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Ar tigos Artigos João Manuel de Oliveira

Centro de Investigação e de Intervenção Social

Lígia Amâncio
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa

Teorias feministas e representações sociais: desafios dos conhecimentos situados para a psicologia social
Resumo esumo: Este artigo visa analisar o contributo das teorias feministas para as epistemologias e práticas metodológicas das ciências sociais, nomeadamente da psicologia social. Partindo da apresentação das propostas feministas da Terceira Vaga para as ciências e da epistemologia dialógica das representações sociais, discutimos as possibilidades de uma conceptualização assente nos conhecimentos situados para o desenvolvimento de saberes científicos emancipatórios. Assim, analisaremos o modo como os conhecimentos situados e os desafios que colocam podem engendrar uma mudança nas práticas científicas da psicologia social e das ciências sociais. Palavras-chave alavras-chave: teorias feministas; representações sociais; conhecimentos situados; psicologia social; epistemologias.

Copyright 2006 by Revista Estudos Feministas.

A crítica feminista à ciência na T erceira Terceira eminismo Feminismo Vaga do F
Uma das principais preocupações do feminismo de Terceira Vaga tem sido a crítica feminista à ciência e os estudos feministas da ciência.1 Animadas por um espírito crítico e reflexivo, essas críticas emergem a partir dos anos 19702 e estendem-se a quase todas as disciplinas do conhe-cimento científico. Logo no pós-guerra, Simone de Beauvoir 3 empreende uma série de críticas aos pressupostos androcêntricos quer da filosofia, quer da ciência e da sua persistência em apresentar uma visão

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Conceição NOGUEIRA, 2001 a. Evelyn KELLER, 1996. BEAUVOIR, 1949.

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Estudos Feministas, Florianópolis, 14(3): 272, setembro-dezembro/2006

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13 Kate MILLET. o empirismo feminista implica que o sexismo e o androcentrismo poderiam ser eliminados dos resultados da investigação.12 herdeiras directas do feminismo radical. 2005. Assim. o cerne de preocupação é a discriminação e sub-representação das mulheres na ciência.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO KELLER. nacionalidade. para o empirismo feminista. 1996. tradução nossa. 2001a. do mundo centrada na qualidade referencial do masculino e da alteridade do feminino. 9 HARDING. as 598 Estudos Feministas. 1996. Uma tradução aproximada poderia ser “teorias do posicionamento” ou do “ponto de vista”.8 contribuiu para a emergência dessa reflexão feminista sobre a ciência. 12 Optamos por não traduzir o conceito. uma vez que continua a funcionar dentro do paradigma da ciência normal10 sem analisar as teorias e métodos imbuídos de androcentrismo. 2005. 1962. setembro-dezembro/2006 . 20. Antes de serem cientistas. 1986 e 2004. 1996. A manutenção das metodologias positivistas permite apresentar evidências inquestionáveis dessa sub-representação. Igualmente. 11 Já no caso das teorias do standpoint. Florianópolis.). Deve-se a Sandra Harding9 uma primeira tipologia dos modelos de crítica feminista à ciência. apesar das permanências nessa mudança.11 HARDING. a solução para essa sub-representatividade consiste nas medidas de acção afirmativa e também em medidas de atracção de jovens licenciadas para a investigação.4 a denúncia do androcentrismo5 na produção científica6 e a preocupação em construir modelos de ciência politicamente implicados 7 são alguns dos pressupostos da crítica feminista à ciência.13 as mulheres cientistas são consideradas oprimidas pela comunidade científica. tradução nossa). 7 KELLER. p. etc. para passarem a ser uma ‘minoria tolerada’. mascaradas de experiências ‘humanas’ e que contam como fontes de conhecimento ‘generalizadas’ e inquestionáveis” (Lorraine CODE. sexo. 2000. também ela patriarcal. à semelhança de NOGUEIRA. 1996. 1969. 237. até a emergência do movimento das mulheres. se os cientistas simplesmente seguissem de forma mais rigorosa e cuidadosa os métodos existentes e as normas de pesquisa. orientação sexual. estruturando esse campo de estudos. como fazem Sofia NEVES e Conceição NOGUEIRA. partem de um determinado posicionamento na hierarquia social (etnicidade. 8 AMÂNCIO. A evidência de que a maioria dos cientistas são homens. Portanto. a partir dos anos 1970. classe. Esse posicionamento é. consiste em fazer ciência mantendo os valores dominantes da cultura científica tradicional. Dessa forma. 6 Helen LONGINO e Ruth DOELL. bem como o seu carácter a-político. a transição do modelo das cientistas ‘excepcionais e excluídas’. a operacionalização dessa proposta. pois. em uma tentativa de aumentar a representação das mulheres nas disciplinas. Nas palavras de Harding. 14(3): 597-615. 4 5 10 Thomas KUHN. p. Ou seja. Os principais questionamentos que têm sido colocados a essa linha de orientação são essencialmente a manutenção das crenças positivistas fora do escrutínio da crítica feminista. e Shulamith FIRESTONE. mantendo assim intocados os valores da neutralidade e da objectividade. 1969. lido de forma a ser integrado na investigação propriamente dita. “Refere-se às práticas que baseiam teoria e prática na experiência dos homens.

dado que essa grande categoria ilude as divisões intracategoriais. 1981. 1987. p. a contextualidade do conhecimento é uma das heranças das teorias do standpoint. como forma de traduzir a experiência feminina e o modo único como olham o mundo. A própria ideia do grupo das mulheres enquanto categoria ontológica é posta em causa. para um exemplo dessa abordagem das Women’s Voices. contextualizado14 e experiencial.TEORIAS FEMINISTAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 14 Como veremos. 1991b. que eclodiram os feminismos mais localizados. setembro-dezembro/2006 599 . a raça e a classe não podem constituir a base para a crença na unidade ‘essencial’.21 São também esses feminismos que contribuem para a problematização que o(s) feminismo(s) pós- Estudos Feministas. Esse projecto político-ideológico serviu e serve a uma série de interesses e contribuiu para a eclosão e exclusão de determinados grupos.19 o feminismo lésbico.17 Rejeitando as propostas essencialistas e diferencialistas das teorias do standpoint e a abordagem a-política do empirismo feminista. por estarem assentes num privilégio epistémico derivado da condição feminina. 15 Carol GILLIGAN. Não existe sequer o estado de ‘ser’ fêmea. ou seja. construída em contestados discursos científico-sexuais e outras práticas sociais. A ideia da experiência feminina e da necessidade de dar voz às mulheres15 é.16 O pós-modernismo feminista é uma corrente de pensamento que se localiza na Terceira Vaga do feminismo e que vai buscar ao movimento pós-modernista e pósestruturalista as suas principais influências. enfatiza a utilização das biografias. 19 20 Bell HOOKS. OLIVEIRA e AMÂNCIO. 1991a. o género. evidenciando um privilégio epistémico que adviria da sua própria condição feminina. e Gloria ANZALDÚA. da pertença ao grupo das mulheres. Adrienne RICH. para o seu conceito de conhecimentos situados (situated knowledges) e por HARDING. Com o reconhecimento. 1996. assentes nos posicionamentos e nos percursos das mulheres. problematizando género. 17 NOGUEIRA. nomeadamente o grupo das mulheres. 232. ‘raça’ e orientação sexual. 1980. da sua constituição histórica e social. tradução nossa. Florianópolis. Das principais críticas a essas epistemologias. 21 Audre LORDE. 1997. 14(3): 597-615. como sejam o feminismo negro. essa linha crítica centra-se na construção genderizada do projecto da ciência moderna. que é utilizada por Donna HARAWAY. e mesmo feminismos que cruzam essas várias categorias. O conhecimento é assumidamente parcial. tão arduamente conquistado. para a concepção da objetividade forte (strong objectivity). pois. O desenvolvimento de teorias e métodos radicalmente diferentes dos convencionais-positivistas. uma das maneiras de combater essa opressão patriarcal instalada na ciência.18 18 HARAWAY. dessa miríade de realidades que se escondem atrás da homogeneização categorial. Nas palavras de Donna Haraway. 1984.20 entre outros. partindo desse pressuposto. É. sobressaem o essencialismo e o consequente diferencialismo que preconizam. uma categoria em si mesma altamente complexa. 16 NOGUEIRA. mulheres seriam as cientistas ideais para estudarem as mulheres. Não existe nada no facto de ser ‘fêmea’ que vincule naturalmente as mulheres. 2001 a. pois. 2004. 2001 a.

1988. 26 27 Michel FOUCAULT.24 recorrendo às controvérsias entre adeptas e contestatárias dessa relação. 1991a. 1975. A integração dos conceitos foucaultianos de poder. 14(3): 597-615.30 O papel da linguagem e do discurso na construção e difusão dessa ordem de género é estruturante e as investigações centram-se em métodos como a análise do discurso. OLIVEIRA e AMÂNCIO. 1998. 25 HARAWAY. 2002. que passa a ser entendida como uma construção social e ideológica. Veja-se a esse propósito a pertinente discussão que o autor faz do entendimento do gênero como performance em Judith Butler. NOGUEIRA. como evidencia Conceição Nogueira. 28. Contudo. 28 29 30 33 Karin KNORR-CETINA. geração. e Bruno LATOUR e Steve WOOLGAR.. entendido como uma ordem social.28 O género é.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO 22 Jean-François LYOTARD. 2004. dado que desconstrói o seu sujeito histórico: a mulher. Florianópolis. e enfatizar o papel da linguagem na construção do género e do androcentrismo.31 que integram uma dimensão política. não uma categoria préformada de seres ou algo que alguém possa ter na sua posse [. 2002. inserida nas grandes narrativas de legitimação.29 que antecede o sexo e que fornece uma grelha de leitura e de performance para o próprio sexo. constituídas de forma variada e diferenciada por nação. Miguel VALE DE ALMEIDA. 1991b. linhagem. 23 24 NOGUEIRA. para além da reflexão epistemológica feminista. OLIVEIRA. 22 A definição de género desenvolvida por Haraway também é elucidativa no quadro dessa questão da emergência de feminismos localizados: O gênero é uma relação.]. 2001 a e 2001b. Essa relação entre feminismo e pós-modernismo é tensa. construído nas interacções e no discurso. pois o carácter relativista do pós-modernismo e a sua crítica às metanarrativas de legitimação podem inclusivamente pôr em causa o próprio movimento.33 Haraway evidencia que os cânones tradicionais do método científico e da objectividade não são 600 Estudos Feministas. e Sue WILKINSON.27 e de resistência permite ainda proceder à arqueologia da construção social do género e vê-lo como um discurso. moderno(s) vêm a fazer dessa categoria. Jacques DERRIDA. instaurando no centro do debate uma preocupação política partilhada pelas feministas: a desconstrução da grande narrativa do homem branco. tradução nossa. 1990. encarado como um poder difuso. 1966. analisando o modo como género e poder são reconstruídos e reproduzidos na linguagem. às perspectivas construcionistas dos estudos sociais da ciência e tecnologia. 2001 a. 1981.26 politicamente orientada. 32 HARAWAY. O gênero é a relação entre categorias de homens e de mulheres.. É partindo desse enquadramento na teoria feminista pós-moderna que Haraway32 desenvolve a sua crítica às epistemologias tradicionais da ciência. 2001. 2004.23 HARAWAY. uma performance incorporada de actos repetidos. classe. p.25 Há assim uma preocupação em estabelecer uma agenda desconstrucionista. Judith BUTLER. moderno e ocidental. cor e muito mais. Robert CONNELL. Recorrendo. pois. 2005. 31 NEVES e NOGUEIRA. setembro-dezembro/2006 . o feminismo pode também contribuir para balizar o relativismo. 1989.

A exclusão das relações/redes de poder do conhecimento científico34 faz parte da retórica da ciência e das suas narrativas de legitimação enquanto saber/poder e forma de poder disciplinar. em vez de se optar por aquilo que a autora chama “truque divino” ( God trick ). localizadas e construídas. Tanto as visões infinitas como a visão simultânea de todos os pontos de vista são ilusórias. cair no universalismo e por outro no relativismo. indissociavelmente inscrita na metanarrativa patriarcal e moderna. As subjectividades são múltiplas. portanto. Os conhecimentos situados correspondem a uma incorporação dos saberes. em vez dos falsos universalismos da ciência positiva. no olhar contextualizado. 1998). a objectividade na produção feminista assenta-se na parcialidade. pois. 36 HARAWAY. uma descrição adequada do modo como a ciência é feita. que obscurece o carácter localizado do conhecimento e o apresenta simultaneamente como um resultado final e como uma lei universal (seguindo os pressupostos positivistas). como pretendiam as filosofias assentes na estrita separação entre sujeito e objecto. quer a sua consequente contestabilidade. no quadro da sua produção. Assim. de Estudos Feministas.TEORIAS FEMINISTAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 34 HARAWAY. por um lado. deve evitar. estabelecer as verdades e os factos científicos. nem a dimensão tecnológica. 1991b. ambas as perspectivas obscurecem os pontos da rede onde o conhecimento é produzido. partindo da opção pela responsabilidade na produção dos saberes e pela sua localização sócio-histórica. Ou seja. uma dessas estratégias discursivas e visa. Assentes na lógica de uma visão deslocalizada. Os conhecimentos situados são a proposta epistemológica de localização e de consideração da contextualidade do conhecimento.36 Tanto a totalização universalista como a negação de responsabilidade relativista impedem quer o escrutínio. Mas essa desconstrução. 1975. quer a responsabilização pela construção do conhecimento. implica partir do princípio de que os conhecimentos têm um ponto de partida e de produção. os seus pressupostos. evidenciando quer a sua contingência histórica. p. A própria constituição de um sujeito que conhece não é unificada. precisamente por ser balizada pela implicação política feminista. enquanto se declara estar igualmente em toda a parte”. sem ser possível descortinar o processo nem a sua localização no mundo. 256. setembro-dezembro/2006 601 .35 A objectividade é. E que se integrem na análise as condições de produção do conhecimento. o locus da sua produção. tradução nossa. por seu turno. Dessa forma. “O relativismo é um modo de estar em sítio nenhum. sem excluir. 1991a. 14(3): 597-615. já tinha integrado a ciência na ideia de regime de tecnociência. Florianópolis. em busca de verdades para a sua autolegitimação. essas reivindicações de verdade de que se reveste a objectividade podem ser desconstruídas. 35 FOUCAULT. nem as relações entre a tecnociência e a política no sentido lato e o carácter de constituição de um regime de verdade assente na lógica científica (ver também HARAWAY.

nem o é o seu pensamento. 1996. Essas oposições podem ser encontradas quer na psicologia comportamentalista. 602 Estudos Feministas. por via da inter-subjectividade. Contudo. embora dissimulado em duas diferentes abordagens filosóficas: empirismo e racionalismo. Em uma obra sobre a história da psicologia social. que podemos contrapor a essas propostas clássicas da psicologia social. BAKHTIN. e 2) as formas sociológicas. não é a identidade37 que estrutura a posição de quem investiga. 1986. 14(3): 597-615. Florianópolis. que tem um particular privilégio no seu autoconhecimento. baseadas na importância fundamental do outro e conseqüentemente do social para definir (e representar) o indivíduo. como preferiria a psicologia discursiva. mas sim a afinidade parcial. quer na cognição social. o acto de conhecer inclui um diálogo entre dois ou mais sujeitos. 1989. Dualismo muito criticado nos estudos sobre o corpo como constatam Thomas CSORDAS. 39 40 41 MARKOVÁ. Consequentemente. como é bem demonstrado por Ivana Marková. 42 43 Serge MOSCOVICI. a própria objectividade reside na contextualização do conhecimento. em algumas posturas das teorias do standpoint mais essencialistas. GRAUMAN. O paradigma cartesiano foi bastante influente na forma psicológica da disciplina. o que acontece apenas quando o objecto é desprovido de voz (voiceless) ou discurso.40 sujeito e objecto.38 Robert Farr distinguiu duas formas específicas da disciplina: 1) as formas psicológicas.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO 37 Nem mesmo a da essencializada Mulher do Terceiro Mundo. setembro-dezembro/2006 . essas abordagens da psicologia social falham na conceptualização do outro e da sua importância para a própria definição da identidade pessoal. Primeiro procede a uma distinção entre explicação (erklären) e compreensão (verstehen). os seres humanos não são desprovidos de voz. que têm assim por base o mesmo paradigma. 1984. permitindo aquilo a que Carl Grauman 39 chamou de individualização do social e dessocialização do indivíduo. Desse modo. para eliminar a localização e posição do conhecimento. que se comporta como religião. modo que o próprio sujeito que conhece é parcial. que se tornaram dominantes nos Estados Unidos e estão vinculadas aos valores do cepticismo e do individualismo. o sujeito. 1996. ligandose aos outros. Essa perspectiva demonstra a irracionalidade inerente à ciência positiva omnisciente e às crenças no dogma de uma objectividade que reside no método. Em outras palavras. 1981. ego e outro. e VALE DE ALMEIDA.41 Utilizando como unidade de análise o indíviduo.42 Mikhail Bakhtin43 propõe uma nova epistemologia para as ciências sociais e humanas. Teoria das R epresentações Sociais Representações 38 FARR. 1982. A obra filosófica de Descartes opõe mente e corpo. A explicação só é possível num enquadramento em que se possa estabelecer a separação entre sujeito e objecto. o percepiente (perceiver). que utiliza truques divinos como a fetichização do método.

a epistemologia dialógica implica invalidar a distinção sujeito-objecto e as homologias self-sujeito e outroobjecto. classificando o conhecimento colectivo como irracional. Estudos Feministas. por via da constatação do mecanicismo dessas perspectivas e sugerindo a metáfora da machine à répondre e da machine à inférer para descrever a representação do ser humano nessas perspectivas. em espaços de intersubjectividade. a relação de conhecimento que importa estudar na psicologia social implica sempre a existência de um outro (o social) que condiciona o acto de conhecimento de um objecto. classificar essa proposta de Moscovici 45 como uma epistemologia dialógica. Um exemplo dessa epistemologia dialógica na psicologia social é a Teoria das Representações Sociais. 1972. 45 MOSCOVICI. a Teoria das Representações Sociais assentase em uma concepção do conhecimento como um processo de construção colectiva. Também Moscovici49 fez a crítica quer às posições do comportamentalismo. A proposta de Bakhtin tem implicações directas para as ciências sociais. 1996. rejeitando as análises cartesianas do conhecimento individual como a verdadeira racionalidade. como é bem demonstrado por Farr. relacionado com crenças e preconceitos e sujeito a enviesamentos. e em vez de uma análise que oponha sujeito e objecto. com diferentes racionalidades e intencionalidades em jogo. analisando as cognições em interacção. setembro-dezembro/2006 603 . assim.TEORIAS FEMINISTAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 44 MOSCOVICI. Assim. pois. assentes em epistemologias monológicas. a actividade de produção de significado. 47 Sandra Jovchelovitch48 critica justamente as abordagens cognitivistas. 2001. Essas abordagens cognitivistas não levam em conta a actividade simbólica. que devem assumir uma compreensão activa desse diálogo. 2001. isto é. quer às posições do cognitivismo. Estamos. Podemos. Em vez disso. 14(3): 597-615. 46 Sandra JOVCHELOVITCH. Florianópolis. de acordo com o que o investigador esperava como resposta correcta). que não se recordam e não percepcionam ‘correctamente’ (ou seja. JOVCHELOVITCH. Moscovici 44 raciocina de modo semelhante quando concebe o chamado triângulo semiótico. atribui ao outro o estatuto epistémico de outro sujeito. 1984. a cognição deve passar a ser encarada de forma dialógica. Assim. 1984.46 rejeitando as metáforas emergentes das divisões ontológicas entre sujeito e objecto. Para o autor. excessivamente imbuídas de concepções individualistas do conhecimento. incorrem em erros/enviesamentos (bias). perante um projecto de análise da co-construção do conhecimento. 47 48 FARR. 49 MOSCOVICI. pela sua inépcia em lidar com os processos de construção colectiva de significados e por considerarem que os sujeitos. à boa maneira positivista e monológica.

Alargando o âmbito desse conceito. p. que estabelece relações definidas entre o ser humano e o seu meio. presentes no mesmo indivíduo ou grupo. 1989. Moscovici50 atribui um objecto (a sociedade pensante) à disciplina. Mais recentemente. p. da consistência. Ao reclamar a produção colectiva de conhecimento como objecto da psicologia social. e que tomam como garantidos”. setembro-dezembro/2006 . 1994. os “themata”. obrigando-a. a expressão das representações assume um carácter contextual e estratégico. 1976. 2002. Retomando a métafora feliz de Jean-Claude Deschamps. 14(3): 597-615. da consonância cognitivas.57 A polifasia cognitiva evidencia um grande potencial para esse projecto de estudo do conhecimento socialmente partilhado: para além da busca da harmonia. esse projecto de reposicionamento da produção e reprodução do conhecimento como um processo generalizado e socialmente partilhado coloca uma questão de fundo. 2002 e 2004. 56 MOSCOVICI. 54 58 59 MOSCOVICI E VIGNAUX. a adoptar o papel de Janus das ciências sociais. 1976. 51 53 JOVCHELOVITCH. 1989. ainda que dentro do quadro de uma estrutura social de conhecimento partilhado. que constantemente re-emerge nas transformações das 604 Estudos Feministas.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO 50 MOSCOVICI. 286.54 MOSCOVICI. 52 MOSCOVICI. por via de um passado histórico. 57 JOVCHELOVITCH. Serge Moscovici e Georges Vignaux58 adicionaram um novo conceito à teoria. que é usada de forma simultaneamente reflexiva e prática. dotando os seres humanos de agencialidade. em última instância. determina um estado de polifasia cognitiva. tradução nossa.51 articulando níveis de análise em uma tentativa de encetar uma antropologia da cultura moderna. Os “themata” são ideias centrais a partir das quais criamos representações. 55 Como demonstramSandra JOVCHELOVITCH e Marie-Claude GERVAIS. 34. que a nosso ver é fundamental: a emancipação da psicologia social como disciplina autónoma das lógicas individualistas da psicologia e das lógicas estruturais da sociologia clássica. MOSCOVICI.52 A re-utilização do conceito de polifasia cognitiva53 permite enfatizar a relação de interdependência entre representações sociais e contextos: De um modo geral. p. Simultaneamente. 60 Esse conceito55 foi criado por Moscovici56 para dar conta da coexistência de diferentes racionalidades. podemos estimar que a coexistência dinâmica – interferência ou especialização – de modalidades distintas de conhecimento. 1999.60 Esse conceito traduz mais uma ligação das representações à linguagem. 31. Florianópolis. de forma explícita ou implícita. sobre os quais falam. Moscovici afirma que “os themata são pedaços de conhecimentos. baseado nos trabalhos de Gerald Holton59 sobre ideias-chave que regulam a produção de novos conceitos dentro da comunidade científica. HOLTON. partilhados pelas pessoas. O uso particular de uma ou outra racionalidade dependeria do contexto e da intenção. 1989. 1988. 2001. tradução nossa.

67 3) importância da dimensão histórica na produção do conhecimento. parece ir ao encontro da proposta de Donna Haraway. AMÂNCIO. patente quer na preocupação com os “themata”. 1991b.62 Por exemplo. alargando os seus objectos e contextualizando-os na história. 64 MARKOVÁ. 14(3): 597-615. com um objectivo prático e que concorre para a construção de uma realidade comum a um colectivo”. 2003. dessa forma.TEORIAS FEMINISTAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 61 Paula CASTRO e Isabel GOMES. no quadro da Teoria das Representações Sociais.72 Os desafios dos conhecimentos situados A ênfase no carácter situado do conhecimento. 2003. tradução nossa. por via da relação entre representações e comunicação. A integração da linguagem. p. 2003. 71 representações sociais. 36. FARR. 1984. e AMÂNCIO.68 No plano epistemológico. 2000. JODELET. Florianópolis. 2001. 1996. João Manuel de Oliveira63 mostra como a Igreja Católica utiliza o thema da vida para ancorar o feto. 66 JOVCHELOVITCH. OLIVEIRA.70 c) enfatizar a dimensão simbólica da produção de significados.69 b) optar por formas sociológicas da psicologia social. legitimar com essas idéias-base de vida versus morte o seu discurso em relação ao aborto. 67 68 69 70 MOSCOVICI.73 clarificada 73 HARAWAY. que a Teoria das Representações Sociais pode ser lida à luz das seguintes características-chave: 1) contextualidade da produção do conhecimento. socialmente elaborada e partilhada. 2002. 2000. A explicitação e apresentação desse quadro teórico permite-nos apresentar uma definição consensual do conceito de representações sociais desenvolvida por Denise Jodelet: “Uma forma de conhecimento. olhando para a forma como essas representações têm uma finalidade prática e são usadas para construir uma realidade. 2005. 1989. como esperamos ter demonstrado. quer na análise das modalidades ou géneros comunicativos. em indivíduos que pensam no seio de sociedades pensantes. 72 AMÂNCIO. Estudos Feministas. setembro-dezembro/2006 605 . 65 JODELET. Consideramos. esses pressupostos permitem à Teoria das Representações Sociais: a) rejeitar o indíviduo como unidade de análise básica da psicologia social.65 Essa definição ilustra bem as potencialidades da teoria. 1989. 62 63 AMÂNCIO. 64 não é descurada.66 2) dialogismo e co-construção como base das cognições. 2003. opondo-lhe o thema da morte para ancorar o aborto e.61 Esse diálogo com o passado permite introduzir uma dimensão histórica nos estudos das representações sociais. sendo este substituído pela relação ego-alter-objecto.71 d) contextualizar o conhecimento na história. que estuda o senso comum. MARKOVÁ.

80 que oculta e rejeita os modelos alternativos e as diferentes formas de pensar. e HARAWAY. 79 80 81 82 SANTOS. 14(3): 597-615. HARDING. um conhecimento situado. 1991b. é evidente que não é possível continuar a aceitar a clivagem entre conhecimento científico e outras formas de conhecimento. 77 78 Veja-se. KNORRCETINA. 75 HARAWAY. O conhecimento científico não pode. 1985 e 2000. 2003. pois. criado nos contextos e na dinâmica histórica dos símbolos. como tem sido demonstrado nos estudos sociais da ciência. SANTOS. e LATOUR e WOOLGAR. 1989. elaboradas a partir da sua crítica às noções tradicionais da objectividade e que se posicionam contra esse modelo da razão indolente. 1984.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO Jorge JESUÍNO. e como nota Haraway. quer a(s) sua(s) comunidade(s). Contudo. 1981. permite. 1996.79 A constatação da falência da ciência assente no modelo da razão indolente. os sistemas de crenças. quando é. reivindicar um novo modo de produzir e pensar a ciência. p.78 Boaventura de Sousa Santos afirma: “Os pressupostos metafísicos.75 a ciência é também localizada e situada. fora da ciência moderna e ocidental. como também mostra Moscovici76 na sua crítica à psicologia comportamentalista e cognitivista. Florianópolis. nomeadamente nesse entendimento do conhecimento como um projecto partilhado e colectivo. Anne FAUSTO-STERLING. o sujeito do conhecimento (quer o indivíduo. Aceitar o carácter situado do conhecimento implica. deve ser admitido como igualmente verdadeiro o modo como sistemas de crenças e de juízos de valor interferem no pensamento científico. SANTOS. quer os seus pressupostos ocultos) deve ser colocado no mesmo plano do objecto do conhecimento 606 Estudos Feministas. setembro-dezembro/2006 . Contudo. como tem sido amplamente demonstrado pela teoria feminista. Encarando a contextualidade na produção de qualquer conhecimento. não consonante com esse modelo do desperdício da experiência social. 1988. assumir-se como um conhecimento fora do mundo. 76 MOSCOVICI. pois. O conhecimento científico apresenta diferentes formas de legitimação do conhecimento do senso comum. no conceito de conhecimentos situados. em contextos e instituições. A ciência faz parte da dinâmica dos saberes e é feita por actores sociais. os juízos de valor.52. por exemplo. tal como todos os outros. por fazer um esforço evidente de se deslocalizar e universalizar. não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. tal como vêm sendo apresentadas nas suas acepções mais positivistas. 2000.74 Logo. 74 MOSCOVICI e Milles HEWSTONE. 1995. universalmente válido e assente em leis gerais.81 Sandra Harding82 desenvolveu três propostas para a ciência. essas propostas implicam alterações no próprio projecto do conhecimento científico. Primeiro. 1988. 1972. rejeitar a proposta de Moscovici e Hewstone77 de uma oposição fundamental entre o conhecimento reificado e o conhecimento consensual. pois. São parte integrante dessa mesma explicação”.

setembro-dezembro/2006 607 . 2006. integrada por sua vez em uma ordem de género mais geral. construiu mitos de género permitiram evidenciar como o paradigma positivista centrou-se em uma visão androcêntrica dos mecanismos biológicos. veja-se também AMÂNCIO e Oliveira. intimamente ligada à segunda. muito centrada nas metodologias quantitativas. assumindo expressões contextuais específicas. É. nomeadamente a biologia. quer os machos de espécies animais como modelos para pensar humanos e animais. promovendo. c) Reflexividade e pluralidade metodológica. em Portugal. em vez de falsos neutros.TEORIAS FEMINISTAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 83 FAUSTO-STERLING. como modos de pensar uma epistemologia para uma psicologia social das representações sociais assente nos conhecimentos situados. diz respeito à clara opção pela ligação entre ciência e democracia. de várias tradições disciplinares): a) Implicação política. por via da reprodução social dos comportamentos. remetendo a sexuação apenas para as mulheres. Uma segunda proposta diz respeito à dimensão política das ciências. 84 A esse propósito. 1985. emoções e saberes. A crítica ao positivismo que vem sendo desenvolvida nas correntes mais discursivas da psicologia social. A desocultação desses pressupostos é feita por via de uma tomada de consciência feminista. que propomos. uma ciência reflexiva. dando voz aos que foram silenciados pela ciência mainstream e optando pela implicação política da ciência e pela rejeição da neutralidade aparente. 14(3): 597-615. analisa o modo como um regime de género é construído localmente. em vez de fetichismos metodológicos assentes nas doxas quantitativas da psicologia social mainstream. simultaneamente. e por isso politicamente implicada. mostra possibilidades de fuga ao endoutrinamento imposto pela formação das/dos investigadoras/es. pois. em vez de falsos universalismos. A terceira proposta. 1995. que permite tornar evidente essa construção do masculino como referente universal. usando quer os homens. O estudo de Miguel Vale de Almeida85 sobre a construção social da masculinidade em uma aldeia do Alentejo. 85 VALE DE ALMEIDA. A ilustração desse regime local de gênero.84 b) Contextualidade e localização. nomeadamente por via da análise do discurso. a partir dessas epistemologias críticas de uma ciência consonante com uma racionalidade indolente. e questionado como tal. e do nosso ponto de vista. no sentido da promoção dos direitos humanos de todas e de todos. as seguintes práticas e pressupostos (que ilustraremos com alguns exemplos de pesquisa. mostra a necessidade de descodificar. Contudo. expressões locais e contextuais do género e a ordem hegemónica em que esses regimes se inscrevem. Florianópolis. o Estudos Feministas. pois. Os estudos de Anne Fausto-Sterling83 sobre os modos como a ciência.

a necessidade de clarificação das agendas. 2005. também ela ligada à importância da implicação política. como são o uso quase exclusivo do método experimental e a centralidade da construção individual de sentido. sem questionar as práticas e os pressupostos comuns a ambos. 87 tornaram evidente a necessidade de reflectir sobre os pressupostos que guiam as pesquisas. em vez de o legitimar na produção científica. setembro-dezembro/2006 . que evidenciam o carácter ideológico da ciência e o modo como ciência e ideologia podem cruzar-se na perspectiva da mudança social. O primeiro caracteriza-se pela negação da discriminação sexual na trajectória de mobilidade ascendente. e) Integrar o poder enquanto objecto de análise. O problema é epistemológico. Assim. que mais depressa centra-se na idolatria do método do que na integração do método como parte de um processo mais vasto e mais abrangente de produção de saber e conhecimento. mas também na vontade expressa de promover processos de mudança social nas relações sociais de género. Os estudos de Conceição Nogueira89 sobre as mulheres em posições contraditórias reflectem as contradições dos próprios discursos dessas mulheres em posições de elevado poder e estatuto. sobretudo. A própria ancoragem nas epistemologias feministas evidencia desde logo essa necessidade de clarificação. já foi diagnosticado por Karl Popper86 e está relacionado com a operacionalização da psicologia. em vez da aceitação de agendas e objectivos ocultos. passou a integrar a dimensão de reflexão da própria pesquisa. 89 NOGUEIRA. Os estudos de género não são excepção nesse esforço e torna-se clara a importância de explicitar claramente que estes estudos não se centram apenas na produção de conhecimento. Não é pelo facto de serem quantitativos que esses métodos são inadequados ou desaconselhados. 2002.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO 86 POPPER. 88 NEVES E NOGUEIRA. 87 CASTRO. Florianópolis. a teoria e o problema da investigação. mas sim nos usos que são feitos dessas metodologias. d) Clarificação crítica de pressupostos. 14(3): 597-615. como nos mostram Neves e Nogueira88 na sua análise das metodologias feministas na psicologia social. Essa autora analisou os discursos das mulheres em posições de chefia e distingue dois tipos de discurso: o discurso essencialista/individualista e o discurso colectivista/ resistência. que orientam a produção do saber. em vez de serem mantidas ocultas. pela assunção da distintividade em relação 608 Estudos Feministas. de reflectir sobre a articulação entre o método. torna-se evidente a necessidade de recorrer a métodos qualitativos de forma mais sistemática e. problema não reside nos métodos de investigação. Assim. 1962. As perspectivas críticas introduzidas na psicologia social. 1996. na sequência da substituição passiva do comportamentalismo pelo cognitivismo.

vem sendo posto em prática em estudos de análise do discurso. mas uma poderosa e infiel heteroglossia. emanadas de pontos diferentes. A heteroglossia é outro conceito que devemos a Bakhtin92 e que se ancora na dimensão co-construída na linguagem. misturando nesse espaço de individualização um discurso que acentua as dificuldades que se impõem a um indivíduo mulher e os obstáculos que resultam do papel feminino. em vez da monológica oposição sujeito/objecto. Florianópolis. sem que esse discurso afecte a avaliação das suas capacidades e a sua auto-estima. escutando as vozes do/as participantes e mostrando o modo como esses discursos se diferenciam. 1981. 14(3): 597-615. 91 HARAWAY. centrado nessa multiplicidade de discursos. A heteroglossia está ligada ao modo como os discursos sociais são constituídos por uma multiplicidade de outros discursos. 1995.90 Esses diferentes usos e legitimações de um poder que advém da posição. No que toca às estratégias de mudança social.TEORIAS FEMINISTAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 90 AMÂNCIO. configurando uma identidade ‘super-mulher’. A ruptura introduzida pelo texto programático de Donna Haraway. f) A multiplicidade de vozes no conhecimento científico. ligados a grupos e a relações de poder. a não ser num quadro (individualista) de mobilidade social. este último discurso critica a ideologia dominante e refere a mudança social como muito importante. ilustra a importância da heteroglossia para a construção de saberes e reflexões feministas. fala-nos dessas várias vozes. Esse programa de pesquisa. particularmente o discurso essencialista/individualista. e que simultaneamente contradiz a posição em que. 92 BAKHTIN. O sonho irónico de Haraway. Já o discurso colectivista/resistência evidencia uma perspectiva diferente: nesse caso as mulheres assumem a forte discriminação sexual de que foram e são alvo. setembro-dezembro/2006 609 . 1991a. as mulheres deveriam ocupar na esfera do trabalho. vêem-se como membros de um grupo dominado e realçam as dificuldades que encontram para atingir uma posição de topo. ao mesmo tempo que se analisam os pontos de contacto entre as Estudos Feministas. Essa perspectiva não permite a mudança. foram integrados e analisados como objecto de estudo. parecem revelar o esforço de adequação identitária à dupla pressão exercida na situação de elite discriminada: as mulheres diferenciamse dos homens por serem mulheres e das outras mulheres pela posição social que ocupam. O discurso essencialista/individualista reproduz a ideologia dominante e o modelo tradicional feminino.91 o Manifesto Ciborgue. às outras mulheres e aos homens e por uma legitimação meritocrática do sucesso profissional. o ciborgue no mundo pósgénero. supostamente. a construírem não um discurso igual. e aderem aos valores ‘universais’ para iludirem uma condição colectiva que não deixa de estar presente. Essas estratégias discursivas.

1. entre vozes que por vezes são uníssonas e outras vezes. Os estudos de António Marques93 sobre as culturas profissionais e as masculinidades evidenciam esse jogo entre variabilidade e consenso. 2003. Lisboa: Livros Horizonte. Referências bibliográficas AMÂNCIO. NOGUEIRA. ANZALDÚA. Social Science Information. Mas para tal é necessária uma explicitação mais clara do seu lugar no seio da psicologia social. com a centralidade que atribuiu à reabilitação dos saberes do senso comum. v. ______. Social Identity and Social Chang”. “Reflections on science as a gendered endeavour: changes and continuities”. Com este texto. criar um lugar de diálogo entre essas duas abordagens. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. BAKHTIN. n. presentes na produção do conhecimento científico. 1. do ponto de vista das suas potencialidades para a pesquisa psicossociológica. Management and Science . In: LIMA. OLIVEIRA. Braga: Universidade do Minho. Lígia. p. 111124. p. várias vozes. 3543. mais implicada. Women as a Sexed Category: Implications of Symbolic Asymmetr y for Feminist Practice and Feminist Psychology”. Lígia.JOÃO MANUEL DE OLIVEIRA E LÍGIA AMÂNCIO 93 MARQUES. v. mas simultaneamente de crítica interna à disciplina. GARRIDO. “Men as Individuals. AMÂNCIO. Conceição (Eds. Texas: Texas University Press. CASTRO. Margarida (Eds. Com a polinização da teoria pelas alternativas que a crítica feminista à ciência propõe e a sua aplicação aos saberes psicossociológicos. Luísa. Lígia. 2006. contraditórias. 16. 1981. Instituto de Educação e Psicologia. “Gender. As representações sociais parecem ser uma das epistemologias que poderão ir ao encontro desse desafio que os conhecimentos situados permitem propor. Florianópolis. 65-83. Sem esses pressupostos. 610 Estudos Feministas.). a proposta dos conhecimentos situados ficaria muito limitada. Temas e debates em psicologia social. “Género e assimetria simbólica: o lugar da história na psicologia social”. pois. 2005.). cremos poder contribuir para este esforço de construir uma ciência mais inclusiva. Paula. Gloria. mas também mais consciente. 1987. como de resto a Teoria das Representações Sociais já tinha feito. ______. n. 2005. p. 1995. permitimonos. Mikhail. Gender. San Francisco: Spinsters Aunt Lute Books. João Manuel. para lhe propor uma opção pelos saberes emancipatórios. 14(3): 597-615. setembro-dezembro/2006 . The Dialogical Imagination. 44. Feminism & Psychology. In: AMÂNCIO.

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