A GERAÇÃO DE 70

JLCFILÒ BRAOA
HISTÓRIA
DO
ROMANTISMO
EM
PRTUGAL I
Terceiro volume
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Capa de: Antunes
Impresso e encademado por Printer Portuguesa
no mês de Setembro de mil novecentos e oitel/ta e sete
Número de edição: 2174
Depósito legal mímero 14 735/87
AdilìculdadedeescreveraHistória da Literatura Portu­
guesa Moderna nao esta em manter a imparcialidade no
¡ uizo quese emitesobre cadaescritor, paraisso, basta
tersemprepresentequesedaumaprovade probidade
diantedotempo que¡ ulga todos, paranaoousarlazer
da historia um tribunal de ressentimentos pessoais.
Ðe mais, a historia literaria, como disse Ouizot, tem
sobre a historia geral a maximavantagem de possuir
e podermostraros ob¡ ectos que pretende lazer conhe-
cer, assim esta também menos su¡ eita a aberrar da
verdade.
Paranos, porém, subsisteumalortedih culdade,que
naoserapossivelvencer. nesteperiododahistoriamo-
dernadaliteraturaportuguesatemosdepécom todoo
seuprestigioaopiniaolundadasobreasprimeirasemo-
çoes produzidas pelas tentativas romånticas de l 821e
del 8J8. Estaopiniaoestaatrasadamaisde meio século
e em desacordo com o cstadoactual dacritica. Jendo
de analisaraquireputaçoesquese nos impuserampor
costume e autoridade nao discutida, e que vemos res-
peitadasporhabito,quandoprocuramosolundamento
dessas admiraçoes, so achamos com pasmo talentos
sem disciplina entregues a um humanismo insciente e
s em intuitos h losolìcos . !oi por isso que essas reputa-
çoes so produziram admiradores em vez de continua-
6
TEÓFILO BRAGA
doresdo seu espirito. Lste livrovaideencontroa mui-
tos preconceitos e sera por isso bastante atacado, mas
consegui ndo agitar a opiniao que se i mobi l i za em
dogma,conseguiu-setudo' , estamosnasituaçaoemque
seachava!ócio,quesuspeitavasempreterditoalguma
tolice quando se via aplaudido pelo vulgo. As criticas
acerbase pessoais com quetemos arrostadoemvintee
três anos de actividade literaria ¸ l 857- l 88O) têm-nos
lortalecido prolundamente, porquenos provam a cada
instantealrasedeHume,emumacartaaAdamSmith.
«Nada produz uma maior presunçao de lalsidade do
queassentimentodamultidao. »Nodiaemquenoscer-
cassemos aplausos unånimesjulgavamo-nos perdidos,
deixariamos de escrever.
Comodasl utascomunaiseburguesasnoséculo XIII,
depoisdeanuladooleudalismo,sedecaiunocesarismo
doséculoXVI, noabsolutismodoséculoXVII, nodespo-
tismodoséculo XVIII, atéque a revoluçaoveiosacudir
este pesadelodemorte,ahrmando a independênciada
sociedadecivilegeneralizandoasimunidadeslocaisda
Comuna na Declaração dos Direitos do Homem) eis uma
tenebrosacontinuidade,queconstituiporsio tramada
história moderna, e que inD uiu prolundamente no
mododedesenvolvimentodasliteraturas. Ðesdequeos
dialectosromånicosreceberamlormaescrita, atéqueo
romantismo se servisse deles para exprimirem cons-
cientementeas caracteristicasnacionais,eoespiritoda
J Aos que se j ulgarem ofendidos por violarmos o culto dos seus ídolos
l iterários, apresentamos a máxima de Paulo Luís Courier, que resume a
nossa disciplina moral: «Embora vos acusem, vos condenem, vos prendam
e vos enforquem, publicai sempre os vossos pensamentos. O fazê-lo não é
um direito, é antes um dever; obrigação restrita é para todo o que tem ideias,
o comunicá-las aos outros para o bem comum. A verdade i nteira pertence a
todos: o que entenderdes que é útil, podeis sem receio publicá-lo.»
HISTÚRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 7
nova civilizaçao que os produziu, houve um prolundo
esquecimentoda Idade Média, quedurou seis séculos,
e emqueasliteraturasdaLuropaseexerceramemlal-
so, imitanto as obras da cultura greco-latina, porque
nao se inspiravam das suas origens tradicionais, onde
encontrariam uma natural lecundidade, bem como o
seudestino social.
A translormaçao das|iteraturas modernas, ou o ro-
mantismo, encetou no mundo intelectual o que a Re-
voluçao!rancesa,iniciaranaordem politica, estes dois
lactos resumem-se na dupla expressao do génio e da
vontade nacional, pelo individualismo da inspiraçao e
pe|a universalidade do sulragio. Lxiste uma relaçao
histórica entre esses dois lactos . Ò lenómenosocial da
Revoluçao !rancesa loi precedido por um extraordi-
nario sentimentalismo e paixao pela natureza, que
principiou pela literatura até penetrar nos costumes,
um ta| exagero, proveniente de uma nova actividade
moral, provocou como consequência a condenaçao do
lalsoidilio,e umamaisvastacomunicaçaocomosenti-
mentohumano. Oervinoconheceua importånciadesta
lase espontånea do romantismo, iniciada por Montes-
quieu como seu entusiasmo pelaConstituiçaoinglesa,
porj. -jacques Rousseau, trazendo ao critério da na-
tureza a noçao do estado, da arte e da educaçao, por
liderot recompondo h losoh camente as paixoes, reno-
vando assim as teorias dramaticas, lazendo prevalecer
a ideia sobre a lorma, a espontaneidade a imitaçao, a
simp|icidade a beleza alectada. A este periodo, a que
chamaremos Prato-Romântico, sucedeu-se uma reacçao
pseudoclassica, que predominou enquanto se manteve
o regimeespectaculosoe mentidodoprimeiro Império.
Gervino explica por outra lorma a interrupçao. «Lsta
primeira lase de um romantismoinconsciente e ainda
naodenominado, loi interrompida e atrasadapela Re-
voluçao !rancesa. A !rança só seocupou da indepen-
dência politica, ao passo que a Alemanha insistiu mais
8 TEÓFILO BRAGA
em querer realizar a sua emancipaçao intelectual . ' »
A melancolia romanesca do h m do século XVIII, que
aparece na Alemanha e Inglaterra, é quepoeem evi-
dência a conexao histórica com esse periodo incons-
ciente, ou proto-romåntico, que revive na sensiblerie da
épocadaRestauraçao. Mas, aemancipaçaointelectual
conduzia logicamente ao progresso moral inciado na
independência politica, o h|ósolo inglês Mackintosh o
sentiu. «Aliteraturaalemaloiapontadacomocúmp|ice
da politica revolucionaria e da hlosolìa materialista´».
Oervinochegaamesmaconclusao,dizendo, que aAle-
ma
,
nha atinge o desenvolvimento nacional, comple-
tando a sua educaçao intelectual, antes de realizar a
tranlormaçao politica. ' !oi por isto, queo impulso do
romantismo veio dos povos germånicos, alemaes e in-
gleses, para os povos-latinos, propagando-se do novo
centrodeelaboraçao, a!rança, para a I talia, Lspanha
e Portugal. Ò romantismo, alheio a doutrinas hlosóh-
cas, sem umaintençao clara do que pretendia, rompia
como passado, domesmo modo que asnovasinstitui-
çoes politicas se haviam elevadosobreasruinasdo re-
gime católico leudal. Na sua vacilaçao doutrinaria, o
romantismo relIectiu todos os movimentos reaccio-
narios e liberais daoscilaçaopolitica.
ÐepoisdaquedadoI mpérioNapoleónico,osreisdo
direitodivinocoligaram-separaextirparemos lermen-
tos de liberdade deixados pela Revoluçao, vendo que
essaaspiraçaoa independência politicase manilestava
simultaneamente em todos os estados daLuropa, sus-
peitaram nasua insensatez egoista, que essa aspiraçao
era produzida poruma imensa liga secreta, e ligaram-
-se também nach
a
mada Santa Aliança pararestabele-
cerem na sua integridade o antigo regime. A Luropa
Histoire dll XIX Siecle, t. XIX, p. 141 .
, Ensaios Filosóficos, p . 264. (Trad. Lcon Simon. )
Histoire dll XIX Siecle, t. XIX, p. 5.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 9
solreuessaestupendavergonhae atraso sistematicoin-
lIigidopelarealezamoribunda.Nesteperiodohistórico
conhecido pelonomede «Restauraçao»,o romantismo
serviua causareaccionaria,lortalecendoapropaganda
clericalcomaexaltaçaomisticadocristianismo,eidea-
lizando o ritual cavalheiresco da Idade Média para li-
so�ear a arisrocracia quej ulgava recuperar os seus
|oros. Lsteperiodo romåntico, aqueem!rançaderam
o nome de Emanuélico, acha-se representado em Cha-
teaubriand e Lamartine, a idealizaçao cavalheiresca,
empregadanodramae noromancehistórico,embreve
se achou translormada em critica cientihca no estudo
das cançoes de gesta da Idade Média. !oi o roman-
tismo emanuélico o que entou tardiamente em Portu-
gal, predominandoaleiçaoreligiosaem Herculano, e a
medieval e cavalheiresca em Oarrett, Castilho, como
uma espécie de Ðucis, rcpresentava o pseudoclassi-
cismopós-revolucionario. Astorpezasda Restauraçao,
as agitaçoes da Inglaterra provocando a implantaçao
doregime constitucional, asrevoluçoesliberaisnosdi-
versosestados, ñzeram renascer nosespiritos mais in-
teligentes os principios de l 78D,asnaturezasingénuas
e lortes protestaram contra o obscurantismoda Santa
Aliança, comoByron, ou pugnaram pela independên-
cia nacional, como Jhomas Moore, ou Mickievik, ou
perderam a esperançanacausadajustiça, e lormaram
o grupo dos incompreendidos, como Shelley, Lspron-
ceda, Leopardie Heine. E estepropriamenteoperiodo
do romantismo liberal, também conhecido por duas
manilestaçoesdistintas,ossatânicos, cujaexaltaçaosen-
timental é conhecida pelo nome de ultra-romantismo, e
essa outraescolaquesedistingue por tersabidointro-
duzirnaidealizaçaoliterariaosinteressesreaisdavida
moderna, a quese deu tardiamenteo nomederealismo.
Eestaaúltimalasedoromantismo, quesubsisteidenti-
hcando osseus processos descritivos com a disciplina
daciência,lalta-lheaindaointuitolìlosóhco, ouo pro-
1 0 TEÓFILO BRAGA
cesso dedutivo,parapoder tomarcomoobj ectodaarte
o condicionalismo da actividade e das relaçoes huma-
nas. Ò h m doromantismo na Alemanha loi a suadis-
soluçao em trabalhos da ciência, que Oervine delìne.
«Jransiçaoda poesia para a ciência e do romantismo
paraacritica' ». L acrescenta. «Òspróprios mestres,os
Oocthe, os Rückert e os Lhland, seguiram a grande
direcçao desta época, e reconcentraram-se cada vez
mais no seio da ciência´». Igual dissoluçao se operou
em !rança, com a renovaçao dos estudos históricos,
com a erudiçao critica da poesia da Idade Média, e
com a concepçao realista na arte, mesmo a Portugal
chegou essa corrente de dissoluçao critica do ronan-
tismo,queainda persistecomonoseuúltimoredutoem
Lspanha.
Lxporas causasquelevarama Luropaaesquecer-se
dassuasrelaçoescoma Idade Média, comoconseguiu
descobri-las, compreendê-las e renovar nesse conheci-
mento as suas instituiçoes politicas, literarias e artis-
ticas, tal é a ideia geral, que j ulgamos indispensavel
para a inteligência da História do Romantismo em
PortugaI.
I Op. cit., p. 1 07.
2 lbidem, p. 1 09.
3 A dificuldade que todos os críticos experimentaram em definir o roman­
tismo, bem como a incerteza de doutrinas dos escritores dessa época de
transformação li terária, que obedeciam inconscientemente a uma necessi­
dade resultante da transformação social, só se explica pela complexidade
dos factos contidos sob esta designação. Decompondo-a nos seus elementos,
tais como o proto-romantismo, o romantismo religioso (cristão e medieval)
o romantismo liberal (nacional, satânico ou ultra-romântico) e por último a
sua dissolução (realismo e disciplina científica) depois desta análise, que
resulta do estudo comparativo da política e da li teratura modera, a ver­
dade estabelece-se por s mesmo.
IDEIA GERAL DO ROMANTISMO
I . Como a Europa se esqueceu da Idade Média. 2. Marcha da Renascença
românica. 3. Causas do Romantismo: A) Erudição medieval dos historia­
dores modernos: a) O que se deve ao elemento romano; b) O elemento
cristão; c) O elemento bárbaro. B) A criação da estética pelos metafísicos.
C) A reacção nacional entre os povos modernos. 4. Porque chegou o roman­
tismo tâo tarde a Portugal. 5. Como foi compreendido o romantismo em
Portugal: a) Estado da ciência hisforica; b) Estado das ideias flosóficas so­
bre arte; c) Renascimento de um espírito nacional fantástico. 6. Consequên­
cias contraditórias.
1. COMO A EUROPA SE ESQUECEU DA IDADE MÉDIA.
Quando a Idade Média acabavadesairdaelaboraçao
sincrética e lenta de uma civilizaçao, quando estava
terminado o ciclo das invasoes, criadas as linguas vul-
gares, caraterizadasasnacionalidades,deh nidasaslor-
mas sociais, inventada a poesia sobre tradiçoes pró-
prias, quando l he competia dar largas a uma plena
actividade, tudo isto loi desviado do seu curso natural,
pel os dois grandes poderes que di rigiam o tempo.
A Igrejamodelandoa suaunidadesobrea administra-
çaoromana,ea realezalortalecendoasuaindependên-
ciasobreoscódigosimperiais, hzeramcomoestes pro-
prietarios das margens dos rios tornados inavegaveis
por causa dos açudes, torceram a corrente, violaram a
marchahistóricados temposmodernosa bem das suas
1 2
TEÓFILO BRAGA
instituiçoesparticulares. Nomeadodo séculoxva Lu-
ropaestavaquaseesquecidadequeprovinhadaIdade
Média, no séculoXVI era essa idade considerada um
estadio tenebroso pelo qual sepassaracomo provaçao
providencial. Ò modo como o conhecimento das rela-
çoes da civilizaçao moderna com a Idade Média se
obliterou,éumproblemahistoricodealtaimportåncia.
as linguas vulgares loram banidas da participaçao li-
turgica, e o latimapretextodauniversalidadetornado
a lingua ohcial da Igrej a e das suas relaçoes com os
estados, como nas maos do clero estava a exploraçao
literaria, por um habito inveterado o latim tornou-se
até ao hm doséculo passado alinguagem exclusiva da
ciência. Ðaquiumaimpossivelvugarizaçao.Aslinguas
romånicas, por esta dependência constante da autori-
dade dolatim,solreram uma aproximaçaoartilìcial da
alectadaurbanidade,osgramaticos,imbuidosdostipos
linguisticos dos escritores do século de Augusto, cha-
maram as construçoes mais peculiares e originais das
novas linguas, idiotismos! Se observarmos nos lactos
¡ uridicos da-se a mesma violaçao, o direito comunal,
passado a lormaescritano meio dasgrandeslutas das
classesservasqueselevantaramaalturadepovo,loide
repente substituido pelavontadeou arbitrioreal, o re-
nascimento do direito romano interessava a realeza e
por isso voltou ao seu vigor, serviu de modelo para a
codih caçao. Quanto a poesia a mesma deturpaçao, as
cançoes de gesta, espontåneas e repassadas das tradi-
çoes mais vivas das lutas para a civilizaçao moderna,
loram susbtituidas pelos leitos dos Oregos e Romanos,
que terminaramno extenuadoidilicodopaisde Tendre,
dosinterminaveisromances de Bruto e Clélia, e das imi-
taçoes de !énelon, e dos embelezados polvilhos de
Tressan. A epopeia da Idade Média, inspirada pela
obra da consolidaçao das nacionalidades,perde o seu
espirito para calcar-se sobre o moldes de VirgJio. Arios-
to ridiculariza o lundo épico das principais gestas,
HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 13
Camoes imita a Eneida, para cantar a nacionalidade
portuguesa, Tasso segue a mesna corrente erudita
paracantaro leitoqueassegurou indirectamente aso-
ciedade medieval a suaestabilidade.
Na arte repete-se a mesmaviolaçao, a arquitectura
goticaédesprezadapelasordensgregas,oestiloogival,
criado ao mesmo tempo em que o povo assegurava
a suaindependênciade terceiro estado, e assimil avaa
suaindole ariana o cristianismo semita, ligado a vida
nova por esta augusta tradiçao da crença e da liber-
dade,loibanidodasconstruçoesparaseguir-sealouca
parodiade uma artequenadatinhadecomumcom o
estadoactual. A historia, escritasobreapautaretorica
deTito Livio, tornou-seporessalalsidadcdanarraçao
declamatoria,aeleméridedascortes.I mitou-seoteatro
romano, nas tragédias chegou-se a ignorar completa-
mentea existência dopovo, emvezdecriar, traduziu-
- se e comentou-se l aboriosamente os escritos que
nenhumas ideias trouxeram a civilizaçao, obras dereto-
ricos, que empeceram o labor intelectual pelo prestigio
da autoridade. A critica tornou-se uma simples com-
paraçaomaterialoucraveirados tiposdobelodaOré-
ciaedeRoma.Asconsequênciaspalpaveisdestalonga
desnaturaçao vêem-se no século XVI: a Igre¡ a procla-
ma-searistocrática, noConciliodeTrento,arealeza,cria
os exércitos permanentes, e torna-se cesarista, isto é, cor-
rompendoparadominarcomsegurança.Aunidadepa-
palloi quebradapelaRelorma, o cesarismoloi senten-
ciado e executado pela Revoluçao. Mas o estado de
atrasoemquelìcaramosespíritos,desnorteadosdoseu
lìm, durou mais algum tempo, os lactos de pronto se
tornam consumados, as ideias por isso que vao mais
longe,dilìcilmentese recebcm.
AAlemanha, original pelasuaraçalorte, aindarica
de mitos proprios, com uma lingua de radicais, com
um individualismo espontåneoebelastradiçoesépicas,
desnatura-seanteo catolicismo, hcaimitadoradapoe-
1 4
TEÓFILO BRAGA
sia da Provença, esquece as suas epopeias, adopta a
Biblia em latim, gasta as suas lorças em uma lantas-
tica reconstruçao do Santo Império, e por h m anula-se
na imi taçao servil da l i teratura o|ì ci al da corte de
Luis XIV. Na Inglaterra, o veio normando abala por
vezes a genuinaimpetuosidade saxonica, predominam
os imitadores classicos, os Pope, os Ðryden, os liricos
laquistas. Mas nestes dois povos havia um nucleo de
tradiçoes vigorosas resultantes da vitalidade da raça,
esta lorça natural havia de impeli-las a originalidade.
ÐelactoaAlemanha,resgata-sedasubserviênciada
!rança, e imitando provisoriamente a literatura ingle-
sa, achou de pronto a sua leiçao nacional.
A !rança, a naçao que provocou a criaçao da poesia
moderna em todos os povos, pelo entusiasmo que pro-
duziam as cançoes dos seus trovadores, pelo interesse
que se ligava as gestas dosjograis, esqueceu este pas-
sado esplêndido, para contar a actividade l iteraria
desteMarlherbe. A I talia, tornadaa sededaerudiçao,
venceu muitas vezes a correntedeletéria, pelo enciclo-
pedismo dosseusgrandes génios que pressentiram e as-
piraram a unidade nacional, a pintura, como nao teve
que imitar da antiguidade, atingiu logo no século xva
maximaperleiçao,amusica,procurandoosmodosgre-
gos, e querendo harmonizar-se com a tradiçao grego-
riana da Igre¡ a, jazeu embrionaria até ao século XVIII.
A Lspanha, perdeu a criaçaodo seuromanceiro,¡a ex-
tinta no século xv, os poetas traduziram e imitaram a
Antiguidade, como Santilhana ou Vilhena, mas o tea-
troloioriginal,naosoporquesobapressaocatolicaera
o unicoorgaodaopiniaopublica, masporquesebasea-
vasobolundotradicionalehistoricodanacionalidade.
Portugalnuncaderalormaastradiçoes,quepossuia, a
sualiteratura, como o notouWoll, teve de imitarsem-
pre, atingindo por isso uma prioridade de quem nao
elabora, e umaperleiçaodequemsoreproduzmecani-
camente, em vista deste caracter o romantismo so po-
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL IS
dia aparecer neste pais, quando ele estivesse autori-
zado, e se admitisse como imitaçao. Logicamente loi
Portugal o ultimo pais onde penetrou o romantismo.
Porumaconexaoevolutivaprolunda, em todosospai-
sesondeseestavaoperandoumanovaordemnalorma
publica, seguiu-se igualmente essa crise literaria, que
lazia com que se procurasse relIectir a expressao ou
caracter nacional nas criaçoes da literatura. Por isso
duranteas lutas do romantismo, muitasvezesos parti-
darios dos novos principios literarios loram acusados
deperturbadoresdaordempublica, comoem!rança,e
até assassinados como demagogos pelo despotismo na
I talia.
2. MARCHA DA RENASCENÇA ROMÂNICA.
Competia a Alemanha, que iniciara com a Relorma
a liberdade de consciência, completar a obra proclamando
a liberdade do sentimento. Ò movimento do romantismo
partiu daAlemanhaporqueeraa naçaoque pelosseus
habitos |ìlosolìcos mais depressa podia chegar a ver-
dade de uma concepçaoracional, e porque os tesouros
das suas tradiçoes, apesardosséculosqueseimolou ao
catolicismo, eram portallormaaindaricos, queaopri-
meiro trabalhodeOraal, reconstituiu-seavelhalingua
alema, pelo trabalho dejacob Orimm, a mi tologia e o
si mbolismo germånico, pelo trabalho de Ouilherme
Gri mm e Lachmann, as epopeias de Alemanha, a
ponto de um Stein levaro espirito nacional paraa inde-
pendência, e Bismark aproveitar esta mesma corrente
darenovaçao das tradiçoes elundirtodas asconledera-
çoes em uma absurda unih caçao imperial .
Ðepois da Alemanha, era a Inglaterra, pelas condi-
çoes de independência civil e politica provenientesdas
s uasinstituiçoes, quesepodiairprocuraro segredoda
originalidade literaria. Pela j usta coexistência entre
uma aristocracia territorial e as classes industriais, a
1 6 TEÓFILO BRAGA
realeza nao pode usar as lorças sociais segundo o seu
arbítrio, a crisereligiosaprovocadaporHenriqueVII, e
a revoluçaopolíticadeCromwe|, loramdoisdos maio-
res impulsos para a dissoluçao do regime catolico-
-leudal. Lmasociedade trabalhada pelas emoçoes de
tao importantes movimentos, nao podia deixar de se
inspirarda sua actividade orgånica, os escritos de um
Shakespeare, de Benjohnson, de Marlow, de Ðe !oc,
de !ielding, de Swilt, de Richardson, têm todos os
caracteres da litaratura moderna. a vidasubjectiva da
consciênciaindividual aproximadadageneralidade da
humana, os interesses e situaçoes de uma vida social
que selundaemdeveresdomésticos oudelamília. Òs
romances de Walter Scott serao sempre belos e um
grandedocumentoparaextremarasliteraturasmoder-
nasdasantigas, em queavidapublicaeraoob¡ectoda
i deal izaçao artísti ca, por esta clara concepçao de
Com te, é queentendemosque a palavraromantismo ex-
primecaba|menteo lacto da renovaçao das literaturas
da Luropa noprincípio deste século. A verdade existe
quando a teoria condiz com o lacto, electivamente a
Alemanha recebeu da Inglaterra o primeiro impu|so
para a renovaçao literaria que se propagou aos povos
do Meio-Ðia.
Temos atéaqui mostrado como a Luropa perdeu o
conhecimentodas suas relaçoes com a Idade Média, e
quaisos povos que estavamemcondiçoes mais lavora-
veis para as descobrir. !alta ainda seguir o trabalho
dessarenovaçao,éaestapartequechamaremoscausas
doromantismo. Ðesdeo começoesteséculoassinalou-
-se por umnovocritériohistorico, aerudiçaoquebrou
as estreitas laixas em que a envolveram os comenta-
dores das obras da Antiguidade, e exerceu-se sobre as
instituiçoes da Idade Média. Ò cristianismo, tido até
alicomoumunicomediadordacivilizaçao, tevedece-
dera maior parte deseus títulos ao lecundo elemento
germånico modihcado pela civilizaçao greco-ro
9
ana.
HIST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 7
Ðiez cria a gramatica geral das línguas romånicas, e
assim se descobre a unidade dos povos romånicos .
ÐesdequeKantencetaarenovaçaoh losolìca,oproble-
ma da estética, ou hlosoh a da arte, nunca mais loi
abandonado, por seu turno !ichte, Schelling, e Hegel
levam a altura de ciência a critica das criaçoes senti-
mentais.Aestasduascausas,acresceodar-seemquase
todosospovosdaLuropa,emconsequênciadaRevolu-
çao !rancesa, uma aspiraçao nacional em virtude da
qualarealezadespoticatevedeaceitarascartasconsti-
tucionai s. ou também, no periododasinsensatasinva-
sõesnapoleonicas,ospovostiveramderesistirpelade-
lensiva, reconhecendoassimpeloseu eslorço o graode
vidada nacionalidade. As literaturas tiveram aqui um
ensejoparasetornaremumaexpressaovivadotempo.
Ciênciacomplexa,comotodas as queanalisame se
lundam sobre lactos passados dentro da sociedade
e provocados por ela, a historia literaria so podia ser
criadaemumaépocaemqueohomemdotadodelacul-
dadesmenosinventivas,estacontudolortalecidocomo
poderde observar-see deconhecero grau de consciên-
ciaou delatalidadequeteve nos seus actos'.
3. CAUSAS DO ROMANTISMO.
A) ERUDIÇ
Ã
O MEDIEVAL DOS HISTORIADORES MODERNOS.
Apesar da imensa elaboraçao economica e cientíhca,
o século XIX distingue-se principalmente pelo génio his-
tórico. a renovaçao intelectual partiu da abstracçao
I "A história da literatura é de origem modera; pertence mesmo em grande
parte a uma época quase recente.» (Hallam, IItradução; p. I, t. I) Era esta tam­
bém a ideia de Bacon, no livro De augmel/tis scientiamm; ele considerava a his­
tória literária, como a luz da história universal; o seu plano para uma verdadei­
ra história era, investigar a origem de cada ciência, a direcção que seguiu, as
controvérsias que motivou, as escolas que desenvolveu, as suas relações com a
sociedade civil, e influência mútua que exerceram entre si.
1 8 TEÚFILO BRAGA
metaüsicaparaacritica, das hipotesesgratuitasparaa
ciência das origens, do purismo retorico para a h lolo-
gia, opos aosdesigniosprovidenciaiso individualismo,
deu asciênciasacadémicas,queserviamparaalardear
erudiçao, um intuito sério indagando nos lactos mais
acidentaisos eslorçosdohomemnasuaaspiraçaopara
a liberdade, so em um periodoassim positivo é que se
podiaacharaunidadedetamanharenovaçao,essauni-
dadeé a Historia. Quebraram-seasvelhas divisoesda
história sagrada eprofana, dehistória antiga e modera; to-
dasascriaçoesdohomem, pormais|ortuitasmerecem
hojeque sej am estudadasnosdocumentos que restam,
asinstituiçoessociais,as industrias,osdogmas,odirei-
to,aslinguas,asinvasoes,asobrasinspiradaspelosen-
timento, os costumes, superstiçoes, sao objecto de ou-
trastantas ciências, separadaspormétodoparamelhor
exame, mas comparadase unidas, emumunicoh m÷
a ciênciado homem. Lm todas estascriaçoesdaactivi-
dadehumana,olatalismosuplantanosperiodosprimi-
tivos a liberdade, o sentimento supre a laltadodesen-
volvimentodarazao,aautoridadeimpoe-seaconsciên-
ciaea responsabilidade moral,enhmapaixaonaodei-
xaao homem a posseplenadesi mesmo, o acto prati-
cado revela quase sempre um paciente em vez de um
orgaoactivo. A historia religiosaoupolitica,a historia
das invençoes, a historia da linguagem, mostram-nos o
homem nesteestadosecundario, nestadependênciade
espirito, terrorsagradoeautoridade,acaso,elormaçao
anonima provocada pela necessidade de uma comuni-
caçao imediata, sao moveis violentos que arrastam o
homem emvez de seremexercidos e dirigidos pelasua
|iberdade. Nas condiçoes sentimentais em que entra
ja um elemento de razao nao acontece assim, as cria-
çoes artis t i cas nao sao provocadas pel o i nteresse,
nao têm umhm calculado, naoseimpoem dogmatica-
mente, nao seexigem, nemsaolatalmentenecessarias.
Isto provao seu grandevalor, a sua proximidade dos
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 9
resultados lìnais destagrandee unitariaciênciado ho-
mem.
E porissoque noséculoquesoubeconceberahloso-
hada historia, quesoubededuzir da discordåncia das
religioese das linguas, dasraçase dos climas umahar-
monia superior, a tendência, so a esse século competia
l ançaras basespositivasdahistória das literaturas. Ða-se
aqui uma coincidênciaqueexplicaestelacto,oprimei-
ro que lormulou o principio÷ Ò homem é obrade si
mesmo, que, na Scienza Nuova, achou uma lei racional
da vida colectivado homem sobre a terra, esse mesmo,
o inaugurador da lìlosoha historica, Vico, propos do
modo mais racional as bases da crítica homérica e a
verdadeira teoria da evo|uçao do teatro grego. Nestes
doisprocessosestavamimp|icitososmodoscomoamo-
derna historia procede no exame das literaturas. !oi
também, Schlegel, o que primeirolez sentira unidade
daslinguasindo-europeias,o mesmoquedeterminoua
l eiorgånicaque dirigiuaelaboraçaodas |iteraturasno-
vo-latinas. Repetimos, a historia das |iteraturas é uma
criaçao moderna, quando Aristoteles ou Quintiliano
observaramomododereve|arossentimentosnasobras
daliteraturagrega, achavamnelas, é verdade, umpro-
duto vivo, mas nao procuravam a espontaneidade da
natureza, procuravam o cånone retorico dentro do qual
e|a devia hcarrestritatodas asvezes que precisasse ex-
primir sentimentos analogos. Lustatio e Ðonato, estu-
dandoHomeroouVirgilio, naoiammaislongedoquea
coligir as tradiçoes da escola que bordaram avida dos
poetas, separados da sua obra e pior ainda da sua na-
cionalidade. Òs traba|hos de Struvio e !abricio redu-
ziram-se a vastas indagaçoes bib|iogralìcas dos monu-
mentos que restavam da Antiguidade. Òsj urisconsul-
tosdaescolacujaciana,animadoscomoespiritocritico
daRenascença, tiveram por isso mesmo umvislumbre
mais verdadeirodoqueviriaasera historiadaslitera-
turas, eles loram as obras literarias do teatro romano,
20
TEÓFILO BRAGA
as satiras dejuvenal e Horacio procurara colisao dos
interesses sociais para recomporem o sentido dos lrag-
mentosdas leisque sehaviamperdido nestarenovaçao
da Luropa chamada «os tempos modernos».
Ðepoisdehavermospassadopeloperiodotecnológico,
como diz admiravelmente Augusto Comte, sentimen-
tal,latalista,autoritario,eimpondo-senoalerrodatra-
diçao,depoisdeexaustooperiodoartítico, oumetafsico,
¡ a com o sentimento aliado a um elemento racional e
por isso mesmo dignamente criador, sucedeu-se o perio-
do cientíico, a que pertencemos, em que o homem to-
mando por meio unico do conhecimento ÷ a razao,
procura ter a consciênciade tudo quanto se passa em
si, na colectividade humana, e no meio em que existe.
Segundo esta direcçao positiva, a literatura lorma
umtodoorgånico, cujovalorhistoricoconsisteem nao
ser dominado por um critério individual . analisada a
obra literaria sob o ponto de vista estético, é preciso
conhecer o génio do artista, o estado de espirito, para
vercomoloi impressionado e como soube imprimirao
que era uma particularidadedoseupathos umagenera-
lidade humana. Poréma historia naoprocura isto, vai
consideraressaobraconexacomtodasasoutrasmani-
lestaçoes da inteligência, procurar nela mais do que
o espirito do individuo, as ideias e as tradiçoes da
suaépoca, mais do que caracter do artista, o génio da
suaraça,todosos acidentes domeioemqueloi conce-
bida, o modo como a compreenderam, a acçao ou in-
Duênciaqueexerceu. Aquiaestéticaéespeculativa,ea
historiapuramenteob¡ectiva. Mas,dirao, para quela-
zer dependerahistoriadas literaturasde uma tal com-
plexidade de processos, nao separando a obra-prima,
pela sua mesma perleiçao individualista, dalatalidade
domeiosocial?Naoseraquererdeduzirmuitodeuma
observaçaoquedeviaserrestritaºNaoseradihcultaro
problema com o que lheé acessorio e imanenteº Nao.
Anecessidadedestaordemdeprocessosestanaimpor-
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2 1
tåncia excepcional daobra literaria, vimos que era a
criaçao em que a liberdade humana aparecia menos
comprometidapelapaixaointeressadae pelaviolência
da autoridade. Ðiante de tais documentos, procedera
comverdadeirocritériooquepuderlermelhortodosos
sentidos que exprime, mesmo aquilo que mais incons-
cientementeserepetiu. Assimahistorialiterarianosé-
culo XIX procura de prelerência as obras espontåneas,
delormaçaoanonima, aquelasem que menos se acusa
a individualidade, paraelaacabaramosmodelosclas-
sicos, os tiposdobelo, os cånones retoricos, e todas as
obras sao belas, por mais inlormes, por mais rudes,
quandonoseueslorçoparaatingirumalormacomuni-
cativase aproximem mais da verdade.
Ve¡ amos agorao métodopositivo na historia litera-
ria, comoselormulasobreo quetemos dito. Primeira-
menteaparece-nosofacto;
'
é oestudodaobraemsi, tal
como chegou a nossa observaçao, olerece-nos no seu
primeiroaspectoumestudocomparativo,umaclassih -
caçao quanto a sua lorma, quantoaos sentimentos que
exprime, quanto aos processos empregados para este
resultado. Ðepoisdofacto, omeio dentrodoqualseelec-
tuou,éo estudodaépocaemqueloisentidaerealizada
a obra,quereßecteemsiatradiçao,queéapartelatal-
menteimitativa, e aaspiraçaomoral,queé aparteque
constitui a verdadeira originalidade. Ðepois dofacto e
do meio, segue-se o conhecermos o agente; é o artista,
o pensador, em que, pelo grau de consciência moral
que a obra revela, vamos reconstituir o homem, resti-
tui-lo a suaindividualidade permanente.
Assimdestemétodopositivosomoslevadosa conhe-
cer também o caracter experimental ou ob¡ ectivo da
historialiteraria. Imavezconsiderada a obraintelec-
tual como estranha a todaa arbitrariedade pessoal, a
todo o capricho ou aberraçao, por isso que a sua ge-
neralidadeprovémdasuapropriaracionalidade,ocon-
j untodeobras que lormamumaliteratura, so podeser
22
TEÓFILO BRAGA
bem compreendido quando através das suas multipli-
ces lormas podermos lixar como o génio privativo de
uma raça serevelounelas, como elas, apesardestacor-
rentelatal, tiveram umelementolivre para exprimirem
consciênciadanacionalidade, sealìrmouporessasobras,
e com elas lortaleceu a sua unidade, e linalmente,
quando nesse todo orgånico podermos discriminar as
diversas correntes dacivilização transmitida. Lxemplilì-
quemos estas ideias. o estudo da obra em si vê-se, nos
processos deexegesepraticados comA Divina Comédia,
com o Dom Quixote, ou como Fausto. Ðo estudodomeio
em que ela loi concebida, temos o estudo particulari-
zado de certas épocas, como a Renascença, de certas
instituiçoes, como a doJerceiro Lstado ou damonar-
quia, com relaçao ao homem, temos o trabalho psico-
logico das biograh as, lundadas sobre as duas relaçoes
antecedentes, como a vida de Ðante, de Ralael , de
Corneille ou de Saint Simon. So assim, com todos
estes elementos, se chega ao pleno conhecimento da
historialiteraria.
QuandojacobOrimmreconstituiu os velhosdialec-
tos germånicos na sua assombrosa Gramática Alemã,
quando reconstruiu os elementos de vida étnica das
raças germånicas nasuaMitologia Teutónica e nasAntigui­
dades do Direito, a importåncia das raças começava
a ocupar a ciência. Sob o aparato lormal da unilìca-
çao catolica que destruiu durante séculos o que o gé-
nio alemao estavaintroduzindo na historia, loi o inex-
cedivel Orimm, unicamente aj udado pela linguagem
vulgar, pelas locuçoes, pelos anexins, pelos vestigios
dos velhos poemas, pelos contratos civis, pelas croni-
cas, lendas e contos, que tornou a dar vida a essa raça
violada por uma doutrina que lhe loi imposta. Ðesde
queseviuqueexistiaumamanilesiaçaolataldaraça,é
que o tipo historico de Lutero loi compreendido. Ime-
diatamenteo critério novo trouxenovos documentos a
historia das literaturas, o incansavel Saint Pelaye La
HI STÓRIA DO ROMANTI SMO EM PORTUGAL 23
Cureprocurava,acustadasuavida,pelasbibliotecas
europeias as ve|hascançoesdegestalrancesas, queaté
entaosohaviammerecidoodesprezodossabios. Todos
os povos concorreram para este novo estudo com os
seuscantosnacionais, comooquehaviade mais carac-
teristico da suaindividua|idade. !oi assim que se che-
gou a percebero sentidodascançoes provençais,onde
o sentimentodenacionalidade edeindependência,seser-
viudessalormaliterariaparaapostolaraliberddemu-
nicipalcontraa absorçao prepotentedoleudalismodo
Norte da !rança. Sob este critérioda nacionalidade é
que Os Lusíadas loram considerados a unica epopeia
erudita dos tempos modernos . Ðeste modo as obras
maisaproximadasdostiposbe|osdaOrécia,maispau-
tadas pelas poéticas de escola, quase nada signih cam
diante da historia em comparaçao de um velho canto
de guerra, deuma tradiçao local, deum autohieratico
daslestasnacionais. Òcaracterdacivilização vê-setam-
bém contraprovadonahistoriada|iteratura, aAlema-
nha quedesde a Relormacomeçoua revolver-se sobo
jugo da unidade
¿
atolica a ponto de a quebrar, conti-
nuou esteeslorço nos|ìnsdo século XVIII, sacudindoas
lormas da civilizaçao que recebiada !rança, parains-
pirar-se unicamente do seu génio nacional . No corpo
geral das literaturasmodernas,o conlrontodaciviliz
_
-
çao convenciona| recebida autoritariamente pelas no-
vas nacionalidades, com a direcçaoque estavanavida
modernaenanovaordemsocial,mostra-nosumconDi-
to constante. os dia|ectos vulgares tornados indepen-
dentes do |atim disciplinar e urbano,

estavam aptos
para exprimirem asnecessidadesdainte|igência,o�no-
vossentimentosdavamorigemaoutraspai×oes, acoli-
s aodeinteresses deoutraordem,nadamaisnaturaldo
que seguiremestaespontaneidadena suacriaçao. Nao
aconteceu assim. a traduçaolatina era lorte, reconhe-
cida, admitida, e de mais a mais, restabe|ecida com o
amorde quem ac
¿
a e possui um tesouro. Assim na ci-
24
TEÓFI LO BRAGA
vilizaçao moderna, o espíritoleigo,queseencontranas
l utas da burguesia, nas jurandas, nas universidades,
nas comunas, nos par|amentos, na Renascença e Re-
lorma, é esta luta da natureza que segue a sua marcha
espontånea, o seu desenvolvimento proprio e indivi-
dual, contraapressaoautoritariaeclassicadodogma-
tismo da Igre¡a.
Lstagrandel ei historica, achadanas literaturas dos
povos catolicos, por Schlegel, unicamente nas antino-
miasdacivi|izaçao, bastavaparademarcara areadas
literaturas novo-latinas . Mas este grupo importante
constitui-se porcaracteres maispositivos. em primeiro
l ugar,saoessas literaturasescritasemlinguascongéni-
tas, chamadas românicas, quesaooitaliano,olrancês,o
provençal,o espanhol, o catalao,o português,o galego
e o romånico. A lingua, que constitui ho¡ eumdos ele-
mentos mais lortes da unidade nacional, indica tam-
bém ao his toriador a concatenaçao das l i teraturas.
Ðepois da lingua os sentimentos. a bondade e bran-
dura céltica que abraçou lacilmente o cristianismo,
lacilmente esqueceu os seus dogmas druidicos pelas
maximas do Lvangel ho. Nao aconteceu assim com
os povos do Norte, germånicos, saxoes, escandinavos
e eslavos.
Portanto neste grupo de literaturas modernas nao
apareceesseespiritoimplacavel ecosmogonicodas mi-
tologiasdoNorte, esseindividualismolorte, essa tena-
cidade, que tanto custou a ser penetrada pelos senti-
mentoscristaos. Òteatroespanholpeloseuimponente
catolicismo, nuncapoderiaconlundir-secomumdialo-
godeSigurd. Lsseindividualismonacionaléquedaao
espanhol o tipo da «capa e espada», ao italiano a im-
provisaçao da commedia dell'arte, ao inglês a tremenda
tragédia historica do génio saxao.
Ò estudo da historia das literaturas modernas, em
vistadestes principios, compreende a literatura italia-
na,alrancesa,aprovençal,acastelhana,aportuguesa,
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2S
agalegaearomånica. Òndecomeçaremosesteestudo'
justamenteno pontoemqueumanovaraçaentrouna
hi storia. Comasinvasoesgermånicas,quebra-seauni-
dadeimperial,Romadeixadesera arbitradomundo,
os dialectos vulgares começam a ser reconhecidos no
uso civil, e pelo seu desenvolvimento virao a lazer es-
quecero latim classico, e a seremo caracteristico mais
lortedas nacionalidades. Poisbem,o estudodaslitera-
turas modernas devecomeçarmesmo antes da consti-
tuiçao das novas nacionalidades, no momento em que
novas raças trabalham para se alìrmarem historica-
mente. E porissoqueantesdeestudaremsi cada uma
das literaturas novo-latinas, que loram o resultado e
sao a contraprova da autonomia, do organismo de na-
cionalidades leitas, temos deexpor esses elementosja
lormados, que loram aproveitados ou se impuseram a
nova civilizaçao. Lm todas estas literaturas meridio-
nais, ha elementos comuns, que eram coexistentes ao
tempo da lormaçao das nacionalidades, sao eles, a tra-
di çaogreco-romana, queemgrandeparteatrasouaorigi-
nalidade destes povos meridionais, principalmente de-
poisqueloi abraçada pelo catolicismo, o elementoger­
mânico, resultado das invasoes, e dondesederivao que
ha de mais original e independentenestas l i teraturas,
como as cançoes de gesta ou os romanceiros, o ele-
mento céltico, o mais obliterado, porque constituia o
lundo primitivo, que apenas se conserva em um ciclo
poético quaseerudito, e emvagassuperstiçoes popula-
res, lìnalmente o elemento oriental, desconhecido na
hi storia, enquanto se nao estudaram as migraçoes
indo-europeias, provado materialmente nas relaçoes da
Luropa como Òriente no tempo das Cruzadas, e so-
bretudo, depois que a moderna ciência da lìlologia, des-
cobriu, com Bopp, a unidade das linguas da Luropa,
deduzindo-as de uma origem comum, actual mente
representada pelo védico, e o encadeamento tradicio-
nal dos contos populares determinado por Benley.
26
TEÓFILO BRAGA
a) O que se deve ao elemento romano
Aoprocurarnasliteraturasmodernaso elementor­
mano, temos a distinguir o que pertence as imitaçoes
lorçadas, meramente individuais, das épocas eruditas
chamadas de Renascença, e as lormas de civilizaçao
transmitidasde ummodonaturale aproveitadascomo
primeironucleodeum trabalhointelectualqueasante-
cedeu. Ðe ordinario conlundem-se estas duas leiçoes,
semdiscerniremqueos conhecimentosdaAntiguidade
ClassicadeumPoggiooudeumImolanaoexistiamna
época de labor escuro daconsciência, que vai desde a
mudançada sede do ImpériodoÒcidenteparaBizån-
cio até ao tempoda Carlos Magno. Neste longoperio-
do, chamado da Baixa Idade Média, os monumentos
literatos do século de Augusto estavam mais do que
perdidos, por isso que a sua importåncia eraja desco-
nhecida durante os dois séculos que sucederam a essa
grande épocade esplendor. Se a tradiçao da literatura
latinalossetransmitidacomoumacoisaviva,secoexis-
tisse com a lormaçaodas linguas vulgares, e como es-
pirito das modernas nacionalidades que procuravam
constituir-se, nao se teriam dado os seguintes lactos .
primeiro, a pronta dissoluçao do latim urbano e pre-
ponderånciadosdialectosrusticos,usadosaté nosactos
j uridicos,segundo,aprolundaantinomiaentreoclassi-
cismo dos modelos retoricos e as primeiras tentativas
literarias, livres manilestaçoesdalingua,dapaixao,do
interesse e da vida propria dos novos novo-latinos.
Ò primeirolenomenoaindasepoderajulgarsemsolu-
çao de continuidade, em quanto a sua manilestaçao,
apesar designilìcar que a vastidao das colonias roma-
nas lazia com que a urbanidade latina losse invadida
pel a lorçada modi lì caçao da l oquel a est rangeira,
porém, o segundo lenomeno revela-nos precisamente
queo estrangeirotraziaumanovaordemdeideias, um
outroestadodeconsciência,umespiritoemtudodesco-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 27
nhecido, queéo queproduzessaantinomia entreasua
expressaoliterariaeos modelosimpostosdacivilizaçao
romana. Toma-sede ordinariocomoideia dedecadên-
cia do Império Romano, o desabar de um sumptuoso
edilicio, cheiodeaparatosascolunas,demaravilhasar-
tis ticas, sendo as naçoes modernas os espectadores
desta catastrole, quecorremsolicitas,depoisdeumle-
targo deespanto, a coligiremcomreligioso respeito as
venerandas reliquias, os lragmentos dispersos desta
grandeza queloi .
Assim loi para os eruditos do século XVI, para os
Aldos, os Etiennes, essa «moderna antiguidade», como
l hes chama Michelet, em que as proprias mulheres,
como aconteceu em França, laziam a colaçao dos di-
lerentes manuscritos de um Cicero. Òs que partem
destaimpressaoparajulgarem aacçaodoelementola-
tino noperiododeelaboraçaoque ultrapassa o século
IX, obedecem a um miragem, que nao os deixa nunca
chegar a verdade, e os obriga a um sistema de perpé-
tuas conciliaçoes.

Para discernirnos esse elemento latino nas origens
li terarias da Europa, precisamos propor a questao em
outros termos. determinar o ponto em que começa a
decadência romana, procurar de prelerência as causas
morais, lìxar os caracteristicosdessa decadência, ver o
queesta civilizaçao extinta deu as novas raças queen-
tram na historia, e explicarlìnalmente comoo cristia-
nismo combateu a literatura latina, ao passo que a
I grej a loi sucessiva e calculadamente adoptando a tra-
di çao romana. Por este processo chegamos a saber
o que entrou como elemento orgånico na civilizaçao
moderna.
AntesdasinvasoesdosBarbarosda Italia, edaque-
da o I mpériodo Òcidente,¡a aliteraturalatinaestava
nortaemRoma,naoeraprecisoqueestesdoiscataclis-
nos viessem por em evidênci a esse grande colapso
intelectual, porqueele ¡a se estava dando em conse-
28 TEÓFILO BRAGA
quência de causas imanentes dapropria literatura, que
representava latalmente oestadomoralem quese caira.
Òcesarismoalrontosodosimperadoresquesubiramao
trono depois de Marco Aurélio, a custa da corrupçao
que espalhavam no povo, dando-lhepanem et circenses, e
l isonjeando a protérvia dos soldados pretorianos, que
num grito de embriaguez lhe conleriam a soberania
aclamando-os,o cesarismo,estaartedeñrmaro poder
sobre a degr�daçao moral, crioupor necessidade uma
l i teraturadepoetase depanegiristas,deretoricos e de
cronistaso|ìciais , laureadosnasrecitaçoespub|icas,ad-
mi ti dos nos banquetes dos i mperadores , elevados
acimadeCicero,como aconteceucomo ignoradoCor-
nélio!rontoniano. Iµcapazesdecompreenderquea li-
teraturaé uma sintese dogénio nacional, que exprime
as necessidades intimas de um povo, as violaçoes da
suaj ustiça, oidealdasuarevoluçao,quel heassinalaa
suaparte na vida historica da humanidade, esses des-
graçados declamadores, vendidos ao louvor das arbitra-
riedadesimperiais, e vitimas delas, como sucedeu com
Sereno Samonico, assassinadoporCaracala, recupera-
vam a perdado pudorcompondopoemas didacticos e
instrutivossobreapesca,sobreacaça,sobreaastrono-
mia. Lraanegaçaodosentimentopoético,sobOaliano,
cemdestesversejadoresapareceramcelebrandoemou-
trostantosepitalåmiosonascimentodeumnetodoim-
perador.
Por qualquer aspecto que interroguemos os monu-
mentos literarios, acha-sesempre o sintoma intimo da
decadência. A historia, esse tribuna|severo dapublica
degradaçao, reduzia-se a elemérides do paço, a peque-
nas intrigas de camarilha desenvolvidas nas suas mini-
masparticularidades. Paraahistoriamerecerainda al-
guma importåncia loi preciso que os retoricos gregos
que estavamem Roma, e escrevendo nasua lingua pa-
tria, ensinassem a verdadeira importåncia dos lactos .
Lm|ìlosohasucediaamesmaincapacidadeparainves-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 29
tigar, adoptaram umdeploravel sincretismo de ideias,
começadopelosecléticosgregos.Ae|oquênciaromana,
essa maxima virtude do lorum, estava reduzida a re-
gras, aj ustas proporçoes ensinadasnasescolasdos de-
clamadores, na partepratica, exercia-se em imodestos
panegiricos, ul trajantes dajustiça para captar um pa-
trício i nüuente, ou o i mperador sanguinario. Aulo
Oéliodeclara, quenoseu temposoo gramatico Sulpi-
cio Apolinario entendia em Roma Salustio| Enquanto
novas ideias morais entravam no mundo, e povos des-
conhecidos, como numa enchente terrivel se levanta-
vam em volta deRoma, sem se atreverem a discutiro
seu Império, mas prestes a submergi-lo ao mais leve
sinaldetemor,nacapitaldasgentes,emRoma,osgra-
maticos ocupavam a atençao publica debatendo entre
si minucias de sintaxe, propriedade de tropos, belezas
de gradaçoes, do mesmo modo que em Bizåncio nas
vésperas da sua ruina se ventilavam questoes teologi-
cas, ou como nos saloes das preciosas ridiculas pouco
antes da Revoluçao Francesa.
Quandoumaliteraturachegaaesteestadodeinani-
dade, é mesmo nasuadecadência uma prova
.
de abai-
xamentodonívelmoraldeumpovo. I sto eraapenas a
consequência, as causas vêem-se através do esqueci-
mentoqueRomatinhadesimesma. Comodissemos,a
civilizaçaoromanacomeçouaoecairantesde Constan-
tino,abstraímosdascausasinteriores e exteriores, bas-
tam-nosaquelas queeramemergentes naíndoledessa
civilizaçao. Em Roma o desenvolvimento dos direitos
civis, loi de tal lorma lormulado, que produzia esses
codigos eternos, que mereceram serchamados ao cabo
detantosséculosarazão escrita; estavanogénioromano
a compreensao da causa publica, e ao Romano cabe o
ter criado essa ordem nova de sentimentos chamados
virtudes cívicas. Masodireitopolitico,agarantiadolacto
c i vi l n a o p a s s o u d e u m e s t a do r ud i me n t a r .
Ò alorismçde Bacon¯jus privatum latet sub tutella juris
30 TE6FILO BRAGA
civili) é a grande lei da decadência achada por Ouizot
nacivilizaçaoromana. Ò individuoeranadaem lrente
doprincipioda autoridade, o cidadaoromanoso podia
testar morrendo em Roma, isto é recebia um direito
unicamentepelolactodetermorridonoponto em que
a autoridade publicapodia manter-lheesse privilégio.
No tempo dos imperadores levaram mais longe esta
violaçao, lormulando que o direito de testar era uma
graça concedida pelos imperadores . \ma vez esque-
cido esteprincipiodaindependência politica,elemento
social que os povos germånicos e escandinavos trou-
xeram com o seuj uri, com as assembleias ao ar livre,
comaliberdadede escolherpatrono, lacilloi desenvol-
veresseoutro principio dissolvente do cesarismo. Sem
umprotesto, semummeiodeparticipardaautoridade
e dea dirigir reclamando, o poder torna-se umapana-
gio divino, e por uma ilusao lacil de se incutir, a arbi-
trariedade substi tui o dever, a graça antepoe-se ajus-
tiça. Criadoo cesarismo romano, que tantasvezes tem
reaparecido sob outras lormas na historia, a corrente
literariaveioexprimirestessentimentosegoistasdaba-
¡ulaçao ao prepotente. Foi entao que a lalta de uma
originalidadeorgånicanaliteraturasetornou maisevi-
dente. Roma lundara desde os seus primordios sobre
um contrato¡uridico, um comum acordo entre os três
povos luceres, ticienses e ramnenses, atingiu mais de-
pressa do que nenhum outro povo a compreensao da
ideia do direito. Passando rapidamente pelo período
poético do simbolismo, elevou-se muito cedo a lorma
abstracta e quasegeométricadalei. As tribos errantes
vinhamespontaneamentesubmeter-sea suadisciplina,
pedir a sua legislaçao municipal . Para o Romano,
desdeos seus tempos mais antigos, ocupado numa la-
boriosa conquista, e numalargae lorte administraçao,
a expressaodo sentimentodoBelo loi-lhe quase um lu-
xo exterior, um acidente secundario. L por isso que a
sua poesia nao tem um vísivel caracter de nacionali-
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 3 1
dade, Niebuhrmostraqueas tradiçoesromanassaoem
grande parte copiadas da Orécia, como a lenda das
ÐozeTabuas,deTarquinioPrisco,queeraestrangeiro,
de Virgini a, de Ménio Agripa, as danças populares
eram também deorigemgrega, a metrih caçao era ba-
seadasobreaquantidade, privativadalinguagrega, que
veiodesnaturar o verso saturnino, antigo e nacional.
\ma vez esquecido o principio lundamental que o
Romanoi ntroduziu na civilizaçao, e queloi o vigor da
suanacionalidade÷a compreensaodajustiça÷ali-
teratura tornou-se estéril, sem ideia, uma artilìciosa
i mi taçaodaslormasgregas . Òteatro,acriaçaoliteraria
que melhor representa a sociedade, nao chegou a ter
umaleiçao nacional em Roma, se nos interesses civis,
cu¡as colisoesdao a acçao dramatica, nao haviacarac-
teristicoromano,comoéqueosentimentovago,asdes-
criçoesdidacticas, easnoçoescientihcasselibertariam
dos modelos gregosº A mesma lal ta de caracternacio-
nal se encontra na mitologia romana, que lacilmente
associou os deuses italicos a todas as divindades dos
povos vencidos . Este sincretismo que vimos nos siste-
mas h losoh cos, no ecletismo, constitui o panteao ro-
mano. A religiao era uma instituiçao oh cial, separada
do sentimento, e por isso incapaz deservir devinculo
de uniücaçao naci onal . A todas estas causas, que
acusavam desde longo tempo na civilizaçao umadis-
soluçao latal, veio acrescer o desenvolvimento do colo­
nato. Ðois séculos antes de Cristo, ja o colonato estava
i ntroduzidonoscostumes romanos,asnovaspovoaçoes
levavama lrenteos Triumiviri ducendae colonial. As tribos
errantes vinham olerecer-se a administraçao romana
para receberem a sua lei colonial, para seh xarem nas
suas conquistas, para se delenderem sob a sua égide.
Emjornandesvemosrepetidos lactosdestaordem. Ðe
lacto o Romano estava adiantadissimo na agricultura,
e loi o primeiro povo que teve o estudo cientihco deste
trabalho, as colonias estrangeiras, tanto conquistadas
32 TE6FILO BRAGA
comovoluntarias, cresciamespantosamente,o éditode
Antonio Caracala loi umaconsequência lorçada desse
desenvolvimento. Com o seu génio unitario e centraliza-
dor, Roma, na impossibilidade de manter sob ojugo o
mundointeiro, loi unitaria navertigemdaimpotência,
dandoaoorbeodireitodecidade. Òseupodertornou-
-se puramentc moral, governava pelo prestigio, pela
autoridade tradicional, reconhecidae nuncadiscutida.
Eraumalorça lantastica, abstracta, prestes a reconhe-
cer-sesem realidadedesde que se tentasse resistir. Te-
mosna historiaumexemploqueexplicaestemomento
criticodavidadeumgrandepovo,quandoRienziquis
restabelecer a velha autoridade imperial, teve unica-
mentealorçadeumatradiçaocolhidanoslivros,domi-
nando pela lascinaçao gloriosa, ao mais leve ataque,
Rienzi caiudassuas alturas de tribuno de Roma, e a
um sopro casual se esvaiu esse sonho que tantoembe-
vecia Petrarca. Roma estava nestas circunståncias do
seu extemporåneo tribuno, emvoltadela aglomeravam-
-se as numerosas tribos germånicas. Nao se atreviam
a invadir a Cidade Eterna, eram as leras daj aula que
recuam diante da vara vermelhadodomador. Masas
ilusoes duram pouco, as tribos irrequietas conheccram
que oj ugo romanoera apenas um simulacrorisiveldo
antigo lerro em brasa. Ao primeiro arremesso de uma
tribo germånica na Italia, com a irrupçao dos Hunos,
deslez-se o lantasma da autoridade, depois dos Lom-
bardos,aOaliaromanaéi nvadidapelosFrancos,aEs-
panharomanaéocupadapelosOodos,aÁlricaromana
é senhoreadapelos Våndalos. As tribos, como os abu-
tres sobre um campodematança, vêm buscar um bo-
cadodeespoliodoVelho Mundo. A mudançadasede
doImpériodoÒcidenteloraumerropolítico,quemais
depressalez sentir a inanidade de Roma. Poruma lei
terrive|, mas inevitavel, Roma saiu da vida historica
desde que realizou a ideia dodireito, a arbitrariedade
imperial, adevassidaodospretorianos,amediocridade
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 33
da|iteratura e a extinçaodo espirito publico, loram a
consequência da laltade um movel superior quedesse
vigora consciênciadanacionalidade.
Jodos os historiadores sao conlormes em alìrmar o
contagio i nvencivel da mediocridade de i nteligência
humanadesdeadecadênciadeRomaatéaoséculoVII;
eraumgrandecolapsoemqueanaturezaprecisavade
um repouso prolundo para entrar em uma evoluçao
nova, eraa condenaçaodasindividualidades capricho-
sasa nulidade paradeixarema naturezaa livreespon-
taneidadeda sua determinaçao. E o queseesta dando
hoj e, na vésperadeuma translormaçaosocial, emque
porumaleiprovidencial,seeclipsaramosgrandespoli-
ticos europeus. Este paralelismo laz-nos compreender
esse momento tremendo em que as raças germånicas
iam entrar na historia.
Jraziam a civilizaçao na sua corrente indeh nida, o
lactor estranho, cu¡ adelìciência produziu a ruina da
unidade romana, trazian o individualismo germånico.
Mais tardeeste individualismo loi absorvido no poder
leudal,quandoosgrandessenhoresconstituirama sua
hierarquia pe|o mo|de da hierarquia ec|esiastica, que
porsiimitaraaunidaderomana,maséinegavelqueloi
estanova laseda consciênciahumanaquecooperouno
+
ue ha de mais esplêndido na civilizaçao moderna.
E admiravel o modo como Jacito descrevc esta raça,
quetiravatodooseuvigordapurezadecostumes,eem
queas crianças ao tornarem-se homens vestiam as ar-
mas como a unica tunica viril, para quem as cidades
romanas causavam horror, como diz Amiano Marce|i-
no, por lhe pareceram prisoes e sepu|cros. Òs povos
germånicos descentralizaram as acumulaçoes imensas
dasgrandes cidades, começaram a lormar-seos Pagi e
os Vici, esses dois elementosdelorça moral e material,
das povoaçoes vizinhas que se delendiam, e das tradi-
çoes populares, que o cristianismo condenou com o
nome depaganismo.
34 TEOFILO BRAGA
Com que vigorlalaTacito,condenandooseu tempo,
quando diz dos povosgermånicos. «Ali, corromperou
sucumbir, sao crimes que se nao perdoam com dizer.
Tal é século. » Ò mesmorepetiaainda noséculov o sa-
cerdote Salviano, de Marselha. «Envergonhemo-nos e
corramo-nos com uma salutar conlusao. Ònde quer
queosOodossaodominadores, naose encontradesor-
demsenaoentreosRomanos.ÒsRomanoscorrigiram-
-se sob a dominaçao dos Våndalos. Sucesso incrivel'
Prodigio inaudito' Òs Barbaros pelo amor da pureza
dos costumes e pela severidade da sua disciplina, tor-
naram castos os proprios Romanos . »Ðepoisdoindivi-
dualismo,o Oermanoestabeleceu o estatutopessoal so-
bre o direito territorial; se em Roma a lei era «o que
agradavaavontadedoprincipe»naspovoaçoesgermå-
nicas era o que se estatuia na assembleia ao ar livre,
participando todos igualmente da autoridade, se o
direitode testareraparaoromanoumprivi|égioconce-
dido pe|oimperador,o Oermanonaotinhacrimetodas
as vezes queo nao cometesse dentro da sua garantia.
Mas em contacto comosrestos da civilizaçao romana
os povos germånicosdeixaram-sepenetrar, nomeioda
incertezadedireito,dostiposdelegislaçaoedeinstitui-
çoes que conheceram no tempo da sua conquista, a
classe dos lites adoptou e translormou o município ro-
mano,osnobresouwerhman, amedidaqueiam dandoa
lorma hierarquica ao poder, constituindo-se em leu-
dalismo,apropriaram-sedoscodigosromanosdoBaixo
I mpério. Corre na ciência, que a tradiçao municipal
nuncaseperdeu,queristodizer,queocolonatogermå-
nico a adoptou e a translormou até ao século VII; mais
tardeno século XII deu-seo conDito destas duas lormas
dedireitocolonialedecidadeou codihcado, quandono
séculoXII começou a luta entre osbaroeseascomunas.
Que era este conDito senao a absorvente unidade ro-
manaquequeriaanularaindependênciacolonialºMas
sustenta-se que o municipioé todo de origem romana,
HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 35
ha mesmo duas escolas contrarias, sustentando a se-
gunda que o municipio é germånico.
Lsteproblemahistoricotemsidosemprepropostode
uma maneira absoluta, e como tal impossivel de che-
gar-se a umaverdade, porque em ambas as teorias ha
documentos e lactos igualmente convincentes. A ques-
tao propoe-se nestes termos .
Ha no municipio moderno caracteres de uma insti-
tuiçaodegarantiascivis. Lstaleiçaoapareceentretodos
ospovosque obedecerama dominaçaoromana.Noseu
periodode maisvigor,osseusmagistradoseramelecti-
vos . Promulgada a unihcaçao do direito romano, no
édito de Caracala, decai a instituiçao municipal, por-
queacabouadesigualdadecivilque amotivara,éneste
momento que perde o caracter electivo, e seguindo a
condiçaomaisoumenosimportantedocolonato,assim
os seus luncionarios loram escolhidos entre os nobres
ou entre os que o nao eram. Òs concelhos em Portugal
sao esta tradiçao romana, tendo renascido porumain-
lIuência cesarista.
Ha no municipio moderno caracteres de uma insti-
tuiçao degarantiaspolíticas. Lm consequênciadanova
ordem social, produzida pelas invasoesgermånicas, as
povoaçoes rurais adquirem importåncia, acoloniatem
vidapropria e independente, e lacil loi conlundira ve-
l ha lorma muni ci pal com a garantia local, a Fam.
Ò municipioromanoperdeonome,eñcaprincipalmente
politico, ofral era estatuido e processadopelos homens
bonsnomallum ou assembleia livre. E entaoqueo carac-
ter electivo reaparece sob a acçao do génio germånico,
recebendo de novo esta leiçao que tinha perdido, para
tornar-se acomuna) dondehaviasairesseelementosocial,
oJerceiroLstado. NoNordest:.dalrançaomunicipioé
de origem galo-romana, e a Comuna é uma imitaçao do
ghild escandinavo, é nesse ponto da lrança, onde loram
mais intactas e mantidas as lranquias germånicas, que é
também mais lrequente o regime comunal.
36 TEOFILO BRAGA
o defnsor civitatis, segundo Bouthers, nas Origens do
Direito Rurl, é imitado do vogt das tribos germånicas.
A comuna rural da antiga Alsacia, conhecida pel o
nomede Colonge, comlei comum, lormandojuntos o
tribunal, é o municipio das garantias politicas criado
por quem ignorou a primeira lorma exclusiva e ro-
mana. \ma vez determinadas estas duas caracteristi-
cas, conciliam-se as duas escolas dissidentes dando a
cada uma a suaverdade.
!ora desta adopçaoj uridica as raças germånicas
nada tinham a receber da cultura romana, e lìcaram
com a sua espontaneidade até que cristianismo se tor-
nou por sua vez romano, segundoo prolundoversode
Ðante.
Que/la Roma ol/de Cristo é romal/O,
donderesu|tou o ser-lhesmais tardeimpostaessacrua
unidade, que as levou aoleudalismo. A l i teratura nes-
tes primeiros cinco séculos nadatinhaque transmitir,
inlìnitos gramaticos e retoricos gaulesesou espanhois,
ca utelososjurisconsultos, con troversistas ec|esias ticos,
valeram muito, mas nao tinhamcomunicaçao possivel
com aalma germånica. Nesteperiodoquepermaneceu
i ntacto é que criou o grande ciclo das epopeias do
mundo moderno.
b) O elemento cristão
o estado dos espiritos em Roma, no momento em
queo cristianismoseradicou, é umaconsequênciados
caracteres queesboçamosnoquadrodadecadênciada
civilizaçao romana. Havia uma grande incapacidade
para os estudos lìloso|ìcos, e as investigaçoes da razao
nao encontravam respeito, as leis imperiais lançavam
de vez em quando interditos sobre os lìlosolos, e os
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 37
grandes potentados lormavam bibliotecas para alar-
dearemassuasriquezas,comoLuculoouSila. Perdida
a existência politica da Orécia, os hlosolos trazidos
para Roma era tidos como seres estranhos, espécie de
parias da conquista. No meio do egoismo da grande
capital, e do sincretismo indilerente de todas as reli-
gioes, perdido o sentimentodadignidade com a perda
da constituiçao republicana, a ciência tornou-se uma
curiosidadeabsurdadateurgiaedosmilagres. Nomeio
destadissoluçao, apareceu emRomaumañlosoñaad-
mitida pelanecessidadedo protesto. Foi o estoicismo.
Baseava-se sobre estes três grandeslactos do espirito,
da observaçao e da acçao, a logica, a hsiologia e a
moral. Ò grupo que abraçava estas doutrinas, lacil-
menteaceitavaumaqualquerdoutrinaquetivessepelo
menos peloladopratico certospontosdeanalogiacom
o estoicismo. Nao é semlundamento que nasceua tra-
diçaodasrelaçoes,pelomenosliterarias,entreoestoico
Séneca e o apostalizador Paulo. Antes de atingir uma
lormadogmaticanocristianismohelénico, antesdere-
ceber uma lorma teologica na controvérsia e nos con-
cilios, a doutrina de Cristo tinha por lundamento a
moral . Bastava este principio comum, para o cristia-
nismoacharecoemRoma,eraelequevinhaaproveitar
a base sistematica, que os estoicos haviam lormulado.
Ò estoicismo condenava a escravidao como contra a
natureza, o cristianismo evangelizando a igualdade
diante deÐeus, propagou Ubi dominus, ibis libertas. Foi
comoumaespéciede reabilitaçaodanatureza, emque
os estoicos senti am em um estado de i manência, o
mesmoqueos cristaos nacorrelaçao dos eleitos para a
causaprimaria. Quandoo cristianismorecebeuo vicio
daunidaderomana,condenou anatureza,comovemos
noprincipio daascese misticado monaquismo. Na lo-
gica, os estoicos tomavam a razao como o meio conse-
quente de chegar a verdade, os padres da Igre¡ acom-
preenderam a lorça deste novo meio, e usaram-no,
38 TEÓFILO BRAGA
loram polémicos, controversistas, trataram de propa-
garadoutrinaalorçadeargumentos,opuserama sim-
plicidade da moral as caducas e contraditorias escolas
h losolìcas . Òsalamadosdoutoresdos primeiros séculos
daIgrejaloram terriveis dialécticos,justino,Atanasio,
Tertuliano, Minucio Félix, Lactåncio, Arnobio, Eusé-
bio, Basilio, Hilario,osdoisOregorios, deNiceiaeNa-
zianzo, Ambrosio, Agostinho e Crisostomo, considera-
ramarazaoe a sua actividadelogicacomoummeiode
delesada doutrina dejesus, como relutaçaodas here-
sias, comoelementodisciplinare lormu|isticodosdog-
mas da lé, como o melhor escudo para a polémica, h-
nalmente loram racionalistas do sobrenatural . A me-
di da que esta necessidade loi desaparecendo, e so
quando acabaram as grandes inteligências deste ciclo
militanteda Igreja, é que a ñlosoha, se tornou ascientia
mundana, a ancilla theologiae.
Foi por este trabalho de racionalismo sobrenatural,
queS.justinoiaencontraromistériodaencarnaçaono
paganismo, e queClementedeAlexandriaconsiderava
alìlosolìapagacomoumprimeiroesboçodasdoutrinas
doEvangelho. Napartemoral,o cristianismovenceuo
estoicismo porque trocou a divagaçao |ìlosoñca pela
pratica. a apatia do estoicismo, a isençao do homem
justo das paixoes, que é senao o rudimento da abnega-
çao da individualidade, do niilismo desenvolvido pelo
cristianismoº Judo isto indicava uma ordem nova, ja
anunciada por Virgilio, mas diante da decadência ro-
mana as conclusoes loram tiradas prematuramente.
Ò principiomoraldevenceraspaixoes,deasextinguir
em si, levou a severidade de Jertuliano, a amputaçao
deÒrigenes, a condenaçao dos monumentos literarios
da Antiguidadecomo seduçoes pecaminosasdos senti-
dos. Salisburia acusa o papa Oregorio de ter queimado
uma bibliotecadeautores pagaos, nacontrovérsiareli-
giosaescrevia-secontraa leituradoslivrosdosin|ìéis,e
com que arrependimento se acusa a si proprio Santo
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 39
Agostinho, quando no livro d'As Confssões descreve o
pecado que cometeu deixando-se i mpressionar pelo
quartolivrodaEneida, apontodederramarumalagri-
ma sobre o epi sodi o dos amores da rai nha Ði do.
S. jeronimotambémcondenoualeituradoslivros pro-
lanos. Esta direcçaodeespiritos tao potentes, como os
primeirospadresdaIgreja, tornoumais completaade-
cadência da literatura romana, capazes de criar uma
li teratura, porissoqueestavampossuidosdeumoutro
sentimento, exaltados, entusiastas, lerventes, que lor-
mas de arte nao conceberiam se anecessidadeda polé-
mi ca, a controvérsiaagressiva, o panegirico eloquente
l hesnaotivesseabsorvidoeemgrandeparteanuladoa
actividadeº As lormas que seguiriam estao indicadas
nessaassombrosalecundidade de tradiçoes populares,
que lormaram os Evangelhos apocrilos, e nessa teoria
doamormisticoexpostanaalegoriadopastordeHer-
mas.
Ðemai s, uma raça também nova na historia, le-
cunda,originalelorte,abraçaraocristianismo,osBar-
baros do Norte deram a essa doutrina a leiçao do seu
caracter racionalista, e apaixonaram-se pela humani-
dade dejesus. Masa tendênciapolémicarecebiaovi-
ciodos soh stasdacivilizaçaodecadente, a Igrejapro-
curou dehnir-se, discipl i nar-se, teve necessidade de
condenar as suas mais belas concepçoes sentimentais,
preleriuperderaespontaneidadedanatureza,poruma
unidadelormal,impassivelecalculada.Erao principal
viciodadecadênciaromana,reveladonacentralizaçao
administrativa. Roma quis centralizar o dogma, se-
gundo o célebreversode Ðante, Cristo tornou-setam-
bém romano,dentrea igualdadedos bispos,o bispode
Romatornou-seo apice de umahierarquiaunitaria.
Ò Concilio de Niceia estabeleceu a primeira uni-
dade na doutrina da Igre¡ a, os que até ao tempo de
Jeodosio se apelidavam cristaos, aoverem assumir o
poder i mperadores dominados por seitas lìlosohcas
40 TEÓFILO BRAGA
adoptaram essa lormu|a geral. Assim adecadênciaro-
mana incutia este vicio da lorçada unidade a re|igiao
nova.
Asraçasgermånicas, abraçandoocristianismoredu-
ziram-no, adaptaram-no ao seu sentimento individual.
Ò arianismonaoé mais do queesta modi|ìcaçao instin-
tivacaracterizadapelanegaçaododogmadadivindade
de jesus . Atéao lìm do séculov quasetodos os princi-
pes eram arianos, estava recente na memoria a abjec-
çao degradante daapoteose dos imperadores, e os Bar-
baros do Norte, tenazes e sinceros nasua crença, nao
aceitavam a divinização dejesus, porque nao precisa-
vam desse cunho religioso romano para compreen-
derem a grandeza do sacriücio. E no tempo de Jeo-
dosio que começa a introduzir-se nas leis o nome de
catolicismo dilerente de cristianismo, este mesmo lacto
assinalao momento em que a Igreja começaa abraçar
a unidade romana. Ò estado adopta uma religiao que
se torna uma lorma po|itica, um partido, que exc|uia
dos empregos todos os quea naoprolessassem. A série
dos imperadores do Òriente loi em grande parte acla-
mada pelo catolicismo. Anastacioantesdeserimpera-
dorloipatriarcadeAntioquia,eparaselortalecercon-
traarevoltadeVitaliano,prometeuaoscatolicosopri-
vilégio dos empregos publicos. justino interrompeu a
sucessao de Atanasio seduzindo os catolicos com mais
garantias.justiniano, pelolacto de umareligiaodees-
tado, convocou um sinodo em Bizåncio para destruir
umpatriarcanaocatólico; ainD uênciadejoaodeCapa-
docia e dojurisconsulto Jribonianojunto do impera-
dor, provinhade um calcu|adocatolicismo. Ò grande
principioda toleråncia inaugurado pe|as raças germå-
nicas, loi violado porjustiniano porcausadaunidade
dareligião de estado, proibindoaoscristaosnaocatólicos o
direitode testemunhar, de doar,de suceder,deherdar,
condenando-osatéa morte.AntesdosÁrabestrazerem
a Europa no século VII o sentimento humanitario da
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 41
toleråncia, jaumramosemiticodaPérsiaaproclamava
comoumaprovocaçaoajustiniano, Cosroeabriua to-
dos os que prolessavam qualquer religiao o acesso aos
cargos publicos. Como chele do Estadojustiniano in-
tervinhanaeleiçaoenainamovibilidadedahierarquia
el cesiastica, nomeando patriarcas, metropolitanos,
bispo e abades, e depondo outros a seu bel-prazer, a
ideiaunitária levava-oa ser injustomesmocontraos ca­
tólicos. justiniano,como HenriqueVIII, tambémcompos
hinos religiosos, e como oantagonistade Lutero, tam-
bém inj uriou Òrigenes, representante do cristianismo
helénico.
Ðepois de abraçar-se este vicio da civilizaçao ro-
mana, donde os imperadores queriam renovar a tra-
diçao cesarista, a literatura que vai até ao século VII
tornou-se nula. A novaordemdesentimentos que ins-
pirou opastor de Hermas, e esses poéticos Evangelhos
apocrilos, o que nos da a medida do seu a|cance e do
que teriasido a sua lecundidade, gastou-se em contro-
vérsia estéril, em polémica tempestuosa, que nao dei-
xou aos espiritos essa serenidade necessaria para a con-
cepçaodaobrade arte. Ò propriojustiniano,pontilìce
da religiao deestado,disputavacomo papaAgapito,e
os negocios politicos eram para e|e acidentais diante
dassuaspolémicasdogmaticas, a pontoquenas revol-
tas que procuravam destrona-lo relugiava-se entre os
sacerdotes antigos deliciando-se com a controvérsia.
!oieleoinventordaI nquisiçao,estadevassaalrontosa
da consciência, quando criou o luncionario encarre-
gadodaperseguiçaodos heréticos, quetinhaonomede
koiaistor. Sob estapressaoolìcialalavordo ramo católi­
co, desapareceuogéniolecundodos primeirosdoutores
daIgreja queestabeleceram a suadisciplina, estava-se
seguro que justiniano lazia pelas suas multiplicadas
|eis e extorsoes a lavor da Igreja, o que a prédica ler-
ventenao alcançava tao de pronto, aconteceu por con-
sequência que no século VI o clero era estupido, ig-
42 TEÓFILO BRAGA
norando a simples lei tura das preces religiosas, e com-
prandoasdilerentesdignidadesdahierarquiaeclesias-
tica. Ò ultimoactolegislativodejustiniano,de5G1,laz
o retratodestaprolundadecadênciada nova literatura
eclesiastica. Como na decadência romana, o Estado
consul tavao agourodasavesquandoainvasaogermå-
nica rompia asportas deRoma, emBizånciodiscutia-
-sequala naturezadaluzqueenvolviajesusnoJabor
ao passo que Maomé II destruiao poder deConstanti-
nopla.
\ma vez tornado religião de estado, o cristianismo
parodiouavelhalegislaçaoromanae criouo seudireito
canónico, invasao permanente da sociedade civil, e mo-
delo da incertezadasjurisdiçoes|eudais. Ouizotconsi-
deraa Igre¡a comotendosidoo tipodaslormasdaso-
ciedade moderna, mas esse tipo reproduziu-se em um
estado cujo principio se pode considerar depois do sé-
culo VII, que loi o principio daarbitrariedade senhorial,
analogoaodagraça, principioque tanto temcustadoa
extinguirda vida social, ofeudalismo.
Jodos estes vícios daunidade romana abraçadospelo
catolicismo vieram encontrar um correctivo salutar,
no aparecimento do maometismo na historia. Nascido
no seio de uma poderosa raça semitica, o cristianismo
trouxe um caracter de abstracçao, que o reduzia aos
limites de uma hlosolìa, assim é que loi recebido em
Roma. Por um l ado os teologos helenistas, por outroo
caracter translormador e sentimental dos Barbaros,
ambos como indo-europeus, e como tais servindo-se
maisdosentimentoparaacompreensao,deramaocris-
tianismo essa dependência da imagem material, essa
necessidade de lalar aos sentidos, donde procedeu a
arte moderna. Ò cristianismodeixavade ser semitaao
entrarna Europa, de monoteistalez-se triteista, repro-
duzindo os velhos mitos do Òriente, contra os quais o
judeu reagira com o principio abstracto dojeovismo.
Òs Árabes lormavam um dos ramos mais vastos da
HI ST6RI A DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 43
grande raça semitica, loram eles que reagiram contra
estadesnaturaçao da ideia dadivindade nua e absolu-
ta. Maoméseriaincapazdelundarumareligiao,senao
tivesse encontrado as tendências de uma raça que re-
clamavaumadirecçao.justiniano,commaispoder, in-
Huindo despoticamente nos concilios, nao conseguiu
mais do que dissoluçao. Ò génio semita temia que se
lossecairnaidolatria, e proscreveu a imagem, viuum
politeismoelançoualormulaSó Deus é Deus. Esteslac-
tos descobertos pelos novos processos da historia, acham-
-se lortal ecidos pela autenticidade dos documentos.
Procopio, historiadordo Baixo Império, considera nas
suas Anedocta, o aparecimento de Maomé como uma
consequênciadasaberraçoesdateologiabizantinacom
quejustiniano tanto se alegrava. Ðeste capricho ce-
sarista,diz Isamberto,naHistoire de justinien ¸p
,
XXVIII) ,
«nao o temos por estranho aos lundadores do isla-
mismo, que ditaram a Maomé a lorma simples e ver-
dadeira Deus é Deus, para assim por cobro as estéreis
controvérsias teologicas do Ba

ixo Império. L este o
pensamentodeProcopio,edos espiritosesclarecidosdo
seutempo». Asconsequênciasdoaparecimentodoisla-
mismo seriam nulas se esse protesto monoteista nao
passasseaacçao,oarabeerranteconheceuoporquêda
suaexistência,eentrounahistoria,avassalouomundo,
veio preencher o vacuo deixado pela extinçao do Im-
pério Romano. Em menos de um século o islamismo
constitui um grande
[
ovo pelovinculode uma mesma
i deia, éentaoqueosArabesseapossamdoÒrienteedo
Òcidente, a sua lingua estende-se tanto com o latim,
torna-seliteraria, e o veiculodoquehaviadepratico e
util na civilizaçao grega.
L este segundo momento da sua vida historica que
vamosexporcomoumcorrectivoaosdeleitosrecebidos
pela Igre¡ a quando adoptou na sua tradiçao os exem-
plares de uma li teratura decadente.
\ma vez possuida do espirito da unidade romana,
44 TEOFILO BRAGA
realizada na suma hierarquia papal, a Igreja adoptou
a lIngua latinapara a expressao universal da sua liturgia.
I ade encontroa corrente natural,jadesdeo séculode
Augusto,ascomédiasde Plauto, algumaslrasesdeCi-
cero,acusavamdeummodo inconscienteodesenvolvi-
mentoqueseestavadandonolatimlaladonascolonias
e nasclassesinhmasdasociedade,erao chamadosermo
rusticus, vulgaris, pedestris) queseiaestendendoa todas as
necessidades davida, a medida queo latim urbano se
reduzia aos artiücios dos retoricos . Ò aparecimento
dos Barbaros coincide com este momento critico em
que a linguagem rusticaocupa o primeiro plano, e o
|atimeruditolìca retraidopara apenumbra. Ðava-sea
prolunda revoluçao social, em quenovas necessidades
moraislaziamvalerumalinguagematéentaodesprezi-
vel. Òs padres da Igreja adoptaram a lingua latina
para a controvérsia, lazendo um eslorço para se alas-
taremdacorrentededicçaopopulare aproximarem-se
dosmodeloscicerorianos.Alorçacorrentedialecta|era
tao violenta, que o proprio legislador justiniano, se-
gundo o historiador Procopio, ao ditar as suas leis,
i ntroduzia sem querer o latim barbaro, e Ludewig,
di z que o i mperador escrevia cartas em l atim dia-
lectal da I liria, donde ele era natural . ¸ Isamb. , op.
cit.) p. XLVI ) . Foi contra esta corrente da lormaçao das
linguasvulgaresque aIgrejaseopos,sustentandoouso
do latim classico, as lorças vivasvenceram, e a Igreja
restringiuassuaspretensoesauniversalidadedalingua
l i turgica. Santo Agostinholalacom assombro do lacto
de existir umalingua tao conhecida comoo latim,des-
tinadaporÐeusparaservirdemeiogeraldecomnica-
çao a uma doutrina da humanidade. Mas as conse-
quências desta pretendida unidade loram lunestas,
perdeu-se o uso primitivo da participaçao do povo na
l i turgia, o hino deixou de ser compreendido, o entu-
siasmoreligiosoextinguiu-seapontodesenaoencontrar
na Baixa Idade Média, comoprovou Ðidron, o minimo
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 45
vestígiodeconhecimentodeÐeusnosmonumentosico-
nogralìcos. Òs livros biblicos loram traduzidos em la-
tim por S.jeronimo, e lìcaram letra morta, incomuni-
caveis para o povo, até que umarevoluçao moral que
quebrou a unidade docatolicismo, a Relormado século
XVI, lez traduzir emlinguavulgaros Evangelhos. Isto
que vemos na parte literaria é uma consequência do
queja apresentamos na parte politica. Òs cantos vul-
gares loram banidos do templo, os lolardos, atirados as
logueiras,enestaincomunicabilidadedolatim,aIgreja
loi recebendo umalorma aristocratica, para rivalizar
comoleudalismo, o vicarius, oclérigodaspovoaçoesru-
rais tornou-se servo, pertencendo ao dono ou patrono
daIgrejacomoumaallaiadela,os grandes abades, os
bispos,quelormavamoalto clero, tinhamoseucorpode
direito canonicocomo loro independente,comlormas
e propriedades suas, como a adopçao da enlìteuse ro-
mana, com uma prescriçao privilegiada de cem anos,
com o direito de mao-morta. Ò ultimo eslorço para
manter esta unidade aristocratica, quebrada pelaAle-
manha, loi oConciliodeJrento,ondesereproduziram
as cenas dos concilios bizantinos, como relata Sarpi.
Ðesdeomomentoquea Igrej acompreendeuquelhe
pertenciaa tradiçaodaunidade romana, e tendoatéali
condenadoosmonumentosdessaliteratura, tevedeco-
meteruma contradiçao para os admitire estudar. As-
sim, escolheu aqueles livros mais emharmoniacom a
doutrinaevengélica,Virgiliotornou-seumproleta,lido
sob esse pretexto nos claustros da Idade Média. \m
dosprincipais escritores adoptadospelaIgrej aloi Boé-
ci o, nascido em Roma, de uma lamilia consul ar, e
tendo vencido o caracter terrivel de Jeodorico, loi vi-
timada reacçao queos Oodos provocaram no caracter
deste monarca contra os Romanos. Boécio morreu no
martirio, depoisdeseismesesdeprisao,loi nestas con-
diçoes que escreveu o Tratado da Consolação, em cinco
l ivros, misto de prosa e verso. Ò sentimento que ins-
46 TEÓFILO BRAGA
pirou este livropertenceadoutrinadosestoicosdeRo-
ma, comosevê porestalrase. «Evitaio vicioe cultivai
a virtude, que uma justa esperança sustente o vosso
coraçao, e que vossas humildes suplicas se elevem até
aoEterno. »BastavaistoparalazerdeBoécioumsanto,
os bolandistas o acolheram nos seus in-lolios, e nas
igrejasdeItaliao adoraram. Ò Tratado da Consolação de
Boécio, loi aceiteportodos os povos daEuropa,lidoe
decorado,e nao so exerceuosdialectosvulgaresnasua
versao,comoinlluiusobreaslendaspoéticasdocristia-
nismo. \mdosprincipaismonumentosescritosdaslin-
guas romånicas é a Consolação de Boécio, publicada no
principio deste século por M. Raynouard, joao de
Meung,oautordoRoman de la Rose, tambématraduziu
para Filipe, o Belo. Podemos dizer que pela leitura de
Boécio entrou na Igrejao mito gregodeÒrleu e Euri-
dice, ocristianismoabraçou-oparasimbolizarodogma
da redençao, e lacil loi aos doutores da escola helénica
conlundiremalendadaÐescidaaos Inlernosparatirar
as almas dos patriarcas , pela primeira vez exposta no
Evangelho de Nicodemo, com o velho mito pi tagorico,
renovado por Boécio. Mas a acçao lecundante, que
Boécio teria exercido com esselivroDe Consolatione phi­
losophit, na partesentimental, loi anuladanaparte in-
telectual, a Igre¡ a adoptou de Boécio o comentario a
traduçao da Isagoge de Porlirio, lei ta pelo retorico Vi-
torino. Foi deste comentario que saiu esse problema
i nuti l , que tanto esgotou a i nteligência humana na
Idade Média, a luta dos nominalistas e dos realistas.
Boécio comentou esta célebre passagem de Porlirio,
que deu origem a questao. «Seos géneros e as espécies
existem porsiousomente nainteligência, enocasoem
que eles existam por si, se sao corporeos ou incor-
poreos, seexistem separadosdosobjectos sensiveis, ou
nestesob¡ ectos, ou constituindo umaparte deles. » Re-
bentou no séculoXI este problema trazido da decadên-
cia através deBoécio, contrao qual se esgotaramRos-
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 47
celino e OuilhermedeChamperaux, Abelardo e Santo
Anselmo, OilbertdelaPoré,joaodeSalisburia, S. Jo-
mas deAquinoe Ðuns Scott, intervindoconcilios tem-
pestuosos, erros de lé, e esterilidade lìlosoh ca.
\moutrolivroguardadopelaIgrejadosdespojosda
decadênciaromanaloi o livrodeMarcianoCapela,in-
ti tulado Satíricon, que é precedido pelo pequeno ro-
mancedeprosaeversoDas Núpcias de Mercúrio e da Filo­
logia; deste ultimosaiuparaasescolasda IdadeMédia
essaabsurdaclassih caçaodasciências,conhecidapelo
nome de Trivium e Quadrivium. As ideias de Marciano
Capelanaotinhamoriginalidade,eramumecodasob-
servaçoes de Varro, Plinio e Solino. As ciências esta-
vamdivididasemdoisgruposarbitrarios,chamadosas
sete artes liberais. Òprimeirocompreendiaagramatica,a
logica e a retorica (trivium) ; o segundo compreendia a
aritmética, a musica, a geometria e a astronomia (qua­
drivium) . Assimclassi|ìcadosos conhecimentossemcor-
relaçao, sem base dogmatica, a inteligência humana
contentou-secomestehorizonte,lorado qualoserudi-
tos da Idade Média nada mais viram. No século VI o
retoricoFélixagravoumaisolivrode MarcianoCapela
com um comentario, ensinando por ele em Auvergne,
I sidorodeSevilhaadoptou-o também,noséculoIX era
seguidonas escolasdeParis, noséculo X encontra mais
três comentadores, e no século XI é traduzido em ale-
mao.
E nesta letargia intelectual da Luropa que torna a
aparecer em todo o esplendor o novo elemento arabe,
para corrigir com o seu positivismo as aberraçoes au-
toritarias da tradiçaoda decadência. Sobre este ponto
dizjourdan. «A inD uênciadeCapeladura até aépoca
em queasobrasdeAristotelesedosÁrabessevulgari-
zaram no Òcidente, deixando o lugar aos modelos de
umgénio superiorao seu e mais dignosdeserem estu-
dados . »ÐepoisqueosAbassidas e principalmenteAl-
- ^anon, procuraram i ntroduzir entre os Árabes as
48
TEÓFILO BRAGA
ciênciasdaOrécia,o espiritosemita, pratico, semlugar
paraseesgotarsobreacassisticadosdogmas,lançou-se
aoestudodasciênciasexperimentais,comoamedicina,
a üsica, a algebra, e astronomia,Aristoteles loi o que
maislhessatislezestatendência.Coincidecomotempo
de justiniano o trabalho das primeiras traduçoes do
gregoparasiriaco. loramosÁrabes,quecomunicaram
a Europa as obras deAristoteles, vistas até entao atra-
vés das laconicas e naocompreendidas alusoes dos de-
clamadores dadecadência. A cada magro capitulo de
duas laudas, que em Marciano Capela resumia uma
ciência, osÁrabes opuseram-lhe, as Categorias deAristo-
teles,aPoética, aPoltica; osjudeus traduziramparalatim
as obras trazidas pelos Árabes, e a ciênciapela primeira
vez abandonou a ortodoxia. Ðante exalta esta direcçao
positiva simbolizada nainûuênciadeAverrois.
ElIclide geometra e T% mllleo,
Ippocrate, Avicena, e Caliel/o,
Averrois chel'gran comento feo.
Ðante igualava no seu poema (ln] VI) os hlosolos
gregos e os arabes , S. Tomas de Aquino e Alberto
Magno procuravam neles a direcçao cientilìca, cuj a
primeira e principal manilestaçao loi o aparecimento
deOalileu e deBacon, tendoprovocadoaexpansaodo
lirismo provençal .
c) O elemento bárbaro
No meio da inlI uência da cadente civilizaçao ro-
mana, e das tendências para a tradiçao unitariado ca-
tolicismo, é que aparece na historia o poderoso ele-
mentogermånico.PeloconDitoentreovivoeomorto,é
quese vêa naturezadal uta queo génioteve de solrer,
eporissomesmosevêoalcancedasualorça.Estudamo-
-lo nesta relaçao precaria, para assim caracterizarmos
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 49
melhor a decadência. Este nome deBárbaros dado aos
povos germånicos, explica-nos o modo como eles vie-
ramde encontro ao Império, comoassolaram asgran-
des cidades, como tornaram incerto o direito, como
alrouxaramo seuímpetoantea disciplina moraldoca-
tolicismo, eram Barbaros, pelos caracteres primitivos
que apresentavam, como o instinto da hospitalidade,
davingança hereditaria, dapaixaoardentepelojogo e
pelas bebidas lermentadas, pelo exclusivo emprego da
actividadedas armas, deixandoasmulhereso trabalho
da agricul tura. Es te estado prevalecia pelo menos
aindanotempodeTacito,queescreviaacercadaOer-
måniacentoeoitoanosdepoisqueÐrusoavançoucom
asuaesquadraatéaopromontoriodoCimbros,porém,
Tacitocompreendeuoalcancedovigor dessaraça,que
estava isoladados vicios do Império paravir insuD ar
navidasocialassuasnovaslorças.Tacito tinhaosenti-
mentoprolético,quandoexaltavaapurezadaraçager-
månica. «Sou de opiniao daqueles que pensam, que o
sangue dos Oermanos nunca loi alterado pelos casa-
mentosestrangeiros, queéumaraçapura,semmescla,
e queso separececonsigomesma. »Bunsen, aceitaes-
tas palavras como a primeiracompreensao do destino
historico dasraças germånicas.
No catol i ci smo encontramos uma compreensao
igual,ospadresdaIgre¡ asolremodesastredainvasao,
condenam-a, mas reconhecem-na como castigo de
Ðeus, umlacto providencial. Salviano, nolivroquarto
De Gubematione Dei, condenao seu tempodizendo. «Vos
pensais ser melhores que os Barbaros. . . Respondo que
somosmelhoresenquanto a lé, massomos piores, eu o
digocomlagrimas, pela nossavida. Vos conheceisalei
e a violais, ao menos eles pecam pela ignorånci a. Òs
Oodos saopérh dos, mas pudicos,os Alanos voluptuo-
sos, mashéis, os Francos mentirosos, mas hospitaleiros,
a crueldade dos Saxoes horroriza, mas louva-os a sua
castidade. . . E nos espantamo-nos por Ðeus ter entre-
50 TEÓFILO BRAGA
gado as nossas provínciasaos Barbaros, quando o seu
pudorpuri|ìca a terraainda conspurcada das devassi-
dões romanas. » Aqui secaracterizam as raças germå-
nicas, tal como elas estavam na sua rudeza, e com as
|eições pro|undas que ainda transparecem nos povos
modernos, como no |rancês. Pau|o Òrosio, também
escreve|azendosentirosdestinosprovidenciaisdasin-
vasões. «Se as conquistas de Alexandre vos parecem
gloriosas por causa do heroísmo com que submeteu
tantosimpérios,sevosnaodetestaisne|eoperturbador
dasnações,muitos|ouvaraotambémotempopresente,
exaltaraoosvencedores,etomaraoasnossasdesgraças
porbeneücios. Mas, dir-se-a. «Òs Barbaros saoosini-
migos do estado. » Responderei, que todo o Òriente
pensavao mesmodeA|exandre,e queosRomanosnao
pareceram me|hor aos povos ignorados cujo repouso
iam quebrar. Mas, dir-me-eis. «Òs Oregos |undavam
impérios,osOermanososdestroem. »Òutrossaooses-
tragos da guerra, outros os conse|hos que segue a vi-
toria. Òs Macedonios começaram pordomaros povos
que depois policiaram. Òs Oermanos agora |ançam
tudo porterra, mas se [oxala que nao) eles acabassem
por|ìcarsenhores e porgovernarsegundo os seus cos-
tumes,talvezque umdiaaposteridadesaudassecomo
titulo de grandes reis aque|es que agora nao sabemos
versenao como inimigos.» Lstetexto|oi pe|aprimeira
vez produzido por Òzanam, o que ele signih ca nao é
bem o que esta nas pa|avras. Se as raças germånicas,
assimcaracterizadasporJacito,Salvianoe PauloÒro-
sio, |ossem consideradas como um instrumento provi-
dencia|, naoseob|iterariaoconhecimentodasuaacçao
nahistoria, naose ligaria aoseu nome somente a ideia
de barbarie, nao se atribuiria a sua inD uência unica-
mente ao cristianismo, e o espirito da civilizaçao mo-
derna seria compreendidoantes de Hegel mostrarque
o individua|ismo germånico trouxe a humanidade aos
temposmodernos.Na|rasedeJacitoha uma paixaode
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 5 1
colorista, para assim caracterizaros vicios daciviliza-
çao romana pondo-a em contraste com essa natureza
primitiva, emSalviano,haoespiritodecondenaçaoca-
tolica, exaltandoacimadadecadênciaromanaos Bar-
baros, do mesmo modo que os patriotas mais sinceros
chamavam as raças errantesa traiçao para castigarem
os deleitos dogoverno da sua terra. Em Paulo Òrosio
ha um misto de ironia. Foi por isso que o periodo da
elaboraçaodasraçasgermånicasteveo nomede terri-
vel noite da Idade Média, dizia-se banalmente que as
instituiçoeseos codigosj aziamsobasruinasdagrande
catastrole, o espaço que vai doséculo v a Renascença
germånica, era considerado como um período de le-
targo da inteligência e da consciência humana e con-
tentaram-se com a suposiçao gratuita deque o cristia-
nismo lora a luzsalvadoranesta procela tremenda.
Masoslactosestaoemmanilestacontradiçaocomas
a|ìrmaçoes decl amatorias , neste grande periodo da
Idade Média criaram-se as linguas e nacionalidades
modernas, as industrias, aslormasdearte, as comuni-
caçoes i nternacionais, a religiao popular, a indepen-
dênciaindividual, emsuma,umaactividadeorgånicae
lecunda, que nao podia provir unicamente do cristia-
nismo, porquecedo recebeua direcçaomistica, quele-
va a aniquilaçao da personalidade, ao niilismo da in-
teligência, a supressao da vontade como o supremo
idealdaperleiçao.Acontradiçaoentreosresultadosea
lorça,levaraa acharuma outraorigem,quandoHegel
veio aplicar a historia o subj ectivismo dos logos reali-
zado nos lactos, e elevando-se por eles a sintese ou
consciênciada lei, achou nessa grande elaboraçao que
lormouos tempos modernosmaisumaconh rmaçaoda
teoria verihcada no Ðireito, na Arte, e na Natureza.
Paraele, a historia eraa narraçaodasvicissitudes por
ondea humanidade passava para chegar a alcançar a
consciênciade si, e como o espirito chegava a posseda
liberdade, que é a sua essência. Em nenhum periodo,
52 TEÓFILO BRAGA
como na Idade Média se vê tao claro este es|orço, tao
pertode nos, com tantosdocumentosvivos. Ðepois de
estudara civi|izaçao oriental, baseadanos dogmas reli-
giosos,emqueaconsciênciaestacaopressapeloprincí-
piodivino,e a|iberdadeesmagadapelaautoridadetra-
dicional, veio encontrar na civilizaçao greco-romana, a
consciência elevando-se na lìloso|ìa e a liberdade |or-
talecendo-se najustiça, e hna|mente encontrando esta
conquista parcial no mundo moderno, mas generali-
zadapelonomedoe|ementoquea universalizou÷ci-
vilizaçaogermânica.
As consequências destagrandarestituiçaodeHegel,
|oram uma revo|uçao comp|eta no critério historico,
viu-se que o e|emento germånico era um dos ultimos
ramosdasmigraçoeseuropeias,e umdosqueapresen-
tavaos caracteresmaisaproximadosdasuaorigem,as-
simpelaprimeiravezsecompreendeuo problemadas
raçasparaavidadahistoria.Aunidadedasraçasindo-
-germånicas, achou-se em seguida conhrmada na uni-
dadedaslínguas ¸ Bopp) , naunidadedastradiçoesreli-
giosas ¸Creuzer,Burnou[epressentidanaunidadedas
tradiçoes e |ormas literarias ¸Oocthe, Ben|ey) . Pode-se
dizer, quedesdequea historiaentrounestaaltadirec-
çao, o homem teve também uma posse mais pro|unda
da consciência. Nesse dia acabou a revelaçao divina
parasersubstituídapelademonstraçaocientílìca,ahu-
manidade conheceu-se me|hor ao encontrar os repre-
sentantes da sua civilizaçao e das suas lutas .
Vejamosqua|oestadodas raçasgermånicasantesde
entraremnahistoria,ou antesdeprestaremaslutasda
humanidade os es|orços para que estavam aptas. No
tempoemqueTacitoescrevia,eramosSuevososprin-
cipaissenhoresdaOermånia,osCimbroseJeutoesex-
tinguiam-se, os Ang|os eram apenas conhecidos, e os
!rancos estavam sem |orça pela desuniao. Ðe todas es-
tas raças, o ramogotico, quecompreendeosjutos, os
Oépidas, os Lombardos e os Burgundios, era o mais
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 53
lorte,porqueestavadepossedeumdogmanovo,areli-
giaoodinica,ondeosentimentodaimortalidadesepro-
pagava pelo simbolo sensual do Valhalla. Foi ao con-
tacto deste dogmanovo, que deu vigorao naturalismo
dos Saxoes, queo ramosuévico se lortaleceu e nao loi
logo suplantado pelos Oodos que o invadiam. Estas
ideias religiosas da teologia odínica loram nao so um
dos moveis que determinaram as migraçoes das raças
germånicas, mas também astornaramaptaspararece-
berem a doutrina mistica do cristianismo. Ò Valhalla
aproxima-sedasdescriçoesdabem-aventurançacrista,
Asgarderao tipodoLden,dondeasraças haviamsido
expulsas. Facil era dar-seo mesmosincretismo que se
operou nas superstiçoes. Òs motivos que levaram os
Barbaros a migraçao e invasao, além do seu instinto
errantee antipatico as cidades,loram de um ladopara
evitarosassaltosdooceano,comoosCimbros,doutroo
procurarem terras mais lérteis, como os Frisoes,outras
vezesparasedelenderemdosataques mutuos, vinham
olerecer-seaocolonatoromano,comoosOodosparase
delenderemcontraos Hunos, outrasvezeseramassol-
dadados pelos Romanoscomo mercenarios para com-
baterem contra os inimigos do Império, como aconte-
ceu nas Oa|ias, em queosFrancossaochamadospara
expulsarem os Oodos e para se oporem a invasao dos
Suevos,VåndaloseBurguinhoes.Taiseramasrelaçoes
que os Oermanos tinham com o Império antes do sé-
culov, todasestasraçasquecomunicaramcomacivili-
zaçao romana e que semodihcaram com ela, que sao,
porassimdizer,aprimeiracamadasobreaqual assen-
tou a grande invasao, loram desprezadas pelos novos
barbaros, e depois queserecusarama seguiro cristia-
nismo,h caramcomomalditasevivendosemdireitos,e
por muitos séculos conhecidas pelo nome de Ca-galhs,
A-galh. As longas extorsoes ñscais romanas nas Oalias,
motivaram lutas violentas das classes servas, que se-
guiam o colonato, e protestavam em assembleia (ba-
54 TEÓFI LO BRAGA
gad) ; estes também, repelidos pela lorça armada, relu-
giadosnaD orestas,tidoscomobi chosmedonhos,loram
chamados por desprezoBagaudes, do mesmo modo que
aindahoj eseusaoseuderivadopej orativobigot. Eesta
umadas origens dasraçasma|ditas, condenadas pelos
magistrados romanos,desconhecidaspelosnovosinva-
sores,eperseguidaspelocatolicismoporcausadassuas
ve|has tradiçoes.
Ðepois queJeodoricose tornou senhordaI taliaem
1DJ, e Ravenahcouacapitaldosi mperadoresgodos, é
queasraçasgermånicasseencontraramcomodomina-
doras ante a civi|izaçao romana, e o novo espirito ca-
to|ico, eram duas lorçasde|etérias que atacavam o seu
vigor original. Vejamos como cada uma destas lorças
inertes tentou absorver a si este poderoso e|emento, e
comoapartevivada raçalhesouberesistireopor cria-
çao lecunda. Òs Oodos, que lormavam o principal
ramo germånico, di sti nguiam-se também pe|o pre-
dominio dos cheles militares, que tinham geneologias
aristocraticas como os Amali e os Ba| ti, as c|asses in-
leriores obeueciam pe|adedicaçao da h|delidade, e cria-
ram para se lorta|ecerem a banda guerreiraou comita­
tus, que veionodecursodaI dadeMédiaaproduziresse
orgao de resistência, a Compagnonage. Em lrente da ci-
vi|izaçao romana as classes aristocraticas, quiseram
imitaragrandezadecaida,quiseramaparentar-secom
e|a, reconstitui-la ejulgarem-se continuadores do Im-
pério. JeodoricohaviasidoeducadonoBaixoImpério,
assimamitologiaodinicadesapareceudamemoriados
nobres, queabraçaramosinco|oresmitos gregos antes
de aceitarem o cristianismo, que lhes seduziu os senti-
doscomasexterioridadesdoculto, comoconlessaOre-
gorio deJours . Adoptaram tambéma velha |iteratura
romana, Cassiodoro, gramatico e copista, erao princi-
pal ministro de Jeodorico, e Boécio, romano, um dos
validos.Conservamalegislaçaodoscodigosromanos,e
deixamaos vencidoso uso das leisromanas,degradam
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 55
a mulher (rau) a mesma condiçaoqueelatem nos ha-
rénsdaÁsia, absorvemasiapropriedade, substituindo
a enl¡teusepela inleudaçao, e usam o nomederomanos
paradesignaremaquelesquetêmumloroprivilegiado.
Masapartevitaldaraçanaodesceuaestadegradaçao,
deixou as cidades pelos campos .
As povoaçoes rurais, quenao tinhamo espíritoaris-
tocraticodasAmalieBalti,conservaramaantigainsti-
tuiçaogoticadocomitatus, o principiodaaliança. Ònde
se encontra este meio de resisti r a prepotência dos
nobres é nessas povoaçoes, conhecidas com o nome
romano de Vici; a troca dos géneros, em que consistia
o comércio destas povoaçoes, se chamava vicariare; o tri-
buto que pagavam pela suaindependência, era o vlca­
nale; o aj untamento das pequenas localidades que
acudiam ao apelido para mutua delesa sechamava vici­
nancia; ojuiz pedåneo ou inlerior era o vicarius, que ad-
mi nistrava a Vicana justitia. Todos estes sentidos nos
aparecem nos documentos consultados porÐuCange,
eramos Vici quemelhorcorrespondiamaogénioindivi-
dual germånico, que se deixara seduzir pela unidade
romana, nas cartas comunais, lormuladas nas l utas
burguesas, o direitode vizinhança, vem prescrito como
umaconquistaquesedelendecomanatemas. Estaluta
loi provocadapelaabsorçao dos Vici pelopodersenho-
rial que se prevalecia daj urisdiçao dos comitatus. Ðiz
Oerard. «A maior parte dos pagus, tendo constituido
condados domesmonome,equasesempre,sobretudono
começo, damesmaextensao, adivisaoporcondados (co­
mitatus) sem abolir a divisao porpaíses, a substituiu
muitasvezes,ouloiusadaconcorrentementecomela. »'
!oicontraestes condesquesederamasrevoltasdas
comunas, chegando algumas até a proibirem aos no-
breso l¡carem a noite, ou mesmoa entrarem nos seus
t Cartulaire de Chartres, t . x p. VIII.
56 TE6FILO BRAGA
burgos. Aimportånciados Vici, ainda que pertencendo
aos probl emas da i nsti tuiçao social é i ndispensavel
para conhecer esse grau de liberdade que loi preciso
para a lormaçao das novaslínguas romånicas, para a
constituiçaodo direitoconsuetudinario, paraarealiza-
çaodapropriedadelivreouoalodium, paraaexistência
dastradiçoesgermånicas,edas¡urandas . Estaspovoa-
çoes rurais ou vicanas, constituídas por colonias roma-
nas, por lites germånicose poraldius vieram tambéma
ser conhecidas entre nos pelo nome de aldeias. Mas
esta lutaentreas classesobreirase os chelesdocomita­
tus, que absorviam a propriedade, tinhadedar-se tam-
bém contra o catolicismo, que semoldara sobrea uni-
daderomana. S. Prospero, poetacristao, eimitadorda
poesialatina, exaltaa unidadedocatolicismorecebida
em Roma. Ðiz. «Roma, sede dePedro, tornada a ca-
beçadomundopeladignidadeapostolica, tenspelare-
ligiao, o quejanao possuis pelas armas . »
Ðestalutacom a unidadesenhorialecoma unidade
catolica, que as raças germånicas que nao viviam nas
cidades, e queconservavam pelarudezaa integridade
dosseuscaracteres,tiveramdesustentaratéaelevaçao
do Jerceiro Estado, escreve Oervino. «A aristocracia
da cristandade dividia-se em dois campos separados .
Nesta nova lorma de religiao, que é o cristianismo, a
culturaintelectual e os progressos operados na ciência
militar,levavamaduasviasdilerentes.Naosomenteos
eslorços tentados pelo povo eram reprimidos, porque
eletinhaadisputarapossedopoderaestesdoisramos
da aristocracia, nao somente tinha a experimentar a
lorça das armas contra as armas de uma nobreza se-
cular, mas tinha a lutar também pela cultura intelec-
tual com a cultura de uma nobreza inteligente. Era
uma duplarevoluçaocontraopodereclesiasticoe con-
tra o podersecular. » (lntrod. à I 'Hist. , p. l 7) As conse-
quências desta l uta contra a autoridade eclesiastica
loram tao importantes, como asdadascontra a aristo-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 57
cracia,O baixoclero,loiconstantementeabsorvidopelo
al to clero, predominaram as abadias sobre o clero se-
cular, mas o povo venceu o latim da l i turgia com os
seus cantos¡arcis,venceuospontiex, arquitectosreligio-
sos, com as suasjurandasleigas, impos as suas santilì-
caçoeselendaslocaiscontraa admiraçaodosheroisda
Antiguidade, criou a emancipaçao das Igrejas nacio-
nais,comovemospelos Culdées, emInglaterra,comono
pelagianismo em !rança, como no moçarabismo em
Lspanha, lìnalmente, opuseram ao ensino das colegia-
das o livre exame das universidades.
Assim como vimos as povoaçoes dos lici resistirem
poressa sua organizaçao a autoridade absorvente dos
baroes, também encontramos nos Pagi as condiçoes
pararesistiraocanonismounitariodaIgreja. Ò Pagus,
dondesederivaonomepais, dadoatodaaterranatal,e
com o mesmosentido de patria, conservou emvirtude
da suaconstituiçao independente, as tradiçoesgermå-
ni cas e romanas. \m dos motivos da persistência de
tradiçoesreligiosa�contrariasaocristianismonoPagus,
eraoencontrodosrestosda mitologiaromanadosanti-
 
oscolonos, com os elementos teogonicos germånicos.
E sabido que os Romanos ao encontrarem nas divin-
dades estrangeiras analogias com os seus deuses, lhes
davam logo os mesmos nomes, era talvez para assim
lazerem um sincretismo mais lacil, ou nao criarem in-
compatibilidades com os sentimentos religiosos, que
paraeles eram dependentes dos planos políticos.
ÐizJacito, que Hércules eraadoradopelosOerma-
nos,levadosporumaaparenteanalogia,NethonnaPe-
nínsula Hispånica era também comparado e conlun-
didocomHércules . Com esteprocessodeassimilaçao,
o germanodoPagus achavalacilidadesemconlormara
sua crença com a das povoaçoes preexistentes, e ao
mesmo tempo se chegava a uma certa toleråncia, que
os dogmas catolicos canonicamente dehnidos nao lhe
podiam conceder. Além disso o Pagus tinha os seus
58 TEÓFILO BRAGA
direitosconsuetudinarios,enaosei ncomodavaaadop-
tarassubtilezasdos codigosromanos,nosdocumentos
da I dade Médiaconsultados por Ðu Cange,Paganus, é
o nome dadoao que loi baptizado,paganusJ o que esta
semdireitos, eo que naoloi recrutado,paganumJ o pré-
diorustico,paganisareJ seguirocostumeesuperstiçaodo
pagao,paganismusJ terradepagaos.AIgre¡ aveioacom-
preendersob este nome, tiradodeuma lormada socie-
dade civil, todos aqueles que nao abraçavam o catoli-
cismo, todo e qualquer nao baptizado.
Aslutasentreocristianismocatólico, dosimperadores
doBaixo I mpérioeo cristianismoariano dasraçasger-
månicas,reüectiu-senasconquistasdeÁlricae Italia,e
lentamente e de um modo continuo na condenaçaodo
Pagus.
EscreveRamé, sobredocumentos citadosporLebeul.
«Lcertoqueaindano séculoVII haviainlìéisem muitas
partes de !rança. Caux era cheio deidolatras. S. Ro-
mao, queloi bispo de Ruao em G2D, encontrou no seu
territorio templos e idolos que destrui u. Havia-os con-
sagradosa jupiter,a Mercurio,aApolo,eatéumdedi-
cado aVénus,nacidadede Ruao, e com eleitoopaga­
nismo subsistiaaindapelosprincipios do mesmoséculo
em Berry e nos seus arredores. » ¸Ramé, Arch'J p. l l 5. )
Ò usodasimagensnasigrejas loi umapreponderåncia
exercida pelo costume dopaganismo. Ò Concílio de El­
vira, de 2O5, declara-se contra este uso, proibindo que
se adorem pinturas nas paredes, os que eram inlìéis
eacreditaramemCristo, comoAlexandreSevero,éque
o introduziram, os gnosticos capocratianos colocavam
a imagem dejesus entre Plaìao e Aristoteles. Quando
Clovis se converteu |oi preciso usar as ricas allaias e
esplendorno cultopara trazerpelossentidosao catoli-
cismo as raças germånicas, por outro lado loi preciso
aceitaros costumes e tradiçoes inveteradas doPagus e
dar-lhesapenasumsentidocristao, por meiodeanalo-
giassensíveis . Nacronicadoses|avos,deHelmodos,se
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL S9
lê que a ilha deRügen era um dos principais locos do
paganismo; adoravam aí um deus chamado Zwanthe
With; comos seus processosdeapropriaçaoanalogica,
a Igrejaquerendoconvertê-los,semexcluirodeuscha-
mou-lheSanto Vito. Inumerosprocessosdestaordem se
podemvernoEnsaio sobre Lendas Piedosas na Idade Média,
deAllred Maury.
Ò instinto conservador da Igrej a encontra-se tam-
bém no modo como até a moderna revoluçao, deixou
prevalecer na parte eclesiastica as velhas divisoes do
Pagus. SeguimosOerard,naIntroduçaoao Cartulário da
Abadia de Chartres: «AantigadivisaoterritorialdaOalia
emPagi, soseencontranascartasmaisantigas.AIgre-
j a somentea conservou, modilìcando-acomprudência
até a Revoluçao, de tal lorma que a maior parte das
divisoes diocesanas representavam ainda lìdelissima-
mente, sob Luís xvi as divisoes civis da Oalia sob os
Romanos. · ( Op. cit., p. vt) . Segundoo mesmoOerard,
«opagus correspondia algunas vezes ao territorio de
uma cidade ou de umadiocese, e a mais das vezes a
uma parte desse territorio, neste ultimo caso lormava
deordinarioumasubdivisaodiocesanatalcomooarce-
di aconato, arciprestado ou o deado, e lhe dava o seu
nome. Òspagi, muito mais numerosos que as cidades,
mul tiplicaram-secadavez mais pelaelevaçaodos paí-
ses secundarios, pagelli, a países de primeira ordem,
pagi.» Lra desta elevaçao de povoaçoes inleriores, e
alémdissopeladecadênciadas igrej as paroquiais,pela
absorçaodasabadias,emqueos mongestomavamasi
a inDuênciados padres seculares, queas tradiçoesque
vieram lundaras literaturas modernas seconservaram
nospagi. Neste período de liberdade secriou o espírito
l eigo, o povo tornoua igrej ao centrodos seus interes-
ses, eraaliquelaziaassuas compras, queerigiamuitas
vezes os seus tribunais, consultava as sortes dos santos,
cumpria os ordálios, guardava as escrituras de contra-
tos, celebrava as reconcil iaçoes . As prédicas come-
60
TEÓFILO BRAGA
çaram a ser lei tas nosermo vulgaris, ou lingua rustica,
cujo predominio loi a criaçao dos novos dialectos em
linguas independentes. Ali impos as santilìcaçoes |o-
cais, que o clero aproveitou para os seus i nteresses
dando lorma escrita, a legenda, a tradiçao que tornava
mais simpaticaqualquerimagem, qualquerperegrina-
çao. As lestas populares doAsno, oudos Jolos, as vi-
giliaserepresentaçoesdramaticasnaigrej a,osbanque-
tes sobre as sepulturas e as danças em volta de|as,
loram tudo consequências da vida independente do
pagus, mais tarde condenadas como superstiçoes do
paganismo. Ò dramadapaixaodejesus, comoveu estes
povos crentes pelo que havia dedoloroso no lado hu-
mano, assim, osOodos, queseguiramdeprelerênciao
arianismo, deram lorma artistica ao cristianismo, tra-
duziramnapedraosentimento,criaramumaarquitec-
tura, que despontou pela primeira vez no tempo de
Jeodorico, ariano, as raças quetinhamonomegenéri-
co de Oodos, como os Burguinhoes, Våndalos, Lom-
bardos, deixarampelosestadosmeridionaisdaAlema-
nha, França, I tal i a e Espanha, essa arqui tectura,
caracterizada pela ogiva, o simbolo da arte leiga, cujo
aparecimento coincide com a manilestaçao civil daco­
muna, depois do século x.
Nasconstituiçoesepiscopais,partidasdoaltoclero,e
inspiradas pelo espirito aristocratico da unidade ro-
mana, aparecem as condenaçoes mais duras contra as
criaçoes do géniopopular que invadia a Igre¡ a. Mas o
que era vivo triunlou, a hinologia da Igrej aloi versih -
cada sobre a acentuação dapoéticavulgar, a missa che-
gou a ser dita na linguagem do povo, que comungava
tambémcomosacerdote,comonaIgrejadoÒriente, a
linguarusticasuplantouolatim,que eraobrigatoriona
prédica, a doutrina abstracta do Evangelho, e igual-
mente as parabolas, loram reduzidas a imagem, como
nasvidraças, nas iluminuras� e na estatuaria. Assim a
lorça da vizinhança dos Viei, chegou a vencer o despo-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 61
tismo senhorial, e a lorça da tradiçao e dogénio po-
pularconservadornospagi, chegoua vencera tendên-
ciaaristocratica da Igreja, criandoos elementos sobre
que se lundaram a sociedade, as línguas, a arte e as
|iteraturas modernas.
A lacilidadecomquesevulgarizouportodaa Luro-
paadesignaçaoderomântico, paracaracterizaro movi-
mento das literaturas modernas e dilerencia-las das
literaturas antigas ou clásicas, designaçao estabe|ecida
nasdiscussoescriticasentreOocthee Schiller,e propa-
gada pelos Schlegel , reve|a-nos um le|iz achado, cujo
valor importa conhecer, para o nao abandonar. Ò ro­
mantismo encerra a conexao historica com os dia|ectos
romånicos da I dade Média, esses dia|ectos, desenvo|-
vendo-se emlinguasnacionais,lìxando as suaslormas
gramaticais no uso escrito, tornaram-sel i teraturas. As
novas linguas, apenas la|adas, eram chamadas pelos
eruditosdaIdadeMédia, romance, pelaindisciplinadas
suaslormas com relaçao aolatim, Ldelestand Ðu Méril
cita este trechode

uma traduçao aindainéditadossal-
mos. «Et pour ceu que nul;; ne tient en son parleir ne rigle
cel'tenne, mesme, ne raison, est loingue romance si cOTrumpue
qu 'a poinne lui uns entend i' aultre, et a poinne peut on trouveir
aujourd'ieu personne qui saiche ecriTe, anteil ne prononcier en une
meisme semblant manieire, mais escript, ante et prononce li uns
en une guise, et li aultre en me aultre. »1 Lstemesmocaracter
loi compreendido em Lspanha no século xv pelo eru-
di to Marquês de Santi|hana, que chama romance aos
cantares «Sin regla ni cuento, de que la gente baja é de servil
condición se alegra». Lssa espontaneidade de linguagem
correspondia a espontaneidade de novos sentimentos,
querevelavam nacivilizaçaodo mundo moderno uma
c|assedesconhecidanassociedadesantigas,opovo. Òs
criticos alemaes ao caracterizarem o romantismo, apon-
tavamaindependênciaabsolutadoscånonesretoricos,
I Documento do século XIV. Apud Reuue COI/emporile, t. Vil, p. 641 .
62 TEÓFILO BRAGA
oindividualismodosentimento,ouainspiraçaocomoa
verdadedo mododesentirindividua|,e asobraslitera-
rias baseadas sobre as tradiçoes nacionais de cada
povo, e por isso escritas nao para as academias, mas
para actuarem no conDito das translormaçoes sociais.
A palavra romantismo tem estesentidocomplexo e pro-
lundo, porque acentua nacivi|izaçaoocidental a re|a-
çaoachadapeloespíritomodernoentreas|ínguase as
suas |iteraturas. L realmente lamentavel, que o roman­
tismo adquirisseasignilìcaçaoestreitadolactocaducoe
transitoriodo byronismo,porquenenhumaoutrapala-
vra,como realismo oumesmopositivismo, podeexprimir
este grande lenomeno historico e ao mesmo tempo, as
suasvastas relaçoes.
Tal tem si
j
o o traba|ho da historia moderna para
reconstruirperanteacríticaa Idade Média. Apardes-
tesprocessosdeerudiçao,alìlosoh aprocuravaosprin-
cípioslundamentais daArte e de todas as criaçoes do
sentimento. A marcha desta segunda evoluçao nao é
menosesplêndidadoqueadosmedievistas.Sigamo-la.
B) A CRIAÇ
Ã
O DA EST
É
TICA PELA FILOSOFIA METAF
í
SICA
I ndependentemente de todas as teorias, de todas as
esco|as,esonocampo daobservaçaochega-seaoresul-
tadodelìnitivo÷quehaumaordemdelenomenosque
nos levam a um estado de passividade agradavel, ou
quecorrespondemaossentimentosdequeestamospos-
suídos, produzindo-nos impressoes tanto mais prolun-
das, quanto éo desenvolvimentoqueatingimosdentro
da civilizaçao. Lstes lactos sensoriais, em parte recebi-
dospelacomunicaçaodirectacoma natureza,e princi-
pa|mentecriadospe|aactividadedainteligêncianoseu
momentomais|ivre, agrupadose submetidosa analise
cientíhca, constituem a Estética. Ciência muito mo-
derna, a sua historia é a evoluçaodopensamentopro-
curando reduzir a processos logicos os lenomenos da
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 63
impressionabilidade, e descobrir o hm racional das cria-
çoes do sentimento, a Estética loi sensualista em Baum-
garten, idealista em Schelling e Hegel, a leiçaopositiva,
dadapelarenovaçaocientiñcadolìmdoséculo,baseia-
-sesobreoautomatismodoe|ementotradiçao,subordi-
nado a um intuito individual.
A Filosolìa sensualista tinha latalmente de tocar os
problemas da sensaçao, de descobrir-|he a vasta com-
pl exidade, e de agrupar os lactos mais caracteristicos
em um dominio a parte, loi ela que criou a Estética.
Baumgarten, que dehne a Filosolìa ÷ a ciência das
causas e das relaçoes que podem ser concebidas sem
intervençaodalé ÷achoupor essa concepçaoj ustao
lìo condutor para esse mundo novo da observaçao.
A ideia positivist da relaçã conexa, que leva a concepçao
daunidade do universo, entreviu-a vagamente Baum-
garten, comptia-lhe criar a Estética ou a Filosoña da
Arte, quenose|evaasmaioresgeneralizaçoes,semprea
umasíntese superior partindo unicamente de relaçoes
particulares. Para Baumgarten, o Beloeraa «perleiçao
concebidadeummodoconluso». Estaconlusaoresulta
dolracoconhecimentodasrelações particulares,quenao
é indispensavel para descobrir através delas, que ha
umacerta unidade, era estaunidade, em parte conce-
bida semgrandesprocessosana|iticos,oqueelechama
a perleiçao, o lactodaideiado Belo; desdeo momento
q ue essa concepçao da unidade, nao resulta de uma
analise parcialdas relações, o conhecimentonao adqui-
riutodaalorma logica,e porconsequênciaa perleiçao
é umanoçaovaga,oBelo éumsentimento.Aestemodo
de ver, alia Baumgartenoutros principios rigorosos na
suateoria, comoeste. o Belo naoestananatureza, mas
no nossoespirito. A inte|igênciaé queaproxima as di-
versas relações, que separadamente nada exprimiam, e
desta aproximaçao resu|ta a descoberta de um princi-
piosuperior,anoçaodaunidade,reveladasentimental-
mentepe|aperleiçao. Òdeleitodaescolase.nsualista loio
64 TEÓFILO BRAGA
rebaixar a ideia da perleiçao a convençao arbitraria e
consuetudinaria da moral, conlormando-a com o bem.
!oi como imobilizar-se, ñcar sem progresso, como a
propria moral.
Ò desenvolvimentocientíhco do problemasdaLsté-
tica saiu da renovaçao meta|isica da primeira metade
do século XIX; loi elaquelhes imprimiu uma unidade
imponente.PoucodeveaKant,essencialmenteanalista
e crítico, o Belo loi para ele bemobservadono campo
dos lactos , no campo da generalizaçao pouco vi u,
oBelo, eraparael eumproblemacomumapsicologiae
a logica, o acordo entre um produto da imaginaçao e
uma certa norma do senso comum e gosto, tornava-o
subjectivo,derivando-odestacorrelaçaopassadanoes-
pírito. Aindaassimestemododevertemaimportåncia
de haver suscitado em Schiller, a concepçao da Arte,
lundadanoacordodasensibilidadeedarazao,soluçao
maisdelìnitivadoqueaconciliaçaoentreaimaginaçao
e o gosto, porque opera sobre as laculdades que com-
preendem o Belo, o realizam e o comunicam.
A elaboraçao metaüsica, com a audacia daabstrac-
çao,loilevadaaosmaisextraordinariospontosdevista,
na determinaçao do ñm da Lstética como ciênci a.
Quando !ichte sucedeu a Kant,nainanidade da abs-
tracçao teve de lortalecer-se com esse terrível rigor
logico, esse rigorlevou-o ao assombroso exagero, mas
admiravel, da concentraçao do universo no eu, unico
conhecimento de um lacto provado no acto da cons-
ciência,e porissotomadoparaservirdenormaareali-
dade do universo. Nah losolìa de !ichte haum eterno
antagonismoentre a naturezae oeu; a naturezacoarc-
ta-lhe a liberdade, o eu procura-lheo seu h m racional,
para assimila-la a si. A Arte, para!ichte, erao instru-
mentodestaluta,oñmdaArtecorrespondeaestaacti-
vidade do eu, é pelos produtos da Arte, que vai reali-
zandoo seu podercomocriador. Que importa que!i-
chtetratasseacidentalmentedesteproblema,queonao
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 65
tivesse bem deh nidoa sua inteligência, uma vezdeter-
minadoestelìm da Arte, acabou essalalsaideiada es-
colasensualista, que lhedavacomoh ma imitação. Ðen-
trodocritériohistorico,as criaçoesdaArtedetodosos
povos, de todas as civilizaçoes, so se compreendem,
quando se descobre através delas o eslorço que o ho-
memlez para com os objectos desconexosdanatureza
exprimirassuaspaixoes,assuasideiasmaldeh nidas,e
a perpetuar as suas aspiraçoes, na l uta da liberdade
contraalatalidadedanaturezaecontraainlalibilidade
da tradiçao e da autoridade. Fichte loi levado a este
verdadeirolìmdaArte,porqueemvoltadeleseestuda-
vam as obras de arte daAntiguidade, com o amordo
antiquario, com a vontade de perceber as civilizaçoes
antigas, como o laziam Lessing e Winkelmann. A par
de uma corrente positiva, ¸na arqueologia e na critica)
recebeu a inD uência directa da verdade dos lactos, e
sem o sentir determinou para sempre esta conclusao
geral. Ðesta lìlosoh a do individualismo saiu uma das
lormas mais originais da Arte, a ironia, prolunda nao
pelosseusresultados,maspelasuaorigem,porissoque
é uma relação que nao existe na natureza, mas que é
cri ada pel a i nteligência por meio de um contraste
di rectoentreideiaeideia. joaoPauloRichterlormulou
em sistema este problema isolado, mas o seu alcance
vô-se nasobras de arte queescreveu. Ò princípioposi­
tivo, de que nao existe nenhum conhecimento lora das
relações que nosaproximammaisou menosdaverdade,
acha-serealizadonasobrasdejoaoPaulo,queselança
a criaçaodoBelo, umadas lormasdaverdade, aproxi-
mando as mais impensadas relaçoes .
Aorganizaçaodo artistacaracteriza-sepelopoderde
acharo maior numero de relações entre as diversas lor-
masda natureza,éolenomenoda associaçaode ideias,
do domínio logico, tornado obj ectivo, uma sensibili-
dadeexcessivalazdescobriroladooualeiçaoporonde
umadadalormaseassemelhaoulazlembraroutra,ou
66 TEÓFILO BRAGA
a traduz ou lhe serve de equivalente, um som corres-
ponde a uma cor (Fechner) , uma certa paisagem a
um estado moral . L este o lacto autêntico, na evolu-
çao do universo nao existe um unico momento que
nao seja latalmente correlativo ao antecedente e ao
consequente, nao ha um lenomeno soluçao de conti-
nuidade, tudo é um desdobramento seriario, omni-
pres tante, em permanente actual i dade. Òs nossos
lracos orgaos, a dependência do tempo, a necessida-
de de dividir para compreender é que nos têm lalsi-
hcado o critério da natureza. Foram as organizaçoes
artisticas as primeiras que senti ram essa continui-
dade, essa trama i nteira da lenomenal i dade, pelas
obrasdeartechegaram a realizaroBelo porquedessas
obras concluia-se esta verdade para a inteligência.
Òs artistas mais completos, isto é, os que têm uma
maior receptividade, tiveram o poder de abranger
e acharmaiornumero de relações na natureza. Miguel
Ângelo, estatuario, pintor, poeta, arquitecto, ou Leo-
nardo da Vinci ou Ralael, loram vastos, porque ne-
cessitavamdetodasaslormaspalpaveisparalheexpri-
mirem a compreensaodessas relações estranhas queal-
cançavam. Nas palavras de Oocthe sobrejoao Paulo,
vemos uma perleita descriçao do artista. «Lspirito tao
bemdotado, lança sobreeste mundo, de umamaneira
verdadeiramente oriental, olhares cheios de atrevi-
mentoedeveracidade,ele cria as relações as mais estranhas,
combina as coisas as mais incompativeis, mas de tal
sorte que aísemistura secretamente umhomoral,que
conduz o todo a uma certa unidade. » ¸Notas sobreo
Diwan. ) Ðepois destaideia de Oocthe, quedelìne per-
petuamente o artista, vamos achar em um pratico, o
estatuario Preault, a mesma noçao desta capacidade.
«Ò artista é oquevê maior, m
a
is alto e mais claro do
que os outros homens. » Quer dizer, é o que pode ter
maiores relações com o mundo exterior, o que precisa
tê-las, para ver mais, através da variedade a unidade.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 67
Carlyle,espéciedejoaoPaulonahistoria,tambémpo-
sitivo nos seus processos criticos, concorda com o h m
superior que se deduz do conhecimento dessas relações
mais intimas. «Lm cada objecto ha uma inesgotavel
signilìcaçao, os olhosvêemconlormeos meios que em-
pregamparaver. » (Hist. da Rev., t. I , p. 7. ) Lstesentido
inesgotavel das coisas, so pode ser achado pela Arte,
q uando Schel l i ng lez para a lìlosolìa de !ichte, o
mesmoque!ichtelez paraa lilosoñadeKant, elevou-
-sedomodomaislrancoe lucidoa estepontodevista.
Lle nao lundou uma Lstética, masnuncaumaciência
loi mais bemdeh nida, melhor caracterizada, mais su-
blimementeevangelizada. Nodiaem queseserviudos
problemas da Arte para exempliñcar praticamente o
seusistemañlosolìcodaidentidade, olactodacriaçaona
ArteperdeuessecaracterdelutadeAjax,e adquiriu a
alturaeserenidadede um órgão queserve para nos des-
cobrirao sentimentoe a inteligência as multiplas rela­
ções douniverso, lìxarassuasanalogiassecretase dar-
-nosaconsciênciadaharmoniaouidentih caçaodouni-
versoüsicoe morl .
Aabstracçaotranscendental,porissoquenaotraba-
l ha sobre lactos reais, mas simplesmente aproxima
ideias, é umestadodesincretismoproduzidovoluntaria-
mente, as ideias combinam-se, relacionam-se, levam a
conclusoes originais c extraordinarias, do mesmo modo
queacontecenaÁlgebra,ondeporsermaislaciloperar
comvaloresabstractos, seestasempreempermanente
descoberta. Ò sincretismo, mesmonoestadoderudeza
primitiva dos povos, é lecundo, caracteriza-se pelain-
vençao,resultantedaaudaciadeaproximarasrelaçoes
das coisas e de ñxar as mais reconditas analogias. No
seuSistema de Idealismo Transcenden.tal, Schellingchegoua
identilìcar o sincretismo lìlosoñco, ou da abstracçao,
como sincretismopsicologicoenaturaldasépocaspri-
mitivas. Lleproprioobedeciaaverdadequea|cançava.
\ejamoscomoSchcllingloi levadoa umaideiataosu-
68 TEÓFI LO BRAGA
blimeda Arte, partindodo ponto que nenhumahloso-
lìa pode existir sem serlundada em um conhecimento
completo,tratademostrarqueparaconseguiroconheci­
mento, é necessario que sedê o acordo entreo objectivo
ou a Natureza, e o subjectivo, ou o Lu, estes dois termos
existem separados antes da compreensao da verdade,
o Lu éainteligência,anaturezaéolactoouoproduto,
e quandoessamanilestaçaorevelaraleisuperiorquea
produz, entao a inteligência identih ca-se em uma su-
premaharmonia. Schellingcorrigiu destemodoo exa-
gero individualistade Fichte, o seu sistema da identi-
dadeprecisavadesercontraprovado com um exemplo
palpavel, e ele loi encontrar nos lenomenos da Arte
uma demonstraçao pratica e brilhante. Ò principio
quase incoercivel da identicação entreo inlìnito e o h-
nito, entre a vealidadee o pensamento, entreo mundo
üsico e o mundomoral, compreendia-o diantedeuma
obra de arte, na sua lorma ainda a mais particular, a
paleta de um Ralael, por meio de um mero acidente
materialdecombinaçoesdetintas,consegueexprimiro
sentimento moral o mais delicado, e nestaj usta conci-
liaçao da lorma com a ideia realiza uma harmonia in-
timaaquechamamBelo. Schelling,porém,levadopelo
transporteda abstracçaosacrihcou o seusistema, por-
quenaodeu lormacientihca aestaconcepçaodaLsté-
tica, emvczde alundarcm basessolidas, dccodihcar-
-lhe os lactos, loi arrebatado aos ultimos exageros, re-
duzindo toda a h losoha a umaArtelìnal, a natureza a
umaeterna poesia e a actividade da inteligência a um
sublime poema. Òuçamos as suas palavras. «Jrata-se
de mostrar no subjectivo, na consciência, esta activi-
dade, tendoe naotendoconsciência.Naohaactividade
tal, como a actividade estética, e toda a obra de arte
para ser compreendida, é preciso que se considere
como um produtodestaactividade. Ò mundoidealda
Arte, e o mundo ideal dos ob¡ectos, sao produtos de
umaemesmaactividade,oencontrodestasduasactivi-
HI STÓRIA DO ROMANTI SMO EM PORTUGAL 69
dades,semconsciêncianomundoreal,comconsciência
nomundoestético. Ò mundoobjectivovementaoaser
a poesiaprimitivadoespirito,quenaotemoutracons-
ciência.ÒorgaogeraldaFilosolìaeolechodaabobada
detodooediücioéaFilosohadaArte. »(Sistema de Idea­
lismo Transcendental, p. J1D a JG8. ) L lortaleceoutravez
o seusistemametaüsicocomesta teoriadaArte. «Sea
i ntuiçao estética nao é senaoa intuiçao transcendental
tornada obj ectiva, é evidente que a Arte é o unico e
verdadei ro orgao desta ülosolì a, sendo ao mesmo
tempoo documentoqueconhrmasempree semcessar
o queah losolìanaopodeexporexteriormente,istoé, o
que ha de inconsciente na actividade e na produtivi-
dade, e suaidentidadeprimitivacom o que ncla hade
consciente. » (lh. , p. JGG. ) Lsta apoteose da arte leita
porSchelling, teveconsequências praticas e prolundas
na actividade cienti|ìca do século XIX; o génio metaü-
sico, que inventou pela abstracçao estes vastos siste-
mas, logicamente arquitectados, veio substituir deste
mododentrodasraçasgermånicase em umaépocade
al ta civilizaçao, pe|a latalidade do atavismo, essas la-
culdadespoéticasdaraçaariana,aquepertencem,que
criaramnoseuprimeirosincretismoosimensospoemas
doMaaharata edoRamaana. Asepopeiasteogonicasque
setornaramhistoricas,sucederam-seasepopeiasmeta-
üsicas,aimaginaçaotrabalha,emvezdcsersobreima-
gens danatureza, sobrepostulados gratuitos com todo
o rigor dos processos logicos. Se Schelling nao cons-
truiu uma Lstética, produziuemvoltadesiumacomo-
çao sentimental, mistica, religiosa, em que a noçao da
ciênciasetornouparatodasasinteligênciasumlìmsa-
grado da existência, as obras de arte da Antiguidade
apareceramcomumsentidorecondito,osmitosdosdi-
versos povos loram aproximados nas suas aparentes
analogias, que mais tarde levaram ao seguro principio
da lìliaçao historica, as linguas estudaram-se sob o
pontodevistacomparativo,asliteraturas sob ocritério
70 TEÓFI LO BRAGA
dasnacionalidades,criou-seapedagogia,porqueaper-
lectibilidade tornou-se o dogma da educaçao indivi-
dual. Schellingdeuestegrandeimpulsocomasuavaga
abstracçao, o que ha de verdade nela nao se perde
mais. Apos SchellingveioHegelcorrigirasteorias me-
ta|ìsicas, representando o principio criador, a lorça no
seu estado imanente sob a designaçao de ideia, isto é,
que pelo lactoda sua existência tende a realizar-se, li-
mitando-senaAntítese; aelevaçaooutravezaideia pela
realidadecomquecomunicamos,é aoqueelechamaa
síntese, ou a plenitude do ser pela consciência. Òs pro-
blemas da Estética tambémvieram lortalecero sistema
de Hegel, a ideia do Belo, para existir completamente,
precisasairdoseuestadodeimanênciaecomunicar-se,
exteriorizando-se na lorma limitada e palpavel, por
meio dessa lorma, que é a sua antítese, isto é, até certo
ponto negaçao da sua inh nitividade, é que nos eleva-
mosoutravezaconcepçaodaideia doBelo, e époressa
evoluçao latal que o ser precisa passar para atingir a
plena existêncianaconsciênciade si mesmo. AEstética
tem sido consideradao redutoonde melhorse delende
a lìlosoña deHegel, osmaiorescriticos, comoStanden-
maier, ou Jierschj ulgam-na uma obra-prima, quase
inexcedivel . Ve¡ amos a razao do lacto. Hegel corrigiu
Schelling lortalecendo a especulaçao metaüsica com a
investigaçao histórica; insensivelmente e sem o querer,
abandonouoseumétodopelocritériopositivista; loiessa
realidade, essa observaçao imediata sobre as criaçoes
dos diversos povos, que o levou a verdade, que torna
apreciavela sua Estética. Lste livro, porém,naosegueo
métodopositivo, emboraHegelvaacompanhandoateo-
ria transcendente com a evoluçao histórica dos lactos,
porque nao é a historia que o leva a uma teoria h nal,
mas é a teoria que interpreta os lactos submetendo-os
assuaslormulas abstractas. Ò ladopositivo daLstética,
explica-setambémpelapropriabiograñadeHegel,Ro-
senkrantzescreveaseu respeito. «Òs tesourosartísticos
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 7 1
deBerlim,as exposiçoesdetodoo género, excitavamo
seuamorpe|asartes até ao mais altograu. . . Procurava
comumencantoinsaciave| esemse cansar, os concer-
tos, os teatros, as galerias, as exposiçoes. !aziaextrac-
tos e notas para a historia das Belas-Artes. Amava
apaixonadamente a música, tinha paraa pintura esse
saberverinato. Napoesiaeraemtodaelalamiliar. Ti-
nhaparaa esculturaacapacidadeamaisevidente, que
ele procurava constantemente aperleiçoar.» A organi-
zaçao levava-o parao campoexperimental, a direcçao
transcendenta|dasescolasalemasatraia-oparaassin-
tesesa priori. javimosqualo|ugarqueaLstéticaocupa
nos sistemas metaüsicos, durante essa elaboraçao in-
te|ectual deu-se uma renovaçao cienti|ìca, cujasintese
se chama opositivismo.
ÐesdeHumequeasideiasmetaüsicashaviamlevado
umterrivelgo|pe,comooperarsobrevagostermos,sem
realidade, sem mesmo terem rigor logico, e pretender
chegara umaverdadeºÒ velhoediliciodahlosoñaan-
tigaedaIdadeMédia,queseimpunhalatalmentepelo
seulormulismodogmatico,pe|assuascategoriassacra-
mentais,loiexpe|idodomesmomodoqueoqueéorga-
nizadorepeleocorpoestranho.Ave|haPsicologia,veio
renovar-se na atmoslera experimental da Bio|ogia, a
gasta Teodiceia tornou-se a Ciência das Religioes, a
Gramatica Oeral, translormou-se na Linguistica e na
!i|osoñaComparada,aestérilMoral,aPoliticadoLm-
pirismo, o Ðireito Constituido, a Arte, a Literatura, o
encadeamentoda Historia, a Lconomia Politica, agru-
param-se como lenomenos dinåmicos de uma nova
ciênciasuperior,aSociologia,aLogicatornou-seindu-
tivaou dedutiva,segundoo processo cientihco ou ñ|o-
sohco. Cada umadestas ciências teve osseus obreiros
especiais, que separadamente cooperaram para levan-
tar o nivel intelectual do século, a um Bichat, a um
Creuzer,aumBoppeOrimm,atodososquereconcen-
traram assuaslorçasnacompreensaoexactadosleno-
72 TEÓFILO BRAGA
menos, se deve a renovaçao cienti|ìca, sistematizada
porAugustoComte. Peloselementosconstitutivosdes-
sa renovaçao se vê claramente, que a hlosohaja nao
pode ser umaconcepçao individual e dogmatica, ela é
umresultadogeral,ondeharmonizamtodasasconcep-
çoes parciais da inteligência, com os progressos que se
vao realizando. Por isto se vê que o positivismo nao é
somenteum método,é uma sintesepermanente,é uma
conclusao quequalquersemsergéniopode tirar, den-
tro do meio em que vive. Sem os perigos da paixao
egoista da teoria individual, e dirigindo os processos
l ogicos pel a evoluçao hi storica, ha mui to mais se-
gurança de chegar a verdade, de se aproximar dela
quanto lor possivel.I
C) A REACÇ
Ã
O NACIONAL ENTRE OS POVOS MODERNOS
Assim como se conhece a originalidade das litera-
turas pelo lundo de tradições populares em que se ba-
seiam,domesmomodosecontr
a
provaasuavitalidade
pelaaspiração moraloupoliticadequeelassaoaexpres-
sao. Peloconhecimento eruditodaIdade Média desco-
briu-se quais eram as lontes das literaturas modernas,
pela especulaçao h losohca chegou-se a lormular o cri-
tério por onde se devem julgar as criaçoes do senti-
mento. Falta agoraver,comoagrandecomoçaomoral
epoliticaproduzidapelaRevoluçao FrancesasereDec-
tiu entre todasas naçoes, ecomoas literaturas, nasua
laseromântica, setornaramaexpressaovivadanovada
aspiraçao a l iberdade. Foi neste momento de entu-
siasmo,emqueseprocuravaaverdadeno tipo eespon-
taneidade da natureza, que as li teraturas modernas
proscreveramaimitação daAntiguidade.Lstabeleceu-se
a luta de preceitos e preconceitos de escola, o arsenal
I Na revista de filosofia O Positivismo, n. " 6, vol. I , esboçamos um estudo
sobre a COllstituição da Estética Positiva, em que desenvolvemos o novo critério.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 73
doscånones académicosrecebeuonomedeclássico, e a
livre manilestaçao do sentimento na arte, o nome de
romântico. Lnquantosedebatiam as estéreis obj ecçoes,
em ironias autoritarias, em acrobatismos lraseurgicos,
dava-se entre todos os povos esse estado moral da as-
piraçao,esseanseiopelaliberdade,quetrouxeaslitera-
turas a sua manilestaçao de verdade. A marcha da
Revoluçao Francesaloi desviada por Napoleao doseu
destino a bem da suapessoa, mas a corrente deliber-
dadequeelainsuDaranainteligênciamodernanaoloi
extinta. Ò interesse que a critica impassivel de Kant
mostravapela Revoluçaoeraparaosartistasumapai-
xaoveemente que os inspirava. Foi nesta corrente que
se temperou o génio de Schiller, a Revoluçao reconhe-
ceu-o mandando-lhe o diploma de cidadao lrancês .
Neste tempo os poemas gaélicos do bardo Òssian, re-
passados do anseio pelaliberdadee dessavaga melan-
colia do génio céltico, vem descobrir ao mundo um
novoidealdepoesia,Ooctheapaixona-seporessenovo
lirismo, e Napoleao prelere essas narrativas ossiånicas
as epopeias de Homero. A discussao da autenticidade
dospoemaspublicadospor Mac-Phersonlevaa desco-
briroproblemadaconcepçaodapoesianacional, e in-
Duinolirismoinglêsdaescoladoslaquistas. A revelaçao
dodramaindianodeKalidasa,Sacuntala, traduzidopor
Schlegel, da a conhecer que paraatingir-se o belo nao
era preciso moldar as paixoes pelas receitas deQuinti-
liano, e que em todas as criaçoes humanas existe uma
unidadesuperior,umaharmoniadamesmaorigem,da
s ol idariedade das civi lizaçoes, e a continuidade da
vida. NaAlemanha, Orimm descobria o lragmentoda
cantilena de Hildebrand e Hadebrand, que levava ao es-
tudo da poesia nacional germånica. No entanto Na-
poleao tempestuava na Luropa com o capricho das
suas invasoes, queriarealizarosonhodeCarlosMagno
quandoconstituiua unidade europeiasobreaincoerên-
ciadomundobarbaro.AAlemanhapararesistirasar-
74
TEÚFI LO BRAGA
bitrariedades do prepotente organizou-se em socieda-
des secretas, como a Tugendbund, daqua| Fichteloi um
dos lundadores, e a BurchenschafJ, as quais pertenciam
os estudantes, os poetas e os homens daciência.
Lra nesta criseviolentaemquese lutava pela inde-
pendênciadapatria, queogénionaciona|lacilmentese
manilestava¿eIaIiteratura. Aos desvarios audaciosos
deNapoleaosucedeu a reacçao tenebrosae naomenos
lunesta dos dip|omatas, que organizaram a chamada
Santa Aliança, com o h m de assegurarem a Luropa a
estabilidade perturbada nao pe|os exércitos e guerras
napoleonicas, mas pelas ideias da Revo|uçao Francesa|
As restauraçoes lorçaramo tempoparaimporemestu-
pidamenteostatu quo doantigoregimequepassara, le-
cha-se a portapara os cargos publicos a toda a moci-
dade revo|ucionaria, aproveitam-se os ve|hos caducos,
oantigoaceita-secomoconvençao,perseguem-seasso-
ciedades secretas, e considera-se como conspirador
contra a patria todo aquele que nao exprimiros seus
sentimentos segundo as obras-primas da Orécia. Ln-
quantoa SantaAliançatrabalhavaa Luropaconlorme
um apanagio do cesarismo que renascia, a Orécia,
abandonada por todas as potências politicas, lutava
contra a Jurquia para sacudir de si esse jugo de sé-
culos. Aliseviuumapoesiapopu|arlevantaroespírito
naciona|, e dar lorças para a resistência tantas vezes
lrustrada. Faurie| co|igiu os Cantos Populares da Grécia
Moderna, que vieram mostrar a consciência do nosso
tempo como a unidade po|íticade um povo e a sua li-
berdade se lunda e renova sobre o vínculo comum de
uma tradiçao. Ò poeta Righas, como na Alemanha lì-
zera Fichte,lundoua associaçaosecretaHeteria, donde
porrompeu a insurreiçaodaOrécia. Mas no congresso
daSantaAliança,osdiplomatasopunham-sea heroica
regeneraçaodaOrécia, porque viamcomoseuinstinto
reaccionario neste lacto assombroso uma das cabeças da
hidra revolucionária. Bemhajaessegénio extraordinario,
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 75
quesintetizaanovaleiçaodas literaturas e do espirito
moderno, Byron, que deixou a voluptuosidadedavida
ita|ianaparairolerecero seusanguepelaindependên-
ciadaOrécia. ÒexemplodeByronimpressionoutodos
osnovos talentos,e asua mortedeuumrelevoextraor-
dinario aos cantos, em que tanto protestara contra os
desvariosreaccionarioseatentadoscontraos povos lei-
tospelaSantaAliança.Òromantismoliberaltornou-se
byroniano,queosdeclassés daRestauraçaoimitaramna
lorma de um cepticismo alectado, como em Allred
Musset.ÒeslorçodaOréciapararecuperarasuainde-
pendência inDuiu para o desenvolvimento do roman-
tismo liberal, o poeta entendeu ligar os seus cantos as
aspiraçoesdoseu tempo. Berangercombate arestaura-
çao do absolutismo laminto e obcecado em cançoes
cheias de malicia, e Victor Hugo eleva-se a lase byro-
ni ana. Na l uta do romantismo, da-se em França o
mesmo lacto que na I talia, Baour-Lormiant, chega a
pedira baniçao dos romånticos como uma garantiada
segurançapublica. Noorgaojornalisticoo Globo, soba
direcçao severa do radical Ðubois, a mocidade que se
ahrma oriunda dos principios da Revoluçao Francesa,
es tabelece os novos principios de critica, e Oocthe
acompanha com i nteresse esse movimento di scipli-
nado. Ðe l 821 a l 8JO o Globo exerce uma actividade
i ntelectual que inDui sobreo espirito publico, antes da
coroaçao de Carlos x e quando o Partido Liberal se
desorientavacomainvasaodaLspanha,apareceo pri-
meironumerodojornal, comoqueemsubstituiçaodas
Tablettes Universelles, suprimidas pelo ministro reaccio-
nario Vi l l el l e. Por eleito dessa supressao a j ovem
Françacongrega-senessecentrodeelaboraçaomental,
cujalundaçao sedeveuem partea Jhiers, e o tituloa
Pierre Leroux. Ò Globo inicia o publico no conheci-
mentodassessoesdaAcademiadasCiências,nacritica
teatral, na arqueologia da Idade Média, na lìlologia e
na ciência das religioes, alìrmando a superioridade
76 TE6FILO . BRAGA
politica da França liberta do antigo regime, intentava
aliar-lhe a liberdade da imprensa inglesa e o espirito
cientilìcoalemao. Ouizot,Villemaine Cousin, naoper-
tenciamaredacçaodo Globo mascontribuiramcomco-
municaçoes, trêsgruposse empenhavam nessa empre-
sa de renovaçao mental, e no restabelecimento docri-
tério politico, o primeiro, era o dos universitarios, a
|rente dos quais estava Ðubois, pela suapoderosaini-
ciativa, e JhéodorejoulIroy, pela critica lìlosohca,
colaborandocomelesÐamiron,Jrognon,Patin,Farcy,
Agostinho Jhierry e Lerminier, o segundo grupo era
|ormadopormancebos, hlhos dos homens daRepúbli-
caedoI mpério,taiscomoCharlesdeRémusat,Ðuver-
gierdeHaurannee Ðuchatel, o terceirogrupoeralor-
mado pela mocidade mais lúcida das escolas, os nor-
malistas Sainte Beuve, Vitet, Merimée, Stapler, j. j.
Ampcre, e ainda Armand Carrel . Lsta geraçao lorte,
pelabocadejoulIroy, ousavadizeraospoliticos reac-
cionarios da Restauraçao, que a Revoluçao que eles
atacavam dera-se menos nas ruas do que nas ideias, '
aos catolicos, quepretendiam restabelecero obscuran-
tismo medieval explicava-lhes com umagrande altura
moral as leis psicologicas e historicas pelas quais os
dogmas se extinguem. As translormaçoes do roman-
tismo, que passara da lase emanuélica para o satanismo
byroni ano em Vi ctor Hugo, desvi aram por algum
I « o estado geral dos espíritos nesta época era o assunto i nesgotável dos
nossos artigos. Tal era o facto que nós considerávamos sob todos os aspec­
tos, facto poderoso que continha todos os outros, centro das nossas investi­
gações, e que os nossos constantes esforços tinham por fm caracterizar e
esclarecer como o mais forte obstáculo aos planos da Restauração e a mais
forte objecção às suas doutrinas; porque, apesar da sagacidade dos seus ilus­
tres defensores, ela constantemente desconhecia e punha todo o seu orgulho
em desconhecer a realidade e a profundidade da Revolução nas ideias. Ela
queria tudo atribuir às paixões individuais, às ilusões de um momento e
representar como um mal passageiro uma renovação social. Daqui a es­
perança insensata de tudo reparar a seu modo, e daqui também a vaidade
dos seus esforços.» eh. Rémusat, Passé el Present, t. II, p. 208.
HI STÓRI A DO ROMANTI SMO EM PORTUGAL 77
tempoaelaboraçaoliterariadadirecçaoesoluçaocien-
tilìca que lheimprimirao Globo. Lra preciso substi tuir
a macaqueaçaoda Idade Média, queconsistiaem um
guarda-roupa cavalheiresco, pela ciência das origens.
Lxistiam os elementos para esta dissoluçao do roman-
tismo. MadamedeStacl, chegoualormula, queonosso
tempo tem real i zado pel a ñlologia e pel a hi stori a.
«Nemaarte,nemanaturezaserepetem,oqueimporta
no silêncio actual do bom senso, é desviar o desprezo
que se pretende lançar sobre as concepçoes da Idade
Médi a. » Pela sistematizaçao da Sociologia, por Au-
gustoComte, aI dadeMédialoi consideradacomouma
evoluçaohistoricadondeprovieramasinstituiçoesmo-
dernas, comrelaçaoa civilizaçaogreco-romana, repre-
sentava um novo progresso, aseparaçaodopodertem-
poral do poder espiritual, cu¡ a conlusao primitiva se
observa ainda naRussia, comrelaçao a sociedademo-
derna, terminava a dissoluçao do regi me catolico-
-leudal , o pri mei ro atacado na época do protestan-
tismo,o segundopelaRevoluçaoFrancesa. Alémdesta
concepçao lucida dah losoliapositiva, seguiu-seO pro-
lundoestudoencetadopeloslìlologos alemaese lrance-
ses sobre as poesias liricas dos trovadores da Provença
edoÒcidenteromånico,esobreascançoesdegesta,do
NortedaFrança,cujaimportånciaeraaindaignorada.
As questoes vagas de escola loram-se abandonando
di ante darenovaçao cientilica, e reabilitaçao historica
da I dade Média, determinada pelo romantismo, loi
tambémumadas causas desta translormaçaoliteraria.
Mackintosh, que pertence a esta época de luta liberal
na politica e na literatura, caracteriza assim o movi-
mento novo. «A l i teratura desta época, desde pouco,
i nspiraportoda a parte um interesse particulare uma
curiosidadegeral. Muitasnaçoesregressaramcomuma
nova aleiçao aos monumentos dogénio dos seus ante-
passados . L no meio das circunståncias, que os erros
lantasticos de algunsescritores embaraçam, nao temos
78 TEÓFILO BRAGA
a recear os inconvenientes que parecem resultar desta
tendência. L sobretudo, um modoutil porondese la-
miliarizam os séculos esclarecidos com as belezas e as
graçaspropriasa cada lingua, e com asqualidadesori-
ginais que distinguem os primeiros eslorços literarios
decada uma, naépocaemque elas tomaramumnovo
impulso, porque é isto que laz compreender os carac-
teresnacionais. »' Atranslormaçaodoromantismopro-
vinhade uma translormaçaosocial, emtodos os países
da Luropa apareceram relacionados os dois movimen-
tos, se a Revoluçao !rancesa é o ponto culminante da
dissoluçaodoregime catolico-leudal, os eslorços estoli-
dos daRestauraçaoe daSantaAliança nadapuderam
contraaaspiraçaomoderna,esmagaramospovos,per-
seguiram as inteligências superiores, quiseram resta-
belecer as lormas exteriores do anti

o regime, mas a
Revoluçao estava nas consciências. E por isso que as
l i teraturas procuravam outras lormas, e intentavam
servirdeexpressaoaumnovoIdeal. Acentuemosrapi-
damente esse duplomovimento antes denos lìxarmos
em Portugal.
Na Russia o romantismomanilestou-se pela exalta-
çaobyroniana, osjovens talentos, aspirandoo advento
daliberdadepolíticanoseupais,reuniam-seemsocie-
dades secretas,e pelassuascomposiçoesliricassolriam
os desterros e os carceres, como Puchkine. Òs países
escravizados, como a Polonia ou a !inlåndia, abraça-
vam a nova poesia, que, com os cantos dos trovadores
nas l utas da!rançamunicipal,vinhaagoraproclamar
o gritos das nacionalidades, acordando-aspara a inde-
pendênciapolitica. LmvoltadeAdamMickieviczreu-
nem-se os estudantes da Lituånia e da \crånia, e a
literatura torna-se uma linguagem de protesto e de re-
vivescência nacional, Mickievicz é internado pelo Oo-
verno russo, Zaleski inspira-se nos cantos populares,
I Ensaios Filosóicos, p. 43. (Trad. L. Simon.)
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 79
enlìmo byronianismolançavaos espiritos ingénuos na
revoltapelaindependênciadapatriae nopatibulo. Òs
poetas no desterro, como Mickievicz e o Conde Kra-
sinski,inDuemlongedapatriacomos seuscantos,que
conservavam nageraçao novao espiritode resistência
pelaindependêncianacional.Aténa!inlåndiaoespiri-
to nacionallortalece-senapropria tradiçao, em l 8OGa
!inlåndiadeixa de pertencera Suéciapara ser subme-
tidaporconquistaao I mpério Russo. \m movimento
nacional lez com que aparecesse essa extraordinaria
epopeia do Calévala, que jacob Orimm considerava
comparavel as epopeiasindianas pela riqueza dos mi-
tos , e que Lenormantexaminacomo umalormaépica
dogénioturaniano,em l 8DOVon Schroters publicaas
Finische Runen, desenvolve-seapaixaopelasorigensna-
cionais,paixaocontinuada em l 82GpeloÐr. Lonnrot,
que organiza o Calévala. Ò mesmo lactopsicologico se
repetenaHungriaquandotentousacudirojugoaustria-
co, o génio magiar revela-se esplendidamente no alu-
cinado Alexandre Petoh , poeta que arrasta apos si o
povo, e guerrilheiroj unto de Bem, vivendo nas lendas
daaspiraçaonacionaldepoisdeterdesaparecidonuma
batalha. NaInglaterra,oromantismoacordavaosenti-
mentoseparatistada I rlandaedaLscociaemJhomas
Moore e nos quadros novelescos deWalter Scott.
A I talia tiranizada pela Áustria, encontra na litera-
turaromånticaoseuprotestoeloquente,osnovosescri-
tores, Pellico e Maroncelli sao encarcerados, Berchet
relugia-senaOrécia,eRossetié banidoportertomado
partenarevoltadeNapoles . Mackintoshresumenuma
caracteristica lundamental o espirito da literatura italia-
na. «Ðesde Petrarca até Alheri, o sentimento nacional
da I talia parece ter-se relugiado no coraçao dos seus
escritores. Quanto mais esse pais é abandonado pelos
compatriotas, tanto mais lalam dele com enlevo. »' Na
I Ellsaios Filosóficos, p. 8 1 . (Trad. L. Simon.)
80 TE6FILO BRAGA
luta do romantismo, os classicos, para triunlarem dos
seus adversarios, serviram-sedodespotismo austriaco,
a plêida romåntica proclamava os novos principios li-
terarios no Conciliatore. Lste¡ornal, loi como diz Salh .
«Acusado de excitar os seus leitores a independência
politica pormeioda independência literari a. »'
Òromantismoitalianoapresentaassuaslasesdistin-
tasdecristianismomisticoemManzoni,edesatanismo
em Leopardi, ambos porém com um prolundo senti-
mentonacional. A I talia, depoisdeterrealizadoa sua
aspiraçaodeséculosou aunidadenacional,completaa
suaactividade com umapasmosae|aboraçaocientihca
e hlosolìca, o romantismo dissolveu-se num regime
mental, que poe esse povoao lado da Alemanha e da
Inglaterra em invençao e em trabalho.
ALspanhanaopodiaperderaleiçaonacionaldasua
literaturasemsolrerprimeiroumadecadênciaorgånica
inD igida pela monarquia, e o esquecimento das suas
origens imposto peloobscurantismo catolico, que con-
denava tudo quando provinha do génio arabe ou do
arianismo germånico. Para que a Lspanha tornasse a
acharos seusromanceiros, as suascomédias de capae
espada, as suasnovelaspicarescas, assuasredondilhas
espontåneas, loi preciso que as perseguiçoes politicas
do absolutismo lançassem nos carceres e na emigraçao
esses escritores que atéentaoimitavamosmodeloslati-
nos e o pseudoclassicismo lrancês, deu-se essa pressao
nasduasterriveisépocasde l 8l 1a l 82O,sobogoverno
dacamarilhaem demência, como o caracteriza Oervi-
nus, e de l 82O a l 82J, durante o dominio do partido
aposto|ico,queatacavaos homenssuperioresparama-
tarcomeleso lermentodoliberalismo. Ò romantismo
em Lspanha devia de ser mais uma direcçao do que
umalorma,masa ausênciadapatria, emqueosescri-
I ReslIlI/é de I'His/oire de la Lilléra/lIre I/aliel/I/e, I I , 1 99.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 81
toress eviamseparadosdacomunicaçaocomopovo,os
desalentos pessoais nos prolongados desterros, levaram-
-nosparaaimitaçaodas novaslormas, nao se e|evando
acima doromantismo religioso, que veio a comprome-
tera causa daliberdadecom a lalsamiragemdequea
Lspanha lora grande na época do poder absoluto da
monarquia e do catolicismo. Òs queviammais |onge
caiam no desalento, como Lspronceda, o mais e|evado
representantedoromantismoliberaldalasebyroniana.
Ðepois da invasao da Lspanha pelo Lxército lrancês,
mandado porChateaubriand,os emigradospreleriram
quase todos a Ing|aterra, havia perto de oito mil pros-
critos, e loi sobre um solo estranho que desabrochou a
novaliteratura, a mocidade, queseguiaos novos prin-
cipios |iterarios loi espontaneamente arrastada para a
independência politica, convertendo a Academia del
MirtonasociedadesecretadosNumantinos,queodes-
potismo descobriu, prendendoosjovens poetas Lscos-
suraeLspronceda.Acensuradramaticaestavaacargo
do boçal padre Carrillo, nao menos laccioso que o pa-
drejosé Agostinho� que pelo mesmo tempo exercia a
censura literaria em Portugal. Ò romantismo religioso
propagou-se em lorma de lìlosolìa no humanitarismo
kraussista, e é neste misticismo menta| que o génio es-
panholseconserva,sematacarosseusvelhosinimigos,
a monarquiae o clericalismo com o critério cientihco.
Lm Portugalvemos repetir-secomos mesmoscarac-
teres oprimeiroimpulsodoromantismo.Ò movimento
nacional contra a invasao napoleonica nao achou eco
naliteratura,estavamortape|acensurarégiaeclerical,
vigorava a antiga sensaboria das arcadias. So depois
quea naçao tomou contadasuasoberanianaRevolu-
çao de l 82O, é que a mocidade, a lrentedaqualsurgiu
Oarrett, se sentiu inspirada pela liberdade, o despo-
tismo da Santa Aliança apoia a traiçao deÐ. joao VI,
que rasga a Carta liberal em l 82J, e os homens que
aderiram as bases da Consti tuiçao solrem as masmor-
82 TEÓFI LO BRAGA
rasou relugiam-seem Françae principalmenteem I n-
glaterra. Foinaemigraçaode l 82Je l 821,queAlmeida
Oarrett observou a translormaçao do romantismo e
achou a orientaçaodo seu génio. Ðepois que o Partido
Apostolico de Lspanha, servindo-se daluriosa Carlota
joaquina, lez com que Ð. Miguel rasgasse a Carta
Constitucional de l 82Ge seproclamasseabsoluto,per-
seguindo os liberais com as lorcas, o cacete, e o con-
h sco, começou outra emigraçao, de l 82D a l 8J l , a esta
segunda corrente pertence Alexandre Herculano, que
n' A Harpa do Crente, soubeinspirar-sedaslutaspelali-
berdade nacional, e que conheceu quanto era neces-
sariolundara HistoriadePortugal sobre o estudo das
instituiçoes sociais da nossa I dade Média. Nao é uma
coincidência casual o lacto de serem os primeiros ini-
ciadores do romantismo em Portugal esses dois ho-
mens, quepelaideiapoliticadaConstituiçaoliberalti-
veram deprocurarasilo no estrangeiro.
4. PORQUE CHEGOU O ROMANTISMO TÃO TARDE
A PORTUGAL.
Correndotodas aslasesdaliteraturaportuguesa,vê-
-se que ela nunca tirou os elementos de criaçao desse
lundovital,lecundoesemprecolectivodas tradições na-
cionais. Lm vez de apresentar a originalidade que re-
sultadaelaboraçaoartisticadas proprias tradiçoes, so
teve em mira imitar asgrandes correntesliterariasdos
outros povos da Luropa. A palavra imitação resume a
sintesehistoricadalitcraturaportuguesa, noséculoXII
a XIV o lirismo provençal, no século xv imitamos o li-
rismo castelhano, no século XVI o lirismo italiano, no
séculoXVII asaberraçoescastelhanaseitalianasdegon-
goristasemarinistas,noséculoXVIII imitamosoregime
poético de Boileau. Quandono séculoXIX viesseapre-
valecerna Luropaa nova compreensaodas literaturas
soboseuaspectonacional,emPortugalhaviamostam-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM ,ORTUGAL 83
bémde imitaro romantismo. Ðe|acto os homens que
primeiro entre nos proclamaram as ideias do roman-
tismo,|oramlevadospe|oquetinhamouvidodiscutir,a
comporobras de literaturaportugucsacomcaracterde
nacionalidade,masaoprocuraremestecaracter,quese
naorevelapelahistoria, desconheceramo va|ordatra­
dição, e inventaram tradiçoes a capricho, sobreqt¡e h-
zram rom ances, dramas e poema s. Com¿rcende- se
queoromantismoexemplihcasseasuanovaconcepçao
dasobrasdearte,comarica|iteraturaespanhola, com
a|orteliteraturainglesa,porqueestasliteraturas|oram
a expressaodevigorosasnaciona|idades. Lm Portuga|,
nuncaosescritores receberaminspiraçaodas tradiçoes
nacionais, por um motivomuito|acildeexplicar. por-
quenuncativemosnacionalidade.Vê-seistonascondi-
çoeseconomicas desta naçao, que|oram sempre provi-
sorias e nunca se tornaram orgånicas. do sécu|o XII a
XIV Portugal tira os seusrecursosda reconquistasobre
os Árabes, noséculoxvexp|oramos a riquezacolonial
dasdescobertasdeÁ|ricaeAçores,noséculoXVI explo-
ra-sea Índiae o Brasileespoliamosos capitaesdoju-
deu, nosécu|oXVII espremem-seestesvelhosrecursose
a|arga-se o sistema de empréstimo, no século XVIII es-
po|ia-seoopu|entoj esuitae|azem-seconhscaçoesasu-
postos conspiradores, no século XIX recorremos aos
bens dos |rades, e exploramos o colono que regressa
rico do Brasil. Lssa consciência intima que um povo
temda sua independência, é o que sechama nacionali­
dade; e quer na ordem intelectua|, querna ordem eco-
nomicanadalevavaadespertaremPortugalessacons-
ciênci a. Lsta noçao estava muito |onge do espirito
publico, e seria um prodigio acha-la |ormulada sinte-
ticamente na nossa literatura. Nenhum dos elementos
que constituia esta noçao podia ser |evado a encontrar
na sua actividade esse recondito caracter de nacionali-
dade, consultemos os sabios, a aristocracia, a realeza
e o proprio povo.
84 TEÓFILO BRAGA
Òs sabios ocupavam-se em inventar medalhas para
eternizarem oinsolitum decus comque Ð. Miguelporde-
cretodeJ l dejulhode l 828concederaaAcademiadas
Ciências a perrogativa depoderemos seus socios «de-
morar-seemumasala, quesodistaumpalmodaoutra
emqueatéaquieramadmitidos. Ðestalutilidadelez a
Academiao assuntode umamedalha,eo lariade uma
epopeia,senaoseachasseempenhadaemsairdapala-
vraazurrar ¸ obraire dalingua lrancesa) na qual
desde longos anos amuou, tentanto compor o dicio-
nario classico da lingua| »' Lste artigo tem o grande
valordeserrelerendadoporAlexandreHerculano,que
apesardetodososseuseslorços,nuncapodelibertara
Academiadesseestadodeimobilidade.Comoéquees-
tes sabios podiamdescerainvestigaressalrivolacoisa
chamada espirito nacionalº
Pelo seu lado a nobreza deu a sua prova de altura
quando entusiasticamente pelo acto heroico em que
Ð. joaovrrasgouaConstituiçaodel 822, desatrelaram
do carro os cavalos, e envergaram os tirantes, dispu-
tando com santo lervor quais se agarrariam a lança
para puxarem o monarca até Lisboa| Lles compreen-
deram o valor desta traiçao nos destinos deste povo,
porquealgunsvieramreclamaredisputarnaimprensa
periodica a possedessa extraordinaria honra. ´
A realeza achava-se desprestigiada entre as potên-
ciasestrangeiras,apropositodocasamentodeLuísxv,
quando se discutiam os dilerentes proj ectos, escrevia
Mathieu du Marais. «On ne veut pas l'infant de Portugal,
parce que le pere est un peu fou. » ¸iii, l 7J. ) L emanadoda
chancela real esse documento devergonhanacional, a
Carta régia de 2 dejunhode l 8OO, em queÐ. joaovi
manda impedir a expediçao cie

ntíhca do barao de
Humboldt na América, atribuindo as suas investiga-
I Repositório Litrerário, n.' 4, p. 29. Porto, 1 834.
, F. Martins de Carvalho, Aponlamentos para a História Contemporânea.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 85
çoes botånicas, etnologicas e geogralìcas o intuito de
encobriremideiasnovasqueiamperturbaratranquili-
dade dosseus lìéis vassalos.
Ò rei achava-setaovinculadoaosseushéisvassalos,
que no momento em que os exércitos deNapoleaoca-
minhavam sobre Portugal, abandonou os seu povo as
arbitrariedades dejunot e depois as prepotências de
Bereslord, relugiando-se no Brasil, onde continuou os
desvelos do governo paternal.
Ò povo recebeo seureicomlagrimas,depoisqueos
seus conselheiros o acordaram da apatia habitual, di-
zendo que era tempo de voltar a Portugal, porque a
Revoluçao de l 82O. . . Ò povo era ainda o mesmo que
Lord Becklord retrataranamenoridaded�Ð. joaoVI:
«Legioesdemendigosdesembocavamdetodos os bair-
ros, parasepostaremas portasdopalacio e esperarem
a saidada rainha, porque S. M. é uma mae muito in-
dulgenteparaestesrobustos|ìlhosdapreguiça,enunca
entra na carruagem sem distribuir por e|es esmolas
consideraveis . Oraças a caridade malentendida, algu-
mascentenasdemandrioesbem-dispostos, aprendema
mane¡ ar as muletas em lugar do exercicio da espin-
garda, eaartedelabricarchagas, ulceras, eemplastros
com a mais repelente perleiçao. » Nesta mesma carta
acrescenta Becklord. «Nenhuns mendigos igualam os
de Portugal, pela lorça dos seus pulmoes, pela abun-
dånciadassuasulceras, pelaprolusaodos bichos, pela
variedade e arranj o de seus larrapos, e pela perse-
verançainvencivel . »ByronaovisitarPortugal,aludea
Becklord pela antonomasia da suaobra originalissima
o Califa de Vathek; no Child Harold Byronretrataaemo-
çaoquelheproduziuLisboa. «Aoprimeirorelance,que
belezas Lisboa ostenta| A sua imagem relIecte-se tré-
mula neste pobre rio que os poetas mentirosos laziam
correr sobre areias de ouro. . . Mas sese penetrano in-
teriordestacidadc,quevistadelongepareceumahabi-
taçao celeste, erra-se tristemente entre uma multidao
86
TEÓFI LO BRAGA
de objectos peniveis a vista do estrangeiro. choças e
palacios sao igua|menteimundos,e por toda aparteos
habitantes patinham na lama. Sejade que hierarquia
lor, ninguém sepreocupacoma limpezadasuaroupa
oudas camisas,atacasse-osa lepradoLgipto, lìcavam
sem se ahcrarnos seus andraj os e ascorosidadee . . » '
1Iercttlauctradu�iunas Lendas e Narrativas alguns des-
¡esversos,adoptando-osnasuave:·d ade.Antes dapri-
meiraemigraçaoem Ì 82J, o estrangeiroera considera-
doem Portugalcomoohostis domundo antigo, estava-
mos incomunicaveis com a Luropa,´ com o terror das
ideias liberai s. Òs livroslranceses,ing|esesou alemaes
soentravamcomocontrabando,eexistiaacensurapré-
viapara toda e qua|quer pub|icaçao. Oarrettem l 82 l
loilevadoaostribunaisporterescritooRetrato de Vénus/
e em l 827 solreu quatro meses de Limoeiro por cola-
borar em uma gazeta que era previamente aprovada
pe|a censura. Nestas condiçoes, Portugal realizava na
Luropa o ideal dojapao ou da China, ter a ideia de
lundar uma l i teratura para servir de expressao ao
caracternacional, seriarealizaro impossivel. Ò movi-
mentodoromantismoparaentraremPortugaltinhade
sercumplice coma Revoluçao, mas quando estalorça
se revela como umagente dinåmico do corpo social, e
como tal capaz de lecundarascriaçoesartisticas, o ve-
lhohabitoportuguêspreleriuaestabi|idadeeaceitouo
romantismo como mais um mode|oparaexercer a sua
imitaçao.
I Child Harold, canto I, est. XIv a XXXIII.
, Do grande iniciador industrial José Ferreira Pinto Basto, escrevia José
Estêvão, no seu elogio histórico: « As viagens pareceram-lhe sempre ingrati­
dão ao país; a crença no poder estrangeiro um insulto ao nosso pundonor; o
emprego dos capitães fora do sólio pátrio, um atentado contra a moral públi­
ca; a confança da inrerioridade das nossas coisas, uma fraqueza imperdoá­
vel.» Memórias do Conservatório, p. 2l .
3 Na Pastoral do Patriarca de Lisboa, de 28 de Janeiro de 1 824, combina­
-se a excomunhão maior aos que lerem o Retrato de Vélus.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 87
5. COMO FOI COMPREENDIDO O ROMANTISMO
EM PORTUGAL.
Ao indicar as causas lundamentais que provocaram
o aparecimento dogénio romåniconas literaturas mo-
dernas, reconhece-se que esta crise dos espiritos loi
uma consequência logica da nova compreensao da
Idade Médiapela escola historica do século XIX, e ao
mesmo tempo, das verdadeiras ideias da Arte e da cri-
tica literariapela criaçao ñlosolìca da Lstética, coinci-
dindo comareacçaonacionaldadaem tod
o
s os povos,
ja pelo espiri

to da Revoluçao Francesa,ja pelos eslor-
çoscontraoca|culadoobscurantismodaSantaAliança
e das restauraçoes absolutas. Para que o romantismo
losse compreendido e se radicasse naturalmente em
Portugal, erapreciso que a renovaçao artistica encon-
trasse algum destes elementos em que sebaseasse. Òs
trabalhos deorganizaçao cientilìca e literaria so come-
çaramdepois de terminado o cerco do Porto em l 8JJ,
emquetriunloudelìnitivamenteacausaconstitucional,
masasambiçoespoliticaslìzeramcomqueosmelhores
espiritostratassemdasquestoesdaliteraturaacidental-
mente. Òestadoemqueseachavaaciênciadahistoria
era quase deploravel, além de cronicas monasticas e
memorias académicas, nunca ninguém selembrara de
lormar umquadro completo da Historia de Portugal.
Quanto as doutrinas literarias, Francisco Freire de
CarvalhoglosavaQuintiliano, quantoa renascençado
espiritonacional,labricavam-selendaslantasiosas,em-
pregavam-se arcaismos para simular o saborda anti-
guidade, reagia-secontrao usodosgalicismoscom um
terrordepurista, e ochauvinismo eraa baseessencial de
todo o estilo vernaculo. Como poderia ser compreen-
didoem Portugal o romantismo com estacarência ab-
soluta de elementos que dirigissem o critérioº
88 TEÓFILO BRAGA
a) Estado da áência histórica
Lm l 8JD, dando conta da publicaçao dc duas mc-
moriasdc!rci!ranciscodc S. Luís, cscrcvia Hcrcula-
no. «Ðuas chavcs únicas, cntcndcmos, abrcm hojc o
rico tcsouro da Hi storia portugucsa. guarda uma
o rcspcitavc|joao Pcdro Ribciro, outrao i|ustrc autor
dasmcmorias. . . Todaviacssasmaosrobustissimas,quc
a idadc gravc nao cnlraqucccu,japor cntrc o bu|ício
dcsta gcraçao qucvai passando ulana da sua ignorån-
cia, buscam apoiar-sc na borda da scpu|tura [ tardc a
achcmclcs) c quandoa providênciahouvcrdc conscn-
tirqucacncontrcm,podcmostcrporavcriguado,quca
História nacional ficará por muito tempo no estado em que estes
dois sábios a deixaram. » Pc|o traba|ho dcstcs dois cscri-
torcs sc vê quc apuraram datas, rcctihcaram alguns
lactos sccundarios, compilaram scm ncxo, dcixando
quandomuito monogralìassubsidiarias,sobrcistocon-
tinua Hcrcu|ano. «Nao podcmos dcixar dc lamcntar,
qucosdoismodcrnosluminarcs daHistoriaportuguc-
sa. . . sc tcnham visto obrigadosa apurardatas c lactos
políticos. . . gastando cm indagaçocs dc tal naturcza
aquclctcmpo,quccommaisprovcitotcriamta|vczcm-
prcgado cm tirara lumc a subståncia do passado, isto
é, os lactos rclativos ao progrcsso dacivilizaçao cntrc
nos, ctc. » Lntrccstccspírito compilador, quc Hcrcula-
no lamcnta, c as cspcculaçocs hlosohcas dc Vico c dc
Hcrdcr, naoscconhcciacntrcnoso mcio-tcrmo. «Bcm
pcrsuadidos cstamos quc um ou dois homcns nao bas-
tam para coligir tudo o quc é ncccssario para quc sc
hajadccscrcvcr[crcmosquctardcscra)umaHistória de
Portugal, scgundo o sistcma dc Vico ou Hcrdcr. uma
historiadacivilizaçaoc nao unicamcntc das batalhas,
dc casamcntos, dc nascimcntos c dc obitos, uma his-
toria quc alcvantc do silêncio do passado as gcraçocs
cxtintas, c quc as laça, [para dizcrmos tudo cm brcvcs
palavras) vivcr diantc dc nos. » Ðccididamcntc Hcr-
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 89
culano nao lormava a minima ideia da concepçao his-
torica de Vico e de Herder, que se lunda unicamente
sobre as causas dos lactos, e por isso condenando os
velhos historiadores portugueses, diz que o unico ma-
nancial historico esta «nas cronicas dos diversos insti-
tutos monasticos. Sabemos que gravissimo pecado é
neste século de luzes lalar em cronicas de lrades, mas
disso pedimos humilissimamenteperdao. » Ldepois de
poetizar a missao domonge, prossegue. «Podiamos le-
varmaislongeasrellexoesacercadautilidadehistorica
desses anais das corporaçoes religiosas, que ignorantes
presumidos desprezam, porque para eles só têm méito palavras
ocas defilosofantes;»1 etc. Jal erao critériohistoricoque
em l 8JD se estava lormando para suceder ao espirito
compilador e estreito de joao Pedro Ribeiro e Frei
Francisco de S. Luis. A ideia dahistoria moderna nao
íoi compreendida por Herculano como uma ciência,
tendo somente em vistalevantardo poas geraçoes ex-
tintas visou ao eleito dramatico, prelerindo o romance
historico a propria historia. «Va aqui mais uma hu-
milde opiniao nossa. Parece-nos que nesta coisa cha-
madahojeromance histórico, hamaiorhistoriadoquenos
graves e inteiriçados escritos dos historiadores. Ðizem
pessoas entendidas que maisseconhecem as coisas es-
cocesas lendo as Crónicas de Canongate de Walter Scott,
doqueasuaHistória da Escócia. Jambémhaquemdiga
que no mais grado quarteirao de historias de França,
escritas atéo anode l 8OO, naotinhaaparecidoaindaa
época de Luis XI como apareceu depois na Notre Dame
de Victor Hugo. »' Lm outro lugar exprime Herculano
este contra-senso com maior lervor ainda. «Novela ou
história, qualdestasduas coisas é maisverdadeiraºNe-
nhuma, se o alìrmamos absolutamente de qualquer
I Panorama, t. I I I , p. 6:
, Panorama, t. I I I , p. 306.
90
TE6FILO BRAGA
delas. Quandoo caracterdosindividuosoudas naçoes
é suhcientemente conhecido, quando os monumentos,
as tradiçoes, e as cronicas desenharem esse caracter
com pincelhrme,onoveleiropodesermaisveridicodo
queohistoriador,porqueestamaishabituadoarecom-
poro coraçaodoqueé mortopelocoraçaodoquevive,
ogéniodopovoquepassoupelopovoquepassa. Lntao
de um dito ou de muitos ditos ele deduz um pensa-
mento ou muitos pensamentos, nao reduzidos a lem-
brançapositiva,naotraduzidos,até,materialmente,de
um|acto oudemuitos|actosdeduzuma|ecto ou mui-
tosa|ectos, quesenaorevelaram. Lssaé ahistoriain-
tima dos homens que ja nao sao. esta é a novela do
passado. Quem sabe |azer isto chama-se Scott, Hugo
ou Ðe Vigny, e vale mais e conta mais verdades que
boa meiaduziadebons historiadores. Porqueestes re-
colhemeapurammonumentosedocumentos,quemui-
tas vezes |oramlevantados ou exarados com o intuito
dementira prosperidade, enquantoahistoriadaalma
dohomemdeduzidalogicamentedasomadassuasac-
çoesincontestaveisnaopode|alhar,salvoseanatureza
pudesse mentir e contradizer-se, como mentem e se
contradizem os monumentos. »'
Até aqui temos a |alta de um critério cientilìco da
historia, outras descobertas |undamentais ja tinham
sido |eitas na Luropa, e que nos revelaram em toda a
sua luz a Idade Média, tais como a importåncia dos
manuscritos dos trovadores e dos troveiros, dolirismo
provençal e das epopeias galo-|rancas, e sobretudo o
problema da |ormaçao das linguas novo-latinas. Lm
Portugalnadadistohaviapenetradoainda. Òsdoislu-
minares da historia portuguesa,joao Pedro Ribeiro e
Frei Francisco de S. Luis, acreditavam que a lingua
portuguesa nao tinha conexao historica com o latim e
I Palorama, t. I V, p. 243.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 9 1
eraumaderivaçaodocelta,estavamcomovelhosonho
de Bul|et.joao Pedro Ribeiro em uma po|émica com
!rei !ortunato de S. Boaventura ¸ l 8JO) escreve.
«Quantoa autoridade. . . doconse|heiroAntonioRibei-
rodosSantos,principiopordizer,quesempreorespei-
tei no numerodoslìlologosdomeu tempo, mas naoloi
por cegueira, antes por convicção que segui a sua opinião
contra o comum, negando à nossa língua a filiação com o
latim. »' Pe|asuaparte !rei !rancisco de S. Luis publi-
cava em l 8J7 a Memória em que se Pretende Provar que a
Língua Portuguesa Não É Filha da Latina. Conlrontemos
estasduasdatas, l 8JOe l 8J7comosgrandestrabalhos
da h|ologia romånica, em l 827, !rederik Ðiez havia
publicado o seu livro os Trovadores, onde lançou as
primeirasbasesinabalaveisparao problemadalorma-
çaodas linguas romånicas, elogoem l 8JG,começoua
publicar essa obra extraordinaria a Gramática d Lín­
guas Românicas, ondeap|icavaas linguas novo-latinas o
critériocomparativode Bopp. Muitodepoisdestasda-
tas, Herculano evitava os celtomanos, e acostava-se a
outrahipotesegratuitadeBonamysobreadesmembra-
çaode umdialectogeralvulgarquecoexistiaa pardo
|atim.
QuantoaoconhecimentodapoesiadaIdadeMédia,
aspub|icaçoesdeRaynouardnaoloramconhecidasem
Portugal, nem tao-poucose estudou o cancioneiro pu-
blicadoporLordeStuart, ondeestava o principal mo-
numentodapoesialiricaportuguesadoséculoXII aXIV.
Ta| era o estado dos conhecimentos historicos neste
period
o
doromantismo, era portanto impossivel com-
preendera importånciade uma tradiçaonacional, e o
podertrazeraliteraturaaslontes dasuaoriginalidade.
Herculano reconhecia esta verdade, quando escreveu.
«Aopassoporém,queaArtesereconstruia, reconstruia-
1 Refexões à Brevíssima Respos/a, p. 6.
92 TEÓFILO BRAGA
-se a Historia. Ao lado de Oocthe e Schiller, aparecia
Herdere Muller,aoladode Hugo, OuizoteThierry. »'
b) Estado das ideias filosócas sobre a arte
Lm Portugal reinou sempre e de um modo absoluto
uma so esco|a h|osolìca, a doutrina de Aristoteles no
seuperiodoaverroísta preponderoudesdea|undaçaoda
monarquiaatéaotempoemqueainstruçaopublicaloi
entregue aos jesuitas, houve apenas um intervalo de
idealismo platonico em alguns poctas do século XVI, e
caimos outra vez sob a |érula aristotélica do periodo
alexandrista.
AsrelormaslìlosolìcasdePedro Ramos, Bacon, Ðes-
cartes,Oassendi, asnovasteoriasdeNicole, Malebran-
che, Mariotte, Thomasio, Lock, LeClerceWolh onao
puderam penetrar em Portugal, como vemos pe|os
grandes es|orços de reacçao da Lscolastica do Colégio
das Artes. ´ Ð. joao v escreveu por via do conde da
Lriceira para I nglaterra ajacob de Castro Sarmento
para que traduzisse as obrasdeBacon, que ele propu-
sera, em l 7J5veio para Portugal a primeira |olha do
Novum Organum, masosquetinhamomonopoliodains-
truçaoobstaramaqueseabrisseestenovohorizontea
i nteligênci a. Ficamos amarrados ao poste da Lógica
Barreta ou da Lógica Carvalha; tal era o campo que en-
contravaemPortugaladoutrinadaLstética,quedesde
Sche|ling inlIuira no esplendor da |iteratura alema, e
levara a verdadeira compreensao da Antiguidade. Lm
l 8J5équese publicoupelaprimeiravez umatentativa
sobre FilosolìadaArte, com o titulo dePoesia: Imitação
-Belo - Unidade;3 inlelizmenteoseuautortinharece-
I Memórias do Conservatório, p. 1 35. (Ano 1 842) .
, Compêndio Histórico do Estado da Universidade, n.O 1 63.
3 Repositório Literário, n. O 7.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 93
bidoumaeducaçaolradesca, e a Logica Carvalhacom
grandecusto seempavesacoma nomenclaturada hlo-
solìaalema. Lstaprioridadepertence aAlexandreHer-
culano, quedepois veio a possuir-se da mais estranha-
velaversaoasespeculaçoesmeta|ìsicas . Lm todoocaso
ele percebeu, que o romantismo partiadeuma renova-
çaolìlosolìca. LscreveHerculano. «Na torrentedeopi-
nioescontrariassobreacriticaliterariaquenapresente
época combatem, morremounascem, também nos te-
mos a nossa. e vem a ser parecer-nos que da lalta de
exame dos principios em que se lundam os dilerentes
sistemas procedem essas questoes que se têm tornado
i nterminaveistalvezporesseunicomotivo. Ògénioim-
pelidoa produzirnomeiodeideiasvagasecontroverti-
das sobre as lormas, as condiçoes da poesia,julga que
todaselassaoindilerentesedesvairadosedespenha,eo
engenho dominado pelos preceitos, quemuitos séculos
por assim dizer santilìcaram, contralaz e apouca as
suasproduçoes, temendo cairnaquilo quej ulgamons-
truoso e absurdo. Jal é geralmente o estadodalitera-
tura. Òs que conhecem o estado actual das letras lora
de Portugal,naFrança,naI nglaterraeaindanaI talia,
sabem ao que aludimos. Jrememos ao pronunciar as
denominaçoesdeclássicos eromânticos, palavrasindehni-
das oudeh nidaserradamente, que somente têmgerado
sarcasmos,insultos,misérias,enenhumainstruçaover-
dadeira, e que também teriam produzido estragos e
mortes como as dos Nominais e Reais se estivéssemos
noXVI século. Inlelizmenteemnossapatriaaliteratura
j aha anos que adormeceu aosom dosgemidos dades-
graça publica,masagoraeladeverespeitaredespertar
no meio de uma transiçao de ideias. Lsta situaçao é
violentae muitomaisparanos que temos de passarde
sal to sobre um longo prazo de progressao intelectual
para empare|harmos o nosso andamento com o do sé-
culo. Se as opinioes estivessem determinadas, o mal
ainda nao seria tao grande, mas é num caos que nos
94 TEÚFILO BRAGA
vamos mergulhar, do qual nos tiraremos talvez muito
depoisdasoutrasnaçoes. »' Aoescreveroseuestudode
estética, Herculano tinha em vista. «Lstabelecer uma
teoriaseguraque previna tantoo deliriodumalicença
absurda, como a submissao abjecta que exige certo
bando literario. » Ve¡ amos essa teoria através de uma
linguagem incongruentedequemnaosabiaprosseguir
umaideia e muito menoslormula-la, Herculanoconsi-
derao Belooob¡ ectodapoesia,considera-oumprinci-
pio absoluto, cu¡o critério é a metal¡sica, e ao mesmo
tempo redu-lo a uma mera relaçao, por isso que de-
pende da nossa existência. «Para nos a sua existência
depende da nossa, e a metaÐsica inlIuira sempre em
qualquer sistema que sobre tal obj ecto venhamos a
adoptar. »Ðepoisdestacontradiçaoquerevelaumaes-
tranheza nos processos lìlosolìcos, cai em outra ainda
maislIagrante. dizquesemlìlosolìaasartesnaollores-
cem, e da essa lìlosolìa como causa da Dutuaçao dos
principios. «Sem levar o lacho da hlosoha ao seio das
artes, sem examinar a essência destas, as teorias lor-
mais hcam sem lundamentos,e é justamenteo que tem
acontecido. Lquandoaquiouacolasetemtentadosob-
por-lhe esses alicerces, é alìlosohaqueos temido bus-
car. Lste método é quanto a nos o inverso do que se
deviaseguir, eumgrandemaldairesultou. aDutuaçao
dosprincipiose consequentementedos¡ uizos criticos. »
Como entender estes três periodos quese repugnamº
Nesta trepidaçao nao podendo avançar, agarra-se as
velhas controvérsias de Boileau e Perrault, de Lamo-
the, !ontenelle e Huet, e bravejacoléricoporque Boi-
leaucomparouo Telémaco aoromancedeTeógenes e Cari­
cleia, de Heliodoro, por lìm laz-se arbitro da polémica
dosantigosemodernosdoséculoXVII , comalrasecon-
ciliadora. «Nos devemos emgrandeparteaos antigos o
I Repositório Literário, p. 54.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 95
quesabemos÷seriaumaingratidaonega-lo. Llescria-
ram as |etras e as levaram a um ponto de esplendor
admiravel, mas por as criar e aperleiçoar nao se deve
concluir,queacertaramemtudoouquetudosabiam. »
Ò modo de discutir é de umaingenuidade primitiva,
sustentaqueo Beloé abso|uto, porque. «Ò Luropeu, o
Chim, o Hotentote sentirao igualmente que o Apolo de
Belveder é belo. » L pela contraria, que nao é re|ativo,
porquesepodiaentaoequiparar Os Lusíadas ou a Ulis­
seia, aoAlonso ou ao Viriato Trágico: «Se dissermosque
o Beloé re|ativoe resu|tadodo nossomododever, da
relaçaoparticulardos objectos connosco, daharmonia
oudesarmoniados lactos com as nossasideias morais,
nessecasonaopoderemosalìrmarqueOs Lusíadas oua
Ulisseia sejam abso|utamente superiores ao Alonso ou
ao Viriato Trágico. » Ðepois deexaltarapoesia celeste dos
hinos solitários de Lamartine, o terror delicioso de Monti, a
ansiedade que causa a despedida de Picolomini de
Schi|ler,conclui.«TaléoBelo÷paraquemoj u|gaem
s ua modal i dade necessario e absol uto, uma i dei a
opostarepugnae nosaû ige,nosqueremosquetodosos
tempos, todososhomensoju|guemegozem comonos,
e diremossemhesitar÷o quenaolor donossosentir
oucarecera degostoou o terapervertido. » Hercu|ano
lormava em vista disto umaideia do absoluto metali-
sico pelo absolutismo po|itico.
Ðepois vendo que precisava de lraseologia metali-
sica, aproveita-sedanomenclaturadeFichteparamos-
trar. «que o belo das imagens, o belo chamado üsico
nao existe nos obj ectos porque a unidade e o movi-
mentodasuaexistênciaseriamdestruídas,. . . Lpoisem
nos, no mundo das ideias, queo devemos buscar. \m
tipoindependentedoquenoscerca,deveexistir,como
qual a lacu|dade de j u|gar possa comparar o belo de
uma imagem particu|ar. Eu, Não-eu, eis o circulo das
existências,os doisnomenos,lorados quais nadacon-
cebemos ÷ mas nos admitimos o necessario e o uno
96
TEÓFILO BRAGA
semo encontrarmos no que nos rodeia÷ cumpre pois
queeles residamem nos comolormasdainteligência».
Como o proprio Herculano o ah rmou exemplilìcando
como o Apolo de Belveder) o Hotentote também dirige o
seu j uizo por este nomeno do Eu e Não-eu. A aversao
comqueHerculanolìcouametalìsicaalema,provaque
ele jogou i nconscientemente com estas lrases, e que
nuncamaisviunosprolundos trabalhos deabstracçao
senao uma reproduçao deste seu capricho.
Herculano aplica esse tipo de belo a critica da mi-
tologia. «Comeleitoondeexistemaslìcçoesdosantigos
monstros da mitologiaº Quem viu um homem ou um
cavalo alado como o Amor ou o Pégasoº Nem se diga
quecrençapopularlhes tinhadadoexistência, istosao
palavras que soam, mas sem sentido. . . Se a lantasia
produzia estas criaçoes, elas nao loram imitadas, logo
naotêmmodelo,logonaosao belas,etc. »Quem conce-
bia assim a criaçao poética das mitologias, nunca vira
horizontes mais vastos doque asexplicaçoesdeum pa-
dre-mestre de selecta, e isto quando Creuzer, Voss e
Lobeck j a tinham lundado a ciência das mi tologias
comparadas .
Ðepois de todo este pandemonio, diz. «Jendo até
aquiprocuradoderribar, cumpria edihcaragora, etc. »
Ò queel evai edilicar tem emvista÷conlormar uma
teoria razoavel da unidade com os grandes melhora-
mentos literarios. A teoria razoavel resume-se nos se-
guintes alorismos sem alcance.
«APoesiaéaexpressaosensiveldoBelo, pormeiode
uma linguagem harmoniosa.
«Ò Beloé oresultadodarelaçaodasnossaslaculda-
des, manilestada como jogo da sua actividade reci-
proca.
«A condiçaopois do Beloé a concordånciadavarie-
dadeda ideia particularcoma unidade dogeral, etc. »
Ðepois vai aplicar estes principios a Ilíada) Eneida)
Orlando Furioso, Os Lusíadas eJerusalém Libertada, porum
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 97
modo que chega a causar pena. «Se assim examinar-
mos toda a Ilíada, acharemos sempre a ideia deglória
pátria servindode no aesteadmiravelpoemaque hoje se
despreza por moda, crendo-se que nisso consista o romantismo.»
Òj uizo sobreVirgilio é «que sabiamendigarasmiga-
l hasdeumtiranoe nutrirideiasgenerosas».Aunidade
daEneida hcoupreenchidadesdequeLneias«escondes-
seo covildeRomulocomoseuescudoce|este,oh mda
suaexistênciaestavasatisleito,eo poetapodianasérie
das variedades buscar as que bem lhe pertencessem
para com elas tirar umsom acorde com a ideia que o
dominava». A aplicaçao da teoriaestética de Hercula-
no a Os Lusíadas da a essa lugar comum de todas as
retoricas. «Os Lusíadas saoo poemaonde mais aparece
a necessidadederecorrera uma ideia independenteda
acçao para achar a imprescritivel unidade . . . Nao loi,
quanto a nos, o descobrimentoda índia queproduziu
estepoema,loi sim a glorianacional. »ÐeAriostoe de
Tassolimita-se a dizer que cantam, um a cavalaria, o
outro as cruzadas, isto é, «o espirito humano modilì-
cadodeumcerto modo»e «aréplicadaCruzaterrivel
pergunta do islamismo». Terminando este temerario
eslorço de querer hlosolar sobre arte, Herculano re-
mata com esta vacilante pergunta. «Mas pretendendo
destruir o sistema da escola clássica, nao somos nos ro­
mânticos? Alguém nos tera por tais. . . » L rec|ama. «Não
somos, nem esperamos sê-lo nunca. »
Lracomesta segurança de doutrinas queo roman-
tismolaziaecoemPortugal,comopodiasercompreen-
di do este lacto esplêndido do nosso século, se uma
completaausênciadetrabalhoshistoricosacresciauma
i ncapacidade para a minima especulaçao hlosoh caº
c) Renascimento de um espírito nacional fantástico
Lm todosos povos onde se deu a renovaçaoliteraria
do romantismo, vemos o espirito nacional despertado
98 TEÓFILO BRAGA
pela nova concepçao da Arte inD uir na comoçao poli-
tica,noeslorçoparaaliberdade.Herculano,queesteve
lora de Portugal na época da segunda emigraçao, em
l 8J l , reconheceu esta verdade. «A revoluçao literaria
que a geraçao actual intentou e concluiu, nao loi ins-
tinto, loi o resultado de largas cogitaçoes, veio com as
revoluções sociais) e explica-se pelo mesmo pensamento destas. »'
Portugaltambématravessouacrisepolitica,abolindoo
direito divinosimbolizado na divisado trono e altar, e
redigindo a sua Carta Constitucional, conlorme a imi-
taçaoinglesa. Lstalasepoliticaprocedeuo movimento
literario, o aparecimento do romantismo entre nos loi
um eslorçoartih cial. Herculanodescreveem poucasli-
nhas estaépocade luta. «Aépocade l 8JJloi a unica
época revolucionaria por que tem passado Portugal
neste século. Nem antes nemdepois quadra tal epiteto
aossucessospoliticosdonossopais,porquesoentaoloi
substituidaa vidainterinada sociedade por uma nova
existência. As lorças sociais antigas desapareceram
para dar lugar a novas lorças, destruiram-se classes,
criaram-senovosinteresses quesubstituiramosquese
ani qui l aram, os el ementos pol iticos mudaram de
situaçao. »´I nlelizmente,estarevoluçaopartiudaclasse
média, e as relormas decretadas implantaram-se pelo
seu lado exterior. Portugal entrava sob a bandeira de
uma revoluçao liberal numa outra lase economica da
sua historia, tendo sempre vivido sem uma industria
propria, sutentou-se, lazendo a natural desintegraçao
dos bens enormes das ordens religiosas. As garantias
liberais¡ azeramno papel, o habitodeviversobatutela
do despotismo hcou no ånimo publico e vê-se a cada
momentonaprepotênciaaindadosmaispequenoslun-
I Elogio histórico de Sebastião Xavier Botelho (Memórias do Conserua/ório),
p. 3 1 .
' Ibidem, p . 33.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 99
cionarios . Pode-seahrmarquearevoluçaoquetriunlou
em l 8JJ loi estranha ao espirito nacional, que estava
atro|ìado, indilerente a luta de dois bandos, sem com-
preender mais do que uma simples questao do logra-
douro que se di sputavam dois irmaos . As relormas
decretadas porum Mouzinho da Silveira loram extraor-
dinariamente organizadoras, mas o espirito nacional
nao existia, o povo estava mudo, o entusiasmo pela
l i berdade loi substi tuido pela avidez da rapina no
momento das indemnizaçoes. Òs que haviam regres-
sado ao estrangeiro, traziam os elementos bastantes
paraconheceremo nossoincalculave| atraso. Fizeram-
-se tentativas individuais para levantar o nosso nível
intelectual .
Ò estado de atraso a que chegou Portugal sob o re-
gimedo cesarismo e do obscurantismo religioso, vê-se
porestaconlìssaoleitaem l 8J7pelaSociedade Propa-
gadora dos Conhecimentos \teis. «A naçao portugue-
sa, cumpre conlessa-lo, é uma das que menos tem
seguido este movimento progressivo da humanidade.
Ò nossopovoignoraimensascoisas,que muito lheim-
portavaconhecer, e estalaltadeinstruçaosente-seaté
nasclassesquepelasuaposiçaosocial,deviamserilus-
tradas . Lntreos mesmohomensdadosasletrasseacha
lalharemrepetidasvezesasnoçoeselementaresdetudo
o que é ob¡ecto do seu especial estudo, e a ciência em
Portugalestaaindalongeseteraquelecaracterdeuni-
dade, que ganha diariamente no meio das outras
naçoes. » Òprimeiroeslorçoparasairmosdestaatonia,
tentou-senoPorto,inaugurando-semem lDdeÐezem-
brode l 8JJaSociedadedasCiências Médicas edeLi-
teratura, so em l 5 deÒutubrode l 8J1é que sedeu a
publicidadeojornal que representavaos trabalhosdes-
sa associaçao. Lntreos assuntos escolhidosparaserem
I Panorama, t. I , p. 2
1 00 TEÓFILO BRAGA
tratados na parte literaria, incluia-se. «\m poema es-
critoem linguaportuguesa comotitulo O Sítio do Porto,
devendo sero Sr. Ð. Pedro IV o heroi . Ò poetapodera
escolher o metro que mais |he agradar e a divisao do
poemaem umou mais cantos . »' Sobo despotismoler-
renhodeÐ. Miguelopovocantava-lhehinosobscenos,
era a inspiraçaodoterror.Nomomentoemqueseres-
pirava a liberdade, nao aparecia nenhum impeto es-
pontåneo que a glorih casse. !undou-se em l 8JG a So-
ciedade dosAmigosdas Letras, eem l 8J7a Sociedade
Propagadorados Conhecimentos \teis, tinhamambas
emvistalazerressurgiroespiritonacional . Procuraram
realizar este nobre pensamento por meios artih ciais,
propagandoamonomaniados |ivrosportuguesesdosé-
culoXVI e XVII, a quedera`m o nomedeclassicos, esta-
beleceram um purismo alectado na lingua, renovaram
arcaismos e bravej aram contra a corrente dos galicis-
mos, labricavam lendas nacionais e inventaram-nas a
bel-prazer, inventaram cantos populares, protestaram
contra as ruinas dos monumentos que o governo alie-
navaoudeixavaderrocar,eporhmdeixaram-seircom
a indilerença publica e atiraram-se a orgia das ambi-
çoesdopoderrepresentativo.Apropositodoamorque
se devia aos |ivros classicos, escrevia Herculano em
l 8J9. «Assustam os livros pesados e volumosos do
tempopassado as almas débeis dageraçao presente. a
asperezae severidadedo estiloe da |inguagem de nos-
sosvelhosescritoresolendeo paladarmimosodosalei-
tos ao polido e suavedoslivroslranceses. Sabemos as-
sim quais sao os documentos em que estribam glorias
alheias,ignoramos quais sejam osda propria, ou, seos
conhecemos, é porque estranhos no-los apontam, vi-
ciando-os quase sempre. Sintoma terrível da decadência de
uma nação é este; porque o é da decadência da nacionalidade, a
I Repositório Literário, n.O I .
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 0 1
Pior de todas; porque tal sintoma só aparece no corpo
social quando este esta a ponto de dissolver-se, ou
quandoumdespotismolerrenhopososhomensaolivel
dosbrutos. Ðesenterraa Alemanhadopodoscartorios
e bibliotecasseusve|hoscronicoes,seuspoemasdosNi­
belungos e Minnesingers; os escritores encarnam na poe-
sia, no dramae na novela actual, as tradiçoespopula-
res, as antigasgloriasgermånicas, e os costumese opi-
nioesqueloram. o mesmolazema Inglaterradehojea
velhaI nglaterra, e a FrançadehojeavelhaFrança. os
povos doNortesaudamo Eda e as Sagas daI slåndia, e
i nterrogamcomreligiosorespeitoaspedrasrunicasco-
bertasde musgos esumidasaoåmagodasselvas. todas
as naçoes enh m, querem alimentar-se e viver da pro-
pria subsistência. L nosº Reimprimimos os nossos cro-
nistasºPublicamososnossosnumerososinéditosºLstu-
damos os monumentos, as leis, os usos, as crenças, os
livros, herdados de avoengosº Nao| Vamos todos os
dias aslojas doslivreiros sabersechegou algumanova
sensaboria de Paul de Kock, alguma exageraçao no-
veleira do pseudonimo Michel Masson, algum libelo
anti-social de Lamennais. Ðepois corremos a derrubar
monumentos, a converter em latrinas ou tabernas os
| ugares consagrados pela historia ou pela religiao. . .
L depoiss e vos perguntarem. Ðe quenaçao soisº Res-
pondereis. Portugueses. Calai-vos, quementisdeslaça-
damente. »'
Pelo seulado Oarrett, reclamava desde l 827 a ad-
mi raçao dos classicos . «Ninguém acreditara que é o
mesmo Português em quehojese ora e escreve, aquela
üuidalinguagemdeFrei Luis deSousa, aqueleidioma
taodoce, naturale porémriquissimo,deFreiJoméde
jesus, nemosperiodosestropiadoseboursoufés comque
hoj e searrepiamosouvidos,saonemsequerlongesda-
I Panorama, t. 1Il, p. 1 96.
1 02 TEÓFI LO BRAGA
quelas oraçoes tao redondas, tao gentilmente voltadas
do nosso Lucena. Lstaexaltaçaodesvairadacarecede
correctivo. . . Ðepois o estudodosclassicos é o comple-
mento do remédio, mas quem seatreveraa receita-loº
ja por ai me chamaram antiquario e Alonsinho, que
tanto lalo em vidas de santos e cronicasdelrades que
ninguémpodeler. Masparaquemassimmecriticar,ai
vaia resposta.Não estudeis noite ediaessascronicas de
lradescomquezombeteais,masavossamascavadalin-
guagemmorreraconvoscoeco' ameiaduziadebonecos
e bonecas a quem agrada, porque mais nao enten-
dem. »' Pela suaparteCastilho tomou a sérioesta su-
perstiçao, e todaa suavidaloi sacrih cada avernaculi-
dade,paraeleaartesoteveumh m,opurismoretorico,
poronde aleriu sempre os talentos dos escritores .
Apos a questao dos classicos levantaram os puristas
aquestaodosgalicismos: «Aleituralrequentedoslivros
lranceses», prossegue Herculano, «tem corrompido a
nossalingua por tal maneira, queja hoje ¸ l 8J7) é im-
possivel desinça-la dos galicismos » . » essa liçao dos au-
tores lranceses pos em esquecimento os portugueses. . .
pelalaltade conversaros escritores nacionais encurta-
mos e empobrecemos as lormas e os elementosdo dis-
curso. Sabemos que muita gente escarnece dos que
amama pureza da lingua,. . . » L descrevendo os classi-
cos . «estesversammuitasvezessobrematériasaridase
pouco importantes para este século. Contam milagres
de santos por vezes incriveis, descrevem usanças mo-
nasticas, pregam sermoes sem unçao, e quando muito
pintam pele¡ as dos nossos maiores em que ordinaria-
menteja de antemao lhes sabemos das vitorias». '
Oarrett também atribui a lalta de originalidade da
l iteratura portuguesa a imitaçao lrancesa. «Vulgari-
zou-se esta lingua entre nos, tomou-se por mol de
J o Cronista, vaI. I, p. 67.
, Panorama, t. I , p. 52
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 03
e exemplar para tudo, a nossa perdeu-se, e o modo, o
espirito, o génio, tudo o queera nacionaldesapareceu,
e tao rapidamente como por encanto. Lste nimio res-
peito e consideraçao em que tomamos pois os Portu-
gueses a literaturalrancesa, danou e empeceu a nossa.
Oai me parece que se devem empenhar todos os que
amam a literatura portuguesa e desejam o seuaumento,
em estudar também a das outras naçoes, combina-las
umas com as outras, sem lazer escola nenhuma, apro-
veitandode todas, massem delir ou conlundiro carac-
terdanossapropriaenacional . ·� ' Jantoacausadomal
comooremédioproposto,provamanenhumacompreen-
sao que entao havia do que era carácter nacional. Lsse
caracterlaltouaostrovadoresportuguesesdoséculoXII
aXIV, aospoetaspalacianosdoséculoXV, aosquinhen-
tistas,aosseiscentistaseaosÁrcades,omalqueselhes
tornoupatenteem l 827, tinhaacompanhadosemprea
literatura portuguesa. Ònde estava pois a causa desta
constantelaltadeoriginalidadeºÐisse-oWoll. nalalta
deuma basede tradiçoes sobrequesedesenvolvessem
as criaçoes individuais . Por isso em vez de estudarem
essas tradiçoes, os novosescritores loram imitar as ou-
tras literaturas para contrabalaçarem a in|Iuência da
lrancesa. «Ò unico, ainda que incerto correctivo que
vej oa este mal, é o lomentar a aplicaçaoasoutras li-
teraturaseidiomas,porondedivididaaatençao,eque-
brada a lorça dos prestigios, revertamosa sentimentos
maisrazoaveis e menosexclusivasopinioes . Assim po-
deralormar-seumaescola maiseclética, e a lingua e a
l iteratura patria nao colherao pouco lruto se assim se
conseguir. »´

Por isso que os l ivros dos escritores nacionais nao
eram lidos e o povo estava sem tradiçoes, osescritores
trataramdeinventarlendase cantospopulares. Inacio
I O Cronista, vaI. I, p. 1 6 e 1 7.
2 Ibidelll, p. 239.
1 04 TEÓFILO BRAGA
Pizarro de Morais Sarmento escreveu um Romanceiro
pelogostodo de Segura, massemdissimularo artiücio
literario, o mesmo lez Serpa com osSolaus; Herculano
inventouatradiçaodoConventodaBatalhaondetam-
bém lorjou um canto popular dito pelos reis Magos,
que apresentacomoloa«obra mui prima de certo leigo afa­
mado jogral daquele tempo» 1; Bellermann, no seu Portugie­
sische Wolkslieder und Romanzen, apesar do seu prolundo
senso critico, aceitou como popular esta contralacçao
de Herculano. Lstegénioinventivoquelevavaosescri-
tores do século XVI a lalsilìcarem os monumentos his-
toricosepoéticos,dava-seagoracommaiorlorçanesta
supostarenascençadoespirito nacional, oarcadeCas-
tilho labricava um Auto pelo gosto da escola de Oil
Vicente,quesediziatersidoescritonapartidadeel-rei
Ð. SebastiaoparaÁlrica,peloguarda-mordaTorredo
Jombo Antonio de Castilho. Pelo seu lado Oarrett,
contralazendoapoesiapopular,comosevênoprimeiro
volume do seu Romanceiro, dizia no lrontispicio do ro-
mance O Arco de Sant'Ana, que achara essa memoria
num manuscritodoConventodos Orilos nacidadedo
Porto.
Ðetodos estesinuteiseslorços soseconseguiudivul-
garporviadoPanorama, jornalliterarioimitadodoPen­
ny Magazine equese publicava em numerode cinco mil
exemplares,´ os poucos lactos da historia portuguesa,
necessarios para se criar essalinguagem enlatica e pa-
triotica, de todos os livros, de todos os discursos, de
todas as poesias, o berço de Camões, a espada de Afonso
Henriques e do Condestável, o estandarte das Quinas, asterras
do Gama e de Pacheco, asfaçanhas dos Albuquerques e
J
oão de
Castro, oséculo do venturoso D. Manuel, osgaleões da lndia, e
I Panorama, t. IIl, p. 10 l .
, Panorama, t . I , p. 53; t . I I , p . · I .
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 05
os mares nunca dantes navegados. A renascença do espirito
nacional |imitou-sea esta titilaçaoexterior, que o bur-
guês lacilmenteadoptou paraexpressaodo seu patrio-
tismo e comoesconjuro eloquentee delìnitivocontraa
politica de iberismo.
LdgarQuinet,noseueloquenteprotestocontraain-
tervençao estrangeira chamada por Ð. Maria II em
l 817 contra Portuga|, explica a mutua solidariedade
entre as translormaçoes politicas e a renovaçao l i tera-
ria. «Portugalnaose contentavacom umaimitaçao es-
téril,comoseju|ga,o renascimentopoliticolundava-se
sobre o renascimento do proprio espirito português.
Neste pais, que deixara de pensar havia dois séculos,
umavidaimprevistabrilhavaemobrasinspiradaspelo
amor e pe|a tradiçao nacional. Numerosos escritores
surgiam, que todos a uma lortaleciam o seu génio no
mesmo sentimento da patria restaurada. !ma cor de
independênciabastara paradaras almasenergia, a ci-
vilizaçao morta levantava-se. Quem o acreditaria, se
nao lossebem notorioº Òs ultimos quinzeanos produ-
ziram maisobrasoriginaisdoqueosdoisséculos passa-
dos, e, segundo a expressaodeumhomem cujaautori-
dadeninguémnegara, ¸AlmeidaOarrett) nuncasevira
no espirito publico um movimento tao prolundo, um
eslorçotaosincero, umaesperançataoviva,umaemo-
çao taovcr¸dadeira, umainspiraçao tao indigena desde
a época d' 0s Lusíadas. » Lm seguida Quinet explica a
razao do movimento. «Se alguma vez houve movi-
mento nacional, era o que se operava em plena clari-
dade. Ò escritorconspiravanosseuslivros,odeputado
na sua cadei ra, o povo no lundo das provinci as .
Quando esta assim leito o acordo entre a inteligência
dopequenonumeroeaconsciênciadetodos,naoédiü-
cilpreverasconsequências. »Lcondenandoentaoain-
tervençao armada da Lspanha, Inglaterra e França
contra o levantamentonacional que repelia o absolu-
tismo de Ð. Mariair, exclama. «Anaçaoqueriaviver,
1 06 TEÓFILO BRAGA
a rainha acha mais legitimoo governar um cadaver. »
De lacto, a vida moral da naçao acabou depois quea
monarquiabragantinachamouparasemanternoarbi-
trio a intervençao estrangeira.
As obras de Oarrett, concebidas neste periodo de
translormaçoespoliticasemquerevivesceuanacionali-
dade portuguesa, inspiram-sedos sentimentos e agita-
çoes do momento, e por isso têm um certo relevo de
realidade. A tragédiade Catão liga-se as aspiraçoes re-
volucionarias de l 82O, quando se proclamou o princi-
pio da soberania nacional; n' 0Arco de Sant 'Ana, Oarrett
combatia a reacçao clerical, e segundo ouvimos dizer
lazia no tipo do Bispo a satirade Frei Franciscode S.
Luis,n`0Alageme de Santarém, tiravao movimentodra-
matico das paixoes que se debatiam em l 812 entre os
setembristas ¸partidarios da soberania nacional) e ca-
bralistas ¸partidarios do lavoritismo do paço, ou da
realeza porgraçade Deus) . '
6. CONSEQUÊNCIAS CONTRADITÓRIAS.
Depois do qu� temos visto acerca das condiçoes em
que estavamos para abraçar o romantismo, conclui-se
que, tanto pelos trabalhos historicos da Idade Média,
I Obras Completas, de Edgar Quinet, t . x, p. 58 a 6 1 .
, No n. · 6 4 do Correio Português (22 d e Fevereiro d e 1 842) s e l ê acerca da
demora da representação d'O Alageme de Salltarém, lido em fns de Setembro
de 1 841 : «por informações que temos por seguras, nos veio à notícia que o
notório director do teatro da Rua dos Condes (Emile Doux), depois de três
meses de ensaios demorados e preparativos que nunca acabavam, fora
dizer à empresa que O Alfageme de Salltarém era uma sátira dos últimos acon­
tecimentos que restauraram a Carta Constitucional; que os cartistas amea­
çavam que haviam de i r pateá-la e insultar o autor e a peça, se ela fosse à
cena; e que era forçoso portanto retirá-la infalivelmente. » No n.· 67, Emile
Doux veio justificar-se; Garrett era efectivamente setembrista.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 07
como pelasespeculaçoes h losoñcassobreArtee Litera-
tura,comopelavitalidadedoespirito nacional, éramos
incapazesdecompreenderessemovimento. Òsmesmos
escritores, que primeiro pressentiram a necessidade de
rompercoma tradiçaoarcadica, trepidaramnoseu in-
tuito, e vocileraram contra o romantismo, tanto em
Oarrettcomoem Herculano, as palavras de condena-
çao, os protestos de respeito aos modelos consti tuidos
estao em contradiçao com as obras . Herculano reagia
contra a autoridade da tradiçao romana, do mesmo
modo que as literaturas modernas estavam reagindo.
«Roma, quevivae possantenao alcançarasubjugarin-
teiramente este cantinhodaLuropa, cadaverja prola-
nadopelos pés de muitas raças barbaras, conquistou-nos
com o esplendor da sua civilização que ressurgira triunfante.
NetosdosCeltas,dosOodos, edosÁrabes, esquecemo-nos
de todas as tradições de avós para pedirmos às cinzas de um
império morto e estranho, até o génio da própria língua. »' Pare-
ce que quem aplicava assim pela primeira vez a Por-
tugal a lei de Schlegel, compreenderia a liberdade de
movimento do romantismo. Nao loi assim, Herculano
considerava. «a ånsia da liberdade descomedida, a mi-
santropia, os crimes, a incredulidade dos monstros de
Byron saoo transuntomedonhoe sublimedesteséculo
deexageraçoes e de renovaçao social. »' Herculano en-
tendia, quea palavra romantismo erausada«com o fito
de encobrir afalta de génio e de fazer amar a irreligião, a
imoralidade e quanto há de negro e abjecto do coração humano»
e por isso acrescenta. «nós declaramos que o não somos, nem
esperamos sê-lo nunca. »' ParaHerculanoo romantismoli-
mitava-se. l . °,a amara patria, em verso, 2 .°,em apro-
I Memórias do COllserva/ório, p. 28.
, Pallorama, t. II, pp. 123 ( 1 837) .
3 Reposi/ório Li/erário, p. 88.
1 08 TEÓFI LO BRAGA
veitaros tempos heroicos docristianismo,J . °,desterrar
os numes gregos substituindo-ospela nossa mitologia na­
cional na poesia narrativa e pela religiao, h|osoha e moral
na lirica. L da intransigência desta sua teoria romån-
tica acrescenta. «Nossateorialoraaprimeiraacairpor
terra diante da barbaria dessa seita miseravelqueape-
nas entreos seus contaumgénio÷e loi o queacriou
÷ génio sem duvida imenso e insondavel, mas seme-
lhanteaosabismosdosmarestempestuososquesaudou
em seus hinos de desesperaçao. ¯ génio que passou
pelaterracomoumrelåmpago inlernal, e cujologo mi-
nou os campos da poesia e os deixou aridos como o
areal do deserto, - génio enlìm, que nao tem com
quemcomparar-se,quenuncao tera talvez, e que seus
exagerados admiradoresapenas têmpretendidomaca-
quear. Falamos de Byron. Qual é, com eleito a ideia
dominante nos seus poemasº Nenhuma, ou o que é o
mesmo, um cepticismoabsoluto, anegaçaode todas as
ideiaspositivas. Com umsorriso espantosoeleescarne-
ceude tudo. . . » L depoisdemuito lugar-comumdeum
catolico chateaubriånico, Herculano remata. «Ðe sua
escola apenas restara ele, mas como um monumento
espantosodosprecipiciosdogénioquandodesacompa-
nhadodavirtude. Ðosseus imitadoresdiremosso, que
eles larao com os seus dramas, poemas e cançoes em
honra dos crimes, que a Luropa volvendo a si, amal-
diçoe um dia esta literatura, que hoje tanto aplaude.
Nossa prolecia se verihcara, se, como cremos o género
humano tende a perlectibilidade, e se o homem nao
nasceu paracorrerna vida um campo delagrimasedes-
penhar-se na morte nos abismos do nada. No meio das
revoluçoes, na época em que os tiranos, enlurecidos
pela perspectiva de uma quedaeminente, se apressam
aesgotarsobreospovosostesourosdasuabarbaridade
÷ enquanto dura o grande combate, o combate dos
séculos ÷ os hinos dodesespero soam acordes com as
dores morais, mas, quando algum dia a Luropajazer
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 09
livree tranquila,ninguém olhará sem compaixão ou horror os
desvarios literários do nosso século. »l Naocontente em con-
denar tresloucadamentedacriaçaodas |iteraturas mo-
dernas prorrompem-lhe dos labios palavras de irisao
contraos eslorços pararesolveros problemas daArte.
«Rimos hojecom uma paixao insultuosa daqueles po-
bres lì|oso|os realistas e nominalistas, que se travavam
em combates e derramavam seu sangue por causa das
questoes entreas escolas a que pertenciam, mas temos
nos porbemdemonstrado que, dentro talvez depouco
tempoos nossos descendentes naoriraodenos porque
seguimos diferentes seitas e credos em Filosofa, em Letras, e em
Artes. »2 Ðepois destes anatemas contra o espírito mo-
derno Herculano continou a escrever, mas a sua obra
nao teve uma ideia lundamental, nao teve um plano,
naoeducouumageraçao.Òbyronismo,apesardacon-
dcnaçao de Herculano, prevaleceu na literatura, e im-
portaporissoj ulga-|o.
Na evoluçao do romantismo, deve-se a Byron essa
substituiçaodosentimentalismoidílico,queseimobili-
zara como expressao da beatitude crista, pela lingua-
gem de protesto da consciência contra as violências
praticadas pelos sistema da restauraçao do antigo re-
gime em todaa Luropa,Byronrompeu comesseidea|
de convençao de que tanto se aproveitava o cleri-
ca|ismo, edeuapoesiaumdestinopositivo,|ê-laogrito
deaspiraçaodaliberdade,noconlIitodoindividuoC0-
traasociedadeatrasada,narevoltadasnaçoesoprimi-
d as cori tra a coligaçao obcecada da dip|omacia da
Santa Aliança. A concepçaodeByron, chamada pelos
escritores académicos satanismo, impressionou prolun-
damenteasnovasinteligências,eemtodaa Luropaloi
I Repositório Literário, p. 88.
2 Palorama, t. III, p. 1 1 5.
1 1 0 TEÓFILO BRAGA
imitada, provocandoa manilestaçaodenovos talentos.
Jeria Byron a consciência ou o intuito de uma translor-
maçao de ideal poético modernoº Nao tinha, ele pro-
prio era autoritario nas suas admiraçoes por Pope e
pela Antiguidade, mas a nova concepçao provinha de
um estado excepcional da sua personalidade. Sem ser
umgénio, achou-se nasituaçao em que se revela a es-
pontaneidadecriadora. olendidonassuasrelaçoescom
asociedadeinglesa,olendidonosseussentimentospela
dissoluçaolorçadadalamilia,acha-secomoumout-law
no mundo moral e procura equilibrar-se, lortalecer-se,
procurandoem si mesmoumanoçaode¡ ustiça. Ðesde
queachouessanoçaosentiuanecessidadedoprotesto,
e teve a eloquência da proclamaçao. Qualquer outro
individuo sucumbiria, o nobrelordenaopodiasucum-
bir, porquetinhanamaoumalorçaqueactuapodero-
samente nas sociedades burguesas ÷o dinheiro. \m
homem que se acha com cem mil libras esterlinas de
rendimento, adquiriu umpontodevistaoriginalsobre
o universo, bastavacontemplaras paixoes, os homens,
associedadesporesseprismataoparticular,paracom-
preender as acçoesdeumoutromodo, porumaspecto
imprevisto. Byron pintou as coisas como as viu, e o
seu modo de ver assombrou, i mi taram-no no traço
pi toresco, na lrase de imprecaçao, no desdém supe-
rior do desalento, em tudo, até na dissoluçao da vida
dissipada, mas nao tiveram o ponto de vista exclusivo
deByron÷oprismaassombrosodascemmillibrasde
renda. L istooqueexplicaa inDuência dohomemsem
tersidonarealidadeumgénio,inlluênciaquesetornou
doentia para os outros i mitadores medianos, e que
aindasubsisteem PortugalenoBrasil,ondese adoece
e se morre pela monomania do byronismo extemporå-
neo.
PelasuaparteOarrett, nasLições de Poes
i
a e de Litera­
tura a Uma Jovem Senhora, também propoe os altos pro-
blemas daestética, mas seguindoos moldes pueris das
HIST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL I I I
Cartas a Emília; tinhaemvistaintroduzirentre nos÷o
tao engraçado quanto proveitoso método de Ðemous-
tier para ensinar divertindo. Ò insulto idilico de Ðe-
moustieré excedidoporOarrett, que convidaa suaLi-
lia ao prazer, a reclinar-se-lhenoseupeitocomos bra-
ços enlaçados, no sacro manto de imortais verdores.
L istoo que eledizdoBelo. Paranosexplicaro lìmdas
Belas-Artes,esemquerer«viajarnosintermundiosdas
abstraçoes quiméricas», invoca o.
Call1or das graças, Demoustier Iilloso,
Oh vem meus versos bafjar do Elísio!
Traze UI sorriso afável
Da lua doce Emília,
Toma com ele amável
O losco estilo meu.
A
ais linda que ela, mais gentil que Emília
E mais sensível inda a minha Ulia.
L depois disto que Oarrett descreve as diversas es-
colas literarias. «L estes sao os três géneros de poesia
mais distintose conhecidos, oriental, romântico, e clássico.
Ò primeiroéo dos salmos, de todososlivrosda Biblia,
e aindahoj eseguidonaÁsia. Òsegundoéo deMilton,
deShakespeare, de Klopstock, e dequase todosos in-
gleses e alemaes. Ò terceiro |ìnalmente é o de Homero
e Solocles, de Virgilio e de Horacio, de Camoes e de
Filinto, deJassoe deRacine. Òspoetas espanhois an-
tigos escreveram quase todos no género romântico, ou
naqueleque outrasregrasnaotemmais queaimagina-
çaoelantasia.Mas os modemosjá se amoldaram ao clássico e
muitos deles têm progredido admiravelmente. Ðos nossos por-
tugueses também alguns alìnaram a lira no modo ro-
måntico, porém poucos .
' 0 Cronista, p. 1 09. ( 1 827. )
1 1 2
TEÓFILO BRAGA
Hoje é moda o romântico, é finura,
É tom achar Ossian melhor que Homero,
Gabar Shakespeare, desdmhar de Comeille.
De Paris os modernos elegantes
Deixam Racine para lerem Schiller;
Chamam vil servilismo às regras d'arte,
Antiquário a Boileau, pedante a Horácio.
Só gostam de Irmillsui e de Teutates,
Obscuros sonhos do Escocês sombrio.
E as risonhas fic
ç
ões da culta Grécia
Á
ureos Ilmes d'Áscreu cediços di�em.
Vénus e amores, graças e cupidos
Já muito vistos são, já milito lidos.,,'
L certo, quepoucotempodepoisdisto,Oarrettdepos
as regras e escreveu o Camões, dizendo entao que nem
era clássico nem romântico. Como Herculano, viu tam-
bém esta novalase dosentimento moderno como uma
batalha palavrosa de nominalistas, e em todos os seus
livros chasqueou sempredarevol�çao literaria.
Por essas palavras vimos como Oarrett molava do
romantismo, elesacudiade si os cånones retoricos que
celebranaeducaçaodo seutio,liaos modernosmonu-
mentosliterarios,imitava-os,dava-secomooinaugura-
dor de uma época nova na literatura portuguesa, mas
protestava que nao era romântico. A laltade compreen-
sao deste lacto que simboliza a liberdade do senti-
mento,naoobstouaqueHerculanoeOarrettescreves-
semlivros que sedesviaram dotrilho batidoatéaoseu
tempo, mas esses livros nao tiveram em vista realizar
uma tese superior, e os eslorços destes dois homens
longedesecoadj uvarem,cedoseinutilizarampelades-
membraçao,nenhumteveodomsublimedeverrobus-
tecer-se em volta de si uma mocidade prestante. Pelo
seuladoo arcade Castilhonoprologodos Quadros His­
tóricos, maldizcomlrasesmaisdurasaindado queasde
Herculano essa espontaneidade do romantismo que
veio perturbar-lhe o seu mundo idilico. Lstes três ho-
, O Cronista, p. 1 80.
HI STÚRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 1 3
mens,emquemaopiniaopublicaviaosseusrepresen-
tantes literarios, separaram-se por pequenos ressenti-
mentos pessoais, Castilho chamara a Herculano, se-
gundo corre oralmente, esse galego do chafariz da Ajuda;
por seu turno Herculano leriu Castilho chamando-lhe
cego de corpo e de alma, e rompeu com Oarrettporcausa
contratodepropriedadeliteraria com a França, Casti-
lho disputava a Oarrett aantonomasiadeprincipeda
l i ra, e Oarrett ri a-se del e chamando-lhe compadre.
QuandovemosaimpotenteamizadeentreumOocthee
um Schiller, e quanto pode a bem dodesenvolvimento
de uma ideia a acçao continua de um centro literario,
sopodemosexplicaradissençaoentreHerculano, Oar-
rett e Castilho nao tanto pelo caracter de cada um,
comopel alaltadecompreensaodacriseliterariaquese
passavanaLuropaedaqual eles,pelacircunstånciado
tempo,eramosrepresentantesemPortugal. Comaboa
vontadequeospoderespublicos tinhamentaopelode-
senvolvimentointelectualdestaterra,oquesenaoteria
leitoseestes três homenslossemumpoucomaisinteli-
gentes para se proporem um plano, e mais elevados
para se naoodiarem| Semais se naotivesseleito, pelo
menos nao se veriam em breve esterilizados todos os
eslorços que cada umtentouparcialmente.
Oarrett chega a lundar o teatro português, laz uma
cruzada lervorosaparaque o governo dote a arte dra-
matica com um edi|icio digno, lundao Conservatorio,
estabeleceprémios,masnaoapareceumamocidadevi-
gorosa eactiva,osdramasnacionaisnaoseescreveram,
e apenascomo testemunho deum eslorçoderegenera-
çao ai estao de pé somente as paredes do Jeatro de
Ð. Maria II.
Herculanoprocuralundarahistoriaportugesa, abri-
ram-se-lhetodosos arquivos, colocaram-no em umlu-
garprivilegiado libertando-o dos cuidadosdavida, ei-
-loquesimuladesgostos,desertadocomérciodasletras
e entrega-se a cultura e negocio do azeite. Ninguém
1 1 4 TEÚFILO BRAGA
teve ainda um maior poder espiritual sobre este pais
comoHercu|ano, masnuncaosoubeexercer. Ða reno-
vaçao dos estudos historicos em Portugal apenas res-
tam volumes lragmentarios, sem uma ideia capital e
por isso até hoje ilegiveis.
Peloseulado, Castilho naoteveoutroplano literario
senaog|orih carpor todas as lormas a sua pessoa. I ni-
migo da | i berdade do romanti smo, abraçou essas
doutrinas desde o momento em queviuquelisonj eava
assim a opiniao publica, sem plano na sua actividade,
nunca manilestou uma originalidade qualquer, e lan-
çou-se a traduzir a esmo. Se os dois escritores antece-
dentes nao levantaram uma geraçao, este contribuiu
lortemente para corromper as ideias literarias do seu
tempo.
A mocidade que surge por si, e se laz lorte pelo es-
tudoe pe|a moral, nadalhesdeve, e istolhe dadireito
deosjulgar com impassibilidade.
LIVRO I
ALMEIDA GARRETT
( 1 799 - 1 854)
Na obra da nossarevoluçaoliterariaqueseseguiu a
revoluçao politica de l 8J2, cabe a Oarret o primeiro
l ugar, nao porque tivesse uma consciência plena do
|actomorale socialque se passara na Luropa e se re-
lIectiraem Portugal, mas porque possuia essa intuiçao
artistica,comquesupriao estudo, queo levou a com-
preenderasobras-primasdaartemodernaeaprocurar
penetrar-se do seu espirito. \m acidente da sua vida
determinou esta elevaçao do critério. loi a emigraçao
para França e I nglaterra em l 82J, ¡ ustamentequando
l asedebatiam as doutrinas doromantismo. Sem pos-
suir a erudiçao indispensavel paralundara épocamo-
derna da literatura portuguesa, dirigiu-se caprichosa-
mente pelo seu gosto; com esse tino que se tornava a
maiorpartedas vezesumaintuiçao,conseguiubanirde
si o resto das impressoes classicas ou académicas que
|hehaviamincutidonamocidade, compreendeu queo
povo português também tinha um génio nacional, que
era preciso determina-lo na poesia e no teatro. Lsse
gostoouintuiçao|evou-oatéondeeranecessarioabase
cientilìca,laltou-lheesta,eporissoapoesiadopovoloi
tratada como uma predilecçao de artista, e o teatro,
sem o vigor de uma tese lìlosohca, reduziu-se a unica
corda dopatriotismo. Compreendeu que na literatura
portuguesaestavatudoparacriar,masogostoqueadi-
1 1 8 TEÓFILO BRAGA
vinhava nao pode traçar-lhe um plano, apresentar-lhe
uma ideia lundamental enlìm, a uni dade da obra.
A suavidaéo comentariodoqueescreveu, eleganteda
épocadaRestauraçao,hcousemprelrivoloe sensual,a
verdade natural traduzia-se no sentimentalismo apai-
xonado, atingindo a beleza da lrase pelos habitos da
elegåncia. Pensador nulo, encobria alaltade educaçao
h losolìca com um cristianismo a Chateaubriand, deci-
dindo-se sempre pelas ideias generosas, debalde pro-
curavaemvoltadesiumamocidadeemqueminlIuisse.
Seduzidoh nalmentepelasambiçoespoliticasdoconsti-
tucionalismoa obradeartetornou-separa eleumaci-
dente, e ao mesmo tempoambicionouos titulos, as h-
tas, as honras para dar realce ao literato. Ða ao seu
estilo uma calculadadesalectaçaoelamiliaridade, mas
nointimoeraverdadeiroe sincero. Faltou-lheaindivi-
dualidadequeluta, porteridocomacorrentedamoda
nao criou as obras-primas de que era capaz, por ter
vividocomoshabitosanacronicosdoantigoregimesu-
cumbiuexausto sem passar pela velhice.
1 . EDUCAÇÃO CLÁSSICA DE GARRETT
( 1 8 1 4 a 1 823)
Tendência liberal do espírito de Garrett. -Direcção clássica impressa por
Frei Alexandre da Sagrada Família. -Reage contra o meio absolutista da
sua família. -A vida da Universidade e as tragédias filosóficas e outeiros
poéticos. -Abraça os princípios da Revolução de 1 820. -Os ensaios de
Catão no Teatro do Bairro Alto. -Seu casamento com D. Luísa Midosi. -
Sua primeira imitação elmanista e depois filintista. -Sua vida em Lisboa
até à emigração em 1 823.
o homemsuperior,querepresentaumaépoca,cum-
pre a pesada latalidade de resumir em si, a par das
aspiraçoes de que loi o orgao, os velhos preconceitos
contra os quais reagiu, as dissolventes inIIuências que
procurou anular, e até os proprios erros e aberraçoes
que ajudoua extinguir pelasuamissaogenial. Hapor-
tanto navida do homem superiorduas biograh as con-
traditorias, que saooresultadodomeiodondesurgiu e
do meioquepodelundarpelasuaindividualidade.Ða-
-seistocomOarrett, enaoéamenorprovadasuperio-
ridadercconhecida,comoCamoes,queseguiunassuas
liricas a pauta da medida velha ou da redondilhapenin-
sular antes de abraçar o sub¡ ectivismo petraquista da
escolaitaliana, assim o autorinimitavel dopoema Ca­
mões) do Frei Luís de Sousa, e do ardentelirismodas Fo­
lhas Caídas) quei mprimiu a literatura portuguesa uma
direcçaonova, começou porserum reverenteimitador
1 20 TE6FILO BRAGA
dosÁrcadesquandosechamoujonioÐuriense,umlri-
volo almiscarado do século XVIII quando imitou Ðe-
moustier no Liceu das Damas, um retorico elmanista
quandoversejou nos outeirospoéticos daSalados Ca-
pelos em Coimbra e nos abadeçados de Òdivelas, e ñ-
nalmente um meticulosojilintista, quando o estudo da
linguaportuguesase lhe tornou umanecessidadepara
uma lecunda actividade literaria. Ò estudo desta lase
primeira das manilestaçoes dasuavocaçaoserianega-
tivo e inutil, senesseacervodepretensiosas vulgarida-
des arcadicas se nao descobrissem os eslorços latentes
de um claro espirito contraleito pelos respeitos autori-
tariosdequesopodeemancipar-sequandoseachoude
repente num vasto meio mental. !oi esse o lruto das
suasemigraçoesdel 82Jede l 82D,aqueolorçaramas
reacçoes politicas do regime absoluto. A obraem que
Oarrettacentou a suaindividualidade nuncaserabem
compreendidaenquantosenaoconhecero periodo em
que todasasdeletérias tradiçoes académicas, pastorais
e sentimentalistasdo séculoXVIII o absorveram e o do-
minaram.
Oarrettnasceu no Porto a 1 de !evereiro de l 7DD, e
desde l 8 l O viveunailhaJerceira, até virlrequentaros
estudos superiores na \niversidade de Coimbra em
l 8 l 1, estes lactos exerceram na sua vida uma orienta-
çaolundamental,eéporelesqueexplicaremosesseins-
tinto deliberdade que o lez protestar contra as lorças
do Campo de Santa Ana e abraçar o principio da so-
berania nacional proclamada na Revoluçao de l 82O.
Ò Porto distingue-sepeloseu grande espirito de inde-
pendência, comoo manilestou quandoeraum simples
burgo industrial, como o reveloureagindocontraa in-
vasaonapoleonica, contraas lorças miguelinas no seu
memorandocercode l 8J2, asilhassaosempre
a
nima-
das de um sentimento separatista, deuma aspiraçaoa
liberdade, e a Jerceiraprovou-oabrindoasiloe lazen-
do-se reduto dos emigrados liberais, em l 8J l , a moci-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ! 2 !
dadc dc Coimbra, quando o obscurantismo monacal
cstupidccia cstc pais, rcprcscntava nos scus passatcm-
pos csco|arcs as tragédias hlosohcas dcVoltairc, liaas
obrasdos cncic|opcdistasmaugrado asqucixasdaI n-
tcndênciada Policia,csaudavacomcntusiasmoaobra
dcSinédrio. Ncstcmciocmqucscachouscmprc, Oar-
rcttnaopodiadcixardcdcclarar-scumtantojacobino, c
porissoachou-scmuitoccdocmconD itocom alamí|ia,
ondc prcdominava o cspirito dc rcacçao clcrica|, quc
procurou incutir-lhc na sua primcira cducaçao. Para
bcmcomprccndcrcstcconDitocntrarcmoscmalgumas
particularidadcs. josé Fcrrcira dc Sousa, natural da
i l hadoFaial, casadocom Ð. Antonia MargaridaOar-
rctt [lìlha dc Bcrnardo Oarrctt, natural do Rossilhao)
tcvcosscguintcsh lhos. AlcxandrcdaSagradaFamilia,
quc loi bispo dcAngra,AntonioBcrnardodaSilva dc
A|mcida Oarrctt, quc loi pai do pocta, c mais dois lì-
lhos, qucloramconcgosdaSédcAngra. ' AntonioBcr-
nardocasaranoPortocom Ð. AnaAugustaLcitao,dc
qucmopoctaloioscgundogénito,assimasuainmncia
dccorrcu partc na ilhaJcrccira, partcjunto dacidadc
doPorto,naquintadoCastclocnaQuintadoSardao.
Na ilha Jcrccira, cm contacto com o crudito bispo c
comos concgos scus tios obcdcciaa cðucaçaoc|assica,
no Porto, nasolturadocamporcccbcu acomunicaçao
das tradiçocs popularcs quc lhc acordavam uma nova
i ntuiçao poética.
Passou Oarrctt a pucriciajunto dc scu tio Ð. Frci
Alcxandrc da Sagrada Famí|ia, cstc vcncravcl anciao,
quc cscrcvia odcs c traduzia Mctastasio cm scgrcdo,
quc so admitia actividadc intclcctual para lcchar os
I No livro v das COlltas para as Secretarias do intendente Manique, 1. 300 ( 1 2
d e Abril d e 1 799) acha-se indiciado como pedreiro-livre um tal David Gar­
rett.
1 22 TEÓFILO BRAGA
seus produtos na gaveta, segundo o preceito do venu-
sino, dirigiuos primeirosestudosdosobrinhoe as pre-
maturas tentativas literarias, que datamde l 8 l 1. '
Lmumaodeamortedovelhotio,intituladaA Sepul­
tura do Benfeitor, escreve Oarrett.
Oh varão extremado,
Não, lião morreste aillda no meu peito:
Tu em minha alma tenra
As sementes primeiras despar::ste
Das letras, da virtude,
Que à sombra augusta do teu nobre exemplo
Tenras desabrochando
Cresceram quanto são: iliame ainda
O meu singelo peito
le avigoraste da constância tua . . '
Numa nota a esta poesia, queixa-se Oarrett de nao
tersidocontempladoem l 82l notestamentodeseutio.
«Òsabioevirtuosopreladocu¡ amemoriacelebrames-
tes versos,eraproximo parentedoautor. Sabemos que
loi o único de seus parentes que de S. Lx. 'nao recebeu
dons de lortuna. ele ¡ ulga porém dever-lhe mais que
nenhum peloamordavirtudeedasletrasquenainmncia
lheinspirou comexemploe conselhonosprimeirosru-
dimentos de educaçao que daquele insigne e ilustre
varaorecebeu. »' Òdespeito que transparece sob estas
palavras, é apenas produzido pelo desgosto de haver
descontentadoaquelevelhoqueoeducou,pelolactode
se ter manilestado a lavor da conspiraçao de Oomes
Freire. As palavras sublinhadas intencionalmente

por
Oarrett levam a supor que alguém na lamilia teve in-
I Fábulas, p. 99. (Obras, t. XVII. )
2 Lírica de João Mínimo, p. 94. (Ed. 1 829. )
' lbidem, p. 1 94.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 23
teresseem alasta-lodasimpatiadooctogenariobispo. I
Na divisao da lamilia portuguesa em absolutistas e li-
berais, AlmeidaOarrettloi o unicoqueem sua casa se
sacri|ìcouacausadaliberdade.Asprimeirasrevelaçoes
do talento deOarrettloramnopulpitoaque subiu por
uma travessura inlantil, ninguém pressentia que esse
lervor precoce, que parecialeva-loparaavidaclerical,
seria posto ao serviço da liberdade na oraçao a morte
de Manuel Fernandes Jomas, porondecomeçaram as
suas perseguiçoes politicas, e naeloquência parlamen-
tardaesquerdaconstitucionalsetembrista.Aeducaçao
religiosa e humanista de Oarrett deu-lhe uma grande
indilerença pelos trabalhos da renovaçao cientihca do
século XIX, e por isso nao teve um pensamento, uma
unidade de plano na sua actividade literaria. No Tr­
tado de Educação descreveos seus primeirosestudos com
I Consignaremos aqui algumas datas sobre Frei Alexandre da Sagrada
Família: nasceu na ilha do Faial a 23 de Maio de 1 737; licenciado em Filoso­
fia (humanidades) em 1 759, em Coimbra, entra para o Mosteiro de Branca­
nes em Setúbal, onde professou a 1 3 deJunho de 1 762. Frei Alexandre culti­
vou a poesia erudita e académica; julgamos que por isso o confundem com
Frei Alexandre da Silva, eremita de 'Santo Agostinho, conhecido pelo nome
arcádico de Sílvio, quando dizem que ele pertencera à Arcádia de Lisboa.
Em 24 de Outubro de 1 782 foi eleito bispo de Malaca, sendo sagrado a 24 de
Fevereiro de 1 783. Transferido antes da posse do bispado. para S. Paulo de
Luanda, residiu por três anos na diocese de Angola, sendo transferido para
Angra em 1 8 1 2. Tinha mais dois irmãos, cónego e arcediago, na Sé de An­
gra, os padres Manuel I nácio e Inácio da Silva. Morreu a 22 de Abril de
1 8 I 8. Sobre Frei Alexandre da Sagrada Família seguimos as datas consigna­
das na obra do Sr. Albano da Silveira Pinto, Resenha das Famílias Titulares,
pág. 46. Em um precioso artigo do Sr. Augusto Ribeiro O Bispo Frei Alexan­
dre, tio de Almeida Garretl (no Comércio de Portllgal, n. " 247) ; o nosso patrício
corrige a data de nascimento do velho prelado colocando-a em 1 736. O Sr.
Albano da Silveira Pinto, a quem seguimos, dando o ano de 1 737, acrescenta
i ntencionalmente entre parêntesis: « A data que está designada no seu retra­
to, na Biblioteca Nacional de Lisboa diz 1 736: não é a que consta dos papéis
de família.»
A data 13 deJunho de 1 762 é a da sua profissão, como dissemos; a data I I
de Junho de 1 76 1 apresentada pelo Sr. Augusto Ribeiro como a em que
tomou o hábito em Brancanes, é também seguida pelo Sr. Albano, e que
omi tíramos por seu uma minúcia inútil.
1 24 TEÓFILO BRAGA
um certo orgulho, que para um espirito lìlosolìco seria
um protesto. «Lu tive a boa lortuna de receber uma
educaçaoportuguesa velha, solida de bons princípios de
religiao, de moral, de saos elementos de instruçao,
e conquanto lossemal aproveitada, dasmelhores que se
dao, naodireiemPortugal, mas pelaLuropa. »' L mais
adiante, relerindo-se as vantagens daeducaçao huma-
nistaparaoshomensquehao-denoluturoto�arparte
noregimepar|amentar,quetantocarecedeumapala-
vrosaactividade. «Ògrego eo latimsaoos necessarios
elementos desta educaçao nobre. Ðeixar lalar moder-
nos e modernices, petimetres e neo|ogistas de toda a
espécie. o homem que se destina ou o destinou o seu
merecimento a uma vocaçao publica, nao pode sem
vergonha ignoraras belas-letras e as c|assicas . »´
Nos pro|ogos dos seus livros, Oarrett espa|hou com
certo desvanecimento todas as particularidades com
queselhe podereconstituirabiograh a. A inl|uênciade
Ð. !rei Alexandre loi corroborada por uma outra pe-
sada autoridade do helenista terceirensejoaquim Al-
ves, queadoçavaas escabrosidadesdosversos daOra-
matica de Port-Royal com «a melhor marmelada que
ainda se lez, » comose descreve no prologo daMérope.
Lstadiscip|ina degrecismoajoaquimAlves, naodeci-
diu o talento da criançaso a imitaçao inconscienteda
tragédia grega, levou-o também para a admiraçaodos
liricos,daspeçaseroticasdeAlceuedeSalo,quetradu-
ziu. Nas Flores sem Fruto acham-sebastantesodezinhas
de Salo, como Beleza e Bondade, o Sacrifcio, e de Ana-
creonte, como A Lira, Gozo da Vida, A Força da Mulher,
A Rosa, A Pombinha, e deAlceu, como oInvero, A Espada
do Poeta, cuj a|eituralheteriasidosuscitadapelaspon-
deraçoesadmirativasdejoaquimAlves,quenaotevea
1 Tratado de Educação, p. 4. (Ed. de Londres. )
, Tratado de Educação, p. 34.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 25
criticabastantede lhe explicarcomo amaiorpartedes-
sasodeslascivassaolalsihcaçoesdaépocaalexandrina.
Ainda embalado pelo lausto da Regência, que secon-
servou em Portugalcomoasvelhasmodas nas aldeias,
Garrettdeclara-nos a lonte poronde houve o conheci-
mento de Salo. «Na elegantecolecçaozinha publicada
nos hns do século passado em Paris, com o titulo de
Oeuvres de Sapho . . . » ÐatraduçaodeAnacreontedizcom
certaj actåncia pueri l . «Òs presentes estudos sobre
Anacreontesao traduçoes taoseveramente literais quanto
ogéniodasduaslinguasopermite.»´Nestaparteobom
dejoaquimAlvesserviudePai- Velho, ousegundoove-
lho calaodas escolas, deBurro. Ò lirismogregoconhe-
cidoatravés desta lonte, queaceitavaos apocrilos ale-
xandrinos, e traduzido sobre o açucarado lancês das
ediçoes destinadas para as damas da alta sociedade,
alastava Oarrett para muito longe da verdadeira poe-
sia. A estaépocapertenceessemanuscrito, de uma es-
merada caligralìa, intitulado Odes ¸ l 8l 1 a l 82J) do
qualdizo herdeirodopoetano Catálogo dos Autógrafos:
«Ò indicemostra teremsido cinquenta os assuntos es-
colhidos. Lstesporémnem todosloramescritosounao
loram traslados para aqui, e daqueles que o loram,
acham-semuitoinutilizadospeloautor,rasgadas mui-
tasdaslolhasemqueestavamescritos. »'Pertencetam-
bém a estainlIuência classicaa «Afonsaida ouFundação
do Império Lusitano, poema heroico ÷ Angra, l 8 l 1 e
l 8 l 5. »Ðesteautógralo selê nocitadocatalogo. «!icou
incompleto, consta dos trêsprimeiroscantos, partedo
quarto canto, contendo, ao todo, mil e seiscentos ver-
sos. L escrito em verso solto.»' Pobre alma, atrohada
pela mecånica poética dos lazedores de poemas épicos
I Flores sem Fruto, p. 225 . (Ed. 1 845. )
2 lbidem, p. 226.
3 Helwa, p. XXVI.
, lbidem, p. XXV.
1 26
TEÓFILO BRAGA
pelapautadeLeBossu,astradiçoespopularescomque
teembalaram amulataRosadeLimae atiaBrigida, é
queteconservaramacesaaalåmpadade Lros,comque
Psiquesesalvoudaobscuridadedomediocre| !oiesssa
luzqueterevelouaexistênciadoscantosheroicosdeste
povo,loi essamesmatradiçaoquetelez sentirocolori-
dodas cantigas soltas, que te lez criar essa poesiasim-
ples e ardente das Folhas Caídas, desse lirismo unico,
que nunca as arcadias sentiram. Nas Flores sem Fruto
i ntercala Garrett por vezes destas cantigas populares,
como espéciedevoltasdovelho cancioneiro, exemplo.
Por teus olhos negros, negros,
Trago negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores . . .
E eles a dizer que não. '
SusPiro que nasce d'alma.
Que à for dos lábios morreu . . .
Coração que o não enlende
Não o quero para meu.'
Nunca a linguagem individual pode achar estas ex-
pressoes prolundas,porqueo sentimentorestringe-sea
personalidade do poeta. Garrett interpretando em ou-
trasquadrasestascantigasdopovo,ensaiava-seemum
lirismonovo,domesmomodoquea maoquelançaas
primeiras letras segue os traços que tem a vista. !oi
esta inlIuênciadoméstica quem conservou no espirito
deGarrettaleiçaoesentirnacionalqueolibertoumais
tarde das mais autoritarias convençoes .
Lstas relerências populares do primeiro lirismo de
Garrett sao um pressentimento genial, loi glosando e
comentando os cantos do povo, as serranilhas, os can-
tares guaiados e de ledino, que SadeMiranda, Cristo-
vao!alcao,Camoes,e!ranciscoRodriguesLobo,acei-
, Dp. cit., p. 1 90.
, Ibidem, p. 1 53.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 27
tando a partevivadatradiçao provençal, setornaram
os primeiros liricos portugueses.
QuandoGarrettentrouemCoimbraperdeudurante
dois anos o dom da poesia, ¸ l 8l 1 a l 8 l G) é como as
aves que se esquecem do canto ao mudarem de terra.
A cataduratirånicadoslentes, dequeGarretttantose
riusempre,janasliçoesdeÐireito,I ¡adeMatematica,
produziu-lhe esse estado marasmatico do sentimento,
queo conservousilencioso.Garrettvivianaintimidade
literariadopesado!rei!ranciscode S. Luis, queoar-
rastou insensivelmenteparaaerudiçaoeparaogénero
didactico, como veremos no Retrto de Vénus. Reinava
em Coimbra a monomania das tragédias, que eram o
unico meio que os estudantes tinham para exprimir
sentimentos liberais, mau grado a intoleråncia despo-
I Nas Fábulas, Garrett ridiculariza os lentes de Direito e o seu estúpido
romanismo:
Pois segundo mui dono douto me ensinava
meu mestre José Vaz, homem discreto
E de sabor profundo,
Em toda a sociedade deste mundo
Por força há-de reger
O famoso direito de acrescer.
(Op. cito p. 59)
Em nota acrescenta: «No meu primeiro ano da Universidade era a expli­
cação deste romantismo um dos pontos mais graves das causas de Direito.
( Op. cito p. 273. ) Esta ciência da sebenta catedrática perpetua-se até hoje, em
que os trabalhos de Mommsen, Macqqardt e Lange ainda ali são desconhe­
cidos. Garrett deixou nos seus versos alguns traços característicos da vida
académica, que ainda encontramos:
Verdade é, 110 Qpebra-Costas
Minha vez escorreguei,
Fui preso por Verdeais,
E à Porta Férrea m . . . ei.
Mas que doutor fiquei eu,
Se nunca o Martini li, .
Se o que soube da Instituto
E do Digesto esqueci?
(Op. Cito p. 77)
1 28 TEOFILO BRAGA
tica do bispo-conde-reitor-relormador Ð. !rancisco de
Lemos, que escangalhava os teatros, ¸ l 8 l 7 a l 8 l 8)
Garrettsacrilìcouemparteolirismoaimitaçaodastra-
gédias de Voltaire e de Crébillon, e portanto voltou a
velhainlIuência classica de seu tio e do pedagogojoa-
quim Alves. ' Mas o lervorliberal que agitava os estu-
dantesdeCoimbraloio quedeuaosversosdeGarrett,
escritos neste tempo, esse lado vivo e natural, que se
senteesmagadoumasvezes debaixodomecanismobo-
cagiano,outrasvezesdebaixodasconstruçoesarcaicas
de!ilinto,o quehadeaceitavelnaLírica deJoão Mínimo
vemdo calor revolucionario,quepodia mais queaeru-
diçao e queo pedantismocatedratico. Lraessaaspira-
. , Em um soneto datado de Coimbra de 1 81 9, Garrett chasqueia da tragé­
dia do padre José Agostinho de Macedo intitulada Branca de Rossi, dizendo
que Sófocles, Eurípedes, Corneille, Crebillon, Racine, Voltaire e Alfieri
foram por ele anulados, faltando-lhe apenas para o triunfo o completo ven­
cer Manuel José de Paiva e Manuel Caetano Pimenta de Aguiar, dois me­
díocres escritores dramáticos portugueses inteiramente obscuros:
Vitonoso o padre a Branca ostenta;
Só para vencer lhe restam dois maganos,
Ma temíveis rivais -Paiva e Pimenta!
José Agostinho de Macedo era o pontífice literário do primeiro quartel do
século XIX, e Garrett atacou-o de frente, como os dissidentes de Coimbra
fi zeram a Castilho mais tarde; no soneto supracitado e nos versos:
um tal poeta lá da tua terra,
Qua faz Orientes e baptiza Gamas . . .
Numa nota, Garrett caracteriza-o como: « O mais atrabiliário escritor que
ainda creio que tivessse a língua portuguesa. O rancor que toda a vida pro­
fessou a quantos professaram as letras no seu tempo, uma inveja imprópria
de talento tão verdadeiramente superior o arrastou a desvarios que deslus­
traram o seu nome e mancharam a sua fama. Nem o furioso e sanguinário
que foi em seu partido nem a perseguição política de que a mim próprio me fez
vítima, puderam mover-me a destacar nele o homem de letras que todavia
honro ainda. Sei que no autor do Retrato de Vénus, no redactor principal do
Português, ele perseguia principalmente o ainda mais odioso autor do poema
Camões. Todas as suas ofensas porém foram só políticas.» (Obras de Garrett,
t. XVII, p. 2 7 1 . ) José Agostinho de Macedo, que atacava Garrett sal1dou
em Castilho o espírito arcádico que renascia.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 29
çaoda Lniversidade, queinspiravao grotesco das 1á-
bulas.
\m dos caracteristicos mais pronunciados nas épo-
casdedecadêncialiterariaéogénerodidactico,emque
a lalta de sentimento procura acobertar-se como ñm
cientiñco, na literatura latina os poemas didacticos
multiplicam-seaopassoquea ideiadobeloseoblitera
sob o cesarismo que aproximava Roma do Baixo I m-
pério, noséculoXVIII, naidadeda corrupçaopoliticae
do convencionalismo sentimental, repete-se o mesmo
lenomeno, em que a pobrepoesiavemserviras banais
regrasdemoral, e a tecnologiadasartes. Lraestapoe-
sia que naoincomodavaosociosdaautoridade, e que
todos os luncionarios podiam ler e até escrever, sem
perigodedecairemdagraçareal. Garrettviuapenas a
manilestaçao exteriordeste lacto, Ðe Lille, Lsmenard,
Ðarwin,joséAgostinhocompuserampeças didacticas,
ejonio Ðuriense, quis também lazer um poema nesse
diapasao. Tal é a origem do Retrato de Vénus, poemeto
em quatro cantos dedicado a glorih caçao da Pintura.
«Tanto o poema, comoasnotaseensaiosaodaminha
inmncia poética, sao compostos na idade de dezassete
anos. Isto nao é impostura. sobejas pessoas ha ai, que
mo viram começar e acabar entao. E certo que desde
esse tempoatéagora,emquecontovinte e dois, portrês
vezes o tenho corrigido, e até submetido a censura de
pessoasdoutasedeconhecidah lologia,comoloioLx.
MU
Sr. Sao Luis, queme honrou a mim e a este opusculo
com suas correcçoes. »' As trêscorrecçoes deque aqui
lal aGarrett,sao. acopiaconstandoapenasdetrêscan-
tos,datadadoPortode l 8l 8, comumadedicatoriaAos
pintores portugueses. Neste periodo estava Garrett domi-
nadopelolurorelmanista, comosepodeverpeladedica-
toria do poema.
1 Retraio de VéIUS, p. 1 64. (Ed. 1 867. )
1 30 TEÓFILO BRAGA
As primícias do canto, os sons primeiros
que a furto, a medo balbuciou lia lira,
O vate imPlume vos consagra, oh vates.
Merecíeis Camões, Camões faltaram,
E fraco ousei tomar divil/o emprego.
Nas débeis asas mal despontam plumas;
Supriu arrojo tal/to o bom desqo:
Valha a matéria, se não vale o canto.
Vinga dum voo o Pindo a altiva águia,
Mas do monte lias quebras descansando,
Também lá chegará rasteira pomba.'
Garrett assinando-se entaojónio Duriense revelava a
inDuênciada NovaArcadiaaqueobedecia,asemendas
desta primeira redacçao consistiram em despoja-la de
todo o mecanismo poético elmanista. A segunda copia
datade l 82 l , «mais aumentadado que a antecedente,
mas di|erente ainda da que serviu para a ediçao de
l 82 l ». ´Ò manuscritojaconstavaentaodequatrocan-
tos, com as notas e Ensaio sobre a História da Pintura.
A terceira redacçao é a que corre na impressa desde
l 822, equedeucausaa umprocessoj udicialemÒutu-
brodesseano, porumlibelodopromotorlìscalcontra
joao Bapti sta da Silva Leitao de Almeida Garrett
acusado de abuso de liberdade de imprensa no poema
do Retrato d Vénus! Lido o inocente poemazinho custa a
crer comoaintolerånciapoliticaseserviadeescrupulos
religiosos da mais relalsada ortodoxia para descobrir
intençoes revolucionarias em uma inocente citaçao de
Voltaire ou daNova Heloía, e nas apaixonadas imita-
çoesdo poema deLucrécio, que os enciclopedistas ha-
viamreabilitado. ÒRetrato de Vénus procurarepassar-se
doespiritopoéticodopoemaDe natura Rerum, masnaoé
aos dezassete anos que se chega a compreensao moral
doestadode cepticismoa queasrevoluçoesdeRomae
, Catálogo dos Autógrafos, p. XVII.
, Catálogo dos Autógrafos, p. XVII.
HI STORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 3 1
as lutas entre Mario e Sila arrastaram Lucrécio. Gar-
rett imitao poema na parte exterior, nalabuladeque
elese ia desviando pela|eiturade Chateaubriand e de
MadamedeStael.
Ficções! . . . e áureas fcções desdenha o sábio?
A douta, a mestra antiguidade o diga.
Não. Fábula gentil, volve a meus versos,
Oma-l1e a lira c 'os festões de rosas,
Que às margens colhes da Castália pura:
Flores que outrora do Epicuro ao vale
C'o austero assunto lhe entrançaste amenas,
Essas 1 canto me desparze agora. (C. 1 . )
o poemeto descreve vagamente e com asideias sin-
créticas do ensinooh ciala decadência deRoma, o re-
nascimento das Artes, a tomada de Constantinopla,
e em seguida a enumeraçao dos nomes dos pintores
italianos caracterizados com o seu conveniente epiteto,
o quarto canto é dedicado aos pintores portugueses.
Aintençaoeruditadopoemetodelìne-semelhoremum
Ensaio sobre a História da Pintura, glosadode Lanzi e de
outros, sema minimaluzpropria, segue-seumquadro
historico da pintura portuguesa, onde com uma doce
miragem intelectual avança. «Jem-se escrito muito, e
mui to controvertido sobre a pintura portuguesa e sua
historia, mas, tantonacionaiscomoestrangeiros (aloi-
tamente o digo) sem critica. Ò exame de seus escritos,
das obrasdosnossosartistasmesuscitouaideiadeen-
trar com o lacho da hlosoha neste caos inlorme, e de-
sembaraçar quanto em mim losse com o h o da critica
este inextricavel l abirinto. » Raczynski, quando estu-
davaaArteportuguesa,loiatrasdesteprogramapom-
poso, e nao pode conter este delicado epigrama. «L'au­
teur consacre ensuite quinze pages à l 'examen de cette matiere, et
cite bon nombre de peintres les plus connus . . . » 1 Anos depois,
GarrettpediuaoslivreirosBertrandsqueretirassemda
I Dictionaire Historico-Artistique du Portugal, p. 1 08.
1 32 TEÓFILO BRAGA
venda o poema, o ånimo delucrodapartedequem se
devera importar da reputaçao dopoeta, lez comqueo
Retrato de Vénus entrassenacolecçao das obrascomple-
tas de Oarrett. L natural que esta mesma causa traga
ainda a publicidade o poemeto d' 0Roubo das Sabinas,
em doiscantos,emverso soltoemnumerodeoitocentos
e quarentaversos,escritoem l 82O, aAlonsaida, deque
jalalamos,eopoemetoheroi-comicoemquatrocantos,
intitulado 0X ou A Incógnita, de l 82 l . ' Aautolatriaque
^lmeidaOarrettprolessavaloi a causadenaoterinu-
tilizadoestesesboçosdeumavocaçaoquesedelìne,por
issolìca também sujeito a tristeeventualidadede nos
mostrarosmeioscomovenceua correntedamediocri-
dadedo seu tempo que porvezes o envolveu.
Lmadascorrentes mais lortesqueiaminutilizando
o génio de Oarrett loi a monomania das tragédias na
épocadasualormaturaemCoimbra,quemdiriaqueo
admirador de Racine, de Voltairee de Crebillon,seria
o autordoFrei Luí de Sousa. Atragédialìlosolìcaeraa
unica manilestaçao que os homens ilustrados tinham
entao em Portugal para comunicarem os seus senti-
mentos liberais, o liberalismo, isto é, essa vaga noçao
republicanamescladacom o indeñnidosistemaconsti-
tucional, preponderava em Ì 8 l 7 a Ì 8 Ì 8, e agitava os
estudantes.Amarchadapoliticaeuropeiaproduziaen-
tre nos esta espécie de lenomeno das marés politicas.
Òsteatrosacadémicos surgiram paradarem expansao
aosgenerosossentimentos,entreosestudantes queeri-
giramoTeatrodoColégiodasArtesem Ì 8 Ì 3, aparecia
agora umnovo entusiasta,joaoBaptistada SilvaLei-
taodeAlmeidaOarrett. !undaram umnovoteatro na
Rua dos Coutinhos, e ai representaram de l 8 Ì 7 para
l 8l 8, Oarrett,joaquim Larcherejosé Maria Orande,
quelaziaospapéisdedama. Paraesteteatrinhoescre-
veuOarrettduastragédias,Lucrécia eXerxes relundiçao
I Catálogo dos Autógrafos, p. xxv.
HIST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 33
d' Os Persas, quedatavade l 8 l l . ' Lntreoutrastragédias
deCrebi||on, representou-seoRadamisto, traduzido por
joao Lloi Nunes Cardoso, estudante do segundo ano
médico,deAldeiaGalega.Garrettcompraz-seemcitar
estenomedoseu contemporåneo nas Fábulas e no Ro­
manceiro. Òsmédicoseramosprincipaiscu|toresdatra-
gédia h losolìca, porque o estudo das ciências naturais
lhes dava um certa independência inte|ectual que lal-
tavaaosteologosej uristasdaLniversidade, o lenteda
cadeiradeAnatomia!ranciscoSoares !rancoescrevia
tragédiasemverso,comoaHermínia, eolentedacadei-
radeI nstituiçoes Médico-Cirurgicasjosé!elicianode
Casti|holaziarepresentaremsuacasatragédias,como
as de Monti, que os lì|hos traduziam e desempenha-
vam. Ðesde l 8 l 8 a l 821 suspenderam-se os diverti-
mentos teatrais,´loi nesteinterva|o queA|meidaGar-
rettrelundiua sua Mérope; escreveuo primeiro e parte
do segundoactoemversosoltodatragédiadeÉdipo em
Colona, de l 82O, os
Á
rabes ou O Crime Virtuoso, dramade
l 82 l , de que resta partedoprimeiro acto, o projecto e
esboçodas primeirascenas deumdramaem três actos,
i nti tulado Inês de Castro; principio de acto de El-Rei
SeraPião; proj ecto de uma comédia em dois actos, e
principio do primeiro, intitulada Cirão.3
Lm JO dejunho de l 82O recebe Garrett o grau de
bacharel em Ðireito, quando a revo|uçao |evada a cabo
pelos treze beneméritos, em Agosto e Setembro desse
ano, loi celebrada nos Òuteiros Poéticos da Sa|a dos
Cape|os,em 22deNovembro, Garrettalìrmouos seus
sentimentos de liberdade a imitaçaoe|manista. Sai de
Coimbra lormado em Ðireito em l 82 l , regressando a
i| haTerceiranos mesesdeAbri|e Maio,oempenhode
I Garrett e os Dramas Românticos, p. 1 33.
, O Teatro em Coimbra, por F. M. de Carvalho. (Conimbricense, n. " 2: 355
e 2: 356. )
3 Catálogo dos Autógrafos, p. xv e xv!.
1 34 TEÓFILO BRAGA
umdespacholê-lonessemesmoanopartirparaLisboa.
Ðiz ele noprologo das Fábulas: «Òs cincoanosda vida
de Coimbra passaram, o sossego da casa materna a
que regressou, cansa-o. Ll e sai outra vez da sua
ilha tranquila para as tempestades da capital . » Jra-
balhava-se para a reuniao das Cortes consti tuintes
e discutiam as bases da nova Constituiçao de l 822,
Ð. joaoVI obstinara-se a permanecernoRiodejanei-
ro, e os partidarios da liberdade debalde aspiravam a
uma¡ustissima soluçao republicana, diante da prepo-
tência dos nobres, tais como a casa opulentissima de
Cadaval, diante do poder lanatizaoor das ordens mo-
nasticas,e de umexércitoaoserviçodarealeza. Nestas
condiçoesosgrandestalentose as maisheroicasvonta-
des dehomenscomoManuel !ernandes Jomas, como
josé!erreiraBorges,comoManuelBorgesCarneiroou
o coronel Sepulveda, deviam ser anulados pelo ludi-
brio, peladecepçao epelamorte. QuandoOarrettche-
gou a Lisboa encontrou os amigos da \niversidade,
lembraram-sedassuas representaçoesdetragédiaslìlo-
solìcasnosdivertimentosescolares,e PauloMidosiloio
primeiroa proporumarécita de curiososnoJeatro do
Bairro Alto, olerecendo a sua casa no Chiado para os
ensaios. Oarrett encarregou-se de lornecer a composi-
çaodramatica, eentredeze vinte dias deu porcomple-
ta a tragédia Catão. Lra um assunto conlorme com o
estado de espirito publico. Lste lacto loi um dos mais
lundamentaisdavidadeOarrett,porquedeterminouo
seu casamento. Ò Catão loi posto em cena em 2D de
Setembro de l 82 l , sendo a parte de Catao desempe-
nhada porjoaquim Larcher, a de Marco Bruto pelo
proprio Oarrett, adeMånlioporCarlosMoratoRoma,
a de Porcio por Neto, a de Sempronio por Matias
Marecos. Ò Jeatro do Bairro Alto era construido no
I Merecem ler-se os artigos publicados pelo Sr. Paulo Midosi com o título
Os Ensaios do Calão, publicados em seis folhetins do Diário de Notícias, por
conterem bastantes factos desconhecidos.
HI STORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 35
Largode S. RoquenolugarocupadohojepelaCompa-
nhia de Carruagens Lisbonenses, convém distingui-lo
doantigoTeatrodoBairroAlto,ondeserepresentaram
as célebres comédias dojudeu. A sala continha duas
ordensdecamarotes,comumavarandacorridasobrea
segunda, lora construido pela direcçao do pintorjoa-
quimdaCostaedocarpinteiroVicenteRomano,curio-
soqueveiomaistardealazerpartedacompanhia. Lra
proprietariodoTeatrodoBairroAltooescrivaodocri-
medessebairroÐionisiojosé MonteirodeMendonça,
inaugurou-se o teatro pelos hns de Ì 8l 5, mas teve de
estar um ano lechado por causado luto lorçado pela
mortedeÐ. MariaI . !oiumrevés queperturboupara
sempre a empresa. Quando se tornou a abrir, inau-
gurou-se com a comédia O PrínciPe Pereito) e era uma
das principais glorias da companhia o sapateirojoao
dos Santos Mata, quelaziadeprimeirogala. Quando
esta companhiaretirouparaoTeatrodoSalitre,aacti-
vidade de Teatro do Bairro Alto loi diminuta, revi-
vendoem l 82Ocom o regresso dos seus actores, sendo
empresarioLvaristojoséPereira,loielémeraestavida,
que durou da Pascoa até aos acontecimentos de l 5 de
Setembrode l 82O, em queo empresariose resolveu a
voltarparaoSalitre.Apenasaliluncionou uma compa-
nhia espanhola, lìcandodepoisdistooteatroparasem-
prelechado. A representaçao da tragédia Catão) em 2D
deSetembrode l D2 l , trouxeaoabandonadoTeatrodo
Bairro Alto as principais lamilias de Lisboa, diz o Sr.
Midosi. «Convencionou-se entreassenhoras quea toi­
leite seria modesta, e que todas se apresentariam de
chapéus. As poucas pessoas da minha lamilia, que vi-
vem, conservam grata memoria deste récita, e que loi
tao bem aceita quea 2 de Òutubro de l 82 l represen-
tou-se,masacompanhado,o Catão, deumalarsa O Cor­
cunda por Amor) em quecolaboroumeupai, porémonde
a parte principal coube a Oarrett. Vivia nesta época
um negociante por nome de josé Midos| que tinha
1 36 TE6FILO BRAGA
umalormosissima lì|ha de treze anos por nome Luisa
Midosi. ·· ' Nasegunda representaçaoem 2 deÒutubro
de l 82l é que Oarrettseapaixonoupor Luisa Midosi,
quecontavatrezeanose meio,estavaelaumcamarote
dasegundaordemtodavestidadebrancocomumcha-
péudecetim cor-de-rosa,Oarrettrecitou opro|ogodo
Catão comosolhoslìtosondee|aestava,dando ainten-
çao aos versos.
E tu sexo gentil, delícias, mimo,
Afago da existência e tIcanto de/a,
Oh! perdoa se a pátria te não deixa
O primeiro lugar em nossas cenas.
Lstesversosloramgravadosnumacaixacom tampade
oiroecomoretratodeLuisacomoseachavavestidana
noitede2 deÒutubrode l 82 l . Ò casamentoelectuou-
-se a l l de Novembro de l 822, mas a lelicidade nao
correspondeuao entusiasmodocoup defoudre. Antesdo
casamentoÐ. Luisaproj ectou umpiqueniquemonstro
emSintra, lormadodevinte pessoas,partindoem bur-
rinhos,novelhoestilosatirizadoporTolentino,dacasa
das Sr.' !ricks de Campolide, Oarrett escreveu para
essa lesta passada na Quinta daCabeça, a 8 de Abril
de l 822, o lmpronto de Sintra, ali representado por seu
cunhado Luis !rancisco Midosi, quelaziadeingénua,
e pe|osogro, que lazia degracioso. ´ Lm l 2 de Agosto
deste mesmo ano loi Oarrettdespachado olìcial dase-
cretaria do Ministério do Reino. Ò lmpronto de Sintrà
h cou inédito.
Oarrett ajuntou a este manuscrito a seguinte nota,
querevelaasrelaçoesespeciaisdessaépocaemquere-
produziamosja anacronicamente a galanteria a Luis
xv. «Conservo i s to, nao peloque va|e, mas para me-
moriadestessaudososdiasque, nacompanhiadeami-
I Citados folhetins do Sr. Paulo Midosi.
2 A data do casamento fxa-se em outros trabalhos, em I I de Novembro de
1 822.
HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 37
gos,passeinodeliciosositiode Sintra. »' Logo em 2G de
Maio se represen tou ou travez em Sin tra o dramade
GarrettemdoisactosOs Namorados Extravagantes. Ðaqui
loi lacil o enredar-se nessas intrigas de aIcova, e em
dispenderoseu talentoemodesconlìdenciais,ajulia,a
Lilia,aAnalia,queagorasucediamasÐelmiraseMar-
cias, das lérias do Porto,
. . . . . . grato emprego
De um rapa< amador do belo sexo,
Entusiasta e cálido. '
Lste estado moral e intelectual esta cabalmente re-
lIectido nessa outra obrinha insignilìcante em que da
Lições de Poesia ajulia. Ah, perlumado e empoado Ðe-
moustier| até ca este cantobeatoe tristese estendeu o
teu mundodasensiblerie equivoca, dos lìnosrequebrose
i ntercortados suspiros, vieste-nos suprir os Amorinhos
lubricosdopinceldeWatteauedeBouchercomastuas
alegorias mitologicas, com os teus versos aliados em
doce conubio com a prosa, e com a tua elegåncia de
braçodadocomainsipidez.Aboasociedadeportugue-
sa, onde a mulher cumpriu a risca o nosso velho ane-
xim. Chorar, parir e fiar, ha-derespirarsatisleitacom as
tuas Cartas a Emília; a tuadesenvolturaha-de-|hepare-
cer mais pura que os ditos sujos das comédias doju-
deu| Lntra,suaveÐemoustiere empoaa cabeçaa esta
gente, que até hoj eso conheceu a cinza da tristeza bi-
blica.
As ideias literarias de Garrett, antes da emigraçao
em l 82J, estao completamente representadas no Liceu
das Damas -Lições de Poesia a Uma Jovem Senhora, 1823;
quatro destas lições foram publicadas em 1827 no jornal
O Cronista/ e a parte ainsulìciênciadessacomposiçao,
I Catálogo dos Autógrafos, p. xv.
, Lírica de João Mínimo, p. 39.
3 Vol I , p. 1 09; 1 52; 1 77; e vol. II, p. 1 75.
1 38 TEÓFI LO BRAGA
surpreende-nos o encontrar no plano de reproduçao
das obras completasdeGarrett, em l 8JD, aindaanun-
ciadoo«Liceu das Damas [inédito) noestiloepelalorma
das Cartas a Emília, de Ðemoustier, como lìm de aper-
leiçoar a educaçao literaria do belo sexo. »' Pois nao
progrediravisive|menteopoetadepoisdaemigraçaode
Portugal , que l he i nspi rara os poemas Camões, e
D. Branca? Para que voltar a este passado mesquinho
da lalsa imitaçao de Ðemoustierº Garrett também se
serviada|iteraturacomomeiodega|anteria, pertencia
aépocadaRestauraçao,eporissonaoquis anularesse
livrinho que o tornaria simpatico ao belo sexo. No in-
ventariodos seus papéis,aqueprocedeu seugenro,en-
contra-se o e|enco destas Lições de Poesia a Uma Jovem
Senhora; dividiam-se em três |ivros. I Principiosgerais,
contendo. liçao l PrincíPio das Artes -o Belo. 2 Fim das
Artes, Prazer e Instrução. J Poesia, Sua Antiguidade, Seus
Vários Géneros. 1Poesia Antiga de Homero. 5 Homero. GHe­
síodo -Alceu. 7 Safo. 8 Anacreonte. D Píndaro, Corina. 1 0
Téspis, Ésquilo. l l Poesia na Sicília. Livro I I . Poesia la-
tina. cap. Ì 1 Poesia na Itália, Énido, Cipião, etc. l 5 Plauto,
Cipião, etc. l 7 APereiçoamento da Poesia Latina pela Con­
quista da Grécia. Lúcio, Lucrécio, Catulo. l 7 Horácio. l 8Vir­
gílio. l D Fedro, Pérsio, etc. Livro I I I . Poesia moderna.
|içao 2OInvasão dos Bárbaros, 2 l Meia-Idade, formação das
Línguas Vivas. 22 Poesia do Norte e Meio-Dia. 2JTrovadores,
Primeiro Elemento da Poesia Moderna. 21 Bardos, Segundo
Elemento da Poesia Modera. 25
Á
rabes, Terceiro Elemento da
Poesia Modera. 2G Bíblia, Quarto Elemento da Poesia Mo­
derna. 2 7 Formação da Poesia Moderna, Suas Divisões.
Conclusão. 2
Quem |er este simples esboço suspeita [embora se
descubraaprimeiravistaausênciadeumanoçaosinté-
I Prospecto da casa Bertrand.
, Apud romance Helwa, p. XXXIII: Catálogo dos Autógrafos, Diplomas, Docu-
IlIelltos Políticos e Literários, etc.
.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 39
tica e sobretudo do espirito da historia literaria) que
devem existir nessas paginas algumas dessas observa-
çoescom queOarrettreve|oumaistardeasuaintuiçao
artistica. Nem isso, é tudochatoe pueril, comoo mo-
de|o queseproposimitar, como esseincolore insipido
Ðemoustier,cujatraduçaoportuguesatantocarece,|ei-
ta pe|o seu patricio !erreira Borges. «A proposito do
amante de Emília; tu ja leste a elegante traduçao de
suaslindasCartas, comquebrindouanossalinguaoSr.
!. B. º Nao te parece que l helìcam taobemos trajos
portugueses aque|asuciade deuses e deusas, queesta-
vamar|equinadosaparisienseºLupormim,gostomais
deles assi m. acho mais pilhériaao padreApolodando
as gåmbias atras de Ða|ne e gritando com derretida
|amuria.
Cruel, eu / '0 peço, pára.
«Mas ela nao parou, e |oi correndo, inda mal ' para se
|azernumaarvore. L taobonitaesta|abulaem portu-
guês . causou-me dobrado prazer do que no original,
que, apesarde belo, tem todavia uma certa a|ectaçao
em que |orçosamente cai

a lingua |rancesa apenas a
desviam do seu trilho natural e chao. Sempre é lingua
detrapos. vivaanossaportuguesa,queéoutracastade
idioma' »' L assim que ensinaa suaIíliae lheprocura
desenvo|verogosto.Queestadodeploravelesteemque
traduziamos Ðemoustier em Portugal, amesquinhan-
do-nos na sua estolidez' Se Oarrett deixou um do-
cumento incontroverso do seu talento, |oi o tervencido
esta |alsadirecçao em que se achou arrastado. Renan
ao estudar o livro de Creuzer sobre a Simbólica, da a
Ðemoustier a i mportåncia de citar-lhe as Cartas a
Emília sobre a Mitologia: «L evidentequeapropriaanti-
1 O Cronista, vol. I, p. 1 55. ·
1 40
TEÓFILO BRAGA
guidadecessou de compreenderasuare|igiao,e queos
velhosmitos que desabrocharamdaimaginaçaoprimi-
tivaperderammuitocedoasuasignil¡caçao.Aideiade
|azer destas |abulas venerandas um todo cronologico,
uma espécie de historia divertida e conveniente, nao
data de Bocacio ou de Ðemoustier. Òvídio realizou-a
num |ivro um pouco menos mau do que as Cartas a
Emília. »' Léojoubert, ao estudaraHistória das Religiões
da Grécia Antiga, de Maury, acrescenta para o j ulga-
mento de Ðemoustier. «Paraumhomemde senso e de
gosto, o haver|o|heado as Cartas a Emília, é um desa-
gradavel acidente que se naodeverepetir. Nao se ar-
rosta duas vezes com o tédio destas tolices pretensio-
sas. · ' Lsta é a verdade, as Lições de Poesia a Uma Jovem
Senhora, que procuravam «|azeramavelo estudodasle-
tras,eintroduzirentrenosotaoengraçadoquantopro-
veitoso método de Ðemoustier, para ensinar diver-
tindo»saocomooseumodelo,tolasepretensiosas.Na-
queleestadodeespírito,seOarrettsenaotivessevisto
|orçadoaemigrarde Portugal,asairdestemeiochilroe
sensíve|,estavaperdidoparaaliteratura,eaindaassim
a|rivolidadedaépocapenetrou-otaointimamente,que
apesar de ter realizado per|eitas criaçoes artísticas,
nuncapode dara suaobraumplanoh|osol¡co.
Lxtractaremos aqui algumas passagens da |içao IV,
porventuraaquela,emquetendodeexpormais|actos,
estava mais segurodecair na banalidade. Trata-se da
História da Poesia Antiga; Oarrett ataca o assunto com
este tom.
«Hapoucosmodosdevidatao|aceis, comoo deim-
postor. esehacoisasentaoemqueesteoliciosej a|acíli-
mo, é em literaturas e antiguidades.
I
É
/udes d'Histoire Religieuse, p. 9.
2 Essais de Critique el d'His/oire, p. 10 I .
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 41
«Queres tu ver como e u cito
Os Egípcios e Caldeus,
Os Persas e os Hebreus,
E depois os Cananeus,
Moabitas, Filisteus . . .
«eoutrosmaisqueacabamemeus, dosquaiscustapou-
coadizer,queloramgrandeshomens,porémquenada
sabemos delesº
«Assim |azem quase todos, e assim |aria qualquer
agora,enlìandoumrosariodeinuteisconj ecturasantes
que chegasse a entrar em matéria. Lu que pretendo
pouco da lama, e cujo lìm é dara minha discipula.
"Fáceis lições do meu saber ingénuo,
Que a doutora sebenta carapuça,
jamais li lisa jrelle
Encaixá doutamelte;
«eu que adoptei a letra do elegante Procopio.
Domina judice, tutus ero;
Do meu bem, do meu amor
Só quero glória e louvor;
«eu por mim contento-me de te dizer, que em poesia
o maisantigoqueconheçosaoascomposiçoesgregase
hebraicas. Òs Oregos |oram provavelmente os povos
europeus que primeiro cultivaram as belas-artes. Se a
risonhaeengenhosaMitologiados antigosa houveram
eles do Lgipto ou da Índia ou de ambas as partes, se
Homero |oi tao-somente um tradutor, um colector de
trovas, nisso nao me meto eu, o que sei, e o que me
importa, é que as obras que nos chegaram como seu
nome, as que nos vieram com esseoutrode Hesiodo,
sao as mais completas e antigas que na Luropa se co-
nhecem.
1 42 TEÓFI LO BRAGA
«E que me importa a mim que o grego Homero
Não seja o autor da Ilíada divina,
Se eu gosto quando a leio, e lê-la quero
Apócrifa ou genuína?
Podem essas questões dos antiquários
Fazer menos formosa
Andrómaca saudosa
Quando às forças de Tróia assediada
Co' flhi1ho IIOS braços
Vem dar -talvez os últimos abraços
Ao seu querido Heitor?
Poesia tão sensível, delicada,
Toda meiguice e amor,
Toda arrobada, lânguida, terura.
Perde acaso de sua fomlsura
Se os críticos em dúvidas ttrarem,
E altas questões travarem
Sobre o Ime do autor?
«Simples,naturaléessapoesiagrega,graveesublimea
tempo, e a tempo engraçada e mimosa, sempre ele-
gante. Mode|o é e seradetodaa poesia classica. Toda
e|a é sentidos,tudo ne|a lisonj eiasuavemente. naotem
as nossas metaüsicas, tudo o que pinta vêem-no os
olhos,palpa-oo tacto,mas quanto maisdelicada ediü-
cilé essa maneiradepintar' »Ðepois disto passaa|a|ar
deHesíodo. «tambémnao|oimuitomaisantigo,épara
assim dizer o Ðante dapoesiaclassica». L percorreas-
sim a lista dos aedos gregos. «Ðestes cantores divinos
oudivinizados, Anüon é o primeiro cuja data é pouco
mars ou menos certa. . .
Co 'os magos sons da lira,
Co'a eloquência divina
Que a branda persuação 1/0 peito inspira,
Aos homtls rodes, bárbaros ensina
A erguer uma cidade,
E sua brota fereza
Co'as bre1has a deixar na soledade!)
Lino é caracterizado em poucos traços. «Lino tam-
bém se |ez nomeado na Orécia pelo primor com que
associavaos sons davozaosdalira, encordoadaentao
com simples h os de linho, aos quais eles substituiu as
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 43
cordas mui to mais harmoniosas que ainda hoj e se
usam. »Belaperi|raseparanao|alarnas cordas detri-
pa. «!oigrandeimpostorÒr|eu, inventouque,mortaa
mulher, a |ora ele buscar ao in|erno, e que Plutao lha
restituira.Tusabesestalindae muiternahistoria, nao
te en|adareia repetir-taaquiassim. . . Òr|eu |oi um ha-
bilimpostor, maspro|essou umamoralsa,estabeleceu
na Oréci a as cerimonias religiosas que trouxera do
Lgipto. »
Como se pode explicar este acervo de |rivolidades
num homem que mais tarde deu provas de talento e
de tino artistico, senao pela inD uência do seu mestre
degregojoaquimAlves,epeladisciplinaautoritariado
seutio!reiAlexandre,queo amesquinharamaoponto
deeleger por modelo a Ðemoustierº A esteorganismo
viciado,sootonicodeumaviagemaoestrangeiro,para
readquirir o senso comum, para respirar na atmos|era
das ideias. Seele nao tivesse talento, voltaria a patria
curado da monomania de escritor e tornado homem
pratico, se dentro daquele cérebro |alseado existia al-
guma centelhadesse estado a quesechamagénio, ela
entaoalcançaravenceressesvaporescarregadosdope-
dantismo pedagogico, e transluzira na sua naturali-
dade. As circunståncias |avoreceram o desenvolvi-
mento de Oarrett, a restauraçao do absolutismo em
Portugalobrigou-oaprocurarasilonoestrangeiro,j us-
tamente no periodo em que as doutrinas do roman-
tismo se discutiam nos teatros em novos dramas, nos
jornais emteoriascriticas, e empoemasinspiradospor
um intuito h losoh co.
Lm l 82O estavaj aOarrett absorvido pela imitaçao
das|ormasde!ilintoLlisio,ecomosentimentalismo idili-
co propagado porjean-jacques Rousseau, que se tor-
nara uma monomania naturalista do hm do século
XVIII. Oarrett nasceranestemeio|also, e obedeceu-lhe
|atalmente, era moda admirar a natureza, mas a na-
turezaconvencional, comoumapaisagemdeWatteau,
1 44 TEÓFILO BRAGA
em Ì 82O, quando ainda estava em Coimbra, ojardim
Botånico seduziaOarrettcomoumalmorecintosagra-
do a !|ora.
Aqui, onde o perfume saudável
Respiro de mil fores,
Como sinto embeber-se-me a existência
Em cada trago destes,
Que os sequiosos pulmões, té qui só fartos
De ar pestilente e mau,
Deste suave e puro ávidos sorvem,
E com ele o remédio
Ao trabalho, enfraquecido peito,
Ao mui pausado sangue!
Era esteo esti|o naturalista, queviaas coisas através
deepítetosvariados,queamavaOessnere !lorian, era
um poucochinho mais do que o buco|ismo do sécu|o
XVI. OarrettcomentaestaodeaoPasseio de Madrugada no
Jardim Botânico de Coimbra: «Em2Odejunhode Ì 82O,e
na convalescença de perigosa moléstia, |ui de madru-
gada respirar o puríssimo ar do sítio chamado em
Coimbra-|oradeportas.Acheiabertoojardim Bo-
tånico. entrei. Eu e dois ou três trabalhadores éramos
os únicosviventesdespertos.Ali, debaixodapalmeira
que esta no ú| timo p|ano dojardi m, escrevi estas
linhas. »' Ðestadoença|alaOarrettnosversosrecitados
na Sa|a dos Cape|os na noite de 22 de Novembro de
Ì 82O,quandoal i celebrouumouteiropoético,comosi-
nal de regozij o naciona| por se ter acabado o protec-
toradoinglês. Ò seuco|egadaLniversidade, Castilho,
tambémbateupalmasnesteouteirocatedratico,ú|timo
restodeumcostumeportuguêscompletamenteextinto,
hoj e substituídope|osdiscursosacadémicos,oraçoesde
recepçao, toasts, etc. Naquele tempo os metri|ìcadores
eram parte obrigada de todas as |unçoes púb|icas ou
|ami|iares,e eratal oprestígiodesteuso,queosdesem-
I O Cronista, vol. II, p. 69.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 45
bargadores, os bispos, os lentes e generais nao dariam
provaplenadasuagravidadesenaosoubessemmetrih-
car uma campanudaode epodica, um desa|inhado di-
tirambo ou pelo menos umaconceituosa décima. Oar-
retteducadotambémporestegénerode tertuliastinha
latalmentedeadmirarBocage,o deusdosouteiros poéti­
cos; a admiraçao consistia neste tempo em i mi ta-lo
usandoostroposque|heeramcaracteristicos,eemque
residia o segredo da harmonia elmanista; escreve Oar-
rett, na composiçao do outeiroda Sa|ados Capelos.
Ergo tardia voz, mas ergo-a livre,
Ante vós, ante os céus, aIte o universo,
Se os Cus, se o mundo minha voz ouvirem.
!elizmente Oarrett contraba|ançou esta desastrada
inl|uência pelo estudodasriquissimas construçoes dos
versos de!ilinto, Castilhoobedeceu mais tempo aoel­
manismo, queo lez produziro insu|sopoemadas Cartas
de Eco. Istobastaparadiscriminaradilerençaentreos
dois escritores, ambos escreveram as suas primeiras
obrasdentro deummeioliterariamenteabsurdoe cor-
rupto, porém Oarrett modih cou a corrente porque ti-
nha individua|idade artistica, Castilho so abandonava
uma inlIuência, quando outra lhe apresentava me|hor
vantagem de imitaçao. Oarrett descreve a |uta entre
a inDuência da poética elmanista e hlintista. «A metrilì-
caçao de Bocage, julgam-na sua me|hor qua|idade, eu
a pior, ao menos, aquepioreseleitos causou. Naolez e|e
umversoduro, ma| sonante, lrouxo,porémnao saoes-
ses os unicos deleitos dos versos. As varias ideias, as
diversas paixoes e alectos, as distintas posiçoes e cir-
cunstånciasdoassunto,doobjecto,demi|outrascoisas
-variadamedida exigem, comoexigeamusicavarios
tons e cadências. A mesma medida sempre, embora
cheia e boa, o mesmo tom, embora ahnado, a mesma
harmonia, emboraperleita,omesmocompassoembora
exacto, lazem monotona e insuportavel a mais bela
1 46 TEÓFILO BRAGA
peça de música ou de poesia. L tais sao os versos de
Bocage, quenospretendemdarparatiposseusapaixo-
nados cegos, digocegos, porque muitos temele ¸enesse
número que conto) que o sao, mas nao cegos. »' Nao
haveraaqui umaalusaodirectaaCastilho,quemetrih-
cava entao empleno elmanismo? Continua Oarrett.
«MasenquantoBocageeseusdiscipulostiranizavamo
gosto, !ranci sco Manuel , úni co representante da
grandeescoladaOarçao,gemianoexilio, edela,com
os olhos htos na patria, se preparava para lutar con-
tra a enorme hidra, cujas i númeras cabeças eram
o galici smo, a ignoråncia, a vaidade, todos os ou-
tros vicios que iam devorando a literatura nacional. »'
Castilho, nas Escavações Poéticas arrepende-se de ter de-
clamado contra !ilinto, e nas notas daPrimavera ataca
Bocage e os deleitos do elmanismo a que tanto tempo
obedecera.
ReinavatambémemPortuga|a monomaniadastra-
duçoes,aincapacidadedecriaçaooriginallaziaprelerir
tudo o que se traduzisse. Bocage e !ilinto haviam dis-
pendido as suas laculdades em traduzir, traduzir, tra-
duzir. Oarrettteve tambémdelutaralgum tempocon-
tra esta corrente, e venceu-aopondo-lhe belas criaçoes
originais, Castilholoi arrastado pe|a mesma absorçao,
ñcou totalmente nela e morreu traduzindo. Oarrett
caracteriza esteestadodissolvente. «Mas detraduçoes
estamos nos galos . e com traduçoes levou o último
go|pe a |iteraturaportuguesa, loi a estocada de morte
quenosjogaramosestrangeiros. . . Lstamaniadetradu-
zirsubiuapontoemPortugal,edetalmodoestragouo
gosto do público, que nao so nao lhe agradaram, mas
quasenaoentendiaos bonsoriginais portugueses, etc. »
(ib. ) Ðestaépoca ¸ l 82O- l 821) existeempoderdosher-
deiros de Oarrett, o Catulo, traduzido e anotado, con-
I Escrito em 1 826. Vide prólogo do Pámaso Lusitano.
2 Ibidem.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 47
tendoasseguintesodes. a CornélioNepote, ao Pardal-
zinho de Iésbia, a morte do Pardalzinho, a Iésbia, a
!lavio, a si mesmo, a !úrio e Aurélio, a Asinio, a !a-
bulo, a Calvo Iicinio, a Peninsula de Sirmiao, Canto
Nupciale LpitalåmiodePeleuedeJétis. Lstemanus-
crito traz a seguinte nota autobiogralìca. «Lmpreendi
esta versao no meu último ano de Coimbra, l 82O a
l 82 l , e de Ðezembro ajaneiro desse ano, ai traduzi
algunsdessespoemetos,oquetambémh zpelomar,na
minhaviagem ailhaJerceirana Primaveradomesmo
ano e nacurtaresidência que la h z. Lm !evereiro de
l 821,emIondres, continueiaobra,eagoramecinjoa
elacom maish rmestençoesdelevaraocabo.Havre,2D
deAbrilde l 821. »' A lubricidadedaépoca daRestau-
raçao é que prendeu Oarrett a traduçao de Catulo, de-
pois de chegar a Inglaterra e !rança, mas o número
incalculavel de obras-primas do romantismo cedo o
desviou do culto exclusivo da Antiguidade, e é nesse
ano de l 821 que seoperou a pro|unda revoluçao psi-
cologicaquelhe deu a sua superioridade artistica.
Ò sentimento artistico de Oarrettja antes de l 82J
l utava para seemancipar da subserviência da mitolo-
gia,em umanotaa umaodesahcasobreoAmor Mater­
nal descreve Oarrett este seu es|orço. «Ðizia-me um
certo conhecido dos meus tempos de estudante. ' Ho-
mem, osteusversos nao sei quelhes |alta. naodigoque
saomaus,mas,taopoucariquezada|abula'Nemjúpi-
ter, nemVénus, nem Apolo. naoseicomopodes |azer
versos sem mitologia. Se tu és poeta, que |azes dúzias
deodesseminvocarumasovezasMusas | ' ' Lunaosou
poeta' , respondi ao meu amigavel Aristarco, 'no sen-
tido comum. A con|essar a verdade, nem me lembra
assim de cor de quatro nomes |eitos de deuses da |a-
bula. Pintod'apres nature o quepossonas minhas regri-
I Catálogo dos Autógrfos; apud Helena, p. XXVI.
1 48 TEÓFILO BRAGA
nhas curtas e compridas, mas nunca entendi em ser
poetano rigore certavaliadapalavra. Quando come-
cei a babujara tal|ontedeAganipe ¸ destenome ainda
me recordoeu) tinhaa mesmamaniaquetu tens, mas
depoiscertos alemaeseinglesesqueli,lìzeram-meper-
der a devoçao aos santos de Hesíodo. Nao reprovo o
uso da|abula, masatempoehoras.Òmuitorecheioda
mito|ogiadaascomposiçoesmodernasun¡ardea|ecta-
çao e desnacionalidade pedantescamente ridícul o.
Quero|azerversosportugueses,emportuguêse portu-
guesmente. Alémdeque, ¸ comocemvezestenhodito, )
para mime soparaosamigos os|aço. Llese eu temos
poucoquehavercomMarteseSaturnos,emuitocoma
natureza e o coraçao, unicas e verdadeiras |ontes da
poesiaedetodasasbelas-artes.Ðapoesia¸perdoa-me)
cadaminha poesia. nao|alodaoutraqueé moda por
aí,dequenaoentendonemqueroentender,porqueme
cheirasulìcientementeaFénix Renascida, eaoCondeda
Lriceira. Ò meu crítico sorriu-se e eu lìz o mesmo. · '
!ixamosadatadestadescriçaoautobiogralìcaantesde
l 82J, porque daode que ela comenta traz a seguinte
nota. «Boa parte desta ode |oi roubada ao seu autor e
publicada com outras coisas que a deslìguram numa
brochurazinha impressa emCoimbraem l 82J. »
Aviagemai|haTerceiraeml 82 l naodeixoudedes-
pertar-lhe o sentimento, |alsilIcado pelo convencio-
nalismo arcadico, o pobrejónio Duriense, que assim se
chamavao poetalìliadonoestadopastoraldeMémnide
Egnense, ¸ Castilho) lìcaria mais anos atrohado no in-
sulsoidílico,seocontactocomanaturezaonaoarrran-
casse aos Ménalos, aos Pindos e a convivência do Pé-
gaso.Òsversosqueescreveuporestaocasiao|embram
jaaque|esnaturalíssimose melancolicosdopoema Ca­
mões, que a atmos|era do estrangeiro lhe havia de ins-
1 O Crolista, vol. I, p. 65.
HISTÓRIA DO ROMANTI SMO EM PORTUGAL 1 49
pirar. No |ragmentoda poesia O Mar |aladas |agrimas
saudosas.
Que a fo destes olhos se deslizam, . . .
Co'a POl t a do alvo manto ameiga a face
Que o acre ardor do pranto me há crestado.
EO mesmotimbredo canto v dopoemaCamões; mas
Oarrettestavaem Ì 82 Ì , saía dobancodas esco|asonde
dominava a chateza arcadica, e porisso aorecordar-se
deCoimbrae das ßoresdosj ardinsdoMondego, volta
a tradiçao.
Por ventura o meu Jónio passeando . . . '
Sempre pessoal em toda a contemplaçao artistica,
Oarrett acompanha esse |ragmento com a nota. «Lste
|ragmento|oi escritonomarem|ongae penosaviagem
nos meses de Abril e Maio de l 82 Ì . » Lra ainda a in-
û uênciaarcadicaqueo|aziaescreverumpoemaheroi-
-comico em quatro cantos, intituladoX ou A Incógnita,
a|usivo aos sucessos de l 821, que nao chegou a passar
dosegundo canto, e queparasuagloriah couinédito,'
era mais uma concepçaohibridacomo a Benteida ou a
Santarenaida, inlIuenciadapeloReino da Estupidez, quese
|ia bastante em Coimbra.
Na sua vinda para Lisboa, Oarrett veio encontrar
acesaatradiçaoarcadica, eramainda modaosouteiros
poéticos,easuavivacidadederapazatraiu-oparaeles.
NoprologodaLírica deJoão Mínimo descreveumouteiro
poético de Òdive|as, em que tomou parte. «NoVerao
de l 82. . . sucedeu uma tardedejunho, que me encon-
treinoconhecidoca|édoM. comumasuciaderapazes,
|eais h lhos de Apolo, e, como é natural, a nossa ani-
madaconversaçao entrou logope|os distritos poéticos.
, O Cronista, vol I , p. ni.
2 Catálogo dos Autógrafos, p. xxv.
1 50 TEÓFILO BRAGA
Veio-se a |alarem outeiros, alegre e engenhoso passa-
tempodenossospais, quase perdidohojenabara|unda
das malditas politicas, desprezado e mal avaliado por
umamocidadeestragadae libertinaquetemodescoco
de pre|erirascartas daNova Heloísa e do excomungado
St . Preux as éclogas do pastor Albano e da pastora
Ðamiana' ÷queousam anteporosdescompostosver-
sos de !rancisco Manuel e suas odes hieroglihcas aos
retubantes, altissonantes e nunca assaz louvadossone-
tos da escolaelmanista! . . . Vamos a Òdivelas aoouteiro
deS. joao. . . . j amaisdedezanosquesenao|az. . . VaiN.
e N. N. que hao-de aterrar tudo com sonetos e col-
cheias, e ja levam provisao de quartetos e consoantes
distoque chamamnariz-de-cera, que servemparatodoo
mote,. . . Começaram logo a iluminar-se asjanelas das
|reiras, e a luzir pelas rotulas, pelas grades as airosas
toucas e os |eiticeiros véus, certamente pouco avaros,
que devezemquando o lampej odeumlindo rosto, de
matadores olhos in|Iamavam a imaginaçao dos nossos
jovenspoetas elhes|aziamdizermilharesdecoisasbo-
nitas. Lra electricidade que se estava desperdiçando.
' Vamos a i sto, a isto rapazes ' ' , |oi a voz unånime.
L brados de ' Mote! Mote' , aos quais, depois de breve
silêncio, respondeu uma voz |Iautada e sonora, que
parecia mesmo de um querubim ÷ de que nao esta
costumado a coisas deste mundo.
Amor seu facho nesta noite apaga.
«Ðebandou toda a |alange, passeou-se, es|regou-sea
testa,roeram-seunhas até aosabugo,e,alìnal,palmas.
Lá vai; e saiu o soneto . . . Seguiram-se colcheias e mais
I Garrett refere-se a uma composição de João Xavier de Matos, que
Filinto Elísio citava como sabida de cor pelas peixeiras do seu tempo, e as
ladinas das comédias de cordel recitavam.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 5 1
sonetose muitasversalhadasouteirasde todaaespécie
e calibre, com muitoe muigulosodoce,queas madres
nosdeitavam, e queaomenosparamim, nao|oi a me-
nos agradavel circunståncia da noite. » Aqui h ca uma
comp|etadescriçaodo queeraumouteiropoético, que
oscostumesdoséculoXVIII mantiveramentrenosatéa
época do romantismo. Òs poetas que entao viviam na
i ntimidade de Oarrett eramjosé !rederico Pereira
Marecos, Larcher, Carlos Morato Roma, Paulo Mi-
dosi,ea|gunsoutros,cujasobrasseperderam.ALírica
de João Mínimo, que encerraas composiçoespoéticasde
Oarrettdesde l 8 l 5 a l 82J, easFlores Sem Fruto emque
esta coligida uma grande parte do que escreveu em
l 82J, ressentem-se deste estilo arcadico, modihcado
por um inteligente estudo da metrihcaçao de !ilinto
Llisio, que revelou a Oarrett a melodia do poema de
Camões; as estro|es sao quase sempre em endecassila-
bos, com os seus hemistiquios, com um sentimen-
talismodequemabriuosolhosaoshorizontesdeRous-
seau, e com a personalidade dequem ainda respira na
atmos|erasodalitia deHoracio. QuandoOarrettsequer
elevar a generalidade do sentimento, cantar um ideal
humano,limita-seaestastesesdeAcademia,comosao
o amormaternal,ainmncia,asoledade,osdesej os,etc.
AsFábulas saoigualmenteumprodutodoespiritopoé-
tico do século XVIII, inspiradas pela leitura do desen-
volto abade Casti. Mas a melancolia romåntica |acil-
mente se apossava de Oarrett, valetudinario e timido,
quando Ooethe, ao escrever o Werther, essa concepçao
deuma|orteindividualidade,naosepodeeximira |as-
cinaçao dos poemas de Òssiam, como é que o ténue
Oarrettdeixariadeserimpressionado, e para sempre,
das aventurasde!ingaledas|estasdeSe|maºNasFlo­
res sem Fruto vem umatraduçaode uns trechos do poe-
made
Ó
scar, com umaintroduçaoemversocalcadoso-
breomesmoestilo,daqualdiz. «!i-laeuparameexer-
citar numgéneroque nosprimeirosanos, mepareciao
1 52 TEÚFILO BRAGA
sublimedos sublimes. . . »1 Oarrettconservou todaasua
vidaessamelancoliaossiånica, em todas as suasobras
predomina o vagocismarde quem tira o ideal de um
passadoquenaotorna. !oiestamelancolia,quepreci-
sou empregar-se em uma saudade qualquer, que o le-
vouasentiropassadoe adescobrirassimosentimento
nacional, que devia produzir o nosso primeiro movi-
mento romåntico. Se Oarrett nao saisse de Portugal,
naoteriaem l 821escritoopoemaCamões, e,comoCas-
tilho, talvez nunca houvesse comprcendido o espirito
daliteratura moderna.
A historia politicadaprimeirametade deste século é
o mais D agrante documento da imbeci|idade de um
povo. Ðepois que Ð. joao VI conheceu que o I mpério
do Brasil lhe escapava, lembrou-se, para nao perder
tudo, devoltar a Portugal, antes que as Cortes consti-
tuintes o destituissem. Nao sabendo coisa a|guma da
situaçao po|itica, a pretexto de um empréstimo man-
doua Lisboao negociantePereiradeA|meidaparain-
|orma-losecretamentesepoderiaaindaentrarem Por-
tugal. NodiaJdejulhode l 82l entravanoJejoa|rota
coma|amiliadeBragança,dondeoreisodesembarcou
depoisdereceberautorizaçaodasCortes,j urouaCarta
Constituciona|, passou portodasashumilhaçoes e ter-
rores para conseguir apoderar-se do poder executivo.
Carlotajoaquina, dignairmadoin|ame !ernandoVII,
vendo que nao podiaapoderar-se do Partido Liberal,
com o qual o rei se conciliaria, tornou-se o centro da
reacçaoabsolutistacontratodasasre|ormas inaugura-
das pelaRevoluçaode l 82O. Ð. joao VI naoera estra-
nho a estes manejos, posto que simulava atender mais
osconselhosdosliberais,masanomeaçaodeseuh lhoo
in|anteÐ. Miguel para comandante-em-che|e do Lxér-
cito é a prova evidente da sua ma-|é. Quando o regi-
I Flores Sem Fruto, p. 226.
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 53
mentovinte e três de inlantariasaiude Lisboa para as
provinciasdo Norteemobservaçaocom receiodosmo-
vimentosdo exército docondedeAmarantesublevado
contraa Constituiçao, o mesmoregimentosublevou-se
tambémavozdoseucoronel,eraumplanoconcertado.
Ð. Miguel loge do Palacio da Bemposta para San-
tarém, donde proclama contra os pedreiros-livres que
usurpavam os inauferíveis direitos de seu pai, preten-
dendo ir contra a rebeliao de seu lìlho, Ð. joao VI
rasgou a Constituiçao e aceitou o poder absoluto, como
prémio do movimento o conde de Amarante loi leito
marquês deChaves, e o inlante Ð. Miguel comandan-
te-em-chele do Lxército.
Começaramasperseguiçoescontraospartidariosda
Revoluçao de l 82Oe daCartaConstitucional de l 822,
o grandeManuel!ernandesJomassucumbiu. Òsque
recearam a estrangulaçao

nos carceres relugiaram-se
nospaisesestrangeiros. !oiemjulhode l 82J, oitome-
sesdepoisdoseu casamento, queOarrettemigroupara
o Havreacompanhadoporsuamulher. Pararesistirna
suanovasituaçaoaceitouolugardecaixeironacasado
banqueiro Laüìte,onderecebeuoordenadodedoismil
lrancosporlazera correspondênciaestrangeira. Lm2J
deAgostodesteanoregressou aindaa Portugal, mas a
IntendênciaOeralda Po|iciahouvepor bem considera-
-loperigosopara a ordempublica, e obrigou-o a aban-
donara patria. deu-lheahonradodesterro.I Noprolo-
go das Fáb ulas e Folhas Caídas es creve o poet a.
«Acausa dopovoétraida, abandonada. . . elenaoaaban-
dona,prelereoexilio,e emterraestrangeiraoouvimos
cantarassuasimprecaçoes,assuas saudades, e acons-
tåncia indomita do autor do Catão. » ¸ p. XVII. )
I Demitido do seu lugar de oficial da secretaria do Ministério do Reino,
por decreto de 30 de Agosto de 1 823.
2. INFLUtNCIA DA EMIGRAÇÃO
( 1 823 a 1 827)
o Congresso d e Verona extinguindo a forma constitucional e m Espanha,
determina a queda da Constituição em Portugal em 1823. -Byron senten- .
ceia Chateaubriand. - Estado político e Portugal, segundo as reminiscên­
cias diplomáticas de Lorde Holland. -Estado da literatura antes da emi­
gração. -O grande Sequeira abandona a pátria. -Relações com Garrett,
pelo seu quadro da Morle de Camões. -Camões torna-se para os portugueses
uma expressão da pátria: Origens do ideal canoniano. -Condições morais
em que foi escrito o poema Camões. -Como Garrett compreendia o roman­
tismo. - Carácter lírico-elegía
c
o deste poema, impróprio da sua feição
épica. -Análise da sua estrutura: falta de acção; inferior à poesia da realidade
histórica; imperfeita compreensão das tradições nacionais. - Condições em
que foi escrito o poema D. Branca. -A lenda do trovador João Soares de Paiva
superior em verdade e poesia à fantasmagoria de Aben-Afan. -O tipo de Frei
Gil mal compreendido. -A composição do poema Adosinda: sentido literário.
- Em 1827, Garrett perde a sua actividade poética.
o poemeto de Byron intitulado a Idade de Bronze re-
sumenassuasestrolesrepassadasdesarcasmoseternos
a indignaçao que os homens |iberais da Luropa sen-
tiramaoverdecidir-senoCongressodeVeronaaruina
das novas garantias constitucionais. «Jrês vezes leliz
Verona| desdequeamonarquicatrindadelez luzirso-
bre tia suasanta presença,. . . Sim, daivivas | lazei ins-
criçoes| levantai ultraj antes monumentos para dizer a
tiraniaqueo mundoaceitao seuj ugo com satislaçao. »
L acrescenta. «Que estranho espectaculo é este Con-
gresso| parece destinado a
a
gregar todas as incoerên-
cias, todos os contrastes| ja nao lalo dos soberanos. . .
1 56 TEÓFI LO BRAGA
parecem-se todos compeças batidasno mesmo cunho,
masos bellurinheirosquelazemdançarosbonilrates e
puxam pelos cordéis, apresentam mais variedades do
queestes rombosmonarcas .judeus, autores, generais,
charlataes, intrigam antedalacedaLuropaassombra-
dadetaovasto� designios. Ali, Matternich, o primeiro
parasitadopoder,capeiaatodos,aliWellingtonesque-
ceaguerra,aliChateaubriandacrescentanovoscantos
aos seus Mártires ø . . »' L prolundissima a ironia desta
alusao Chateaubriand, este aparatoso catolicosusten-
tou no CongressodeVeronaqueeraprecisoinvadira
Lspanhae restabelecernotrono o despotico!ernando
VII; assim aconteceu. A trindade satånica da Santa
Aliança vira na Constituiçao Lspanhola de l 82O um
abismo para a causa dos bons tempos de outrora, o
perigo dos seus interesses dinasticos lez convocar o
Congresso de Verona. !oi aiqueChateaubriand, esse
Jartulodegénio,seelevouaoseuolimpo,convencendo
a cabilda diplomatica de que era preciso esmagar na
Peninsulaaobradaliberdadeconstitucional. Ò duque
daAngoulêmeveioa Peninsula,edepoisdatomadade
Jrocadéro,o generallrancêsqoelhouemterrae entre-
gou a suaespadaa !ernandoVII, como sinal deconsu-
madaahecatombadaliberdade. !ernandoVII, queera
doestolo dosseuscontemporåneos Ð.joaoVI, ou Oui-
lhermeIII, tomoualetraosimbolodaespada, quebrou
todasasamnistiasprometidasempresençadaLuropa,
e mandou trucidar Riego, Lmpecinado, Bessieres, en-
hmtodososquetrabalharampeloregimeparlamentar.
!oi entao que a !rançacompreendeu a suavergonha,
orgulhosocomaguerra de Espanha, Chateaubriand caiu
do poder, tendo de lançar-se na oposiçao liberal para
combater os quedestituiram. L eloquente estegritode
ByronaindasobreoCongresso. «Lunaoseiseosan¡os
choram,mas oshomenschorarambastante. . . paracon-
1 Byron, Idade de BOlze, estância IX e XVI.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 57
seguiroquêºo chorarmais ainda. »' Lstesprantospar-
tiram também de Portugal , a nossa primeira Carta
Constitucional alcançada pela Revoluçao de l 82O, se-
guiu a sortedadeLspanha, onossoJrocadéroloiVila
!ranca, onde nao correu sangue mas o lodo do mais
baixodosesgotos÷a laltadedignidadehumana. Lm
5dejunhode l 82JaobradeChateaubriandtinhapro-
duzidoo seueleitoem Portugal. !oientaoquecomeçou
a emigraçao. No poema Camões, escrito nestas crises,
Oarrett alude a sorte de Lspanha.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Eia! vamos
Deixa o caminho da infeliz Pirene;
Tais mágoas como ali vão poupa a meus olhos;
Assaz tel/ho das mil/has. Largo! aos mares . . .
Lm nota acrescenta Oarrett. «Quando seescreviam
estes versos, todososhorroresdareacçaoabsolutistade
l 821assolavam Lspanha,e em !rançaera temade to-
das as vaidades da Restauraçao o imbele triunlo do
Jrocadéro. Ðaia seis anos estavavingadaa in¡ uriada
liberdade peninsular. »´Parase compreendercomoes-
tes sucessos que alucinavam a !rança se reproduziriam
em Portugalcom todas assuasvergonhas,bastaconhe-
cer o caracter dos dois actores deste periodo. Ð. joao
VI e sua mulherCarlotajoaquina. Lram naturezas la-
dadaspara a catastrole. Basta-nos extrair das Reminis­
cências Diplomáticas de Lorde Holland algumas linhas .
«Poucosei acercadePortugaledos Portugueses,que
possaterointeressedanovidade.Òreiearainha,mui-
to contrarios de principios, de caracter, de procedi-
mento, tinha uma aversao natural um pelo outro. Na
realidade, nada haviade comumentreeles anaosera
lealdaderepugnantedas suas pessoas e as suas manei-
ras canhotas. Ò rei era muito bem-intencionado, mas
I Byron, Idade de Brol/ze, estância I.
, Poema Camões, canto I, nota D.
1 58 TEÓFILO BRAGA
lraco e timido, tinha um tal medo de ser governado
pelosseusministrosostensiveis,quesetornavaavitima
debaixas e obscuras intrigas, e os seus conselhos eram
sempre vacilantes, irresolutos e incertos. Ò zelo exa-
gerado da rainha pela causa dodespotismoimpropria-
mente designado pelo nome de legitimidade, parecia
ter atenuado a aversao do rei por uma assembleia re-
presentativa e uma lorma constitucional de governo.
Arainhaeravingativa,ambiciosa,egoista,etinhauma
inclinaçao pronunciadissima por toda a espécie de in-
trigas politicas ou amorosas . Lm geral os homens in-
D uentesdePortugalnaosaoprivadosdetalentonemde
instruçao, mas a vaidade subtitui neles a acçaode um
patriotismomaisilustrado. Sao animadosdepequenas
invejas e cheios de perlidias, empregam mais astucia
nas negociaçoes comos estadospoderososdo quepru-
dência no governo do seu pais . Araujo ¸ o conde da
Barca) umhomem compete�te, esperavaque, lazendo
macaquicesaInglaterraea!rançailudiriaosprojectos
deambas, e acabou pordeixar!ortugalnasubserviên-
cia de umae porabandonaro seu soberanoe o Brasil
i nteiramente ao capricho da outra. Sousa, conde do
!unchal, desejoso de assimilar no seu pais as institui-
çoesde Inglaterra, e sinceramente aleiçoado a casade
Bragança, conseguiu gastando a suavida em cabalas
com os relormistas e em persegui-los, o perderas boas
graças do seu soberano recusando o posto que o po-
deria por em condiçoes de executar os seus planos .
Contudoassuasideias eram¡ ustaseesclarecidas, mas,
comboasintençoes,meteu-seemviaspoucoj udiciosas
e muito indirectas paraas realizar. Naulragou comple-
tamente,eloi-lheprecisotodaasuajovialidadenatural
e a sua soltura naconversaçao para seconsolardeto-
das as decepçoes politicas e pessoais a que se viu
exposto. »'
I Souvellirs Diplomaliqlles, de Lorde Holland, cap. VIIl, p. 1 26.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 59
Nestas condiçoes começaram em l 82J as persegui-
çoesaosconstitucionais,Oarrett,queescreveraoelogio
do grande revolucionario politico Manuel !ermandes
Jomas,demitidodoseuempregonoMinistériodoRei-
no em JO de Agosto de l 82J, teve de relugiar-se em
Inglaterra. Ò grande artista portuguêsjoao Ðomingos
Bontempo,eogiganteestadistajoséXavierMouzinho
da Silveira,´o quelançouas bases das relormas po|iti-
cas que translormaram a sociedade, viram-se lorçados
1 « lIl. m• e Ex.mo Sr. A pretensão de João Domingos Bontempo, compositor
de música, que faz o objecto do requerimento incluso, sobre o qual Sua
Majestade é servido mandar-me informar por aviso de V. Ex' em data de 5
do corrente, tem por fim conceder-se ao suplicante licença para continuar na
prática de admitir em sua casa a sociedade, a que dá o título de Filarmónica,
para que do produto das assinaturas que ali concorrem possa
'
suprir a sua
subsistência e de sua numerosa família.
« Ainda que seja certo que à tal sociedade costuma concorrer grande parte
das pessoas da maior hierarquia e consideração desta capital, a ela também
concorrem muitos indivíduos, que assim como o suplicante não merecem o
melhor conceito na Polícia, por isso mesmo que a título de ensaios mais a
miúdo se reúnem; e assim para evitar que com este título se estabeleça al­
guma sociedade secreta, entçndo que convirá se faça persuadir ao recorrente
que tal prática deve imediatamente cessar. Sua Majestade porém ordenará o
que for servido. Deus guarde a V. Ex.' Lisboa, 1 0 de Julho de 1 823. I1l. m• e
Ex.m• Sr. Joaquim Pedro Gomes de Oliveira. -O intendente-geral da Polí­
cia da Corte e Reino, Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro.» (Contas para as
Secretarias Liv. XXlI, /. 28, V. )
2 « 1 11." " e Ex.mo Sr. Comunicando-me o corregedor de Portalegre, que no
juízo da sua correição se achavam pronunciadas por associações secretas
uns indivíduos, e entre eles o administrador-geral da alfndega grande desta
capital, José Xavier Mouzinho da Silveira, natural de Castelo de Vide, que
acabou de ser provedor em Portalegre, aonde propagou a seita dos pedrei­
ros-livres, que tinha plantado e promovido em Setúbal quan
d
o ali foi j uiz de
fora; e onde é constante que estabelecera duas lojas, deles; acrescentando ser
um libertino de primeira ordem, e tão escandaloso que nunca ali ouvia mis­
sa, e poucas vezes a família, e um declarado inimigo da religião e dos tronos;
anuí ao que aquele ministro requeria, e mandei proceder à prisão dos outros
réus que se tinham refugiado para esta capital, porém não me delibero a
mandar igualmente proceder à prisão do dito José Xavier, por isso que nele
concorre a circunstância de empregado de tal" graduação, e foi há pouco
secretário de Estado, sem que solicite de V. Ex.' a resolução do que Sua
Majestade queira se pratique a seu respeito. Deus guarde a V. Ex. ' Lisboa,
1 9 de Julho de 1 823. 1 I1. � e Ex.mo Sr. Manuel Marinho Falcão de Castro. ­
O intendente-geral da Políciõ da Corte e Reino, Simão da Silva Ferraz de Lima
e Castro. » (Contas para as Secretarias, Liv. XXlI, /. 36, v. 38. )
1 60 TEÓFILO BRAGA
a expatri ar-se. Ðurou esta perseguiçao politica até
l 827, loijustamenteo periodomaislecundodavidade
Oarrett. Revelaram-se laculdades novas , um novo
mododesentir, asuaorganizaçao estavaaptaparare-
ceber as impressoes mais delicadas, para se impressio-
narcom asideiasmaisgenerosas. Comrazaooproprio
Oarretto conlessa, depoisde l 827 nunca maisloi poe-
ta. Lcomo traba|ho casualedesimplesdistracçaodes-
tes quatroanos, que Oarrettabreumnovo horizontea
poesia portuguesa.
A musa de Oarrett loi a melancolia, é este o unico
sentimento das suas obras de arte, a unica expressao
dos caracteres que concebeu, o unico eleito dos seus
quadros . Lsta melancolia naoera umaleiçaoprivativa
do seu organismo, nem uma consequência dos desas-
tres politicos, em que se viu envolvido, era umalatali-
dade do meio em que nascera e da educaçao que lhe
i mpri mi ram. Ò povo português loi s empre tris te,
quandoa Igre¡ a|helìxao Lntrudoparaterumabreve
expansao, mascara-se e pede esmol a. Nao se passa
debalde por trêsséculos de queimadeiro lanatico e de
garrote cesarista, a sua mudez veio-lhe do terror da
pesquisa inquisitorial e da mordaça da razao de esta-
do. Lste estado deextorsao moral loi tao longo que pro-
duziu o aleij ao lIsico, quem vê hoje os retratos desses
homens rijos e corajosos, quetiveram a audacia de criar
um parlamentoconstituinteem l 822, lìcaassombrado,
admirando-se como aque|as caras alvares e grotescas,
como esses homens leios, possuiram inteligências rec-
tas, convictas e decididas. Jêm todos h sionomias tris-
tes, e a sua eloquência corresponde-lhes na rudeza lu-
grube mas lorte. A esta manilestaçao davida publica,
ajuntemos-lhe a escuridao das cidades pela estreiteza
das ruas, pela lal ta de iluminaçao, as tropelias dos
valentoes-lìdalgos e a excessivasordidezdas ruas, cuja
limpeza era leita pela voracidade dos caes vadios, a
lalta de comunicaçao entre os diversos pontos do pais
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 61
pornaoexistiremestradas,edaquianecessidadeusua|
delazertestamentoantesdese meterajornada, a in-
lalive| intimidade nalamiliadeumparentelrade, que
dirigiaasconsciênciasesetornavaosantocasamentei-
ro,aignorånciacompletadetodoomovimentopublico
que sepassavanaLuropa, e umhorror a tudoquanto
eraestrangeiro,caracterizadocomairrisoriaexpressao
domodernismo; os divertimentos domésticos reduzidosa
rezar-se o terço em comum e em correr aos domingos
avia-sacra, aautoridade paternal lundadasobreo ter-
ror, e o amorda mae em ocultarhipocritamenteosvi-
cios precoces do hlho. Byron teve razao quando nos
chamou povo de escravos, e Oarrett reconheceu essa
tristej ustiça dizendo que.
«Nao é muito para lisonjear o amor-proprio nacio-
nal , mas tenha paciência, que assim nao é mui to
grande a injustiça do nobre lorde. » Lm l 82J ainda se
cantavamnos seroes de lamiliaas modinhas soturnas do
tempo em que Becklord as ouvira as damas do paço,
masÐ.joaoVI eraojoniodestesdescantes emlalsete.
Louvemos todos
O gralde Rei,
Que a justa Lei
Jura seguir. "
Lraassim,queserecebiao ultrajenacionalcom que
o monarca rasgava a Constituiçao. Mas a modinha nao
bastava para alimentar a vida sentimental da nossa
classemédia,aimaginaçaotambémprecisaquetratem
dela que lhedêm mais algumacoisa, alémdamastica-
çao dospater noster, um livro, por exemplo. \m livroº
I Poema Camões, canto I , nota K.
1 62 TEÓFI LO BRAGA
Naoéissoa minadepolvora,alaiscarevolucionaria,a
atracçaodo abismoº Para queseinventaram os
Í
ndices
Expulgatórios do séculoxvexviiºParanaodeixarqueo
livro nos viesse perturbaras consciências. Para que se
erigiu a Real Mesa Censoria do século xviiiº Para que
o livronaoviessetrazer-nos impetos desediçaocontra
o paternal governo. Sempreo livro negro, o livro mal-
dito, o pesadelo do qualih cado do Santo Òücio e do
intendente da policia| Mas era precisodeixara imagi-
naçao portuguesa repastar-se em algum livro. \m li-
vro, senao morre-se de tédio, as cronicas dos lrades e
dos monarcas olerecem bons exemplos de liberais |un-
daçoeselegadospiedosos,e dereconhecidossacrilicios
a causadasdinastias. Maso cronicaonao cabenoaça-
latedacostura, e so porsi enchia o cesto barreleiro, so
sepodelernum pulpito.Òs livrosdospoetassaoescri-
tos em panegirico de todas as elemérides do paço, sao
obras de ocasiao e ignoram que existe um sentimento
eterno que vibra com todas as aspiraçoes daj ustiça.
A sociedade portuguesa precisava de umlivro, um li-
vroqualquerqueadistraisse,etodaasualiteraturade
seteséculosnadatevequedar-lhe,osContos deJrancoso
e o Feliz Independente agravaram-lhe o mal que solria,
aumentaram-lhe a sonolência. A l iteratura lrancesa
da corte de Luis xv, sobretudo aliteraturalemininae
sensivel, era aquemelhorquadravaanossasociedade,
noestadogeraldeidiotismoeclorose,homensemulhe-
resdevoraramosromancesdeMadameCottin, Clara de
Alba, Malvina, Matilde, Amélia de MansJeld eramosconh-
dentesdemuitaslagrimas ingénuas.A MadameCottin
sucedeuMadameOenlis,com asuaAdélia e Teodoro, As
Noites do Castelo, com a Menina de Cleront, e sobretudo
com esse sentimentalismocalcu|ado e lrio, insensivel e
seco no intimo, tocante e lragil aparentemente, senti-
mentalismodesete lolegos, comoo caracterizaCarlyle
ao lalar de Oenlis. Lra esta a ahnaçao daalma portu-
guesa, chorava-seporum nada, aternuraeraum sinal
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 63
de educaçao h na, a tristeza era uma distinçao e uma
prova de mora|idade. Ò honrado pai de lamilia nao
davapalavraem casa, umaboamae educavae vencia
osimpetosdosh|hoschorando,a ternuraeraonexode
todasas relaçoes . Lstehabitoconstante tornouo senti-
mentalismo, queja desi eralalso, umacoisapostiçae
mecånica. Òspaislevavamoshlhosa verexecuçoesna
lorcadapraça,acaridadeabriaasrodasparaesconder
as crianças re¡ ei tadas pelas hlhas-lamilias, ninguém se
levantava ao ver um rei abandonar-nos ao invasor
evoltarparaoseupovodepoisdoperigopassado,mas
chorava-semuital agrimadoce,muitodo|oridosuspiro
aolerahistoriadeZélia no Deserto. Ah| Paul oLuisCou-
rier,acordaosensocomumnestagente|Carlyle, escan-
galha este beatihco sentimentalismo, esta imobi|idade
tradicional|Michelet,descarregao teumagnetismoso-
bre estes versos marasmados| Mas estesverbosda in-
teligênciaaindanaotinhamlalado,aLuropacomeçava
acairdomesmoestadosentimentalemque estavamos.
LraprecisoquePortugalrespirasseoarlivredarazaoe
da verdade. Oarrett viu-se lorçado, pel a queda da
Constituiçao,a relugiar-senoestrangeiro,loipelaemi-
graçaoqueopoetaconheceuquehaviahorizontesmais
largos do que a retorica, e que os escritores nunca ha-
viamescritonalinguaqueopovolalava. Oarrettestre-
meceu ante o espectaculo novo do romantismo e nao o
aceitoulrancamente,a sua antigamelancoliatornou-se
mais lunda, mas também mais verdadeira com a sau­
dade dapatria.Aomenosera¡ a umidealcomrealidade,
era um sentimento sem convençao, era uma revelaçao
da vida. Ðemitidodo seulugardeo|ìcial daSecretaria
do Reino em JO deAgosto de l 82J, e suspeito ao ab-
solutismo restaurado, pelo lacto de ter escrito o elogio
do constituinte !ernandes Jomas, Oarrett viu-se lor-
çado a emigrar para Inglaterra,malcom alamilia,que
era a primeira a condenar o seu liberalismo. !raco e
valetudinario,oclimadeInglaterraera-lheumaprova-
1 64 TE6FILO BRAGA
çao, regressou momentaneamente a Portugal, ' donde
loi imediatamente mandado sair pe|a Intendência da
Po|icia, o ano de l 82J loi estéril para ele, nosta|gico,
solrendoemBirminghamaduraaclimaçao,eentreten-
do-senoÒutubroempassaralimpooscadernosdasua
viageme areveralgumasodezinhasdeCatulo,queem
tempovertera.Lstav.: longedetodaaconcepçaolitera-
ria. Lm !rança dardc¡ ava na olimpica vaidade Cha-
teaubriand, contenteporquea estulticiaa queelecha-
mava asua guerra de Espanha mataraa Constituiçaoes-
panholarestabelecendoo bestial!ernandoVII; poreste
acto da!rançaexpirara também a nossaConstituiçao
devinteedoisaumbocejodeÐ. joaoVI. Masa!rança
compreendeu o erro, e o ministro teve de lazer-se de-
pois um caudilho da liberdade para tornar lorte a sua
oposiçaoaogoverno. A IdadeMédiainventouofabliau
dodiabopregador, o nossoséculoviu a tradiçao morta
a pretender dar vida a |iberdade. A !rança tornou-se
como a Ing|aterra um asilo paraos emigrantes portu-
gueses, Oarrett expulso entao de Portugal veio para
Irança em l 821, onde encontrou outros loragidos,
comoo eruditojoséVitorinoBarreto!eio,e o grande
pintor ÐomingosAntonio Sequeira, a quemRaczynski
I « Tendo chegado ontem à capital o oficial da S'ecretaria de Estado dos
Negócios do Reino, João Baptista Leitão Garrett, vindo de Inglaterra, e de
estar al i com indivíduos portugueses sumamente suspeitosos, tais como os
que se evadiram, por ocasião da restauração deste reino; havendo até tra­
zido cartas, das quais apresentou duas: e sendo o sobredito por si mesmo
assaz suspeitoso, julgo dever ponderar a V. Ex.', que, não obstante ele estar
debaixo das vistas da Polícia, seria conveniente fazê-lo sair do reino, por isso
que estou convencido que a sua presença, especialmente nesta capital, pode
ser nociva à segurança pública. V. Ex.' porém, tomando na consideração
devida esta mi nha ponderação se servirá comunicar-lhe o que e1-rei nosso
senhor determina a este respeito. Deus guarde . . . I 1l . mo e Ex.mo Sr. Manuel
Marinho Falcão de Castro. ¯O i ntendente-geral da Polícia da Corte e do
Reino, Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro. Lisboa 24 de Agosto de 1 823. »
Papéis da Intendência, Liv. XXII, n. 69 v. )
HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 65
comparacomRembrandt. Sequeira,tendo-seentusias-
madopelaRevo|uçaode l 82O,e abraçado|rancamente
as ideias daConstituiçao, entendeuque naoestavase-
guro em Portuga|, quando, depois de Chateaubriand
ter restaurado o absolutismo em Lspanha em l 82J,
aconteceuaqui,naoumaderrotadaliberdadecomono
Jrocadéro, mas a ignominia humana dajornada de
Vi l a!ranca. SequeiraobtevepelainD uênciadoduque
de Palmelaopassaporteere|ugiou-seemParis.Oarrett
dedicou-lhe uma ode com a epigra|e de Virgilio. Fuge
litus avarum!
Bem-vindo sqas, oh Sequeira ilustre,
Dessa terra maldita,
Onde crucifcou a Liberdade
Povo de ingratos servos.
Tu, que os louros de Vasco e de Campelo
Reverdecer fa;as,
Por aquele maninho priguiçoso
Que foi terra de Lísia.
Filha de Rafael, bem-vindo sejas,
A este asilo santo.
Como nobre Pincel não poluído
No louvor dos tiranos,
Aqui celebrarás antigas glórias
Da que foi nossa pátria . . . '
Nestes versos de Oarrettja se vê que duas ideias
novas lherevolucionarama mente, a primeira|oi o es-
pectaculo da actividade que observava, que lhe |ez
reconhecerPortugal como um maninho priguiçoso; ease-
gunda, o valordas tradiçoes nacionais para|undarso-
breelasaobradearte. Oarrettdeveubastantea comu-
nicaçao com Sequeira, nasceu-lheapaixaopelobelo, o
pintortrabalhavaparaa Lxposiçao de l 821, e Oarrett
começou a trabalhartambémsobreo seuidealdesau-
dade. Ò quadro que Sequeira pintava era a Morte de
Camões; era umacomposiçaosimples e rembrandtesca. o
I Dictionaire Historico-Artistiqlle dl Portugal, p. 262.
2 Flores sem Fruto, p. 7 1 .
1 66 TEÓFILO BRAGA
poeta deitado sobre a sua pobre enxerga agitava-se ao
ouvir ler as novas quechegam da batalha de A|cacer
Quibir,derepentechegaaopontoemquesedescrevea
derrotadoLxércitoportuguêseamortedeel-reiÐ. Se-
bastiao, e possuido do dom prolético da suprema an-
gustia expira bendizendo o céu por nao sobreviver a
liberdadeda suapatria. Quemovimentopara um qua-
dro|masopincelquetratavacommestriainexcedivelo
Juízo Final, bem sabia concentrar todas essas agonias
dahoratremendaemunicovulto. ÒquadrodaMorte de
Camões inlIuenciouinevitavelmentesobreaimaginaçao
deOarrett. Nomanuscritodopoema Camões, selêesta
nota. «Comecei este poema em l J de Maio de l 821,
para ocupar e distrair o atribulado espirito, que em
tanto desterro e solidao e com tao aladigada vida, nao
sei eu como ainda sao o conservo. ÷ Havre, em D de
junho de l 821. Que coisas nao iam por minha terra,
enquanto eu ca de longe, e tao alheio a tais barulhos,
sonhavacom as memorias de suas antigas venturas| »'
Por aquisevêquea mesmadatade l 821é comum ao
quadrodaMorte de Camões e aopoema,Oarrettpoeem
palavras os traços de Sequeira, representando no hm
do poema Camões também emum pobre leito.
. . . . . . . . . . . Voltastes? E que novas
Me trazeis?
- Tristes novas, cavaleiro.
Ai, tristes. Desta carta que vos trago
Sabereis ludo. -Ao vate a carta entrega;
Do Missionário era, que dos cárceres
De Fez a escreve. Saudoso e triste,
M mignado e plácido, lhe manda
Consolações, palavras de brandura,
De alívio e de espernça: « Extinto é tudo
Nesta mansão de lágrimas e dores;
As letras dize/il tudo; mas a pátria
Da eternidade só a perde o ímpio
Deus e virtude restam: consolai-vos . . + »
I Catálogo de Autógrafos, p. XV
Ú
I.
HIST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 67
-(Oh! consolar-me? (exclama, e das mãos trémulas
A ePístola fatal lhe cai . . . ) Perdido
É tudo pois! . . . ) No peito a voz lhe fca:
E de tamanho golpe amortecido
Inclina a frente, e como se passara,
Fecha languidamente os olhai tristes.
Ansiado o I/Obre conde se aproxima
Do leito . . . Ai! tarde vens, auxílio do homem.
Os olhos turvos para o céu levanta;
E já no arranco extremo: -((Pátria, ao menos.
Juntos morremos . . . ) E exPirou co'a pátria.
Ðepois destes rapidos versos que nos dao umaj usta
ideia da Morte de Camões do portentoso Sequeira, Oar-
rettescreveuaseguintenota. «Lnotavelcoincidência,e
que muito lisonj eia o meu pequenino amor-proprio,
queenquantoeu,humildeedesconhecidopoeta,rabis-
cavaestesversinhosparadescreveros ultimosmomen-
tos deCamoes, o Sr. Sequeiraimortalizava em Pariso
seu nomeeodasuanaçaocomoquadromagnilìcoque
esteano passado de l 821expos no Louvre, em o qual
pintou a mesma cena. Valha-nos, ao menos, descaidos
eesquecidoscomoestamos, quehajaaindaportugueses
como o Sr. Sequeira, que ressuscitem, de quando em
quando, o adormecido eco danossa antiga lama. »'
A obradeSequeiraloi assimjulgada pelaimprensa
lrancesa. «Ðaremos as honras do Louvreao Camões do
Sr. Sequeira. » . Ò rosto do velho poeta neste quadro é
belo, bem entendido, belezapoética. Nos membrosde-
vorados pela velhice e miséria, por entre a barba des-
grenhada, avistam-se ainda os sinais da grandeza de
alma, e os vestigios da organizaçao superior que lazia
j untamenteograndepoeta,eoguerreirova|oroso. Lste
quadro, despidodetodas as seduçoes daarte, arrebata
muitoalémdoordinario,oassuntoé representadocom
singelezae energia. Lmlìm, esta tela encerrao que to-
dos os pi ntores devem procurar ÷ a verdade e o
.
, Poema Camões, canto x, nota D.
1 68
TEÓFILO BRAGA
patético. »' Podemos alìrmar, que o mesmo sentimento
que suscitou ao assombroso pintor Sequeira o assunto
daMorte de Camões loi o mesmoqueactuouemOarrett,
que se desculpa da re|açao acidenta| entre essas duas
maravilhas da arte portuguesa, e em Ðomingos Bon-
tempo, queaicomposasuaMissa de Requiem dedicadaa
Camoes. Lsse sentimento que inspirou os três génios
relugiados ao mesmo tempo em Paris vai-nos ser re-
velado pela historia. Lnquanto na patria Camoes mor-
riaabandonado, e os criticosdojaez dc Manuel Pires,
Verney ejosé Agostinho uItraj avam a epopeia da na-
cionalidade, era no estrangciro que os portugueses co-
nheciam a prolunuarelaçaoentrea patriaeCamoes,a
ponto de adoçarem as suas saudades Os Lusíadas. Òs
lactos sao por si eloquentes . em l GO7, o padre André
Baiao, queestavapormestrederetoricaemRoma,tra-
duzia Os Lusíadas para lati m, em l G22 !rei Jomé de
!aria, bispo deJarga, empreendiae publicava aos oi-
tenta anos de idade outra versao latina d' Os Lusíadas
dedicada a naçao portuguesa, que estava extinta, em
l G21,joao!rancoBarretovai a restauraçaodaBaia,e
loi na ausência da patria que adquiriu esse amor que
empregou narevisaod' Os Lusíadas em l GJ l , equeloi a
ocupaçao da suavida, depois que regressou de Paris,
onde lora em l G1l com o embaixador !rancisco de
Mel o. joao Pinto Ribeiro, o que levantou o grito da
independência em l G1O, comentava Os fusíadas. !rei
!rancisco de Santo Agostinho Macedo, �ue em l G11
estava na corte de Luis XIII, traduztambém para latim
o poema d' Os Lusíadas. Ðurante a sua ausência de
Portugal, na corte de Caste|�, é que !aria e Sousa se
ocupara na coordenaçao dos comentarios da grande
epopeia. Ðurante a sua assistência em Paris, é que
o duquede Pa|melase distraia em traduzir para verso
I No Correio Fral/cês, n." 264, de 1 824. Descrição feita por Serrurs; tradu­
zida na Carta, n." 1 3, de 1 826.
HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 69
lrancês Os Lusíadas, da qual diz. «que havia encetado
em l 8OGnoverdordamocidade,animadopelos conse-
lhos de alguns literatos lranceses mais eminentes com
os quais me achava ligado de amizade, estimulado
pri nci pal ment e pel as sol ici taçoes de Madame de
Staclø ø ø »1 Òs literatos que lortaleciam o duque de Pal-
mel a no seu intento, seriam Bouterweck, Sismondi,
Chateaubriand, e osdois Schlegel, que nas suas obras
lìzeram sentir a importåncia moderna e o sentido ac-
tualda epopeiaportuguesa. Nessemesmoanode l 8OG,
Byron escrevia essas mimosissimas.
ESTÂNCIAS A UMA JOVEM
(acompal/hal/do as Rimas de Camões)
Ah, cara! por ventura à dávida, que exprime
O puro afecto meu, darás valor por isso;
São cãl/ticos de amor de um ideal sublime,
O tema etemo sempre -o éden e o abisso.
Hão-de achá-lo um abismo a frívola invejosa,
E as solteiras também, que fcam para lias;
E a puPila gel/til, que por pudor nada ousa,
Que em fria solidão conta dias e dias.
Em coisa alguma igualas esses pobres entes;
Lê, querida este livro; ah, lê-o com temura,
Não é em vão que peço anseios teus veementes
Para o grande Camões em tanta desventura.
Camões era em verdade um bardo, lUll génio imenso.
Nada tem de fctícia a chama que o devora;
Um amor COIlO o dele hás-de encol/lrar, eu penso,
Mas nunca o iI/ feliz destino seu, senhora.
A ode de Raynouard sobre Camoes' loi logo conhe-
cida em Portugal, mas loi longede Portugal, outravez
em Paris, em l 8 l 7, que o morgado de Mateus lez a
opulenta ediçao d' Os Lusíadas, que ha-de ser sempre
uma maravilha da imprensa moderna. Neste mesmo
I Apud, Jur. , Obras de Camões, I, p. 240.
2 Garrett cita-a no seu poema, p. 203.
1 70 TE6FILO BRAGA
ano o espirito nacional agita-se contra o protectorado
inglês, e depois das lorcas do Campo de Santa Ana,
aparece o pro¡ecto de um monumento a Camoes, que
nao loi levado a cabo por causa da ma vontade dos
governantes do reinonaausênciadeÐ.joaoVI. Naoé
acaso esta série de lactos.
Lm l 82O o primeiro compositor portuguêsjoao Ði-
mongosBontempo,vivendoem Paris,ondelìzeraasua
educaçao musical, publica a célebre Missa de Requiem
«ouvrage consagré à la mémoire de Camões,» escrita para a
lestadainauguraçaodomalogrado monumento. Balbi
caracteriza Bontempodetalentoextraordinario, e era
esse mesmo talento que o lazia compreender como o
ideal da patria se representava em Camoes. Por tudo
istovemos, como é que Sequeira em l 82J também em
Paris pintava o quadro da Morte de Camões, e Oarrett
escrevia o seu poema.ja no lìm do século XVI os dois
portuguesesBenitoCaldeiraeHenriquesOarcêstradu-
ziam para castelhano Os Lusíadas, para comunicarem
aos estranhos entre quemviviam o seu sentimento na-
cional .
Jodos os grandes criadores da novalase do roman-
tismo, ao exemplilìcarem como a obra de arte é tanto
mais bela e ternaquandoselundasobreo caracterna­
cional, interpretaramaepopeiadeCamoes comoprova
mais eloquente da sua doutrina hlosohca. Schlegel,
ah rmandoquedepoisdeHomero,nenhumpoetaexce-
dia Camoes na intuiçao poética das tradiçoes nacio-
nais, concluiu superiormente, que Os Lusíadas supriam
umaliteraturainteira. Raynouard,JhimoteoLecussan
\erdier, Millié, em França, celebram em odes ou tra-
duzindoOs Lusíadas, agloriadeCamoes . LmInglaterra
john Adamson, amigo intimo de Oarrett, publica em
l 82Oas suasMemórias de Camões. Judo conspiravapara
acordarnaalmadoexiladoessaideiapoéticaemqueo
I Joaquim de Vasconcelos, Os Músicos Por/llglleses, t. I, p. 2 1 .
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 7 1
simbolomaisvivoda patriaseviaconcentradoern Ca-
moes. Oarrett nao teve consciência de que obedecia
maisa umacorrenteliterariadoquea umalectopatrio-
tico,a prova esta em quedepoisdedelenderaoriginali-
dadedopoemaCamões dasreminiscênciasdoquadrode
Sequeira, continuou a delender-se de nao ter imitado
Lemercier,nem!erdinandÐenis.«Ðepoisdeteromeu
poemeto quase acabado,vi extractos de umacomposi-
çaode Lemercier, que algumlongedeanalogiapodera
tercom esta. ésobre Homero. Porémé taoexcêntricoe
extravaganteemsuascoisasemodo Mr. Lemercier,se-
gundo vejode outras obras suas, que nemprocurei lê-
-lo, seitodavia que oseuplanoédiverso, eque nenhu-
maluz podiadar-me no meu intento. »'
A obra de Lemercier, a que alude Oarrett, sao os
extractos dos poemas sobreHomero, e Alexandre, ¸ l 8O l )
qu�loram publicados com aAtlântida em l 82J, j untos
com o poema Moisés, em quatro cantos. Lemercier loi
um revolucionariodal iteraturamoderna,aquemsuce-
deu VictorHugo tanto noespiritocomona cadeirada
Academia,eleestaligadoanossahistorialiterariapelo
seu belo dramaPinto, emqueé heroiogranderevolu-
cionario dc l G1O. Por tantoas excentricidades e extra-
vagåncias de Lemerciernotadas porOarrett,denotam-
-nosqueopoetaemigradoaindatinhacertospontosde
vistaemquedominavaapersonalidadearcadicade jo-
nio Ðuriense. L certoporém, quepelos poemasde Le-
mercier,viuOarrettquenemsoosnomesdecidadesou
dereisserviampara titulos de poemas, e quea carac-
teristica doheroi consistia naindividua|idade. Oarrett
delendia a sua originalidade, porque conlessando que
naoaceitavao romantismo, cuidavaquea concepçaodo
poema Camões erapuramentepessoale naoumaconse-
quência das novas ideias literarias que viu realizadas
I Catálogo dos Autógrafos, p. XIX. Este parágrafo é omisso no prólogo de
todas as edições do poema Camões.
1 72 TEÓFILO BRAGA
em volta de si. !oipor causa disto, que mais outra vez
delendea suaoriginalidadedaprioridadedeum traba-
lhode benemérito!erdinandÐenisintitulado. Scenes de
la nature sur les troPiques, et de leur influence sur la Poesie,
suivie de Camões et Joseph Indio; publicado em Paris em
l 821. Oarrettescrevemaistarde,arrependidodassuas
reclamaçoes. «Na primeira ediçao do meupoema Ca­
mões, queé desse ano, lìz a sensaboriademe por a dar
explicaçoesemcomonaotinhanadaaminhacomposi-
çao com a do Sr. Ðenis. Consta-me, que entendendo
provavelmentemalasminhaspalavras,aqueleescritor,
que também temmerecidodanossal i teratura,seolen-
deu delas. Peço-lhe aqui solene desculpa, e declaro a
minhaconvicçaointimade que,assimcomoeunao sa-
biadesuaobra,nemaviraantesdepublicara minha,
o mesmo estou certo quelheacontecesse. »' No Resumé
de l 'Histoire Litteraire du Portugal, de l 82G,escrevia!erdi-
nand Ðenis. «!embrarei aqui, que dois meses depois
dapublicaçao das Cenas da Natureza sob os TróPicos, nas
quais seachaumepisodiosobreavidadograndepoe-
ta, apareceu em português um poema anonimo inti-
tulado Camões. Ðeixo a outros o cuidado de decidir
acercadoméritodaobra, oautorconlessa, é verdade,
que apareceu so depois de mim, mas que seis meses
anteso seutrabalhoestavacomposto.Ðoisanos antes,
tive eu a honra de ler o meu episodio em presença de
umanumerosaassembleia, emcasadeM. Jhurot, um
dos prolessores doColégiode!rança.»´Acausadestes
equivocos encontra-se no estado intelectual que estas
palavras de Oarrett descobrem. «Nao sou clássico nem
romântico, naotenhoseitanempartidoempoesia,assim
como em coisa nenhuma, e por isso me deixo ir por
onde melevam minhas ideias boas oumas, e nempro-
curo converter as dos outros, nem inverter as minhas
I Poema Camões, canto IX, nota r .
, op. cit., p. 6 1 0.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 73
nas deles . »' Lm l 825, tantoempoliticacomo emlitera-
tura estava-se num daqueles momentos decisivos em
quetodoohomemdebemtinhalatalmentedeteruma
opiniaoedeasustentar,aliberdadeobrigavaoabsolu-
tismo a lazer concessoes, e a verdade atacavaaslalsas
macaqueaçoes das obras daAntiguidade.
Ò que erao poema Camões tratadoporum clássico, ai
o temos bem claro nesses dois cantos em oitava rima,
escritos no ñm do sécul o XVI I por Manuel Lopes
!ranco, que seguardam entre os manuscritos da Aca-
demiadas Ciências, bastaleros argumentos . «CantoI .
Lxpoe-scamatéria,lala-secomo heroiques ecelebra,
implora-seCaliope, mostra-seCamoes vaticinado, laz-
-se Concilio no Pindo para sair a luz, descreve-se a
determinaçao,etc. CantoII. SaiCamoesaluzecelebra-
-seoseunascimento,procuraa\niversidadedeCoim-
bra, é iluminado das ciências, volve para Lisboa, re-
lerem-se os amores que teve com umadama do paço,
pondera-se a lorça do amor, origem toda do seu
desterro. »´A écloga Sintra, em que !aria e Sousa con-
centrou todas as situaçoes da vida do grande épico é
tambémumaobraclássica. Jrocaravidareal pelavazia
alegoriamitologica, alinguagemdedentropeloepiteto
retorico, o sentimento natural pelo molde ja autori-
zado, porumprocessoassim,o assuntoo maispoético,
comoasdesgraçasgenerosasdeCamoes,soserviupara
oitavas e éclogas banais.
Masve¡ amos agora como Oarrettloi arrebatado in-
conscientemente pelo romantismo. Ò poema Camões, ex-
prime umnovoestadodosentimento,Oarrettcomeçou
portirarainspiraçaodomeioe das circunståncias que
otocavam.Òlhouemvoltadesi,emvezdecorreratras
dos !aunos .
I Catálogo dos Autógrafos, p. xx.
1 Academia das Ciências. (G. 5; E. 2 1 ; Part. 4. )
1 74 TE6FI LO BRAGA
Eu vi sobre as cumeadas das mOlltallhas
D 'Albion soberba as torres elevadas
Inda feudais memórias recordando
Dos Bretões semibárbaros. Errallte
Pela terra estrangeira, peregrino
Nas solidões do exílio fa: sentar-me
Na barbacã ruidosa dos castelos
A conversar co'as pedras solitárias,
E a perguntar às obras da mão do homem
Pelo homem que as ergueu. A alma enlevada
Nos românticos sonhos, proClrava
Á
ureas ficções realizar dos bardos.
Murmurei os tremendos escO/uros
Do Scaldo sabedor -falei aos ecos
Das ruíllas a líllgua consagrada
Dos menestréis. -Peljz solenemente
Todo o rito, invoquei finle e sem medo
Os génios misteriosos, as aéreas
Vagas formas da virgem de alvas roupas,
Que as trallças d'ouro pentealldo ao vento,
Canta as canções dos tempos que passaram
Ao som da harpa iI visível, que lhe tangem
Os domados espíritos que a servem,
Como o subtil Ariel, por invisível
Encantado feitiço.»'
Nestesversos, em que Oarretta|udea impressao re-
cebidadas obras de WalterScott e de Shakespeare, se
vê a concepçao exterior que ele lormava do roman-
tismo,eraumespéciedeguarda-roupadaIdade Média
e nao a continuaçao dessa luta dos dialectos que pro-
curam lazer-se valer contra o uso exclusivo do latim
classico, e agoracontinuar essaluta na expressaolivre
do sentimento moderno. Òs criticos compreenderam
muito cedo esta verdade historica, os artistas nao, e
teriaminutilizadoo problemano ultra-romantismo, se
a ciência da historia nao viessecorroborara aspiraçao
ao natural.
ÒpoemaCamões, comoescreveOarrettemumanota
autobiograñca,' loi quase todo composto no Verao de
, Poema Camões, canto VII.
, Ibidem, canto I, nota D.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 75
l 821 em Ingouville ao pédoHavrede Orace, na mar-
gem direita do Sena, indo-oacabara Paris no Inverno
de l 821 a Ì 825, «numa agua-lurtada da rua Coq-St. -
-Honoré,passavamoscomospéscosidosnologo,eueo
meu velho amigo o Sr. j. V. Barreto !eio, ele traba-
lhando no seu Salústio, eulidando nomeu Camões, am-
bosproscritos, ambospobres,masambosresignadosao
presente, sem remorso do passado, e com esperanças
largas noluturo. »A amizadede Barreto!eioteveuma
decidida inD uência sobre a criaçao do poema Camões;
neste tempo estudava na Bib|iotheque Royal o exem-
p|ar da ediçao de l 572 para lazer uma ediçao critica
das obras do poeta, encetada em l 82G na casa Ðidot,
mas que nao loi por diante, porque lhe loi permitido,
em virtude de novas alteraçoes politicas, regressar a
Portuga|. ' Ò estudocritico deBarreto !eio para a bio-
grah adeCamoes,inD uiunessapartedopoemaemque
Oarrett aceita a errada tradiçao de ter sido o grande
épico perseguido pelo conde da Castanheira, e de ter
amadoumaÐ. CatarinadeAtaide, quenaoéah lhade
Ð. AntoniodeLima. Barreto!eio, apesardasuaerudi-
çao latina, possuia o segredo de produzir entusiasmo
pelosnossos monumentos nacionais, emHamburgolez
eleapaixonar um negocianteportuguês de secos e mo-
| hados pe| a reproduçao do Jeatro de Oi| Vicente|
I Obras de Camões, t. I, p. XXII. Ed. de Hamburgo, de 1 834.
2 Referimo-nos a José Gomes Monteiro, que por ocasião do assassinato
dos lentes de Coimbra em 1 828, abandonou o terceiro ano jurídico da Uni­
versidade, emigrando para Inglaterra. Dali partiu para Hamburgo onde
chegou a associar-se com o cônsul e negociante português José Ribeiro dos
Santos, auxiliando com os dinheiros da casa as edições de Camões e de Gil
Vicente empreendidas por Barreto Feio. Estes dois negociantes foram escri­
tores e merecem aqui uma indicação biográfica. José Ribeiro dos Santos,
nasceu em Vila Nova de Gaia em 1 798, e viveu sempre no estrangeiro como
cônsul português, e dele resta um Tratado COlsular; estabelecido em Ham­
burgo com uma poderosa casa comercial de secos e molhados, empreendeu
uma expedição científca e comercial à
Á
frica, que mereceu ser historiada
em um livro por um escritor alemão que o acompanhava. Na sua ausência, a
1 76 TE6FILO BRAGA
A amizade de Barreto !�io e de Oarrett neste periodo
da emigraçao,tem uma certaanalogia comadigressao
deLacurnedeSaintePelayeedopresidentedeBrosses
na Italia, como de Brosses, !eio andava preocupado
como estudodoseuSalústio, ao passoqueOarrettcom-
penetrava-se do espirito da nossa epopeia nacional,
comoLacurnedesenterravadosvelhosarquivosasges-
tas lrancesas.
A publicaçao da versao critica portuguesa das céle-
bres Cartas Amorosas de Mariana Alcoforado, em Paris em
l 821, pelo Morgado de Mateus, opulento editor d' 0s
Lusíadas , era um lactoquecontribuiapara acordarnos
emigradososentimentonacional.NocemitériodoPere
Lachaise se encontravamj unto da sepu|tura de um
novo expatriado, mas pelo intolerantismo religioso, o
poeta !ilinto Llisio, que Lamartine celebrara em uma
sentidissimaelegia.Òutros,comooÐr. AntonioNunes
casa de Hamburgo suspendeu pagamentos com um passivo de mais de du­
zentos contos de réis, e ao receber em Angola esta notícia, morreu fulminado
a bordo do seu navio Vasco da Gama, a 1 3 de Fevereiro de 1 842. (Vide a sua
biografia no 27 de Janeiro, n.· 1 3, de 1 842, Porto, por José Feliciano de Casti­
lho. Biblioteca Nacional, Colecção de Jornais, A, 1 30) .
José Gomes Monteiro nascera também no Porto, em 1 807; entrou aos
dezasseis anos para os cursos de leis e cânones da Universidade, fugindo de
Portugal, como já dissemos, em 1 828. Não tinha a ilustração suficiente para
cooperar nas edições de Gil Vicente e de Camões, na época em que elas
apareceram. Do trabalho sobre Os Lusíadas fala Garrett referindo-se a Barre­
to Feio; no trabalho sobre Gil Vicente o autor alude a outros escritos ante­
riores, e neste caso só estava o erudito Barreto Feio; por tanto o nome de José
Gomes Monteiro nessas edições foi uma como compensação à sua coadjuva­
ção pecuniária. José Gomes Monteiro, depois da falência de Hamburgo,
voltou ao Porto, onde exerceu algum tempo o cargo de recebedor de Fa­
zenda no Bairro de Cedofeita. Os seus trabalhos li terários resumiram-se a
uma tradução frouxa de poesias alemãs, Ecos da Lira Teutóllica, uma carta a
Tomás Norton sobre a Situação da Ilha dos Amores, baseada sobre um critério
errado, e um volume inédito sobre a realidade histórico-alegórica da novela
do Amadis de Gaula, que em outro lugar apreciámos. Atribui-se-Ihe uma no­
vela em prosa i ntitulada Crisfal e Maria, que chegámos a ver, mas não tem o
menor merecimento. Foi nos fins da sua vida gerente da Livraria Moré,
tendo por esse motivo de defender uma tradução portuguesa do Fausto feita
por Castilho. Faleceu a 12 de Julho de 1 879. Dizia possuir bastantes cartas
de Garrett.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 77
de Carvalho,adoçavamas agrurasdo desterrolazendo
investigaçoes nas bibliotecas de Paris e Londres para
copiaremos extraordinariosmonumentosdal i teratura
e da historia de Portugal ali arquivados.
ÒpoemaCamões publicou-seem l 825, emParis,ano-
nimamente,a custadeAntoniojoaquim!reire Marre-
co, a quem Oarrett chama.
Certo amigo lia allgústia, que aos tonlleltos
Mirradores, que a vida me atrasavam
Adoçaste o amargor, e com belliglla
Dextra cravaste a roda do inJortúllio
Cravo que o giro bárbaro lhe empeça .. +
A ti minhas endeixas /lal calltadas .. «
As condiçoes particulares em que Oarrett escrevia,
imprimiram no poema de Camões um tom elegiaco tao
constante, que lhe da o movimento subjectivo de uma
longa ode. A sua leiçao lirica obriga-o a divagar nas
descriçoes, em vez deseguira marcha natural dopoe-
ma, que é narrativa. Oarrett trabalha sobredoislactos
queavidadeCamoeslheministrara. a chegada a Por-
tugualem l 57Odepoisdedezasseteanosdeausência,e
a suamortedepoisdodesastredeAlcacerQuibir. Lsta
realidadeexcedetodaa poesia. Lntreestesdois extre-
mos,Oarrett preleriu inventar todas as situaçoes do
poema.ComoolezeleºAsuatendêncialiricaoexplica,
recolheu-se na estéril contemplaçao melancolica, em
vezde procurara realidade paravero queelatinhade
ideal . Sigamos a marcha do poema. a acçao começa
com a chegadado galeao, em que o poeta regressa, ao
portodeLisboa, entramnoescaleros passageiros, Ca-
moes e um missionario. Quando o escalerlarga, é que
se notam os choros de um escravo que hcara a bordo,
era Antonio, o j au, amigo de Camoes. Ò poeta insta
com o mestrepara queatraquede novo para tomaro
seuescravo, o mestrealterca,seguem-sebravatasentre
ambos, e o missionario intervém com a sua doçura
1 78 TEÓFI LO BRAGA
e consegue que o escravo seja trazido para terra. Òs
passageiros chegam a terra, cada qual se dispersa, e
Camoes embrenhando-se pela cidade com o escravo
ao acaso, é convidado pelo missionario para pernoitar
no mosteiroda suaordem. Camoes da alguns pardaus
ao¡ au para procurar albergue, mas o missionario nao
o consente, e vao todos a caminho do mosteiro. L esta
a diminutissima acçao do primeiro canto, todo dispen-
didoemelusoesliricas.Nao tem recursos épicos,élalsa
a cena do desambarque, cru o abandono de¡ au na ci-
dade para eledesconhecida. L contudoa realidadehIs-
torica excede a maior epopeia. Camoes chegava a pa-
tria, depois de ter perdido no mar, e quase a vista de
Lisboa,oseugrandeamigoepoeta,ovalenteHeitorda
Silveira, Lisboa estava quase deserta, apesar de estar
enlraquecida a imensa mortandade dachamada «Peste
Grande» de l 5GD, easportasda cidadeestavamguarda-
daspelos honradosdaterraparaquenao entrasse nin-
guém doente. Pelas ruas marchavam lugubremente, e
com gritos lervorosos e rezas alucinadas, as procissoes
de penitência e deacçao de graças. L entre esse ruido
que Camoes desembarca, é entre esse tropel medonho,
arrastado por um inexplicavel saba, que o poeta per-
gunta a si mesmo sedesembarcou em Lisboa, e vai ao
acaso a ver se descobre a antiga casa humildede seus
pais no Bairro da Mouraria, onde encontra ainda viva
sua mae, «muito velha e muito pobre».
Jal é o belo canto que a realidade historica nos re-
velatersidoestemomentodavidadeCamoes. Òcanto
de Oarrett é ténue e descolorido, apesar de toda a sua
elevaçao |irica.
Ò cantoII dopoemade Camões é teatral, é umdestes
quadros de libreto. Quando os três se dirigiam parao
mosteiro, ouvem dobre de sinos, ais carpidos, e bran-
does lunéreos rompem a escuridade da noite. Ò jau
toma como mau agouro o encontro do saimento, Ca-
moes porumpressentimentoaziagoentranomosteiro,
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 79
com um movimentodesencontradodoléretro,despren-
de-sedocadaverumagrinaldaderosasquevemcaira
seus pés . Camoesaproxima-se, vai para ver quem seja,
é umadonzela, amortalhada em vestes cåndidas, Na-
tércia| ÒsecosdotemplorepetemonomedeNatércia,
e o poeta cai sem sentidos em terra.
Ò caracter teatral deste canto, ressente-se das im-
pressoesqueem I nglaterrareceberaOarrettaoverre-
presentar as tragédias de Shakespeare, Camoes entra
em Lisboa, como Haml et no cemi tério, Hamlet ve
aproximar-se umsaimentoricoe aparatoso, conlunde-
-senamultidaoparaverquemera. . . «Ah| aminhabela
Òlélia| Lu amava Òlélia, as aDiçoes de quarenta mil
irmaos todasjuntasnaoigualavama minha. »' L entao
que Haml et cai em um misterioso acesso de luria.
A grinalda que Òlélia teciaaocair nacorrente, é essa
que rola da cabeça de Natércia e vem cairaos pés de
Camoes. Pode-se imitar uma cena destas, mas nao é
descrevendo,eOarrettemvez dedar aos seus persona-
gens essas lalas que sao relåmpagos da consciencia, li-
mitou-seao verso descritivo.
Oarrett pairava no vago da imaginaçao, porque lhe
laltava o apoio historico, Camoeschegavaa patria em
l 57O, e desde l 5JG que Ð. Catarina de Ataide era
morta. Òpoeta,comoé sabido, temaliberdadedoana-
cronismo, mas aqui a realidade ultrapassa em beleza
todos os artilìcios da imaginaçao. Camoes ao chegar
a Lisboa, encontra viva sua velha e pobre mae Ð. Ana
de Sa, o lìlho tambémse lhe apresentapobree exausto
de lorças pelos rudes trabalhos naguerrae dos mares.
Acasaé humilde, emaltemonderecolhero bomAnto-
nio, o escravojau. A mae conta-lhe os longos terrores
da Peste Orande, e o poeta narra-lhe os naulragios e
prisoes, os seusdesalentos, e como no meio de todos os
desastres esperava trazer da Índia para a sua patriao
I Hamlet, acto v.
1 80 TEÓFILO BRAGA
maiortesouro, um tesouroeterno. Jra-loconsigo, atra-
vés de todos os acidentes inopinados da sorte que lho
quis tirar. L opoemad Os Lusíadas. Aboamaesorri-se
amargamente daquela alma sempre generosa e imagi-
nativa. Ðias depois Camoes recebe um bilhete deuma
dama do paço, conhece a letra, era da lormosissima
Ð. Francisca de Aragao, que nos tempos em que lre-
quentava a corte lhepediaversos. Ò que seraº
Mas deixemos este elenco rigorosamente historico,
para prosseguirmos na hcçao de Oarrett. No canto III
dopoema Camões, o poetavoltaasieacha-serecolhido
na cela do missionario, com ojau velando cuidadoso.
L entao que o missionariolhelala, e Camoes reconhe-
cidoprometecontar-lheomotivodoseudesmaio. Nar-
ra-lhe os combates em Ceuta e no Lstreito, como per-
deu o olho batendo-se contra os piratas e delendendo
seu pai. Volta a corte e apaixona-se por umahlha do
conde da Castanheira, o terrivel valido de Ð. joao III;
pensando em merecê-la entranoMosteirodeBelém, re-
colhe-se em contemplaçaojunto a sepultura de Ð. Ma-
nuel,eloialiqueogéniodapatrialheinspirouaempresa
queencheuasuavida.Foialiqueteveaprimeiraideiado
poema. Quandoianestapartedanarraçao,interrompe-o
ummensageirocomumacartamisteriosaeanonima,que
oconvidaparacomparecercomocavaleiroemumadada
horae em umdado sitio em Sintra.
No canto IV, prossegue a narraçao até chegar a his-
toriados seusamorescomNatércia,ecomoelamesmo
lhepediu que losse engrandecer-se nas armas, narraa
partida, aviagemtempestuosa,odesterrode Macau, e
como esta hnalmente na patria tendo realizadoa obra
doseupensamento,masvendoaomesmotempoonau-
lragiodetodasassuasesperanças. Antesdepartirpara
o prazo misterioso de Sintra, entrega o seu poema ao
missionario para lho guardar. Lsta

situaçao laz lem-
brar, ou, talvez loi suscitadapelo episodio davida de
Ðante, quandodesterradodeFlorençaentrounoMos-
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 81
teirodeSantaCroce delCorvo, e depois deterali en-
contradoapaznobomprior!raHilario, lheconh oua
suaguarda o deposito d'A Divina Comédia.
Ò cantov é todosubjectivoe elegiaco, Camoesvai a
Sintra, e todos os sitios recordam as horas dos seus
amores, as passadas ilusoes, é este canto o que menos
acçaoapresenta,eoquemaislidoerepetido,principal-
mente pelo retornelo.
Rosa de amor, rosa purpúrea e bela,
Quem eltre os goivos te esfolhou da campa?
Ðepois de uma prosopopeia a gruta de Macau, soi-
dao querida, onde o poeta passou doces horas tristes,
exaltaSintra,comoestånciaamenaetronodavicejante
Primavera. Camoes perde aqui o seu tipo enérgico da
luta e declama como um cismador melancolico. L no
meiodestedesalento,queointerrompeavozdomissio-
nario, consolando-o, dizendo que lhe obteve uma au-
diência de el-rei Ð. Sebastiao.
- (Mas o livro?
À corte
Vim por ele e por vós; comigo o trouxe.
ÒcantoVI éumalongadivagaçaodescritivabaseada
ememoçoesdahistoriadePortugal,a acçaoresume-se
no empenho de Ð. Aleixode Meneses conseguirdo¡ o-
vem monarca uma audiência ao poeta para lhe ler Os
Lusíadas. Ò canto VII é uma elusao lirica sobre o bon
vieux temps, em que Oarrett esboça os sentimentos do
romantismo, descreve a ansiedade dos pretendentes, e
como o monarca e a corte vao ouvir ler o poema em
uma gruta de Sintra, a leitura é narrada minuciosa-
mentepondoemversoasumadoscantosd' 0sLusíadas,
com um ou outro cnião mais pitoresco. Ò canto VIII
enche-se com este mesmo processo, e sem outro movi-
mento. Ò canto IX é igualmente pobre de acçao. o rei
hca maravilhado com Os Lusíadas, nao sabe comoreco-
1 82
TEÓFI LO BRAGA
nheceresseprodigio, epedeaopoetaquetorneavê-lo.
Camoes sai, narra-sea lalsatradiçaodamortedeBer-
nardim Ribeiro divagandosolitarionaserrade Sintra,
eénestasalturasquesetornaelectivaacartamisterio-
sa. Camoes vê-selrentealrentocom umConde, quese
declara seu inimigo e que o odeia como rival| Quando
Camoes ia paracruzar a espada, o Condedeclara que
nao pode erguer lerro para o homem que loi amado
pelamulherqueeleadorou, queoconvidou paravirali
para lhe entregar o retrato de Natércia, porque é um
legado de honra que ela lhe pediu antes de morrer.
Ðiante tamanho cavalheirismo, Camoes restitui-lhe o
retrato, os odios tornam-se ali em convicta amizade, e
choramj untos o ob¡ ecto que ambos amaram. Camoes
voltaa Lisboa, ondeja correentredoutos e indoutos o
seu livro. Lstaideiadolegadode honraéperleitamente
a d'Arlincourt, a d'Arlincourt, o dizemos, porque em
l 827OarrettescrevianoCronista, queÐ'Alincourteraa
segundacelebridadedaLuropadepoisdeWalterScott.
Nocantox descreve-seCamoesnamaisatrozindigên-
cia, Ð. Aleixo de Meneses j a nao tem inD uência na
corte,vê-se alainadapartidadoexércitoparaÁlrica, e
Camoesdespede-sesobreapraiadomissionarioque se
tornarao seu maioramigo. Ðepois da partidadaexpe-
diçao,opoetacaminhacomo seuescravoAntonio,que
pede esmola,aslorças alquebram-se-lhe,vem-lheo té-
dio da vidae adoece. L nesta situaçao que um mensa-
geiro o procura, é o Conde, que lora outrora seu ini-
migo, que lhe traz uma carta do missionario, que esta
no cativeirode Fez, e em que lhecontaos pormenores
da derrota de Alcacer Quibir, Camoes ouve ler, e
quando chega ao ponto culminante da castastrole ex-
pira, dizendo que ao menos morre com a patria. Lste
lance sublime na verdade de tradiçao historica, esta
aquiapoucadoasmolasteatrais,perdeasuagrandeza,
torna-se convencional e recortado.
Òpoema Camões ésoisto, comversoslrequentissima-
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 83
mente quebrados nos seus hemistiquios, para dar um
certo movimento a descriçao e encobrir a imobilidade
daacçao,écomoumasériedeodesdeFilinto,intercor-
tadas por poucos dialogos, e ligadas por um interesse
cénico. Òsj uizos literarios queexistemsobre estepoe-
masaoaindaasprimeirasimpressoesproduzidas pelas
leituras de l 825, que têmdominado as novas opinioes
atéhoje. Nos mesmosnossurpreendemosda dilerença
quevaidonossopasmoreligiosode l 85Danossaratih -
caçao presente das antigas impressoes. A verdadeira
obradogénio é a queresiste a ratihcaçao do sentirde
cadaindividuoedecadaépoca.Judoomaiséobrada
ocasiao, um acidentena historiada inteligência, neste
planosecundario, o poema Camões édome|horqueen-
tre nos produziu o romantismo. Ò seu intuito nacional
torna-lo-iasagrado, seporventuraopoema tivessepro-
pagado o ideal dapatria. Mas nao,o amordapatria,a
tradiçao nacional, levou uma direcçao errada, conver-
teu-se nisso que em França, nesta épocados romånti-
cos, sechamavao chauvinismo. ( Vide p. 8D. )
Ðepois de ter |eito notar a delìciência de acçao no
poema Camões, laçamos como Faurielao criticara tra-
gédiade Carmagnola de Manzoni, apresentandoascon-
diçoes vitais para uma outra idealizaçao. Interrompe-
mo-nos no momento em queo poetarecebea cartade
Ð. Francisca deAragao, era estadamalormosissimae
princesa a que mais distinguira Camoes na época em
que Doresceu na corte de Ð. joao III, pedindo versos
somenteaeleedesprezandotodososoutrospoetas.Ca-
moes cumpreo mandadodailustre dama, eraparaco-
municar-lhealgumas palavras deÐ. CatarinadeAtaí-
de, quelheouviraantesdelamorrernopaço. queseum
diaCamoesvoltasseapatria,lhedissessequesempreo
tinhaamado,equeoseu amoramatava.Camoesreco-
| he-sedilaceradoe adoece, Ð. ManueldePortugal, sa-
bendoda sua intimidadecom Ð. Francisca deAragao,
reata a antigaamizadeeprometeapresent�-loa Ð. Se-
1 84
TEÓFILO BRAGA
bastiao para dedicar-lhe o poema. Lnquanto o poeta
estadoente visitam-no os seus antigos inimigos dis|ar-
çados e roubam-|he o Parasso, pensando que l hesub-
traiam Os Lusíadas. Quando Camoes da pelo roubo,
ergue-seacustoecaminhatrémuloparaopaço. iao|ere-
ceroseupoemaaorei para osalvaguardar,Ð. Manuel
de Portugal encontra-o e acompanha-o. Vencidas as
delongas do Santo Òl¡cio, aparecem Os Lusíadas; en-
quantoo poetaoiarevendo,ojaucaidoentedenostal-
gia, é o poeta quevela a suacabeceira, como se conta
tambémdeMiguelÂngelo. Asi ntrigas trabalhamcon-
traopoeta,edecididaaexpediçaodeÁ|rica,Bernardes
é pre|eridoaCamoesparaescreveraepopeiado|uturo
triun|o. Chegada a noticia daderrota de Alcacer Qui-
bir, Camoes cai doente, agrupam-se em volta dele to-
dosos que seguiam o partidodaindependência nacio-
nal. Masoexército!ilipeII caminhasobrePortugal,eé
entaoqueo poetaexpira para nao ver apatriaescrava.
!ilipeII aoentrartriun|anteem Portugal, querverCa-
moes, engrandecê-lo,disseram-lheque morreraprocla-
mando que acompanhava a patria. Morrera como
Sadi, a suamorteha-deperturbarparasempreaquele
triun|o.
L isto o queda o simples esque|eto a historia com
leves modih caçoes que pertencem aliberdadeartistica.
Lstaseriaaacçaoverdadeiramenteépicadeumpoema
sobre Camões, porque ele |oi épico na sua individuali-
dade, e nao apatico e me|ancolico cismador, como os
Adolos e os Obermans do romantismo. A historia con-
vence-nos de que a poesia é uma realidade, e que o
ideal é a generalidade doreal . '
I Acaba de publicar-se e m Paris uma tradução e m prosa do poema, com o
título: Camões, poeme tradllil dll por/ligais, auec IIl1e illlroduc/ioll el lIoles par Henri
Faure, ollurage omé dll portrail de Garrett. Paris, 1 880, iII 8. ° de XLV " 22 1 .
É
uma edição primoríssima. A linguagem e m prosa d á u m grande relevo à
sellsibterie da época em que Garrett escreveu.
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 85
A melancolia vaga do tipo de Camões de Oarrett ex-
plica-setambémpelarelaçaointimadaobracomoau-
tor, lalando dos anos da emigraçao, escreve Oarrett.
«Passei ali cerca dedois anos daminhaprimeiraemi-
graçao, tao so e tao consumido, que a mesma distrac-
çao de escrever, o mesmo triste gosto que achava em
recordar as desgraças donossograndegénio, me que-
bravaa saudee destemperavaos nervos . !uiobrigado
a interromper o meu trabalho. e dei-me, como indica-
çao higiénica, a composiçao menos grave. Lssa loi a
origem de D. Branca, quehz, seguidamentee sem inter-
rupçao, desdejulho até Òutubro desse ano de l 821,
compl etando-a antes do Camões" . »' No poema de
D. Branca ja Oarrett teve em vista imitar o digressivo
byroniano, esta sualeiçao poéticanaoé menos interes-
sante. Parabema conhecertemosalgumas notas auto-
biograhcaspublicadas peloactualpossuidordo Catálo­
go dos Autógrafos de Oarrett. Sao os lragmentos de uma
carta a Ðuarte Leça, eis a parte essencial.
«Agoraemlinguagem chae corrente. lembra-se da-
quelas nossas conversassobre antigualhas portuguesas
e o muito que delas se podiaaproveitar, quem denos-
sas legendas e velhas historias e tradiçoesñzesseo que
temleitoI ngleses e Alemaes, queé, vesti-lasdos ador-
nos poéticos e sacudir-lhes a poeira do esquecimento
com assisada escolha e apropriado modoº Pois desde
entao, ¸ eja de mais tempo me lervia isto na cabeça)
nao|ìzsenao pensar noj eitocom que mehaveriapara
armarassim uma coisaquese parecesse, masdelonge,
com tanta coisa boa que por ca ha por estas terras de
Cristo, e pelasnossas,detaoricosque somos, seesper-
diçam e andam a monte por desacerto dc letrados e
barbaridade de ignorantes.
«Acertoudeviras minhasmaosumlivroportugues,
que para mim loi achado aqui . . . Lram as cronicas de
I Poema Camões, canto I , nota D.
1 86 TE6FI LO BRAGA
Ðuarte Nunes. apesar deja lidas e relidas, me deiteia
elas como es|aimado,elendoeescrevinhando,segundo
é meu achaque, deparei na Crónica de D. Afono I, com
a relaçao da conquistas do Algarve, e ao pé logo, em
muiconcisas palavras, a historiadain|anteÐ. Branca,
h lhadaquelerei÷que|oisenhoradoMosteirodeLor-
vao,donde|oi mandadaparaabadessadoMosteirode
HolgasdeBurgos,queé o maisnobreemaisricomos-
teiro de|reirasquehaemLspanha. . . Comestain|ante
teve amores umcavaleiro. . . do qual pariu um h lho. . .
«Ðeu-menogotoestahistoria,ecomolhenaovi im-
possibilidade poética, assentei de a ligar com a con-
quista do Algarve, e |azer dai poema, romance, ou o
que mais queiram chamar-lhe, porque de nomes nao
disputo, e muito menos de nomes dos meus rapazes.
«Òra eis aio argumento e origem. D. Branca é por-
tanto um personagem historico, e nao menos o sao
Ð. Paio,mestredeSantiago,eAben-A|an,reideSilves,
cujoreinodilatei eu por todoo Algarve, que entre di-
versos reizinhos e princi pezinhos estava repartido.
Nemmepareceudemasiadalicençapoética,mormente
emnossosdias, quemuitomaioresasestamosvendo,e
em boa prosa, que nao em verso.
«Historica é também a caçada e |atal combate das
Antas,emqueh carammortososseiscavaleirosdeSan-
tiago e o mercador Oarcia Rodrigues, de|endendo-se
até a ultima como homens que eram. Por ventura ha-
vera ai quemache este caso ainda maispoético; mas é
puraverdade, tal qual a contaÐuarte Nunes, e bem o
creio eu, queos nossos mercadoresdaquele tempo, sa-
biam tanto do covado comoda espada, nem se deixa-
vaminsultardecavaleiroscommedode|an|arronadas
ou calotear desenhoras a troco de cortesias.
«Nao ha la princesas mouras, no quediz a Cronica,
porém meti-lhaseu,que tambémsoucronistaem. . . mi-
nha casa, e uns por outros, Ðeus sabe quem mais
mente, se os poetas, se os cronistas. A ida da rainha
HI STORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 87
Ð. Beatriz a Castela para a concessao do Algarve é
igualmente historica, e enh m, até as brutarias de !rei
Oil naosaolabulas,pelomenos daminha cabeça. !rei
Luis de Sousa, na História de S. Domingos, nos relere
miudamentesuasleiticerias,pactocomoÐiabo,emais
coisas, queservemde lundamento as queimaginei. lì-
nalmente sua milagrosaconversao e exemplarpenitên-
cia, queÐeus permitasirvadeexemploa todosos ne-
cromantes, bruxos, leiticeiros e encantadores. »'
À parteesteestilodagraçaportuguesa,queaindase
prendecomosdichotesdeAntoniojosé,oslragmentos
da carta a Ðuarte Leça deixam-nos claro a origem do
poema D. Branca, osseus elementos tradicionaise poé-
ticoseaintençaodoautor.Aconcepçaodopoemasaiu
deumaleitura,ouantesdeumparagralo da Crónica de
D. Afonso 111 de Ðuarte Nunes, mas tratar uma tradiçao
nacional nao é por em verso o que esta na prosa ingé-
nua dos cronicoes, e muito menos lantasiar a vontade
tecendosupostas lendas . A arte interpretaas tradiçoes
nacionais inspirando-se delas, restituindo-lhes a vida
primitiva, as suascores, interessando-nos, lazendo-nos
solidarioscomo passado, queé emque consisteo vin-
culo mais lorte da nacionalidade. Lra assim que Òe-
lensglegere Rükerttrataram as tradiçoes suecas e ger-
månicas. OarrettleuessaslinhasmaliciosasdaCronica
e po-las em verso a suaguisa, comoo compositor que
norepentemelomaniacosubmeteaocontrapontoasru-
bricasdaopera. Com esta irante teve amores um cavaleiro . . .
Ðaquisaiacompletamentetodaaverdadee todaavida
da tradiçao, era preciso estuda-la antes de interpreta-
-la. Paraqueinventarunsamorescomo mouroAben-
-Alanº Na corte deAlonsoIII estavaem moda o gosto
poético provençalesco da corte de S. Luis, quc ali
aprenderam a imitaros hdalgos quese relugiaram em
!rança porocasiao das lutas com Ð. SanchoII. Lram
I Catálogo dos Autógrafos, p. XXII.
188 TEÓFI LO BRAGA
estes trovadores os que se apaixonavam pelas prince-
sas, em!rançao tinhamaprendidocomo exemplore-
centedocondedeChampanheporBrancadeCastela.
Vendo com esta luz a tradiçao portuguesa, encontra-
mos essas notaveis palavras do marquês de Santilhana
acerca dejoao Soares de Paiva, trovador da corte de
Ð. AlonsoIII: «Avia otras [obras) dejohan Soares de
Paviael qual, se dice aver muerto en Galicia por amores de una
infanta de Portugal. ») Como provamos no estudo da es-
colaprovençalportuguesa,´joaoSoaresdePaivaéesse
trovadordacortede Ð. Alonso III. Coma tendênciali-
ricadeOarrett,eraesteummelhorprotagonistaparao
poema de D. Branca, mais verdadeiro, mais nacional.
Que mundo de sentimentos se lhe reve|ava so nesta
palavratrovador| Lsses receios e segredos do namora-
do,essasremotasalegoriasadamadosseuspensamen-
tos e ocultando sempre o seu nome, essas lendas terri-
veis como da dama de !ayel ou de Cabestaing, esses
votos denodados, enlìm todas as aventuras da Terra
Santa e das biogralìas do Monge das Ilhas de Òuro|
Lste é que seriao poemanacional,do tempodeÐ. A-
lonsoIII, o quenosrestituiriaavida umaépocae ator-
naria conhecidaeamada, loradodominiodaerudiçao.
Ignorando esta realidade poética, Oarrettestragou as
tradiçoesépicasdaconquistadoAlgarvecomo sincre-
tismo de uma imaginaçao mal dirigida. Ò episodio de
!rei Oil, o tipo do nossoFausto Português, esta também
malaproveitadono poema, Oarrett nao compreendeu
estalenda, queporsidavaum be|oe grandepoema, e
inutilizou-a em um episodio. Basta lembrarmo-nos de
queoFausto seperdeirremediavelmentenas lendasale-
maes, inglesas, lrancesas, italianas e espanholas, e que
sesalvana tradiçao portuguesa porintercessaoda Vir­
gem, essefeminino eterno de Oocthe, com que salva o
I Trovadores Galécio-Portlglleses, p. 1 01 e 1 02.
, Carta ao Condestável, § xv.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 89
Ðoutor pelo panteismo da arte no hm do século XVIII.
L inútil dizer aqui o modo dereconstruir sob a inteligên-
ciada|ìlosoha e daartea tradiçao do Fausto Português;
este titulo mostra até que ponto Oarrett nao soube
compreendê-la. Levadoaindapelorespeitode!ilinto,I
e i mpressionado pelo Oberon de Wieland, traduzido
pelo |oragido do Santo Òücio, imitou a procissao gro-
tesca dos |rades e das nonas no cerimonial disciplinar
da distribuiçao da posta de toucinho chamada a Tre­
menda. Qualquer dos contos populares de |rades lhe
dava uma peripéciamais caracteristicadosvelhoscos-
tumes. !oij ustamente este o episodio que mais qua-
drouaogostodopúblicoeoladoporondetodosconhe-
cem o poema de D. Branca.
ja no h m da vida, Oarrett compreendeu que se nao
souberaaproveitardalendade !reiOil, nas Viagens na
Minha Terra escreve.«Algureslhechamei jaonossoÐr.
!austo. e é com e|eito. Nao lhe |al ta senaoo seu Ooc-
the. . . Nos precisamosdequem noscanteas admiraveis
lutas÷ ora comicas, ora tremendas do nosso !rei Oil
deSantarémcomo Ðiabo. Ò que euh znaD. Branca é
pouco e mal esboçado a pressa. Ò grande mago lusi-
tano nao aparece ali senao episodicamente, e é neces-
sario que apareça como protagonista de uma grande
acçao, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em
toda a luz doquadro. . . Lembra-mequesempreentrevi
isto desde pequeno, quando me|aziam lera História de
S. Domingos, tao rabujenta e sensabor as vezes, apesar
do encantado estilodonossomelhorprosador,eeuque
deixavaos outros capitulos paralere reler somenteas
aventuras do santo |ei ticeiro que tanto me i nteres-
savam. »´
Lstas revelaçoes mostram-nos até que ponto o ter
I A primeira edição de D. Bralca traz as iniciais F. E. , com a intenção de
submeter o gosto autoritário do público a esta obra atribuída a Filinto Elísio.
, Viagens lia Millha Terra, t. II, p. 1 41 .
1 90
TEÓFILO BRAGA
sido embalado comas tradiçoes nacionaislecundaogé-
nio e a predisposiçao artistica. A medida que Oarrett
avançava na sua carreiraliteraria o amor pelas tradi-
çoes portuguesas alervorava-se nele. L por isso que a
suaterceira obra da emigraçaoloi aAdosinda, poemeto
trabalhado sobre o romance popular da Silvaninha. As
condiçoesdestetrabalho,intimamenteligado a vidado
autor, encerram a melhor parte da sua educaçao in-
telectual. Ðiscutindo o valor poético das tradiçoes na-
cionais com Ðuarte Leça, queo lortalecia no planode
tirar desses elementos perleitas obras de arte, Oarrett
dedicou-lhe a sua primeira tentativadaSilvaninha. Lm
umacarta,emqueexpoealgumasobservaçoessuperlì-
ciais sobre as lases da poesia popular portuguesa, laz
uma pequena recapitulaçao dos seus trabalhos tenta-
dos segundo o novo espirito romåntico. «No meu poe-
mazinho de Camões, aventurei alguns toques, alguns
longesdeestiloe pensamentos, anuncieiparaassimdi-
zer, a possibilidade da restauraçao deste género, que
tantotemdisputado na Luropa literaria com aquelou-
tro, e queho¡ecoroado doslourosdeScott, deByrone
de!amartine,vai de parcomele,e, naodireivencedor,
mas também nao vencido.
«D. Branca, essamaisdecididamenteentrounalice,e
com o alaudedo trovadordesahoua lira dos vates, ou-
trosdirao, nao eu, se com leliz ou inleliz sucesso. »'
I Lê-se em um artigo de Herculano, qual o Estado da Nossa Literatura: «Mas
a Portugal não coube o figurar nesta lide (do Romantismo): A parte teórica
da l iteratura há vinte anos que é entre nós quase nula: O movimento intelec­
tual da Europa não passou a raia de um país onde todas as atenções, todos
os cuidados estavam aplicados às misérias públicas, e aos meios de as remo­
ver. Os poemas de D. Branca e Camões, apareceram um dia nas páginas da
nossa história li terária sem precedentes que os anunciem; um representando
a poesia nacional, o romântico; outro a moderna poesia sentimental do Norte,
ainda que descobrindo às vezes o carácter meridional de seu autor. Não é
para este lugar o exame dos méritos ou deméritos destes dois poemas; mas o
que devemos lembrar é que eles são para nós os primeiros e até agora os
únicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a dos nossos maio­
res.» (Repositório Literário, de 15 de Outubro de 1 834.)
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 91
ÐointuitodaSilvaninha, diz. «Creioqueé estaa pri-
meira tentativa que ha dois séculos se laz em portu-
guês, deescreverpoemaouromance,oucoisaassimde
maiorextensao, neste género deveresos pequenos, oc-
tossilabosouderedondilhas,comolhechamavamdan-
tesosnossos. »' Viaapoesiapopularporestecaracteris-
tico exterior, e em vez de a estudar explicando-a pe|a
etnologia daraça, tratou de contralazê-lanaAdosinda.
Oarrettja a este tempo citava os trabalhos de Orimm,
masnaocompreendeuestaprolundaobservaçaodessesa-
bio.«Òhomemquequerlazerisoladamenteetirarpoesia
popular do seu sentimento proprio, erra quase sempre,
poder-se-ia dizer inevitavelmente, nesta empresa que se
propos desempenhar, raramente ou nao lìca aquém ou
além dajusta medidadas coisas, ou nao a alcança ou a
ultrapassa. » As expressoes dessa insondavel eloquência
dopovo,reduziram-senaAdosinda alraseelegantee con-
ceituosa,osbreves maslundostraçoscomque naSilvani­
nha secolocaa acçao,naAdosinda converteram-senodes-
critivo demorado, paisagista, suprindo por estes retratos
do mundo exteriora impossibilidade deverparadentro
domundodaconsciência.Asnarraçoes,quesaoaacçaoe
aexplicam,ampliam-senodialogoteatraledeeleito.Por-
tanto, a Silvaninha é uma temivel pedra de toque para a
Adosinda; uma é a verdade, a outra a convençao, uma a
natureza, a outra o artilicio, uma a espontaneidade e a
outraoeslorço.Ò quehadebelonaAdosinda, pertenceao
lundo popular, mas a ingenuidade popular nunca pode
sercontraleita,porissoOarrettnaoatingiuessajustame-
dida de quelala Orimm. ´
Almeida Oarrett vivia com parcos meios durante a
primeiraemigraçao, sem se aproveitardo indu|to de 5
de junhode l 821,porémsuamulherÐ. LuisaCåndida
I Romallceiro, t. I, p. 4. Ed. 1 853.
2 Esta parte do trabalho de Garrett, continuada no Romallceiro, ficou estu·
dada no cap. Vil das Epopeias Moçárabes.
1 92
TEÓFILO BRAGA
Midosi entendeu requerer em Fevereiro de l 825 em
nome domarido paraquelhe losseconcedidoregressar
a Portugal. Foi o requerimentoainlormara I ntenden-
cia Oeral da Policia, e na morosidade da inlormaçao
morreurepentinae misteriosamenteo sordido Ð.joao-
VI, a l 0 de Marçode l 825, deixandoa regencia a sua
lìlhaÐ. Isabel Maria, soem21de Maiode l 82G, éque
a Intendencia respondeu que naohaviainconveniente
empermitiraentradadoproscrito,relerindo-seaOar-
rettcomaslrases damaisdegradantecompaixao. Oar-
rettdesconheceu essesdocumentossecretosda Policia,
senaonuncateriaaceitadoumtaoultraj anteperdao,'a
unicacoisaqueseriaahonradopoeta,eleproprioloio
primeiro a contradita-la, nesse documento datado de
) Reproduzimos aqui esses ignorados documentos copiados do Arquivo da
Polícia, hoj e na Torre do Tombo:
«Por aviso de 22 de Fevereiro do ano próximo passado ( 1 825) foi Sua
Majestade, que Deus tem em glória, servido mandar ouvir esta I ntendênia
sobre o requerimento do bacharel João Baptista da Silva Leitão de Almeida
Garrett, em que pretendia voltar a este reino, donde por motivos políticos se
achava expatriado. Pela i nformação que inclusa levo por cópia à presença de
V. Ex.' foi julgado incompatível com a pública segurança o regresso do su­
plicante, considerando-se perigosa pelos motivos na mesma informação pon­
derados, a sua existência em Portugal: Continua por tanto o seu extermínio
até agora em que aparece de novo sua desgraçada consorte, implorando a
régia clemência de Sua Majestade, e invocando a sempre saudosa e respeitá­
vel memória da beneficiência do falecido soberano sobre a sua desventurada
situação: fundamenta o seu direito à consideração de Sua Majestade, em
princípios que as circunstâncias do tempo e mesmo as do suplicante hoje
fazem mudar de fgura a sua pretensão.
«O bacharel João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, arrebatado
pelas ideias do tempo, pela verdura dos anos, e pelos excessos, de uma ima­
ginação ardente, foi como outros muitos ( hoje restituídos aos pátrios lares)
um sectário fogoso dos princípios democráticos, que vogaram durante o fatal
período da Revolução, e que infelizmente alucinaram as cabeças dos incau­
tos e inespertos: restaurada porém a monarquia, se retirou de Portugal ime­
diatamente, temendo que uma vingança sanguinária surgisse entre nós, sa­
crificando tantas vítimas, quantas os sectários do sistema constitucional:
desvanecido porém este terror à vista das indubitáveis demonstrações de
clemência e piedade com que o augusto soberano, que Deus tem, procurou
conciliar os ânimos dos seus vassalos, olhando mais como efeito de erro do
que da maldade, os desvarios da maior parte deles. O suplicante regressou
por isso à sua pátria, donde depois da insinuação da Polícia, que o julgou
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 93
perigoso, foi obrigado a sair; e isto antes do régio indulto de 5 de Junho de
1 824: aparecendo porém este, não foi o suplicante compreendido nas suas
excessões; e não tendo os seus anteriores excessos feito objecto de processo
que o condenasse, foi o suplicante, como muitos, perdoado, e foram portanto
relevados os seus desvarios pelo dito decreto de amnistia, em que foi incluí­
do, procedendo unicamente de cautelas da Polícia a sua expatriação depois
do mencionado indulto. E tendo por isso experimentado até agora como
castigo dos seus erros, todos os rigores do extermínio e da indigência; à vista
de cujos sofrimentos únicos frutos que o suplicante tem colhido e visto colher
a Europa inteira das desorganizadas teorias de que foi sectário, é de esperar
que desenganado pela experiência e atenuado de trabalhos, haja mudado de
princípios, filhos da inexperiência e fogo da mocidade, como bem persuade o
silêncio que ele na sua emigração tem guardado, abstendo-se de imitar e
seguir o sistema dos outros que não tem cessado de escrever e propagar
princípios sediciosos; e então não há motivo para que o suplicante seja ex­
cluído da régia clemência, de cujos efeitos ainda não há gozado, quando
outros, pelo menos em idênticas circunstâncias, têm aproveitado; não sendo
por isso tanto para temer o seu regresso, quando em outro tempo se j ulgou
na informação inclusa, não só pela mudança muito provável do suplicante,
mas até mesmo pelo estado actual dos povos, em cuja maioria existe a con­
vicção dos perigos e males certos que as revoluções constan
t
emente acarre­
tam sobre eles; sendo mui dificil que um homem sem preponderância e sem
fortuna lhe pudesse fazer reviver princípios contra os quais a experiência
tanto os há prevenido.
À vista pois das razões expostas, julgando mudadas as circunstâncias que
ditaram a primeira citada informação, parece-me não ser o suplicante in­
digno da real clemência, para obter o regresso que implora, depois de longos
sofrimentos; julgando en\re tanto útil medida da Polícia o obrigar a assinar
termo de conformar à ordem legitimamente estabelecida a sua conduta e os
seus princípios, ficando por isso debaixo da vigilante inspecção da Polícia,
para contra ele proceder irremissivelmente logo que afastando-se dos seus
deveres se torne por isso indigno da régia beneficência, a que se acolhe, e
merecedor de severa justiça, que deverá punir qualquer reincidência dos
seus excessos.
É
quanto se me oferece infor
m
ar a V. Ex.' sobre o requerimento de
D. Luísa Cândida Midosi de Almeida Garrett, em cumprimento do aviso de
9 do corrente. O que tenho a honra de levar à presença de V. Ex.' para o
fazer presente ao governo destes reinos, que determinará o que for servido.
D�ús guarde etc. I l.mo e Ex.m Sr. Fernando Luís Pereira de Sousa Barradas,
24 de Maio de 1 826. (Papéis da Intendência; Contas para as Secretarias,
Liv. XXIV, f. 1 43. )
"Satisfazendo ao que o governo destes reinos ordena no aviso, que de
V. Ex. ' recebi datado de 22 do corrente, pelo qual sou mandado informar se
haverá algum motivo que deva embaraçar, que João Baptista da Silva Lei­
lão de Almeida Garrett regresse a estes reinos donde foi mandado sair por
ordem desta mesma Intendência; incumbe-me expor a V. Ex.', que os moti­
vos que ocasionaram aquela medida da Polícia, se acham mencionados na
Conta da cópia inclusa, que subiu à presença de Vossa Majestade em 7 de
Março de 1 825, na qual se produziram as causas porque na referida época se
julgou perigosa a sua presença nestes reinos, atento o estado de agitação em
que se achavam os espíritos em matérias e opiniões políticas que os dividia;
1 94 TEÓFILO BRAGA
21 deMaio, se lê. «Ò bachareljoao Baptista da Silva
LeitaodeAlmeida Oarrett, arrebatado pelas ideias do
tempo, pela verduradosanose pelos excessos de uma
imaginaçaoardenteloi comooutros muitos ¸ ho¡e resti-
tuidos aos patrios lares) umsectariologosodosprinci-
pios democraticos, que vogaram durante o latal perio-
do da Revoluçao. . . » Nolìm da sua vida escrevia Oar-
rettestadeploravelpaginapararelutar,talvez,aimpu-
taçaomaisgloriosadasuavida. «Lumsolìsmadecalu-
nia,porventuraadmissívelcomoepigramase,republi-
cano e demagogo, o autordo Camões, de Gil Vicente ede
Frei Luís de Sousa, houvesse alguma horaprolessado as
hipocritas doutrinas do nivelamento social, que tao
poucos aclamam com sinceridade e menos ainda com
perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho o
viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da mo­
narquia, sustentá-la como inseparável da causa da liberdade do
povo, daqual c naomenoszelosoe estrcnuodelensor. »'
PoucodepoisderegressarapatriaOarrettloireinte-
gradonoseuantigolugarpor decretode2G deAgosto
de l 82G.
Conlerida a regência a Ð. Miguel a J dejulho de
l 827, recomeçaramasperseguiçoespoliticas . Foientao
queOarrettestevepresono!imoeiro,porumprocesso
intentadocontraojornal O Português, redigidoporPau-
mas sendo recentemente mandado informar um requerimento de D. Maria
Midosi de Almeida, em que pedia a Sua Majestade licença para seu marido
voltar à sua casa, eu expus na Conta, que dirigi à presença do mesmo
augusto senhor, pelo Ministério dos Negócios da Justiça em 24 deste mesmo
mês as razões que me pareceram próprias para se haver contemplação e
equidade com o mencionado Garrett, peTmitindo-se-lhe o seu regresso a esta
corte, mediante as cautelas e providências, que apontei na dita informação;
agora porém devo acrescentar, que depois da data daquela primeira infor­
mação nada mais consta na Polícia contra o suplicante que obste o seu re­
gresso. À vista do que, Sua Majestade se dignará resolver o que bem lhe
aprouver. Deus guarde etc. 26 de Maio de 1 826. Il. mo e Ex.mo Sr. Conde
de Porto Santo (Papéis da I ntendência: Contas para as Secretarias, Liv.
XXIV, 1. 1 5 1 ) .
I Fábulas e Folhas Caídas, p . XI.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 95
lo Midosi, Luis Midosi,CarlosMoratoRoma,Antonio
Ma r i a Couc e i r o, joaqui m Lar cher , e Oar r e t .
A composiçao da Adosinda loi umalivio para as suas
horasdeprisao. «Esteveporespaçodetrêsmesespreso
sem mais pretextodo que o de ter tido parte em uma
publicaçaocensuradaeimpressacomtodasaslicenças
necessarias.Naoloipresoocensor,nemproibidaa pu-
blicaçaonem no lìmdetrêsmesesseachoumatériade
culpa| »' Ò lategodoabsolutismojaseagitavanoar,e
para escaparaarbitrariedadesohaviaorelugiododes-
terro.OarrettemigrounovamenteparaInglaterra,mas
esta segunda emigraçao nao loi nada lecunda para as
letras, estava entao nos seus trinta anos, relacionado
com algumas lamilias inglesas,ja adaptado a vida es-
trangeira e tomandoa emigraçaocomoumaexcursao,
so procurou divertir-se,fiartar e vermundo. L porisso
que em uma nota do poema Camões escreve. «Real-
mente desde estaépoca, ¸ l 825) nao torneia empreen-
derumaobra poética, naotorneipropriamente a lazer
versos. . . Coisas velhas e anteriores, emendei e conclui
muitas . »´ Esta esterilidade poética loi um terrivel sin-
toma,avidasensualdaRestauraçaoatraia-o,levou-lhe
a ingenuidade moral, a saudadedapatria, que tantoo
inspirara, nao o acometia agora, envolvido nas peque-
nas paixoes dos outros numerosos emigrados que vi-
viam a solta, sem planode resistência, nem ideal poli-
tico. Era preciso a lorte emoçao da realidade da vida
para Oarrett ser outravez chamado ao amor daArte,
diz el e, depois de contar a sua longa esterilidade.
«AcançaoavitoriadaJerceira,assuntoquelariapoe-
ta a burra de Balaao do mais prosaicojornalista, com
dois ou três pecadilhos mais, se tanto, sao os unicos
[versos) dequemeacuso. »Istonosestaindicandoqual
serao movel dasua terceira e ultimalase literaria.
I Romanceiro, t. I, p. 1 9.
, Camões, canto x, nota F.
1 96 TE6FILO BRAGA
Ainda nessa primeira época da emigraçao, Oarrett
ocupou-se em|azer umasintese historica daliteratura
portuguesa, quemuitolhedeviaservirparadetermina-
-lono caminho darenovaçaoromåntica. Ò Bosquejo da
História da Poesia e Língua Portuguesa, devia revelar-se o
espiritonacionalnas criaçoesliterarias,mostrar-lheaté
quepontoascorrentesclassicaseautoritariasdaimita-
çao o atro|ìaram, e revelar-lhe as condiçoes mais se-
guraspararestituiraesseespiritoasuaexpressaoviva,
nao |oi este o intuito desse trabalho destinado unica-
mente a uma empresa delivraria.
ApesardosmuitoserrosdoBosquejo da História da Poe­
sia e Língua Portuguesa, publicadoem Paris em l 827em
|rente de uma selecta de excertos da literatura portu-
guesa, este rapido esboço deviaconsiderar-se uma re-
velaçao de um grande génio critico, porque nao tinha
precedentes, porquenuncanenhumescritornossopres-
sentirao minimovislumbre de unidade |ìlosohca nesta
descurada l i teratura. Oarrett determinava-lhe a sua
evoluçao historica, caracterizava-lhe os principais es-
critores, as |eiçoesdecadaépoca, mas, tudoistoestava
|eitoja com umavalentia inexcedivel por estrangeiros .
Ðe l 8O5 a l 8l Do grande hlologo Bouterweck, publi-
cavana«HistoriadaPoesiaedaLloquênciadosPovos
Modernos» a História da Literatura Portuguesa, acen-
tuando os traços por |orma que |ìcarao para sempre
de|ìnitivos, ainda em l 8 l D o grande historiador Sis-
mondedeSismondi, nasLiteraturas do Meio-Dia da Euro­
pa, historiavaa vida morale artisticadaliteraturapor-
tuguesa, seguro nos seus juizos sobretudo quando se
encostaaBouterweck. ' Lm l 825oeruditoviajanteFer-
I Bouterweck, foi auxiliado com os subsídios materiais para a História da
Literatura Portuguesa, por um sábio português seu amigo, modificando assim o
seu plano, que era tratá-lo como um suplemento da li teratura espanhola;
supomos com algum fundamento que este sábio será António de Araújo, o
conde da Barca, amigo e protector de Filinto.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1 97
dinand Ðenis publicava o seu Resumé de I 'Histoire Lit­
téraire du Portugal, com aquela lucidezvulgarizadorado
espiritolrancês. Conhecidos esteslivros e as condiçoes
em queloramescritos,easuperioridadeintelectualda-
queles que souberam achar a unidade lìlosoh ca da li-
teratura portuguesa e a sua conexao como grupo das
l iteraturasromånicasquea explicam,é queseconhece
omedianovalordoBosqueo deCarrett,compostosobre
estesvaliososrecursos. Carrettparteaindados seguin-
tespreconceitos. daexistênciadeumalinguaromance,
queeraoprovençaldondesairamasoutraslinguasno-
vilatinas, da lormaçao do português pela mescla das
linguas detodos os povos que invadiram a Peninsula,
semcompreenderquenaopodeexistirumalinguasem
unidadesintaxica,emboranoléxicotenhaosmaisdes-
ligados elementos, ignora a relaçao dialectal entre o
português e o galego, ignora o periodo da poesia pro-
vençalportuguesa, e da imitaçao castelhana, e nemre-
motamentelaz entraro elementotradicionalnaconsti-
tuiçaoda literatura. Aindaassim, oBosqueo pertencea
primeiraépocada emigraçao de Carrett, quandoasua
actividadeintelectualseexerceumotivadapelanecessi-
dade de consolar-se pensando e escrevendo acerca da
patri a. '
I O Dr. António Nunes de Carvalho era o que então s e ocupava mais de
copiar os monumentos portugueses dispersos pelas bibliotecas estrangeiras.
3. DA SEGUNDA EMIGRAÇÃO EM 1 828
ATÉ À MORTE DE GARRETT
Carácter da segunda emigração em 1 828. - Garrett . descreve os seus
amores em Inglaterra. - Conhece as consequências da reacção chateau­
brianesca e atribui-a ao romantismo. - Chama as lutas do romantismo
« guerras do alecrim e mangerona». - A expedição dos Açores, suposta
perda de inéditos. - Durante o cerco do Porto. - O romance histórico
O Arco de Salll 'Alla e a lenda de Fernão Lopes. -A vida política desperta
ambições desenfreadas em todos os homens prestantes, e inutiliza-os para a
literatura. -Nas Viagells lia Alillha Terra satiriza o seu tempo e é a primeira
vítima dos erros da época: o título, as comendas. -A última fase lírica das
Folhas Caídas. - Relações com a sua vida. -Os inéditos: o romance bra­
sileiro Helena. -Garrett condena a fraca geração que dirige e sente a impos­
sibilidade de organizar escola. -Autolatria deduzida da sua carteira. -Os
úl timos momentos de Garrett, pelo seu admirador Gomes de Amorim. -
Conclusões.
Ðe todosos males acumulados sobre a naçao portu-
guesa pela imbecilidade de Ð. joao VI, que provocou
a invasaolrancesa e nos abandonou depois ao inimigo
lugindoparaoBrasilcomasriquezaspublicas,deixan-
do-nos entregues a umadelesa heroicasem recursos, e
como prémio dela escravizando-nos ao protectorado
degradante de Inglaterra, de todos esses males nao loi
talvezo menoronascimentodos seusdoisñlhos Ð. Pe-
dro e Ð. Miguel . Na corte do Rio dejaneiro loram os
dois principes criados a solta, deixados a espontanei-
dade de instintos brutais, emexerciciosdelorças e em
seduçoesdasdamasdopaço,paratrazerosdoisprinci
pes a disciplina moral pensou-se em casa-los, e nego-
ciou-se os casamentos com duas princesas da lamilia
real daÁustria. Porumacidente imprevistoa princesa
200 TEÓFILO BRAGA
destinada para Ð. Pedromorreu, e comoprincipeher-
deiro lez-se-lhe o casamento com Ð. Leopoldina, que
era a destinada para Ð. Miguel . Ðaqui se originou
o odio prolundo entre os dois irmaos, odio alimentado
pela mae Ð. Carlotajoaquina, que, pela prelerência
exclusiva que dava ao inlante, chegou a lazer dele o
instrumentocegodo seu espíritoreaccionario. Nas tra-
diçoesbizantinasdalamilia,diz-sequeparavinculara
sioinlanteÐ. Miguel,Carlotajoaquinaoameaçavade
declarar a naçao que ele nao era lìlho de Ð. joao VI.
Lnlìmesteslactos revelam comodepoisdamorteines-
perada e misteriosa de Ð. joao IV em lO de Maio de
l 82G, as coisas se encaminhavam para tremendas ca-
tastroles. Ð. Pedroestavano Brasil comoimperador, e
a regência do reino, deixada em testamento a uma hlha
do monarca, mandou-o cumprimentar e pedir-lhe as
suasordens, Ð. Pedronaosentiaseguronotronodela,
e mandouparaca a Constituiçao de l 82G, como meio
paravira tomarcontadisto. Levanta-seentaoumpar-
tidochamado«Realista», excitado porCarlotajoaquina
e auxiliado por seu irmao o miseravel Fernando VII;
Ð. Pedro parairde encontro ao malnomeiao inlante
Ð. Miguel seu lugar-tenente no reino e abdica o trono
de Portugal em sua hlha Ð. Maria da Oloria. Ð. Mi-
gueléchamadodacortedeVienadeÁustria,ondeesti-
vera desterrado, e desembarca em Lisboa a 22 de Fe-
vereirode l 828. Lleentendiaque istoera também seu,
e depoisdej urar a Constituiçao para tomarconta do
poderexecutivo,dissolveas cåmaras, simula umacon-
vocaçao dos três estados da sociedade antiga, e decla-
rou-sereiabsolutoemJOde junhode l 828. Começouo
terror da legitimidade, que durou até ao ano de l 8JJ,
solrendo a morte, o desterro, a emigraçao, sem lalar-
mos noconhsco dos bens, paracimadequarentaeseis
mil e seiscentas pessoas.
Oarrett, conhecidopela Políciacomopartidariodas
ideiasdemocraticas,logoqueviulevantadasaslorcase
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 201
atulladasasenxovias,relugiou-seemInglaterra.Sobo
suave governo da regência de Ð. Isabel Maria, havia
Oarrettsolridotrêsmesesdecadeiacomoredactord' O
Português; agora com as lorças miguelinas arvoradas
era-lhe impossivel evitar a morte. Bastava para tanto
o seu talento literario, porque a inveja que lhe tinha o
padrejoséAgostinhodeMacedo,o autord' ABesta Es­
folada e da TriPa Virada, queaçulavacom os seusdesre-
gramentos de linguagem os lurores dos legi timistas,
naohesitariaemlazer-lheumatremendaacusaçaopu-
blica para o brindarcom ogarrote. ' Lnquanto se orga-
nizou o exército l iberal, Oarrett viveu em Inglaterra
assistindo como artista ao trabalho de renovaçao do ro-
mantismo. A¡ovemrainhaÐ. MariadaOloriaera como
a dama dos pensamentos dos voluntarios liberais, e na
preocupaçaodestepensamentoOarrettempreendeuepu-
blicou emInglaterra um livroou Tratado de Educação, des-
tinado a uma princesa. Ò livro é pueril, e sem ciência
pedagogica,alaltadehlosohanocritériodoautorésupri-
da por muita religiao e muita moral em lrases vagas e
com citaçoes autoritarias. Jratando da educaçao cienti-
hca, Oarrett apresenta também uma classihcaçao das
ciências, base de uma metodologia, abaixo do queja en-
tao se conheciade Bacon ou de Ð' Alembert.´
I Segunda vez demitido do seu lugar por decreto de 1 8 de Agosto de 1 828.
2 Eis o esquema dessa classificação:
(���!�::::
I Ciências que descrevem os objeclos da nalureza . . . . . + + + . • . . . + + . + . + . . . + . Botânica.
Mineralogia.
Anatomia.
{ Física.
II Ciências que analisam suas propriedades . . . . . . . . . . . . . . . . + + + + . . . . . . . . . . Química.
Fisiologia.
{ Medicina.
I I I Ciências que as aplicam aos usos, cómodos e gozos da vida . . . . . . Arquitectura.
Agricultura, etc.
202 TE6FILO BRAGA
Ðeste periodo da emigraçao é também o livro inti-
tuladoPortugal na Balança da Em'opa, lormado com arti-
gos soltos da época em que redigia O Português, e em
que conclui pela necessidade doregime constitucional.
A outros trabalhos se relere Oarrett, uns deixados na
ilha de S. Miguel ao embarcar na expediçao para o
Porto, em 27de junho de l 8J2, outros, como um poe-
ma sobre Os Doze de Inglaterra, uma tragédia doInfante
Santo e um poema sobreagenealogiados Meneses,per-
didos na barra do Porto em um navio metido a pique
pelasbalasmiguelistas.AvidaemIng|aterranaoloide
simplesgalanteria,comopodesupor-sepelosepisodios
contadosporOarrettnoromancedigressivodas Viagens
na Minha Terra; as incertezas da causa l iberal, as trai-
çoes, a apatia, tudo levava aquele espirito a procurar
nos trabalhos li terarios uma verdadeira consolaçao
moral. Pertenceaoano de l 828 a primeiracolecciona-
çaodos seus versos, queintitulouLírica de João Mínimo,
em que se acham reunidos os primeiros ensaios com-
preendidos até aépocadecisivade l 821. Òsemigrados
portugueses representaram-lhe em Plymouth a tragé-
dia Catão; ' era uma recordaçao saudosa da grande
No A/manaque Insula/lO para Açores e Madeira, para 1 874, encontra-se uma
relação desta récita do Catão, em Janeiro de 1 829: «
É
para aqui memorar
muitas das nossas ilustrações militares, políticas e l iterárias, que se encon­
travam no concurso dos espectadores. A par de Almeida Garrett, a quem
nesta narrativa cumpre prestar a primeira homenagem, via-se o grande ge­
neral conde de Vila Flor. No mesmo banco com José Estêvão e major Me­
neses, comandante dos voluntários, estavam sentados Passos Manuel e Pas­
sos José. Ali se viam Alexandre Herculano, José da Silva Carvalho, Joaquim
António de Aguiar, marquês de Loulé, Baltasar de Almeida Pimentel, Si­
mão José da Luz, coronel Xavier, Bernardo de Sá Nogueira, Luís da Silva
Mouzinho de Albuquerque, Cândido José Xavier, Agostinho José Freire,
Luís Pinto de Mendonça Arrais, António César de Vasconcelos Correia,
José Maria Baldy, marquês de Ficalho, major Pacheco, Júlio Gomes da
Silva Sanches, Júlio Máximo de Oliveira Pimentel, D. Carlos Mascarenhas,
general Piçarro, Joaquim Bento Pereira, João Nepomuceno de Lacerda,
Velez Caldeira, Januário Vicente Camacho, José Vitorino Damásio, Joa­
quim António de Magalhães, António Cabral de Sá Nogueira, Bartolomeu
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 203
épocaliberalde l 82 l . juntodeOarrettviviao seu an-
tigo companheiro Paulo Midosi, em cuja casa se h -
zeram os primeiros ensaios da tragédiainaugurada no
Jeatro doBairroAlto. Ò poeta estava em uma grande
elaboraçao artistica, queprecedeu aesplêndidarevela-
çao do seu génio dramatico. «Lm Londres, na ultima
emigraçao,soasreiteradasinstånciasdemeupai ¸ Pau-
loMidosi) , domarquês de!icalhoedejervisdeAtou-
guia o lorçaram a leitura do que escrevia. »'
Òs emigrados portugueses reuniram-se na baia de
Belle-Isle,dondeembarcarama2de!evereirode l 8J2,
paraai l haJerceira. Oarrett,alistadonobatalhaoaca-
démico, seguiu para esse unico reduto aberto aos li-
berais,nosprologosdosseuslivros aludeasmildilìcul-
dadesqueembaraçavamaexpediçaoequecomprome-
tiama causadaliberdade, aproveitadapor Ð. Pedroa
beneüciode suah lha. Pela suaparte Ð. Pedro em car-
tasqueescreviaaomarquêsdeResende, dizqueopovo
portuguêsnaolaz casodaliberdade,equeoseupensa-
mento é constitucionalizá-lo a lorça. Oarrettcelebrouem
uma ode a vitoria de Vila da Praia, e a si mesmo se
conlereotitu|odeJirteu. «QueédoAlceuquebramia
liberdade,o Anacreonte que zombavacomo prazer, o
Tirteu que precedia as falanges da Terceira ao pé do pendão azul
e branco da jovem rainha dos exilados?»2
Ðurante a campanha na ilha Jerceira, Oarrett |oi
aproveitado pe|o governo da Regência para redigir os
decretos de relormasj udiciais e administrativas. Oar-
rett descreve a partida da expediçao liberal da ilha de
dos Mártires, e outros mais, que não ocorrem de momento à nossa reminis­
cência.
.
« Seguiu-se à representação da tragédia ajocosa farsa intitulada Os Doidos,
Igualmente executada com toda a mestria, e sobretudo com inexcedível veia
cómica, bem própria para despertar a expansiva e contagiosa hilaridade,
que em geral se manifestou. " P. 229.
I Paulo Midosi, Os Ellsaios do Calão.
, Prefácio das Fábulas e Folhas Caídas, p. XXI.
204 TEÓFI LO BRGA
S. Miguel,em27 dejunhode l 8J2, elalacomsaudade
das amizades e dos livros que ai deixou. Fechado no
cercodoPorto,onde todos loram dignamenteherois, e
ocupado especialmente em trabalhos de secretaria,
Oarrettocupava-senasobrasdedesenlado elaborando
oseulindoromancehistorico O Arco de Sant 'Ana, queso
acaboudezanosdepoisdessaépocamemoravel. Ò ro-
manceédedicadoao seucomandante,o coronel Luna.
Oarrettentusiasmara-setambémcomosromanceshis-
toricos de Walter Scott, que ele desde l 827 recomen-
dava a imitaçao. ' Compreendeu perleitamente o seu
modelo, no campo do romance historico, Herculano
considerava-oinlundadamentecomoseudiscipulo. No
momentoemqueacidadedoPortoresistiacomo mais
assombroso heroísmo as lorças acumuladas em volta
delapelo poder absoluto coligadocomo lanatismoca-
nibalesco dos lrades, Oarrett teve a intuiçao historica
das antigas l utas do burgo independente contra a pre-
potêncialeudaldoseubispo. Comumgrandissimotino
artistico aproveitou a lenda do bispo do Porto azorra-
gadopormaodeel-rei Ð. PedroI, o justiceiro, naprosa
pi toresca de Fernao Lopes, por ventura estimulado
' 0 Crolista, vol. II, p. 87.
2 «Certo dia, e não ponhais dúvida, que el-rei, partindo de Entre Douro e
Minho por vir à cidade do Porto, foi informado que o bispo desse lugar, que
então tinha grande fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher dum
cidadão dos bons que havia na dita cidade. E que ele não era ousado de
torar a isso, com espanto de ameaças de morte que lhe o bispo mandava
pôr.
El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que
estivesse com ele para lho haver de perguntar. E logo sem muita tardança,
depois que chegou ao lugar e houve comido, mandou dizer ao bispo que
fosse ao paço, que o havia mister por cousas de seu serviço. E antes que
chegasse, falou com seus porteiros que, depois que o bispo entrasse na câ­
mara, lançassem todos fora do paço, também os do bispo como quaisquer
outros; e que, ainda que alguns do conselho viessem, que não deixassem entrar
nenhum dentro, mas que lhes dissessem que se fossem para as pousadas, cá ele
tinha de fazer uma cousa em que não queria que fossem presentes.
HI ST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 205
pelalesta popularque anualmentesecelebravadiante
donichojuntodoArcodeSant' Ana,naparteve|hada
cidade. Oarrettpossuiao talentodramatico,e porisso
0 Arco de Sant 'Ana é animado nos dialogos e cheio de
interesse nas situaçoes, o seu inimitavel estilo digres-
sivo,comqueahgeiraoprocessodescritivo,acha-seim-
propriamente empregado no romance, porque o dilui
em excesso e enlraquece o andamento da acçao.
Quando Oarrett, passados anos pos a ultima mao n' 0
Arco de Sant'Ana para termina-lo, loi ainda com o mes-
moespíritodecombate, paraacordaroespiritopublico
contra os meneios do clericalismo. Aqui se vê a di-
lerença entre o processo de Oarrett e o de Herculano,
Oarrett inspira-se da tradiçao nacional, nao para a
o bispo, como veio, entrou na câmara onde o rei estava e os porteiros
fzeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não fcou
nenhum e foi livre de toda a gente.
El-rei, como foi à parte com o bispo, desvestiu-se logo e fcou numa saia de
escarlata. E por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou
de o requerer que lhe confessasse a verdade daquele malefcio em que assim
era culpado. E em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o
brandir com ele.
Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fora e isso
mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir pelo que sabiam
que o bispo fazia, desi j untado a isto a condição dei-rei e a maneira que em
tais feitos tinha, logo suspeitaram que e1-rei lhe queria jogar de algum mau
jogo e foram-se à pressa ao conde velho e ao mestre de Cristo, Dom Nuno
Freire, e a outros privados de seu conselho, que acorressem asinha ao bispo.
E logo tostemente vieram a e1-rei. E não ousavam de entrar na câmara
pela defesa que el-rei tinha posta, se não fora Gonçalo de Góis, seu escrivão
da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobre­
vieram dei-rei de Castela a grande pressa. E por tal azo e fingimento, hou­
veram entrada dentro na câmara e acharam e1-rei com o bispo em razões de
guisa que havemos dito. E não lho podiam já tirar das mãos, e começaram
de dizer que fosse sua mercê de não pôr mão nele cá por tal feito, não lhe
guardando sua jurisdição, haveria o Papa sanha dele. Demais que o seu
povo lhe chamava algoz que por seu corpo justiçava os homens, o que não
convinha a ele de fazer por muito malfeitores que fossem.
Com estas e outras tais razões arrefeceu d-rei de sua brava sanha, e o
bispo se partiu de ante ele com semblante triste e torvado coração.» (Colecção
de Livros Inéditos da História de Portugal, t. IV, !. 2 1 a 23. Crónica de D. Pedro I,
cap. VIL)
206 TEÓFILO BRGA
diluiremprosaarcaica, masparatorna-laummeiode
expressaoporondeaaspiraçaomodernasepodetornar
simpatica.
Lm21de julho de l 8JJentravaemLisboao duque
daJerceira, eo triunlo sublimcdacausaliberallìcava
deh nitivo. Oarrettloientaopela segundavezreintegra-
dono seu lugardeolìcialpordecretode28dejulhode
l 8JJ, começandoparaeleumaerade trabalho. Havia
umlervorderenascençanacional,e umadasprimeiras
preocupaçoes de Oarrett era a restauraçao do teatro
português e a criaçao de um Conservatorio. 1udo
quanto Oarrettpodiae valia loi empregado na conse-
cussao desta alta empresa, estava no esplendor do
génio, e no periodo da mais brilhante lecundidade.
Lnquanto os seus companheiros das l i des do Porto
sedegladiavam no Parlamento, sedestituiam e se apo-
deravamdaspastas ministeriais,Oarrettprosseguia no
empenho desinteressado da lundaçao do teatro nacio-
nal, e era o primeiro a Fxar os tipos das novas lormas
dramaticas com as belas concepçoes de Um Auto de Gil
Vicente) d' 0 Alfageme de Santarém e da D. FiliPa de
Vilhena. l NestagenerosaaspiraçaoloiOarrettsurpreen-
dido muitasvezes pelas grandes agitaçoes politicas dos
setembristas de l 8JD e dos cabralistas de l 812, mas o
seupensamentoloi realizadointegralmente, acustado
entusiasmo que inlundia em volta de si . Como antigo
partidariodaRevoluçao de l 82O,Oarrettseguiuo Par-
tido Setembrista, que lez reviver a ideia da soberania
nacional pondo em vigor a Carta Constitucional de
l 822.
Oarrettpordecretode l 1deNovembrodesteanoloi
nomeadojuizdesegundainstånciacomercial. «Oarrett
tao pouco caso lazia das suas lunçoes dej uiz, que ao
1 Esta parte da actividade literária de Garrett é tão importante, que foi
tratada em um livro especial inti tulado Garrett e os Dramas Românticos. (Vide
História do Teatro Português, vaI. IV. )
HI STORIA DO ROMANTI SMO EM PORTUGAL 207
velho !rancisco, heldeleitosdejoaoCarlos Vieira da
Cruz, antiquissimo escrivao da segunda inståncia co-
mercial,jalalecido,quandolhelevavaos autos,deque
erarelator, dizia-lhe.
«÷Òh !rancisco' que queres que ponha aqui nos
autosº
«÷PonhaV. Lx. ' Vista às partes.
«÷Lavai por tua conta÷retrucavaaindaOarrett,
e escrevia. 'Vista as partes. '
«Naoobstantetamanharepugnånciaa magistratura
e quizilia aj urisprudência, a Associaçao dos Advoga-
dos chamou-o desde logo para o seu grémio. »
A prolunda admiraçao que Oarrett consagrava ao
duque de Palmela, o chele do cartismo, ou partido da
carta outorgada em l 82G, prova-nos que ele lez algu-
masconcessoesdassuasdoutrinas dasoberania nacio-
nal , vindo por essa via a entrar em um ministério de
conciliaçao na época regeneradorade l 852. Nas terrí-
veis oscilaçoes politicas de l 8JG, l 812, l 81G e l 852,
Oarrettsoubeconservar-seentreopartidonacionale o
partido do governo pessoalda rainha, recebendo todas
as honras, como ministro naBélgicae em Copenhaga,
como o pariato, e lamentando-sesempreda latalidade
dasrevoluçoes. 'Nacélebrelegislaturade l 81l proleriu
ele a resposta ao discurso dacoroa, conhecida pelo ti-
tulo de Discurso de Porto Pireu.
MisturandoOarrettquasesemprei suapersonalidade
as obras li terarias que escrevia, admira-nos o nao ter
ele publicado memorias ou qualquer outra relaçao da
época lecunda de lutas morais porque a Luropapas-
sava no tempoem queesteve lora de Portugal. No ca-
talogodosseusautogralosencontram-seumasMemórias
I Paulo Midosi, Os Ensaios do Calão. (Vide oficio de 1 2 de Novembro de
1 84 1 . )
, Na reacção cabralina de 1 84 1 , Garrett foi demitido do lugar de cronista­
-mor do Reino, em 1 6 de Julho.
208
TEÓFILO BRAGA
de João Coradinho, de l 825, que o seu actual possuidor
caracterizade«rascunhoemtrêscapitulosdeumcon-
to satirico alusivo a época em que loi escrito». ' . No
mesmocatalogoseencontracitadoumDiário da Minha
Viagem a Inglaterra ¯ l 82J, Birmingham,lendo-sea se-
guinte nota logo na primeira lolha. «Òs primeiros ca-
dernosdesteDiário saocopiadosdoutros que escrevi na
minha primeira viagem. Agora para osj untar ao que
vou escrevendo e lhes dar igual lormato, os trasladei
paraestelivro. Birmingham, Òutubro5 de l 82J. »´ No
prospectodaediçaocompletadasobrasdeOarrettpu-
blicadopelacasaBertrand,em l 8JD,aisesecitacomo
devendo lormaro novo volumedacolecçaoo seguinte.
«Dois Anos da Minha Vida, Reminiscências da Emigração e
Memórias do Cerco do Porto. » Ainda em l 81J escrevia
Oarrett, talvezdespeitadopelasuademissaodecronis-
ta·mor do Reino, de l G dejunho de l 81l . «Lu tenno
postotermooupelomenos,suspensaoindelìnidaatoda
a ocupaçaol iteraria propriamentedita,para absoluta-
mentemededicar,enquantopossoevalho,aconclusao
deumtrabalhoantigo,masinterrompidomuitasvezes,
que agoraj urei de acabar. sao Vinte Anos da História de
Portugal, periodo quecomeça em l 820e chegaaos dias
de hoje, mas que nao sei seja anda mais enredado e
conlusodoqueodos mais antigoseobscurosséculosda
monarquia. Lspero começar a publica-lo no hm deste
ano, e nenhum tempo ou lugar me sobrara portanto
para mais nada. »' Lsta obra nao chegou a ser publi-
cada, porque, segundo os editores, ou antes em nome
deles diz Oarrett, que estavam «receosos de arrostar
com a audaciosa responsabilidade de historiador con-
temporåneo». Nos cremos que os Vinte Anos da História
de Portugal nuncaloram escritos,porqueno Catálogo dos
I Apud Helena, p. xxx.
2
Apud Helena, p. XXXII.
3 Romancero, t. I, Prólogo, p. XXIII. (Ed. 1 843) .
HIST6RIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 209
Autógrafos e Inéditos de Oarrett nao se acha o minimo
vestigiodesta obra. Naliteraturaportuguesa naoexis-
tem memorias historicas, porque os nossos escritores
naoreceberam essalivreeducaçaoquenosensinaaj ul-
garonossotempo. AhistoriageraldaLuropa,desdea
Idade Média até hoje, lunda-se tanto sobre as me-
mori as part i cul ares , como sobre os document os.
Ò mais que tivemos loram as Relações da Viagem e os
Roteiros; loi por onde Oarrett começou, mas nao pode
passar além pelovicioda educaçao nacional.
No começo da reacçao cabralina, que em l 81l aca-
bou de desiludir todos os verdadeiros partidarios da
CartaConstitucionalde l 82G,desilusaoque Herculano
descrevecomamarguranonovoprologod' A Voz do Pro­
jeta, Oarrettentendeudeverretirar-seporalgumtempo
da politica, e entregar-se a revisao dos seus trabalhos
literarios. «Nesse ano, retirado a descansar no campo
de grandes ladigas de corpo e de espirito, deu en|ìm
algumas horasdemaislazera repassaras composiçoes
de sua inlância literaria, e a escolher as principais das
que, emmaisleitaidade,lhetinhaarrancadoacondes-
cendencia com amigos, ou a irresistivel inspiraçao de
algumob¡ ectooucircunsiånciadavidaque maisoim-
pressionara. Resmas e resmas de papel lhevimos des-
truire queimaraolazerdestaescolha. »' Ðestetrabalho
resultouarelundiçaodeh nitivadaLírica deJoão Mínimo,
das Flores sem Fruto e das Fábulas.
Neste periodo da vida de Oarrett é que colocamos
essa tardia paixao amorosa que transparece no exal-
tado lirismo das Folhas Caídas, paixao absurvente e la-
tal,quelheexauriuovigor üsico e olevoua sepultura.
Nada ha demais ardentena poesiaportuguesadoque
essas estroles repassadas de sensualidade velada por
umaelegånciaartistica,sensualidadeexcitadapelapo-
I Prólogo das Fábulas e Folhas Caídas, p. VI.
2 1 0 TEÓFILO BRAGA
siçao socialdosamantes, ambos casados eemlutacom
adecepçaoecomo tédio daidade.AmulherdeOarrett
vivia em Paris, no entanto o coraçaodo poeta era dis-
putadoporduasdamasdaaristocracialisbonense,avi-
das de emoçoes romanescas, e orgulhosas por acor-
darem uma tal paixao no delicado poeta, e de serem
cantadas como o seu ideal .
Naodezinha O Anjo Caído, Oarrettlaz um trocadilho
com os nomes ocultos dessas damas.
Eu só. -E eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar I  n anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz.
!v/inha alma que renaseia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia. I
Mas umapaixaovenceaoutra,eé nesteconH itoque
lhevem o esgotamentoüsico.
Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o esplendor?
Não sentes 1/0 peito a chama,
Que aos meus suspiros se infama
E toda reluz de amor?2
Na pequena ode Não És Te, cheia da eloquência a
mais abundante,edarealidadea mais ideal ,descreveo
seu desalento.
Era assim: o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão,
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração. 3
I Folhas Caídas, p. 1 42.
2 lbidem, p. 1 67.
3 Ibidem, p. 1 89.
HI STORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2 1 1
L nessaoutra odeSeus Olhos:
Seus olhos -se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divirlO,
Como o facho do destino.
Divino, eterllo.' e suave,
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti . . .
Nem fcou mais do meu ser,
Senão a cinza em que ardi . '
o poemaadmiraveldestapaixao,intitula-se Cascais;
saooitoestroles emversode redondilhamaior, de uma
ardênciaeprolundidadesubjectiva, que,ousamosalìr-
ma-lo, em nenhuma literatura antiga ou moderna po-
dera achar-se coisa que lhe seja comparavel. Ðepois
desses dramas de alcova, Oarrett tirou como partido
das suasdecepçoes um livro, a quedeuo nome deFo­
lhas Caídas; meteu-ono preloem l 85 l , mas ou pelore-
ceio da inconlìdência, ou pelas novas ocupaçoes pela
suachamada ao Ministério, as Folhas Caídas so apare-
ceramnapublicidadeemprincípiosdejaneirode l 85J.
Ðessesversos escreve o poeta. «Naosei sesao bonsou
maus estesversos, sei quegosto maisdeles do que ne-
nhunsoutrosqueh zesse. PorquêºLimpossiveldizê-lo,
mas é verdade. »' Ò publico leu com avidez as Folhas
Caídas, que se tornaram um pequeno escåndalo. «Lm
poucosdiasporémdesapareceramasFolhas; levadasde
bons e de maus ventos. . . voaram. »' Com a lebre do
amor, uma outra lebre acabava de consumirOarrett,
, Folhas Caídas, p. 21 8.
2 /bidem, p. 1 1 6.
3· /bidem, p. I X.
2 1 2 TEÓFILO BRAGA
eraa lebredarepresentaçaoedopoder. Visconde, por
decreto de 25dejunho de l 85 l , par do Reino por de-
cretode l J dejaneirode l 852, ministrodos Lstrangei-
rosnessemesmoano,emquesecondecoroucomvarias
gra-cruzes,I a inaniçao atacou-o morrendo em Lisboa,
em D deDezembrode l 851. Oomes deAmorim, queo
acompanhou até aos seus ultimos momentos, descreve
no Arquivo Pitoresco as minucias com que Oarrett mo-
bilou a casa da Rua de Santa Isabel, onde procurou
tratar-sedasuadoença,descrevetambém a solidao em
que morreu o poeta, solidao explicavel, porque as da-
mas que o recebiamnao queriam que as tomassem por
suas amantes . ' Ðepois que Oarrett expirou, o seu
grande amigo e sarcastico Rodrigo da Fonseca Maga-
l haes descrevia assim o passamento. «Morreu como
bom cristao, abraçado a cm; ) com olhos na lu;:. » Lram
estas lrases o comentario perpétuo das Folhas Caídas.
Ò estado de espirito em que estava Oarrett pouco
antes demorrer, e quandoja se atribuia publicamente
otitulodecheledaliteratura,vê-senoromanceHelena)
que deixara incompleto e inédito, cujo ultimo caderno
tem a data de J de Setembro de l 85J. ¸P. XXIX) . Nes-
te romance ha uma conñssao ingénua da nenhuma
i nüuência que Oarrett exercia na mocidade do seu
tempo, que, semumadirecçao sensata se lançara nos
exageros do ultra-romantismo, diz ele. «Lu escrevo
uma historia, naolaçoversosalua, debruçadonosbal-
coes ideais deumacriaçaocaprichosae imaginarioes-
tilo. . . devorado pelo verme roedor dos negros pensa-
mentos que balouçam tristemente ao vento da solidao
no crepusculo da noite. . . etc. , etc. , com três versos na
I Grã-cruz da Ordem da Rosa, em 27 de Março de 1 852; do Nichan Iftiar
da Turquia, em 14 de Abril de 1 852; da Ordem de Leopoldo, em 1 9 de
J unho, de 1 852; da Estrela Polar da Suécia, em 2 de Julho de 1 852; Balio e
grã-cruz do Hospital, em 4 de Agosto de 1 852.
, A sua viúva casou em Paris com o negociante Luís d' Etrillac. Os seus
manuscritos fcaram a uma filha natural do poeta.
HISTÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2 1 3
mesma rima seguida, e umagudo depois emão, cora-
çao, desesperaçao ou semelhantes. . . e embasbacado
hcao Orémio Literario, o Centro Comercial, e nao sei
se a Academia depois de regenerada. » [P. 5O.) Oarrett
releria-seaolirismobanaldaescolade joaodeLemose
de Palmeirim,e apodavaamalogradarelormadaAca-
demia das Ciencias de Lisboa, de que lora vogal na
comissao organizada em 28 dejunho de l 85 l , nessa
lebre papelistica do primeiro momento da Regenera-
çao. A Helena loi a ultimaobradeOarrett, porventura
o seu enlevo de espirito quando recebeu a derradeira
decepçao politica, vendo Saldanha atraiçoar o movi-
mento da Regeneraçao, que se apoiava nas resistencias
de l 8JG, l 81G e l 81/, parareavero lavoritismodarai-
nha. Ò romanceélocalizadoaalgumas léguasdaBaia,
naolongedosemicirculodoReconcavo, Oarrettlazisto
apenas em duas linhas, à maneira de rubrica teatral,
porque a suaimaginaçao, além de um nome de bego-
nia, de um sabia ou de um maciço depalmeiras nada
mais lhe pode representardagrandevida daAmérica.
Ðepois que seleem os romancesdeum Oabriel !erry,
OustavoAymardouPauldu Plessis, tao plagiados por
MendesLeal no Calabar eBandeirantes, é que sevebem
aacanhadaorganizaçaodosnossospreconizados talen-
tos . Oarrett conhecendo a impossibilidade de pintar a
vida da América, transportou para ali as paisagens da
Lscocia,daSuiça,o conlortoingles e a galanteria lran-
cesa. Arranjou um lundo de quadro lalso, para dese-
nharavontade. Assuasdescriçoesresumem-senasmi-
nuciasdasvestimentas,doserviçodemesa, nadisposi-
çao da mobilia. Lra essa também a preocupaçao com
que se instalara na residencia de Santa Isabel. Oarrett
diziacomdesespero, quequalquerignoradamiss ingle-
sa, apenas vinda do colégio, compunha uma novela
com mais vida, graça e invençao do que ele proprio
com eslorço. Lntra aqui por muito a acçao do meio.
Ò sentimento daHelena é tambémalectadoedeuma
2 1 4 TEÓFILO BRAGA
tenuidade que chega aoJade; Oarrett nao nascera im-
punemente em l 7DD, dentro aindadoséculoXVIII, her-
dou latalmente a sensiblerie idilica, e so conseguiu uma
vez sacudi-la com um impeto natural no Frei Luís de
Sousa e nasFolhas Caídas. AHelena temumaaccçaosem
movimento e lal tam-lhe caracteres, incapaz de dese-
nhar um tipo, uma entidade moral, emvez de a lazer
lalar, obrar, descrever-lhe o lato, as posturas, a idade.
Nesteromancehaumvia¡ antelrancêsoSr. deBressac,
que estivera nas lutas da independência da Orécia,
e desgostoso se retirara entregando-se diletantesca-
mente ao amor da botånica, no seu periodobélico, ti-
veraintimaamizadecomummancebobrasileiro,esal-
vara uma criança de nove anos que adoptara como a
sua,aquempuseraonomedeHelena. Lembrou-sedeir
um dia herborizar a América e partiu com a carta do
seuamigo, que orecomendavaa um tio, oviscondede
I taa. Asi tuaçaocomeça comummonologodecontem-
plaçaodocondedeBressacporumapassilIora queen-
controu proximo da Baia, a qual pos o nome da sua
pupila misteriosa. No meio deste devaneio botånico-
-paternal, é surpreendido por um preto, tipo ridiculo,
chamado Spiridiao Cassiano de Melo e Matos, que
com outros pretos o veio buscar em uma canoa para
casa de seu amo. L recebido na intimidade pelo vis-
condedeI taa,quetemumaI¡lhamuitolinda,chamada
Isabel , e uma esposa muito doente chamada Maria
Jeresa, lala-sedoprimoqueestaemParis,ecomquem
o visconde projecta o casamento de sua l¡lha, nisto a
dona da casa morre de inaniçao. Lm consequência
disto o Sr. de Bressacpersuade o visconde de Itaa a
lazeruma viagem até a Luropa, e começam a discuti-
-l a. Aqui |ìcou interrompido o romance pelo laleci-
mento deOarrett. ÒdesenlacedaHelena é lacildepre-
ver, pelas palavras vagas e pressentimentos do lrag-
mento. de lacto o visconde vem com a l¡lha a Luropa,
mas sabe que o sobrinho que tanto amava, e quejul-
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2 1 5
gavaseuluturogenro, épretendidopeloSr. de Bressac
paraasuapupila. Jrava-seaquioconDitodeduaspai-
xoes, segundo a situaçao¡arevelada nas Folhas Caídas.
Helenamorrederomantismo,deBressacconsola-sees-
crevendo monogralìas sobre a sua passiH ora, e a lìlha
dovisconderegressaa patriasem querercasar,sacrilì-
cando a vida a propagaçao evangélica e emancipaçao
dos escravos . L esta a consequêncialogicaem harmo-
nia com o espirito do romance e com a orientaçao do
romantismo emanuélico.
Alémdeoutros pecadosliterarios, como o elogio em
boca propria, que Oarrett usa em todos os seus prolo-
gos porlaltadeconsciênciadaacçaoqueexercia,algu-
mas vezes caiu noactoinleliz do plagiato, para suprir
assim a laltadeestudoou deideias. Citaremos o lacto
bem conhecidodoartigodebibliogralìadobreoRoman­
cero Espagnol deÐamas-Hinard,publicadonalllustration
de l G deNovembrode l 811,os lactos superh cialmente
citados nesse artigoloram traduzidos por Oarrett lor-
mandoo texto original doseu Opúsculo acerca da Origem
da Língua Portuguesa, publicado aindaem l 811, em Lis-
boa. Ò grande ta|ento artistico de Oarrett nao tinha
outrasbasescientiñcasalémdassuasprimeirasleituras
do tempo de Coi mbra, para ser dirigente possuia a
generalidade de vistas, mas laltava-lhe uma especiali-
dade. Òsvelhos espiritos especialistas, o erudito exclu-
sivo e maçudo, reagiam contra a seduçao do seu bri-
lhantismo, e o cardeal Saraivaao ver a leviandade em
que caiu Oarrett plagiando esse pobre artigo lrancês,
diziacompungido mas glorioso. «Lles sao assim. »Lsta
lrase caracteriza bem os escritores portugueses do ro-
mantismo,plagiaram,imitaram,paralrasearam,tradu-
ziram como quem quer lazer livros sem ter ideias, e
quando chegaram a exercer acçao nao tiveram a cons-
ciência de um destino.
Quando nos vemos a bela organizaçao literaria de
Villemain ser quase completamente aniquilada pela
2 1 6
TE6FILO BRAGA
ambiçao politica, comoo provou Littré noseudiscurso
de recepçao na Academia !rancesa, é quando com-
preendemos até que ponto Oarrett loi inutilizado pelo
dese¡ode participar também do poder, ser ministro, ter
medalhas, dispor de inüuência. Ò trabalho literario
tornou-se para ele acidental, uma distracçao, um de-
senlado,osqueoqueriamalastardapoliticachamavam-
-lhepoeta) e é tristevero poetadeclararquej apode ser
almotacé do seu bairro) porqueja perdeuodomdapoesia'
Ò prazerdacriaçaoartisticaelevao homemeda-lheo
primado entre todas as geraçoes, o prazer de mandar
tem uma certa sensualidade de canibalismo que dura
pouco,masquelascinamuitoasorganizaçoesimperlei-
tas. L esses poetas ministros, embaixadores, presiden-
tes de republicas, e di tadores momentåneos, sao como
dizia Comte, vocaçoes lrustradas, aIortivas, que nas-
ceram estéreis. corromperam a arte e corromperam a
politica. No prologo da História de Portugal) em l 81G,
Herculano observa a inüuência do periodo politico
constitucionalnaesterilidadedostalentos. «os bonsen-
genhos,os que nestesultimostemposanossaterra tem
indubi tavelmenteproduzido,saolorçadosaviveremna
atmoslera mirradora do mundo politico, ou a exerci-
tarem cargos publicos, que lhes consomem o tempo e
acanham por lìm as laculdades do entendimento. »
NestaterrivelverdadeestavaincursoOarrett,ecomele
tantos eminentes espiritos como Rodrigo da !onseca
Magalhaes, Manuel Passos,josé Lstêvao, absorvidos
pelos partidos politicos. Ò proprio Herculano lìcaria
esterilizado seumdespeitoprolundoo nao hzesse aco-
lher-se a tranquilidade consoladora do estudo. Apoli-
tica a que Herculanose relere nao pode ser o lacto da
participaçao de um homem as lunçoes sociais do seu
pais, porque essa intervençaodaao talento o relevoda
realidadee deumahlosohapratica,massimo conllito
depequenos interessesdegrupos que aspiram agover-
naçao, e aqueAugustoComte chamoucom tantaluci-
dez os partidos médios.
HI STÓRIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2 1 7
Asmaisbelasinspiraçoesde Oarrettsaoaquelasque
se ligam a participaçao directa da politica de princi-
pios. o Catão loi escrito sobre as emoçoesdemocraticas
daRevoluçao de l 82O,o poema Camões, nos desalentos
da emigraçao em l 821, depois de rasgada pelo absolu-
tismo a Carta Liberal de l 822, o desterro e o carcere
despertaram-lheem l 82/a compreensaodapoesiapo-
pulare tradicional, O Arco de Sant'Ana, éconcebidoden-
tro do cerco do Porto em l 8J2, nesse contagio de he-
roísmo, O Alfageme de Santarém loi escritoentre as lutas
do elemento constitucional puro contra o lacciosismo
da rainha na época da ditadura cabralina em l 812.
!sta relaçao super�or entre o espirito e o seu tempo, é
que acendeu por vezes em Oarrett a laísca do génio,
como noFrei Luí de Sousa e nasFolhas Caídas, e o torna
o primeiro nessa época de renovaçao literaria. Ðesdeo
lìm do cerco do Porto em l 8J1 até hoje, a politica em
Portugalnaoloimaisdoqueaagitaçaoegoistadepar-
tidos médios. intimidar ou corromper, era o meio de exer-
ceraautoridade,eCostaCabralpelapressaoarbitraria
e Rodrigo da Fonseca Magalhaes pela dissoluçao,
loram os dois polos da nossa vida parlamentar. Nao
haviaidealdeliberdade,eramtodosconlormesemcon-
siderar a realeza como a glåndula pineal da vida da
nacionalidade. Foi porisso que a politica esterilizou os
talentos, uns pelo excesso da importåncia individual,
outros pelo despeito devaidadesnao satisleitas.
ÍNDICE
IDEIA GERAL DO ROMANTISMO
I . Como a Europa se esqueceu da Idade Média . . . . . . . . . . . . . . . . . . I I
2. Marcha da Renascença românica « « « - « « . . . « « « . « - « « . -` + - - . - . - 1 5
3. Causas d o romantismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 7
A) Erudição medieval dos historiadores moderos . . . . . « . • « . + . 1 7
a ) O que se deve ao elemento romano . . - . . . - . - « . . . - « « . . « - 26
b) O elemento cristão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
c) O elemento bárbaro « « « - « « « - « « « + . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
B) A criação da estética pela flosofia metafísica - - - . - - . « - « « - « « 62
C) A reacção nacional entre os povos modernos « « « « « « « « « « « . . - 72
4. Porque chegou o Romantismo tão tarde a Portugal - . . . - - · « « « - - 82
5. Como foi compreendido o Romantismo em Portugal « « « . « « « « + « 87
a) Estado da ciência histórica . . . « - - . « « - . - « . . . - . - . - - « . . - 88
b) Estado das ideias filosóficas sobre a Arte - « « « « . « . « « « « - « 92
c) Renascimento de um espírito nacional fantástico « « « + . . + « 97
6. Consequências contraditórias « . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 06
LIVRO I
ALMEI DA GARRETT
( 1 799 - 1 854)
I . Educação clássica de Garrett ( 1 81 4 a 1 823) « « « « « - - « « - - « « • « « « « 1 1 9
2. I nfluência da emigração ( 1 823 a 1 827) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 55
3. Da segunda emigração em 1 828 até à morte de Garrett 1 99
A OLRAÇAÒ ÐL 70
Primeiro volume
«AOeraçaode70»
porÁlvaroManuelMachado
AnterodeQuental. Textos Doutrinários e Correspondência
Segundo volume
AntcrodeQuental .Sonetos
Terceiro volume
JeolìloBraga.História do Romantismo
em Portugal I
Quarto volume
JeolìloBraga.História do Romantismo
em Portugal 1
Quinto volume
ÒliveiraMartins. Portugal Contemporâneo I
Sexto volume
ÒliveiraMarti ns. Portugal Contemporâneo 1
Sétimo volume
ÒliveiraMartins. História da Civilização Ibérica
Oitavo volume
ÒliveiraMartins. Portugal nos Mares ¸antologia)
Nono volume
RamalhoÒrtigao.Holanda
Décimo volume
RamalhoÒrtigao.As Falpas I ¸antologia)
Décimo primeiro volume
RamalhoÒrtigao.As Falpas 1 ¸antologia)
Décimo segundo volume·
OomesLeal. Poemas Escolhidos ¸antologia)
Décimo terceiro volume
FialhodeAlmeida. Contos
Déimo quarto volume
FialhodeAlmeida. Os Gatos ¸antologia)
Décimo quinto volume
CondedeFicalho. Uma Eleição Perdida
Déimo sexto volume
LçadeQueiros . Os Maias
Décimo sétimo volume
LçadeQueiros . Correspondência de Fradique Mendes
Déimo oitavo volume
LçadeQueiros .Notas Contemporâneas
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