Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006

Sobre gênero e preconceitos: Estudos em análise crítica do discurso – ST 02 Danielle Barbosa Lins de Almeida - UFSC/UFPB Viviane M. Heberle - UFSC As Bonecas da Contemporaneidade: Representações Midiáticas da Identidade Feminina

O objetivo desse artigo é propor uma reflexão acerca dos brinquedos enquanto representações semióticas de ‘atores sociais de gênero’ (Caldas Coulthard & van Leeuwen, 2002), a partir da discussão sobre os papéis que bonecas contemporâneas de moda como Barbie, Susi e The Bratz evocam, a fim de examinar como a identidade feminina vem sendo representada pela mídia de dois países distintos – Brasil e Estados Unidos – através de típicas expressões do universo infantil. A análise inclui desvendar alguns dos valores que são incorporados às referidas representações bem como investigar o potencial de negociação da criança no sentido de desafiar as estruturas de significado que subjazem as identidades das chamadas ‘bonecas da contemporaneidade’.

Palavras-Chave: bonecas, papéis, identidade.

1. Introdução Em suas inúmeras versões pelo mundo afora, as bonecas são mais comumente conhecidas por seu papel como objetos tridimensionais pertencentes ao universo infantil. Como símbolo inconfundível da infância, o mundo das bonecas não tem sido suficientemente explorado em pesquisas acadêmicas, visto que há relativamente poucos estudos que enfatizam a função das bonecas como fonte de conhecimento social, histórico e cultural (Peers, 2004). Historicamente, em sociedades como o Egito e a Melanésia, às bonecas eram atribuídas uma função mística, sendo então vistas como forma de se espantar maus espíritos e enfermidades, de se conferir proteção e de se prover acesso direto às dimensões espirituais da vida (Fraser, apud Kline, 1993, p. 193). Se vistas como fetiches, medicamentos, mecanismos religiosos, ou até mesmo modelos artísticos de forças para além da experiência humana convencional, o fato é que o potencial simbólico das bonecas não deve ser apenas considerado em sua relação com o universo infantil. Em sua fase incipiente, as bonecas eram destinadas a um mercado

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uma infinidade de possibilidades para o que ela define como as ‘verdades ficcionais’1 do mundo das bonecas. uma vez que estas permanecem sob um constante ‘estado de revisão’ pela criança durante a brincadeira. a categoria das bonecas tem se desenvolvido ao longo dos séculos como prova do fascínio adulto por representações que não apenas revelam as preferências do brincar infantil. as bonecas constituem um “microcosmo do mundo adulto”. 1996). segundo Fleming (ibid.). podem. por exemplo. caracterizá-la como um tipo de atividade extremamente livre. Desde modo..). As Bonecas. dá-lhes o biberão.] Há. as bonecas passaram a ser incorporadas na cultura infantil. 2. 29 e 30 de 2006 consumidor adulto e suas versões iniciais eram feitas em materiais tão diversos quanto cera e papel machê (Fleming.. Com o tempo e sua produção industrial especializada. As características do que Wright (ibid. cujas representações extremamente realísticas contribuíam para introduzir garotinhas às suas futuras atribuições maternais. 52-3) sugere. porém não ‘deterministas’.) se refere como ‘verdades ficcionais’ na representação das bonecas podem ser interpretadas como a influência direta que os valores do 2 . especialmente quando realisticamente representadas: [. proposições que podem ou não ser reais em um mundo fictício (ibid. seus Papéis e Identidades Os processos ritualísticos envolvidos na brincadeira com bonecas.)”. como dar banho e vestir. por exemplo. personalidades específicas como as de bebês. Esta visão parece ser compartilhada por Wright (2003). p. mas que também refletem a forma como o adulto vê a própria criança (Fleming. “condicioná-la” para o seu futuro papel de mãe (. são dotadas de esôfago. bonecas que urinam. uma vez que estes rituais podem assumir significados diferentes daqueles previamente concebidos pelos fabricantes de brinquedos. o leite se transformará em água na barriga. Um dos principais argumentos de Wright (ibid. Como Roland Barthes (1957. criando. desta forma. que argumenta que as identidades subscritas às bonecas são altamente ‘sugestionáveis’. se pode preparar a rapariguinha para a causalidade doméstica.Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28. sem dúvida alguma. Com efeito. dentro do universo dos brinquedos. molham as fraldas. 1996).) é que a criança ‘imaginadora’ tem total liberdade para propor várias identidades à boneca com a qual brinca se assim o desejar. dentro em pouco. cabendo à criança transformar. assumindo. assim... uma ‘Susi Balada’ em uma ‘Susi Moda Praia’.

29 e 30 de 2006 contexto sócio-cultural da criança exercem na sua simbolização de uma mulher particular. se limitadas por um universo narrativo supostamente imposto ou se capazes de transcender os significados oferecidos aos brinquedos. ao dar-lhes novos nomes. bonecas como a Susi deixam em aberto questões concernentes à sua identidade. as crianças estão atualizando suas crenças e sentindo-se livres para ignorar tais sugestões e revisitar suas possibilidades de significado. trocar-lhes seus papéis e colocar-lhes tatuagens. por exemplo. Isto nos leva a inferir que embora as identidades propostas às bonecas sejam. podem. embora suas funções como recursos criativos possam ir mais além. por exemplo. justificando seu valor como objetos fictícios e ao mesmo tempo. a brincadeira com bonecas conduz as crianças a uma forma imaginária de antecipar sua atuação em futuros papéis sociais como adultos. De acordo com Wright (ibid. Susi e outras bonecas do gênero deixam de ser ‘representações fixas inegociáveis’ (Caldas Coulthard & van Leeuwen. ao serem concomitantemente representadas em atividades que variam de mergulho e rally a afazeres domésticos. mas também enquanto recursos criativos. Com efeito. Ao considerar seu papel (cri) ativo de ‘imaginadora’. Bonecas como Susi e Barbie. Sendo assim. não-fictícios. os seus valores sócio-culturais para a representação de uma determinada boneca – ou para a ‘verdade ficcional’ de uma determinada boneca – as crianças estão criativamente re-interpretando sua identidade social. 2004) e passam a atuar como meios eficazes de socialização e expressão da realidade infantil.). sugestionáveis. Barbie. prover imagens do que é esteticamente preferível. ao transferir. ao permitir à criança transgredir as regras durante o processo de construção de imagem daquelas bonecas. as crianças estão fazendo uso das mesmas não somente enquanto figuras representativas da identidade feminina. Ao promoverem mudanças na aparência estética das bonecas. que apenas às crianças cabe a resposta. passíveis de terem suas personalidades modificadas das mais diversas formas. Através do processo de auto-criação. cultura e identidade própria.Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28. automaticamente. 3 . resta somente às crianças moldar a natureza de sua brincadeira infantil. como algo legítimo e essencial para se desafiar as identidades sugestionáveis sobre as quais a criança pode – e deve – criar seus próprios roteiros. o que certamente reafirma o papel das bonecas enquanto ícones representativos dos papéis sociais e dos valores de uma esfera bem maior em termos de mundo real. com nome. de fato.

Além de vestidas à moda funk. garotas apaixonadas por moda! Com seu novo visual. segundo o seu idealizador.1. a coleção The Bratz promove. as bonecas norte-americanas The Bratz sintetizam os valores agregados às chamadas bonecas de moda. cita alguns comentaristas acadêmicos como Rand (1995). Para elas. O exemplo mais representativo deste sub-gênero das bonecas responde pelo nome de Barbie. como se pode observar em artigos acadêmicos que contemplam o potencial da Barbie como referência para análises críticas culturais (ibid. o empresário iraniano Isaac Larian. 106-7). Composta por cinco bonecas de variadas ascendências culturais e seus respectivos pares. comprovam mais uma vez que vestir-se bem significa sentir-se bem! Na maioria das vezes. faz com que seu público-alvo se projete ao papel de Bratz no presente ou em um futuro próximo. na mente dos mais prudentes e puritanos. Rogers (1999) e Varney (2002) para a comum preocupação com o construto ideológico por trás das bonecas de moda: As bonecas de moda não apenas promovem uma suposta sexualidade inapropriada a jovens garotas. a boneca de moda encoraja meninas e mulheres tolas a comprar. Atualmente. os educadores tendem a reagir negativamente em relação ao mundo das bonecas de moda. comprar ao palerma do capitalismo. Bonecas de Moda: Representações Semióticas de um Mundo Fashion Em tempos de disseminadas fashion weeks. beleza.Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28. o consumo capitalista e a beleza feminina. Dana. Juliette Peers (ibid. cada nova versão. mas também se constituem enquanto objetos sexuais e sexualizados. ‘estar bem’ é ‘vestir-se bem’: É espetacular a moda com as Bratz.. Elas estendem o conceito de bonecas ao encapsularem a sua relação com mundo da moda. comprar. O texto abaixo. os olhos fortemente pintados e a aparência expressiva através de suas cabeças e pés salientes o que. estão sempre por cima. Jade. p. 29 e 30 de 2006 2. Yasmin e o novo BratzPack. juventude e consumo. autora do livro A Boneca de Moda: Do Bebê Jumeau à Barbie [nossa tradução].). retrata a íntima relação das referidas bonecas com o mundo da moda. pelo fato delas introduzirem as crianças prematuramente às narrativas sobre temas como a sexualidade. as Bratz chamam atenção pelos lábios protuberantes. Sasha. uma identificação imediata por parte do público infantil. estas garotas super-modernas e descoladas. as chamadas ‘bonecas de moda’ – ou bonecas fashion – destacam-se entre outras categorias do gênero por agregarem valores relacionados à moda. Cloe. de acordo com Larian. extraído do website das The Bratz. uma vez que o visual conferido às bonecas se destaca por seu estilo contemporâneo e não apresenta o modelo idealizado de beleza juvenil promulgado por bonecas como a Barbie. cada vestido. A Barbie 4 . aparência. a boneca de moda que os estudiosos tendem a destratar apesar de sua inegável importância para a cultura popular.

muitas vezes os contextos nos quais está situada evocam afazeres domésticos e a vida conjugal. enquanto representações semióticas da identidade cultural feminina. já que suas representações e mensagens muitas vezes contradizem ambos os mundos.). portanto. Ironicamente. A falência da indústria francesa de bonecas no final do século XVII e o surgimento da fabricação alemã no início do século XVIII geraram uma nova e elaborada revisão do conceito de feminilidade nas bonecas (Peers. 2004) defendem o fato de que esta mulher “requintada. na realidade. Elas nem totalmente pertencem à infância nem à adolescência. Certamente.Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28. apesar das inúmeras acusações feministas à ideologia na qual os discursos da Barbie se baseiam. como símbolo polivalente do poder feminino (ibid. autores como Bruzzi (apud Peers. ao treinarem as garotas para suas futuras responsabilidades maternais (ibid. as bonecas de moda se assemelham às mulheres adultas do mundo real. Embora isto seja argumentado. naturalmente materializado na composição verbal e visual dos seus textos de propaganda. ibid. Apesar de ser considerada uma ‘adolescente’. Todavia. nem sempre a ideologia das bonecas foi sua inter-relação com a moda. Bonecas de moda nunca envelhecem.). sedutora. e femininamente vestida” tem exercido um poder transgressor significativo sobre os personagens domésticos convencionais e sobre a fraqueza masculina” constituindo-se.). nunca engravidam. No lugar de objetos que estimulavam o consumo da moda. Neste sentido. que em grande parte de seus textos publicitários. Susi e The Bratz provocam uma série de reações no público à medida que suas narrativas estão situadas entre o real e o imaginário. centrados no capitalismo e em uma visão “rasa e sensualizada do corpo feminino”. é brincar com as narrativas da cultura popular ao evocar a sensação de um estilo de vida mais livre e despojado. 5 . as bonecas de moda dos nossos dias expressam muito além da relação entre bonecas e moda. suas representações dinâmicas e flexíveis em poses e atividades muitas vezes não condizem com o real potencial cinético das referidas bonecas. Um exemplo claro deste paradoxo é a boneca brasileira Susi. não lhes cabe a função de despertar em garotinhas sentimentos maternais e de ternura. O que lhes cabe. e que portanto. bonecas de moda como Barbie. autores como Peers (ibid. denota as estratégias hegemônicas de um capitalismo maléfico. Deste modo. diferente dos bebês e das bonequinhas. verifica-se. contudo. 29 e 30 de 2006 representa a própria escola do consumo e a Mattel [sua instituição fabricante]. Tão somente após o lançamento da boneca Barbie é que essa concepção passou a ser desconstruída. as bonecas alemãs enfatizavam a sua função doméstica.) parecem defender a idéia de que. nunca adoecem.

Contudo. ambas as bonecas foram bem-sucedidas ao não se acomodarem a uma vida subserviente ao lado de seus namorados Ken e Beto. Afinal de contas. 2003. uma vez que. 10). Conclusões Como modelos de referência. criada para ser perpetuamente “magra. baseado em parâmetros irreais. não depende de um homem para o seu sustento. 1993). que propaga a imagem idealizada de beleza e que banaliza os desafios que constituem as experiências da mulher real e suas percepções de si própria. celulite. para Barbie Astronauta (1986) e Barbie Médica (1988) na década de 80 e aeromoça e piloto na década de 90. Riddick. porém excitantes. através de suas representações visuais e verbais. Seja qual for sua função. p. as várias representações da Barbie de certa forma contradizem os ataques feministas que ela tem recebido em todos esses anos. como sua inserção no mercado de trabalho e sua luta na busca pela igualdade trabalhista e social. 2003. assim. a Susi também trabalha. o progresso da participação ativa das mulheres na sociedade ao longo dos anos. Kline. Contrariando as expectativas feministas. gerando polêmica entre pais preocupados com o teor de suas narrativas e servindo de recurso criativo para as brincadeiras infantis (Wright. ao longo de seus quase 50 anos de existência. jovem e feliz” (Wright. a verdade ficcional do moderno e charmoso mundo das bonecas de moda dificilmente 6 . Enquanto continuarem a existir. vidas de Barbie e Susi. Barbie já foi acusada de promover uma estética enganosa. Susi e The Bratz na mudança de padrões de comportamento da mulher na sociedade. certamente sintetizarão imagens e padrões de feminilidade. De fato. críticas feministas. foram eles que se tornaram ‘acessórios’ nas agitadas. 29 e 30 de 2006 Elas comprovam. De doceira e dona-de-casa na década de 60.Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28. e consequentemente. enquanto artefatos da representação feminina. Elas inspiram garotas a fantasiarem suas vidas adultas e a transcendem limites sócio-culturais tais como a necessidade de serem reconhecidas no mercado de trabalho. coxas grossas. moda e beleza que não condizem com o perfil da jovem mulher do mundo real. rugas e culotes compõem o universo estético feminino e fazem parte dos desafios do ser mulher em sua forma mais genuinamente autêntica. provocando. Ao que parece. o arquétipo de bonecas como Barbie. A verdade é que representações como bonecas de moda jamais deixarão de ser alvo de críticas e desavenças da opinião pública. 3. Assim como a Barbie. 2002. continua a gerar polêmica. a representação da Barbie passou por mudanças que indubitavelmente refletem a trajetória da participação da mulher na sociedade. não há dúvidas sobre a ação influente de bonecas de moda como Barbie.

8. 4). & LEEUWEN. pp. FLEMING. Jane (Eds. 2002. “Discurso Crítico e Gênero no Mundo Infantil: Brinquedos e Representações de Atores Sociais”. n. S. estas “inerentemente lutadoras. 2004. Mitologias. Theo van. R. Referências bibliográficas BARTHES. Manchester: Manchester Press. Iridescent: Toys as the Representation of Gendered Social Actors”. Paris: Edições 70. 1999 . J. Petersburg. Revista Linguagem em (Dis)Curso.Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28.. Lia & Sunderland. D. volume 4. 29 e 30 de 2006 conseguirá capturar a verdadeira essência das mulheres reais. R. Boca Raton. envelhecidas. 1 Analysis. p. R. 4. o inglês.). K. KLINE. FL. Powerplay: toys as popular culture. GRASSEL. Gender Identity and Discourse Benjamins. 1999. C. issue 27. 1996. St. 2002 WRIGHT. “Barbie Around the World: Healthy Human Growth. Out of the Garden: Toys and Children’s Culture in the Age of Marketing. K. Shimmering. Litosseliti.. “Barbie: The Image of Us All.” New Renaissance.108. RIDDICK. Oxford: Berg. Theo van. 4. FL. Os termos mencionados no presente artigo foram traduzidos de sua língua original. 2004. a tradução dos referidos termos permanece sob nossa inteira responsabilidade. 1957. London: Verso Press. L. no. PEERS. 91. “Stunning. número especial. (2003) “The Wonder of Barbie: Popular culture and the making of female Identity”.1. In: Essays in Philosophy – A Biannual Journal. Por esse motivo.” Paper linked to the Florida Atlantic University homepage [website on-line]. CALDAS-COULTHARD. Vol. C. CALDAS-COULTHARD. Vol. gorduchas e até fisicamente inválidas” (Grassel. The Fashion Doll: from Bébé Jumeau to Barbie. & LEEUWEN. 1993. Amsterdam: John University 7 .