Os Olhos da Alma
Forever Love

Margaret Chittenden

O primeiro livro de Andréa, era um inesperado Bestseller... E o início de estranhas e inusitadas experiências. Mas o que o fictício enredo policial de A Vítima tinha a ver com sua vida? Aparentemente nada, se perturbadoras visões de uma desconhecida não tivessem passado a persegui-la em sonhos, até mesmo quando estava nos braços de Neville! Era um intrigante quebra-cabeça cujas peças começaram a se encaixar quando ela descobriu a identidade da mulher: Daphne Murdoch, assassinada há mais de trinta anos! Quem a havia matado? Quem era o homem que Daphne amara com obsessão? Seria possível que o amor de Andréa por Neville fosse um laço que ligasse o presente a um passado cheio de mistérios e insuspeitos segredos?

Digitalização: Rosana Gomes Revisão: Cláudia

Margaret Chittenden A sensibilidade de uma grande escritora percorre os misteriosos labirintos da alma

Título original: Forever Love

Copyright: Margaret Chittenden Publicado originalmente em 1988 pela Worldvvide Romance, Toronto, Canadá. Tradução: José Batista de Carvalho

Copyright para a língua portuguesa: 1989 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3andar CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil.

Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda. Impressa na Artes Gráficas Parâmetro Lida.

CAPÍTULO I
Não era propriamente ruim aquela sensação de leveza. Como se houvesse escapado aos limites do próprio corpo, Andréa sentia flutuar no interior de uma minúscula molécula brilhante. Via as próprias formas, com saliências aqui e reentrâncias ali, e divisava apêndices que finalmente identificou como braços e pernas. Ao mesmo tempo, tinha plena consciência de que era uma terçafeira, dia 15 de abril de 1986, e de que estava em San Francisco, na sala de estar do apartamento do Dr. Willi Steingard em Telegraph

Hill. Sentia contra a coluna vertebral a pressão da cadeira de acrílico transparente, que transpassava o frio, pela seda acinzentada do vestido. Sentados, os convidados da festa apenas a observavam em silêncio. Seria possível que eles também vissem as formas que ela sentia ter assumido, aquela minúscula bolha fulgurante que flutuava? Provavelmente não. Afinal de contas, era ela quem estava sendo hipnotizada, e não eles. — Está me ouvindo, Andréa? — Perguntou Willi. Com muito esforço, o pequenino ser em que ela havia se transformado deu a resposta: — Sim. — Agora, quero que volte uma porção de tempo. Volte bastante, até quando tinha seis anos de idade. Andréa sentiu uma ponta de revolta. Afinal de contas, não teria de voltar "uma porção de tempo", porque estava apenas com trinta e cinco anos. — Você não está se concentrando Andréa. Quero que escute apenas a minha voz, ouça apenas a minha voz. Uma voz tão profunda num homem tão pequenino. De fato, Will tinha a voz de barítono de um cantor de ópera. Ah, um cantor de ópera! Andréa precisava se lembrar de contar aquilo a Tony, quando o levasse com ela para casa. — Seis anos de idade Andréa. Procure se concentrar no som da minha voz. Vou fazer a contagem regressiva e você retornará até os seis anos de idade. Dez... Nove... Oito... Sete... Seis. Muito bem! Agora, conte o que está vendo; fale o que está acontecendo com

você. Algo muito estranho estava acontecendo. Vagarosamente, a minúscula molécula em que ela se encontrava ia penetrando no corpo de uma Andréa Cavenaugh, de seis anos de idade. Era uma menina magrela; de escorridos cabelos loiros, amarrados em dois laços de fita azul. O vestido de algodão igualmente azul era muito curto e deixava à mostra boa parte das pernas finas. Alta demais para a idade, ela era chamada de "Palito" pelas coleguinhas de escola. Naquele exato momento, voltando da escola para casa, atravessava correndo a ponte de pedra sobre o riacho, com os olhos fixos no carvalho plantado na outra margem, como se seu olhar fosse uma linha que a conduzisse. — O duende está lá embaixo — ela murmurou. — Fale-me sobre o duende — incentivou Willi. — Papai diz que ele mora ali embaixo da ponte, esperando para pegar menininhas que não voltam direto para casa. Ela falava aos arrancos, tomando fôlego a todo instante, e com aquele sotaque britânico que achava ter perdido há muitos anos. — Seu pai lhe contou a história dos Três Bondes do Duende de Malvado — inquiriu Willi. — Não é uma história. Papai disse que às vezes o duende se esconde embaixo da nossa cama no escuro, para se certificar de que estamos dormindo direitinho. O duende come gente, especialmente meninas que não obedecem aos pais. — Como é a cara do duende? — Perguntou Willi, num tom divertido. Ouviu-se um riso de mulher. Parte da mente de Andréa ficou

Seu pai o inventou para que você fosse obediente. — Vamos voltar até quando você tinha cinco anos. Não. caindo. Imagine que existe um relógio na parede.. O sangue que lhe corria nas veias parecia ser metal derretido.. Alguma coisa a puxava. ela não estava segura nem quentinha.. — Não sei como é a cara do duende. sofrendo os medos de um fim de tarde de verão. três. Os ponteiros estão andando para trás. quatro. Agora você é um bebê Andréa.. como se esperasse que Andréa dissesse que acreditava nele.. Portanto. A molécula de Andréa girava num redemoinho de escuridão.aborrecida com aquilo. enquanto a outra parte permanecia com a pequena Andréa.. Despencando numa . — Agora vamos voltar um pouco mais — continuou Willi. — Está bem Andréa — concordou Willi. Não quero olhar e não vou olhar. — Mas o duende não existe de verdade. Um. A certa altura ela passou a ouvir um som agudo e vibrante. Só que ela não estava acreditando. Três. Os ponteiros do relógio continuavam girando para trás. rapidamente.. que soprava a partir de Whitiey Bay. Nessa altura Willi fez uma pausa. o duende não está realmente aí. Agora ela estava caindo.. que aumentava de intensidade até se tornar quase ensurdecedor. ela não conseguia respirar. Estava com frio.. Com a cabeça doendo muito. arrastava. O ar simplesmente não existia. Dois.. Sentia no rosto a brisa do Mar do Norte. onde o pai dela dava aulas de gramática inglesa. está quentinha e segura nos braços da sua mãe.

como se ele houvesse repetido aquela contagem inúmeras vezes. Willi voltou a contar. quatro. que não acreditava em Deus. Mark Cavenaugh acreditava na retidão dos princípios anglosaxões. Com aquele rosto redondo de garoto.. ele contraiu os lábios e engoliu a saliva antes de falar. Quando Andréa olhou para Willi desorientada. — Você está bem? Alguma coisa havia acontecido à voz profunda de que Willi tanto . Aquilo era estranho. Era o seu jeito característico de falar. dois. ou pensavam entendê-lo. Três. — Vamos Andréa! Volte! Um. sua poesia tinha tido tanto apelo junto às massas.. Você despertará quando eu contar outra vez até cinco.. — Graças a Deus! — Exclamou Willi.. As pessoas o entendiam.escuridão em fim.. que o pai de Andréa costumava chamar de palavras de quinze dólares. Quatro. Parecia um eco. Cinco. — Dois. porque normalmente Willi era uma pessoa tranquila. três. Vai se sentir relaxada e confortável Andréa! Ele parecia estar entrando em pânico. ele olhava de frente para Andréa. Willi sempre dizia que tinha alergia estética às fibras sintéticas. levando-a para a luz.. Por isso.. cinco! Os olhos dela se abriram de chofre. Está tudo bem Andréa. Alguém começou a gritar. Emolduradas pelos cabelos crespos. as faces dele estavam tão brancas quanto o suéter de cashmere.. A voz dele batia na consciência de Andréa.

. Depois. Ele pronunciara aquelas palavras num sussurro trêmulo.. Quando o vi aliviando as dores de toda aquela gente. — Qual é a grande novidade? Willi deixou escapar um melodramático suspiro de alívio. Então você não ia encontrar a causa das minhas enxaquecas em algum trauma de infância? É a última vez que lhe permito me usar como cobaia. dramática. chocados. — Eu não estava conseguindo tirá-la do transe hipnótico. é? Bem. — Andréa hesitou por alguns instantes. mas logo deu de ombros e voltou a falar num tom mais leve: — Como diziam os romances de antigamente. só isso. Tony olhava para Andréa como se estivesse vendo um monstro de duas cabeças.. Andréa podia ver aquilo nos olhares das pessoas e na forma como elas se afastavam. alguma coisa imprevista.se orgulhava. Desta vez foi Willi quem deu de ombros. . Andréa fez uma cara de menina enganada. — Para reforçar o que dizia. Ele devia estar mentindo... como eu disse você demorou algum tempo para sair do transe. — É claro que estou bem — respondeu Andréa aprumando-se na cadeira e passando a mão pelos cabelos. — Ah. tudo foi ficando tão escuro. inesperada. — E eu que pensava que você fosse um especialista no assunto. porque alguma coisa havia acontecido. Todos pareciam espantados. na televisão. enquanto era observado pelas outras pessoas. — Você também disse que eu perceberia tudo o que estivesse acontecendo. — E você não percebeu? — Só durante algum tempo..

estava provocando um verdadeiro êxodo na direção ao bar da casa. Ainda estava com uma daquelas dores de cabeça que desafiavam os . Justamente por isso ela concordara com aquela demonstração. ele havia aplaudido delirantemente o enorme sucesso daquele livro. Que tipo de jogo Willi estava fazendo com ela. Tony apenas encolheu os ombros e sorriu. Na loja de produtos naturais da qual ela era dona. olhando-a fixamente. querendo dar consistência ao que dizia. preciso reabastecer de bebida os meus convidados. as faces de Willi já haviam readquirido a cor normal. afinal? Tinha a fama de às vezes ser um homem maldoso. Não quer um Perrier? — Não. Afinal de contas. se me dá licença.. Mais que qualquer outra pessoa. Por alguns instantes Andréa ficou com os olhos fechados. mas é claro que. chás. apresentados por um agente literário.Fosse o que fosse o que havia acontecido. Tony? — Perguntou Andréa olhando para o rapazola. quando Andréa resolveu publicar um livro.. todos ali pareciam precisar urgentemente de um drinque? — Eu fiz papel de boba. Por que de repente.. Os dois haviam se conhecido em Nova York. Não. — Recusou Andréa num tom cortante. mostrando os dentes bonitos. A essa altura. — Não aconteceu nada menina — ele insistiu. etc. Além disso. Willi estava sempre recomendando às pessoas para que comprassem vitaminas. Willi era um amigo e sempre tinha sido gentil com Andréa.. — Agora.

loiro e bronzeado. apesar da simplicidade. Era alto. Decididamente. A necessidade que sentia deles era intensa e absoluta. como se esperasse para ouvir o que devia fazer. não estava com vontade de voltar para casa sozinha. como tantas outras que a haviam acometido durante toda a vida. mesmo ele sendo cabeça oca. que sempre comparecia às festas organizadas por Willi? Pouco antes da demonstração de hipnose. lhe davam um aspecto charmoso. igual aos adolescentes bonitos que ela vivia levando para a cama. mas ela não sentira absolutamente nada. Deus do céu. pelo menos uma vez. na cozinha. ele havia se aproveitado de uma aglomeração para passar a mão em Andréa.esforços de Willi para encontrar cura. um intelectual espirituoso como aquele redator do Chronicle. sentir-se atraída por alguém maduro. Talvez devesse pedir a ele que esquecesse a meia promessa feita algum tempo antes. Só esperava que não acabasse se transformando numa outra enxaqueca. como aquele garoto era bonito! Chegava a atormentar o simples ato de olhar para ele. desde a morte do pai dez anos antes. Por outro lado. O rosto de linhas bem definidas sugeria uma inteligência mediana. figuras paternais que suprissem a falta do velho Mark. sentado na frente dela. Usava uma camiseta branca e uma calça jeans que. O certo seria ela se sentir atraída por homens mais velhos. Só que com ela. Por que não? Por que não podia. Gostava mesmo era de rapazinhos de pele fina e rosto sem pelos. Freud não teria uma explicação para aquela situação. não era isso o que acontecia. Andréa abriu os olhos e olhou para Tony. por exemplo. .

mas agora. e o que ela menos queria era voltar para o meio daquela escuridão. Só podia ser mesmo uma doença. Não tinha importância quando estava com vinte e poucos anos. então. Tony sacudiu as mãos. Agora ele estava de pé... Quer ir para casa agora? Posso dirigir se preferir. não vai? — Insistiu Andréa. meio atarantado.Tony. Uma vez de pé. ela própria também começou a se sentir excitada. conduziu-a para a porta. não voltaria para casa sozinha. aquela atração constante por rapazolas. Decididamente. Tony segurou no braço dela e nervosamente. Seria capaz de apostar cem contra um como ele ainda era virgem. — Você está com um aspecto horrível.. Sentia até o sangue gelar só de pensar. — Obrigada. mas Andréa já vira aquela mesma expressão outras vezes. Não seria prudente consultar um analista? Por Deus. era uma gracinha! — Tem certeza de que não quer um drinque? — Ele ofereceu. — Você vai me contar o que aconteceu. com a ansiedade estampada no rosto bonito. — É claro — ele prometeu. Queria dar a impressão de que era senhor da situação. deixando que o rapaz a ajudasse a levantar da cadeira baixa. Pelo menos.. o que provocava nela quase um padecimento. — Contarei qualquer coisa que você . não era mais alta do que aquele ali. tentou disfarçar uma risadinha. não! O infeliz podia querer hipnotizá-la. — Eu não quis dizer que. Por tudo isso.

A Praça Union parecia tão cheia de gente quanto costumava estar ao meio-dia. Com o horror que estava o tráfego no centro da cidade. Na primeira vez em que iam ali. No meio da sala. que detestava gírias americanas. rindo e conversando. — Isto aqui é o que há! Andréa lembrou-se do pai. Andréa abriu a porta do apartamento. aproveitando ao máximo a temperatura agradável daquela noite de abril. mesmo numa hora como aquela. atravessando as ruas fora das faixas para pedestres. As mulheres costumavam perguntar o que ela fazia para limpar aquilo tudo. Normalmente os visitantes ficavam chocados com o que consideravam uma barafunda: as plantas que ela cultivava até ficarem bem grandes. era uma boa coisa aquele garoto ser um motorista competente. com galhos tão . Algum tempo mais tarde. Durante o período em que deu aulas nos Estados Unidos. Andréa não queria mais que Tony estivesse ali. Alguém de mentalidade tão limitada jamais conseguiria entender o que aquele ambiente significava para ela. — Uau! — Exclamou Tony. Como reagiria se pudesse conversar com os rapazes com quem a única filha costumava fazer amor? De uma hora para outra. Tony ficou olhando em volta com uma expressão de espanto. num lugar que ela considerava um refúgio pessoal.queira saber. Turistas e habitantes da cidade circulavam por todos os cantos. os visitantes reagiam das formas mais variadas. era difícil ele encontrar um aluno com quem pudesse partilhar sua admiração pelo inglês puro e castiço. enquanto os homens queriam saber como era possível alguém se mover no meio de tanta coisa.

quase tudo comprado em lojas de objetos usados. Willi havia comparado o lugar a um ventre materno. — Acho melhor você ir embora Tony — disse Andréa.. Ao ir ali pela primeira vez.. os cartazes de filmes das décadas de trinta e quarenta. O rapaz olhou para ela com a expressão de uma criança que. das bruxas e de todos esses horríveis bichos de pernas compridas que andam por aí à noite.desenvolvidos que chegavam a prejudicar a circulação. sobre as quais se viam retratos antigos em molduras de madeira entalhada. às vezes com . Ninguém que ela conhecia jamais havia confessado ter sonhos tão violentos como aqueles. — Mas. que cobriam por inteiro as paredes. ao lado de mesinhas em estilo vitoriano. de uma hora para outra. Então por que me convidou dando a entender que queria que eu ficasse? — Ele questionou. crianças debatiam-se e se esvaíam em sangue. recebesse a comunicação de que o esperado passeio ao Zoológico havia sido cancelado. — O quê? — É que às vezes tenho pesadelos — explicou Andréa. cadeiras e sofás de palhinha. — Todos nós temos pesadelos. — Por causa dos fantasmas da noite — respondeu Andréa mansamente. — Queria que você me trouxesse para casa e eu me sentisse protegida dos vampiros. em que edifícios desmoronavam. chegando a perguntar se a mãe de Andréa não tinha morrido ao trazê-la à luz. Tony deu de ombros. pessoas morriam consumidas pelas chamas. Andréa sentiu vontade de dizer que ninguém podia ter pesadelos como os dela.

Depois de dar uma boa olhada na própria figura. Finalmente. muito magra. Mesmo que não fossem verdadeiras. subitamente privada da companhia do homem que não só era seu único parente. esforçando-se para despertar. envolvendo-a com os braços e adotando uma postura dominadora. depois de percorrer as infindáveis lojas de roupas de San Francisco e experimentar todos os estilos e cores possíveis. alta. mas também seu patrão e viu-se jogada no que definiu como um mundo hostil. descobriu surpresa. estudou exaustivamente nutrição e aprendeu que se não podia ser bonita. — Depois — adiou Tony. concluiu que alguma coisa precisa ser feita. a abrir uma loja de comidas naturais. Andréa não tinha ilusões quanto à própria aparência e sabia que na verdade. que durante um bom tempo. frequentou uma academia de ioga. Ninguém jamais lhe dissera ter mergulhado numa escuridão tão profunda.membros do corpo decepados. — Conte-me o que aconteceu na festa — pediu Andréa. Todo esse trabalho de pesquisa acabou por levála. — Você é bonita. lutando para escapar. temendo acordar e descobrir que. que os modelos clássicos em fibras naturais e . Em primeiro lugar. aprendeu a corrigir os vícios de postura e os exercícios que deveria fazer com regularidade. Consultando um especialista oriental. de ombros caídos e acima de tudo tímida. gente bonita era apenas gente bem vestida. no fim das contas. mais tarde. aquelas palavras a desarmavam. pelo menos podia se tornar uma pessoa saudável. Levou isso tão a sério. mas. Quando estava com vinte e cinco anos. não se tratava de um sonho. ao mesmo tempo.

Entre uma carícia e outra. aprendeu com uma simpática vendedora utilizar a quantidade certa de sombra. Devia ter começado por volta dos catorze anos ou passado pelas mãos das melhores professoras. que tinham a mesma cor dos olhos. eram lavados diariamente com xampu de camomila. Começando a ver os resultados. para um iniciante naquela atividade. serviam de moldura ao rosto oval.. para realçar o castanho-claro dos olhos. e cortados na altura do queixo. ela se animou a tirar do banco duzentos dólares provenientes dos direitos autorais das obras do pai.cores sólidas eram o que de fato lhe serviam. extremamente elegante. Ao final de todo esse processo. No setor de cosméticos de uma elegante loja de departamentos. usava vestidos cheios de babados e padrões exageradamente estampados. — Está bem. A vendedora recomendou também o uso de muito pouco rimel. Repartidos ao meio. aquele garoto era muito bom no amor. Os cabelos. Talvez trabalhasse como entregador de supermercado ou farmácia. dinheiro que utilizou para correção e restauração dos dentes. Agora. já que os cílios de Andréa eram naturalmente recurvados. Andréa havia conseguido compor um conjunto atraente e o que era reconhecido por todos.. Andréa imaginava cenas em que Tony fazia amor com donas de . De forma surpreendente. Depois — ela aquiesceu. Andréa foi sentindo os músculos relaxarem. querendo disfarçar a ossatura avantajada. as mãos de Tony percorriam o corpo dela. os dedos dele buscavam-lhe as zonas erógenas. Antes. Para surpresa dela.

transmitindo o capítulo de alguma novela.. olhando-o com curiosidade. ela emitiu um suspiro e um gemido. Por que não? Andréa sempre tinha a curiosidade de saber se as outras pessoas eram felizes. — Eu disse que foi bom muito bom. conte-me o que aconteceu na festa — ela voltou à carga. balançando o corpo de um lado para o outro. — Acho que sim. Doce Lar". sim.. Mas o que era a felicidade afinal? Seria o oposto da solidão? — Agora. massageava . O rapaz apoiou-se num dos cotovelos. Andréa segurou o pênis endurecido e dispôs-se a ajudar: — Aqui não. Aqui. Um minuto depois do orgasmo. — Eu não lhe disse? Andréa sorriu. ao lado dela. Devia ser engraçado. Aqui. meu menininho. só se atrapalhando um pouco na hora da penetração.. Ao mesmo tempo. O rapaz sentou-se na cama e franziu a testa. ergueu um pouco o corpo e olhou para ela com um ar de triunfo. — Disse alguma coisa? — Perguntou Tony mexendo a cabeça no travesseiro. em cima de uma mesa de cozinha.casa. O fato é que o rapazola demonstrava muita perícia na cama. Sou feliz.. talvez porque a felicidade fosse uma coisa que constantemente lhe escapava. — Você é uma pessoa feliz Tony? — O rapaz franziu a testa. havia sempre uma tabuleta na parede onde se lia: "Lar. Nessas visões. e um aparelho de televisão ligado.

procure ser mais direto. que não se adequava ao rosto ingênuo. — Você e Willi estão. — Foi quando você começou a falar com uma voz esquisita. — Bem. — Foi uma coisa esquisita. desistindo de fazer a pergunta quando viu o olhar indignado do garoto. Falou num duende. O que. — Estava difícil de entender. Gritava o tempo todo que estava caindo e que sua cabeça doía. Você parecia sufocada. Pode ser um gigante. Então Willi fez com que voltasse mais. O que foi que eu disse? O rapaz fez uma careta. — Até aí eu me lembro... — Tony ficou sério outra vez.. Andréa ficou se perguntando por que Tony teria sido convidado para a festa. você estava mesmo assustada com o tal duende. mas talvez houvesse feito isso pensando em si próprio. apoiando-se no travesseiro.. Andréa aprumou o corpo. dizendo coisas estranhas. seja como for.. tinha pensado que Willi havia convidado o rapaz para agradá-la.vagarosamente os músculos dos braços com a palma das mãos. Ao mesmo . O que é um duende? — É uma criatura fantástica do folclore escandinavo. mas normalmente é um anão.. Você ficou com a voz parecida com a de uma criança. — Assim como Willi? De uma hora para outra ele mostrava uma expressão cínica. até quando era bebê.. Sobrenatural. — Ela começou. — Assim como os desenhos animados da televisão? — É mais ou menos. A princípio.. — Pelo amor de Deus Tony. meio.

— Eu vivi na Inglaterra até os dez anos de idade — interrompeu Andréa. Ele disse regressão automática. — Regressão. — Ele perguntou qual era o seu nome. O que é isso? — É um retorno às primeiras fases do desenvolvimento. Willi parecia realmente amedrontado... Seu rosto estava diferente. — Daphne Murdoch? — Depois você começou a gritar e... — Eu gritei alto? — Gritava assim como essas mulheres dos filmes de terror. o fato é que você disse que se chamava Daphne Murdoch. Você sabe como é... mais redondo. Ficamos todos assustados. Tony balançou a cabeça. — Willi ficou muito excitado e falou em repercussão automática. . mais. pastoso. — Mas isso é impossível. Deve ter sido por causa da pouca luz. — Tony fez uma pausa e pensou melhor. meu Deus! Não é de admirar que aquelas pessoas parecessem tão constrangidas. você abriu os olhos e nos olhou como se não conhecesse ninguém. Mas continue. Bem. Era um jeito de falar inglês mesmo. Depois... — Não era a mesma voz de quando você falava como uma garotinha. com aquele sotaque britânico. como se quisesse se agarrar a alguma coisa. — Ai. e você falou de um jeito realmente estranho.tempo. Estava diferente.. girava na cadeira e arranhava o ar com as mãos.. cheio de erres.

ainda morava na casa dos pais. Televisão. — É. um tiro. Em vez disso. cinema! Será que aquele garoto não tinha outras referências? Por outro lado. Mas. Disse que estava morrendo e falou alguma coisa sobre um revólver. — Nunca mais vou deixar aquele cretino me hipnotizar — gracejou Andréa. É um filme antigo. — Talvez tenha sido por causa de algum filme que você viu como As Três Faces de Eva. Tony contraiu os músculos das . Enquanto vestia a camiseta. ora. mas passou há pouco tempo na televisão. Joanne Woodward faz o papel de uma mulher que vive mudando de personalidade. Nesse filme. — Acho melhor eu voltar para o dormitório. Michael. Andréa olhou para ele exasperada. começou a contar ordenando que você acordasse. usando até nomes diferentes. aquilo era um progresso! O último que estivera ali. Ela podia muito bem ter se lembrado de um dos muitos filmes a que assistira na infância. continuou gritando que estava morrendo. Tony levantou-se e foi recolhendo as peças de roupa que havia jogado pelo chão. Ora. — Eu falei mais alguma coisa? — Falou sim. porque não havia a necessidade de obedecer ao toque de recolher das dez da noite no dormitório da escola. Só que você não acordou logo. num certo sentido isso era uma vantagem.Willi gosta de deixar aquele apartamento na penumbra. Willi ficou ainda mais assustado. talvez ele estivesse com a razão. pode ser.

No final. — Está indo para promover o seu livro. É explorada. O suicídio dela é simbólico. ali. achando que se sentiria uma estrangeira na terra natal. Agora ela estava fazendo um trabalho em prol da sociedade. — Amanhã estarei partindo para a Inglaterra. Não sei por que você precisou escrever um livro.. ela é que é a vítima. Ele devia fazer exercícios com pesos. — Ele é a vítima? — Não.costas. relutando em ir. sei. você me contou — lembrou-se Tony.. Ficará uma pessoa tomando conta. . chegou a ficar amedrontada. Será que tinha alguma coisa a ver com a vida infeliz do pai. — Gaguejou Tony confuso. provavelmente em frente ao aparelho de televisão. — Talvez eu deva ler o livro. Vai ter de vender a sua loja de produtos naturais? — Não. Chama-se A Vítima e é ambientado na Inglaterra. — Ah. É sobre o quê? Sobre comida natural? — Não. mata-se também. sim. — Você deve ganhar um bom dinheiro. Andréa balançou a cabeça.. Ao receber o convite do editor inglês. é um romance psicológico. Na verdade. porque estava se tornando uma vítima de si própria. ela não sentia a mínima vontade de fazer aquela viagem. — Posso vir vê-la amanhã? — Arriscou o garoto. Usada pelas outras pessoas. Conta à história de uma francesa que mata o marido. por lá? — Ah..

Será que não o estava punindo por ter sido o portador de notícias ruins? Que história mais esquisita! Ela só esperava que o tal redator do Chronicle não resolvesse publicar nada. ela jamais havia pensado em ser uma escritora. Mas por quê? Em geral.. não é? — É sim Tony. — A história entrou na minha cabeça e não saiu mais. nem chegava perto da máquina de escrever. Mas logo que voltar telefonarei para você. Talvez devesse receber uma medalha por isso. Antes da morte do pai.despertando nos jovens o gosto pela leitura. com olhos compridos nos bicos dos seios que apareciam entre . onde estão as minhas raízes. mesmo deduzindo a percentagem do agente literário. nem queria voltar a vê-lo. Posso até passar um fim de semana em Paris. não se cansava tão rapidamente de rapazes bonitos como aquele. — Você ficará fora durante muito tempo? Vai me telefonar quando voltar? — Estarei fora por três semanas. — Tem certeza de que não quer que eu fique? — Perguntou Tony. terei algum tempo livre para aproveitá-lo em Londres e também para ir ao norte da Inglaterra. Nesse período. — E você ganhou muito dinheiro com isso? Willi me disse que o livro estava na lista dos mais vendidos. — Nem sei por que escrevi aquele livro — confessou Andréa. Tony estendeu as duas mãos e cobriu os pequenos e firmes seios de Andréa. Na verdade. as taxas e os impostos. Não era bem o que ela pretendia. De fato. Isso quer dizer que você está rica..

os dedos dele. A imagem dela refletida no espelho estava distorcida. conforme tinha explicado o médico dela. deixando apenas a luz fraca que sempre ficava acesa à noite. O rosto do rapaz se iluminou. a viagem.. A pele havia adquirido uma tonalidade esverdeada. Era o escotoma cintilante. Os fantasmas da noite. — Preciso dormir um pouco Tony. Mas quem diabo era Daphne Murdoch? Andréa acordou às três da madrugada. bruxuleante ziguezagueando no meio das luzes coloridas que sempre apareciam durante os ataques de enxaqueca. Também sentia náuseas. como o matiz de uma couve-flor. Ficou pior ainda. com olheiras . — Ah sim. Andréa fez uma careta e desligou a lâmpada de cima do espelho. Andréa sentiu uma súbita vontade de chamá-lo de volta.. encostou-se contra a pia. Você vai aparecer na televisão. de lá? — Vou sim. buscando a saída por entre as plantas.. no meio de um pesadelo. Depois de cambalear até o banheiro e tatear na parede para encontrar o interruptor de luz. Estava grogue por causa da pílula para dormir que havia tomado após a partida de Tony. Agora. Oh Deus! Quando Tony se despediu e foi se retirando. tinha do que se gabar com os companheiros de dormitório. Agora o rosto parecia macilento. sentindo pontadas num dos lados da cabeça. Ele devia estar orgulhoso de si mesmo por ter feito amor com uma mulher que aparecia na televisão..

Imediatamente. a imagem do espelho desapareceu. Andréa ficou olhando fixamente para o espelho. cessando igualmente o som agudo. No entanto. só que agudo igual ao que ouvira durante o transe hipnótico provocado pelo desgraçado do Willi.profundas e sombreadas como uma fotografia em negativo. Com a cabeça meio inclinada para frente. tinha certeza de que aquela era Daphne Murdoch. Era uma imagem que sumia e reaparecia. tentando o máximo de concentração da mente e do corpo. foi-se também a dor de . O mesmo ritmo em que latejava a cabeça. Ao mesmo tempo. algo muito estranho começou a acontecer com a imagem no espelho. desejando que a imagem se refizesse. o que ela viu foi extremamente vivo e cristalino. ela ouvia um som como o de uma ventania. Estava se espatifando em centenas de pedaços. Durante alguns instantes. O rosto era perfeito. como se pudesse ver ali uma etiqueta. circundando pupilas que cintilavam intensamente. Você não vai tomar conta de mim"? Andréa soltou um grito. sem qualquer defeito visível. Perplexa. A pele era rosada e saudável. Há certa altura. A jovem era fantasticamente bela e usava um penteado muito em voga na primeira metade da década de quarenta. o branco dos olhos era puríssimo. tinha a expressão de uma menininha que dissesse: "Eu estou aqui. Miraculosamente. Depois do que pareceu ser um longo e doloroso tempo. Não era um rosto que Andréa houvesse visto antes. isso aconteceu. como um quebra-cabeça desfeito por uma mão descuidada.

a boca aberta de espanto. Ela adorava a elegância daquele lugar. os olhos fixos na porta do banheiro. Andréa apertou as faces para certificar-se de que estava acordada. correu de volta para a cama. os olhos arregalados. Trêmula de pavor acendeu o abajur da mesa de cabeceira. CAPÍTULO II No dia em que completou cinquenta e quatro anos. Susan Dailey foi almoçar no Kensington. lutando para reprimir o absurdo desejo de olhar embaixo para ver se não havia ali um duende. suando frio. Agora. Aterrorizada. era a verdadeira imagem dela que aparecia no espelho: os cabelos castanhos. infinitamente mais agradável que os restaurantes onde se serviam pratos rápidos que nos últimos tempos estavam . os músculos retesados. um dos mais requintados restaurantes londrinos.cabeça. Andréa ficou absolutamente parada. uma quintafeira. antes de puxar o cobertor até o queixo. Com as mãos trêmulas. Durante um longo tempo.

o único lugar que sempre tivera como lar. Enquanto voltava para casa.tomando conta de Londres. dirigindo calmamente o Mini azul. que era como se chamava naquele restaurante alcatra de boi recheada. Era o tipo de pele que devia ter toda mulher inglesa: levemente rosada. exatamente como a dos membros da família real britânica. Susan demorou-se por algum tempo contemplando o jardim. Cheias de folhas e flores. Na certa a teria censurado por comer tanto roulade de boeuf à rallemand. as plantas apresentavam um viço luxuriante. bem mais agradável do que o verde e amarelo do lugar aonde Vai morava. o que pôde constatar ao se olhar no espelho quadrado que havia por cima da velha arca do hall. Ela adorava tudo naquela pequena porção da velha Londres. uma amiga dela. Os cabelos. No pequeno hall de entrada. que ficava lindo naquela época do ano. das glicínias que cresciam nas floreiras das janelas. Bem. Verdade que era um tanto rechonchuda. de onde mais tarde os recolheria. Gostava do pátio pavimentado de pedra. Também ela não era feia. sem rugas e com uma claridade de porcelana. ela não tinha o costume de ir ao cabeleireiro . Depois de estacionar o carro. Bem que Vai gostaria de também ter ido ao Kensington. mas a pele jamais exigira o uso de cosméticos. ela tirou o casaco e o chapéu de feltro e os depositou ao pé da escada. Achava-se uma mulher feliz com a vida. da nova pintura azul e cinza nas casas.. da fileira de casas de tijolo aparente que antes tinham servido de cavalariças. bem como a impediria de chamar por três vezes o carrinho de gâteaux.. Susan lembrou-se de Vai.

Ronronando alto. quando ela entrou na cozinha para acender a chaleira elétrica. Susan não queria nem pensar nisso. ela sempre usava chapéu quando saía. — Deixei você sozinho durante muito tempo. da viúva caseira e acomodada. não foi. Além disso. Vai. Ser viúva era muito bom. um dos chapéus de feltro com aba que ganhara da mãe. usasse roupas mais coloridas. Susan sorriu. Depois iremos ver . provavelmente Susan ainda teria de trabalhar para viver. Mesmo assim. A experiência com Dennis Dailey já servira para tirar da cabeça dela qualquer ilusão com relação ao casamento. vamos fazer uma boa xícara de chá. A aliança no dedo era uma prova de que ela já havia pertencido a alguém. não se incluía nesse rol. Assim. Mais que isso. somada ao seguro de vida. preferia deixar que os outros acreditassem que o fogo no coração daquela viúva se extinguira com o desaparecimento do marido. fizesse um regime para perder peso. conseguiria fisgar outro homem. porém. era ótimo! Não fosse a considerável quantia em dinheiro deixada por Dennis. dizia. Queria que ela mudasse. O gato malhado lamentou-se. miando.e por isso eles pareciam finos e sem vida. os amigos gostavam de Susan do jeito como ela era. eram naturalmente ondulados e ainda não estavam muito grisalhos. o gato parecia querer dizer que a perdoava. — Bem. o exemplo perfeito. Só assim. inclinando-se para coçar a cabeça do bicho. Marmalade? — Culpou-se Susan. No geral.

Devia ser uma porcaria. Outras Gentes”. resolveu que não compraria o primeiro livro que estava sendo discutido naquela tarde. apesar da simpatia do autor. Assistir àquele programa era como ter o privilégio de receber em casa pessoas muito criativas. Marmalade foi aninhar-se no colo dela. O programa de Roger Faversham começa às três. Mesmo assim. Na pequena sala de estar ela ligou o aparelho de televisão. era muito raro ela sair. intitulado “Outras Terras. Normalmente comprava os livros que ele recomendava. tomando um pouco de licor. era um dos que Susan costumava ver. Além das poucas vezes em que saía com Vai para fazer compras e das horinhas que passava à noite no King's Arms. um bem apessoado senhor em blazer azul-marinho. com o bule de chá ao alcance da mão. O programa "Encontro com o Autor". Susan sentou-se numa poltrona em frente à televisão e acomodou os pés numa almofada. puxando conversa com o gato. Talvez por estar completando mais um aniversário. O livro. calça cinza e gravata discreta. um .televisão. os escritores. viu-se refletindo sobre a vida. tratava de ciências ocultas. o apresentador. Gostava muito de ler e tinha uma admiração especial por Roger Faversham. experimentando a sensação de estar partilhando dos gostos pessoais do apresentador. Depois de alimentar o gato. — Essa nossa vidinha não é o que se pode chamar de emocionante. não acha? — Ela falou. retornando à cozinha no momento em que a chaleira começava a assobiar. Manhosamente.

as pessoas estavam outra vez tomando gosto pela moda vigente nos anos da guerra. Usava um elegante vestido bege de seda e um casaco da mesma cor com ombreiras. — Eu nasci em Londres. provavelmente por achá-lo muito velho. Mas por que Roger Faversham não desgrudava os olhos da entrevistada? Só que a jovem parecia não dar muita importância a isso. onde meu pai trabalhava como professor. Não chegava a ser uma beldade.. Pelo jeito. conforme ela própria dizia. — Antes de escrever seu livro. — Pode ter certeza de que aqueles cílios são postiços Marmalade — apostou Susan.assunto muito em voga. porque a história se ambientava em Londres. Subitamente excitado. apesar de ter vivido mais no interior. — Respondeu a autora sorrindo formalmente. tensa. — Não. Emigramos os dois para os Estados Unidos quando eu estava com dez anos de idade. Evidentemente aquela jovem havia escrito um livro sobre um assassinato. Roger inclinou-se para frente. Não nos Estados Unidos. na certa por se tratar do seu primeiro livro. Mark Cavenaugh.. mas tinha bonitos cabelos e vistosos olhos castanhos. . Depois dele foi entrevistada uma jovem americana que era só pele e osso. — Você tem parentesco com aquele Cavenaugh. Parecia um pouco nervosa. mas que logo sairia de moda. retesando os músculos do rosto comprido. o poeta dos mineiros? A moça balançou afirmativamente a cabeça. você esteve em Londres para fazer pesquisa? — Perguntou Roger.

de sombras. Não se lembrava de tê-lo ouvido antes. Marmalade resistia a sair de onde estava. Cavenaugh. Susan apurou os ouvidos. A americana. porque talvez. tinha lágrimas nos olhos. cujo nome era Andréa Cavenaugh. Susan pôs a xícara de chá de lado e deu uma palmada leve em Marmalade. Naquele dia. ela era a secretária particular dele. Foi nessa hora que o apresentador do programa começou a falar numa tal Paulette. talvez até lúgubre. Era um tanto triste. Roger citava trechos de um poema dele. anos antes se organizara um movimento para dar a ele um prêmio nacional por sua obra poética.— Ele era meu pai. o poeta resolveu ir embora da Inglaterra. Agora. porém. — Não teria chegado a esse ponto se Jacques não a tratasse tão mal e não entrasse no Clube Oásis com . Como isso não aconteceu. Pelo menos. Para desgosto dela. — Parece que você não condena Paulette por ter assassinado o marido — dizia Roger. fulminado por um ataque cardíaco.. da morte. Cavenaugh. não estava gostando do programa de Roger Faversham. Só que o tal Mark Cavenaugh devia ter sido bem conhecido. não se interessava por poesia. Subitamente interessada. Pelo que Roger Faversham estava dizendo. querendo levantar-se para mudar de canal. Falava de uma mina de carvão. Susan não havia escutado o nome na hora da apresentação da escritora. — Você tem de admitir que ela tivesse muitas razões para isso — contrapôs a escritora.. Antes da morte do pai. era o que estava admitindo a própria filha. personagem principal do romance da Srta.

O que a interessava mesmo era o nome. Paulette. Como as heroínas dos melodramas antigos. Você realmente conseguiu manter o suspense até o final. Cavenaugh.. Apertando Marmalade tão fortemente que o bicho chegou a protestar. — Esse homem que se envolveu no crime. mais aquele. digamos assim. Além disso.. — Nossa! Eu quase contei o final da história. Susan tentou se convencer de que a maior parte do que aqueles dois estavam falando era apenas coincidência.. Muitos "amigos" homens. alguém a induziu ao crime. aprovando.. mesmo estando certa de que seria condenada à morte.. — Como você deve se lembrar de que o tempo todo Paulette recusou-se a revelar o nome do cúmplice. porque não vou dar nenhuma pista. A escritora parecia satisfeita. Minha intenção foi fazer com que só nas ultimas páginas o leitor descobrisse que. Era isso. não consegui descobrir qual daqueles homens havia ajudado Paulette a realizar o crime. e a referência ao clube. — Pode ficar tranquila Srta. Procurei reforçar esse aspecto para não antecipar o final. .. — Na verdade Srta. A Vítima dá a impressão de ser um livro de não ficção — comentou Roger. — Nessa altura ela fez uma pausa e riu. Paulette tinha muitos. ela merece mais pena do que condenação. E todos eles procuravam convencê-la de que deveria livrar-se de Jacques....toda aquela raiva.. o Oásis. A Vítima! Agora. Cavenaugh. Por mais que eu tentasse. Roger meneou a cabeça.

Você quis dar a entender que ela estava envolvida com o crime? A escritora balançou a cabeça..— Quase todos os críticos americanos dizem a mesma coisa — reconheceu Andréa Cavenaugh. — No entanto. Talvez fosse por causa dos muitos relatos que ouvi do meu pai. minhas lembranças da Inglaterra eram muito vagas. — Eu senti a história muito fortemente — revelou a escritora. — É bom ouvir isso. de 1944 a 1948. é anterior ao meu nascimento. Para falar a verdade. o período de que trata o livro. mas sua culpa restringe-se a isso. li um bocado sobre a época. por sinal. Thérése. Thérése era responsável por parte das pressões sobre Paulette. já que havia partido daqui há mais de vinte anos. — A irmã de Jacques. fazendo com que a escritora sorrisse. você perguntou se eu fiz pesquisa. — E muito forte. é verdade. — A reconstituição me pareceu absolutamente autêntica — elogiou Roger. na parte em que Paulette chega a Londres pela primeira vez. fruto exclusivo da minha imaginação. — De forma nenhuma. era como se também eu estivesse buscando refugio em meio aos ataques aéreos. Além disso. Por exemplo. Quarta coincidência. Roger Faversham parecia realmente interessado. eu parecia estar vendo a Londres daquele tempo. Seja como for. Boquiaberta. Naturalmente. — Tão logo comecei a escrever.. Mesmo assim. Susan ficou olhando para a pequena tela do . a moralista Thérése. trata-se de pura ficção. o texto foi saindo quase que por si.

No andar de cima. pertencia a famílias que viviam em Mayfair desde o século XVII. Susan sabia exatamente onde encontrar o que estava querendo. Amigas da mulher de Neville. Paulette. em Mayfair. A Vítima. registrou na mente que a americana estava hospedada no Hotel Royal Camelot. Clair Forbes. ela se pôs de pé num salto. o Hyde Park e a Rua Regente e Oxford. o Clube Thérése. dirigiu-se ao quarto ao lado do seu.aparelho da televisão. havia muitos anos. Naquela mesma tarde. Mesmo assim. quase sem ouvir as poucas observações que se seguiram. Pode-se dizer que representa tudo o que há de belo e elegante. galgando os degraus de dois em dois. praticamente despejando Marmalade no chão. Mesmo no meio daquela confusão. tendo como limites o Piccadilly.. o que não fazia há muito tempo. Não. Abriu uma caixa de papelão e tirou de lá um maço de folhas datilografadas. Sem pensar bem no que estava fazendo. ela não havia se enganado. Sem dar atenção ao grito do animal. Lillian St. E o nome do marido era Jacques.. desligou a televisão e subiu rapidamente a escada. com a respiração contida. mantido no mesmo estado. um refúgio para quem queria escapar do alvoroço do centro da cidade e de Westminster. . que passou a examinar. Era o quarto da irmã dela. num dos velhos táxis de Londres. Mayfair fica no extremo oeste da cidade. o advogado Neville George Forbes voltava para casa. quando o lugar era uma calma região campestre.

A família Forbes. e a luxuosa mansão que eles tinham em Londres. membro do Conselho do Reino e do Parlamento. procuraria . Clair. Reginald St.Quanto a Neville. A família de Lillian ao contrário sempre demonstrou nesse aspecto uma irretocável sensatez. no distrito de Belgravia. além do que Lillian parecia uma jovem tão interessante. Podia-se dizer que eram endereços tão distintos quanto Mayfair. Clair. embora corresse nas veias de seus membros um sangue impecavelmente azul. por causa do não pagamento de impostos atrasados. nas imediações de Oxford. Neville. perto do Palácio de Buckingham. havia crescido entre a propriedade rural da família. Afirmava amar Neville. Havia perdido o único amor que tivera na vida e não acreditava que voltasse a se apaixonar. pouco tempo depois de ter iniciado sua carreira no Fórum como assistente do pai da noiva. No entanto. multiplicando várias vezes sua já considerável fortuna. Neville havia se casado com ela trinta e quatro anos antes. isso era verdade. A mansão em Londres acabou sendo confiscada. Pelo menos no aspecto financeiro. sempre procuraram deixar mais ou menos claro que ele havia se casado com uma mulher de uma casta superior à sua. não poderia dizer com sinceridade que a amava.. e mesmo a propriedade rural correu perigo de seguir o mesmo caminho. seria extremamente vantajosa uma associação com ele. mas mesmo assim os St. o que só contribuía para a ruína de suas finanças.. enquanto ele gostava dela o suficiente para que os dois convivessem em boa harmonia. Pela posição que Reginald ocupava. sempre tivera a fama de ser composta por irresponsáveis esbanjadores. é claro. como tinha prometido a si próprio e sir Reginald.

Lillian via televisão na sala de estar. — Boa tarde querida — saudou Neville polidamente. ser um bom marido para Lillian. Quando ele entrou em casa.de todas as formas.. em saudar a chegada do marido quando ele entrou na sala de estar. Naquele momento. mostrando os dentes grandes. Lillian voltou para ele seu rosto de aspecto equino e sorriu. Aos cinquenta e seis anos. ela fazia questão de não perder uma só palavra. Para falar a verdade. Lillian ainda não havia se preocupado. para poder demonstrar erudição perante outras matronas nas reuniões semanais do clube literário. um a menos que o marido. Não fosse o fato de que há muito Lillian não demonstrava interesse por aquelas partes. desde que eles haviam se casado o interesse dela nesse aspecto mal passava de uma simples curiosidade. Aquele monograma estava em praticamente tudo naquela casa. Neville não se surpreenderia se um dia. o que sempre fazia quando não estava jogando bridge ou uíste. fazia anotações num elegante caderno de notas com monograma dela gravado na capa de couro.. Isso. ela dava a impressão de ser bem mais idosa. aproveitando um momento em que Roger Faversham foi substituído na telinha pelos comerciais. Teve um bom dia querido? — Neville . olhasse para baixo e o visse gravado em suas partes mais íntimas. Além disso. Sempre que Roger Faversham entrevistava algum escritor. no entanto não o surpreendeu. lia muito e se dedicava a obras de caridade. Apesar dos cabelos grisalhos de Neville. — Você chegou cedo. não raro as pessoas pensavam que Lillian era mãe dele.

— Estou inclinado a acreditar que o livro fará sucesso na Inglaterra — dizia Roger à autora do livro em discussão. Durante os anos da guerra. Neville preparou os drinques. — Que coisa aborrecida querido. sempre o atingia nos nervos. e num curto período que se seguiu. até que Trevor anunciasse o jantar. — Os ingleses certamente gostarão do capítulo que trata do último ano da guerra. Paradoxalmente. A voz aguda de Lillian. um espírito de solidariedade entre as pessoas que nunca mais se repetiu. Finalmente com o copo na mão. — Neville suspirou. — Quer um gim com tônica? — Ele ofereceu caminhando para o bar no canto da sala. Com aquele comentário. — Foi simplesmente irritante. — Passei o dia inteiro no Fórum — ele relatou. no instante em que Faversham voltou ao ar. havia uma espécie de camaradagem. aquele foi o nosso melhor momento.encolheu-se. parou e voltou os olhos para a televisão. poderia refugiar-se no escritório para fazer tranquilamente as palavras cruzadas do Times. sem nenhuma razão aparente. um com pouco gim para Lillian e outro com pouca soda para ele. o apresentador . Não adiantava nada pintar os cabelos se diante das câmaras. Já ia se retirando para o escritório quando. apesar de bem colocada. o velhaco do Faversham estava traindo sua idade. contente por ter chegado o fim daquela troca obrigatória de gentilezas. — Silêncio! — Comandou Lillian. uma jovem até que bonita. Neville bebericou o gim e sorriu.

Neville concluiu que a escritora era realmente bonita. Paulette. Por alguns instantes. se quiserem saber exatamente o que aconteceu naquele dia a Paulette. mas vestia-se muito bem e tinha um ar inteligente. enquanto Roger Faversham apertava a mão de sua esbelta convidada. naquele mesmo dia. Era magra. No rosto sério. — Então. — Tenho de vender livros. Neville ficou parado à porta. não é? — Perguntou sorrindo para a entrevistada. o Oásis. tentando controlar o coração em disparada. porque já devia ter de trinta para quarenta anos. Não era possível! Agora..tagarelava daquele jeito sobre coisas antigas. no Clube Oásis. Afinal de contas. A Vítima! Paulette? Clube Oásis? Neville quase engasgou com o gole de gim. — Nesse caso. posso concluir que você não vai mesmo falar sobre o final do livro. ressaltavam os olhos castanhos. tão pouco comum nas moças daquela geração. nossos telespectadores terão de comprar A Vítima. Roger falava rapidamente sobre uma noite de autógrafos que se realizaria na livraria Foyles em Charing Cross. Neville admirou a honestidade daquela resposta. Lillian então fechou o zíper da capa de couro do seu livro de . Não tão jovem como parecia à primeira vista. Quarenta e um anos! Observando melhor. Outra característica marcante era a postura ereta. mas enquanto isso as palavras martelavam nos ouvidos dele: A Vítima. já haviam se passado quarenta e um anos desde o final da guerra. — Mas é justamente por isso que estou aqui — contrapôs a escritora também sorrindo..

que algum parlamentar o havia convidado para uma conversinha na Câmara dos Lordes.. — Irei ao alfaiate. no tom mais suave que conseguiu. pensando numa desculpa quando viu voltar para ele o rosto inquiridor. Tratavam-se por "querido" e "querida". Neville continuou afável. mesmo no meio de uma briga. — Você não mandou fazer dois ternos poucas semanas atrás? Bem que ele podia ter dito que tinha uma reunião com um cliente.. eu poderia ter feito outros planos. Devia ter me avisado.. ou melhor. Lillian continuava olhando fixamente para ele.. Bem. acho que depois vou jantar no Clube — ele disse. ela deixava de jantar com ele para comparecer a alguma reunião de caridade. Só que não raro. para tratar de um caso que estaria próximo do julgamento. Lillian não teria o que questionar. Gieves & Hawkes. — Mas Marjorie já preparou o jantar querido. A voz agora havia súbito uma oitava. — Desculpe querida.anotações.. como se o protesto fosse plenamente justificado. naquele tom insuportável e com um brilho de suspeita nos olhos verdes. — Lillian eu vou precisar sair — disse Neville num impulso. Pelo menos.. Mesmo ressentido com aquilo. Às vezes ele achava insuportável a boa educação dos casais ingleses. e sem qualquer aviso prévio. . — Sei qual é o seu alfaiate Neville — declarou Lillian. — É. Oh!. deixando claro que o programa havia terminado. Se você tivesse me dito que não ficaria em casa... ainda.

sim. Charles Havilland. Ao deixar o estúdio. o homem parecia realmente preocupado com ela. pensou até que seria atacada.. no corredor. Dr. Por que pensou isso? — Há vibrações em torno de você. ela não prestara atenção no nome... Srta.— Estou reparando querido. Roger Faversham os havia apresentado antes do início do programa. procurando ser . girou nos calcanhares e saiu sem dar resposta. Pelas feições. Você me parece esquisito.. ela parou espantada. — Ah. Andréa ficou olhando para ele. — Mas. Sua aura parece estremecida. Vi a sua entrevista pelo monitor e resolvi esperar. ele era uma espécie de cientista louco. além de psiquiatra. pois não. — Por favor. sem saber direito o que dizer. Quando ele simplesmente bloqueou a passagem. Por quê? — Achei que você poderia querer ter alguém com quem conversar.. Andréa foi abordada pelo homem franzino e de cabelos grisalhos que fora entrevistado antes dela. mas nervosa como estava.. Cavenaugh eu quero apenas conversar com você — disse o homem falando depressa.. — Ah. — Havilland.. — Não acredito nessas coisas — ela declarou. Por um momento. Só então Andréa se lembrou de que. Aconteceu algo de errado? Neville apenas balançou a cabeça.

— Além disso. Havilland — ela disse.. Mas por favor. Havilland saber alguma coisa sobre Daphne Murdoch? É claro que não. Preciso comparecer a uma sessão de autógrafos na Livraria Foyles e antes. tenho um compromisso. Seria possível o Dr. Insistente o Dr. Havilland examinou-a com os olhos esmaecidos. — Minha cara Srta. ou o homem estava realmente preocupado? — Por que não vamos tomar um chá em algum lugar? — Ele sugeriu.mais cortês ao ver que o homem se encolhia.. Aquelas palavras trouxeram à mente de Andréa a imagem da bela jovem que sorria para ela no espelho.. Seria por causa da idade já avançada. — Acredito que posso ajudá-la.. se o senhor me der licença. eu não quis dizer que existe algo de errado. — Isto é. segurando-a pelo braço. Charles Havilland a deteve. — Eu não estou interessada em explorar nada — cortou Andréa olhando ostensivamente para o relógio de pulso. mas estou preocupado com você. Impressão de que você está sendo fisicamente afetada por alguma coisa que é incapaz de entender ou controlar. Portanto.. Cavenaugh. Se pudéssemos explorar juntos. Não existe nada de errado comigo. — Estou vendo que resolveu se mostrar uma cética. acredite que estou querendo apenas . Tive uma forte.. Andréa sentiu que os dedos dele tremiam.. Cavenaugh. — O senhor está enganado Dr. Srta.. tentando seguir adiante e querendo convencer tanto a ele quanto a si própria. quero passar no hotel para tomar banho e trocar de roupa.

apresentando um exemplar do livro dele. Procure lê-lo com a mente aberta. — Pelo menos. finalmente soltando o braço dela. Ele costumava dizer que a pessoas sempre procuravam um significado para a própria vida. Acho que ele está tentando lhe dizer alguma coisa. Depois da morte. Andréa sentiu vontade de bater nele. aceite isto — insistiu Havilland. Havilland olhou-a com um ar de tristeza. Para satisfazê-lo. Eu admirava muito o trabalho do seu pai. Acredite que estarei pronto a. — O seu pai. mas que na verdade não existe um objetivo para a existência humana. — Preciso ir embora — ela decidiu. Cavenaugh. espancar aquele velhinho de aspecto bondoso e inofensivo. — Se tiver alguma dúvida. — Meu cartão está aí dentro — informou Havilland insistente. e vive as consequências disso até a morte. — Desculpe se a ofendi Srta.ajudar. Andréa caminhou rapidamente pelo corredor. Havilland... Andréa balançou a cabeça e ele suspirou... Andréa deu um passo atrás — Meu pai não tinha paciência para aturar esse tipo de coias Dr. preveni-la. Andréa pegou o livro antes de virar as costas. .. não existe mais nada. Ignorando-o.. pode me telefonar. O ser humano está só. Era nisso que o meu pai acreditava e é nisso que eu acredito — Mas agora ele sabe.. mas pelo menos fique com o meu livro.. faz o que quer de si próprio.

Quando o táxi virou numa esquina. Cedendo a um capricho. decidida a livrar-se daquele livro tão logo chegasse ao hotel. que a levasse ao rio Tâmisa. Minutos mais tarde. ela olhou para o livro que trazia sobre as pernas e leu o título: Outras Terras. Bem que gostaria de poder ter dito a ele que estava com os nervos à flor da pele. mas sem prestar atenção em nada. Imediatamente Andréa virou o rosto. andar pela mão "errada" não a perturbava tanto quanto ela havia esperado. com muitos carros particulares. Na última capa. em que quase não dormira. como pela tensão provocada pela entrevista na televisão. um negro de forte sotaque londrino. . se estava morto? Ela própria presenciara a morte dele! Mark Cavenaugh havia partido para sempre. sentada no banco traseiro de um táxi. Andréa olhava nervosamente para os lados. táxis. Ao contrário do resto do mundo. ônibus vermelhos de dois andares. Andréa virou o volume. motocicletas e muita gente. tanto por causa da longa viagem. Andréa inclinou-se para frente e pediu ao motorista. na Inglaterra os veículos circulam pelo lado esquerdo da rua. alvoroço e barulho. No entanto. talvez porque estivesse com a mente em outro lugar. O tráfego estava pesado. furgões. Como o pai dela podia estar querendo lhe mandar alguma mensagem. Agora o táxi seguia pela Rua Regente. Aquele homem só podia ser doido. os olhos pálidos do velho médico fitavam-na. Era um local cheio de energia. Não devia ter sido tão rude com aquele velhinho.fazendo barulho com o salto dos sapatos no piso encerado. Outras Gentes.

Minutos mais tarde ele parou o carro em frente ao Parlamento. Em seguida. Um jovem e sorridente membro da . Andréa tentou sorrir. doçura? — Enquanto se esforçava para fazer a conta da corrida na moeda inglesa. À direita. — Fica um bocado longe do seu destino — ele ponderou. Naquele momento. O motorista deu de ombros. — Vai dar uma olhada nos pontos turísticos. mas a brisa de abril soprava cálida enquanto ela descia os degraus do Aterro Victoria. senhorita? — Quis saber o homem. — Como queira senhorita. O sol seguia seu caminho descendente num céu ao mesmo tempo claro e pálido. Só que não era bem aqueles prédios governamentais em estilo neogótico o que ela queria olhar. Havilland. Havia muitos barcos turísticos ancorados no píer. para Hampton Court ou Richmond. com um sorriso largo que mostrava os dentes muito brancos. Letreiros anunciavam excursões para Greenwich ou para a Torre de Londres. o caudaloso rio seguia rapidamente seu caminho em direção ao Mar do Norte. Também não estava muito interessada em contemplar a torre do Big Ben ou a famosa Abadia de Westminster.— Que altura do rio. esticou o braço e abriu a porta traseira. um grupo de turistas japoneses tomava lugar num dos barcos. ainda segurando o livro do Dr. — Não tem importância. — É mais ou menos. Andréa disse o primeiro lugar que lhe ocorreu: — A Ponte Westminster. Queria apenas caminhar ao longo do rio.

Seria aquilo um dos distúrbios físicos a que se referida o Dr. Quase sentia a presença do pai caminhando ao lado dela. aquele ar de quem não dava importância ao que estava em volta. pensar nele como uma coisa nova. para passear naquele mesmo local. agora. pensou Andréa. enquanto se dirigia para a estreita e graciosa Ponte Waterloo. Ela sorriu.tripulação convidou Andréa a juntar-se a eles. primeiro . Sentia-se quase compelida a continuar olhando. Novo? Andréa lembrava-se de ter lido alguma coisa sobre ele. quando menina. Mark tinha o costume de caminhar movendo os lábios silenciosamente. provavelmente Mark a havia levado. Que coisa estranha. numa espécie de fascinação. Sentando-se na mureta. Andréa estava quase na Ponte Blackfriars quando parou para avaliar o quanto já havia andado. Era estranho. os ombros largos. O imponente prédio em estilo renascentista no outro lado do rio devia ser a Prefeitura. Havilland? Ela parecia estar enlouquecendo aos poucos. balançou a cabeça e seguiu adiante. Bem. durante as pesquisas para o livro. a mente brilhante organizando em palavras as efervescentes imagens que lhe acorriam. O prédio devia ter um pouco mais que a idade dela.. a cabeça abaixada. ficou contemplando as águas do rio.. Tudo ali parecia muito familiar. Naquele lado ela passaria por jardins repletos de flores coloridas. aproveitando a brisa fresca e deliciando-se com os sons emitidos pelas gaivotas. como se procurasse por algo que sabia estar submerso ali. O novo Royal Festival Hall ficava no outro lado. Andréa seguiu na rapidez que permitiam os sapatos de salto alto.

mais parecia uma enorme . Giles Cirvus era o local de Londres onde mais se encontravam livrarias e sebos. A Foyles. Imediatamente. naquele rio. Precisava ir para bem longe daquele rio. pelo contrário. correu para a rua e acenou para um táxi que passava. era como se estivesse dominada por um sentimento de perda. Havia perdido alguma coisa que agora se encontrava no rio.com aquela declaração idiota. Seria possível que agora. Ao mesmo tempo. a mais conhecida delas. entre Trafalgar Square e St. CAPÍTULO III A Charing Cross Road. algo mais ameaçador? Aterrorizada. Não poderia continuar vivendo sem encontrá-la. uma imagem que absolutamente não podia estar lá. porque aquelas águas pareciam escuras e frias. Andréa afastou-se da mureta. sob-hipnose de que tinha outra identidade. depois ao ver no espelho do banheiro. Estaria apenas revivendo alguma lembrança da infância ou aquilo era de fato. Até. o rio a estivesse induzindo à autodestruição? Ainda bem que não sentia nenhum desejo consciente de se jogar.

Era uma fantasia como outra qualquer. porém.. o café quentinho e uma poltrona confortável esperando por ela.. tinham aquela coloração que apesar do grisalho. Ela própria já havia escutado de amigas confissões de sonhos assim. Em vez disso. Durante anos Andréa havia fantasiado um encontro com um homem que se tornaria importante para ela. estava tão apavorada quanto excitada. praticamente todos os livros publicados podiam ser encontrados lá. Os cabelos finos. o homem olhava para ela com interesse. de feições fortes e nobres. Andréa procurou dar atenção à jovem bonitinha de pé no outro . reparou que por trás da jovem estava um homem alto e de cabelos grisalhos. provavelmente já passado dos cinquenta. ou "Um dia. coisas como: "Um dia meu Príncipe Encantado virá me buscar". Andréa autografava um livro para uma adolescente ruiva e espevitada quando sentiu um calafrio. Depois num movimento brusco. o homem girou o corpo e passou a examinar os livros. faz os homens parecerem eternamente jovens. Por outro lado. Andréa sempre havia pensado que se um dia realmente encontrasse esse homem sonhado... penteados por cima das orelhas. De pé ao lado da pilha de livros que esperavam para serem autografados. eles ficaram se olhando fixamente.criação de coelhos em que é impossível achar um livro sem a ajuda de um funcionário. Era um homem de aspecto distinto. numa sala cheia de gente”. Durante alguns instantes. seria como voltar para casa depois de uma longa e cansativa viagem e encontrar a lareira acesa. vestindo um terno bem cortado e certamente muito caro. Erguendo a cabeça.

falavam pelos cotovelos. não tinham o menor constrangimento em pegar o livro para folhear bem na frente dela. De fato. . — Estou curioso sobre o seu passado. Nos Estados Unidos. esperando pacientemente que ela o autografasse. Embaraçada. Ou simplesmente depositavam o livro de volta na pilha e iam embora ou o apresentavam com um sorriso amável. Quando resolviam comprar. Andréa olhou dentro aqueles olhos cinzentos e sentiu um estremecimento. Quase sempre eles ficavam a distância olhando disfarçadamente. ao contrário. — Vi você no programa de Roger Faversham — disse a moça. Os leitores ingleses. Andréa já devia ter autografado pelo menos uma dúzia de livros quando o distinto desconhecido pôs um exemplar de A Vítima na frente dela. Depois com a mesma paciência. Raramente tinham alguma coisa a dizer.lado da mesa. Nove entre dez confessavam que tinham a intenção de escrever um livro se arranjassem tempo para isso. Obviamente. a reverência na voz dela se destinava muito mais ao guru literário da televisão do que a Andréa. de frente para ela. Cavenaugh — declarou o homem. as vendas pareciam estar indo bem. preferindo examinar o livro longe da presença do autor. entravam na fila da caixa registradora. Andréa já havia constatado uma diferença entre os leitores ingleses e os americanos. eles normalmente se mostravam embaraçados quando notavam a presença de um escritor. Naquela noite. surpreendendo-a. porém. Srta. Era a primeira cliente da loja a se dirigir a ela. abaixou a cabeça e escreveu o próprio nome na página de rosto do livro.

reconhecendo. Fora os trabalhos da escola.. — Como assim? — Nasci em Londres e vivi aqui até os cinco anos. divertida. — Meu passado? O homem apanhou o livro autografado e examinou o texto da contracapa. Mas por que tinha de ficar tão nervosa? — Norte da Inglaterra. que transparecia uma inteligência aristocrática. da Califórnia. que contrastavam ostensivamente com os cabelos grisalhos. . Depois. frequentei a escola primária no norte da Inglaterra. — Repetiu o homem. Andréa depositou a caneta sobre a mesa e ajeitou os cabelos por trás das orelhas. franzindo uma das sobrancelhas muito negras. me formei em Artes pela Faculdade Mills.... naturalmente. — Nesse caso. Este é o seu primeiro livro? — É sim. adequava-se perfeitamente à imagem de nobreza do conjunto. Fiz o curso secundário nos Estados Unidos e em 1973. — Fez seus estudos nos Estados Unidos? — A maior parte deles. — Espero que não me ache impertinente — ele acrescentou. — Estou me referindo ao seu passado literário.Ele tinha exatamente o distinto sotaque britânico que ela havia imaginado. que estava procurando parecer mais bonita. O rosto. Quem escutasse aquela conversa certamente pensaria que ela estava sendo entrevistada para ser admitida em algum emprego. É a primeira coisa que escrevo.

— Radical? — Ajudou Andréa. Que motivo ele teria para ficar nervoso? — A senhorita está livre esta noite? — Perguntou o desconhecido. ela reparou num tremor quase imperceptível no canto da boca do homem. Ah.você deve ter algum parentesco com Mark Cavenaugh. de forma inesperada. Eu me chamo Neville Forbes e sou um causídico. — É. Poderemos conversar sobre a obra do seu pai. — O senhor por acaso é repórter? Ele não parecia um simples repórter.. — Infelizmente. Surpresa. — Ele era meu pai — revelou Andréa rindo nervosamente. Andréa não deu uma resposta direta. mas logo sorriu. apesar de um tanto. liguei a televisão muito tarde e não vi essa parte.. Por favor. parece que andei fazendo perguntas demais — ele falou em tom de desculpa. Sabe o que é isso? . foi um poeta brilhante. Mas é natural que tenha pensado isso. certamente não sou um repórter. Sem dúvida. perdoe essas minhas maneiras abomináveis. porque nem cheguei a me apresentar. mas podia muito bem exercer uma função mais elevada no Times ou na BBC. — Ficarei muito honrado se aceitar um convite meu para jantar. A princípio o homem se surpreendeu com aquela pergunta.. aquelas metáforas maravilhosas. — O senhor não me viu no "Encontro com o Autor" de hoje? Roger Faversham me fez essa mesma pergunta. — Não. Mas conheço bem a obra de Cavenaugh..

os advogados neste país se dividem em dois grupos. prefiro me considerar uma espécie de freelancer dos meios forenses. Mesmo assim. tenho de ficar. — Você fez muito direitinho a sua lição de casa. aprendi algumas coisas sobre a organização da Justiça inglesa — ela se vangloriou. No entanto. Para isso. Neville sorriu como se considerasse que ela havia passado em algum tipo de teste. há atribuições exclusivas de cada função. é preciso recorrer a um causídico. Andréa podia imaginá-lo no tribunal. Posso afirmar que é uma ocupação bastante penosa. chamados para dar parecer em processos ou redigir minutas de contratos. Neville Forbes dava a impressão de ser sempre cortês. enquanto os procuradores concentram seu trabalho nos escritórios de advocacia.. No entanto. Andréa riu com gosto. enquanto os causídicos são com frequência. e não sentia vontade nenhuma de ser a parte contrária. defendendo uma causa. Por exemplo. os procuradores não têm autorização para defender causas nas estâncias superiores. Agora estava explicada aquela presença dominadora.. . aquela postura de quem está acostumado ser o centro das atenções. Obrigando-me a querer trabalhar. os causídicos atuam nos tribunais. — Pelo que entendi. mas perfeitamente capaz de fazer o adversário em pedacinhos. Surpreendida por aquela mudança de humor. De uma maneira geral. mas isso é muito bom! — Aplaudiu Neville. já que os procuradores podem perfeitamente representar seus clientes nas cortes de Justiça.Um causídico. — Ora. isso não é muito rígido. — Nas pesquisas que fiz antes de escrever a Vítima. Como só trabalho quando quero.

Além disso. não é mandar as pessoas para a cadeia. Isso foi apenas um pretexto. quase imperceptível. o senhor usa aquela peruca branca e a beca? — Perguntou Andréa curiosa. mas eu sou francamente favorável a que se mantenha a tradição. Há quem defenda a abolição da peruca. Acho que a peruca confere certa dignidade à corte. inclusive o desconfortável colarinho engomado e a faixa branca. não tinha nenhum . Disfarçadamente. — Mas o que diz do meu convite para jantar? — Voltou à carga Neville. Quero mesmo é conversar sobre você. sempre em nome de Sua Majestade. é o passo mais seguro para um bom julgamento. uso tudo. Meu interesse. — Andréa riu novamente. — Sim. — Mesmo quando são culpadas? — Minha cara senhorita. não estou interessado em conversar sobre a obra do seu pai.— No tribunal. porém. Pensando bem. fazendo com que elas digam a verdade. meus clientes nunca são culpados. — O senhor costuma atuar na defesa ou na acusação? — Meus amigos dizem que um pouco de rigor. Andréa olhou na mão esquerda dele procurando por uma aliança. que não viu. serve também para inspirar medo no coração das testemunhas. A honestidade daquela declaração desarmaria qualquer um. Para ser franco. eu acho até que fico muito vistoso com aquela peruca branca. fazendo uma confissão: — Na verdade. — Ele disse aquilo com um sorriso bem comportado. Prefiro deixá-las do lado de fora. Cavenaugh. Srta. argumentando que com ela ficamos ridículos. naturalmente.

sou dona de uma loja de produtos naturais em San Francisco e por isso. — Devo adverti-lo de que só como comida de boa qualidade — advertiu Andréa uma hora e meia. como a carne vermelha. Tarefa. essas coisas.. meu Deus! Acho melhor começar tudo de novo. faço restrições a certos tipos de comida. Neville olhou para ela com ar de espanto.. eu sinto muito! — Desculpou-se Andréa tentando consertar: — Acho que não me expressei como devia. — Desde que o senhor não se incomode de esperar até que chegue ao fim esta minha. mas isso não quer dizer que sou .. porque como aves e peixe.. evito tudo que contém farinha de trigo refinada e açúcar.compromisso para aquela noite e não estava muito disposta a jantar sozinha no enorme restaurante do Hotel Royal Camelot. No geral. — Posso morar na Califórnia. não querendo se dar tempo para mudar de ideia.. O que eu quis dizer é que não como qualquer porcaria. — E eu que pensava que todos os americanos fossem viciados em hambúrgueres — brincou Neville. dispondo-se a circular pela livraria até que terminasse a noite de autógrafos. — Fique à vontade — disse Neville com simpatia. — Você é vegetariana? — Não exatamente.. Ai. mais tarde. — Como assim? — Oh. ioga. — Imagino que você pratique ginástica. — Está bem — ela se apressou em concordar. além de frituras e comidas gordurosas. Bem. enquanto ele a ajudava a entrar no táxi. não é? Seu corpo é o seu templo. Andréa balançou a cabeça.

aquele homem a atraía enormemente. — Amigo. — Neville sorriu e dispôs-se a explicar: — Estamos falando do Cranks. Andréa olhou alternadamente para um e outro. eles são famosos por servir o melhor chá de dente-de-leão da cidade. — Além disso.uma criança grande — ela declarou mordaz. como você acha que esta linda jovem se sentiria no Cranks? — Aquilo lá não faz meu gosto chefão. Apesar da diferença de idade. Pelo contrário. deve ser perfeito — aprovou Andréa rindo. — Eu.. um restaurante do bairro do Soho. Andréa não se aborreceu com a brincadeira. mas era só o que faltava! Andréa Cavenaugh sentir-se . Não estou entendendo. Enquanto o táxi atravessava o tráfego pesado do centro de Londres. — Então. — Imagino que você ficará contente em saber que o pão do Cranks é feito com trigo integral — ele disse num tom grave. Neville recostou-se no banco... Deve ser o oposto de saladas e sopas "sintéticas". estava contente por ter uma companhia agradável naquela noite cálida de primavera. Eles servem saladas e sopas "naturais". Ora. O proprietário define Cranks como "um lugar para quem tem coragem de abraçar uma linha de pensamento oposta à filosofia ortodoxa". Uma vez fui comer lá com um cliente jovem. Neville deu uma risadinha e olhou para o motorista do táxi.. mas ouvi dizer que também não é tão ruim assim — respondeu o homem.

suspirando em seguida. Rindo nervosamente.atraída por um homem mais velho que ela equivalia a uma verdadeira revolução. Neville. — ele protestou. . Era a primeira vez que ele demonstrava padecer de uma leve gagueira. olhando para o enorme prato de salada à sua frente.. Era também a primeira vez que ela o chamava pelo primeiro nome. não. Algum tempo mais tarde. Andréa se imaginou sendo tocada por aqueles dedos. — Desculpe. Andréa riu demoradamente daquela pergunta. ela achou que precisava dizer alguma coisa: — Está sugerindo que fico melhor à luz de velas do que à luz do sol. Em vez de responder. — Será que cheguei a lhe dizer que sou um carnívoro convicto? — Ele perguntou. o que a deixou mais relaxada. Neville esboçou um sorriso conformado.. Inexplicavelmente. Andréa se enterneceu. — Será que vou parecer um completo idiota se disser que você fica adorável à luz das velas? Foi um comentário tão pessoal e inesperado que Andréa prendeu a respiração.. Instantaneamente.. — Não. Neville estudou-a durante algum tempo. Neville pareceu gostar. — Eu quis dizer simplesmente que a luz das velas se reflete nos seus olhos e faz seus cabelos bri. Brilharem como o mel. não é isso? Neville juntou as mãos em frente ao queixo. Os dedos dele eram longos e bem feitos. — Você ri de um jeito muito alegre e bonito Andréa — ele declarou.

Entendi o que você quis dizer. deu informações sobre o negócio dos produtos naturais.— Nunca resisto à tentação de fazer piada com o que os outros dizem — explicou Andréa. Às vezes. — Devo reconhecer que minha família não merece uma admiração muito grande — disse Neville depois de uma dessas pausas. Andréa. uma comunicação que não precisava de palavras. não se dando nem mesmo ao trabalho de fazer a cobrança dos aluguéis dos imóveis que possuíam. Nesses momentos. Neville e Andréa ficavam alguns instantes em silêncio. Obrigada. À proporção que foi sendo superada a timidez iniciai entre eles. Neville divertiu-a contando histórias engraçadas sobre julgamentos nos tribunais ingleses e convidou-a a visitá-lo em seu escritório. Orgulhavam-se de não fazer absolutamente nada. a conversa se tornou mais fluente. quando estavam passando de um assunto para outro. — Era o que eu pretendia. sempre se consideraram numa posição acima dos outros mortais. é claro. que devia ter sido completamente diferente da dela. o pai de Neville mal se dava conta da existência dele. utilizavam os serviços . o que parecia realmente fasciná-lo. — Séculos atrás. cruzando os olhares. — É um mau hábito. meus ancestrais receberam terras da Coroa e por isso. Depois Neville falou da própria infância. Enquanto Mark Cavenaugh jamais se afastava da filha. parecia estar se estabelecendo outro tipo de comunicação entre ambos. Para isso. Neville aprovou com um meneio de cabeça. quando tivesse algum tempo livre. por sua vez. respondendo às perguntas dele. Foi um galanteio muito simpático.

mas mesmo assim eles são considerados um casal de muita distinção e sempre recebem convites para eventos sociais. Faço questão de que eles tenham o suficiente para gastar em lojas de roupas. cabeleireiros. de já tê-la ouvido antes. Só que isso não era possível. percebi que não estava obrigado a viver como os meus ancestrais. meu pai e minha mãe realizaram. Andréa tinha a estranha sensação de conhecer aquela história. mais o que vez por outra conseguem ganhar nas corridas de cavalos. Seguindo a tradição. alguma coisa que possa ser considerada trabalho. Lembro-me de que sentia um medo enorme de não conseguir ser tão bom quanto ele. Não precisava ser um inútil e podia muito bem . Quase sempre. apesar de que papai e mamãe nem sempre se preocupem em saldar essas contas. Neville sorria. Hoje em dia. sempre havia alguém batendo à porta da nossa mansão em Oxford para tentar arrancar alguns trocados do meu pai. sapatarias. sempre conseguindo prorrogações no crédito. depois de uma entrevista com o tesoureiro sobre o atraso no pagamento das minhas mensalidades. Cresci sentindo vergonha disso. era o cobrador que acabava emprestando mais algum. coisas assim. Preferem comprar a crédito. Com os olhos perdidos. Não é muito dinheiro.de agentes. Assim sendo. Quando eu era menino. repassando aquelas reminiscências. pelo menos intencionalmente. mas mesmo assim tinha certa admiração por essa habilidade de papai em manipular as pessoas. — Só quando já estava na faculdade. os dois vivem de uma mesada que lhes destino. não precisam se preocupar com o que vão comer no dia seguinte. o que normalmente conseguem.

abraçar uma carreira. ela ficou esperando a explicação. Depois de uma pausa. só que não é ele a vítima do título. como se eu houvesse vivido durante anos num desses horríveis labirintos que existem nos castelos ingleses e de repente. Na verdade. Apreensiva.. mas ela. o meu convite teve um motivo diferente do que declarei. encontrasse a saída. Bem. que é explorada por outras pessoas. é a história de uma francesa que mata o marido. Mas eu não quis escrever uma história de mistério típica. — Não sei se vou conseguir resumir tudo em duas ou três frases. Tenho uma confissão para lhe fazer Andréa. do interior. — Então é a história de um assassinato misterioso? — Em parte. — Utilizei mais de cento e cinquenta mil palavras para contar à história que está no livro — ela disse finalmente... — Não sei por que estou lhe contando tudo isso. Não sei nem descrever o que senti naquele momento. porque esperava algo mais pessoal. Andréa ficou surpresa e desapontada. como os livros de Agatha Christie. Alívio. — Sei — murmurou Neville parecendo inexplicavelmente mergulhado numa introspecção. Meu editor classificou o livro como romance psicológico.. um enorme alívio. . Foi uma espécie de. ele olhou para Andréa com uma expressão de culpa. sim. Trata-se de uma mulher simples. que veio em seguida: — Eu a trouxe aqui para poder lhe fazer perguntas sobre A Vítima.

— Então. — A Vítima.Neville olhou para o exemplar do livro que havia posto sobre a mesa. — Com os cotovelos na mesa.. o melhor que tomava desde que havia chegado a Londres. ao longo de vários anos depois da morte do meu pai.. mas comigo os personagens foram surgindo mesmo. não sei como me ocorreram os nomes que usei no romance. eu não . Os nomes pareciam vir junto com os personagens. um romance de Andréa Cavenaugh — ele leu em voz alta. Quanto a mim. — Pode ser que isso aconteça com outros escritores. ela apoiou o queixo nas mãos e olhou de frente para Neville. — Para falar a verdade. prontos. sempre me pergunto de onde os autores tiram os nomes de seus personagens. Foram se formando aos poucos. à proporção que eles iam surgindo na minha mente. Andréa deu de ombros. Não que eles tenham aparecido de uma hora para outra. é a vítima — explicou Andréa. — Paulette é a personagem principal do meu livro. não fiz nem uma coisa nem outra. comparada à intensidade do olhar. Paulette. é assim que os escritores concebem uma história? Os personagens vão surgindo. por exemplo. enquanto outros recorrem à lista telefônica. Alguns amigos meus escritores usam essas publicações com sugestões de nomes para bebês. ou de fatos relatados nos jornais. Eu pensava que os autores tiravam tudo da sua experiência de vida... — Para ser honesta. A voz dele parecia natural demais. — Apesar de não ser um leitor constante de ficção. Acho que você falou nesse nome durante a entrevista que deu à televisão esta tarde. bebericando o café descafeinado.

eu certamente lhe darei a minha opinião depois de ter lido o livro.. Surpresa mesmo foi o livro se tornar um bestseller. Compulsória.. Fui secretária do meu pai durante anos e pude presenciar a verdadeira agonia por que ele passava sempre que estava escrevendo um poema. Andréa sabia que aquele diálogo não tinha absolutamente nada a ver com o livro. — Bem. claro. porém. No instante seguinte.. — Gostaria muito de ouvir sua opinião Neville. Só espero que seja elogiosa. — É claro que será elogiosa. estava querendo parecer bonita. ela se sentiu cheia de energia e sorriu para ele. — No entanto. Andréa aprumou-se na cadeira e passou a mão pelos cabelos.. Nem sei como isso aconteceu. naturalmente. trata-se de ficção. O olhar que eles trocaram foi cheio de significação. como se ambos percebessem que com aquela declaração. Se é que você estará interessada em me ouvir. Talvez com certo exagero. Outra vez. algo sobre o que não ousavam falar às claras. às vezes me impedindo de dormir à noite. a história veio de uma forma quase. não é? — Sim. Neville deixava implícito que pretendia voltar a vê-la.. o crítico do New York Times disse que "A Vítima impressiona o leitor com sua integridade e fidelidade em relação à vida". Para mim. Eles se referiam a outra coisa. .queria realmente escrever esse livro. Escrevê-la foi uma espécie de catarse..

No entanto. minha mulher considera Faversham uma verdadeira graça de Deus. mas espero estar livre por volta das sete da noite. apenas alguns anos depois de mim. — Você vai gostar de Tomlinson. — Pelo que estou vendo. Cortesmente. Neville a conduzia pelo braço. Ele interrompeu a frase na metade no momento em que Andrea estancou no meio da calçada. desta vez é na BBC — aprovou Neville. Agora eles estavam saindo do restaurante. o apresentador se chama Anthony Tomlinson. não vou negar isso. O que acha de jantarmos juntos outra vez? — Acho que é uma boa ideia — respondeu Andréa calmamente. e imagino que você também terá um dia cheio. Só para você ter uma ideia. gostaria de lhe telefonar no fim da tarde. que riu ao ver a expressão que ele mostrou. Neville olhou para ela espantado aparentemente achando que havia cometido alguma gafe. — Roger Faversham outra vez? — Andréa riu. — Ah. A propósito. — Bem. uma inteligência bem superior a Faversham. além de outra entrevista na televisão. — Desculpe se a ofendi — ele pediu. — Tenho muito que fazer no Fórum amanhã. — Não. .— Talvez seja melhor eu levá-la ao seu hotel — disse Neville com clara relutância. Tomlinson estudou na mesma escola que eu. Roger Faversham não é o seu apresentador de televisão favorito — comentou Andréa. Acho até que muitas mulheres... — Terei de autografar livros em alguns lugares.

mas você tem toda razão. Até esperava que.. — Não sei se eu conseguiria dizer a mesma coisa com tanta clareza. Só achei que. Andréa soltou o braço da mão dele e voltou-se para olhá-lo de frente. mas sem o vigor de antes. Andréa estava detestando aquilo. eu não disse. — Mas é apenas um jantar... que chega a ser desconcertante — disse Neville respirando fundo. que havia muito mais coisas se passando pelas nossas cabeças do que um simples jantar... sejam eles felizes ou não no casamento. Não. mas nesse aspecto não abro exceções. Não saio com homens casados.. Andréa estava tão desapontada que não quis ouvir mais explicações. Mas ouça aqui Andréa: não tive a mínima intenção de esconder o fato de que sou casado.. — Nós dois sabemos Neville. Talvez os ingleses não tivessem o costume de usá-la. Quando já pensava em explicar por que levava tão a sério .. Eu a considero extremamente atraente. Mas você é realmente tão inflexível quanto está querendo dar a entender? — Pode acreditar.. — Eu sempre me esqueço da firmeza de princípios dos americanos.. Lillian e eu temos muito pouco a ver um com o outro e não me ocorreu que. Tinha sido uma estupidez supor que a ausência de uma aliança podia significar alguma coisa. O sorriso dele reapareceu. — Desculpe Neville.— Você é casado? — Será que eu não disse que.

Como poderia. Por isso. Não. O Royal Camelot era um hotel muito antigo. Andréa correu para a beira da calçada e acenou para um táxi que passava. Por outro lado.aquele seu princípio. Com a batida da porta do táxi o resto da frase se perdeu no ar. Mark Cavenaugh passara por uma completa metamorfose. No rosto de linhas aristocráticas havia uma expressão de espanto. que odiava todas as mulheres do mundo. mas não posso voltar a vê-lo. Um instante mais tarde. Andréa olhou pelo vidro traseiro e o viu de pé na calçada. antes que alguém saísse machucado. ele se transformou num homem amargo. — Gostei muito da sua companhia.. A partir daquele momento. Andréa Cavenaugh não seria capaz de provocar um sofrimento semelhante em outro ser humano. o melhor era interromper aquele relacionamento no ponto que estava. Apesar de luxuoso e notavelmente bem conservado. — Espere Andréa! — Ele gritou. Andréa se deu conta de que isso era impraticável. Antes que ele pudesse opor qualquer argumento. em pleno coração de Londres. contar a Neville Forbes que. aos cinco anos de idade. era de se supor que o banho de banheira tivesse propriedades terapêuticas. enquanto . ainda com o livro embaixo do braço. testemunhara a fuga da mãe com o entregador de leite. no meio daquela calçada cheia de gente. não admitir a instalação de chuveiros.. lembrou-se Andréa no fim da tarde do dia seguinte. — Sinto muito Neville — ela disse com firmeza. — Eu nem sei onde você está hospedada e não vou poder. Isso significava entre outras coisas. ele se orgulhava de manter a tradição nos mínimos detalhes. Antes um poeta brilhante e cheio de vigor intelectual.

Um dos guardas comentou. Felicity insistiu para que subissem todos os estreitos degraus de escada circular que levava à Galeria do Cochicho da Catedral de São Paulo. a uma distância de exatos trinta e dois metros. — A prefeitura está tentando controlar o crescimento da população de pombos da cidade — gracejou Felicity. tanto que nesse meio tempo. três pessoas passaram sem ser revistadas. a havia levado para um passeio. onde Andréa caminhou entre uma multidão de pombos. que ele estava querendo apenas paquerar. que o estojo de cosméticos de Andréa era muito grande. Felicity levou-a ao Ye Olde London Pub e pediu ovos com bacon e . Primeiro visitaram o Palácio de Buckingham. como precaução contra atos de terrorismo. Naquela manhã. era escutada com perfeição no lado oposto.esfregava as pernas na água com essência de pinho. evidentemente percebendo o quanto ela estava deprimida. Depois foram a Trafalgar Square. Ficou evidente. Qualquer palavra pronunciada num dos lados da galeria. Apesar disso. onde tiveram as bolsas revistadas pelos guardas. mesmo em voz baixa. — Até providenciou a colocação de pílulas anticoncepcionais nas marquises de todos os edifícios. Felicity Simon. Queria que Andréa conhecesse o fenômeno acústico que se verificava ali. que parecia incrivelmente sólido e suntuoso ao sol de primavera. a agente literária inglesa. em tom de gracejo. porém. Depois que elas tomaram uma revigorante xícara de chá. Quando elas não aguentavam mais andar pelos pontos turísticos. Dali elas foram à Torre de Londres. ainda não se constatou nenhum resultado positivo.

correu até a luxuosa sala da suíte e atendeu: — Alô? . Ainda estava deprimida por causa de Neville.batatas fritas. cobrindo um percurso de mais de dois quilômetros. Andréa saiu da banheira e passou a se esfregar com a toalha. Vestiu o roupão atoalhado branco. tinha ido sozinha para a segunda entrevista na televisão. Deliberadamente. No entanto. ela achou melhor não recusar o prato. Por outro lado. A entrevista e as duas sessões de autógrafos marcadas para aquela tarde terminaram por deixá-la completamente murcha. Sentindo que a água começava a esfriar. movendo as pernas como numa compulsão. as vendas iniciais de A Vítima iam de vento em popa. Bem. Portanto. Certamente aqueles itens não estavam na lista de alimentos saudáveis de Andréa. Andréa quase se assustou. cansada demais para protestar e faminta como estava. no caminho de volta ao hotel. Mais uma vez. Que explicação um analista daria para aquela verdadeira fobia por espelhos de banheiro? Quando o telefone tocou. E isso com sapatos de salto alto. Segundo Felicity. sentiu certa náusea. o melhor seria pensar em coisa positivas. aquela estada na Inglaterra não era um período inútil. ela estava realmente exausta. andara até a Ponte Blackfriars. Depois daquele lanche. Estava novamente a fim de caminhar ao longo do Tâmisa. evitava se olhar no espelho grande. Depois do almoço. mas não foi por causa da comida. Ela só não encontrava um motivo para ter mandado parar o táxi. já que Felicity tinha outro compromisso.

Numa das mãos. voltando a falar depois de alguns instantes: — Não senhorita. ele não parecia confiar muito na informação que estava passando. Susan Dailey. — Bem. — É a Sra. — É alguma repórter? — Ela quis saber. por favor — solicitou o homem. — Um momento. indicando uma cadeira à mulher. Cavenaugh — informou o homem da recepção. Srta. ou mesmo uma admiradora dela própria. em tom de pouca aprovação. mas procurou ser simpática. Pelo tom de voz.. O nome não significava nada para Andréa. — Se é o que deseja senhorita — disse o homem. Dailey. baixinha e rechonchuda. Talvez fosse uma admiradora dele. usando um vestido azul-marinho e um chapéu de feltro engraçado. Seria alguma velha amiga do pai de Andréa? Pelo que ela sabia Mark não tinha amigas mulheres. depois de alguma hesitação. Estritamente pessoal. — Imagino que a senhora esteja querendo um autógrafo — ela disse.. nenhuma que levasse em casa. Pelo menos. segundo diz. Andréa.— Está aqui uma pessoa que quer vê-la. A visitante era uma mulher de meia-idade. — Espero que desculpe o . O assunto dela é estritamente pessoal. Andréa suspirou de forma dissimulada. comprovando a fama de que o Royal Camelot sempre procurava desencorajar quem queria perturbar o sossego dos seus hóspedes. carregava um exemplar da edição inglesa de A Vítima. acho melhor fazê-la subir — decidiu Andréa.

porque nunca acreditei que estivesse realmente morta. — Foi sim. Um colaborador? Andréa balançou a cabeça. voltou a olhar no rosto de Andréa. — Você não teve um. Andréa apertou os olhos. Assinou a autoria. A mulherzinha sentou-se pesadamente numa das antigas cadeiras do hotel..meu traje. — Imaginei que você poderia me dizer onde ela estava. ergueu para Andréa os olhos muito azuis. se é isso o que está querendo dizer. — Não. baixou os olhos para o livro e. Com um ar de enorme tristeza. A mulher parecia agitada.. que escrevi sozinha cada uma das palavras que estão nesse livro. Se você me desse o .. Estou acabando de sair do banho e.. Segurava o livro contra o peito. De onde foi que a senhora tirou essa ideia? Durante algum tempo Susan Dailey pareceu não saber o que dizer. agitou a cabeça para pôr as ideias em ordem.. Andréa olhou para ela com um misto de espanto e frieza. Eu sou Andréa Cavenaugh. Dailey. porém. depois de alguns instantes. — Posso garantir Sra. Como é a palavra. — O que estou querendo saber é se você realmente escreveu o livro ou se apenas. — Foi você quem escreveu este livro? — Inquiriu a recémchegada. eu não assinei o trabalho de outra pessoa. — Mas ninguém a ajudou a escrevê-lo? — Ela insistiu.. A história me veio à cabeça sem a ajuda de ninguém... Depois. como se visse desfeita uma esperança. como se quisesse protegê-lo.

— Quando estava assistindo . a visitante passou a olhar em volta curiosa. Ela já estava ficando alarmada. porque sempre acreditei que ela voltaria. Dailey. eu escreveria e a convenceria a voltar para casa.endereço. dirigindose ao pequeno bar que o Royal Camelot mantinha nas suítes para uso dos hóspedes. se não for incômodo. Será que Londres estava cheia de gente que não tinha nada mais para fazer além de abordar escritores? Aquela Susan Dailey parecia mais uma atormentada e inofensiva mulher de meia idade que havia sofrido algum tipo de decepção. — A senhora aceita um drinque? — Ofereceu Andréa. Andréa examinou-a com interesse. com voz mais forte. Em outras circunstâncias. quando seria possível mandá-la embora de uma forma bem educada. que parecia a ponto de perder os sentidos. O licor teve um rápido efeito benéfico. O melhor era esperar até que ela se refizesse. — O que quer beber? — Um pouco de xerez. Mais senhora de si. — Susan parecia mais controlada. Havia lágrimas nos olhos da mulher. como se houvesse entrado pela primeira vez na suíte de um hotel de luxo. até que gostaria de conversar com aquela mulher de ar maternal. — Minha irmã mais velha escreveu um livro igual ao seu — disse a Sra. entende? — Mas de quem a senhora está falando? — Perguntou Andréa com os olhos arregalados. Só que Susan estava ali para acusá-la de ter assinado indevidamente o livro de outra pessoa. por favor. apesar da voz ainda trêmula. Mantive o quarto dela do jeitinho que ficou.

o título. fiz toda a pesquisa e a redação. esta manhã.. já quase perdendo a paciência. Estou na Inglaterra para promover o . e pude folheá-lo. — Não consigo perceber quais são as suas intenções. olhando para Andréa com olhos suplicantes. posso lhe mostrar. Dailey. Dailey! — Interrompeu Andréa. lá mesmo onde ela os deixou. Continuou sentada. — É o livro da minha irmã — insistiu Susan Dailey renitente. — Ela dizia aquilo com muita convicção. com ar apalermado. — É evidente que não posso acompanhá-la até sua casa. segurando o copo do licor. Não moro longe daqui.. Posso mostrar a você. — Posso provar o que estou dizendo. sem a ajuda de ninguém mais. Se me acompanhar até minha casa. — Eu concebi a história. Depois que comprei o seu livro. sentando-se de frente para a mulher e olhando-a fixamente.. — Espere um instante — interrompeu Andréa. — Sra. por acaso está me acusando de plágio? — Não sei o que isso significa — confessou Susan. mas acho melhor ir embora. Eu não consigo entender. se quiser. tive quase certeza disso. Andréa respirou fundo. não tive mais dúvidas. levantou-se e abriu os braços. tudo. — O livro é meu — reivindicou Andréa. — Sra.. agora certa de que aquela mulher era uma lunática.ao programa de Roger Faversham. — Os personagens são os mesmos. Ainda guardo as anotações manuscritas e os originais datilografados. A velha não fez nenhuma menção de se levantar.

Amanhã partirei de Londres para Manchester e depois para Newcastle. não foi? Ele tem alguma coisa a ver com essa história toda? Susan Dailey arregalou os olhos. Normalmente. lembrouse de alguns casos de que ouvira falar nos meios editoriais.meu livro. terei de deixar o caso nas mãos de um advogado. Só voltarei na quinta-feira e na sexta à tarde partirei para Paris. Era nesse rol que Andréa se incluía. — Nesse caso. onde ficarei alguns dias. poderá ir ter comigo numa outra hora — sugeriu a mulher. às vezes sem nenhuma alteração no texto. revoltada. aproveitando-se das boas ideias de algum principiante. achando que agora começava a entender. mas tomavam o cuidado de guardá-lo para posterior aproveitamento. os editores e escritores eram na maioria gente honesta e agiam exclusivamente dentro da ética. — Um advogado? — Repetiu Andréa. — Quem? — Esqueça — dispensou Andréa. diziam ao aspirante a escritor que o trabalho dele não merecia publicação. Dailey. ir aos tribunais alegando ter tido uma ideia sua roubada por alguma casa editorial. . até com certa frequência. genuinamente espantada. normalmente iniciante. aprumando-se na cadeira. a senhora veio aqui a mando de Neville Forbes.. — Sra. Mesmo isso realmente acontecendo.. — Se não for. Enquanto pensava no que fazer com aquela visitante. Não era raro um escritor. ao mesmo tempo aliviada e confusa. Havia até escritores razoavelmente bem conhecidos envolvidos nesses casos. Será que ela havia cometido um plágio inconsciente.

Tenho comigo apenas o roteiro manuscrito e o primeiro capítulo datilografado.. Tenho certeza de que ainda está viva. — Vivi nos Estados Unidos os últimos vinte e cinco anos. falando sobre o livro. Susan Dailey balançou a cabeça negando. — Sra. com delicadeza. rogo ou ação de terceiros”. falando com cuidado. — A senhora não disse que a sua irmã havia morrido? — Perguntou Andréa. contendo a respiração. achei que havia encontrado o fio da meada.reescrevendo uma história que lera durante a infância passada na Inglaterra? Pensando nisso. Lá. acabou conhecendo uma jovem escritora que concordou em publicar o livro como se fosse dela. ecoaram na mente dela uma das frases do contrato assinado com a editora: “O autor isentará o Editor de qualquer culpa em demanda. — Oh não. Dailey. Quando vi você na televisão. a expressão da mulher demonstrou alguma dúvida. percebe? . Pela primeira vez. A senhora tem de concordar que seria impossível para eu copiar um original a que nunca pude ter acesso. porque nem chegou a ser concluído. Andréa emitiu um suspiro de alívio. — Isso é o que todos dizem. Minha irmã desapareceu há muito tempo. Tudo se encaixa.. — O livro da sua irmã foi publicado? — Ela se lembrou de perguntar. diferente do tipo que gosta de viver criando problemas para os outros. Ela havia partido para os Estados Unidos e por isso ninguém conseguia encontrá-la. Até que ela parecia boa pessoa. mas eu não acredito. eu sou uma cidadã americana — ela informou.

a decepção evidente nos lábios trêmulos. — A senhora nem me disse o nome dela. sem dúvida a conversa se prolongaria durante horas.. os olhos azuis rasos de lágrimas. — Agora Susan parecia outra vez esperançosa.. mas como sou tola! Afinal de contas.. Mesmo tocada.. ninguém mais tem qualquer responsabilidade no livro que publiquei. Além de mim e do meu editor. antes de responder: — Oh. O nome da minha irmã é Daphne Murdoch. Dailey. A mulher ficou olhando para ela. Se não se livrasse logo daquela mulher. Esperançosa. você não pode mesmo tê-la conhecido. Andréa não podia deixar que aquilo seguisse adiante. procurou falar devagar e com ênfase: — Posso garantir Sra. O que ela disse a seguir tocou Andréa no fundo da alma: — Daphne Murdoch. Susan Dailey ficou olhando para a interlocutora com um ar apalermado. Não estou percebendo muito bem — disse Andréa.. — Você não sabe mesmo onde ela está não é? Eu estava tão.. Andréa já não tinha mais paciência para aturar aquilo. procurando ser o mais gentil possível.— Eu. que não sei absolutamente nada sobre o livro da sua irmã. . — Pode acreditar que não sei do paradeiro da sua irmã — ela garantiu. Desapareceu? — Há mais de trinta anos. — Quando foi que a sua irmã.. Por isso..

A porta se abrira com tanta presteza que Andréa até pensou que Susan Dailey havia espreitado pela janela a aproximação dela. ela bateu à porta com uma leve esperança de que a Sra. Nos cantos da varanda. os bem cuidados vasos de jacintos davam uma nítida indicação de que ali morava uma pessoa dócil e inofensiva. considerando que havia decidido na longa viagem de trem de volta do norte da Inglaterra. a despeito daquela acusação absurda. Tinha uma aparência bem melhor sem aquele horroroso chapéu de feltro. Era ridículo pensar aquilo agora. — Ah.CAPÍTULO IV Havia algo de aconchegante naquela floreira ao lado da porta azul. muito . que no instante em que pusesse os pés em Londres iria tentar descobrir de que forma aquela misteriosa Daphne Murdoch se intrometera na sua vida. Verdade que os cabelos eram um desastre. A mulher sorria. então você veio! — Exclamou a dona da casa. Dailey não estivesse em casa. Era exatamente essa a impressão que Andréa tivera de Susan Dailey. Balançando a valise numa das mãos. parecendo bem mais jovial do que no primeiro encontro.

No táxi. Procuraria ser amigável. — Srta. Susan Dailey precisava entender que não podia sair por aí. compreensiva. fazendo com que Andréa ingressasse no pequeno hall de entrada. Ou Susan Dailey era realmente ingênua ou havia se esquecido da ameaça de entregar o caso a um advogado. Como já lhe falei. Srta. havia elaborado um plano de ação. notando a curiosidade de Susan em relação à valise. a caminho dali. Não há nada como uma boa xícara de chá depois de uma longa viagem. simpática e razoável. não acha? — É um bonito nome. mas naturalmente vou preferir chamá-la de Andréa. Seria sua boa ação do dia. Sem dúvida Susan precisava incluir germe de trigo na alimentação. E você deve me chamar de Susan. — Vim direto da estação de trem e ainda preciso me registrar no hotel. — Eu é que estou espantada de me ver aqui — disse Andréa. pondo a valise no chão e forçando um sorriso.finos e esvoaçantes. Agora. Um pouco de lecitina também não lhe faria mal. vou até a cozinha para pôr a chaleira no fogo. Andréa até pensou em fazer a sugestão. — Não vou poder demorar — ela avisou. amanhã partirei para Paris. Cavenaugh — ela declarou. — A sua vinda me alegra muito. ainda se derramando em sorrisos. — Por que não me chama de Andréa? — Ela sugeriu. Aquela lavagem que . Cavenaugh me parece um tratamento formal demais. mas acima de tudo firme. Susan meneou a cabeça. mesmo acreditando ter provas disso. — Para falar a verdade. não esperava que viesse. acusando-a de ter plagiado um livro.

— Oi! — Saudou Andréa. Espere por mim na sala de estar. sem ouvir resposta da menina. Depois de enxotar o enorme gato que rondava as pernas de Andréa. O sol da tarde penetrava pelos vidros altos da janela. Era uma criança muito bonita. era imaculado e tinha as paredes forradas por um bonito papel florido. Depois . só que tudo parecia muito distante. ondulando-se nas faces da menina. elegantemente vestida. além do que. Andréa escutava os sons vindos da cozinha: a torneira aberta. a meio caminho da escada que levava ao primeiro andar. para ver se era a sala de estar. que tinha portas para três outros cômodos da casa. O ar parecia parado. um som vindo do alto a fez voltar-se. estava firmemente fechada. Antes que ela resolvesse se entrava ou não. Os cabelos dourados desciam acompanhando as abas do chapéu. produzindo losangos na parede. o bico de gás aceso.eles servem nos trens é simplesmente horrorosa. uma menina de uns seis anos olhava para baixo. A única janela. O traje muito bonito só parecia formal demais para uma criança tão pequena e certamente muito quente para um dia de primavera. Talvez fosse melhor abrir uma daquelas portas. certamente ninguém tinha estado ali fazia muitos anos. com um chapéu de abas largas e um casaco azul com gola e punhos de couro. O cômodo que apareceu quando Andréa empurrou uma das portas não dava a impressão de ser uma sala de estar. De pé no alto da escada. o barulho da louça. ela se afastou sem ao menos indicar onde era a tal sala de estar. O hall.

Ladeando a lareira vazia viam-se dois banquinhos de bronze com assento de couro.de ficar olhando durante algum tempo para a porta da cozinha. — Eu estava falando com. — Quando Daphne e eu éramos meninas. a garota passou uma das pernas por cima do corrimão da escada. porque a lareira não aquece bem no inverno e no verão é muito quente. As janelas são muito altas. ela conduziu a visitante a outro cômodo. e deslizou para baixo. ouviu-se o barulho de uma porta sendo fechada no andar de cima. como eu sou mal-educada! — Recriminou-se Susan. Instantes mais tarde.. a menina nem ao menos olhou para Andréa e subiu a escada correndo. — Uau! — Ela exclamou. dando um passo adiante. Abrindo outra porta. — Você disse alguma coisa? — Perguntou Susan. Fosse por não ter escutado ou por ser tímida demais para falar com estranhos. vindo da cozinha com um bule de chá e duas xícaras numa bandeja de prata.. — Eu nunca a uso. costumávamos nos . Andréa achou aquelas peças incrivelmente lindas. que tinha uma alegre decoração em tons de amarelo e verde nos estofados. — Nem ao menos lhe mostrei onde fica a sala de estar. indicando a porta que Andréa abrira minutos antes. Ali é a sala de visitas — ela informou. mostrando o calção fofo com elástico nos joelhos. — Meu Deus. enquanto escorregava até o andar térreo. — Você está bem? — Perguntou Andréa preocupada.

enquanto servia o chá. devem ter pensado em voltar para casa para me proteger. para ser exata. Tinham ido a East End visitar um amigo. Bem. o que sempre foi um consolo para mim. Depois.sentar nesses banquinhos. Era o meu sanduíche preferido. Andréa recusou o açúcar que a dona da casa ofereceu. em frente a um confortável sofá. Daphne era bem mais velha que eu. Mas sempre foi muito paciente com a irmãzinha. imaginando como deviam estar às artérias de Susan. Andréa sentiu um arrepio. Daphne não estava comigo. — Não meu bem — respondeu Susan. Ficávamos sentadas ali. depositando a bandeja numa mesa de centro redonda. submetidas a uma alimentação tão pouco saudável. doze anos. seja como for. — Naturalmente. Provavelmente nem chegaram a perceber que eles haviam sido atingidos. ela nos servia pão com gordura de carne assada. sentindo outro arrepio ao ver que Susan punha três torrões na própria xícara. cada qual num lado da lareira acesa — revelou Susan. que estava adoentado. — Os seus pais ainda são vivos? — Ela perguntou. — Eles morreram num dos ataques aéreos a Londres. pão com gordura de carne assada. papai e mamãe estavam num ônibus que foi atingido em cheio por uma bomba. — Você devia ser muito jovem quando os seus pais morreram . e convidando Andréa a sentar-se. Nos anos da guerra ela trabalhava como motorista de ambulância. Quando o ataque aéreo começou. durante a guerra. enquanto mamãe preparava o assado que seria servido no almoço do domingo.

Quando a guerra finalmente terminou. Ela trabalhava muito. Ela os pintava. mesmo sabendo que agora está com sessenta e seis anos. não é? — É sim — confirmou Susan. com um brilho intenso nos olhos. eu não me importava muito de ficar fora de Londres. A princípio eram naturalmente loiros. Sinceramente. Susan deu a impressão de que ia começar a . Daphne tinha os olhos mais incrivelmente azuis que se possa imaginar.— ela comentou. Às vezes. — Se estiver viva. lembrou-se Andréa. Ao ouvir aquilo. — Ela era muito bonita Andréa. teve de me mandar para um colégio interno no interior. até durante a noite. Linda como uma boneca de porcelana! Os rapazes eram loucos por ela. pegou a xícara de chá e foi se sentar numa cadeira de balanço ao lado do sofá. Os cabelos também tinham uma tonalidade muito bonita. — Nessa época tinha dez anos. Infelizmente. imagine só.. — Com quantos anos ela estava quando desapareceu? — Trinta e um. Não consigo imaginá-la mais velha. sentindo um frio na espinha. Essa "ajudazinha" havia transformado a irmã de Susan numa loira platinada. ela deu uma ajudazinha para clareá-los novamente. Eu ainda me lembro dela com a aparência que tinha naquela época. Susan balançou afirmativamente a cabeça. Daphne tomou conta de mim é claro. mas Daphne sempre me trazia para passar aqui os fins de semana e as férias. estava com treze.. Quando começaram a escurecer. — Sua irmã tinha vinte e dois anos quando os seus pais morreram. meu bem.

— Eu não tenho nenhuma neta Andréa.. Nunca tive filhos. — Não. enquanto Andréa subia a escada.. Susan ainda falava ao telefone quando Andréa saiu do banheiro sem fazer barulho.. consultando o relógio de pulso.chorar. Não há crianças nesta casa e não sei por que você pensou. na certa querendo me convidar para ir ao King's Arms esta noite. Evidentemente.. mas agindo rapidamente. Daphne também não. — Está muito calmo lá em cima — ela observou. Vai fala demais e não a quero metendo o nariz. era o quarto de Susan. — Onde é o banheiro? Com o fone no ouvido. Nesse momento o telefone tocou no hall. Vou ter de me livrar dela. Andréa sentiu vontade de bater na própria boca. recriminando-se por ter feito um comentário tão duro e realista. A voz dela sumiu quando a porta se fechou. Susan fez um gesto em direção à escada e continuou conversando com a amiga: — É que hoje não estou disposta a sair — ela dizia.. você não precisa vir.. ela abriu uma das quatro portas que havia no corredor do andar de cima. Ou será uma sobrinha? Susan olhou para ela com ar de espanto... levantou-se e seguiu a dona de casa. uma amiga minha. — Será que a sua neta resolveu tirar um cochilo? Imagino que a garotinha é sua neta. Susan levantou-se. Esta noite vou para a cama mais cedo e pretendo dormir com os anjinhos. Andréa pôs a xícara sobre a mesa de centro. — Deve ser Vai. apenas para dizer alguma coisa. A cama de casal estava .

Andréa sentiu um arrepio ao pensar numa hipótese. Podia ter enlouquecido durante a guerra e era bem possível que desde então.impecavelmente coberta por uma colcha bege muito limpa. sem sentir nenhum medo. no fim das contas. Talvez. Tinha passado sobre a ponte que tanto a assustava na infância. Um tapete rasgado dava um toque colorido ao ambiente. Susan mantivesse ela trancada ali. Andréa sacudiu a cabeça e riu sozinha. tinha ficado durante uma hora inteira na frente da casa em que vivera cinco anos da infância. um porta-joias e um candelabro. Andréa apertou os olhos. Havia ali também uma cômoda e uma penteadeira de mogno. Naquele quarto devia ter existido um guarda-roupa cujo interior era perfumado por sachês de lavanda e cânfora. A terceira porta estava trancada. Essas três peças em vidro cor-de-rosa. não conseguia se lembrar de nenhum guarda-roupa assim na casa em que havia morado com o pai. Depois. o que era completado pelo cobertor enrolado nos pés da cama. Só que por mais que se esforçasse. Não. Como podia pensar uma tolice tão grande? . Andréa pensou nas imagens que havia recriado durante a recente viagem ao norte da Inglaterra. Ainda com os olhos fechados. não se lembrava de nenhum guarda-roupa naquela casa. Aquele pensamento só podia ser provado pela lembrança de um guarda-roupa semelhante que o pai dela houvesse possuído. mesmo sem querer perturbar o sossego dos atuais moradores. desta vez. em cima da qual se viam um recipiente de pó. Daphne não houvesse realmente desaparecido.

agora. Na verdade. um banco de madeira e tudo o mais.. reuniram-se num enxame e mergulharam sobre a menina. Ou será que se trancara naquele quarto misterioso? Passando por Susan. Só que. A pobre criança ergueu os braços sobre a cabeça e começou a gritar.. Andréa caminhou de volta para a escada. Nesse caso. e Andréa reparou que as flores não mais se moviam ao sabor da brisa. com uma faixa amarrada abaixo dos quadris estreitos.. Ouvindo um zumbido de abelhas. Usava um vestido de algodão azul de cintura alongada. enquanto as abelhas voavam . sem o casaco e sem o chapéu. A malva-rosa é uma planta que só floresce no verão. que ainda conversava com a amiga pelo telefone. com roseiras. A garota olhava fixamente para as malvas-rosa. mais curiosa do que nunca acerca da menina que tinha visto pouco tempo antes. aquilo ali parecia um jardim. Andréa procurou sorrir com naturalidade e dirigiu-se à sala de estar. Estavam. já teria escapado. Quando ela percebeu isso. os cabelos loiros brilhando ao sol. cobertas por abelhas. sim. como se as temesse. Talvez fosse uma garota da vizinhança que conseguisse entrar na casa sem o conhecimento de Susan. Havia uma profusão de malvas-rosas. brancas e vermelhas. Como aquelas ali podiam estar tão viçosas em plena primavera? A menina que ela vira algum tempo antes estava recostada no banco. balançandose à brisa leve. atravessou a sala e abriu a janela que dava para o quintal..A quarta porta dava entrada a um cômodo que evidentemente era usado como depósito. as abelhas alçaram voo. As únicas peças de mobiliário eram um gaveteiro e uma cadeira de balanço quebrada.

Só que não conseguia se mover. toda aquela cena dobrou de tamanho e se arremessou na direção de Andréa. Depois. — Eu vi malvas-rosas — ela relatou voltando-se para Susan. como se impulsionada por uma enorme força. Apenas contemplava a cena. — Mas o que foi? O que aconteceu? Andréa se deixou levar até o sofá e ficou quieta por alguns instantes. assim como as abelhas e a menina. Desculpe Andréa.. Imaginou-se correndo para fora.. entrando outra vez na sala de estar. Andréa? Aconteceu algo de errado? Andréa foi se voltando devagar. — Não tenho certeza. — Como posso ter visto malvas-rosa? . essa Vai! — Exclamou Susan. correndo para ampará-la.... virou a cabeça e olhou novamente o calmo jardim. O banco de madeira havia desaparecido. zunindo cada vez mais alto e ferroando-a nos braços e no rosto. enxotando as abelhas. — Você está branca como uma folha de papel! — Exclamou Susan.. Andréa quis ir socorrê-la. só que com narcisos no lugar das malvas-rosa. meu Deus! Até pensei que nunca mais conseguiria desligar aquele telefone.. De súbito. O jardim continuava lá. — Ah. A menina gritava desesperada. tomando a menina nos braços e carregandoa para dentro da casa. paralisada.em volta dela. Acho que tive uma espécie de. — Como ela é faladeira.. Eu acho. — Venha se sentar aqui no sofá. contemplando a lareira vazia. Logo em seguida desapareceu.

Ela desceu pelo corrimão da escada. àquela altura. Só que. Minha irmã . — Não. subiu pelos degraus e desapareceu. Daphne costumava contar essa história. — Era uma menina loira. nós costumávamos cultivar malvas-rosa naquele jardim. Você está querendo dizer que já esteve aqui antes. mas o que estou dizendo? Você não tem idade para se lembrar de Daphne naquela época.. Lá. meu bem. Um dia. não é? Foi quando viu os manuscritos de Daphne? — Por um instante ela parou de falar e sacudiu a cabeça. por favor. Malvas-rosa e alelis. Susan a olhou como quem está tratando com uma louca. — Bem.. depois do almoço. — Eu vi uma menina — declarou Andréa com convicção. mas isso foi há muito tempo atrás. Depois. Aquele jardim não vê malvas-rosa desde quando eu era criancinha. — Mas. Meu pai gostava de um jardim à moda antiga.. Estava encostada no banco de madeira.. usando um chapéu e um casaco com gola de couro.Susan sentou-se outra vez na cadeira de balanço e voltou-se para a visitante com os olhos muito abertos.. mas na verdade ela estava no jardim. Ela estava com uns seis ou sete anos. que não queria ouvir o que Susan estava para relatar.. há muitos anos. a mulher já havia recomeçado a falar: — Eu não compreendo. foi atacada por um enxame de abelhas. Quando foi isso? Aquele banco foi desmontado há muitos anos. mas isso foi há muito tempo. minha mãe achava que Daphne tinha ido tirar uma soneca. olhando as malvas-rosa. Nem eu tenho idade suficiente para isso! — Daphne? — Espantou-se Andréa. — Ora. apareceu outra vez no jardim. até que as abelhas a atacaram.

— Aquele era o quarto dos meus pais. — Quando abri a porta do seu quarto. mas ela não me respondeu. — Andréa hesitou por alguns instantes. Lembrei-me de um armário. Ela aparece com um casaco azul com gola e punhos de couro e um chapéu de abas largas. — O casaco? — Repetiu Susan. tive a nítida impressão de já conhecer aquele lugar. Você deve se lembrar de que me perguntou com quem eu estava falando? Depois. Daphne adorava essa foto. Procurei por ela lá em cima. Foi batizada em 1927. cada vez mais perplexa. — Nessa altura ela olhou para Andréa com perplexidade.quase morreu... Desde então. quando fui ao banheiro. É uma dessas fotos antigas que eles coloriam a mão. — Ela desceu escorregando pelo corrimão da escada enquanto a senhora fazia o chá. Susan balançou afirmativamente a cabeça. — E o casaco? — Inquiriu Andréa. O telefone tocou antes que eu pudesse explicar o motivo da pergunta. mas não estava em lugar nenhum. . quando ela devia ter uns sete anos. Há alguns anos. perguntei se não morava aqui alguma neta sua ou sobrinha. ficando pensativa por alguns instantes. Falei com ela. — Há uma fotografia de Daphne com um casaco assim. Um armário com portas entalhadas com desenhos de cogumelos. — Como é que você sabe dessas coisas? — Eu vi a menina hoje — respondeu Andréa.. vendi o tal armário a Vai. que havia comprado numa loja de móveis usados uma cômoda com os mesmos desenhos. Bem.. Apenas subiu outra vez a escada. eu falei com a garotinha. tinha verdadeiro pavor de abelhas.

agitada. Parecia tão angustiada que Andréa. A garotinha que eu vi não pode ser Daphne. — Você acha que eu posso ter vindo aqui quando era criança. as malvasrosa. eu saberia. mas decidiu-se em contrário. Andréa. Depois. — Depois que desci. — Lá estava á garotinha recostada no banco. ela olhou demoradamente para a dona da casa. Eu não acredito em fantasmas.. — Acha que posso ter . deu um passo atrás. na companhia do meu pai? — Ela arriscou. afirmara ser Daphne Murdoch. significaria que Daphne está morta. saberia aqui. normalmente pouco afeita a essa tipo de coisa. Se você tivesse visto um fantasma. Se ela houvesse morrido. Andréa se pôs de pé e voltou-se para Susan. Agora ela também estava de pé.. fui olhar o jardim. — Tem de haver uma explicação para essa história toda. — Bem. ela. mas eu não acredito nisso. apressou-se em abraçá-la.. — Sentando-se outra vez no sofá. Não.Andréa ficou pensando se deveria perguntar sobre o quarto trancado. — Não fale em fantasmas. — Bem que eu gostaria de ter essa explicação. as abelhas. como você disse tem. — Andréa respirou profundamente. parecendo embaraçada. dentro de mim. Durante alguns instantes Susan ficou agarrada a ela. não seria prudente falar agora na experiência em que sob um transe hipnótico. — Ela continuou devagar. Interrompendo o que dizia. — Não! — Gritou Susan. de haver uma explicação. apertando as mãos juntas contra o peito..

não encontrou ninguém além de mim. — Daphne desapareceu em 1951. — E o seu marido? Será que ele não teve algum contato comigo e com o meu pai. mas parece que passei aqui por uma experiência desse tipo. quando meus pais já estavam mortos. e eu nunca tinha ouvido falar no seu pai até que Roger Faversham sé referiu a ele. Susan ouviu aquilo balançando a cabeça. ele era um poeta. Pode também ter conversado com o meu pai sobre o livro que estava escrevendo. Foi um acidente de carro.. Podia ajudar sua irmã e publicar o livro. Andréa interrompeu a frase na metade. Se você esteve aqui quando era criança.. Andréa respirou fundo. — Quantos anos você tem? Trinta e um? Trinta e dois? — Trinta e cinco. quando Daphne era criança e vivia nesta casa. não muito tempo depois do nosso casamento. é possível também ela ter me falado sobre o ataque das abelhas e me mostrado a fotografia em que aparece de casaco azul e chapéu de abas largas. Talvez isso também explique..conhecido Daphne. Também não queria falar . um intelectual conhecido. Outra vez. conversado com ela? Se isso é possível. — Eu nunca acreditei em percepção extrassensorial ou coisa do gênero. — Dennis morreu em 1952. você devia ser um bebezinho de colo. Como você sabe.. esquecendo-se de lhe falar no assunto? Uma estranha expressão de embaraço tomou conta do rosto de Susan. Talvez tenha entrado em contato com o passado. Nessa época.

já fomos longe demais para desistir — ela descartou. Susan olhou ansiosamente para Andréa. — "Fantasmas inofensivos atravessam as portas abertas. Ouviu claramente quando ela exclamou "Uau!". Susan levasse adiante aquela ideia de processá-la. — Minha amiga Vai costuma ir a sessões espíritas.a Susan sobre a imagem que vira no espelho. — Antes que Andréa pudesse dizer qualquer coisa. mas no mesmo instante uma suspeita passou pela cabeça de Andréa. depois que ela fosse embora. mas podia muito bem voltar-se contra o editor inglês. Susan mudou de ideia. — Não.. Talvez devêssemos pedir a ela que. apesar de muita gente acreditar. — “Toda casa em que um homem viveu e morreu é uma casa mal-assombrada" — ela citou. cumprindo seu destino errante. — Não. é claro. — Acho que agora já estou pronta para dar uma olhada nos originais . Só que Daphne fez barulho. Sei lá.." Isto foi escrito por Longfellow. Você não concorda? Andréa riu daquela hipótese. Pode ser que você tenha captado algum tipo de vibração do ar. não acredito realmente nesse tipo de coisa... E se. Susan olhava para ela com incredulidade. — Talvez não devamos ficar mexendo nessas coisas — ela disse assustada. O que acho possível é uma casa guardar a personalidade das pessoas que a habitaram. — Acho melhor você voltar para o seu hotel e se esquecer de tudo. pisando o chão sem fazer barulho. até mesmo o fato de que eu a procurei. A Justiça britânica não a alcançaria nos Estados Unidos. Era uma proposta tentadora.

Andréa ouviu no andar de cima um barulho de chaves e uma fechadura sendo aberta. Ele argumentou que como quase todos os homens tinham de usar .de Daphne. Pondo a caixa sobre a mesa de centro. — Vou lá em cima pegar os originais dela. — Eu trouxe uma foto de Daphne — disse Susan. Daphne era tão adorável e exótica. ajeitando o vestido com os dedos trêmulos. Faremos de conta que eles nunca aconteceram. Susan estava pegando os originais de Daphne no quarto que ela encontrara trancado. quanto havia parecido a Andréa no espelho. mas talvez você queira ver esta. Não acha justa a minha proposta? Susan sorriu meio sem jeito e se levantou. Um minuto mais tarde. Evidentemente. Foi logo depois que a guerra acabou. Susan entregou a Andréa à foto emoldurada. Daphne tinha uns vinte e seis anos quando tirou essa foto. Vestida na moda dos anos quarenta naquela foto. — As roupas estavam racionadas. usava um bonito chapéu sobre os cabelos presos numa rede e um elegante tailleur com ombreiras. — Não encontrei aquela em que ela aparece com o casaco azul e o chapéu. — Esse tailleur custou vinte e seis cupons — lembrou-se Susan. por causa da guerra. Quero que a senhora fique plenamente convencida de que o livro dela e o meu não têm nada a ver um com o outro. Depois disso irei embora e nós poderemos esquecer os incidentes desta tarde. Tenho certeza de que serei capaz de apontar diferenças entre o trabalho dela e o meu. mas um dos namorados de Daff arranjou os cupons para ela. voltando com uma caixa de papelão cheia de papéis.

Andréa não teve dificuldade para ler o manuscrito: A Vítima. até morrer. enquanto tirava um bloco de papel de dentro da caixa. eu também não tenho uma caligrafia lá muito boa — admitiu Andréa. Eu própria sempre tive dificuldade para entender. A letra de Daphne era angulosa e espremida. Exatamente como fazia Andréa ao escrever. o que Willi dizia ser característico de uma escrita intuitiva. aquele tipo de tecido não faria falta na confecção de ternos. Ansiosamente. O corpo de jurados recomendou que não se tivesse misericórdia. — Talvez você não consiga entender a letra de Daphne — disse Susan. contendo a respiração. — É igual ao seu livro. Capítulo I. informado que fora pelo juiz de que uma mulher podia perfeitamente ser condenada à morte na forca. Andréa não respondeu. havia espaços entre as letras. Andréa forçou um sorriso. no lugar dos pingos. com traços pesados cortando os tês e bolinhas em cima dos is. indicando a caixa cheia de papéis. Deus! —Murmurou Andréa. — Papai costumava dizer que a letra dela parecia unhadas de pássaro na neve. tentando não demonstrar o mal-estar que a dominava desde o instante em que pusera os olhos naquela fotografia. Paulette ficaria pendurada pelo pescoço numa corda. No instante seguinte ela sentiu o sangue gelar. — Bem.uniforme militar. não é? — Perguntou Susan. — Oh. folheou o manuscrito até o final do .

na calçada do café onde ela trabalhava como garçonete. culminando com a partida de Paulette para Londres. porque amanhã poderemos estar mortos". com a qual Jacques e Thérèse não concordavam. a cronologia. O capítulo seguinte falaria da guerra e da ocupação da França pelos alemães. e continuaria a narração até o dia em que os dois se casaram. em Champs-Elysées. Segundo a sinopse. havia solidariedade. o assassinato de Jacques. que terminava com uma aterrorizada Paulette imaginando como seria a morte na forca. O final seria a confrontação no Clube Oásis. do racionamento de comida. a forma como Paulette havia conhecido Jacques. Em seguida.. Haveria pessoas assistindo. Acima de tudo. os incidentes. camaradagens entre as pessoas. Thérèse. A trama.. Andréa olhou para o rosto . incentivado pelo ódio que Thérèse sentia pela cunhada. o julgamento de Paulette e o suicídio. Terminada a leitura da sinopse. Paulette começaria o seu trabalho como recepcionista no Oásis. os nomes. apesar dos ataques das bombas V-1 e V-2. um mês depois.capítulo. ciúme esse que acabou jogando Paulette nos braços de outros homens. beba e seja alegre. do medo. tudo era exatamente igual ao romance de Andréa. Ela adorou a nova vida. na companhia de Jacques e Thérèse. apesar do ódio que a irmã gêmea de Jacques. sentia por Paulette. em flashback. como se todas recomendassem umas às outras: "Coma. o Capítulo 2 começaria contando. Era essa a filosofia dos novos amigos de Paulette. O livro seguiria falando do ciúme de Jacques.

Não consigo entender como. Estava mesmo convencida de que Daphne havia escrito o livro e pedido a você que o assinasse. — Andréa! — Ela protestou. Mesmo que não quisesse ser encontrada. ainda não teríamos uma explicação pra as minhas.. Susan arregalou os olhos. Daphne era .. A essa altura a própria Andréa já balançava a cabeça arrependida. Sei muito bem que você não fez isso e que está tão desnorteada. — Será que ela faria esse tipo de coisa? — Faria sim. — Não quero criar problemas para você Andréa — garantiu Susan. Ao ouvir aquela hipótese.. sinto muito mesmo. Alucinações. com fervor nos olhos. Você pode ter feito essas anotações depois de ter lido o romance. — Está bem Susan. Eu estava apenas pensando alto. — Juro que jamais pus os olhos neste manuscrito. Andréa suspirou e afastou uma mecha de cabelo que lhe caíra na testa.. Mesmo que tivesse feito isso. Quanto eu.ansioso de Susan Dailey. enfrentaria o risco de que as pessoas desconfiassem de que estava por aí em algum lugar. a partir da publicação do livro.. É que estava querendo muito que você viesse ver as anotações de Daphne e não sabia o que dizer para convencê-la.. — Andréa interrompeu o que dizia quando lhe ocorreu uma possibilidade que talvez explicasse tudo: — Alguém lhe mandou um exemplar do meu livro quando ele foi publicado nos Estados Unidos? Isso foi há um ano atrás. — Sinto muito ter dito aquelas coisas sobre procurar um advogado.

e que o corpo devia ter sido levado para longe pela . ela sempre achou que conseguiria se sair bem de qualquer situação. Por isso. entende? Qualquer um faria as vontades dela. — Não existe mesmo nenhuma indicação do que aconteceu com a sua irmã? Você não teve nenhuma notícia dela depois do desaparecimento? Susan mostrou uma expressão de desalento.tão linda. pondo os manuscritos sobre a mesa de centro e pagando as mãos da interlocutora. e nunca mais voltou. Em vez de responder. Alguns mergulhadores que trabalhavam para uma empresa construtora o encontraram. a polícia disse que Daphne podia ter caído no rio com o carro. atenderia aos caprichos. — Susan! — Exclamou Andréa. acidentalmente. — Não vamos descobrir as causas dessa história se você não me contar tudo — argumentou Andréa. — E o carro não foi encontrado? Susan hesitou. — A polícia encontrou o carro de Daphne dois anos depois de ela ter desaparecido — informou Susan com relutância. — E onde estava o carro? Houve outra pausa. — Daphne só pode estar morta. ou de propósito. — Um dia ela saiu de carro. — Não necessariamente. Finalmente. um Hillman Minx. ficou esfregando as mãos nervosamente. Apenas teorizando. falando devagar: — Estava no rio Tâmisa. Susan se dispôs a responder.

Afinal de contas. Qualquer indicação naquele carro que pudesse levar a uma conclusão sobre o que realmente aconteceu. — Quando ela desapareceu. mas pude perceber que era justamente o contrário. Ele era um dos policiais que investigaram o desaparecimento de Daphne. mas não sei o que foi. Daphne pode muito bem ter empurrado o carro no rio e ido embora. Pelo menos. porque nessa época eu tinha uns dezesseis anos. Duas ou três vezes ela quase me falou no assunto. mas acabou desistindo. Houve algum tipo de problema anos antes de ela desaparecer. — Nesse ponto. Lembro-me apenas de que Daphne estava preocupada com alguma coisa. — Ela estava vivendo alguma dificuldade? — Susan franziu a testa. No entanto. dois ou três anos depois do final da guerra. fumando e bebendo demais. tentei me convencer de que não tinha feito isso por vontade própria. prestando os exames finais. talvez até para o oceano. era isso o que Dennis pensava. gostava de mim e eu tinha apenas dezenove anos. . Só que nunca me mostraram nada que pudesse provar essa teoria. Jamais encontraram o corpo.correnteza. Eu estava no internato. Susan fez uma pausa e suspirou profundamente. — Dennis? — Meu marido. Disse que não era muito importante. foi apagado pelo tempo e pela água. se o problema era muito sério. Minha irmã emagreceu muito e andava nervosa. Foi assim que nos conhecemos. ela pode ter tomado essa decisão justamente para me proteger. Deve ter sido por volta de 1948. — Não que eu saiba.

acabei não fazendo uma boa escolha. — Foi sim. Dennis não foi um bom marido. não foi? — Inquiriu Andréa. — Mas será que você não vê Susan? Se Daphne gostava de você. Para falar a verdade. Por algum motivo. Dennis era bem mais velho do que eu e meio amalucado.. — Você disse que ele morreu num acidente de carro. Susan pareceu chocada com aquele comentário. Seja como for. como eu já disse.. Justificava isso dizendo que o serviço de policial exige muito de um homem. As estradas de Cornwell são muito perigosas. Ele tinha ido lá para conversar com uma amiga de Daphne. Dennis gostava de tomar umas cervejinhas. Queria que eu fizesse coisas que. acho que teria me casado com o primeiro que aparecesse. A morte dele foi definitivamente um acidente. — Da mesma forma que Daphne. .. mas tinha certeza de que ela estava viva e queria encontrá-la para mostrar que era um bom investigador. — Oh. O problema é que transtornada como eu estava pelo desaparecimento de Daff. havia bebido além da conta e acabou perdendo a direção do carro na estrada. Bem. A polícia certificou-se disso e Dennis jamais sequer conheceu Daphne. num acidente em Cornwell. Fez disso uma verdadeira obsessão e passou a beber como nunca. Não fazia muito tempo que estávamos casados.. Susan deu de ombros e não quis completar aquela informação.Dennis nunca chegou a conhecer Daphne. Por isso. não houve nenhuma conexão entre os dois casos Andréa.

— Na Ponte Blackfriars — respondeu Susan. encostou o rosto no vidro e ficou olhando para fora. eu não tive a sensação de que minha irmã estava morta. é claro que entraria em contato com você. achando que não tinha mais cabeça para processar nenhuma informação. — Nesse caso. sobhipnose. — Em que parte do rio o carro foi encontrado? — Perguntou Andréa. — Só um pouquinho adiante do ponto onde termina o aterro. Andréa hesitou. Será que conseguiria manter a sanidade mental até que aquilo tudo terminasse? . mas não teve coragem de contar que. se ainda estivesse viva. sem muito interesse. Numa ação impulsiva. eu saberia — insistiu Susan. tinha dito que era Daphne Murdoch e que estava morrendo. Andréa levantou-se e foi até a janela. Lá. — Mesmo quando os policiais me levaram para ver o carro e o trecho do rio onde ele foi encontrado. — Se ela tivesse morrido.— Ela gostava de mim — disse a outra com determinação.

— Mas como é que você podia saber sobre o carro? — Eu não sabia. fui até a Ponte Blackfriars e me vi olhando ansiosamente para a água. — É. desde que cheguei a Londres... entorpecida. — Já por duas vezes. pela manhã. Na verdade. como se houvesse perdido alguma coisa no rio. — Por que não dorme aqui? Poderíamos continuar a conversa amanhã. pelo menos não conscientemente. mas. — Você está se referindo ao carro de Daphne? Andréa respirou fundo. Nas duas ocasiões. — Dadas as circunstâncias. Andréa disse aquilo com voz cansada. Andréa voltou-se e olhou de frente para Susan. Eu estou. — Você deve estar exausta — diagnosticou Susan com simpatia. — O carro de Daphne — interrompeu Susan impulsivamente. Posso arrumar uma cama para você aqui na . Nem tenho certeza se quero ou não entender. senti uma verdadeira compulsão de caminhar pelo Aterro Victoria.CAPÍTULO V Depois de algum tempo. ela se sentia cansada. qualquer um se sentiria tentado a dar essa explicação. — Ouça: tem uma porção de coisas que eu não estou entendendo.

cancelando a reserva para aquele dia. Andréa foi informada de que o Sr.. vai mesmo ficar? — Sim. você disse que mantinha o quarto da sua irmã do jeito que estava no dia em que ela desapareceu — ela lembrou. A telefonista disse também que ele não tinha deixado . não é? — Inquiriu Susan abatida. se examinar as coisas dela. Teria algum problema você dormir lá? Quando já estava para dizer que precisava ir para o Royal Camelot. mas é o que penso. — Quando nos vimos pela primeira vez. — Você tem certeza de que Daphne morreu. e estou tão cansada que não sei também o que devo pensar — respondeu Andréa. Forbes havia ligado três vezes. talvez encontre algo que traga luz a essa situação absurda. — É verdade. — Será que posso usar seu telefone? Preciso ligar para o hotel e avisar que não irei para lá. — Acha que ela está perseguindo você? — Não sei Susan. Se eu passar algum tempo no quarto de Daphne. Andréa hesitou. Quando telefonou para o hotel. ou mesmo no antigo quarto de Daphne. Susan abriu um sorriso de satisfação. — Nesse caso. procurando deliberadamente mudar de assunto. — Bem. Andréa se viu na obrigação de confirmar: — Sinto muito Susan.sala de estar. esta noite.. mas só por esta noite.

De que forma Neville havia descoberto onde ela se hospedaria? Essa informação só podia ter sido divulgada no programa de Roger Faversham.. Minutos mais tarde.. talvez sinta vontade de mastigar alguma coisa. Com o tempo. mas por enquanto. — Está uma barafunda. sentindo-se outra vez deprimida. . — Depois de ver o quarto de Daphne. Susan fez um gesto na direção da escada. Andréa ficou durante algum tempo no pequeno hall da casa de Susan. entrando no hall com o gato nos braços. sentindo as pernas bambas. ele podia ter ligado para Faversham. — Então vamos subir. ou para a Livraria Foyles. ou Susan não a teria encontrado.. Era o "ninho" dela. acabaria esquecendo Neville.. como dizia. Bem. Forbes. Andréa recostou-se no caixilho da porta do quarto de Daphne.recado. era um comportamento cauteloso de um homem casado. "Vou me esparramar lá no meu ninho. Só que Neville informara ter ligado tarde a televisão. Andréa havia agido bem ao cortar aquele relacionamento antes mesmo que começasse. — Meu Deus. não é mesmo? Daff gostava dessa confusão. — Não quer que eu prepare alguma coisa para você comer? — Ofereceu Susan. — Eu já comi no trem — garantiu Andréa. Mesmo assim era uma pena.. por isso nunca me animei a dar uma arrumação aqui. — Ela murmurou. Apresentar-se como Sr. em vez de Neville Forbes. Susan pôs o gato no chão e olhou em volta. naturalmente. Depois de desligar o telefone..

além de enormes filodendros. Daphne vivia inventando apelidos para tudo e para todos: Tigre. Madame Dragão. mas ela gostava . Passo o aspirador aqui pelo menos uma vez por semana e abro as janelas para que as plantas recebam ar e luz. Gordurinha. pelo menos não tanto quanto o amarelo e o verde. uma figueira e uma dracena de folhas rajadas. Daff adorava plantas. mas naquela época eu era uma criança. — Está tudo bem Andréa? — Minha casa em San Francisco parece com isto aqui — respondeu Andréa com voz sumida. — Você está se referindo a cor. — Mas o quarto está limpo Andréa. Andréa deve ter emitido algum som. Gary Cooper. Obviamente estavam. Aquilo compunha um atraente fundo para o divã cheio de almofadas e as mesinhas sobre as quais muitas fotos antigas emolduradas. Nervosamente. não é? Daphne sempre gostou de bege. naturalmente. Marlene Dietrich. Eu vivia dizendo que não era uma cor assim tão alegre. algumas palmas. Greta Garbo. Cabelos de Ouro. todas bem tratadas. Eu as substituo à medida que vão morrendo. Não são as mesmas plantas. Cary Grant e Clark Gable. crianças. Hoje parece engraçado." Era assim que me chamava. Susan ajeitou os cabelos por trás das orelhas. penduradas nas paredes cobertas por fotos sem moldura de Humphrey Bogart. Conversava com elas como se fossem gente de verdade. — Durante alguns instantes Susan riu daquelas reminiscências.Squirt. porque Susan voltou-se e olhou para ela com curiosidade. Squirt. Havia ali sete ou oito plantas: uma aspidistra grande.

além de pôsteres e fotos dos astros do cinema.mesmo era de bege. Por isso. sim. Depois que meu pai morreu. coisa que meu pai achava aborrecido. Meus avós paternos morreram quando meu pai era ainda menino. Sempre gostei de ter muitas plantas em casa. especialmente dos filmes das décadas de trinta e quarenta. Dizia que era repousante. Por isso. Eu não tinha família. depois de arrumar o sofá da sala de estar para que Andréa dormisse. principalmente quando a pessoa tem de viajar. Não sabia que estava copiando. — Não é só a cor — corrigiu Andréa observando o gato. que esfregava o corpo na perna de uma das cadeiras estofadas. — Estarei bem. papai destruiu todas as fotos da família dela. e depois que minha mãe. — De fato. tudo é igual. Certamente nada a . mas fora isso é tudo exatamente igual. Deixou-nos. ela passeou o olhar incrédulo pelo quarto de Daphne Murdoch. — Fazendo uma pausa.. Sempre fui fã de cinema.... Tinha bem claro na cabeça a ideia de como queria que fosse o lugar onde eu iria morar. Eu. só depois que ele morreu pude comprar uma porção de plantas.. vendi a nossa casa e me mudei para o meu próprio apartamento. fazer uma decoração do meu jeito. Depois de ver o quarto de Daphne. As fotos que tenho são no formato de pôster.. algumas horas mais tarde. não fiquei com nenhuma fotografia de família. Pude então. Costumava dizer que bichos e plantas só dão problemas. nenhum parente. ela havia desistido de examinar as coisas da irmã de Susan. — É tudo igual. — Tem certeza de que dormirá bem aqui? — Perguntou Susan.

— Acho que você é quem está querendo arranjar uma desculpa para tomar outra xícara de chá. Além disso. Susan falou sobre a vida amorosa da irmã.. depois . Também. que tinha sido notavelmente ativa. achou que havia sido acordada pelo tique taque do relógio que havia na sala de visitas. lembrou-se de uma frase escrita por F. Enquanto ela comia. na hora de ir para a cama. sobram motivos para que se tome uma boa xícara de chá. outra boa xícara de chá na hora do chá.incentivava a passar a noite naquele quarto. — Gosto de tomar uma boa xícara de chá pela manhã. Deve ser porque sou uma inglesa típica. cedendo à insistência de Susan. — Acho que agora vou subir — decidiu a dona da casa finalmente. Scott Fitzgerald: "Na verdadeira noite da alma. Tem certeza de que não quer outra xícara de chá? — Não obrigada — agradeceu Andréa sorrindo. sentia-se bem mais à vontade e não tão assustada. Como se houvesse combinado. naquele confortável sofá forrado com lençóis floridos e vestindo uma folgada camisola de flanela de Susan. Quando abriu os olhos. elas não comentaram mais a similaridade constatada entre o quarto de Daphne e o de Andréa. são sempre três horas da madrugada". as duas voltaram a conversar sobre Daphne. sem sonhar com nada. Andréa dormiu profundamente até as três da madrugada. E também acho que. Boa noite Andréa. Sentia uma vontade enorme de ir ao banheiro. Andréa aceitou um prato de sopa requentada. — Susan riu balançando o corpo gorducho. Antes de dormir. Pensando nisso. — Marmalade já deve estar aninhado na minha cama..

mas agora Andréa sentia vibrações em torno de si. não acendeu a luz da escada. de uma forma absurda e inexplicável. parecia esbelta e muito linda. Andrea apertou os ouvidos com as mãos e abriu a boca para gritar. Alguma coisa. podendo . esperou que a descarga parasse seu fluxo. Sorria para Andréa. — O que você quer de mim? — Murmurou Andréa. Devia ter por volta de vinte e cinco anos e os cabelos platinados estavam jogados para trás. Vestia uma camisola branca de cetim. À luz que se filtrava pela janela.de todo aquele chá. cada um com um laço grande cor-de-rosa. dando a impressão de que queria pedir um favor. para o interior do corpo de Daphne Murdoch. profusamente enfeitada por laços de fita. porém. ao mesmo tempo em que percebia círculos luminosos concêntricos que giravam no espaço entre ela e a outra mulher. Daphne continuou a sorrir. vibrações sonoras que se tornavam mais altas a cada segundo. As luzes externas que. Antes que pudesse fazer isso. Agora.. como na vez anterior. tentando arrastá-la. não era mais uma menina. atravessando a janela de vidro.. Tomando cuidado para não fazer barulho. com a solidez de uma pessoa real. iluminavam o hall do primeiro andar. Minutos mais tarde. Daphne Murdoch estava de pé no alto da escada. O som era estridente. apagou a luz e abriu a porta. sem peso nenhum. Como não queria perturbar Susan. Andréa sentia o corpo incrivelmente leve. ou alguém a puxava. e calçava chinelos de tecido almofadado. já eram suficientes para que ela encontrasse o caminho. Andréa subiu a escada e entrou no banheiro. agudo demais para ser concebido. viu-se transportada.

ela sentia outro perfume. só que não queria admitir. depois de lavá-lo. com a porta fechada. — Cheguei a uma conclusão Andréa — anunciou Susan. no jardim dos fundos. Lá fora. Ela era tão linda. os pés descalços. Andréa e Susan tomaram o café da manhã na mesa circular da cozinha... Via claramente a própria figura. você que Daphne deve estar morta. em volta da estátua de um anãozinho que Andréa não havia notado no dia anterior. Sentia também sobre a pele a sensual camisola de Daphne. podia ouvir Marmalade. Andréa. Obviamente. ela sentiu o cheiro gostoso dos lençóis limpos. a camisola florida e folgada de Susan sobre o corpo magro. Seria . queria desesperadamente pedir ajuda. Eu a amava muito Andréa. pousando a caneca na mesa e mostrando uma expressão de sofrimento. Não longe de onde estava. Andréa deixou escapar um profundo suspiro. rosnando baixinho. só podia ter estado sonhando. Podia até sentir o perfume do creme hidratante que havia passado no rosto. Olhando para o rosto da verdadeira Andréa.ver a si própria. Instalada no sofá macio. o gato. o sol iluminava os narcisos amarelos. A sala estava às escuras. só que aquele perfume vinha de certa distância. tão boa. o que impedia a entrada de qualquer luz vinda da frente da casa. Na manhã seguinte. o frágil cordão amarrado num laço entre os seios. Perto do nariz. Achou que o bicho devia estar arranhando com as unhas a porta do quarto de Susan. um aroma de jasmim. Ainda estava com as mãos nos ouvidos e tinha os olhos arregalados. Acho que sempre soube disso. — Tenho de concordar com.

Andréa ficou pensando se não deveria falar na primeira experiência que tivera com Daphne Murdoch. ainda não. não acha? Além disso. ela fez um gesto na direção de um armário que havia por trás da cadeira onde Andréa estava sentada.. — É claro que ela está querendo se comunicar com você. — Ela leu o título. . Talvez jamais devesse falar naquilo.um contrassenso Daphne ficar tanto tempo sem dar notícia. São muitas as indicações disso: as semelhanças na arrumação da casa e do quarto. Parecia realmente ter refletido muito sobre o assunto e tomado novas decisões. — Imediatamente fui procurar o livro. Dizendo isso. aquela sensação de queda. — Não sei se devemos seguir por esse caminho Susan. — Pelo menos. o fato de você ter escrito o livro para ela e essa atração que você diz sentir pela Ponte Blackfriars. se ela está perseguindo você.. — Ontem à noite. Andréa voltou-se e pegou na prateleira do armário um livro volumoso com capa dura vermelha. lembrei-me de ter lido sobre escrita psicografada num livro que a minha amiga Vai me deu — continuou Susan. é um ponto de onde podemos começar — contrapôs Susan com determinação. Não. Daphne deve estar querendo lhe dizer o que aconteceu com ela. só pode mesmo estar morta. Tudo isso só pode estar associado. Ainda acho que há uma explicação científica. — Uma Enciclopédia de Parapsicologia. demonstrando desconfiança. — Não sei se devo acreditar nessa história de perseguição — ponderou Andréa. a afirmação de que estava morrendo em consequência de um tiro.

O Mistério de Edwin Drood estava incompleto quando o romancista morreu". Na verdade. disse que "não se pode dizer com certeza que se trata de um trabalho apenas inspirado em Dickens. não é? — Eu sei que parece maluquice Andréa. um homem chamado T. escreveu a continuação do romance. O Mistério de Edwin Drood. — Você não está querendo dizer que Daphne de alguma forma ditou A Vítima para mim. — Dickens? — Repetiu Andréa. que era um mecânico pouco instruído e morava em Brattleboro. James havia apenas copiado o estilo de Dickens. mas isso explicaria o fato de seu livro ser igual ao dela.Alguma espécie de energia. A Parte que James escreveu era idêntica em forma e estilo aos capítulos que Dickens deixou prontos” — Andréa interrompeu a leitura e franziu a testa.. diz que também Conan Doyle . abrindo o livro para ler a introdução: — "O último romance de Dickens. não é uma explicação mais maluca do que qualquer outra — disse Andréa. P. — Continue — ordenou Susan ansiosa. — "Dois anos depois da morte de Dickens. — Bem.. — Veja o que diz aí sobre Charles Dickens — instruiu Susan. — Aqui diz que muita gente acreditou que T. criador do imortal Sherlock Holmes. Sir Arthur Conan Doyle. que havia sido publicada em capítulos mensais. Ele nunca negou ter lido a primeira parte do romance. James. — Em algum lugar mais adiante. ficando durante alguns instantes a ler o livro em silêncio. Vermont. mais parece um texto do próprio Dickens". inspirou uma opereta escrita por outra pessoa e apresentada no Festival Shakespeare de Nova York. P.

Andréa folheou o livro e encontrou o texto a que Susan se referia. Andréa balançou a cabeça. por favor — pediu Susan com os olhos brilhando. Cummins descrevia o estado em que ficava nessas ocasiões como uma espécie de sonho. Myers. A Srta. Um deles dizia ter sentido um choque seguido de formigamento. a incrível velocidade. Mas que diabo é um ladrilheiro? — Perguntou Andréa em tom de brincadeira. Leia a parte em que fala numa escrita psicografada. como o que se sente quando se bate em determinado ponto do cotovelo. mensagens de Filipe. — Deve ser alguém que assenta ladrilhos no chão.H. Andréa leu sobre o caso de uma Srta. No livro. produzindo um barulho parecido com o de vários ladrilheiros trabalhando". eu nunca passei por experiências parecidas com essa. outros médiuns contavam experiências parecidas com a de Stainton Moses. — Continue lendo. Afirmava sentir-se como se estivesse apenas ouvindo. um homem chamado Stainton Moses escreveu o seguinte: "Meu braço direito se encolheu até mais ou menos a metade do antebraço e começou a se agitar violentamente para cima e para baixo. que supostamente havia recebido e psicografado. Bem.W. Mais adiante. Andréa não se fez de rogada. "Percebo que minha mente está sendo utilizada por um estranho". de uma forma perfeitamente normal. Tudo o que fiz foi datilografar a história do meu livro. no ano de 1872. declarava a certa altura. Cleofas e F. com .estava se tornando um espiritualista. o Evangelista. — Aqui diz que. Cummins.

ceticismo. Era como se estivesse apenas relatando situações de fato vividas. mas é claro que o subconsciente. Depois de ter passado mais de trinta anos insistindo que a irmã ainda estava viva. o profeta.. a reconstituição da época parecia “absolutamente autêntica”.. disse que não escreveu de verdade o seu famoso romance — seguiu argumentando Susan. Lembrava-se de que ao escrever A Vítima. desde menina. Muitas partes do Antigo Testamento são citações: "E então ele ouviu a voz de Elias. William Blake diz que aquele magnífico poema lhe foi ditado. — Talvez seja por isso que Daphne a escolheu para escrever o livro — interpretou Susan. Eu própria sou formada em Literatura Inglesa e sempre li muito. — Afinal de contas. — Harriet Beecher Stowe. — Bem. No prefácio de Jerusalém. segundo Roger Faversham. na certa ela agora defenderia com a mesma teimosia aquela nova ideia. — "Ele surgiu na minha cabeça como uma dádiva". Quando se está escrevendo. Ele apenas o datilografou. confessou a escritora. percebendo que dizia aquilo sem nenhuma convicção. não sentia estar fazendo um esforço consciente. dizendo”. — Francamente Susan. às vezes a pessoa até se pergunta de onde vêm aquelas palavras.. num certo sentido a mente de fato se altera. autora de A Cabana do Pai Tomás. Andréa interrompeu a frase. acho que não é tão extraordinário assim eu ter escrito um livro — ela declarou meio na defensiva. eu não posso acreditar.. falando de pessoas que conhecera no passado. meu pai era poeta e professor de inglês. .. Além disso....

além dos nove Manuscritos de Glastonbury. Outros casos de textos psicografados eram os livros Cartas de Júlia. um guardalivros. — Andréa olhou para ela com ar de censura. Continuando a leitura. Mais tarde. produzidos por médiuns que não tinham conhecimento uns dos outros. tratando principalmente dos dois hemisférios em que se divide o cérebro. uma jovem de apenas catorze anos escrevera uma biografia de Joana D'Arc supostamente ditada pela própria donzela de Orleans. mas ainda não é possível dizer com certeza como é o seu funcionamento. Em 1858. não parecia ter dúvidas. Contra isso Andréa não tinha nenhum argumento. segundo a enciclopédia. porém.— Tudo isso são formas de descrever o processo criativo — ponderou Andréa. a despeito de sua pouca instrução. era "comprovadamente verídico". Na França. Este último caso. — Nem o próprio Freud soube explicar como funciona esse processo. Susan. de William T. Charles Linton. ela procurou analisar sem preconceitos as experiências ali relatadas. . Hoje em dia há várias teorias. — Você escreveu um livro igual ao de Daphne — lembrou Susan. Veja aí "O Valor da Paciência". tratando de fatos que só o próprio rei podia ter conhecimento. de Hester Travers Smith. por inspiração de monges mortos muito tempo antes. a mesma jovem escreveu Confissões de Luís XI. — É sim. — Verídico? — Murmurou Andréa. havia escrito um extraordinário livro intitulado O Reerguimento de uma Nação. Stead e Mensagens Psicografadas de Oscar Wilde.

. você passou metade da noite lendo lá em cima. de St. "Estabelecer comunicação desde o além. Louis. acabou sendo morta pelos índios." Que argumentos poderiam ser apresentados contra termos tão melodramáticos? Andréa absteve-se de fazer qualquer comentário e continuou a leitura. Patience começou a produzir poesia e prosa de inegável qualidade literária. mas mesmo assim mostrou-se capaz de reproduzir em textos. Estou mesmo. John H. fechando o livro e colocando-o sobre a mesa. Curran. Centenas de anos depois da sua morte. fatos ocorridos na Inglaterra da época elisabetana. Curran jamais havia estado na Inglaterra e não conhecia a sua história. — Acho que a minha mente está a ponto de entrar em pane — disse Andréa. Patience Worth era descrita como uma guia espiritual que tinha vivido em Dorsetshire durante o século XVII. — Eu me levantei bem cedo — admitiu Susan. É claro que Daphne estabeleceu comunicação com você desde o além. Partindo para a América. Estou inteiramente convencida Andréa. só descansei quando li tudo de novo nesse livro. — Depois que me lembrei de ter lido sobre escrita psicografada. na direção do rosto de Andréa: "Algumas declarações de Patience Worth com relação a sua casa e ao ambiente em volta se confirmaram". A frase seguinte parecia querer pular para fora da página.— Pelo jeito. O estilo e as expressões estavam perfeitamente de acordo com o período abordado. A Sra. por meio da Sra. disse o que deveria ser escrito e você escreveu.

. Andréa passou os braços por cima da mesa e segurou nas mãos dela. era eu quem estava lá escrevendo o livro. Você o conhece? Prazer foi um antropólogo escocês que no final do século XIX. considerando se devia ou não falar nas outras ocasiões em que essa comunicação evidentemente havia se estabelecido. Susan mostrou um ar de desolação. algumas delas são. além disso. — Ouça Susan: eu estou querendo acreditar que alguma coisa. houve algum tipo de comunicação entre a mente de Daphne e a minha. Entre outras coisas. Pelo que me lembro. ele disse que o homem . Consternada. publicou um extenso trabalho sobre cultos e mitos. mas que bem isso poderia fazer? Possivelmente Susan ficasse ainda mais perturbada do que já estava. fiz um trabalho sobre o livro O Ramo Dourado. — Não sei se devo acreditar nas histórias contadas neste livro — ela continuou. — Não acha que a psicografia é uma explicação possível? — Possível? Só posso achar que é altamente improvável. Obviamente. Não estou preparada para ir. Diferente está acontecendo aqui.— Mas o que é que você realmente acha? — Acho que Shakespeare tinha razão: "Existem mais coisas entre o céu e a terra. antes de prosseguir: — Na faculdade.. — No entanto. Talvez tivesse até a obrigação moral de revelar tudo. Andréa fez uma pausa.. — O quê? Andréa ergueu a cabeça e fitou pensativa por alguns instantes. Horácio.. Sem dúvida saberia se Daphne estivesse me ditando. do que pode supor a sua vã filosofia". de sir James Prazer.

Andréa lembrou-se do sentimento que havia acompanhado o sonho.. Ouvi barulho por lá mais ou menos às três da manhã. Imagino que você tenha dormido com vontade de ir ao banheiro e por isso teve esse sonho. porque ficou arranhando a porta com as unhas.. Era baixinha — murmurou Susan. Mas que coisa esquisita. a pessoa adormecia. Andréa arregalou os olhos. Isso às vezes acontece comigo. De súbito. Na certa você foi ao banheiro logo que acordou. Eu me sentia literalmente dentro dela. — Tinha pelo menos dez centímetros a menos que eu. você me ouviu lá em cima? Quer dizer que eu não estava sonhando?! Agora ela sentia uma vontade enorme de ir para bem longe . Só que Daphne não era nada grande. Ajuda para quê? — Ela é. passei a ocupar o corpo dela e fiquei olhando para mim mesma. Marmalade também devia estar apertado.. como se estivesse vendo outra pessoa. parecendo totalmente desnorteada. Se ele não retornasse. parecendo estar no interior de um desses balões infláveis grandões.. Quando o homenzinho se retirava. subi para ir ao banheiro e na volta me encontrei com Daphne. — Ontem à noite eu sonhei com Daphne — confessou Andréa.primitivo acreditava que o que hoje nós chamamos de alma era um "homenzinho” que vivia em seu interior. aquela sensação de que Daphne queria a ajuda dela. Enquanto falava. a pessoa morreria. Susan continuava olhando para ela. Era até baixinha. — Então. — No sonho.

— Ia lá com frequência depois do fim da guerra e algumas vezes me levou.daquela casinha simpática. — Preciso de um descanso. jamais se veria livre de Daphne Murdoch. que já havia tentado entrar em contato com Andréa. Preciso ir embora. — Fique à vontade. com um súbito brilho nos olhos azuis. Bem. Antes. vou ligar para a minha agente para ver se tem alguma coisa na agenda para hoje. Como já lhe disse. eu não acredito que meu sistema nervoso tenha condições de suportar outro choque. Andréa se pôs de pé. Felicity Simon. — Daphne adorava Paris — revelou Susan. será que posso usar seu telefone outra vez para falar com a minha agente? Terei de fazer uma ligação interurbana. povoada de fantasmas infantis e impregnada pela envolvente presença de Daphne Murdoch. — Irei de aerobarco que liga Dover a Boulogne e depois seguirei de trem. Tinha muitos amigos franceses. — Susan. seria imperdoável vir a Londres e não dar uma esticada até Paris — ela se justificou. estou pretendendo ir passar alguns dias em Paris. Limpando a garganta para falar com firmeza. além disso. tinha excelentes notícias sobre a viagem de divulgação que . Se ficasse muito tempo na companhia de Susan Dailey. É claro que pode usar o telefone. — Paris é tão linda nesta época do ano — murmurou Susan. Por uma fração de segundo Andréa considerou a hipótese de convidá-la a ir também. — Sei. mas felizmente o bom senso prevaleceu. porque ela está em Holborn. Susan sorriu com simpatia.

enquanto a acompanhava até a porta. Ela parecia tão desolada que Andréa não resistiu a um impulso e abraçou-a. — Você já fez por merecer alguns dias de folga Andréa — ela aprovou. acabam entendendo tudo direitinho. como era bom sorrir! — Nós vamos nos ver novamente.estava fazendo pelo norte da Inglaterra. — Quando voltar terá algumas tardes de autógrafos e também uma pequena reunião que o pessoal da agência está organizando em sua homenagem. Andréa não estava muito certa de que cumpriria a promessa. principalmente quando há algum dinheiro envolvido. Andréa estava sorrindo quando desligou o telefone. a agente inglesa fez uma recomendação: — Não se assuste com a reação dos balconistas parisienses. Não será nada muito puxado. Ah. Pelo menos. Depois de passar as datas e os horários de todos os compromissos. — Espero que não volte para os Estados Unidos enquanto não descobrirmos o que aconteceu com Daphne. Na manhã de sexta-feira. — Apesar da sinceridade que procurou pôr naquelas palavras. No entanto. Andréa iniciou seu passeio turístico por . — Telefonarei para você logo que voltar a Paris Susan. que Andréa teve o cuidado de anotar. com aquele seu jeito franco. Eles sempre ficam horrorizados quando ouvem o francês falado pelos estrangeiros. foi essa a impressão que eu sempre tive. não vamos? — Perguntou Susan.

partindo do Jardim da Tulherias em direção à Praça de Gaulle e ao Arco do Triunfo. além do que a história descrita no livro se passava em outra época. mas também não era muito diferente. o rio Sena e a torre Eiffel. Depois saiu caminhando pela larga Avenida dos Champs Elysées. o que não . Andréa entrou e pediu soufflé vesuvio. Por vontade própria. desses que têm mesas na calçada. Sentindo o sol morno no rosto. Era a primeira vez que experimentava isso desde a malfadada festa promovida por Willi Steingard. avaliação que muito divertiu Jacques. Em A Vítima. Jacques havia levado Paulette àquele museu na tentativa de dar a ela alguma educação artística. antes que o relacionamento começasse a naufragar. Paulette achou as pinturas "bonitinhas". Jacques havia conhecido Paulette num restaurante onde se servia comida típica do interior da França. visitou também o Museu Jeu de Paume. Depois do lanche. com o guia na mão. A avenida não era exatamente o que ela havia imaginado ao escrever A Vítima. Isso naturalmente havia acontecido no início do namoro. Cedendo a um impulso. ela diligentemente percorreu os passos obrigatórios de todo turista em Paris: a Catedral de Notre Dame. bem diferente das similares americanas. que acabou sendo a pizza mais leve que ela podia imaginar. divertia-se com o exuberante francês que se falava por todos os lados. As obras impressionistas tocaram fundo em Andréa. O jovem garçom a paquerava descaradamente e Andréa começou a sentir a alma leve. havia de fato uma pizzaria. Aproximadamente no local desse restaurante fictício.Paris com uma visita ao Museu do Louvre.

chegava a ser novidade. Certa feita, ela havia começado a chorar bem no meio do Museu de Arte Moderna de Nova York, tocada pela beleza daqueles quadros. Consternado, um dos guardas não soube o que fazer além de lhe oferecer um lenço. A noite já ia caindo quando Andréa retornou ao hotel. Cansada como estava, achou melhor jantar ali mesmo, pedindo que lhe servissem no quarto uma salade niçoise. Foi para a cama cedo e dormiu como uma pedra. No dia seguinte, foi conhecer Montmartre, onde Jacques e sua irmã Thérèse haviam crescido. Como havia imaginado era sem dúvida o bairro mais pitoresco e curioso de Paris. Andréa subiu caminhando toda a Rua Lepic, onde Vicent Van Gogh tinha morado com seu irmão Theo, passeou pela Praça Emile Goudeau, onde muito tempo antes, Picasso, Braque e Gris criavam obras-primas ao ar livre, e visitou a famosa Igreja de Sacré Coeur. À noitinha, juntouse a um barulhento grupo de turistas americanos e canadenses e no jantar, comeu uma divina omelete afines herhes. Durante toda aquela estada em Paris, Andréa não pensou uma só vez em Daphne Murdoch, retornando a Londres dominada por um sentimento de puro otimismo. No aerobarco, tagarelou o tempo todo com uma jovem de Manhattan que estava percorrendo a Europa inteira. As duas tomaram o mesmo trem para Londres. Nessa parte da viagem, o tempo todo elas cochilaram ao sol que entrava pela janela, enquanto a composição seguia vagarosamente o seu caminho, parando em cada cidadezinha e aldeia por onde passava. Neville havia ligado novamente para o Royal Camelot, desta vez

deixando o telefone do escritório. Andréa resolveu que não telefonaria para ele. Mais ou menos às cinco da tarde, alguém bateu à porta da suíte. Achando que devia ser Neville, Andréa hesitou antes de abrir. Detestava a ideia de ter que mandá-lo embora mais uma vez. Era Susan Dailey quem estava lá, obviamente excitada e com os olhos azuis brilhando muito. Usava aquele horroroso chapéu de feltro e o já disforme casaco azul. Numa das mãos, carregava o que parecia ser um dos cadernos de anotações de Daphne. Levava também um papel dobrado, que entregou a Andréa tão logo a porta foi aberta. — Veja isto — exclamou a recém-chegada. Andréa fez um gesto para que ela entrasse, fechou a porta e examinou o papel. — São as anotações que fiz quando liguei para a minha agente. Você não precisava ter trazido isto aqui Susan. Não me custaria nada pedir outra vez as informações a Felicity. — Não são as anotações, mas as gaivotas — explicou Susan. — Eu já ia jogar no lixo quando reparei que você havia enchido o papel com desenhos de gaivotas. — Eu lenho a mania de rabiscar gaivotas sempre que estou com um papel e um lápis na mão — explicou Andréa. — Daphne tinha essa mesma mania. Com um ar de triunfo, Susan abriu o caderno diante dos olhos de Andréa e foi passando as páginas. De fato as margens estavam cheias de desenhos de gaivotas, algumas empoleiradas em galhos de árvores, outras em pleno voo.

Andréa respirou fundo e expeliu o ar, enchendo as bochechas. — Acho que Daphne vem me influenciando desde muito tempo. Tenho o costume de desenhar gaivotas desde que me entendo por gente. — A questão é que eu sei por que Daphne rabiscava gaivotas — declarou Susan excitada. — Ela sempre frequentou o Clube das Gaivotas, aqui em Londres. Clube das Gaivotas, Clube Oásis... Será que um tinha alguma coisa a ver com o outro? — Susan, eu acho melhor discutirmos esse assunto. Você não quer um pouco de xerez? — Sim, obrigada. Andréa encheu um cálice de xerez e se serviu de uma dose de conhaque, apesar de normalmente só tomar Perrier ou vinho. Depois, sentou-se numa cadeira de frente para o sofá onde Susan havia se acomodado. — Desembuche — ela disse, usando uma expressão que sempre evitava. — Daphne ia muito ao Clube das Gaivotas — começou Susan, desabotoando o casaco. — O clube começou a funcionar em 1940. As pessoas precisavam de um lugar aonde ir, um cantinho onde pudessem esquecer as agruras da guerra. Na verdade, o nome foi sugerido por Daff, que depois disso passou a desenhar gaivotas em praticamente tudo. As gaivotas se tornaram uma espécie de marca registrada dela, uma assinatura. Daphne adorava aquele clube, que considerava um segundo lar. Papai e mamãe não gostavam muito... Era um lugar elegante, frequentado por pessoas finas, mas corriam

rumores de que o Clube das Gaivotas servia de fachada para a realização de negócios do mercado negro. Para falar a verdade, não me lembro muito bem dessa época. Era muito jovem. Além disso, depois que papai e mamãe morreram, passei a ficar a maior parte do tempo na escola. Mas lembro-me da insistência dos meus pais para que Daff fosse aos chás dançantes do Hotel Piccadilly e da Lyons, que consideravam muito mais respeitáveis. No entanto, aqueles chás dançantes não faziam muito o gênero de Daff. Ela gostava mesmo era de jazz, e não de valsa. Susan pegou o cálice de xerez, admirou a cor da bebida e tomou um gole. Depois, continuou: — Às vezes, Daphne andava por caminhos um tanto perigosos, mas só para se divertir. Também gostava muito de cantar. Cantava lvell Meet Again tão bem quanto Vera Lynn. Seja como for, papai e mamãe pararam de criticar aquelas idas ao Clube das Gaivotas depois que Daphne passou a chegar em casa com embalagens de ovos ou pacotes de açúcar. Um dos amigos dela, que servia na intendência do Exercito Britânico, sempre lhe dava sacolas com muito pão e barras de chocolate. As pessoas sempre davam coisas a Daphne, especialmente os homens. Isso se tornou ainda mais frequente depois que chegaram os americanos. Daphne ganhava meias de náilon, pacotes de cigarros, batons... Pelo jeito como ela se vestia, nem parecia que havia uma guerra em curso. — O clube ainda funciona? — Quis saber Andréa. — Oh não, meu bem. Ele se manteve por mais alguns anos depois da guerra, mas nunca mais foi o mesmo. Daff costumava dizer que o clube não tinha mais coração. Ela tentou fazer com que os

donos promovessem shows, contratassem as bandas da moda; enfim, criassem alguma agitação, mas eles não pareciam muito interessados. Imagino que o lugar tenha deixado de ser um centro de atração no momento em que as pessoas pararam de recorrer ao mercado negro. Susan parou de falar por alguns instantes e tomou outro gole de xerez. Em seguida, lançou a Andréa um olhar meio tímido. — Você acha que as suas gaivotas são parecidas com as de Daphne? Não acha que pode se tratar de... Desenhos psicografados? Aquele livro que lhe mostrei fala tanto de textos quanto de desenhos psicografados. Acha que Daphne podia estar querendo lhe revelar alguma coisa sobre o Clube das Gaivotas? Andréa mexeu-se na cadeira, meio sem jeito. — Estou começando a acreditar que você tinha razão Susan. Talvez não devêssemos ter mexido nessa história. Vai ver, Daphne deu-se por satisfeita depois que eu escrevi o livro dela. Não tenho passado por... Experiências estranhas desde que saí da sua casa. — Susan olhou fixamente para ela. — Está querendo dizer que eu não devo aborrecê-la mais? — Não, é claro que não. — Protestou Andréa sem muita convicção, o que Susan obviamente percebeu. — É melhor eu ir — disse a visitante com ar de desânimo, ao mesmo tempo em que se levantava. — Queria apenas lhe falar das gaivotas. — Foi bom ter feito isso — disse Andréa, outra vez sem demonstrar muita sinceridade. — Ouça Susan: não foi minha intenção ferir seus sentimentos. Apenas não sei o que fazer em

relação a tudo isso. Para falar a verdade, as coisas que aconteceram comigo na sua casa me deixaram apavorada. Susan não comentou aquela declaração. Com a cabeça abaixada, mantinha os olhos no tapete persa que forrava o chão da suíte. Os ombros estavam vergados, como se carregassem um fardo pesado demais para eles. — Fico triste pela morte de Daphne — disse Andréa finalmente, com ternura na voz. — Sei que você gostava muito dela. No entanto, não podemos fazer nada para trazê-la de volta. Susan balançou a cabeça. — É. Eu sei. Enquanto abotoava o casaco, ela mostrou um sorriso tão forçado que Andréa sentiu uma dor no coração. — Vou deixar que você mesma, decida isso — disse Susan caminhando para a porta. — Se quiser conversar novamente comigo, já sabe onde me encontrar. Se não quiser, mesmo assim quero que saiba que gostei muito de conhecê-la. Acho que para mim, foi bom ter finalmente aceitado a morte de Daphne como um fato. Sempre me lembrarei de que foi você a escolhida pela minha irmã para publicar o livro dela. Sem voltar a olhar para Andréa, ela abriu a porta e saiu calmamente. Durante algum tempo Andréa ficou escutando os passos da pobre mulher no corredor. Deveria estar aliviada, mas na verdade experimentava um forte sentimento de culpa.

CAPÍTULO VI
Como um causídico passaria uma tarde de domingo? Sentada à escrivaninha, na suíte do hotel, Andréa olhava pensativa para o telefone branco e dourado. Neville estaria em casa? Teria ido ao escritório ou saído da cidade? Bem, dificilmente ele estaria no escritório do centro da cidade. Pela imagem que ela fazia de Neville, se tivesse que trabalhar no domingo ele devia estar sentado por trás de uma enorme escrivaninha preta, no centro do espaçoso escritório de sua mansão. Na certa, naquele momento estava arrancando o lacre cor-de-rosa que fechava o envelope de um documento oficial. Mas por que corde-rosa? Sem dúvida, ela vira uma cena parecida em algum filme. O que ele estaria vestindo? Andréa não conseguia imaginá-lo em nada que não fosse um elegante e bem cortado terno, feito sob medida. Devia às vezes usar blazers esportivos; certamente feitos de tweed de primeiríssima qualidade. Camisetas? Jeans? Jamais! Era possível imaginá-lo à noite, na sala de estar da mansão, um charuto entre os dedos, vestindo uma jaqueta cor de vinho com lapela de seda, e ainda a calça do terno. Nessas ocasiões, naturalmente, estaria calçando chinelos de pelica. Andréa quase podia ver aqueles

Depois de algum tempo. Lilian entrava na sala vestindo um penhoar folgadão. Naquela cena imaginária. Afinal de contas. Lillian levava para o marido uma xícara de leite quente. conforme diziam algumas amigas de Andréa que costumavam sair com homens casados.cabelos grisalhos. Infelizmente. sair para um passeio. um show. Seria até bom conversar com uma pessoa totalmente desconhecida. poderia estar dizendo á qualquer uma daquelas Lillians. Segundo o próprio Neville. Andréa decidiu que não podia ficar trancada naquela suíte de hotel. Andréa imaginou Lillian vestindo um robe de algodão e com bobs nos cabelos. Será que as mulheres ainda usavam bobs? Agora. desta vez usando um conjunto de dormir azul-marinho. Podia também estar servindo um martíni. levando um cálice de xerez numa pequena bandeja de prata. estava em Londres. chegando para perturbá-lo. enquanto terminava de tomar uma deliciosa sopa de cebola com pedaços de queijo e um copo do excelente vinho da casa servido pelo Royal Camelot. podia ir ao bar do hotel para puxar conversa com algum outro ser humano. Em último caso. Como não gostou de nenhuma daquelas duas imagens. “Feche esse livro e venha para a cama Neville”. um mau casamento não exclui necessariamente o relacionamento sexual. o quase imperceptível sorriso que surgia para desaparecer logo em seguida. Meia hora mais tarde. ela se viu perguntando ao simpático barman se ele alguma vez já ouvira falar . o rosto aristocrático e inteligente. de preferência alguém que não tivesse esposa e filhos. ele e a mulher não se davam bem. Podia ir ver um filme. No entanto. ela também podia imaginar sua mulher Lillian.

mas a pergunta acabou saindo como se tivesse vontade própria. De fato. — O nome não me parece estranho — ele disse. Mark Cavenaugh nem mesmo chegara a servir como praça. porque certamente Andréa não tinha tido a intenção de fazer aquela pergunta. o piano bar estava quase vazio naquela calma noite de domingo. ditada por Daphne Murdoch. Mas isso foi há muitos anos. — É. . mas você não tem idade para se lembrar da guerra. enquanto limpava automaticamente com um pano o balcão de mogno do bar. O problema no coração.no Clube das Gaivotas. mesmo eles monopolizando todas as garotas. moça. também o impediu de combater durante a guerra. — Infelizmente eu não tinha idade para me alistar. — Foi durante a guerra — ajudou Andréa. que o acometia desde criança e acabou por matá-lo. Antes de responder o barman ficou pensativo durante um minuto. O barman ficou com os olhos distantes. Na verdade. Na verdade ela abrira a boca para comentar que havia pouca gente no bar naquela tarde. Nem o pianista estava presente. quando eu ainda era jovem. que cumpria olimpicamente o seu dever. — Meu pai foi capitão do Exército durante a guerra — mentiu Andréa. Havia apenas o barman. — O homem franziu a testa. Só podia ser uma ação compulsiva. — Estou me lembrando de um clube com esse nome que havia perto do rio. mas admirava aqueles oficiais. e um velhote franzino de jaqueta marrom e gravata-borboleta.

Houve muito falatório nos jornais. — Meu pai me pediu que nessa minha estada em Londres. não muito longe da estação do metrô de Blackfriars. mas deve estar vazio — continuou o barman cocando a cabeça. o clube não existe mais. mas não me lembro dos detalhes. Andréa sentiu um arrepio ao ouvir aquilo. — Essa Adega Biblioteca costuma ficar aberta aos domingos? Ela procurava falar com naturalidade. — O senhor se lembra de alguém que costumava ir ao clube? — Os olhos do homem brilharam. tentasse conseguir notícias sobre um velho amigo dele — inventou Andréa. — Tenho a impressão de que o prédio ainda existe. chamada Biblioteca. sim. mas não conseguiu abafar o caso. O dono do clube era um homem bem postado na sociedade. Ficava às margens do rio. Tenho a impressão de que foi fechado logo depois da guerra. mas parece que o velhaco está conseguindo ganhar um bom dinheiro. . — Parece que houve um problema com relação ao contrato de aluguel. Seja como for. — Ah. Parece também que houve um escândalo.— E o Clube das Gaivotas — lembrou Andréa. mas já estava quase se levantando do banco. o Gaivotas! Eu me lembro. — O velho Corny Cornforth trabalhava lá. antes que ele continuasse com aquelas reminiscências. Hoje em dia ele é dono de uma adega elegante em Down Street. Ele é a pessoa mais indicada para dar informações sobre o Clube das Gaivotas. Não pensei que fosse um negócio ao gosto de Corny.

Havia ali muito mais gente do que no piano bar do Royal Camelot. os ataques aéreos eram constantes naqueles dias. Já que eu vinha passar alguns dias aqui. o que não quer dizer que o lugar estivesse apinhado de fregueses. uma garçonete levou o Sr. Ao pedido de Andréa. Logo ficou evidente que o Sr. afirmando que os dois tinham sido muito amigos durante os anos da guerra. Os estilhaços passaram bem perto. Cornforth costumava provar as mercadorias que eram vendidas por seu estabelecimento. Repetindo a história fictícia do pai capitão. O homem coxeava visivelmente de uma das pernas. cuja decoração era bem mais charmosa do que tinha dado a entender o barman. especialmente as alcoólicas. pegou a garrafa de vinho que Andréa havia pedido e se serviu de um copo. Cornforth ao reservado que ela ocupou. o que talvez facilitasse a tarefa de Andréa. um táxi a deixou em frente à adega. mas graças à presença de espírito de Daphne. Andréa não estava certa de que conseguiria sustentar aquela . então em acrescentar detalhes: — Percebendo que uma bomba explodiria perto de onde eles estavam. — Depois que nos mudamos para os Estados Unidos. Sentando-se pesadamente. durante a guerra. papai não teve mais notícias de Daphne. ele me pediu para ver se descobria alguma coisa. Pelo que meu pai me contou.Vinte minutos mais tarde. nenhum dos dois ficou ferido. Uma vez. — Andréa ficou contente consigo mesma por ter tido aquela inspiração. ela o empurrou ao chão antes de se jogar. Daphne Murdoch salvou a vida do meu pai. Apressou-se. ela acrescentou o nome de Daphne Murdoch.

— Foram dias muito perigosos. — Apesar da guerra. mesmo não vendo mais sinais de dúvida nos olhos do homem. uma pessoa podia conseguir qualquer coisa Clube das Gaivotas. arranjei emprego numa fábrica de armamentos. Por isso. Brilhava como uma taça de cristal bem polida. até me chamava para dançar. balançando gravemente a cabeça. Cornforth meneou a cabeça para os lados. Talvez tenha sido porque eu era jovem e gostava daquela agitação. Por causa do meu problema na perna. — Lembro-me muito bem de Daphne — ele continuou. era um lugar formidável. sim. um gesto surpreendente num homem que mais parecia um sisudo mordomo saído de algum filme de Hollywood. os olhos brilhando. — O senhor deve ter ficado aliviado quando a paz foi declarada — supôs Andréa. Sem dúvida. realmente — ele comentou. "Vamos . o fim da guerra representou também o término de um período muito bom. vagarosamente. Ao fazer aquela revelação. A princípio. sim.história. querendo segurar o assunto. fui trabalhar no Clube das Gaivotas. Por outro lado. Vez por outra. Aquele. Cornforth piscou um olho para Andréa. era uma beldade. Por isso. não podia me incorporar às Forças Armadas. — Ele fez aquele comentário com indisfarçado orgulho. — Num certo sentido. mas o trabalho era monótono demais. gozava de uma enorme popularidade. Não preciso dizer que saía vencedora em todos. — Era uma garota linda e muito inteligente. qualquer coisa mesmo. Adorava dançar e se inscrevia em todos os concursos de dança.

. — Seu pai não lhe falou nisso? Andréa engoliu em seco. — Bem. Mesmo os grandes hotéis estavam sujeitos ao racionamento. O próprio Strand Palace reduziuse a servir hambúrgueres com fritas aos seus hóspedes. mais ou menos. homem!" Ah. — Bem. "Dê uma chance a uma garota solitária. O Ritz teve sua cota semanal de manteiga reduzida de cento e oitenta para quarenta quilos. — Nessa altura ele interrompeu o que dizia. de que nem lembro mais. é verdade. Ele costuma falar mais das garotas. provavelmente lembrando-se de que podia estar falando de algo que envolvesse o pai da interlocutora. — Que tipo de gente ia ao Gaivotas? — Inquiriu Andréa. e isso numa época em que a boa comida havia se tornado uma raridade. contente por poder dizer algo verdadeiro.. ela dizia. Provavelmente foi assim que o seu pai a conheceu.. Um pouco namoradeira. Ah. — Muito bonito — confirmou Andréa. Era uma garota sem nenhum tipo de afetação. . — Os ianques adoravam o Clube das Gaivotas — prosseguiu Cornforth. Ele era um rapaz bonito.. — Havia quartos no primeiro andar.. mas sem ser escandalosa. com evidente satisfação.. suponho. nem todos subiam ao primeiro andar. é claro. Daphne..Corny".. A maioria ia lá por causa da dança e da comida. Você acredita nisso? Eles deram ao prato um nome sofisticado. com aquele sorriso inesquecível. se eu lhe contasse o que acontecia naqueles quartos. Era sempre possível comer bem no Gaivotas. Precisa sacudir um pouco essa perna. mas não passava de hambúrgueres com fritas.

na maior parte. não foi? — Perguntou Andréa. homens de negócios. o Gaivotas fechou logo depois do término da guerra. — Que probleminha? — Ela perguntou. Mas entre os frequentadores incluíam-se também muitos civis. — Havia sem dúvida muitas garotas. na maioria. Havia também as menos refinadas. tomar café sem chantilly. não podiam se conformar em comer pão sem manteiga. fazendo um esforço de memória. Garotas lindas. mas não muitas. — Eu não diria que foi logo depois da guerra. não é mesmo? — Pelo que sei. jornalistas. — Nesse ponto. naturalmente. Quase todos era gente das melhores famílias. voltando a encher o copo de Cornforth com o que restava de Riesling.. A propósito. . As mercadorias no mercado negro custavam muito dinheiro. ele baixou o tom de voz. mas você não está pensando que isso representava algum problema para eles. oficiais. do tipo flor-do-campo. — Alguns frequentadores do clube deixaram de aparecer depois daquele probleminha. eu não voltei a ver Daphne no clube nos últimos anos de funcionamento.— Um ianque verdadeiro — aprovou Cornforth. alguns com sangue azul correndo nas veias. Esses então. assim como Daphne. O dono da adega juntou as sobrancelhas. Na verdade o Gaivotas conseguiu manter-se por mais uns cinco ou seis anos. mas não necessariamente ricas. rindo com cumplicidade.. Andréa lembrou-se de que o barman do Royal Camelot havia mencionado um escândalo. Garotas de boa família e bem educadas. E muitos militares.

mas não consigo . mas preciso trabalhar. De falo. Agora. medindo as palavras. a guerra havia terminado. Eu tinha vinte e poucos anos. Agora são águas passadas e nem sei o que me fez lembrar essa história. agora era tarde demais e aquela desculpa de nada adiantava. — O que deu em você. Andréa teve uma lembrança.. era preciso completar a informação. Desgraçadamente. seu pai já devia ter voltado para a América. Hoje parece até um absurdo. Quando voltou a falar. desconfiado. Levantando-se. sinto muito... Deixe ver. — Só sei que meu pai ficaria muito contente em tomar conhecimento de um fato relacionado com um lugar tão querido para ele.. — Desculpe. Cornforth ficou olhando para ela durante alguns instantes. 1948? Sim. Esta cabeça velha já não funciona como antes. porque nem consigo me imaginar tendo vinte e sete anos. — O que aconteceu em 1948? — Ela inquiriu. É que o senhor. — Nessa época. menina? — Contrapôs Cornforth com rudeza... Quanto ao que estivemos conversando. Cornforth pareceu estar dissimulando..De uma hora para outra. — Que história é essa de levantar a voz para mim? Só então Andréa caiu em si. foi esse o ano. Vinte e seis. Enquanto ele ria de si próprio. Bem. Atiçou a minha curiosidade — ela se justificou. foi com uma voz grave: — Espero que me desculpe senhorita.. reparando que outros fregueses da adega haviam mesmo se voltado para olhá-los. Susan tinha dito que algo ocorrido em 1948 havia deixado Daphne muito perturbada... em tom de interrogatório.

me lembrar dos detalhes. De nada teria adiantado ter pedido mais vinho. a julgar pelos andaimes que a cercavam. "Não muito longe da estação do metrô de Blackfriars" não era uma indicação lá muito precisa. mesmo que ela o assediasse durante toda a noite. Provavelmente ele havia se arrependido de ter mencionado a tal "probleminha" tão logo a palavra foi mencionada. apenas para esperar que o Sr. A porta da frente e as janelas que davam para o rio estavam fechadas com tábuas pregadas na parede. As portas e janelas dos . erguido um prédio de escritórios. Dificilmente concordaria em responder a mais alguma pergunta. Andréa foi dominada por um sentimento de frustração. Segundo uma placa afixada ali perto. Ela podia pelo menos circular pela área. Por outro lado. Era um prédio de três andares. Na verdade. E se tentasse encontrar o prédio onde havia funcionado o Clube das Gaivotas? Bem que devia ter pedido maiores detalhes ao barman do Royal Camelot. para ver se descobria alguma coisa. Os interessados na compra de conjuntos deveriam se dirigir a uma empresa localizada em Bloomsbury. Cornforth mudasse de ideia e resolvesse falar. não passava de uma enorme caixa de cimento e tijolos com janelas. Minutos mais tarde. em estilo arquitetônico não muito definido. evidentemente destinada à demolição. lembrava-se de ter ouvido o homem dizer que o Gaivotas ficava às margens do rio. Andréa não pensou duas vezes e apertou o passo. caminhando pela calçada. no local onde antes funcionara o Clube das Gaivotas seria.

A maçaneta girou com facilidade e a porta se abriu com um rangido. que evidentemente não funcionou. um enorme rato saiu correndo e se enfiou num buraco a um canto tão logo Andréa fez girar a maçaneta da porta. À luz fraca que entrava pela janela. O mais prudente seria voltar imediatamente para o hotel. uma lata vazia de Coca-Cola e três ou quatro pequenos sacos de papel engordurados nas beiradas. .fundos haviam recebido o mesmo tratamento. Que loucura ficar observando aquele prédio abandonado. Um instante mais tarde. A região estava em calma. desenhando o contorno da Ponte da Torre por sobre a superfície acobreada do rio. Andréa se viu num corredor comprido com uma sucessão de portas num dos lados dando para salas. Andréa percebeu que logo a noite cairia por inteiro. O animal evidentemente tinha estado se refestelando nos restos de comida que alguém havia deixado ali. sozinha num local tão deserto. Ao longe. Ali. Ela ouvia apenas o barulho abafado do tráfego nas ruas adjacentes. ela cometeu o erro de olhar num dos lados do edifício. Andréa automaticamente tocou a campainha. viu uma porta que não estava lacrada com tábuas. Mas que tolice! Estava claro que não podia haver ninguém ali. Quase convencida disso. Rio acima na margem oposta. Aproximando-se. era possível ver algumas embalagens de batatas fritas. o sol já começava a se pôr. já se viam as luzes de vários edifícios. Mais perto de onde ela estava já se acendiam. os gritos de uma gaivota solitária e um som de música ao longe. Na primeira sala. as luzes que iluminavam a torre da bonita Catedral de São Paulo.

mas apenas o mais recente. ao mesmo tempo em que buscava na memória o nome da canção que ouvia. Logo descobriu que aquele não era o único lixo existente ali. Havia uma sala de bilhar em cuja parede estava um velho alvo de dardos com quatro setas fincadas bem na mosca. Havia muitos rabiscos e inscrições nas paredes. mas revolveu seguir explorando o local. um ressurgimento do interesse pelas grandes bandas. desta vez vinda do andar de cima. Andréa tinha um amigo. a julgar pelas descoradas tabuletas afixadas nas portas. que nas festas que dava. Seria possível aquela parte do edifício ainda estar em uso? Cada vez mais curiosa. já nos últimos degraus da escada. a não ser pelos vários desenhos do símbolo da paz. verificava-se nos Estados Unidos. Algumas delas. Andréa encontrou a escada e foi subindo.Andréa sentiu um arrepio. ela já se preparava para voltar à rua quando ouviu novamente o som de música ao longe. — Im Getting Sentimental Over You — ela se lembrou. Sentindo certo alívio. e quase invariavelmente obscenos. sempre punha para tocar um disco de Tommy Dorsey com aquela canção. Nos últimos anos. Nada daquilo parecia ao menos remotamente familiar a Andréa. com ou sem . que estavam manchadas e maltratadas pelo tempo. tão pouco criativos quanto os que se costumava ver nos Estados Unidos. Aquele andar certamente tinha sido usado para escritórios e salas de jogos. muitas se criando especialmente para realizar turnês pelo país. Pôsteres antigos haviam sido arrancados aos pedaços das paredes.

autenticidade. A música foi num crescendo até o seu final. As cerca de trinta pessoas naquele salão de baile pareciam insubstanciais e efêmeras. Andréa se deu conta de que havia movimento. as imagens foram se solidificando e se tornando real. Instantes mais tarde ela abriu a porta dupla. mas o salão parecia vazio. Agora. nem mesmo a sensação de algo que já tinha visto. Duke Ellinghton. . Glenn Miller.. Gradualmente. Presos a cabos. pelo espaço de alguns segundos. Andréa cantarolava aquela canção ao se aproximar da porta dupla no final do corredor. Só que à proporção que ela olhava. cada uma mais malassombrada do que a outra. Imediatamente cresceu o som da música. nada de estranho no ar.. As pessoas percorriam as várias partes do castelo. Não havia nenhum zunido desta vez. por cima de um salão de baile em que fantasmas transparentes dançavam freneticamente. tal qual o holograma da Disneylândia. Andréa lembrava-se de ter passado perto do final. à proporção que ia olhando em volta para ver de onde vinha à música. Anos antes. usavam os nomes dos monstros sagrados da época de ouro do jazz: Dorsey e Riddle. Count Basic. merecendo os aplausos dos presentes. como se fossem feitas de fumaça. os carrinhos pareciam sobrevoar aqueles cenários mais engraçados que aterrorizantes. numa visita à Disneylândia na companhia de amigos. ela pensava estar presenciando uma cena parecida. que dava para um espaçoso salão de baile. ocupando carrinhos alados. ela havia se divertido muito no Castelo do Terror.

Até aquele momento ninguém parecia ter notado a presença de Andréa. não era real naquele salão? Talvez ela devesse fazer um pedido. como o meu pai". Sem dúvida. afinal de contas. As janelas estavam cobertas por pesadas cortinas pretas e nas paredes viam-se cartazes com frases e imagens patrióticas: "Seja um herói. inadvertidamente atravessado uma porta do tempo. evidentemente destoantes daqueles uniformes caquis. por favor". Só que o mesmo acontecia com aquelas outras pessoas. A essa altura Andréa estava a ponto de perder o autocontrole. Andréa achou que ninguém poderia deixar de reparar no elegante casaco de linho branco que estava usando ou nas calças largas que formavam um gracioso conjunto. bebericando seus drinques. Conversavam e riam. vendo-se agora numa outra era? Seria aquilo algo parecido com o que havia presenciado na casa de Susan Dailey. "Falar demais pode custar muitas vidas". O ar estava impregnado pela fumaça dos cigarros. em voz alta: "O fantasma de verdade queira dar um passo adiante. "A sua coragem nos levará à vitória". Que diabo estava acontecendo ali? Teria ela caído numa fenda aberta na terra e chegado ao domínio do absurdo? Ou então. o que não seria de admirar.Andréa permaneceu de pé à porta. paralisada. quando a . apesar das roupas que ela usava. azuis e brancos. reunidas em grupos ou sentadas em volta das mesinhas que circundavam a pista de dança. olhando perplexa para aquelas pessoas que haviam surgido do nada. Pareciam absolutamente reais. Será que agora ela é quem estava invisível? Olhando as próprias roupas. Quem. ela parecia real.

Na verdade. Andréa concluiu que aquilo significava que ele era um soldado convalescendo de ferimentos em combate. A inglesa usava um uniforme azul-marinho com botões prateados e segurava um cigarro apagado entre os dedos. Andréa viu que a própria Daphne estava ali. em elegantes roupas civis. não o impedia de dançar com a mesma animação dos outros. Um deles. Havia alguns senhores de meia-idade. mostrando enormes sorrisos. a apenas alguns passos da porta. ao som de uma canção que ela não conhecia. Andréa reparou que nem todos os homens usavam uniformes militares. olhando significativamente para dois rapazes. que se bem entendia a teoria da relatividade. no entanto. Algumas moças usavam vestidos com ombreiras.pequena Daphne Murdoch desceu escorregando no corrimão da escada? Seria mesmo possível dar um passo atrás no tempo? Andréa estava inclinada a acreditar. Em seguida àquele pensamento e representando mais um choque no sistema nervoso. de ritmo mais acelerado que a anterior. tendo ambos cerca de dezesseis ou dezessete anos. Logo em seguida as pessoas voltaram a dançar. de . Estavam todos se divertindo incrivelmente. além de um jovem vestindo um vistoso terno azul e gravata vermelha. só podia ter viajado a uma velocidade superior à da luz. os rapazes não passavam de adolescentes. enquanto outros seguiam o estilo mais tradicional. Isso ficava evidente também pelo fato de que o rapaz mancava de uma das pernas. Alguns pares sapateavam. o que. O penteado delas era parecido com o que Daphne usava quando apareceu no espelho. Fazendo um esforço de memória.

Mas como foi que você conseguiu Players? Ultimamente só tenho podido fumar uma porcaria chamada Sunripe. mas esquecendo-se de dizer que havia uma certa dose de gíria. moreno e meio gorducho.cabelos loiros e crespos. — Obrigada Gordurinha — agradeceu Daphne num tom doce. apertado demais para ele. . verificou Andréa. enquanto contemplava pasmada aquele trio. vestia um conjunto de calça cinza e blazer azul. Era a primeira vez que Andréa escutava a voz de Daphne adulta. usava um terno cinzento. Os dedos dela eram longos e delgados. Eram ambos bonitos. mas com aquela expressão facial indefinida dos garotos ainda na adolescência. Ele também não havia mencionado o tom rouco da voz. enquanto o outro. que conferia sensualidade mesmo àquelas expressões mundanas. enquanto o outro se atrapalhava com uma caixa de fósforo. Tragando a fumaça. Daphne tinha uma pele rosada e absolutamente perfeita. um jeito de falar inglês. A cor do uniforme realçava os olhos muito azuis e brilhantes. com unhas pintadas de vermelho. Ao falar das reações dela durante a hipnose. enquanto ela olhava diretamente para o rapaz moreno. apertando de leve o braço do rapaz. buscando o mesmo objetivo. que tem o gosto de casca de batata torrada. que dominavam o rosto encantador. mesmo". — Eu estava louca para dar uma tragada. Tony tinha se referido a um "sotaque britânico. Daphne acariciou a mão do garoto do isqueiro. O mais baixo dos rapazes apressou-se em acender o cigarro de Daphne com um isqueiro. Os cílios longos desciam e subiam a intervalos regulares.

mais Gordurinha deu de ombros. de uma forma tal que o pomo-de-adão se moveu visivelmente. — Está se referindo a Laurie McGregor? — Perguntou Gordurinha sério. E então. Pardal pareceu desconcertado. a quem dei o apelido de Lawrence da Arábia. vocês dois! — Caçoou Daphne. Andréa começou a se sentir dominada por algo que já havia sentido antes. Daphne riu. — Vocês viram Árabe? — Perguntou Daphne. arrastando-a na direção de Daphne e dos rapazes. Nesse momento. Ao mesmo tempo. vocês o viram? — Não. soprando fumaça no rosto de Pardal e apertando o braço de Gordurinha. — Não finjam que não sabem de quem estou falando. — Responderam os rapazes em uníssono.Olhando para o rosto de Daphne. não é mesmo? — Não diríamos. imitando o jeito de falar aristocrático do rapaz. se a mentira conseguisse fazer com que você . que estremeceu como se sentisse cócegas pelo corpo todo. O ar parecia carregado e ela ouvia um zumbido que aumentava de volume ao ritmo das batidas do coração. — Estou falando do tenente Lawrence McGregor. com estudada indiferença. uma força exterior a puxava. Susan tinha dito que Daphne costumava chamar alguém pelo apelido de Gordurinha. estou me referindo a Laurie McGregor — ela respondeu. Só podia ser aquele rapaz. mas que também é conhecido como Árabe por agir quase o tempo todo como um sheik de verdade. o rapaz engoliu em seco. — Vocês não me diriam se realmente o tivessem visto. — Ora. — Sim.

lembranças que às vezes se tornavam vivas a um simples fechar de olhos. Já que não estava de serviço. Ver aquele homem sempre provocava nela uma aceleração nas batidas do coração. era possível ver que ele cortava os cabelos muito curtos para rebelar a tendência natural que eles tinham para se encaracolar. se ele fosse só um pouquinho mais velho. Se o Árabe não aparecesse naquela noite.. ficaria simplesmente devastador. Depois de quatro anos dirigindo uma ambulância. Ah. olhando para ela com verdadeira adoração. Acima de tudo.. Daphne suspirou. se. Ele era tão incrivelmente bonito. Não esquecia também os horríveis relinchos dos cavalos nas estrebarias em chamas. Se ele tivesse alguns anos a mais e fizesse um regime para emagrecer.. seria uma boa ideia levar Gordurinha para casa. Faria bem a ele. havia aquele cheiro de cadáver. se. E a ela.ficasse ao nosso lado Daphne — reconheceu Gordurinha.. Era o Árabe em pessoa. um cheiro que persistia não importava a quantidade de sabonete de jasmim que ela usasse. membros ensanguentados arrancados de corpos pela ação de bombas e o som característico de um corpo embrulhado em lona sendo posto na ambulância. é claro que não passaria a noite sozinha. Eram imagem de crianças queimadas em incêndios.. Se. ela guardava muitas lembranças na memória. tinha as linhas . Daphne sorriu. achando Gordurinha um amor de garoto. Todo aquele horror desapareceu da mente de Daphne quando ela viu entrar no salão um oficial da Real Força Aérea. E se ela não estivesse tão louca pelo Árabe.. Apesar do quepe.

mesmo os adolescentes Gordurinha e Pardal a deixavam amolecida quando a olhavam de um certo jeito. Daphne. era ela própria quem sentia vontade de quebrar o nariz dele. todos os fantasmas que povoavam a mente dela retiravam-se para as sombras onde sempre deveriam ter ficado. Pardal e Gordurinha — ela murmurou. não vá Daff — suplicou Pardal às costas dela. Podia apostar que os rapazinhos não davam a mínima importância ao fato de ela ser mais velha.. olhando em volta. Andréa até desejava que ele quebrasse o nariz. porque os outros é que iriam ao seu encontro. Árabe ficou parado por alguns instantes. No entanto.. o importante agora era que a simples visão do Árabe a transformava numa mulher forte. — Por favor.. mas era quase capaz de desmontá-la por inteiro. porém. Daphne riu contente por não achar anormal a atração que sentia por homens mais jovens: uma coisa que muitas vezes inibia a sensualidade de muitas mulheres. Tinha apenas vinte e dois anos. Às vezes. só para diminuir um pouco aquele grau de perfeição e fazer com que as outras mulheres o deixassem em paz. Por outro lado.do rosto tão perfeitas.. Quando ele estava por perto. Devia ter consciência de que não precisava procurar por ninguém. quase nem mais se lembrava daquele garoto. displicentemente. Outras vezes. apagando o cigarro e saindo na direção de Laurie. . apenas pousando nela aqueles demoníacos olhos negros. E isso não tinha nada a ver com instinto maternal. Agia sempre com tanta segurança que ninguém suspeitaria de que era dois anos mais jovem que Daphne. — Até loguinho. corajosa.

pondo o quepe embaixo do braço. Ninguém saberia dizer ao certo o que Árabe fazia naquela guerra. na primeira vez que o encontrasse. — Acho bom ter uma história na ponta da língua. Acompanhando esse gesto. Por outro lado. só se lembrava de que havia resolvido tratar Árabe com desdém. além de gasolina e cigarros. No entanto. Às vezes simplesmente desaparecia. não parecia ter de cumprir nenhuma tarefa definida. havia no Clube das Gaivotas quem o considerasse um espião. e ninguém a submeteria a isso impunemente. Sempre que questionado. . reaparecendo semanas mais tarde. conhecia praticamente todas as pessoas que valiam a pena conhecer e sempre tinha dinheiro à vontade. tenente McGregor — ela o lembrou com os olhos fuzilando. Árabe não se mostrou nem um pouco assustado. com aquele sotaque gutural que traía a ascendência escocesa. Certamente por causa do mistério que o cercava. logo que chegou perto dele. — Apenas fiquei sobrecarregado de trabalho. beneficiando-se dos altos lucros proporcionados pelo mercado negro. Apenas riu. — Você jurou que me encontraria aqui ontem à noite. Afinal de contas. na noite anterior ele havia faltado ao encontro combinado. — Não vou inventar nenhuma história.Naquele momento. numa cômica imitação da postura nazista. Como de costume. fez uma reverência e bateu um no outro os calcanhares das botas. Não estava engajado em nenhum esquadrão de combate aéreo e também não fazia parte de nenhum batalhão terrestre. Outros diziam que ele usava sem autorização o uniforme da Força Aérea e que vivia de expedientes. Fraulein Daphne — ele disse.

que parecia capaz de descartar uma mulher na hora que bem lhe aprouvesse. Gordurinha era um rapaz esperto. A escolha é toda sua. Só que não podia dar provas de submissão total. Certa ocasião. a desculpa podia muito bem ser sincera. Árabe sorriu. Essa era uma das facetas mais irritantes daquele homem. que no dia mesmo em que estourara a guerra. Árabe havia revelado.Árabe respondia da forma mais vaga possível: — Não estou autorizado a falar sobre isso. minha cara. Isso podia ser verdade. Era como se quisesse dizer: "Me aceita como sou ou me deixe em paz". — Não está obrigada a isso minha querida. — Eles nem sequer dão a entender que trabalham para o Serviço Secreto. — Você sempre apresenta desculpas vagas e não sei se devo continuar acreditando. mas podia também ser uma forma cômoda de esconder a verdade. o fato é que Daphne estava caidinha pelo jovem oficial. Fossem verdadeiras ou mentirosas aquelas histórias. Por outro lado. porque Daphne não tinha a mínima duvida sobre o patriotismo dele. mas não escondia o ciúme que sentia por causa do relacionamento de Daphne com Árabe. lançando mão de todo o charme que possuía. às vezes até brilhante. — Não me venha com essa história de Fraulein — ela protestou. jurara pôr . — O pessoal do Serviço Secreto sempre tem uma história para contar — vivia dizendo Gordurinha. depois de alguns drinques.

Daphne não queria ficar bêbada. — Estão tocando Moonlight Serenade. Contendo uma generosa parte de gim. nem se lembrava mais de que motivos podia ter para sentir raiva. Vamos dançar? Uma vez nos braços dele. a partir de então. por aqui — ele constatou. Tinha dito aquilo com a voz mais natural do mundo. — Tem pouca gente da nossa turma. aquela bebida era uma espécie de calmante.sua vida a serviço da pátria. o coquetel da moda. mas só um pouquinho alta. continuou a prestar a mesma ajuda. Árabe sorriu com absoluta serenidade. depois de olhar em volta por alguns instantes. Como de costume. — Uma coisa chamada Dia D aconteceu enquanto você esteve fora — explicou Daphne. Tinha começado a beber na noite em que os pais dela foram feitos em pedaços pela ação de uma bomba. — Parece que a cidade inteira desertou. — Ouça — ele disse antes que ela pudesse fazer qualquer outro comentário sarcástico. Isso a faria esquecer temporariamente que havia uma guerra em curso. ela fumou bastante e bebeu um bocado de "Desgraça das Mães". de um jeito que foi impossível juntar as partes dos corpos deles. Para falar a verdade. — Não me diga que faltou a esse compromisso também. Daphne não podia mais continuar sentindo raiva. os poucos remanescentes da "turma" que . Terminada a dança. O gim a ajudara a atravessar aquela terrível noite e. mas bastou ele virar a cabeça para Daphne para perceber que havia lágrimas naqueles belos olhos.

não o George Gordurinha. tratava-se de um projeto de sir Frank Whittle. Árabe apenas tirou uma baforada de um dos cigarros que Gordurinha tinha dado a Daphne. aparentemente contrariado. Ike. Segundo Árabe. George. mas mostrou-se interessada quando o assunto passou para as táticas de Montgomery na França.. Monty desencadeará uma grande ofensiva e todo o front alemão desmorona.haviam permanecido na cidade sentaram-se para conversar. Árabe ficou em silêncio por alguns instantes. Talvez esta seja a última vez que uma guerra é conduzida dessa forma — ele disse profético. enquanto Daphne e Laurie seguiam de carro para a casa dela. Depois se pronunciou: — Esperem só para ver tão logo George Patton consiga atravessar as linhas inimigas. Laurie sempre agia como se tivesse conhecimento de tudo. Vivia citando nomes importantes. que as pessoas normalmente achavam pouco inspiradas. Está para entrar em cena um armamento que talvez torne obsoleta a própria guerra. com o que Daphne fez coro. Começou então.. Winston. fossem ingleses ou americanos: Anthony Eden. parte de uma . Mantendo o ar de suma sapiência. — Está vendo isso na sua bola de cristal? — Ela caçoou. Praticamente todos os presentes zombaram daquela hipótese. Trata-se de algo concebido por um punhado de cientistas. A sirene avisando um ataque aéreo soou na noite. Daphne não prestou muita atenção àquela conversa. George Patton. Herbert Morrison. uma discussão sobre um novo avião que estava para entrar em ação.

porém. que preferia a morte ao sentimento de claustrofobia. juntamente com milhares de outras pessoas. Aqueles mísseis sem nome pareciam tão impessoais e imprevisíveis. Mais . e pelos ingleses. Depois. Depois de tentar por alguns instantes simplesmente ignorar o som estridente de sirene. Já em meados do ano de 1944. que não precisavam de piloto ou avião que as transportassem. porém. até meados de junho. quando não estava em serviço. que eles estavam se dirigindo. Árabe riu e passou o braço por cima dos ombros dela. No início do ano. Daphne buscava abrigo nas estações subterrâneos do metrô. Um calafrio de medo começou a se espalhar pela cidade. Daphne afastou a cabeça do ombro do Árabe e soltou uma praga: — Droga! E esta era a minha noite de folga. Logo percebeu. à noite. continuando a segurar o volante com a outra mão. durante algum tempo os alemães escolheram como alvos as áreas que supunham as mais indicadas para concentração de navios de transporte e de combate. as bombas voadoras.amiga estrebaria transformada em residência. quando a Alemanha pôs em ação uma nova e terrível arma. de um breve período de descanso. Logo na primeira semana em que entraram em ação. em represália aos ataques feitos à Alemanha pelos americanos. Não era para um abrigo subterrâneo. eram ambos guerreiros mais do que experimentados. Londres pôde desfrutar então. 1940 e 1941. sabedores de que os aliados se preparavam para invadir a Europa. Nos primeiros anos dos ataques. provocaram nada menos de seis mil baixas. durante o dia. além daquele insuportável cheiro de suor. Londres havia se tornado alvo principal dos bombardeiros.

— Qualquer pessoa com um mínimo de sanidade .. dos abrigos subterrâneos. Recostando a cabeça no braço de Árabe.. Parecia uma casa de bonecas. se a casa estava mesmo desabando. Alguns prédios estavam irremediavelmente destruídos. ela acendeu um cigarro e ficou olhando os fachos dos holofotes que vasculhavam o céu da cidade. Um pequeno restaurante onde se servia a melhor carne de Londres estava com a fachada em ruínas. e muita — protestou Daphne alterando a voz. — Estou saturada dessa guerra estúpida — ela declarou. do arame farpado. antes uma interessante concentração de lojas antigas. com os cômodos abertos para quem quisesse ver. Por isso tudo. Pelo menos até aquele momento. mas não conseguiu ouvir o som dos motores dos aviões inimigos ou das baterias antiaéreas instaladas em Hyde Park.tarde. Daphne prestou atenção. — É claro que dou importância. Havia muitas estrelas e uma lua maravilhosa e perfeitamente redonda. não se materializara o motivo pelo qual as sirenes tinham disparado. acabou chegando à conclusão de que. — Estou cheia de ver gente morrendo. Estou cheia de tudo isso! Árabe olhou-a de relance. pouco adiantava procurar abrigo embaixo da terra. ajudou a tirar dos abrigos corpos de pessoas que tinham sido pisoteadas. de ter de ficar horas numa fila para arranjar um pouco de comida para a minha irmã Squirt. dos blecautes. A rua por onde eles passavam. — Não pensei que desse tanta importância a essas coisas. dos sacos de areia. havia sido atingida recentemente pelos bombardeios.

A guerra não tem nada a ver com honra. já estou cheia de ser forte e corajosa. pronunciando palavras que não sabia se eram uma prece ou . As pessoas acabam acreditando. — Quanto a mim. Promovem paradas militares e arrotam aquelas baboseiras sobre dever e honra. Daphne refreou o ímpeto anterior. Nesse momento.mental daria importância. essas coisas. de se ver cercada por antigos edifícios. Essa guerra idiota que siga em frente sem a minha participação. Gostava de sentir o cheiro de gasolina. Só que tudo não passa de politicagem. uma busca desenfreada por dinheiro e poder. viver no meio do barulho e do movimento. tanto que chegam a dar a vida por isso. — Ouvi essa conversa antes — ela contrapôs já num tom mais brando. Ambos sabiam que ela detestava a vida do interior. Daphne encostou a cabeça nos joelhos e protegeu-a com as mãos. ou pelo menos o que restava deles. ouviu-se um barulho ensurdecedor por trás deles. Ao se ver tratada pelo apelido. — Preocupe-se você com isso — ela rebateu. O que conta mesmo é o medo de morrer a qualquer momento. — Controle-se menina — censurou Laurie. patriotismo. — Essa guerra não vai demorar muito tempo Daff. — Você precisa manter o moral alto. Estou pensando seriamente em me mudar para o interior com Squirt. Vocês homens é que parecem adorar a guerra. glória. Daphne precisava da agitação de uma grande cidade. como o de uma locomotiva em pleno movimento.

uma hora mais tarde. — Estou no céu ou no inferno? — Ela perguntou. Quando Daphne se sentou novamente. O carro parecia ter sido colhido por um furacão descomunal. Não muito longe dali ouvia-se o sino de um carro de bombeiro. seguida pelo barulho de vidro quebrado. — Esse é que tem de ser o ânimo mocinha — ele disse em tom de aprovação. Agora eles estavam no enorme divã do quarto dela. tão incrivelmente belo. Tinha medo de não viver o suficiente para se tornar uma moça de verdade. enquanto não ouvisse o mesmo dos lábios dele. sentindo na boca o gosto do pó. é verdade. embora toda aquela poeira o impedisse de ver por onde estava indo. Estavam ambos nus. Laurie soltou uma gargalhada. impedindo a visão da área em volta. Talvez um pouco magro desde que havia começado aquela guerra. — Eu amo você Árabe — ela murmurou.blasfêmia. Continuava dirigindo como um louco. Ela própria não tinha um corpo feio. Daphne adorava sentir o corpo musculoso e peludo de Laurie. provavelmente seguido por uma ambulância. Roçando os dedos no rosto de Árabe. havia uma densa nuvem de poeira dentro e fora do carro. ela suspirou e sorriu para . Disse aquilo apesar de já se ter prometido que não repetiria tal declaração. ouviu-se a formidável detonação. Depois de um instante de silêncio. mas com curvas certas nos lugares certos. cercados pelas plantas e fotos de que ela tanto gostava. Bem que Daphne gostaria que ele não a chamasse de "mocinha".

— Parece que você não deu muita importância ao fato — especulou Daphne. Laurie riu de novo. Eu realmente não posso lhe dizer o que faço ou aonde vou. não é mesmo? — Árabe soltou uma risadinha. Daphne suspirou. — Se tenho de morrer. — Não vou esperar sentado até que alguma coisa me atinja. provavelmente vou lamentar. — Aquela bomba voadora.ele. Se demonstrasse tristeza. . — Por onde você andou nessa última semana. — Certo demais. Quando a guerra terminar. contrariado. — Vai ser preciso mais do que uma dessas armas secretas de Hitler para me deixar assustado. Ele franziu a testa. prefiro que seja em ação — ele disse dando de ombros. Acho até bom às bombas explodirem por perto. Árabe apenas emitiu um resmungo ininteligível. — Não é história Daphne. porque gosto de viver no limite. afinal? — Interrogou Daphne. — Hoje foi bem perto de nós — ela disse com brandura. — Você pode encontrar emoção em outras atividades — ela argumentou. como às vezes fazia. Laurie podia simplesmente ir embora. como dizem os australianos. — Você não teve medo nenhum. — E não me venha com essa história de dizer simplesmente que estava cumprindo uma missão.

Livros abertos são aborrecidos. procurando tocá-lo nas partes em que ele gostava de ser tocado. como normalmente acontecia. Durante algum tempo Daphne ficou contemplando os traços do rosto dele. — Você gosta do mistério Daff. Árabe ergueu um pouco o corpo. não se mantinha totalmente passiva. Em seguida ele se inclinou por cima dela e beijou-a com ardor. começou aqueles deliciosos movimentos ritmados que a faziam gemer de prazer. Foi um orgasmo conjunto. Daphne. Ela adorava aquelas mãos. à luz fraca que vinha da porta do banheiro. levando-a quase ao orgasmo. por sua vez. apoiando-se nas mãos e sorriu para ela. Laurie adormeceu logo em seguida. o que acontecia com frequência. concluiu que ele devia ter mantido abstinência sexual desde o último encontro deles. acariciava-a pelo corpo todo. Daphne se deixou penetrar. Tentou se lembrar se havia cerrado todas as cortinas da casa. Aposto que não me amaria se eu fosse um livro aberto. um gozo acompanhado por juras de amor murmuradas ao ouvido.— Por que nunca posso ter certeza de que você está me dizendo à verdade? Desta vez ele riu com vontade. já que até aquele momento nenhum fiscal do governo havia batido à porta. Em seguida. Ao mesmo tempo. Apartando as pernas. Agora a mão intrometia-se entre as coxas dela. em obediência às regras do blecaute. fazendo com que Daphne até se esquecesse da pergunta. Concluiu que devia ter feito isso. mesmo quando elas chegavam a machucá-la na ânsia de carícias. Ao segurar o membro enrijecido de Árabe. .

mais doce. Apesar disso. Pegando em primeiro lugar a carteira de Laurie. ela examinou o conteúdo. Só Deus poderia dizer onde Laurie tinha comprado àquela camisola. mais frágil. Depois. Laurie. O rosto jovem mostrava-se mais vulnerável. todos haviam se acostumado a carregar cartões de racionamento. um tenente da Real Força Aérea. também desejam ter um homem duro. Isso era estranho. cupons. Estaria mesmo envolvido com o Serviço Secreto? Ou seriam verdadeiros os rumores de que era um espião? Com dedos subitamente trêmulos. No caminho. vasculhou os bolsos do uniforme. mesmo acordado. Laurie aparentava mais idade que de fato tinha. Daphne pôs a carteira de volta na cadeira e olhou para o homem de cabelos pretos que dormia placidamente na cama dela. como os adorados Pardal e Gordurinha. "Será que todas as mulheres gostam de ser dominadas? Será que secretamente. carteiras de identidade. até egoísta?" Cedendo a um impulso.Adormecido. encimado pelos cabelos cortados rentes. não levava nada que o identificasse. Daphne desejava que ele fosse sempre assim. Com a guerra. Só que. rude e às vezes. se fosse assim. Daphne escapuliu da cama e atravessou o quarto na direção da cadeira onde ele havia deixado às roupas. apanhou a camisola branca de seda que havia ganhado dele no Natal anterior. Estava ali um soldado que podia ser . Ela própria jamais tirava do pulso direito o bracelete com o número de identificação: GCOP 223/3. ela não o amaria de uma forma tão intensa. Não sabia direito o que estava procurando e acabou não encontrando nada.

Por alguns segundos Andréa visualizou.morto a qualquer momento. Nesse momento as têmporas de Daphne começaram a latejar. Obviamente. era . achando que talvez um pouco de ar puro a ajudasse a se sentir melhor. mas até aquele instante ela jamais havia levado a sério aquela possibilidade. Comparado com o que havia experimentado antes. Depois. Ao mesmo tempo. Andréa Cavenaugh a princípio não tinha certeza se era ela própria ou Daphne Murdoch. Segurando a cabeça com as duas mãos. Ajoelhada a um canto do salão de baile do Clube das Gaivotas. acendiam e apagavam a intervalos curtíssimos. até que ela se convenceu de que estava tendo algum tipo de ataque. cravariam os dentes na carne até chegar aos ossos. talvez semanas. Morreria sozinha naquele prédio em demolição e talvez se passassem dias antes de ser encontrada. o esqueleto em que se transformaria. na frente dela. e juntos eles encheriam de buracos aquelas roupas de linho. aumentava aquela terrível dor de cabeça. estava morrendo. Ao mesmo tempo. Por duas vezes. até que se sentiu em queda livre no meio da escuridão. O rato que ela vira se escondendo por ali em algum lugar chamaria os companheiros. com a mente povoada de lembranças. porque não suportaria a ausência definitiva dele. ela ouvia um som agudo que aumentava de volume de uma forma quase insuportável. mas os músculos das pernas pareciam ter perdido a força. tentou se pôr de pé. apertava os olhos contra as luzes que. Simplesmente não conseguia pensar na morte relacionada com Árabe.

que o obrigaria a tentar outra forma de abordagem. sem dar sinais de que o deixaria em paz. o estava evitando. mantinha-se firme na determinação de não estabelecer contato com homens casados. de armas e bagagens. mas também pela forma como a imagem dela havia se instalado na mente dele. desligando o telefone e ficando por alguns instantes com os olhos fixos na parede do escritório. Cavenaugh não está atendendo ao telefone — informou a telefonista da turma da noite do Royal Camelot. Já havia deixado inúmeros recados para Andréa. num tom meio arrogante. CAPÍTULO VII — Sinto muito cavalheiro. Aquilo estava se tornando uma verdadeira obsessão.até uma sensação agradável. — O senhor quer deixar recado? — Não obrigado — dispensou Neville. Na quinta- . Obviamente também. mas a Srta. não só por causa das inúmeras questões surgidas a partir da leitura do livro. Neville precisava de qualquer forma voltar a se encontrar com Andréa. Apesar daquela resistência tenaz. ela não tinha a mínima intenção de lhe dar uma resposta. Pelo jeito. Obviamente.

ali mesmo no tribunal. Na manhã seguinte. as maçãs do rosto proeminentes. por baixo da peruca.feira anterior. por exemplo. a testemunha perguntava ao funcionário do tribunal: — O que aconteceu com ele? Ficou com o miolo mole? O juiz Justice Templeton observava a cena calmamente. bastou ele ouvir menção a "uma americana" para imediatamente se lembrar de Andréa. — Desculpe excelência — pediu Neville. que tinham a mesma tonalidade castanha dos olhos. cocando a cabeça com a ponta do lápis. chegando quase a resultar numa ereção. ao interrogar uma testemunha em plena sessão do tribunal. O promotor Stanley Witman. Acabou perdendo a causa. Aquelas imagens provocavam nele reações de que já nem se achava capaz. esquecendo-se de passar no . ele foi de casa diretamente para o tribunal. até ergueu o corpanzil para perguntar languidamente: — Será que finalmente o bom Deus resolveu emudecer meu douto amigo? Quando Neville voltou à realidade. a forma ereta como ela se sentava e o jeitinho com que arrumava os cabelos por trás das orelhas. que ficou compreensivelmente enfurecido com a rigorosa sentença ditada pelo juiz. voltando a interrogar a testemunha com redobrado vigor. dando ao semblante um aspecto forte. outra vez com Andréa na cabeça. e equilibrando os óculos na ponta do nariz. Durante vários segundos. não pensou em nada além das imagens que o nome evocava: os cabelos na testa. O pior foi ter de encarar o pobre cliente.

escritório para pegar documentos absolutamente necessários à defesa da questão que estaria em julgamento. Aquela incapacidade de controlar o próprio pensamento já o estava deixando assustado. Sem dúvidas, precisava fazer alguma coisa a respeito. Confortavelmente instalado na cadeira giratória forrada de couro, com os dedos entrelaçados por trás da cabeça, Neville olhava o lustre de cristal suspenso no teto e meditava sobre aquele problema quando Lillian entrou no escritório. — Desculpe o atraso querido — ela disse. — A reunião demorou mais do que eu esperava. Constance Frobisher falou, e falou, e falou... Você sabe como ela é. Como Neville se mantivesse em silêncio, depois de alguns instantes ela retomou a palavra: — Gostaria de ter uma palavrinha com você Neville, se é que não está ocupado. A voz dela estava mais aguda do que o normal, parecendo o barulho de um giz esfregado de mau jeito contra um quadro-negro. — Nunca estou tão ocupado que não possa conversar com você querida — respondeu Neville polido, aprumando-se na poltrona. — Quer que lhe prepare um drinque? Lillian balançou negativamente a cabeça e sentou-se no braço da poltrona em frente à escrivaninha do marido. — Tomei um pouco de Chardonnay durante o jantar. — Aquilo talvez explicasse a coloração avermelhada nas faces normalmente pálidas. — Você devia beber vinho com mais frequência — recomendou

Neville. — Fica com boas cores. Mas como foi a reunião? Tinha alguma coisa a ver com o Festival de Arte de Verão, não é mesmo? Lillian sorriu satisfeita por ele estar lembrado. — Espero que Marjorie tenha tomado conta de você direitinho querido. — Tomou sim, como sempre. Preparou um assado realmente gostoso. Depois disso, fez-se silêncio durante alguns instantes. Pacientemente, Neville esperou enquanto ela pensava numa forma de dizer o que pretendia. Finalmente Lillian resolveu falar: — Vou ficar ainda mais ocupada durante algum tempo querido. O planejamento do festival tomará todas as minhas tardes e talvez algumas noites. Há muito que fazer. De imediato, Neville pensou em Andréa. Agora teria tempo para procurá-la antes que ela deixasse o país. Se ao menos conseguisse persuadi-la de... O suspiro que ele deixou escapar foi tão evidente que Lillian mostrou uma expressão de culpa. — Não se preocupe comigo querida — apressou-se em dizer Neville. — É claro que conseguirei me arranjar sozinho. Acho até que vou aproveitar essas noites para pôr em dia alguns processos atrasados. — Ótimo! — Exclamou Lillian, corando em seguida e rindo nervosamente. — Não que eu ache ótimo você ficar trabalhando até tarde, é claro. Só quis dizer que... — Eu sei o que você quis dizer — interrompeu Neville, sentindo um pouco de pena da mulher.

Naquela noite, Lillian parecia muito mais bonita do que de costume. Vestia um conjunto cor-de-rosa, uma cor que raramente usava, mas que lhe ficava muito bem. Parecia até estar com um novo penteado. Pelo menos, as mechas de cabelo ocupavam mais harmoniosamente a testa larga. — Conseguiu afinal a adesão daquele tal pintor? — Perguntou Neville, tentando demonstrar interesse. — Está se referindo a Giles Forsyte? — Falou Lillian, depois de um breve silêncio. Havia uma ponta de insegurança na voz dela, quase nervosismo. Será que estava surpresa pelo interesse que ele procurava mostrar? Provavelmente... O interessante é que estava outra vez ruborizada, o que a deixava ainda mais bonita do que antes. — Esse mesmo — confirmou Neville, buscando na memória mais dados com que pudesse mostrar que se interessava pelas coisas dela. — Acho que se trata de um amigo seu, pelo que você me disse... Não é um coronel da reserva? Lillian balançou afirmativamente a cabeça, entusiasmada. — Ele é um homem fantástico! Você acredita que Giles ficou um tempão sem pintar, só retornando à atividade artística há pouco tempo? E há tanta energia, tanta vitalidade nas pinturas dele! Mesmo sem se ligar às escolas tradicionais, elas transmitem muita força, além de um enorme charme... Oh querido! Você deve estar achando uma chatice esse meu entusiasmo infantil. Sei que o Expressionismo não está entre os seus maiores interesses. — É claro que não está me aborrecendo querida — mentiu

Neville galante. — Então, não vai ficar zangado se eu me ausentar com mais frequência nos próximos dias? — De jeito nenhum — garantiu Neville, desta vez com sinceridade. Lillian retirou-se satisfeita, e ele voltou a pensar em Andréa. Mal ouviu sumirem os passos da mulher que subia a escada, pegou o telefone e discou o número do Royal Camelot. — Não cavalheiro, a Srta. Cavenaugh ainda não voltou — informou a telefonista do hotel, no mesmo tom aborrecido. Desligando o telefone, Neville olhou o relógio de parede. Onde diabos estaria Andréa às onze horas da noite de um sábado? Neville suspirou, reconhecendo que afinal de contas, não tinha a ver com o que Andréa podia estar fazendo. Na névoa da manhã, quatro cisnes deslizavam silenciosamente na água por baixo da Ponte Blacfriars. O barulho do tráfego de uma segunda-feira de trabalho era abafado pela névoa que encobria o rio, o que dava àquela cena um ar bucólico. No salão vazio do Clube das Gaivotas, Andréa mexeu o corpo e estirou as pernas. Devia ter estado um bom tempo na posição fetal, uma postura que sempre provoca câimbras. Pondo-se de pé, num movimento que mostrou a rigidez das articulações, ela fez uma breve avaliação da própria figura. A calça apresentava um rasgão comprido numa das pernas e o casaco de linho parecia tão amarrotado e sujo quanto um saco de batatas usado.

Andréa franziu a testa e cocou o pescoço, lembrando-se de que a certa altura havia temido pela própria vida. Aparentemente havia sobrevivido, apesar de não se sentir no melhor de sua forma. Estava com um zumbido insistente nos ouvidos e sentia como se a garganta houvesse sido esfregado com uma palha de aço. Daphne fumava muito! Ao ter aquela lembrança, Andréa estremeceu e forçou-se a caminhar depressa para a saída, produzindo com o salto dos sapatos um barulho que ecoou pelo salão. O melhor seria fazer em primeiro lugar as coisas mais importantes. Precisava sair rápido dali, antes que chegasse algum operário da demolição ou entrasse um policial para verificar por que a porta estava aberta. Ela podia até ser presa por ter invadido o local. Quando estivesse outra vez na segurança do hotel, poderia pensar à vontade sobre aquela experiência recente. Antes, não. Uma hora mais tarde, de banho tomado e enrolada num confortável roupão atoalhado, Andréa pediu que lhe servissem na suíte um reforçado café da manhã. Depois de devorar quase tudo que foi servido, pediu à portaria que não deixasse ninguém perturbá-la e enfiou-se na cama. Não pretendia dormir. Na verdade, tinha até medo de adormecer. Queria apenas descansar um pouco, relaxar os músculos. Caía uma chuvinha fina, o que era uma boa desculpa para tirar um dia de folga. Bem, era preciso encarar aquela situação. Afinal de contas, durante horas ela vivera dentro de Daphne Murdoch, um fato que absolutamente não podia ser desprezado. Tinha fumado os cigarros de Daphne, bebido os drinques dela, dançado e flertado com os

amigos de Daphne, além de ter ido para a cama com tal Lawrence McGregor, a quem chamara de "tenente" McGregor, com aquele sotaque marcadamente britânico. Ela tinha bem vivas na memória às lembranças de Daphne sobre as vítimas dos bombardeios aéreos, como se fosse um pesadelo dela própria, e sentia ainda o medo de Daphne quando quase foi atingida, na companhia de Árabe, pela bomba teleguiada. Podia tentar se convencer de que havia sentido uma alucinação muito forte, mas sabia que não era bem essa a verdade. Era preciso analisar a coisa de uma forma... Criativa. O que havia acontecido era algo impossível, mas havia acontecido. Portanto, era preciso aceitar o fato e examinar as possibilidades. Regressão. Essa era a palavra que Willi usara para definir aquela primeira experiência fantástica. Muitas pessoas que acreditavam em reencarnação afirmavam ter passado por experiências de retorno a vidas passadas. Nesse rol incluía-se até gente famosa, como Shirley McLaine, por exemplo. O único problema com aquela teoria era que Andréa não acreditava realmente ter vivido numa época passada. Seria isso possível? Quando adolescente, ela havia pensado seriamente na possibilidade de se viajar pelo tempo. Foi na época em que o assunto esteve em moda, sendo focalizado por vários escritores de ficção científica. Independentemente da própria vontade, haveria ela encontrado uma forma de pôr em prática aquela teoria? Não, a experiência por que Andréa passara não tinha nada a ver com as viagens pelo tempo, pelo menos não da forma como eram descritas pelos ficcionistas. Ela já vira vários filmes sobre o

assunto e lera alguns livros, chegando mesmo a acompanhar uma série famosa da televisão, O Túnel do Tempo. Nessas obras de ficção, as pessoas viajavam pelo tempo e presenciavam fatos do passado, às vezes até participando deles, mas Andréa não se lembrava de nenhum exemplo de alguém que houvesse assumido a identidade de uma outra pessoa. E, quanto a esse aspecto da questão, não havia a menor dúvida: durante a noite, Andréa Cavenaugh havia interrompido sua existência, passando a ser Daphne Murdoch. Chegara mesmo a sentir o orgasmo de Daphne. Andréa riu nervosamente. Logo em seguida, teve uma lembrança e se pôs de pé, passando a mexer nas gavetas da penteadeira. Minutos depois, como não encontrasse ali o que estava procurando, tentou o armário de roupas. O livro presenteado por Charles Havilland parecia haver desaparecido. Quando já estava para desistir, Andréa encontrou o volume na prateleira mais alta do armário, sem dúvida posto ali por alguma camareira diligente. Outras Terras, Outras Gentes. Levando o livro consigo para a cama, Andréa o abriu com cuidado. Depois de ler o parágrafo inicial do primeiro capítulo, verificou meio aliviada, meio desapontada, que ele relatava casos de pessoas que haviam sido "trazidas de volta à vida" depois de terem sido declaradas clinicamente mortas. Aquilo não tinha muito a ver com a experiência dela. Mesmo assim, havia traços de semelhança, o que ela descobriu ao ler frases de alguns relatos: "Eu me sentia como se estivesse caindo, caindo, caindo..." "Eu podia me ver deitado naquele lugar". "Eu me vi no meio de uma enorme

Andréa estendeu a mão para afastar as cobertas. com um anjo da guarda." Andréa estremeceu e leu uma experiência relatada mais adiante: "Eu estava fora do meu corpo. Relutante.. o Árabe. não antes. Andréa pôs o livro de lado e descansou a cabeça no travesseiro. Além disso.. como se houvesse sido gritada por alguém no meio de uma vale cercado por montanhas altas. era o que tudo levava a crer. Andréa balançou a cabeça e riu. Portanto. Foi uma ocasião muito feliz.escuridão. reparou que o livro estava aberto numa das últimas partes. pelo menos não muito. Ao ler o título daquele capítulo. Sem dúvida não era uma coisa muito. Direita um anjo da guarda entregar-se ao jogo do amor carnal.. Pelo menos. sentiu um arrepio percorrendo toda a coluna vertebral: "Reencarnação". pessoas que já haviam morrido. Havia aquelas pessoas todas em volta de mim. Nesse momento. pensando em se levantar para pedir mais café. O Dr.. A palavra ecoou na mente dela. Nenhuma daquelas histórias se ajustava à dela. Rindo daquele humor macabro. Todos os meus anjos da guarda estavam lá". Ela havia sentido como se estivesse morrendo depois da experiência. continuava viva. a morte podia ser riscada da lista de opções. Minha avó e outros parentes e amigos estavam lá. ela acomodou outra vez a cabeça no travesseiro e começou a ler a introdução do capítulo. imaginando se seria possível alguém confundir Lawrence McGregor. ou apenas cochichada na Galeria de São Paulo. Havilland começava exortando o leitor a livrar-se de todo .

é tão surpreendente nascer duas vezes quanto o é nascer uma única vez". O Dr. servindo de morada provisória para uma alma que ia aprendendo lições. todo ser humano possuía uma alma imortal. Para os céticos. entre os quais os zunis. O corpo físico segundo ele tinha uma importância apenas secundária. Além disso. Baseado em suas pesquisas. Segundo ele. a reencarnação era à base do ensino de religião e filosofia em todo o Oriente. ele parecia dizer com a voz retumbante de um profeta. Havilland continuava dizendo que os gregos e romanos da Antiguidade acreditavam na reencarnação.e qualquer preconceito. Também afirmava que milhões de pessoas no mundo ocidental viam na reencarnação a mais lógica explicação da vida e da morte. Para o Dr. o Dr. passava a ocupar um novo corpo sempre que uma vida chegava ao fim. que em reencarnações sucessivas. bem como nas lendas dos esquimós e dos índios da América. a reencarnação era um fato sobre o qual não pairava a mínima dúvida. Havilland. explicava que havia passado muitos anos coletando informações de gente que passara por experiências de regressão espontânea a vidas anteriores. bem como de pessoas que havia deliberadamente recorrido à hipnose para vasculhar o passado. os sioux e os incas. "Decidir sem investigar conduz à ignorância perpétua". acumulando experiências e crescendo no aspecto intelectual. mas tinham . Na continuação. citava Voltaire: "No final das contas. Era uma crença que estava presente no misticismo dos druidas. Algumas almas eram mais avançadas do que outras. Havilland chegava a supor que a crença na reencarnação datava de antes da História escrita. moral e espiritual.

eu próprio me transformei naquele soldado. Todos os terríveis males da humanidade. o que estaria na parede do cômodo seguinte". “Eu presenciava o que parecia ser uma batalha”. O carma. cada vez mais agudo. minha atenção foi chamada por um soldado em particular.todas as oportunidades de se desenvolverem em todos os sentidos. um armário com desenhos de cogumelos. a fome. as doenças contagiosas. Respirando fundo. Ela parecia ter se transformado numa pessoa diferente. representavam um aprendizado para as almas neles envolvidas. . No meio daquela confusão toda. A sala foi aos poucos desaparecendo". não era uma punição. o terrorismo. segundo o Dr. Também naquele capítulo. Eu conhecia aquele lugar. Transpirava como ele. sentia o seu medo. De súbito. Andréa sentou-se na cama e aprumou o corpo. como a guerra. Andréa lembrou-se de que havia sentido a falta de um armário no quarto de Daphne. havia relatos de pessoas que tinham tido visões de vidas anteriores: "Um som estridente tomou conta dos meus ouvidos. mas sim um conjunto de lições que não foi aprendido em vidas anteriores e tinha de ser resolvido nas subsequentes. a dor do ferimento de baioneta no braço. continuou a leitura: "Quando olhei para minha esposa. sabia o que iria encontrar depois da porta. As experiências mais duras representavam sempre as maiores lições da vida. Com um estremecimento. Havilland. vi que os olhos dela haviam mudado de verdes para castanho-escuros.

mergulhando no espaço”." Sob hipnose. Andréa fechou o livro. Sucediam-se outros no mesmo tom: "Meu tornozelo chocou-se contra a barra de ferro e ouvi claramente o som do osso se partindo". “O som agudo voltou aos meus ouvidos. Eu me sentia flutuando.. caindo. as lembranças do passado tinham a mesma clareza. — Ela disse em voz alta. Quando foi exatamente que Daphne . Apesar daquela negativa. Reencarnação. colocou-o no criado-mudo e deitou-se novamente. "Eu não estava apenas olhando para ele. um minuto mais tarde. Mais tarde descobri que séculos atrás. o material da ponte foi se transformando de metal em madeira. — Estou curiosa — confessou Andréa. havia ali uma ponte de madeira. Quando voltei à minha própria identidade. Andréa engoliu em seco e foi passando rapidamente as páginas." "Eu estava lá. o gosto da comida.. fechando os olhos. mas era ele". numa existência passada. vivera como aquela pessoa. dizia um dos relatos... não chegamos a falar em datas precisas. — Não. viu-se pegando o telefone e discando o número de Susan Dailey. lendo por cima um ou outro texto: "Eu sentia o aroma das flores." "Presenciei minha própria morte no corpo daquela pessoa”... no corpo daquela pessoa”. — Em todas as nossas conversas. o vinho escorrendo pelos cantos da boca. "Enquanto eu olhava. depois dos cumprimentos de praxe."Senti que tinha estado ali antes. percebi que em outra época.

... Andréa Cavenaugh havia nascido no dia 31 de janeiro de 1951. Era um absurdo querer se certificar de uma coisa que já sabia lá tanto tempo. abriu na primeira página. Por que quer saber? Suando frio.. tirou de lá o passaporte. Com dedos trêmulos. sei. Mal desligou o telefone. Até outra hora Susan. dia 30 de janeiro de 1951. preciso me arrumar para sair. mas também não chegara a parar. Acabou forrando o chão com a capa de . — Foi uma terça-feira. Todos pareciam acabrunhados e abatidos.desapareceu? — Nunca vou me esquecer daquele dia — declarou Susan com convicção. Apesar dessa chuva. Andréa gaguejou uma desculpa: — É que. Depois de ficar olhando por alguns instantes a capa azul do documento. falando rápido e nervosamente. um dia após o desaparecimento de Daphne Murdoch. Depois de conferir a bagagem. A chuva não havia aumentado. Andréa correu para pegar a carteira onde guardava os documentos pessoais. Por que não vem até aqui para conversarmos mais um pouco? — Sinto muito Susan. É só curiosidade! — Ah. onde estavam anotados os dados pessoais. O aeroporto Heathrow estava apinhado de gente naquela tarde. mas naquele momento precisava desesperadamente de uma confirmação: de fato. — Tenho vários compromissos para hoje. Andréa encontrava dificuldade para achar um lugar para se sentar na sala de espera. mas não vou poder — ela se desculpou.

perto de um simpático e barulhento grupo de jovens dinamarqueses. a única cidade em que se sentia em casa. a troca natural de informações entre os leitores fará o resto.chuva e se sentando ali mesmo. que pareciam ansiosos para praticar o inglês. Agora. propôs-se a ficar para cumprir os compromissos programados. pelo jeito estudantes que iam passar as férias de verão nos Estados Unidos. — Para falar a verdade. ela fechou ostensivamente os olhos. Depois de trocar alguns comentários com os estudantes. ao ver na capa do passaporte o emblema da águia americana. e isso é o que realmente conta. como se pedisse que não a perturbassem. Queria chegar logo a San Francisco. garantiu que o coquetel e as poucas tardes de autógrafos que ainda restavam podiam ser facilmente cancelados. porém. sentir o cheiro saudável da comida na loja de produtos naturais. rever gente amiga. . Logo pela manhã. mas covardemente resolveu que escreveria para ela de San Francisco. A agente inglesa foi tão simpática que Andréa. Num impulso. tinha decidido retornar logo aos Estados Unidos. telefonou a Felicity e disse que não estava se sentindo bem. nem sei se essas bobagens servem mesmo para vender livros — disse a inglesa naquele seu jeito despachado. descansar no aconchego do apartamento. dominada pelo sentimento de culpa. o que não chegava a ser uma mentira. Durante um bom tempo Andréa pensou em telefonar para Susan. Felicity. — A televisão já divulgou a sua imagem. Também pensou em ligar para Neville. Havia dormido muito pouco na noite anterior e estava exausta. se despedindo.

. Seria necessário. Na certa. quando estivesse outra vez em casa. Naquele meio entorpecimento. Havia tempo de sobra para um bom cochilo. O corpo inteiro pulsava de uma forma agradável. Agora. Para isso. Assustada. e começou a sentir a cabeça leve. mas as pálpebras pareciam seladas. a vida dela se transformara numa sucessão de acontecimentos irracionais e fantásticos. uma pessoa normal. como estava cansada! Os sons em volta pareciam pulsar na consciência dela. Por um breve período de tempo. tinha certeza de que voltaria a ser a velha Andréa Cavenaugh. o mais depressa possível. No entanto.mas descartou a ideia de imediato. Queria ir para bem longe dali.. Isso significava que a chamada para embarque só se daria depois de meia hora. A partir desse momento. nunca antes disso. Andréa descansou o queixo nos joelhos. bastava impedir que Willi tivesse outra chance de hipnotizá-la e evitar de todas as formas olhar para aquele espelho do banheiro. porém. sentada no chão do aeroporto. os jovens dinamarqueses falavam no próprio idioma. sumindo rapidamente. Esforçou-se para abrir os olhos. Agora. Andréa começou a sentir um zumbido forte nos ouvidos. Deus do céu. . ela tentou despertar. eram estudantes secundaristas preparando-se para ingressar na universidade. instruir o subconsciente para acordá-la dentro de meia hora. A sala de espera parecia um local abafado e silencioso. começava a sentir um alívio profundo. com os olhos fechados. Meia hora. ouviu o alto-falante anunciar que o jato já se encontrava na pista.

quase não suportou as luzes muito fortes e coloridas.Estava escuro. Tinha a saia levantada até as coxas e a blusa de seda amarrotada. Então. A arma é disparada e o projétil a atinge na cabeça. Era a voz assustada de um rapaz. Andréa sentia como se houvesse recebido um forte golpe de sarrafo na têmpora direita. conseguiu sentar-se. — Você está bem? Consegue falar? Por favor. . que falava com um sotaque carregado. muito escuro e silencioso. Andréa estava deitada sobre o lado direito do corpo. abraçando fortemente as pernas dobradas. em algum lugar. ainda mais por causa da preocupação que havia naqueles rostos jovens. via vultos tremulando à sua frente. os estudantes dinamarqueses pareciam um grupo de fiéis fazendo uma prece. Faz frio e está escuro. Ela está sentada num banco. Um dos estudantes murmurou alguma coisa sobre epilepsia e ela balançou a cabeça. O rapaz que falava com Andréa mantinha uma das mãos no ombro dela. Tinha os olhos muito azuis e os cabelos tão loiros que pareciam de prata. diga alguma coisa. o que foi um doloroso erro. o luar reflete no tambor do revólver apontado diretamente para ela. Depois. passou a mão pela cabeça. Quando finalmente os abriu. Com a ajuda do rapaz. Antes mesmo de abrir os olhos. quando uma parte da lua nova aparece por entre as nuvens. Ajoelhados em volta dela. O único som que ela escutava era o da corrente de ar nos ouvidos. com a coluna vertebral muito curvada para a frente.

— Talvez seja melhor Sofie acompanhá-la. — Eu apenas cochilei um pouco e sonhei. Como é mesmo a palavra. O rapaz tirou o braço do ombro dela e olhou-a de frente. — Estão tomando medidas de segurança por causa do sequestro que houve recentemente em .temendo encontrar ali um buraco ensanguentado. — Acho que vou até o toalete feminino — ela disse. sacudindo a capa de chuva e guardando-a numa sacola de mão.. Tinha uma expressão grave... Mas estou bem. Numa agonia. que usava um short muito curto. — Tem certeza? — Procurou certificar-se o jovem. Deus do Céu! Aquilo estava sendo pior do que havia acontecido na festa de Willi. — Logo estarão nos chamando para o embarque — insistiu o jovem. com ar de preocupação. obrigada — garantiu Andréa. — Deve ter sido um pesadelo. — Não sei nada — ela disse. a cabeça de Andréa já não latejava mais e ela conseguia distinguir outras pessoas além dos estudantes dinamarqueses. inclusive funcionários da companhia aérea. todos aparentemente muito preocupados com ela. — Quero apenas lavar o rosto e tomar uma aspirina. Havia muita gente em volta. — Não é preciso. procurando minimizar o que pudesse ter acontecido. indicando com um gesto uma mocinha loira e de aspecto saudável. pondo-se de pé com algum esforço e olhando para o rapaz que a socorrera. A essa altura.. eu acho. Oh. — Obrigada pela sua ajuda. Já estou bem melhor agora. deixando totalmente à mostra as pernas compridas. de verdade. Você gritava como se estivesse numa.

quase em desespero. durante a II Guerra Mundial. já se afastando. No que se referia ao aspecto físico. Os pais morreriam mais tarde. a quem chamava de Squirt. por alguma razão desconhecida.. ao lado da irmã. Andréa aprumou o corpo. E se a reencarnação fosse de fato possível? E se ela houvesse realmente vivido uma existência anterior? Teria mesmo nascido no ano de 1920. No toalete feminino. como se estivesse sendo movido por . ela entrou num dos reservados e sentou-se no vaso. uma guerra em que ela servira como motorista de ambulância. provavelmente em Londres. também em Londres. teria crescido numa daquelas lindas casas de Kensington.. especialmente do capítulo intitulado "Reencarnação". Susan. porém. Como você deve saber. Quanto à parte mental. apoiando o queixo nas mãos. agora com o nome de Andréa Cavenaugh. logo ela se sentiria perfeitamente bem. essas coisas tomam tempo. No dia seguinte. fulminando-a com um tiro de revólver no dia 30 de janeiro de 1951.. — Que diabo está acontecendo comigo? — Ela se perguntou. Havia atraído às atenções de muitos rapazes.. mas o amante mais importante tinha sido um jovem oficial chamado Lawrence McGregor. Seis anos mais tarde. Talvez Sofie deva. também conhecido como Árabe. Charles Havilland. Respirou fundo e sentiu nas narinas o cheiro forte do desodorante antisséptico. Que resposta poderia ser dada àquela pergunta? Andréa lembrou-se do livro do Dr. tomando o nome de Daphne Murdoch? Nesse caso. — Voltarei num instante — cortou Andréa. alguém decidiria matá-la.Roma. ela voltava a nascer. Laurie.

como ela havia morrido e se possível. fantasmas. a garotinha escorregando pelo corrimão da escada na casa de Susan. Nada de viagem no tempo. De uma forma ou de outra era preciso descobrir o que havia acontecido a Daphne Murdoch. Tudo não passaria de simples memória. estava claro que apenas ir embora da Inglaterra não seria uma solução para o problema. Havilland. A mesma teoria. tinha verdadeiro pavor de acreditar naquilo. ou melhor. de acordo com a teoria do Dr. Explicaria todas aquelas experiências fantásticas. A teoria de Havilland. a começar pelo fato de ela ter escrito um livro igualzinho ao de Daphne e continuando na insistência com que sob a hipnose afirmara ser Daphne Murdoch. Levou bons dez minutos para convencer o pessoal .uma força exterior. até que pudesse entender a mensagem que Daphne estava querendo lhe passar. Tudo se ajustava perfeitamente. dizendo. com uma lógica igualmente arrasadora. A conclusão lógica de todos esses raciocínios só podia ser uma: o melhor seria permanecer em Londres e seguir todas as pistas em busca da verdade. Por outro lado. explicaria também o aparecimento de Daphne no espelho.. quem era o seu assassino. Andréa teve de contar algumas mentiras para reaver a bagagem já embarcada. Depois disso.. sem dúvida Daphne a deixaria em paz. Havia apenas uma coisa que não se ajustava muito bem àquela teoria: Andréa tinha medo. as lembranças de Andréa Cavenaugh do tempo em que fora Daphne Murdoch. Daphne flertando com Gordurinha e Pardal e amando o Árabe. explicaria tudo de estranho que vinha acontecendo. influências ocultas. Ela seria seguida aonde quer que fosse.

sentindo no rosto a chuvinha fina enquanto acenava para um táxi. uma reação natural à enorme dor que sentira. CAPÍTULO VIII . Não sei quanto tempo ainda vou ter de ficar em Londres. — Só que preciso das minhas malas. — Para onde quer ir senhorita? Durante alguns instantes. estava no lado de fora do Aeroporto Heathrow. Uma coisa era decidir desvendar um crime ocorrido trinta e cinco anos antes: outra. precisava urgentemente consultar-se com o médico que a assistia em Londres. Por isso. segundo garantiu.da British Airways de que sofria de um sério problema de coração. Andréa ficou parada no meio da chuva. era saber por onde começar. O que parecera ser um ataque histérico presenciado por tanta gente tinha sido. Minutos mais tarde. O motorista pôs as malas no bagageiro do carro e voltou-se para ela. — Eu não conseguiria sobreviver a uma viagem tão longa — ela insistiu. olhando para o homem com um ar apalermado. bem diferente.

como se fosse simples rotina um hóspede deixar o hotel e retornar no mesmo dia para uma nova estada. resolveu ligar para a agente. Feito isso. excitada que estava para dar outra notícia: — Neville Forbes o causídico. ligou para mim procurando por você. Logo depois de desfazer as malas e comer alguma coisa. — É claro que estou me divertindo um bocado — ela insistiu. Felicity mostrou-se tão contente pelo fato de alguns compromissos não precisarem ser cancelados. Andréa ligou para San Francisco e pediu a Willi que cuidasse das plantas dela por mais algum tempo. Felicity. . deitou-se na enorme e macia cama e dormiu pesadamente durante catorze horas ininterruptas. Na manhã seguinte. nem quis ouvir as desculpas que ela começou a alinhavar. Talvez eles apenas disfarçassem. as vendas iam de vento em popa. ligou para a loja de produtos naturais e foi informada pela gerente de que mesmo sem a presença da dona. Os funcionários da recepção a receberam com naturalidade.Andréa não encontrou dificuldade para se hospedar novamente no Royal Camelot. porém. esta manhã bem cedo. alertada pelo senso de responsabilidade. porque não seria de bom tom demonstrar surpresa. Logo em seguida. evitando dar maiores explicações. Disse que vocês dois se conheceram na Livraria Foyles. duas semanas atrás. que Andréa sentiu um pouco de vergonha de quase ter antecipado a partida.

Ora.Pelo menos desta vez ele havia usado o nome inteiro. Ele ficou sabendo. até . dos pobres-diabos. Fez isso atendendo às súplicas da mulher. que durante um bom tempo ocupou as primeiras páginas dos jornais. Nem mesmo ao banheiro ela conseguia ir sozinha. mas foi um ato de misericórdia. — Por que é claro? — É um homem muito conhecido Andréa. foi assim: um membro do Parlamento matou a própria esposa. sentindo o coração levemente acelerado. mas o seu Neville conseguiu a absolvição do réu. banhar-se.. realmente o admiro. O Times considerou a fala final da defesa "uma poderosa e comovente peça de oratório de um dos maiores advogados ingleses de todos os tempos". — Você o conhece? — Ela perguntou. que eu era sua agente e por isso me ligou. Assim sendo.. Além disso. Mas é claro que eu já havia ouvido falar nele. ele sempre se apresenta como defensor dos fracos.. Eu o admiro. — Não pessoalmente. que já não tinha forças. fez com que ela tomasse uma superdose de barbitúricos. de quem os jornais estão falando.. já que a pobrezinha há anos vinha sofrendo de uma doença incurável. mesmo o parlamentar a amando. para ela própria. Sei disso porque guardei todos os recortes dos jornais. é claro que você não tem notícia disso! Bem. por meio de Anthony Tomlinson. trocar de roupa. Houve muita controvérsia sobre o assunto. da BBC. ou talvez porque a amasse. sem que ficasse a menor mancha sobre o caráter do parlamentar. aquele do. No ano passado ele esteve envolvido num julgamento. pensou Andréa. Nos tribunais. pôr um fim àquele sofrimento. Precisava da ajuda dos outros para se alimentar. sentia dores terríveis.

Forbes não é o "meu" Neville. Só de ouvi-lo ao telefone. Ele pôs muita ênfase no termo "imperativo". Além disso. — Ah. — Mas você vai ou não vai me dizer o que ele queria? A propósito. diga a ela que é imperativo termos uma conversa". Até pediu o seu endereço nos Estados Unidos. meu Deus. Ai. meu Deus! Não sou de sair por aí dando o endereço dos meus clientes a qualquer um. mas ainda não lhe passei o endereço e os números de telefone que ele me deu. Tem lápis e papel à mão? Enquanto anotava as informações. — Ele disse mais alguma coisa? — Não. Andréa foi falando: — Se ele voltar a ligar. que voz tem aquele homem! Além disso. o Sr. isso foi tudo. — Parece que ele o impressionou um bocado Felicity — comentou Andréa divertida. ele tem a classe de um verdadeiro aristocrata.porque mais tarde talvez um cliente meu quisesse escrever um livro sobre o assunto. está bem? — Por que não Andréa? Ele me pareceu realmente interessado em se encontrar com você. nem mesmo a um advogado famoso e com uma voz de arrebentar corações. — Andréa suspirou. Agora. não diga que ainda estou aqui. vou citar fielmente as palavras do homem:'"Por favor. não! Pois ele pareceu arrasado quando eu disse que você havia voltado para casa. — E você deu? — É claro que não. Apenas anotei o endereço dele e garanti que lhe transmitiria a informação de que ele está ansioso para lhe falar. quase me senti na obrigação de fazer uma mesura. é um homem extremamente .

— Ah. Depois de desligar. voltar a se encontrar com ele. Não que eu o tenha conhecido pessoalmente. não é mesmo? — Para mim. Na casa onde havia uma tabuleta com a palavra: "Administração". A chuva fininha que caía há dois dias parecia dar sinais de que se transformaria em algo mais ameaçador. sei. Você não gostou dele? — Gostei dele até demais.. — Bem. Não! Já estava tudo confuso demais na sua vida para que ela arranjasse mais uma complicação. Havilland morava e trabalhava em Hammersmith. Uma mulher de cara pouco amistosa . às vezes olhando nervosamente para o céu carregado. Andréa ficou olhando o endereço escrito no elegante bloco de anotações com o logotipo do Royal Camelot. Talvez devesse ligar para Neville. Se for assim. onde deveria outra vez tomar o metrô até a entrada de Goldhawk. O endereço no cartão do Dr. pode ficar tranquila porque não direi nada a ele. Havilland era o de um conjunto habitacional para gente idosa.atraente. ninguém soube dizer nada sobre a Propriedade de St. e é justamente esse o problema. Bart. mas foi o que sempre achei pelas fotos publicadas nos jornais. No entanto. O homem é casado.. Durante algum tempo ela ficou andando pela região. um simpático policial mandou-a voltar à estação. o Dr. existe um problemão. quando Andréa pediu informações na estação do metrô de Hammersmith e em vários estabelecimentos comerciais da vizinhança. Segundo o cartão de visitas. Finalmente. parece que existe um probleminha. Felicity.

Havia apenas duas poltronas reclináveis. Na pequenina sala de estar do Dr. nada podia ser classificado como peça de decoração. — Tenho pensado muito em você nessas últimas semanas. minha cara — ele disse. não sem alguma relutância. algumas mesinhas e uma escrivaninha encostada na parede. pegando o casaco e o guarda-chuva dela e convidando-a a entrar numa sala de estar parcamente mobiliada. faltavam pequenos toques que só uma mulher sabe dar. Andréa repassou mentalmente a história que havia preparado durante a viagem de metrô. Enquanto o dono da casa preparava um chá. que além da cama de solteiro. por baixo de prateleiras cheias de livros. então. — Não quero que pense . fixando sem pestanejar os olhos azuis do Dr. Havilland. O velho psiquiatra pareceu contentíssimo ao receber Andréa. O psiquiatra vestia o mesmo conjunto de calça cinza e blazer azul-marinho que usara no programa de Roger Faversham. Jamais ela imaginaria que uma pessoa pudesse se vestir tão bem para ficar em casa. Contrastando fortemente com a camisa muito branca. era despojado como o de um soldado. mas muito limpa.indicou onde ficava o número 7. pensou Andréa. Havilland. apesar da requintada elegância. Mesmo no apartamento de Willi. — Quero ser honesta com o senhor — ela disse. — Estava preocupado com você e fico contente que tenha vindo me procurar — ele disse. Na moradia de um solteirão sempre parece estar faltando alguma coisa. usava uma elegante gravata vermelha. Por uma porta aberta ela podia ver o quarto de dormir.

. por cima da xícara de chá. Havilland meneou a cabeça. — Bem. começando a se sentir . Durante algum tempo. Tenho notícia de almas que demoraram quinhentos anos para reencarnar. não é? — Perguntou Andréa. entende? Se passou por experiências muito atribuladas. — Continue minha cara..que o estou usando de alguma forma. — Disse o Dr. ele ficou olhando para Andréa. segundo o capítulo que trata da reencarnação. provações. — Alguns fatos narrados no seu livro me deixaram um tanto intrigada — ela confessou. pode querer descansar por algum tempo. — Nesse caso. — Por isso. — Compreendo. Andréa teve a desconfortável sensação de que ele de fato compreendia. uma alma normalmente reencarna seis ou sete anos depois da morte da pessoa. Havilland finalmente. àquela altura. Ele falava de almas com a maior naturalidade. era necessário continuar com a encenação. mas na verdade esse tempo pode variar um bocado. Meu propósito ao vir até aqui era pedir sua ajuda nas pesquisas que estou fazendo para escrever um romance. não é isso? — Eu não diria "normalmente". O Dr. uma alma jamais reencarna logo após a morte da pessoa. Tudo depende da vida que ela teve. gostaria de ver se eles são realmente possíveis. Os budistas acreditam que existe uma média estabelecida. Só que. como se estivesse se referindo a pessoas amigas.

. e depois disso.vagamente aliviada. acompanhados por relâmpagos que se refletiam na pequena sala de estar... Andréa não sabia por que tinha feito àquela pergunta. — Às vezes. estou apenas especulando. por exemplo. quando uma pessoa morre de forma violenta e inesperada. Pode até presenciar o funeral.. Suponhamos que uma pessoa morra. alguma coisa pertencente a ela seja levada para outro lugar. Enquanto punha açúcar para mais uma xícara de chá.. — Isto é. deixou claro que se preocupava em não dar uma resposta apressada. Ou. — Mesmo se o funeral se realizar longe do local onde ocorreu a morte? — Sim... Era evidente demais que Daphne sabia onde o carro dela havia sido jogado... . Não estou entendendo o que você. Qualquer coisa dela.. entendi. Agora.. a alma fica desorientada e talvez não perceba que ocorreu a morte. seria possível a reencarnação acontecer depois de apenas vinte e quatro horas? O psiquiatra não respondeu de imediato. ouviam-se trovões a intervalos quase regulares. Sim. a pessoa. — Bem. O carro. a alma da pessoa saberia para onde essa coisa foi levada? Mesmo o transporte tendo ocorrido depois de sua morte? — Ah. Uma alma assim pode permanecer durante um bom tempo vagando pelo ambiente onde esteve encarnada pela última vez. antes de aceitar a separação do corpo físico. melhor dizendo. — Quem sou eu para dizer que alguma coisa é impossível? — Pronunciou o psiquiatra finalmente. Mas. isso é possível.. Nesse caso.

.— A entidade espiritual pode ficar vagando durante vários dias. não acontece em função de qualquer pressão externa. o que é importante. — Mas há famílias que impedem seus filhos de fazer o que querem. Havilland riu.. e espero que você concorde com isso.. Havilland mexeu a cabeça para o lado e sorriu. sem muita convicção.. minha cara. Algumas até os tratam mal. — Mais precisamente com que rapidez isso pode acontecer? — É possível uma entidade espiritual resolver reencarnar imediatamente. Há sempre razões muito boas para a escolha. pode reencarnar rapidamente. — Dependendo das circunstâncias. levando em conta nessa escolha. — É. visitar amigos ou lugares conhecidos — prosseguiu Havilland. E. A reencarnação tem para a alma o propósito da educação e do aperfeiçoamento. — Disse Andréa.. Ela pode escolher o novo corpo ao acaso? O Dr. A entidade espiritual. — Não. sem necessariamente passar por outro plano de existência. escolherá cuidadosamente o corpo em que irá renascer. ela. A entidade espiritual. sabendo que lição deverá aprender. — Acho que não vai ser possível dar a você um curso completo . — Nesse caso. uma família que proporcione um ambiente apropriado.. acho que sim. de que forma terá de se educar. é até possível que a alma precise desse tipo de tratamento no seu processo de aprendizado. eu não explicaria o processo com esses termos. O Dr. — Em alguns casos.

ela normalmente escolhe para reencarnar uma família de músicos. Por que existe tanta miséria no mundo? Por que tantas criancinhas vivem no sofrimento. por exemplo. privilegiando o que é errado? Por que existe tanto desespero. num tom meio brusco. A reencarnação é uma crença absolutamente lógica. Havilland. ouça as respostas e veja se elas podem ter alguma lógica. ou morrem mal se inicia a sua existência? Por que tantas vezes o certo é posto para trás. Pelo mesmo motivo. Havilland parou de falar e ficou sério por uns instantes.. Talvez achando que tinha falado num tom excessivamente didático. tanta maldade? Por que os povos travam guerras entre si? O Dr.sobre a teoria da reencarnação apenas numa tarde. mas. Quando outra vez se fez silêncio. minha cara. Wolfgang Amadeus Mozart era filho de um violonista da orquestra de Salsburg. — Não queria parecer cética Dr.. quando uma alma se interessa por música. uma alma que se interessa por . — Eu sei disso — rebateu Andréa. ele retomou a palavra: — A resposta é simples: tudo isso acontece porque as entidades espirituais estão em busca de aperfeiçoamento. que dá respostas a todas as questões. ele sorriu como se pedisse desculpas e baixou um pouco a voz: — Para responder melhor à sua pergunta sobre a escolha dos pais. Apenas faça perguntas. Coincidentemente. — Não deve se preocupar se está ou não acreditando. tanta inveja. — Essas informações são muito novas para você — ele completou com simpatia. nesse mesmo momento um trovão ribombou por cima da cabeça deles.

. — Andrea voltou a olhar diretamente para ele. talvez um poeta. — Elas viam tudo com muita clareza. tenho preferido fazer apenas uma abordagem científica do assunto. Andréa desviou os olhos... Pelo menos até agora. — Eu também examinei minhas existências anteriores. É sobre uma. Recorreu à auto-hipnose? — Sim. às vezes é mais ou menos isso — respondeu o Dr. Andréa engoliu em seco. Havilland.. — O senhor teve a impressão de que estava apenas atravessando uma porta no tempo? — Sim.. nada do que descobri. Entidade espiritual que quer terminar de escrever um livro que começou na vida passada. Encaixa-se perfeitamente na pesquisa que estou fazendo para o meu romance. apesar de não ter relatado em livro.literatura certamente preferirá voltar ao mundo no corpo do filho de um escritor. é isso o que todos nós queremos fazer. Apressadamente. mas em algumas ocasiões também passei por experiências de regressão espontânea. — Pelo menos simbolicamente. assim como eu mesmo vi. — isso. as pessoas que tinham experiências de regressão a vidas passadas diziam ter visto tudo com muita clareza. — No seu livro. sim. — Por que não nos lembramos das nossas vidas passadas? — . ele sorriu. — Muito interessante — comentou o Dr. sim. Havilland pensativo. — O senhor.. com um olhar de curiosidade. Ante o olhar espantado de Andréa.

— Numa certa medida. como nos esquecemos de fatos importantes acontecidos nas primeiras fases da nossa formação. seria traumático demais lembrar-se de tudo. os nossos passatempos prediletos. — Na verdade. Ela poderia ter sonhos ou pesadelos sobre essa experiência. seria o mais provável.. as lembranças permanecem todas no subconsciente. os olhos inteligentes do psiquiatra mostraram um redobrado interesse. Ele teve o apêndice extirpado e tomou uma porção de remédios. depois de um momento em que os dois ficaram prestando atenção ao barulho de um trovão. foi assassinada com um tiro e reencarnou logo após a morte. Poderia também apresentar sintomas de alguma doença que seria na verdade uma pista do incidente. as coisas que gostamos. em sonhos. uma vez que ela passa. Digamos. Aquele sensação de já ter visto ou ouvido alguma coisa é um exemplo disso. nós nos lembramos. — Gostaria de lhe fazer uma pergunta — disse Andréa.Perguntou Andréa.. — Sem dúvida. alucinações ou coisas assim? Ante aquela pergunta. Por outro lado. mais para desviar a atenção dele. as que detestamos tudo isso tem raízes no passado. Veja. por exemplo. em contrapartida. Tive um paciente que padecia de dores terríveis no abdômen. As nossas cores preferidas. Quando o fiz regredir até uma vida . Veja também como temos a tendência de nos esquecermos da dor. isso seria possível — ele respondeu com convicção. ela se lembraria dessa experiência em sua nova vida. — Seria possível uma pessoa se lembrar da forma como morreu numa existência anterior? Se uma mulher foi assassinada. No entanto. mas tudo em vão.

Depois que o homem se lembrou disso. — Espero que você volte.. Não sei se ficaria bem na história que tenho em mente. A mulher do exemplo que eu dei. Essa personagem de que você está falando.. ainda não estou convencida de que é uma boa ideia publicar o romance. talvez o romance deva conter outro personagem capaz de hipnotizá-la. — Dizendo isso. enquanto a ajudava a pôr o casaco. parando durante alguns instantes para estudar as feições de Andréa.. Havilland também se levantou.. com mais cuidado. O Dr.. — Deve pensar no assunto. ela começou a se levantar. — Se os. a dor desapareceu. com um sorriso que obviamente tentava esconder o quanto ele estava desapontado. descobri que ele havia sido trespassado por uma espada numa batalha das Cruzadas. não sei se quero ir tão longe — apressou-se em dizer Andréa. Sonhos não são tão claros quanto gostaria essa mulher. — Na verdade. — Nós que . Cavenaugh — ele recomendou. — Isto é.anterior.. Por meio da hipnose. para que possamos continuar a conversa. — Eu gostaria muito — disse Andréa.. Havilland. sem ter muita certeza de que voltaria. Talvez eu precise pensar um pouco melhor. subitamente amedrontada. na vida seguinte poderá sofrer de enxaquecas? — Certamente — confirmou o Dr. Srta... — Oh. Andréa ficou olhando para ele.. Se ela tiver sido baleada na cabeça... — O senhor está querendo dizer. ela poderia ser levada até uma vida passada e.

tentando mostrar tranquilidade. no meio da chuva. — Isso seria realmente incrível — comentou Andréa. Quero aliviar um pouco do desespero que sinto no mundo de hoje. — Talvez um dia o senhor encontre uma pessoa assim. talvez porque as feridas ainda não se tenham fechado. quer não. Andréa congratulou-se consigo mesma por não ter confessado ao Dr. de forma que elas possam viver com mais esperança e sem preocupações acerca da morte. no quanto essa pessoa deveria ser reverenciada pela quantidade de informações a que a humanidade teria acesso.acreditamos em reencarnação. Com essa finalidade. o que lhe permitiria lembrar-se em detalhes dos fatos daquela existência. Por isso. tenho conversado com centenas de pessoas que têm lembranças de vidas passadas. é uma crença que está associada a muitas interpretações equivocadas. Agora. não precisamos de mais provas de vitalidade dessa crença. Também não sentimos necessidade de fazer proselitismo dela. Não tinha nenhum interesse em se tornar uma espécie de . Tudo leva a crer que é mais difícil lembrarse de existências recentes. pense só na ajuda que isso poderia dar ao mundo. e somos centenas de milhões de seres humanos. se vem a mim uma pessoa com lembranças de uma vida passada recente e disposta a se deixar hipnotizar. Ao mesmo tempo. Na sua maioria. acredito firmemente que minha missão neste mundo é esclarecer as pessoas sobre a reencarnação. Havilland que estava falando de experiências reais. Enquanto caminhava apressada para a estação do metrô. Uma coisa certa na reencarnação é que acontece quer a pessoa acredite. elas falam de fatos ocorridos séculos atrás.

usava com frequência o nome de Deus nas exclamações que pronunciava. A . tinha de haver alguma coisa ou alguém responsável por tudo o que existia na natureza. apenas por ele tê-las sempre defendido com tanta firmeza? Na infância. que baseados em observações e na própria experiência. na sala de estar da suíte. mas sempre havia se considerado uma materialista.. Enroscada num dos cantos do sofá. Ao fim da tarde. Alguém tinha de ter projetado os maravilhosos ciclos de morte e renascimento que se verifica em cada semente e em cada flor. em que ela realmente acreditava? Da mesma forma que a maioria das pessoas com quem convivia. Estaria ela aceitando sem discussão as convicções do pai.sacerdotisa de uma seita religiosa. como se pudesse receber dali uma resposta para a pergunta que a atormentava: afinal de contas. Alguém tinha de ser responsável pelo milagre que era a metamorfose de uma pequena e feia lagarta numa belíssima borboleta. mas a chuva continuava a cair com a mesma intensidade. os relâmpagos e os trovões haviam parado. resolvem no que devem ou não acreditar. O ciclo de morte e renascimento. Alguém devia ter planejado as carreiras de semente tão caprichosamente guardadas no interior de uma abóbora ou de um melão. é comum as pessoas absorverem as crenças paternas como se fossem alimentos. Na natureza nada se perde. tal qual o pai. Havia realmente uma força espiritual chamada Deus? Sem dúvida. Provavelmente são muito poucos aqueles. Andréa olhava fixamente para a lareira vazia. açoitando os telhados dos edifícios vizinhos ao Royal Camelot..

. Seria possível aquela sua passagem pela Terra ser apenas uma pequena parte de uma existência total? Mais especificamente. — Para mim. servindo de alimento para outro ser em desenvolvimento. algum tempo mais tarde. você voltou mesmo! — Preciso falar com você — disse Andréa. Todo ser que morre passa a fazer parte da terra. Foi bom.. No final das contas. Andréa. assistindo a um programa científico na televisão. Andréa ouvira Carl Sagan fazer a seguinte afirmação: — Cada minúsculo átomo no interior do seu corpo um dia fez parte de uma estrela. Ela havia caminhado desde a estação do metrô e estava tão molhada pela chuva que tiritava de frio. o locutor do rádio chamou isso aí de chuvarada de abril — comentou Susan. quando ganhamos de presente todo aquele sol. Susan apoiou-se com uma das mãos no caixilho da porta. Certa vez. formando nuvens que mais uma vez voltarão a terra em forma de chuva.. Logo vi que teríamos de pagar dessa forma. como se não acreditasse no que estava vendo. parece mais um dilúvio de inverno. porque você está molhada até os ossos. não sem alguma dificuldade. — Ainda há pouco. — Então.água da chuva encharca o solo. seria possível Andréa Cavenaugh ser uma reencarnação de Daphne Murdoch? — Como vai Susan? — Cumprimentou Andréa. À tarde eu estava com tanto frio que resolvi acender a lareira. com uma ponta de ironia na voz. alimenta as árvores por meio das raízes e se evapora pelas folhas. É assim o tempo na Inglaterra. talvez ela não fosse uma materialista.

Susan olhou para Andréa com curiosidade. Mais tarde. quase numa compulsão. Andréa tinha apenas vagas lembranças da mãe. esfregar o corpo com a toalha felpuda. — Meu pai morreu anos mais tarde.Andréa olhou com satisfação para a lareira que crepitava e se enfiou na camisola de flanela que Susan mais uma vez lhe emprestou. Lembrava-se de uma mulher bonita. Tinha sido delicioso tirar as roupas molhadas. Acho que sempre senti falta de alguém que tomasse conta de mim. secar os cabelos e sorver o conhaque que Susan ofereceu. Eu também não era muito crescida quando minha mãe morreu. — Minha mãe abandonou meu pai quando eu tinha cinco anos — revelou Andréa. inofensiva e muito tímida. Até aquele momento. — Às vezes é bom ter quem nos paparique. Andréa tomou um prato da deliciosa e quente sopa de galinha servida pela dona da casa. — Dizendo isso. Agora. morrendo de medo de ofender alguém. de frente para Susan. o que sempre fazia quando contava aquela história a alguém. Não que o fato tivesse alguma graça. ela se sentia aquecida e confortável. — Mamãe fugiu com o leiteiro — ela disse rindo. — Você nunca mais viu sua mãe? Andréa balançou a cabeça. que parecia passar pela vida na ponta dos pés. mas parecia parte de uma peça de teatro de revista. Nenhuma garotinha aparecera no jardim e não havia sinal de Daphne. sentada no sofá. mas ainda me lembro do carinho com que ela tomava conta de mim. . não se repetira nenhum dos acontecimentos de antes.

. Segundo ele próprio me contou. Pelo que me lembro naquela época eu achava que agir corretamente era mandar flores para as pessoas amigas. Talvez pensasse que agindo assim demonstrava o quanto era devotado a ela. escrever cartões de agradecimento e tomar cuidado para não arrotar em público. como se os leiteiros fossem a escória da humanidade. O próprio papai escrevia muito. Sempre que me afastava. Enquanto ele era vivo. ligava novamente na hora do lanche e outra vez antes de voltar para casa. Susan não disse nada e ela riu novamente. Só não sei se ela achou que estava agindo corretamente quando fugiu com o leiteiro. Papai vivia repetindo: "Um leiteiro. às vezes me pergunto se não é dele próprio a culpa de ter sido abandonado. Sempre ridicularizava as outras pessoas. Era secretária dele e escrevia toneladas de cartas para outros poetas. nunca cheguei a ter um amigo de verdade.. com voz ultrajada. ele procurava saber o que eu estava fazendo. desde o dia em que se casou. Era ela quem fazia todo o trabalho de datilografia para ele. Ele esperava de mim devoção absoluta. antes de continuar: — Não sei se meu pai ficou mais abatido por ter sido abandonado ou pelo fato de ela ter fugido com o leiteiro. costumava telefonar para ela no instante em que chegava à escola onde dava aula.". mesmo que fosse por poucas horas.— Mamãe costumava me dizer que sempre devemos agir corretamente — contou Andréa. — Eu nunca tive certeza do que ela queria dizer com aquilo. Meu pai não era um homem de temperamento fácil. Acho que tratava a minha mãe da mesma forma. mas minha mãe deve ter percebido que na verdade . Depois de ter pensado muito no assunto. fazendo com que eu risse delas.

Eu não estava aprovando muito a ideia. Andréa sorriu em agradecimento e respirou fundo. mas isso não provocava constrangimento. Tenho certeza de que nunca encostou a mão nela. começando pela descrição feita por Tony da reação dela. mas só o olhar que ele nos dirigia já era de doer. Susan não fazia nenhum comentário. tentando relatar os fatos na ordem cronológica. Pouco depois. — A história teve início quando eu fui a uma festa — ela começou. mas tomando o cuidado de não falar nada . Durante algum tempo as duas ficaram em silêncio. Então. — Meu amigo Willi Steingard é adepto do hipnotismo e quis praticar comigo. Espero que assim. Andei escondendo de você umas certas coisas. Apenas se levantou e dirigiu-se à cozinha. como nunca bateu em mim. Susan olhou para ela com os olhos arregalados. creme e duas xícaras. algo estranho aconteceu comigo. — É uma longa história e talvez não seja fácil de acreditar. açúcar. Cuidadosamente. mas agora resolvi lhe contar tudo o que sei sobre mim e Daphne Murdoch. mas Willi é do tipo convincente e acabei concordando. você não acha? Imagino que ele ficava uma fera se ela não estava em casa quando o telefone tocava. — Quero lhe contar uma coisa Susan — disse Andréa de chofre. retornou carregando uma bandeja com um bule de chá. ela foi contando tudo o que havia acontecido desde o momento em que fora hipnotizada por Willi. Nem sei se eu mesma acredito. possamos chegar a alguma conclusão sobre o que aconteceu com ela. mas não disse nada. para ilustração de seus convidados.estava sendo vigiada. Papai tinha um temperamento horrível.

Marmalade. Só sei que tudo isso aconteceu. Mais tarde. — Nervosamente. — Como é que você pode ter se transformado em Daphne? Andréa estava igualmente perplexa. mas não interrompeu a narrativa. a explosão da bomba voadora e a noite que eles haviam passados juntos. mas acho que também podia ser . passando a narrar o encontro com Árabe. o que fez com que Andréa interrompesse a narrativa. Era um homem muito bonito. Laurie! Eu o conheci. continue.. Susan parecia cada vez mais excitada. — Eu. — Eu não sei. Andréa relatou o que havia acontecido na casa de Susan e descreveu a experiência por que passara no Clube das Gaivotas. Não compreendo — pronunciou-se Susan.sobre o tipo de revólver ou morte. Susan arregalou ainda mais os olhos quando Andréa falou da aparição de Daphne no espelho. quando ela fez uma pausa. — Por favor. pulou no colo dela e se enroscou como uma bola. haveria tempo de sobra para contar como Daphne havia morrido. Em seguida. Talvez percebendo que a dona estava preocupada.. Ouvindo atentamente a descrição daqueles fatos. Susan afastou uma mecha de cabelo da testa. ou seja. — Eu não quis interrompê-la — desculpou-se Susan. o gato. — O que foi Susan? Está se lembrando de alguma coisa? — Árabe! Lawrence McGregor. — A parte que vou contar agora é ainda mais difícil de acreditar — preveniu Andréa.

Acho que me lembro. — Laurie McGregor sobreviveu à guerra? Você sabe se ele ainda pode ser encontrado em Londres? — A última vez que me lembro de tê-lo visto foi mais ou menos um mês antes do desaparecimento de Daphne.. Daff e eu tínhamos voltado do trabalho. Daphne era secretária de um alto funcionário e eu. — Nessa altura ela riu. Andréa deixou escapar um suspiro. Ainda hoje me pergunto se alguém conseguiu encontrar aqueles papéis. não . Em seguida ela fez um gesto vago com a mão e franziu a testa.. Nesse instante. Laurie teria de partir novamente.classificado como do tipo playboy. para o Canadá. as pessoas me entregavam documentos que deveriam ser arquivados e eu apenas os jogava na ultima gaveta do arquivo. Eu tinha terminado a escola e ela me convenceu a prestar um concurso para o serviço público. as duas trocaram um olhar de medo. — Para falar a verdade Andréa. Trabalhávamos as duas no Ministério do Trabalho. ela o amava um bocado. Foi no Natal de 1950. — Como pode ser isso? — Indagou Susan. Daphne e eu chegamos em casa e pouco depois ela e Árabe saíram para jantar. Ah. Naquela noite. — Daphne esteve envolvida com ele durante muito tempo. nem sei dizer o que eu fazia ali. antes de continuar: — Para encurtar a história. eu acho.. Ele tinha estado fora por algum tempo e aquele era uma espécie de jantar de celebração. em Baker Street. Estavam ambos bem vestidos. — Eu sei — disse Andréa.. Só que Daphne o amava.

foi? Susan balançou afirmativamente a cabeça. — Pelo menos durante sete anos. Mesmo assim. Laurie sempre me pareceu um homem charmoso. mas Árabe era especial. Ele quase a deixava louca. — Sempre houve. — Não vou dizer que desgostava.. Dizia que depois de tanto sacrifício. ele permaneceu na Força Aérea? Susan fez uma careta. A certo preço naturalmente.. — Você gostava dele? — Perguntou Andréa interessada. Daphne mantinha esperanças de que um dia ele se aquietasse e a pedisse em casamento. Além disso. — Terminada a guerra. talvez mais.. Ela se encontrava com outros homens. Não esses carros comuns. — Havia outras mulheres na vida dele? — Quis saber Andréa. — Laurie tinha uma queda por carros. mas mesmo assim eu não desgostava dele. ele esteve aqui procurando por ela.. — Mas é claro que voltei a vê-lo! — Ela exclamou. Não era desse tipo de homem. com os olhos brilhando. apesar de eu não confiar nele. Eram Daimlers. Árabe nunca disse que a amava. Queria lhes proporcionar esse luxo. mas minha irmã não tinha coragem de pôr um fim àquele relacionamento. mas não acredito que Laurie faria isso. Fazia Daphne infeliz. eu acho. Tinha mandado uns cartões-postais do Canadá e devia ter a expectativa de que minha irmã estaria . A essa altura Susan aprumou-se na poltrona. — Mais ou menos um mês depois do desaparecimento de Daphne. as pessoas queriam um pouco de luxo.

com uma das mãos na cabeça.. — Gostaria de conversar com pessoas que a conheceram.esperando por ele. por favor. Dennis conversou com todos. Pareceu realmente consternado. Acho que alguém atirou nela. Infelizmente. sem ao menos deixar um recado para ele. — Eu sinto muito Susan.. que demonstrou não gostar nada daquele gesto repentino.. ele sempre a amou. Não me lembrei de que ainda não havíamos chegado a. .. porque Daphne tinha uma porção de amigos. Acho que se puder descobrir quem a matou. Nenhum deles queria acreditar que ela havia desaparecido daquele jeito. Acho que já lhe disse isso. Na verdade houve muitos telefonemas. Ele passou a investigar o desaparecimento de Daphne e fez disso uma verdadeira obsessão. inclusive com Laurie. jogando no chão o gato. mas talvez o que Daphne está querendo que eu descubra. mesmo sem saber disso. durante muito tempo Laurie telefonou todas as semanas para saber se eu tinha notícia de Daphne. não tenho a mínima ideia de quem fez isso. meu Deus — murmurou Andréa. Acho que no fim das contas. — Você acha que alguém matou Daphne? — Inquiriu Susan. Seja como for. Imediatamente ela interrompeu a fala. porque tenho certeza disso. mas alguém matou Daphne sim. Mostrou-se chocado quando soube que Daphne havia simplesmente sumido. — Quem? — Ai. Meu marido era policial. — Será que podemos fazer a mesma coisa? — Perguntou Andréa.. Dizer que eu acho não seria bem a expressão certa.. Sente. Por isso quis conversar com todos os amigos de minha irmã. Susan havia se posto de pé num pulo. Desculpe Susan.

Só nos mudamos para o norte quando eu estava com cinco anos de idade. Depois de um demorado silêncio. embora seja uma explicação absolutamente lógica para o que tem acontecido comigo. nasci no dia 31 de janeiro de 1951. revelando também o encontro que tivera com o Dr. e com muito cuidado. Enquanto ela falava. — Lembra-se de quando lhe telefonei perguntando quando Daphne havia desaparecido? — Ela perguntou. — Eu própria ainda não estou segura disso. Susan abaixou-se para pegar Marmalade outra vez. Às vezes abria a boca para falar. Finalmente. — Pois bem. Desolada. mas logo voltava a fechá-la sem ter dito nada. No entanto. 0 gato. — Está querendo que eu acredite que você é a reencarnação da minha irmã Daphne? — Parece loucura. evidentemente necessitada de conforto. Depois. ela foi repetindo o que dissera quando estava sob hipnose. acarinhou o bicho com tanta insistência que ele achou melhor voltar ao chão. Susan voltou para Andréa os olhos espantados. descreveu os acontecimentos do aeroporto. Não sei se já lhe contei que nasci aqui em Londres. enquanto Susan dava a impressão de estar se esforçando para processar na mente todas aquelas informações. Vagarosamente as lágrimas começaram a escorrer daqueles . um dia após o desaparecimento da sua irmã. Susan ficou apenas olhando para Andréa. durante o qual ficou olhando fixamente para o fogo da lareira. falou do que tinha lido sobre reencarnação.Falando devagar. não é? — Comentou Andréa suspirando. Mavilland.

não se permitira sentir por outra pessoa nada mais que afeição. não acha? — É o que parece — disse Andréa com alguma relutância. sem que no entanto nenhum som fosse emitido. Sentando-se ali. Depois de ter revelado tudo a Susan. talvez uma verdadeira fome. Finalmente. porque ela própria sempre vivera sozinha.olhos cansados. não é? Mesmo molhados. Quando Susan finalmente se controlou e pegou um lenço para assoar o nariz. os olhos de Susan brilhavam. Susan levantou-se da poltrona e caminhou até o sofá. — Oh. Concluiu que estava diante de uma mulher que durante um longo tempo. Andréa manteve-se em silêncio. mas é uma explicação para tudo. minha querida. sentia-se estranhamente vazia. voltando a sentar-se no sofá. — Eu acho que sim. com a mesma .. Os lábios passaram a tremer. Era uma mulher solitária. envolveu Andréa num abraço.. Andréa não conseguia atinar com nada para dizer. embora calma e mais disposta a aceitar a situação. Andréa percebeu também que entendia a solidão da outra. Vários minutos se passaram. Parece absurdo. Era como se pôr em palavras uma ideia absurda pudesse transformá-la em algo aceitável. Susan levantou-se. Em seguida. — Ela disse carinhosamente. assoou novamente o nariz e guardou o lenço. deixando que Susan chorasse. Andréa tomou coragem para fazer uma pergunta: — Você acredita. que havia sofrido durante a maior parte da vida uma enorme carência de amor.

Por isso. Agora diga o que quer que eu faça. — Ela não tinha muitas amigas. Susan deu uma risadinha. Pelo que me lembro. eu não sabia o nome verdadeiro de quase nenhum dos amigos .eficiência de sempre. as únicas mulheres com quem ela se encontrava eram a Mulher Dragão e a Loirinha. especialmente os amigos mais chegados. inclinando o corpo para frente. encheu outra vez a xícara de chá. as mulheres sentiam inveja porque ela conseguia atrair os homens sem fazer esforço. Em geral. tanto homens quanto mulheres. Se a pessoa não tinha. — Quero saber o que ela gostava de fazer. Daphne tratava todos por apelidos. meu bem. ela inventava um. CAPÍTULO IX — Quero que me fale de Daphne — pediu Andréa. as pessoas que conhecia. — Muito bem Andréa.

. era um rapaz tão gentil. Devia estar tão maluco por Daphne que parecia não me ver. — Havia um Gordurinha e um Pardal? — Perguntou Andréa. Daphne tinha uma turma com que andava. — Os donos do lugar permitiam isso ou porque eles iam em companhia de irmãos mais velhos ou porque eram filhos de famílias conhecidas. Esses dois não deviam ter muita idade quando Daphne os conheceu. Ninguém nunca me censurou por isso. Bem. é claro que . — Só que esse não durou muito tempo. Boquiaberta. Gordurinha? Sim. mas achou melhor Susan não saber que aquela tendência não era exclusiva de Daphne. Provavelmente eram uns dez anos mais novos que ela. Naturalmente. — Bird — ela disse com segurança. Minha irmã gostava de homens bastante jovens. Só conheci Árabe porque ela o trouxe aqui e me apresentou. — Brian Bird. o fato é que Daphne costumava provocar os garotos.. durante e logo depois da guerra. Às vezes ela até. Ah. ele próprio me disse o nome. os ingleses não se importam muito com a idade com que os jovens começam a beber. Susan balançou afirmativamente a cabeça.. Eu mesma já ia aos pubs para tomar um copo de sherry ou conhaque quando tinha apenas dezesseis anos. dando corda e flertando com eles. — Havia um bom número de adolescentes que iam ao Clube das Gaivotas quase diariamente— continuou Susan.. Quanto aos outros homens.dela. Lembro-me de um tal Norman! — Susan parou para pensar por alguns instantes. Estive com ele algumas vezes. Andréa vacilou. Ela o chamava de Pardal. ela falava muito desse Gordurinha. Como você deve ter reparado. Ora.

tão . — Não chega a ser uma pista valiosa. — Talvez devêssemos examinar outra vez as anotações de Daphne. Mesmo assim. Andréa fez uma careta. No dia em que o rapaz completou dezessete anos. Gordurinha estava tão apaixonado que queria se casar com a minha irmã. Andréa lembrou-se de como Gordurinha olhava com adoração para Daphne. Agora estou me lembrando de uma coisa: era com ele que estava uma noite antes de desaparecer.. Quanto a Pardal eu não sei. no andar de cima. ela própria me confessou tê-lo seduzido. Às vezes Daphne o chamava de George Bolão. Andréa pensou no quarto de Daphne. É claro que isso não podia ser verdade. Pobrezinho! — Você sabe o nome verdadeiro de Gordurinha? — Ela perguntou. Daphne andou indo para a cama com Gordurinha. Eu as coloquei de volta no quarto dela.posso lhe contar tudo. mas na época. era apenas um estudante. Daphne continuou a se encontrar com Gordurinha. porque Árabe era o único homem a quem ela amava realmente. Acho que você não viu todas. Não estamos conseguindo chegar a nenhuma conclusão. fazendo rima: "George Bolão beija as garotinhas.. mas Gordurinha tenho certeza. como presente de aniversário. Parece que não fomos talhadas para ser investigadora Susan. Disse também que achava estar começando a amá-lo. Não sei se era só de brincadeira ou se ele realmente se chamava George. de um jeito que as deixa louquinhas". Como ia dizendo. — Não sei.

— Você disse que não. Afinal de contas. Andréa ficou olhando para as labaredas que dançavam na lareira. subitamente ansiosa.incrivelmente parecido com o dela. do seriado Dinastia. — Você acha que ele pode ter sido amigo de Daphne? — Eu não sei. 101 — É claro — concordou Susan de pronto. Acho que já tive mais do que o suficiente por um dia. demonstrara um grande interesse em A Vitima.. com uns cabelos grisalhos de deixar qualquer mulher de queixo caído. Por quê? — Uma vez lhe perguntei se conhecia um homem chamado Neville Forbes — lembrou Andréa. Mas que relação Neville poderia ter com aquilo tudo? Alguma coisa deveria ter.. Mesmo não sendo um leitor constante de ficção. — Eu. tentando decidir o próximo passo que deveria dar. de aspecto distinto. Ele tem uns cinquenta para . Talvez depois de uma boa noite de sono. havia deixado de lado seus afazeres para ir procurá-la na Livraria Foyles.. não de Blake Carrington. — Ele é um causídico — completou Andréa esclarecendo: — Estou falando de Neville. É um homem alto.. como ele próprio havia confessado. Algo assim como Blake Carrington. não sei se quero fazer isso agora... Talvez o melhor fosse deixar o subconsciente agir e fazer a primeira coisa que lhe viesse à cabeça. mas é possível. Nesse exato momento pensou em Neville. Você já viu esse seriado da televisão? — Já sim. mas gostaria que pensasse outra vez.

sessenta anos. — Ele é famoso sim. Andréa não saberia dizer se estava desapontada ou aliviada. Neville Forbes. eu acho. — Neville Forbes foi à Livraria Foyles. — Susan balançou a cabeça.... Sabe se ela disse a alguém além de você que estava escrevendo um livro? Poderia ter mostrado o livro a alguém? — É possível. Portanto. mas o que estou pensando é. — Ele não é um homem famoso? Talvez eu tenha lido alguma coisa no jornal. Susan. Segundo . Domingo. Deve ter cinquenta e sete ou cinquenta e oito anos. Não voltei a vê-lo desde então. — Procure se lembrar. mas ele ligou várias vezes para o Royal Camelot e deixou recados para mim.. — É assim da minha idade? — Um pouco mais velho.. — Daphne chamava todos pelo apelido: Tigre.... — Nesse caso. comprou um exemplar de A Vítima e em seguida me levou para jantar — relatou Andréa. — Já se passaram mais de quarenta anos desde a guerra.. Calado.. Andréa ficou ainda mais ansiosa. o Santo. devia ter uns.. Neville. — Ele não falou no nome de Daphne uma única vez. Acho que já ouvi esse nome... É. eu não sei. — Mas isso não afasta a possibilidade de que tenha conhecido Daphne quando era um adolescente.. acho que ele pode ter sido do grupo de Daphne. Neville Forbes. Estou me lembrando de que recentemente falou-se muito de um caso que estava em julgamento.

— Quem não arrisca não petisca. Talvez a esposa interprete mal o telefonema. pode ser — admitiu Andréa... . seja qual for o motivo — ela declarou. Só que agora já é tarde para ligar. — É. Você sabe como é. — Acho que vou mesmo ligar para ele. está muito interessado em entrar em contato comigo.. — Pode ter visto você no programa de Roger Faversham. Neville é casado e.. não é mesmo? — Reconheceu Andréa rindo. — Andréa ficou se perguntando se não estava apenas arranjando um pretexto para voltar a se encontrar com Neville. — Minha intenção era não ter mais nenhum contato com Neville Forbes.disse à minha agente. assim como eu e muitas outras pessoas. — Ligue para o escritório dele amanhã de manhã. Não consigo entender por que comprou o livro e me convidou para jantar. — Talvez tenha gostado do seu jeito.. — Então por que não liga e pergunta de uma vez se ele conheceu Daphne? — Parece uma solução simples. Não gostaria de ligar para a casa dele. mas ultimamente parece que não consigo mais ser senhora dos meus atos. soltando uma risadinha.. — Acho até que isso de fato aconteceu. — E ele viu. Susan ficou olhando fixamente para ela. — Você tem o telefone dele? — Tenho sim.. simpatizado com você.. Durante alguns instantes. mas. mas mesmo assim.

O sol brilhava e o ar que entrava pelas janelas abertas. sem receber nenhuma visita de Daphne. Por volta das nove e meia da manhã. um mês promissor... — Fui informado de que você havia voltado para casa — surpreendeu-se Neville. — Eu sei. Ela telefonaria para Neville e poderia até encontrar-se com ele. Para completar. — Tenho tentado entrar em contato com você desde o nosso último encontro. Neville já devia estar no escritório. tinha o cheiro bom de mato molhado. Andréa dormiu surpreendentemente bem no sofá de Susan.. Iniciava-se um novo mês. e acordou na manhã seguinte sentindo-se otimista. — Compreendo. — Ah! Sim. Ambas as perspectivas a deixavam excitada. Durante alguns instantes os dois ficaram em silêncio. entende? Andréa sentiu o coração acelerado. — Eu ia voltar para casa. os pássaros cantavam alegremente. empoleirados nas árvores lá fora. mas mudei de ideia. até que Neville voltou a falar: — É muito importante que voltemos a nos ver. Andréa.. — Ele hesitou. Andréa pegou o telefone e discou o número. Ainda está no Royal Camelot? . — E o que achou? — Prefiro falar com você pessoalmente sobre o livro. Eu li A Vítima. Andréa lembrou-se de que aquele era o primeiro dia de maio.— Daphne vivia dizendo isso o tempo todo — ela comentou.

portanto. mas no momento estou na casa de uma amiga.. Tinha. esta manhã mesmo? Estou certa de que Susan ficaria feliz em ver um velho amigo de Daphne.. motivos antigos para insistir em. — Ela mora em Londres? Evidentemente o nome de Susan não significava nada para Neville.. Susan ainda mora na antiga casa de Daphne? — Mora sim — respondeu Andréa. Suponho que você era amigo de Daphne. Ela não lhe deu nenhum apelido? . ele retomou a palavra: — Não me lembro de ter conhecido Susan. O nome dela é Susan Dailey.. Então. — Estou aqui porque quero ver se resolvo o mistério da... o que fez Andrea: espirar com mais naturalidade. porém. mas Susan. — Quando solteira. Ele veio me procurar algum tempo depois do desaparecimento de Daphne. ele havia conhecido Daphne. — Isso mesmo... Logo.. ela se lembrou de que Dailey era o nome de casada de Susan.— Ainda estou hospedada lá sim. — Tinha uma irmã chamada Daphne. O marido dela. falando com dificuldade. — Squirt.. logo percebendo que seria impossível ter aquela conversa por telefone. minha amiga se chamava Susan Murdoch — informou Andréa. não é? Era um nome engraçado. Acho que Daphne a chamava de outro jeito. Fez-se outro silêncio desta vez mais intenso. Sprat.. — Será que você não pode vir até aqui? Imediatamente. Finalmente. Andréa ouvia claramente a respiração de Neville.. — Prosseguiu Andréa.

— Olá Andréa. era um homem extremamente charmoso. que viu na cor dos olhos: um misto de cinza com o azul do mar. Se você pertencia à turma de Daphne. Andréa começou a falar depressa. foi com aquela leve gagueira que Andréa já havia identificado antes: — O meu nome completo é Neville George Forbes. — Vamos Neville. Além disso. não era surpreendente não identificar Gordurinha em Neville. nervosamente. No momento em que abriu a porta para ele. talvez com raiva por Neville. — Lembra-se de quando lhe contei sobre a sensação que tive quando decidi seguir .Como ele não respondesse logo. tinha de ter um apelido. Andréa procurou descobrir alguma semelhança. Neville tomou a mão dela e reteve-a entre as suas durante alguns instantes. Naturalmente. Qual era? Tigre? O Santo? Domingo? Acho que Gordurinha não se encaixa em você. Um rosto de cinquenta e sete anos guarda bem pouca coisa dos dezessete anos. tive uma sensação incrível — ele declarou hesitando por alguns segundos. Quando Neville voltou a falar. Sem dúvida. Susan disse que às vezes Daphne chamava Gordurinha de George Bolão. — Olá — ela respondeu com voz meio trêmula. Desta vez o silêncio foi bem mais demorado. enquanto a estudava. de uma forma muito intensa. George devia ser o nome verdadeiro. Depois de olhála durante um instante. No entanto. Neville voltou a falar: — Na primeira vez em que a vi. Logo que entrou. de certa forma tê-la enganado. confesse.

Não sabia o que dizer. Se eu estava enganado. em pleno tribunal.. Os olhos dele brilharam. Lembro-me sim. Depois de esperar até que ela parasse de rir. Neville inclinou o corpo para frente e beijou-a ternamente nos lábios. gostaria de confirmar isso ouvindo dos seus próprios lábios. Com a mente ocupada exclusivamente com essas coisas. aquela ternura inicial deu lugar à ânsia que se apossou . Você tem de concordar que isso teria sido extremamente danoso para a minha carreira.. Aos poucos. os ingleses têm fama de serem reservados. Só sei que senti um enorme desejo por você Andréa. Andréa nem parou para pensar. Afinal de contas. — Pois senti a mesma coisa quando conheci você. Andréa achou engraçado ele tocar naquele assunto com tanta naturalidade. Apertando mais fortemente a mão dela. Cheguei a ter uma ereção. como se houvesse encontrado a saída de um labirinto? — Eu. Teria de ser com muita ternura e nenhuma pressa. lá mesmo na Livraria Foyles.. — Você não estava enganado Neville. — Desde então. — Neville sorriu. não é de admirar que eu quase tenha tido outra ereção. Neville continuou: — Naquele nosso encontro. — Cheguei mesmo a pensar em como deveria agir quando fosse beijá-la pela primeira vez. mas pelo jeito Neville não esperava mesmo que ela dissesse nada. você não saiu da minha cabeça um só instante Andréa — ele continuou.uma carreira? Aquela sensação de alívio. tive a nítida impressão de que você sentia a mesma coisa por mim. Isso nunca havia me acontecido antes.. Nem sei dizer exatamente como foi.

. Só então ele a soltou. Andréa começou a perceber as pernas bambas e se pendurou com os dois braços no pescoço dele. Presa de uma excitação crescente. — Acho que andei vendo muitos filmes americanos na televisão — disse Neville. ao mesmo tempo sentindo certo embaraço por causa das emoções que aquele homem havia despertado nela. submissa e suplicante. Para Andréa.. Tocavam os dela às vezes com força. um processo gradativo. tão forte que ela o sentiu entre as coxas. Aquilo provocou em Neville uma ereção imediata. mas que se consumia com igual rapidez. Os lábios dele eram infinitamente pacientes. De uma forma que a deixava tonta de prazer. porém. sabia fazer com que isso se realizasse bem devagar. tão logo era tocada por um daqueles adolescentes. sexo sempre tinha sido uma coisa rápida e furiosa. Neville encostou os lábios no ouvido dela. Andréa viu uma expressão de peraltice naquele rosto maduro. A essa altura. docemente. Por um instante. Como ela estivesse pronta para se entregar. Neville. Foi. Era um fogo que crescia parecendo querer dominar tudo. Andréa pressionava o corpo contra o dele. — Nós estamos sozinhos? — Susan está na cozinha — murmurou Andréa. Andréa riu até quase perder o fôlego. mas eu precisava fazer isso". — Sinto quase uma compulsão de dizer: "Desculpe. vagaroso. outras vezes com delicadeza. . era dominada por um fogo que a levava rapidamente ao orgasmo. respirando fundo para se controlar.dos dois. no entanto.

Neville olhou-a com genuíno espanto. ela resolveu tomar a iniciativa: — Imagino que antes de desaparecer. tentando demonstrar tranquilidade.. De qualquer forma. — Para falar a verdade.. — Você parecia mais baixo do que ela. mas consciente de que não estava alcançando esse intento. Mas. claro — disse Andrea. indicando a porta da sala de estar. por enquanto. mas a partir daí desandei a crescer e emagreci um bocado.— Você cresceu um bocado depois dos dezesseis anos. — Será que podemos nos sentar? Tenho algumas perguntas. Como é que você sabe disso? — Vi uma foto sua ao lado de Daphne — respondeu Andréa sem mentir. — Explicou Neville olhando em volta... Daphne lhe mostrou os rascunhos que fez para A Vítima. Havia até combinado com Susan que a amiga só apareceria depois que ela tivesse um bom tempo para arrancar de Neville algumas revelações. não foi? — Ela perguntou. não tinha motivos para ficar nervosa. — É. mas mantendo-se nos limites do que queria revelar. — Sim. — Mostrou sim.. — Foi Susan quem lhe pediu para escrever o livro de Daphne? . mas Daphne tinha mania de usar aqueles sapatos exageradamente altos. — Era um garoto bem gorducho até os dezessete anos. cresci mais de quinze centímetros — ele respondeu depois de algum tempo. Andréa sentou-se no outro extremo do sofá. Quando Neville já estava acomodado no sofá.. num impulso.

Eu nunca tinha ouvido falar de Daphne Murdoch até um dia antes de vir para a Inglaterra promover meu livro. Quando ouvi você falando sobre A Vítima. Mais tarde. sempre pensei que Daphne havia morrido. Devo confessar que fiquei chocado e perplexo. — Tanto que logo no dia seguinte à entrevista que dei a Roger Faversham. o que não chegava a ser surpreendente. podia ter produzido um trabalho baseado na concepção de Daphne e com o mesmo título imaginado por Daphne. — Susan pensou a mesma coisa — disse Andréa. Não conseguia entender como você. — Você falou em Paulette e no Clube Oásis. Neville parecia confuso. vim até aqui e ela me mostrou os rascunhos do livro que Daphne estava escrevendo. — Ou foi à própria Daphne quem arranjou um jeito de tomar essa iniciativa? — Eu conheci Susan depois de ter conhecido você Neville — respondeu Andréa. Durante todos esses anos. além do título do livro. Podia ter ido morar nos Estados Unidos e convencido você a assinar o livro dela. Não poderia imaginar que ela havia simplesmente desaparecido voluntariamente. comecei a pensar que talvez ela ainda estivesse viva.— Perguntou Neville. porém. mas logo percebi que ela queria apenas descobrir a verdade. foi me procurar no hotel. uma americana. Não era desse tipo de pessoa.. é claro que nunca a conheci. — Quanto a Daphne. Tive a impressão de que Susan pretendia me acusar de plágio. — Reconheci alguns dos nomes que você mencionou no programa de Roger Faversham — ele disse. Quando tive notícias dela. A Vítima já estava nas ..

você se apossou dos originais de Daphne. No entanto.. Agora. — Eu pretendia indagar — ele admitiu. escute bem Andréa: não há nada que eu despreze mais do que as fraudes.. senti-me tão di-diferente quando fiquei perto de vo-você. não é? — Dificilmente. lembre-se de que naquela ocasião eu ainda não havia lido o livro. uma testemunha hostil. Andréa inclinou-se um pouco para frente. — Eu esperava que você tomasse a iniciativa de falar em Daphne — continuou Neville.. — Tinha uma porção de perguntas para lhe fazer. na certa igual à que mostrava ao interrogar. Andréa achou melhor não partir para um duelo verbal. De uma forma ou de outra. — Esse é o mistério que estou tentando desvendar. — Mas como você pode ter copiado. — Além disso. mas não foi isso o que aconteceu. Vim aqui na esperança de ouvir a verdade.livraria havia algum tempo. Ele estava com a expressão dura. no tribunal. — Você não acreditaria que a semelhança entre o meu livro e o de Daphne é uma simples coincidência. . Mas tem uma coisa que quero saber de você Neville: por que não me perguntou nada sobre Daphne quando foi me procurar na Livraria Foyles? Andréa fez aquela pergunta como se dela dependesse qualquer outra explicação. esperando que ele estivesse para dizer algo mais pessoal.. portanto não podia saber que ele era tão semelhante ao original.

não se admite esse tipo de evidência num tribunal. — Susan falou em psicografia. — Que tal começar falando a verdade? — Ele sugeriu. — Ultimamente. um dos nossos promotores apresentou uma testemunha que afirmou ter visto em sua bola de cristal o réu cometendo o crime.— Bem. No entanto. Neville mostrava uma expressão de tão absoluto autocontrole que seria impossível adivinhar o que ele estava pensando. — Está querendo me dizer que A Vítima foi ditado a você pelo espírito de Daphne? Muito sério.. — Não faz muito tempo.... Neville ficou olhando firmemente para ela. além de garantir que lera a culpa do acusado nas cartas de taro. não posso censurá-lo por isso. o que me levou a estudar profundamente o assunto para poder combatê-lo com eficácia. sem muita convicção. Depois que eu mesma examinei os originais de Daphne. Andréa até ficou contente por não ter falado na teoria da reencarnação. Psicografia é o que os chamados médiuns afirmam ser um tipo de comunicação razoavelmente comum. Neville. não sei se serei capaz de lhe explicar essa história de uma forma satisfatória. Pode ser uma explicação. num tom que não deixava dúvidas quanto ao seu ceticismo. Andréa sentiu-se corar. sempre aparece alguém tentando lançar mão desses recursos. os chamados médiuns estão se infiltrando até nos órgãos da Justiça — respondeu Neville. Por sorte. Na . — Você pelo menos já ouviu falar em psicografia? — Ela questionou. — Durante um longo momento.

antes que ele retomasse o controle do diálogo. — Eu a amava — ele confessou. mas logo se recuperou. — Interrompendo aquelas lembranças doces. Andréa? Espera que eu acredite que você teve algum tipo de experiência espiritual com Daphne? — Você gostava muito de Daphne. tão cheia de vivacidade e brilho.. que se entusiasmava por quase nada. Havia conversado com um editor que conheceu numa festa e que se mostrou interessado pela história. — Você achou que estava tudo normal com ela? — Por que quer saber isso? — Por favor. Neville... para que fossem . — Não parecia à mesma de sempre — ele respondeu afinal. Por acaso está me tomando por idiota. Naquela noite. Ela parecia estar bem? Neville ficou em silêncio por alguns instantes. mais jovem do que ela. O homem sugeriu que ela entregasse os originais do livro à secretária dele. estava muito excitada por causa do livro..verdade. — Susan me disse que você esteve com Daphne na noite anterior ao desaparecimento dela — interrompeu Andréa. tudo não passa de delírio ou autossugestão. é claro. mas Daphne era tão encantadora. — Era muito jovem. confie em mim e responda à pergunta. achando que talvez tivesse melhor sucesso atacando por aquele flanco. não gostava? — Perguntou Andréa. ele fechou novamente o semblante. — Daphne sempre foi uma pessoa feliz. agora com ternura nos olhos. Neville mostrou-se surpreso por um segundo. — O que isso tem a ver com.

Neville juntou as sobrancelhas. Dizia que não estava segura de que conseguiria escrever um final justo para a história. ele olhou para Andréa com ar de desconfiança. Daphne ficou bastante agitada. Infelizmente acabamos discutindo. — Se não conheceu Daphne. — Jamais ficou provado que ela foi assassinada.. continuando a olhá-la fixamente. — Parando de falar por alguns instantes. — Acontece que eu sei que Daphne Murdoch levou um tiro. por que está tão interessada no que ela fazia ou deixava de fazer? — Quero descobrir quem a matou. Enquanto falava nisso. — Vocês discutiram por causa do livro? — Não. mas imagino que tivesse um compromisso. Eu a tinha levado ao Turf. provavelmente no mesmo dia em que desapareceu: 30 de janeiro . Daphne sempre tinha compromissos. No entanto.. Nenhum corpo foi encontrado. nervosa. Não achava isso de bom tom. Era uma otimista incorrigível. Por outro lado. Nevava um pouco e a paisagem estava muito bonita.. Era um dos lugares preferidos de Daphne. — Ela disse se iria se encontrar com alguém na noite seguinte? — Não..examinados. foi por um motivo completamente diferente. — Andréa percebeu que ele não estava disposto a revelar o motivo da discussão. nunca fazia comentários sobre um namorado. Confesso que não entendi bem o que seria "final justo". estava apreensiva. uma taverna perto da propriedade da minha família. Nunca mais voltei a vê-la depois daquela noite. Isso bastou para que Daphne acreditasse que o livro se transformaria num bestseller.

— Esse não é um apelido de que eu possa me orgulhar — ele disse com um sorriso amarelo. o bom senso prevaleceu. Susan também está convencida disso. — É hora do lanche crianças — ela anunciou. — Como você deve lembrar Susan. — Como pode saber disso? — Ele perguntou. Neville engoliu em seco. mas sei que ela está morta. Daphne tinha a mania de dar apelidos a tudo e a todos. Como se obedecesse à marcação de uma peça de teatro. — Mal posso acreditar que quem está sentado no meu sofá é Gordurinha. mas logo mudando de tom.de 1951. Andrea pensou em dizer a ele que era a reencarnação de Daphne Murdoch e que estivera presente na ocasião da morte dela. . — Tem alguma prova para sustentar essa afirmação absurda? — Desafiou Neville. naquela época. Decidiu que Gordurinha era o apelido perfeito para mim. Depois de ficar em silêncio por um instante. o velho amigo da minha irmã Daphne. e se recusava a me chamar de outra forma. com a voz claramente trêmula. entrando na sala com uma bandeja de chá e corando de uma forma encantadora. Dizia que Neville era um nome muito sério para um rapaz simpático como eu. o que provavelmente era verdade. — Infelizmente não tenho nenhuma prova palpável. No entanto. Enquanto apertava a mão da dona da casa. Neville também corou levemente. Susan escolheu aquele momento para entrar.

Daphne praticamente não dormia. sem prestar muita atenção naquilo. não acha? No entanto. Susan sentou-se ao lado de Andréa e começou a servir o chá. com aquele sorriso enorme. — Eu estava certo de que algo terrível havia acontecido com ela Susan meneou a cabeça com gravidade.Susan sorria para ele. — Nós dois conversamos pelo telefone depois do desaparecimento de Daphne — ela recordou. Não conseguia tirar da cabeça as vítimas dos bombardeios. Durante anos fiquei esperando que ela entrasse por aquela porta. como sempre fazia. eu estava convencida de que ela estava bem. Achava que se algo de mal houvesse acontecido. — Naquele último ano. Nesse momento o gato pulou no colo de Susan e ela começou a acariciá-lo. o estado . Por alguns instantes fez-se um silêncio constrangedor. — Foi uma coisa muito estranha. quando os alemães passaram a disparar contra nós as bombas V-1 e V-2. — Disse que ela andava fumando muito. — Também me falava muito em você — respondeu Neville galantemente. — Ela se preocupava por causa da guerra — interferiu Neville. estava emagrecendo e parecia ter medo de alguma coisa. — Daphne falava muito em você. — Você me contou que houve um período em que Daphne esteve muito preocupada — lembrou Andréa. — Pelo que me lembro. eu sentiria aqui dentro. Em seguida. dirigindo-se a Neville. você estava muito chocado.

em que ficavam. Andréa quase disse que sabia daquilo, mas conteve-se a tempo. — A continuidade dos bombardeios era uma coisa dura para todos — prosseguiu Neville. — Daphne, porém, odiava mais os foguetes teleguiados do que as bombas despejadas pelos aviões, porque neles não estava envolvido o elemento humano. Chamava aqueles foguetes de máquinas do diabo. Andréa olhou para Susan. — Quando você disse que havia algo perturbando Daphne, tive a impressão de que se referia a um período posterior à guerra. — Tem razão — confirmou Susan. — Foi em 1948, no ano em que prestei meus exames finais. — O Sr. Cornforth disse que em 1948 houve um... Um probleminha no Clube das Gaivotas. No mesmo instante, Neville se pôs de pé. — Corny Cornforth? Andréa olhou para ele com curiosidade. — Sim. Estive conversando com o Sr. Cornforth alguns dias atrás. Também estive no Clube das Gaivotas. Andréa ficou imaginando o que ele diria se ela revelasse que o tinha visto lá, no Clube das Gaivotas, no ano de 1944, ao lado de Pardal, deixando os dois para ir ao encontro de Árabe... Não, seria maldade falar naquilo. — Por que foi falar com ele? — Questionou Neville ainda de pé. — Não compreendo o que está pretendendo, Andréa! O que em nome de Deus, você foi ver no Clube das Gaivotas? Acho que ele nem existe mais...

— O prédio ainda está lá — cortou Andréa. — Fui porque queria descobrir o que aconteceu com Daphne. Também achei que talvez o Sr. Cornforth pudesse dar alguma informação, mas ele não ajudou em nada. Apenas insinuou que havia acontecido alguma coisa em 1948 e depois disse que não falaria mais nada sobre Daphne. — Mas por que você acha que o problema de 1948 teve alguma coisa a ver com Daphne? — Inquiriu Neville. — Foi Solange quem morreu em 1948, não Daphne. Daphne só foi desaparecer em 1951. Andréa ficou olhando para ele espantada. — Quem era essa Solange? Susan mexeu-se na poltrona. Imediatamente, o gato abriu os olhos e retesou as orelhas, alerta, talvez temeroso de ser outra vez jogado ao chão, como alguns dias antes. — Já ouvi falar nesse nome — declarou Susan. — Daphne conhecia uma moça chamada Solange. — Solange Beaudry — completou Neville. Agora ele estava encostado na parte de cima da lareira vazia e olhava para Andréa como se quisesse descobrir alguma coisa. — Solange era amiga de Daphne? — Quis saber Andréa. Neville balançou afirmativamente a cabeça. — Acho que era amiga até demais. Daphne não tinha muitas amigas... Talvez duas ou três. Pelo que me lembro, havia a recepcionista do clube e uma mulher com quem ela trabalhou durante algum tempo. Solange era muito benquista pelos frequentadores do clube. Seria natural pensar que isso provocaria

ciúmes em Daphne, que gostava de ser o centro das atenções, mas não era o que acontecia. Todos pareciam querer se aproveitar de Solange e Daphne procurava protegê-la. — Você também gostava dela? Isto é... De Solange? — Acho que sim. Era uma garota bonita e de aspecto sempre saudável. Além disso, tinha uma doçura, certo ar de inocência que a tornava atraente. Mesmo assim, não era o meu tipo, se é isso o que você está querendo saber. Eu me considerava um cosmopolita e preferia mulheres mais sofisticadas que Solange. — O que aconteceu com ela? — Perguntou Andréa, com medo de ver confirmada a suspeita que começava a crescer na mente dela. — De que foi que ela morreu? Estava doente ou sofreu um acidente? Neville ficou olhando para ela demoradamente, em silêncio. — Você deveria saber quem foi Solange — ele disse finalmente. — Jamais sequer ouvi falar no nome dela. — Outra vez Neville fechou o semblante. — Está exigindo demais de mim, Andréa — ele disse com frieza. — Primeiro tentou me convencer de que sabia, com absoluta certeza, que Daphne foi assassinada. Disse também que escreveu aquele livro depois de ter recebido de Daphne algum tipo de comunicação espiritual. Agora quer que eu acredite que nunca ouviu falar na mulher que foi o centro de toda a história? Andréa ficou boquiaberta. — Está se referindo à própria vítima... Paulette... — É claro que Solange inspirou a criação da personagem Paulette. Solange trabalhava como recepcionista no Clube das

Gaivotas. Foi lá que ela atirou no marido. Daphne achou melhor não usar os nomes reais no livro. Afinal de contas, Solange era uma assassina. Depois de discutir alguns nomes comigo, resolveu trocar o de Solange por Paulette. — Solange matou o marido no Clube das Gaivotas? — Perguntou Andréa. — Então A Vítima é uma história real? Ela disse aquilo numa voz tão fraca que precisou repetir a pergunta para que Neville entendesse. — É claro. No livro, Daphne resolveu chamar o Clube de Oásis numa referência sutil a Laurie McGregor. Ela o chamava de Árabe... O que importa é que a história quase não tem disfarce Andréa. Saiu tudo nos jornais, começando no assassinato e terminando no suicídio de Solange; dois meses mais tarde, imediatamente após o julgamento dela, que durou três dias. É por isso que não faz sentido você dizer que recebeu mensagens espirituais. No início, Daphne quis escrever tudo porque achou a coisa mais excitante que havia acontecido com algum conhecido dela. Saiu entrevistando as pessoas que presenciaram o crime a fim de comparar as versões. Quando descobriu que escrever um livro era um trabalho mais duro do que havia imaginado, o entusiasmo dela diminuiu. Três anos mais tarde, retomou a ideia. Segundo dizia, estava disposta a terminar a história e publicar o livro. — Por quê? Isto é, por que depois de todo esse tempo? — Acho que foi por causa do tal editor que demonstrou interesse. — Todos sabiam que Daphne havia resolvido terminar a redação do livro?

— Está se referindo aos frequentadores do clube? Não. Por essa altura, o clube não era o mesmo de antes do crime. As pessoas passaram a evitá-lo. Vez por outra os antigos frequentadores se encontravam, de preferência em outro local. Naturalmente eles sabiam do livro, porque Daphne não conseguia manter nada em segredo. Conclusões lógicas se formavam na cabeça de Andréa, mas ela ainda não se sentia pronta para enfrentá-las. — A Vítima é um romance baseado numa pessoa real — ela repetiu perplexa. — Em vez de ficção, inspirou-se em fatos que realmente aconteceram. Você sabia disso, Susan? Fazia alguma ideia a respeito? Susan balançou a cabeça. — O nome de Solange não me é estranho, mas eu pensava que Daphne havia inventado a história. Nessa época eu estava na escola. Daphne deve ter achado melhor não me contar nada, talvez para me proteger. — A Vítima é baseado numa pessoa real — voltou a repetir Andréa, tomando consciência da terrível perspectiva que aquela informação abria para ela. — Se a história é verdadeira, não é absurdo pensar que Daphne tenha sido morta por alguém que não queria ver o livro publicado, alguém que tenha tido alguma responsabilidade na morte de Solange. Se isso era verdade, essa mesma pessoa teria agora motivos para se preocupar com a publicação do livro de Andréa. Sem dúvida procuraria saber como Andréa Cavenaugh, podia ter escrito um livro tão semelhante ao de Daphne e até onde estava realmente

inteirada dos fatos. Preocupada com esses pensamentos, Andréa demorou a perceber que Neville estava se despedindo de Susan. — Você não pode ir agora — ela proibiu tentando retê-lo. — Vai ter de me contar tudo. Preciso saber... — Eu estou sendo; esperado no tribunal Andréa — comunicou Neville, com ar de enfado. — Você tem de acreditar em mim — ela insistiu, num tom desesperado, ao mesmo tempo em que se levantava. — Eu não sabia que A Vítima se baseou num acontecimento real. Até recentemente, nem sabia que Daphne foi à autora original do livro. Quando escrevi o romance, pensei que estava criando uma obra de ficção. Só que... Agora, tem sido um pesadelo para mim, Neville. Desde a primeira vez que ouvi o nome de Daphne Murdoch, coisas muito estranhas têm acontecido... — Coisas estranhas? — Repetiu Neville, balançando a cabeça e torcendo o canto da boca. — Desculpe Andréa, mas preciso mesmo ir. Andréa segurou-o pelos braços, como se quisesse retê-lo pela coação física. — Você voltará? Preciso saber de tudo que aconteceu em 1948. A morte de Daphne deve ter alguma ligação com a de Solange... Pelo menos, procure entender que preciso de mais algumas informações. — Não sei se conseguirei entender alguma coisa dessa sua história — ele disse, afastando as mãos dela. — Mesmo assim, pode crer que voltarei.

Aquelas palavras significariam um desafio ou uma promessa? Neville parecia tão reservado, tão fechado em si mesmo... O que havia acontecido com aquele homem que a tomara nos braços com tanto ardor, quase a levando ao delírio? Andréa resolveu insistir: — Você disse que achou que alguma coisa terrível havia acontecido com Daphne. O que poderia ter acontecido com ela? Por um momento Andréa pensou que ele se recusaria a responder. No entanto, Neville respirou profundamente e falou: — Sempre acreditei que Daphne se matou. Susan engoliu em seco e olhou fixamente para ele, com as duas mãos sobrepostas na boca. — Por que ela se mataria? — Questionou Andréa. Neville balançou a cabeça, sem olhar para ela. — Eu não sei. Era mais do que evidente que ele estava mentindo.

CAPÍTULO X

News of the World. O envelope tinha o mesmo tamanho e a mesma cor da caixa. Times e Daily Telegraph. Estavam num envelope grande. "Garçonete Processada depois de Tiroteio". dentro de uma caixa de papelão. o mesmo: durante a ocupação alemã da França. Pierre Deaudry recusou-se a cooperar com a Resistência Francesa e por causa disso. "O destino a levou para a vida noturna de Londres assim como leva a mariposa para as chamas". só na manhã seguinte conseguiram encontrar os recortes de jornal. Quando os aliados libertaram Paris. Havia recortes de muitos jornais: Daily Mirror. mais dez por cento de comissão sobre a comida e a bebida que servisse aos frequentadores. acabou arranjando alguns inimigos. Por isso Andréa não havia reparado nele antes. de Londres. de forma menos sensacionalista. Sem conseguir um trabalho adequado a suas aptidões. que era apresentada como uma semi-inválida manteve-se desempregada. arranjou um emprego fixo. Claudine. . na companhia da jovem esposa e da irmã gêmea. dizia a manchete do News of the World. dramatizou o News of the World. Claudine. trabalhando das três da tarde às onze da noite e recebendo cinco libras por semana. Os relatos eram. Para ser aceita no trabalho. em essência.Embora Susan e Andréa tivessem passado a maior parte da quinta-feira procurando entre as coisas de Daphne. "Recepcionista de Clube Atira no Marido. ele diplomaticamente se mudou para Londres. Apenas Solange. informava o Times. de dezesseis anos. como recepcionista do Clube das Gaivotas. passou os quatro anos seguintes pulando de um emprego a outro. em Vez de se Afastar dos Amantes". Daily Exress.

Numa reação muito natural. Muito deles á descreveram.Solange mentiu sobre a idade. O Daily Mirror gastou várias linhas descrevendo os olhos castanhos muitos claros e os cabelos ondulados e acobreados. "Solange não sabia dizer não". segundo disse mais tarde. Evidentemente. Havia fotos mostrando o doce rosto arredondado e a silhueta sensual de Solange. no interior do Clube das Gaivotas e na presença de várias testemunhas. a jovem acabou descobrindo que podia aumentar consideravelmente seus rendimentos se fosse "gentil" com aqueles cavalheiros no andar superior do clube. testemunhou um deles. com o objetivo de pegar dinheiro com ela. uma quarta-feira. Às vezes. sua honestidade e sua simpatia acabaram por transformá-la numa pessoa muito benquista entre os frequentadores do clube. mas levou suas críticas muito além do que devia. ia ao clube sem avisar. Tinha sido instruída pelo marido para fazer isso. com quem era muito bom conversar. "Ela gostava de todos". Solange Beaudry acertou um tiro fatal no marido. Pierre. como sendo uma jovem simpática. Seu bom temperamento. Como consequência. mas desta vez Solange sacou um revólver de dentro de uma bolsa de palhinha que sempre carregava e apontou . Pierre criticou aquelas atividades da esposa. e acabava espancando a jovem e linda esposa sempre que a surpreendia sendo "gentil". Solange havia nascido e crescido no interior da França. logo alguns frequentadores do clube passaram a ver em Solange algo mais que a simples simpatia. Pierre ameaçava espancá-la novamente naquela confrontação final. confidenciou a um repórter uma das garçonetes. Na tarde de 3 de maio de 1948.

Antes que qualquer pessoa pudesse intervir. examinou-o e em seguida o passou a Andréa. Pierre morreu instantaneamente. quando ela foi levada a julgamento. Não ficou esclarecido de que forma ela conseguira a droga. Ao sol da manhã. Depois de circular por ali durante algum tempo. e "com muita justiça". . Estavam as duas no quarto de Daphne. Daphne havia escrito: "Solange/Paulette. Estava outra vez um dia lindo. Solange ingeriu todo o conteúdo de um vidro de barbitúricos. Por algum motivo. que Pierre havia agido bem em conformidade com seus direitos de marido traído. Numa das margens. Solange foi presa em flagrante e mandada para a prisão de Holloway. Enquanto o juiz refletia sobre a sentença que iria aplicar. — Daphne mudou muito pouco da história — comentou Andréa olhando para Susan. Pierre/Jacques. com a caixa de papelão entre elas e uma porção de papéis espalhados em volta. disparou as seis balas contra o corpo de Pierre. segundo opinava o repórter do News of the World. a vegetação do jardim refletia as cores da primavera. Claudine/Thérèse". Depois de ficar algum tempo na janela.diretamente para o marido. isso irritou os jurados que já estavam horrorizados pelas terríveis histórias acerca da vida sexual de Solange. sentadas no chão. Marmalade aninhou-se entre os papéis e dormiu placidamente. Susan apanhou um dos recortes. Consideraram Solange culpada e não fizeram ao magistrado nenhuma recomendação de misericórdia. era opinião deles. Recusou-se teimosamente a revelar onde havia adquirido a arma. Mesmo o juiz os advertindo de que Solange estava sendo julgada por assassinato e não por imoralidade.

Pode ter dado um revólver a Solange para que se defendesse. — Deus do céu! Eu nem tinha pensado nisso. o homem que forneceu a arma — acrescentou Andréa. — Acho que ela seria capaz sim. se achasse que Solange não tinha outra saída. um repórter de jornal que vez por outra se tornava amante de Paulette. — Resta saber se Kenneth é apenas ficção ou se de fato existiu. Kenneth era apenas alguém na multidão. Isso pode explicar por que esteve tão preocupada . Se existiu quem na vida real ele representa? Bem. — Fui eu que criei aquele personagem extra. Susan mostrava uma expressão de tristeza no rosto redondo. Daphne detestava ver uma mulher sendo maltratada. Daphne não aparece uma única vez na história. E se ele estiver certo? Será que Daphne pode ter sido a contrapartida real de Kenneth. não como ela própria. pode ser que eu apenas tenha inventado esse Kenneth. Kenneth. — Neville acha que Daphne se matou. Pode ser que no meu subconsciente. só para completar o encadeamento da trama. mas é evidente de que contou a história exatamente como aconteceu — concluiu Susan. eu a tenha visto como um repórter de jornal. Agora não sei mais dizer o que foi escrito aleatoriamente naquele livro. a pessoa que forneceu a arma a Solange? Depois de ficar olhando para a amiga por alguns instantes. Andréa afastou a caixa de papelão e espichou as pernas. Será que ela teria coragem de fornecer uma arma para que alguém cometesse um crime? Seria capaz disso? Susan suspirou. Achava estar criando o personagem aleatoriamente.— Daphne mudou os nomes.

Cerca de quinze minutos mais tarde. Andréa pôs açúcar nas xícaras e olhou para a dona da casa. Andréa pôs as duas mãos nos ombros de Susan e ficou assim durante algum tempo.naquele ano. tenha se sentido tão culpada pelo assassinato de Pierre e pelo suicídio de Solange que resolveu dar fim à própria vida. que ao começar a escrever o livro. Para lidarmos com essa história. — Não quero nem pensar que Daphne me deixou sozinha por decisão própria. Por que não tentamos nos convencer de que estamos simplesmente fazendo uma pesquisa para o meu livro? — É. mais conformada. — Vejo o revólver com muita clareza. mas sem muita convicção. — A toda hora vamos nos sentir arrasadas se pensarmos na coisa de forma pessoal. Aprumando-se nos joelhos. — Você alguma vez esteve com Claudine Beaudry? . pode ser — disse Susan à entrada da cozinha. enquanto elas desciam a escada. Talvez seja porque não havia ninguém ali. — Ainda me lembro da cena que imaginei no aeroporto — disse Andréa devagar. mas não consigo distinguir quem está por trás dele. enquanto a outra chorava baixinho. A própria Daphne podia estar segurando o revólver. — Acho que seria melhor você procurar ver isso tudo de uma forma objetiva — sugeriu Andréa. Susan dispôs-se a fazer um chá e as duas desceram. Algum tempo mais tarde. com os olhos cheios de lágrimas. — Eu preferia ter certeza de que ela foi assassinada — declarou Susan. Pode ser também. teremos de pensar em Daphne como uma pessoa distante.

foi até o hall e voltou com a lista telefônica de Londres. o que se confirmou pelos relatos dos jornais. Jacques. Andréa engoliu em seco. cinquenta e nove? No meu livro. que estava com os olhos arregalados. Susan a seguiu carregando a lista telefônica. Talvez. — Srta. Beaudry. — O endereço é em Paddington.. Depois que a campainha tocou dez vezes no outro lado da linha. ela teria hoje sessenta e nove anos. mas não parecia ter o sotaque característico dos londrinos. — Acha que ela ainda estaria viva? Quantos anos teria Solange se ainda estivesse viva? Cinquenta e oito. ao que parece. Como Pierre e Claudine eram irmãos gêmeos. parando de olhar para Susan. com um claro sotaque francês. Pierre tem dez anos a mais que a esposa. — Dizendo isso ela torceu o nariz. Beaudry — ela anunciou um minuto mais tarde.. Não estaria tão velha assim. — Acha que pode ser Claudine? — Só existe um jeito de descobrir — respondeu Andréa. nunca. levantando-se e se dirigindo ao hall. — Eu sou Claudine Beaudry.. eu queria lhe perguntar.— Não. uma voz feminina atendeu: — Alô! Era apenas uma palavra.. — Aqui existe alguém chamado C... Isto é. Era uma voz quente. — Gostaria de falar com Claudine Beaudry — disse Andréa. Andréa pegou o telefone e discou o número. Susan levantou-se. Gostaria de saber .

Se Solange Beaudry era sua cunhada. — Eu não falo com escritores — cortou Claudine com firmeza. Quanto a mim.. — Solange morreu há muitos anos — interrompeu Claudine.. desculpe. anos atrás. Durante o breve silêncio que se seguiu.. transformaram minha vida num verdadeiro inferno e não estou disposta a voltar a sofrer o que já sofri. Preciso saber quem estava presente quando Solange atirou em Pierre. — Mas não estou. Meu nome é Andréa Cavenaugh... Não é boa coisa mexer nas cinzas do passado — o tom da voz dela dava a entender que queria encerrar o diálogo. Andréa esperou ouvir o clique do telefone sendo desligado. — Por favor. também já morreu. mas o que ouviu foi à voz vagarosa de Claudine: — Está tudo nos autos do processo. ouça o que tenho a dizer Srta. Claudine não deu sinais de reconhecer o nome nem se mostrou ofendida. — Você é uma repórter? — Não. Beaudry — apressou-se em pedir Andréa. Só queria que a senhora me dissesse. Eu devia ter. não leio romances e não falo com pessoas que escrevem romances. Fez-se um breve silêncio antes que a mulher voltasse a falar: — Quem é você? — Oh.. — Eu sou uma romancista. .se. — Meu irmão Pierre. — Por favor. mas quis maiores informações.... não uma jornalista. não desligue — implorou Andréa. sou escritora — admitiu Andréa.. — Os jornalistas. — Falar com a senhora é de vital importância para mim.

— Pode ser também que esteja querendo aproveitar a oportunidade de arranjar algum dinheiro — contrapôs Andréa suspirando. Fez-se outro silêncio. Srta. depois que Andréa fez um relato de tudo o que ouvira. — Por que não? — Bem. Depois veremos. Preciso pensar um pouco. parece muito pouco provável Claudine ter lido A Vítima.— Sim. ela declarou. Talvez eu consiga alguma coisa. — Quanto? — Eu não estou entendendo. — Mas quem é você? Andréa percebeu que. — Pois pense à vontade. "Não leio romances".. Outro silêncio. Eu deveria dar graças a Deus por isso... Oh. — Tenho a impressão de que ela sabe de alguma coisa — opinou Susan. ela queria mais que um simples nome. agora. — Estou querendo saber à verdade. mas o que está lá não é necessariamente a verdade — ponderou Andréa. . aproveitando a chance. Andréa voltou a falar ao telefone com indignação. não sei. a senhora quer que eu pague pela informação? — Depois de trocar um olhar com Susan. — Pelo menos. Susan voltou a folhear a lista telefônica. Em seguida ela desligou e Andréa pôs o fone no gancho. — Sou uma amiga de Daphne Murdoch.. Enquanto ela falava. Beaudry. mais demorado. Naturalmente a senhora não pode estar pensando que eu devo pagar para saber a verdade.

olhando para o telefone e pensando se não deveria tentar outra vez com Claudine. havia combinado se encontrar com ele às cinco da tarde. no bar do Royal Camelot. . Também não consigo encontrar nenhum Bird. Andréa deu de ombros. — Achei que ele preferiria conversar em território neutro. — Acho que vou ligar para Neville — decidiu Andréa. Depois de cumprimentá-la com a efusão de uma estátua. Andréa achou melhor não recorrer a argumentos feministas. Se Neville não houvesse partido com tanta pressa no dia anterior. — Ela só não disse que não queria que a oportunidade de obter informações sólidas. bem que podia ter respondido a algumas perguntas sobre Claudine. Cornforth. Olhando no relógio de pulso. num impulso. ela viu que já era quase meio-dia.— Não existe nenhum Lawrence MacGregor aqui. — Não sei se ele me revelará alguma coisa — duvidou Andréa. — Por que não o convidou para vir aqui? — Perguntou Susan. pediu gim com tônica sem ao menos perguntar o que ela queria. Neville apareceu tão sério quanto deveria ser ao percorrer as repartições do Fórum. acabasse se transformando num encontro amoroso. — Quero ouvir tudo o que você puder dizer sobre Claudine Beaudry — ela reivindicou tão logo eles se sentaram a uma mesa reservada. pegando o telefone antes que mudasse de ideia. Talvez você deva voltar a falar com o Sr. Minutos mais tarde.

Responderei às suas perguntas até onde for capaz disso.. Em troca. que equivaliam a chamá-la outra vez de mentirosa. Quando já estava para protestar contra aqueles termos. um armistício. você me contará toda a verdade sobre o livro de Daphne. mas isso foi há quarenta anos — começou Neville.. . aquele homem mexia com ela. Acha que não tenho motivos para ficar zangada? Neville sustentou o olhar. sem pestanejar. Andréa achou melhor responder no mesmo tom: — Não quando o assunto é importante. selando o armistício. sentiu um arrepio pelo corpo. De fato. — Telefonei para ela hoje. — Neville olhou bem para ela. Queria fazer algumas perguntas sobre a morte de Pierre. ele ergueu as duas mãos espalmadas num gesto de rendição. — Estive com Claudine poucas vezes. — Talvez nós devamos declarar a Pax Dei. — Eu sei.Neville ergueu as sobrancelhas de um jeito no mínimo irritante. Andréa. — Não sei se a reconheceria se a visse hoje. Andréa achou melhor não se prender a questões de menor importância. — Você não se contenta com pouco. mas ela não quis falar. mas a questão é que preciso de algumas informações. Quando estendeu a mão e apertou a dele. — Está zangada comigo? — Você me chamou de mentirosa. não é Andréa? Se era para ser intratável. Depois de alguns instantes. — É natural que ela não queira lembrar.

— Se eu soubesse como é Claudine. — Hoje de manhã Susan e eu encontramos alguns recortes de jornal no quarto de Daphne.. não a procuraria para nada. Se eu fosse você. voltarei a ligar e continuarei ligando até que Claudine concorde em dizer o que quero saber. — Pelo que me lembro. Seja como for. uma pessoa honrada. honesta e totalmente confiável. está bem? Pense em mim como o mais inocente dos seus clientes. que eu escrevi A Vítima na maior inocência. — Você não tinha lido nenhuma reportagem sobre o assunto antes de hoje pela manhã? — Inquiriu Neville incrédulo. depositou o copo sobre a mesa e olhou bem nos olhos dele. poderia tentar uma aproximação que a fizesse reagir de uma forma mais. . a palavra tratável não faz parte do dicionário de Claudine. tente aceitar como verdade. vá em frente. Se quiser me investigar mais tarde. ela está em condições de me dar. Andréa pôs água tônica num dos copos e bebeu um gole. São reportagens sobre o assassinato. e apenas para me fazer um favor. pronunciada numa voz macia. — Ouça bem Neville: por enquanto.que acredito. sem saber absolutamente nada sobre esses fatos. Tratável. — E o que é que você quer saber? Andréa fingiu não ter ouvido a pergunta. mas no momento não conseguiremos fazer nenhum progresso se você ficar questionando tudo o que eu disser. Em seguida. É uma mulher extremamente desagradável.. Consta que Claudine era uma semi-inválida.

— Foi o que ouvi dizer. ela também entrevistou todas as pessoas que presenciaram o crime. Talvez por isso fosse uma pessoa tão. Negativista.. mas arrependendo-se logo em seguida. Claudine era muito devotada ao irmão. e não aprovou aquele casamento. mas acompanhou todo o julgamento de Solange. — Neville cocou a cabeça.— Eu tentarei. — Bem. — Começou a questionar Neville. Pode ser até que o fato de depender de Solange tenha aumentado esse ressentimento.. mas preferiu não resistir. gritando que Solange havia tirado a vida da única pessoa que ela amara. parece que Claudine tinha um problema de coluna. Dizia que Solange seria queimada no fogo do inferno. meio corcunda. ela estava presente no momento em que Solange atirou em Pierre. — Mas ela não se importava que Solange a sustentasse. mas Daphne me contou que Claudine se agarrou ao corpo de Pierre. Era deformada.. — Claudine realmente detestava Solange. — Sim. Fez isso em função do livro que estava escrevendo.. Por isso tomava remédios. Pierre. e esse é um outro motivo por que. Como já lhe contei. — Segundo os jornais. — Acho que não tinha muita escolha.. Thérèse detestava Paulette? — Exatamente. . Eu não estava lá. mas não sei se. logo depois do suicídio de Solange. Lembro-me de ter ouvido Solange dizer que Claudine padecia de dores nas costas o tempo todo. — Não. Talvez os remédios tenham afetado também a personalidade dela. assim como no meu romance. — Daphne estava lá? — Espantou-se Andréa. sedativos acho..

Talvez o passado fosse uma dor de cabeça para todos. — Algumas das garçonetes. Também estava lá o dono do Clube das Gaivotas. — Em 1948. — Ele ainda pode ser encontrado? — Morreu há alguns anos. — Verdade? Neville pareceu ofendido e sorriu com frieza. Lembro-me de que ele se queixava de dores de cabeça terríveis. dissimulando um sorriso. Winston foi combatente na I Guerra Mundial e durante uma batalha. se é que um dia os conheci. Deve ter havido outras pessoas presentes quando Pierre foi morto.. Júlia e Betty. um homem chamado Daniel Winston. — E você Neville.. Eu me esqueci dos nomes completos. só que muitos anos depois. Como ele não . parecia mais velho.. Eu não conhecia todos os frequentadores do clube. filosofou Andréa.. Além de Claudine? Todas elas prestaram depoimento durante o julgamento? Neville balançou afirmativamente a cabeça e pegou o copo para tomar um gole do drinque. Dan Winston devia ter uns quarenta e poucos anos — continuou Neville.. Isso acabou por matá-lo. Também não fui ao julgamento. Li a notícia no Times. relutando em responder. porém. eu não estava. estava lá? — Não..— Você sabe quem eram essas testemunhas. Andréa não saberia dizer se ele estava tentando lembrar melhor ou se queria apenas ganhar tempo. — Corny estava lá — disse Neville finalmente. — Para mim. mas não sei quem eram. foi atingido na cabeça por estilhaços de uma granada.

— Ótimo. — Mas deve ter ficado enfurecida com quem forneceu a arma a Solange. Você o tirou dos rascunhos de Daphne? Andréa recostou-se na cadeira e olhou para ele com os olhos apertados. Andréa mexeu a cabeça para um lado e mostrou um sorriso amarelo. sim. estou certa? — Devolveu Andréa. os autos do processo devem estar arquivados. Está certa de que houve uma ligação entre a morte de Solange e a de Daphne. — É pouco provável. — Conheceu alguém parecido com Kenneth. você ainda está tentando provar que Daphne foi assassinada. . Tenho a mania de fazer essa pergunta idiota sempre que alguém afirma alguma coisa. você não quer ter a sua honestidade questionada — ela deduziu. — O que isso tem a ver com. Mas.dissesse nada. lembrando-se de como ele havia reagido na primeira vez em que ela levantou aquela possibilidade. Nesse caso. Será que você pode arranjar uma cópia para mim? — É possível. Ah.. — Estou vendo que tanto quanto eu. o repórter do meu livro? — Ninguém. Ela detestava Solange e adorava Pierre.. não pode dizer que tenha chorado quando Solange cometeu o suicídio. seja lá quem tenha sido. Quando li A Vítima. fiquei me perguntando quem seria esse tal Kenneth. Então vamos voltar a Claudine. voltando ao nosso assunto. não é? — Você também sempre achou que houve essa ligação. — Desculpe.

alguém que se assemelhasse a ele? Neville fez um gesto para o garçom.— É assim que você interroga uma testemunha durante um julgamento. Andréa. naqueles rascunhos não existe nenhum Kenneth nem ninguém parecido com ele. Será que escutou agora? Além disso. que não era o mesmo com quem Andréa havia conversado dias antes. Neville balançou a cabeça. — Já se passou muito tempo. Andréa. Existiu na vida real. não é? Joga verde para colher maduro. mas daquela vez estava a ponto de explodir. A meu ver. Está querendo me fazer confessar alguma coisa? Neville olhou para ela com admiração. — Que droga Neville! Você não vai mesmo acreditar que eu não vi os rascunhos de Daphne antes de escrever A Vítima. vamos pensar em Kenneth. Portanto. . Só não sei dizer de onde o tirei. ela mostrou um sorriso de desagrado. — Você devia ter pensado em ser advogada. — Então vamos ver se consigo ajudar sua memória. não é? — Estou tentando acreditar. se simplesmente o criei ou se fui influenciada de alguma forma. Tem o raciocínio muito rápido. Depois de ficar olhando para Andréa durante um bom tempo. o homem levou novos drinques e removeu os copos vazios. Sem demora. está bem? Eu não vi os rascunhos de Daphne antes de escrever o livro. Suspirando profundamente. — Pois tente com um pouquinho mais de esforço. Andréa raramente se exaltava. Eu só queria ver se você estava alerta.

a inspiração para o personagem Kenneth. — Neville engoliu em seco. — Ela sempre havia bebido muito. Vamos supor o seguinte: a própria Daphne foi. aparentando indiferença.. mas não disse nada.há algumas explicações possíveis para o mistério. O modelo. Acredito que foi esse o primeiro motivo por que ela. Daphne forneceu a Solange um revólver para se proteger. não é? — Perguntou Andréa aproveitando a vantagem. meus pais não davam a impressão de ser loucos por mim. Por que tanta gente tinha de viver sem amor? — Daphne estava realmente se torturando por algum motivo — disse Neville. voltando ao assunto. ele mostrou um sorriso de autopiedade. pôs um fim à própria vida.... Ela sempre ficava ao lado do mais fraco. segundo dizia. — Dizendo isso. mas mesmo assim Andréa sentiu pena. Naquela época havia armas por todos os lados. Felizmente. que três anos mais tarde.. Digamos assim. ou Claudine descobriu tudo e liquidou Daphne ou Daphne sofreu tanto com o sentimento de culpa. meus pais eram exemplos típicos da classe alta britânica... para ver se esquecia as imagens da guerra. — Daphne pode ter dado uma arma a Solange. conheci Daphne e acabei passando a maior parte da minha juventude fora de casa. Quando estava em Londres. Tratavam-me com frieza. Daphne conseguia o que quisesse de qualquer pessoa. Neville não demorou muito para responder. Mandaram-me para um colégio interno tão logo alcancei idade suficiente para isso. e com ele Solange acabou matando Pierre. Interessou-se por mim. Além disso. . — Você acredita na segunda hipótese. Nesse caso. Neville deu de ombros. — Naquela época..

Quando desapareceu. Isso me lembra um cliente meio amalucado que tive. No entanto. como se soubesse de alguma coisa que ninguém sabia. — Como pode ter tanta certeza. Andréa? — Quanto a isso. nem sei se devo tentar explicar — ela hesitou. — E se ela soubesse. sempre reagia de uma forma estranha quando alguém falava em Solange. que Daphne estivesse dirigindo bêbada. Você sabia disso? — Susan me contou. — Você não pode estar falando sério. Ele queria porque queria construir uma máquina do tempo para provar que não era culpado do crime de que estava sendo acusado. será que ficaria quieta? — É possível. Eles riram juntos durante algum tempo. porém. Tentei convencê-la a parar de beber. Além disso. — O que você acha de viagem no tempo? — Ao ouvir a pergunta.. — Não faço a menor ideia. parecia não querer nunca ficar completamente sóbria.Depois da morte de Solange.. Daphne não morreu afogada no rio e a morte dela não foi um acidente. ou no crime. Era sempre uma possibilidade. Pelo que . mas ela não quis escutar. Claudine não gostava nada de Solange. a princípio pensei que tivesse havido um acidente de carro. recorrendo a algum tipo de tratamento. você acha que Claudine saberia? Neville encolheu os ombros. já que o carro foi encontrado no rio. até que Andréa respirou fundo e voltou a falar sério: — Se Daphne estava realmente envolvida na morte de Pierre. Neville começou a rir.

estou tentando responder a essa pergunta para mim mesma. Andréa sentiu-se subitamente exausta. Como acreditar em suicídio. certamente não é o melhor para mim.. — Queria saber como foi que eu escrevi A Vítima. Se dissesse que estava querendo conhecer a verdade para que o espírito de Daphne pudesse descansar. Não conseguia pensar em mais nada para perguntar e as respostas de Neville não esclareciam em absolutamente nada a morte de Daphne Murdoch. Andréa sentiu-se como que apunhalada. quando tudo levava a crer que Daphne estava em busca de ajuda? — Talvez seja melhor você voltar para os Estados Unidos e procurar esquecer essa história toda — sugeriu Neville olhando de uma forma que seria impossível interpretar. No entanto.. Que objetivo pode ter com isso? — O objetivo é. Andréa não soube que resposta dar. teria de dizer também de que forma havia se comunicado com o espírito de Daphne. . — E também está trazendo à tona lembrança dolorosas. você não pode trazê-la de volta à vida — ele argumentou.lembro. tudo o que ela queria era que a cunhada fosse condenada. Como podia ser tão fácil para ele contemplar a perspectiva de nunca mais voltar a vê-la? — Se Daphne está morta. — É melhor para você sim. — Você acha que é melhor eu partir? — Ela questionou. Indiretamente. — Foi você quem começou a fazer perguntas — lembrou Andréa.

mas absolutamente estéril. que pareciam . Que coisa mais triste. Durante algum tempo os dois ficaram se olhando. porque sinto vontade de estar com você.Instantaneamente Andréa se sentiu nas nuvens. Estive.. em silêncio. até que Neville tomou a iniciativa: — Você ainda tem um quarto neste hotel? Andréa conseguiu controlar os músculos da face. — Você é mesmo tão autoconfiante quanto parece? — Ela perguntou. estou apavorado — ele admitiu. — Na verdade. sem dizer nada.. Absolutamente estéril. Neville apertou com força a mão dela. Andréa estendeu a mão e cobriu a dele. lançou a ele um olhar de desafio. mas garanto que não existe a possibilidade de alguém sair machucado. Andréa se sentiu dominada por uma onda de enternecimento.. Estou.. Aprumando o corpo. Um pouco aborrecido porque você não confia em mim o suficiente para me contar a verdade. Minha mulher e eu temos um relacionamento civilizado. Sei que não gosta da ideia de intimidades com um homem casado. — Está querendo dizer que não quer que eu parta da Inglaterra? — Estou. Acreditando no que Neville dizia. Também estou perturbado. Agora não havia mais perguntas para serem formuladas ou respondidas. — Não está zangado comigo? — Eu nunca estive zangado com você Andréa. estou morrendo de medo. — Neste exato momento. Por mais algum tempo eles ficaram apenas se olhando.

querer abrir um sorriso enorme. Vai olhou novamente para Susan. era difícil fazê-la mudar de ideia. — Andréa é uma moça muito direita — garantiu Susan. Foi impossível concluir a frase. — É o tipo de pessoa que Daphne. Só depois disso voltou a mostrar aquele sorriso imprevisível. eles se dirigiram ao elevador. Nesse momento passava perto da mesa delas um homem corpulento. Vai olhou para ele e mexeu as pálpebras de cílios postiços. pegou a carteira e pôs algumas libras sobre a mesa. — Já ouvi falar de muita gente que se lembra de vidas passadas. Quando Vai julgava negativamente o caráter de uma pessoa. Era evidente que a amiga dela estava fazendo um mau juízo de Andréa. carregando duas canecas de chope preto. pondo sobre a mesinha de mármore a caneca de chope.. Arregalando os olhos. infantil e absolutamente encantador. — Não é de admirar que você tenha ficado todo esse tempo sem aparecer no King's Arms.. mesmo sem conhecê-la. mas nunca desse jeito. de mãos dadas e com pressa. mas seguiu seu caminho. Susan acreditava na reencarnação da irmã. mas como externar aquilo em palavras? — Onde ela está agora? . Teoricamente. O homem sorriu dissimuladamente e piscou para ela. — Tenho uma suíte inteirinha — ela informou. Tem certeza de que essa tal Cavenaugh não tem nenhum objetivo dissimulado? Susan estava começando a se arrepender de ter confiado em Vai. Um instante mais tarde. — Caramba Susan! — Exclamou Vai. Neville levantou-se.

Já havia falado demais.Susan hesitou. ela reagiria de imediato. Pelo menos tentou fazer com que Andréa dividisse com você os direitos autorais do livro? — Não quero o dinheiro dela. ou não. a começar por Laurie McGregor. — Então. Provavelmente ela esperava que você os houvesse jogado fora há muito tempo. Foi Andréa quem escreveu o livro. Se apenas um mês antes alguém dissesse que Susan ainda criticaria a adorada irmã. mas vivia protelando a decisão de publicá-lo. — Não está na lista de Londres. Também não foi Daphne. Andrea não era exatamente outra pessoa. Daphne teve três anos para fazer isso. — Vou ajudar Andréa a encontrar as pessoas que conheceram Daphne. A certeza disso fez com que Susan sentisse um arrepio. apenas para defender outra pessoa. o que vamos fazer? — Inquiriu Vai. Foi um choque enorme para ela quando eu mostrei os rascunhos de Daphne. O sherry parecia ter o poder de fazê-la soltar a língua. Vai. Deus do céu. — Ela não apareceu proclamando nada sobre reencarnação. — Bem que eu gostaria de ter conhecido Daphne — pronunciou-se Vai. — Foi fazer não sei o que no hotel. — Você disse que o telefone dele não está na lista — lembrou Vai. A princípio. ficou tão confusa quanto eu. não querendo mencionar o nome de Neville. Ainda assim. — Saberia num instante se essa Andréa está falando a verdade. — Só pode ter sido. não eu. posso ligar para o . No entanto. Susan! Às vezes você é um bocado ingênua.

era um homem tímido. Enquanto isso. não era tímido para falar. — Então. No entanto. dizer que admirava o corpo de aparência frágil que estava acariciando. bem diferente de como faziam os rapazes com quem ela estava acostumada a ir para a cama. Era surpreendentemente musculoso. — Tem algum motivo para não fazer isso agora. De fato. Neville acompanhava aqueles . A penetração foi suave e notavelmente demorada. comprido e elegante. Andréa só lamentava ele ter fechado as pesadas cortinas.setor de informações da companhia telefônica e perguntar se ele não mora em algum outro lugar da Inglaterra. os seios pequenos e firmes. Não quero nem pensar nisso. Ele sabia exatamente o que fazer com ela e para ela. Era evidente que Vai mal cabia em si de curiosidade. vamos para a sua casa. Não sossegaria enquanto não estivesse informada de todos os detalhes da história. ao mesmo tempo em que com a outra mão. Não estou vendo ninguém que nos prenda aqui esta noite. acariciava-a pelo corpo todo. neste momento? — Ligar daqui? De jeito nenhum. divertido. ele oferecia o próprio corpo. para que ela explorasse à vontade. ao reparar na forma como ela continha a respiração. — Existe uma sala de musculação no meu clube — explicou Neville. as maçãs do rosto proeminentes. Susan concluiu que não deveria mesmo ter revelado tudo aquilo à amiga. Começou roçando os dedos pelo contorno da boca. Ao mesmo tempo.

porque as palavras já haviam sido pronunciadas e pareciam ecoar pelo quarto. — O que você disse? — Ele perguntou incrédulo. No momento do orgasmo.. ficou olhando para ela como se quisesse identificar melhor o rosto que fitava. Por alguns instantes. com o sangue queimando nas veias. eu te amo. devagar.. via a imagem de outro Neville. décadas antes. — Eu te amo — ele murmurou ao ouvido dela. eu te amo. bem mais jovem e um pouco mais pesado. Agora era tarde. Oh. acompanhados pelo que faziam as mãos e os lábios de Neville. Neville ergueu um pouco o corpo. imediatamente percebendo o que dizia.. — Devagar... desejosa de prolongar aqueles instantes de prazer. Mesmo com os olhos fechados. . ao mesmo tempo em que se sentia outra mulher. — Suplicou Andréa.movimentos com palavras que a levavam ao delírio. como era maravilhoso um homem não ter medo ou vergonha de falar de amor. apoiado nas duas mãos. logo a conduziram ao limiar do gozo. — Meu queridinho. meu doce Gordurinha — ela murmurou. ela começou a ouvir um forte zumbido.. Os ritmados movimentos de vaivém. mas sem conseguir resistir por mais tempo. — Eu te amo — fez eco Andréa. Era um Neville mais jovem. O que faziam naquele momento parecia à repetição do que tinham feito muitas vezes antes. — Eu te amo. confessar-se apaixonado. — Agora. querendo repetir aquela declaração infinitas vezes.

Por sorte. Só que ainda não estava na hora de saber toda a verdade... Até imaginei estar sentindo perfume de jasmim. seria . pensando com rapidez. procurando falar com naturalidade. — Não se preocupe Neville — tranquilizou-o Andréa com voz calma.. — Eu compreendo. mas logo voltou a deitar-se por cima dela. Tinha medo de que ele voltasse a fazer perguntas sobre o livro de Daphne. Acho que é por que ela foi à única mulher que já me fez sentir o mesmo que sinto por você. — Desculpe — ele pediu ao perceber aquela reação. tão fresquinha. Neville ainda pareceu ficar em dúvida por alguns segundos. Era o perfume preferido dela. Neville não podia nem imaginar como ela compreendia. — Por favor. não se ofenda Andréa... — Eu não devia ter dito nada disso. — Você estava tão deliciosa. — Isso às vezes acontece. Acho que. Mas o estranho foi eu ter a impressão de que já tínhamos feito amor muitas vezes antes..— Eu disse que você é o meu inglesinho querido — emendou Andréa. sem dúvida convencido de que não podia ter ouvido nenhum eco do passado. — Depois de ficar em silêncio por alguns segundos. Foi algo mais forte. mas tive a impressão de estar fazendo amor com Daphne. algum tempo mais tarde. — Foi tão esquisito — ele disse. Andréa estremeceu. — Não exatamente. Neville parecia ter esquecido a promessa que eles tinham feito de dizer apenas a verdade um ao outro. Para isso. ele a abraçou com força. — Aquela sensação de estar passando por uma situação já vivida? — Perguntou Andréa.

porque ouviu vozes na sala de estar. pertenciam às pessoas que estivessem visitando Susan. não precisava de mais nenhum argumento. estava com a barra da saia . todos estacionados perto da casa. CAPÍTULO XI Na manhã de sábado.preciso que ele demonstrasse pelo menos alguma disposição para acreditar em reencarnação. concluiu que já que estava acreditando. Ainda repousando nos braços de Neville. Andréa franziu a testa. Andréa não tinha como saber se o RollsRoyce cor de vinho. Surpreendida mais uma vez pela imprevisível primavera da Inglaterra. Andréa ficou se perguntando em que momento exatamente. Talvez o melhor fosse não pensar mais naquilo. o Rover já um tanto usado e um outro carro cuja marca ela não conseguiu identificar. ela havia passado a acreditar em reencarnação. Atônita. com tanta convicção. Só quando entrou no hall teve certeza de que Susan não estava sozinha.

. Mas não era só com a aparência que ela se preocupava. Haviam apenas dois homens e um mulher. ao desembarcar foi impossível pegar um táxi e o minúsculo guarda-chuva dava pouca proteção.. — Venha — chamou Susan ansiosa. todos falando ao mesmo tempo. Pardal e Laurie. — Eu ia justamente telefonar para o hotel.. percebeu que não eram tantas pessoas ali. Sentia-se bem demais e tinha medo de que outras pessoas pudessem perturbar toda aquela felicidade. Mesmo assim. — Antes que ela pudesse concluir a frase. — É Andréa. secar os cabelos. Será que estava outra vez de volta ao passado? Não. porém. trocar a maquiagem.. Fez-se silêncio de imediato e Susan se viu examinada por vários pares de olhos. O lugar parecia apinhado de gente. — Eu. uma chuvinha fininha e persistente começara a sair. Tinha certeza de que você gostaria de ver as pessoas que estão aqui. Susan agarrou-a pelo braço e empurrou-a para a sala. Mal entrara na estação do metrô. — Pessoal. além de minha amiga Vai. — Pardal? Árabe? Andréa sentiu como se o hall estivesse girando. porque Susan a chamara de Andréa. — Andréa! — Exclamou a dona da casa. Árabe. Talvez conseguisse passar sem ser percebida e subir a escada. Naturalmente. que a . Estava no presente. Susan irrompeu no hall. Nesse momento. — Andréa mostrou um sorriso amarelo. Pelo menos me deixe subir e. aqui está ela — anunciou Susan. Estou toda molhada...encharcada.. com a mão estendida..

Que coisa mais triste. Fiquei sabendo que Pardal estava morando em Iver e que Laurie vivia em Amersham. tão rechonchudo quanto ela. Contou a eles? — Perguntou Andréa a Susan.. olhava para Andréa enquanto movia os cílios postiços. meio vermelha de excitação. no Clube das Gaivotas. apertando educadamente a mão de Andréa. Por estranho que pudesse parecer. por causa disso acabei perdendo o contato com Daff. Este é Pardal. — Eu tinha de prestar o serviço militar.. Ontem à noite. em tom de acusação. Uma mulherzinha num vestido cor de laranja. — Você.. Pardal tinham olhos calmos como os de um bichinho de pelúcia. — Brian não pode ser de muito ajuda. mesmo que a guerra já houvesse terminado — ele se desculpou. A última vez em que ele esteve com Daphne foi pouco antes de entrar para o Exército. fartos nos lados. Os cabelos castanhos.. rareavam no alto da cabeça. De outra forma. — Susan disse aquilo fazendo um gesto na direção de um homem de meia-idade. — Muito prazer — cumprimentou Pardal. cujo verdadeiro nome é Brian Bird. — Em parte — confirmou a mulher. resolvi procurar fora de Londres. olhando para Susan. ele vestia um blazer azul e calça cinza. uma tonalidade que contrastava fortemente com os cabelos. . — Tive de contar. como é que iríamos descobrir alguma coisa? Achei que você acabaria gostando da ideia. um conjunto muito parecido com o que usara em 1944. — Infelizmente. em 1949. — Eu nem estava sabendo que Daff havia desaparecido.olhavam como se vissem uma dançarina nua.

devendo estar com mais de sessenta anos. Laurie? Andréa pôs os olhos no terceiro visitante. onde quer que fosse. Havia envelhecido. o árabe-escocês de Daphne. Também não conseguia entender como ela havia encontrado Pardal e Laurie. também olhava para ela. Não acha um apelido engraçado? Andréa identificou imediatamente. apesar do temor que sentia. naturalmente. Devia ser uma dessas mulheres divorciadas que frequentam bares e sempre olham esperançosas para a porta quando aparece alguém. Pardal e Laurie. Andréa conseguiu mostrar um sorriso. Ter de enfrentar uma situação como aquela. um pouco além de Vai. sentado na poltrona de Susan. O rosto estava marcado por rugas profundas. Árabe! Andréa o teria reconhecido. com uma expressão indecifrável no rosto ainda belo. os amigos costumavam dizer dela: "Vai tem uma personalidade tão efervescente" ou "Vai é sempre a alma da festa". Não queria nem acreditar que Susan havia contado tudo a Vai. porque na verdade ela estava apavorada. mas se equilibrava em cima de sapatos. — Todos me chamam de Vai. Não devia ter mais de um metro e sessenta. não era exatamente o que ela havia esperado. Sem dúvida. mas os olhos . Laurie McGregor.— Sou Valerie Perkins — apresentou-se a amiga de Susan. Temor não era bem a palavra. em que classe de pessoa aquela mulher se incluía. cujos saltos acrescentavam pelo menos uns oito ou dez centímetros a essa altura. depois de ter passado a noite nos braços de Neville. A xícara de chá e o pires pareciam incrivelmente frágeis na mão dele.

Árabe mostrava um sorriso simplesmente demoníaco. — É sem dúvida um grande prazer — declarou Árabe apertando a mão dela. Andréa tinha medo de dizer alguma coisa e tremer a voz. não os corpos. Os cabelos escuros ainda eram cortados bem curtos para debelar a tendência a se encrespar. Mais aliviada. principalmente naquele jeito encantador de enrolar os erres.. E aquele sorriso. Não podia dizer que tinha sido algo absolutamente real. — Você não se parece nada com Daphne — comparou o gorducho. seu bobo... O riso estridente de Vai chegou a doer no estômago de Andréa. lembrando-se de que tinha feito amor com ele apenas algumas noites antes. Mesmo assim. — Caramba. — As almas é que vivem para sempre. . Vestia uma calça italiana marrom e um suéter folgadão amarelo por cima de uma camisa branca. Brian! — Exclamou a mulherzinha. A voz era absolutamente familiar. mas bem poucos fios estavam grisalhos. Andréa foi dominada por um sentimento que não saberia definir. porque as lembranças eram de Daphne. — Como vai? — Ela conseguiu dizer finalmente. não dela. Estava maravilhoso! Olhando para Laurie McGregor. repousando cuidadosamente a xícara e o pires na bandeja..pretos tinham a mesma vivacidade dos vinte e dois anos. Andréa voltou-se para Pardal. Ao se levantar para cumprimentá-la. como se fosse o próprio Sean Connery no papel de James Bond. Tinha plena consciência de que estava com as faces muito coradas.

. Os olhos de Árabe brilharam. aceitou a xícara de chá oferecida por Susan. . É apenas um serviço burocrático. Susan sentou-se ao lado dele e disse alguma coisa em voz baixa. Ele dava a impressão de passar a vida pedindo desculpas por algumas coisa. que não falei nada sobre a noite que você.Corando levemente. bem longe das câmaras. Andréa acomodou-se numa cadeira e automaticamente. conseguindo com isso fazê-lo sorrir. Andréa.. A xícara tremeu nas mãos de Andréa. É claro. — Interrompeu Susan piscando para Laurie. Andréa lançou a Susan um olhar fulminante. espero que você não. Era evidente que aquela mulherzinha não queria perder nenhuma informação. Você não deve prestar atenção ao que ele diz. Era evidente que Pardal havia impressionado favoravelmente a dona da casa. — Ela contou que você passou uma noite comigo.. — Atualmente Pardal.. — Não é nada tão incrível assim — minimizou Pardal.. sentado na poltrona de frente para ela. Tinha medo de olhar para Laurie. — Laurie é um provocador incorrigível. — Eu trabalho no escritório. Pardal ocupou-se em pôr açúcar na xícara de chá. Brian trabalha para os Estúdios Cinematográficos Pinewood — ela informou a Andréa com orgulho. — É claro que não. — Susan. — O que Susan contou a vocês? — Ela perguntou entre dentes.. ao mesmo tempo em que Vaierie chegava mais para perto.

era preciso mergulhar de cabeça.. Andréa respirou fundo. não tinha feito absolutamente nada com aquele homem. com aquele jeito de menino de que ela se lembrava tão bem. — Será que posso adivinhar? — Perguntou Árabe. — Vou procurar me lembrar disso. tinha idade suficiente para ser pai dela.. o que não a impedira de. estava na verdade fornecendo uma informação a Laurie. Eu até me assusto quando você e Susan me tratam assim. além disso.. — Ela começou. Ele sorriu agradecido. — Eu estive pensando. — É que fez muitos anos que ninguém me chama de Pardal. Nesse dia você estava lá? . Pelo menos pessoalmente. — Muito bem. — É. Brian. É fato que Solange Beaudry matou o marido no Clube das Gaivotas em 1948. Desta vez Andréa não se permitiu corar. não era mais uma garota de ginásio.. Afinal de contas. — Pardal — ela chamou. Só que Neville também tinha.Só então ela percebeu que com aquela negativa. com um sorriso dissimulado. — Susan disse que você queria nos fazer algumas perguntas — ele falou. Srta. — Desculpe.. Agora que Susan havia levado até ali os dois homens. — Você disse que frequentou o Clube das Gaivotas até 1949. Pardal sorriu timidamente. imediatamente se corrigindo quando o homem quase pulou da cadeira. Eu andei por lá até essa época. que. Parece que tem um ganso ciscando no meu túmulo.. Cavenaugh.

. Todos o chamavam de Corny. — Ela odiava Solange — acrescentou Pardal. — Isso é totalmente verdadeiro — confirmou Laurie... sim. — Então sabe quem prestou depoimento. Laurie fez um comentário: — Ah.. Claudine. naturalmente. O velho Gerald Cornforth esteve lá. — Não vi nada da cena. — Pelo menos você conhecia Solange? Dessa vez o rosto dele se iluminou. Não estou ajudando nada. a bruxa aleijada de West End. Brian? — Winston — respondeu Pardal de pronto. — E Claudine. Qual era o outro nome de Dan. Só compareci ao julgamento porque Daphne queria ir e me pediu para acompanhá-la. saudável. talvez não tão saudável assim. Depende do ponto de vista. a cunhada de Solange? — Quis saber Andréa. não sei. Claudine mentiu deslavadamente. vamos chafurdar um pouco nessa porcaria. — No julgamento de Solange. sim.. não é? — Pelo contrário — garantiu Andréa. Era uma garota bonita. alegre. Estava talvez na escola. — Você acompanhou o julgamento? Viu quando Pierre foi baleado? — Não. Uma senhora absolutamente detestável.. Bem.. — Bem. A essa pergunta.O homem balançou a cabeça. Andréa olhou para o Árabe. . — Ah.. quem realmente viu Solange com Pierre. e Dan. — É claro — ele respondeu com um olhar sombrio.

— A outra foi Betty Livingston — continuou Pardal. Você não se lembra de Júlia. — Andréa queria conversar com ela. Bem. prestou depoimento também uma das garçonetes. — Eu sei... — Júlia.. Não. deve ter sentido falta da galinha dos ovos de ouro. — O que Claudine sentia por Daphne? — Interrompeu Andréa. Betty não sei o quê. O que você acha que aconteceu com ela? Com Pierre morto e sem receber mais dinheiro de Solange. você sabia? Estou me referindo a Claudine.— Isso mesmo. Acho que ela se casou. — Dizendo isso ele olhou para Andréa. — Para quê? — Quis saber Brian. — Teve até coragem para pedir dinheiro a Andréa. Brian cocou a cabeça e fez uma careta. — Foram duas garçonetes — corrigiu Pardal. fazendo com que todos rissem. Susan deu de ombros. — Andréa falou com Claudine ontem — informou Susan. — Estava grávida e acabou morrendo no parto. . — A irmã de Pierre está morando em Paddington. Laurie cocou a cabeça. — Ela era aleijada. — Júlia Millar também depôs. Quanto a Claudine. eu não me lembro. Não ia lá com muita frequência. ver o que sabia. aquela loira miudinha? Daff a chamava de Loirinha. — Ela não pode estar em boa situação — prosseguiu Susan. É claro que toda aquela confusão deve ter contribuído para isso. — Um destino pior que a morte — comentou Laurie solenemente. coitadinha..

. Quanto a Pierre. Era o mesmo com quase todos nós. Andréa? — Inquiriu Laurie. — Eu também não — declarou Brian. portanto evitava Claudine. é claro. surpresa por ser chamada pelo primeiro nome. — Ainda estou tentando descobrir como pude escrever uma história inteirinha sem saber que ela de fato havia acontecido. que os ingleses não são tão formais quanto se costuma pensar. — Está vendo? Pierre foi assassinado há quase quarenta anos. — Para falar a verdade.. A menos que alguém diretamente envolvido com o que aconteceu no Clube das Gaivotas venha a ler o seu livro.. mas a forma como o Árabe a chamara. Os jornais noticiaram ambas as tragédias. — Por que diabo está querendo desenterrar toda essa sujeira. Pode haver mais gente por aí. Andréa olhou para ele. Outra pessoa. — Duvido que muita gente identifique a semelhança — falou Árabe brandamente. não vejo motivos para preocupações.. parecia dar a ele certa ascendência sobre ela. Gente que tenha conhecido Daphne e Solange. Gostava de Solange. Já havia descoberto. Ele também foi reconhecido por.— Não sei que resposta dar a essa pergunta. tanto o assassinato de Pierre quanto o suicídio de Solange. eu mesmo não li o seu livro e não ouvi falar nada sobre ele. — Susan não lhe falou no meu livro? — Surpreendeu-se Andréa. só aparecia quando estava precisando de dinheiro. é claro. Laurie abriu os braços. Susan leu o meu livro e o reconheceu. mas quantas pessoas são capazes de se lembrar do que leram nos jornais depois de quarenta anos? . Daff não tinha muito a ver com aquela mulher.

— Isso é verdade — ela apoiou agradecida. — Solange tinha dúzias de admiradores — lembrou Laurie. Cornforth. um revólver para que ela usasse contra o marido. Laurie balançou a cabeça descrente. esse tal repórter. um repórter. — Além disso. Foi ele quem deu a Paulette. Incluí outro personagem no romance — ela disse. — Lembro-me disso muito bem.. — Trata-se de Kenneth. Por que se preocupar com a possibilidade de alguém reconhecer a história? Mesmo que isso aconteça. que na vida real era Solange. com ênfase. Andréa balançou afirmativamente a cabeça e agitou as mãos.Pela primeira vez desde que Susan havia falado no livro de Daphne. estava presente quando ela matou o marido. a pessoa que forneceu a arma. eu sei. depois de alguns instantes. o que poderá ser provado contra você? Tudo o que deve fazer é ficar quietinha no seu canto. — Eu. — Solange nunca revelou como havia conseguido a arma — declarou Brian. não acha? A menos que tenha sido esse Dan Winston ou o Sr. Só que no meu romance.. — Qualquer um deles pode ter fornecido a arma. Susan disse que você trocou todos os nomes. — Eu sei.. não é? Isto é: Solange de fato cometeu um crime e Pierre realmente a espancava.. Andréa sentiu um pouco de segurança. Bem que Andréa gostaria de saber quanto Susan havia contado a ele. . — Mas isso não é o mesmo que dizer que esse homem presenciou o crime. Não caluniou ninguém.

— Não é bom "qualquer coisa" — corrigiu Susan. — Claudine foi exaustivamente interrogada durante o julgamento. mas manteve-se em silêncio ao ver o olhar fulminante de Andréa. — Ela disse que eu não deveria perturbar as cinzas dos mortos. lamentando consigo mesma aquela falta de objetividade. — Alguém saberia me dizer o motivo de toda essa lealdade de Solange? Por que ela não quis falar? Se colaborasse. o papel de Kenneth. o júri poderia ter lhe poupado à vida. — Que coisa macabra. — Portanto deve ter havido outra pessoa envolvida. Andréa refletiu um pouco e achou melhor seguir por outro caminho.— É pouco provável que tenha sido um desses dois. — Não me lembro de nenhuma delas ter mencionado outra pessoa. Sem dúvida queria apresentar a hipótese de Daphne ter feito. . — Talvez ela amasse o cúmplice — supôs Brian. na vida real. — Ela é uma pessoa muito esquisita. achei que poderia descobrir a identidade dele pelo processo de eliminação. Srta. — O que foi que Claudine disse? — Interrogou Laurie. — Talvez seja melhor ficar longe de Claudine. assim como as outras testemunhas — ponderou Árabe. — Se foi realmente um homem quem forneceu a arma. Susan fez menção de falar. Cavenaugh — recomendou Brian. Andréa suspirou. — Muitas mulheres fazem qualquer coisa por amor. — Telefonei para Claudine para perguntar exatamente quem estava presente quando Solange atirou em Pierre — ela esclareceu.

é dono de uma adega chamada Biblioteca. — Havia alguns correspondentes de guerra. Atualmente. Com ele. Desta vez foi Laurie quem riu. mas mais tarde. em Mayfair.Andréa sorriu para ele. — Eu pensava que ele havia batido as botas há muito tempo. talvez empregando algum dinheiro. — Está vendo? — Falou Laurie. Apenas vou tentar um outro tipo de abordagem. — Ele gosta é de se pavonear — criticou Brian. primeiro deixarei que esvazie algumas garrafas de vinho. olhando para Andréa. mesmo tendo um dos pés deformado — ele comentou. Deve estar no mínimo um ancião. Foi o próprio Cornforth quem me disse isso. Andréa riu. — Pode me chamar de Andréa — ela concedeu. — Continuo com a intenção de procurar Claudine. — Você também encontrou o velho Corny? — Espantou-se Brian. logo voltando a falar com firmeza. — Corny sempre foi do tipo de homem que sabe cair de pé. Parece que o negócio é bem-sucedido. Também voltarei a procurar Corny Cornforth. mas pararam de aparecer depois que se assinou o armistício. — Você . — Em 1948 ele tinha apenas vinte e dois anos. — Brian. Brian. o que você acha desse tal repórter de que fala Andréa? Consegue se lembrar de alguém que se encaixe no tipo? Brian sorriu evidentemente satisfeito por poder ajudar em alguma coisa. porque quero saber de tudo que ela puder me contar.

mas. não conseguirá viver a própria vida. — Nós não podemos ter certeza de que Daphne foi assassinada — rebateu Laurie. que daquela vez. Sendo verdadeira a avaliação de Vai. — Andréa sentiu vontade de estrangulá-la. — É esse o carma de Andréa. havia resumido a questão de forma absolutamente perfeita. A mulherzinha podia ser uma abelhuda.. foi impossível impedir que Susan desse com a língua no dentes: — Neville acha que Daphne cometeu o suicídio. . — O nome não me é estranho. Se não se libertar do passado. Era sem dúvida. — Você deve conhecê-lo. — Vocês já devem ter ouvido falar nele.. Daphne costumava chamá-lo de Gordurinha.. Não mais macabro. — Gordurinha! — Exclamaram Laurie e Pardal. porém. do que fazer amor com um homem usando memória de uma mulher morta.não tem por que se preocupar. algo macabro. o causídico — esclareceu Susan. Nos velhos tempos. — Também não sei se alguém pode provar que essa tal de reencarnação de fato acontece. A essa altura. — Susan voltou-se para ele excitada. equivalia a dizer que Andréa estava ali para investigar o próprio assassinato.. a uma só voz. mas era forçoso reconhecer. — Neville Forbes. Laurie cocou a cabeça. — Quem é esse tal Neville? — Perguntou Brian. — Mesmo assim ela precisa descobrir quem matou Daphne — ponderou Vai.

. — Deve ter sido por ter pensado tanto nessa história. Andréa. — Não ligue para o que eu disse Srta. dirigindo-se a Pardal. mas eu estou morta de fome. — Eu também estou — disse Pardal. — Agora estou me lembrando de que o nome dele era Neville. Acho que posso lhe revelar certas coisas sobre Gordurinha. Às vezes até nos convidava para passar fins de semana no campo. — Dizendo aquilo ele riu. ao mesmo tempo. Talvez seja melhor conversarmos em particular. porque os domínios feudais dos Forbes eram cercados por muros altos. que esperava avidamente pela conclusão da frase. Andréa. — Era louco por ela. — Eu vou com vocês — ofereceu-se Vai. Gordurinha e eu éramos rivais. — Não sei quanto a você. — Que tal nós dois irmos andando até o King's Arms. porque tínhamos os dois uma asinha caída por Daphne. — Eu não fazia ideia de que Gordurinha havia se tornado um causídico.. Prontamente... Susan se pôs de pé. — Gordurinha não tinha apenas uma asinha caída por Daphne — emendou Laurie. Quanto a Daphne. É claro que não havia termo de comparação. Cavenaugh. a família dele mora não muito longe do chalé da minha avó. Afinal de contas. Em .— É claro que conheci Gordurinha — falou Brian. ele não era um esnobe. para comer um lanche? — Ela sugeriu. Na verdade. — A essa altura ele olhou para Vai. perto de Oxford. Na verdade. também se levantando. Andréa e Laurie suspiraram aliviados. era preciso impedir que a plebe danificasse o jardim.

— Isso é bom para você. está na sua casa. Seria aquilo moralmente aceitável. Aquele pensamento a deixou horrorizada. — Apesar daquela declaração de auto-piedade. que a excitação se devia a Daphne. trocaram um olhar divertido.seguida. — Eu estava era querendo ir ao pub sozinha com Brian. porém. Andréa olhou para ela e riu tão divertida. — Susan torceu um canto da boca. ela se pôs de pé e dispôs-se a ajudar Susan a recolher as xícaras. Só que quando Daphne era viva.. que quase esqueceu os próprios problemas. Susan parecia ao mesmo tempo hesitante e esperançosa. ele nem olhava para mim. — De jeito nenhum — interrompeu a outra. Laurie e eu podemos muito bem. já que mal havia saído dos braços de Neville? Era bom lembrar. Imediatamente Andréa se perguntou se o que sentia por Neville também não era influência de Daphne. não é? — Ela provocou. — Você gosta mesmo de Pardal. — Brian é apenas três anos mais velho que eu. não a ela. — Ele é tão vivo e charmoso. . Só voltou a falar quando as duas se viram a sós na cozinha: — Você não precisa sair se não quiser. Para falar a verdade. se não podia dizer se era ela própria ou Daphne quem estava sentindo desejo? Quase num pulo.. baixando o tom de voz. — Sempre tive uma queda por ele — admitiu Susan. Como podia ter ido para a cama com Neville. ninguém reparava em mim. Definitivamente. Andréa estava outra vez sexualmente excitada. Vá à luta amiga. Afinal de contas.

. — Eu convidei. Afinal de contas. Só que às vezes fica difícil responder a certas perguntas. fiquei escutando a conversa. Só espero que ela não resolva ficar aqui. As pessoas vão pensar que somos duas malucas se sairmos por aí falando em reencarnação. É uma amiga de verdade. mas é uma boa pessoa. Você tem o direito de contar a quem quiser. . arranjará uma desculpa para sumir. a história é tanto sua quanto minha. antes que eu pudesse pensar no que estava dizendo. — Só não quero que Vai. Andréa sentiu vergonha pelo que tinha falado. — Você quer ficar sozinha com Laurie? — Espantou-se Susan arregalando os olhos. aparentemente chocada. Ontem à noite. pelo menos não quanto ao que realmente importa.— Só que não sei o que fazer com Vai. — Não venha com histórias Susan — repreendeu Andréa. Se ela é mesmo sua amiga. Acho que ela também está interessada em Brian. Sei que Vai é um tanto abelhuda. Nem sei por que ela está aqui. — Livre-se dela. Sinto muito Andréa. Apenas repita o mesmo que já me disse. — Está certa Susan.. porque ela saberá entender. sinto mesmo. — Vai é minha amiga Andréa! — Lembrou Susan. — Melhor ainda. Quando passamos muito tempo sem nos ver. além de ser muito namoradeira. Mas ela não vai contar nada a ninguém. acho que bebi um pouco além da conta e Vai acabou me arrancando a história. eu até me sinto solitária.

Falou até na festa de Will. Na verdade. Todos.. — Daphne algumas vezes ameaçou se matar Andréa — ele revelou finalmente. — Quando alguém chega a falar nisso. quando Andréa terminou. Andréa se viu falando pelos cotovelos. A guerra fez muito mal a ela. — Você acha que ela se matou? — Interrompeu Andréa. fazendo biquinho e se dizendo "extremamente ressentida". Talvez a própria Daphne não soubesse. em que houve uma reconstituição da morte de Daphne. — Eu não sei. Pensativo. e na experiência vivida no aeroporto. Além disso.. Depois que Susan saiu com Brian e Vai partiu. mas na realidade era uma pessoa frágil. fez mal a todos nós. de uma forma ou de outra. Árabe não respondeu de imediato. Bem que Andréa gostaria de ter toda àquela convicção.— Mas nós duas sabemos que não temos nada de malucas — rebateu Susan com firmeza. a morte de Solange a perturbou . — Todos a amavam. contando a Laurie coisas que não revelara nem a Neville. — Mas quem atirou nela? — Ele perguntou. com certa relutância. Se ao menos ela tivesse com quem conversar. Surpreendentemente. é porque já pensou seriamente no assunto. Na hora do tiro estava escuro. quando havia começado aquela coisa toda... Daphne parecia durona por fora. — Ninguém teria motivos para atirar em Daphne — ele disse convicto. Laurie acendeu um cigarro. Havia apenas um luar fraco. Se eu não estivesse fora do país. escutando tudo sem fazer chacota. Laurie mostrou ser uma pessoa de conversa fácil. Laurie parecia fascinado.

. — O que você queria falar sobre Gordurinha? — Antes de responder Laurie riu. Esqueça o que disse. Laurie deu uma profunda tragada no cigarro. que repousavam sobre os joelhos. teria visto logo na primeira vez. Pensando bem. Recostando-se na poltrona. acho que isso não é tão importante assim. ao menos pelo que sei. ele ficou durante alguns instantes olhando para as mãos.. se fosse possível ver a cena com clareza. Neville... Bem. Não dou importância ao que aquela mulherzinha tola falou sobre carma.. Era uma sugestão igual à que Neville já fizera. é que aquele Gordurinha. Era o que todos os garotos queriam. — Ele era muito jovem.. Acho que jamais ficaremos sabendo da verdade. — Eu não quis dizer nada na frente de Pardal. mas a verdade. De algum modo. procuraria esquecer essa história. ele andou indo para a cama com Daphne.demais. Percebi isso muito claramente no nosso último encontro. Como é que se diz. — Não acho que isso seja muito provável.. mas Gordurinha foi o único que conseguiu. Gordurinha era . Talvez porque estivesse escrevendo aquele livro. Isto é. — Não gosto de falar mal de Daphne. A menos que você tenha outra regressão e possa ver tudo com clareza. mas acho que ela estava usando o pobre Gordurinha — continuou Laurie. adorava Daphne e ela quis. não conseguia afastar a tragédia do pensamento. Regressões? Pois é. para não provocar ciúmes. Andréa olhou para o Árabe com curiosidade. — Se eu fosse você.. Andréa.. Daphne se sentia responsável. a menos que você tenha outra vez uma dessas..

Bem.um bom garoto e eu sentia pena dele. Às vezes eu ficava me perguntando. — Pelo contrário. — Não foi isso o que eu quis dizer. não tive como descobrir se pôs em prática a ideia. mas amor de verdade. Andréa arregalou os olhos. Talvez fosse por ele ser tão grã-fino. Evidentemente.. obviamente surpreso por ela ter interpretado daquela forma. isso acontece com enorme frequência — discordou Andréa. um aristocrata.. — Está insinuando que Gordurinha. horrorizada. o que me deixava com sentimento de inferioridade. Não era apenas uma "asinha caída". Como já disse. Laurie suspirou. — Fale — exigiu Andréa. Ninguém mata outra pessoa por amor. era essa a ideia. Eu sempre ficava furioso quando Daphne saía com Gordurinha. Além disso. Que Neville pode ter matado Daphne? — Por Deus não! — Ele negou de pronto. — Daphne o usava para provocar ciúmes em você? Foi isso o que quis dizer? Laurie riu. isso também não tem importância. Só que Gordurinha era apenas um garoto e Daphne fazia dele gato e sapato. . — Você é muito esperta Andréa. e deu certo. Bem. Ela falou nisso antes da minha partida para o Canadá. — Às vezes eu me perguntava o que Gordurinha faria se Daphne desse o fora nele. ninguém poderia ter motivos para matar Daphne.. Mesmo assim. deve ter percebido que estava sendo usado.. Gordurinha estava apaixonado por ela.

olhei na carteira e vi que o dinheiro estava todo lá. — Estremecendo involuntariamente. Pelo menos. Não.. — Foi sim. porém. durante o bombardeio aéreo. — Isso provoca um frio na barriga. foi Daphne quem fez isso. Laurie riu. — E foi bom? — Inquiriu Árabe. — Eu vi quando ela fez isso — ele declarou.. Depois de um instante de silêncio. e não me incomodei. ela não queria nem pensar naquela possibilidade. erguendo uma das sobrancelhas. eu andei mexendo nos seus bolsos e na sua carteira — confessou Andréa. — Ela estava procurando a sua carteira de identificação funcional..Será que Neville havia. Lembro-me muito bem. — Depois. — Daphne não tinha certeza de que você falava a verdade . — Por quê? Ela sabia quem eu era. Laurie aprumou o corpo na poltrona. Laurie mostrou-se espantado. — Isto é. Apenas para mudar de assunto. pensei que ela estava apenas sem dinheiro. de uma hora para outra Andréa se viu contando a noite de amor de Daphne e Laurie. Interessado. os dois desataram na gargalhada. Será que você pode me dizer o que Daphne estava procurando? Na hora. — Estava com os olhos apenas semicerrados e vi tudo.. Mais tarde. não por enquanto. quando parou de rir. o que acontecia com certa frequência. não é mesmo? Mas.

Daphne tinha muito bom gosto para homens. Mas vamos mudar de assunto. Sempre pensou que eu tinha tendência para a maldade.. Sem dúvida. Estava achando interessantíssima aquela conversa. — Acha que sou uma louca? — Acho que é doida varrida.. Trata-se do melhor automóvel do mundo. De fato. — Você ainda é um espião? — Ela quis saber. Não consigo entender como você sabe dessas coisas todas. Reconheço que não é uma vida tão emocionante . é claro. Sou revendedor da Rolls-Royce.sobre o trabalho que fazia. apesar de também não estar mal de vida.. Aqueles sim eram rapazes de tutano. mas isso não quer dizer que não goste de você. Estávamos em guerra Andréa. — Daphne não queria acreditar que eu estava no lado certo. — E eu era. fiz uma porção de trabalhos com a Resistência Francesa. — Mas você era mesmo um espião? — Dos bons. Como não encontrou a tal carteira funcional. Pode parecer uma coisa sem graça para você. mas não é bem assim. Mas. — Não tenho tanta sorte.. começou a acreditar que talvez você fosse algum tipo de agente secreto. um irresistível riso juvenil. — Você trabalha em Londres? — Além de algumas outras cidades. e todos nós éramos obrigados a fazer coisas de que não gostávamos. E dispostas a pagar por isso. Andréa riu. — Finalmente ele voltou a rir. Irei aonde quer que haja pessoas interessadas em ter apenas o melhor. está bem? Não gosto de falar naquela guerra.

— Já se casou duas vezes? . Agora Laurie olhava para a janela dos fundos.quanto à dos velhos tempos. Andréa ficou se perguntando se ele não seria um traficante de drogas. Às vezes penso que seria bom se ainda estivesse no antigo trabalho. o que provavelmente significava justamente o contrário. mas nenhuma das tentativas deu certo. acho que estava certo em ser cauteloso. — Eu acho que sim. Tinha um medo enorme de ficar preso ao que quer que fosse. — Você amava Daphne tanto quanto Gordurinha. como se a resposta não tivesse importância. aparentemente interessado nos pingos que batiam no vidro. Não. Afinal de contas. Laurie respirou profundamente. As mulheres daquele tempo costumavam pensar que só se realizariam no amor com o casamento. porém. Por isso os homens se retraíam. mas não pensou mais naquilo quando viu novamente aquele sorriso encantador. Naquela época eu era muito imaturo. Já me deixei prender por duas vezes. é claro que Árabe não estava envolvido com drogas. Andréa reparou que a chuva havia apertado. só para manter a forma. foram sete anos que passamos juntos. evitar compromissos. Por isso. Ninguém volta sempre para a mesma pessoa se não existir uma ligação muito forte. — E o que você leva de contrabando? Laurie encolheu os ombros. Achava que devia ser livre. não é? — Ela perguntou. vez por outra faço um contrabandozinho para o continente e de lá para cá. Quanto a mim.

— Preciso ir. No momento estou livre. — Parece que você continua tão moleque quanto na década de quarenta. Laurie ficou em silêncio por alguns instantes. — "Incorrigível" era a palavra usada pela minha esposa australiana.. Posto um fim na própria vida. Por enquanto. Um cliente meu está chegando da Arábia Saudita e quero recepcioná-lo no aeroporto. Afinal de contas. A princípio. Depois. Andréa achou . era sempre eu quem dava o fora nas mulheres. Andréa não sabia o que dizer.— Uma vez com uma canadense. Laurie riu. Acabei me convencendo de que. ela havia. Depois de um instante. Às vezes fico me perguntando como seria com uma americana.. Sentindo saudade. foi com voz calma e vagarosa: — Nunca consegui entender como Daphne pôde desaparecer daquele jeito. Árabe se levantou. Depois que a policia encontrou o carro no rio.. preocupação com o que pudesse ter acontecido a ela. Quando se levantou para apertar a mão dele. sem se defender. sofri por causa do meu egoísmo. outra com uma australiana. só me casei com mulheres da Comunidade Britânica. todos passaram a acreditar que ela havia sofrido um acidente. Não lhe interessa? Andréa riu da brincadeira.. mas isso não impediu que eu continuasse.. no fim das contas. de uma hora para outra.. comecei a sentir saudade mesmo. Daphne não podia ter saído da minha vida. Quando voltou a falar. Laurie McGregor.

Neville e eu? Poderíamos jantar juntos. Árabe olhou-a com curiosidade. Dizendo aquilo era se sentiu uma traidora. — Não se preocupe Andréa.. erguendo uma das mãos. — Espero que você não conte nada a ninguém. Polidamente. procurou não deixar transparecer aquilo. Acho que seria interessante rever o velho Gordurinha. muito menos estando ela presente.que já conhecia o cheiro daquele corpo. Para falar a verdade.. — Por que não nos encontramos os três. Não conseguiria imaginar nada mais constrangedor. depois que tiver falado com Claudine. — Não sei como devo agir com você Andréa — ele confessou. Você. Como está ele? Andréa lembrou-se de quando Daphne falara no ciúme que o Gordurinha sentia por causa de Árabe. — Oh.. Teve mesmo de se controlar para não abraçá-lo. Talvez um pouco frio. como convém a todo advogado. mas a última coisa que queria era encorajar um encontro entre aqueles dois homens. retirou a mão e deu um passo atrás. não acha? — É no mínimo estranha — concordou Andréa. Agora que já sabe. Será que voltaremos a nos ver? — Gostaria de conversar um pouco mais com você. fiquei apavorada quando soube que Susan havia revelado tanta coisa a você e a Pardal. — Essa situação é um bocado peculiar. — Palavra de honra — ele se comprometeu. porque não vou abrir o bico. Laurie. Cuidadosamente. Neville está muito bem. quero que prometa que.. .

Inesperadamente. CAPÍTULO XII . — Não usa aliança — ele constatou. — Não o culpo.Laurie pegou outra vez na mão dela. — Seria o retorno da minha Daff? — Ele murmurou. — Honestamente. — Ajudarei no que puder — ele prometeu com um sorriso. mas mesmo assim espero que me ajude. você acredita que é a reencarnação de Daphne Murdoch? — Ele perguntou em tom solene. Andréa apenas balançou negativamente a cabeça e Árabe ficou olhando nos olhos dela. — Não sei se posso crer nisso. Laurie ergueu as mãos dela e beijou-as levemente. — Posso ligar para você? — Será um prazer. Andréa sentiu um frio no estômago. perturbando profundamente Andréa. mas acabou simplesmente voltando a balançar a cabeça. como se quisesse descobrir alguma coisa. Ficou até aliviada quando ele girou o corpo para se retirar. dessa vez afirmativamente. Andréa pensou em várias formas de dar uma resposta.

— Veio procurá-lo um certo coronel Forsyte. Não gostava de deixar assustados os funcionários mais novos.. mas não consigo. Reparando naquilo. .. O nome Forsyte não me é estranho. Tenho trabalhado muito... Um artista? Forsyte? Mas é claro. senhor — disse Reggie. Saindo de um profunda concentração. — Está tudo certo Reggie — disse Neville em voz alta.. — Mas hoje é sábado. Eu acho. como se fosse uma tábua de salvação.. — Sou um artista — anunciou além da porta uma agressiva voz masculina. parecendo ter medo de ser alvejado por algum objeto. à porta do escritório de Neville. Neville procurou imediatamente mostrar uma expressão mais relaxada. — Reggie meu velho. É que. Só podia ser o amigo de Lilian. Neville ergueu os olhos para o jovem funcionário.. ralhando com o inesperado visitante: — O senhor não podia entrar sem ser anunciado. Será que esse pessoal pensa que nós temos de trabalhar o tempo todo. mas disse também que é da máxima importância. Mas que diabo ele estaria... — Pelo menos marcou hora? Reggie agarrava firmemente a porta com uma das mãos.. desculpe o meu jeito de falar. até nos fins de semana? Esse coronel é um cliente? Qual dos advogados está encarregado do caso dele? — Ele disse que se trata de assunto pessoal. — Isso ajuda em alguma coisa? Imediatamente Reggie se afastou da porta.

às suas ordens senhor. Parando à frente da mesa de Neville. aquela frase perfeitamente inocente fez com que o homem parecesse constrangido. Forsyte cultivava um vasto bigode. por favor. aquele bigode parecia ter vida própria. Devia ter uns sessenta e cinco anos e vestia uma capa bege por cima de um terno azul marinho. por baixo do nariz do coronel. — Faça entrar o coronel. o homem ficou em silêncio. — Sente-se. o peito estufado. Reggie abriu a porta por completo e o escritório foi invadido por um homem de compleição forte. ele diria que era o líder de um golpe de Estado e estava ali para aceitar nada menos que uma rendição incondicional. coronel Forsyte — declarou Neville. Como muitos homens calvos. Por alguma razão desconhecida. Neville até imaginou que em seguida. — Giles Forsyte. olhando fixamente para o interlocutor. — Não quer pendurar . — É um prazer muito grande conhecê-lo.erguendo-se da cadeira. — Minha mulher já me falou no senhor. Em equilíbrio perfeito. O que será que ele pintava? Talvez barracas de campanha.. ele bateu com os calcanhares. apenas para dizer alguma coisa. fazendo um gesto na direção da cadeira destinada aos clientes. Seria difícil imaginar alguém que se parecesse menos com um artista do que aquele homem. O dele tinha as pontas viradas e uma cor peculiar. por uma questão de cortesia. — Acho que Lillian me disse que o senhor é um expressionista — acrescentou Neville. por favor — convidou Neville. Ela tem uma enorme admiração pelo seu trabalho. Feita a apresentação. — É verdade — confirmou Forsyte.. naturalmente.

. — E ela quer se casar com o senhor? — Naturalmente.. Neville apertou os olhos e balançou a cabeça. eu sinto muito — desculpou-se Neville aliviado. Isso parece. Pois não existe nenhum "naturalmente" nessa história. coronel Forsyte? — Achei mais apropriado vir vê-lo — pronunciou-se o homem finalmente. ainda de pé. Neville franziu a testa. — O senhor quer se casar. — Desculpe. Talvez Lillian não lhe tenha explicado direito. — É o seu divórcio — cortou o coronel. Lillian sabe que o senhor quer se casar com ela? — Eu não estaria aqui sem a permissão dela. já que agora podia deixar aquele desagradável soldadinho de chumbo aos cuidados de outro profissional. sabia? .. — Oh.. sei. não trato de divórcios.. meu velho.sua capa? Parece que hoje vai chover o dia inteiro. mas não estou entendendo nada. — Meu divórcio? — Quero me casar com sua esposa — anunciou o coronel Forsyte formalmente. Neville deixou-se cair na cadeira e ficou olhando para Forsyte... Que tempo horroroso. — Sei. — Quero falar com o senhor sobre divórcio. Forsyte manteve a postura marcial. — Sou um advogado criminal e por isso. — A que devo sua visita. — Gaguejou Neville. procurando se recompor. Absolutamente pasmado. Acontece que ela está casada comigo. sem dar resposta.. mas.

com evidente escárnio. o coronel percebeu o perigo. mas aquilo já estava passando dos limites. Ele não precisou alterar a voz.. — Não é minha culpa se. não acha? — Ele sugeriu corando levemente. achando que aquela conversa estava se tornando cada vez mais absurda. — Lillian não tinha certeza sobre qual dos seus colegas deveria procurar para tratar do divórcio. — Lillian realmente falou com o senhor sobre sexo? — Sim. acho que a palavra certa é estupefato.. Bem. — Neville não quis concluir a frase. homem! Lillian e eu estamos casados há trinta e quatro anos. Por Deus. Neville se orgulhava de ser um homem cordato. — É da minha mulher que estamos falando. mas Neville sentiu vontade de cair na gargalhada.. Desculpe. — É mesmo? E posso perguntar por que eu faria isso? Evidentemente. — Há cinco anos que nem mesmo dorme com ela. faria tremer qualquer promotor. Achou que talvez o senhor pudesse recomendar algum. mas o tom que usou. ela se queixou do seu descaso quanto às suas obrigações conjugais. se empregado num tribunal. — O senhor não parece ter sido um marido muito extremado — ele acusou.. — Seria melhor que pudéssemos tratar desse assunto de forma civilizada.Ora. É que estou. Seria um absurdo. Devia ser engraçadíssimo ver Lillian conversando com . O coronel cocou nervosamente o bigode. — Não sei por que eu devo ser civilizado — contrapôs Neville. estou falando apenas o óbvio.

. subitamente se lembrando da ocasião em que Lillian corara ao anunciar que não jantaria em casa. Sr. sim.aquele soldado sobre relações conjugais.. Neville cocou a cabeça.. — Não há nada "em andamento" — garantiu o coronel. — Ela está definitivamente decidida pelo divórcio. — Então.. Em suas atuações no tribunal. quanto duvidava que Lillian quisesse se casar com Giles Forsyte. mas a pele dele adquiriu uma espécie de brilho. — Há quanto tempo isso está em andamento? — Ele quis saber... — Ouça coronel Forsyte. Neville acreditava muito no fator surpresa. Neville não duvidava tanto disso. O coronel não chegou exatamente a corar. quando ela é quem. Neville abriu os braços.. Quando foi que isso tudo começou? — Eu a conheci em fevereiro. Bem.. O comitê organizador do Festival de Arte. — Ah. — Escute aqui coronel: não vamos discutir por causa de palavras ou expressões. Talvez seja melhor eu falar com a minha esposa antes de seguirmos adiante com esta conversa. É claro que nenhuma mulher em seu juízo perfeito iria se envolver com aquele presunçoso. Deixar uma testemunha desconcertada era meio caminho . Não posso acreditar que ela queira. foi há uns três meses — calculou Neville... Vocês dois devem ter estabelecido algum tipo de relacionamento e agora Lillian quer o divórcio. não era isso o que importava agora. Forbes. ele ficou se perguntando como Lillian podia se queixar. Controlando-se. aparentemente ofendido.

— Já estava sabendo que você faria suposições maldosas. Era evidente que estava extremamente nervosa. Sentada perto da outra extremidade da lareira. rica. Ou seja: uma mulher de meia-idade. tão logo serviu o inevitável gim-tônica que eles sempre tomavam. Neville. — Você realmente quer pôr um fim no nosso casamento? — Inquiriu Neville formal. talvez até mais. mas não podia mesmo ser de outra forma. Giles é tão rico quanto eu.andado para fazê-la dizer a verdade. — . Os olhos dela estavam agitados. agora sem nenhum sinal de nervosismo. e um artista pobretão que quer tirar proveito do dinheiro e da estupidez dela. — Enquanto dava aquela explicação com voz trêmula. — O seu coronel me informou que você quer o divórcio — ele disse a Lillian naquela noite. como se ele estivesse apertando o pescoço. e vou lhe dizer por quê. Lillian mexia no colar duplo de pérolas. — Giles achou que era um dever dele notificar você. — Você podia ter me avisado — queixou-se Neville em tom duro. Mas não é nada disso. — Quero. talvez procurando uma saída para fugir. — Não acha que provavelmente esse coronel está atrás do seu dinheiro? — Não acho nada disso — rebateu Lillian. Lillian apertou o copo com tanta força que parecia querer quebrá-lo. Valendo também na vida real. patrocinadora das artes. essa crença quase sempre o levava a dispensar preâmbulos para ir direto ao assunto.

multiplicando-o várias vezes. mas concluiu que honestamente. — Eu sei. isso não significa que outro homem queira fazer o mesmo.. Neville quis rebater aquela acusação.Durante alguns instantes ela hesitou. mas logo inclinou o corpo um pouco para a frente. — Desculpe Neville — voltou a falar Lillian. De fato. acho que deve ser impossível para você imaginar que alguém possa me achar atraente. possa mesmo querer fazer amor comigo. não precisar continuar casado com ela. eu também gosto de você. Por outro lado. — Eu sempre gostei de você Lillian — ele protestou. não era algo de que pudesse se orgulhar. com severidade no olhar. mas dificilmente ele teria se casado com Lillian se ela fosse pobre. durante aqueles anos todos havia aplicado o próprio dinheiro com sabedoria. — Não quero que você se martirize. Ela mexeu graciosamente a cabeça. No entanto. Sem ao menos ter a delicadeza de inventar uma dor de cabeça. Sempre lhe quis bem Neville. em numerosas ocasiões ele se oferecera para fazer amor com ela.. Neville passou a mão pelos cabelos nervosamente. No entanto. — Só porque você se casou comigo por dinheiro. vamos ter que encarar os fatos. sendo simplesmente repelido. Agora estava claro que Lillian tinha ido para cama com o coronel. obrigada". Tenho consciência de que em muitos . Você e eu estivemos juntos durante todos esses anos porque isso era conveniente para nós. de forma que pelo menos. Talvez fosse melhor não lembrar que até recentemente. O dinheiro não tinha sido a motivação maior. ela apenas dizia um seco "Não. não teria argumentos para isso.

Jamais havia imaginado que Lillian sabia alguma coisa sobre Daphne. Só lamentava o pouco cuidado na escolha do novo parceiro. Neville ficou olhando para ela sem palavras... Giles me ama.. — Escute aqui mocinha — falou Neville de súbito. Achei que devia respeitar o fato de você ter necessidades e desejos que eu não conseguiria satisfazer.. Encontrava-se com outras mulheres. com dignidade.. — Desculpe Neville — ela pediu. A essa altura Lillian mexia a cabeça. — Não dê atenção ao que eu . e foi por isso que nunca reclamei quando você. em movimentos nervosos. Pelo tipo de vida que oferecera àquela mulher. mas não é bem assim — rebateu Lillian. Além disso. — Posso até entender essa vontade de se ver livre de um casamento que não significa nada para você. Agora. não podia culpá-la por ela buscar agora novas experiências. Aquele soldado? — Giles pode parecer um durão. Nosso casamento não podia mesmo dar certo. mas tem certeza de que quer casar com aquele. — Basta conhecê-lo um pouco para ver que ele tem um coração mole por baixo daquela aparência de rudeza.aspectos. Sempre foi discreto e eu sou grata por isso. o que é muito mais do que qualquer coisa que você um dia tenha sentido por mim. Neville chegou a sentir remorso. espero que tenha o mesmo respeito em relação a mim. Não terá como negar isso. Algum amigo da onça.. Neville. Você nunca esqueceu aquela tal mulher que desapareceu. não fui uma esposa perfeita. Lillian pronunciou aquelas palavras com o rosto vermelho e as mãos trêmulas. devia ter dado com a língua nos dentes.

Você nunca fingiu estar apaixonado por mim e eu me casei sabendo disso. — Nesse caso.. naturalmente — ele prometeu. Com os lábios trêmulos. mas não há necessidade de prolongar as coisas. . Só que agora com Giles. como se a resposta estivesse sendo dada perante um altar. — Bem. Achava muito boa a minha posição na sociedade. — Recomendo que procure o escritório de advocacia Pettigrew & Wallace. Neville achava inacreditável o surgimento do amor entre duas pessoas tão díspares. ficarei instalado no meu clube. pensando que isso era o suficiente. ela podia se debulhar em lágrimas.disse. — Não há pressa Neville. Durante esses anos. é claro. não vou ficar no seu caminho. o clube feminino. descobri algo mais.. — Por enquanto. A voz dela era solene. — Não me oporei ao divórcio. Não devemos ficar nos agredindo. — Você está mesmo apaixonada por aquele homem? — Estou. Neville até achou que de um momento para outro. Eles cuidarão de tudo com eficiência e discrição. os chás de caridade. Ainda estava com o rosto muito vermelho. não acha? Lillian sorriu agradecida. — Obrigado. — Obrigada Neville. sentia-me feliz com minhas atividades. acho que vou ter de arranjar outro canto — ele continuou. Lillian mostrou um sorriso de gratidão.

trazendo um retângulo grande. Enquanto Lillian levava o quadro de volta. fazendo com que Lillian abrisse um sorriso largo. Depois de trinta e quatro anos. Neville ficou pensativo. O quadro mais parecia um quebra-cabeça que havia explodido. Sou grata por isso. Os olhos de Lillian brilharam. Logo estaria livre. Não devia estar excitado com aquela perspectiva? . Neville pigarreou antes de responder. voltaria a ser um homem solteiro. realmente. uma reação rara numa mulher tão formal. que arrumou sobre uma poltrona para que Neville pudesse ver. Ritmo — ele arriscou. Lillian? — Ele perguntou. — Admito que esteja um tanto curioso. — É. Ela disse aquilo com um sorriso nervoso.. Lillian saiu e voltou um minuto mais tarde.— Devo reconhecer que você está sendo muito correto. espalhando peças para todos os lados. — Giles é um fenômeno do século XX — ela proclamou. — Que tipo de pintura faz o seu coronel.. dá para ver. Enquanto Lillian mostrava o que dizia ser a profundidade nobre da pintura e suas repetições circunjacentes. — Neville fez um gesto de enfado. tentando descobrir algum sentido naquela obra. — Não quer ver uma das pinturas dele? Tenho um quadro pendurado no meu quarto. cedendo a um impulso. — Parece que tem muito. Neville observava por vários ângulos.

Era esquisito pensar num estranho invadindo aquele espaço. ao mesmo tempo em que dispunha de uma boa desculpa para não assumir compromissos mais sérios. Era a primeira mulher que ele realmente amava.. se estava decidido a ligar para Andréa? Infelizmente ela não estava no hotel. Afinal de contas. depois de Daphne.! Não deveria telefonar para Andréa? Por que relutava tanto em fazer isso? Sentando-se à escrivaninha. visualizou o sorriso. Neville repousou o copo e ficou pensando em Andréa. trinta e quatro anos era muito tempo. um minuto mais tarde. Ora. Uma coisa precisava ser dita em favor do casamento: um homem casado podia ter seus casos amorosos. mas que tolice! Como podia pensar aquilo. Imaginando aquele corpo esguio. — Será que podemos nos ver hoje à noite? — Ele propôs. . ou talvez de Lillian. ele foi até o escritório. revelando o quanto era vulnerável. praticamente uma vida. Giles provavelmente preferiria transformar em estúdio um dos quartos de cima. que logo não seria mais dele. Neville abriu a lista telefônica e procurou o número de Susan Dailey. Passaria a ser o escritório de Giles.. visto pela perspectiva de um homem solteiro. — Alô Neville — respondeu Andréa. aparentemente pouco entusiasmada ao ouvir a voz dele.Servindo-se de outro drinque. Depois de hesitar por alguns instantes. os olhos negros e aquele jeito tímido de mexer a cabeça para um lado. Claro que telefonaria para ela! Não importava o fato de fazer amor com uma mulher solteira ser algo totalmente diferente.

pela manhã. Andréa. — Acha mesmo que é uma coisa prudente. recomendo que não fale absolutamente nada sobre o romance.— Não sei. Claudine é uma megera.. Acho que irei amanhã.. — Pretendo contar a ela toda a verdade. Pensava em ir ver Claudine. Não é boa política mexer em casa de marimbondos. Neville não estava disposto a travar uma discussão pelo telefone. — Isso não é obsessão — rebateu Andréa com firmeza. No entanto. Sem dúvida.. Estou muito cansada e quero ver se durmo um pouco mais esta noite. — Gostaria de me encontrar com você. aquilo era uma obsessão. Claudine não tem notícia dele e.. — É alguma coisa relacionada com Daphne? De fato. está pedindo o divórcio.. . minha mulher. Além disso. Desisti.. — É uma necessidade. Andréa? Não vejo motivos para essa sua obsessão em relação à Daphne. aquela era uma mulher decidida.. mas. Queria ir para a cama cedo. Preciso de respostas. — É algo mais pessoal.. — Aquiesceu Neville. Neville. Também pretendo falar com Corny Cornforth.. — Eu compreendo — ele aquiesceu hesitante. — Se é o que você acha.. Por isso oferecerei recompensa. Claudine deu a entender que queria dinheiro. por hoje. Tenho algo muito importante para lhe falar. Eu. Lillian. — Mesmo assim. Quero ouvir a verdade e não seria desonesto retribuir com meias verdades.

— Ela descobriu que você e eu. — Talvez amanhã.. Problemas. Neville achou engraçado ter sentido uma ponta de ciúme ao ouvir o nome de McGregor.. Brian Bird. O que achou dele? — Continua o mesmo... Mas está sendo uma coisa amigável. Seria por causa do Árabe que Andréa não queria vê-lo naquela noite? O que os dois teriam conversado? — Então você conheceu o Árabe de Daphne? — Ele perguntou. — Algum problema? — Inquiriu Neville... . Laurie e Pardal. Foi Susan quem os encontrou. Gostaria de lhe contar tudo.. Laurie esteve aqui. Ela encontrou também o Pardal.. — Não. Nós conversamos. — É que talvez você ache.. Eu o achei. — Sim. Estou começando a ficar confusa. — Não vejo Laurie desde algum tempo antes de Daphne. A propósito.. mas nenhum dos dois ajudou em muita coisa. Laurie concorda com você.. — Está bem. são outros. Neville. Acha que o mais provável é Daphne ter cometido o suicídio.. Susan o encontrou. Eu devia.. — O mesmo como? Que tipo de comparação você pode estar fazendo? Outra vez se fez um silêncio.. Não se lembraram de mais ninguém que pudesse estar na cena do crime e não fazem ideia de como Solange conseguiu a arma. Durante alguns instantes eles ficaram em silêncio. antes que Andréa respondesse: — Susan me disse que ele continua o mesmo.

— Que emocionante! Andréa riu. eu ligarei para você. Afinal de contas. mas estou realmente exausta. está bem? Neville despediu-se e desligou. A porta foi aberta por uma mulher loira que mostrava um sorriso jovial e um brilho de curiosidade nos olhos. Só Deus poderia prever a reação de Claudine Beaudry. Parando em frente a uma casa de esquina. Era provável também. Atualmente é revendedor da Rolls-Royce. Andréa tocou a campainha. Pela primeira vez durante aquela conversa. não é? — Provocou Andréa. — Vamos nos encontrar. Não havia ninguém circulando pela rua naquela manhã chuvosa de domingo. Quero estar em forma quando for falar com Claudine. que muitas delas houvessem resolvido ficar na cama até mais tarde. Ouvindo o som de um sino. ela concluiu que talvez as pessoas do lugar tivessem ido à igreja. — Você nunca gostou de Laurie. O endereço que Andréa tirou da lista telefônica ficava no final de uma avenida comprida ladeada por casas de cômodos. o ciúme dele não era nenhum segredo. depois de uma dura semana de trabalho. — Desculpe Neville.. não muito longe. parecia outra vez a jovem cheia de vida que ele tivera nos braços na noite anterior. Amanhã quando voltar. percebendo que seria impossível demovê-la daquele propósito. ao saber que Andréa havia escrito um livro sobre o irmão gêmeo dela e a mulher que o matara. Andréa — ele insistiu.Simpático. .. Será que Susan havia contado aquilo também? Mas como Susan podia saber? Talvez tivesse ouvido de Daphne.

A jovem balançou a cabeça. acho que não tinha amigo nenhum. por acaso. a não ser uns poucos clientes.. Não me responsabilizo por dívida nenhuma. Quando a mulher fez uma pausa para tomar fôlego. Espero que você não seja uma cobradora. O problema é que o quarto só ficará vago daqui a uma ou duas semanas. Mademoiselle Beaudry era uma raposa solitária. os outros hóspedes reclamariam. é uma cliente? Ou é uma parente? A polícia está procurando os parentes da velha. jovialmente. mas voltou a abri-la para dar outra informação: — Se está interessada em saber. Para falar a verdade. Aqui. enquanto Andréa fechava o guarda-chuva. — Você.— Você se perdeu por aí ou está procurando um quarto? — Perguntou a mulher. ela agora está na funerária. está ouvindo? Andréa olhava para a mulher com o horror estampado no rosto? — Está querendo me dizer que Claudine Beaudry morreu! A mulher abriu por completo a porta e fez um gesto para que . Ainda bem que você não trouxe a bagagem. todos os quartos têm rádio e televisão em cores e os hóspedes podem usar a cozinha para fazer chá ou café. — Dizendo isso ela aproximou o rosto do de Andréa. — De fato. Andréa aproveitou: — Estou procurando por Claudine Beaudry. — Se eu deixasse onde estava. Onde mais poderia estar? — Eu não entendi — espantou-se Andréa. vou ter um quarto vago. não tinha muitos amigos. — Bem.. Mas duvido que haja serviço religioso. não acha? — Ela já ia fechando a porta na cara da boquiaberta Andréa. o enterro será na terça-feira.

apareceu apenas um garoto de uns oito anos. — Não sabia? Eu não teria falado desse jeito se soubesse que era novidade para você. É só um instantinho. — Quando foi que a Srta.Andréa entrasse num pequeno hall. No entanto. descendo a escada.. Beaudry morreu? O que aconteceu com ela? Meu Deus! Ainda na sexta-feira estivemos conversando pelo telefone! — Foi ontem. É americana. Pelo jeito. Tem um pouco de classe. impecavelmente limpo e que cheirava a cera recente. que parecia conter o dobro dos móveis que deveria ter. Enquanto Andréa tentava se recuperar do choque. mas mantive o nome. Senhora. eu não estou precisando de chá. não acha? Andréa ficou olhando para ela. — Realmente. de cabelos pretos e olhos de cílios compridos. Acabei de fazer um chá e vou pegar uma xícara para você. — Salazar — completou a mulher. — Meu homem era espanhol. retornando com a bandeja de chá e enchendo a própria xícara. — Dizendo aquilo. Eu me livrei dele. Em alguma hora da noite passada. ela emitiu um grito estridente: — Carlos! Pelo barulho que se ouviu a seguir. Era um bonito menino. — Em alguma hora? — Eu não estava em casa e foi o meu filho quem a encontrou.. o senor . ainda meio desorientada. parecia que a sala seria invadida por um exército. não é? Chegou há pouco no país? Mas olhe só para você! Está branca como uma folha de papel! Entre e sente-se ali no sofá. a mulher a fez entrar na pequena sala de estar.

Salazar era algo que devia ser visto.. Há anos que se queixava de dores no peito. — Ela sangrava pela cabeça? — Interrogou Andréa. Andréa sentiu um sobressalto.. Estava sozinho e não sabia o que fazer. você não conhecia mademoiselle? — Não pessoalmente. mademoiselle bateu com a cabeça na mesa da máquina de costura — explicou a Sra. Salazar. Salazar. Alguém me disse que. sangrando pela cabeça.. eu não sabia — confessou Andréa. olhando para Andréa com curiosidade. — Não seja atrevido Carlos — repreendeu a Sra. foi para lá que eu liguei. ela sofreu um ataque do coração. — Então.. — Bem.. Vim procurá-la por que. — Sim mamãe? — Atendeu o garoto. Quando cheguei lá. . Por quê? — Porque eu já contei tudo à polícia — explicou Carlos... sabia? — Não. Segundo a polícia. — A polícia está envolvida nisso? — Ela quis saber. — A moça está querendo saber a que horas morreu mademoiselle. Eu liguei por que. — Mas não foi isso que a matou. A mulher olhou para ela com desconfiança. encontrei a porta aberta e ela caída no chão. — Desculpe mamãe. — Você é da polícia? — Perguntou o menino. — Não. Ouvi a mulher gritando e subi correndo. Nenhum dos hóspedes estava aqui. — Ao cair. Disquei 999 e eles vieram. Era noite de sábado..

provavelmente ele só queria mandar ajustar uma roupa. um homem veio procurar por ela — voltou a falar Carlos. Mas que coisa horrível! A polícia tem mesmo certeza de que foi um ataque do coração? — Sim. moça.. Acho que nunca teve um homem... Bem. Mas pagava o aluguel em dia. com uma certa dose de prazer. eu queria. Andréa.. voltou-se para o menino interessada.. Não se podia dizer que fosse a mulher mais bonita do mundo. sei. — Desculpe por lhe ter provocado esse choque. e isso era o que importava. Desculpe mesmo. Disseram que ela não havia machucado muito a cabeça. além de ter um temperamento um tanto difícil. Era bem corcunda. É claro que eu tinha pena dela.. . Se houver mais alguma coisa.. ainda sem saber o que pensar daquilo tudo. — Ontem. e também era aleijada. — Ah. meu bem. ela fez uma ressalva: — Bem. — A senhora disse que ela sofria do coração há muitos anos. enquanto a mãe dele tentava explicar: — Oh. olhando em seguida para Andréa. que já se preparava para sair.— Queria encomendar um vestido? — Acudiu a Sra. — Havia muito sangue por lá — informou Carlos. Pobrezinha. — Ah. Andréa hesitou por alguns instantes. não é? — Sim. mademoiselle era uma costureira e tanto! — Depois de examinar as roupas de Andréa. não tinha muita inspiração para criar. Salazar. mas copiava com perfeição qualquer modelo. — Mas agora está tudo limpo — ralhou a mãe dele.. coitadinha.

baixo. pela janela dos fundos. O homem carregava um guardachuva. qualquer um lhe pareceria alto. olhando para Carlos.. — Eu só o vi de passagem. — Como era ele. — Mas por que todas essas perguntas? — Quis saber a Sra. não pode ter havido outro motivo para que um homem subisse lá. o que me recomendou mademoiselle. Sendo assim. ela . — Dizendo isso. O menino apenas encolheu os ombros e a mãe dele interferiu: — O homem na certa era apenas um freguês. gordo... Salazar desconfiada. Alto. Ele próprio também pretendia vir vêla. Esse meu amigo normalmente usa ternos escuros. Foi mademoiselle quem o recebeu. Andréa hesitou novamente. Estava chovendo. — São ternos muito bonitos. — Qual era a aparência desse homem? — Inquiriu Andréa.. dando em seguida à primeira explicação que lhe ocorreu: — Pensei que esse homem talvez fosse um amigo meu. magro? — Era alto — respondeu Carlos prontamente. entende? — Pensando mais um pouco. gente que trabalha durante a semana e vem aqui nos fins de semana para encomendar esses trabalhinhos. — Dizendo aquilo. ela olhou para Carlos. Mademoiselle fazia muitas reformas em roupas.Mademoiselle esperava receber muitos clientes ontem. Pelo tamanho daquele menino. só que não vem aqui há anos. porém. o garoto acrescentou uma informação que deve ter achado importante: — Estava de capa.

Depois vi um pouco de A Hora do Assassino. era um menino que gostava de dar informações precisas. O menino franziu a testa. Ele saiu enquanto eu assistia. — A porta do quarto estava fechada? — Não. Mas falando sério. — Mademoiselle gritou? — Andréa pediu confirmação. — Foi logo no início da noite? Carlos apertou os olhos para responder. Gritou. — Quando terminou o filme. ela morava aqui há sete anos e nunca a vi com um homem. mas não gosto muito daquele programa e mudei para BBC-1.deu uma risada. — Estava passando O Vencedor Ganha Tudo na televisão. — Carlos parou de falar e pensou por alguns instantes. aí é que não existe mais dúvida de que a mulher morreu do coração. devia ser umas sete e meia quando vi aquele homem. — Mas o homem estava lá quando você subiu correndo e encontrou mademoiselle caída? — Eu já lhe disse. Foi por isso que eu pude vê-la caída no chão. O programa já ia pela metade. Portanto. gritou bem alto. estava aberta.. Salazar. Não disse nada.. — Devia ser por volta das nove horas — ajudou a Sra.. — Não achou estranho a porta estar aberta? . Foi nessa hora que ouvi mademoiselle gritar. — A que horas veio esse homem? — Perguntou Andréa ao menino. apenas. — Se foi outra a intenção. começou o noticiário. Pelo jeito. — Para falar a verdade. Deve ter sido quando bateu com a cabeça.. Mais ou menos às dez horas vi o homem ir embora.

Salazar. Bem.. — Meu pai conheceu a Srta.. naturalmente.. — Fez até bastante frio. Andréa subiu a escada com a Sra. não sem razão. — Às vezes faz calor lá em cima — acrescentou a Sra. — Tanto podia estar aberta como fechada. você está fazendo perguntas demais — observou a Sra.. — Não consigo imaginar mademoiselle com um homem. Salazar. em tom de confidencia. Ela de fato tinha uma foto em cima da penteadeira. a II Guerra Mundial.. Você entrou no quarto. Carlos? Será que podia ter alguém escondido atrás da porta? — Para alguém que nem conhecia mademoiselle. Parecia estar começando a enjoar daquela conversa. Então vamos lá em cima. Mademoiselle Beaudry durante a guerra. Eles costumavam frequentar o clube.. Andréa tentou pensar numa desculpa e lembrou-se da história que havia inventado para Corny Cornforth.. Um minuto mais tarde Andréa reparou que era possível chegar . — Mas ontem estava chovendo — lembrou Andréa. Salazar. soltando uma risada maliciosa. nunca se sabe. — Meu amigo pretendia pedir a mademoiselle algumas fotos antigas — ela disse. juntamente com vários outros amigos. Nessa época mademoiselle era bem jovem. Salazar. Você não quer ver? Pode até ser o seu pai.. mas sempre disse que era um irmão. — Que tipo de fotos? — Perguntou a Sra. Se soubesse como estava sendo usado. aliviada por ter dissipado as suspeitas da mulher.O menino fez uma careta. àquela altura Mark Cavenaugh estaria se contorcendo na sepultura.

guardada em um gabinete de madeira. Talvez um seguro. Salazar. Será que alguém podia ter entrado e saído sem que Carlos reparasse? E o homem que havia visitado Claudine. luxuosamente mobiliado com poltronas forradas com veludo cinzento. Andréa ficou curiosa. . — Mademoiselle sabia escolher o que é bom. embora não pelo mesmo motivo. uma na frente e outra nos fundos. almofadas coloridas de seda aqui e ali. — É bonito. ocupando um dos sofás.. Tinha dinheiro. ao lado da máquina de costura. Também gostava de joias. De onde viria aquela pensão? Afinal de contas. — Hoje pela manhã eu limpei o tapete — relatou a Sra. Num dos cantos ficava a penteadeira. O quarto era tão bem decorado quanto à sala de estar.. não acha? — Disse a Sra. além de vasos e castiçais de cristal numa mesa preta envernizada e bonitas aquarelas nas paredes claras.ao primeiro andar por duas escadas. Será que não havia retornado? O apartamento de Claudine foi para Andréa uma surpresa tão grande quanto a que sentiu ao conhecer o quarto de Daphne. Havia também um tapete persa legítimo. Recebia uma gorda pensão do irmão. você sabia? E não era o que ganhava com o trabalho de costureira. mas em vez disso viu-se no centro de um local com uma decoração marcadamente feminina.. cuja cabeceira era de madeira trabalhada. Salazar. havia uma bonita poltrona forrada de veludo perto da janela. Pierre estava desempregado ao ser morto. Ela esperava encontrar um lugar apertado e com móveis baratos. Além da cama..

Está tudo muito claro. mas sem conseguir pensar em qualquer outra. caiu e bateu com a cabeça. — Não. não era feio. — O retrato é aquele — mostrou a Sra. porém. Pierre não estava muito diferente do que aparecera nas fotos dos jornais. — Pelo jeito. — Então a polícia está mesmo convencida de que não houve um. Talvez o médico da polícia houvesse realmente constatado um ataque de coração na morta.. Salazar. Salazar começando a rir.. Na verdade. você vê televisão demais. Quem poderia querer matar a pobre e velha mademoiselle. Andréa olhou em volta. Não se via ali nada que pudesse esclarecer o que de fato havia acontecido no dia anterior. Não se deu falta de nada.— Os policiais disseram que ele podia ser lavado. — Acha que esse seu amigo pode ter dado cabo de mademoiselle — inquiriu a Sra. mostrava nos olhos o ciúme que já devia sentir pela pobre Solange. Andréa hesitou. ela sentira uma certa antipatia pela cunhada . batendo com a cabeça contra alguma superfície dura. Só que uma mulher idosa podia muito bem sofrer um colapso cardíaco ao ser empurrada com força. não querendo usar a palavra "crime". apontando uma foto posada numa moldura dourada. Ao escrever A Vítima. moça. além de não haver sinais de luta. Apesar de mais jovem. Mademoiselle sofreu um ataque do coração. — Não é o seu pai? — Perguntou a dona da pensão. como Carlos.

rabugenta que infernizara a vida de Solange. Mesmo assim. uma mulher morrer. Andréa procurou não prestar atenção às conversas.. Qualquer uma daquelas pessoas podia ter subido até o quarto de Claudine pela porta dos fundos e derrubado à velha com uma pancada na cabeça. tentando ordenar os pensamentos. Uma porção de gente esperava o trem na plataforma do metrô. porém. da mesma forma que Daphne e ela própria. assim de repente. Laurie e a amiga de Susan. assim como Andréa havia encontrado. para impedi-la de falar com Andréa. assim como Pardal. Todos eles sabiam que Claudine estava morando em Paddington e qualquer um podia encontrar o endereço na lista telefônica. Mas por quê? Ora. contemplando o ninho que Claudine havia arrumado com tanto cuidado. Ela dissera a Neville que pretendia visitar Claudine Beaudry. Claudine podia ter morrido de causas naturais. muitas famílias haviam resolvido passear nos parques de Londres.. Podia tratar-se de uma aleijada. na certa. era difícil não experimentar pelo menos um sentimentos de solidariedade pela solitária mulher que habitara aquele lugar. Com a parada da chuva. Um golpe de ar indicou que o trem estava para chegar. Vai. Agora. Só aparentemente. Susan também sabia. Era muito estranho. De fato. . Andréa. mas isso não justificava despejar todas as frustrações em cima de uma inocente. justamente na hora em que seria procurada por outra pessoa que investigava uma morte misteriosa. Mas Claudine havia morrido de causas naturais.

no exato momento em que o trem passou para parar um pouco mais adiante. puxando-a para trás. Logo em seguida. . o corpulento rapaz que a salvara soltou os braços dela. com o coração aos pulos. Andréa ficou de pé na plataforma. cambaleou para frente. No instante seguinte o trem partiu e ela ficou completamente só. observando enquanto as portas do vagão se fechavam.. Ela estava para morrer. Lá embaixo. Como se estivesse desabando na escuridão. Desequilibrada. mãos fortes a agarraram. Estava escuro. como um touro que refreasse a marcha. como se fosse o fundo de um abismo. sem ao menos esperar por um agradecimento. A multidão deu um passo adiante. ela distinguiu na memória o som de um tiro. Estava para morrer Antes que Andréa pudesse abrir a boca para gritar. até a beirada da plataforma. sorriu e embarcou no trem. Eles pareciam vibrar ao peso do trem que se aproximava. Andréa sentiu uma pancada no meio das costas e ficou sem ar por alguns instantes. viu os trilhos da ferrovia. Paralisada.. De súbito. — Cuidado moça — advertiu uma voz masculina. muito escuro.não demorou para que a composição apontasse no túnel. pelos braços.

Laurie. como nos antigos romances de mistério. vigiando a casa de Susan até vê-la sair. Mal conseguia pensar direito. pela manhã. mas . Salazar. Pardal e Vai. golpeando-a nas costas com um dos ombros. ela estaria naquela plataforma? Ninguém. ele conseguira ver que alguém a havia salvo da morte? Sentando-se num dos bancos da estação. "Claudine Beaudry pode ter morrido de uma causa natural. provavelmente um homem. O agressor desconhecido devia tê-la seguido desde a casa da Sra. naquele exato momento. Será que na pressa da fuga. Por isso resolveu que o melhor seria deixar para procurar Corny Cornforth num outro dia. mas tinha certeza de que fora algo intencional. Quem quer que fosse o agressor. o mais afastado da plataforma que conseguiu encontrar. Até imaginava alguém. quase sem forças para se mover. logo havia recuado para se misturar à multidão. Podia até ter estado à espreita desde bem antes.CAPÍTULO XIII Andréa quis se convencer de que aquilo tinha sido um esbarrão acidental. Agora voltaria para a casa de Susan e tentaria arranjar algum tipo de acareação com Neville. Mas quem? Andréa sentia-se fraca. ela respirou fundo e procurou se controlar. como costumam fazer os jogadores de rúgbi. Quem poderia ter conhecimento de que.

mas no rosto de uma delas se estamparia à culpa." Ouvindo aquilo. usando um vestido cinza muito chique. É claro que sim. mesmo sendo domingo. irmão gêmeo de Claudine. Por que todas aquelas coisas haviam acontecido? Estaria já escrito que Pierre. — Não. as pessoas se mostrariam horrorizadas.. poderia chegar a Bond Street a tempo de almoçar na adega de Corny Cornforth. obrigada. ver se conseguiria fazê-lo se abrir. morrera Pierre Beaudry.. Andréa percebeu que já passava da hora do almoço e lembrou-se de que não comia desde o café da manhã.não foi isso o que aconteceu". também num dia 3 de maio. Trinta e oito anos antes. o que significava que Claudine Beaudry havia morrido no dia 3. antes de se confrontar com os demais.. Eu estou bem. meu bem? — Perguntou uma senhora de cabelos prateados.. como se estivesse carregando o mundo nas costas. ela proclamaria. que tomara bem cedo. — Gaguejou Andréa. Fez aquilo com enorme dificuldade. porém. Ao desembarcar em Bond Street. Se fizesse uma baldeação na estação seguinte.. "Alguém deu cabo dela e depois tentou me matar. . Era 4 de maio. Solange. — Está sentindo alguma coisa. Nesse momento Andréa percebeu que as pessoas paravam para olhá-la. Lembrando-se disso ela estancou o passo. Ao se sentar no banco do trem. forçando as pernas a andar. Daphne e Claudine teriam de morrer da forma como haviam morrido? E ela. Não seria uma má ideia conversar com Corny. Andréa ficou se perguntando se encontraria a adega aberta..

boquiaberta. Do Sr. um uisquezinho. um vinhozinho. o velho Corny. Andréa ficou sabendo que como havia pensado. — Sim... motoristas como aquele deviam ser condenados à morte.Andréa Cavenaugh. sem direito a perdão. moça. O mais provável é que Corny tenha atravessado a frente do carro. mas logo voltou a ficar sério. naquela época do ano o estabelecimento sempre abria aos domingos. Dizem que ele estava bebendo. Durante vários segundos Andréa ficou olhando para o homem da banca de revistas. Sempre dizia rindo. — Foi atropelado e o motorista fugiu. Também acabaria encontrando uma morte trágica? A adega estava fechada. Quem pode dizer que Corny teria morrido se o carro houvesse freado? .. — Mesmo assim o motorista não parou. Se você quer saber. — isso aí eu não sei. mostrando os dentes quebrados. vitimado num acidente. Uma coisa horrível. Gostava de uma cervejinha. do velho Corny — confirmou o homem acendendo um cigarro. Cornforth? — Ela conseguiu perguntar finalmente. — O senhor está falando. — O homem soltou uma gargalhada. Informando-se numa banca de revistas que havia na esquina.. que fazia isso para atestar a qualidade dos produtos que vendia.. Vivia bebendo. — O motorista fugiu? Quer dizer que foi de propósito? — O homem mexeu a cabeça para um lado. o que transforma a coisa num crime. Pelo que sei nunca parou de beber. Naquele dia estava fechado em respeito à morte do dono.. em minha opinião.

um dia antes. Havia algumas questões para as quais aquele homem talvez tivesse resposta. Susan e Pardal haviam saído juntos. à beira da pista. só retornando bem tarde. no dia anterior.. Andréa apenas balançou a cabeça. aos quais pretendia fazer algumas perguntas. Susan era dona de um Mini. mas ela não sabia como perguntar. algum tempo depois de fechar a adega. Pelo jeito. Parece que Corny estava indo para casa. Incapaz de dizer qualquer coisa. revelara a algumas pessoas a intenção de procurar Claudine Beaudry e Corny Cornforth. Sabia apenas que. além do que Vai e Pardal tinham ido de carro à casa de Susan. um carro potente e pesado. o carro o jogou longe. Andréa ficou se perguntando se estava realmente preparada para incluir Neville na lista de suspeitos. — A Srta. Agora. perto de Oxford. Aonde teriam ido? Neville não dirigia em Londres. O homem encolheu os ombros. — Acho que foi ontem à noite. Ele dissera também que costumava deixar o carro na propriedade do pai. preferindo ir ao centro de táxi. — Vai querer algum jornal. Claudine e Corny estavam mortos. Mas Laurie não era o único a ter carro.— Quando foi que aconteceu esse acidente? — Perguntou Andréa. Cavenaugh quer vê-lo senhor — informou Reggie . Seria longe dali? Por alguns instantes.. Um guarda encontrou o corpo pela manhã. respirando com dificuldade. Andréa pensou num Rolls-Royce. meu bem? — Perguntou o homem da banca. segundo disse.

— Reggie. achava que não demoraria para desatar em lágrimas. mas sem muito sucesso.. traga um chá — ordenou Neville. já estava aqui. Andréa hesitou. — Srta.aparecendo timidamente à porta. fingindo-se horrorizado com a possibilidade de alguém pensar que o chá não era uma panaceia universal... — Desde ontem que não como quase nada. Seria melhor se fosse um pouco mais sólido — arriscou Andréa. — Você. Cavenaugh? — Repetiu Neville. Está se sentindo bem? — Perguntou Neville. Acho que não. . de costas. Andréa estava à janela. senhor. fazendo com que Reggie recuasse assustado. contemplando o jardim. — Parece que todos neste país acreditam que chá é remédio para tudo. — Bem. — Andréa Cavenaugh? — Ela mesma. Dizendo aquilo Andréa tentou sorrir. Na verdade. — Eu não sei. — Quando me dei conta... Acho que é o meu dia de sorte.. Andréa riu nervosamente. — Como descobriu que eu estava trabalhando hoje? — Eu nem pensei nisso — ela admitiu voltando-se para olhá-lo. Imediatamente Neville se levantou e dirigiu-se à porta. convidando-a a entrar no escritório. — E você acha que não é? — Contrapôs Neville. como costumava fazer. — Andréa! — Ele exclamou.

ele segurou nas mãos dela.Aflito. — Isso é tudo Reggie — dispensou Neville. fez um gesto para que Andréa começasse a comer. — Suas mãos estão geladas — espantou-se Neville. Durante vários minutos os dois ficaram em silêncio. — Acho que . Neville ordenou que Reggie fosse comprar sanduíche. — Sem dizer nada — ele proibiu. — Consegui a cópia do processo de Solange que você me pediu — informou Neville. Com um ar de justificada curiosidade. Depois de pôr o guarda-chuva de visitante no banheiro e ajudála a tirar a capa. — Melhor dizendo. — Aparentemente sem muito interesse. já que não se lembrava bem das preferências de Andréa. carregando uma bandeja com chá e alguns sanduíches embrulhados. Neville desembrulhou os sanduíches e encheu de chá uma das xícaras. — Venha sentar-se — convidou Neville. ele tirou de uma das gavetas um envelope grande e pôs sobre a mesa. Andréa quis dizer alguma coisa. depois que ela limpou a boca num guardanapo de papel. — Não quero que diga uma só palavra enquanto não tiver comido. enquanto ela tomava o chá e mastigava o sanduíche de galinha. Pouco depois Reggie retornou. — De galinha — ele especificou. Em seguida. — Os adeptos da comida natural sempre gostam de galinha. mas não conseguiu. Os lábios dela tremiam e os olhos estavam cheios de lágrimas. o rapaz se retirou e fechou a porta. foi Reggie quem conseguiu.

Nem sei por onde começar. na direção dos trilhos. Foi bem na beirada da plataforma. como se alguém me houvesse golpeado com um dos ombros.. mas.. Uma . Foi atropelado por um carro ontem à noite. Não compreendo. Além disso.. Supostamente. alguém tentou me matar.não vai ser de muita ajuda. — Está se sentindo melhor Andréa? — Tenho umas coisas para lhe contar Neville. ela sentia dificuldade para falar. Mas não é só isso.. Só senti a pancada nas costas. — Eu. eu. — Alguém me empurrou da plataforma do metrô. sofreu um ataque cardíaco. Você me disse que tinha falado com ela na sexta-feira.. — Claudine Beaudry está morta. Foi ontem que ela morreu Neville... Andréa respirou fundo. — Alguém. Por sorte um rapaz me segurou. bem na hora em que o trem ia passar. Em seguida. ou eu teria morrido. — E falei. porque já sabemos de tudo o que está aqui. Neville olhou para ela com os olhos arregalados. — Por que não começa pelo começo? — Ele sugeriu. tive uma daquelas fugas.. Isso foi há cerca de uma hora e meia. — Não.. Com os lábios ainda trêmulos. — Você viu quem a empurrou? — Perguntou Neville ansioso. Por alguns segundos. porque Corny Cornforth também está morto... A essa altura ele também se serviu de uma xícara de chá. Tentou o quê? — Ele inquiriu finalmente. olhou novamente para ela..

Pode ter ficado caído lá sofrendo. — Desculpe Andréa. em circunstâncias muito estranhas. — O dono de uma banca de jornal da esquina me disse que um policial encontrou Corny pela manhã. ... caído na margem da pista. não é? E você não teve chance de falar com ele ou com Claudine. — Tem certeza de que não foi acidental? — Ele perguntou.. Não sou uma doente Neville.daquelas regressões. — Disse Neville respirando fundo. Regressão? Não é algum tipo de amnésia? Andréa olhou diretamente para ele.. Eu não gostava muito daquele homem.. Agora quer mesmo que eu acredite que aquele empurrão foi acidental. — Disse que havia muita gente na plataforma. Depois disso Andréa quis mais um pouco de chá. Havia uma porção de gente em volta e eu não pude ver. Não consigo pensar de forma coerente. Não se sabe nem se ele morreu instantaneamente. A voz de Andréa foi sumindo e Neville segurou-lhe as mãos. ou simples coincidência? — Acho que não. queria conversar com ele.. mas mesmo assim fui procurá-lo. na hora do acidente. É que eu próprio estou passando por um momento muito difícil. Então Corny foi atropelado. Claudine Beaudry e Corny Cornforth morreram ou foram mortos ontem. não é? Às vezes as pessoas não tomam cuidado. não é isso? — É sim — confirmou Andréa. — Eu não quis sugerir nada. agora mais controlada. Foi uma coisa muito rápida.. Neville esperou que ela se servisse. Mas o que você quis sugerir com essa história de..

— Você está linda — ele garantiu. Bem.. mas.. — E eu já estava achando que você havia perdido o interesse em mim — disse Neville. Isto é. de jeito nenhum. você não pareceu dar muita atenção. — Oh. Achei que talvez nós.. não tenho dúvidas de que Reggie está com o ouvido grudado na porta. Estou com medo. — É mesmo? — É mesmo — confirmou Andréa com entusiasmo.. Neville. Andréa demonstrou surpresa... Como se buscasse desesperadamente um refúgio. — E não foi por causa de Laurie que eu não. Disse que sempre gostou de você. acho que num certo sentido isso é verdade. ela aprumou o corpo e pegou na bolsa um lenço para assoar o nariz... — Oh. Eu não costumo perder o controle desse jeito. Pensei que talvez Laurie McGregor a houvesse influenciado contra mim. Neville.— Acalme-se — ele disse com brandura. Devo estar com uma aparência horrível.. Neville pôs as duas mãos nas faces dela e beijou-a nos lábios de leve.. soluçando. — Quando lhe falei sobre o divórcio... Ele até se mostrou simpático. Só que a essa altura. Depois de algum tempo. — Desculpe. Andréa abraçou-se a ele. nós poderíamos. . — Podemos ir para o meu hotel. Talvez seja melhor irmos conversar em algum outro lugar. desabafar. — Os analistas dizem que faz bem chorar vez por outra.

conseguiu fazer com que parasse de tremer. a caminho do hotel. encostando o dedo nos lábios dela. — Você parece ter em mente algo sinistro — ele interpretou. — E tenho. assumiu uma postura de determinação e renovou o convite: — Vamos para o hotel. ele a proibiu. — Espere até se sentir mais forte. Continuou a tremer mesmo quando eles subiram à suíte. Inevitavelmente. não é lá muito fácil. Em seguida. abraçandoa com ternura e calor. Procurando com a mão. eles praticamente não falaram nada. — Tem razão — concordou Neville. Definitivamente precisamos conversar. sem muito . parecendo que não pararia mais. depois de algum tempo ela começou a se sentir dominada pelo desejo. No táxi. — Não podem esconder o que sentem. por baixo das cobertas. porém. Logo. Andréa afagou os cabelos dele e tentou sorrir. ela lançou a Neville um olhar tão triste que deve tê-lo deixado de coração partido. — Sinto pena de vocês homens — ela murmurou. Neville livrou-a das roupas molhadas e a deitou na cama. Quando Andréa tentou falar. Andréa obedeceu abandonando-se na segurança daqueles braços. descobriu que o mesmo acontecia com ele. — Para um homem. o que não é tão difícil para uma mulher.Hesitante. — Neville estudou a expressão grave de Andréa. Finalmente. Cuidando dela como de um bebê. também se despiu e deitou-se ao lado dela. Andréa começou a tremer de uma forma convulsiva.

não dela.. Vamos tentar apenas sentir e ver até onde isso nos leva. Como é que podemos pensar em fazer amor quando há gente morta. — Preciso lhe falar Neville. em paz absoluta. pessoas que. — Concordo — ela murmurou. Desta vez foi com um beijo que Neville a forçou a calar-se. — Durante algum tempo. Daphne havia amado Neville.. recuperando-se de um doce cansaço. lembra-se do jovem Neville fazendo amor com Daphne Murdoch. — Estou me sentindo muito melhor — ela murmurou.. . Depois. — Pode ser também uma maneira de descobrir se ainda nos amamos. Estava com o espírito leve. Depois de um longo tempo. mas não tão loucamente quanto amava Laurie. Houve um momento em que pensei. — Silêncio mulher — ele ordenou. recorreu também a palavras: — Talvez seja a forma mais natural de glorificar a vida — ele sugeriu. você está proibida de falar.. Neville deitou-se por cima dela. pensar ou ter lembranças. Andréa engoliu em seco. Neville. Só que eram as lembranças de Daphne. Andréa se viu imóvel nos braços de Neville.. Querendo impedir a conclusão da frase.sucesso. — Oh. Agora. Como da primeira vez. Concorda? Andréa capitulou igualmente dominada pelo desejo. um tempo cheio de amor. roçando o rosto no pescoço dele. o sentimento renascido em Andréa era muito mais forte..

— Esse sinal parece um brasão de armas — ela comentou.— É bom ouvir isso. Não estou querendo nada . — Já passei por choques demais para um dia só. — Isso não se pode negar. — É claro que você não vai embora assim. Eu te amo. mas pode crer que não vai conseguir. — Eu disse que parece um brasão de armas. porque me esforcei um bocado. Neville olhou para ela como se fosse uma pessoa por quem sentisse antipatia. — De que está falando? — Desse sinal que existe no seu ombro — respondeu Andréa. — Será que todos os aristocratas ingleses já nascem marcados? A reação de Neville foi absolutamente inesperada. ele se voltou para ela com um olhar duro. um sinal de nascença em que não tinha reparado antes.. enquanto ele descia da cama e começava a recolher as roupas. Sentando-se na cama. — Não sei o que está querendo de mim. Mesmo revoltada. Querendo beijá-lo no ombro. Andréa achou que não devia se conformar com aquele tratamento. mocinha. — Pare com isso Andréa — ele ordenou áspero. Neville! — Ela protestou. — Não o deixarei sair enquanto não me der uma explicação — ela condicionou com firmeza. Andréa constatou que havia ali. Ainda mais surpresa. Só falta um leão com as patas levantadas. perto do pescoço. surpresa com aquele jeito hostil de falar. Eu te amo Neville.. Andréa ficou olhando.

Foi como se você fosse parecida com Daphne. na sala de estar da suíte. — Daphne costumava me dizer a mesma coisa — ele se explicou. mentiu quando disse que não tinha conhecido Daphne. Também dizia que ela um brasão de armas. Agora eles estavam sentados no sofá. — Saber o quê? — O que acha? — Perguntou Andréa hesitante. — O sinal. Neville pareceu relaxar um pouco. mas preferiu não olhar para ela.. — Senti outra vez aquela coisa esquisita. ele se mostrou curioso. mas não o deixarei sair por aquela porta.. baixando o tom de voz. há muito tempo. está ouvindo? — Interrompeu Neville. — Senti como se já tivesse feito amor com você antes..de você. Andréa. Foi como se. — Talvez não tenha falado tudo. — Eu não menti para você Neville — ela negou firmemente. esperando mais explicações. não foi? Eu na-não sei o que pe-pensar. Você mentiu para mim. — Mesmo sério. mas não menti. Neville só mostrava a gagueira quando estava nervoso. ou fingisse ser Daphne. enquanto não me disser por que ficou tão aborrecido. cerca de quarenta minutos mais tarde. com o semblante fechado.. — Acho que já está na hora de você saber de tudo Neville. o que era raro.. Andréa deixou escapar um profundo suspiro. mas nessas horas isso ficava evidente. Outra vez vestindo terno e gravata. Neville escutara tudo como se . — Ou como se fosse Daphne? Neville ficou olhando para ela..

— Isso é tudo? — Perguntou Neville. seria com Laurie. Neville moveu afirmativamente a cabeça. Só que eu precisava encarar o fato de que em hipótese alguma ela se casaria comigo. Agora sei que o que senti por ele foi apenas um eco dos sentimentos de Daphne. Eu fiquei arrasado. Andréa esperava que ele questionasse cada uma daquelas informações. Daphne . mas a única reação. — Sim. era a memória de Daphne que estava atuando. Entende o que estou querendo dizer? — Não estou entendendo nada — respondeu Neville sem olhar para ela. Andréa não se irritou. De forma quase imperceptível. depois de algum tempo. Ela havia chegado à conclusão de que se continuássemos aquela ligação. eu jamais me apaixonaria por outra mulher. não podia querer que ele absorvesse tantas informações de uma só vez. num tom de voz que parecia deliberadamente neutro. Daphne me disse que se um dia viesse a se casar. foi quando ela disse tê-lo visto no Clube das Gaivotas. Sem meias palavras. no tal pub de que lhe falei. falando com cuidado. Tinha vinte e dois anos e era apaixonado por Daphne desde os dezesseis. — Naquela última noite. em 1944.assistisse a uma peça de teatro. na forma de um suspiro mal disfarçado. — Laurie me contou que Daphne pretendia romper com você — ela disse. quando duvidei do que sentia por você. ela disse para nós nos separarmos. Foi por isso que discutimos. Fiquei confusa em relação a você porque também senti alguma coisa por Laurie. Da mesma forma. Afinal de contas.

. mas agora estou convencida. — Sei que é difícil de acreditar — ela reconheceu. E a morte de Daphne. Vivia dizendo que nós homens. — Essa história é totalmente absurda.. Finalmente ele se voltou para Andréa. — Não demorei para perceber que sentiria uma saudade enorme. Neville engoliu em seco... disse que se eu não voltasse a vê-la. Revelação sobre isso? Andrea percebeu uma ponta de sarcasmo naquela pergunta. Ela sempre precisou de amor e admiração em doses generosas. Mais tarde. — O tiro? — Ele ajudou em tom grave. A princípio não acreditava. não sei o que lhe dizer Andréa.. Nunca mais voltei a vê-la. Para completar. — Mas você não sabe quem atirou? Não teve algum tipo de. — É impossível acreditar — corrigiu Neville.era uma pessoa extremamente agradável. — Sim. Só que ela havia saído. implorar. percebi que o rompimento comigo tinha sido um sacrifício para Daphne. Aquela cena em que você.. mas ainda com as feições contraídas. . — Antes de continuar. mas não reagiu. Pardal e Laurie estavam no Clube das Gaivotas é muito vivida. logo superaria aquilo tudo. Logo no dia seguinte telefonei para ela. Neville. Gostava de ficar passando de um para outro. sendo amada por todos. mas às vezes franca demais. Acredita mesmo nessa tal de reencarnação? — Sim. — Realmente. queríamos estragar tudo com aquela história de exclusividade. Queria pedir.

mas parou no meio do . é muito possível que as autoridades resolvam trancafiá-la por algum tempo. com um misto de exasperação e alarme. Amargurada. — Você não tem uma única prova para apresentar. Em seguida. concluiu que jamais havia experimentado algo tão doloroso quanto seria ser rejeitada por Neville. não! — Respondeu Neville de pronto. Tudo isso teria alguma importância para Neville? — Acha que eu deveria procurar a polícia para pedir uma investigação das mortes de Claudine e do Sr. Neville também se dispôs a prometer alguma coisa: — Vou investigar essas duas mortes. Além disso. — Pelo amor de Deus Andréa. e verei o que se pode descobrir. Andréa encolheu-se um pouco.Levantando-se. Depois de dar alguns passos de um lado para outro. nem sobre o atentado que ela havia sofrido na estação do metro. Cornforth? — Perguntou Andréa. o mais discretamente possível. querendo adiar ao máximo a partida dele. ele parecia disposto a ir embora. Neville parou na frente dela e olhou-a de cima. — Por Deus. sem dizer nada. prometa que não fará nada impulsivamente. Mais aliviado. ou coisas do tipo. — Está bem — ela se comprometeu. Só então se lembrou de que ele não havia voltado a falar do divórcio pedido por Lillian. ele se dirigiu à porta. se começar a falar em reencarnação. Também não fizera nenhum comentário sobre as mortes de Claudine e Corny. Andréa sentiu um enorme vazio.

— Você disse que fazer amor comigo foi como fazer amor com Daphne. — Simplesmente porque você está usando o mesmo perfume.. — Eu não estou usando perfume de jasmim Neville. ele atravessou a porta e foi embora. Isso não prova nada? Neville abriu os braços. — Andréa.. que nunca fui um homem preconceituoso. Andréa ficou escutando os passos sumirem no corredor do hotel. Depois disso. Sei que você queria que eu acreditasse no que me contou. hesitante. Tudo parecia já conhecido. sem ao menos se despedir. acho um abuso querer que acredite em reencarnação. — Posso garantir minha cara. ele respondeu: — Não sei se acredito em alguma coisa que não possa ver com meus próprios olhos. Essa sua teoria é radicalmente oposta a tudo em que eu acredito. mas precisa entender que isso é impossível.. Seria demais pedir que você pensasse de forma menos preconceituosa? Neville riu com desdém. Com os olhos cheios de lágrimas. . Talvez jamais voltasse a vê-lo. Por outro lado. num gesto de enfado.caminho. na pele de Daphne. No entanto. ficou mais fácil para Andréa acreditar que tinha estado presente ao julgamento.. — Em que você acredita Neville? Depois de alguns segundos de silêncio. Ler a cópia do processo foi como reler capítulos de A Vítima.

recolhendo migalhas e ronronando como um motor de popa. que segundo Andréa. tudo levava a crer que Kenneth jamais havia existido. Susan preparou vários tipos de sanduíches e salgadinhos. elevaria consideravelmente a taxa de colesterol de todos. a menos que fosse um pseudônimo de Daphne. bolos de três tipos. uma geleia de frutas e uma torta de creme e amêndoa. circulava pela sala. Solange pegou um revólver numa bolsa de palha e descarregou-o contra o marido. assim como Claudine e duas garçonetes. Brian e mesmo Laurie comiam de tudo como se fizessem aquilo pela última vez na vida. Claudine havia acompanhado Pierre ao clube. Por isso ela se restringiu aos sanduíches de pepino e agrião. ali. o gato de Susan. mas todos se mostraram visivelmente chocados quando ela falou nas mortes recentes e no empurrão que sofrerá na plataforma do metrô. Insistindo em considerar aquilo uma festa. era sempre uma possibilidade. Na segunda-feira à noite. Depois disso. Vai. A acareação planejada por Andréa não apresentou nenhum resultado concreto. estou começando a ficar assustado. enquanto Susan. Pierre pediu dinheiro a Solange e acabou por espancá-la quando ela se recusou a dar. remexendo-se no sofá ao lado de Susan. todos se reuniram na casa de Susan. Gerald Cornforth havia prestado depoimento como testemunha. Como não havia registro de nenhuma outra testemunha. Betty Livingston e Júlia Millar.Não havia novidades. Não gosto do rumo que essa história está tomando. Marmalade. . Bem. — Se quer saber Andréa. — Isola! — Exclamou Brian.

Andréa abriu os braços. enquanto Laurie apenas franziu a testa. Provavelmente suspeitariam de que você é a culpada pela morte . — Não gosto da ideia de reconhecer que A Vítima é uma história real. — São uns abelhudos. — Mas como eu explicaria meu interesse nisso tudo? — Desta vez Laurie concordou. tentei falar com duas pessoas que morreram pouco antes da minha chegada. — Você devia ter procurado imediatamente a polícia — opinou Laurie. — Você não precisaria falar em reencarnação — ponderou Laurie. ele continuava irresistível naquela camisa pólo azul e na calça jeans branca. Mesmo assim. — Você acha mesmo que eu devia ter ido a uma delegacia de polícia para dizer que sou a reencarnação de uma mulher que desapareceu um dia antes do meu nascimento? E o que diria em seguida.A reação de Susan e Vai foi muito parecida. não vai se livrar com facilidade — acrescentou Vai. — É. — Se for à polícia. uma delas vitimada por um ataque do coração e a outra atropelada por um carro. a minha própria morte. ou seja. Não seria fácil. — E criar outra situação complicada? — Questionou Andréa. esses policiais. quando eles começassem a torcer o nariz? Talvez devesse dizer que enquanto investigava a morte dessa tal mulher. Ficarei muito exposta se isso for revelado. — Você poderia dizer que estava preparando uma continuação de A Vítima — sugeriu Susan.

isso reduz bastante o número de suspeitos. Na verdade. não é mesmo? — Você contou a Neville que Claudine e Corny estavam mortos? — Inquiriu Laurie. — Contei. Ninguém mais. ele acha que estou louca. — Quem sabia que você iria procurar Claudine e o velho Corny? — Perguntou Brian. — E ele lhe sugeriu que fosse à polícia? — Não.dessas duas pessoas. é claro — apoiou Laurie. — Ele acha que estou fazendo uma tempestade num copo d'água. que motivos ela poderia ter para detestar tanto a polícia. — Você pode muito bem estar louca. Já pensou nisso? Por alguns instantes Andréa ficou imaginando. com aquele sorriso demoníaco. — Bem. que Neville havia prometido investigar pessoalmente as mortes. passando por cima de Marmalade. ele é um advogado. — Vocês todos e Neville Forbes. Disse que as autoridades me considerariam louca. mas reparou que aquelas pessoas pareciam muito ansiosas para ouvir o que ele iria dizer. para pegar outro pedaço de torta. Andréa estava a ponto de revelar. O melhor seria desconversar. — Brian estancou a faca por cima da torta. enquanto acendia um cigarro. mas achou melhor não dar importância a isso. um tribuno. — Mas o que foi que o velho Neville sugeriu? Afinal de contas. .

Bem. — Quem sabe? Às vezes acontecem coisas estranhas. é o que poderá acontecer com você. — Possivelmente — repetiu Laurie. Quanto ao resto. . soltando as mãos dela e voltando a se recostar na poltrona. Andréa arregalou os olhos. — Bem que eu gostaria — ele disse. — O problema é o seguinte. agora que você nos envolveu na história. emergiu na forma de um romance. É possível que quando criança. A história ficou no seu subconsciente e. a imaginação às vezes nos prega peças. perplexa.. Alguém já tentou empurrá-la à frente de um trem. anos depois. passando os braços por cima da mesinha de centro e segurando nas mãos dela. — Você acha que todas essas coisas podem ter acontecido por simples coincidência? — Perguntou Andréa. você tenha ouvido as pessoas falarem nos Beaudry. todos nós aqui somos alvos prováveis. minha cara: se alguém deu cabo de Claudine e do velho Corny por causa de uma misteriosa conexão com o desaparecimento ou morte de Daphne. Na verdade. Laurie deu de ombros. — O que realmente me preocupa Andréa.. tudo leva a crer que você será o próximo alvo.— Cauteloso como sempre. não foi? — Possivelmente — respondeu Andréa. — Você não pode realmente acreditar que tudo isso é fruto da minha imaginação! Laurie riu e balançou a cabeça. se continuar cutucando o leão com vara curta. o velho Neville. já não tão convencida de que aquele empurrão havia sido proposital.

muito menos Daphne. — Talvez eu deva mesmo esquecer tudo — ela disse. Brian olhou-a de um jeito caloroso. teria de ser um de nós. Ninguém mais sabia que Andréa iria procurar mademoiselle Beaudry e o Sr. Susan franziu a testa. tenho certeza de que não matei ninguém. muito menos o Sr. Só então Andréa reparou que Brian e Susan estavam com as mãos dadas por baixo do gato. — Talvez você tenha razão Andréa.— Ora essa! — Protestou Brian. Portanto. — Eu concordo — pronunciou-se Vai. Nada conseguirá trazer Claudine ou Corny de volta. — Recuso-me a acreditar que alguém queira me matar — discordou Susan. Pelo menos. sabendo assim da planejada visita a Claudine e Corny. Forbes. Cornforth. — Seja como for. Só que Vai não contava muito. Quanto a mim. Se dependesse de mim. alguma coisa boa resultava daquela confusão. essa história toda seria esquecida. ou o Sr. Não acho que Laurie. não há o que temer. mas não posso dizer que não sinto por tudo o que aconteceu. Brian ou Vai sejam assassinos. afagando o pelo de Marmalade. Andréa só a convidara por ela ter estado presente à primeira reunião. Não é como se você tivesse certeza de que algum deles foi de fato assassinado. Forbes. se existisse um assassino. mais para testar as reações. — Você sempre foi uma garota sensível Susan. . talvez com excessivo entusiasmo. — Acho uma ótima ideia — apoiou Brian com entusiasmo.

não é? — Falou Andréa com cuidado. Às vezes.— É verdade — disse Laurie.. não é? Disse que era como uma porta para o passado se abrindo e depois se fechando. até se parece com o herói.. — Então.. — Estamos todos de acordo. "Agora que você nos envolveu nessa história". na vida real o vilão sempre se parece com uma pessoa comum. ainda segurando a mão de Brian por baixo do gato adormecido. Por outro lado. participar de algumas tardes de autógrafos e logo em seguida voltar para casa? — Bravo! — Aplaudiu Brian. vocês acham que eu devo parar com a investigação? Não é mais prudente cumprir os poucos compromissos que ainda tenho na Inglaterra. Não havia levado em conta aquele pequeno detalhe.. De fato. Andréa pensou no momento. Eu posso ir? Nunca cheguei a conhecer uma celebridade de verdade. — Isto é. Pode ser que ela não volte mais a se abrir. por causa dela qualquer um deles poderia ter o mesmo fim de Claudine ou Cornforth. e com razão. Andréa olhou para cada uma daquelas pessoas. se nenhum daqueles ali era o vilão. — Qualquer pessoa pode ir a essas tardes de autógrafos? — Perguntou Vai. — Você não teve mais nenhuma daquelas experiências. suspeitando de todas. Ou com a heroína. tinha dito Laurie. — Acho que é mesmo o mais prudente — disse Susan. lembrou-se do tiro que matou Daphne. ela havia realizado um desserviço. Diferentemente do que acontece no cinema. em que vendo os trilhos do trem lá embaixo. .

. Andréa ficou impressionada com aquela evidente declaração de amor. ela não tinha a mínima intenção de abandonar a investigação. na verdade. Andréa. Existe Cornwall.. — Você deve pensar em ficar por aqui mais algum tempo. Laurie sorriu para ela... Há Wordsworth. Precisa conhecer a Escócia. mas acho melhor voltar para o hotel. Cotswolds. só como turista. . — Talvez possa ficar por mais algum tempo. ou pelo menos Edimburgo. É uma bonita cidade. menos dessa história de voltar para casa — ele respondeu. Londres não é tudo na Inglaterra. deixando claro que apoiava aquela decisão. com um sorriso charmoso. Não é mesmo. Não é nem mesmo a alma. Yorkshire. já tendo inclusive decidido que passo daria em seguida. — Qual é a sua opinião Laurie? — Sou a favor de tudo. — Será bem-vinda na minha casa pelo tempo que quiser — ofereceu Susan.. — Obrigada. pela terra natal. Por quê? O que ele teria em mente? Mas que pergunta boba! Era evidente demais o que ele estava querendo. Londres não é necessariamente o coração da Inglaterra. Agora todos sorriam para ela. Undas vilas aninhadas em Vaies magníficos. mas decidiu que mais tarde arranjaria um jeito de se livrar de Vai. não pude ver tudo o que pretendia — ela admitiu.. — Infelizmente. Casas construídas com pedras do lugar.Andréa conteve um gemido de desconsolo. Andréa ficou se perguntando o que aquelas pessoas diriam se soubessem que.

— Na mediação. especialmente se esse terceiro participante fosse desprovido de corpo. Havilland. Havilland sorriu e sentou-se de frente para ela. explorar suas vidas passadas. — Qual é a diferença? — Quis saber Andréa nervosa.CAPÍTULO XIV — Você prefere mediação ou regressão hipnótica? — Perguntou o Dr. num tom casual. O Dr. é um estado de consciência que eu artificialmente induzo em você. respondendo às perguntas que você possa ter. eu atuo como um intermediário entre o mundo material e o espiritual. a partir de sugestões minhas. é uma forma de profundo relaxamento que libera seu subconsciente e torna possível a você. Mais que um sono. Embora Andréa houvesse chegado sem avisar e passasse pouco das nove da manhã. . a ideia de ter um terceiro participante naquela minúscula e austera sala era ainda menos atraente. o velho médico estava garboso como sempre. A hipnose por sua vez. como se fosse um garçom discutindo os itens de um cardápio. Embora a perspectiva da hipnose a assustasse. Entro em transe e um dos meus espíritos-guias se comunica por meu intermédio.

— Um pouquinho. — Eu sou assim — confirmou Andréa. — Está nervosa? — Perguntou o Dr. Havilland. Andréa corou. — O senhor não acha que todas as pessoas querem ter controle sobre o próprio destino? — Sem dúvida. olhando para ele com curiosidade. — Meu pai acreditava nisso — lembrou-se Andréa com surpresa.— Acho que a regressão hipnótica funcionará melhor para o livro que pretendo escrever — decidiu Andréa. não acha? Lembrando-se de como havia tratado mal aquele homem bondoso no estúdio da televisão. — É uma perspectiva um tanto sem graça. — Procure se acalmar — ele recomendou. Só então ela percebeu que não parava de enrolar nos dedos a alça da bolsa. O psiquiatra sorriu. se lembrará de tudo o que eu disser. Pareceu-me uma pessoa que gosta de ter controle sobre o próprio destino. . somos responsáveis por tudo o que nos acontece. levantou-se e explicou como funcionavam os mecanismos da cadeira reclinável. insistindo na desculpa de que o propósito daquela visita era uma pesquisa para um novo romance. Havilland piscaram. acreditava que tínhamos apenas uma vida. Acredito até que escolhemos o nosso destino. Como consequência. Os olhos azuis do Dr. — Achei que talvez você preferisse tentar sozinha. depois da qual nada mais acontecia. — Isto é. — Você saberá de tudo que estiver acontecendo.

Havilland pressionou o polegar direito contra a testa dela. mas não reviverá ativamente o passado. Depois de um instante de silêncio. Andréa ficou na dúvida. Você está muito relaxada. deixarei que escolha enquanto seguimos adiante — propôs o Dr. nada em especial. Imediatamente Andréa sentiu as pálpebras pesadas e os lábios entorpecidos. — Nem pensei que já íamos começar. achando que levava um tempo enorme para pronunciar aquela simples palavra. bem como de tudo o que vir ou ouvir. Confortável. — Não. — Então. Quando chegar a vinte. Lembrando-se da experiência com Willi. Em seguida. Quero que fique mais e mais relaxada. entre duas fileiras de árvores.. ele perguntou: — Existe algo em especial que você queira explorar? Andréa achou que seria melhor abordar a morte de Daphne Murdoch de uma forma indireta. Vou começar a contar.. a fim de afastar a possibilidade de sofrimento. — Quero que relaxe por completo Andréa. . — É engraçado — ela disse. Tudo o que eu ou você disser só intensificará esse relaxamento... — Imagine que está caminhando numa calçada. — Sugiro que você mesma assuma o papel de uma observadora. — Tem certeza? — Absoluta. Concorda? — Concordo — disse Andréa.. Em outras palavras. o Dr.ou o que você falar. Fará apenas um registro. Havilland.. você verá tudo à sua volta e saberá o que significa.

um local por onde você poderá sair da trilha? Dezoito. Usava botas de abotoar feitas a mão. — A nova governanta senhor. A própria rainha me recomendou à minha ama. naturalmente. Pelo contrário. — Você trabalhou para a rainha? — Sim. — Está vendo uma abertura nas árvores adiante? Uma clareira. parecia estar de fato caminhando numa ensolarada trilha de um bosque. Havilland. Precisava de dinheiro. — Contava o Dr. — Naquela voz de sotaque marcadamente britânico havia uma ponta de irritação provocada pela estupidez da pergunta. mas bela. vinte. cheia de móveis vitorianos. tinha ossatura grande.você entrará numa existência que já viveu. dezesseis. — Sua senhoria. O vestido preto comprido era armado por uma anquinha e tinha um colarinho branco de renda.. Andréa não se sentia no meio de nenhum turbilhão. Diga o que está vendo. dezessete. minha ama. está com o meu amo — ela informou. Foi depois que meus pais morreram. — Quem é você? — Perguntou o Dr. — De que rainha você está falando? — De sua Majestade a rainha Victoria. Havilland. Era uma sensação extremamente agradável. . Um tecido verde-oliva cobria as paredes e algumas das cadeiras e havia muitos retratos antigos em molduras douradas. como criada. — Quinze. Substituo a antiga governanta que faleceu. e sedosos cabelos ruivos presos num coque por trás da cabeça. Estava com vinte e quatro anos. dezenove. talvez.. Ela estava no centro de uma sala de teto alto.

Evidentemente. Você gosta do seu trabalho? — Muito! O salário é de cento e vinte libras por ano e tenho direito a um apartamento privativo. — Qual é o seu nome? — Ellen Hubbert. — Você sabe que dia é hoje? — Por que não saberia? Hoje é 10 de maio de 1888. o kaiser. antes de perguntar com malícia: — Posso perguntar por que sua ama está trancada com o seu amo? A mulher pensou por alguns instantes... além de várias mordomias. — Agora Ellen. a jovem não gostava de conversar com gente estúpida. antes de responder: — A rainha recebeu um telegrama ontem à noite. Era incrível a clareza com que Andréa via aquela mulher alta. é claro. da Alemanha. — Guilherme. Havilland. — O médico hesitou por alguns instantes. — O imperador. informando que o imperador se encontrava num estado de torpor muito próximo da morte.. senhor. Podia sentir nos dedos a aspereza do tecido de que era feito aquele traje. — Muito prazer Ellen Hubbert. — Guilherme da Alemanha? — Sim..— Entendo. e como estava confortavelmente sentada na cadeira reclinável do Dr. de vestido preto arrastando no chão. Outra vez ela pareceu irritada. ao mesmo tempo em que sentia a maciez da gabardine da roupa que usava. eu quero que vá para uma parte da sua vida .

em Whitechapel. — Irá com quem? — Com o Sr. — Não conheço esse nome — respondeu Ellen. Agora Andréa via o Sr. — Você está falando de Jack. — Para concluir. — Vai sozinha? — Por Deus. Verei Doce Alfazema. nos acompanhará. Havilland. soltando uma risadinha. fazendo um discurso em algum . — Havia excitação na voz dela. que sofreu várias mutilações. Thomas Wendell. Florence. não! Acha que uma mulher honrada iria ao teatro sozinha? Ainda mais com essas histórias horríveis nos jornais. Então. do Sr. — Bem. A irmã dele. o Estripador! — Exclamou Havilland. — Pense um pouco e me diga o que está acontecendo.. — É o próprio Jack. o Estripador? — Inquiriu o Dr. Wendell. hoje é sábado. Foi o quarto assassinato e os jornais não falam de outra coisa. ela baixou a voz e olhou para os lados: — Uma prostituta. e estou esperando por minha ama para lembrá-la de que preciso sair esta noite. — Os jornais o chamam de demônio de Whitechapel.que tenha significação mais pessoal — instruiu o Dr. Toda Londres está excitada. com espanto na voz. Pinero. — Irei ao teatro. Demorou apenas alguns segundos para que ela desse a resposta. por favor. dia 15 de setembro. A vítima. o teatro Terry.. era uma mulher da classe baixa. você vai ao teatro? — Sim. Ontem aconteceu um outro assassinato. Continue. Havilland. — Desculpe.

Enquanto falava. ricos afrescos e cristal nas janelas. Andréa descreveu para o Dr. brilhante e honesto como o dia. homens escreviam freneticamente durante algum tempo. Tinha uma testa alta e inteligente e uma boca resoluta. bronze de qualidade. — Vistoso. o Sr. Os traços do rosto eram suaves e nobres. dando lugar a outros. É um cavalheiro. galante. — Foi muito engraçado. Pelo contrário. Estava de chapéu. Já havia me conformado em morrer solteirona. Finalmente. levantavam-se e saíam. eu atravessava a propriedade a serviço de minha senhora quando escorreguei num pedaço de gelo e caí de cabeça num banco de neve. Era a sala de imprensa da Casa dos Comuns em Londres. — Como foi que você conheceu o Sr. o que faz com que algumas pessoas torçam o nariz. magro e bastante jovem. Em pequenas mesas. na frente de um grupo de homens. Em seguida. Era alto. Wendell? — Inquiriu Havilland. — É um homem bem-apessoado. não recorria aos maneirismos retóricos de outros oradores. carvalho trabalhado. Embora não tivesse ainda trinta anos. expressava-se com clareza e simplicidade. Durante uma nevasca do último inverno. Havilland o lugar que via. mas me considero uma mulher afortunada. e ela estava ali a convite do Sr.lugar. Não conseguia sair. Wendell. era evidentemente um líder. Wendell — ela disse. Ele é alguns anos mais jovem do que eu. Depois. por mais que tentasse. mas por . o rosto sério da mulher se permitiu um sorriso. Era um lugar de gente ocupada. A iluminação era a gás e havia belíssimas peças em ouro. um membro do Parlamento.

Florie me contou.. Thomas Wendell meu marido. Apresentável. mas a moça quis se explicar: — É um dia muito feliz para mim. Vá até o final dessa sua vida e me diga se existe alguém que reapareceu na vida presente. Havia aberturas arqueadas nas paredes. O corpete cor-de-rosa tem gola de crepe preto e é levemente plissado para ficar mais bonito. Wendell? — Ele me pedirá em casamento esta noite. mas quero que você siga um pouco mais adiante.sorte o Sr. como janelas. mas sem vidros. é importante estar. Andréa? — Perguntou o Dr. Ele era hóspede da casa naquele fim de semana. . sim — ela respondeu de pronto. Havilland começava a ficar impaciente. — Quem é Thomas Wendell na sua vida presente. Wendell estava por perto. — Você vai se casar com o Sr. — Que lindo — ela murmurou suspirando. — Ah. nos tornamos íntimos. Havilland. Tenho um vestido todo confeccionado na mais fina seda cor-de-rosa e cuja saia tem bastante enchimento atrás. — O Sr. Por isso. Agora ela estava numa espaçosa construção de pedra. O céu que se via por aquelas aberturas era o mais azul que se poderia imaginar. — Compreendo. Por alguns instantes ela se concentrou naquela pergunta. — A essa altura ela fez uma pausa e corou. Disse que ele tem ensaiado o pedido com a mesma seriedade e frequência com que ensaia os discursos que faz no Parlamento.. — Desde então.

desatando em lágrimas. Agora vamos voltar um pouco mais. Em quase todas essas vidas. Não era uma concubina. mas infelizmente não nadava suficientemente bem para isso. Havilland brandamente. parentes ou mesmo conhecidos. Neville aparecia de uma ou outra . enquanto ainda contemplava aquele céu muito azul. Havia mosaicos decorados nas paredes de uma piscina. aliás. Ela estava se afogando. na Finlândia. ao final daquela curta vida. — Os amantes frequentemente reencarnam no mesmo período. mas sim uma amiga e conselheira. assim como amigos chegados. Um irmão tentava salvá-la. Na Suécia trabalhou na fabricação de tecidos. chegando a criar uma padronagem muito requisitada. Operava o tear de sol a sol. o amor renascerá. a Pérsia produzia mosaicos muito finos. Os namorados talvez não se reconheçam.imaginando as feições do amado Thomas. — Outra vez. mas se sentirão fortemente atraídos um pelo outro e se as circunstâncias permitirem. — Está tudo bem Andréa — falou o Dr. era Neville — informou Andréa. está bem? Procure relaxar. o que a deixava com os dedos doloridos. Vamos ver se você consegue sentir a pista do seu amigo Neville em outras vidas. inclusive a Pérsia do século XVI. más de uma forma ou de outra as pessoas continuam se relacionando. Em seguida ele a fez percorrer várias paisagens. é Neville — respondeu Andréa. onde morava num palácio e privava da amizade do rei. muito reverenciada. Ela viveu no Afeganistão. Naquela época. no Sião. — Ora. Às vezes as coisas não dão muito certo e coisas ruins acontecem. mas se sentia incrivelmente feliz.

mas sim numa pequena superfície que se movia. sentiu medo. poria em prática essa decisão? Estava deitada numa espécie de lona. Quando afinal.forma. — Agora. quando estranhamente. Laurie também apareceu no Afeganistão. o pai estava presente. A cabeça doía muito e os ossos pareciam inúteis. a última antes da que vive hoje. Sentia um gosto esquisito na boca. como se não conseguissem mais compor o esqueleto. espalhando os miolos para todos os lados. Dê mais esse passo. Percebeu também que em geral. Havilland. Mas aquilo não tinha sentido. muito escuro. vamos para uma época mais recente — instruiu o Dr. embora ela não soubesse definir que tipo de ligação tinha com ele. um gosto de metal quente. — Venha até sua última vida. sempre num papel de destaque. Era um príncipe no Sião. No Afeganistão. depois de algum tempo. chefiava a tribo Abdali. Nunca parecia o mesmo nessas reencarnações. Por que usaria uma lona como cama? Só que não estava na cama. mas mesmo assim Andréa tinha consciência de que estava sentada na cadeira reclinável do Dr. Sentia como se a cabeça estivesse explodindo. Onde está agora? Estava escuro. mas ela sempre o reconhecia com alegria. De uma vez por todas. Ela estava numa pequena superfície que se movia. Mas por que pensar em ir ao dentista? Só podia ser por causa . exceto uma vez. Havilland. precisava parar de beber gim durante o dia. Todas aquelas visões eram de uma clareza cristalina. Naquele momento. curtia a pior ressaca por que já passara na vida.

A consciência parecia estar escapando outra vez. porque doía. O ar estava em redemoinho.. Ela estava ali. — Fazei parar esta dor — ela rezou. Aquilo não era uma ressaca. Mas onde estava o carro dela? Oh. Deus. O gosto de metal era sangue. resolver o enigma que vivia no presente. Mas que ar? Não havia ar nenhum. Socorro mamãe! Socorro! Eu não consigo respirar. Era uma luz tão forte que chegava a doer. enrolada numa lona.. e agora ela estava tossindo.. A superfície em que estava havia parado de se mover. bom Deus. . Oh. O disparo provocara uma chama silenciosa.daquele gosto. Era melhor não tossir.. Estou morrendo. Estava morta? Não. porque o projétil atingira a cabeça antes que ela pudesse ouvir o estampido. aquela luz. engasgando-se com o próprio sangue. Ela levara um tiro e estava morrendo. Pobre e querida mamãe. O lugar era o porta-malas de um carro. Não era o carro dela. Deus. o corpo enroscado como se houvesse voltado ao útero materno. sentindo a própria voz provocar trepidações na lona. fazendo-a sacudir num lugar cheio de nuvens cinzentas e moles... Houvera um revólver apontado para ela. Era preciso mantê-la a qualquer custo.. porque a cabeça ainda doía. Tinha sido feita em pedaços por uma bomba e agora Daphne também tinha a cabeça despedaçada. como doía à cabeça! A coisa em que ela se encontrava sacudia intensamente para os lados e para cima. O que está acontecendo agora? O carro havia parado. Ela devia ter perdido os sentidos..

Mas o que está fazendo? Oh. recusando-se a seguir investigando. No verão. Era perto da casa do pai dele. não me carregue. Ela conhecia aquelas árvores. O homem segurava uma lanterna elétrica. desligue essa luz. Só podia . Então era inverno! Não era de se admirar o frio que ela estava sentindo. por Deus. era lindíssimo o contraste criado pelas sombras dos plátanos com o verde-claro dos carvalhos. embora sem as folhas tivessem outro aspecto. não era luar. Deixem-me morrer de uma vez. quero que acorde Andréa. com apreensão na voz. Quem era aquele homem? Havia um revólver.Por favor. — Andréa. Ela se lembrava do revólver. Era o lugar mágico onde residia o bem. Havia neve nos galhos das árvores desfolhadas. Não. mas sentia um aperto no coração. — Agora. Luar. está bem? Andréa estava calma. mas o frio era terrível. Sim. — Claro — ela respondeu. que doeu nos olhos dela quando ele abriu o portamalas. no ritmo em que achar mais conveniente. você está me ouvindo! — Chamou o médico. Árvores. nas imediações de Oxford. Era muita crueldade do destino fazê-la sentir o que sentia por Neville. Vá despertando aos poucos. A dor havia diminuído. Aquele era o comprido caminho que levava ao local onde Gordurinha costumava promover piqueniques. para depois descobrir que era ele o assassino de Daphne. A dor é insuportável. O médico suspirou de alívio. o recanto especial de Gordurinha! Andréa sentiu a mente se fechando. Um homem a carregava nos braços.

ele mexeu no mecanismo da cadeira reclinável para que Andréa ficasse mais aprumada. Havilland caminhou alguns passos e pegou um volumoso almanaque numa prateleira por trás da escrivaninha. — Primeiro. camareira da rainha Victoria. Você foi muito categórica sobre a data. Nada mal! — É possível verificar se de fato existiu um parlamentar chamado Thomas Wendell na Casa dos Comuns. — Guilherme Frederico Ludwig. 171 — É verdade — concordou Andréa rindo.ser ele. 1797-1888. Lembro-me bem. imperador da Alemanha e rei da Prússia. não precisa de mim. Havilland movia os lábios . em 1888. — Foi uma viagem e tanto. Quem mais poderia tê-la carregado para aquele recanto nas terras da família Forbes? — Está me ouvindo Andréa? Gradualmente ela foi recobrando a consciência. — Levantando-se. o Dr. — Estou ótima — ela mentiu. essa que você fez. — E também a morte do imperador. — Percorrendo a página com o dedo. Na verdade. depois governanta de uma família aristocrata. tão boa que provavelmente conseguiria a regressão sozinha. o melhor agora era não pensar muito. passando mais tarde a esposa de um parlamentar. até abrir por completo os olhos e sorrir para o médico. não fui? — Você é uma ótima paciente.. — Está se sentindo bem? — Quis saber Havilland. — Guilherme I — ele leu em voz alta. Bem. — Sinto-me relaxada. no que se revelou uma atriz de primeira.. Eu fui bem longe.

. Engraçado. — Eu estou bem — ela repetiu. . Havilland fechou o almanaque.. no tear. datada de 27 de setembro. desde que conseguisse não pensar. — Vai me contar o que aconteceu. Não estou entendendo — ela gaguejou. Eu sempre gostei mais de tecidos do que de malhas. — Eu. até remeter uma carta para a Agência Central de Notícias. sentou-se novamente e olhou de frente para Andréa. passando algumas páginas do almanaque... Esteve em algum lugar sem que eu pudesse segui-la. O assassino recebeu várias alcunhas sinistras... — Você está se sentindo bem Andréa? — Perguntou o Dr. Agora. Como é que ela podia estar mentindo para um homem com uma expressão tão doce e triste? — Não sei do que o senhor está falando — declarou Andréa com algum remorso. não é de se admirar que não tenha reconhecido o nome. — Morreu em Berlim. 1888. Podia até ser verdade.. Pardal era uma presença constante na casa de Susan. — Aqui está: Os Crimes de Whitechapel. Posso ter aprendido isso na escola — falou Andréa.silenciosamente. Havilland preocupado. Portanto. o Estripador.. Dia 27 de setembro. — Está me parecendo. — É possível. — Você fugiu de mim. no dia 9 de março de 1888.. — Não me lembro de nada mais depois do trabalho.. Andréa? — Eu. Foi depois do período que você descreveu. Interessante!. assinando-se Jack. Isso nunca aconteceu comigo antes. mas o que dizer do demônio de Whitechapel? — Questionou Havilland.

Seria possível que no fim das contas. onde não estava progredindo tanto quanto merecia. — Você disse que conhecia alguém que morava perto da propriedade da família de Neville? — Perguntou Andréa a Brian. simplesmente a forçava. Depois do almoço. — Detesto homens que maltratam a esposa — pronunciou-se Brian. Pardal tivesse sido cúmplice de Solange? Susan também olhava para Brian. Vivia tentando convencê-la a realizar práticas sexuais reprováveis. e quando ela recusava. Dennis. porém. Também podia antecipar a aposentadoria. Até já havia falado em deixar o emprego nos Estúdios Pinewood. — Deviam morrer a tiros. A mulher de Brian se recusara a ter filhos e havia passado a maior parte do tempo jogando bingo. num tom surpreendentemente duro. ficava a anos-luz de distância. o que um dia ou outro acabaria acontecendo. ele se instalaria ali em definitivo. Parecia tão enfurecido que Andréa ficou olhando para ele durante um longo tempo. a tratara de uma forma abominável. Quanto ao marido de Susan. lhe arranjaria um bom emprego. com uma ressalva: — Socialmente. Em nenhum dos dois casos parecia ter sido uma experiência saudável. Conhecia alguém na BBC que se quisesse. Pierre havia levado um tiro. só que embevecida. depois de um breve silêncio. lembrando-se de como Solange havia sido maltratada pelo marido. . ele e Susan discutiam a experiência matrimonial passada de cada um. — Minha avó tinha um chalé a umas poucas milhas — ele respondeu.Andréa não tinha dúvida de que tão logo ela retornasse ao Royal Camelot.

ao ver . Durante um bom tempo. Andréa o escutava atentamente. quando pôde ter certeza de que Susan e Brian não se lembravam mais daquelas perguntas sobre a propriedade da família de Neville. Andréa temia que Susan se oferecesse para ir junto. Ah. Se você quer saber. ela imediatamente mudou de assunto. disse. Será que você me emprestaria o seu carro? Estou com a minha carteira de motorista. eu não acho. sim! Havia um poço.. num tom despretensioso: — Acho que vou sair um pouco Susan. Gordurinha andou organizando piqueniques por lá. Tinha também pomares e campos. Só não posso dizer nada das árvores. Agora estou me lembrando. Finalmente. nesse particular o velhaco soube tirar vantagem do dinheiro da família. Comentou sobre o tempo: o sol que havia reaparecido depois de tantos dias de chuva. Quando Brian parou de falar. — Não havia um cantinho ladeado por árvores. com a respiração contida. — Não. que estava outra vez nas manchetes dos jornais. Isso foi depois da guerra. acho que porque as árvores sempre me pareceram umas iguais às outras. Tinha um muro alto em toda a volta. pela primeira vez mostrando a idade que de fato tinha.— A propriedade dos Forbes era grande? — Enorme. sem que ninguém insistisse para isso. Daphne adorava. passando por um poço? Brian contraiu os músculos do rosto. ele seguiu descrevendo a propriedade dos Forbes.. — Acho que li alguma coisa sobre isso nos originais de Daphne — mentiu Andréa. mas. e falou da princesa Diana.

— E amanhã? — Ele propôs. Laurie queria convidar Andréa para jantar. — Estou ótima — declarou Andréa pondo-se de pé. trepida um pouco quando passa dos cinquenta quilômetros por hora. Susan cobriu o fone com a palma da mão e fez um comentário ainda mais malicioso . vestindo uma camiseta e uma calça jeans. Depois de chamá-la. Por que não me telefona? Neville ligou quando ela já estava pronta para sair. não enquanto não tivesse certeza. ela estava com medo de desmontar toda. — Pode ser. Em hipótese alguma. Na verdade.o olhar que aqueles dois trocaram. — E. Bem que ela gostaria de simplesmente esquecer a experiência com o Dr. para você — informou Susan com malícia. antes que você diga. percebeu que eles tinham outros planos em mente. — Tem certeza de que está em condições de dirigir. contente por Susan ter fechado a porta da sala de estar. — Já marquei um compromisso com Brian e Susan — mentiu Andréa. — É Laurie. podia abaixar a guarda com alguém que houvesse conhecido Daphne. lembrarei-me de dirigir pelo lado esquerdo da pista. Havilland e sair para uma noitada alegre. Pelo menos. se relaxasse um único músculo do corpo. Susan olhou para ela com um ar de preocupação. você me pareceu um tanto abatida. Por exemplo.. — Não vou correr — prometeu Andréa. — É claro que você pode levar o Mini — permitiu Susan. Andréa? Depois que voltou das compras.. — Às vezes ele é meio temperamental. Mas seria loucura. Um minuto mais tarde o telefone tocou.

— Você me desculpa? — Ele insistiu. Meu dever era discutir tudo com você. Havia fatos novos.. — Não sei se um dia vou aceitar essa teoria da reencarnação de que você fala. por mais absurdo que o assunto pudesse parecer. Perdoe-me. perguntar se tinha sido ele.que o de antes: — Agora é o Gordurinha. o local onde Neville promovia piqueniques. — Não tem importância. Estaria ele querendo dizer que por causa das "experiências terríveis". Agora. ela havia perdido o juízo? Provavelmente. Andréa sentiu que a barreira de orgulho que havia levantado .. os acontecimentos do dia anterior pareciam ter ocorrido séculos antes. O dia anterior acontecera antes de ela visitar. Por alguns instantes Andréa ficou muda. mas isso não desculpa a minha falta de sensibilidade. — Tem importância para mim — contrapôs Neville. Mas faltava-lhe coragem. tão logo ouviu a voz dela. de memória. Devo tê-la deixado arrasada. — Eu compreendo — ela falou finalmente. sentia vontade de gritar. Eu a amo Andréa. Você deve ter passado por experiências terríveis. Naquele momento. — Está tudo bem — minimizou Andréa constrangida. — Andréa sorriu e atendeu: — Alô? — Desculpe Andréa — pediu Neville. — Eu não devia ter saído daquele jeito ontem. Parece até os velhos tempos. Tinha morrido ali. e eu não demonstrei nem um pouco da compreensão que deveria ter.

começava a se desfazer. Fico contente com isso Andréa. Sem concluir a frase. Amanhã ligarei para você. Vou sair com Susan e Brian para um passeio de carro. Fez-se um instante de silêncio. ele emitiu um suspiro perfeitamente audível no outro extremo da linha. — Para falar a verdade. — Você não se encontrou mais com ele? — Andréa hesitou por alguns segundos. Ele não mentiria para . Ele garantiu que não houve crime em nenhuma das duas mortes de que você me falou. — Você acreditou? — Trata-se de um velho amigo. você deixou de lado toda essa. Ele e Brian. Afinal. — Andei fazendo algumas perguntas — continuou Neville. — Conversei com um amigo meu que é inspetor da Scotland Yard. — Entendo. eu me encontrei com Laurie na noite passada. Seria um suspiro de alívio? Ou de impaciência? Ou de ciúme? Bem que Andréa gostaria de poder ver o rosto dele. — Laurie vai com vocês? — Não. Acabaram me convencendo a desistir de continuar investigando a morte de Daphne... Andréa.. — Só que estou com um pouco de pressa. naquele momento. — É claro que desculpo Neville — ela disse falando rapidamente. Ele e Pardal estiveram aqui.. Andréa disse aquilo o mais espontaneamente que conseguiu.

No entanto. — Eu própria também não sei em quem acreditar Neville. acho até bom você ter conversado com esse seu amigo inspetor. quase gritando que estava saindo para visitar o palco do crime. — A voz de Neville demonstrava alívio. — Oh. — Posso ligar para você pela manhã? — Insistiu Neville. Mordendo o lábio. Brian e Susan estão esperando.mim. — Vamos nos ver amanhã? — Talvez. Andréa hesitou. Andréa engoliu em seco. O que deveria responder. agora? — Realmente preciso desligar Neville. até amanhã. — Até amanhã. — Eu te amo Andréa. — Deixe-me colocar a pergunta de outra forma: você acredita que ele está certo? — Não sei em quem devo acreditar. o local para onde o assassino levara o corpo de Daphne. Agora. O recanto especial de Gordurinha. Eu me esqueci de que você não está sozinha. — Então. como resolvi desistir dessa história. estava a ponto de bater o telefone. desculpe. Provavelmente ele havia concluído que era esse o motivo por que ela não tinha dito que também o amava. o frio no estômago de Andréa havia se transformado em náusea. . — É claro — ela permitiu. — Desta vez foi Andréa quem suspirou.

mas que nunca experimentara. os dois haviam subido para o quarto de Susan... Tinha mesmo chegado ao orgasmo. Espichado no colo dos dois. rindo sozinha. . contudo. Marmalade parecia dar sua aprovação. — Foi sim. o fato de terem ambos o corpo roliço e macio provocava prazer mútuo.— Até amanhã — repetiu Andréa desligando. Depois. nenhum dos dois linha flacidez muscular. de uma forma que Susan sempre acreditara ser possível. ela e Brian não podiam ser chamados de símbolos sexuais. Sem dúvida. Ali. Brian a envolvia com um dos braços. Susan sentia-se. Pelo menos. pensou Susan. Ele e Susan estavam sentados no sofá. — Dou um doce pelo seu pensamento — ofereceu Brian. Logo depois da partida de Andréa. algo sobre o que já havia lido. CAPÍTULO XV — Isso foi um bocado gostoso — definiu Brian. enquanto Susan repousava a cabeça no ombro dele. mas que não esperava um dia conhecer. desceram e tomaram chá com biscoitos. Susan estava deliciada por ter gostado de fazer sexo com ele. um lanche muito elogiado por Brian. se amaram com muita doçura e vagar. Confortável.

que daríamos certo juntos? — Susan fingiu uma expressão de recato. Fui à capitã do primeiro time de hóquei feminino da escola. Jogava tênis. mais parecia um garoto. eu aceito — ela disse abraçando-o.— Estava pensando que nós dois não somos exatamente como os personagens centrais de um romance de amor — confessou Susan. depois de pensar por um momento: — Penso o mesmo sobre o vilão. — Acho que sou mesmo — assumiu Brian. — Você acha meu bem. enquanto eu passava as minhas férias. Daphne o trouxe aqui algumas vezes. — Nesse caso. — O que. Em seguida ele a puxou mais para perto. você está me saindo um romântico. — Eu tinha mesmo uma queda por você. — O que é feito delas? — Hoje em dia. Naquela época. — Sempre achei que seria chatíssimo ser um herói — observou Brian. quando era jovem. basquete e hóquei. completando. Você se lembra de mim? — Como eu poderia esquecer aquelas sardas? — Falou Brian. — Eu também. Brian Bird? Isso é uma proposta? — Pode apostar. olhando para ela com enternecimento. — Está vendo? No fim. prefiro abrir um livro na frente do nariz ou ver televisão. Susan riu. olhando para ela de um jeito solene. — Seria bom se estivesse frio o suficiente para que acendêssemos a lareira. não me exponho ao sol tanto quanto antes. Hoje. .

Susan se sentia mais feliz do que jamais imaginara ser possível. E se Claudine e o Sr. Aquelas palavras. Uma noite estava com vontade de fazer xixi e desci. — Você acredita mesmo que Andréa é Daphne reencarnada? — Susan afastou a cabeça e olhou para ele. Com a cabeça no ombro dele. vi um homem vindo na minha direção. — Isso ainda a preocupa. — Foi mesmo? Onde? — Na minha casa. quando eu era menino. porém. provavelmente isso de fato aconteceu. tanto quanto no fato de que ela levou um tiro quando era Daphne.Brian beijou-a ternamente e voltou a se recostar no sofá. Daphne aprovar com entusiasmo a nossa união — ele disse. Não é difícil acreditar nisso. mas ele sempre acaba voltando. vi um fantasma. não é querida? — Susan deixou escapar um suspiro. Lá embaixo. — Não seria surpreendente. Finalmente voltou a falar pausadamente: — Uma vez. Se ela acha que alguém tentou empurrá-la na plataforma do metrô. Cornforth tiverem sido realmente assassinados? Andréa é uma garota sensível. a deixaram pensativa. Ele usava um chapéu grande . meio flutuando e com os braços estendidos. — Tento afastar esse pensamento da cabeça. — Você não acredita? Brian ficou em silêncio por instantes. ainda com o braço no ombro dela. — Você acha que um dia saberemos o que aconteceu com Daphne? — Ela perguntou.

em Cornwall. — É. mas achei melhor não tentar investigar. — E se alguém de fato atirou em Daphne? Isso não podia ficar assim. — Dennis.. Ouvi os passos dele algumas vezes à noite. — É que eu me lembrei de uma coisa. Quando ele parou de súbito. o que lhe era agradável.e de abas dobradas. mas sinto. Foi assim. — É verdade. Eu também acho — concordou Susan. para o bem dela. Como já lhe disse meu bem.. — O que foi? — Ela quis saber. Como era o nome dele? — Dennis. mesmo dizendo que resolveu esquecer. Eu gritei e saí correndo. Eu só queria que. — Você nunca mais voltou a vê-lo? — Não. como aquele com que Napoleão aparece nos retratos. Pois bem! Você me disse que ele morreu num acidente de carro. eu sinto que gosto um bocado dela. subitamente invadida por um sentimento ruim.. Essa experiência me convenceu de que existe um outro mundo. Não vou dizer que Andréa seja a reencarnação de Daphne. Susan voltou-se para olhálo. não tenho vocação para herói. mas um dos meus tios o viu.. Brian começou a acariciar as costas dela. Foi num lugar chamado St. Não me incomodo de admitir isso. Acho que Andréa ainda se preocupa com isso. nós pudéssemos descobrir o que aconteceu com Daphne. É como se já a houvesse conhecido antes. Bem. — O quê? — Você me disse que seu marido. O rosto de Brian mostrava preocupação. Ele estava . Austell.

— Meu velho Pardal! — Ela exclamou alegre. — Depois que eles se casaram. Júlia Millar se casou com Stan Trevelyan.. Tinha seis filhos e quinze netos. continuava viva e muito bem viva. ele se voltou para Susan. — Acho que agora elas estão mais para ferro do que para borracha. Júlia Trevelyan. mas acho que St.. segundo contou ao próprio Brian. Júlia lembrou-se imediatamente. Ele também era um dos frequentadores do Clube das Gaivotas.. — Tem certeza? — Inquiriu Brian. Brian estava enganado.tentando encontrar um amigo de Daphne. — Meu velho Pardal. — Você ainda gosta de jazz? Vivia dizendo que dançava daquele jeito por ter pernas de borracha.. Eu teria de olhar no mapa para ter certeza. — Você acha que Júlia ainda está viva ou também morreu acidentalmente? No final.. com a mesma expressão de antes. pelo telefone. — Era a terra natal de Stan. Ah não. O pai dele era pescador em Mevagissey. Susan sentiu um frio na espinha.. — Eu estava me lembrando de que. Com um olhar sombrio. — Repetiu Júlia. Ele teve de ligar para vários Trevelyans antes de encontrar a pessoa certa. Brian! Dennis estava bêbado. Já imaginava o que Brian tinha para dizer e não estava certa de que queria ouvir. abriram uma hospedaria em Cornwall — continuou Brian. — Mas o que posso fazer por você? . nascida Millar. Aquilo foi um acidente. Austell fica na estrada para Mevagissey.

— Bem. sei. parecendo hesitar por alguns instantes. Insistiu tanto que acabei concordando. a voz da ex-garçonete tinha um que de desconfiança.. Agora. concluí que Daff havia reaparecido. Era verdade. — Quando foi isso? 1952? — Júlia soltou uma gargalhada. Squirt.— Estou tentando resolver um quebra-cabeça — falou Brian com cuidado. — Tem a ver com Solange Beaudry e toda aquela coisa. ele não chegou a vir aqui — continuou Júlia... — Eu disse que não sabia onde estava Daphne. Não. Alguém realmente me telefonou dizendo que ela estava desaparecida. — Diga que ele estava investigando ò desaparecimento de Daphne — cochichou Susan. Só que o homem nunca apareceu. Por isso. dando a entender que Júlia não ajudaria em muita coisa. — Sabe. — Está querendo dizer que Daphne nunca reapareceu? — Ela se espantou. Brian olhou para Susan e fez uma careta. — Ah. — Nunca mais soubemos dela — informou Brian. — Você só pode estar brincando Pardal! Minha memória é pior que a de um elefante. Era um policial. curiosa. mas ele queria vir assim mesmo. ela não se lembrava de ter sido procurada por nenhum Dennis Dailey. — Dennis Dailey — confirmou Brian. mas ele disse que era casado com a irmãzinha da Daphne. Brian aceitou a sugestão e Júlia mostrou-se chocada. . Não me lembro do nome.. Susan arregalou os olhos.

— Júlia! Aqui é Susan. — Se quer saber Susan. É meio difícil de explicar. — Não sei o que falar. ele cobriu o fone com a mão e olhou para Susan. por favor. entende? Stan e eu . Por outro lado. — Squirt. mas eu gostaria de saber. — Deixe-me falar com ela — reivindicou Susan pegando o fone. Susan reparou que Brian a olhava com admiração e sentiu uma onda de prazer. — Procure se lembrar. — Júlia? — Isso faz tanto tempo — voltou a falar a ex-garçonete. Parece que ela quer me dizer alguma coisa que não consigo entender. Tenho pensado nisso muitas vezes. Ou melhor.— Está querendo dizer que o desaparecimento de Daphne tem alguma coisa a ver com o fato de Solange ter matado o marido? — Achamos que sim. Squirt.. — Eu bem que disse a Daff. mas uma coisa muito ruim aconteceu aqui e nós estamos tentando descobrir o responsável. Sei que você disse no tribunal que não sabia quem deu a Solange aquele revólver. Eu avisei. Susan. a irmã de Daphne. eu nunca me esqueci. É uma questão de vida ou morte.. Essa é uma das coisas que estamos tentando descobrir. preciso saber se isso era verdade. Preciso saber se havia mais alguém presente quando Pierre foi baleado. a irmã de Daff. Atarantado.. houve um silêncio tão demorado que ela teve medo que Julia desligasse. preciso saber. — Brian quase perdeu o fôlego.. está aqui comigo Júlia. Foi por causa do dinheiro.

Quanto a isso não há duvida. Dirigindo devagar. havia outra pessoa lá. entre elas a Nova . e as várias escolas. Apenas cento e cinquenta libras. Tudo o que havia pensado daquela cidade estava se confirmando. a rua principal de Oxford.. Munida de um guia que havia pegado na estante de Susan. mais parecendo uma paisagem saída de um conto de fadas. Funcionavam ali escolas e faculdades cuja excelência era reconhecida no mundo todo. O sol já estava baixo no horizonte..queríamos instalar uma hospedaria. apesar do tráfego pesado que ela teve de enfrenta para sair de Londres. Andréa chegou a Oxford no fim da tarde. Mas não era Daphne. Quando voltou a falar. Não precisávamos de tanto dinheiro assim. criá-los onde eles pudessem correr livremente. mas foi ela quem puxou o gatilho. ladeada por majestosas construções entre as quais sobressaía a torre alta da Igreja de Santa Maria. foi num tom grave: — Sim Susan. Era sem duvida uma das mais bonitas ruas do mundo. A A40/M40 era uma estrada praticamente sem curvas e a viagem não chegou á demorar duas horas. Andréa desejou ter ido a Oxford apenas para conhecer. — A essa altura ela fez uma pausa. Também queríamos sair de Londres. Gostaria de visitar as igrejas. ela seguiu o longo curso da The High. Andréa não teve dificuldade para encontrar o caminho para Oxford. as bibliotecas. fossem antigas ou novas. mas ainda claro o bastante para desenhar a silhueta das torres dos edifícios medievais. Não teríamos concordado se Solange fosse inocente. ter filhos.

o Obscuro. aonde Neville tinha levado Daphne. ela não teve nenhuma sensação de já conhecer o lugar. Dizia ali que Thomas Hardy costumava ir àquela taverna enquanto escrevia Judas. . lembrando-se do motivo que a levara ali. entre vasos de flores pendurados. Mas. Apenas por curiosidade. uma construção de teto baixo que datava do século XII... Como ela podia saber daquilo tudo? Andréa sentiu um arrepio de medo. Andréa examinou detidamente o guia de Susan. de que se servira numa comprida mesa de autosserviço. que nova mesmo tinha sido no século XIV. numa fila de veículos estacionados bem juntinhos. Depois de percorrer várias ruas atulhadas de carros. Não foi fácil encontrar um lugar para estacionar. bem como Kris Kristofferson e John Hurt. quando foi fundada. Richard Burton e Elizabeth Taylor também tinham estado lá. Andréa finalmente conseguiu acomodar o Mini entre um Audi e uma motocicleta. ela conseguiu se esquecer um pouco da realidade. na última noite em que haviam se encontrado. Ao entrar na taverna. Dando atenção a informações tão frívolas.Escola. No entanto. quando impulsivamente pediu uma cerveja para acompanhar a salada. Enquanto comia numa das mesas do jardim. resolveu ir à Taverna Turf. preocupando-se apenas com os sinais de trânsito e a direção de um carro a que não estava acostumada. era possível reprimi-la. ou talvez para protelar o verdadeiro propósito da viagem. Não estaria brincando com a dor? Até aquele momento. aquele sabor quente de nozes lhe pareceu estranhamente familiar.

procurando a saída sobre a qual Brian havia falado. a cabeça do homem estava coberta por minúsculos insetos verdes. o que fez os dois desatarem na gargalhada. A certa altura o barco passou por baixo de alguns galhos de árvore bem baixos. o homem procurava controlar o mastro comprido. Andréa folheou novamente o guia. à luz esmaecida do entardecer. Ao aparecer no outro lado. Enquanto seguia de carro. Era melhor não pensar naquilo. embora achasse que sim. talvez estrelado por Elizabeth Taylor e Richard Burton. Nenhum dos dois parecia muito afeito àquele tipo de tarefa. Ela não podia ter certeza de que estava se lembrando de Neville e Daphne. Andréa pôde presenciar uma cena em que um casal levava para o rio um barco. A alguma distância da periferia da cidade ela passou por um muro baixo de pedra. Era até um alívio pensar em Laurie em vez de Neville. mas os rostos e as silhuetas pareciam tremular na memória de Andréa.Mais tarde. Desdizendo o que podia fazer supor aquela paisagem medieval. enquanto a mulher sentada na proa tentava manejar um pequeno remo. Querendo manter a mente ocupada. Andréa ficou pensando que talvez fosse em Oxford a sede da empresa para a qual Laurie trabalhava. como uma pintura abstrata. estava escrito ali que Oxford era um dos mais florescentes centros industriais da Inglaterra. Podia muito bem ter visto uma cena parecida em algum filme inglês. ao lado de um pequeno lago onde alguns cisnes nadavam serenamente. A cena era incrivelmente nítida. comportando várias montadoras de automóveis e indústrias metalúrgicas de grande porte. De pé. dirigindo até a casa de barcos de Cherwell. e dobrou à esquerda numa .

Palavras e riso. nervosa. Após um rápido exame da casa. Andréa teve a ilusão de quase distinguir palavras pronunciadas anos antes. . criando um falso crepúsculo. a vegetação produziu um farfalhar que se misturou com o canto dos pássaros. o poço ficava entre um pomar e uma clareira coberta por margaridas do campo. os olhos dela se voltaram diretamente para o caminho ladeado por árvores que haviam aparecido durante a regressão orientada pelo Dr. Andréa parou a alguma distância. Aquele tinha sido um lugar de muitos risos.bifurcação da estrada. viu-se numa estrada de terra. Depois de dirigir por mais uns quinze minutos. em estilo elisabetano e com várias chaminés. Seguindo em frente sem pressa. Depois disso. exatamente como Pardal havia descrito. Andréa levantou os vidros do carro e seguiu pelo caminho das árvores. poeirenta e cheia de curvas. Tudo o que ela ouvia era o barulho do motor e o canto das aves. Com a brisa que começou a soprar. décadas antes. Exatamente como Pardal havia informado. Andréa encontrou o muro alto que cercava a propriedade da família Forbes. procurando desviar o Mini dos buracos da estrada. sem saber por que relutava em se aproximar daquele poço. Havia também por ali algumas árvores que pareciam querer mostrar orgulhosas. Havilland. As árvores juntavam suas copas por cima da cabeça dela. passou por alguns belíssimos chalés construídos em pedra. a sua folhagem nova. cercados por jardins cuidadosamente tratados. A temperatura havia caído um pouco.

Nessa altura a brisa se tornou mais forte e as árvores passaram a produzir um som mais alto. apanhou uma pedra no chão e jogou lá dentro. com o crescimento da cidade. Por outro lado. a consciência escorregou para dentro daquela sombra meio vista. Havia algo muito importante para ser desvendado naquele lugar solitário. Andréa deu alguns passos na direção do poço. Provavelmente. . Forbes — ela insistiu. Quase imediatamente. Neville não estava em casa. tinha ido ali justamente com esse objetivo e não podia deixar que a covardia a fizesse retroceder. com uma mureta de pedra e cerca de um metro e meio de diâmetro. — Trata-se de uma questão legal. o lençol de água se houvesse rebaixado. ficou claro que estava seco. como um assobio. A escuridão aumentou e ela se sentiu caindo. com as mãos na mureta do poço. Aliás. Andréa não estava certa de que queria enfrentar. Havia algo assustador pairando na consciência dela. — É muito importante entrar em contato com o Sr.Era um bonito poço. Algum tempo se passou antes que a pedra atingisse o fundo. Sentindo-se levemente tonta. que atendeu ao telefone. Pelo barulho. segundo informou a esposa. Tomando coragem. como uma sombra que saísse do campo de visão sempre que ela voltasse à cabeça. ele nem morava mais ali. Andréa se sentiu estranhamente fraca e se deixou cair de joelhos na relva macia. Andréa encostou a cabeça na mureta do poço e fechou os olhos. Susan ergueu as sobrancelhas e olhou em desespero para Brian. O que quer que fosse. As pedras da mureta tinham desenhos em alto-relevo que ela identificou como sendo no estilo celta.

mas acabou convencida pela insistência de Susan. quase provocando uma queda dupla. Mas quem era? Sem conseguir abrir bem os olhos. com formalidade. aquele não era Gordurinha. . Já vira aquele filme pelo menos umas cinco vezes. Não.— Ele atualmente está morando no clube de que é sócio — informou Lillian Forbes. — Será que a senhora pode me dar o telefone de onde ele está? A mulher relutou em dar a informação. Ah. Andréa preferiria ter começado por onde começara na vez anterior. numa pequena superfície que se movia. O homem a carregava nos braços. Por que ele a estava carregando? Por algum motivo ela relutava em reconhecer a identidade daquele homem. depositando-a na relva perto do poço. Só que Neville não estava no clube. Era certo que ele a tinha carregado. Em vez disso. como ela gostava de E o Vento Levou. Susan pôs o fone no gancho e olhou para Brian. Os dois haviam rido muito quando ele lamentou não poder fazer como os mocinhos dos filmes. Pelo menos. Rhett Butler carregando Scarlett 0'Hara. Gordurinha a havia carregado uma vez para fora do carro. Nem no escritório. — Por Deus. ela não podia ver com clareza aquele rosto. mas com enorme esforço. ninguém lá atendia ao telefone. o que vamos fazer agora? Se soubesse que teria outra regressão. Ele era forte. era como se estivesse pegando um livro que deixara aberto e recomeçasse a leitura de onde havia parado.

Encostando ela na mureta do poço. Laurie. porque a neve continuava a cair. Por favor... Não.. A neve cobriria as pegadas. como se quisesse aquecê-la. Laurie. Num tom débil. mas algo grosseiro e duro. enrolou-a mais na lona.. Árabe. em alguns dos piqueniques promovidos por Gordurinha. Não ia realmente escrever o livro. se alguém aparecesse. Ao pôr a lanterna na mureta. Não era a macia jaqueta de pelica de Laurie. por um instante. Havia uma arma na mão de Laurie. Tinha músculos de aço. apontada para ela. Mas estariam no chão as marcas dos pés dele.. o facho de luz iluminou o rosto dele. Era uma imagem trazida pela lembrança. Eles já tinham estado ali antes. mais duro. não veria as marcas dos pneus. Agora ele havia parado de andar. Mas não. mas não conseguia se lembrar com clareza. Por que a levava para aquele lugar? Ela agora estava perfeitamente lúcida. Não. Havia alguma coisa áspera contra a face dela.Árabe era mais forte do que Gordurinha. Laurie.. A voz dele dizia: — Não posso deixar você fazer isso. Mesmo contra a vontade. Não ia contar nada. Parecia mais velho. Seria por isso que Laurie havia parado o carro tão longe do poço? Assim. porque era inverno e o chão coberto de neve. Sim. Talvez Árabe quisesse deitá-la no chão perto do poço.. mais fortes do que qualquer um. Não. ela quis se sobrepor àquela forte voz escocesa: — Eu não estava falando sério. mas nunca sozinhos. Por que ela estava tão entorpecida? Estivera bebendo com Laurie? Sentia a cabeça mole. Era como se estivesse tentando . amá-la naquela relva macia. uma imagem começou a se formar na mente dela. Só podia ser ele..

Daphne tinha amado aquele homem. Dennis estava indo falar com ela quando foi morto.. Julia Trevelyan. não tinha sido Neville. — Fiquei sabendo que você me ligou. — Está tudo acabado. sim! Entendo. estava triste por Laurie. . Laurie estava chocado. Sem dúvida. Jamais pararia de cair. Trevelyan? Ah. — Neville? — Exclamou Susan. o Árabe.. — Acabei de falar com Julia. foi possível ver outra vez de relance. — Eu pensava que o acidente tinha acontecido em Cornwall. Mas o que estava acontecendo? No instante em que ele a soltou. aquele rosto. que antes de se casar se chamava Julia Millar. Está me dizendo que a morte de Dennis não foi acidental. Andrea apoiou as duas mãos na borda lisa da mureta e encostou ali a testa.. Não tinha sido Neville. Andréa suspirou aliviada. O som daquelas palavras a levou de volta à própria identidade e ela girou o corpo. Susan? — Falou Neville. não é? Agora. contente por ouvi-lo. Graças a Deus. Só então reparou que estava com as faces molhadas de lágrimas. Neville. Se soubesse que ainda estava viva.. pensava que ela estivesse morta. Sentia um aperto no coração e um nó na garganta. Neville estava alerta. Laurie. Mesmo assim. o homem que a matara. ele a teria deixado cair? Ela agora estava caindo. horrorizado. sentando-se no chão de costas para o poço.manter as emoções sob controle. Daff — murmurou Andréa.

— Disse também que foi ele quem forneceu a arma. Por que Júlia mentiu durante o julgamento? — Laurie ofereceu dinheiro.... ela não está aqui. Disse que queria apenas dar uma volta. Pardal. — Andréa deve estar abalada — ele concluiu.— Júlia disse que Laurie McGregor estava presente quando Solange atirou em Pierre — continuou Susan. . Isto é. mas Brian e eu estamos achando. — Júlia juraria isso perante um juiz? — Eu acho que sim. mas isso não o impediu de avaliar as implicações do que acabava de saber. ela mentiu sobre o que havia acontecido. Você se lembra? Pelo tom de voz... Você não acha que agora é muito tarde? — Não é tarde para agarrar o assassino de Claudine e Corny. — Vou falar com ela e depois. — Andréa não sabe. cento e cinquenta libras.. Com enorme força de vontade. Pediu o meu carro emprestado e saiu. Você consegue imaginar isso. Agora escute Neville: Júlia contou a Daphne que Laurie estava lá. Neville fez prevalecer seu lado profissional. mas. Neville já não se surpreendia com as baixezas de que é capaz um ser humano. Não cheguei a perguntar. ficou claro que Neville estava se esforçando para não perder a paciência: — Para onde ela foi? Tinha me dito que vocês três sairiam juntos. — Mas é justamente isso Neville — cortou Susan. Neville? Só para ter com que instalar uma hospedaria. Brian está aqui comigo. Daphne sabia.

ele sempre agarrava o criminoso que caçava. Ele mora aqui perto e há esta hora. era um homenzarrão. voltou a falar: — Escute bem Susan: tenho um amigo que é inspetor da Scotland Yard.. Não sabia mais o que fazer.. que afetava o . Owen Davies. mas Brian lembrou-se de que ela andou fazendo algumas perguntas sobre a sua casa. Depois disso. o inspetor da Scotland Yard. Foi por isso que lhe telefonei.. que como os legendários membros da Polícia Montada do Canadá. Acha que ela teria algum motivo para querer ir lá? — Não faço a menor ideia.. A única coisa que o salvava de ser completamente assustador era aquele sotaque galés. provavelmente está em casa. Vou até lá para ver se consigo alguma ajuda. Não sabemos para onde foi Andréa. já que ele ligou para cá um pouco antes de você. Andréa saiu sozinha. Dizia-se também. amigo de Neville. Não. Brian achou que talvez ela houvesse combinado alguma coisa com Laurie. diga a ela que vá para a delegacia de polícia mais próxima e fique lá. em Oxford. mas quero que você me dê uma descrição do seu carro. Ou melhor. Qual é o número de placa? Durante alguns instantes. sobre a propriedade da sua família. ele ocupou-se em anotar as informações que Susan lhe passava.— Ela disse isso? Mas como?. Até já estive conversando com ele sobre esse caso. que segundo se dizia tinha um computador no lugar do coração. bem quietinha. Se Andréa aparecer ou der notícias. Entendeu bem? — Entendi. Mais tarde ligarei para você.

Owen pegou do bolso o cachimbo. na noite em que o homem foi morto. — Eu ia mesmo ligar para você — disse o policial. ele e representante da Rolls-Royce. que costumava acender onde quer que ele esteja. mas hoje me disseque o carro ficou por lá até bem tarde. Vamos entrar. recebendo Neville à porta. um carro muito bonito. ao fazer a ronda. . McGregor dirige um Rolls-Royce? — Mais do que isso — confirmou Neville. Era sobre isso que eu ia lhe falar. Como no local era permitido estacionamento. — Por acaso esse Sr. Disse que era um Rolls cor de vinho. Owen emitiu um grunhido antes de comentar: — Interessante. — Também tenho novidades — ele informou. Andréa se perguntava por que Laurie teria matado Daphne.. ele não deu muita atenção. realizando imediatamente aquele propósito.. Ainda sentada ao lado do poço. com o queixo apoiado nos joelhos. embora não seja muita coisa. — Parece muito possível que um homem chamado Laurie McGregor seja o responsável pelas duas mortes que lhe pedi para investigar. Ia lhe dizer que havia um Rolls-Royce estacionado nas vizinhanças da adega de Gerald Cornforth. Neville não quis se sentar e até recusou o chá que a esposa do inspetor ofereceu. — Tenho algumas novidades que talvez lhe interessem. — Acho que vou me sentar — declarou Neville. — Pelo que sei.final de todas as frases. Foi um policial que viu.

não precisa de mim. Ali e em algum lugar da memória dela. que estavam as respostas que vinha procurando. sempre que . concentrou o pensamento no rosto de Laurie. Laurie estava sentado ao lado dela no banco de madeira. mas por que ali? Qual era mesmo o nome do restaurante onde eles haviam jantado? Ela nem se lembrava mais.Tinha alguma coisa a ver com o livro. Havilland ecoaram na mente dela: — Você podia ter conseguido a regressão sozinha. mas o quê? Nunca descobriria? Depois de tudo por que havia passado. A razão aconselhava que ela saísse dali o mais depressa possível. Procurando relaxar todos os músculos. Fazia um frio enorme e Daphne não entendia por que tinham de estar ali. Andréa começou a contar.. — Dezenove e vinte — ela concluiu. Tratava-se de um restaurante novo e exótico. Fechando os olhos. Laurie dissera que precisava discutir um assunto importante com ela. às margens do Tâmisa. dois. as palavras do Dr. Por outro lado. pausadamente: — Um. em que as garçonetes usavam sári e o cozinheiro punha curry em tudo. Laurie não queria que ninguém soubesse que ele estava em Londres e por isso a levara para jantar ali. era justamente ali. o rosto jovem de Laurie. Na verdade. Agora eles estavam no lugar onde costumavam ir.. três. jamais ficaria sabendo por que Laurie McGregor havia assassinado Daphne? Como uma resposta. a voz de sotaque escocês com aquele jeito charmoso de enrolar os erres.

numa noite gelada de inverno. isso podia ser feito no carro dele. Depois do casamento. Ou no dela. Laurie — ela o ameaçou. Mabel e eu viremos morar em Londres. ainda mais furiosa por não conseguir . desgraçado. Os dois carros estavam próximos dali. não é uma garotinha. Se já estava com raiva de Laurie por causa daquilo. depois das noitadas no Clube das Gaivotas. Poderei continuar me encontrando com você como se nada houvesse acontecido. meu bem. Só que era a primeira vez que tinham ido ali. Mabel tem vinte e um anos. O pai dela é um dos barões da madeira. chegou a odiá-lo quando ouviu o que ele tinha a dizer. porque já pedi Mabel em casamento. No entanto. Andréa achou melhor não sugerir nada. Procure ver a coisa com objetividade. — Ela é dez anos mais nova que você. Mas que coisa Daphne! Disse e repito: só vou me casar por dinheiro. Afinal de contas. Se for para discutir. Amanhã mesmo tomarei o navio de volta para Montreal. desgraçado! — Não vou deixar você fazer isso. — Mabel? — Ela falou com sarcasmo. — Você não tem escolha Daphne. portanto. — Que gracinha! Você sempre me deu mesmo a impressão de gostar de garotinhas. não vamos precisar romper o nosso relacionamento. estacionados um ao lado do outro. — Nas costas de Mabel? — Por que não? Daphne olhou para ele. Desgraçado. — Mas que nome é esse? Quantos anos tem essa sua canadense? Deve ter nascido na virada do século.queriam tomar ar fresco.

deixá-lo irritado.. Laurie McGregor. —O que você disse? — Eu sei o que você fez. passando a falar o que lhe veio à cabeça. Laurie soltou uma gargalhada. Servirá de lição para que você aprenda a me tratar com o devido respeito. devo concluir que serei obrigado a aceitar os seus termos. — Não conte comigo — ela se negou. — O editor disse que eu ganharei uma boa quantia. — Saiba também que vou contar toda a verdade sobre você. — Se vai se casar com a sua preciosa Mabel. Sempre soube. será o fim para nós e pronto.. se o livro vender bem — ela disse com uma ponta de esperança. Laurie virou a cabeça para olhá-la. ela ficou olhando a barcaça que passava lentamente no Tâmisa. — Ora Laurie! Você não se lembra que eu entrevistei todas as pessoas que viram Solange atirar em Pierre? Acha que alguém não acabaria me contando que foi você quem deu o revólver a Solange. Se ao menos tivesse dinheiro. Surpreendido. sem medir as consequências. — Nesse caso. Mordendo o lábio. — Você nunca vai terminar de escrever esse livro Daphne. Não tem paciência para isso. e que estava ao lado dela no momento em que o tiro foi disparado? . o que era claramente uma mentira. Mas não tinha. — Pois saiba que vai ter uma surpresa — ela profetizou. — Não sei do que está falando — ele disse.

Sei inclusive que você a incentivou a puxar o gatilho.. — É verdade. porque não tinha ouvido falar em nenhum suborno. não imaginei que você soubesse. Paguei a todos aqueles velhacos. — Você pagou a todos eles? A Corny. Às vezes ela inventava coisas. ele sorriu. — Eu não queria acreditar. Júlia Millar abrira uma hospedaria em Cornwall e vivia lá desde então. porém. — Júlia sempre falava demais quando estava bêbada. Talvez estivesse com frio. Logo. Afinal de contas. Fui um tolo sem dúvida. anos antes. sempre percebi quando . eu de fato acreditei que todos eles ficariam caladinhos. Laurie pareceu ter levado um soco no estômago. —Dophne percebeu quando ele tremeu levemente. achando que Júlia estava mentindo. à desgraçada Claudine. — Dizendo isso ele olhou para o lado dela.. Daphne estava abismada. — Qual deles me entregou? Daphne não via inconveniente em responder àquela pergunta. achei que estava pagando o suficiente. Mesmo assim. Essa é uma das razões por que vou me casar com Mabel. também a Dan. Dei a eles tudo o que tinha. a Betty Livingston e a Júlia? Pagou também a Dan? — Sim. — Para falar a verdade mocinha. e que era um bom dinheiro em 1948. Além disso. Por um instante. Acabei descobrindo que dinheiro não se encontra nas árvores. Na época. depois de se casar com Stan Trevelyan. o que provocou em Daphne uma enorme satisfação. para uns mais do que a outros.

Dentro de pouco tempo entregarei os originais ao editor. se o ameaçasse o bastante. — Não posso deixar você fazer isso Daff.. angustiada.. ele acabaria desistindo de se casar por dinheiro para ficar com a mulher que de fato amava. com medo de que a polícia descobrisse tudo e o levasse para longe dela. verá do que sou capaz. por que. mas eu vou fazer — ela insistiu certa de que. — Direi que você deu a arma a Solange e que estava ao lado dela no momento do crime. —Laurie deu de ombros. Há muito que ele não a chamava por aquele apelido carinhoso. Mais uma vez. — Ah. Passara muito tempo sem dormir. Ele parecia cansado. — Esse interesse não existia. Daphne sempre soube que Laurie andava armado. mesmo depois da guerra. Por isso não se assustou quando ele sacou o revólver do coldre que carregava embaixo da axila. porém. — Escreverei tudo no livro — ela repetiu. Terminarei o livro. — O motivo agora não tem importância. Daphne. — Se você se casar com a sua Mabel. não estava disposta a livrá-lo tão facilmente assim. Laurie virou a cabeça para olhá-la sem dizer nada.você se interessava por alguém e não reparei nenhum interesse seu por Solange. Provavelmente . quer não. quer você acredite. Ainda se lembrava de como havia sofrido ao saber que Laurie estava envolvido no assassinato de Pierre. como se estivesse vivendo uma situação angustiante. sem comer. Ate já escolhi o título: A Vítima. — Então. — Vou contar tudo — voltou a ameaçar Daphne devagar.

Só então Daphne sentiu um arrepio de pavor. Afinal de contas. Daphne olhou bem dentro dos olhos dele. Ninguém. — Você não. — Há muitos revólveres iguais a esse — ela rebateu surpresa por ele acreditar que a convenceria com um argumento tão tolo. Não. Nesse instante Laurie afastou-se um pouco e apontou a arma diretamente para a cabeça dela. À luz do luar. que morrera também sem saber o que Laurie poderia ter contra Pierre. — Lembre-se de que ninguém nem mesmo sabe que estou no país. Por favor. Sem querer acreditar que Laurie de fato puxaria o gatilho. Aquilo a fez entrar em pânico. Não correria o risco de ir para a forca — ela gaguejou.. Laurie. Sabia por que ele dera cabo de Daphne. Não era para menos. eles pareciam sem brilho e sombrios. sentada ao lado do poço.. a pobre e ingênua Daphne. por ter . Laurie devia ser também responsável pelas mortes de Claudine e Corny. — Não posso deixar você fazer isso Daff — ele disse ao mesmo tempo sério e triste.. Ao abrir a porta do Mini. que se estava com a arma. Andréa se deu conta de que ainda não sabia por que Laurie havia ajudado Solange a matar Pierre.tentava mostrar. não podia tê-la entregue a Solange. — Ninguém saberá que fui eu — ele contrapôs sem erguer o tom de voz. Não ia realmente escrever o livro. E ela era a culpada. Laurie. — Eu não estava falando sério. Não ia contar nada. Voltando a sua própria identidade.. Andréa sentiu um arrepio.

. Laurie deve ter se sentido acuado e. Com o corpo trêmulo. Provavelmente Laurie o havia matado. estava escurecendo rapidamente. ao volante. Algum tempo depois de ter deixado o caminho das árvores e tomado à tortuosa estrada de terra que partia da propriedade dos Forbes. O incrível era que depois de tantos anos. A reação imediata de Andréa foi pisar fundo no acelerador. Depois do julgamento. tinha ido a Cornwall entrevistar uma pessoa que conhecera Daphne e acabou morto num suposto acidente de carro. Quase acabara também com ela na plataforma do metrô. Além disso.revelado que pretendia conversar com aqueles dois. Dennis. pelo menos seria possível encontrar os restos mortais de Daphne no fundo do poço. Talvez ele também houvesse matado Júlia.. Mas como ela conseguiria provar aquilo tudo? Não dispunha de uma única prova. Tudo o que podia fazer era contar a policia aquela história maluca e esperar que o caso fosse reaberto! Afinal de contas. tinha ido morar em Cornwall. Andréa teve um pensamento que a fez endireitar o corpo. Viu apenas de relance o rosto de Laurie. uma das garçonetes do Clube das Gaivotas. Júlia Millar havia contado a Daphne que vira Laurie com Solange na hora da morte de Pierre. Sentada ao volante do Mini. investigando o desaparecimento de Daphne. . ele ainda se mostrar disposto a matar. fazendo a coisa parecer um acidente. ela cruzou com um Rolls-Royce cor de vinho que vinha no sentido oposto. Júlia. O marido de Susan. Andréa deu partida no carro e saiu subitamente ansiosa para ir para bem longe dali.

no alto de uma pequena colina. mas mesmo assim estava chegando cada vez mais perto. A estrada era estreita e cheia de curvas. Um pouco adiante. o Mini tinha uma boa estabilidade. apareceu à luz dos faróis do Mini um enorme carvalho. o motor começou a trepidar como uma máquina de costura que jamais houvesse sido lubrificada. marcando uma curva de noventa graus para a direita. Laurie estaria em condições de emparelhar os carros e jogá-la para fora da pista. Mas por que não tentou agarrá-la antes? Talvez houvesse perdido a pista quando ela foi a pé para a taverna. Ao longo dos anos. ocupando uma extensa área. Era a única explicação para a presença dele ali. era preciso correr a muito mais que cinquenta quilômetros por hora. silencioso como um fantasma. o RollsRoyce era obrigado há reduzir um pouco a velocidade. Só que dadas às circunstâncias. Tudo levava a crer que ela morreria da mesma forma que Dennis Dailey. Ao passar de cinquenta quilômetros por hora. contorcido e obviamente muito velho. Por sorte. Nas curvas. Logo Andréa descobriu que Susan tinha falado a verdade sobre o Mini. perigosamente perto. rápido como o pensamento. talvez sua única virtude.Laurie sem dúvida estava de olho nela há já algum tempo e devia tê-la seguido desde a casa de Susan até Oxford. Não devia ser fácil encontrar vaga para estacionar um carro daquele tamanho. mais ou menos longa. Andréa sabia que tão logo eles alcançassem uma reta. Andréa lembrava-se dos solavancos que sentira ao . aquele carro lindo. Agora o Rolls-Royce estava no encalço dela. as raízes da majestosa árvore haviam se espalhado pela colina e pelo leito da estrada.

O resto do veículo parecia em ordem. Quando estava à . A chuva fininha tinha sido suficiente para tornar a estrada escorregadia. Fugindo ao controle. do que em prestar atenção na pista acidentada. enquanto o pequeno carro tombava até ficar de cabeça para baixo. a uma velocidade consideravelmente mais baixa. Com o rosto no chão e sentindo uma dor quase insuportável que se espalhava pelo corpo todo. Mas foi tarde demais. ela percebeu que todo aquele horroroso barulho não tinha sido produzido apenas pelo Mini. o Rolls-Royce colidira de encontro com o enorme carvalho. o fato é que havia chegado a hora final para Laurie McGregor. Na velocidade em que vinha. a não ser pelos vidros. tentado evitar uma batida contra o Mini. ao mesmo tempo em que sentia a terrível dor da perna quebrada. Foi aterrissar na beira da estrada. Fosse por uma daquelas hipóteses ou mesmo pela intervenção de Deus. gemendo e apoiando-se nas mãos.. Podia também ter.. Em seguida. em sentido contrário. ela girou rapidamente o volante. No instante seguinte. produzindo um som de metal amassado e vidro quebrado. arrastou o corpo dolorido na direção do Rolls Royce. numa reação automática. Andréa esperou que a poeira abaixasse. o carro subiu a encosta esquerda da pista. Andréa foi cuspida do assento pela porta aberta. Com o coração na mão. como se a mão de um gigante a puxasse para fora do carro. caindo com todo o peso do corpo por cima da perna esquerda.passar por ali. Em frações de segundo. num choque que fez a parte frontal do "melhor carro do mundo" mais parecer um acordeão. todos esmigalhados. o céu apareceu e sumiu na frente dela. Laurie provavelmente havia se concentrado mais em alcançá-la.

Sem dúvida. CAPÍTULO XVI Andréa concluiu que por decreto de algum ser supremo. Laurie estava emborcado por cima do volante. Essa entidade superior havia igualmente criado aquela tonalidade biliosa de verde para cobrir todas as paredes e providenciado para que as rodas das macas. ele estava morto. a estatueta que ornamentava o capo do carro havia sido arremessada para trás. Na violenta batida contra a árvore. exageradamente apertadas. todos os hospitais deveriam obrigatoriamente ter aquela aparência e aquele cheiro. como uma flecha disparada por um arqueiro invisível. rangessem de forma quase insuportável sempre que passassem no corredor. Havia sangue até no painel de instrumentos.distância de poucos metros. Uma semana havia se passado. Minutos antes Neville tinha chegado com um amigo. o inspetor chefe Owen Davies. mas não tinha morrido por causa do impacto. um homem . perfurando a garganta de Laurie. parou para ver se havia movimento no assento do motorista.

Mesmo devendo ter muito que fazer. que emergia do aparelho imobilizador que lhe cobria toda a perna esquerda. Sem dúvida. enquanto o inspetor se mantinha de pé. arrumou os cabelos por trás das orelhas e olhou para o inspetor com um ar de resignação. pelo menos uma vez por dia. Brian e alguns outros. Neville parecia ansioso. Logo ao chegar o primeiro buquê. que enfeitavam o quarto particular que havia arranjado para ela. que se mantinha imperturbável. Agora ele estava sentado na cadeira ao lado da cama. Se falasse alguma coisa. encostado a uma parede. o oposto de Davies. Neville também se lembrava. encorajando-a. Bondoso. e acha que a maior parte do quebra cabeça está resolvida. Ele vinha sendo muito. Era evidente que os dois homens aguardavam que ela desse início ao diálogo. Andréa ficou olhando para ele séria. como se não acreditasse que as cadeiras do hospital fossem fortes o suficiente para suportar o peso do seu imenso corpo... Finalmente. Neville sorriu para ela.corpulento a quem ela não deu muita importância. Levava buquês de rosas amarelas. enquanto amarrava e soltava o cinto do roupão branco. . — Owens juntou os dados disponíveis e formou um quadro — tinha dito Neville. Andréa ainda não havia resolvido se queria quebrar o silêncio em que caíra depois das saudações iniciais. — Ele conversou com Susan. além de mim. Andréa lembrou-se de que as rosas amarelas eram as preferidas de Daphne. visitava-a sempre que possível. provavelmente teria de escutar a história que o inspetor iria lhe contar. Ainda reticente Andréa tentou colocar o pé.

é necessária uma motivação. e se concentrar apenas nos fatos. não era para se mostrar uma pessoa sã. — Antes de mais nada Srta. . foi o Kenneth do meu livro. — Por onde você quer que eu comece? — Ele perguntou. aproximando-se da cama. Queria dizer também que. como espero que admita. pode jogar tudo em cima de mim — ela disse. não fez? Na vida real. Ele fez isso. eu quero agradecer pela sua cooperação. Cavenaugh. reafirmar que tudo o que dissera sobre reencarnação era absolutamente verdadeiro. esperando com isso amenizar aquele clima pesado. o senhor não achou que eu estava cooperando — alfinetou Andréa meio enraivecida. mas sim porque não via outra forma de fazer com que ele ou outros policiais a levassem a sério. — Você mostrava sinais muito claros de histeria. se havia resolvido contar outra história. Foi o que aconteceu.— Está bem. — Obrigou-me a repetir tudo pelo menos umas dez vezes. você conseguiria superar essa experiência sem grandes traumas. Achei que se conseguisse superar a emoção. — Uma coisa que aprendi como escritora é que para fazer qualquer coisa. O inspetor afastou-se um pouco da parede. — Há apenas uma semana. Gostaria de saber por que Laurie ajudou Solange a matar Pierre. Nem assim Davies sorriu. Andréa sentiu vontade de gritar na cara dele que não tinha se deixado dominar pela histeria na primeira vez em que Neville o levara ao hospital. O policial franziu a testa sério.

ficou sabendo que A Vítima era baseada em fatos reais quando Neville as informou disso depois da publicação do livro na Inglaterra. considero-me culpada por tudo o que aconteceu. seria tolice querer mudá-la. Às vezes Neville dizia tolices deliciosas. havia contado a Davies uma história em que se juntavam fatos verdadeiros com elementos de pura ficção. Davies acreditava piamente: muitos anos antes Susan tinha sido apresentada a Mark Cavenaugh. que infelizmente acabou em tragédia. você provavelmente se acha um ótimo detetive particular — interpretou Davies com sarcasmo. — Mesmo assim. Agora. sugerindo que ele se baseasse neles para escrever um romance. Entregara ao pai de Andréa os originais de Daphne. . quando ele ainda morava na Inglaterra. Mark deixou de lado o projeto. Suspeitando de que o desaparecimento da irmã de Susan tinha alguma ligação com o caso Beaudry. Segundo o inspetor-chefe.Com esforço Andréa se manteve calada. que acabou sendo concluído por Andréa. Mesmo nervosa Andréa sorriu. — Prefiro me considerar uma cidadã responsável — rebateu Andréa. — Como americana. Neville e Susan confirmavam tudo. — Assumir a culpa é uma atitude improdutiva — observou Neville com severidade. Andréa havia iniciado uma investigação por conta própria. O inspetor foi convencido também de que tanto Susan quanto Andréa. A história que havia construído para explicar seu envolvimento com Laurie e os outros parecia resistir bem àquela terrível provação. Seguindo uma sugestão de Susan.

O trabalho dele foi particularmente importante nas semanas que antecederam o Dia D. Não me diga que faltou a esse compromisso também”. — Ele foi um herói. Laurie McGregor foi oficial do Serviço de Informações? — Sim. recomendo que analise o que as pessoas fizeram durante a II Guerra Mundial para garantir a sobrevivência da democracia. e ele mexeu a cabeça para o lado. Em tempos de guerra.— A culpa parece ser inerente às mulheres — ela comentou. como dinamitar pontes e sabotar linhas de comunicação. Andréa lembrou-se das palavras sarcásticas que Daphne havia dirigido ao Árabe: “Uma coisa chamada dia D aconteceu enquanto você esteve fora. Andréa ficou olhando com curiosidade. mas não contestou. Ele mesmo disse que tinha sido um espião. Várias vezes ele saltou de paraquedas em território da França ocupada e trabalhou em estreita ligação com os Maquis. — Não há dúvida de que você conseguiu mexer numa casa de marimbondos — falou o inspetor Davies. sem dizer nada. se quer assumir a culpa do que aconteceu. — Acha que está forte o suficiente para ouvir tudo? — Perguntou . Combatendo o invasor alemão... coisas assim.. às vezes atos que pareceriam criminosos em outras circunstâncias adquirem uma aura de justiça absoluta.. quanto a isso não há dúvida. — No entanto. participou de ações de alta periculosidade. — Você sabia que durante a II Guerra Mundial. a Resistência Francesa. — Davies deve ter considerado o termo "espião" muito melodramático.

— Você escreveu no seu livro que o marido. Se ele houvesse permanecido na França depois do Dia D. Que Pierre havia se recusado a ajudar os Maquis. mesmo McGregor revelando a ela toda a vilania do marido. pondo a mão por cima da dele. — Pierre não era um herói — ele declarou. Pierre Beaudry foi um traidor. olhando para o amigo. vários combatentes de valor perderam a vida nas mãos dos nazistas. Pierre conseguiu escapar. Jacques. Se ele não a maltratasse tanto. apertando a mão dela. — Está querendo dizer que a morte de Pierre. Você já deve ter percebido que esses mártires. Mas só por algum tempo. . não teve nada a ver com a forma como ele tratava Solange? — Eu não diria que não teve absolutamente nada a ver com isso. Como ninguém sabia exatamente o que ele tinha feito. — Eu estou bem — garantiu Andréa. Andréa olhou para ele com um ar de descrença e o inspetor sorriu seguro de si. faziam parte do grupo de Maquis com que o tenente Lawrence McGregor atuava. em busca de um conforto que encontrou. Para salvar a própria pele. — Na verdade. O olhar do inspetor parecia aprovar aquele gesto dos dois. Laurie estava querendo vingança? — Isso mesmo — confirmou Davies. Neville franziu a testa.Neville. poderia ter sido fuzilado por isso. — Então. talvez Solange não o odiasse o bastante para puxar o gatilho.. denunciou o grupo de Maquis que o havia procurado em busca de ajuda.. Por causa da covardia e da falta de patriotismo de Pierre Beaudry.

Talvez não tenha conseguido encontrá-la. Com a respiração contida. Por outro lado. — E muito viva. não sabia que Dailey estava morto e não fazia ideia do perigo que estava correndo. foi ela quem nos revelou a acusação que Solange fez a Pierre antes de matá-lo: "Você é um traidor. segundo nos disse. No entanto. Jamais saberemos por que McGregor a poupou. usando de intimidação. O inspetor parou de falar por alguns instantes. É possível também que. Nossas investigações confirmaram que logo depois da denúncia de Pierre. ou confiado que ela não falaria. — Nós conversamos com Júlia Millar — respondeu Davies. Posso apenas supor que ela manteve silêncio sobre o envolvimento de McGregor. Evidentemente McGregor alcançou Dennis Dailey antes que ele falasse com Júlia. Vinte e três patriotas franceses foram mortos por sua causa". mas nem Andréa nem Neville fizeram qualquer comentário. em vez de se esconder atrás da saia de uma mulher. em gratidão por ele ter revelado o verdadeiro caráter de Pierre. nos disse também que sentiria maior admiração por McGregor se ele próprio houvesse puxado o gatilho. Tinha uma quedinha por McGregor e estava certa de que Pierre Beaudry merecia morrer. Quanto a Júlia. esperaram que ele continuasse: — Infelizmente nada disso veio à tona durante o julgamento de Solange Beaudry. os alemães fuzilaram vinte e três membros da Resistência. — Ela ainda está viva? O inspetor balançou afirmativamente a cabeça.— Como é que o senhor sabe de tudo isso? — Inquiriu Andréa. Realmente. Júlia não teria revelado nada a Dailey. Claudine a tenha proibido de desmascarar .

pode ser que ela tenha se matado apenas para não ter de se submeter à forca. onde instalou uma hospedaria. Mademoiselle Beaudry passou a viver mais confortavelmente do que vivera enquanto Pierre era vivo. — Pegando o cachimbo no bolso do paletó. ela não era amiga de ninguém.. assim como não mostrou aversão a receber algum dinheiro de McGregor.. Se não houvesse essa conspiração de silêncio. mas sim daqueles que ficaram calados quando deveriam falar. Por isso. constatando que tanto o inspetor quanto Neville. — Bem. Júlia Millar casou-se e foi morar em Cornwall. — É. — A essa altura ele franziu a testa. O inspetor sorriu satisfeito consigo mesmo. — Pouco depois do incidente. — Você deve entender que todas as pessoas envolvidas eram amigas de McGregor.. nem Gerald Cornforth. No entanto. só tinha motivos para ficar calada. de fato o charmoso Sr. Não foi culpa sua. Eu acho que sim — pronunciou-se Andréa. Quanto ao suicídio de Solange. No entanto. . — Parece que tudo se encaixa direitinho.. excetuando-se talvez Claudine. Claudine não queria que o irmão gêmeo recebesse a pecha de traidor. nem Claudine Beaudry. — Acho que posso concluir também que McGregor era dono de um irresistível charme pessoal. tudo são conjecturas. ele o apontou para Andréa. — E aí que está a culpa.publicamente o traidor Pierre. não é? — Falou Andréa. Pelo jeito. Daphne Murdoch não teria sido morta. McGregor gratificou muito bem todos os envolvidos — continuou Davies. Gerald Cornforth abriu uma adega. nem Dennis Dailey. olhava fixamente para ela.

— Procure ver a coisa por esse prisma querida — sugeriu Neville.. Ontem ela me disse que a irmã dela. não querendo mais pensar em Laurie. — Pelo que sei a Sra. Durante alguns instantes o inspetor ficou em silêncio.. — Trata-se do Senhor. Disse que os restos mortais foram recuperados. — É. mas. — E Daphne? — Ela perguntou ao inspetor. Dailey está encomendando um discreto serviço fúnebre para a irmã. — Se você não houvesse aparecido para levantar a questão. Nesse intervalo Andréa lembrou-se da visita de Neville no dia anterior. ele tinha ficado calado por algum tempo.. Ele me disse que a Sra. Depois. livre como um pássaro. Eles se casarão no mês que vem. Neville tinha de admitir que pelo menos alguma parcela da culpa ela não podia deixar de assumir. Andréa lembrou-se de que o mesmo estaria acontecendo com Claudine e com o Sr. comentando . olhando fixamente para o cachimbo. Seria doloroso demais. — Ontem estive conversando com um amigo da Sra.. Andréa balançou afirmativamente a cabeça. Fiquei sabendo que eles dois pretendem se casar.. Laurie McGregor ainda estaria andando por aí. Mesmo sem dizer nada. mas que já está bem melhor. Andréa experimentou uma sensação de mal estar. Ao saber dos planos de Susan e Brian. Cornforth. Dailey — disse o inspetor.. Dailey esteve algum tempo bem transtornada. Bird. — Susan tem vindo me visitar todos os dias. — Já foram liberados — informou Davies. Ainda bem que Susan não havia optado por um serviço fúnebre completo.

era melhor não pensar naquilo. A loja de produtos naturais estava sendo bem administrada pelo gerente. mas Andréa relutava em aceitar. E se voltasse a encontrar Daphne? Neville continuava morando no clube. No entanto. planos bem mais interessantes. Susan havia se oferecido para bancar a enfermeira. Ela nem mesmo via motivos para voltar logo para San Francisco. — Os sócios morreriam todos de apoplexia se uma mulher invadisse os sagrados recintos do clube. não chegou a sugerir que poderia haver um futuro para ele e Andréa. Andréa não via com bons olhos a perspectiva de retornar àquela casa. Era uma situação engraçada. teria permissão para deixar o hospital se arranjasse alguém para cuidar dela. talvez nem mesmo visitá-lo. mas que deixava Andréa sem muitas perspectivas. Susan estava com outros planos na cabeça. enquanto procurava um apartamento que lhe conviesse. — Em Londres. porque havia questões mais urgentes a serem resolvidas. — Devo lhe pedir uma coisa. Willi continuava a regar com regularidade as plantas no apartamento. Bem. pelo menos até que o médico a deixasse andar de muletas. Ela teria de ficar na Inglaterra por mais algum tempo. Além disso. No entanto. Cavenaugh — pronunciou- . Srta. o chauvinismo é mais forte do que a fidalguia — tinha dito Neville. Afinal de contas. comentando aquela possibilidade. Era claro que não seria correto ela ficar com ele. disse que talvez o processo demorasse um pouco para se resolver.o próprio divórcio. mesmo estando ela presa a um aparelho de gesso.

O mesmo se aplica à morte de Claudine Beaudry.se o inspetor Davies. Murdoch. Ela levou um tiro. O que mais ele podia querer como prova? — No entanto.. no dia mesmo em que capotara com o Mini. Andréa evitou o olhar do inspetor. É tudo suposição. levou-a até o poço e a jogou lá dentro. pondo o cachimbo de volta no bolso do paletó com óbvia relutância. Deliberadamente. e até conseguimos encontrar a bala. Os fatos se encaixam. Também não podemos provar que McGregor tenha jogado no Tâmisa o carro da Srta. Por exemplo. Consegui manter a coisa toda em sigilo. Apenas supomos que a tenha enrolado na lona em que os restos mortais foram encontrados. apenas supomos que McGregor foi o responsável pelo acidente de Dailey em Cornwall. enquanto empurrava o dela para dentro do rio. Supomos também que depois. Logo no primeiro encontro. ele usava uma arma do mesmo calibre. . porque não existe evidência de que McGregor a tenha visitado. Conseguimos montar. Andréa torceu o canto da boca. não temos a arma — continuou o inspetor chefe. — Não podemos afirmar que ela pertencia a Lawrence McGregor. Como você mesma já deve ter percebido. é verdade. Também não há provas conclusivas no caso da morte de Daphne Murdoch. trancando-a no porta-malas do carro dele. como o nosso amigo Forbes aqui poderá confirmar.. — Recomendo que evite revelar qualquer ponto dessa história à imprensa ou a qualquer pessoa. mas não podemos ter certeza de que conhecemos a verdade. embora saibamos que durante a guerra. o que os nossos priminhos americanos chamariam de "cenário". muitas das nossas conclusões se baseiam em conjecturas.

contara a ele que havia passado pela experiência da morte de Daphne. No entanto, não estava disposta a insistir naquilo. Com as mãos nos bolsos, o inspetor deu alguns passos pelo quarto. Andréa não disse nada e ele continuou: — Também supomos que McGregor tenha jogado a Srta. Murdoch naquele poço, para fazer as suspeitas caírem sobre o nosso amigo Neville, aqui. Andréa olhou para Neville como se pedisse desculpas. Algum tempo antes, havia realmente suspeitado dele, por causa da localização do poço. Quando já estava no hospital, chegou a revelar a ele as dúvidas que tivera. — É natural — tinha dito Neville. Não teria sido para ele tão fácil perdoar, se a polícia resolvesse levar em conta aquela suspeita. Logo em seguida o inspetor voltou a falar, agora com evidente satisfação: — Por outro lado, sabemos que foi McGregor quem matou Cornforth. Uma perícia no Rolls-Royce confirmou isso. Só não podemos provar que ele queria matá-la quando aconteceu aquele duplo acidente. Também é possível que você tenha sofrido um empurrão acidental na plataforma do metrô. Andréa abriu a boca para protestar, mas ele ergueu uma das mãos. — Agora estou falando de fatos comprovados, Srta. Cavenaugh. Mais uma vez, Andréa achou melhor se submeter. — Não precisa se preocupar inspetor Davies — ela o tranquilizou. — Não tenho a mínima intenção de contar nada disso a

ninguém. Para falar a verdade, meu desejo agora é esquecer tudo. — Então não pretende escrever uma continuação do romance? — Ele inquiriu. Andréa arregalou os olhos. — Por Deus, não! Nem mesmo quero continuar a promoção do livro que já está nas livrarias. Pelo contrário, farei tudo que estiver ao meu alcance para que os exemplares sejam recolhidos. Tenho um medo terrível de que apareça mais alguém envolvido com o caso Beaudry. — Ótimo — aprovou Davies. — Acho que preciso lhe agradecer inspetor Davies — disse Andréa timidamente. — Pode crer que fiquei muito aliviada quando vi todas aquelas viaturas chegando logo depois do desastre. Principalmente, quero agradecer pelo cuidado que o senhor teve para não deixar que a imprensa tivesse acesso a nenhum dos... Bem, para não deixar que os repórteres soubessem dos detalhes extras. Naturalmente a polícia tinha bons motivos para não deixar a imprensa chegar muito perto, para que não viessem à tona alguns erros do passado. Isto é... Depois do desaparecimento de Daphne, alguém resolveu suspender as investigações sobre a morte de Dennis. De uma hora para outra, o caso recebeu o rótulo de simples "acidente". O senhor poderia ter feito o mesmo em relação à Claudine e Corny, mas não fez. O inspetor Davies começou a rir, transformando por completo aquele semblante. Andréa achou que se o tivesse conhecido em outras circunstâncias, poderia até ter gostado dele. — Ainda estávamos fazendo um exame minucioso naquele

Rolls-Royce — revelou Davies, balançando a cabeça com ar de espanto. — Foi uma audácia incrível, ele usar um carro tão... Fácil de identificar. Na verdade, estamos a ponto de estabelecer uma ligação entre aquele Rolls-Royce e algumas contravenções envolvendo diamantes, mas isso é outra história. Andréa concluiu que nessa outra história, dificilmente ele se contentaria apenas com suposições. O inspetor pegou outra vez o cachimbo, e com ele entre os dentes, despediu-se. — O que vai acontecer agora? — Perguntou Andréa a Neville, quando eles ficaram sozinhos. — Oficialmente nada. Sua participação no caso está encerrada. Andréa olhou bem para ele. — Está mesmo Neville? — É claro — ele respondeu, evidentemente sem entender a verdadeira expressão da pergunta. Andréa suspirou e recostou-se no travesseiro, perguntando a si própria se tudo estava mesmo terminado. Logo em seguida viu-se pensando em Peter Somerset, o jovem enfermeiro que cuidava dela no turno da noite. Sem nenhum constrangimento, o rapaz afirmara que era ela a paciente mais sexy de todo o terceiro andar. Sempre com um brilho intenso nos olhos azuis, só a chamava de "meu bem", "meu amor", "doçura", flertando descaradamente com ela. Peter devia ter uns dezenove anos e tinha um porte atlético, musculoso, exatamente o tipo que exercia atração imediata sobre Andréa. Só que presa àquela cama... Tudo aquilo teria realmente acabado? Talvez a influência de Daphne houvesse apenas cessado, para

sempre. — Eu estive pensando... — Ela disse devagar. — Talvez os médicos não se oponham a que eu me transfira para o Royal Camelot. Talvez eu possa contratar uma enfermeira. — É isso o que você quer? — Perguntou Neville espantado. — Não, droga! — Respondeu Andréa com raiva. — Só não estou sabendo o que fazer. — Ainda não percebeu que pretendo tomar conta de você? — Como é que eu podia perceber isso? Até agora você não disse uma única palavra sobre o assunto. Neville olhou para ela com ar de surpresa. — Apenas não me ocorreu que você não sabia quais eram as minhas intenções. Além disso, a semana inteira estive ocupadíssimo, resolvendo uma porção de coisas. Ninguém lhe disse que você vai sair do hospital, hoje? Contratei uma limusine, para que sua perna possa ficar estendida. Também adiantei tudo no escritório para que possa tirar uma semana de folga. É claro que você não pensou que eu a deixaria em apuros, não é? — Mas você disse que nós dois não poderíamos ficar juntos no clube. — É claro que não podemos, mas... — A essa altura, o semblante antes fechado se abriu num sorriso. — Meu Deus! Então, você entendeu que eu não a queria comigo? Inclinando-se para frente ele beijou ternamente nos lábios. Andréa correspondeu ao beijo, procurando mostrar que queria ir além daquela carícia, mas ele pareceu não entender. Em vez disso, aprumou o corpo e olhou para ela com severidade.

— Quando a vi depois do desastre com o carro, chegando ao hospital, espichada em cima daquela maca, percebi que minha vida não teria sentido sem a sua companhia. Naquela hora mesmo eu lhe disse isso, não se lembra? Você respondeu que sentia a mesma coisa. Andréa balançou a cabeça. — Acho que ainda estava em choque. — Não se lembra de quando eu lhe disse que a amava; que queria me casar com você, viver a seu lado para sempre? Não se lembra de quando eu falei que você podia escrever seus livros aqui, tão bem quanto em qualquer lugar? Você respondeu que não queria mais escrever livros, preferindo se concentrar na sua loja de produtos naturais. Então eu argumentei que havia na Inglaterra tanta gente com problemas alimentares quanto nos Estados Unidos, e que você podia muito bem abrir uma loja de produtos naturais, aqui em Londres. Parecia tão lúcida... Concordou desde que pudéssemos viajar a San Francisco pelo menos uma vez por ano, já que queria manter aberta a loja de lá. Andréa ficou olhando para ele espantada. — Não me lembro de nada disso. — Quer dizer então, que joguei fora toda a minha eloquência? — Você não jogou nada fora Neville — ela negou com doçura. — Pelo contrário, me fez muito feliz. — Só que não fazia ideia de que você não sabia do que eu estava fazendo. Escute aqui, Andréa Cavenaugh: quando for um homem livre, pretendo pedi-la formalmente em casamento. Cairei de joelhos se necessário. Estou sendo perfeitamente claro, agora?

— Está sim — ela respondeu cheia de felicidade. — Não se importa por eu ser tão mais velho que você? Andréa balançou a cabeça. Num certo sentido, ela sempre veria em Neville um garoto de dezessete anos, embora não estivesse certa de que deveria externar esse pensamento. Afinal de contas, eles haviam combinado não falar na reencarnação de Daphne; pelo menos não enquanto ela não estivesse perfeitamente recuperada. Talvez recuperada o suficiente para discutir, pensou Andréa rindo por dentro. — Há pessoas que envelhecem aos trinta anos, enquanto outras são jovens aos noventa — ela falou. — Tenho a impressão de que você pertence ao segundo grupo. — Quando estou com você, sinto-me um rapazinho — declaro Neville respirando fundo. — Muito bem! Em primeiro lugar, temos de cuidar para que você recupere por completo a saúde. Como parece ter se esquecido de tudo o que lhe falei, não deve se lembrar de que passei a semana toda procurando casa. — Está brincando! — Exclamou Andréa atônita. — Na verdade, consegui alugar uma — continuou Neville, antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Parecia um garotinho relatando suas incríveis aventuras. — É uma casa muito bonita Andréa, no estilo da Regência. Talvez fosse melhor para a sua reputação ficar hospedada na casa dos meus pais, mas achei que não teria vontade de voltar tão cedo a Oxford. Por isso, procurei na direção oposta. A casa fica em Brighton. É um lugar calmo, apesar de estar de frente para o mar. Mais tarde nos instalaremos em Londres em algum apartamento, viajaremos tantas vezes quantas

queira. Gostaria de levá-la ao Distrito do Lago, à Escócia, à Irlanda, ao País de Gales... E ao continente, é claro. Andréa se entristeceu, lembrando-se de quanto Laurie dissera que ela deveria conheceu Cotswolds... Lindas aldeias aninhadas entre as montanhas. Ela jamais se esqueceria de Laurie. — Está sentindo dor querida? — Perguntou Neville preocupado. — Um pouco. Carinhosamente, ele deu um beliscão no rosto dela. — Estou contando que os ares da praia façam bem à sua saúde. Quero que se recupere por completo meu bem, não só da perna, mas também da alma. Sei que tem sofrido muito e que eu contribuí para esse sofrimento. — Com o olhar, ele quase suplicava que Andréa dissesse alguma coisa. — Acha que as providências que tomei foram corretas? Oh Andréa querida, eu te amo tan-tanto. Emocionada demais para falar, Andréa estendeu os braços e apertou-o contra o peito fortemente. Naquela tarde, eles deixaram o hospital. A limusine atravessou quilômetros de campos verdes iluminados pelo sol de primavera. Quando Neville abriu a porta da casa e, ajudado pelo motorista, carregou-a para o quarto já preparado, Andréa concluiu que jamais havia se sentido tão feliz. A casa era simplesmente linda. Tinha cômodos claros e um jardim frontal em que predominava uma árvore frondosa. O colchão de plumas verdadeiras da cama em que ela foi colocada era o mais confortável e aconchegante que se poderia imaginar. Seria impossível um duende se esconder sob aquela cama. Neville sentou-se na beirada da cama e sorriu exultante. Depois,

— Algo a preocupa? É. Quero agora. vai ver que o gesso também não cobre uma parte muito importante da minha anatomia. — Mais tarde não. Parece que sim. — Como você reagiria se eu me mostrasse outra vez uma americana franca e direta? Neville assumiu um ar solene e mordeu o lábio. Mas pode falar. A propósito.. — Mais tarde.. como se acarinhasse uma pombinha. — Se reparar direitinho. O que eu quero é paixão. não compaixão. antes de mais nada precisa começar a me beijar com mais vigor — falou Andréa categoricamente. — Acha que já está em condições? — Minha boca não foi costurada e meus seios não estão cobertos por nenhum aparelho de gesso — falou Andréa. gesticulando com as mãos para enfatizar o que dizia. Andréa passou as mãos em volta do pescoço dele e ficou pensativa.. porque estou preparado para tudo. — Fazer a sua felicidade será o objetivo maior da minha vida. De um momento para o outro. senhor. — Durante a semana toda só me deu esses beijinhos doces e simpáticos. meu bem — ele declarou. Andréa fechou os olhos e balançou a cabeça inconformada. — Quero que seja sempre feliz.. os olhos de Neville mostraram um brilho de interesse. — Se quer mesmo me fazer feliz. O que você sabe sobre .aproximou-se mais e encostou ternamente os lábios nos dela. quando você estiver recuperada — prometeu Neville.

alegrando-se com isso. a mulher se viu obrigada a se deitar de costas. contudo sem pensar nos prazeres da carne. quando Neville superou o medo de machucá-la. abriu o robe dela de cima abaixo e gastou apenas outros tantos para se despir.a história das relações sexuais? Neville não respondeu aparentemente confuso com a pergunta. buscada as partes mais íntimas dela. Neville passou imediatamente à ação. — Durante séculos. "Crescei e multiplicai-vos".. com absoluto descaramento. Você deve conhecer. um jeito santo de fazer amor e. a posição papai-mamãe. — Era dever dela também realizar os desígnios de Deus. O aparelho de gesso era um estorvo naturalmente. com os lábios e a língua. invadiu a cama e passou a beijá-la por todo o corpo. mas Neville até levou na brincadeira. é claro. até os limites permitidos pelo aparelho de gesso. No entanto. Entendendo a mensagem. — Seu moleque! — Ela reagiu. E que deu certo! Que tal voltarmos um pouco no tempo? Depois disso Andréa não poderia dizer que tinha do que reclamar. não teve mais do que se queixar. abrir as pernas e submeter-se ao comando do homem — continuou Andréa. mas usando um tom professoral. — Quando eu tirar esse gesso vai ver só o . enquanto ele. Afinal de contas. Andréa só podia reclamar do fato de não poder mexer o corpo. Em questão de segundos. Com um risinho maroto. lembra-se. Em seguida. Andréa não acabaria fazendo em pedaços aquele gesso.. agarrando-o pelos cabelos e mordendo-o na orelha. olhou para ela e perguntou se arrebatada pela paixão. estava com as mãos livres e podia explorar à vontade o corpo de Neville.

Depois das refeições. No fim da tarde. ele sempre a banhava. Neville sempre puxava conversa ou inventava alguma atividade para distraí-la. Às vezes aparecia por baixo do gesso uma coceira em algum lugar absolutamente inatingível. Nessas horas. faziam amor sempre que sentia vontade. sempre assistiam juntos ao noticiário da televisão e discutiam amigavelmente as diferenças entre as medidas postas em prática pelos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra. Às vezes ele a levava para o jardim e a sentava numa espreguiçadeira. durante o dia escutando o canto das aves marinhas e observando os poucos banhistas que se aventuravam ao mar fora da estação.que tenho guardado para você. Além disso. o que vinha acontecendo com uma frequência impressionante. Talvez fosse essa preocupação que os fazia falar de absolutamente tudo. esfregando depois o corpo dela com creme. menos do assunto que estava na cabeça de . ouvindo à noite o apito dos barcos que atravessavam o nevoeiro. vivendo junto.. Começaram mesmo a se sentir como marido e mulher. um longo período de paz e tranquilidade. é claro. de forma que ela pudesse tomar um pouco de sol e admirar o céu azul do Canal da Mancha. Sentada na cadeira de rodas e com a perna apoiada numa mesinha de centro transportada para a cozinha.. Convidava-a para jogar cartas ou punha para tocar um dos incontáveis discos que levara para lá. À noite depois do jantar. Por duas semanas eles ficaram juntos naquela casa de praia. Andréa ia passando a Neville os segredos da culinária naturalista. secava a louça que ele lavava. sem deixar que nada os perturbasse.

pressionando.. Nesse instante Andréa percebeu que havia chegado a hora de conversar. Assistiu à conferência? — Sim. ternamente. Mais de uma semana já se havia passado e só havia ali duas pessoas.. Com o passar do tempo. Depois... Neville cheirou o pescoço dela. os corpos suados e fatigados depois de uma relação cheia de ânsia. estavam os dois deitados de costas na cama. trocando carícias bem menos tímidas. apertando. Entendeu também que a demora. — Um dia depois de você ter sido internada no hospital. buscavam com as mãos o corpo um do outro. Andréa mal cabia em si de contentamento e gratidão. Virando-se de lado. depositou um beijo no mesmo lugar. e Neville parou de brincar sobre o aparelho de gesso. mas sim para que ele encontrasse palavras. mas não conseguiu ler nada daquela expressão. Neville e Andréa. A essa altura. eles deixaram de dar tanta importância à invalidez passageira de Andréa. voltando à posição inicial. lado a lado. — Não cheira a jasmim — ele observou. li no Times que o Dr. Andréa olhou para ele espantada. Havilland daria uma conferência sobre reencarnação num auditório em Putney — falou Neville. se devia não a uma espera para que ela se curasse. — O que achou? — Achei surpreendente — respondeu Neville soltando uma . Uma tarde. — E você.ambos.

guardando em seguida um minuto inteiro de silêncio.. durante a realização do ato sexual? Devo reconhecer que é uma pergunta no mínimo impertinente. — Você conseguiu alguma coisa? — Perguntou Andréa ansiosa. Vidas passadas. — Na verdade. O que seria mais lógico acreditar. até o momento em que começou a hipnotizar pacientes na tentativa de livrá-los de fobias e neuroses. Ele até hipnotizou uma pessoa da audiência.. — Consegui uma mensagem muito pouco clara de Daphne e uma porção de interrogações — ele respondeu. continuar ignorando o fato de que . Que a alma entra no corpo de um bebê antes ou durante o nascimento. O jeito como a mulher soluçava era de deixar qualquer um de coração partido. foi à atriz mais fantástica que já vi em cena. Andréa não quebrou o silêncio. não sei bem o que estava esperando. Acabou descobrindo que muitos dos problemas deles tinham raízes profundas. Ele até fez conosco algumas experiências de psicografia. Durante alguns instantes. Pessoas normais.risadinha. uma mulher. ou que o homem e a mulher criam ao mesmo tempo o corpo e a alma da criança. não na infância. Todos ali pareciam.. mas em períodos anteriores. Havilland confessou que não acreditava em nada daquilo.. O próprio Dr. esperando que ele continuasse: — O que realmente me impressionou foi uma pergunta que Havilland nos fez a todos. ele perguntou. Aquele velho sabe impressionar. e a fez passar por um traumático incidente que supostamente aconteceu no século XII. Neville ficou pensativo. — Cheguei à conclusão de que seria tolice de minha parte. — Você acha que ela estava fingindo? — Se estava...

— Se não acredito. na época da rainha Victoria. Pomposo.. Devo dizer que naquela época você me pareceu muito. Eu o amei em várias formas e identidades. antes de aceitar a teoria da reencarnação.. — E você sente vontade de ler? — Sinto. — Desde Daphne. muito tempo. e quanto a isso não existe a menor dúvida. há muito. — Eu te amo Andréa. Eles se ajustavam tão bem. Ainda hoje.. se acredito nenhum argumento é necessário. Andréa olhou nos olhos dele. Andréa lembrou-se de quando ela própria havia passado a acreditar na teoria da reencarnação. Thomas Wendell. é isso? — Não só desde Daphne. Mesmo assim vou ter de ler um bocado. — Sabe de uma coisa? — Voltou a falar Neville vagarosamente. — Eu também te amo. nenhum argumento me convencerá. Neville abraçou-a novamente e deitou por cima dela. Andréa achou simplesmente delicioso o contato dos corpos nus. .. — Houve época em que eu pensava seriamente em entrar para a política. quem diabo é esse tal Thomas Wendell? — Foi um membro da Câmara dos Comuns. — Como diria Pardal. sempre que vou à Câmara dos Comuns. sinto uma vontade danada de subir à tribuna para fazer um discurso inflamado.existe algo indefinido ligando você a Daphne. inclusive a de um cavalheiresco Sr. — Gostei disso — aplaudiu Neville.

Depois lhe falarei do amor. — Vai querer outra vez que eu me livre dos preconceitos? — Por completo — respondeu Andréa com firmeza. Depois que Neville se acomodou. que foi camareira da rainha Victoria.. Às vezes nós falamos com muita facilidade em amar alguém para sempre.Durante um bom tempo os dois riram daquela confissão. — Tenho uma história e tanto para lhe contar Neville. Fazer a sua mente aceitar essa possibilidade? Neville tomou-a nos braços e beijou-a demoradamente. Andréa ajeitou os dois travesseiros contra a parede e convidou-o com um gesto a se sentar.. mas já pensou se isso for realmente possível Neville? E se puder existir um amor que não acabe nunca. — E na Finlândia? E no Sião? Arrastando-se de costas até a cabeceira da cama. — O que é que você sente quando pensa no Afeganistão? — Ela perguntou. — Quero lhe falar sobre uma mulher chamada Ellen Hubbert. mostrando todo o amor que sentia. . fingindo desconfiança. — Ele beijou-a na testa e olhou-a de lado. que dure para sempre? Será que você poderia se convencer. olhou-a nos olhos. ela segurou-lhe as duas mãos. Depois. depois governanta de uma família da aristocracia. — Eu tentarei Andréa — ele prometeu. — Pode acreditar que eu tentarei.

Os advogados. que .FIM Próximo Lançamento: Clássicos da Literatura Romântica Patrícia Matthews No calor intenso das noites da Califórnia. Julie se perguntava: Poderia ela realmente ser Suellen Devereaux. A viagem para a luxuriante e quente. a paixão ardia e o perigo espreitava em cada canto. Desconhecidos dizendo-se seus parentes. Ainda zonza pela sucessão vertiginosa de acontecimentos. Key West. tão estranho. Foi tão repentino.

Inexplicáveis. e agora confusa pela crescente atração que sentia pelo charmoso Sheldon Phipps. Alguém a estava observando e aguardava. Mas havia muitas perguntas sem resposta. começaram os acidentes. De repente. sinistros. apaixonada por Ken. não se reconhecia como Suellen? Era como se sempre tivesse sido Julie Malone. Alguém desejava que Suellen desaparecesse para sempre! .desaparecera daquela cidade havia oito anos depois que uma série de tragédias vitimara seus pais e a irmã gêmea? Como Suellen. herdaria milhões. Por que não conseguia lembrar nada de sua vida com os Devereaux.

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