RESUMO Estando o corpo no centro de toda relação de poder, já que é através dele que os seres humanos se relacionam uns

com os outros, estabelecem hierarquias e constroem uma cultura comum na sociedade em que estão inseridos, é importante dar ao corpo atenção especial. Em tempos nos quais a publicidade, as imagens e o consumo recebem cada vez mais investimento financeiro há a necessidade de se fazer uma análise da imagem que é atribuída ao papel da mulher na sociedade ocidental. Buscando analisar o papel da mídia na perpetuação dos parâmetros tradicionais através dos quais as mulheres costumam ser medidas, esta pesquisa busca construir uma percepção analítica da representação da mulher nos meios de comunicação atuais. Dando atenção especial aos aspectos sociológicos, a pesquisa foi fundamentada também em artigos e publicações que remetiam à outras áreas do conhecimento acadêmico, procurando compreender desta maneira, como de fato o gênero feminino pode ser analisado sob diversas óticas, todas elas fascinantes e naturalmente críticas. Procurou-se em principio estabelecer como se dá a influencia da mídia no comportamento das mulheres para depois buscar-se a compreensão do mecanismo de funcionamento da publicidade e da propaganda na difusão dos ideais que favorecem os grandes donos da mídia e do poder econômico. Levantou-se também, porem de forma breve, um histórico da imagem da mulher ao longo da era moderna até chegar nos dias de hoje. Quase nua, mulher consumista, mulher de consumo.

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Representação da mulher na Idade Média formando imagens que sofreram evoluções e involuções ao longo do tempo e admitiram dentro do mesmo sistema considerações opostas. O encontro de ambas as fontes. O estudo sobre o papel da mulher na sociedade secular que constituía a Idade Média levantou diferentes questionamentos e interpretações entre os pesquisadores do período.i. Estas idéias. que eram tributários das idéias dos Padres da Igreja. econômicos e sociais se modificam no curso da historiografia. desenvolvidas pelo ambiente 2 . a aristocracia. sendo que este conceito não foi baseado na personalidade da mulher. a burguesia urbana e a vida e obras literárias. e mais do que isso. mas simplemente em seu gênero. eram essencialmente quatro. poderemos analisar com mais clareza quais valores ainda permanecem na sociedade atual. considerado inferior. Num breve levantamento sobre a concepção do gênero feminino em diferentes épocas e sociedades do mundo ocidental poderemos observar as mudanças pelas quais este gênero passou. Os principais fatores que contribuíram para a criação desta imagem ambígua. A imagem da mulher na História moderna A caracterização dos gêneros. Desde o alvorecer da Idade Média. A imagem medieval da mulher se apresenta por ideias contrastantes e que oscilam entre o desprezo e a adoração. tanto o masculino quanto o feminino variam ao longo da história da Humanidade. Os padrões de comportamento e estética difundidos pela mídia e também por outros meios de comunicação são frutos de construções sociais que se dão a partir do papel de cada indivíduo na sociedade da qual faz parte. as ideia dominante era a de a inferiodidade da mulher em relação aos homens. Os conceitos cunhados por cléricos e monges. as concepções de gênero são fácilmente modificáveis ao longo dos séculos à medida que os valores culturais. Igreja (formada por clérigos e monges) e leigos (aristocracia e burguesía) deu origem a uma visão contrastante da mulher. Desta maneira.

em períodos de guerra e. Algumas vezes é vista como ser luxurioso e fruto proibido e em outras é o fonte de amor cavaleiresco. Mesmo casada. se o marido estivesse em campanha. alimentou uma espécie de misoginia através dos contos picarescos e baladas tenebrosas que eram contadas por menestréis durante as férias das navegações. foram compensados por uma contradotrina. Ao contrário do que comumente se acredita. Ainda que as mulheres medievais aristocráticas tivessem suas funções sociais restritas ao convívio familiar. estas senhoras tambem combatiam em defesa de seu castelo caso este fosse atacado por inimigos. muitas vezes foi ridiculizada. a mulher já possuia um papel de relativo destaque na sociedade medieval. às vezes assume as características de Eva. e às vezes a Maria. bruxas. Representação Medieval 3 . corajoso e dedicado. fosse “dona do lar” ou guerreira voraz. A mulher é sempre vista como inferior ao homem. especialmente. Desta maneira. era à ela que o marido confiava os cuidados da casa e das economias enquanto estava fora para combater ou desbravar o Mundo Novo. dominadoras de seus maridos. a mulher viúva e latifundiária possuia bastante autonomia na Idade Média. coexistiram em harmonia durante a Idade Média. no entanto. em resumo.monástico e da aristocracia. na qual a superioridade da mulher é expressa no culto à poderosa Virgem Maria (especialmente em monástica-clerical) e também no ideal de cavalheirismo (produzido principalmente no campo da aristocracia). as fontes formadoras de opinião e conceitos a cerda da mulher medieval. Essa intervenção agravou a imagem da mulher que. A intervenção da burguesia e da atividade comercial a partir do século XII. Essas duas realidades da mulher. apresentando-as como desonestas. A aristocracia e o clérigo constituem.

outras. sendo impossível. em outras. Havia aquelas que podiam ser virtualmente escravas de seus esposos. O aspecto principal continuava sendo a preparação para as atividades do lar. colocando os interesses da família acima de todos os outros. em altos de 1872. Debe-se dar atenção ao fato de que mulher escrava além de trabalhar como tal. até mesmo as que chefiavam grupos. O primeiro desses jornais foi O Journal das Senhoras. começaram a mudar. só permitia que as meninas fossem à escola do primero grau. No século XIX. que saiu às ruas em 1852. No Brasil Colônia. concubinas ou empregadas domésticas. Os colonizadores viam os índios da seguinte maneira: os homens para o trabalho escravo e a mulher seriam esposas. companheiras. havia uma ampla gama de possibilidades de papeis sociais que a mulher poderia excercer. tanto quanto no peíodo colonial. embora enfatizasse que o papel principal da mulher fosse amar e agradar aos homens. Havia a monogamia e a poligamia. Alguns anos mais tarde. Em meados do século XIX surgiram no Brasil diversos jornais editados por mulheres que. já no Brasil Imperial do século XIX. algumas mulheres possuíam moradia própria e áreas de cultivo. em especial. Algumas coisas. podendo até ser alugada a outros senhores. os papéis de dona-de-casa. devido ao desenvolvimento da industrialização ao redor do mundo.É interesante fazer um paralelo entre a mulher europeia do século XVII com a mulher que se constitui em Colônias ou em sociedades mais recentes. as propiedades eram dos homens. esposas e mães. atingir níveis mais altos abertos aos meninos. certamente. tiveram grande papel para estimular e disseminar as novas idéias a respeito das potencialidades femeninas. Este jornal teve o mérito de alertar as mulheres para as suas necessidades e capacidades. o semanário O Sexo Femenino. era usada como instrumento de prazer sexual do seu senhor. à mulher competiam. porém. O ensino até então executado. algumas mulheres já reinvidicavam seus direitos à educação. Exemplar do 'Jornal das Senhoras' 4 . Dez anos depois aparece o Belo Sexoe em seguida.

por iniciativa da ONU. A operária era duplamente explorada por trabalhar na fábrica e no lar. No Brasil. dirigiu-se diretamente às mulheres. O direito se tornou realidade apenas em 1934. O ano de 1975. na mídia. e após esta vitória. como a brasileira. Algumas mulheres já se encontravam de certa maneira organizadas. Nas campanhas do operariado por melhores condições de trabalho. estes jornais e revistas indicavam que já no século XIX. que vai dar mais impulso à luta Federação Brasileira pelo Progresso Feminino da mulher pela conquista do voto. mulher ou trabalhadora esteve no centro das atenções das sociedades patriarcalistas. Estas revistas defendiam a idéia de que a dependência econômica determina a sujeição femenina ao homem e uma educação melhor ajudaria as mulheres a elevar seu status social. Embora de expressividade menor. no entanto. a industrialização também ganhou destaque no país e inseriu a mulher nos postos de trabalho. a mulher continua sendo vista como provedora e fonte de refúgio. a sociedade brasileira necessitava de mudanças na maneira como representava a mulher. Embora o contexto seja outro. recebia (e ainda recebe) salarios menores e têm jornadas de trabalho ainda maiores se comparadas com os homens. a força combativa e a preocupação maternal com os filhos e com a família. qualquer uma de suas capacidades de mãe. A imagem que se construiu da mulher a partir de então têm dois pilares básicos. com muitas dificuldades por conta da repressão 5 . Na década de 20 surge a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. lutavam juntamente com os homens embora suas conquistas fossem menores. Com a chegada e o desenvolvimento da República. a luta da mulher passou a se concentrar na questão do trabalho femenino e na proteção à maternidade e às crianças. para que tomassem consciência de sua identidade e seus direitos.Em vez de apelar aos homens. foi considerado o Ano Internacional da Mulher.

pouco entrando a pouco. Sua proposta era socializar o trabalho doméstico através da criação de equipamentos sociais. países onde o feminismo se afirma e O Jornal Nós mulheres surgiu em junho do ano seguinte e contribuiu de forma decisiva para o avanço das idéias feministas e para o combate à discriminação.politica nas fábricas e nos sindicatos. Pelo contrario. estas edições buscavam instigar o sentimento feminista nas mulheres de todo o país.é claro. Há então. o momento propício para o surgimento de revistas voltadas para o público feminino. Em sua segunda edição consta a frase: “O Brasil está.Graças ao desempenho das envolvidas. se organiza”. Em 9 de outubro de 1975 lança-se o Jornal Brasil Mulher. a ser protagonista da sua história. nao buscavam moldar o comportamento das mulheres conforme o gosto da sociedade machista da época. a mulher brasileira passou então. para os timidamente. Heleieth Saffioti escrevera o livro Mulher na sociedade de classes. cujo editorial tem forte apelo feminista. Nasce aí os primeiros conceitos de cuidados 6 . mas com o apoio da ONU. ganham resonância junto à opinião pública. 1975 tornou-se de fato o marco histórico para o avanço das idéias feministas no Brasil. mas que diferentemente das revistas veinculadas até o momento. A iniciativa da ONU foi particularmente importante para as mulheres brasileiras por ter propiciado um espaço de discussão e organização numa conjuntura política marcada pelo cerceamento das liberdades democráticas. como creches. mito e realidade que muito contribuiu para abrir horizontes da sociedade. Sob uma ditadura militar. lavanderias e refeitórios públicos que auxiliassem a mulher moderna nas tarefas do lar. Em 1969. no entanto é apenas em 1975 que as idéias feministas de igualdade de direitos e insurreição à submissão tradicional da mulher.

para que se mantenha em ótima forma física. até então esquecidas nas diversas Constituições que o Brasil já tivera. Começava a cultura de embelezamento. com os bronzeamentos e maquiagens. Harper’s B azaar (EUA. As leitoras se veem obrigadas a seguir um padrão de perfeição. estes ideiais na grande maioria das vezes não correspondem à constituição natural da sexo feminino. não é alcançável. Até a década de 20. Uma perfeição que não existe. unha. A Mulher nas Mídias Impressas Revistas como Le Petit Écho de La Mode (França. por parte da mídia. tratamentos de cabelo. As revistas então proporcionam dicas de emagrecimento. elas reforçavam a função da beleza da mulher e a sua busca incessante aos padrões que lhes eram pregados. No entanto. Ao lançar e perpetuar estes padroes de beleza irreais a mídia exerce o seu lado mais vil. a publicidade era discreta graças aos tabus em relação à maquiagem e cosméticos. roupas da moda e até mesmo influenciam na cor da pele. ii. da família e da carreira profissional sofre enorme pressão. A mulher contemporánea ao mesmo tempo que passa pelas exigencias tradicionalistas de cuidar do lar. 1879). convidando as mulheres a serem bonitas a todo o momento.públicos exigidos pelas mulheres. Revista Americana ‘Harper's Bazaar’ (1965) 7 . Com tiragens que chegaram aos milhões de exemplares. mas nos anos 30 ela começou a aparecer de maneira Revista Americana 'Vogue' (2012) significativa. influenciando sutilmente o comportamento de milhares de mulheres e tornandoas potencialmente insatisfeitas consigo mesmas. 1867) e Vogue (1892) são exemplos de publicações que marcaram a imprensa feminina do século XIX. mental e sexual.

logo apareceu Twiggy. Ela transforma-se num objeto de prazer e é comparada com a bebida constantemente. são usadas imagens de mulheres esculturais. que deveria servir para libertar as mulheres.O útil se une ao agradável e então a imprensa feminina alia-se às indústrias de cosmético e moda. Hoje. a área que mais as ressalta. surgiu o ícone sexy Marilyn Monroe e ela inspirou as mulheres a serem voluptuosas. Elas eram vistas pelos homens e pela indústria como simples objetos sem sentimento. que poderiam ser manipuladas e compradas a qualquer custo. nos anos 60. que retirou esse 8 . é a da indústria cervejeira. top models e atrizes nas páginas das revistas. É importante ressaltar que a idealização do corpo feminino muda constantemente conforme as décadas. cheias de curvas. usadas atrizes com corpos esculturais e sem defeitos. Porém. roupas e maquiagem. As mulheres tornam-se alvo da maioria dos comerciais de carros. Gordas ou magras. até mesmo gordinhas. a situação só piorou e as propagandas ganham mais força no mercado. porém. as revistas implantavam a ideia da sensualidade como fator indispensável a uma mulher da classe média. A publicidade. Juntas. Nos anos 50. negativamente. se alastrando rapidamente através da internet e das redes sociais. Ela compara o corpo da mulher com o sabor do produto. que não representam a atual mulher do século XIX. que não condizem com a realidade da dona de casa do começo do século XX. Muitos de seus comerciais televisivos apresentam teor machista e exploram a sua imagem. são Propaganda machista da cerveja Sol. para agravar a frustração do público feminino. Além disso. degradando a imagem de todas que assistem. acabou aprisionando-as a uma desvalorização de seus próprios corpos. elas promovem a modelação corporal e educacional da leitora e.

moda e conselhos sentimentais com Carmen da Silva. Ser gorda começou a ser categorizado como feio e imperfeito. A psicóloga marcou a Cláudia e o movimento feminista. não ser exatamente igual às modelos que Modelos que seguem o padrão da magreza apareciam nas capas das revistas era uma situação degradante e vergonhosa. Kate Moss e Victoria Beckham: esbeltas e sem nenhuma curva ou gordurinha. lançada em outubro de 61 pela Editora Abril. Todas as jovens queriam ser como Gisele Bundchen. Cláudia era destinada a mulher brasileira que possuía preocupações basicamente domésticas. TV e anúncios comerciais. pequena. ensina como ter o cabelo ideal. Em sua famosa coluna. Todas as mulheres que antes se espelhavam em Marilyn Marilyn Monroe e Twiggy passaram a admirar Twiggy e aspiravam à magreza da modelo.modelo das prateleiras. Considerada como a primeira top model do mundo. colunista por 22 anos da revista. a pioneira entre as dezenas de revistas que hoje estão no mercado é a Revista Cláudia. A imprensa feminina abusa de dicas de emagrecimento rápido. a pele perfeita e assim por diante. tendo um papel importante na luta por igualdade de gêneros no Brasil. com artigos sobre culinária. quase andrógina e usava maquiagem diferenciada. ela tratava das 9 . A ditadura da magreza se consolidou com a fama das modelos na década de 90. No Brasil. Twiggy era magérrima. Essa recusa da imprensa implicou no surgimento de doenças como anorexia e bulimia em meninas que não conseguiam se encaixar no padrão que era imposto através das revistas. Para elas.

internet e fotografia. seja Cláudia. atualmente. uma mulher comum pode se transformar em alguém sem falhas. ela continua seguindo Capas da Revista Cláudia durante as décadas valores tradicionais no que se diz respeito à sexualidade e representação de gênero. Porém. Por exemplo. As capas da revista Cláudia seguem o mesmo padrão há anos. leitoras conquistas com e notável sensibilidade. as capas de revistas femininas atuais. Mas mesmo ao se dirigir a uma mulher moderna e independente. assim como as publicações estrangeiras. Caras ou Marie Claire. a mulher que trabalha não é bem identificada em suas páginas e as matérias dão enfoque à mulher que se realiza quando chega ao seu lar. dotada de bastante maquiagem. construindo um padrão cada vez mais difícil de ser alcançado.angústias. 10 . São mulheres que servem de inspiração para as leitoras. fardos das alegrias. Apenas com uma mulher famosa na capa. utilizam frequentemente ferramentas de edição para aperfeiçoar as mulheres que exibem. Vogue. Cláudia influenciou na atitude e nos costumes da classe média brasileira. Com a ajuda da maquiagem. que lhe rendeu respeito e destaque nos estudos sobre o feminismo. recebe muitos retoques fotográficos. As mulheres retratadas nas páginas e principalmente nas capas das publicações são pessoas irreais. que as consideram perfeitas e como uma meta a ser seguida. Ao ler a revista é possível identificar padrões de comportamento que ela sugere às leitoras. que veste roupas “da moda” e.

ela também indica quais são os melhores produtos e. Revistas com Boa Forma e Corpo tratam de assuntos específicos e publicam sobre dietas. Ao indicar certo tratamento de cabelo.Tomemos por exemplo algumas capas de revistas brasileiras. Nos exemplos ao lado. A indústria publicitária ganha milhões todos os anos e sua influência chega a ser imperceptível. faça. 11 . Isso acontece com produtos estéticos. emagreça. anunciam junto com a imagem de alguma celebridade. O modo imperativo mais a imagem de uma mulher considerada bonita dentro dos padrões da mídia faz com que a revista venda cada vez mais para mulheres que buscam saber como se encaixar na sociedade. por exemplo. Ela utilizam o verbo no tempo imperativo. malhação e tratamentos estéticos. Essa abordagem conduz a mulher a se modelar conforme a revista sugere. ou melhor. tenha. que precisarão desses artigos para se transformar e chegar o mais próximo do “ideal”. para vender mais. roupas. seja. cerveja. comida. Estes tipo de publicações transcrevem nas páginas das revistas o desejo da mídia em implantar seus produtos na mente das leitoras. algumas das táticas citadas aparecem nas manchetes: “Perca 2 kg trocando o café da manhã pelo suco das famosas” e “Enxugue 3 kg em 15 dias”. impõe. com palavras como: use.

metade vítimas. na atualidade. mas. a desviar tendencialmente as mulheres da competição pelos postos mais altos. Na contemporaneidade a preocupação em agradar o marido a partir da própria aparência foi substituída pelo suposto “egoísmo sadio” e pelo “prazer ao cuidar de si”. mulheres de classes sociais mais elevadas conquistaram independência econômica e social. nas quais Gilles Lipovetsky é expoente... Os hinos à beleza já não são suficientes para abalar a vontade feminina de afirmação individual e social. porque valorizam o poder-sedução em detrimento do poder hierárquico e porque tendem a recompor a disjunção mulher privada/homem público.” 12 .III. metade cúmplices – Sartre Se na Idade Média a mulher era dicotomizada.] continua a ser verdade que a valorização da beleza feminina não cessa de trabalhar para dar mais peso ao sucesso íntimo que ao sucesso organizacional. Segundo essas vertentes. ainda em nossos dias. Há certas linhas de pensamento sociológico que defendem que o incentivo à preocupação estética em excesso pode ser uma arma poderosa de alienação social das mulheres. ficando entre a própria personificação dos pecados capitais e a mãe provedora e fértil. “[. beleza e jovialidade. a imagem social que se faz da mulher sofreu diversas distorções ao longo dos anos. No entanto. mais importância à sedução intersexual que à competição com os homens. eles continuam. o papel da mulher estava restrito às obrigações do lar e seus cuidados com a aparência tinham a finalidade única de agradar o marido. O corpo feminino passou a ser visto e tratado como item de consumo e simultaneamente como “outdoor” de produtos que p rometem felicidade. enquanto que as mulheres que já trabalhavam por necessidade financeira ganharam algum tipo de reconhecimento por parte da sociedadeou pelo menos. com a ascensão do feminismo. Mulher na Mídia: Uma Análise Mulheres. receberam o direito “social” de exercer suas funções sem discriminação direta por conta de seu sexo. Até as décadas de 1940 e 1960.

36)”. em especial a mídia impressa. qualquer coisa. A mídia. Quando absorvida pelas mídias. Dessa forma. este processo é feito de maneira tão sutil e discreta que faz com que os próprios consumidores não se deem conta de que desejam assimilar um determinado estereótipo e não necessariamente o produto que está sendo comercializado. assim. A revista de modo geral. 13 . podendo a longo prazo. O uso desta propaganda utilizando a mesma modelo com imagens e atitudes correlatas. É interessante ressaltar que uma mídia alimenta a outra. repetindo-se com algumas variações na aparência. No entanto. a propaganda publicitária que mostra uma mulher doce.Desta maneira. conjuntos econômicos e governos seria mantida ao longo dos anos. Ao se afastar do evento noticioso e selecionar apenas determinadas matérias destinadas a cativar seu público alvo. tenta impor-se como veículo de comunicação contínua e periódica. muitas vezes ocorre também nas mídias impressas reforçando os padrões de beleza e consumo vigentes. do esquecimento. seja lá o que for.Daí a necessidade de repetição e ampliação das vertentes da propaganda em diversos meios de comunicação. Cultura do descontínuo. de aparições meteóricas. passa a ter caráter volátil: aparece para desaparecer (p. perpetuando os padrões de submissão a que a mulher está sujeita desde o inicio das sociedades. Lucia Santaella (1996) comenta que “Outra característica da cultura das mídias está no seu fator de mobilidade. em oposição aos contextos mais amplos e à profundidade analítica. exercer influência no seu pensamento bem como em suas atitudes e visão de mundo. as revistas tornam-se pontos de referência para o público feminino. Uma mesma informação passa de mídia a mídia. atua de forma imprescindível para a perpetuação dos valores estéticos e morais que a sociedade sobrepõe à mulher. a supremacia masculina nos postos de comando de empresas. as imagens veiculadas na televisão têm a capacidade de instigar curiosidade nos telespectadores e fazer com que eles consumam outros meios de comunicação. bonita e sensual e que consome determinada marca de perfume estimula nas telespectadoras um primeiro desejo de consumo deste produto. como as revistas e jornais por exemplo. É a cultura dos eventos em oposição aos processos. A pesquisadora brasileira.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky aponta para uma tríade básica da atualidade constituída por mídia-corpo-consumo na qual que “os conselhos. as informações e as imagens da beleza fazem parte de uma lógica de produçãoconsumo-comunicação de massa. No entanto. quanto mais “coberta”. fruto da ação publicitária sobre o senso comum. modelos e atletas que por si só já seriam atraentes. observa-se o inverso. Esta repetição de um formato de 14 . o consumidor tende a crer que aqueles símbolos representam os ideais das pessoas ao seu redor. ao mesmo tempo partilhada e consumida pelos outros indivíduos que constituem a sociedade. emagrecedores ou mesmo suas roupas de grife. os estereótipos que predominam em diferentes sociedades são. Cria-se então um efeito de que os padrões comercializados pela mídia fazem parte de uma memória comum e que é. a mídia participa ativamente da perpetuação dos padrões do belo e magro. mais elegante a mulher estaria. mostra-se cada vez mais pele do corpo humano.A Publicidade em si possui este dom específico: faz com que os objetivos do proprietário da marca se manifestem nos consumidores induzindo o comportamento consumista de seu público alvo. Com a expansão da imprensa feminina de grande tiragem surge uma nova maneira de falar da aparência feminina. dos romancistas e dos médicos. em grande parte. Para vender seus produtos bronzeadores. É interessante notar que há um contraponto básico no que se considera beleza feminina do século XX para os dias atuais. os fotógrafos de revistas dispõem de equipamentos e softwares que o corpo humano não tem acesso direto. os discursos sobre a beleza feminina eram obra dos poetas. ou então segredos cochichados entre mulheres. Até 1920. mais atraente. Dessa forma. Na contemporaneidade. Esse exibicionismo atual estimula a prática e a perpetuação de padrões de magreza excessiva entre as modelos e entre as mulheres comuns. Ao utilizar a imagem de forma repetitiva e ao mesmo tempo ampliada em várias facetas. e por consequência. Dessa forma.” A partir da sugestão de dietas. aproximadamente. Até então. utiliza-se a tecnologia para remodelar e por vezes recriar corpos de atrizes. no qual. dicas de moda e indicação para a prática de exercícios físicos com a finalidade de emagrecimento. a beleza e a sedução do gênero feminino era fruto do ocultismo na hora de se vestir.

mas muitas modelos são tão magras que esse índice está abaixo do nível normal. além de acumular as funções como mãe e esposa. Olhos esses. A publicidade tornou a aparência – desde que nos moldes que ela mesma apregoa . a mídia se apodera dos papéis sociais tradicionalmente destinados a ela e os reforça. Mulheres latinas. Somos livremente sonhados pelas capas de revista.60m e pesava 63kg. têm agora de se preocupar com sua alimentação. é de 18. por mais atraente que fosse. Em seus estudos. Marilyn Monroe. além do furor consumista. amanhã a genética tornam ou tornarão reais todos os sonhos. 15 . a modelo atual utilizada como exemplo tem IMC de 16. Ao agregar à mulher valores estéticos que não lhe pertenciam outrora. a moda. Cada vez seremos mais livres para projetar nossos corpos. seu peso e sua vestimenta se quiser ser bem vista aos olhos da sociedade. tornando-se a imagem de grandes empresas e servindo de ideal estético de milhares de pessoas que não conseguem se parecer com elas. Mesmo fora do padrão de saúde essas modelos continuam a ser contratadas. A psicóloga estadunidense Mary Pipher afirma que em 1950 a “garota da água mineral White Rock media 1. tendências à ansiedade e depressão. Hoje a cirurgia plástica. pele e rosto único e reconhecidamente europeu nas capas de revistas e jornais não são representativas e sequer são legitimas. somos sonhadores por ícones da cultura.” Fica evidente então. Para os padrões atuais. constituída de imagens inverossímeis.75m e pesa 50kg”. a publicidade. seria considerada gorda. o corpo – produto não constitui um corpo prático ou real.5 a 25 kg/m². que explora uma “beleza mercantil”. o índice de massa corporal (IMC) considerado saudável para mulheres. E quem sonha esses sonhos? A cultura sonha. asiáticas e mesmo caucasianas não se sentem representadas pela mídia convencional.corpo. o que causa nelas. como a existência da tecnologia só auxilia a propagação do corpo-objeto da mulher contemporânea. negras. Villaça e Góes “somos livres. os cartazes. indicando um quadro de desnutrição. Atualmente ela mede 1. mas que em tese povoam o imaginário comum e compartilhado.3kg/m². Segundo a Organização Mundial de Saúde. No entanto.uma dimensão obrigatória da mulher contemporânea que. produzidos comercialmente pela publicidade.

Este tipo de agressão moral e psicológica constitui uma violação dos direitos humanos uma vez que privilegiando apenas um tipo físico restrito a um numero ínfimo de indivíduos. sendo que simplesmente constroem seus estereótipos alternativos. que ainda permanece em termos contextualizados com o mundo atual. remédios e implantes na realidade ocultam a desigualdade entre os gêneros. e as pesquisas mais recentes. padrão. porém. que há movimentos. vendem-se cervejas ou mulheres? Lingeries ou corpos perfeitos? Perfume ou sexualidade?” 16 . como foi visto. O blog “Mulherão” da Wordpress é um dos que mais faz sucesso na internet. Estas páginas têm então um efeito muito mais consolador do que efetivamente combativo. tem jornadas de trabalho maiores e ainda têm turnos de trabalho doméstico cujos homens não são tradicionalmente pressionados a ter. grupos e blogs que buscam combater esta imagem propagada pela mídia e com isso pretendem tornar outros biótipos aceitáveis na sociedade. Hoje os ideiais de beleza passam por excessos de magreza e desnutrição. trazem índices alarmantes no que se refere à auto-estima e percepção da imagem das pessoas.para aqueles que estão marginalizados neste padrão. é introduzir na sociedade um comportamento discriminatório e ofensivo. Elas não questionam nem exigem a deposição do modelo de corpo ideal propagado pela mídia. pois ainda hoje. as mulheres recebem salários menores que os homens. Distúrbios alimentares relacionados à aparência são cada vez mais comuns. no entanto. Sabendo destas coisas. há um problema básico na existência e finalidade destas páginas. Alguns sociólogos acreditam que o uso e incentivo de recursos tecnológicos como cirurgias plásticas. Nota-se. ao vermos uma revista ou uma propaganda publicitária que mostram belos corpos irreais. Tamanha diferença entre padrão de beleza e realidade corporal não poderia deixar de gerar problemas. sem combater a rede mídia-consumo-corpo.Antigamente o padrão de beleza contemplava o corpo da mulher normal. a pergunta que pipocar em nossa mente deve ser “Afinal.

éticos. em especial para os estudantes dessa disciplina. latino-americana.IV. muito embora sua avaliação leve um tanto de subjetivismo para as anotações. A angústia da mulher brasileira. assim como a maior parte das mulheres do planeta. jornais e propagandas de televisão um determinado padrão estético é repetidamente frisado e aquelas mulheres que naturalmente não correspondem a estas expectativas tendem a se sentir sozinhas e menosprezadas pela sociedade. faz cursos de graduação no ensino Superior. físicos e culturais que estão presentes na sociedade estudada. trabalha. toda a sua energia e sua angústia. das questões administrativas na empresa na qual trabalha. desfilando pelas ruas do país. especialmente das pessoas de gênero feminino A mulher brasileira. Enquanto a mídia continuar 17 . comuns. Considerações Finais Do ponto de vista sociológico. da casa. africana ou asiática é a mesma: nenhuma delas se sente representada pela mídia que compra em revistas e em bancas de jornais. da família. analisar capas de revistas voltadas para o público feminino pode ser enriquecedor e intrigante. Através de revistas. Num momento posterior. “Quais os grupos sociais envolvidos e como os conceitos sociológicos de Marx. simples e graciosas tal como são estão por aí. Sobretudo. acabam alimentando ainda mais a indústria do entretenimento que cresce à custa de imagens de corpos irreais que jamais seriam visíveis sem o auxilio da tecnologia. é com a perpetuação da ideia de submissão à que mulher está exposta que devemos nos preocupar. Estas mulheres. e desta maneira. Enriquecedor à medida que fornece ao pesquisar dados suficientes para analisar os valores morais. cuida do marido. torna-se uma tarefa desafiadora e intrigante pois suscita perguntas que levantam questões como “Como e por que esta sociedade aceita este pad rão de comportamento / beleza?” . cuida dos filhos. Na tentativa de aliviar o seu mal-humor. muitas delas apelam às compras. sem que saibam. a pesquisa de campo trouxe à tona velhos debates que procuram estabelecer quais os grupos que assumem o controle das mídias e qual o verdadeiro papel e qual o verdadeiro nível de influência da mídia no cotidiano das pessoas. Weber e Durkheim podem se aplicar aqui?” Mais do que isso.

modelos anatômicos que não necessariamente lhe agradam. estes valores machistas continuarão a castrar a vontade e a liberdade da mulher de ser como quiser e de. dor e constrangimento. ao mesmo tempo que constantemente cria e renova estes conceitos através de publicidade. no entanto. para sentir-se individuo integrante de uma sociedade luxuriosa. Ideias abstratas. 18 . tal como seu biótipo é e permite ser. Caso não consiga. irreais e maquiadas que causam sofrimento e profunda angústia em mulheres reais. osso. sofre represálias indiretas que causam-lhe ansiedade. sem a necessidade de a todo instante adotar dietas milagrosas que só lhe prejudicam a saúde. a mulher aceita este padrão e de uma forma ou de outra busca alcançá-lo. a veiculação destas imagens impele à sociedade e. principalmente se amar assim. celulite e lágrimas. sensual e sutil. em especial às mulheres. técnica e linguagem especifica. Não se vendem produtos. Este tipo de atitude midiática é fruto do meio.vendendo seus produtos de forma atraente. Antes de tudo. feitas de carne. capitalista e aparentemente perfeita. se vendem ideias.

Outubro de 2004. Dulcília S. Liliany. n° 8. Acesso em 31/05/12 às 21h54. Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 45-57  VIANNA. Dissertação de conclusão de curso apresentada ao Instituto de Biociências do Câmpus de Rio Claro. Da Imagem da Mulher Imposta pela mídia como uma violação dos Direitos Humanos. Mulher de Papel CALABRESI.. Revista Contemporânea. O espetáculo da publicidade: a representação do corpo feminino na mídia.org. 19 . Carlos A. 2007.BIBLIOGRAFIA   BUITONI. p. Cynthia S.15108  SAMARÃO. Universidade Estadual Paulista. p. Com que corpo eu vou? A beleza e a performance na construção do corpo midiático. Site CynthiaSimemari. P.M. 1-14. M.