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ComércioExterior

Comércio Exterior

Fernando Seabra
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do autores.
PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Luiz Inácio Lula da Silva

MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Fernando Haddad

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


Carlos Eduardo Bielschowsky

DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE POLÍTICAS EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


Hélio Chaves Filho

SISTEMA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL


Celso Costa

COMISSÃO EDITORIAL DO PROJETO PILOTO UAB/MEC


Marina Isabel Mateus de Almeida (UFPR)
Teresa Cristina Janes Carneiro (UFES)

DESIGNER INSTRUCIONAL
Denise Aparecida Bunn
Fabiana Mendes de Carvalho
Patrícia Regina da Costa

PROJETO GRÁFICO
Annye Cristiny Tessaro
Mariana Lorenzetti

DIAGRAMAÇÃO
Annye Cristiny Tessaro
Rita Castelan

REVISÃO DE PORTUGUÊS
Sérgio Meira

ORGANIZAÇÃO DE CONTEÚDO
Fernando Seabra
Sumário
Apresentação....................................................07

UNIDADE 1 – O Sistema de Comércio Exterior:


Teoria e Aplicações

O princípio das vantagens comparativas.......................................................11


O papel dos recursos de produção: o modelo de Heckscher-Ohlin......17
A determinação dos preços em Comércio Internacional...................24
Concorrência imperfeita e comércio intraindústria..............27
Tarifas e barreiras não-tarifárias......................................................30
Resumo............................................................................41

UNIDADE 2 – O Padrão de Comércio Exterior Brasileiro

Introdução ao comércio exterior................................................................45


Definições de modalidade de comércio: Incotermos........................49
Nomenclatura para exportação.........................................55
Documentação para exportação...............................................57
Transporte e logística..............................................................63
Resumo............................................................................72
Atividades de aprendizagem.....................................................................72

UNIDADE 3 – Competitividade, Marketing e


Sistemas de Incentivo às Exportações

Estratégias de internacionalização...........................................................75
A decisão da firma de investir no exterior........................................76
Competitividade das exportações..................................................81
Marketing internacional...................................................................89
Resumo............................................................................101
Atividades de aprendizagem.....................................................................102
UNIDADE 4 – Os Fluxos Comerciais Brasileiros

Exportações e importações brasileiras e mundias......................................105


Comércio exterior e taxa real de câmbio..........................................111
Fluxos de investimento externo..................................................115
Brasil e os blocos comerciais..................................................118
Resumo............................................................................128

UNIDADE 5 – Comércio Exterior e Estratégias


de Desenvolvimento

O Papel dos organismos multilaterais...............................................131


As instituições de Bretton Woods....................................................132
Comércio livre e políticas de promoção de exportações.................139
Resumo............................................................................145
Atividades de aprendizagem.....................................................................146

Referências.....................................................................................147

Minicurrículo.....................................................................................150
Apresentação

Prezado(a) estudante!
Talvez você possa ter uma grande expectativa a respeito da dis-
ciplina de Comércio Exterior. Por quê? Porque é um assunto cuja im-
portância tem aumentado muito na mídia e em oportunidades de traba-
lho. A globalização, a abertura dos mercados e a maior integração eco-
nômica e financeira entre as nações é um fato que todos reconhecem.
Mais comércio entre os países é uma consequência direta disso tudo.
A disciplina de Comércio Exterior combina teoria e prática. Como
o assunto de comércio exterior é de grande apelo prático e profissio-
nal, há o perigo de que o curso seja muito informativo e pouco analí-
tico. Como assim? Que o professor despeje um monte de informa-
ções, conceitos, regras de comércio, documentação e legislação, mas
não faça com que vocês pensem como isso tudo afeta estrategicamen-
te a empresa, que decisões tomar frente a diferentes mercados, quais
as opções de contratos e perspectivas econômicas de outros países.
É importante conhecer a informação, mas mais ainda, saber se
posicionar em relação a ela. Conto com vocês nesta tarefa!
Os temas que vamos abordar neste curso vão desde uma noção
básica, mas sólida, dos determinantes teóricos do comércio internaci-
onal, passando pelo exame de blocos regionais e estratégias de comér-
cio e desenvolvimento, até questões práticas, de importância estratégi-
ca para empresas, como modalidades de transporte, estratégias de
marketing internacional e contratos de câmbio.
Eu tenho tido muito prazer estudando, pesquisando e ensinando
em comércio exterior. É uma área extremamente dinâmica, onde tudo
muda rapidamente. Informação e capacidade de análise são essenci-
ais. Não há mais empresa sem links com o mundo globalizado: seja
através da exportação, importação, financiamentos ou simplesmente
pelos afeitos macroeconômicos que viajam – às vezes, sem parecer
fazer sentido – de um país para o outro, em um efeito dominó.
Espero vocês, então, para esta viagem ao comércio exterior. Para
mim, ensinar tem sido um caminho de mão dupla e tenho certeza que
irei também aprender muito com vocês.
Até mais tarde,
Um abraço.

Fernando Seabra
UNIDADE

1
O
O Sistema
Sistema de
de Comércio
Comércio
Exterior:
Exterior: Teoria
Teoria ee Aplicações
Aplicações
Curso de Graduação em Administração a Distância

Objetivo

O objetivo desta Unidade será fornecer a base teórica para a descrição e

análise do Comércio Exterior. Serão discutidos os modelos teóricos das

vantagens comparativas e a abordagem de Heckscher e Ohlin.

Serão expostas, também, a formação de preços na economia

internacional e a natureza do comércio interindústria e do comércio

intraindústria. Por fim, apresentaremos as restrições ao comércio livre

(tarifas e barreiras não-tarifárias).

10
Módulo 7

O princípio das
vantagens comparativas

Amigo(a) estudante,
Para entender as práticas de comércio exterior e as estraté-
gias das empresas para a conquista de mercados distantes é
importante que antes tenhamos uma visão mais geral do
que determina as trocas comerciais, isto é, o que leva as
nações a fazerem comércio. Então, nesta primeira Unida-
de, vamos apresentar e discutir um pouco da teoria básica
que procura explicar por que os países comercializam en-
tre si, que ganhos eles podem ter com essas trocas e tam-
bém quais são as restrições e as dificuldades para exportar
para alguns mercados. Vamos ter a oportunidade de verifi-
car diferenças entre o comércio de países já desenvolvidos
e menos desenvolvidos, de discutir a experiência de expor-
tadores que buscam vender um produto com características
únicas no mercado e de avaliar como os países mais ricos
têm buscado formas diferentes – e às vezes disfarçadas – de
proteger os seus produtos. Os estudos de casos devem en-
tão ser úteis para ilustrar e consolidar o argumento teórico.
Bons estudos e conte conosco.
Para saber mais
*David Ricardo (1772-1823) – Considerado
Em 1817, um economista inglês, um dos maiores economistas de seu tempo e ain-
chamado David Ricardo, publicou uma da hoje, é considerado o legitimo sucessor de
das obras mais influentes em teoria eco- Adam Smith na divulgação da nascente Econo-
nômica de todos os tempos. As contribui- mia Política. Suas obras atingem vastas áreas da
ções de Ricardo em sua obra, Sobre os economia, tais como: política monetária, teoria

Princípios da Economia Política e da Tri- dos lucros, teoria da renda fundiária e da distri-
buição, teoria do valor e do comércio internaci-
butação, foram muitas (teoria do valor das
onal, sendo que muitos desses temas permane-
mercadorias, da distribuição do produto),
cem atuais. Fonte: <http://augusto-
mas a teoria que o tornou mais conhecido, economia.vilabol.uol.com.br/
e é, ainda hoje, base para os argumentos davidricardo.htm>. Acesso em: 19 nov. 2008.

11
Curso de Graduação em Administração a Distância

favoráveis ao livre comércio, foi a teoria das vantagens compa-


rativas*.
O princípio das vantagens comparativas propõe um argumento
lógico, mas não óbvio. Como assim? Podemos provar que em condi-
ções gerais o argumento é correto, mas ele é contrário ao que se pode
chamar de senso comum. Esse princípio sustenta o seguinte:

GLOSSÁRIO Resultado das vantagens comparativas: mesmo que uma


nação (nação A) não produza qualquer mercadoria a um cus-
*Vantagem compa-
to mais baixo do que outra nação (nação B), ainda assim, o
rativa – princípio
comércio livre traz benefícios para ambas as nações.
proposto por David
Ricardo que justifi-
ca o fato de nações
Essa afirmação é, em geral, contrária à ideia comum de que ape-
e indivíduos se es-
nas países “fortes”, com alta competitividade e que produzam bens a
pecializarem nas ati-
vidades econômicas preços imbativelmente baixos é que se beneficiam do comércio inter-
nas quais seus cus- nacional. Ricardo tentou desmistificar esta ideia. Para demonstrar esse
tos de oportunidade argumento de modo mais formal, vejamos o exemplo 1.
são menores. É o
princípio em que se Exemplo 1 – Vantagens comparativas: um exemplo numérico
baseia o comércio
Vamos supor que existem dois países com população e tamanho
internacional. Logo
de mercado, relativamente semelhantes. Como exemplo – que não são
mais à frente o con-
ceito de Custo de muito diferentes nesses dois quesitos – vamos considerar: Brasil e
Oportunidade no Rússia. Ambos os países produzem duas mercadorias: alimentos e rou-
contexto de comér- pas. Podemos supor, ainda, como fez David Ricardo, que o principal
cio internacional fi- insumo de produção é o trabalho e, para simplificar a análise, que a
cará mais claro. quantidade de trabalho é a mesma em ambos os países.
Fonte: Lacombe Considere, então, que as quantidades requeridas de trabalho para
(2004, p. 315).
produzir uma tonelada de alimento nos dois países são:

Quantidade requerida de trabalho por kg de alimento no Brasil


= 1 h/kg; e
Quantidade requerida de trabalho por kg de alimento na
Rússia = 6 h/kg.

12
Módulo 7

No caso da produção de roupas, as quantidades requeridas são: GLOSSÁRIO


*Vantagens absolu-
Quantidade requerida de trabalho por peça de roupa no Bra- tas – O conceito de
sil = 2 h/peça; e vantagens absolutas
Quantidade requerida de trabalho por peça de roupa na Rús- é atribuído a Adam
sia = 3 h/peça. Smith. Smith, em A
Riqueza das Na-
Nesse exemplo hipotético, o Brasil apresenta vantagens abso- ções (1976), argu-
lutas* na produção de alimentos e roupas, uma vez que a quantidade menta que um país
requerida de trabalho na produção das duas mercadorias é menor, isto tem vantagem abso-
é, tanto a produção de alimentos como a de roupas é mais eficiente no luta na produção de
um bem, se este
Brasil do que na Rússia.
bem é produzido
Para a determinação das vantagens comparativas de uma nação
com custos unitári-
o que importa não é o custo unitário de produção de uma mercadoria, os mais baixos do
mas sim seu custo de oportunidade*. que em outros paí-
No caso do exemplo, o custo de oportunidade de alimentos – ses. Para Smith, o
como só existem dois produtos – é medido em peças de roupas e o comércio seria be-
custo de oportunidade de roupas é medido em quilos de alimentos. néfico apenas para
O custo de oportunidade de produzir uma tonelada de alimento no aquele país que tem
vantagem absoluta
Brasil é, então, obtido pela relação entre a quantidade requerida de
na produção de uma
trabalho por peças de roupas e a quantidade requerida de trabalho por
mercadoria. Fonte:
quilo de alimento. Logo, o custo de oportunidade do alimento no Bra- Elaborado pelo autor.
sil é 1 hora/kg dividido por 2 horas/peça, o que resulta em 0,5 peça/
*Custo de oportuni-
kg. A Quadro 1 resume os demais cálculos de custo de oportunidade. dade – é o valor que
pode ser ganho, por
Custo de oportunidade um recurso de pro-
Países
dos alimentos das roupas dução. Seu cálculo é
importante em deci-
Brasil 0,5 peças/kg (1/2) 2 kg/peça (2/1) sões econômicas,
Rússia 2 peças/kg (6/3) 0,5 kg/peça (3/6) pois mostra se o re-
Quadro 1: Exemplo de Custos de Oportunidade curso de produção
Fonte: elaborado pelo autor (trabalho ou o capi-
tal) está sendo em-
pregado em seu me-
Qual é a consequência destes custos de oportunidade? Bem, lhor uso. Fonte: Ela-
de fato, a análise Ricardiana afirma que uma nação possui borado pelo autor.

13
Curso de Graduação em Administração a Distância

vantagens comparativas na produção de uma mercadoria se


o custo de oportunidade da mercadoria é mais baixo nesta
nação do que nas demais.

Então, de volta ao exemplo, observamos que o Brasil tem vanta-


gem comparativa na produção de alimentos (1/2 peça/kg < 6/3 peças/
kg). Por outro lado, a Rússia tem vantagem comparativa na produção
de roupas (3/6 kg/peça < 2/1 kg/peça).
Podemos dizer, então, que o Brasil tem vantagem comparativa
na produção de alimentos, uma vez que seu custo de oportunidade na
produção de alimentos é mais baixo do que o custo de oportunidade
na produção de alimentos na Rússia. Já a Rússia tem vantagem com-
parativa na produção de roupas, pois o custo de oportunidade desta
mercadoria é mais baixo lá do que no Brasil.
O que acontece então? Se cada um dos países tem vantagem
comparativa na produção de um dos bens, a consequência natural é
que cada país se especialize na produção deste bem em que possui
vantagem comparativa e que, então, para consumir ambos os bens,
troque com outro país.
GLOSSÁRIO
Para mostrar que a especialização dos países, conforme a ideia
*Autarquia – Cha-
ma-se de autarquia de vantagens comparativas, produz um resultado em que o comércio
ou economia tem efeitos benéficos para ambas as nações, vamos continuar com o
autárquica quando exemplo.
em uma determina- Primeiro, considere as condições de produção e consumo nos
da nação não existe dois países antes da especialização e do comércio (solução de
relação comercial autarquia*). Para facilitar os cálculos, vamos supor que a quantidade
com o resto do mun-
de trabalho nos dois países é 24 (por exemplo, 24 milhões de trabalha-
do. Em outras pala-
dores). A alocação, então, dessas 24 unidades de trabalho entre a pro-
vras, a economia é
fechada (em oposi- dução de alimentos e roupas resulta em muitas alternativas. O que im-
ção à economia porta aqui é que todas as 24 unidades de trabalho sejam empregadas.
aberta, quando há Uma solução possível de alocação desse trabalho é quando o Brasil
relações comerciais aloca 16 horas para alimentos e 8 horas para roupas e produz 16 (mi-
com o exterior). lhões) kg de alimentos e 4 (milhões) peças de roupas – pois: [(16 ho-
Fonte: Elaborado ras / 1 h/kg = 16 kg de alimentos) + (8 horas / 2 h/peça = 4 peças de
pelo autor.
roupa)]. Para a Rússia, uma solução é dada, por exemplo, quando são

14
Módulo 7

alocadas 18 horas para a produção de alimentos e 6 horas para roupas,


o que corresponde a uma produção de 3 (milhões) kg de alimentos e
2 (milhões) peças de roupas – pois: [(18 horas / 6 h/kg) = 3 kg de
alimentos) + (6 horas / 3 h/peça = 2 peças de roupa)]. Essa solução de
autarquia está descrita no Quadro 2.

Alimentos (milhões de kg) Roupas (milhões de peças)

Brasil 16 4

Rússia 3 2

Total dos dois países 19 6

Quadro 2: Produção e Consumo sem Comércio


Fonte: elaborado pelo autor

Suponha agora que haja comércio entre os dois países. Nesta


situação, os dois países se especializam na produção daquele produto
em que possuem vantagens comparativas, isto é, o Brasil produz ape-
nas alimentos e a Rússia apenas roupas. Notem que a solução teórica
das vantagens comparativas (no caso de dois bens e dois países) é de
especialização extrema. Então, 100% dos recursos, no caso o traba-
lho, são alocados para a produção de alimentos no Brasil, o que resul-
ta em: (24 horas/1 h/kg) = 24 (milhões) kg de alimentos. Para a Rússia,
tem-se: (24 horas/3 h/kg) = 8 (milhões) peças de roupas. O Quadro 3
descreve este resultado após o comércio. Claramente, os dois países
juntos (o que pode ser considerado o mundo, neste exemplo simplifi-
cado) produzem mais dos dois bens, em relação à situação sem comér-
cio. Logo, a especialização de acordo com as vantagens comparativas
resulta em um fluxo de comércio que amplia a eficiência produtiva,
isto é, há mais produto sendo produzido agora com comércio do que
antes, quando havia restrições às trocas entre as nações.

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Curso de Graduação em Administração a Distância

Produção

Alimentos (milhões de kg) Roupas (milhões de peças)

Brasil 24 0

Rússia 0 8

Total dos dois países 24 8

Quadro 3: Produção e Consumo com Comércio


Fonte: elaborado pelo autor

Exemplo 2 – Uma história sobre vantagens comparativas

Muitas vezes os economistas preferem ilustrar suas teorias usan-


do exemplos de outras áreas e mesmo do cotidiano. De fato, quanto
mais intuitiva for uma proposta teórica, mais chance ela tem de ser
considerada como algo válido e útil.
Bem, eu penso que as vantagens comparativas podem ser enten-
didas também a partir de um pequeno caso de cotidiano. Conheci anos
atrás um casal. Ele recém-formado em uma Ciência (não importa dizer
qual, mas algo bem abstrato). Ela já formada há uns 3 anos em Direito
e atuando em Direito do Trabalho. Eles, meio sem querer, tiveram um
filho. Lindo menino, mas dava muito trabalho. Os dois dividiam as
tarefas domésticas, cozinhando e cuidando do menino e os dois tam-
bém trabalhavam fora. Ele dava aulas e ela advagava. Ela ganhava
muito mais que ele. Em casa, ele era esforçado, mas desajeitado com o
menino e cozinhava muito mal. Ela era ágil e cuidadosa com o menino
e, como boa descendente de italianos, cozinhava muito bem.
Ora, ela (a advogada) tinha vantagens absolutas em relação a ele
(o cientista) tanto trabalhando fora (ganhava mais) como ficando em
casa cuidando do filho e cozinhando (é mais cuidadosa e habilidosa
que o marido). Mas, obviamente, não podia fazer as duas coisas em
tempo integral. Então, qual seria a solução mais eficiente para este
casal? A especialização! Pelo menos por alguns anos, os dois deveri-
am especializar-se naquela atividade em que possuíam vantagens com-
parativas. Ora, a diferença de renda do trabalho da advogada em rela-
ção ao professor de ciências era muito maior do que a diferença de

16
Módulo 7
GLOSSÁRIO
* Modelo de
Heckscher-Ohlin –
habilidades domésticas da mãe em relação ao pai (considerando que o
Também conhecido
menino já não era mais tão bebê, o aprendizado do pai nas atividades como a teoria das
domésticas não era tão difícil). Em outras palavras, a mãe tinha vanta- proporções dos fa-
gem comparativa trabalhando fora e o pai tinha vantagem comparati- tores. Fonte: <http:/
va cuidando da casa. Logo que eles reconheceram isso, a solução foi /ich.ufpel.edu.br/
adotada (pelo menos, por alguns anos) e ganharam em eficiência (ren- economia/arquivos/
da familiar e bem-estar). andre/inter/
h e c k s c h e r -
ohlin.pdf>. Acesso
em: 19 nov. 2008.
O papel dos recursos de produção: *Tecnologia – Em-
o modelo de Heckscher-Ohlin* bora a raiz da pala-
vra (que vem do gre-
go) signifique “estu-
do de ofícios”, que,
O princípio das vantagens comparativas estabeleceu uma expli- portanto, relaciona
cação convincente do porque os países se especializam e trocam mer- tecnologia com o
cadorias via comércio internacional. Porém, David Ricardo não deu conhecimento de
muitas pistas dos determinantes que fazem com que um país se especi- ferramentas e de
alize em uma mercadoria, enquanto outro país se especializa em outro materiais que são
bem. Uma resposta a essa questão foi dada pelos trabalhos de usados para trans-
formar o ambiente,
Heckscher e Ohlin na década de 1930.
em economia o ter-
O principal argumento do modelo de Heckscher-Ohlin é que a
mo é definido de
vantagem comparativa em determinado bem está relacionada com a modo mais específi-
tecnologia* empregada na produção deste bem – por exemplo, se a co. Para os economis-
produção da mercadoria adota de modo mais intensivo trabalho, capi- tas, tecnologia é
tal ou algum recurso natural. Assim, um país tem vantagem compara- como as empresas, a
tiva e se especializa na produção de um bem que é intensivo em uso partir de seu estado
de energia elétrica (alumínio, por exemplo), se esse recurso é abun- de conhecimento,
combinam recursos
dante no país em questão.
para obter o produ-
A dotação dos fatores de produção comanda, portanto, os bens
to almejado. Tecno-
nos quais a economia deve apresentar vantagem comparativa. Por exem- logias podem ser,
plo, países desenvolvidos tipicamente possuem abundância relativa em por exemplo: inten-
capital e em conhecimento, o que ajuda a entender por que tais países sivas em trabalho,
possuem, por exemplo, vantagem comparativa na produção de máqui- intensivas em capi-
nas e equipamentos e produtos de química fina (como, medicamen- tal ou qualquer ou-
tro insumo de pro-
dução. Fonte: elabo-
17
rado pelo autor.
Curso de Graduação em Administração a Distância

tos). Já países em desenvolvimento como a Índia e o México são abun-


dantes em mão de obra e possuem vantagem comparativa na produção
de bens que adotam tecnologias intensivas em mão de obra, como
produtos de vestuário e calçados.

Possibilidades de produção e comércio internacional

Na abordagem Ricardiana original há apenas um recurso de pro-


dução: o trabalho. O argumento de Heckscher-Ohlin é que, porque
existem muitos fatores de produção, que são distribuídos e acumula-
dos de modo distinto entre os países, os países têm vantagens compa-
rativas em certas mercadorias, nas quais se especializam.
Para ilustrar essa diferença em termos de dotação de recursos,
assume-se que existem dois fatores de produção: capital e trabalho.
Com base nisso, a Figura 1 apresenta um conceito importante em co-
mércio internacional: a curva de possibilidade de produção. Essa cur-
va indica o quanto uma economia pode produzir de dois bens, alocando
As possibilidades de seus recursos (capital e trabalho) para produzi-los. Como exemplo,
produção são curvas e podemos tomar dois bens: calçados e produtos químicos, em dois países
côncavas indicando (digamos, Brasil e EUA). Podemos dizer, ainda, que a produção de
que a substituição de calçados é mais intensiva em mão de obra, enquanto que a produção
capital e trabalho de químicos é mais intensiva no uso de capital.
(e vice-versa) não é Note que as curvas de possibilidade de produção desenhadas na
perfeita. Figura 1 indicam uma produção de calçados maior, quando não há
produção de químicos, no Brasil do que nos EUA. Isso é evidenciado
pelo fato da curva de possibilidade de produção cruzar o eixo da pro-
dução de calçados a um valor mais alto para o caso do gráfico do
Brasil. Esse resultado representa justamente o fato de que o Brasil é
relativamente mais abundante do que os EUA em oferta de mão de
obra e, portanto, produz mais calçados. Já para produtos químicos
ocorre o inverso, a produção desses bens (quando não há produção de
calçados) é maior nos EUA do que no Brasil. A combinação dos dois
resultados indica que, dada a dotação de recursos dos dois países, o
Brasil apresenta vantagem comparativa em calçados e os EUA em pro-
dutos químicos.

18
Módulo 7

GLOSSÁRIO
*Curva de indiferen-
ça – a curva de indi-
ferença expressa di-
ferentes combina-
ções de dois bens,
em relação às quais
Figura 1: Curvas de Possibilidades de Produção de Calçados e Químicos
Fonte: elaborado pelo autor
o consumidor é indi-
ferente em termos
de consumo. Isto é,
Se os dois países se especializam conforme suas vantagens com- todas as possíveis
parativas, o ganho dessa especialização ocorre através do comércio combinações dos
entre eles. Mas como medir este ganho? Podemos medir através de dois bens ao longo
um exemplo numérico, como feito no exemplo do modelo Ricardiano. de uma curva de in-
Mas, de modo mais analítico, podemos avaliar esse impacto pela abor- diferença produzem
o mesmo nível de
dagem gráfica, a partir das próprias possibilidades de produção dos
satisfação ao consu-
dois países. Antes, porém, é importante introduzir (ou relembrar) o
midor. Importante
conceito de outra curva: a curva de indiferença*. entender que curvas
de indiferença mais
à direita (mais longe
Logo, as curvas de indiferenças, no nosso exemplo, expres-
da origem) são pre-
sam o nível de bem-estar de uma economia. Quanto mais
feríveis, pois permi-
altas (mais longe da origem) forem estas curvas, mais alto é
tem níveis de consu-
o nível de renda e de bem-estar da economia.
mo mais elevados.
Os deslocamentos
Desenhando, agora, as curvas de possibilidades de produção dos da curva de indife-
rença para a direita
dois países e uma curva de indiferença em um mesmo gráfico, tem-se
podem ser resultado
o caso de equilíbrio sem comércio (Figura 2). Notem que a curva de
de um aumento de
indiferença é tangente às duas curvas de possibilidade de produção, o renda. Fonte: elabo-
que indica que a produção e o consumo são iguais em cada país; isto rado pelo autor.
é, não há comércio.

19
Curso de Graduação em Administração a Distância

Figura 2: Produção e Consumo de Calçados e Químicos – Solução Sem


Comércio
Fonte: elaborada pelo autor

O que acontece quando se parte de uma situação sem comércio


para uma situação com comércio?
É claro que na prática Há um ganho de eficiência, como já se demonstrou pelo princí-
os preços não são pio das vantagens comparativas. Há também um ganho de bem-estar
exatamente iguais. As (mais consumo). Tudo isso viabilizado pelo principal mecanismo de
causas que levam a transmissão de informações em uma economia de mercado: o sistema
diferenças nos preços de preços, isto é, quando há comércio, há uma convergência de preços
de mercadorias são, das mercadorias entre os países. No nosso exemplo, como o Brasil é
principalmente, falhas relativamente abundante em trabalho, e a produção de calçados inten-
no comércio livre siva em mão de obra; então, o preço do calçado no país é baixo.
(barreiras, como tarifas Nos EUA, dado que a mão de obra é mais escassa, o preço do calçado
– que vamos estudar é alto. Isso tudo sem comércio. Quando ocorre o comércio livre, o
na próxima seção) e preço do calçado passa a ser um só, no Brasil e nos EUA. Esse preço
valores distintos de único que vale para as duas economias é expresso na Figura 3 pela
tributos que incidem reta denominada PU (preço único).
sobre a mercadoria.

20
Módulo 7

Figura 3: Produção e Consumo de Calçados e Químicos – Solução Com


Comércio
Fonte: elaborada pelo autor

Note bem que esta reta PU viabiliza a produção nas duas econo-
mias, pois alcança (tangencia) as curvas de possibilidade de produção
dos dois países. E mais, o preço do calçado estabelece, na verdade, o
padrão de troca entre calçados e produtos químicos. Então, com co-
mércio, qualquer ponto ao longo desta reta PU é possível de ser alcan-
çado (através da troca). Qual ponto as duas economias vão preferir?
Lógico, aquele ponto que atinge a curva de indiferença mais alta. Isto
está expresso pelo ponto ECOM (equilíbrio com comércio), o qual está
associado a uma curva de indiferença e, logo um nível de bem-estar,
mais elevado.
Como ler ECOM? Neste ponto a ECOM os EUA se especializam na
produção de químicos, logo a produção de produtos químicos aumen-
ta em relação à situação sem comércio. A produção é, então, PQCOMEUA
e o consumo de produtos químicos é CQCOMEUA, sendo que a diferença
é obviamente a exportação de produtos químicos. Já o Brasil se espe-
cializa em calçados. A produção aumenta para PC BR e o consumo é
CCBR; a diferença é, mais uma vez, as exportações brasileiras de cal-
çados. As diferenças entre consumo e produção de calçados, nos EUA,
e químicos, no Brasil, são as importações.

21
Curso de Graduação em Administração a Distância

O que significa ECOM? Notem algo muito interessante sobre o


comércio. O ponto ECOM representa um nível de bem-estar que não é
alcançável pelo esforço produtivo de EUA ou Brasil, sozinhos – isto
é, está acima das curvas de possibilidades de produção da cada país.
Porém, através do comércio os dois países conseguem alcançar um
nível de bem-estar mais elevado e acima das suas capacidades produtivas.

Saiba mais...

O esforço do livre comércio: o caso das especiarias

O comércio de especiarias – temperos como pimenta, cra-


vo, canela, noz moscada e açafrão – foi desde a antiguidade até
tempos modernos de grande importância. Por que razão? Pri-
meiro, pelo valor que o mundo mais desenvolvido (Roma e, mais
tarde, a Europa toda) dava ao sabor condimentado dos alimen-
tos. Segundo, em uma época sem tecnologia de armazenamento
e condições de transporte, as especiarias – diferentes de outros
alimentos – representavam bens não perecíveis e de transporte
fácil (pequeno porte e alto valor por peso).
A origem das especiarias consumidas no mundo ociden-
tal era da Ásia, principalmente a Índia e a China. As vantagens
comparativas destes países estavam – e ainda estão – relacio-
nadas com a diversidade de variedades e cultivares de especia-
rias (dada pelas condições de clima e solo) e com o baixo custo
de mão de obra. Inicialmente, ao longo dos últimos quatro sé-
culos da Idade Média, a rota de comércio era principalmente
terrestre, até o Egito, e marítima, através do Mar Mediterrâneo.
Neste último trecho, o comércio era dominado por traders
venezianos. Esta rota comercial foi praticamente obstruída com
a ascenção do império otomano na Europa Oriental (no final
do Século XV).

22
Módulo 7

A saída foi encontrar uma rota alternativa e o apoio às


navegações resultou no caminho marítimo para a Índia, desco-
berto por Vasco da Gama em 1498. O comércio de especiariais
ganhou, então, notável impulso, reduzindo tempo e custos de
transporte e ampliando as opções de consumo. Empresas, as-
sociadas aos governos europeus da época, encontaram no co-
mércio de especiarias fonte de grandes lucros, como é o caso
da Companhia Holandesa das Índiais Orientais – criada em
1602, sob a proteção de Maurício de Nassau, para defender os
interesses comerciais Holandeses especialmente no sul da Ásia.
O comércio de especiarias, principalmente a rota Índia-
Europa, perde importância relativa com a descoberta das Amé-
ricas e o aumento do comércio com esta região, e mais tarde,
com a revolução industrial no final do Século XVIII, que resulta
no surgimento do comércio de produtos manufaturados (da
metrópole Europeia para as colônias). Porém, até hoje, a Índia
mantém sua liderança no fornecimento mundial de especiarias,
sendo responsável por 86% das exportações totais destes pro-
dutos (FAOStat).

Figura 4: Especiarias
Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/Spice> licenciado sob a Creative
Commons Atribuição 2.5 Brasil. Acesso em: 17 nov. 2008

23
Curso de Graduação em Administração a Distância

A determinação dos preços


em Comércio Internacional

A formação do preço de um produto no mercado internacional é


consequência de condições de oferta e demanda nos países exporta-
dores e importadores daquela mercadoria. Supondo, por enquanto, que
o comércio seja livre entre os países – em especial, que não haja a
incidência de tarifas de importação – o preço internacional é resultado
da oferta de exportações e da demanda por importações da mercadoria.
A Figura 5 ilustra o mercado internacional (gráfico ii) como efeito das
condições no país exportador (gráfico i) e no país importador (gráfico iii).

Figura 5: Determinação do Preço no Mercado Internacional


Fonte: elaborada pelo autor

Notem que a reta de oferta de exportações (OX) é derivada das


condições de oferta e demanda do produto no país exportador (gráfico
i), isto é, quando o preço é P1 no país exportador, os produtores estão
dispostos a ofertar O1 quantidades do bem e os consumidores estão
dispostos a demandar D1 quantidades do bem, a diferença (O 1 – D1) é
a exportação X1. A quantidade exportada X1, quando o preço é P1, é
também marcada no gráfico ii. Considerando que a exportação é zero
quando a oferta e a demanda são iguais no país exportador, podemos
então desenhar a reta OX.
De modo semelhante, obtemos a demanda por importações.
No país importador do bem (gráfico iii), quando o preço é P2, a de-

24
Módulo 7

manda pelo bem é D*2 e a oferta é O*2, logo a demanda por importa-
ções, dada por (D*2 – O*2), é M2. Tomando a distância M2 também no
gráfico (ii) e o ponto de importações zero, ou sem comércio, quando o
preço é P*SEM, temos a reta de demanda por importações DM.
Temos, agora, as retas de oferta de exportações e demanda por
importações no gráfico do mercado internacional. A intersecção das
duas resulta no preço internacional do bem, PCOM. Como vimos anteri-
ormente, o preço internacional situa-se entre o preço do bem no mer-
cado exportador – que tem vantagem comparativa na produção deste
bem – e o preço do bem no mercado importador. Observem que ao
nível de PCOM, a quantidade exportada pelo país exportador é igual à
quantidade importada pelo país importador (você pode ver isso, facil-
mente, desenhando uma linha reta de PCOM e calculando a diferença
entre O e D no gráfico (i) e a diferença entre D e O no gráfico (ii)).
O nível do preço internacional PCOM é único para as economias
que exportam e que importam este determinado bem. Isso sob a hipó-
tese de que o produto é homogêneo e que as empresas que o produ-
zem operam em um regime relativamente concorrencial. Embora este
seja o caso do comércio de muitas commodities, não é compatível para ver Saiba Mais
o comércio de bens tecnologicamente mais avançados – que tendem a
ser muito diferenciados e produzidos por empresas de grande porte.
Vamos discutir estes casos na seção a seguir.

Saiba mais...
Commodities – O termo inglês “commodity” significa sim-
plesmente mercadoria, mas em termos de comércio internacio-
nal denomina-se de commodities todo aquele produto que é
ofertado no mercado sem significativa diferenciação. Assim, uma
commodity negociada no Brasil não é diferente de uma negoci-
ada na Holanda ou na China. Além disso, se o comércio é livre,
o preço desta commodity em qualquer mercado tende a ser o
mesmo (claro, quando denominada na mesma moeda; isto é
convertida para US$). Então, commodities não são necessaria-
mente produtos agrícolas (muita gente faz essa confusão), mas

25
Curso de Graduação em Administração a Distância

aqueles bens que são vendidos no comércio internacional e que


são bastante homogêneos. Naturalmente, muitas commodities
são agrícolas, como soja, trigo e suco de laranja; outras são
minerais (e também não industrializadas), como petróleo, mi-
nério de ferro e ouro; mas algumas são industrializadas, como
papel kraft e camisetas (T-shirts).
Uma característica de muitas commodities agrícolas e
minerais é que estas são transacionadas em bolsas de mercado-
rias. De modo semelhante às bolsas de valores, as bolsas de
mercadorias comercializam contratos de commodities, original-
mente com a intenção de reduzir os riscos dos produtores quan-
to a mudanças nos preços futuros. Mais recentemente, este mer-
cado de commodities tem atraído a atenção de muitos investi-
dores, sendo hoje dominado pela participação de especuladores.
A seguir: foto da bolsa de mercadorias de Chicago, a maior do
mundo em comercialização de commodities agrícolas. Os pre-
ços internacionais de mercadorias como soja e petróleo são muito
influenciados pelas cotações obtidas nos pregões desta bolsa.

Figura 6: Bolsa de Mercadorias de Chicago


Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/Chicago_Board_of_Trade>.
Acesso em: 2 dez. 2008

26
Módulo 7

Concorrência imperfeita e
comércio intraindústria

Como você deve ainda lembrar, o princípio de vantagens com-


parativas afirma que os países se especializam na produção de merca-
dorias em que detêm custos de oportunidade reduzidos. Uma das ra-
zões que explica em que produtos os países possuem tais vantagens é
a dotação de recursos de produção. Países com abundância relativa de
terra (Brasil, por exemplo) detêm vantagens comparativas na produ-
ção de alimentos e países com abundância relativa de capital (EUA,
por exemplo) possuem vantagens comparativas na produção de aviões.
Os países se especializam na produção do bem em que possuem van-
tagem comparativa e aumenta o comércio entre eles. Essa troca, de
alimentos por aviões, é chamada de comércio interindústria, isto é,
comércio de bens produzidos em setores diferentes e que usam
tecnologias distintas (uma mais outra menos intensiva em uso de capital).
Mas, a evidência empírica indica que os países muitas vezes
comercializam entre si bens que são produzidos no mesmo setor in-
dustrial e, portanto, com tecnologias não muito diferentes. Este co-
mércio de bens de um mesmo setor é denominado de comércio
intraindústria. Brasil e EUA fornecem um caso típico de comércio
intraindústria ainda no caso de aviões. Apesar de não abundante em
capital, a indústria aeronáutica brasileira desenvolveu-se a partir de
regimes de cooperação com instituições de pesquisa e apoio governa-
mental. Capacidade técnica e design foram determinantes na expan-
são e consolidação deste setor – com absoluto destaque para a empre-
sa Embraer. Ganhos de escala, isto é, custos unitários decrescentes na
medida em que o tamanho da empresa é ampliado – e estratégias de
diferenciação do produto explicam a especialização do Brasil em ae-
ronaves de pequeno e médio porte. Dado à especialização dos EUA
em aviões de grande porte, e dado às preferências dos consumidores
pelos dois tipos de aeronaves, ocorre o comércio de aviões entre Bra-
sil e EUA – o chamado comércio intraindústria (esse caso de comércio
interindústria e intraindústria está expresso na Figura 7).

27
Curso de Graduação em Administração a Distância

Figura 7: Comércio Interindústria e Intraindústria


Fonte: elaborado pelo autor

Notem que o comércio intraindústria não é motivado por vanta-


gens comparativas, pois não há especialização conforme a dotação
dos recursos de cada país. Então, como é que os países desenvolvem
competências em setores produtivos semelhantes? Dentre as razões
para isso, está o fato de que as empresas exportadoras, muitas vezes,
conseguem fazer com que seus produtos se diferenciem do de seus
concorrentes. O produto exportando não é mais homogêneo, o que
resulta em uma segmentação do mercado. Como assim? Brasil e Ar-
gentina comercializam automóveis, mas há uma especialização do
Brasil em carros de pequeno porte – que são muito vendidos em um
grande mercado doméstico – enquanto que a Argentina se especializa
em automóveis de maior potência.
O esforço de diferenciação do produto é, em geral, uma estraté-
gia de grandes empresas, isto é, a hipótese de que as empresas que
GLOSSÁRIO atuam no comércio internacional são pequenas e tomam o preço como
*price-takers – lite- dado pelo mercado internacional (são price-takers*) não é sempre ver-
ralmente preço- dadeira. Em condições de oligopólio, empresas de grande porte con-
tomadores. Fonte: seguem mais facilmente adotar estratégias de diferenciação do produ-
< h t t p : / /
to através inovações tecnológicas e políticas de marketing. Assim, por
translate.google.com/
exemplo, podemos entender que o Brasil:
translate_t#>. Aces-
so em: 19 nov.
exporta alimentos para Europa e importa máquinas e equipa-
2008.
mentos da Europa, em um comércio interindústria, que é de-
terminado pelas vantagens comparativas e pela dotação dos
recursos; e

28
Módulo 7

exporta aviões para a Europa (jatos regionais) e importa avi-


ões da Europa (aviões de grande porte), em um comércio
nitidamente intraindústria, que é consequência de empresas
de grande porte que atuam no setor (no caso de Brasil e Eu-
ropa, Embraer e Airbus, respectivamente) e que diferenciam
seus produtos por especificações de tamanho, design e marca.

A importância da marca, como estratégia de diferenciação do


produto no mercado, pode ser ilustrada pela lista das marcas mais va-
liosas do mundo.

Saiba mais...

O valor das marcas

Dentre as estratégias de diferenciação do produto, que


podem fazer com que o comércio entre dois países ocorra de
modo eficiente em um mesmo setor industrial, está a venda do
produto com marca. A preferência que o consumidor atribui ao
produto identificado pela marca pode ser aferida pelo próprio
valor da marca no mercado. Este ativo intangível que não está
relacionado ao patrimônio líquido da empresa, suas instalações
e avanço tecnológico, mas, sim à identidade do consumidor com
aquele produto, pode valer mais do que o próprio capital da
empresa. O quadro a seguir reproduz informações sobre as mais
valiosas marcas mundiais em 2007, segundo a Revista Business
Week. A marca mais valiosa do mundo, pela sétima vez conse-
cutiva, é a Coca-Cola – que embora seja avaliada em US$ 65
bilhões, perdeu neste último ano 3% de seu valor. Dentre as
marcas que mais cresceram estão a gigante finlandesa de tele-
comunicações, Nokia, e a montadora japonesa, Toyota, duas
empresas que têm expandido suas vendas, e aumentado sua re-
putação, para mercados emergentes, como o Brasil.

29
Curso de Graduação em Administração a Distância

Ranking Ranking País de Valor 2007 Variação


Marca Setor
2007 2006 Origem (US$ milhões) Valor

1 1 Coca-Cola EUA Bebidas 65.324 -3%

2 2 Microsoft EUA Software 58.709 3%

3 3 IBM EUA Informática 57.091 2%

4 4 GE EUA Diversos 51.569 5%

5 6 Nokia Finlândia Eletrônica 33.696 12%

6 7 Toyota Japão Automotivo 32.070 15%

7 5 Intel EUA Informática 30.954 -4%

8 9 McDonald's EUA Restaurantes 29.398 7%

9 8 Disney EUA Mídia 29.210 5%

10 10 Mercedes Alemanha Automotivo 23.568 8%

11 11 Citi EUA Finanças 23.443 9%

12 13 Hewlett-Packard EUA Informática 22.197 9%

13 15 BMW Alemanha Automotivo 21.612 10%

14 12 Marlboro EUA Fumo 21.283 0%

15 14 American Express EUA Finanças 20.827 6

Quadro 4: Marcas Mais Valiosas do Mundo


Fonte: Business Week The Best Global Brands (2007)

Tarifas e barreiras não-tarifárias

Apesar do significativo progresso na direção de um comércio


mais livre, há ainda muitas restrições que incidem sobre as trocas in-
ternacionais. Estas medidas que dificultam e limitam o comércio entre
as nações podem ser classificadas, de modo geral, em: tarifas e barrei-
ras não-tarifárias. Discutiremos, a seguir, o conceito e a evidência
empírica de tarifas e, depois disso, das principais barreiras não-tarifárias.

30
Módulo 7

Tarifas

A tarifa de importação é um tributo que incide sobre o valor dos


bens quando estes são importados. As tarifas, quanto à sua incidência,
podem ser de dois tipos:

Ad valorem: quando o valor da tarifa incide sobre o preço do


bem importado como um percentual. Por exemplo, se o pre-
ço de importação da mercadoria é US$ 100,00 e a tarifa ad
valorem é 8%, então o preço da mercadoria para o consumi-
dor doméstico é US$ 100,00 + (8% de US$ 100,00), igual a
US$ 108,00.
Específica: quando o valor da tarifa incide sobre o preço do
bem importado como um valor específico, fixo e indepen-
dente do preço de importação. Suponha novamente que o
preço de importação da mercadoria é US$ 100,00 e, agora, a
tarifa específica é US$ 8,00 por unidade importada. O preço
final ao consumidor doméstico é, mais uma vez, US$ 108,00.
GLOSSÁRIO
Comparando as duas modalidades de tarifas: Note que se o pre- *ad valorem – ex-
ço do produto importado cai para US$ 90, o efeito da queda do preço pressão latina que
no mercado internacional é maior no caso da tarifa ad valorem do que significa de acordo
com o valor. Usada
da tarifa específica.
principalmente para
Por quê?
impostos que são
calculados como
Ad valorem: US$ 90,00 + (8% de US$ 90,00), igual a US$
porcentagem do va-
97,20; e
lor de um bem ou de
específica: US$ 90,00 + (US$ 8,00 por unidade), igual a US$ uma transação,
98,00. como os impostos
de importação. Fon-
Logo, a tarifa específica resulta em um sistema aduaneiro mais te: Lacombe (2004,
protecionista – pois o preço do bem importado cai menos no mercado p. 7).
doméstico quando o preço internacional diminui. Logo, os organis-
mos internacionais que promovem o comércio têm apoiado a conver-
são de regimes com tarifas específicas para tarifas ad valorem* .
Outro aspecto relevante sobre as tarifas é que elas geram recei-
tas tributárias para os países. A questão é que, para a maioria dos paí-

31
Curso de Graduação em Administração a Distância

ses, a imposição de tarifas não tem o objetivo de arrecadar impostos,


GLOSSÁRIO
mas sim de proteger setores da economia doméstica contra a importa-
* Tarifa MFN – ta- ção de bens que poderiam reduzir a produção e o emprego no país
rifa de importação doméstico. Este argumento é verdadeiro principalmente para nações
conforme o princí-
mais desenvolvidas e mesmo para aqueles países em desenvolvimento
pio da nação mais
que já possuem uma economia diversificada e um sistema tributário
favorecida (MFN –
Most Favoured relativamente organizado. Por outro lado, para nações mais pobres,
Nation), estabelece em que o sistema tributário é pouco desenvolvido – e, portanto, há
que qualquer que dificuldades em termos de infraestrutura institucional para arrecadar
seja a tarifa a ser tributos, como imposto de renda e impostos sobre valor adicionado -
cobrada na importa- as receitas provenientes de tarifas de importação tendem a ser mais
ção de um país, seja representantivas. A razão é que a tarifa de importação é mais fácil de
a mesma cobrada
ser cobrada, pois exige o controle de fluxos de produtos importados
para a importação
apenas em regiões aduaneiras (portos, aeroportos e fronteiras terres-
de qualquer outro
país. De fato, a tari- tres). Exemplos de países com alta participação das tarifas no total das
fa MFN estabelece receitas tributárias são: República Dominicana (30%), Congo (25%),
a não discriminação Marrocos (16%) e Indía (15%). Brasil e Argentina possuem um
no comércio inter- percentual bem mais baixo, 3% e 4%, respectivamente.
nacional, pois todos Na prática de política comercial, os países podem estabelecer
os países devem pa- tarifas de importação que valem para todos os países. Estas tarifas são
gar a mesma tarifa
chamadas de MFN* (Most Favoured Nation) .
para exportar para
A Tabela 1 apresenta as tarifas de importação para um conjunto
um determinado
país. As principais de países. A primeira coluna é a tarifa média de todas as mercadorias
exceções ocorrem importadas pelo país no sistema MFN (ou seja, sem qualquer prefe-
quando os países rência tarifária a qualquer país). A segunda coluna indica a participa-
formam blocos regi- ção relativa de tarifas iguais a zero entre todas as tarifas cobradas e a
onais. Nestes casos, terceira coluna indica o percentual de tarifas específicas em relação ao
há a formação de total das tarifas. Dentre os países listados, os EUA são os que impõem
uma área preferenci-
a tarifa mais baixa de importação (3,5%). Argentina e Brasil possuem
al de comércio e os
tarifas bem mais altas e quase iguais (devido ao acordo do Mercosul) e
países integrantes se
beneficiam de tari- o México é o país com a tarifa mais elevada (12,6%). Dentre os países
fas mais reduzidas. que mais frequentemente adotam uma tarifa zero (isto é, o produto
Fonte: Elaborado importado não paga tarifa para ser vendido naquele país) estão África
pelo autor. do Sul, Japão, Austrália e EUA. A incidência de tarifas específicas é
ainda alta na Rússia, na Argentina e nos EUA.

32
Módulo 7

Tabela 1: Tarifas de Importação, 2007 – Países Selecionados

Média Simples Tarifa Zero Tarifas Específicas


País/Território
MFN (%) MFN (%) MFN (%)

África do Sul 7,8 59,6 2,2

Argentina 12,0 13,1 12,1

Austrália 3,6 48,8 0,2

Brasil 12,2 5,5 0,0

China 9,9 6,7 0,4

Estados Unidos 3,5 47,1 8,2

Japão 5,1 52,3 3,7

México 12,6 15,1 0,7

Rússia 11,0 9,7 12,2

Comun. Europeia 5,2 30,9 4,6

Fonte: WTO – World Tariff Profiles (2008)

Mais um exemplo sobre tarifas de importação, agora para al-


guns produtos, está na Tabela 2. Podemos notar que cigarros, quando
tarifados, possuem uma tarifa de importação bastante elevada – o que
pode ser justificado como uma medida de proteção à indústria domés-
tica, mas também uma medida de combate ao fumo (pelo menos em
relação às marcas produzidas no exterior). Veículos e tratores possu-
em tarifas baixas em países que detêm vantagens comparativas na pro-
dução destes bens (como Japão e EUA). Em países em que a indústria
automotiva doméstica (mesmo que multinacional) ainda não é tão com-
petitiva, as tarifas são mais elevadas – casos de Brasil, Argentina e
África do Sul. As tarifas de calçados são também elevadas – mais altas
do que as tarifas médias de cada país (Tabela 2) – o que pode ser
justificado pelo alto nível de ocupação de mão de obra nas indústrias
calçadistas de cada país (significando também, na prática, força políti-
ca para manter tarifas altas).

33
Curso de Graduação em Administração a Distância

Tabela 2: Tarifas de Importação – Países e Produtos Selecionados

Calçados de Tratores Veículos até


País Cigarros
couro rodoviários 1.000cc

África do Sul 20,0 45,0 26,0 10,4

Argentina 20,0 20,0 33,6 35,0

Austrália 10,0 0,0 5,0 6,7

Brasil 20,0 20,0 35,0 35,0

China 24,0 25,0 6,0 30,0

Estados Unidos 20,8 – 4,0 2,5

Japão 21,9 0,0 0,0 0,0

México 35,0 67,0 50,0 35,0

União Europeia 17,0 33,8 16,0 10,0c

Fonte: Trains Unctad. <www.unctad.org/Trains>. Acesso em:


8 nov. 2008

Por fim, um último aspecto sobre tarifas é o que se chama esca-


lada tarifária.
Escalada tarifária é quando as tarifas de importação ao longo de
um processo de agregação de valor a um produto são baixas sobre
bens primários desta cadeia, são médias sobre os bens com pouco
processamento e são altas sobre os bens finais. Claramente esta práti-
ca comercial protege a indústria local e, assim, desetimula que os paí-
ses que produzem as matérias-primas agregem mais valor através da
industrialização destes bens.
Um exemplo ocorre na indústria calçadista. Praticamente todos os
países produtores de calçados estabelecem tarifas mais reduzidas para o
couro cru do que para os calçados de couro. Exemplos são: o próprio
Brasil, 14% para o couro cru e 20% para o calçado de couro; China, 6,5%
e 24%; Estados Unidos, 6,3% e 20,8%; e União Europeia: 6,3% e 17%.
Essa diferenciação ou progressividade das tarifas à medida que
os produtos adquirem maior valor agregado ocorre para muitos outros
produtos e é comum para a grande maioria dos países.

34
Módulo 7

Barreiras não-tarifárias

Barreiras não-tarifárias (BNTs) são todas aquelas medidas que


restringem o comércio e que não assumem a forma de uma tarifa. É
importante lembrar que as instituições internacionais, especialmente a
Organização Mundial do Comércio (OMC), têm tido sucesso quanto
à redução das tarifas de importação da grande maioria dos países do
mundo. Por outro lado, muitos destes países, principalmente os mais
desenvolvidos, têm usado outras formas de promover a proteção às
suas indústrias domésticas.
As BNTs podem ser de diversas natuezas e entre as mais co-
muns estão: as cotas de importação, exigências técnicas e fito-sanitári-
as e subsídios à exportação. O próprio MDIC aponta que existem 32
tipos de barreiras não-tarifárias com as quais o Brasil se defronta no
comércio exterior. A seguir, definimos as principais delas, com um
rápido exemplo.

Cotas de importação – é uma limitação física da quantidade


ou valor a ser importado de um bem de um determinado país.
Como esta medida é totalmente restritiva – isto é, alcançado
a cota, o país não importa mais qualquer que sejam as condi-
ções de oferta do bem – os países que impõem a cota a tem
combinado com tarifas diferenciadas.
Como assim? Ora, até uma determinada quantidade, é possí-
vel importar o produto com tarifa baixa (chama-se tarifa
intracota). Alcançada aquela quantidade, a tarifa é bem mais
alta (tarifa extracota).
Exemplos de cotas:
O Acordo Multifibras – este acordo estabelecia quanti-
dades máximas de produtos têxteis e vestuário que os
países desenvolvidos importavam anualmente de países
em desenvolvimento. O princípio é que, sendo esta in-
dústria intensiva em mão de obra, os países desenvolvi-
dos precisavam de tempo para abrir suas economias em
relação à competição com países onde o trabalho é abun-
dante. Esse acordo durou de 1974 até 2004.

35
Curso de Graduação em Administração a Distância

Cota para os calçados brasileiros no Japão: até 6 mi-


GLOSSÁRIO
lhões de pares, tarifa (intracota) é 24,3%; acima de 6
*ISO – A sigla ISO
milhões de pares, tarifa é 60% (extracota).
significa Organiza-
ção Internacional de Exigências técnicas e fito-sanitárias – considerando que as
Padronização. A empresas localizadas em países desenvolvidos devem aten-
ISO é uma organiza- der a diversos requisitos de produção – desde normas de se-
ção não-governa- gurança e condições de trabalho até padronização do produ-
mental, com o obje- to e controle ambiental – e que estes implicam em custos adi-
tivo de estabelecer cionais, a tendência é que estas exigências sejam também
normas e padrões em requeridas das importações. Além disso, os próprios consu-
várias áreas técnicas. midores são mais exigentes, por exemplo, com relação ao
Exemplos são as conteúdo e origem do produto, riscos à saúde e ao meio am-
normas para a gestão biente. Tudo isso resulta em um maior controle aduaneiro
de qualidade (ISO das importações na intenção de averiguar as consições do
9000) e para a ges- produto importado. São muitos os casos que podem ser in-
tão ambiental (ISO cluídos neste tipo de barreira, por exemplo:
14000). Fonte: Ela- Padronização de qualidade: produto importado deve ter
borado pelo autor. selo ISO* 9000;
*FSC – é uma orga- Controle fito-sanitário: produto de origem vegetal ou
nização não-gover- animal deve passar por avaliação de qualidade antes de
namental, cuja sigla ser admitido. Um exemplo de uso deste argumento é o
significa Conselho embargo da Rússia a importações de carne suína do
de Manejo Flores- Brasil entre 2005 e 2007 devido à descoberta de casos
tal, que certifica de febre aftosa.
empreendimentos
Certificação ambiental: exigência de que o processo de
florestais que alcan-
produção do bem atende a normas internacionais de con-
çam níveis reconhe-
trole ambiental (por exemplo, ISO 14000). Exemplo dis-
cidos de gestão res-
so é a exigência de que os exportadores de móveis de ma-
ponsável dos recur-
deira usem apenas madeira de florestas plantadas, e que
sos naturais. O selo
possuam o selo FSC*.
FSC é, para muitos
mercados consumi- Requisitos sobre as características dos produtos. Por
dores, uma exigên- exemplo: cebolas importadas pelo Canadá devem ter
cia para a venda de pelo menos 31,8 mm de diâmetro.
móveis e outros ar- Subsídio à exportação – é, na verdade, uma política de es-
tefatos de madeira. tímulo à exportação através da qual a empresa exportadora
Fonte: Elaborado se beneficia de empréstimos subsidiados, reduções de tribu-
pelo autor.

36
Módulo 7

tos ou, ainda, apoio do governo em iniciativas de marketing


internacional e em projetos de pesquisa e desenvolvimento.
Um caso bastante conhecido do comércio exterior bra-
sileiro é o que envolve a disputa entre Bombardier e
Embraer. O governo brasileiro foi acusado de conceder
empréstimos subsidiados à Embraer para vender aviões
no exterior. A OMC, em 1999, julgou o programa bra-
sileiro de financiamento às exportações (PROEX) como
sendo uma prática desleal de comércio. Com isso o Bra-
sil teve que reformular o PROEX. Vale dizer que o Ca-
nadá também foi condenado em 2002 pela OMC por
financiar – com juros abaixo do mercado – projetos de
pesquisa e desenvolvimento à Bombardier.
Compras governamentais – no caso de aquisições de go-
verno, muitas vezes, se estabelece prioridade para bens pro-
duzidos no próprio país, mesmo que estes sejam mais caros
do que os importados. Esta medida protege os interesses de
produtores nacionais e ocorre, principalmente, com produtos
considerados estratégicos (telecomunicações, informática e
equipamentos).
Barreiras burocráticas – são obstáculos administrativos e
de procedimentos aduaneiros que inibem o comércio com
determinado país. Um exemplo refere-se aos custos adicio-
nais decorrentes dos controles de segurança que foram esta-
belecidos pelas autoridades aduaneiras nos EUA após o 11
de setembro de 2001.
Salvaguardas – são barreiras que servem para aumentar a
proteção a uma indústria doméstica que esteja sendo ameaçada
pelo aumento das importações de produtos concorrentes.
Essas barreiras podem ser na forma de tarifas ou cotas. As
salvaguardas têm um caráter temporário - até que a indústria
doméstica consiga se restruturar e passar a competir com o
produto importado. Um caso bastante conhecido foram as
restrições que a Argentina impôs em 2004 contra importa-
ções do Brasil de produtos da linha branca (embora a Argen-
tina não tenha usado o termo salvaguardas, a justificativa era
exatamente essa).

37
Curso de Graduação em Administração a Distância

Saiba mais...
Este texto é um extrato
do artigo intitulado O Difícil Caminho das Exportações de Frutas
Barreiras a produtos para os EUA
brasileiros no merca-
O mercado norte-americano para frutas frescas e legumes
do dos Estados Uni-
importados continua se expandindo significativamente. As ex-
dos, publicado pelo
portações brasileiras para os Estados Unidos cresceram de US$
MDIC em: < http://
9,2 milhões em 1998 para um recorde de US$ 55,2 milhões em
www.brasilemb.org/
2006 (aumento de 40% em comparação com as exportações
docs/Barreiras07.pdf>.
em 2005), principalmente em função do suprimento de uvas
Acesso em: 23 nov.
brasileiras do Vale do São Francisco. As exportações de uvas
2008.
brasileiras aumentaram 118%, de US$ 13 milhões em 2005 para
US$ 29 milhões em 2006.
O potencial de ampliação do mercado norte-americano
para a exportação de frutas brasileiras é considerável, diante
do quadro de ampliação do consumo. Não obstante esta ten-
dência favorável, a manutenção de restrições fitossanitárias e a
demora nos processos de certificação funcionam como barrei-
ras significativas. Após três anos de negociações entre o MAPA
e o USDA, os produtores de mamão papaia do extremo sul da
Bahia e do Rio Grande do Norte receberam, em 2005, autoriza-
ção para exportar a fruta para o mercado norte-americano. Até
então, apenas o Espírito Santo era habilitado a vender o produto.
As barreiras fitossanitárias norte-americanas vedam a im-
portação da maioria das frutas e legumes brasileiros - alguns
com grande potencial no mercado, como cítricos, por exemplo.
Para a grande parte dos produtos cuja entrada é permitida, um
obstáculo adicional é o requisito obrigatório de licenças prévi-
as de importação. Praticamente todas as frutas e legumes bra-
sileiros necessitam licença prévia. Outros entraves incluem os
“tratamentos especiais” requeridos, a exigência de que o in-
gresso de vários produtos se faça por portos específicos.
Sazonalidade de tarifas: os impostos de importação de
diversas frutas variam de acordo com a época do ano em que

38
Módulo 7

são importadas. A tarifa para uvas brasileiras, por exemplo,


oscila de US$ 1,13/m³, entre 15 de fevereiro e 31 de março,
para zero de 1º de abril a 30 de junho e US$ 1,80/m³ no restante
do ano, exatamente o período da entrada de quase todas as uvas
brasileiras. As uvas mexicanas e chilenas são livres de taxação.
As importações de melão, que são livres de imposto sob o
Sistema Geral de Preferências (SGP), entre 1º de dezembro e
31 de maio, estão sujeitas a uma tarifa de 28% no restante do
ano (o México paga 7%, e o melão caribenho é livre de taxação
em qualquer período). Situação similar ocorre com a variedade
de melão “cantaloupe”, que está sujeita a um imposto de 12,8%,
entre 1º de agosto e 15 de setembro (o de origem mexicana ou
caribenha é isento). No restante do ano, o “cantaloupe” prove-
niente do Brasil é livre de taxação.

Indicação geográfica:
a diferença que faz de onde que vem

Champagne é apenas o vinho espumante proveniente da


região francesa com este nome ou qualquer vinho espumante
com características bastante parecidas com o espumante da-
quela região? É disso que trata a indicação geográfica.
De fato, indicação geográfica é uma barreira não-tarifária,
pois os produtores locais conseguem vincular ao produto o nome
da localidade ou região ou mesmo país onde ele é produzido. O
uso desta indicação geográfica atribui valor ao produto, pois
os cosumidores o diferenciam em relação aos concorrentes.
Exemplos destes produtos são, além do champagne, os vinhos
tintos da região de Bordeaux, o Presunto Parma, os Charutos
Cubanos e o Queijo Roquefort.
A regulamentação do uso de indicações geográficas para
vinhos e outras bebidas alcoólicas é a única reconhecida pelo
acordo TRIPS da OMC. Outras indicações geográficas estão
sendo discutidas pela OMC e podem ser aprovadas no encerra-
mento da rodada de Doha.

39
Curso de Graduação em Administração a Distância

No caso Brasileiro, o Instituto Nacional da Propriedade


Industrial (INPI), órgão do governo brasileiro responsável pela
análise e concessão de tais registros, concedeu em 2002, a pri-
meira Indicação Geográfica brasileira: o Vale dos Vinhedos.

Figura 8: Região do Vale dos Vinhedos (RS)


Fonte: <http://www.sitedovinhobrasileiro.com.br/regiao/
val_reg.jpg>. Acesso em: 3 nov. 2008

O “Vale dos Vinhedos” é uma conhecida região da Serra


Gaúcha produtora de vinhos finos, entre as cidades de Bento
Gonçalves e Garibaldi. O empreendimento pioneiro contou com
o apoio técnico da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária), que após diversos anos de pesquisa na região,
conseguiu identificar a área geográfica com características
geoambientais ideais para a produção de vinhos finos. O valor das
propriedades da região registrou uma valorização média de 50%.

40
Módulo 7

RESUMO

Nesta primeira Unidade tratamos da base teórica para


entender os determinantes do comércio entre as nações. A prin-
cipal estrutura teórica para explicar as vantagens do comércio
é, até os dias de hoje, o princípio das vantagens comparativas
desenvolvido por Ricardo no início do Século XIX. Discuti-
mos também como ocorre a formação do preço no mercado
internacional. Um conceito importante que apresentamos e
qualifica o tipo do comércio que ocorre entre as nações é aquele
que distingue comércio intraindústria e interindústria. Sobre o
comércio intraindústria, que descreve grande parte do comér-
cio de produtos manufaturados, comentamos a relação dele
com a diferenciação (por tecnologia, qualidade e marca) e com
economias de escala. Por fim, vimos o papel das tarifas e, de
modo cada vez mais preponderante, das barreiras não-tarifárias
na restrição do comércio mundial.

41
UNIDADE

2
O
O padrão
padrão de
de Comércio
Comércio
Exterior
Exterior Brasileiro
Brasileiro
Curso de Graduação em Administração a Distância

Objetivo

Nesta Unidade apresentaremos os principais aspectos relativos ao

comércio exterior, no que diz respeito à nomenclatura de

comercialização, documentação requerida, transporte e logística.

44
Módulo 7

Introdução ao comércio exterior

Caro(a) estudante,
Nesta segunda Unidade, começamos a tratar de assuntos
mais específicos de comércio exterior. Aqui, vamos apre- GLOSSÁRIO
sentar e discutir conceitos básicos e de grande uso prático * incotermos ou
em vendas para o exterior, como os códigos que identifi- incoterms – acrônimo
cam a modalidade de comércio (os chamados de International
incotermos*
incotermos*), os documentos necessários para o comér- commercial terms,
cio exterior e aspectos relacionados ao transporte em ex- que é uma codificação
portações. A ideia é não apenas ter contato com essas de termos e regras in-
informações - muito úteis no dia a dia de quem lida com ternacionais mantida
comércio exterior – mas, principalmente, enxergar as di- pela Câmara de Co-
versas opções de contratos com o exterior como uma deci- mércio Internacio-
são estratégica da empresa. Isto é, para um bom gestor de nal para uso e inter-
comércio exterior, não basta conhecer códigos e modali- pretação dos termos
dades de transporte, o importante é saber avaliar qual o comerciais dos con-
mais adequado para uma determinada empresa. Esse é um tratos de importação
desafio que vamos enfrentar juntos. e exportação. Fonte:
Lacombe (2004,
p. 176).
Na Unidade 1 vimos a base teórica que sustenta o argumento de
que o comércio internacional pode ser benéfico a todas as nações. Um
comércio livre e igual, sem restrições e privilégios. Ora, é verdade que
ainda estamos longe desse ideal, mas sem dúvida mais perto do que
estávamos duas ou tres décadas atrás.
Mas, e do ponto de vista da empresa? Comércio exterior,
liberalização comercial e abertura econômica são medidas positivas?
Vamos discutir mais esse tema na última Unidade desta discipli-
na. Mas, por enquanto, podemos dizer que o livre comércio resulta em
ganhos de eficiência, pois as empresas domésticas devem “enfrentar”
a concorrência externa (através dos produtos importados) e, é claro,
representa oportunidades para as empresas locais de vender seus pro-
dutos no mercado externo. Há também as oportunidades para as em-

45
Curso de Graduação em Administração a Distância

presas de comprar insumos mais baratos e de maior qualidade e, ain-


da, as oportunidades de importar bens finais mais baratos e que aten-
dam às necessidades dos consumidores locais.
É justamente sobre os diversos fatores que influenciam o suces-
so das empresas em acessar esse mercado externo que começamos a
tratar a partir desta Unidade.
Assim, podemos definir comércio exterior como sendo simples-
mente a atividade de compra e venda internacional de produtos ou
serviços (LUNA, 2000). Mas há também a estrutura regulatória e de
normatização (SOUZA, 2003), que é típica de cada país.

Então, podemos afirmar que:

Comércio exterior é o conjunto de técnicas que trata da rela-


ção comercial da empresa com mercados externos e da
regulação e normatização de exportações, importações e movi-
mentações financeiras derivadas dessas transações comerciais.
GLOSSÁRIO
*Aduaneiro – relati-
vo ou pertencente à Muitas das regulações (regras e procedimentos aduaneiros*,
aduana; alfandegá-
por exemplo) são de caráter nacional e diferentes em cada nação.
rio. Fonte: Houaiss
Contudo, tem havido significativa convergência em legislações e mes-
(2001).
mo em incidência de tarifas. A maior harmonização é, sem dúvida, em
padrões de natureza mais burocrática, como documentação e classifi-
cação de mercadorias, e em aspectos logísticos (como sistemas pa-
drões de transporte).
O foco de comércio exterior é, portanto, na empresa exportado-
ra, na sua relação com o mercado internacional e no ambiente
institucional que regulamenta, estimula e, muitas vezes, restringe as
transações com o exterior.
De modo mais concreto, é interessante observar a evidência brasi-
leira das maioras empresas em termos de comércio exterior (Quadro 5).
A maior exportadora, a estatal nacional Petrobrás, é também a maior
importadora. A Petrobrás respondeu por 8,48% de todas as exporta-
ções brasileiras – não esqueça que o preço do petróleo subiu muito em

46
Módulo 7

2007. Podemos observar que existem quatro empresas que estão tanto
na lista das dez maiores exportadoras quanto na lista das dez maiores
importadoras. Isso segnifica que, muitas vezes, as empresas que ex-
portam são empresas que dependem de insumos importados; por que
são mais baratos ou mais eficientes (como no caso de máquinas e equi-
pamentos). Note, ainda, o bom desempenho das empresas estrangei-
ras em termos de exportação (das dez maiores, seis são empresas es-
trangeiras).

47
Maiores empresas exportadoras do Brasil – 2007 Maiores empresas importadoras do Brasil – 2007
Origem do Valor (US$ % total da Origem do Valor (US$ % total da
Empresa Setor Empresa Setor
capital milhões) exportação capital milhões) importação
Petrobras N Petróleo 13.626 8,48 Petrobras N Petróleo 15.357 12,73
Vale N Mineração 7.904 4,92 Embraer N Construção 2.957 2,45
de Aeronaves
Embraer N Construção 4.737 2,95 Alberto N Petróleo 2.324 1,93
de Aeronaves Pasqualini –
Refap S.A.
Bünge Alimentos E Alimentos e 3.055 1,90 Motorola E Eletro- 1.866 1,55
S.A. Bebidas Industrial Ltda. eletrônica
Volkswagen do E Veículos e 2.196 1,32 Cisa Trading N Trading 1.377 1,14
Brasil Peças S.A.
N 1.776 1,11 N 1.316 1,09
Curso de Graduação em Administração a Distância

Sadia S.A. Alimentos e Copesul Química


Bebidas
Cargill Agrícola E Alimentos e 1.759 1,10 Bünge E Química 1.241 1,03
S.A. Bebidas Fertilizantes S.A.
General Motors E Veículos e 1.545 0,96 Caraíba Metais N Metalurgia 1.083 0,90
do Brasil S.A. Peças S.A.
Ford Motor E Veículos e 1.446 0,90 Volkswagen do E Veículos e 1.079 0,89
Company Brasil Peças Brasil Peças
Ltda.
Daimler-Chrysler E Veículos e 1.424 0,89 Daimler-Chrysler E Veículos e 1.047 0,87
do Brasil Ltda. Peças do Brasil Ltda. Peças
Nota: N e E significam, respectivamente, empresa nacional e empresa estrangeira
Quadro 5: Maiores Empresas Exportadoras e Importadoras do Brasil - 2007

48
Fonte: Revista Conjuntura Econômica (2008)
Módulo 7

Definições de modalidade de comércio:


Incotermos

Os incotermos são definições padronizadas de comércio inter-


nacional que servem para indicar quais são os direitos e as obrigações
do exportador e do importador. Em termos práticos, o incotermo cla-
ramente mostra, por exemplo, quem deve pagar o frete e o seguro e
quem é responsável pelo pagamento do seguro.
Concebido pela Câmara de Comércio Internacional em 1936, International Chamber
os incotermos já foram atualizados e ampliados seis vezes desde sua of Commerce. Acesse:
criação. Intensamente divulgados por essa instituição, os incotermos <www.iccwbo.org>.
têm sido um grande facilitador do comércio exterior.
Atualmente, está em vigência o conjunto de normas conhecido
como “Incoterms 2000”, que lista de modo simples e objetivo os 13
incotermos adotados. Estes incotermos são representados por siglas de
três letras que representam a formação do preço da mercadoria. O Quadro
6, abaixo, resume as 13 alternativas de classificação de comércio exterior.

Categorias

E de Ex (Partida – EXW – Ex Works Mercadoria entregue ao


Mínima obrigação comprador no estabelecimen-
para o exportador) to do vendedor.

F de Free (Transporte FCA – Free Carriei Mercadoria entregue a um


Principal não Pago Pelo FAS – Free Alongside Ship transportador internacional
Exportador) FOB – Free on Board indicado pelo comprador.

C de Cost ou Carriage CFR – Cost and Freight O vendedor contrata o


(Transporte Principal CIF – Cost, Insurance and transporte, sem assumir
Pago Pelo Exportador) Freight riscos por perdas ou danos
CPT – Carriage Paid To às mercadorias ou custos
CIP – Carriage and Insurance adicionais decorrentes de
Paid to eventos ocorridos após o
embarque e despacho.

D de Delivery (Chega- DAF – Delivered At Frontier O vendedor se responsabiliza


da – Máxima obriga- DES – Delivered Ex-Ship por todos os custos e riscos
ção para o exportador) DEQ – Delivered Ex-Quay para colocar a mercadoria no
DDU – Delivered Duty Unpaid local de destino.
DDP – Delivered Duty Paid

Quadro 6: Classificações e Definições dos Incotermos (Incoterms 2000)


Fonte: <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/informacoes/
49
incoterms>. Acesso em: 11 nov. 2008
Curso de Graduação em Administração a Distância

Notem que os incotermos estão agrupados em quatro categorias:


E, F, C e D; em uma ordem crescente de obrigações do exportador.
Isto é, na modalidade EXW o exportador não tem qualquer responsa-
bilidade de transporte, pois entrega a mercadoria para o importador
(ou alguém por ele indicado) em seu próprio estabelecimento. Já na
modalidade CIF, o exportador é responsável pelo pagamento dos cus-
tos de frete e seguro até o Porto indicado pelo comprador.
É útil ainda que essas 13 classificações sejam mais precisamente
definidas, devido à sua importância quanto à modalidade do comér-
cio. Estas definições estão a seguir.

Grupo E

EXW – Ex Works (...nome do local):

a mercadoria é colocada à disposição do comprador no esta-


belecimento do vendedor ou em outro local nomeado (fábri-
ca, armazém, etc.), não desembaraçada para exportação e não
carregada em qualquer veículo, isto é, a documentação e o
carregamento (como exemplo temos: do armazém para o ca-
minhão de carga) são de responsabilidade do comprador; e
é aplicável em qualquer modalidade de transporte.

Grupo F

GLOSSÁRIO FCA – Free Carrier (...nome do local):


*Lacustre – relativo a diferença em relação ao EXW é que a mercadoria é coloca-
a lago. Fonte: da à disposição do comprador já desembaraçada para expor-
Houaiss (2001). tação, em local indicado pelo comprador/importador; e
é aplicável em qualquer modalidade de transporte.

FAS – Free Along Ship (...nome do porto de embarque):

a mercadoria é colocada à disposição do comprador ao lado


do navio transportador no porto de embarque designado. A
partir desse momento, todos os custos e riscos referentes a
frete e seguro são de responsabilidade do comprador; e
é aplicável apenas para transporte marítimo, fluvial ou lacustre*.

50
Módulo 7

FOB – Free on Board (...nome do porto de embarque):

a responsabilidade do exportador quanto ao custo e risco da


mercadoria cessa quando a mercadoria transpõe a amurada
do navio (ship’s rail) no porto de embarque indicado. A par-
tir desse momento, todos os custos e riscos são de responsa-
bilidade do comprador. Logo, a entrega da mercadoria ocor-
re a bordo do navio indicado; e
é aplicável apenas para transporte marítimo, fluvial ou lacustre.

Grupo C

CFR – Cost and Freight (...nome do porto de destino):

a mercadoria é colocada à disposição do comprador ao lado


do navio transportador no porto de destino designado. Desse
modo, o exportador é responsável pelo desembaraço da ex-
portação, pelo pagamento do frete e pelos riscos de perda ou
dano da mercadoria até o porto de destino; e
é aplicável apenas para transporte marítimo, fluvial ou lacustre.

CIF – Cost, Insurance and Freight (...nome do porto de destino):

a diferença em relação ao CFR é que o exportador é respon-


sável – além do desembaraço da exportação, do pagamento
do frete e dos riscos de perda ou dano – pela contratação e
pagamento do prêmio de seguro do transporte principal (no
caso, aquaviário);
o seguro pago pelo exportador tem cobertura mínima (qual-
quer seguro adicional é de competência do comprador). To-
dos os riscos e custos por conta do exportador cessam quan-
do a mercadoria é entregue ao comprador, isto é, quando a
mercadoria transpõe a amurada do navio no porto de destino; e
é aplicável apenas para transporte marítimo, fluvial ou lacustre.

CPT – Carriage Paid to (...nome do local de destino):

o exportador é responsável pela contratação e pagamento do


frete até o local do destino designado. A partir do momento
em que a mercadoria é entregue ao transportador designado, os
riscos por perdas e danos são transferidos para o comprador; e
51
Curso de Graduação em Administração a Distância

é aplicável em qualquer modalidade de transporte.

CIP – Carriage and Insurance Paid to (...nome do local de destino):

a diferença em relação ao CPT é que a responsabilidade do


exportador é acrescida da contratação e pagamento do segu-
ro até o local de destino. Nesse caso, o seguro pago pelo
exportador tem cobertura mínima. Qualquer cobertura com-
plementar é de competência do comprador; e
é aplicável em qualquer modalidade de transporte.

Grupo D

DAF – Delivered at Frontier (...nome do local de destino):

o exportador tem a responsabilidade de entregar a mercado-


ria no ponto designado na fronteira, contudo antes da merca-
doria ser submetida à aduana do país de destino. Todos os
custos e riscos até esse ponto são de competência do expor-
tador. Note que o exportador é responsável pelo desembaraço
da exportação, mas não pelo desembaraço da importação; e
é aplicável apenas para transporte terrestre.

DES – Delivered Ex Ship (...nome do porto de destino):

semelhante ao DAF, mas aplicável somente ao transporte


aquaviário. O exportador tem a responsabilidade de entregar
a mercadoria ao comprador, a bordo do navio, não desemba-
raçada para a importação, no porto de destino designado. A
responsabilidade do exportador quanto aos custos e riscos com
a mercadoria cessa no porto de destino, antes da descarga; e
é aplicável apenas para transporte marítimo, fluvial ou lacustre.

DEQ – Delivered Ex Quay (...nome do porto de destino):

exportador tem a responsabilidade de colocar a mercadoria à


disposição do comprador, não desembaraçada para importa-
ção, no cais do porto de destino designado. O exportador
fica com todos os custos e riscos inerentes ao transporte até o
porto de destino, incluindo o descarregamento da mercado-
ria no cais do porto de destino; e
52
Módulo 7

é aplicável apenas para transporte marítimo, fluvial ou lacustre.

DDU – Delivered Duty Unpaid (...nome do local de destino):

semelhante ao DEQ, com a diferença de que o exportador


deve colocar a mercadoria à disposição do comprador, no
porto de destino designado, sem estar desembaraçada para
importação e sem descarregamento do veículo transportador; e
é aplicável em qualquer modalidade de transporte.

DDP – Delivered Duty Paid (...nome amed place of destination):

o exportador tem a responsabilidade de entregar a mercado-


ria ao comprador, desembaraçada para importação no local
de destino designado. O DDP é o incotermo com maior grau
de responsabilidade do exportador, já que os custos e riscos
de transporte e seguro só terminam quando a mercadoria é
descarregada, desembaraçada e entregue ao comprador no
local de destino; e
é aplicável em qualquer modalidade de transporte.

Por fim, o Quadro 7 e a Figura 9, a seguir, mostram de modo


esquemático, as responsabilidades de custos e riscos em cada uma das
modalidades.

Quadro 7: Incotermos 2000 e Respectivos Custos


Fonte: <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/informacoes/ 53
incoterms_quadro.htm> Acesso em: 5 nov. 2008
Curso de Graduação em Administração a Distância

A Figura 9 representa a transferência de risco durante o trans-


porte da mercadoria:

Figura 9: Incotermos 2000: Transferência de Risco do Vendedor ao Comprador


Fonte: <www.apredendoaexportar.gov.br>. Acesso em: 23 out. 2008

Exemplos de uso de Incotermos (“Incoterm 2000”):

Por que Incoterm 2000? Porque se refere à última atualiza-


ção destas classificações, que ocorreu no ano 2000.
FCA Kuala Lumpur Incoterms 2000 – quer dizer “free
carrier” (FCA); isto é, a mercadoria a ser exportada, já de-
sembaraçada pelas autoridades aduaneiras da Malásia, é co-
locada à disposição do importador em algum local (um arma-
zém, por exemplo) de Kuala Lampur (Malásia).
FOB Santos Incoterms 2000 – quer dizer “free on board”
(FOB); isto é, o exportador brasileiro se responsabiliza por
todos os custos e riscos da mercadoria até ela cruzar a amurada
do navio no porto de origem da exportação, Santos (Brasil).
CIF Roterdam Incoterms 2000 – quer dizer “cost, insurance
and freight” (CIF); isto é, o exportador (por exemplo, brasi-
leiro) deve colocar a mercadoria ao lado do navio transporta-
dor no porto de Roterdam (Holanda), sendo responsável por
todos os custos e riscos da mercadoria até o porto de destino.
DDU Frankfurt Schmidt GmbH Warehouse 4 Incoterms 2000
– quer dizer “delivered duty unpaid” (DDU); isto é, o expor-
tador se responsabiliza por todos os custos e riscos exceto o

54
Módulo 7

descarregamento da mercadoria até à Schmidt Warehouse em


Frankfurt (Alemanha).

Nomenclatura para exportação

Para identificar o produto que está sendo comercializado, adota-


se em comércio exterior um sistema padronizado de classificação de
mercadorias. O chamado Sistema Harmonizado de Designação e de
Codificação de Mercadorias (ou conhecido internacionalmente como
Harmonized System-HS 2007, data da última atualização) é baseado
em uma estrutura de códigos e respectivas descrições que identificam
a mercadoria e suas respectivas especificações. Notem que para que um
país possa se beneficiar de uma tarifa de importação preferencial em qual-
quer outro país ou bloco regional é necessário que sua mercadoria esteja
apropriadamente classificada de acordo com o Sistema Harmonizado.
O HS 2007 é uma metodologia de identificação com seis dígi-
tos. Os países que aderem ao sistema harmonizado não podem alterar
a descrição estabelecida por esses dígitos, mas podem estender a clas-
sificação para oito ou dez dígitos, com a intenção de aprofundar a
especificação das mercadorias. Mais de 200 países e blocos comerci-
ais seguem os critérios estabelecidos pelo HS 2007, representando 98%
do comércio mundial.
O Brasil, juntamente com os demais países do Mercosul (Ar-
gentina, Paraguai e Uruguai) adotam, desde janeiro de 1995, a No-
menclatura Comum do MERCOSUL (NCM), que é um metódo de
classificação de mercadorias compatível com o Sistema Harmonizado.
No caso do NCM, para vários produtos adota-se uma nomenclatura de
oito dígitos, na qual os seis primeiros dígitos são formados pelo Sistema
Harmonizado, enquanto o sétimo e oitavo dígitos correspondem a des-
dobramentos específicos usados no âmbito do MERCOSUL.
A Nomenclatura Comum do Mercosul compreende 21 seções,
composta por 96 capítulos (identificados pelos primeiros dois dígitos).
Os capítulos são divididos em posições e subposições (até aqui temos os

55
Curso de Graduação em Administração a Distância

seis primeiros dígitos, iguais ao HS 2007). As subposições são desdobra-


das em item e subitem, identificando mercadorias ainda mais específicas.
A NCM segue a seguite estrutura:

Figura 10: Esquema de Identificação de Mercadoria NCM


Fonte: <www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/
interna.php?area=5&menu=1090> Acesso em: 25 out. 2008

Exemplo de classificação da NCM:

Código NCM Especificação

85 Máquinas, aparelhos e material elétrico


e suas partes
Para maiores detalhes
8517 Aparelhos elétricos para linhas
sobre toda a lista de telefônicas e telegráficas
nomenclatura de co- 8517.12.31 Terminais portáteis de telefonia celular
mércio exterior no 01 Animais vivos
Brasil (NCM), ver 0104 ... das espécies ovina e caprina
<http:// 0104.10 ... ovinos
www.mdic.gov.br/sitio/ 0104.10.1 ... reprodutores de raça pura
interna/interna.php? 0104.10.11 ... prenhe ou com cria ao pé
area=5&menu=1095>.
Para o HS 2007 ver
(site oficial da World Notem, pelo exemplo acima, que nem sempre todas as
Customs Organization) subclassificações existem. É o caso dos telefones celulares, que são
<http:// identificados com oito dígitos e classificados também sob o Capítulo
www.wcoomd.org/ 85 e a posição 8517.
home_wco_topics_
hsoverviewboxes_tools_
and_instruments_hs
nomenclaturetable2007.htm>
(em inglês).
56
Módulo 7

Documentação para exportação

Para que uma operação de comércio exterior, entre duas empre-


sas de países distintos e com legislações diferentes, ocorra de modo
eficiente e em um ambiente com confiança é necessário que existam
contratos formais e uma documentação específica. Muitos documen-
tos são padronizados ou bastante semelhantes, qualquer que sejam os
países para onde as empresas brasileiras estejam exportando. Outros
são específicos de cada mercado. E ainda existem aqueles que são
exigidos pelas autoridades brasileiras quando a empresa decide ven-
der para fora do país. A lista abaixo descreve essa exigência docu-
mental enfrentada pelos exportadores brasileiros.

Fatura Proforma (Proforma Invoice)

A fatura proforma é o registro das condições do negócio, isto é,


inclui informações como características da mercadoria exportada, por
exemplo, quantidade, preço unitário e peso líquido, dados do exporta-
dor, como nome, endereço e conta bancária, e condições de venda da
mercadoria, por exemplo, responsabilidades de cada parte (Incotermo)
e forma de pagamento.
A fatura proforma serve para fins de cotação e dá condições
para que seja gerada a fatura comercial.

Fatura Comercial (Commercial Invoice)

É o documento que comprova a venda da mercadoria, logo, é


como se fosse uma “nota fiscal” internacional. É emitido pelo expor-
tador em várias vias, conforme solicitado pelo importador. É um do-
cumento essencial ao importador para que ele possa desembaraçar as
mercadorias em seu país. Entre as informações que estão em um
“commercial invoice” estão: a descrição da mercadoria; o preço unitá-
rio e o valor total do negócio; as condições de venda (isto é, o
incotermo) e de pagamento; porto (ou local) de origem e destino; e
nome e endereço do exportador e do importador. As faturas comerci-

57
Curso de Graduação em Administração a Distância

ais podem mudar conforme o país importador, pois é para o importa-


dor que esse documento é mais importante, como prova das condições
do negócio e como instrumento para desembaraçar a mercadoria no
país de destino.

COMMERCIAL INVOICE

Export References:

Baking Technologies, Inc. quote number BT10102


Invoice No: BT-1638

Mendez Panaderias S.A. purchase order number M3652

Exporter Name and Ultimate Consignee Name Sold To Name and Address:
Address: and Address: Mendez Panaderias S.A.
Baking Technologies, Inc. Mendez Panaderias S.A. Col. Roma
45 South 7th Street Col. Roma Mexico D.F., C.P. 06760
Minneapolis, MN 55402 Mexico D.F., C.P. 06760

Intermediate Consignee/ Notify Party Name and Date of Shipment:


Consigned to: Address: 14JAN02
Galfiro Montemayor Mendez Panaderias S.A. AWB/BL Number: MXVZ
Brokers Col. Roma 9707503
Avenida de Colombia Mexico D.F., C.P. 06760 Currency: USD
1025 Veracruz, Mexico Phone: 5 25 1 348 1572
Letter of Credit Number:
Contact: Carlos Mendez 120ICCI000-990093

Conditions of Sale and Transportation: Total Number of Packages:


Terms of Payment: Via: Ocean 4
Freight: Pre-Paid From: Port of Houston, Total Net Weight (kgs):
Title Transfer Occurs At: Texas to Port of Veracruz, 1,815
Minneapolis, Minnesota Mexico Total Gross Weight (kgs):
CPT Veracruz, Mexico per 2,722
Incoterms 2000
Payment Terms: Payable
by letter of credit

ine Item Number, Harmonized Number, Country Quantity Unit Price Total
No Product Description of Origin Price

Quadro 8: Exemplo de Fatura Comercial (Commercial Invoice)


Fonte: <www.exportassistance.com/documents/invoiceexample>
Acesso em: 25 out. 2008

58
Módulo 7

Registro de Exportação

O Registro de Exportação (RE) é documento obrigatório ao ex-


portador brasileiro, exigido pelo Ministério do Desenvolvimento e
Comércio Exterior (MDIC). Claramente, o RE não acompanha a mer-
cadoria ao exterior. O RE é preenchido on-line em terminal conectado
ao Siscomex (Sistema Integrado de Comércio Exterior).

Saiba mais...

O que é o Siscomex?

Siscomex, ou Sistema Integrado de Comércio Exterior, é


um sistema informatizado que conecta exportadores, importa-
dores, despachantes aduaneiros e instituições governamentais
– principalmente o Decex (Departamento de Comércio Exteri-
or do Mdic), o Banco Central e a Secretaria da Receita Federal.
O principal objetivo do Siscomex é permitir ao governo exercer o
controle e a fiscalização sobre o comércio exterior brasileiro.
Uma vantagem do Siscomex é concentrar através de uma
única ferramenta os requisitos documentais que incidem sobre
exportações e importações. Considerando que as exigências do
governo brasileiro para operações de comércio exterior são
bastante elevadas, o Siscomex simplifica o meio através do qual
tal burocracia é atendida.
O Siscomex foi implantado em 1993 com a intenção de
reduzir o custo da burocracia e atribuir ganhos de
competitividade às exportações brasileiras. Apenas têm acesso
ao Siscomex empresas exportadoras/importadoras que obte-
nham cadastro e uma senha. Os dados necessários para o re-
gistro de exportação devem ser digitados no Siscomex no prazo
máximo de 7 dias após a saída do navio do porto.

59
Curso de Graduação em Administração a Distância

Esse documento resume informações de natureza comercial, fis-


cal, cambial e aduaneira e, portanto, contém dados sobre vendedor
(exportador), comprador (importador) e valor da transação (na moeda
em que se está comercializando). Vejam o exemplo abaixo.

Quadro 9: Exemplo de Registro de Exportação


Fonte: <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/>. Acesso em: 13 out. 2008

Nota Fiscal

Como qualquer operação comercial no Brasil, a exportação deve


emitir nota fiscal, que é exigida para que a mercadoria possa transitar
legalmente da unidade de produção até o local do embarque ou fron-
teira. Não acompanha a mercadoria ao exterior.

60
Módulo 7

Romaneio (Packing List)

O Packing List é um documento emitido pelo exportador que


tem o objetivo de auxiliar o importador na tarefa de conferência e de-
sembaraço das mercadorias. O Packing List não tem um padrão esta-
belecido e, em geral, segue um modelo conforme o pedido do impor-
tador. Quando a carga tem mais de um volume, portanto, o Packing List
descreve para cada volume (por exemplo, dentro de um container), infor-
mações como conteúdo do volume, quantidade da mercadoria e marcas.

Conhecimento de Embarque (Bill of Landing)

O Bill of Landing (B/L) é um documento padronizado no comér-


cio exterior, emitido pela empresa transportadora ou por seu agente.
O B/L atesta a entrega da mercadoria à empresa transportadora – logo
pode ser usado pelo exportador como recibo de embarque da merca-
doria – e especifica as condições de transporte, como porto/aeroporto
de origem e de destino e descrição da mercadoria (por exemplo, quan-
tidade, peso líquido, dimensões e tipo de embalagem).
O B/L acompanha a mercadoria ao exterior, até o porto/aeropor-
to de destino, e é fundamental para o desembaraço da mercadoria pela
autoridade aduaneira do país de destino.
Os conhecimentos de embarque mais utilizados são o conheci-
mento marítimo (Ocean Bill of Landing); o conhecimento ferroviário
(Railway Bill); o conhecimento aéreo (Airway Bill); e o conhecimento
rodoviário (Roadway Bill).
No exemplo abaixo, você pode observar que algumas informa-
ções são comuns ao Commercial Invoice, como o nome e o endereço
do importador ou consignatário (consignee) e o porto de origem e des-
tino, mas outras são típicas do B/L, como as características da carga
embarcada. Nesse aspecto, descrições como “clean on board” (um
conhecimento limpo, isto é, sem restrições) e “recieved in apparent
good order and conditions” (recebidas em condições aparentemente
boas) são usuais. Note, ainda, que essas informações são dadas e assi-
nadas por representante da empresa transportadora.

61
Curso de Graduação em Administração a Distância

Quadro 10: Exemplo de Conhecimento de Embarque Marítimo


Fonte: <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/>. Acesso em: 13 out. 2008

Certificados de Origem

É um documento essencial para caracterizar a procedência da


mercadoria objeto de exportação em relação a determinado país. Em
geral, essa declaração de origem do produto é feita por instituições ou
associações comerciais (no Brasil, principalmente por Federações de
Indústrias) onde está localizada a empresa exportadora.
O objetivo principal de certificados de origem é atender requisi-
tos de conteúdo local das mercadorias, conforme previsto em acordos
comerciais. Por exemplo, exigência de que o produto seja produzido

62
Módulo 7

no Mercosul para que possa usufruir de tarifa zero quando exportado


de um país do Mercosul para outro.

Transporte e logística

Logística e transporte em comércio exterior

A relevância dos custos de transporte em comércio exterior é


inegável e tem aumentado, em termos relativos, nas últimas décadas
como consequência da redução dos custos de produção das mercado- GLOSSÁRIO
rias, da ampliação do comércio de longa distância (por exemplo, como *Logística – são
resultado da ascensão econômica da Ásia) e da desgravação tarifária. ações e práticas
operacionais que
Isto é, o peso do transporte no custo final da mercadoria entregue no
planejam, adminis-
país de destino tem aumentado. Explica-se, assim, toda esta preocupa-
tram e controlam o
ção com logística* e busca de alternativas para reduzir custos e aumentar movimento de ma-
eficiência em transporte, armazenamento e distribuição de mercadorias. teriais, equipamen-
tos, produtos e ser-
Transporte Marítimo viços ao longo de
uma cadeia produti-
va, desde as matéri-
as-primas sem
beneficiamento até a
entrega ao consu-
midor final. Fonte:
Lacombe (2004).

Figura 11: Transporte Marítimo


Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/File:Colombo.Express.wmt.jpg>
Acesso em: 21 dez. 2008

O transporte marítimo é a modalidade mais utilizada no comér-


cio internacional, sendo responsável por aproximadamente 80% de
todo o transporte de comérco exterior. O transporte marítimo, além de
ser mais barato e com maior capacidade de carga, tem permitido a

63
Curso de Graduação em Administração a Distância

absorção de muitas inovações tecnológicas. Exemplos destas inova-


ções são as aplicações em modos de controle de carga – como o uso
de computadores em portos, para liberação de cargas e sistemas de
O maior navio de recuperação de informações – e as aplicações de controle de tempera-
container do mundo tura e ambiente nos próprios modos de carga.
é o Emma Maersk. A introdução de containers com temperatura controlada tem per-
O navio dinamarquês mitido o aumento do comércio de produtos perecíveis, como carnes,
mede 397 metros de peixes, flores, frutas, vegetais, laticínios e produtos químicos. O co-
comprimento, 63 mércio desses produtos perecíveis requer, portanto, absoluto controle
metros de largura, e da temperatura do ambiente ao longo de toda a cadeia de produção e
pode transportar cerca comerialização. Para tanto foram desenvolvidas basicamente duas li-
de 11 mil containers, nhas de containers: os containers isotérmicos e os containers refrige-
veja Figura 12. rados. Os containers isotérmicos carregam mercadorias que não po-
dem estar expostas a variações bruscas de temperaturas e, em geral,
possuem aberturas para ventilação. São usados, por exemplo, para o
transporte de café, cacau, tabaco, cebola e alho. Já os containers refri-
gerados são usados para o transporte de produtos que precisam ser
mantidos a uma temperatura muito baixa (por exemplo, nível de con-
gelamento). Esses containers são equipados com sistema de refri-
geração, podendo manter temperaturas constantes até 30 ºC abai-
xo de zero. Geralmente transportam: carnes e frutas e vegetais,
que têm alto grau de perecibilidade. Exemplos de exigência de
temperatura máxima no interior dos containers são: maçãs, 1 oC;
tomates, 10 oC; e cebolas e alhos, 1 oC.

Figura 12: Navio Emma Maersk


Fonte: <http://www.scdigest.com/assets/NewsViews/images/
bigboat420x303.jpg> Acesso em: 3 nov. 2008

64
Módulo 7

Regimes de Afretamento

Em se tratando de transporte marítimo de cargas, há dois perso-


nagens: o fretador (ou armador) e o afretador. O fretador é quem
possui a embarcação e oferece o serviço de transporte de mercadorias.
Dentre as obrigações do fretador estão zelar pelas condições de con-
servação da carga e emitir o certificado de embarque. O afretador, por
sua vez, é quem entrega a carga para ser transportada, mediante o pa-
gamento de frete. É de responsabilidade do afretador proceder a carga
e descarga do navio, respeitando o disposto no contrato comercial
(Incotermo).
Quanto à utilização do navio, os contratos de afretamento po-
dem ser baseados em: (i) certificados de embarque (Bill of Landing),
que são os contratos mais comuns, pois referem-se a cargas de diver-
sas origens em pequenos lotes; e (ii) charter party (ou carta partida),
quando o afretador requer grande parte do navio para transportar um
grande volume de mercadorias. Nesta categoria, há três modalidades
distintas: GLOSSÁRIO
* unitização – é o
Bareboat charter (ou Casco nu): modalidade em que o
agrupamento de
afretador aluga o navio sem tripulação e é responsável pela
mercadorias em
gestão náutica e comercial da carga;
uma unidade apro-
Time charter: contrato de prestação de serviços em que o priada e padroniza-
afretador recebe o navio com tripulação (logo, a gestão náu- da para o transpor-
tica é por conta do fretador). A gestão comercial é do te. A padronização
afretador; e no formato de uni-
Voyage charter: contrato de prestação de serviços em que o dades de transporte
afretador entrega a mercadoria e o fretador é responsável pela tem como vantagens
gestão náutica e comercial, carga e descarga e eventuais da- a racionalização da
nos à mercadoria. armazenagem, a ra-
pidez na estocagem
e transporte e a re-
Unitização de Cargas
dução de danos aos
A unitização* de cargas tem o objetivo de reduzir custos, faci- produtos. Fonte: ela-
litar o manuseio e ganhar segurança no transporte de mercadorias. borado pelo autor.

65
Curso de Graduação em Administração a Distância

Principais Sistemas de Unitização de Cargas

Os dois principais sistemas de unitização de cargas são aqueles


em que as unidades de transporte são pallets e containers.

Pallet: é uma plataforma, geralmente de madeira (também


pode ser de metal ou plástico), disposta horizontalmente, na
qual a carga pode ser empilhada e transportada. É um siste-
ma de unitização de baixo custo, mas que permite ganhos de
eficiência em transporte, pois os pallets podem ser movimen-
tados por carrinhos ou empilhadeiras. É o sistema de
unitização mais aplicado no comércio mundial.
Tipos de pallets: há vários tipos de pallets que se diferen-
ciam pela resistência e flexibilidade. Por exemplo, o pallet
de duas entradas e face única é de baixo custo, pois possui
apenas uma plataforma de madeira. Já o pallet de quatro
entradas e dupla face reversível tem duas plataformas de
madeira encaixadas, é totalmente flexível e duradouro.
Aconselhável para cargas pesadas e de maior valor. As duas
fotos abaixo representam estes dois pallets.

Figura 13a: pallet de duas entradas e Figura 13b: pallet de quatro


face única entradas e dupla face

Figura 13: Pallets


Fonte: <http://www.guialog.com.br/paletes>. Acesso em: 13 nov. 2008

Medidas de pallets: de acordo com os critérios da ISO


(Norma 6780) existem seis medidas de pallets certifica-
dos, que são:

66
Módulo 7

Tamanhos de Pallets (com certificação ISO)

Dimensão (mm) Região

1.219 x 1.016 América do Norte

1.200 x 1.000 Europa, Ásia e Brasil

1.140 x 1.140 Austrália

1.067 x 1.067 América do Norte, Europa e Ásia

1.100 x 1.100 Ásia

1.200 x 800 Europa

Quadro 10: Tamanhos de pallets


Fonte: <http://www.guialog.com.br/paletes>. Acessso em: 13 nov. 2008

Container: é uma caixa construída em aço, alumínio ou fi-


bra, com o objetivo de transporte unitizado de mercadorias
por meio de navios, trens, caminhões ou aviões.
Medidas de containers: os containers podem apresentar
diversos comprimentos e alturas, mas a largura é padroniza-
da. Os dois containers mais usados no comércio exterior são:
Containers de 20’ (vinte pés): tem as seguintes dimen-
sões: comprimento: 20’ (ou 6,10 m); largura: 8’ (ou 2,44
m); altura: 8’6” (ou 2,59 m). Máximo peso 30.400 kg e
volume máximo: 33.1 m3.
Container de 40’ (quarenta pés): tem as seguintes di-
mensões: comprimento: 40’ (ou 12,20 m); largura: 8’
(ou 2,44 m); altura: 8’6” (ou 2,59 m). Máximo peso
30.400 kg e volume máximo: 67,5 m3 (notem que o de
40’ carrega o mesmo peso do que o de 20’ – por ques-
tões de resistência – mas cerca do dobro do volume). O
container de 40’ é mais comum no comércio exterior.
Tipos de containers: os containers podem ser de diversos
tipos, desde totalmente fechados a totalmente abertos, e
com ou sem controle de temperatura do interior. Dentre os
mais comuns, estão:
Container padrão: concebido para transportar carga seca
em geral (ver foto).

67
Curso de Graduação em Administração a Distância

Container refrigerado: também chamado de reefer, para


carga que requer baixas temperaturas (resfriadas ou con-
geladas). Temperaturas podem ser mantidas até -25º C.
Container flat rack: são abertos nas laterais, adequados
para cargas pesadas e superdimensionadas.
Container open top: são adequados para carga com al-
tura superdimensionada. São cobertos com lona e tam-
bém são úteis para carga que requer ventilação.
Container ventilated: são aqueles com janelas de ventila-
ção, adequados para o comércio de produtos orgânicos.

Figura 14: Container


Fonte: <www.containercontainer.com>. Acesso em: 13 nov. 2008

Figura 15: Open top


Fonte: <www.wssl.co.uk/photos/p_opentop.jpg>. Acesso em: 13 nov. 2008

Figura 16: Flat rack


Fonte: <http://www.occontainer.com/images/cat40/cat40_flatrack_b.jpg>
Acesso em: 13 nov. 2008
68
Módulo 7

Saiba mais...

Os maiores portos do mundo

Figura 17: Porto de Cingapura


Fonte: <www.singaporemirror.com.sg/ab_infr_port.htm>.
Acesso em: 3 nov. 2008

Figura 18: Porto de Santos


Fonte: http://www.sindmar.org.br/fotos/
1673porto%20de%20santos%202.jpg Acesso em: 3 nov. 2008

Embora exista alguma polêmica sobre como medir o mo-


vimento de um porto, se pelo número de navios que atracam ou
se pelo volume da carga transportada (este último critério pare-
ce mais convincente), em qualquer lista a hegemonia é de por-
tos asiáticos. Dos dez maiores portos do mundo (por tonelada
de carga), nove estão na Ásia e seis na China. O maior de todos
é o de Xangai, seguido de muito perto pelo de Cingapura. O
terceiro da lista é a exceção não asiática, o principal porto da
Europa, Roterdam. Vale dizer que por movimentação de

69
Curso de Graduação em Administração a Distância

containers – que exige mais tecnologia do que movimento da


carga paletizada – o porto de Cingapura (foto) supera o de Xan-
gai. E o Brasil? O porto com maior movimentação de carga
(por tonelada) é o porto de Tubarão (ES), que pertence à em-
presa Vale e exporta basicamente minério de ferro. Em movi-
mentação de containers o porto de Santos é o 38º maior do
mundo.

Fonte: <www.aapa-ports.org (american association of port authorities)>. Acesso


em: 3 nov. 2008.

Exportação de commodities versus produto diferenciado – Qual


incotermo é mais usado na exportação de uma commodity, isto é, uma
mercadoria homogênea, sem marca e onde o preço é dado pelo merca-
do internacional? E qual incotermo deve uma empresa usar quando
exporta um bem diferenciado em relação aos dos competidores, em
que a marca identifica o produto e, por essas razões, a empresa conse-
gue cobrar um preço mais elevado?
A resposta parece simples, não é?
De um modo geral, o grau de responsabilidade da firma no trans-
porte e seguro da mercadoria tende a ser maior, quanto mais a merca-
doria estiver identificada com a própria firma e, portanto, quanto mais
diferenciado for o produto. Uma forma indireta de avaliar isso é avali-
ar a diferenciação de preços, em diferentes mercados compradores. Se
a mercadoria é commodity então o preço não deve ser distinto; se o
produto for diferenciado, neste caso, o preço tende a ser distinto em
cada mercado externo. O Quadro 11 procura mostrar isso.

70
Módulo 7

Quantidade Preço Médio


Total/País Destino Valor (US$)
(Kg e Unid) (US$)

Total de Outros grãos de 10.300.957.786 23.018.715.828 0,447


soja, mesmo triturado –
NCM 12010090

China 5.232.119.547 11.579.763.385 0,451

Espanha 996.154.065 2.219.296.496 0,448

Holanda 953.136.425 2.247.319.618 0,424

Total de Outros calçados 82.539.586 2.081.821 39,64


c/sola externa de couro
natural e cobrindo o
tornozelo – NCM
64039190

Estados Unidos 45.521.688 1.074.316 42,37

Espanha 9.492.806 330.574 28,71

Alemanha 4.381.866 91.085 48,11

Quadro 11: Exportação de Soja em Grão e Calçados com Solado de Couro


– Brasil Jan./2008-Out/2008 – Total e Países de Destino
Fonte: Dados Brutos – Aliceweb

Notem que o preço médio da soja em grão, vendida nos princi-


pais mercados para onde o Brasil exporta, é bastante semelhante (por
volta de 42-45 centavos de dólar por kg). Já o preço médio do calçado
de couro – que é um produto mais diferenciado e, em muitos casos,
vendido com marca própria – é bastante diferente conforme o merca-
do consumidor. O calçado é mais caro (provavelmente com mais qua-
lidade) quando vendido para Alemanha e, menos caro, para os EUA.
Por outro lado, tem um preço bem mais baixo quando exportado para
Espanha, o que pode ser explicado pelo fato da Espanha ser um gran-
de exportador de calçados finos e, logo, de alto preço. Assim, a Espanha
se especializa em calçados de alta qualidade, exporta esses calçados e
importa outros tipos de calçados, de menor custo, do Brasil (Lembra-
se disso? É comércio intraindústria!).

71
Curso de Graduação em Administração a Distância

RESUMO

Nesta Unidade demos início às questões mais práticas de


comércio exterior. Apresentamos os principais conceitos relati-
vos às informações de modalidades de comércio – os chamados
incotermos. Discutimos que a escolha do incotermo mais ade-
quado é acima de tudo uma escolha estratégica. Também foram
detalhadas questões de logística, como transporte – containers
e pallets – e aspectos de documentação em comércio exterior.
Demos muita ênfase nesta Unidade a aspectos de informação e
descrição do comércio exterior, que serão explorados em um
caráter mais analítico na próxima Unidade.

Atividades de aprendizagem

Estudo de Mercado (Prospecção) de Exportação do Produto


X para os Mercados Y1 e Y2.

O objetivo deste trabalho de pesquisa é apresentar e discutir as pers-


pectivas de mercado de um produto (X) de exportação brasileiro
em dois mercados (um mais consolidado e outro potencial).
Caracterização do estudo de caso: comente sobre a natureza do pro-
duto em questão; avalie os principais países exportadores e impor-
tadores e o papel do Brasil.
Mercados alvo: país consolidado e país potencial. Selecione estes
dois países. Apresente uma breve caracterização econômica de cada
um deles (potencial de consumo, crescimento etc).
Avalie, nos últimos três anos, as exportações brasileiras para estes
dois mercados e também o crescimento de exportações de outros
países para estes dois mercados.
Comente, comparando crescimento do valor das exportações, vo-
lume e preço médio e o market-share do Brasil nestes mercados.
Avalie, de modo conclusivo, as perspectivas das exportações brasi-
leiras.
72
Módulo 7

UNIDADE

3
Competitividade,
Competitividade, Marketing
Marketing
ee Sistemas
Sistemas de
de Incentivo
Incentivo
às
às Exportações
Exportações

73
Curso de Graduação em Administração a Distância

Objetivo

Nesta Unidade discutiremos os argumentos que incidem sobre a decisão

de exportar e investir no exterior, os determinantes da competitividade,

os instrumentos de marketing internacional – principalmente a pesquisa

de mercado e as feiras internacionais – e apresentaremos as instituições

brasileiras de apoio às exportações.

74
Módulo 7

Estratégias de internacionalização

Olá estudante,
Esta terceira Unidade vai tratar de aspectos da prática de
comércio exterior com relação aos diversos instrumentos,
privados e públicos, que são usados para estimular as ex-
portações das empresas. Podemos dizer que esta Unidade
trata do “coração” do comércio exterior enquanto prática
de estratégia empresarial. Vamos abordar assuntos como a
controvérsia entre exportar ou investir no exterior, os
determinantes da competitividade e os principais instru-
mentos de marketing empresarial para enfrentar a compe-
tição internacional. O aprendizado deste conteúdo ajuda
na diferenciação de uma pessoa que apenas conhece os
termos e a burocracia do comércio externo de alguém que
pensa o comércio exterior como uma alternativa estratégi-
ca da empresa.

O comércio mundial aumentou muito rapidamente nas últimas


três décadas, em virtude da desgravação tarifária, da liberalização fi-
nanceira, do aumento do crédito e do acesso mais ágil à informação.
As empresas – neste tão divulgado e, verdadeiramente, globalizado
mundo – podem atingir um determinado mercado no exterior através
de duas estratégias alternativas.
Quais são elas?
Bem, primeiro, obviamente a empresa pode exportar o produto
para o mercado que ela pretende alcançar. A estratégia de venda para
esse mercado estrangeiro requer que o produto ou serviço produzido
no país de origem da empresa seja competitivo – com preço compatí-
vel com o mercado e/ou com qualidades de produto que o diferenciem
dos concorrentes.
Segundo, a empresa pode avaliar que ao invés de exportar para
o mercado externo, é mais rentável produzir seu produto naquele mer-

75
Curso de Graduação em Administração a Distância

GLOSSÁRIO cado externo e, então, vender o produto. Neste caso, portanto, a em-
* E m p r e s a presa atinge o mercado externo adotando uma estratégia de investi-
multinacional mento direto externo e tornando-se uma empresa multinacional*.
(EMN) – é definida, As multinacionais podem se produzir internacionalmente de for-
segundo Eiteman,
ma horizontal, quando possuem estabelecimentos em diversos países
Stonehill e Moffet
com a mesma produção (por exemplo, a rede de fast food McDonald’s),
como “uma empre-
sa que tem subsidi- ou de forma vertical, quando possuem unidades em diferentes países
árias, filiais e afilia- que produzem componentes ao longo da cadeia de valor (por exem-
das operando em pa- plo, Adidas).
íses estrangeiros.” Dentre as vantagens da atração de multinacionais estão: a gera-
De acordo com ção de emprego e renda, o ingresso de divisas, o treinamento da mão
Krugman e Obstfeld, de obra, o transbordamento tecnológico para empresas locais e o efei-
uma empresa é con-
to multiplicador sobre outros investimentos na região.
siderada filial de
A maior multinacional do mundo é a rede varejista Wal-Mart
uma multinacional
com sede no exteri- Stores, com uma receita de US$ 351 bilhões. Outras grandes
or se 10% ou mais multinacionais incluem a Exxon Mobil (US$ 347 bilhões), a Royal
de suas ações per- Dutch Shell (US$ 319 bilhões) – ambas da indústria petroleira, a ame-
tencerem a uma em- ricana General Motors (US$ 207 bilhões) e a japonesa Toyota Motor
presa estrangeira, já Corporation (US$ 205 bilhões), ambas da indústria automobilística.
que 10% são sufici- Assim, a internacionalização da empresa pode ser via Exporta-
entes para a aquisi-
ção e/ou Investimento Externo.
ção de controle. Fon-
te: Eiteman, Stonehill
e Moffet (2002, p.
24); Krugman e
A decisão da firma de
Obstfeld (2005).
investir no exterior

Por que as empresas decidem virar empresas multinacionais; isto


é, por que as empresas atuam produzindo bens e serviços em países
estrangeiros?
Já existe uma longa tradição que examina as razões para o inves-
timento externo. Uma abordagem bastante abrangente sobre os
O artigo original está determinantes do investimento de empresas multinacionais é apresen-
em Dunning (1988). tada por Dunning – através do que ficou conhecido como o paradigma

76
Módulo 7

eclético do investimento direto externo (IDE). A Figura 8 abaixo resu-


me os determinantes do IDE segundo esse paradigma eclético.

Figura 19: Determinantes do Investimento de Empresas Multinacionais


Fonte: elaborada pelo autor

De acordo com este esquema, são quatro os fatores que levam


uma empresa multinacional a investir em um país como o Brasil.

Primeiro, as empresas vêm produzir no Brasil por causa do


tamanho do mercado brasileiro. Essa busca de mercado é uma
estratégia, principalmente voltada para o mercado domésti-
co. As empresas avaliam que é mais rentável produzir local-
mente do que produzir em seus países de origem e exportar.
Um fator que pode influenciar esta decisão são as tarifas de
importação (por isso, essa estratégia é também chamada de
“pular a tarifa”).
Segundo, as multinacionais podem vir atrás de recursos na-
turais (minérios, florestas e a própria terra) e de fatores de
produção, especialmente oferta abundante de mão de obra – o
que resulta em salários baixos. Essa busca de recursos pode estar
associada à venda para o mercado interno, mas é mais comum
que o objetivo das multinacionais, neste caso, seja a exportação.

77
Curso de Graduação em Administração a Distância

GLOSSÁRIO
*joint ventures – (É Terceiro, as empresas multinacionais podem decidir incluir o
uma associação en- país doméstico (Brasil, por exemplo) em seus planos de in-
tre duas empresas vestimento de acordo com sua cadeia global de produção.
para desempenhar Nesse caso, o país que recebe o investimento não produz o
uma determinada bem todo, mas é responsável apenas por uma etapa de pro-
atividade empresari- dução – que se integraliza a partir de uma produção em ca-
al, na qual ambas deia global.
mantém sua perso-
Quarto, o movimento dos investimentos das multinacionais
nalidade jurídica. A
ao redor do mundo é também influenciado pelas oportunida-
joint venture, por-
des financeiras. ... Como assim? Ora, uma grande empresa
tanto, existe en-
dispõe de recursos financeiros ou tem crédito para comprar
quanto durar o pro-
outra empresa, desde que este seja um bom negócio. Então,
jeto que levou as
programas de privatizações (como o que aconteceu na área
duas empresas a ce-
de telecomunicações no Brasil) e abertura do capital de em-
lebrar a associação.
presas para sócios internacionais (joint ventures*) são opor-
A joint venture de
tunidades para o investimento multinacional.
uma empresa domés-
tica com uma
Dentre as vantagens de uma joint venture estão: (i) as empresas
multinacional em ge-
não participam societariamente, isto é há apenas um relacionamento
ral visa a transferên-
cia de tecnologia, a operacional, com prazo determinado para terminar; (ii) a empresa do
experiência em ges- país menos desenvolvido pode adquirir tecnologia, acesso a mercados
tão e comercialização e obter ganhos de escala; (iii) e a empresa do país menos desenvolvido
e a produção em es- absorve novas técnicas de gestão e tem ganhos decorrentes da experi-
cala global. Exem- ência de comercialização internacional. Em alguns países em desen-
plos são a joint volvimento, principalmente na China, as empresas multinacionais são
venture entre a Sony
obrigadas a formar joint ventures com empresas locais para poderem
(Japonesa) e a
acessar o mercado chinês e também a transferir tecnologia e a própria
Ericsson (Sueca)
para produzir apare- gestão do negócio após o fim da associação.
lhos celulares; e no
Brasil, a joint
ventures, entre a Saiba mais...
Volkswagen e a
A internacionalização das montadoras de ônibus: os casos
Ford (Autolatina),
que vigorou de da Marcopolo e Busscar:
1987-1996 com o Busscar: Fundada em 1946, por descendentes de suecos, como
objetivo de reduzir uma marcenaria, em Joinville – SC, a Busscar S/A é dona das
custos das duas marcas: Tecnofibras, Climabuss, HVR Equipamentos Industriais, e
montador as. Fonte:
elaborado pelo autor.
78
Módulo 7

Busscar Comércio Exterior. Opera fábricas na Colômbia (possui


duas plantas de produção, em associação com as Carrocerias de
Occidente Pereira), Cuba (Transbuss), México (comprou uma
fábrica que pertencia à Ómnibus), Noruega (Vest-Busscar), Dina-
marca (comprou a fábrica de carrocerias de ônibus da Scania, junto
com sua sócia norueguesa Vest Karroserie) e Venezuela.
Marcopolo: Fundada em 1949, em Caxias do Sul, RS. Terceira
maior fabricante de ônibus do mundo e, recentemente, passou a
atuar também nos segmentos de LCV (Veículos Comerciais Leves),
peças e componentes e no de produtos plásticos. Donas das marcas
Marcopolo e Ciferal; Negócio LCV (Veículos Comerciais Leves),
com a marca Volare; Negócio Peças & Componentes, com as marcas
já consagradas; e Negócio Produtos Plásticos, com a marca MVC.
Quatro plantas no Brasil – duas em Caxias do Sul (RS), uma no Rio
de Janeiro e outra em São José dos Pinhais (PR). Hoje a Marcopolo
tem unidades em Portugal e na África do Sul, joint ventures na
Colômbia (com a Superbus), Rússia, Índia (com a Tata Motors) e
México (com a Mercedes Benz).

A produção de carrocerias de ônibus no Brasil, diferentemente


da produção de automóveis, não é dominada por empresas estrangei-
ras, mas sim por empresas brasileiras multinacionais dada a significa-
tiva inserção produtiva dessas empresas em outros países. De acordo
com relatório da consuloria Frost & Sullivan (http://www.frost.com/
prod/servlet/market-insight-top.pag?Src=RSS&docid=147437754), o
sucesso das empresas brasileiras do setor está baseado na habilidade
de colocar seus produtos de modo competitivo no mercado internaci-
onal e na adoção de uma estratégia de verticalização da produção.
Embora em desacordo com a principal tendência de terceirização e
estratégias de outsourcing da indústria automotiva, as montadoras de
carrocerias de ônibus brasileiras investiram em produção própria de
diversos componentes do ônibus (como ar condicionado e assentos).
O resultado dessa estratégia tem sido bem sucedido, não apenas em
redução de custos, mas principalmente na capacidade das empresas
brasileiras de inovar e customizar o seu produto; isto é, na habilidade que
elas desenvolveram de ajustar seu produto às necessidades do cliente.

79
Curso de Graduação em Administração a Distância

A estratégia de produção vertical manteve-se válida também na


experiência de internacionalização das duas principais empresas:
Marcopolo e Busscar. A Busscar manteve sua estratégia de
verticalização usando suas fábricas no México e na Colômbia. No caso
da Marcopolo, a verticalização é ainda mais evidente dado o sistema
de fornecimento global entre suas diversas unidades industriais, desde
a sede em Caxias do Sul, Portugal (a primeira inversão internacional)
até as experiências recentes de joint ventures na Índia (com a Tata
Motors), Egito e China.
Quanto à avaliação dos resultados, os dados do Quadro 12, a
seguir, mostram que a estratégia das empresas tem sido bem-sucedida,
já que as exportações de carrocerias de ônibus cresceram cerca de 14%
em jan-set/2008 (em relação a jan-set/2007).

Empresa Urbano Rodoviário Micro-ônibus Miniônibus Total

Veja mais sobre: Marcopolo 204 1.292 244 0 1.740


internacionalização de Busscar 317 635 132 0 1.084
empresas brasileiras: Induscar 486 26 148 0 660
os casos da Marcopolo Comil 81 333 80 0 494
e Gerdau em: <http:// Ciferal 286 0 0 0 286
www.fipe.org.br/ Irizar 0 244 0 0 244
publicacoes/ Neobus 0 10 134 0 144
downloads/bif/2007/ Mascarello 67 33 10 15 125
6_bif321.pdf>. Total 1.441 2.573 748 15 4.777

Quadro 12: Exportações de Carrocerias de Ônibus – Brasil, por empre-


sas – jan-set/2008 (unidades)
Fonte:<http://www.frost.com/prod/servlet/market-insight
top.pag?Src=RSS&docid=147437754> Acesso em: 2 fev. 2009

80
Módulo 7

Competitividade das exportações

Antes de discutir os principais fatores que determinam o sucesso


de uma empresa no exterior é importante entender por que as empre-
sas buscam este mercado internacional.

Razões para exportar

As empresas, em geral, nascem pequenas e suas vendas são con-


centradas em regiões próximas à sua sede. Mas ganhos de escala – e
logo aumento da capacidade produtiva – e a especialização em alguns
produtos levam a empresa a buscar mercados mais distantes: em nível
regional, nacional e internacional. Quais são os fatores decisivos que Ver, por exemplo,
levam a empresa a exportar? A literatura, apoiada na experiência de Lopez e Gama (2002),
exportadores, tem apontado os seguintes fatores: Cap. I. 2.

Maiores Lucros – uma razão importante que faz com que as


empresas busquem o mercado externo é o aumento de seus
lucros. As vendas para o exterior podem ser mais lucrativas
(por que a firma pode conseguir um preço mais elevado);
mas, principalmente, são uma maneira das firmas aumenta-
rem seus volumes de venda. Isto é, as empresas que expor-
tam podem aumentar suas escalas de produção, dado que o
tamanho da empresa não está mais limitado à demanda do
país onde ela produz.
Qualidade e incorporação de tecnologia – as empresas ex-
portadoras enfrentam um mercado consumidor, em média,
mais exigente do que o mercado local. Logo, a capacitação
para exportar exige um produto em sintonia com as exigên-
cias de mercado, principalmente quanto à qualidade e ao pro-
cesso de incorporação tecnológica.
Novos produtos e maior eficiência no uso da capacidade –
dado que o consumidor do mercado externo tem preferênci-
as e gostos diferentes, a exportação representa uma oportuni-
dade para a empresa inovar seu portifólio de produtos. Além
disso, o aumento das vendas representa ganhos de eficiên-

81
Curso de Graduação em Administração a Distância

cia, pois a firma pode aumentar o uso da capacidade instala-


da (em termos de equipamentos e máquinas da fábrica).
Imagem da empresa – um ganho mais intagível diz respeito à
imagem da empresa. A ideia é que a empresa exportadora
ganha reputação também no mercado doméstico por ter um
produto “tipo exportação”.
Diminuição da carga tributária – a empresa exportadora está
isenta de muitos tributos que incidem sobre a venda ao mer-
cado interno; como IPI, ICMS, Cofins, PIS e IOF. Isto, é
claro, aumenta a rentabilidade das vendas ao exterior.
Veja mais em: <http://
www.aprendendoaexportar. Nesta mesma direção, o Ministério da Indústria e Comércio Ex-
gov.br/sitio/paginas/ terior (Mdic) destaca em seu site “aprendendo a exportar” as princi-
porQueExportar/ pais vantagens decorrentes da exportação, para a empresa e para o
melEmpresa.html> país, que estão sintetizadas nos Quadros 13 e 14, a seguir.

Vantagem Descrição

Diversificação de A empresa amplia sua carteira de clientes, o que representa menos


Mercado riscos, uma vez que fica menos dependente do desempenho de
poucos clientes. Mercados externos podem reduzir a sazonalidade
das vendas, principalmente daqueles produtos que têm demanda
influenciada pelo clima.

Aumento da A exportação permite que a empresa use melhor sua capacidade


Produtividade instalada, reduzindo a ociosidade. Com o aumento da produção
também há ganhos da empresa com negociação com clientes e
fornecedores.

Melhora da Mercado externo é mais exigente, logo o produto da empresa tende


Qualidade do a ser aperfeiçoado. Interação com o mercado externo tem efeitos na
Produto captação de novas tecnologias e programas de gestão de qualidade.

Diminuição da Como destacado acima, existem incentivos fiscais à exportação.


Carga Tributária Estes incentivos procuram compensar as diferenças entre o peso dos
tributos no Brasil e outros países. Isenção de IPI, ICMS, COFINS,
PIS e IOF.

Melhoria da Imagem de empresa exportadora. Efeitos sobre os empregados que


Empresa trabalham com orgulho da empresa com inserção internacional.

Quadro 13: Vantagens de Exportar do Ponto de Vista da Empresa Exportadora


Fonte: <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/sitio/paginas/
porQueExportar/melEmpresa.html> Acesso em: 3 dez. 2008

82
Módulo 7

Vantagem Descrição

Ingresso de Divisas Exportação resulta em entrada de divisas que permite


pagar dívidas e importações.

Absorção de Mão de Obra Exportação significa aumento de produção e geração


de empregos (muitas vezes, em setores dinâmicos).

Diversificação e Maior Empresas exportadoras tornam-se mais eficientes e


Competitividade das Empresas produtivas.

Modernização e Ampliação de Exportação requer investimentos em infraestrutura.


Estradas, Portos e Aeroportos GLOSSÁRIO
Diminuição da Vulnerabilidade Uma economia exportadora fica menos dependente de
*competitividade –
do Mercado Doméstico uma crise no mercado interno. é a capacidade da
empresa de formu-
Quadro 14: Vantagens de Exportar do Ponto de Vista do País Exportador
lar e implementar
Fonte: <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/sitio/paginas/
porQueExportar/melEmpresa.html> Acesso em: Acesso em: 3 dez. 2008 estratégias
concorrenciais, que
lhe permitam con-
servar, de forma du-
Determinantes da competitividade
radoura, uma posição
Nem sempre uma empresa de sucesso no mercado doméstico é sustentável no merca-
também bem-sucedida no mercado internacional. Existem fatores que do. A competividade
restringem bons resultados no mercado externo, como o maior grau de tem, portanto, uma
natureza dinâmica e
competição entre as empresas, a maior distância dos mercados exter-
sistêmica, e depen-
nos e as características distintas dos consumidores.
de de fatores empre-
Nesta decisão de exportar, as empresas devem avaliar se possu- sariais e de aspectos
em competitividade para vender seus produtos em mercados externos. externos à firma
A competitividade* de uma empresa é influenciada pela sua eficiên- (macroeconômicos
cia técnica – ou seja, pela produtividade dos insumos – e pela sua e instituições). Fon-
eficiência econômica; isto é, capacidade de acrescentar valor à merca- te: elaborado pelo
doria produzida. autor.
Quais são então os determinantes da competitividade de uma
empresa?
Seguindo a abordagem sugerida pelo modelo de Porter (1992),
podemos afirmar que as empresas possuem competitividade devido a
vantagens de preço ou vantagens de diferenciação. De modo sintéti-
co, temos o seguinte:

83
Curso de Graduação em Administração a Distância

Preço
Vantagem competitiva pode ser resultado de liderança da em-
presa em custos. Produto é razoavelmente homogêneo em
relação à concorrência, mas mais barato. Exemplo: empresas
brasileiras siderúrgicas têm vantagens de preço, pois seus
custos são mais baixos devido ao acesso privilegiado ao mi-
nério de ferro.
Diferenciação
Qualidade do produto: característica intrínseca ao produ-
to, que o diferencia em relação ao concorrente. Muitas ve-
zes é resultado da exigência do consumidor (por exemplo,
no caso de certificação de qualidade ISSO 9000). Exem-
plo: as roupas de toucador (atoalhados de algodão) expor-
tadas por empresas brasileiras têm um preço elevado, mas
o consumidor externo paga mais pela qualidade.
Design: arte-ciência de projetar/fabricar bens de acordo com
as características da demanda. Design: fabricação econô-
mica + aspecto atraente + durabilidade + tamanho funcio-
nal (transporte, distribuição e exposição). O design do pro-
duto é uma fonte de agregação de valor. No caso brasilei-
ro, há dois exemplos extremos em termos de tamanho de
empresa: a Embraer, que exporta aeronaves onde a princi-
pal vantagem competitiva é o design do avião (notem que
o motor, a fuselagem e mesmo o interior da aeronave são
importados); e empresas de biquínis (como, a Cia Marítima),
que fazem sucesso no mercado externo vendendo um produ-
to tipicamente brasileiro, mas ajustado ao gosto do cliente.
Embalagem: é um item que atende condições de seguran-
ça e proteção do produto, mas também questões de
atratividade de bem. Depois do 11 de setembro, os produ-
tos exportados para os EUA passaram a ser submetidos a
exames mais rigorosos quanto à adequação às normas de
segurança.
Assistência técnica: incluem serviços de pós-venda, como
garantia, instruções sobre o uso do produto, atendimento
ao cliente, reposição de peças, reparo e manutenção. A
competitividade de empresas exportadoras de máquinas de-
pende muito de suas políticas de assistência técnica.
84
Módulo 7

Marca: sem dúvida, este é um atributo que faz muita dife-


rença na competitividade no âmbito do comércio interna-
cional. Marcas são sinais ou símbolos que fazem com que
o consumidor reconheça um determinado produto. O su-
cesso de uma marca depende do seguinte: (1) o quanto o
produto é efetivamente diferente; (2) o grau de reconheci-
mento que o consumidor atribui para comprar aquele pro-
duto; (3) a estima, relação emocional do consumidor com
a marca; e (4) a familiaridade, conhecimento da marca.

Estratégias de diferenciação de produto constituem uma


importante ferramenta de marketing internacional. Vamos
tratar mais sobre isso daqui a pouco!

Financiamento à exportação e operações de drawback

A venda de produtos ao exterior apresenta algumas características


que a distinguem de uma venda ao mercado doméstico. Quais são elas?
Bem, uma delas é o fato de que o exportador tem sua receita em
moeda estrangeira que, convertida em Reais, deve cobrir seus custos,
que são em grande escala em Reais. Logo a questão cambial é um
aspecto fundamental, mas sobre isso vamos tratar na Unidade 4.
Outra característica é a distância que separa o vendedor e o cli-
ente, que em geral é percorrida via marítima e leva várias semanas de
viagem e vários dias de desembaraço aduaneiro. Portanto, há uma
defasagem de tempo entre a entrega do produto para a companhia trans-
portadora e o recebimento pelo cliente. Existem, ainda, riscos que são
típicos apenas da exportação – principalmente quanto à disponibilida-
de de informações sobre o país para onde se está exportando e a em-
presa compradora.
Além disso, as empresas brasileiras, em geral, não têm acesso
direto ao credito internacional. Então, para intermediar este acesso ao
financiamento internacional, mais abundante e mais barato, foram cri-
adas linhas de crédito – operadas por bancos privados – que funcio-
nam como adiantamentos de receitas de exportação.

85
Curso de Graduação em Administração a Distância

ACC e ACE

Os ACC ou Adiantamentos sobre Contratos de Câmbio e os ACE


ou Adiantamentos sobre Cambiais Entregues são adiantamentos par-
ciais ou totais das receitas de exportação concedidos aos exportado-
res, em moeda doméstica. As receitas de exportação devem ser com-
provadas por contratos de exportação e o recurso deve ser pago tam-
bém em moeda doméstica em período que varia de 30 dias a 360 dias.
Qual a diferença entre ACC e ACE? É bem simples. Como o
próprio termo sugere, no caso do ACC, o exportador recebe o emprés-
timo antes de ter embarcado a mercadoria (mas, claro, a mercadoria já
está vendida e o contrato já está nas mãos do exportador). No caso do
ACE, a mercadoria já foi embarcada (o que tende a aumentar a segu-
rança do banco, pois o risco do exportador não entregar ou atrasar o
envio da mercadoria não existe mais).
É importante notar, que os ACC e ACE são empréstimos livres;
isto é, os exportadores podem usar os recursos como quiserem: na
produção, comercialização e até investimentos.
Veja abaixo o esquema de funcionamento de um ACC (Figura 20).

Figura 20: Fluxos Comerciais e Financeiros em uma Operação de ACC


Fonte: elaborado pelo autor
86
Módulo 7

Uma dúvida comum e importante pode ser respondida com


base na compreensão deste esquema. O exportador está ou não se
endividando em dólares? Como o exportador recebe do banco em
Reais (seta 4, na Figura 20) e paga ao Banco também em Reais,
ele está se livrando do risco cambial, certo?
Errado! Notem que o contrato de um ACC 1ª linha (clientes
preferenciais) cobrava em dezembro de 2008 uma taxa de juros
6,55% ao ano para um prazo de pagamento (um desembolso ape-
nas) de 360 dias MAIS a correção cambial do período. Se a varia-
ção cambial nos 12 meses subsequentes for +10% (uma desvalori-
zação do Real de 10%), a taxa a ser paga será de 16,55% ao ano.
Logo, o exportador quando compra um ACC/ACE assume o risco
cambial deste empréstimo.

Outros financiamentos à exportação

PROEX: operado pelo Banco do Brasil, com recursos do Te- Mais informações
souro Nacional. É um programa de financiamento à exporta- sobre esse assunto, em
ção e à importação. Duas modalidades: Proex financiamento <http://
e Proex equalização (a ideia é subsidiar juros cobrados para apps.fiesp.com.br/
que sejam equalizadas as condições de crédito no Brasil e no
spcred/proex.asp>
exterior); Prazo: nas exportações de bens, os prazos de paga-
mento variam de 60 dias até dez anos.
BNDES-Exim: o objetivo é oferecer financiamento às ex-
portações brasileiras, com condições semelhantes àquelas
oferecidas no mercado internacional.
Financia exportações de produtos e serviços, exceto de auto-
móveis de passeio, commodities e produtos de baixo valor
agregado. Existem três modalidades de financiamento no pro-
grama: Exim Pré-embarque, Exim Pré-embraque especial
(exclusivamente para bens com índice de nacionalização igual
ou superior a 60%) e Exim Pós-Embarque (financia a
comercialização de bens e serviços no exterior).

Operações de Drawback

A lógica do regime de drawback é que as empresas exporta-


doras podem ser isentas de pagamentos de tributos sobre um
produto importado desde que este produto seja usado para
87
Curso de Graduação em Administração a Distância

exportação. Assim, este regime aduaneiro especial, chamado


drawback, instituído por lei federal em 1966, é um instru-
mento de estímulo à exportação, no qual ocorre a desoneração
de tributos na importação vinculada a um compromisso de
exportação.

Como assim?
É simples: as empresas exportadoras importam máquinas e equi-
pamentos necessários para a atualização tecnológica e também impor-
tam insumos (produtos químicos, por exemplo) que são essenciais para
a produção. Esses bens de capitais e insumos tornam a empresa mais
competitiva, capacitando-a para exportar. Então, o drawback facilita a
importação destes bens de capitais e insumos, através da isenção de
impostos, eleva a competitividade das empresas exportadoras e esti-
mula as exportações.
Os tributos que são isentos na importação do bem a ser utilizado
na industrialização do produto a ser exportado são: imposto de renda,
IPI, ICMS e A-FRMM. A-FRMM? Claro, o Adicional ao Frete da
Marinha Mercante. A tarifa, recolhida sobre o valor do frete das im-
portações, transporte de cabotagem e navegação interior no transporte
de granéis líquidos, compõe o Fundo da Marinha Mercante. O destino
deste tributo é incentivar a indústria naval brasileira e o sistema de
transporte aquático de carga.
Existem duas modalidades de regime de drawback:

Suspensão: quando na importação de mercadorias que serão


usadas na industrialização de produto a ser exportado, os tri-
butos federais (como imposto de importação e IPI) têm sua
exigibilidade suspensa.
Isenção: quando ocorre têm isenção de tributos federais vin-
culados à importação de mercadorias que serão destinadas à
reposição de mercadorias anteriormente importadas e utiliza-
das na industrialização de produto a ser exportado.

Concessão do drawback: o regime é processado em módulo es-


pecífico do SISCOMEX (Sistema Integrado de Comércio Exterior), e
é concedido a critério da Secretaria de Comércio Exterior.

88
Módulo 7

Validade do drawback: é determinada pela data estabelecida para


a efetivação das exportações vinculadas. O prazo pode ser prorroga-
do, desde que com justificativa, e por no máximo dois anos (prazo de
permanência da mercadoria importada).

Comprovação da exportação: Relatório Unificado de


Drawback (www.receita.fazenda.gov.br/aduana/siscomex/
siscomex.htm - 5k -).

Marketing internacional

De modo óbvio, marketing internacional é quando as decisões


de uma firma a respeito de suas estratégias de marketing são influenci-
adas pela ação da empresa em dois ou mais países. É claro que essas
estratégias podem ser bastante complexas, especialmente quando a fir-
ma não apenas vende seu produto para o exterior, mas também tem
ativos no mercado externo, na forma, por exemplo, de instalações fa-
bris ou mesmo unidades de armazenamento e distribuição.
Marketing: o que é marketing?
De acordo com a definição da American Marketing Association, Ver mais sobre o
“marketing” diz respeito às atividades e processos de criação, comu- assunto em: <http://
nicação, distribuição e venda que resultam na geração de valor para www.marketingpower.
consumidores, clientes e a sociedade em geral. com/AboutAMA/
As ferramentas de marketing, quando aplicadas ao mercado in- Pages/Definitionof
ternacional, são basicamente as mesmas aplicadas ao mercado interno Marketing.aspx>.
– embora precisem ser adaptadas. A seguir, discutem-se dois dos prin-
cipais instrumentos adotados por empresas exportadoras em seu esfor-
ço de marketing internacional: a pesquisa de mercado e a participação
em Feiras Internacionais.

Pesquisa de Mercado

A maior competitividade requer uma extensiva pesquisa, que servirá


de base para o planejamento de uma estratégia de marketing internacional.
89
Curso de Graduação em Administração a Distância

Antes do advento na Internet, tal pesquisa representava um pro-


cesso moroso e um investimento grande de tempo e recursos. Hoje, a
web facilita o acesso às informações necessárias para se estudar me-
lhor as variáveis de mercado para uma empresa internacional. Dentre
os indicadores que devem ser levados em conta estão: o PIB, indica-
dores de credibilidade (corrupção, liberdade econômica e cumprimen-
to da lei) e fluxos de comércio do país que é (ou será) alvo das expor-
tações. Tais informações são encontradas facilmente em sites de ór-
gãos de governos ou organizações privadas.
Destaca-se a informação de fluxos de comércio de um determi-
nado produto para os principais mercados mundiais. Essas informa-
ções de exportação e importação – valor, quantidade e preço médio -
de qualquer produto especificado pela NCM ou pelo HS2002 e entre
<http:// qualquer país de origem e de destino pode ser obtida na base de dados
comtrade.un.org> das Nações Unidas, conhecida como Comtrade. As mesmas informa-
ções para a realidade brasileira, mas discriminadas por Estados e por
portos, podem ser obtidas em site desenvolvido pelo Mdic/Secex, cha-
mado de Sistema Alice (Análise de Informações de Comércio Exterior).
O exemplo abaixo ilustra esta primeira etapa de uma pesquisa
de mercado para o caso de um produto importante na pauta de expor-
tações brasileira: calçados de couro.

Figura 21: Pesquisa de Mercado - Principais Países Importadores de Calçados de


Solado de Couro NCM 6403 – Origem: Mundo e Brasil - 2007
Fonte: Dados brutos – Comtrade

90
Módulo 7

Tabela 3: Importações de Calçados de Solado de Couro NCM 6403 –


Países Importadores: EUA e Reino Unido – 2007

País Exportador País Importador: EUA Maiores empresas importadoras do Brasil – 2007

Valor Qtd de Preço Valor US$ Qtd de1.000 Preço US$/


US$ mi 1.000 pares US$/par mi pares par

China 8.137 653 12,45 496 37 13,32

Itália 1.016 16 64,43 518 16 32,96

Vietnã 733 54 13,56 420 33 12,80

Brasil 681 37 18,50 230 10 22,48

Total 12.337 849 14,52 3.403 175 19,42

Fonte: Dados brutos – Comtrade

Com base na Figura 21, podemos observar que as exportações


brasileiras de calçados de couro estão muito mais concentradas nos
EUA do que estão as exportações mundiais deste produto. O Brasil
exporta 53,7% do valor total deste produto para os EUA, enquanto
que as exportações mundiais para os EUA são apenas 28,8% do total.
Outro resultado interessante é que a Alemanha é o segundo maior
mercado importador de calçados do mundo; sendo que para o Brasil,
a Alemanha não aparece entre os cinco mais importantes destinos das
exportações. Assim, a análise deste resultado indica que as exporta-
ções brasileiras de calçados de couro estão demasiadamente concen-
tradas nos EUA e, por outro lado, mostra que o mercado alemão é um
mercado potencial a ser explorado pelas exportações brasileiras. Os
resultados da Tabela 3 mostram as importações de dois dos maiores
países importadores de calçados de couro de acordo com os principais
países fornecedores. O Brasil está entre os cinco mais importantes for-
necedores dos EUA e Reino Unido. Notamos que o preço médio do
calçado brasileiro é mais alto do que o preço das importações totais
desses dois países, o que evidencia que a vantagem competitiva brasi-
leira é decorrente de liderança em diferenciação e não em custo.
Uma vez detectados os países e regiões que representem um
mercado em potencial, deve-se buscar informações mais detalhadas a
respeito de características deste mercado, como empresas que já atu-
91
Curso de Graduação em Administração a Distância

am no mesmo segmento, padrões de concorrência, regulamentações e


perfil dos clientes. Sites de associações de negócios estrangeiros e
embaixadas dão uma boa base sobre regulamentações e requisitos, na
maioria dos casos gratuitamente. A tarefa mais difícil, de avaliar oferta
e demanda de um determinado mercado, pode ser feita com o auxílio
de alguns serviços pagos, como o do site do governo americano <http:/
/www.stat-usa.gov/>, que contém informações detalhadas de merca-
do, economia e negócios, e também algumas empresas especializadas
em consultoria em comércio exterior.
Depois de terminada a pesquisa de mercado, podemos delimitar
uma estratégia de marketing fundamentada nas características especí-
ficas do mercado do país alvo. Algumas escolhas importantes devem
ser feitas ao planejar esta estratégia, como a decisão entre adotar um
conjunto de instrumentos mercadológicos padrão – preços, distribui-
ção, promoção e o produto em si, conforme adotado no país de origem
– ou adaptar este conjunto à demanda da economia do país alvo.
Enquanto a primeira apresenta a vantagem evidente da redução de
custos, também podem aparecer barreiras culturais em países diferen-
tes. Mesmo em países com situação econômica idêntica existe diferen-
ça, já que a maneira de tratar o mercado externo não é a mesma do que
o doméstico. Tais situações requerem a customização das ferramentas
de marketing.
Um exemplo simples da necessidade de customizar a aborda-
gem comercial a clientes em três importantes países do mundo é des-
crito no Quadro 15.

Como Negociar com Clientes Alemães

Contratos comerciais são muito detalhados;


Negociações são formais e organizadas. Planeje sua reunião e não
improvise;
Apresentação de proposta deve ser objetiva e técnica;
Comportamento dos alemães é de discrição e distância;
Evite piadas para “quebrar o gelo”;
Prepare-se para uma negociação com muita barganha;
Nenhum outro mercado do mundo tem mais tradição em feiras comerciais
(este é o lugar ideal para negociar).

92
Módulo 7

Como Negociar com Clientes Chineses

Contrato é muito negociado, requer paciência;


Chineses negociam em equipe. Tenha com você várias cópias da
proposta e esteja atento para que todos estejam entendendo;
A relação pessoal e comercial é muito formal e com profundo respeito
à idade e à hierarquia;
Para cumprimentar as pessoas incline levemente a cabeça (não use
aperto de mãos). Respeite o horário;
Os chineses raramente dizem "não" a uma proposta comercial. A negociação é lenta e
gradual;
As negociações geralmente ocorrem em jantares;
Os chineses têm dificuldade com inglês e línguas ocidentais. É essencial um tradutor para
a negociação e o contrato.

Como Negociar com Clientes Americanos

Negociações são rápidas e objetivas. Dispensam formalidades e


preferem ir direto ao ponto: vale a máxima “Time is Money”;
Propostas devem ser claras e detalhadas;
Negociação é dura e as propostas iniciais deles são ambiciosas;
Cumprimentos são informais, aperto de mãos firmes e breves;
São muito patrióticos; críticas aos EUA não são bem recebidas;
Negociações ocorrem frequentemente em restaurantes: “business
lunch” ou business “breakfast”;
Gorjetas (15%) são comuns em muitos serviços (restaurantes, táxis
e hotéis).

Quadro 15: Dicas de Negociação Internacional – Alemanha, China e EUA


Fonte: elaborado pelo autor

Feiras Internacionais

As feiras internacionais de comércio são eventos que reúnem os


principais produtos e inovações de determinado setor ou indústria.
Empresas de um setor e seus fornecedores exibem novos produtos,
inovações de processos e também em áreas de logística e distribuição
para compradores em potencial e para participantes de indústrias
correlatas. As feiras acontecem em data préestabelecida e, em geral,
com periodicidade anual. Organizadas por governos, associações in-
dustriais ou companhias especializadas, as feiras de comércio aproxi-

93
Curso de Graduação em Administração a Distância

mam ofertantes e demandantes de forma estruturada em um ambiente


interativo e de contato imediato. A troca de informações, a dissemina-
ção de novas técnicas e processos e a promoção de produtos e empre-
sas são algumas das funções econômicas dessas feiras. Embora intui-
tivo, o papel de elemento catalisador das feiras está expresso na Figu-
ra 22, abaixo. Notem que, de fato, a comercialização através de feiras
internacionais é mais eficiente, pois reduz custos de informação e de
transação, com efeitos óbvios sobre a divulgação de produtos e sobre
a disseminação de novidades (tecnológicas e de design).

Figura 22: O Efeito de Feiras Internacionais sobre a Comercialização


Fonte: elaborada pelo autor

As feiras internacionais de comércio funcionam como um ponto


comum, minimizando os custos do lado da oferta e da demanda. Po-
dem ser consideradas como uma forma de promoção de vendas, auxi-
liando empresas a fazer sua pesquisa de marketing, promover seus
produtos e marcas e iniciar contratos de venda de produtos. Importan-
te: em geral, após as feiras são marcadas rodadas de negociação e,
então, contratos de exportação são fechados! A participação em feiras
é, contudo, uma estratégia que envolve custos elevados, desde custos
de viagem até o próprio custo de aluguel dos stands.
Abaixo listamos exemplos de feiras com os preços dos stands:

Agrotins (Feira de Tecnologia Agropecuária do Tocantins):


stand com 9 m² = R$ 500,00; 17,5 m² = R$ 1.000,00. A feira
dispõe de área para exposição de máquinas, equipamentos,

94
Módulo 7

implementos e veículos com 360 m², piso de chão


terraplenado e custo de 600 reais.
Feira do Empreendedor, organizada pela ANJE (Associação
Nacional de Jovens Empresários) de Porto, Portugal: stand
com 9 m² = 475; 18 m² = 1.175.
Heimtextil (International Trade Fair for Home and Contract
Textiles), de Frankfurt, Alemanha: stand com um lado aberto
= 181/por metro quadrado; stand com quatro lados abertos
= 193/por metro quadrado (preços para feira de 2010).

Saiba mais...

A Feira de Hannover

A maior feira de comércio industrial do mundo, a


Hannover Messe (Feira de Hannover), teve seu início em 1947,
como iniciativa do governo militar britânico – que ocupava a re-
gião – para reavivar a economia devastada pela Segunda Guerra.
A ideia era expor produtos feitos na Alemanha e aconte-
ceu em uma antiga fábrica em Laatzen. Alcançando sucesso
inesperado, a primeira feira se tornou uma prova do
renascimento comercial do país.
Nos 21 dias do evento (de 18 de agosto até 7 de setem-
bro), visitantes de 53 países compareceram e cerca de 1.900
exportadores consolidaram acordos de comércio que renderam
um total de cerca de US$ 31 milhões.
Na época, Leipzig era conhecida como a “capital das ex-
posições” da Alemanha. O êxito da Feira de Hannover logo
ultrapassou o da cidade do lado oriental do país, auxiliando o
desenvolvimento da parte ocidental da Alemanha.
Acontecendo anualmente, a Feira Industrial Alemã de
Hannover teve expositores internacionais pela primeira vez em
1950. Em 1980, os primeiros expositores brasileiros participaram.
A feira acompanhou o avanço tecnológico das indústrias
e suas necessidades, dando origem também à CeBIT (Centrum
95
Curso de Graduação em Administração a Distância

der Buro – und Informationstechnik – Centro de Tecnologia de


Informação e Ofício, em alemão), a maior feira de informática
e computação do mundo.
Hoje, a Feira de Hannover conta com cerca de 6.000 ex-
positores por ano, e engloba todas as áreas da tecnologia in-
dustrial, com foco em engenharia mecânica, transporte e logística,
construção civil, e até medicina, educação e agricultura.
(Fonte: <http://www.hannovermesse.de/>. Acesso em: 3 dez. 2008)

Política de Promoção de Exportação

Uma questão usual é: por que os governos estabelecem políticas


especiais de apoio à exportação? Por que exportar é mais importante
do que vender para o mercado interno?
Bem, parte dessa resposta é o que já discutimos; isto é, as expor-
tações são uma alternativa de expansão de demanda agregada e cons-
tituem-se em uma forma de expandir as vendas das empresas além da
capacidade de consumo interno. Além disso, há a geração estratégica
de divisas (acumulação de reservas em dólares), que permite aumen-
tar, de modo sustentável, importações – que em casos de países em
desenvolvimento são essenciais para financiar a modernização do par-
que fabril (importações de máquinas e equipamentos).
Portanto, não se trata de que exportar é mais importante; mas
como a concorrência no mercado externo é mais dura – pois muitas
empresas em outros países experimentam melhor infraestrutura, carga
tributária mais baixa e custos de produção menores (salários, por exem-
plo) – medidas compensatórias e de apoio são necessárias para colo-
car a empresa brasileira em condições semelhantes às de outros países.
Quais as áreas típicas de apoio às empresas exportadoras?
Bem, instituições públicas e privadas têm se dedicado a esse
objetivo, com ênfases a alguns setores estratégicos (por exemplo, na
área de alta tecnologia), às pequenas empresas e a regiões específicas
com potencial exportador e com problemas de desenvolvimento.
Mas, as principais áreas, de acordo com Lopez e Gama (2002),
são as seguintes:

96
Módulo 7

Figura 23: Áreas típicas de apoio às empresas exportadoras


Fonte: adaptada de Lopez e Gama (2002)

Algumas dessas áreas têm ocupado maior espaço em termos de


orçamento e esforço governamental, entre as quais destacam-se: o apoio
a questões de ordem jurídica – como quando o governo representa
interesses de uma indústria nacional junto à OMC, em questões de
salvaguardas, dumping ou outra prática desleal, e o apoio à publicida-
de. Um exemplo internacionalmente reconhecido é a campanha publi-
citária do Café da Colômbia (ver Quadro a seguir).

Saiba mais...

A Marca “Colombian Coffee”

A Marca “Colombian Coffee” (café da Colômbia) tem sido


divulgada mundialmente desde 1959. Desde esta data, a Fede-
ração Nacional de Cafeicultores da Colômbia apresentou o café
da Colômbia através do logotipo de Juan Valez, um persona-
gem fictício, que representa os cerca de 300 mil cafeicultores e
trabalhadores desta cultura, juntamente com sua mula Conchita
e as montanhas Colômbianas no fundo. A campanha publicitá-

97
Curso de Graduação em Administração a Distância

ria foi criada pela agência de Doyle Dane Bernbach, responsá-


vel por campanhas de marcas famosas, como McDonald's,
Volkswagen, e Johnson & Johnson. Desde o início, três atores
já representaram Juan Valdez. Atualmente, ele tem sido repre-
sentado pelo também colombiano Carlos Castañeda. A Fede-
ração Nacional de Cafeicultores da Colômbia patrocina even-
tos esportivos, como forma de marketing, e os esportes são tê-
nis, ski aquático, ski no gelo e patinação no gelo. Parte da
campanha publicitária para a divulgação do café colombiano
envolve a educação de consumidores a respeito do produto, exal-
tando suas qualidades específicas, como seu sabor distinto. Re-
centemente (setembro de 2007), a União Europeia concedeu ao
“Colombian Coffee” o reconhecimento de produto com designa-
ção de origem, o que na prática resulta em um produto com dife-
renciação, que aumenta a demanda e também o preço de venda.

Figura 23: Café de Colômbia


Fonte: <http://newsimg.bbc.co.uk/media/images/41707000/jpg/
_41707932_logo_203b.jpg>. Acesso em: 3 dez. 2008

Quanto às principais instituições brasileiras de apoio à exporta-


ção, destacam-se primeiro dois ministérios: o Ministério do Desenvol-
vimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) e o Ministério das Re-
lações Internacionais (MRE).
Nesses dois casos, as principais ações e programas de incentivo
são os seguintes:

Portal do Exportador: é um site desenvolvido pelo Mdic em


parceria com o setor privado e que tem como objetivo o apoio
ao exportador. Trata de modo objetivo dos principais termos
98
Módulo 7

usados em comércio exterior, disponibiliza o programa “apren-


dendo a exportar”, o qual procura explicar de modo simples
e passo a passo como o exportador deve proceder para ven-
der seu produto no exterior. O portal do exportador
(www.portaldoexportador.gov.br) disponibiliza acesso ao
Siscomex (com apoio ao exportador em sua primeira venda)
e acesso a cadastro de exportadores e importadores.
APEX – Agência Brasileira de Promoção de Exportação e
Investimentos – O objetivo da APEX é promover as exporta-
ções brasileiras, através da diversificação da pauta, abertura
de novos mercados e crescimento das vendas de produto com
maior valor agregado. Através de parcerias com o setor pri-
vado, a APEX atua: (i) identificando vocações regionais; (ii)
apoiando acordos de cooperação internacional; (iii) realizan-
do eventos internacionais que têm o Brasil como tema; (iv)
apoiando empresas brasileiras, especialmente pequenas e
médias, na participação de missões, eventos e feiras interna-
cionais. A APEX nos últimos 5 anos levou empresários bra-
sileiros para expor e negociar seus produtos em mais de 60
países. Em 2007 foram executadas 761 ações entre Feiras
Setoriais, Missões Comerciais e Rodadas de Negócios. Em
2004, a Apex implantou sua Unidade de Investimentos, atuan-
do também em políticas de atração de investimentos externos. Mais informações
sobre o assunto em:
Exemplos de ações da Apex <www.apexbrasil.com.br>.

Uma ação importante da APEX é o apoio às exportações de pe-


quenas e média empresas (PMEs). Uma forma de implementar este
apoio é através do incentivo à formação de consórcios de exportação.
O que são estes consórcios de exportação? São quando empre-
sas de um mesmo setor e também empresas fornecedoras reúnem-se
sob a forma jurídica de um consórcio sem fins lucrativos. O objetivo
deste consórcio é aumentar as vendas ao exterior das empresas partici-
pantes através de políticas de promoção à exportação.
A importância do consórcio está em permitir que estas PMEs
alcancem o mercado externo, o que dificlmente conseguiriam fora deste
arranjo cooperativo. Dentre os obstáculos que são superados pelo con-
sórcio estão: escassez de crédito para estratégias de marketing; falta
de recursos humanos com experiência em exportação; e falta de infor-
99
mações sobre o mercado internacional. As empresas que participam
de um consórcio de exportação podem ganhar com a criação de um
produto com marca forte (a marca não é da empresa, mas do consór-
cio), com a formação de parcerias (comerciais e tecnológicas) e com a
experiência em marketing internacional.
Exemplos de consórcio de exportação que são apoiados pela
APEX: Consórcio Flor Brasil, Consórcio Pantanal Fashion Export,
Wines from Brazil, Brazilian Health Products, e Components &
Machinery by Brasil e Brazilian Furniture.
Eventos especiais: A APEX promove eventos especiais em par-
ceria com entidades governamentais, lojas de departamento e super-
mercados da Europa, Estados Unidos, América Latina e Ásia. Estes
eventos específicos de mercado têm sido a maneira encontrada para
fortalecer a Marca Brasil. Ex.: Brasil Fashion Show: foto e vídeo em
<http://www.youtube.com/watch?v=CRct2o6eFDA>. Exemplos de
feiras, missões e eventos especiais estão no Quadro 16 a seguir:

Feiras internacionais

Nestas ocasiões, a Apex-Brasil coordena a participação


brasileira, visando o atendimento aos clientes externos;
realiza atividades diferenciais como degustações,
exposições, lançamentos de produtos, coletivas de
imprensa, programas de relações públicas e de
comunicação visual.

Missões comerciais

A Apex-Brasil coloca frente a frente empresários brasilei-


ros, com amostras de seus produtos, e potenciais importa-
dores. Tais eventos são planejados de forma a agilizar o
entendimento entre as partes, envolvendo seminários,
visitas técnicas a centros comerciais, redes de varejo,
fábricas, associações setoriais e Câmaras de Comércio.

Brasil Fashion Now 2007

A APEX apoiou a exposição de 23 empresas brasileiras de calçados,


roupas e bijuterias. Elas mostraram o melhor da moda do Brasil no Japão.
No total, foram gerados US$ 750 mil em negócios imediatos.

Quadro 16: Exemplos de Ações da APEX


Fonte: elaborada pelo autor a partir de informações e fotos da APEX
disponíveis em: <www.apexbrasil.com.br/portal_apex/publicacao/
download.wsp>. Acesso em: 11 dez. 2008.
Outras Ações do Mdic/SECEX (Ministério do Desenvolvi-
mento, Indústria e Comércio Exterior/Secretaria de Comér-
cio Exterior). Dentre os programas de incentivo à exporta-
ção, coordenados pela SECEX, destacam-se: (i) o PNPE (Pro-
grama Nacional Pólos de Exportação), que visa atrair peque-
nas e médias empresas, com potencial exportador e localiza-
das em regiões ou clusters de produção de determinado pro-
duto, para atividades exportadoras; (ii) o Programa Cultura
Exportadora, que tem como objetivo difundir uma postura em-
presarial exportadora, através de encontros de comércio exte-
rior e treinamento de agentes de comércio exterior. Já sob a
responsabilidade direta do Mdic destacam-se: o Programa Bra-
sileiro de Design, com incentivo à modernização industrial, e
a plataforma de base estatística de comércio exterior (Sistema
Alice, <www.aliceweb.desenvolvimento.gov.br>).
Programas do MRE (Ministério das Relações Exteriores) –
Através do Departamento de Promoção Comercial/MRE
mantém o portal BrazilTradeNet (www.braziltradenet.gov.br),
que disponibiliza informações sobre oportunidades de comér-
cio exterior (para brasileiros e estrangeiros) e oportunidades
para investidores estrangeiros no Brasil.

RESUMO

Esta Unidade tratou de diversos aspectos relacionados


com a inserção estratégica da empresa no mercado internacio-
nal. Vimos que as empresas podem optar pela
internacionalização através das exportações ou do investimento
direto (ou ambos). De qualquer modo, a internacionalização
de uma empresa depende de sua competitividade – então, dis-
cutimos o que é e quais fatores afetam a competitividade ex-
terna. Um aspecto que pode influenciar essa competitividade
das empresas refere-se aos financiamentos à exportação – em
especial os ACC/ACE, muito procurados na realidade brasi-
Curso de Graduação em Administração a Distância

leira. Por fim, e de modo bastante importante, foram expostas


e discutidas as ferramentas de marketing internacional, com
ênfase à pesquisa de mercado e às feiras internacionais. Da-
qui para frente vamos focar mais em aspectos da economia inter-
nacional – fluxos comerciais e comércio e desenvolvimento, –
mas sem deixar de relacioná-los com a realidade da empresa.

Atividades de aprendizagem

Estratégias de internacionalização

Com base no texto sobre a experiência de internacionalização de


empresas brasileiras (http://www.fipe.org.br/publicacoes/downloads/
bif/2007/6_bif321.pdf, Páginas 24 a 30), comente brevemente so-
bre as semelhanças e diferenças do processo de internacionalização
da Gerdau e da Marcopolo.

102
Módulo 7

UNIDADE

4
Os
Os Fluxos
Fluxos Comerciais
Comerciais
Brasileiros
Brasileiros

103
Curso de Graduação em Administração a Distância

Objetivo

Nesta Unidade descreveremos a evidência estatística do comércio

exterior brasileiro, a evolução da taxa de câmbio e avaliaremos o

impacto da taxa de câmbio sobre a exportação; também veremos os

principais tipos de blocos regionais de comércio e as experiências da

União Europeia e do Mercosul.

104
Módulo 7

Exportações e importações
brasileiras e mundiais

Caro(a) estudante!
O objetivo desta quarta Unidade é conhecer melhor a rea-
lidade estatística do comércio exterior brasileiro e relacio-
nar seu desempenho com a questão cambial. Além disso,
um aspecto determinante do comércio exterior é a relação
comercial que o Brasil, assim como outros países do mun-
do, estabelece no contexto de blocos regionais (Mercosul).

O que podemos dizer quando observamos a Figura 24? Sem


dúvida, as exportações brasileiras têm crescido rapidamente na última
década. O valor das exportações aumentou todos os anos e atingiu em
2008 um total de US$ 197,9 bilhões – mais do que 4 vezes o valor
alcançado em 1999.

Figura 24: Valor da Exportação - Brasil - 1999/2008 (US$ bi)


Fonte: <www.mdic.gov.br/portalmdic/sitio/interna/
interna.php?area=5&menu=1161> Acesso em: 13 dez. 2008

Mas será que o Brasil conseguiu avançar na participação das


exportações mundiais? Sim! Em 2000, o valor das exportações brasi-
leiras em relação ao total mundial era pouco menos de 1% (de fato,

105
Curso de Graduação em Administração a Distância

0,98%). Já em 2008, a participação brasileira alcançou 1,42% do va-


lor total das exportações mundiais. De acordo com o World Factbook
(<www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook>), o Brasil é
o 21º maior exportador mundial - o que é um sinal de que o país ainda
é uma economia pouco aberta às exportações, considerando que, em
termos de PIB, o país ocupa a décima posição.
O aumento do valor das exportações brasileiras é efeito de um
aumento da quantidade exportada ou dos preços dos bens exporta-
dos? Na verdade um pouco dos dois efeitos. É inegável que os preços
dos bens exportados pelo Brasil estiveram em grande alta nos últimos
cinco anos. O índice da FAO de preços de alimentos rapidamente subiu
entre 2005/2008. Por exemplo: o preço dos óleos vegetais aumentou
97% neste período; o dos grãos, 87%; e o dos derivados do leite, 58%.
Houve também signifcativos aumentos de preços de metais e petróleo.
Isso, sem dúvida, caracterizou neste período recente uma dos momen-
tos mais favoráveis em termos de preços para países exportadores de
commodities. E, certamente, o Brasil se beneficiou disso.
O Brasil é então um exportador de commodities? Com base nos
dados do Quadro 16 abaixo, dos 12 mais importantes produtos expor-
tados pelo Brasil, seis podem ser considerados como commodities (pe-
tróleo, minérios, soja, carnes, açúcar e papel e celulose). Ainda com
base nesta lista, quatro destes produtos são manufaturados: material de
transporte, produtos químicos, máquinas e equipamentos e equipamentos
elétricos. Então, o Brasil não exporta apenas commodities; porém, estes
bens básicos e pouco industrializados têm um peso decisivo na pauta de
exportação brasileira. E esta participação tem aumentado, em grande me-
dida em decorrência do aumento dos preços destas commodities.

106
Módulo 7

Principais Produtos Exportados


Principales Productos Exportados / Main Products Exported
2007
US$ Milhões /US$ Millones/ US$ Millions

Valor Δ% Part %
Value 2007/06 % Share

1. Material do transporte / Transport material 23,365 16,6 14,9

2. Produtos metalúrgicos / Productos metalúrgicos 16,100 9,6 10,0


/ Metallurgic products

3. Petróleo e combustíveis / Petróleo y combustibles 16,042 23,4 10,0


/ Oil and fuel

4. Minérios /Minerios/Oms 12.026 23,3 7,5


A definição destes
5. Complexo soja /Soja y derivados / Soybears & prods 11.386 22,3 7,1
grandes grupos é por
6. Carnes / Meats 11.095 30,3 6,9
produto e depende do
7. Químicos / Chemicals 10.914 19,5 6,8
grau de industrializa-
8. Máqs. e equipamentos / Máqs. y aparatos / 8.724 12,5 5,4
ção de cada um.
Machines & equipments
Exemplos (entre os
9. Açúcar e álcool / azúcar y alcohol / Sugar & etanol 6,578 -15,4 4,1
mais importantes
10. Equipamentos elétricos / Aparatos eléctricos / 5,712 -2,3 3,6
Electrical equipment produtos) são: manu-
11. Papel e celulose / Papel y celulosa / Paper & pulp
faturados: suco de
4,726 17,9 2,9
12. Calçados e couro / Calzados y cuero / Footwear
laranja concentrado,
4,389 9,7 2,7
& leather álcool etíico,
Quadro 17: Principais Produtos Exportados – Brasil – 2007 (US$ mi) laminados de aço,
Fonte: <www.mdic.gov.br/portalmdic/sitio/interna/ aviões, açúcar refina-
interna.php?area=5&menu=1161> Acesso em: 13 dez. 2008 do e motores elétricos;
semimanufaturados:
A Figura 25 ilustra a participação de produtos básicos, couros e peles, ferro
semimanufaturados e manufaturados nas exportações brasileiras em fundido bruto e celulo-
2002 e 2007. se; básicos: minério de
ferro, petróleo em
bruto, carne de frango,
soja em grão, carne
bovina, café em grão e
fumo em grão.

107
Curso de Graduação em Administração a Distância

Figura 25: Participação das Exportações por Grupos de Produtos –


Brasil, 2002 e 2007
Fonte: Dados brutos Mdic/SECEX

E quanto aos principais países compradores do Brasil, o país é


muito dependente das nações mais desenvolvidas?
De fato, não. O destino das exportações brasileiras, por princi-
pais países (Quadro 18), é bastante diversificado. Embora os EUA
ocupem a posição de principal país comprador do Brasil, a participa-
ção de 15,8% é compatível com a importância dos EUA nas importa-
ções mundiais (14,3%) – e não demonstra uma concentração das ven-
das externas para este país (como outros países da América Latina).
Os próximos mais importantes são Argentina e China: o primeiro mui-
to influenciado em proximidade e pelas facilidades comerciais
estabelecidas pelo Mercosul; e o segundo, consequência do rápido
crescimento daquele país e da sua necessidade de importação de bens
primários (aço e alimentos, por exemplo).

108
Módulo 7

Principais Países Compradores


Principales Países Compradores – Countries for Brazilian Exports
2007
US$ Milhões /US$ Millones/ US$ Millions

Valor Δ% Part %
Value 2007/06 % Share

1. Estados Unidos / United States 25.314 2,2 15,8

2. Argentina 14.417 22,8 9,0

3. China 10.749 27,9 6,7

4. Países Baixos /Países Bajos / Netherlands 8.841 53,8 5,5

5. Alemanha /Alemania / Germany 7.211 26,7 4,5

6. Venezuela 4.724 32,5 2,9

7. Itália / Italia / Italy 4.464 16,4 2,8

8. Japão / Japón / Japan 4.321 11,0 2,7

9. Chile 4.264 9,0 2,7

10. México / Mexico 4.260 -4,4 2,7

11. Bélgica / Belgica / Belgium 3.886 29,7 2,4

12. Rússia / Russia 3.741 8,7 2,3

Quadro 18: Principais Países de Destino das Exportações – Brasil –


2007 (US$ mi)
Fonte: <www.mdic.gov.br/portalmdic/sitio/interna/
interna.php?area=5&menu=1161> Acesso em: 13 dez. 2008

E as importações brasileiras? A abertura comercial deve ser en-


tendida como uma via de mão dupla. Um aumento de importações não
deve ser visto como um indicador negativo – associado à baixa efici-
ência das empresas locais para fonecer produtos –, mas como um sinal
de especialização da produção local. Historicamente, quando o Brasil
cresce rápido, as importações também crescem (principalmente aque-
las referentes a bens de capital). A Figura 27 mostra que o comporta-
mento das importações brasileiras segue o mesmo padrão de expansão
rápida a partir de 2003.

109
Curso de Graduação em Administração a Distância

E o resultado das exportações e importações? Esse é um dos


dados econômicos mais divulgados na mídia: a balança comercial, que
é definida pela diferença entre o valor das exportações e o valor das
importações de bens e serviços.

Figura 26: Valor das Exportações, Importações e Saldo da Balança


Comercial, Brasil – 1998/2007 (US$ milhões)
Fonte: Dados Brutos: Mdic/SECEX

Observamos que o país tem tido superávits comerciais desde


2001. Houve uma rápida expansão desse superávit até 2006 (valor
recorde). Podemos notar que a redução do superávit em 2007 foi prin-
cipalmente causada pelo significativo aumento das importações. Em
2008, as estimativas preliminares indicam um superávit de US$ 24,735
bilhões, valor 38,2% abaixo do registrado em 2007.
Vale a pena ainda registrar outro conceito: a corrente de comér-
cio. Como a abertura comercial tem efeitos tanto sobre as exportações
como as importações, uma definição relevante para medir a abertura
do comércio externo de um país é a corrente de comércio, dada pela
soma dos valores de exportação e importação. No caso do Brasil, a
corrente de comércio alcançou recorde de US$ 371 bilhões, o que
representa um aumento de 32,0% em relação a 2007.

110
Módulo 7

Comércio exterior e taxa real de câmbio

A competitividade das empresas exportadoras é muito afetada


por mudanças no câmbio. Um exportador prefere uma taxa de câmbio
alta ou baixa? Prefere um Real desvalorizado ou valorizado?
Ora, para fazer com que o preço de sua mercadoria, original-
mente dado em Reais, tenha um valor em Dólares mais barato – au-
mentando, assim, suas vendas – a taxa de câmbio (em R$/US$) deve
ser alta; o que corresponde a um Real desvalorizado.
Logo, um aumento da taxa de câmbio – digamos de R$/US$
3,20 para R$/US$ 3,50 – significa uma desvalorização do Real e um
aumento da competitividade das exportações. A tendência é que as
exportações cresçam com o aumento do preço do Dólar. O contrário,
uma redução da taxa de câmbio, desetimula as exportações. Um exem-
plo disso pode ser visto no trecho da reportagem abaixo.

O dólar fraco mudou tudo, por Suzana Naiditch

A maior parte dos exportadores brasileiros de produtos


manufaturados está aprendendo – da pior forma possível – o
que significa a aplicação dos princípios do naturalista Charles
Darwin ao comércio global. De acordo com dados do Ministé-
rio do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, apenas
nos dois primeiros meses deste ano cerca de 600 empresas bra-
sileiras desistiram de exportar seus produtos. A situação do câm-
bio é o que está por trás da extinção em massa. Muitos empre-
sários simplesmente não conseguiram sobreviver no mercado
internacional com um ambiente de contínua valorização do real.
Preparadas para competir num cenário em que cada dólar va-
lia quase 3 reais (veja tabela 4), muitas empresas brasileiras
tombaram sob o impacto de um câmbio que gira hoje em torno
dos 2,10 reais por dólar e que, tão cedo, não deve voltar aos
padrões do passado.
Fonte: Exame (24/04/2006).

111
Curso de Graduação em Administração a Distância

A Taxa Real de Câmbio – Quando se faz uma análise em um


período mais longo, quando efetivamente há efeito da infla-
ção, então o que influencia a exportação é o que se chama de
taxa real de câmbio.

Como assim real? O termo real significa que se retira do valor o


efeito da inflação. Por exemplo, o salário mínimo em 2000 era
R$ 151,00, em 2008 era R$ 415,00; isso significa que as condições de
vida de quem ganha salário mínimo melhoraram 175%? Não, por que
houve inflação neste período. O mesmo acontece com o câmbio: o
valor da taxa de câmbio nominal deve ser corrigido pela mudança nos
preços. Como a taxa de câmbio envolve duas realidades de preços
(Brasil e EUA, na taxa R$ por Dólar), então a correção deve conside-
rar esses dois preços, de acordo com a seguinte expressão:

O preço externo e o preço interno são, respectivamente, índices


de preços do país estrangeiro (EUA) e índices de preços do país do-
méstico (Brasil). No exemplo da Tabela 4, são adotados os índices
IPA (índice de preços por atacado) dos EUA e Brasil. Por conveniên-
cia, colocamos os dois índices com 2007=100 (isto é basicamente uma
regra de três e permite que os resultados – a taxa real de câmbio -
estejam a preços do último ano disponível, 2007).

112
Módulo 7

Tabela 4: Taxa Nominal de Câmbio, Índices de Preços por Atacado e


Taxa Real de Câmbio – R$/US$ – 1995/2007

Taxa nominal Taxa real


IPA EUA IPA-OG Brasil
Ano de câmbio de câmbio
(2007=100) (2007=100)
(R$/US$) (R$/US$)

1995 0,9159 72,2575 92,5100 0,7154

1996 1,0042 73,9516 92,7700 0,8005

1997 1,0772 73,9033 98,5100 0,8081

1998 1,1597 72,0692 77,5900 1,0772

1999 1,8139 72,6726 89,2300 1,4773

2000 1,8294 76,8716 89,3800 1,5734

2001 2,3496 77,7211 73,8500 2,4728

2002 2,9204 75,9401 94,1000 2,3568

2003 3,0775 79,9995 87,2000 2,8234

2004 2,9251 84,9416 100,9700 2,4608

2005 2,4344 91,1628 95,8700 2,3149

2006 2,1753 95,4200 91,3800 2,2715

2007 1,9471 100,0000 100,0000 1,9471

Fonte: Dados Brutos IPEADATA em <www.ipeadata.gov.br>


Acesso em: 14 dez. 2008

O resultado da taxa real de câmbio, obtido na Tabela 4, é plotado


na Figura 27, juntamente com informações de valor das exportações e
das importações.
O que podemos notar? A taxa real de câmbio influencia no co-
mércio? A evidência não é muito clara. De 1998 até 2003, o aumento
da taxa real de câmbio estimulou as exportações. A partir de 2003,
com a valorização do Real (isto é, a redução da taxa real de câmbio),
não houve uma redução das exportações, como se poderia esperar. O
que aconteceu foi que o valor das exportações continuou aumentan-
do, apesar da valorização do Real, devido principalmente aos excep-
cionais preços das commodities. Por outro lado, a valorização do Real,
entre 2003/2007, ajuda muito a explicar o boom das importações (com
o Real forte, as pessoas importam bens de consumo e as empresas
importam máquinas e insumos).

113
Curso de Graduação em Administração a Distância

Figura 27: Taxa Real de Câmbio, Valor das Exportações e das Impor-
tações – Brasil – 1998/2007
Fonte: Dados Brutos IPEADATA

O Mercado de Câmbio no Brasil

Primeiro, de modo bastante simples, a taxa de câmbio é o preço, em


moeda nacional, de uma unidade de moeda estrangeira. Tomando o preço
do Dólar (janeiro de 2009), que é igual a 2,37 Reais, isto significa que são
necessários 2,37 Reais para comprar um Dólar. As cotações representam
taxas para a compra e para a venda da moeda estrangeira. Notem que elas
são denominadas do ponto de vista do agente vendedor; isto é: cotação de
compra, o agente compra Dólar, por exemplo, por R$ 2,35; cotação de
venda, o agente vende Dólar, por exemplo, por R$ 2,39.
Mas, no Brasil, existem três diferentes mercados de moeda es-
trangeira, que são segmentados e regulados. Estes mercados são:

Dólar Comercial – Refere-se ao valor do Dólar usado para


transações de comércio exterior e movimentações de capitais
de empresas (investimento direto externo e aplicações finan-
ceiras). As transações do governo, como novos empréstimos

114
Módulo 7

internacionais e pagamentos de dívidas, são também realiza-


das adotando as cotações do Dólar comercial.
Dólar Turismo – Embora legalmente os mercados de câmbio
comercial e turismo tenham sido unificados (Resolução CMN
3265), as terminologias “Aólar comercial” e “Dólar turismo”
continuam a ser utilizadas pelo mercado. De fato, o Dólar
turismo é usado para designar as operações referentes à com-
pra e venda de moeda para viagens ao exterior. Essa é a cota-
ção usada para emissão de passagens, transações de turismo
no exterior e débitos em moeda estrangeira ocorridos no car-
tão de crédito.
Dólar Paralelo – É o mercado de Dólar à margem da legisla-
ção e da regulamentação do BACEN. É um mercado ilegal.
Este mercado é usado para atividades ilícitas – que envolvem
moeda estrangeira, como lavagem de dinheiro, sonegação e
tráfico de drogas – e também operações informais (também
ilegais) de pessoas que lidam com moeda estrangeira (servi-
ços a turistas estrangeiros e contabando).

Fluxos de investimento externo

As relações econômicas entre os países não se limitam às trocas


comerciais. Como já discutimos na Unidade 3, há também o movi-
mento de capitais que caracteriza as ações das empresas multinacionais.
Este movimento de capitais pode ser classificado, do ponto de vista
mais macroeconômico, em dois distintos fluxos:

O Investimento Direto Externo (IDE): é o investimento pro-


dutivo, em capacidade de produção e com interesses de lon-
go prazo que uma empresa de um país faz em outro. Nos
anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, os Estados Uni-
dos se tornaram o principal destino de investimento direto.
Em 1960, os Estados Unidos recebiam aproximadamente 75%
do IDE mundial. Especialmente a partir dos anos 1990, o
IDE passou a ser direcionado para os denominados países

115
Curso de Graduação em Administração a Distância

emergentes. Desde então, China e Brasil rivalizam, entre os


mercados emergentes, como os dois principais destinos do
investimento de multinacionais.
O Investimento de Portfólio Externo (IPE): é o investimento
em ativos financeiros em países estrangeiros. O IPE tem uma
natureza mais instável do que o IDE, uma vez que os custos
de saída são pequenos. Este capital especulativo é capaz de
rapidamente mover-se entre mercados atrás de melhores con-
dições de rentabilidade e segurança. O IPE pode ocorrer atra-
vés de compra de ações e aquisição de títulos públicos e pivados.

A Figura 28 mostra a atração de investimento direto e de portfólio


externo para o Brasil nos últimos 12 anos. Claramente, o IPE é muito
mais instável, chegando a ser negativo em anos como 2002 e 2004.
Em 2002, a baixa credibilidade atribuída ao recém-eleito presidente
Lula pode explicar a fuga de capitais, ou seja, o IPE negativo. Já a
melhora das condições da economia brasileira, como o crescimento
do PIB e a redução do risco-país, estimulou a retomada tanto do IDE
como do IPE.

Figura 28: Fluxos de Investimento Direto Externo (IDE) e de Investi-


mento de Portfólio Externo (IPE) para o Brasil – 1995/2007
Fonte: Dados brutos IPEADATA

116
Módulo 7

Saiba mais...

China: uma boa oportunidade de investir para empresas


brasileiras?

A China representa um mercado em processo de abertura


e com imensuráveis possibilidades para empresas brasileiras.
A ascensão rápida da economia chinesa não só abriu as portas
para 1,3 bilhões de novos consumidores, como também fez sur-
gir várias áreas que complementam a economia brasileira, um
cenário ideal para parcerias internacionais.
O mercado chinês é cobiçado pelo mundo inteiro – e defi-
nir a estratégia certa, garantir relações produtivas com as em-
presas de lá são atitudes cruciais para criar parcerias de suces-
so. A falta de empresas brasileiras que já investiram na China,
porém, ainda é preocupante. Embora consumam, por exemplo,
quantidades grandes de produtos como café e laranja, estes vêm
de países que não os produzem, mas compram do Brasil (como
o Nescafé suíço e marcas europeias de suco de laranja). Assim,
o valor agregado flui para estes países ao invés do Brasil.
O afrouxamento de leis que regulamentavam a presença
de empresas multinacionais na China atraiu investimentos do
mundo inteiro. Empresas pioneiras no que se refere a parcerias
com a China, como a de aviação Embraer, estabeleceram o
padrão para um futuro promissor. A Embraer fez seus primeiros
negócios em 2000, tendo vendido aviões para a Sichuan Airlines.
Mas quando o governo chinês, criando medidas de proteção à
indústria aeronáutica local, fez as tarifas de importação passa-
rem de 7% para 23% (para aviões abaixo de 25 t). Em 2001, a
Embraer assinou um acordo de cooperação com a China
Aviation Industry Corporation II (AVIC II) para colaboração
industrial. No ano seguinte, já havia se estabelecido uma linha
de montagem final para jatos regionais na China – e o contrato
de joint venture com a AVIC II foi assinado.

117
Curso de Graduação em Administração a Distância

O acordo inicial assinado previa a participação de ambos


os países em projetos de desenvolvimento de produtos, o desen-
volvimento conjunto de projetos de engenharia e a troca de in-
formações e treinamento em gerenciamento. Após a
implementação da joint venture, a Embraer passou a dar trei-
namento a todos os funcionários chineses no Brasil.
Contudo, a decisão da Embraer é de não renovar o con-
trato de joint venture (que expira em 2010) com a empresa chi-
nesa. A principal razão é justamente a questão referente à pro-
priedade intelectual e o efeito de transbordamento tecnológico.
Segundo a Embraer, as exigências da empresa chinesa em ter-
mos de transferência de tecnologia e engenharia de aeronáuti-
ca não compensam o acesso ao mercado chinês. Vale a pena
lembrar o modelo de avião da própria AVIC II, o ARJ-21 – que
foi desenvolvido após a abertura da linha de montagem de JV
com a Embraer – e que apresenta características similares aos
da família 170-190 (produzidos pela Embraer). Não renovando
a joint venture, a Embraer perderá um mercado potencial gran-
de, já que estavam previstas as vendas de mais 100 aviões, en-
comendados em 2006.

Brasil e os blocos comerciais

A formação de blocos regionais tem sido uma estratégia adotada


por diversos países do mundo para ampliar o comércio, especialmente
com países mais próximos. Este tipo de iniciativa de desgravação
tarifária e integração comercial em regiões mais específicas – como
são os casos da União Europeia, do Nafta e do Mercosul – é denomi-
nada de Regionalismo. Estas medidas, em certo sentido, se opõem ao
principio mais universal de liberalização comercial dada pelo
Multilateralismo. Como assim?

118
Módulo 7

Regionalismo versus Multilateralismo

A Organização Mundial do Comércio (OMC) defende e estimu-


la os países do mundo a adotarem medidas de liberalização comercial
– como redução de tarifas de importação e menores barreiras não-
tarifárias – de modo multilateral; ou seja, que beneficiem todos os pa-
íses do mundo. Este é o princípio do Multilateralismo: não discrimina-
ção; todos os países que exportam para o meu tem o mesmo tratamen-
to (tarifário e não-tarifário). Na criação de um bloco regional estabele-
ce-se uma preferência tarifária para países do bloco; isto é, no caso do
Mercosul, por exemplo, importações que vêm da Argentina pagam
tarifas menores do que se elas tivessem origem em países de fora do
bloco (EUA ou China, por exemplo).
As chamadas rodadas de negociação internacional da OMC –
hoje estamos discutindo a Rodada de Doha – têm a intenção de fazer
com que o comércio mundial avance na direção de uma maior
liberalização multilateral. Mas tais negociações não têm sido muito
fáceis (a Rodada de Doha ainda não chegou a uma conclusão); en-
quanto que acordos regionais, envolvendo um número menor de paí-
ses e, muitas vezes, culturalmente mais semelhantes, têm avançado.

Tipos de Blocos Comerciais

Os blocos comerciais regionais são distintos de acordo com o


nível de integração entre os países membros. É importante entender
que os blocos regionais não necessariamente avançam de uma forma-
ção com menos integração para, ao longo do tempo, convergir para
um acordo com maior integração. Como assim? Bem, há blocos que
não têm o objetivo de ampliar o grau de integração.
Vejamos os tipos de integração comercial:

Área de Livre Comércio: é um bloco comercial em que se


estabelece um acordo de comércio preferencial (em geral ta-
rifa zero) entre os países membros. Exemplos: NAFTA,
ALCA, Acordos EUA-Chile, EUA-Jordânia;
União Aduaneira: é um bloco comercial caracterizado por
uma área de livre comércio e uma tarifa externa comum

119
Curso de Graduação em Administração a Distância

(TEC). Exemplos são o Mercosul e o Caricom. Ah, o que é


uma TEC? É quando todos os países membros concordam
em fixar uma mesma tarifa de importação. Por exemplo, a
TEC de calçados no Mercosul é 14,2%; isto é, os quatro pa-
íses, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, cobram 14,2%
de tarifa na importação de calçados (que venham de países
de fora do Mercosul).
Mercado Comum: é quando o bloco comercial é uma união
aduaneira em que existe livre circulação de pessoas e capital.
O melhor exemplo de um mercado comum é a Comunidade
Econômica Europeia (CEE). Na CEE, além de tarifa zero
para o comércio intrabloco e a TEC, tem-se livre mobilidade
de pessoas (e.g., portugueses podem trabalhar na França) e
as empresas e os investidores podem transferir valores de um
país para outro sem qualquer restrição.
União Econômica: é um mercado comum em que os países
membros têm a mesma política monetária (moeda única) e
fiscal. O primeiro e único exemplo deste nível de integração
é a União Europeia dos 16 países que adotam o Euro
(a Eslováquia aderiu ao Euro em 1º de janeiro de 2009).

Principais Experiências de Blocos Comerciais

A Figura 29, a seguir, marca em um mapa-múndi os princiais


blocos comerciais. Note que são poucos os países do mundo que não
fazem parte de algum bloco regional de comércio (exemplos são a
China, Japão, Austrália e Irã).

120
Módulo 7

Figura 29: Mapa-Múndi e os principais Blocos Comerciais


Fonte: <http://www.marcoscintra.org/novo/imgsEditor/mapa-
globoBE.gif>. Acesso em: 27 mai. 2009.

A descrição destes blocos regionais e seus respectivos países


membros estão no Quadro 19 a seguir.

Bloco Países Membros

ASEAN Association of Brunei, Cambodja, Indonésia, Laos, Malasia,


South East Asian Mianmar, Filipinas, Cingapura, Tailândia e
Nations Vietnam

CAN Andean Community Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela

CARICOM Caribbean Antigua & Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize,


Community and Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica,
Common Market Monserrat, Trinidad & Tobago, St. Kitts & Nevis,
St. Lucia, St. Vincent & the Grenadines e Suriname

CACM Central American Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e


Common Market Nicaragua

CEMAC Economic and Camarões, Rep. Centro-Africana, Chade, Congo,


Monetary Guiné Equatorial e Gabão
Community of
Central Africa

COMESA Common Market for Angola, Burundi, Camarões, Congo, Djibouti,


Eastern and Egito, Eritrea, Etiópia, Quênia, Madagascar,
Southern Africa Malawi, Mauricio, Namibia, Ruanda, Seicheles,
Sudão, Suazilândia, Uganda, Zâmbia e Zimbábue

121
Curso de Graduação em Administração a Distância

Bloco Países Membros

EAC East African Quênia, Tânzânia e Uganda


Cooperation

EU European Union Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, República


(União Europeia) Tcheca, Dinamarca, Eslovenia, Eslovaquia,
Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia,
Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia,
Lituânia, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal,
Reino Unido e Suécia

GCC Gulf Cooperation Barain, Kuaiti, Oman, Qatar, Arábia Saudita e


Council Emirados Árabes Unidos

MERCOSUL Mercado Comum Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai


do Sul

NAFTA North American Free Canadá, México e EUA


Trade Agreement

SACU Southern African Botsuana, Lesoto, Namíbia, África do Sul e


Customs Union Suazilândia

Quadro 18: Principais Blocos Regionais


Fonte: Dados brutos OMC

A Experiência da União Europeia

A, hoje, União Europeia esteve desde o início da onda de for-


mação de blocos regionais na liderança destas iniciativas. Veja, abaixo,
uma breve lista dos fatos que marcaram a história da União Europeia.
História e fatos:

No início dos anos 1950, a formação da Comunidade Euro-


peia do Carvão e do Aço dá início ao processo de integração
econômica e política dos países europeus. Os países funda-
dores foram: França, Alemanha (Ocidental), Itália, Bélgica,
Holanda e Luxemburgo;
Em 1957, o Tratado de Roma institui a Comunidade Econô-
mica Europeia (CEE), um mercado comum entre França,
Alemanha (Ocidental), Itália, Bélgica, Holanda e
Luxemburgo;

122
Módulo 7

Os anos 1960 foram um bom período para a economia, que


foi favorecida pelo fato dos países da CEE terem deixado de
cobrar tarifas no comércio intrabloco;
Anos 1970: queda do regime de Salazar em Portugal, em
1974, e a morte do General Fanco na Espanha, em 1975. É o
fim das últimas ditaduras de direita na Europa;
Em 1986, é assinado o Ato Único Europeu – que prevê um
vasto programa para eliminar os entraves que se opõem ao
livre fluxo de comércio na UE. Cria-se o “Mercado Único”.
Queda do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989;
Em 1993, é concluído o Mercado Único com as “quatro li-
berdades”: livre circulação de mercadorias, de serviços, de
pessoas e de capitais;
Acordos de Schengen entram em vigor em sete Estados-Mem-
bros: Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Luxemburgo,
Países Baixos e Portugal; viajantes, de todas as nacionalida-
des estão isentos de controle de identidade nas fronteiras; e
O Euro passou a ser a moeda comum de mais de 300 milhões
de europeus no dia 1º de Janeiro de 1999 (circulação do Euro
em 1º de janeiro de 2002). Países da UE que utilizam o Euro:
Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovênia,
Espanha, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália,
Luxemburgo, Malta, Países Baixos e Portugal.

O Brasil e o Mercosul

O objetivo de uma América Latina integrada, em termos comer-


ciais e mesmo políticos, foi historicamente dificultado, ao longo das
quatro décadas que se seguiram à 2ª Guerra Mundial, pelas políticas
nacionalistas dos diversos países e também pela falta de democracia
nas principais nações.
Mais recentemente, em 1985, Brasil e Argentina celebraram o
Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE). Esse acor-
do é, sem dúvida, o embrião do Mercosul, na medida em que já esta-
belece um comércio com tarifas privilegiadas entre os dois principais
países do Cone Sul.

123
Curso de Graduação em Administração a Distância

O Mercosul foi fundado pelo Tratado de Assunção em março


de 1991 e ratificado pelo importante Tratado de Ouro Preto em
1994. Os quatro países signatários e atuais
membros plenos do Mercosul são: Argentina,
Brasil, Paraguai e Uruguai. Venezuela é
candidata a membro pleno. Aos lados:
bandeira do Mercosul.

Figura 30: Fundação do Mercosul.


Fonte: elaborada pelo autor. Foto:
<http://www.senado.gov.br/noticia/multimidia/
verImagem.aspx?codImagem=119886>. Acesso em: 27 mai. 2009.

Como uma união aduaneira, o Mercosul começou a valer a par-


tir de janeiro de 1995, quando entrou em vigor a TEC. Lembrando,
então: o Mercosul é uma união aduaneira pois adota livre comércio
entre os países membros e uma tarifa de importação comum (a TEC).
Na verdade, o Mercosul é uma união aduaneira imperfeita. Por que?
Porque existem listas de exceções de todos os países que restringem o
comércio livre entre os países membros e que estabelecem ainda algu-
mas diferenças no valor da TEC de alguns produtos para alguns paí-
ses (por exemplo, TEC sobre importação de leite, no caso do Brasil).

A sede do Mercosul é em Montevidéu, Uruguai. Além da


candidatura da Venezuela, a membro pleno, são membros
associados do Mercosul: Bolívia, Chile, Colômbia,
Equador e Peru. O que é membro associado?
É quando o país tem todos os benefícios do comércio entre
os países membros (comércio intrabloco), mas não acata a
mesma tarifa comum de importação (TEC) do bloco.

Figura 31: Mercosul e membros associados.


Fonte: elaborada pelo autor. Foto:
<http://ec.europa.eu/external_relations/images/mercosur/
img_mercosur.jpg>. Acesso em: 27 mai. 2009.

124
Módulo 7

A seguir é apresentada uma breve cronologia dos principais fa-


tos do Mercosul:

nov/1985: Declaração de Iguaçu: Implementação de acordos


bilaterais de comércio entre Argentina e Brasil;
mar/1991: Tratado de Assunção; implementação formal do
Mercosul (entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai);
jan/1995: Manter implementação da união aduaneira no
Mercosul;
out/1996: Chile ingressa como membro associado;
mar/1997: Bolivia ingressa como membro associado;
jan/1999: Desvalorização do Real (Brasil);
jan/2002: Desvalorização do Peso (Argentina);
2003: Peru ingressa como membro associado;
2004: Colômbia e Equador ingressam como membros asso-
ciados; e
jul/2006: Adesão da Venezuela como membro pleno (sujeita
à aprovação dos congressos nacionais).

Indicadores Socioeconômicos do Mercosul

Uma dimensão da assimetria ou das diferenças entre os quatro


países membros é dada pelos seus indicadores socioeconômicos (Ta-
bela 16). Embora o Brasil seja a maior economia do bloco – com maior
população, PIB e exportação global – seus indicadores sociais estão
entre os piores do Mercosul. Exemplos deste baixo desempenho soci-
al são o alto índice de alfabetismo e a alta mortalidade infantil.
Outro resultado que ressalta a diferença entre as economias gran-
des e pequenas do Mercosul é o grau de dependência do comércio
intrabloco. A participação das exportações e das importações intrabloco,
respectivamente sobre o total das exportações e importações, é maior
para os países menores (Paraguai e Uruguai) do que para as economi-
as maiores (Argentina e Brasil).

125
Curso de Graduação em Administração a Distância

Indicador Argentina Brasil Paraguai Uruguai MERCOSUL

População Total (mil habitantes) 39.356 192.645 6.120 3.332 241.453

Crescimento Demográfico (% aa) 1,0 1,3 1,8 0,2 1,3

Natalidade (por 1.000 hab) 17,5 19,2 24,8 15,1 19,0

Mortalidade Infantil (por 1.000 hab) 13,4 23,6 32,0 13,1 ---

Alfabetismo (%) 97,2 88,9 94,4 98,0 90,5

PIB (US$ milhões) 369.958 805.838 8.894 24.169 1.208.860

PIB per capita (US$) 9.400 4.183 1.453 7.254 5.007

PIB – taxa de crescimento (% aa) 8,7 5,4 6,0 7,4 6,4

PIB per capita (US$ PPC) 13.308 9.695 4.489 11.621 10.179

Exportação Global FOB (US$ mi) 55.933 160.262 2.785 4.496 223.476

Importação Global CIF (US$ mi) 44.400 126.655 5.577 5.589 182.221

Export. Interregional/global (%) 39 23 65 40 28

Import. Interregional/global (%) 42 17 53 60 26

Dívida Externa Global (US$ mi) 116.188 191.358 -- 11.910 ---

Quadro 20: Indicadores Socioeconômicos dos Países do Mercosul – 2007


Fonte: ALADI (www.aladi.org/nsfaladi/indicado.nsf/vvindicadoresweb/
series%20completas Acesso em 11/12/2008

Além disso, a assimetria entre os países ocorre também na ob-


tenção de superávits e no tipo de produto exportado por cada país. O
intercâmbio comercial dentro do Mercosul tem sido persistentemente
favorável ao Brasil (qualquer que seja o país parceiro). O Brasil, em
relação aos países do Mercosul, é predominantmente um exportador
de produtos manufaturados. Os produtos manufaturados respondem
por 89% das exportações brasileiras para o Paraguai. Já o Brasil com-
pra do Paraguai produtos agrícolas, como milho e trigo. As exporta-
ções do Brasil para a Argentina são também principalmente manufatu-
rados, como automóveis e celulares, enquanto que as importações bra-
sileiras são commodities (principalmente trigo e petróleo).

126
Módulo 7

Saiba mais...

O Mercosul e a Entrada da Venezuela

A adesão da Venezuela como quinto país mem-


bro do Mercosul traz uma série de vantagens, já
que o país é a terceira maior economia da América
do Sul. A produção e as reservas de petróleo e gás
natural também são um recurso estratégico, em ter-
mos econômicos e geopolíticos. Além disso, sua localização es-
tratégica facilitaria o comércio com a região norte e tiraria o
aspecto de “cone sul” do bloco.
Fonte: <www.geografiaevida8rb.blogspot.com/> Acesso em: 2 fev. 2009

O reconhecimento do país como membro ainda não se deu


por completo, visto que ele precisa ser aceito em votação por
todos os quatro países já participantes. Mas espera-se que no
final de fevereiro de 2009 a Venezuela já seja um membro em pé
de igualdade com o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uru-
guai. Mesmo assim, representantes da União Europeia e outros
blocos econômicos censuraram a decisão de aceitar a Venezuela,
que segundo eles foi apressada e sem suficientes debates. A po-
lítica externa do presidente Hugo Chávez pode se tornar pro-
blemática, já que o próprio afirma que pretende com o Mercosul
criar uma bloco com poder geopolítico suficiente para diminuir
a influência dos Estados Unidos sobre a América do Sul. Ou-
tras metas de Chávez, como o fortalecimento do
“multipolarismo” – a ideia de vários blocos econômicos fortes,
contrapondo o “unipolarismo” americano –, o distanciamento
dos Estados Unidos e a aproximação de países como Rússia,
Irã, Cuba e China, podem restringir a relação do Mercosul com
outros países e blocos regionais.
A Venezuela será o primeiro país a ingressar no Mercosul
após o inicial Tratado de Assunção. A convergência da Venezuela
será rápida, livre comércio intrabloco até 2012, adesão à TEC

127
Curso de Graduação em Administração a Distância

até 2014 e não poderá negociar qualquer acordo de livre co-


mércio bilateral.

RESUMO

Descrevemos nesta Unidade os fluxos de comércio, ex-


portações, importações e saldo da balança comercial do Bra-
sil. A avaliação por principais produtos exportados destaca o
Brasil principamente como exportador de commodities. A re-
lação das exportações com a taxa de câmbio evidencia que o
valor exportado não foi signifcativamente afetado pela valori-
zação do Real entre 2003/2007, o que pode ser explicado pe-
los excelentes preços das commodities no mercado internaci-
onal naquele período. Mostramos, ainda, o fluxo de IDE e
IPE para a economia brasileira, enfatizando o caráter mais
volátil do investimento de portfólio. Sobre regionalismo, revi-
samos a experiência de diversos blocos, com ênfase à União
Europeia e ao Mercosul.

128
Módulo 7

UNIDADE

5
Comércio
Comércio Exterior
Exterior ee
Estratégias
Estratégias de
de
Desenvolvimento
Desenvolvimento

129
Curso de Graduação em Administração a Distância

Objetivo

Nesta Unidade destacaremos o papel dos organismos internacionais,

especialmente daqueles mais vinculados ao comércio exterior:

GATT/OMC. Discutiremos, ainda, a relação entre liberalização

comercial e desenvolvimento e políticas de promoção à exportação

(zonas de processamento de exportação e o sistema geral de

preferência).

130
Módulo 7

O Papel dos organismos


multilaterais

Prezado(a) estudante!
Nesta quinta e última Unidade vamos discutir o papel das
principais instituições internacionais, como elas se envol-
vem com o comércio internacional e buscam alcançar rela-
ções mais justas entre países ricos e pobres. A questão do
desenvolvimento a partir do comércio é discutida aqui.
Esse é um ponto de chegada natural, pois de que adiantam
os esforços em ganhos de produtividade, busca de merca-
dos, negociações internacionais e disputas por tarifas e
outras barreiras, se o comércio internacional não gerar be-
nefícios amplos para todas as nações e para todos os cida-
dãos dessas nações?

No Século XIX, as inovações mecânicas e a indústria moderna


se espalham por vários países do mundo. O comércio internacional é
dominado por poucos países, com destaque para a Inglaterra e Holanda.
Especialmente nas últimas duas décadas daquele século, o crescimen-
to econômico é fortemente associado com a expansão do comércio
internacional – impulsionado pela inexistência de barreiras significati-
vas ao comércio e ao movimento de pessoas e de capitais. Vale lem-
brar, por exemplo, que cerca de 900.000 italianos emigraram para os
EUA entre 1880 e 1900.
O início do Século XX é também caracterizado pelo livre mer-
cado. Após a Primeira Guerra Mundial, ocorrem algumas tentativas
de criação de organismos internacionais – com a intenção de promo-
ver a paz e o comércio entre as nações –, mas fracassam pela posição
de autonomia dos EUA e da Alemanha.
De fato, o mundo passa a reconhecer a importância de organis-
mos multilaterais, em áreas distintas como comércio, finanças e de-
senvolvimento, apenas depois da Segunda Grande Guerra. As princi-

131
Curso de Graduação em Administração a Distância

pais instituições internacionais são criadas a partir de um acordo fir-


mado pelos países aliados, em julho de 1944, em Bretton Woods/EUA.

As instituições de Bretton Woods

Ainda antes do término da Segunda Guerra,


representantes dos 44 países aliados (inclusive o
Brasil) reuniaram-se no Hotel Mount Washington
(foto) em Bretton Woods, Estados Unidos, para
estabelecer um sistema de procedimentos e
instituições para regular o sistema monetário
internacional. Foram instituídas pelo acordo de
Bretton Woods o Fundo Monetário Internacional e o
Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento.

Sob grande influência do economista inglês John M. Keynes


(do lado direito da foto, junto com Harry Dexter White,
Secretário do Tesouro dos EUA), estabeleceu-se o que ficou
chamado como regime cambial de Bretton Woods. Cada um
dos países signatários deveria estabelecer uma taxa de
câmbio fixa em relação ao dólar, enquanto os EUA fixariam
o preço do ouro (US$ 35 por onça). Este regime cambial
promoveu grande estabilidade ao sistema monetário
internacional e, com isso, ajudou na promoção ao comércio
internacional. Durou até 1971, quando, por fortes pressões de demanda internacional por
ouro, os EUA abandoram o preço fixo do ouro em dólar. Neste chamado período de ouro
de Bretton Woods (1950-70), o comércio internacional cresceu a uma taxa de 9% aa.

Figura 32: Acordo de Bretton Woods.


Fonte: elaborada pelo autor. Foto superior: <http://
www.compres.stonybrook.edu/Meetings/2009_Annual_Meeting/images/
Mt.%20Washington/mwr_hotel_summer_1_hi.jpg>. Acesso em: 27 mai.
2009. Foto inferior: <http://www.compres.stonybrook.edu/Meetings/
2009_Annual_Meeting/images/Mt.%20Washington/
mwr_hotel_summer_1_hi.jpg>. Acesso em: 27 mai. 2009.

Banco Mundial

Foi fundado em julho de 1944 como o Banco Internacional para


Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), com o objetivo inicial de
financiar a reconstrução dos países atingidos pela Segunda Guerra
Mundial. Hoje, o BIRD constitui uma das cinco instituições que com-
preendem o grupo Banco Mundial. O objetivo principal do Banco
132
Módulo 7

Mundial é prover recursos técnicos e financeiros para países em de-


senvolvimento em projetos relacionados à redução da pobreza (como,
estradas, saneamento básico e escolas).

A sede do Banco Mundial é em Washington, EUA


(foto). Originalmente constituído por 44 países, hoje o
Banco Mundial tem 185 países membros. A constitui-
ção dos recursos financeiros do Banco Mundial é dada
a partir de seus membros. Os países mais desenvolvi-
dos ingressam com cotas maiores.

Figura 33: Banco Mundial.


Fonte: elaborada pelo autor. Foto: <http://www.brasilescola.com/upload/e/
800px-World_Bank_building_at_Washington.jpg>. Acesso em: 27 mai.
2009.

O Banco Mundial oferece dois tipos de financiamento: para in-


vestimento e para políticas de desenvolvimento. No primeiro caso, os
recursos têm a finalidade de financiar projetos de infraestrutura e de
cunho social; já no segundo caso, os recursos estão associados a pro-
jetos de reformas estruturais e institucionais (por exemplo, programas
de privatização e de combate à corrupção). Os financiamentos do Banco
Mundial têm taxas de juros menores do que o mercado e para algumas
linhas específicas – como as operadas por uma das instituições do gru-
po (International Development Association – IDA), as taxas de juros
são zero.

Fundo Monetário Internacional (FMI)

Fundado em 1944, também na conferência em Bretton Woods,


com o objetivo de promover a cooperação monetária internacional,
assegurar estabilidade financeira e oferecer assistência aos países com
dificuldades de ajuste no balanço de pagamentos. Especialmente este
último objetivo tem sido o foco do FMI. Qualquer país em dificulda-
des com seus pagamentos internacionais pode recorrer ao FMI. Con-
tudo, na prática, tais empréstimos são apenas buscados em última ins-
tância. Por quê?
Bem, embora sejam recursos baratos (com juros abaixo do mer-
cado), o FMI libera estes recursos mediante a negociação de uma car-

133
Curso de Graduação em Administração a Distância

ta de intenções por parte do país credor. Nesta carta, o FMI exige o


que ficou conhecido como “condicionalidades” do empréstimo, isto é,
uma lista de medidas de política econômica que o Fundo considera
adequadas para garantir o saneamento financeiro do país, a retomada
do crescimento e condições de solvência do empréstimo. Evidente-
mente que estas “condicionalidades” têm sido historicamente associa-
das a um caráter de monitoramento e influência política do Fundo em
relação aos países em desenvolvimento.

O FMI tem sua sede também em Washington, EUA


(foto). Atualmente possui o mesmo número de membros
do BIRD (185 países membros). Os recursos do Fundo
são aportados pelos seus países membros e o peso do
voto de cada país é proporcional a sua participação no
total dos recursos. Por exemplo, os EUA – maior cotista
do FMI – tem 16,79% dos votos.

Figura 34: FMI.


Fonte: elaborada pelo autor. Foto: <http://www.diariodecontagem.com.br/
v2007/materias/1086.jpg>. Acesso em: 27 mai. 2009.

O GATT/OMC

Também na conferência de Bretton Woods foram iniciadas as


discussões para a criação da Organização Internacional do Comércio
(OIC) – instituição que teria o papel de estimular e regular o comércio
internacional; portanto, com uma função complementar ao BIRD e ao
FMI. Contudo, as discussões não avançaram tão rapidamente – espe-
cialmente devido à proposta de que o comércio internacional deveria
estar sujeito aos interesses mais amplos de desenvolvimento. Assim,
em face da necessidade mais operacional de estabelecer procedimen-
tos de exportação e importação (nomenclaturas, documentos e proce-
dimentos aduaneiros), 23 países passaram a negociar um acordo tem-
porário para estimular o comércio exterior. Essa negociação culminou
no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General Agreement on
Tariffs and Trade – GATT), assinado em 1947.
A negociação da OIC continuou e, em uma conferência em Cuba,
em 1948, foi assinada a Carta de Havana, criando a OIC. Porém, os

134
Módulo 7

EUA não foram signatários da sua criação. Por pressão do congresso


americano, que enxergava na OIC uma posição mais intervencionista,
com um viés pró-desenvolvimento, os EUA decidem não apoiar a or-
ganização. Sem a participação da maior economia do mundo, a OIC
fracassou em termos práticos.
Assim, o GATT, com objetivos bem mais modestos, passou a
ser o instrumento de regulação e estímulo ao comércio internacional.
De temporário, passou a ser uma instituição de grande importância e
que teve uma duração de quase quatro décadas. Em 1995, o GATT foi
substituído pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

As Rodadas de Negociações Multilaterais

Na intenção de estimular o comércio internacional, o GATT,


agora OMC, tem estimulado a realização de rodadas internacionais
com todos os países membros. Nestas rodadas, os temas e os objetivos
a serem alcançados são previamente estabelecidos e a rodada só é fe-
chada quando tais objetivos são alcançados. Por exemplo, o objetivo
de acabar com o sistema de cotas de importação no comércio de têx-
teis foi estabelecido antes do início da Rodada Uruguai. A Rodada só
fechou por que este e também os demais objetivos foram atingidos.
Importante notar que:
As decisões do GATT/OMC são tomadas por consenso. Isto é,
se um país não concordar, a negociação não avança. Como o GATT/OMC
não tem o papel de conceder empréstimos e/ou financiamentos, então
não há alocação de recursos por parte dos países membros.
A consequência disso é que:
O GATT/OMC segue o critério de “one country, one vote”(um
país, um voto), semelhante às decisões das Nações Unidas. Isso atri-
bui grande peso ao processo de negociação e convencimento de todos
os países membros.
No Quadro 21, a seguir, estão listadas todas as rodadas de nego-
ciação, desde a fundação do GATT. Os representantes dos países jun-
to à OMC discutem hoje a Rodada de Doha (iniciada em 2001). No-
tem que os objetivos das rodadas têm sido ampliados com o tempo
(não são mais apenas harmonização e redução de tarifas). Sem dúvi-

135
Curso de Graduação em Administração a Distância

da, a mais importante rodada até hoje foi a Rodada Uruguai (com des-
taque abaixo).

Ano/Rodada Temas Discutidos Países

1947 (Genebra) Tarifas 23

1949 (Annency) Tarifas 13

1951 (Torquay) Tarifas 38

1956 (Genebra) Tarifas 26

1960-1961 (Rodada Dillon) Tarifas 26

1964-1967 (Rodada Kennedy) Tarifas e medidas antidumping 62

1973-1979 (Rodada Tóquio) Tarifas, medidas não-tarifárias e acordos 102


relativos ao marco jurídico

1986-1994 (Rodada Uruguai) Tarifas, medidas não-tarifárias, normas, 123


serviços, propriedade intelectual, solução de
controvérsias, têxteis, agricultura, criação da
OMC etc.
2001 - (Rodada Doha) Tarifas, medidas não-tarifárias, normas, 144
serviços, propriedade intelectual, agricultura,
compras governamentais, investimentos etc.

Quadro 21: Rodadas de Negociações Multilaterais do GATT e da OMC


Fonte: OMC (2005)

A Rodada Uruguai (1986-1994) – Foi uma rodada importan-


te, pincipalmente pelos seus aspectos inovadores. Discutiu-
se, pela primeira vez, temas como o comércio de serviços, e
avançou-se (com proposições práticas) em assuntos contro-
versos como investimentos estrangeiros (proposta revisão do
acordo TRIMs/Trade Related Investment Measures) e pro-
priedade intelectual (proposta do acordo TRIPS/Trade Related
Aspects of Intellectual Property Rights) . Podem ser aponta-
das duas principais conquistas desta rodada com: (i) Redu-
ção dos subsídios agrícolas, especialmente por parte dos
EUA. Embora alguns ganhos, a agricultura dos EUA, União
Europeia e Japão continua muito protegida; (ii) Determina-
ção do fim do Acordo Multifibras. Tal acordo estabelecia cotas
de importação dos países desenvolvidos com a intenção de
proteger suas indústrias têxteis. A Rodada Uruguai estabele-
ceu o fim destas cotas, de modo gradual, de 1994 até 2005;

136
Módulo 7

(iii) A criação da OMC (Organização Mundial do Comér-


cio), em substituição ao GATT. A OMC entrou em funciona-
mento em 1995, com 123 países membros e localizada em
Genebra, Suíça. Hoje (dezembro/2008) são 153 países mem-
bros.

OMC

A Organização Mundial de Comércio possui fundamentalmente


as mesmas funções do GATT, que são:

(i) promover rodadas para negociações multilaterais de co-


mércio;
(ii) disciplinar e julgar disputas comerciais entre os países
membros;
(iii) regular e acompanhar acordos comerciais entre os países
membros; e
(iv) prover assistência técnica e treinamento em comércio inter-
nacional e atividades afins para países em desenvolvimento.

Um dos mais importantes princípios do GATT e ratificado pela


OMC é o chamado princípio da não-discriminação. Este princípio,
também conhecido como cláusula da nação mais favorecida, afirma
que quando um país conceder a outro país um determinado privilégio
comercial (como uma redução de tarifa de importação), este privilégio
deverá ser estendido para todos os demais membros da OMC.
A principal diferença da OMC em relação ao GATT é a
vinculação que se atribui nas ações e políticas da OMC entre comér-
cio internacional e desenvolvimento. Embora se reconheça a impor-
tância do comércio livre para a redução da pobreza e para o desenvol-
vimento, também se admite que o comércio entre países com níveis
tecnológicos distintos tende a ser desigual. Portanto, o papel da OMC
é promover abertura e liberalização comercial de modo efetivamente
multilateral – que se garanta, por exemplo, acesso aos mercados de
países desenvolvidos em produtos que são cruciais para os países mais
pobres (principalmente produtos agrícolas).

137
Curso de Graduação em Administração a Distância

Dentre as principais dificuldades enfrentadas pela OMC


para alcançar um comércio mais livre nas nações e
"fechar" a Rodada de Doha estão o avanço na legislação
e o controle sobre propriedade intelectual em países
emergentes e a redução dos subsídios à agricultura em
países desenvolvidos. Os setores relacionados à
agricultura nos EUA e Europa têm sido os principais
elementos de resistência ao avanço de Doha. Na foto,
camponeses europeus marcham em Genebra (reunião
de 2005) contra os acordos na área agrícola.

Figura 35: Protesto contra a reunião da OMC


Fonte: elaborada pelo autor. Foto: <http://www.brasilescola.com/upload/e/
omc.jpg>. Acesso em: 27 mai. 2009.

Outras Instituições Internacionais

Dentre as demais instituições internacionais que têm alguma re-


lação com comércio e desenvolvimento, podem ser citadas:

BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) – Institui-


ção criada em 1959, com sede em Washington, EUA, com a
finalidade de financiar programas e projetos de desenvolvi-
mento econômico, social e institucional, e promover a
integração comercial na América Latina e Caribe. As áreas
de atuação do banco são: energia e mudança climática;
infraestrutura; educação e meio-ambiente. São 47 países mem-
bros, dos quais 21 são não mutuários, o que significa que
entram com capital e têm poder de voto, mas não são objeto
da aplicação dos recursos.
OECD (Organisation for Economic Co-operation and
Development) (Organização para Cooperação e Desenvolvi-
mento Econômico) – Instituição criada em 1961, atualmente
constituída por 30 países desenvolvidos. Os objetivos da
OECD são bastante amplos e genéricos, variando de temas
econômicos e sociais até questões relacionadas ao meio am-
biente, pobreza e desenvolvimento. Questões relacionadas ao
comércio e ao desenvolvimento também estão na pauta de
suas discussões.

138
Módulo 7

ONU (Organização das Nações Unidas) – Instituição criada


em 1946 com o objetivo principal de promover a paz entre as
nações e prover um ambiente de diálogo para solução de con-
trovérsias políticas entre os 192 países membros. Dentre as
principais atividades da ONU estão a Assembleia Geral, o
Conselho de Segurança, a Corte Internacional de Justiça e,
mais importante para o nosso caso, o Conselho Econômico e
Social, que tem como objetivo promover a cooperação eco-
nômica e social entre os países.

Comércio livre e políticas de


promoção de exportações

No período após a Segunda Guerra Mundial houve uma grande


controvérsia entre duas propostas de crescimento econômico para os
países menos desenvolvidos: crescimento via substituição de importa-
ções e crescimento via promoção de exportações. No primeiro caso, o
crescimento é voltado para dentro da economia doméstica. A ideia,
sustentada especialmente por teóricos estruturalistas e muito associa-
da com a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), era
incentivar a industrialização local em função da criação de obstáculos
à importação. Essas ideias foram populares nas décadas de 1950, 1960
e 70 na América Latina e influenciaram políticas governamentais de
vários países (como o Brasil, Argentina, México e África do Sul). Por
outro lado, o crescimento via promoção de exportações – também re-
sultado de intervenção governamental – focava em medidas de incen-
tivo à exportação, como, por exemplo, crédito subsidiado à exporta-
ção e financiamento à inovação voltada para o comércio externo. Os
casos mais conhecidos deste modelo de crescimento econômico são o
Japão e, mais recentemente, os tigres asiáticos (Coreia, Taiwan e
Cingapura).
Essas ideias continuam influenciando as políticas de desenvol-
vimento?

139
Curso de Graduação em Administração a Distância

Sim, mas bem menos. E por quê? Porque não há mais tanto es-
paço para políticas intervencionistas. O chamado Consenso de Wa-
shington estabeleceu de certo modo uma quase unanimidade em torno
de políticas com menos intervenção do Estado, maior controle de po-
líticas monetárias e fiscais (com efeitos sobre a redução da inflação) e
maior abertura ao comércio internacional. Dificilmente um país hoje
poderia decidir aumentar significativamente suas tarifas de importa-
ção, restringir movimentos de capitais e atuar de modo intervencionista
no apoio às exportações de suas empresas, sem que fosse discrimina-
do no contexto do comércio e finanças internacionais.
Neste contexto, de um mundo mais integrado e ao mesmo tem-
po com empresas mais sujeitas à competição, a questão de como o
comércio pode auxiliar na geração de oportunidades e no combate à
pobreza é fundamental. Abaixo, discutimos dois aspectos deste tema.

Saiba mais...

Um Nobel para o Comércio e Desenvolvimento

O prêmio Nobel de Economia de 2008 foi atribuído ao


economista norte-americano Paul Krugman pelas suas contri-
buições à teoria do comércio sob condições de concorrência. O
Prêmio Nobel de Economia, instituído em 1968 pelo Banco Cen-
tral Sueco, concede ao indicado 10 milhões de coroas suecas
(cerca de US$ 1,4 milhão). Krugman é professor em Princenton
(EUA) e trabalhou como conselheiro econômico para os gover-
nos de Ronald Regan e Bill Clinton. Desde 1999, é colunista do
“The New York Times”.
Dentre as ideias de Krugman que lhe valeram o prêmio
está a de que o comércio que mais cresce no mundo é o que ele
chama de comércio intraindústria. Isto é, aquele comércio que
ocorre entre empresas de um mesmo setor, localizadas em paí-
ses distintos, como é o caso do comércio de automóveis entre
Japão e EUA e de produtos químicos e farmacêuticos entre Ale-

140
Módulo 7

manha e EUA. Este comércio é resultado do fato de que quem


atua nestas indústrias são grandes empresas, que gastam muito
dinheiro com distribuição de produtos e estratégias de marketing.
Logo, a competitividade das empresas é fortemente afetada por
um comércio que não é de concorrência perfeita – onde empre-
sas são pequenas e vendem um produto homogêneo, sem marca
e propaganda (algo que existira no comércio de milho, açúcar
ou papel). Krugman também resgata a importância da geogra-
fia para a análise econômica. O tamanho de um país, que pode
ser aumentado pela formação de blocos regionais de comércio,
é decisivo no perfil de seu comércio exterior. Quanto maior for
o tamanho do mercado do país, maiores são suas chances de
obter ganhos de escala e produzir eficientemente bens que de-
pendam de grandes plantas industriais para atingir custos com-
petitivos (por exemplo, indústria siderúrgica e montadoras).

A redução da pobreza através do comércio

O comércio atua em três níveis no sentido de incrementar o cres-


cimento de um país e reduzir a pobreza:

(i) o aumento do comércio representa aumento de renda, o


que resulta na geração de recursos para o desenvolvimento;
(ii) os incentivos do governo para promoção de exportações
podem ser direcionados para setores que maximizem os efei-
tos sobre geração de emprego e renda; e
(iii) as políticas públicas podem diretamente apoiar as regi-
ões mais pobres no sentido destas engajarem-se em ativida-
des exportadoras.

Um problema comum a países em desenvolvimento é que os res-


ponsáveis pelas políticas públicas não concebem medidas de desen-
volvimento de modo integrado com a possibilidade de exportação.
Além disso, os setores de exportação que poderiam atuar na re-
dução da pobreza nem sempre são incluídos em estratégias nacionais

141
Curso de Graduação em Administração a Distância

de desenvolvimento Isto é, o crescimento deveria ocorrer naqueles


setores onde estão os pequenos produtores que podem ser integrados
na cadeia de valor dos produtos e serviços. Por fim, comunidades mais
pobres em geral não possuem as habilidades de como fazer negócios
para alcançarem o comércio global. Portanto, além de educação bási-
ca, treinamento em negócios e formação de redes com empresas e ins-
tituições já atuantes são essenciais para trazer negócios informais e
competitivos para dentro da formalidade e da via para exportações.

Países pobres e exportações de produtos de qualidade

Países em desenvolvimento que conseguem aumentar suas ex-


portações não necessariamente também reduzem a pobreza. De fato,
muitas vezes, o sucesso exportador de um país ou região representa
um impacto de riqueza concentrado em um enclave de empresas de
maior porte e trabalhadores mais qualificados.
De acordo com relatório do ITC – International Trade Center, o
braço mais empresarial do Banco Mundial (ROELOFSEN, 2005) –
um programa de redução de pobreza via crescimento das exportações
deve conciliar objetivos macroeconômicos e empresariais. Neste sen-
tido, tais programas além de terem como alvo questões educacionais e
de infraestrutura, devem focar em aspectos microeconômicos.
Exemplos destes projetos de desenvolvimento (no âmbito do
ITC), com ênfase no estímulo aos negócios, são:

Café Gourmet em El Salvador: em 2002, o ITC iniciou um


projeto na Cordilheira de Apaneca (El Salvador) para me-
lhorar as condições de vida de 400 famílias pobres, produto-
res de café. O papel do ITC foi realizar uma pesquisa de
mercado, estratégias de marketing e apoiar financeiramente.
Foi identificado o Japão, como mercado de exportação para
o café de alta qualidade produzido naquela região. O café,
batizado como “Café Monte Sion”, recebeu certificação so-
cial e ambiental dado pela Rainforest Alliance. O projeto ge-
rou significativos efeitos de transbordamento em termos so-
ciais, visto que o governo melhorou o acesso rodoviário para
a área e construiu uma escola primária.

142
Módulo 7

Turismo Comunitário no Brasil: em 2003, o ITC iniciou


um projeto de geração de emprego e renda para 10.000 pes-
soas que vivem nas imediações do resort Costa do Sauípe,
na Bahia. Ações do ITC estão ajudando produtores pobres
da região a vender seus produtos artesanais de modo integra-
do nas lojas do hotel, que é muito frequentado por estrangei-
ros (que, portanto, “importariam” os produtos de artesanato).

Políticas Especiais de Promoção de Exportações

O objetivo aqui é basicamente descrever duas medidas especiais


que tem impacto sobre o desempenho das exportações de países em
desenvolvimento. Primeiro, as ZPEs (Zonas de Processamento de Ex-
portações) tratam de uma política no sentido de criar regiões
especializadas em exportações. Segundo, o SGP (Sistema Geral de
Preferências), no qual países desenvolvidos estabelecem parceiros com
acesso preferencial aos seus mercados.

As Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) são dis-


tritos industriais nos quais as empresas atuam com incentivos
à exportação, como suspensão de impostos, liberdade cam-
bial – as empresas não precisam converter em moeda local as
divisas obtidas nas exportações – e simplificação de procedi-
mentos administrativos. Tais vantagens são concedidas se a
empresa destinar a maior parte de sua produção ao mercado
externo (80% no caso das ZPEs brasileiras). Estas zonas exis-
tem pelo mundo inteiro, com nomes diferentes, mas propósi-
tos e mecanismos similares. Hoje, existem por volta de 5.000
ZPEs empregando mais de 40 milhões de pessoas no mundo
– 30 milhões destas na China. Existe uma série de benefícios
para a economia local (principalmente de países em desen-
volvimento), já que uma ZPE atrai investimentos estrangei-
ros para a exportação, gera empregos, aumenta o valor agre-
gado das exportações e ajuda a difundir novas tecnologias
no mercado doméstico. Não há concorrência desleal com
empresas locais, pois a percentagem destinada ao mercado
doméstico funciona sob a legislação normal de importação,
pagando na íntegra todos os impostos devidos. Críticas in-
cluem a de que as legislações que regem as ZPEs estão em

143
Curso de Graduação em Administração a Distância

desacordo com as normas internacionais da OMC, pois pri-


vilegiam as exportações de uma região do país em relação ao
restante (o que poderia ser considerado uma forma de
dumping). No Brasil, as ZPEs foram aprovadas por lei em
1988. Embora haja projetos em andamento de instalação das
zonas, nenhuma das 17 zonas do país (criadas de 1988 a
1994) está ativa. Grande parte das ZPEs está prevista para
funcionar nas regiões norte e nordeste. Notem que a Zona
Franca de Manaus (ZFM) não é uma ZPE, pois a ZFM não
dispõe de mecanismos de incentivos à exportação. Mundial-
mente, são criadas independentemente da situação de desen-
volvimento do país, tendo amplo sucesso na China (200 zo-
nas), nos Estados Unidos (150), nas Filipinas (142), na União
Europeia (33), Tailândia (27), Bolívia (15), Colômbia (12) e
Índia (10).
Sistema Geral de Preferências (SGP) – O SGP é um sistema
formal de exceções de regras de comércio dadas pelo GATT/OMC.
Mais especificamente, alguns países mais desenvolvidos –
com a intenção de oportunizar o comércio com países pobres
e, assim, gerar desenvolvimento – estabelecem um tratamen-
to tarifário privilegiado para com um conjunto de países mais
pobres. Através do SGP, alguns produtos, originários de pa-
íses menos desenvolvidos, recebem tratamento tarifário pre-
ferencial (por exemplo, tarifa de importação igual a zero) nos
mercados de países outorgantes. Entre estes países outorgantes
estão: EUA, União Europeia, Japão, Rússia, Suíça, Canadá,
Noruega, Nova Zelândia e Austrália. O Brasil é beneficiário
de todos eles, exceto Austrália. É importante notar que o SGP
é não-recíproco; isto é, os outorgantes concedem o privilégio
tarifário, sem, contudo, ter o mesmo tratamento em
contrapartida. As características do SGP, como quais países
serão beneficiados e que produtos terão redução de tarifas,
são uma decisão autônoma, e de caráter temporário, de cada
país outorgante.

144
Módulo 7

RESUMO

Nesta Unidade tivemos a oportunidade de discutir o pa-


pel das principais instituições internacionais e suas relações com
o comércio, com ênfase naquelas organizações multilaterais que
especificamente lidam com comércio: o GATT e a OMC. Além
disso, em termos conclusivos, tratamos da relação do comércio
com o desenvolvimento, destacando o processo de substituição
de importações e promoção de exportações. Por fim, foi evi-
denciada a importância do caráter empresarial em programas
de geração de emprego e renda voltados à exportação.

Bem, chegamos ao final desta empreitada. Comércio exte-


rior/economia internacional pode não ser o principal as-
sunto de seu curso, mas sem dúvida, qualquer que seja a
área de gestão em que você atue ou venha a atuar, alguma
relação com o mercado externo existe. Esta disciplina des-
tacou alguns aspectos importantes, como os ganhos incon-
dicionais do comércio para todos os países, a importante
estratégia de blocos regionais para o desenvolvimento e o
papel crucial da pesquisa de mercado para empresas que
iniciam o comércio exterior. Se você continuar estudando
comércio exterior ou se envolver profissionalmente com
assuntos relacionados, certamente alguns desses conteú-
dos poderão ser úteis.

145
Curso de Graduação em Administração a Distância

Atividades de aprendizagem

Com base em bibliografia especializada e também em matérias


jornalísticas, descreva por que a atual rodada de negociações multi-
laterais (chamada de Rodada de Doha) ainda não foi concluída.
Que impacto espera-se que terá o fechamento desta rodada sobre o
desenvolvimento das nações, no caso das principais reivindicações
dos países mais pobres serem atendidas?

146
Módulo 7

REFERÊNCIAS

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Lider, 2003.

148
Módulo 7

149
Curso de Graduação em Administração a Distância

Fernando Seabra

Graduado em Economia pela Universi-


dade Federal do Rio Grande do Sul (1982) ,
Mestre em Economia Rural pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (1985) , Doutor
em Economia pela University of Essex (1994)
e Pós-doutorado pela Mcgill University (2001). Atualmente é profes-
sor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e bolsista de
produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico. Possui experiência na área de Economia, com ênfase
em Economia Internacional.

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