsabilidade do que à simples. pela luz dos olhos. com seu verniz de cultura. extremamente sensível. um ser humano complicado. egocêntrico. cotidiana operação de deitarem-se juntos um homem e sua mulher. cada vez menos feminina.cediam lugar aos sentidos. e pelo impulso das palavras. velho saliente. você também tem a sua. a um ataque. Vocês mesmos inventaram isso de que o sexo é tudo na mulher. se quiser. ruidoso. impenitente. Alguém me disse. Aí podem estar a maior culpa. que parecia a depositária de toda a dignidade feminina deste mundo. maníaca. Ela se freou em seu discurso e me olhou com curiosidade.

com Méndez. mas tenho certeza de que registrei minhas vacilações. justi cação. cada um é um desconhecido para os outros. porém. Em resumo. mas nunca das vitais. Bom. olhou-se no espelho. mas zombando de si mesma. seus arroubos feministas não me importam muito. Em suma. que afrouxasse a tensão.” Mas. tomamos um trago. perdendo tempo com semelhante discurso. mas só por miragem a convivência pode chegar a parecer-se com a amizade. fazem piadas e se divertem com elas. Os casos de consciência têm também seu lado terno. tratamo-nos com simpatia. então que o diga e eu escuto. Não sei em que dia o escrevi. do vínculo imposto pelas circunstâncias. con ar em alguém. Além disso. ele me telefonou e me deixou contente. outras novas carícias a satisfazer. O resto traz a desvantagem da relação não escolhida. quer que eu tome conhecimento. tudo aquilo havia sido para me explicar por que ela deixara de se sentir culpada. deixou de lado toda a sua militância. co todo arrepiado. Com quem eu poderia comentá-lo? Com meus lhos? Só de imaginar.voltava a reconhecê-la. Quarta. pode estar ali ou não. que a escute dizê-lo. não é certo que para mim isto não seja um assunto de consciência. 3 de julho Parece mentira. Sei que me entende. acho que também não teria forças para falar de mim mesmo nesses termos. mas eu não via Aníbal desde seu retorno do Brasil. existem sujeitos que a gente vê todos os dias. com Robledo? No entanto. e quer comunicá-lo. havia guardado comigo todo o assunto de Avellaneda. que reclamam da Diretoria em geral e adulam cada diretor em particular. e o que é a vacilação. sem falar com ninguém. Nos escritórios não existem amigos. que ela não se acreditasse culpada. sente-se aqui. No fundo. não com coquetismo. e de imediato me torno indeclinavelmente reservado. Se ela gosta de sentir-se justi cada. E é explicável. e eu disse: “Claro que sei. Só então me dei conta de que. sua risada cúmplice. Ela ca linda com as bochechas acesas pelo entusiasmo. Com o pessoal do emprego? Seria um horrível passo em falso e. sentou-se na cama e me chamou: “Venha cá. sua palmadinha no ombro. nessa saída de menininha que se vê descoberta e recorre a uma virada de aparente ingenuidade só para fazer-se desculpar. que trocam suas queixas e se transmitem seus rancores. ao mesmo tempo. eu sou uma idiota. Eu precisava falar com alguém. a essa altura. confesso que Avellaneda é meu primeiro afeto verdadeiro. O resto é adorno. Com Vignale? Imagino sua piscadela de malícia. porque neste tipo de relação super cial fala-se de muitas coisas. é formidável. ela estava nos meus braços e havia outras coisas em que pensar. Ontem. bom. no início de maio. que se enfurecem juntos ou separados. Porém. até agora. Em tantos anos de escritório. A nal. De repente calou-se. para mim tanto faz. sei que você não é como os outros.” Convinha mentir. outros velhos projetos a realizar. se transforma tudo isto num grave problema de consciência. a certeza absoluta de que Avellaneda abandonaria o escritório. isso era o importante. ainda que ela não trabalhasse lá. senão um rodeio da consciência? Ela. O que eu tenho em comum com Muñoz. nunca das . que sabe por que isto é para mim um verdadeiro caso de consciência. Isto se chama convivência. que se sentisse à vontade nos meus braços. às vezes rimos juntos.

ou de gás tóxico. Todos somos especialistas em galhofa. é a con dência. desconcertante drama que intoxica a vida de cada um. a galhofa proporciona uma espécie de solidariedade. Começou a falar. começou a delinear com franqueza seu auto-retrato. olha para mim e não diz nada. a primeira vez em que o pronuncio com o verdadeiro sentido que esse nome tem para mim. E que alívio é rir. mesmo quando é preciso prender o riso. grita um pouco. ao longo de oito horas. especialmente) se aproximou de mim para iniciar uma conversa realmente comunicativa. A cada vez em que um deles acrescenta à galhofa um condimento. Mas também existe a galhofa. um deles (Muñoz. mas suas comissuras se dobram para baixo. desse módico. contra essa condenação que signi ca car oito horas enredado em algo que não importa. Creio que o trabalho é que impede outro tipo de con ança. sei lá. e depois a joga na cesta de papéis. Quando volta à minha mesa. isto é. por mais homem médio que se sinta. mas o próximo com nome e sobrenome. amassa-a no punho. Além disso. que piada de mau gosto! Quinta. Os galhofeiros. o trabalho amordaça a con ança. sem rosto. ou de mor na. ele tem de explicar a um cliente inadimplente a inconveniência e o castigo da mora. É um simples substitutivo. Mas há sempre alguém chamando lá do balcão. pois então vamos nos interessar galhofeiramente por esse vizinho que. bem. aquele que escreve na mesa em frente à minha e me estende o cálculo de juros para que eu o revise e coloque minha rubrica de aprovação). Já que não temos a coragem su ciente. O galhofado maldiz em silêncio. em algo que faz incharem as contas bancárias desses inúteis que pecam pelo mero fato de viver. já que renunciamos voluntariamente à amizade. os outros festejam. bíblico. o que ele atira na cesta de lixo. sentem-se cheios de cumplicidade. depois de amanhã serei eu. só falta que se abracem e gritem hurras. está sempre vulnerável. por sua vez. de deixar-se viver. que no futuro próximo. A galhofa e o trabalho. Em algum momento. Durante meia hora. A disponibilidade de interesse ante o próximo tem de ser gasta de algum modo. Em que diferem. amanhã é aquele. estacionado. ela se instala e sobrevém a claustrofobia. desses ocos que acreditam em Deus só porque ignoram que há muito tempo Deus deixou de acreditar neles. o próximo mais próximo. a franqueza su ciente para nos interessarmos amistosamente pelo próximo (não o próximo nebuloso. trocam sinais. seguramente se sente envilecido. enquanto narrava. o que não serve mais. pega uma planilha velha. que cansaço! E que galhofa é este trabalho. o trabalho. Hoje o candidato é este. talvez dentro de uma hora ou duas. essa espécie de constante martelar. pareceu- . Então.verdadeiramente importantes e decisivas. discute. começou a sintetizar os termos do seu drama. Faz o esforço muscular correspondente ao sorriso. esfuziantes. a nal? E que trabalho nos dá a galhofa. 4 de julho Conversei longamente com Aníbal. Algumas vezes. a neurastenia. sentem-se solidários. Sim. contra a papelada. entusiastas. do contrário. mas logo se resigna. porque lá no fundo assomou o gerente com sua cara de melancia! Que desforra contra a rotina. É a primeira vez em que pronuncio diante de alguém o nome de Avellaneda. sabe que isto é só uma parte do jogo. poderá escolher a forma de desforra que melhor coincida com sua vocação. conscienciosamente.

“E ela. 6 de julho Choveu a cântaros. Estávamos a duas quadras do apartamento e decidimos ir a pé. que jorrava. ao clichê da explicação que me dou desde o começo: minha idade. “O que você quer dizer com isso?” “Você me pediu que eu fosse franco. a idade dela. Mas a dúvida continuou girando na minha cabeça e. daqui a dez anos. em meia hora. “E por que não se casa? Não entendo bem o sentido desse escrúpulo. era a Ventura. que cou uma lástima. assim. Mas estávamos nos resfriando sem remédio e comecei a espirrar com uma regularidade ameaçadora. profundamente antipáticas. ainda que seja a longa distância e a longo prazo. porém. ou é outra coisa?” Evidentemente. esperando que estiasse. não a prejudica?” Claro. o gozo do presente. Conseguir um táxi era algo impossível. que é a reação tradicionalmente varonil para quando tratam você de corno. daqui a dez anos. Lá do quarto. Aos poucos fui-me acalmando e. o cialmente estável e consagrada? Estarei dizendo a mim mesmo que faço isso por ela. sobretudo quando se trata de uma dessas verdades que evitamos dizer a nós mesmos até nos solilóquios matinais. “E você acha que. já me sentia aquecido. Fiquei um tempinho com uma enorme fadiga.” Parecia mentira que ele não o entendesse. mas. Ela havia tirado o casaquinho. Aníbal me escutou com religiosa atenção. olhando desalentadamente as pessoas que corriam. aquela fatia de cotidianidade. o outro afã de não parecer ridículo. Aníbal estava decidido a pôr o dedo na ferida. tive consciência de que aquele momento. meus três lhos etc. no resto do dia. o afã de não a prejudicar. ela daqui a dez anos. Fui até a cozinha. etc. depois do meio-dia. quando acabamos de acordar e murmuramos bobagens amargas. largado sobre a cama como um traste inútil. isso é inevitável. também olhei como chovia. as quais é preciso dissipar antes de despertarmos por completo e de colocarmos a máscara que. ela me chamou. Não sei se ela está de acordo. disse que sim. Sábado. não posso evitar sentir-me um pouco menos generoso. embrulhada na manta. eu daqui a dez anos. Eu nunca havia sido tão . será vista pelos outros e verá os outros! Com que. corremos também nós como loucos e chegamos ao apartamento em três ensopados minutos. o que diz? Está de acordo?” Isso é o que se chama uma pergunta incômoda. acendi o fogareiro e coloquei água para esquentar. não? Quero dizer que todo o problema me parece muito claro: o que acontece é que você tem medo de que. Será que preferiria a situação estável. mas na realidade o faço por mim? “O que você teme é o ridículo. Levantara-se assim mesmo. no momento em que escrevo.me encarar de fora todo o assunto. tive forças para procurar uma manta e envolvê-la. De repente. estava tão claro! Voltei à explicação. e por alguns minutos não dissemos nada. de todo modo. Ficamos vinte minutos numa esquina. um pouco mais vulgar e desagradável. ela lhe ponha chifres. era o grau máximo de bem-estar. tenho medo de que. Eu me aproximei. como um espectador profundamente interessado. mas a verdade é que não sei se está de acordo. um pouco menos equilibrado. e também a saia. Antes. carregadas de auto-rancor.” Como é ruim nos dizerem a verdade. prejudico-a menos do que se a acorrentasse. vendo chover. então. ela me ponha chifres? Respondi a Aníbal com um palavrão. e estava junto à janela. No dia em que conversamos. Na realidade.

e ela também aprende a conhecê-los. Imaginei que o feitiço se quebrara. Podia dizer simplesmente: “Avellaneda. a etiqueta para identi car aquela pessoinha de testa ampla e boca grande que me olhava com enorme respeito. Além disso. De manhã.” “Avellaneda” é. eu podia senti-la. Quando pronuncio o “Avellaneda” que signi ca: “Vamos fazer amor?”. insensíveis. e signi ca: “Bom-dia. ele batia e batia. em pleno julho. Mas depois. resignado ao irremediável. eu me reconheço lamentavelmente dócil. mas tinha a aguda sensação de que nunca mais voltaria a sê-lo. palpá-la. Pisquei conscientemente. e não há direito a prorrogações. mas sem vida. os velhos tempos em que Avellaneda era só um sobrenome. com aquela intensidade. porque não sabe nada da história.. 7 de julho Um dia de sol esplêndido. Vejo esse mar implacável e desolado.plenamente feliz como naquele momento.” (Há um “Avellaneda” que é reprimenda. mais outro que é desculpa. que o famoso ápice havia passado. que me alegra absurdamente o coração. um mundo de palavras. Domingo. Estou aprendendo a injetar-lhe centenas de signi cados. parou. Não me lembro de como era ela quando me parecia insigni cante. parecia ter-se detido para certi car-se de que continuava chovendo. ela responde. tenho certeza de que o ápice é só um segundo. para que nada nos estorvasse depois. Ali estava ela agora. Lá embaixo. Só me lembro de como é agora: uma deliciosa mulherzinha que me atrai. Então meu olhar a envolveu. que já começara a dizer: “Avellaneda”. Avellaneda . De repente. Fomos a Carrasco. Uma presença de ondas escuras. Uma presença móvel. muito faceira: “Acha que eu vou embora agora? É muito cedo!” Ah. não era independente da minha voz. diante de mim. É um jogo. como se obedecesse a uma estranha inspiração. Assim com a praia vazia. outro que é aviso. e depois prosseguiu em seu trote tão sereno. a admiração se desintegra e eu passo a me sentir indefeso como um molusco. pelo menos naquele grau. muito melhor do que a manta. E se o mar fosse Deus? Também uma testemunha insensível. quase em seguida. que me conquista. testemunha inútil. Testemunha da história. levemente salpicado de gaivotas ingênuas. um clarão instantâneo. mas sem vida. mas pelo menos compreende o que a gente explica”). Realmente. Mas ela estava comigo. um breve segundo. as pessoas não se animam a acreditar no bom tempo. nada além de simpática. Quando eu era menino. as ondas se tornam imponentes. beijá-la. claro que é assim. ela me entendeu perfeitamente. Ficamos sentados na areia. quase irreais. o sobrenome da nova auxiliar (faz apenas cinco meses que anotei: “A mocinha não parece ter muita vontade de trabalhar. Nós nos entreolhamos e soltamos uma risada. além do mais. quase outonal. quando o avô do meu avô era menino. para me enfurecer. E. Esse mar é uma espécie de eternidade. tão orgulhoso de sua espuma e de sua coragem. e de imediato me refugio numa irresponsável admiração. levantou uma pata.. um cão trotava sem pressa e com focinheira. Uma presença móvel. Nesse sentido. talvez porque. governam sozinhas a paisagem. inibida. envolta em sua manta.) Só que ela me entende mal de propósito. na realidade. O ápice é assim. A praia estava deserta. maleável. como um seixo rolado. desta vez. digo: “Avellaneda”. mas também batia quando meu avô era menino.

” “A mim. Não posso conceber Deus como uma grande Sociedade Anônima. Que em sua própria casa. Elvira. acredita em Deus?”. Vocês estão bem arranjados. Também não tenho certeza de que Deus. então. Eu estava apressado. 8 de julho Esteban já se levanta. aquela gaivota. Eu. 9 de julho Com que. disse ela. ao contrário. meu sapato. em voz alta. Terça. por sua vez. disse. vá estar de acordo com nossa credulidade a partir de alguns dados dispersos e incompletos. um beijo fraternal. se acham que vou car mansinha como o retardado do Francisco. que o que minha mulher tinha visto era justamente isso. Não tive outro remédio senão escutá-lo.também o olhava. com o vento no cabelo. essa nuvem. Dali a duas horas. Elvira. verdadeiramente saudáveis. naquele estilo de estentórea confidência que ele cultiva. Não nos apanhou propriamente em agrante. com o merceeiro. 10 de julho Vignale. sua calça. Falou com minha sogra. mas naturalmente. Deus é um denominador comum. Mas você pode calcular o alvoroço que a gorda aprontou. eu queria que Deus existisse. Mas não estou muito certo disso. falou energicamente com . o bairro inteiro sabia que aquela maluca havia querido roubar o marido dela. Eu me senti totalmente incestuoso. “Não sei. sem que o aborrecimento mútuo ditasse as respostas.” “Mas está tão claro! Você se complica porque quer que Deus tenha rosto. tanto a ele como a mim. me sentia como uma barata. sob seu próprio teto. não. Deus é esta pedra. portanto tomamos um café no balcão. mãos. tomou a coisa com grande serenidade e saiu-se com a teoria do século: que ela e eu sempre havíamos sido como irmãos. tudo. Minha mulher nos pegou. Também poderíamos chamá-lo de Totalidade. relatou-me o novo capítulo do seu idílio: “Que azar. eu tenho medo de que. Só estávamos nos beijando. me inspira respeito. Ele não parecia feliz. Encontrei-o na Sarandí. coração. Até chegamos a falar de generalidades. rapaz. se existe. daqui a dez anos. que sou o próprio marido. continuando o diálogo que eu havia iniciado em pensamento.” Segunda. comendo seu próprio pão. imagine. Sua doença nos deixou um bom saldo.” “E isso atrai você? Isso a satisfaz?” “Pelo menos. sem pestanejar: “E você. com os vizinhos. Ali. ela me ponha chifres? Quarta. Tivemos duas ou três conversas francas. e a gorda armou uma bronca descomunal.

mas aqui a temperatura é agradável. suas reticências em entregar-se por completo e as desculpas pelas suas reticências. aquele corpo me atraiu. E. talvez. um desamparo que é comovedor. Avellaneda tem. Comecei a pensar numa comparação e terminei em outra. Mas você já pensou? Juro que isto eu não perdôo a Elvira. agora que deixei de ser um marido el. o sexo é só uma parte da sugestão. o repertório da sua ternura. 13 de julho Ela está ao meu lado. durante as quais me fez uma coisa muito feia. bastava sentirse atraído pelo seu corpo. simpática e indefesa. Imagine que Francisco dizia sim a tudo. Suas pernas estavam ameaçadas por um futuro de varizes.” Sábado. A nudez de Isabel era uma nudez total. que não tenham nada a ver com o item lar. Seus quadris eram o melhor. esta noite transcrevo para a caderneta. veja bem. principalmente. e este me atrai. Seus ombros eram cheios. já que esta é pelo menos metade do seu atrativo. seus quadris também são o melhor (ou será que os quadris sempre me comovem?). Isabel tinha. seu busto me inspira um pouquinho de piedade. e a gorda sossegou. A nal. Para amar Avellaneda. o que mais me atraía. aqui. a gorda não se preocupa. ela não é tão gostosa como me parecia. mas ainda eram bonitas. que não ficaria naquela casa nem um minuto mais. é necessário amar o nu mais a atitude. O corpo de Avellaneda é uma nudez com atitude.Francisco e disse que estava sendo insultada. seu umbigo é infantil e pequeno. tenho uma memória táctil dos seus quadris. Seu umbigo era fundo. Estou escrevendo numa folha solta. E então a Elvira. No entanto. Quis comparar este corpo com minhas lembranças do corpo de Isabel. escuro. Está aqui. e por isso caíam um pouco. suas pernas são delgadas. São quatro da tarde. Que vão embora e pronto. o nal da sesta. Já pensou? E o pior de tudo é que. não havia como pensar em outra coisa. mas. num desses momentos de terror. em sua nudez. ao meu lado. Ter Isabel entre os braços signi cava abraçar um corpo sensível a todas as reações físicas e capaz também de todos os estímulos lícitos. Ter em meus braços a concreta magreza de Avellaneda signi ca abraçar além disso seu sorriso. Lá fora faz frio. mas bem-feitinhas. Isabel não era magra. Ela me atrai profundamente. sabe o que disse? Que não entrava na cabeça de ninguém que ela fosse prestar atenção numa porcaria como eu. seus seios tinham volume. de quebra. com isso. E também. O corpo dela está quase descoberto. de um branco rosado. do chamamento. duas ou três vezes partiu para cima da Elvira. adormecida. grande. coitada. gritava. a manta e o lençol deslizaram para um lado. o que se pode chamar de muito feia. cheguei à conclusão de que posso ter programinhas mais jovens. de margens grossas. que para mim sempre foi sagrado. mais para quente. o corpo dela. seu jeito de falar. Bom. ela e seu chifrudinho. bem torneadas. seu olhar. uma força inspiradora. No entanto. o sujeito não é nada perigoso. Evidentemente. ainda cou umas três horas. em sua nudez. Mas a gorda insistia. Avellaneda é magrinha. essa . Este corpo que está ao meu lado não tem absolutamente nenhum traço em comum com aquele. uma modéstia sincera. mulheres mais fresquinhas. mais pura. eram outros tempos. Para amar Isabel. eu a contemplava e imediatamente todo o meu ser era sexo. seus ombros estão cheios de sardas. convenceu a outra.

não sabe como eu fui. Só um pouco melhor. Nunca fui um atleta. Segunda. Quarta. 15 de julho A nal. elástica. dentro de alguns anos. que eu esteja me esquivando do casamento mais por medo do ridículo do que para defender o futuro de Avellaneda. como ente espiritual. Eu sei que ela é boa pessoa. deve estar lá em cima admirado. também não convém iludir-se demais. Meu corpo de Isabel e meu corpo de Avellaneda. revela-se que isso era só um pretexto ante mim mesmo. e essa outra me deixou pesaroso. A nal. Sejamos equilibrados. aqui havia uma pele lisa. E isso não estaria correto. Mas veio a outra. ajudá-la a sentir-se ​s egura. sobretudo. Ela talvez sofra mais com uma situação clandestina. Esteban fazia sua primeira saída noturna depois da doença. en m. Talvez me contasse. sejamos sinceros. do que se sentindo amarrada a um sujeito com o dobro da sua idade. abrindo os olhos. ca bastante claro que seria preciso mudar toda a estrutura. ela não se sentisse acorrentada a um velhote. desanimado. E. não me importa. o nariz mais largo. porque sei demais . não quero que ela sofra. desgraçadamente. o ventre retumbante. A resposta é: “Isso conta?” Deus. se algum dia se apaixonasse por alguém. Jaime. vá lá. não me deixaria naquela humilhante ignorância que constitui a afronta dos enganados. me importa reconhecer-me como um fantasma da minha juventude. Desde a calvície desequilibrada (o lado esquerdo é o mais deserto). os tornozelos varicosos. ela existe) está agora cá embaixo. talvez seja hoje um pouco melhor do que nos dias e nas noites de Isabel. acreditava sabê-lo) estar eludindo uma situação estável para que Avellaneda se mantivesse livre. como uma caricatura de mim mesmo. agora existem. Por conseguinte. até o peito com ilhas ruivas. Mas aqui havia músculos. não havia tantas outras coisas que. eu. para que. Avellaneda (oh.era a primeira comparação. ela e eu jantamos em silêncio. Se. se é que existe. portanto não importa que soe piegas. Ponto. Eu acreditava (na realidade. que é feita de bom estofo. e isso é uma sujeira da minha parte. Deus me livre. meu coração. ela me conhece assim. outorgar-lhe o poder de decidir por si mesma. ao passo que a verdadeira razão era uma espécie de seguro contra futuros enganos. É a verdade. aqui havia força. todo o aparato exterior desta união. eu a estou julgando mal. pode ser que Aníbal tenha razão. ou então eu de algum modo captaria o transe e teria a su ciente serenidade para entender. em meu medo do ridículo. agora. Sei que. os pés com incurável e deprimente micose. Porque uma coisa é certa: eu amo Avellaneda. Escrevo isto só para mim. sempre provisória. Diante de Avellaneda. 17 de julho Blanca esteve triste hoje. Que tristeza. Eu não disse nada durante a refeição. talvez: minha cabeça. Há uma compensação. Mas talvez fosse melhor conversar com ela. sejamos objetivos. Mas importa diante de mim. a verruga do pescoço.

você vai ver como lhe vem o complexo de culpa. claro. acrescentei. não há atenção que o endireite. “Justamente”. briguei com os dois. Está perdido. mas só camos uma hora no apartamento. principalmente por ser eu o destinatário da revelação. Tratavase de Jaime. Foi por esse motivo que briguei com Jaime.” Enigmático demais. que não pude substituir totalmente a mãe. Na mão. o que herdou a testa e a boca de Isabel.” Até aquele momento. só por isso.” Então falei. respondeu. No entanto. porque se referia ao meu lho e porque fora dita por Diego. “O que houve com Jaime?”. Justi ca-se com ardor. Mas o que isto tem a ver com que ele terminasse assim? Talvez eu pudesse ter cortado essas amizades logo no começo. em quem invisto esperanças. Talvez. sabe? Diz que as mulheres não o atraem. Até onde ia minha culpa e onde começava a dele? É verdade que não os assisti como devia. eu não tenho vocação de mãe.. disse ela. praticamente sem cumprimentar (não se pode entender como “boa-noite” o grunhido que antecedeu a batida de porta). Mas. e então a tei. Não sente escrúpulos. Depois. Tive de levantar o jornal para que ela removesse a toalha. Era a imagem do patetismo. Por isso. “Aí está o pior. e Blanca pareceu resignar-se à tormenta. Quinta. pela primeira vez nessa noite: “Não me tapeie.. se o tivesse feito. Ah. “E. Nem sequer estou muito seguro da minha vocação de pai. Por isso briguei com Diego. balbuciei.” Então me veio um desânimo. “não diga nada a ele. com um pouco de amargura. de um patetismo comovedor e doméstico. sem nenhuma convicção: “Se eu arrebentar a cabeça dele a pancadas. além disso. Claro que eu poderia . por outro lado. Não é um insulto. Seus olhos estavam semichorosos. eu nunca havia imaginado que meus olhos pudessem abrir-se tanto. não há educação que o cure. que é algo que ele não procurou. você tem de fazer as pazes com Diego”.como Jaime reage.”. “Uma coisa eu lhe peço”.” Era evidente que Blanca se violentava ao contar tudo isso. que cada um tem a natureza que Deus lhe deu e que. É a verdade. “Com Jaime e com Diego. já existia uma suspeita. não deu a capacidade de sentir-se atraído pelas mulheres. tinha a cesta de pães. acrescentou Blanca. “Tenho de falar com Jaime”. dei-me conta de que. penso que. “E posso saber por qual motivo esse seu Diego se dá ao direito de insultar?” Blanca sorriu. Até mesmo a mim soou falso. “é o próprio Jaime quem diz. Ela não me disse que eu era totalmente inocente. Sei que você não vai fazer isso. ele continuasse a encontrar-se com eles sem que eu soubesse. “Sim”. a ele. quando ele se retirou. a palavra não me soava totalmente nova. no fundo de mim mesmo. quei lendo o jornal ali na sala.” Blanca riu. e lhe agradeci por isso. As têmporas me doíam. um desânimo horrível. 18 de julho Queria dizer duas coisas a Avellaneda. disse. Foi uma paulada. sem esperança. garanto a você que não sente complexo de culpa. e falei unicamente de Jaime. perguntei. em quem con o. quando perguntei: “E você dá mais crédito à calúnia de Diego do que a tudo o que seu irmão lhe diz?” Blanca baixou os olhos. Eu não conseguia imaginar Jaime e Diego aliados contra ela. e Blanca se demorou expressamente enquanto tirava a mesa.” A palavra me golpeou duas vezes. do meu filho. “Diego diz que Jaime é um maricas. quando um sujeito já vem podre. Mentalmente. “Quer dizer que esses amigos.

não o vi. E. “Sim. É melhor que não saiba.ter feito mais por ele. o melhor é desaparecer. disse ela. 19 de julho Também não o vi hoje. uma mocinha quase. Jaime. é boa pessoa”. Creio que vacilava entre certo atavismo lial e um sentido muito simples do humano. Eu o vi com aquela menininha que o enredou. Ela o leu detidamente e disse: “Já levou as coisas dele. Sou maior de idade. respondi. Você vai me pregar moral. que não tenho nada a me censurar. perguntou. Ou será que já sabe? Sábado. . eu amo essa moça. pedir que você a conheça?” “Eu mesma ia lhe pedir”. porém. não se preocupe. “É verdade que mantenho um vínculo com uma mulher. que minha retirada o aproximará mais dos meus irmãozinhos. Mas aí está você. tão nobre. é verdade?” “É e não é”. Acho que tenho direito de amar alguém. Seu campo está livre. Mas sei que Blanca lhe disse que eu queria falar com ele. o que eu quero. Blanca mantinha os lábios apertados. ao conforto do espírito. respondi. como eu sou egoísta! Até o fato de me sentir em dia com a consciência é uma espécie de egoísmo. Sexta. e você não gosta do que eu faço. na repartição dele. Hoje de manhã. que você também tem sua vida clandestina. O que me restou aberto me basta para ver o futuro (não é tão ruim. 20 de julho Blanca me trouxe o envelope. Como eu não gosto do que você faz. mas o agradecimento estava na minha garganta. que isso signi que uma ofensa à sua mãe. Não é verdade.” Estava pálida quando acrescentou: “E isso da mulher. devo lhe confessar que ele reagiu como um perfeito machinho e me deixou um olho roxo. isso é tão certo. Eu também respirei aliviado. também. Para sua tranqüilidade. ao sentir-me capaz de provocar essa con ança. A carta diz assim: “Velho: sei que você quer falar comigo e conheço de antemão o assunto. o que preferiria? Que ele não fosse maricas ou simplesmente me sentir livre de toda culpa? Como somos egoístas! Meu Deus. Segunda. Saudações. Então obedeci a uma inspiração repentina. Não sei bem. e creio que você concordará em que essa não é a melhor forma de guardar o devido respeito à memória de mamãe. tão formal. ansiosa. Não fiz comentários. Logo: desapareço. tão certo.” Esta última frase talvez estivesse sobrando. “Mas é boa pessoa?”. além disso. Vivo com ela. Esteban é bastante violento. Ela respirou aliviada. dirija-se a ela). e há duas razões pelas quais não posso aceitar seu sermão. Bom. na tarde de ontem. Primeira. com seu puritanismo unilateral. Esteban soube por mim. de apego à comodidade. Só não me casei com ela porque não estou seguro de que isso seja o mais conveniente. que não posso me sentir inocente. você vai ver) e dirigir o último olhar à minha simpática família. Imagino. Quanto a Jaime. Blanca sabe de tudo (para mais informações. “É muito.” Estendi o papel a Blanca. ainda con a em mim.

que era futuro então. eu me dei conta de que lhe era penoso pronunciar essa palavra.” Avellaneda estendeu a mão. uma velha lenda para caçar maridos. o discurso ritual de um juiz apressado e barrigudo? E também há seus lhos. Ela sempre está nervosa e acha que alguém do escritório vai nos ver. não quero que eles sintam ciúme em nome da mãe. ela percebeu meu olhar. 22 de julho Preparei cuidadosamente o encontro.Domingo. teria de aceitar também que você cedesse.” Mas Avellaneda não recuperava o equilíbrio. não sabia se você me guardaria um pouco de rancor. não lhe guardaria rancor. . desta vez. Saímos juntos muito poucas vezes. quando tudo começou entre nós. no saguão da minha casa. minha lha. Também não vamos passar a vida trancados no apartamento. Tremia. “Antes de virmos para cá. não é de lá. Se eu a aceitasse. Não seja tão melindroso. “Quem você viu? Alguém de lá?” Lá é o escritório. de ficar velho e de eu olhar para outro lado. 21 de julho “Talvez. que agradáveis de ouvir! Segunda. O importante é que estejamos unidos por algo: esse algo existe. Chamei-a com um gesto. Agora. Por sobre a xícara. nalmente. “Por favor. “Esta é Blanca. cedi eu. Senti-me bastante orgulhoso da minha paternidade. a exigir e exigir-se as máximas garantias para rodear sua perda. mais forte. Mas é alguém que quer conhecê-la. discutimos o tema casamento até esgotá-lo. Eu não quero aparecer como se pretendesse disputar sua vida com a imagem de sua mulher. em contraposição. Depois. quando já caiu. O que mais me agrada em você é algo que não haverá tempo capaz de lhe tirar. como é lógico. Por isso lhe digo que agora não estou certa de que o casamento seja nossa melhor solução. Existe na mulher algo atávico que a leva a defender a virgindade. Portanto. porém. mais bonito que aquilo que nos une seja isso que verdadeiramente existe. passou tudo. Fui eu quem quis conhecê-la. Por outro lado.” Quero anotar logo. Eu sabia que. Porque. Eu digo que mais cedo ou mais tarde isso tem de acontecer. mesmo cedendo. Agora. para o apartamento. ela então percebe que tudo era um mito. e não um simples trâmite. creio que não. Seguiu o rumo do meu olhar e reconheceu minha lha antes que eu dissesse outra coisa. “Não. simpática. A nal. não é? Pois bem. eu o tivesse preferido. acalme-se. Um dia você a disse. mas. porque teria sido uma base falsa para este presente. Estávamos na confeitaria. Serviu para que eu decidisse acreditar em você. o que ela enunciava tão calmamente eram meus desejos. eu lhe falei com toda a franqueza. E. em seu carinho. tem toda a minha gratidão. não lhe parece mais poderoso. posso ter mais certeza das minhas reações do que das suas. se o forçasse a ceder.” Mais que suas verdades. Blanca deve ter algum traço meu. Ela estava bonita.” Ela cou tão nervosa que por um momento eu me arrependi de lhe haver provocado essa prova. Eu já caí. e. há seu medo do tempo. Murmurava. Blanca portou-se muito bem. Mas não podia aceitá-la. no início. mas Avellaneda não sabia de nada. alegre. por têla dito. que se obrigasse a uma decisão para a qual não estava maduro. Essa foi sua resposta. porque tenho medo de esquecer.

ainda assim. no escritório. Não é sem razão que ele gura em todos os cartões-postais para turistas. examinei-a com atenção. Avellaneda foi-se tranqüilizando. Chove. A maioria é de aposentados que não conseguiram se livrar dos hábitos madrugadores. É tão feio. Não posso imaginar que a senhorita quisesse me conhecer. Mas. devo estar lhe parecendo sei lá o quê. Quando nos separamos (Avellaneda insistiu com fervor em que eu acompanhasse minha lha). disse: “Gostei dela. espalhafatoso. já em casa.” Sexta. Sinto um cansaço equivalente a um ano inteiro de trabalhos forçados. isso de ter as duas junto de mim. Estava séria. Depois. quase sem ruge. são mais memoráveis. quando ela nos deixou. e eu também. É quase uma representação do caráter nacional: rude. Desculpe. durante o trabalho (até agora. as duas mulheres a quem mais quero.terrivelmente inquieta: “Jesus. Apesar de tudo. Nunca acreditei que você soubesse escolher tão bem. pude notar que um cabo de simpatia se estendera entre as duas mulheres. bem cedo. Sentar-me junto a qualquer uma das janelas que dão para a Plaza. que pesadelo) e só há um ou outro velho isolado. Queria saber de que modo ela havia saído daquela armadilha que eu lhe havia preparado. Com a face grudada à minha. Um dos meus maiores prazeres. Hoje cedo. Estou tomando o café-da-manhã no Tupí.” Blanca fazia todo o possível para acalmá-la. Melhor ainda. Gosto do Tupí a esta hora. Em dez minutos. Eu as deixava falar. hoje. mas tão feio. Elas são quase da mesma idade. Continuarei vindo ao Tupí quando me aposentar? Não poderei me acostumar a desfrutar da cama até as 11. realmente. que deixa a gente de bom humor. ninguém se deu conta). quando ainda não o invadiram os maricas (eu tinha me esquecido de Jaime.. Era um prazer novo. Blanca me deu um abraço. 23 de julho Eu não via Avellaneda desde ontem. por isso mesmo. aproveitou para me deixar dois talonários e um pedacinho de papel com um só rabisco: “Obrigada. simpático. um daqueles abraços que ela não esbanja e que.. antes de tomar o ônibus. Aos poucos. muito séria. Aprendi a gostar desse monstro folclórico que é o Palacio Salvo. aproximou-se da minha mesa com dois classi cadores para me fazer uma consulta. lendo El Día ou El Debate com inacreditável fruição. 26 de julho Oito da manhã. Sempre tomamos cuidado. caminhamos umas quadras sob o chuvisco. já conversavam como duas pessoas civilizadas e normais. Não posso conceber a idéia de que ele lhe tenha falado de mim. a mim e a Blanca. Dei as indicações. como um lho de diretor qualquer? A verdadeira divisão das classes sociais deveria ser feita levando em conta a hora em que . Mas que importa? Terça.” Comi um pouco e fui para a cama. Estávamos rodeados de gente. derramou umas lagrimazinhas. quando se retirou. Ela. porém. deselegante. de modo que não podíamos nos dizer nada.

acreditamos. no ponto mais concorrido da cidade. Para ver os jornais. da con ança retroativa que elas depositavam em minhas respectivas capacidades de gerar e de escolher. Gosto de reconhecer suas constantes. mas eu digo: Estamos no inverno ou o quê?” Eu lhe dou razão. Ou talvez seja um mero argentino. com todas as críticas que ela supunha explicáveis. esquecemos generosa e cretinamente que eles hoje dizem o contrário de ontem. Mas estou contente. trocando de parceiros. quando se viu diante da minha lha. Mas todos se servem do mesmo maço. Essa frase e a de Blanca (“Nunca acreditei que você soubesse escolher tão bem”) não falam muito amavelmente de mim. E só então percebeu cabalmente que isto que temos realmente importava em sua vida. a maçaroca informativa de El Día . todos se alimentam da mesma mentira. só aqui e ali interrompida por uma ou outra alfinetada anticlerical. 27 de julho Está entusiasmada com Blanca. enganando uns aos outros. Seu rabisco “obrigada” de terça-feira passada teve depois um amplo desenvolvimento. a robusta compleição de La Mañana . peço-lhe um café pingado pequeno com pãezinhos meia-lua. será que poderemos ser amigas?” é agora sua pergunta cheia de esperança. fazendo-se sinais. nunca nos enganou. perdemos a memória. que veio fazer seu negocinho semanal de dólares e ainda não conhece os costumes da casa. talvez a . “O que você acha. porque ele sempre foi horroroso. a erguermos os olhos em homenagem à sua feiúra. e. que hoje defendem ardorosamente aquele de quem ontem disseram coisas terríveis.” E me diz isso mais ou menos a cada meia hora. a civilizada hipocrisia de El País. o pior de tudo. entram os jornais. Como são diferentes e como são iguais! Entre eles. e ela faz uma cara deliciosa. Pela quinta vez. jogam uma espécie de truco.3 Sua boa vontade é tanta que eu me dou por vencido. naturais e estrangeiros. porque se instalou aqui. e. “Esta chuva incomoda as pessoas. “Você não vai acreditar. e ele me traz um café grande com traviatas. Aí vem Biancamano. que hoje esse mesmo aquele aceita. vaquinha de presépio que só ela. essa defesa. Depois Biancamano é chamado por um senhor da mesa do fundo. Ela confessa haver passado um mau momento. é preciso baixar os olhos. tão demolidor. o garçom amnésico. mas tudo isso me passou pela cabeça quando sua lha se aproximava por entre as mesas. Esse aí é um que não se dá por vencido. e há trinta anos nos obriga a todos. Pensou que Blanca vinha lhe fazer uma cena. que acreditava merecer. Pensou que o choque ia ser tão violento. votamos. O estilo de cabriola sintática nos editoriais de El Debate. a atitude amistosa de Blanca foi para ela um presente inesperado. “Nunca imaginei que vo​cê fosse capaz de ter uma filha tão encantadora. Por isso pre ro a assustadora franqueza do Palacio Salvo. Enquanto jogo os tijolinhos de açúcar na xícara. E Avellaneda também. a partir dessa leitura. Na segunda parte do meu festim. E nós lemos.” Por isso. que nosso assunto não sobreviveria.cada um salta da cama. orgulhoso e ufano. discutimos. tão grave. que talvez lhe fosse insuportável acabar agora com esta situação que mal tem patente de provisória. porque é evidente que estamos no inverno. muito aborrecido porque nosso garçom lhe trouxe algo que ele não tinha comandado. eficientemente cândido e risonho. Sábado. Há dias em que compro todos. ele me fala do tempo e do trabalho.

30 de julho Não há notícias de Jaime. olhou-me com uma censura estremecedora e. mas isso. que não era o caso de car chorando por isso todos os dias. o que deixaria para esses momentos (há quatro ou cinco em cada vida. Bom. cuidado. mas talvez não fosse su cientemente grande para dissimular melhor sua primeira agonia. nós nos tornemos carpidores. Sempre dou menos do que aquilo que tenho. uma daquelas redações recorrentes sobre o clássico tema da mãe. talvez tenha sido um pouco avarento. Pedi a Blanca que não lhe diga nada. Meu estilo de gostar é esse. porque “de amarga basta a vida”. afinal.” O que quis dizer? Ele não era tão pequeno para não saber que estava exigindo um absurdo.mesma com que. vinte anos atrás. Talvez eu esteja exagerando. Recordo que uma vez. Blanca perguntou no trabalho dele. A quem chora todos os dias. com seu habitual senso de economia psicológica. na turma de Jaime passaram um dever. para cada indivíduo) nos quais a gente deve apelar para o coração em cheio? Também sinto um leve mal-estar diante do pieguismo. das gradações. não deixa de ser uma solução pobre. Dei-lhes instrução. inclusive na vida amorosa. De modo que. uma dor para a qual sejam necessárias as máximas defesas? Sempre é possível matar-se. O fato de suas professoras. a primeira dessas agonias diárias nas quais depois concentrou seus rancores. ou melindrosos. Faz dez dias que Jaime não vai. Jaime tinha 9 anos e voltou para casa sentindose profundamente desgraçado. com uma rmeza de predestinado. Talvez minha linguagem fosse imprópria para sua idade. só porque algo se atravessou em nosso caminho e não nos deixa prosseguir nossa excursão rumo à ventura. Esteban e eu chegamos ao acordo tácito de não falar do problema. Quero dizer que é quase impossível viver em crise permanente. suas rebeldias. ou histéricos. a sociedade reclamarem sua mãe fazia-o sentir pela primeira vez toda a força da ausência dela. que ele havia perdido a mãe e devia conformar-se. também foi um golpe. O fato é que ele parou de chorar. e o pieguismo me parece justamente isto: andar sempre com o coração na mão. Não sei . reservando o máximo só para as grandes ocasiões. senão eu o mato. um pouco reticente. suas frustrações. Custa-me ser carinhoso. e que a maior prova de afeto era precisamente demonstrar que essa ausência não o colocava em inferioridade de condições perante os outros. carinho. fabricando-se uma impressionabilidade que submerja a pessoa (uma espécie de banho diário) em pequenas agonias. Eu me pergunto como reagirá quando souber da existência de Avellaneda. Cumpri minhas obrigações com eles. quando as crianças freqüentavam o colégio. que às vezes está ao lado do desatino. Eu tentei fazê-lo entender que isso iria acontecer muitas vezes. Talvez haja uma razão. ainda por cima. no terceiro item. Para ele. deve ter perguntado aos pais sobre os Reis Magos. pronunciou estas palavras: “Você vai ser minha mãe. seus colegas. E têm alguma razão: a vida já é bastante amarga para que. pelo menos. que não vão ao cinema para ver lmes tristes. o que resta fazer quando lhe couber uma grande dor. Por enquanto. As boas senhoras dizem. Terça. Mas é que não consigo ser um desses sujeitos que andam sempre com o coração na mão. e é que eu tenho a mania dos matizes. ao situar meus lhos numa função de juízes (ou ao permitir que se comportem como tais). se estivesse sempre expressando o máximo.

imbecil. todos já sabiam. Sobretudo naquele instante em que caminhava de lado a m de sair de detrás da escrivaninha. aquele cuja irmã se desnuda. “Estão oferecendo ao senhor nada menos que a subgerência. De todas aquelas mãos. Onde normalmente ca a dignidade.por qual prodígio imaginativo lançava sobre mim as culpas por essa ausência. se eu a tivesse assistido melhor. Houve abraços. substitui-se o gerente quando este se ausenta. ele parece um caranguejo. Nem agora nem nunca. Quisera lastimá-lo.” Desta vez. espantosamente ordinário e covarde. Era uma antecipação da minha negativa. Realmente. Sempre acontece isso com as notícias estritamente con denciais.” Tem uma mão pegajosa.” Não me matou. Sei que existem explicações racionais e até razoáveis. Eu preferiria que ele me saísse ladrão. as senhoras dos diretores e suas demonstrações de ignorância enciclopédica. a subgerência. 3 de agosto . Talvez pensasse que. como se acabasse de abrir um pote de geléia. por que não se desviaram. dedicou-se a negar o homem que havia em si mesmo. ela lhe foi amputada. Sábado. Nunca pude engolir esse sujeito. mas acabou por matar-se. Até a funcionária Avellaneda se aproximou e me apertou a mão. Sei que muitas dessas explicações lançariam parte da culpa sobre mim. felicitações. sobretudo para encerrar a carreira na empresa. capricha-se em agüentar os diretores e suas piadas horríveis. A dignidade ortopédica que agora usa. tenho de levar sua resposta à Diretoria.” Quando voltei à minha seção. Algumas vezes. seu ser abstrato. Meu lho é um maricas. “Uma boa notícia. sim? Justamente o outro. Na próxima quinta.” Era visível que ele não aprovava a oferta da Diretoria. Nada de lástima. a dela era a única que transmitia vida. Quinta. Eu era o culpado. “Claro que com uma condição. e o outro. ela não teria desaparecido. e obtive uma imagem repulsiva. ele só tem um coto. “A condição é que o senhor não se aposente nos próximos dois anos. Um maricas. tão indiscutível. atendem-se alguns clientes importantes. portanto devia substituí-la. 1º de agosto O gerente me chamou. sorria quando entrei em sua sala. Mas por que Esteban e Blanca cresceram normalmente. mas não consigo.” E o ócio? É um ótimo posto. o caranguejo surgia detrás da pedra. por anular-se. Há pouco o que fazer. comentários. “Permita-me que o felicite. parecia querer me estrangular. Ufa! Que explicação complicada para desenvolver um fato tão simples. tão ordinário. Os olhos do Caranguejo brilharam e ele disse: “Uma semana. perguntei. aquele a quem eu mais amava. Igual ao repugnante do Santini. no entanto. “Senão eu o mato. mor nômano. Mas e o meu ócio? “Quanto tempo o senhor me dá para pensar?”. basta-lhe para sorrir.” Quando esfregava as mãos. claro. tentei imaginar sua alma. Precisamente. vigia-se o trabalho do pessoal. Já que o homem da família lhe falhara.

É possível isso? Domingo. Não há diversão. Para mim. Nossas diversões. Ela disse que devo pensar bem. mas sempre tenho a possibilidade de manter alguma contabilidade mais ou menos clandestina. bem remunerado. algum disco. Poucas cartas nos escrevemos. Então vi um papel de cor indefinida (é provável que em sua origem tenha sido verde. Meu dinheiro vai dar para os dois. Na realidade. nos quais era possível reconhecer . Porém. nestes diálogos francos com Avellaneda. é evidente que eu me havia desacostumado à sinceridade. o essencial sempre foi ganhar o su ciente para viver. recibos. que é a mais segura garantia de in ação. de longos e per lados apêndices. falar de nós. creio que poderei contar com uma entrada ligeiramente maior (quase 100 pesos mais). 4 de agosto Esta manhã abri uma gaveta do armário pequeno e espalhou-se pelo chão uma quantidade imprevista de fotos. mais do que qualquer outra coisa. não há espetáculo que possa substituir o que desfrutamos nesse exercício de sinceridade. Claro que Avellaneda esgrime também outras razões mais comovedoras. um restaurante. mas. Compramos algum livro. Claro. Não preciso de mais dinheiro. somos econômicos. A carta estava datada de Tacuarembó. Tenho um bom salário. E o que ganho me é su ciente. quando me aposentar. Bom. com a tinta espalhada por velhas umidades para sempre ressequidas).” Melhor. com minhas apenas higiênicas aproximações com mulheres sempre novas. A ameaça é certa. já que não tivemos longos afastamentos. disso eu já sei. e também não terei descontos. com tantos problemas de comunicação nas minhas relações com meus lhos. eu não recordava em absoluto sua existência. para respirar melhor. já que as grati cações me aumentaram consideravelmente a média dos últimos cinco anos. Talvez não o vendesse mesmo que a oferta fosse muito maior. que a subgerência é um posto cômodo. nunca repetidas. Além disso. são rigorosamente domésticas. ela pare de trabalhar. deverei enfrentar a desvalorização da moeda. Isabel e eu. agradável. menos monetárias do que toda esta sórdida previsão: “Se você não estiver lá. respeitado. porque tenho um projeto: que.Conversamos longamente sobre o convite. Com todos estes anos em que Aníbal esteve no estrangeiro. mas agora mostrava umas manchas escuras. por motivos óbvios. Até esse momento. recortes. de franqueza. Já vamos adquirindo um treinamento maior. eu me vi pronunciando palavras que pareciam ainda mais sinceras do que meus pensamentos. cartas. Algum domingo. o que nos entretém é conversar. Tampouco me convence com isso. reconheci a carta de Isabel. quando o vi. Inclusive. 17 de outubro de 1935. contar um ao outro toda essa zona de nossas vidas que se situa antes do Nosso Assunto. quando me aposentar. é provável que só de forma esporádica eu a praticasse comigo mesmo. Uma ou outra vez um cinema. o escritório vai car insuportável. uma confeitaria. Mas também sei que tenho direito ao descanso e que não pretendo vender esse direito por mais 100 pesos de salário. com o pudor defensivo que sempre resguardou minha vida privada da malícia do escritório. anotações. não havia motivo. com a despesa extra do apartamento. Porque também é preciso habituar-se à sinceridade. Nem sequer agora. quando faz frio mas há sol. Digo isto porque certas vezes. dedicado a caminhar pela orla. Senti-me um pouco estranho ao dar com aqueles caracteres delgados. Além disso.

Não te parece horrível? Tu sabes que às vezes desperto de noite e tenho absoluta necessidade de tocar-te. Por que isto me acontece? Sei que estás em Montevidéu. nós nos entendemos bem.. hein? Tia Zulma está feliz por ter aqui as crianças. mas saber-te junto a mim faz com que. ao contrário. Mas não. Aumentam a olhos vistos minha cultura e meu tédio. para ti. A única diferença é que. quando acordo. dá no mesmo. vou ao gabinete de tio Eduardo e me entretenho com o Diccionario Hispanoamericano. às vezes com raiva. no sono. Ou será que. quando voltarmos. Mas. logo encontrarias outra mulher. Nem sequer como alma penada eu poderia deixar de sentir saudade de ti. Foi-me dirigida numa circunstância muito especial e. Quando as crianças estão dormindo. mas meus pesadelos não têm monstros. Ah. quando acordo e afugento o pesadelo. Que a cumprimente por mim e por ela. antes que me esqueça: fala por telefone com Maruja para lembrá-la de que no dia 22 é aniversário de Dora. saberias defender-te. Mas pela rua não passa vivalma. ademais. não é? Esteban e a neném estão bem. mesmo quando chegas cansado do escritório e tens nos olhos um pouco de ressentimento. fez-me duvidar de algumas coisas. Não rias.. Parece que caste famoso com tuas respostas para tudo. Diz assim: “Meu querido: faz três semanas que cheguei. Creio que continuas sendo um rapaz extraordinário. que não vou morrer. desde que não seja Leonor. sem ti. Gosto dos nomes que começam com jota. mas com uma daquelas penas “colherinha” que. diz tio Eduardo. sabiam queixar-se surdamente e até cuspir ao seu redor umas gotinhas quase invisíveis de tinta violeta. Não sei por quê. ou que não me tenhas aí. Não sei o que tens de reconfortante. sua releitura me descentrou um pouco. A casa está muito suja? A moça que Celia me recomendou foi fazer a limpeza? Não vás olhá-la demais. sinto muito amor por eles. a neném não nos deixe dormir por umas quantas noites. Vai ser homem e se chamará Jaime. constato que efetivamente estou sozinha na cama. e. Agora tenho pesadelos horríveis. eu me sento junto à sacada da sala e olho a rua. de minha impermutável história. gosto de ter lhos. de sentir-te ao meu lado. embora saibas que tia Zulma os mima demais. choro. no meio-sono. não sejas mau. Vou jogar aquela paciência das cinco . eu me sinta sob tua proteção. e me tratas com ligeireza. E tio Eduardo não disse nada. Não rias. E. Tenho de fazer isso. Prepara-te para que. e terá uma cara comprida como a tua e será muito feio e terá muito sucesso com as mulheres. porque ela é parte de mim mesmo. mas o que mais me agrada é que sejam lhos teus. Como vês. mal se viam obrigadas a escrever. não é? Faz três dias que está chovendo.uma pessoa e também uma época. sempre ris de tudo. E se eu morrer? Responde-me depressa dizendo-me que não. Era evidente que não havia sido escrita com canetatinteiro. Os dois me contam grandes histórias sobre ti. Já pensaste no que farias se eu morresse? És corajoso. podes escolher o nome. Meu Deus. Será menino ou menina? Se for menina. além disso. sei que te cuidas. sabes? Estou grávida outra vez. à noite. Escreve-me dizendo que eu não vou morrer. Pensas. não é tão horrível? Será varão e iremos chamá-lo Jaime. mas desta vez sinto um pouco de medo. eu diria até que me comoveu. sem ti. Agora chove freneticamente sobre as pedras do calçamento. Viste que neurastênica estou? É que me faz muito mal não te ter aqui. não posso chorar. Tenho de transcrever essa carta nesta caderneta. Consistem apenas em sonhar que estou sozinha na cama. sei que pensas em mim. mesmo quando não se trata de nada engraçado. Um rapaz extraordinário. quando tinhas 10 anos e vinhas passar tuas férias aqui. quando virão essas quantas noites? Tenho uma notícia. É horrível dizer-te isso e não me beijares. já estou assustadoramente enciumada. Deves traduzir: três semanas que durmo sozinha.

ganhando o jogo de paciência. Depois voltou o equilíbrio. de olhos buscadores. poucas horas depois do parto. uma expressão permanente. de quadris tangíveis. lembras? Se acertar. nem achava engraçada a causa do meu riso. ela. a mesma Isabel de 1935 que escreveu sua carta de Tacuarembó. A carta é justamente como era ela: meio caótica. Mas deste último tema não era imprescindível falar. o destinatário dessa carta de 1935 que era eu mesmo. mas por algum motivo especial ou porque conscientemente quero rir. por favor. nossas a nidades. É provável que. Em contraposição. já havia convencido o destino. cheia de temores. claro. na realidade. mas meramente por costume. Até o marido de Isabel. Não gostava das rugas que se formavam junto dos meus olhos quando eu ria. quando Isabel morreu. os credores. tão longe. E era verdade: nessa época eu ria com muita freqüência. ao passo que só havia conseguido provocá-lo. como parece indefeso esse entusiasmo! No entanto. Quando estávamos com outras pessoas e eu ria. é que não vou morrer de parto. Já eram bastante eloqüentes nossas noites. eu tenha reencontrado o rosto de Isabel. É curioso que. Pobre Isabel. de pernas perfeitas. em permanente vaivém do otimismo ao pessimismo e vice-versa. ela me tava com olhos de censura. Tudo está tão longe. Às vezes penso que é uma lástima Isabel não estar aqui para me ver tão sério. até esse também está longe agora.: Ganhei o jogo! Hurra!” A 22 anos de distância. Mas eu não me iludo. Li esses “tu” e de imediato pude reconstituir a boca que os dizia. tua Isabel. era legítimo. não por convicção. E talvez não muito mais tarde. talvez por mania. E. Agora. era honesto. aquela que Dora me ensinou. às vezes eu rio. Não é nada feio. desses “tens”. o sexo. Mas o riso não voltou. nem conseguia evitar sentir-se incomodada e agressiva quando eu ria. e isso é muito raro.S. morreu de um ataque de eclampsia. cas horrível. se nosso casamento não houvesse terminado aos cinco anos. Agora me dou conta de que falava com ela muito pouco. uma Isa​bel de cabelos negros. . Andei quase um ano agoniado por três coisas: a dor.. Às vezes não achava assunto de que falar. foi um ingrediente que bastou para nos manter unidos. mais vitais. eu não tivesse me curado do riso. e iria procurar Avellaneda. se Isabel aparecesse agora. são nossas conversas. com Avellaneda. O lho foi varão e se chamou Jaime. P. esse não voltou. Jaime não tem uma cara comprida como a minha. Mas talvez. porque Isabel nunca usava “você”. em Isabel. não sei se para o bem ou se para o mal. que antecipavam a reprimenda posterior. e ela não aprovava meu riso. Ela acreditava que.pilhas de cartas. para quando estivéssemos a sós: “Não rias. movediça. ela gostaria muito da minha seriedade atual. “Não rias”. e ainda por cima inútil. Não tenho a menor dúvida de que. não tenho a menor dúvida de que eu diria: “Que lástima”. voltou a calma. pelo menos) um ingrediente menos importante. diz ela. o riso caiu-me da boca. porém. desses “podes”. não havia entre nós muitos temas comuns. a boca era o mais importante do seu rosto. sempre em torno do amor na cama. e repete. Bem. Pobre Isabel. era certo. Isso era o amor? Não tenho certeza. te ama.” Quando ela morreu. eu estava com 28. mais tarde tivéssemos percebido que isso era só um ingrediente. menos vital. com a releitura desta carta. Te ama. esse rosto que. apesar de todo o meu esquecimento. Mas. aquele riso que era quase um tique. te ama. E o achei a partir desses “tu”. nesses cinco anos. Pobre Isabel. fortemente unidos. o sexo é (para mim. Tenho bem presente que estou hoje com 49 anos e que. o trabalho e os filhos. muito mais importantes. estava em minha memória. voltou o aprumo. mas seu sucesso com as mulheres é provisório. se Isabel estivesse aqui comigo. afora os lhos.

e não de um fatigado. quase uma paz. Mas é uma gente que se foi endurecendo. satisfeito porque não me aprova como colaborador. Ela me tava e. precisamos de um tipo ativo. um homem que não quer luta. Mas era uma tristeza doce. Com ela instalada na minha existência. egocêntrico. Para este cargo. praticamente deixando de pensar por conta própria. mas sei também que ela não morreu. Para Isabel. já não haverá solidão. só por isso. Assunto encerrado. vital. ante a possibilidade da subgerência. Mas. mais modesto. moveu os lábios para pronunciar duas palavras. e também porque minha negativa servirá para criar a retroatividade das boas razões que ele seguramente esgrimiu para opor-se à minha promoção. sei de vários aposentados que não foram capazes de sobreviver a essa interrupção da rotina. do seu asqueroso polegar. porém. para alguns. poderia descon ar do ócio. abro mão da minha suficiência e me limito a dizer: tomara. que com freqüência a impedem de ser audível. Não diante dos outros. e mais: era a primeira vez em que o dizia a alguém. em algum arrabalde da minha rotina. Se Avellaneda não tivesse entrado em minha vida. “Como eu dizia: um homem acabado. Isabel me repetira essa frase vinte vezes por noite. ancilosando.” Então me dei conta de que era a primeira vez em que ela me dizia isso. nem sequer falávamos. Que tranqüilidade! Segunda. de repente. estávamos sentados junto à mesa. sempre que o ócio fosse uma simples variante da solidão. empreendedor. Quinta. Compreendo que. porque esta sofre de afonias. Eu penso por minha conta. isso não importa. no meu futuro de alguns meses atrás. 7 de agosto Outro elemento a levar em conta. tristes. sei que a simples presença de Avellaneda bastou para espantá-la. de rouquidões imprevistas. o ócio pode ser fatal. quando se confessa a si mesmo. Por isso. quando se aproxima da sua verdade extrema. que deve estar juntando forças em algum porão imundo. Agora já sei que minha solidão era um horrível fantasma. mesmo pensando por minha conta. que pode até chegar a ser mais decisiva do que a voz da consciência. 8 de agosto Que alívio! Já respondi que não. Não creio que fosse esse o meu caso. Convém ser mais modesto quando o sujeito se enfrenta. Convém ser mais modesto. antes de Avellaneda aparecer. Eu mantinha a mão apoiada sobre um cinzeiro sem cinza. como poderia ser.” Parece que estou vendo o joguinho grosseiro. eu talvez tivesse direito a vacilar. jactancioso. Disse: “Amo você.Quarta. 12 de agosto Ontem à tarde. Não fazíamos nada. O gerente sorriu satisfeito. . Isto é: tomara que não haja. Estávamos tristes: isso era o que estávamos.

em voz muito baixa. Será uma antecipação do grande Ócio Final. não me preocupei excessivamente. 15 de agosto Na próxima segunda-feira começarei minha última licença. Todas . que primeiro a fez perder a fé em si mesma. insuportável. mesmo quando quer segredar. eu posso lhe assegurar que. mas. no corredor. nem pela sua idade. perto da garganta. ali deve car a alma. “Agora sei. uma opressão na qual não parecia estar afetado nenhum órgão físico. pareceu-me que a golfada de ar me chegava desde o estômago. Ah. Eu. Jaime não deu sinal de vida. Não o amo pelo seu rosto. quando Aníbal desembarcou. gerais. Agora sei. Ali. “Até agora. casamento. embora ele desça antes. Talvez não precise dizê-la mais. Ainda bem que alguém sempre explica as coisas. tão simples. de todo modo. porque sempre receei o ouvido viajante das pessoas.” A velha falava aos gritos. “não porque não o amasse. só a disse uma vez. eu me senti viver. Falávamos de mulheres. murmurou Avellaneda. e. Também lhe serve. a velha ocupou o assento dele ao meu lado e foi logo me recomendando: “Não dê ouvidos a esse sujeito diabólico. Tudo em termos muito amplos. faz isso com um sopro barulhento que inunda o ambiente. muito moral sem atenuantes.” Consegui respirar. Quinta. depois de conversarmos um pouco no café. em contraposição. delidade etc. ia uma velha de cara quadrada e chapéu redondo. Sexta. De pé junto dele. mas que era quase as xiante. muito pequeno-burguês. o gozo ante o inesperado são sensações que às vezes minhas poucas forças não suportam. quero crer que sou feito de bom estofo. Eu tinha me encontrado às sete e meia com Aníbal. 16 de agosto Um incidente verdadeiramente incômodo.” Ninguém jamais me havia dedicado um juízo tão comovedor. mas Aníbal. os que usam calças.” Antes que eu articulasse um estupefato: “Como disse?”. como um novelo. Eu me dei conta de que estava atenta às palavras de Aníbal. denigrinte. Então senti uma tremenda opressão no peito. a necessária. nem pelas suas palavras. era uma simples mola do jogo amoroso. no peito. tomamos o trólebus. Essa opressão no peito significa viver. porque não é um jogo: é uma essência. Não sei a que caso concreto nos referíamos.repeti-la era como outro beijo. Avellaneda. nem pelas suas intenções. mas. mas por ignorar por que o amava. Eu o amo porque você é feito de bom estofo. cretino. Sempre consigo respirar quando alguém explica as coisas. São esses que arruínam os lares. vocês. tão vivi cante. há sempre um homem ruim. Porém. quando uma mulher se perde. como o que este ia dizendo era muito edi cante. Quero crer que está certo. O deleite ante o mistério. a velha já continuava: “Um sujeito verdadeiramente diabólico. eu não tinha dito isso a você”. Com que facilidade condenam as mulheres! Olhe. Talvez esse momento tenha sido excepcional.

“Diga-me. “Não lhe dê ouvidos. Parecem-me Coisas. Mas o que lhes parecerei eu? Um imbecil.” Representei mentalmente a insólita imagem de Aníbal chamuscando-se na fogueira. 17 de agosto Esta manhã. ou pelo menos tão próximos do Olimpo quanto pode chegar a sentir-se uma alma sórdida e escura. em vez de car tão furiosa?” As pessoas já haviam começado a fazer comentários. dignos. dez quadras antes do meu destino. eu não conseguia encontrar neles uma cara de Alguém. de que dispõem. em alguma ocasião. mas contrária ao divórcio. meu senhor. para um sentimental. Quando digo “eu”. Pois eu. Só então tive forças para responder. ao observá-los. pedi licença e desci.” Nunca me esqueci nem me esquecerei dessa frasezinha. Hoje. Esse sujeito vai parar na prisão ou vai se matar. Sabe onde vai parar esse sujeito diabólico que acompanhava o senhor? Ah. eu sei. agitando o indicador.4 mas contrária ao divórcio. Foi o divórcio que matou a família. Porque. não é tentar sempre que a mulher se perca. Imagino que. mas que bastaram. por que não cala a boca? O que sabe do problema? O que aquele senhor vinha dizendo é justamente o contrário do que a senhora entendeu. de que são alguém. Para esta pobre gente. sabe?” E quando ela me gritava isso.as cabeças começaram a voltar-se para registrar quem era o destinatário de semelhante sermão. para um místico. antes que ela reiniciasse o ominoso ciclo. no entanto. Porque eu conheço homens que deveriam ser queimados vivos. um joão-ninguém que se atreveu a recusar uma oferta do Olimpo. Para um jogador de futebol.” “E por que não ri a senhora mesma. encontrar em outro ser. sim. Confesso que essa imagem ideal da felicidade. simplesmente porque não a posso perdoar. ouvi o mais velho deles dizer: “O grande erro de alguns homens de comércio é tratar seus empregados como se estes fossem seres humanos. a gente passava em frente aos lares e via sentados na calçada o esposo. Coisas sem grande importância. que a mulher se entregue à má vida. Alcançaram o máximo. para me fazer entender que eles sentem por mim um amável. bem-educados. compreensivo desprezo. alimentar a ilusão de que resolvem. Ria. E a velha continuava: “Eu sou batllista. incólume: “Pense nas famílias de antigamente. senhora. no fundo. com toda a família sentada na calçada. comunicar-se alguma vez com seu Deus. no entanto. o máximo é conseguir sentarse nas poltronas de dirigentes. E faria muito bem. todos judiciosos. não sabe. “E leve em conta que eu sou batllista. Não só em meu . em contraposição. mas sim de Algo. não chegava a me comover muito. o máximo signi ca chegar um dia a integrar a seleção nacional. um incapaz. experimentar a sensação (que para outros seria tão incômoda) de que alguns destinos estão em suas mãos.. a esposa e os lhos. é isso que deve fazer. quando se refestelam nos macios assentos da sala da Diretoria. e não Pessoas.” Então. quero dizer esse inimigo hipotético e fantasmal contra o qual ela descarregava seus impropérios. Ao entardecer. Ali. eu. estive falando com dois membros da Diretoria. havia moral. faz muitos anos. Sábado. nenhuma mulher é má. seu chapéu se desacomodava um pouco para a esquerda. devem sentir-se quase onipotentes. meu senhor. sim. o verdadeiro eco dos seus sentimentos. Eu me sentia como um inseto. A velha tinha seus partidários.” E a velha. A felicidade é isso. os meus.. Uma vez.

As coisas de Isabel são coisas minhas. Isso também se chama frescor. mas são. dessa dissimulação que a gente aplica como uma máscara sobre o velho rosto sensível. mas no fundo são ocos. por sua falta de desa o. Não parecem. Domingo. se o tempo tivesse chegado a desgastar esse ameaçado atrativo do sexo? “Conte-me coisas de Isabel” era um convite à sinceridade.” Mas resisto a essa tentação. neste caso. sobre as perguntas que ela me faz. E minhas. Eles são pessoas. até as zonas mais intrincadas do instinto. não sabia o que esperava dela nem de mim. por sua vez. Quando Isabel apareceu. “Conte-me coisas de Isabel” é um pedido inocente. Agora sinto a forte tentação de inverter a frase e pensar: “O grande erro de alguns empregados é tratar seus patrões como se estes fossem pessoas.nome. os maus momentos serviam para criar a fórmula da desventura. parecer meritório para ser amado. fui sincero.. espontaneidade. não me assombra que.. gosta de mostrar-se melhor ainda diante da pessoa a quem ama. claro. conhecer-se melhor. porque estou fatigado (e. Tive o impulso de fazer isso.” Avellaneda tem isso de bom: faz a pessoa descobrir coisas em si mesma. diante da pessoa a quem pretende. . dos sentimentos. até essas terras realmente virgens. Isabel era boa. depois de obter essa boa imagem. E pessoas dignas de uma odiosa piedade. Asquerosos e ocos. agora sim. quando se passam anos e anos sem que o diálogo vivi cante e investigativo o estimule a levar essa modesta civilização da alma. uma embalagem repugnante. Não obstante. e no entanto. ou foram. Os bons momentos iam formando depois a de nição da felicidade. por sua improvável competição) é assustadoramente cruel. à medida que Avellaneda foi-se inteirando de como havia sido Isabel. Nossa união nunca foi complicada. sinto-me vivo e sacudido. e então sim. 18 de agosto “Conte-me coisas de Isabel. Mas vem Avellaneda e faz perguntas. Não inventei Isabel. eu não era um cretino. quando essa solidão se transforma em rotina. de sentir-se viver. Por isso. Não inventei uma Isabel que me permitiria ganhar pontos diante de Avellaneda. uma sólida hipocrisia. Que imaturidade. a fadiga é quase uma repulsa) da dissimulação. ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido. da mais infamante das piedades. Não havia maneira de comparar. Quando um indivíduo permanece muito tempo sozinho. Mas o que teria acontecido. sim. como também em nome de todo o gênero humano. também fui-me inteirando de como havia sido eu. pois não havia padrões para reconhecer quando era felicidade. inexploradas. que se chama lucidez. meu Deus. primeiro por achar que Avellaneda é digna da verdade. dos desejos. quando desventura. Eu sabia o risco que corria. simples. e depois porque eu também sou digno. e. Todo mundo gosta de ter uma boa imagem. eu me faço muitas mais. O ciúme retrospectivo (por sua impossibilidade de rancor. eu não sabia o que queria. porque a verdade é que formam para si uma casca de orgulho. a nal. são as coisas daquele sujeito que era eu nos tempos de Isabel. E padecem a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo. Contei as coisas de Isabel que verdadeiramente eram dela. mas a quantos abismos leva o espontâneo! Eu tive sorte. e. das repulsas.

quer não. Fiquei à sua espera. vi que se aproximava. Diz que Muñoz. pintei um armariozinho. algo assim como se a estupidez me anestesiasse o cérebro. Não sei o que Robledo lhe dizia. Às 7h05. Quer eu pense nisso. Ao chegarem à Andes. . Quinta. 19 de agosto Comecei hoje minha última licença. 22 de agosto Sinto-me um pouco estranho sem o escritório. mas só cou até as oito. ameaçado outra vez pelo escritório. Tinha de ir ao aniversário de uma tia. Choveu o dia inteiro. o fato é que ela ria sem travas. Terça. Mas vinha com Robledo. Mas talvez me sinta desse jeito por ter consciência de que isto não é o verdadeiro ócio. Desde quando Robledo é tão engraçado? Meti-me num café. a uma quadra do escritório. Deixa-me uma sensação horrível de tempo desperdiçado. Estive a tarde toda no apartamento. Se pelo menos eu tivesse podido falar uma só vez com ele! Quarta. despediram-se.Segunda. Ela dobrou rumo à San José. Ele já teve um incidente com Robledo. 20 de agosto Faz um mês que Jaime saiu de casa. deixei-os passar e depois comecei a caminhar a uns trinta passos atrás deles. é insuportavelmente mandão e pedante. o certo é que o problema me acompanha sempre. Não quero mais fazer isso. 21 de agosto Fiquei em casa e li durante não sei quantas horas. Às sete e meia. Troquei duas tomadas. lavei duas camisas minhas de náilon. Avellaneda chegou. 23 de agosto Eu quis fazer uma surpresa a ela. mas só revistas. como suplente meu. realmente divertida. de que é somente um ócio com prazo fixo. Sexta.

Robledo não interessa. será que a conheço? Robledo não interessa. Eu sabia que a conversa entre ela e Robledo havia sido inocente. que piegas. é um frívolo que jamais chegaria a interessá-la. o Homem que está em todas as esquinas do mundo.” E apareceu na sala de estar com seu avental. “Estava à sua espera para lhe contar a última loucura de Robledo. Ou talvez não. Mas. Claro que não havia nada de ruim em tudo isso. o Homem que é jovem e forte e promissor). Agora estou sozinho. que gura! Fazia anos que eu não ria tanto. Paguei o pingado que não tomei e me encaminhei para o apartamento. sua saia verde. meu amor) seja imprescindível. Mas e os outros. o último alento do tempo. de sua geração. sussurrei. “Por que você chegou tão tarde?”. teria o tempo em suas mãos. a maliciosa morte que já nos tem chados). que convencional me sinto ao escrever: “Ela não é livre. claro. teria a vida inteira. desenvolver-se e rir. enquanto a abraçava. mas. intranqüilo. aborrecido comigo mesmo.Ia para o apartamento. e o que entrevi é o risco de perder tudo. Mas a horrível sensação talvez provenha do fato de ser esta a primeira vez em que entrevejo conscientemente a ameaça de Avellaneda poder existir. seu suéter preto. esplêndido. Estava agitado. em contraposição. a essência da minha inquietação vem do fato de eu ter comprovado isto. se um dia me perdesse (sua única inimiga pode ser a morte. O que havia de ruim nisso? Avellaneda numa simples relação humana. e não um traste velho como eu. Avellaneda longe de mim. sem que meu amparo (ou. se eu a perdesse um dia (meu único inimigo é o Homem. repeti. quantos outros podem enamorá-la? Ela. enquanto aspirava o odor ternamente animal dos seus ombros através do outro odor universal da lã. renovado. ainda sem me soltar. Ela nunca poderá saber do que estava me salvando com essas palavras. nada mais: que ela pode sentir-se muito à vontade com gente jovem. seus olhos límpidos. Tenho uma particular descon ança em relação aos meus períodos sombrios. ainda inominado. porque. sim. o que entrevi é muito. Avellaneda caminhando pela rua junto a um homem jovem. generoso. Simplesmente iria engolir a amargura. De vez em quando. com um sujeito que não era eu. senti que o mundo recomeçava a girar. embora meu coração se sinta agora generoso. devagarinho. que sempre será novo. teria seu coração. isto. e são quase duas horas da madrugada. de volta à minha casa. Ela não entendeu o motivo dessas três palavras nessa precisa oportunidade. No fundo. não meramente burocrática. A não ser que eu não a conheça em absoluto. nervoso. cálidos. Avellaneda rindo com Robledo. sem ela voltaria a ser um coração definitivamente envelhecido. mas alguma obscura intuição a fez perceber que estava acontecendo algo importante. e. só porque me dá forças e me . Não o tomei. mesmo que ela não dissesse nada. era certo. “Avellaneda e eu”. iniciar uma época de pequenas tormentas sem desafogo. Puxei-a para mim e. nem perguntar. onde me serviram um pingado numa xícara que ainda trazia marcas de batom. Que idiota. E outra coisa: o que eu vi não é nada. Separou-se um pouco de mim. Levava comigo um vergonhoso temor ao silêncio dela. especialmente com um homem jovem. alegre. e pediu: “Vamos. eu não iria investigar. Sobretudo.” “Avellaneda e eu”.” Livre para quê? Possivelmente. obediente. digamos. Bom. aquela ameaça concreta que se chamara Avellaneda e os Outros. Avellaneda vivendo por sua própria conta. senti que podia outra vez relegar a um futuro distante. sobretudo porque sabia de antemão que. nem censurar. gritou ela da cozinha. Entrei num botequim bem imundo. Creio que minha mão tremia quando girei a chave na fechadura. sinceros. perderia com ela a última oportunidade de viver. todos os outros do mundo? Se um homem jovem a faz rir. mas tampouco reclamei com o atendente. diga outra vez. Porque Robledo não tem como saber que ela não é livre.

” Sábado. uma ânsia de religião. não? Foi uma criatura magrinha. No entanto. claro. de cabelo escuro e liso. um Deus que me responda quando eu o interrogo. porém. Eu não conseguiria ser tão categórico. diz com freqüência Avellaneda. cabelo negro e pele muito clara. de que seus pais são magní cos. importa-me que Deus esteja ao meu alcance. nem sequer com meu raciocínio. Os olhos são serenos. São raras as vezes em que penso em Deus.revigora e me afirma. diferente. No entanto. “é o que mantém tudo em equilíbrio. uma debandada geral da minha lucidez e das minhas razões.” Sou capaz de entender ambas as de nições. 25 de agosto Ela me trouxe fotos de sua infância. agrada-me que ela esteja segura. e o animal a olha com ar de proteção. não com minhas mãos. Há uma foto deliciosa em que ela aparece com um enorme cão policial. harmônico. A partir dessa imagem. quando tinha 12 anos. continuo repetindo: “Avellaneda e eu. eu. Está segura de que o trabalho a as xia. de olhos algo espantados. Deus é a Grande Coerência. tenho um fundo religioso. “Deus é a Essência de tudo”. 24 de agosto São raras as vezes em que penso em Deus. Domingo. Há uma foto em que está com seus pais. em harmonia. de seu mundo. Importa-me apreendê-lo com meu coração. um átomo precariamente encarapitado num insigni cante piolho do seu Reino? Não me importa ser um átomo do último piolho do seu Reino. Se Deus é a Totalidade. mas nem uma nem outra é minha definição. está bastante segura do que quer. com dois sinais na face esquerda. Imagino que todo mundo sempre teve vontade de protegê-la. de sua família. Mas não possuo nada semelhante. é que ela não se equivoca. Quisera me convencer de que efetivamente possuo uma de nição de Deus. se é algo tão incomensuravelmente in nito. de que a morte não é o m de tudo. Eu também fui lho único. de que o marxismo é um grave erro. mas não é esse o Deus de que preciso. um conceito de Deus. “Deus é a Totalidade”. É uma prova de amor. E não é fácil. O melhor de tudo. um Deus em quem possa buscar amparo. Filha única. Além disso. eu também me animo a construir minha impressão desse casal singular. importa-me apreendê-lo. de que gosta de mim. a pessoa acaba por sentir-se desamparada. Provavelmente eles estão certos. nariz no. de que nunca se suicidará. quando o metralho com minhas dúvidas. de que Deus existe. de que as pessoas em quem con a nunca lhe falharão. diz Aníbal. simplesmente porque o problema me excede tão demasiada e soberanamente que chega a me provocar uma espécie de pânico. a Grande Coerência. Sua segurança lhe serve até para amedrontar o destino. talvez . A mãe é uma mulher de traços suaves. se Deus é só a energia que mantém vivo o Universo. Preciso de um Deus com quem dialogar. o que lhe posso importar. não é tão indefesa assim.

mas me parecem capazes de compreender tudo. 26 de agosto Contei a Esteban. Sei que.” “E quanto a você e eu? Estamos nos queimando?”. diz Avellaneda. eu nunca sei em qual dessas zonas acontecem as relações de papai e mamãe. é muito fácil proclamar o que é mau e o que é bom. que também podem ser chamados falta de paixão. Mas. Sabem também que tudo isso. quando não nos sentimos envolvidos nelas. mas nada agressivo. de ombros algo estreitos. Não se queimam. mas não é capaz de comunicar-se com o mundo. a con ança. Só uma. inevitáveis sacrifícios e renúncias que podem parecer inexplicáveis para quem apenas observa. é uma imagem verdadeira à qual se sobrepuseram as imagens e as lembranças dos outros. e não creio que eles mesmos o tenham de nido. honestos. Jaime o havia informado. naquilo que vêem viver. Não. a piedade. generosos. São os olhos de um indivíduo que está surpreendido pelo mundo. as coisas mudam. Na realidade. mas de alheamento. mas a bondade dela me agrada mais do que a dele. “mas não sei se esse é o modo de amar que me agrada. Os dele têm um certo desequilíbrio. Ambos são (isso se vê nos seus rostos) boas pessoas. Foi um grande alívio constatar que ele já sabia. Tomara que você que bem. esse equilíbrio. certamente. demasiado equilíbrio para que efetivamente exista amor. isso de você se unir a uma moça tantos anos mais nova. fáceis de confundir. a camaradagem. Essa serenidade. não super cialmente bem. poderiam ter sido insuportáveis se eles tivessem tido algo a reprovar um no outro.” Ela sacode a cabeça para acompanhar a dúvida e depois se anima a acrescentar: “Relacionadas com os sentimentos há várias zonas vizinhas. de modo que não se pode saber o que iria acontecer no dia em que essa comunicação chegasse a estabelecer-se. de modo que estávamos sozinhos ao meio-dia. Eles se sabem bons. e isso que os une dura mais ainda. e seu olhar também parecia o olhar de alguém surpreendido pelo mundo. É algo muito difícil de de nir. mesmo sendo tão magní co quanto é. talvez: ela penteando- . a ns. Blanca tinha ido almoçar com Diego. Os olhos das pessoas me preocupam muito. ainda não signi ca amor. Ela acha que há demasiada serenidade em sua união com meu pai. Mas uma coisa é certa: não me atrevo a julgá-lo. mas bem mesmo. de alienação. mas nesse preciso instante ela estava distraída. “Eles se amam. Segunda. O pai é um homem excelente. com uma calvície que já naquela época havia feito estragos. quando estamos metidos no problema até o pescoço (e eu estive assim muitas vezes). Já não sei qual dessas lembranças é exclusivamente minha. a intensidade é outra. papai. pelo mero fato de encontrar-se nele. eu não consigo entender totalmente nem creio que seja a melhor solução. quando vemos as coisas de fora. uns lábios muito delgados e um queixo muito pontudo. O pai é um homem alto. uma das mais agradáveis sensações que o ser humano se pode permitir. mencionei o tema em conversas com mamãe. “Olhe. perguntei. Uma ou outra vez. talvez não sirvam para comprometer-se totalmente no espetáculo a que assistem. aparecem profundas convicções. Mas não há reprovações nem motivos de reprovações. Tomara que se sinta ao mesmo tempo protetor e protegido. nem signi ca que se queimem nesse fogo. Eu me lembro muito pouco de mamãe. disso tenho certeza”. pelo mero fato de encontrar-se nele.demais. a ternura. O amor.

porque acompanhei seu processo e vi você reviver. esse é meu semelhante. divertido. 27 de agosto Frio e sol. Mas. passo capenga e raivoso). ver como se precipitam todos rumo aos seus destinos. potencial. com seu cabelo comprido e escuro lhe escorrendo pelas costas. Fazia isso com parcimônia. Ainda ignora que eu existo. e nunca mais voltará por aqui. Eu a vi antes. gostaria muito de que você tivesse acertado e se aproximasse o máximo possível da boa sorte. Fiquei chocado mas admito o fato. sem jamais se sentirem encurralados. Mesmo que eu viajasse. o desalentado cabecear das árvores. o desvio que é preciso fazer para contornar o chafariz. eu nunca havia tido consciência da presença da Plaza Matriz. de sua vida sem reservas.se no quarto. Nisso (e provavelmente em nada mais). quase etéreo. com o tempo. Esse que passa (o de sobretudo comprido. como ver passar a Gente e esquadrinhar seus rostos. em esplêndida azáfama. claro que a vi. E agora admito mais ainda. Creio que nesse momento a rmou-se de nitivamente em mim uma convicção: eu sou deste lugar. talvez tenha amaldiçoado. No entanto. inconscientes de sua brevidade. mesmo que fosse embora daqui e tivesse a oportunidade de me surpreender com paisagens. Cada um é de um só lugar na terra e ali deve pagar sua cota. E seria um garçom ativo. depois de abrir um jornal sobre o cocô dos pombos.” Terça. exemplar. Como me sentiria eu. orelha de abano. com livros. Devo tê-la atravessado mil vezes. reconhecer aqui e ali expressões de felicidade e de amargura. o mais benévolo. até agora. é assim que ela existe para mim. Ela era muito bonita. porque sei que você estava muito só. que é o mais afetuoso. obras de arte. de sua insigni cância. Deve ser fabuloso trabalhar com gente. Creio que. a face hipocritamente lavada da Catedral. Eu sou daqui. para senti-la. para captar seu caráter e reconhecê-lo. caminhos. nesse caso escolheria ser garçom de café. Como vê. memorioso. e dar-me conta de como avançam. e terá a sensação de que entre nós existe . Portanto. com planilhas. Diante de mim. Buscaria suportes mentais para não esquecer os pedidos de todos. Fui até a Plaza Matriz e me sentei num banco. creio que devo ser um fatalista. Fiquei um bom tempo contemplando a alma agressivamente sólida do Cabildo. fui-me habituando a considerá-la algo ideal. mas um dia me verá de frente. inalcançável. não posso julgá-lo. monumentos. Sol de inverno. de per l ou de costas. como se estivesse acima de todos os impulsos. quei um pouco chocado quando Jaime me disse que você andava com uma moça. nada me fascinaria tanto como a Gente. Deve ser magní co trabalhar sempre com caras novas. e mais. desta cidade. mas não me havia detido para observá-la. em outras muitas ocasiões. um operário municipal limpava a grama. Por isso. Gente é algo formidável. pede um café. falar livremente com um sujeito que hoje chega. o que recordo de mamãe não é muito. em insaciada turbulência. Não era? Compreendo que por certo essa representação minha tem pouco a ver com o que mamãe verdadeiramente foi. outra rotina diferente desta que me desgastou durante trinta anos. Se eu pudesse escolher outra pro ssão diferente desta que tenho. em vez de trabalhar com números. sem admitir que estão encurralados. se fosse um operário municipal limpando a grama? Não. essa não é minha vocação. Aqui pago minha cota. não o julgo.

Ao que parece. um recôndito laço que nos une. alguém lhe fez o horóscopo e lhe previu o futuro. a pessoa poderia regular seu ritmo de vida. Assim. Mas não importa. gurava eu. Estou numa idade em que o tempo parece e é irrecuperável. Estava preocupada com seu horóscopo. de nal. não me prestou muita atenção. autorizei-a e basta. sem mais nem menos?” “Eu não sei se é possível. tenho de gastar esta plenitude sem nenhuma reserva. Hoje fui ao cinema. se a gente soubesse quando vai morrer?” “Pois eu gostaria de saber quando vou morrer. Eu disse que ela parecia um pequeno jornaleiro. Se fosse possível conhecer a data da própria morte. Imagino a bronca de Muñoz. é meu semelhante. consegui gostar. Quinta. meio apagado mas inteligente. a garantia daquilo que é. Tenho de me agarrar desesperadamente a esta razoável ventura que veio me buscar e me encontrou. Mas não importa. está indo agora mesmo. e eu pense então nesta pressa. da minha própria paciência. Já imaginou que vida assustadora.algo secreto. Este dia com Avellaneda não é a eternidade. que nos emparelha. que nos comunica. daquilo que está sendo. um pobre. me parece uma armadilha. Portanto. talvez haja depois muitos dias como este. Ela. de qualquer maneira. e eu não consigo suportar essa sensação de escape. para este ar que nos faz próximos. “Homem maduro. Talvez. limitado dia. que todos nós. Seria horrível. tenho de acelerar. nesta impaciência. cansei-me de mim mesmo. Quarta. sem previsão alguma. Não somente imagino como compreendo. Não quero saber o que vai me acontecer. que nos dá forças para nos entendermos. Não é a eternidade. mas. o ócio assegurado. A vida se vai. Fazia frio. seja como for. porém. com o cabelo preso. Sinto falta de Avellaneda.” Que tal? Esse sou eu. Vi um lme de caubói. sobretudo. não posso colocar as preocupações de Muñoz acima das minhas. Eu. a nal. assim. Ou talvez esse dia nunca chegue. de encerramento. Por isso é que não posso me tornar magnânimo. talvez ele não atente nunca para esta praça. parecia um rapazinho. de muita bondade. é só um dia. Avellaneda cou o dia inteiro de suéter e calça comprida. como num ridículo esgotamento. a partir dali. de Deus para baixo. é o único sucedâneo verdadeiro da eternidade. indigno. Mas este Enquanto Isso traz o alívio. sozinho. nesse futuro gurava seu atual emprego e. 28 de agosto Só me restam quatro dias de licença. “O que você acha? É possível prever o futuro. gastar-se mais ou . Um ano atrás. só talvez. mas é o instante. Talvez depois venha o ócio de nitivo. com dois funcionários a menos na seção e toda a responsabilidade sobre seus ombros. Até o meio. condenamos. Não sinto falta do escritório. que. generoso. seu chefe. Ela cou o dia inteiro comigo no apartamento. 29 de agosto Pedi a Avellaneda que faltasse ao escritório.

isso pareceria monstruoso. Não tive outro remédio senão imaginar as duas moças intercambiando suas respectivas imagens incompletas sobre este sujeito simples que sou eu. “Não que triste”. sou um veterano de quem duas jovens estão se ocupando. pediu-me perdão. quando me olha. Blanca soltou sem querer uma frasezinha reveladora e tudo cou a descoberto. Blanca recebeu hoje uma carta de Jaime. sou capaz de encomendar gêmeos. “E não lhe importa a viuvez. disse pela centésima vez que Blanca era estupenda. e morrerá de uma doença circulatória. escrevi todos os dias. 30 de agosto Durante a licença. por mim. Avellaneda. de acordo com o saldo que lhe restasse. sei que quer ter lhos. O parágrafo que ele me dedica diz assim: “Diga ao velho que todos os meus amores foram platônicos. ali pelos 80 anos. “se você car triste.” Simplesmente uma mocinha encarapitada no sofá. porque minha credulidade não chega a esse ponto.” No princípio isso me pareceu uma brincadeira miserável.” É muito ódio concentrado para que seja verdadeiro. porque estamos aprendendo muito sobre você. Agrada-me que sejam amigas. 1º de setembro . 31 de agosto Avellaneda e Blanca se encontravam sem que eu soubesse. através de mim. Sábado.gastar-se menos. ele pode virar-se para o outro lado e respirar tranqüilo. Vou acabar pensando que este filho me ama um pouco. por minha causa. quando tiver pesadelos em que apareça minha imunda pessoa. rancorosa. mas depois me comovi. que as predições passam ao seu lado. violenta. Sei que você é indestrutível. Há curiosidade nisto. “Não queríamos lhe contar. ainda que seja uma viuvez clandestina?” “Não me importa. Por enquanto.” Ela percebe que minha resposta é a prudência em pessoa. sofre por isso e se agarra ao vaticínio. Uma espécie de quebra-cabeça. pelo menos um. Reintegrar-me ao trabalho vai me custar um grande esforço. mas cará viúva (bah).” A mim. e a ponta do nariz vermelha de frio. mas às vezes não posso evitar a sensação de estar sobrando. claro. digo. mostrou-se muito culpada. mas. Sexta. que será feliz. sem tocá-lo. Domingo.” Sabe o que penso. mas também há carinho. Na realidade. “Você quer ter?” “Não estou muito certo. Esta licença foi um bom aperitivo para minha aposentadoria. por sua vez. Mas a previsão diz que Avellaneda terá dois ou três lhos. Ela se preocupa muito com esses dois ou três lhos. Portanto. com as pernas encolhidas.

ele me amava. o mero fato de chegar primeiro) e talvez não tivesse sabido aproveitá-las. O pobre do Muñoz se afoga num copo d’água. Martínez está bramindo de raiva. Segunda. Ainda o estimo. por que tanta certeza? Você não disse que ele é boa pessoa?” “Claro que é. Avellaneda me falou do seu antigo namorado. mas o certo é que tinha uma habilidade especial para me ferir. todos os meus sentidos caram atentos a esse Porém. a solapar o terreno do pobre Enrique Ávalos. porém. nem ele é tão frívolo para não se comover com um sentimento verdadeiramente intenso. nos livros copiadores. 2 de setembro Receberam-me como um salvador: com todos os problemas sem resolver. para fazer a cara preocupada de alguém que na verdade lamentasse que tudo aquilo tivesse acabado numa frustração. a Valverde apareceu. Até tive forças para advogar pelo meu . porque nem eu sou tão profunda para me incomodar com uma boa dose de frivolidade.” Percebo que sempre temi esta explicação. mas também percebo que meu maior temor era que não viesse nenhuma. ou seja. Exatamente. O namoro só durou um ano. Porque o namorado tivera suas vantagens (idade.Acabou-se a farra. Possivelmente. “É boa pessoa. trarão um subgerente de outra companhia.. sim. As di culdades eram de outra ordem. mas estou certa de que não poderia ser nem medianamente feliz com ele. Penso nas planilhas de vendas. outra vez no escritório. é mostrar-se tão compreensivo. na voz do gerente. Este também será platônico? Comenta-se que. aspecto. que me soava a música celestial. eu ainda o estimo. pela primeira vez depois da borrasca. começavam as minhas. Terça. De qualquer modo. em vista da minha negativa. estava disposto a aproveitá-las. Ele se chama Enrique Ávalos e trabalha no Município. eu o exasperava. A experiência me ensinou que um dos métodos mais e cazes para derrotar um rival no vacilante coração de uma mulher é elogiar sem restrições esse mesmo rival.. Mas não basta. era porque o assunto já não importava tanto. A partir desse Porém. Creio que o obstáculo mais intransponível era que não nos sentíamos capazes de nos comunicar. de abril do ano passado até abril deste ano. Ela balança o traseiro com um entusiasmo digno de melhor causa.” “Bem. na borracha de apagar. Hoje. e meu estômago fica revirado. Ele me exasperava. Se Avellaneda se atrevia a mencioná-lo. Nem sequer posso acusá-lo de ser muito frívolo e alegar que sou muito profunda. Santini estava mais maricas do que de costume e me fez uns trejeitos bastante escandalosos. Parece que veio um fiscal e armou uma confusão tremenda sobre uma bobagem. tão nobre e tolerante que o próprio interessado se sinta comovido. Precisei fazer um grande esforço para que a satisfação não me in asse as bochechas. nos talões de cheques. “Verdade. Amanhã. 3 de setembro Pela primeira vez. vá-se saber.” Estupendo. e eu.

Robledo. Sinto-me feliz. Por trás do meu sorriso. como se quisesse me con rmar que se lançou à aventura em grande escala. É como se Avellaneda participasse da minha alma. como se estivesse encolhida num cantinho da minha alma. havia palavrões a granel. meu sorriso chegou de orelha a orelha. mas agora não posso. o método mais e caz para melhorar a convivência. sei que eu teria acrescentado aqui: “Pelo menos. do quanto ela havia trabalhado bem durante minha licença. um maravilhoso derrotado.inimigo: “E você chegou a pensar se não tinha também um pouco de culpa? Vai ver que ele a feria simplesmente porque você estava sempre esperando que ele a ferisse.” Sorriu mecanicamente. para que esses insensíveis se mostrem emocionados? Até o gerente me chamou e. na realidade. Viver eternamente na defensiva não é. Quinta. com uma jovenzinha bastante vistosa. eu sorri mecanicamente. muito escondido numa mesinha do fundo. Em outro momento. e já não me importou dedicar-me a arruinar para sempre os prestígios ainda sobreviventes do pobre Enrique. simplesmente porque não estaria certo. aquele par me pareceu um tanto lastimável. vi-me pensando: “E eu?” Claro que Vignale é .” Formulei um elogio comedido. ainda melhor do que se falasse comigo mesmo. 4 de setembro Muñoz. esperando minha con dência. pelo menos. por sua vez. de longe.” Isso já era superior às minhas forças de contenção e ngimento. Temos uma imperiosa necessidade de nos dizer tudo. também me diz tudo. Eu falo com ela como se falasse comigo mesmo. reclamando minha sinceridade. Ela. assim creio”. no tom mais convencional do mundo. Mas o Caranguejo acrescentou: “Sabe por que lhe perguntei? Porque talvez a traga para cá. com toda a certeza. O que está acontecendo? Como se terá comportado Avellaneda nestes dias.” Então ela sorriu e disse apenas: “Com você. De repente. Sexta. eu não preciso viver na defensiva. A satisfação se derramou por todos os meus poros. Agora sei que ela me diz tudo. Cumprimentou-me com um grande aceno. Assim. Quarta. de quão boa colega havia demonstrado ser. entre outros assuntos. 5 de setembro Creio que nisto sentimos de modo igual. 6 de setembro Vi Vignale na confeitaria. soltou esta frase distraída: “Que tal essa moça que o senhor tem em sua seção? Tenho boas informações sobre o desempenho dela. como secretária. Méndez me falaram com insistência de Avellaneda.

. pensando melhor. Domingo. balancetes. Nunca em minha vida. Mas essa pureza não é hipocrisia. até o ato mais de nitivamente consagrado ao sexo se torna quase imaculado.um tipo grosseiro. Essa pureza é amar cada centímetro da pele dela. é percorrer seu ventre. O caso é que Menéndez comprou um bilhete inteiro para a loteria de amanhã. Não. Às vezes. mais insuportável me parece o escritório. Temo que minha resistência a sair com ela se baseie. 8 de setembro Esta tarde zemos amor. no entanto. antes de tudo. a moça lançou-lhe uma olhada dura. 9 de setembro Na seção de Vendas. Sierra e Avellaneda. Disse que desta vez não iria mostrá-lo a . penso que Avellaneda é como um molde que se instalou no meu peito e o está ampliando. Já havíamos feito muitas vezes e. Tenho ternura e me sinto orgulhoso de tê-la. 7 de setembro O amigo de Esteban marcou encontro comigo. O fato é que eu ignorava ter em mim essas reservas de ternura. não pode ser. Bem. mal-educado. nem com Isabel nem com ninguém. eu me senti tão perto da glória. que entrou na empresa fazendo parte do mesmo grupo que Santini. porque agora minha vida tem Avellaneda. Mas hoje foi algo maravilhoso. apostador inveterado. poro a poro. não daria um ano de vida. é aspirar seu cheiro. Avellaneda não me olharia assim. empolado. Mas e eu? Como sou para quem me olha de longe? Saio muito pouco com Avellaneda. E não me importa que esta seja uma palavra sem prestígio. É levar o desejo até o ápice. prepararam um trote sanguinário para um tal de Menéndez. rapaz ingênuo. num vigiado temor a car mal. Num momento em que Vignale estava falando com o garçom. de desprezo. supersticioso. contralançamentos. não é afetação. declarações de renda. Sábado. Segunda. Até o desejo se torna puro.. É praticamente certo que minha aposentadoria esteja pronta dentro de quatro meses. Sei que me restam apenas quatro meses de lançamentos. Nossa vida transcorre no escritório e no apartamento. contas de ordem. É curioso: quanto mais me aproximo do descanso. Mas daria um ano de vida para que esses quatro meses se reduzissem a zero. deixando-o em condições adequadas para sentir mais a cada dia. não é aparentar que eu só viso à alma. não o registrei aqui.

ao abrir a carteira para pagar. O plano estabelecia que. Só que ninguém havia previsto que Menéndez desse um pulo e saísse correndo lá para os fundos. deve ter pesado todas as possibilidades e também descartado qualquer possível trapaça. O homem gostou tanto da idéia que.” Isso é o mais horrível: Menéndez está efetivamente demitido e. Gaizolo chegou da rua e disse em voz alta: “Puta merda. Creio que. Se tiver saído o 301. que já tardiamente me dei conta deste último lance. mais deprimente de todos os . mais pesado. dirigindo-se a Menéndez. Terça. agarrei-o pelo braço e puxei-o à força para fora. cou paralisado. Menéndez. veio a primeira pergunta prevista: “Ah. Quando os outros souberam da notícia. nesse momento. Só por uns minutos. e depois. mas o Caranguejo é in exível. Eu. mas não havia outro remédio. Às 14h45. todos. Viu os grandes e nítidos algarismos do 15. Menéndez fraquejou das pernas. em equipe. Peña saltou de sua escrivaninha: “Rapaz. abriu a boca sem conseguir fechá-la. que raiva. além disso. Esse imbecil está demitido. 10 de setembro Foi terrível. tapou os olhos com a mão direita.” Parece que Menéndez virou a cabeça com toda a parcimônia. depois ele o apagará. antes que o gerente pudesse conter o próprio assombro. por ter o palpite de que. em determinada hora. dê uma olhada lá na lousa. contra o previsto. conhecia o número. concordou em colaborar. Ele não se deu conta. Mas esta tarde veio o cobrador do Peñarol. entrei atrás dele no gabinete. A versão de algumas testemunhas é que o infeliz entrou sem bater no gabinete do gerente (o qual.301 no lugar do primeiro prêmio. Sentei-o numa cadeira e entrei no gabinete do gerente para explicar o episódio. nesse momento. viriam curtir a cara dele. mas o cretino não podia tolerar que o representante americano tivesse presenciado sua humilhação: “Não se dê o trabalho de me explicar uma história inacreditável.ninguém.” Lá do fundo. o número iria sair para o prêmio máximo. que trabalha diante do janelão: “Vamos. em meio às caixas de pernos e pistões. estou feito.301 e. foram em delegação à gerência. foi a resposta malandra. enquanto ele se sacudia numas gargalhadas elétricas que eu nunca poderei esquecer. anote na lousa o número 15. amargurado para sempre. Jamais vi um homem desmoronar de maneira tão irremediável e repentina. Este deve ter sido o dia mais triste. e ele me sai justamente hoje. nesse instante. por um momento. Mas o itinerário do trote terminava ali. A brincadeira que prepararam para amanhã é a seguinte: combinaram com o dono da lotérica em frente para que. disse-lhe quase aos gritos a verdade verdadeira. Senti-me horrível ao fazer isso. Aqueles cinco minutos de ilusão frenética vão ser indeléveis. Ninguém. exceto ele. atendia a um representante de uma rma americana). então deu nal um? Você se lembra dos dois algarismos?” “Zero um”. Então. tascou-lhe um sonoro beijo na careca. na atitude de quem ainda está se contendo para não se iludir. se não o mostrasse. Ali. Apostei no um até o sábado passado. e acrescentou em seguida. anotou mentalmente o número e de imediato espalhou a informação. um cretino em permanente estado de alerta. eu joguei no 301”. mas Rosas. só depois. e Menéndez. praticamente jogou-se em cima deste e. deixou por alguns segundos o bilhete sobre o balcão.

Vamos ser bons amigos. Até agora. que exista um matutino com 17 editorialistas que escrevem como um hobby. Falta paixão. no fundo de ambas as abstrações. abriu uma caixinha e me mostrou o outro: uma conchinha de caracol alongada. ou lá como se pre ra chamar. e. um fundo de aburguesada acomodação. Eu mesmo estou me repreendendo por não o ter posto de sobreaviso desde ontem. com franca e provocadora ansiedade. clamam contra a horrível praga do descanso. que consideram absurdo o que está acontecendo. porém. Quero que seja sua. Pelo menos. no fundo de si mesmos. pergunta Diego e volta a perguntar. conversei longamente com os dois. não a vejo. Veio uma onda e deixou isto aos meus pés. Diego quer fazer algo rebelde.muitos anos que passei no escritório. a reação ignorante e inócua ante a misti cação. sem dissimular muito. sua preocupação se chama Eles Mesmos. Na última hora. a carência de impulso social. mas se limitam a lamentar. Depois. Ele acha assustador. de rígidos ideais. Creio que foi o momento mais feliz da minha infância. Acha ​r idículo?” Agora. 17 rentistas que. o que sente com intensidade máxima é um inconformismo agressivo. renovador. de minha parte. 17 almofadinhas que usam toda a sua inteligência. no dia em que z 9 anos. Mas ninguém podia imaginar que sua reação fosse ser tão fulminante. Deve ter consumido integralmente suas economias. 11 de setembro Depois de amanhã é meu aniversário. ou a reparação. de um bangalô em Punta del Este. o pessoal decidiu contribuir com uma pequena porcentagem. é o objeto material de que mais gosto. e entregar-lhe o dinheiro. Sua preocupação é o país. Mas houve um obstáculo: Menéndez não aceita o presente. sua própria geração. consideram injusta. Pobre sujeito. que você a guarde consigo. uma diatribe que. Parece-lhe funesta a apatia de nossa gente. a conchinha está na palma da minha mão. de módico embuste. por exemplo. estimulante. positivo. “Quanto a mim. Há pessoas que entendem o que está acontecendo. Blanca está se tornando outra preocupada. no qual ainda falta um pouco de coerência. Também não quer falar com ninguém do escritório. até completar o total do salário dele. toda a sua lucidez. 12 de setembro Diego é um preocupado e. a confraria dos cruéis teve um gesto bondoso: enquanto Menéndez não achar outro emprego. Revolta-o que as esquerdas carreguem. como uma gentileza do mar. para preencher de habilidosa convicção um tema no qual não acreditam. mas Avellaneda já me mostrou seus presentes. Quinta. “O senhor vê alguma saída?”. Esta noite. não sabe bem o quê. a democrática tolerância ante a fraude. Coitadinha. que mais admiro. de linhas perfeitas: “Peguei-a em La Paloma. Quarta. Primeiro me deu o relógio de ouro. um pouco encabulada. esse . por sua in uência.

as alegrias e as dores a prazo xo. Sábado. 15 de setembro Ela ri. Eu pergunto: “Você faz idéia do que signi cam 50 anos?”. um pouco de comiseração por este tipo enrugado. não serve para mudar o mundo. Detesto os aniversários. Mas. talvez se dê conta de tudo e vá depositando várias coisas nos pratos da balança. Ou se é ou não se é. já que sua aparente surdez é uma espécie de autodefesa. de covarde e malsã autodefesa. a data de ontem não passou em vão. por exemplo. ou pensada aos gritos. a partir deste dia estou em condições de me aposentar. que no 25 de agosto nos emocionemos ao simples indício da bandeira nacional. e minha alma despencou até o chão. que nunca chegou nem chegará a nada. mas a objetividade é inofensiva. Parece-me deprimente. no fundo. fomos serenos. quando eu estava me olhando no espelho. Durante vários lustros. Fiquei diante do espelho e não pude evitar um pouco de piedade. nem sequer para mudar um país de bolso como este. Então. 14 de setembro Ainda assim. é boa pessoa e não me diz nada. e ela ri. objetivos. ou escrita aos gritos. Ou seja. por outro lado (isso é o pior). o mais trágico é ser medíocre e saber que se é assim e não se conformar com esse destino que. pensei: “Cinqüenta anos”. e por duas horas e meia esqueceu que havia completado 50 anos. É preciso gritar nos ouvidos das pessoas.é o segredo deste grande globo democrático em que nos transformamos. esse dia se transformará em algo útil. em vários momentos do dia. O mais trágico não é ser medíocre. Uma data que parece sentenciada para fazer balanço. Não menciona que chegará um instante inevitável no qual eu a olharei sem sexo. que em 2 de novembro devamos chorar em coro pelos nossos mortos. viu seus olhos se iluminarem. que nunca chegou nem chegará a nada. 13 de setembro Completo hoje 50 anos. No entanto. Falta paixão. É preciso conseguir acordar nos outros a vergonha de si mesmos. Domingo. apareceu sobre meu ombro a cabeça de Avellaneda. e paixão gritada. é de rigorosa justiça. não importa o dia.” Sexta. mas inconsciente dessa mediocridade. de olhos fatigados. Mas eu estive fazendo balanço o ano inteiro. No dia em que o uruguaio sentir repulsa pela sua própria passividade. E o tipo enrugado. substituir neles a autodefesa pela auto-repulsa. em que sua mão na minha mão não será um . Hoje.

Depois tomamos um táxi e deixei-a a duas quadras de sua casa. porque terá passado a época das tormentas. tive certeza de que entre ela e mim existe uma comunicação. inócuo. pelas mais remotas atrizes de cinema. por um amigo de Jaime. É incrível: anos e anos passaram sobre meu rosto e sobre o dela. quem sabe. Esta deve ser a frase mais piegas. Uma mulher invencível. Segunda. na realidade. Por que será que o verdadeiro é sempre um pouco piegas? Os pensamentos servem para edi car a dignidade sem evasivas. apertou meu braço e perguntou quem era. voltou-se e me fez um aceno alegre com a mão. Avellaneda percebeu a sacudidela. aparece uma nuvem. Então olharei para ela e não poderei sentir ciúme. pelas lhas dos amigos. nos afrouxam. e eu lhe comprei um xarope expectorante. mesmo se eu me casasse com Avellaneda. predestinada. .choque elétrico. na Dieciocho com Yaguarón cruzei com a mãe de Isabel. um salto de raiva e impotência. “Minha sogra”. Creio que não cruzei com ninguém do escritório. Ela não quer correr o risco de que seu pai que sabendo. com um olhar que também pode chegar a ser diagnóstico e desenganador. Olharei para ela e não poderei sentir ciúme em relação a ninguém. Está resfriada. quando ali chegamos. Quanto mais dignos forem os propósitos a cumprir. minha Sogra que procede diretamente daquele Deus de terror que oxalá não exista. Quis ser visto com ela. 16 de setembro Saímos do escritório quase juntos. mais ridículos parecem os propósitos não cumpridos. fui visto pela mulher de Vignale. Então fomos à farmácia. passeei com ela e com eles ao longo da Dieciocho. mesmo se nunca tivesse sido o marido de Isabel. não pode provocar cicatrizes nem acelerar o coração. mais ridícula. mas Avellaneda não quis ir para o apartamento. que já deixei cair nesta caderneta. meu coração continua sofrendo um baque. as reservas estão de tocaia na realidade. No fundo. mas as evasivas. E nesse instante senti-me confortado. mas tranqüilamente certa. quando a vejo. o equilíbrio sem reservas. nada disso é muito importante. e depois literalmente envolveu Avellaneda numa longa olhada. havia simplicidade. só ciúme em relação a mim mesmo. Além disso (que horrível além disso!). ciúme ante este indivíduo que sente ciúme de todos. Caminhou alguns passos. Porque. em que conservarei por ela o suave carinho que se tem pelas sobrinhas. inevitável. decisiva matrona de 70 anos teria sido sempre e até sempre minha Sogra Universal. poderosa. aprazível. desvalida. Ela me cumprimentou. em contraposição. que o mundo também se detém às vezes para nos contemplar. por dois parentes dela. no céu deserto dos 70. no entanto. as claudicações. tão admiravelmente invencível que o mínimo a fazer é tirar-lhe o chapéu. quanto mais não seja para me recordar que o mundo é isso. esta altíssima. um carinho que é uma espécie de condecoração mental mas que não pode ferir nem ser ferido. E é verdade: minha primeira e única sogra. um carinho manso. respondi. Mas. talvez. já se sabe que é a nuvem da morte. que era ao mesmo tempo diagnóstica e desenganadora. que parece uma antecipação do monótono amor de Deus. com a mesma reticência agressiva de vinte anos atrás. e nos desarmam. Mas no gesto havia familiaridade. mais do que um baque. e. A mais verdadeira. Quando. Saí com Avellaneda e meus 50 anos. o estoicismo sem claudicação.

19 de setembro Hoje. mais do que tudo isso. tenho de dizer. sim. Avellaneda não veio. Quarta. Sujeito repugnante e ao mesmo tempo divertido. Domingo. comecei a ter saudade de Avellaneda. 22 de setembro . e de repente sua ausência me foi insuportável. Tem namorado. toda a convicção. andaram falando sobre ela. o que vale é esta ausência. Mas hoje ela também não foi trabalhar. Avellaneda não veio também hoje.Terça. 21 de setembro Confessei minha decisão a Blanca e deixei-a feliz. Parece que sua mãe telefonou quando eu não estava. Na seção. Esta tarde fui ao apartamento e em cinco minutos tudo me cou claro. de novo. à sua presença! Sábado. Sexta. Como estou acostumado a ela. mais do que todas as conversas com ela. Diz que a irmã já não vai dançar nua para ele. 18 de setembro Santini retomou as con dências. Disse que a filha está com gripe. 20 de setembro Hoje. porque agora. sim. e então falou com Muñoz. Quinta. 17 de setembro Avellaneda não foi ao escritório. Mais do que todos os argumentos que eu mesmo vinha me apresentando. encontrei toda a força. Em cinco minutos desapareceram todos os escrúpulos: vou me casar. Tenho de dizer a Avellaneda.

Faleceu significa apenas um trâmite: “Uma notícia má. Parece-me que a voz perguntou várias vezes: “Como disse. não pode destruí-la. estava dando de ombros. 17 de janeiro Faz quase quatro meses que não anoto nada. Foi por isso que cometi algo tão horrível. e o tato. Laura não era ninguém. disse bobagens. uma notícia má. Uma notícia má. recusei-me a entender. hein? A única coisa que ele sabe é dizer: “Faleceu”. Então. o telefone tocou. havia também soluços de Santini. segunda.” Nessa nebulosa de sons. Verdadeiramente. uma explicação extremamente tosca de Robledo sobre o mistério da morte e as rituais instruções do gerente para que se enviasse uma coroa. Meu Deus. Rodeado de empregados. algo tão insuportavelmente fácil assim. Mal conseguia respirar. vou descobrir de qualquer jeito algum pretexto para visitá-la.” Bom. talvez o tio. Sexta. que me afrouxavam a gravata. eu atendi. Segunda. dissera o tio. formulários. Muñoz e os outros façam bem ao dizerem “faleceu”. 23 de setembro Meu Deus. senhor. Senti que me desabotoavam o colarinho. e outra voz. Essa palavra é um nojo. que começou a explicar: “Era uma funcionária que ele apreciava muito. a de Muñoz. Laura faleceu esta manhã. Uma voz de homem disse: “É o senhor Santomé? Quem está falando é um tio de Laura. Por m. quando me vi em casa. Com a mão esquerda. sozinho no meu quarto. senhorita.” Ele também disse: “Faleceu. “Faleceu”. mas Muñoz logo a tranqüilizou: “Não se preocupe. z uma bola com uma planilha de vendas. seu pai está ótimo. disse a voz do tio. porque isso soa tão ridículo. Houve uma voz desconhecida que disse: “Foi um choque emocional”. esta sim. não tive coragem para escrever isto. e o sonho? O que ele sabe. porque era uma moça extraordinária. Sabe o que houve? Faleceu uma colega e ele se impressionou muito. E o que ele sabe? O que sabe de como uma notícia má pode destruir o futuro e o rosto. Blanca abriu a porta. Em 23 de setembro. Creio que gritei. Meu Deus. não aparecer. tão distante de Avellaneda. senhor?”. E com razão. Meu Deus. consultas. conhecida. Meu Deus. às três da tarde. mas eu também repeti várias vezes: “Por que não vai à merda?” Então me tiraram o telefone e falaram com o tio. quando até a pobre Blanca me . E isso também é um nojo. não era Avellaneda. com a direita aproximei o fone da minha boca e disse lentamente: “Por que não vai à merda?” Não me lembro bem. tão frio. resfoleguei. mas se amanhã.Ela não poderia me enviar um telegrama? Proibiu-me de ir à sua casa.” No primeiro momento. Meu Deus. Meu Deus. assustadíssima. senhor”. que não pode feri-la. Sierra e Muñoz conseguiram me meter num táxi e me trouxeram para casa. Seguramente. No dia 23 de setembro.

Eu então desvio os olhos e digo: “Bom. despojado. o abismo puro e simples. o abismo. quando movia os lábios e dizia: “Morreu”. de sua insigni cância. Alguém tinha vindo e decretado: “Despojem esse sujeito de quatro quintas partes do seu ser. ao mesmo tempo. o coração falhou. então vi minha imunda solidão. de sua pouquidão. um indiferente. vazio. Com todo o egoísmo de que dispunha. o nada frígido e total. Mas. o último.retirou o consolo do seu silêncio. Então. me apodrecessem. a mais total de imaginá-la. Agora meus lábios se movem para dizer: “Morreu. como um rio que se mistura demais com o mar e por m torna-se salgado como o mar. 22 de janeiro Às vezes. Porque até o dia 23 de setembro. dos meus bons projetos. das minhas boas intenções. Ela é outra coisa. Eu não quis ir à casa dela. Que eu a tocasse e ela. que nada tem a fazer aqui. sem mérito. indecorosa. Voltei ao escritório. a vida continua. às três da tarde. porque era uma desvantagem indecorosa. isso que havia restado de mim. O pior de tudo é que esse saldo que agora sou. claro. Avellaneda morreu”. me fartassem. continua tendo consciência.” Os pontos que ganhei em 23 de setembro. Não importa que murmurem. mas sem nenhuma razão para sentir coragem. Avellaneda morreu”. essa quinta parte de mim mesmo em que me transformei. simplesmente falo. Por isso. sozinho como um herói. que a desgraça alheia sequer me afeta. Muñoz ou Robledo ou o próprio Santini se aproximam de mim e tentam iniciar uma conversa evocativa.” E me haviam despojado. quando movi os lábios para dizer: “Morreu”. Que eu vivesse e ela. Restou-me uma quinta parte dos meus bons propósitos. Às vezes. Fora deste mundo em que agora estou eu. Choro e me agarro a ele. Sei que . pensei em mim mesmo. Eles estão fora. simplesmente. esta anotação é de Avellaneda”. traz a verdadeira respiração da dor. simples. a transformar-se em mim. e a certeza está extenuada. é ela caminhando uns passos e voltando-se para me dedicar um gesto. no remendado ansioso que eu agora passava a ser. O último. está bem. escrevi que nesse instante tive certeza de que entre ela e mim existia uma comunicação. Não choro. morreu é o desmoronamento da vida. Quarta. A coisa se acabou. não me desespero. Sou verdadeiramente um funcionário exemplar. ali posso tratá-la de igual para igual. Mas a certeza existia enquanto ela existia. Fora daquele mundo em que estivemos Avellaneda e eu. não. para que os comentários me trespassassem. no entanto. com prolegômenos deste tipo: “E pensar que este trabalho era feito por Avellaneda”. é o último dia. a certeza é uma coisa impudica. eu me sentia trespassado. essa era a mais generosa forma de pensar nela. esgotei consultas. com o remédio que eu lhe havia comprado. e de repente paft!. morreu vem de dentro. eu os perdi com acréscimo.” Integrei-me outra vez ao trabalho. que era bem pouco. Sei que murmuram que sou um egoísta. Que eu a visse e ela. mas a quinta parte que me restou da minha lucidez é o bastante para eu me dar conta de que isso não serve. não quis vê-la morta. porque morreu é a palavra. É ela descendo do táxi. redigi informes. morreu é o desespero. Ela havia começado a entrar em mim. chefe. não. resolvi assuntos. “Veja. o último gesto. não. eu tinha muito mais de Avellaneda do que de mim. Naquele dia. movi os lábios para dizer: “Morreu. falo dela com Blanca. “A prima me disse que era uma gripe vulgar.

enquanto trabalhava. Em 23 de setembro. enquanto tomava o café-damanhã. um dia eu pensei isso dela. diante de mim. anotei: “Quando diz ‘senhor’. 24 de janeiro Hoje. com seu lhinho janota e inútil. estive ofuscado por uma só idéia. Eu sei que Ele é uma solidão longínqua. Que Deus me foi dando e tirando as oportunidades. como poderia fazer um desses prósperos pais da Rambla. se Deus jogasse limpo. . Tenho de buscar todos os Seus Momentos. Atraíam-me seus olhos. desdobrada por sua vez em várias dúvidas: “O que ela pensou antes de morrer? O que eu representei para ela nesse instante? Terá recorrido a mim? Disse meu nome?” Domingo. mais desgastado ainda. Diz que não pode acreditar em Deus. não só escrevi várias vezes: “Meu Deus. seu cansaço. Isso não. Agora. Deus voltou a ser a todopoderosa Negação de sempre. Ainda assim. sua voz. também o senti. não consigo ter-lhe rancor. as relações entre mim e Deus esfriaram. à qual não tive nem nunca terei acesso. e que ela não se sente com forças para acreditar num Deus de crueldade.ali há um eco. passado esse indício de vacilação e apoucamento. vacilante. podres de dinheiro. Sei que Ele me deu a oportunidade e que eu não a soube aproveitar. Mas no diálogo Deus teve uma participação frouxa. Não é uma formosura.” Também o pronunciei. Assim estamos. É Blanca quem chora. Sexta. senti que podia dialogar com Ele. à minha consciência. Isso é evidente. de fevereiro a janeiro. Em 12 de março. não quero um Deus que me brinde com tudo pronto. Ele sabe que eu não sou capaz de convencê-lo. mas o que é?” Bom. também me teria dado o argumento que eu devia usar contra Ele. Ela apareceu em 27 de fevereiro. que não decida con ar-me a chave para voltar. decisivo. mas a essa altura já estarei atrozmente desgastado e este presente. Eu. Pela primeira vez na minha vida. um argumento que estava junto de mim. Tive a sensação. e que. sua boca. Em 10 de abril: “Avellaneda tem algo que me atrai. no entanto. eu não conseguia reconhecer. sorri passavelmente. suas mãos. não consigo manuseá-lo com meu ódio. sem odiar-nos. durante o dia inteiro.” Eu escrevi isso. Talvez algum dia consiga agarrar esse argumento único. Talvez eu tenha chegado perto de comovê-lo. quem se desespera. Então. Não quero um Deus que me mantenha. não conseguia incorporar à minha alegação. num sádico onímodo. sua cintura. apesar disso. Não pode ser. em margens opostas. enquanto discutia com Muñoz. passado esse prazo que Ele me outorgou para que eu o convencesse. além disso. seu riso. cedo ou tarde. sempre pestaneja. enquanto almoçava. 26 de janeiro Pela primeira vez reli meu Diário. como se não estivesse muito seguro de si. Deus nalmente recuperou suas forças. Mas não. e o que era? Ainda não sei. Às vezes penso que. sem amar-nos. de que havia um argumento decisivo. Já é alguma coisa. alheios. Bom. não me sinto tão cheio de rancor.

beijei-a e à noite escrevi: “Amanhã pensarei. Isabel. muitos outros rostos: Vignale. e Isabel desapareceu atrás de uma espessa. Nada disso importa. mas sim um longo e interminável planalto. e a palavra significa: “Não está. ante esse único futuro tangível que se chama amanhã.” É horrível como doem essas quatro palavras. 28 de janeiro Na caderneta há muitas outras coisas. ela me falou dos pais. ouço-a dizendo isso. uma espécie de combinação entre meu amor e sua liberdade. que perdoa. não estará nunca mais. pensei que tudo está bem se a pessoa tiver consciência de amar. Em 7 de junho. Ainda em 6 de julho. para pressionar Deus.” Ela respondeu: “Eu gosto do senhor. Mas estou por demais alerta para me sentir totalmente feliz. Em 23 de junho. e não há direito a prorrogações. Talvez eu devesse substituir minha inexorável Sogra Universal por esta imagem boa. sua franqueza. Depois escrevi aquilo sobre a palavra “Avellaneda”. nada disso existe. e.” No entanto. quiçá substituíveis. Mas cou demonstrado que Deus era incorruptível. era a Ventura”. permiti-me anotar: “De repente.” Continuo me dizendo isso. Ela me atraía como um todo. sua ternura. nada menos que eu.” No entanto. por esta mulher que entende. Cada atrativo se apoiava em outro. eu lhe disse: “Acho que estou apaixonado pela senhorita”. Avellaneda não existe mais. Alerta. bati na madeira com os nós dos dedos. seus suspiros. seu passo. acabei rezando: “Tomara que dure”. seu pranto. compreendi melhor a própria Isabel. no fundo. sua dor. Eu. como uma soma insubstituível de atrativos. Agora penso: “Avellaneda”. e de amar com eco. Porque. Mas nenhum desses traços bastava para me atrair compulsiva e totalmente. de uma obscura cortina de abatimento. era o grau máximo de bem-estar. eu tinha fé em que houvesse prorrogações. mas em seguida eu mesmo me dei bofetadas de alerta: “Tenho certeza de que o ápice é um breve segundo.sua timidez. tive consciência de que aquele momento. aquela fatia de cotidianidade. em que o ápice não fosse somente um ponto. sem dúvida. ocorreu o fato mais importante da minha vida. Em 17 de maio. ou seja: descon ado. e todo este presente se torna insuportável. agora sei. sobre todos os signi cados que ela possuía. Em 28 de junho. Dois dias depois: “O que eu estou buscando denodadamente é um acordo. da teoria da felicidade criada por sua mãe. Também poderia dizer: feliz. Sexta. Agora estou cansado. claro que não. 31 de janeiro . com repercussão. Aníbal. mais peremptoriamente? Não. Mas não havia direito a prorrogações. eu compreendi melhor a época de Isabel. mais sôfrega. de que me serviu essa descon ança? Por acaso eu a aproveitei para viver mais intensa. escrevi isso hipocritamente. sua con ança. agora. Mas. Depois adquiri uma certa segurança. e ela respondeu: “Eu já sabia. Enquanto existiu Avellaneda. Alerta ante mim mesmo. seu sono. meus lhos.” Não agüento. um clarão instantâneo. ante a sorte. Terça.

“Nunca lhe encomende um terno”. Ela abriu uma cadernetinha e o pai começou a tomar minhas medidas. Eu tinha a informação de que . natural. escarninho. e isso era amor. Quinta. Tive de olhar na direção do manequim.” “Ah. e consegui perguntar se ele era o alfaiate. “A calça caindo sobre o sapato. a ditar números de dois algarismos.” Mas o Nosso Assunto não incluía meu sobrenome. fugi do escritório. Tossi ainda mais forte. defendo tenazmente minha vida (minha morte) essencial. Escolhi o tecido. porque suportar aquele sorriso que havia sido de Avellaneda era superior às minhas forças. enumerei alguns detalhes. “ele faz todos na medida do mesmo manequim.” Os olhos da mãe tinham uma tristeza penetrante. mais triste. Mais do que beijá-la. A porta se abriu.” “Bom. Bastava isso para que eu me sentisse bem acolhido.” Respondi que mais ou menos. Agora já se fala menos de Avellaneda. Ele inclinou a cabeça para o lado e respondeu que sim. “Bom. olhando para a parede. uma comoção explicável e mais nada.No escritório. Meu colapso de 23 de setembro foi. Havia uma amargura leve. “O senhor é do bairro? Setenta e cinco. “minha mãe sabe tudo sobre mim. mais cansado. minha estatura. “Minha mulher”. meu rosto.” Ali estava — impávido. mas venho aqui com muita freqüência. menti. Havia um livro em cima da mesa: Blavatsky. profunda. eu queria mandar fazer um terno. Sessenta e nove. Cinqüenta e quatro. Era o pai. mais do que nos deitarmos juntos.” Ele me fez entrar no ateliê. não é? Cento e sete. para todos.” Ela anotava automaticamente. A mãe fechou a cadernetinha e me tou: “Por que o senhor veio fazer um terno com meu marido? Quem o indicou?” “Oh. 3 de fevereiro Ela me dava a mão e eu não precisava de mais nada. “e o senhor.” Nenhum dos dois usava luto. “Ele vai fazer um terno. mais do que qualquer outra coisa. como disse mesmo que se chamava?” “Morales”. o mesmo pai das fotos. 6 de fevereiro A idéia me ocorreu numa destas noites e hoje eu a executei. Então ele se aproximou da porta do fundo e chamou sem gritar: “Rosa. dissera ela. Ninguém sabe exatamente o que se passa comigo. Nosso Assunto era Avellaneda e um amante sem nome. dissera Avellaneda. Para a mãe. e eu não puxo o assunto. íntima. Às cinco. mutilado — o manequim. certo. porém mais velho. “Certo. “Pergunto porque sua cara me parece conhecida.” “Minha mãe sabe do Nosso Assunto”. Segunda. A mãe me sorriu. o senhor Morales. senti uma coceira na garganta e comecei a tossir. eu moro no Centro.” Tenho de voltar na próxima quinta-feira. acertei o preço. ela me dava a mão. Quando cheguei ao 368 e toquei a campainha. e eu estava tossindo como um condenado. para a prova. Ele precisou sair um momento. apresentou o pai. Defendo-a com minhas poucas forças. ninguém em especial. para me sobrepor de nitivamente à tosse.

Era obrigatório responder. que ele fazia os ternos sob a medida do manequim. Por isso. o que sabia a . extenuada. e sorriu tristemente. Depois me tirou lentamente o paletó e o depositou sobre o manequim. E eu respondi. quando eu já havia entrado.” Não disse faleceu.aqui morava um alfaiate.” Soou tão pouco convincente que me deu vergonha. já segura. “Faz vinte anos que eu perdi alguém. antes de me perguntar: “O senhor. Eu sei o quanto isso é horrível. Simplesmente. sem falar nada. é?” Entre as primeiras palavras e a última houve um espaço em branco de dois ou três segundos.. senhora”. Sente que seu coração é uma coisa enorme que começa no estômago e acaba na garganta. porque dizer “Sinto”. o senhor a amava. “Não pôde esperá-lo. da minha vida. mas também falava com algo mais que sua dor atual. Porque fui eu quem pediu que ele se fosse. De repente. brutal demais.” Puxou uma cadeira e sentou-se. era quase o mesmo que dizer: “Faleceu. mas como uma catástrofe. “O senhor a conheceu. e até agora nunca me perdoei. disse que sim. sobretudo da minha vida.” Falava como se tivesse reencontrado um antigo con dente. Desde que minha lha morreu. foi embora. ela foi me virando com a desculpa de ir colocando al netes e fazendo marcas de giz) e quei diante de uma fotogra a de Avellaneda que não estava na quinta-feira passada. Quinta. como um caos. “Ele agora trabalha pouco. pronunciar esses pêsames. como o paletó caía bem! “O senhor quer saber. Por isso sei o que o senhor está passando. a nal. e seus olhos registraram muito bem meu pobre estupor.” Foi até o outro aposento e apareceu com o paletó. claro. Ela me tou outra vez. com a cabeça. “Ah. e então tive consciência da mentira. tão tardios. porque eu os dizia à única pessoa que podia compreender meu verdadeiro pesar. com todo o meu ser. Ficou horrível. Mas não morreu desta morte. como um desmoronamento.” Passou a mão pela nuca. e feliz por sentir-se desgraçado. nem nada que não fosse uma exausta e sofrida piedade. só isso. disse eu. Alguém que era tudo. porque a gente ca aprisionada no próprio passado. 13 de fevereiro Era o dia da prova. mas o alfaiate não estava. sinto outra vez que o coração é algo enorme. que começa no estômago e acaba na garganta. E faz muito tempo?” “Quase quatro meses. virei-me para um lado (na realidade. Perguntei: “E ela. no braço ainda sem manga que emergia daquele inábil projeto de alinhavos. O senhor Avellaneda não estava. Era verdade. e deve estar atormentado.” “Sinto.” Mas. A mãe me observava. Neste. que sinto essa morte não exatamente como uma dor. Essa morte é pior. e pensei que ela ia dizer: “Não sei por que estou contando isso ao senhor. era simplesmente abominável.” E era abominável. ao contrário. Eu sei como se sente. destruída pelo próprio sacrifício. mas esse silêncio bastou para transformar a pergunta em algo transparente. posso lhe garantir. que podia com​preender a verdade. nem vergonha. A mãe de Avellaneda apoiou uma das mãos no meu braço. Então ela depositou sobre a mesa os al netes sobrantes e o giz. com os olhos. O golpe foi repentino demais. Sente-se desgraçado. prosseguiu: “Laura era a última coisa que me restava dele. mas deixou tudo pronto para que eu faça a prova. Esse tipo de morte é pior. logo eu. não é?” Eu tinha certeza de que no olhar dela não havia rancor. sobretudo. Do país.. tão frívolos. Foi o que me disse sua esposa.

“É minha filha”. dizia Avellaneda sobre os pais.” Sábado. nem me importa lembrar. além disso. 14 de fevereiro “Eles se amam. um conto de fadas para que minha lha não perdesse o pé. “mas não sei se esse é o modo de amar que me agrada. A fotografia enchia o aposento. incorruptivelmente Meu. “Pode ser. foi a resposta. Mas na alma. em todas as noites. para que minha lha se sentisse viver. que nunca lhe demonstrei o quanto necessitava dela.” Não sei o que respondi. Pobre orgulho. e. sabe? O fato é que ela agora não mais existe.” Outra vez. como eu fui. nunca será anotado. Primeiro eu não tinha tempo. depois ela começou a trabalhar. menti. quase indefesa: “Laura também lhe contou isso? Foi uma bela mentira. e quei com essa carga no peito.” Por um momento. O senhor vê algum?” “Um ar geral”. e não pude deixar de olhá-la. parou de falar e contemplou a foto. quando uma pessoa se deixa vencer. “minha única lha. eu me lembrei: “E sua teoria da felicidade?” Ela sorriu.” “Coisa curiosa”. não é?” De repente. sim. ela era como eu. e. disse ele. “agora penso que estive alheio a ela. chorava com orgulho. “Laura não sabia absolutamente nada. Ou melhor. porém. Isso. os últimos momentos de Avellaneda. Pobrezinha. acrescentou ele em seguida. Sou a única dona da minha história. 16 de fevereiro Esta manhã fui buscar o terno. “Morreu há pouco tempo. Perceber-me sentimental me assusta um pouco. Em 1º de março. disse. as últimas palavras. eu me ouvi pronunciar: “Sinto. Foi o melhor presente que lhe dei. Isso é Meu. sou bastante covarde.” Sexta. já não irei ao escritório. Então me contou os últimos dias. com essas palavras que não chegaram a nascer e que poderiam ter sido minha salvação. vai-se deformando. 15 de fevereiro O amigo de Esteban me telefonou para avisar que minha aposentadoria está pronta. fui adiando a grande conversa que me havia prometido ter com ela.respeito?” “Nada”. Porque agora me sinto vencido. “Mas o senhor quer saber”. Desde que era pequenina. disso tenho certeza”. para quando eu retomar o fio da minha insônia e disser: “Amor. sem passar as mãos pelo rosto.” Chorava com os olhos voltados para o alto. O senhor Avellaneda estava terminando de passá-lo a ferro. Isso estará me esperando no meio da noite. Domingo. vai-se transformando . “Muitas vezes pensei que ela não havia herdado nem um só traço meu.

numa grosseira paródia de si mesma. Veja, esta morte da minha lha foi uma mancada. Do destino ou do médico, não sei bem. Mas tenho certeza de que foi uma mancada. Se o senhor a tivesse conhecido, perceberia o que eu quero dizer.” Pestanejei umas dez vezes seguidas, mas ele não prestava atenção. “Só numa mancada pode-se liquidar uma moça assim. Ela era (como posso lhe explicar?) um ser limpo e ao mesmo tempo intenso e ao mesmo tempo envergonhado de sua intensidade. Era um encanto. Eu sempre tive a convicção de que não merecia essa lha. A mãe, sim, merecia, porque Rosa tem personalidade, Rosa é capaz de enfrentar o mundo. Mas a mim falta decisão, falta segurança. O senhor já pensou alguma vez em suicídio? Eu, sim. Mas nunca vou conseguir. E isso também é uma carência. Porque eu tenho todo o quadro mental e moral do suicida, menos a força de que se precisa para meter um tiro nas têmporas. Talvez o segredo resida em que meu cérebro tem algumas necessidades próprias do coração, e meu coração, algumas singularidades próprias do cérebro.” Mais uma vez cou imóvel, agora com o ferro de passar erguido no alto, observando a foto. “Preste atenção nos olhos. Veja como eles continuam tando, por sobre o cotidiano, por sobre a morte. Até parecem estar tando o senhor.” A frase cou sozinha. Fiquei sem fôlego. Ele cou sem assunto. “Bom, está pronto”, disse, dobrando cuidadosamente a calça, “é um bom tecido penteado. Veja como se desamassa bem.”

Terça, 18 de fevereiro Não irei mais ao 368. Na realidade, não posso ir mais.

Quinta, 20 de fevereiro Faz tempo que não vejo Aníbal. Não sei nada de Jaime. Esteban se limita a me falar de temas gerais. Vignale telefona para o escritório e eu mando dizer que não estou. Quero ficar sozinho. No máximo, falar com minha filha. E falar de Avellaneda, claro.

Domingo, 23 de fevereiro Hoje, depois de quatro meses, estive no apartamento. Abri o guarda-roupa. O perfume dela permanecia. Mas isso não importa. O que importa é sua ausência. Em certas ocasiões, não consigo captar os matizes que separam a inércia e o desespero.

Segunda, 24 de fevereiro É evidente que Deus me concedeu um destino escuro. Nem sequer cruel. Simplesmente escuro. É evidente que me concedeu uma trégua. No início, resisti a acreditar que isso pudesse ser a felicidade. Resisti com todas as minhas forças, depois me dei por vencido e acreditei. Mas não era a felicidade, era só uma trégua. Agora, estou outra vez metido no meu destino. E ele é mais escuro do que antes, muito mais.

Terça, 25 de fevereiro A partir de 1º de março, não anotarei mais nada nesta caderneta. O mundo perdeu o interesse. Não serei eu a registrar esse fato. Só existe um assunto sobre o qual eu poderia escrever. Mas não quero.

Quarta, 26 de fevereiro Como preciso dela! Deus havia sido minha carência mais importante. Mas, dela, eu preciso mais do que de Deus.

Quinta, 27 de fevereiro No escritório, quiseram organizar uma despedida para mim e não aceitei. Para não incorrer em grosseria, armei uma desculpa muito verossímil, à base de problemas familiares. A verdade é que não posso me imaginar como o insosso motivo de um jantar alegre, ruidoso, com bombardeios de pão e vinho derramado.

Sexta, 28 de fevereiro Último dia de trabalho. Nada de trabalho, claro. Passei-o apertando mãos, recebendo abraços. Creio que o gerente transbordava de satisfação e que Muñoz estava realmente comovido. Ali cou minha escrivaninha. Nunca pensei que desprender-me da rotina me importasse tão pouco. As gavetas caram vazias. Numa delas, encontrei uma carteira de identidade de Avellaneda. Ela a deixara para que registrássemos o número em sua cha

pessoal. Guardei-a no bolso, e aqui está. A foto deve ter uns cinco anos, mas quatro meses atrás ela era mais bonita. Outra coisa cou clara, e é que a mãe está enganada: eu não me sinto feliz por sentir-me desgraçado. Sinto-me simplesmente desgraçado. Acabou-se o escritório. A partir de amanhã, e até o dia da minha morte, o tempo estará às minhas ordens. Depois de tanta espera, isto é o ócio. O que farei com ele? Montevidéu, janeiro a maio de 1959.

1 Marcha patriótica uruguaia, com música de José Usera, que divide a autoria da letra com Nicolás Bonomi. (N. da T.) 2 Sigla de Administración Nacional de Usinas y Trasmisiones Eléctricas. (N. da T.) 3 Espécie de mil-folhas, quadrado, com recheio e/ou cobertura a gosto. (N. da T.) 4 Partidária das idéias de José Batlle y Ordóñez (1856-1929), fundador da Vanguardia Batllista e duas vezes presidente da República, o qual, entre várias outras medidas, promulgou leis laicistas, emancipando o Estado em relação à Igreja. (N. da T.)

9 de abril Quarta. 29 de março Sábado. 5 de abril Sábado. 24 de fevereiro Segunda. 28 de fevereiro Sexta. 2 de abril Quinta. 13 de março Sexta. 19 de fevereiro Quinta. 1º de março Sábado. 7 de abril Terça. 31 de março Segunda. 19 de março Quinta. 4 de abril Sexta. 18 de fevereiro Terça. 12 de março Quarta. 10 de abril Quinta. 22 de fevereiro Sábado. 15 de março Sábado. 23 de fevereiro Domingo. 27 de março Quinta. 21 de fevereiro Sexta. 6 de abril Domingo. 21 de março Sexta. 27 de fevereiro Quinta. 30 de março Domingo. 11 de fevereiro Sexta. 17 de março Segunda. 15 de fevereiro Segunda. 24 de março Segunda. 22 de março Domingo. 12 de abril . 1º de abril Terça. 16 de março Domingo. 11 de abril Sexta. 28 de março Sexta. 18 de março Terça. 25 de março Quarta. 2 de março Terça.Sumário Capa Folha de Rosto Créditos Epígrafe Segunda. 25 de fevereiro Quarta.

4 de maio Domingo. 8 de maio Quinta. 22 de abril Quarta. 17 de abril Quinta. 21 de junho Sábado. 26 de abril Domingo. 26 de maio Terça. 14 de junho Sábado. 18 de maio Domingo. 28 de abril Segunda. 18 de abril Sábado. 7 de junho Domingo. 9 de maio Sexta. 5 de maio Terça. 9 de junho Segunda. 24 de maio Domingo.Domingo. 17 de maio Sábado. 14 de abril Terça. 1º de maio Quinta. 19 de maio Segunda. 15 de maio Quinta. 2 de maio Sábado. 12 de maio Segunda. 28 de maio Quinta. 10 de maio Sábado. 22 de junho . 30 de maio Sexta. 15 de junho Domingo. 10 de junho Terça. 29 de abril Terça. 20 de abril Segunda. 30 de abril Quarta. 16 de junho Quinta. 21 de maio Sexta. 13 de maio Quarta. 20 de maio Terça. 4 de junho Sexta. 31 de maio Domingo. 11 de junho Sexta. 16 de abril Quarta. 16 de maio Sexta. 2 de junho Terça. 11 de maio Domingo. 20 de junho Sexta. 24 de abril Sexta. 7 de maio Quarta.

18 de agosto Segunda. 9 de julho Quarta. 27 de julho Terça.Domingo. 19 de julho Sábado. 22 de agosto Sexta. 17 de julho Quinta. 23 de junho Segunda. 15 de julho Quarta. 20 de julho Domingo. 16 de agosto Sábado. 26 de agosto Terça. 7 de julho Segunda. 21 de agosto Quinta. 17 de agosto Domingo. 3 de agosto Domingo. 15 de agosto Sexta. 26 de julho Sábado. 13 de julho Segunda. 30 de junho Quarta. 18 de julho Sexta. 22 de julho Terça. 4 de agosto Quarta. 1º de agosto Sábado. 7 de agosto Quinta. 23 de agosto Sábado. 29 de junho Domingo. 26 de junho Quinta. 30 de julho Quinta. 10 de julho Sábado. 27 de junho Sexta. 8 de agosto Segunda. 3 de julho Quinta. 24 de junho Terça. 4 de julho Sábado. 19 de agosto Terça. 21 de julho Segunda. 27 de agosto . 28 de junho Sábado. 6 de julho Domingo. 12 de agosto Quinta. 8 de julho Terça. 20 de agosto Quarta. 25 de junho Quarta. 25 de agosto Segunda. 24 de agosto Domingo. 23 de julho Sexta.

24 de fevereiro Terça. 8 de setembro Segunda. 1º de setembro Segunda. 15 de fevereiro Domingo. 18 de fevereiro Quinta. 26 de janeiro Terça. 3 de fevereiro Quinta. 23 de fevereiro Segunda. 28 de janeiro Sexta. 6 de setembro Sábado. 19 de setembro Sexta. 17 de janeiro Quarta. 3 de setembro Quarta.Quarta. 14 de setembro Domingo. 5 de setembro Sexta. 25 de fevereiro Quarta. 30 de agosto Sábado. 12 de setembro Sexta. 11 de setembro Quinta. 31 de agosto Domingo. 6 de fevereiro Quinta. 23 de setembro Sexta. 14 de fevereiro Sábado. 21 de setembro Domingo. 13 de setembro Sábado. 18 de setembro Quinta. 20 de fevereiro Domingo. 2 de setembro Terça. 17 de setembro Quarta. 4 de setembro Quinta. 24 de janeiro Domingo. 31 de janeiro Segunda. 22 de setembro Segunda. 16 de fevereiro Terça. 26 de fevereiro Quinta. 9 de setembro Terça. 20 de setembro Sábado. 13 de fevereiro Sexta. 7 de setembro Domingo. 22 de janeiro Sexta. 28 de agosto Quinta. 16 de setembro Terça. 15 de setembro Segunda. 10 de setembro Quarta. 27 de fevereiro . 29 de agosto Sexta.

28 de fevereiro .Sexta.