A psicossomática: uma forma de forclusão

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A PSICOSSOMÁTICA: uma forma de forclusão

A primeira idéia que nos ocorre ao falar sobre somatização é pensar na diferença entre as neuroses transferenciais e as neuroses atuais, tais como teorizadas por Freud entre 1982 e 1985. Tal associação se justifica ainda mais quando se sabe que ao declínio do conceito de neurose atual nos quadros da nosografia contemporânea, corresponde igualmente a tendência a incluí-la no rol das concepções modernas a respeito das lesões psicossomáticas. Assim, pareceu-me apropriado começar este trabalho fazendo uma rápida exposição sobre o conceito de neurose atual tal como teorizado por Freud no início de suas investigações, incluindo aí tanto o aspecto etiológico quanto o mecanismo de sua própria constituição. Isto ensejará, moto continuo, o confronto com as neuroses transferenciais, cuja descrição psicodinâmica por si só ajudará a situar os pontos de diferença entre as duas formas. Numa segunda parte deste trabalho, tentarei expor as idéias de Lacan, partindo dos seus próprios textos, o que ensejará a problematização de alguns aspectos da questão, tanto no que concerne à teoria, quanto à clínica. Para isto me servirei igualmente da contribuição de alguns autores que, seguindo as pistas abertas por Lacan, têm procurado uma melhor compreensão do fenômeno psicossomático. Em 1895 Freud publica um artigo no qual, partindo de uma idéia comum na época, ele mostra que a neurastenia é o sinal de um esgotamento sexual resultante de uma atividade sexual anormal, caracterizando-se por uma astenia física e intelectual , sintomas dolorosos, distúrbios funcionais e depressão.Na verdade, corresponde ao que hoje chamamos de afecção psicossomática ou lesão de órgão.1 É daí que Freud extrai o que ele chama de neurose de angústia, cujo complexo sintomático se organiza basicamente em torno de um excesso de excitabilidade geral, de um quantum de angústia livremente flutuante sempre à procura de qualquer pretexto para uma fixação, e de acessos de angústia associados a um conteúdo representativo ou a algum distúrbio funcional. Vemos aqui também a aproximação com a psicossomática.2 Embora a sua especificidade em relação às outras formas de neurose apareça tanto neste artigo quanto em outros escritos ou publicações da época,3 é somente em 1898 que vemos aparecer o termo "neurose atual".4
comodidade de linguagem, usarei as expressões lesão de órgão e fenômeno[s] psicossomático[s], indistintamente, para nomear a afecção psicossomática. 2Cf. S. Freud, Uber die Berechtigung von der Neurasthenie einen Bestimmtem Symptomenkomplex als ÄngstNeurose" abzutrennen, 1894, G.W., I, p. 315-342. 3Cf. S. Freud, Manuscrit B e Manuscrit E, in La Naissance de la Psychanalyse, 1887-1902, Paris, PUf, 1956, p. 61-66 e 80-85; Zur Psychotherapie der Hysterie in Studien uber Hysterie, 1895, G.W., I, p. 255s. 4Cf. S. Freud, Die Sexualitat in der Atiologie der Neurosen, 1898, G.W. I, p. 491-516.
1Por

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Do ponto de vista etiológico e no que concerne ao seu mecanismo interno, a neurose atual tem a sua origem não em conflitos psíquicos, mas em acontecimentos do tempo presente. Isto é, seus sintomas resultam diretamente da ausência ou da inadequação da satisfação sexual atual, e não de eventos importantes da vida passada. Eles não são, portanto, nem uma expressão simbólica de um desejo recalcado, nem sobredeterminados por uma motivação inconsciente. Esta especificidade etiológica e patogênica já nos introduz na diferença entre este tipos de neurose e as psiconeuroses ou neuroses de transferência. É claro que a causa é sem dúvida de natureza sexual em ambos os casos, mas enquanto na neurose atual a causa deve ser buscada na desordens da vida sexual atual, nas psiconeuroses a origem está na vida passada. Por outro lado, enquanto na neurose atual a etiologia é de natureza somática, na histéria e na obsessão ela se encontra no domínio psíquico.5 Na neurose de angústia este fator somático seria a ausência de descarga da excitação sexual, enquanto na neurastenia seria sua satisfação inadequada (pela masturbação, por exemplo). O que se quer afirmar quando se diz que o mecanismo de formação dos sintomas, na neurose atual, é somático, é que existe uma inadequação entre a excitação sexual e a possibilidade de sua elaboração a nível psíquico.Em outras palavras, há uma ausência de mediação da representação, ausência de psiquização ou de simbolização da excitação somática. Portanto, o seu problema é o de uma ausência de simbolização ou mesmo de fantasmatização. Disto pode-se facilmente deduzir que esta teoria não é puramente fisiológica. Ou seja, não se trata apenas de um acúmulo de excitação e de uma concomitante descarga inadequada. É muito mais que isto. É que a excitação somática não encontra seu fiador no nível psíquico. Ao excesso de excitação corresponde um deficit de libido, entendida aqui como o elemento psíquico, isto é, as fantasias associadas à atividade sexual.6 Daí porque, mesmo para este tipo de neurose, não basta simplesmente uma terapêutica do atual, baseada na descarga orgásmica, como pretende a abordagem reichiana.7 Em todo caso, o fato dos sintomas não provirem de uma significação a ser elucidada, do conflito situar-se num nível

S. Freud, L'Hérédité et l'Étiologie des Névroses, loc. cit. Quanto ao conceito de libido é bom lembrar que, se por um lado ele implica, na obra de Freud, um aspecto econômico, susceptível de troca e transformação, de estase e escassez, por outro, implica também um aspecto qualitativo, que só existe em relação com representações, e que nada mais são senão o desejo. Esta é sua face psíquica, cuja insuficiência acarreta, de imediato, uma derivação da tensão no plano somático. 7 O termo elaboração implica a noção de um certo trabalho que se efetua sobre uma certa quantidade de excitação ou sobre a libido, e cuja característica é promover a ligação (Bindung) dessa energia. Ou seja, o trabalho consiste em ligar a energia indiferenciada a certos conteúdos, de modo a impedir o seu livre fluxo, de maneira mecânica. O seu correlato seria o desligamento (Entbindung) ou descarga, que consiste, pelo contrário, na liberação súbita de energia. Neste sentido, a angústia é um desligamento. A ligação, enquanto freio da energia psíquica, é feita mediante as representações ou quiçá, em nível menos elaborado, através de certas reações somáticas que assumem, em consequência, um valor significante. Além disso, a ligação implica também o fato de entre as representações, que por si só já constituem ligações, estabelecer-se toda uma rede de significações. Há, portanto, diferentes níveis de ligação e de elaboração. - Sobre isto, q.v. J. Laplanche, A Angústia, São Paulo, Martins Fontes Ed., 1987, p. 29-34.
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5Cf.

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exterior à própria neurose e ser incapaz de encontrar sua expressão simbólica, é isto que tornaria a terapêutica analítica inadequada ao tratamento das neuroses atuais.8 Ora, o que vamos encontrar no registro das psiconeuroses é exatamente o contrário do que acabamos de ver na neuroses atuais. Com efeito, as psiconeuroses têm a sua causa num evento passado, o impacto da realidade presente tendo ,antes de tudo, uma função de ressonância simbólica em relação a acontecimentos pretéritos. Por outro lado, nas psiconeuroses, o conflito é essencialmente interiorizado, situando-se no nível psíquico e implicando uma riqueza de vida fantasmática tributária do alto nível de simbolização dos seus elementos. Enfim, enquanto nas neuroses atuais a formação dos sintomas é somática, a excitação transformando-se diretamente em angústia ou derivando para certos aparelhos corporais, com pouca ou nenhuma psiquização, nas psiconeuroses a formação dos sintomas faz-se pela mediação simbólica, o que faz com que os mesmos tenham um sentido. Freud postula a existência de correspondências e entrelaçamentos entre esses dois grandes grupos de neuroses.9 Aqui, o que me interessa mais é o paralelismo existente entre a histeria de conversão e a lesão de órgão, pois nos dois casos se trata de somatização. Vejamos então o que acontece na conversão histérica. Para entender o mecanismo da conversão é preciso apelar para a distinção que Freud faz entre afeto e representação, enquanto representantes psíquicos da pulsão. A questão básica é saber o que acontece com estes representantes pulsionais quando do recalque.A resposta é simples: no recalque, a representação é separada do seu par, o afeto, que se torna então independente . Assim, enquanto o representante-representação é recalcado, o representante-afeto toma outro destino, que pode ser, eventualmente, o da conversão somática, que aparece como formação substituto e como sintoma.10 Como bem diz Freud: "Na histeria de conversão, o investimento pulsional da representação recalcada é transposta na inervação do sintoma".11 Vemos aqui, portanto, algo que inexiste no fenômeno psicossomático, cujo mecanismo obedece, como já vimos, a um modelo totalmente diferente. Além do mais, enquanto na psicossomatização a lesão de órgão acontece de fato no corpo orgânico, na conversão histérica não existe lesão real, e se existe ela desempenha uma função secundária, não sendo parte constituinte do quadro histérico, a não ser como suporte para aquilo que Freud chamou de "complacência somática". O corpo da histérica é assujeitado à sua função simbólica, é um corpo imaginário,12 erogeneizado e investido libidinalmente,inserido numa história e com possibilidade de subjetivação. No fenômeno psicossomático, pelo contrário, trata-se do puro corpo orgânico, dessexualizado, carente de representação e de simbolização, como se o órgão afetado não se articulasse a uma história pessoal e como se não fosse possível uma colocação do sujeito, - uma subjetivação -, a não ser localizando-se e particularizando-se no próprio órgão doente.
Cf. S. Freud, Zur Psychotherapie der Hysterie, loc.cit., p. 259 Sobre isto, q. v. J. Laplanche, op. cit., p.36s. 10 Cf. S. Freud, Die Verdrangung, 19l5, G.W. X, p.248-261; `Das Unbewusste, 1915, ib., p. 264-303. 11 Cfr. S. Freud, loc. cit., p. 284: "Bei der Konversionshysterie wird die Tribbesetzung der verdrangten Vorstellung in die Innervation des Symptoms umgesetzt". 12 Cf. S. Freud, Quelques considérations pour une étude comparative des paralysies motrices organiques et hystériques, 1893 [1888-1893], G.W., I, p. 39-55.
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O desconhecimento desta diferença explica porque certas abordagens da psicossomática estabelecem apenas um nível de correlação entre o corporal e o psíquico, sem atingir, no entanto, o reconhecimento de um esquema corporal orientado por funções simbólicas. Ou seja, não se diferencia o corpo anatömico da corporeidade libidinal.13 Como quer que seja, Freud reconhece que apesar das diferenças existe uma relação íntima entre a neurose de angústia e a histeria, considerando aquela como a vertente somática desta. Em ambas há um acúmulo de excitação e uma insuficiência psíquica responsável pelo surgimento dos processos somáticos anormais. Em ambas igualmente assiste-se a uma derivação da excitação a nível do somático, em vez de uma elaboração psíquica. A diferença é que a excitação, cujo deslocamento é a manifestação da neurose, é puramente somática na neurose de angústia, enquanto que na histeria ela é psíquica.14 Em suma, enquanto a histérica vivencia o drama de uma realidade traumática a nível fantasmático, recalcando a representação conflitiva e transpondo o afeto em inervação, tudo ocorrendo segundo uma ordem significante,o doente psicossomático, quase sempre confrontado ao drama real de uma perda ou separação, não consegue incluí-la numa cadeia simbólica, nem fazer seu trabalho de luto. O afeto é desconhecido pelo sujeito, é suprimido, impossibilitado de ser vivenciado ou transformado. Há como que um congelamento do trauma, que fica sem a montagem de uma história a ser lembrada, a ser contada. O problema é saber porque isto acontece. Já veremos como Lacan e seus seguidores abordam a questão. Antes seja dito que, apesar das dificuldades levantadas para um tratamento psicanalítico das afecções psicossomáticas, vários autores se preocuparam em dar conta psicanaliticamente das questões que estes fenômenos de borda colocam. São autores de orientações diferentes, mas que se acordam pelo menos em dois pontos: 1) à diferença do sintoma, nos fenômenos psicossomáticos há uma lesão de órgão; 2) tenha ou não um sentido - e aqui as discordâncias são grandes! - a lesão de órgão é passível de um tratamento psicanalítico.15 Vejamos então como a teoria lacaniana explica a lesão de órgão. A tese de Lacan, secundado pelos seus discípulos, é de que os fenômenos psicossomáticos se desenrolam segundo um duplo eixo: o do imaginário ou narcísico e o do
13Cf. A. Vallejo e Lígia C. Magalhães, Lacan. Operadores da Leitura (São Paulo: Ed. Perspectiva, 1981), p. 67. 14Cf . S. Freud, Neurasthenie und Angstneurose, 1895, G.W., I, p. 341s. 15 Segundo uma corrente que teve considerável sucesso sobretudo nos Estados Unidos ( G. GRODDECK, F. DUNBAR, F. ALEXANDER, A. GARMA), os fenômenos psicossomáticos têm sentido; já os chefes de fila da Escola Psicossomática da Sociedade Psicanalítica de Paris (R. HELD, P. MARTY, FAIN, G. de M"UZAN, C. DAVID) situam tais fenômenos fora do sentido, fora de toda simbolização. Há uma posição intermediária (!) segundo a qual os fenômenos psicossomáticos têm um sentido próximo ao da conversão histérica, "mas não totalmente" (J.P.VALABREGA). - Sobre isto, cf. Patrick Valas, "Horizontes da psicossomática", in Roger Wartel e outros, Psicossomática e Psicanálise, (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990) p. 69-86. Isto demonstra a grande "confusão " em que se move a teorização da psicossomática!

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simbólico. Em última análise, ele encontra a causa eficiente da lesão de órgão no mecanismo da forclusão. Dito isto, tentarei expor as implicações teórico-clínicas dessa tese, partindo dos textos do próprio Lacan e das interpretações aportadas pelos seus seguidores. I. Quanto ao eixo imaginário: Uma primeira aproximação do problema vamos encontrar no Lacan da fase do espelho. Apoiado ainda nesta teorização e no texto sobre a agressividade (1948), Lacan considerará o fenômeno psicossomático como uma variante da estagnação formal da relação do Eu à sua imagem, isto é, uma estagnação da libido. Assim, a hipertensão, v.g.,resultaria de uma inibição da agressividade, que seria justamente a resultante dessa estagnação. Mas é sobretudo no Seminário 2 (1954-55)16 que Lacan vai abordar de uma forma mais clara esta questão. Aí ele diz que os investimentos auto-eróticos desempenham um papel muito importante nos fenômenos psicossomáticos. Ele fala de "erotização" de tal ou qual órgão, afirmando que a distinção entre a neurose e o fenômeno psicossomático está marcada pela linha divisória do narcisismo. É claro que a neurose está sempre enquadrada pela estrutura narcísica. Mas, no caso dos fenômenos psicossomáticos o que os distingue deste enquadre neurótico é que aqui não se trata de uma relação de objeto, justamente porque em se tratando de investimentos auto-eróticos não podemos distinguir a fonte do objeto. Que se pense nos lábios que se beijam a si mesmos, onde a fonte e o objeto se confundem! Trata-se de um investimento sobre o próprio órgão e não sobre o objeto. Quando Lacan diz, neste Seminário, que "as relações psicossomáticas estão no nível do real", ele parece estar se referindo a este real do próprio corpo, do biológico. Em outras palavras, o que está em jogo é a questão da relação narcísica, imaginária, e de saber quais os órgãos envolvidos nesta relação. Hoje, a maior parte dos psicanalistas admitem que a lesão de órgão corresponde a uma satisfação de tipo auto-erótico que tem a ver com uma certa perturbação da identificação narcísica. Ainda em 1975, o próprio Lacan dirá que "o psicossomático é alguma coisa que afinal de contas é, em seu fundamento, profundamente enraizado no imaginário"17. Nasio, analisando esta dimensão imaginária do fenômeno psicossomático diz que há como que uma redução da realidade na lesão de órgão, com uma predominância da libido. A libido retorna ao Eu, mas de uma forma parcelar e plural 18. Há, secundariamente, uma exarcebação da libido, que faz com que sua invasão transforme o órgão lesado num amontoado de libido!19

J. Lacan, O Seminário, Livro 2,O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985), p.127. 17Cf. J. Lacan, “O sintoma” in Intervenciones y textos (Buenos Ayres: Manantial, 1988). 18Segundo o modelo apresentado por Freud para a paranoia em sua carta de 9.XII.1899 a Fliess, e não para um Eu total, conforme o modelo da paranoia em 1911 [caso Schreber]. Voltarei a este ponto mais adiante. 19Cf. J. Nasio, Psicossomática. As formações do objeto a (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993), p.121s.

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Lacan voltará à questão no Seminário 3 (1955-56)20, quando de um comentário a um caso de psicose, com sintomas hipocondríacos, apresentado por Ida Macalpine. Ele fala de "algo particular que está no fundo tanto da relação psicótica quanto dos fenômenos psicossomáticos". Mas, aqui Lacan ainda está tateando. Ao mesmo tempo em que diferencia os fenômenos psicossomáticos da neurose, chama-os de sintoma. Contudo, na medida em que os concebe como uma "ïnscrição direta de uma característica, e mesmo, em certos casos, de um conflito", sobre o ser corpóreo, parece indicar uma antecipação do que ele dirá vinte anos mais tarde, quando comparará a lesão de órgão a um hieróglifo. É interessante notar aqui a observação de Lacan sobre a mobilidade dessa "ïnscrição", que aparece, desaparece e muda de lugar em função de datas, sem dialética alguma e sem que nenhuma interpretação possa marcar alguma correspondência com algo que seja do passado do sujeito. Mas é no Seminário 11 (1964)21 que vamos encontrar as coordenadas de um avanço teórico talvez mais significativo. Nos capítulos XVI e XVII, em que trata das operações de causação sujeito, isto é, a alienação e a separação, Lacan diz que a psicossomática não é um significante, mas que mesmo assim ela só é concebível na medida em que a indução significante, ao nível do sujeito, se passa de maneira que não põe em jogo a afânise do sujeito. O sujeito aí não está em causa, portanto. E por que? Porque dá-se uma compactação, um engessamento, do par significante S1/S2. É o que ele chama de holófrase do par significante. Sabemos que a holófrase se define como uma frase inteira que é expressa por uma única palavra ou palavra frase. São expressões que não são decoponíveis e que dizem respeito a uma situação tomada no seu conjunto. Segundo Lacan , trata-se de algo em que o que é do registro da composição simbólica é definido na periferia.22 Pois bem, a holofraseação de S1/S2 implica na falta de articulação significante, e o sujeito cessa de ser representado para outro significante. Como um significante só toma sentido quando articulado a outro significante, no caso dos fenômenos psicossomáticos, onde um significante se aglutina ao outro significante, o resultado é o efeito patógeno sobre o corpo. Em consequência, também não há afânise do sujeito, o que faz com que, estritamente falando, não exista sujeito psicossomático particularizável segundo uma estrutura quadripartita.23 Isto significa, portanto, que os fenômenos psicossomáticos dão testemunho do fracasso da metáfora subjetiva que constitui o sujeito, e que, embora ligados a efeitos de linguagem, permanecem fora da subjetivação. Em outras palavras: não funcionando o vel da alienação, não há afânise, e não havendo afânise também não haverá separação. Deve-se concluir então pelo não aparecimento da falta que, via de regra, deve ocorrer no intervalo que liga o par significante.
J. Lacan, O Seminário, Livro 3, As Psicoses ( Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985), p.352. J. Lacan, O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanáli (Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1979) , p.215-216; 224-225. 22Cf. J. Lacan, O Seminário, Livro 1, Os escritos técnicos de Freud (Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1979), p. 257. 23Cf. J. Lacan, Écrits (Paris: Éd. du Seuil, 1966), p.774.
21Cf. 20Cf.

Isto significa dizer, então, que inexiste, neste caso, uma abertura para o campo do Outro, para o desejo? Jacques-Alain Miller diz que o fenômeno psicossomático não põe em

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questão o desejo do Outro, mas sim o contorna, na medida mesma em que contorna a estrutura da linguagem, nisto diferenciando-se da relação ao Outro constitutiva do sintoma histérico.24 Disto se deduz que há uma diferença entre o fenômeno psicossomático e o sintoma, pois este é uma formação do inconsciente, com estrutura de linguagem, que supõe uma substituição (metáfora), passível de deslocamento e de reformulação por efeito de uma interpretação,e onde a relação ao Outro é parte constitutiva. Uma outra consequência deste congelamento do par significante é a subversão da necessidade pelo desejo. Isto é: uma necessidade intervém na função do desejo, e é por isso que o elo do desejo é conservado, apesar de não haver afânise do sujeito. Lacan tenta explicar isto apelando para a experiência de Pavlov com o cão, onde o animal é solicitado por uma necessidade sob a pressão de significantes impostos pelo cientista.25 O animal não tem nenhuma noção do desejo do experimentador. Ele simplesmente responde aos estímulos através de uma função fisiológica implicada na necessidade. Mas assim fazendo, introduz o corte do desejo do Outro (no caso o experimentador) na necessidade. Assim também o psicossomático responde, dentro do campo da necessidade, a certos significantes que lhe são impostos. O asmático, por exemplo, tem sua necessidade de respirar perturbada pelo gozo enigmático do Outro, que lhe retorna no corpo sob a forma de angústia.26 Poder-se-ia, agora, perguntar sobre o porquê deste ataque à metáfora subjetiva. Qual o mecanismo indutor deste congelamento, desta holofraseação, da cadeia significante, responsável pela abolição do intervalo entre os significantes e dos mecanismos de causação do sujeito. Para responder a esta questão é preciso voltar-se agora para o eixo do simbólico. II. Quanto ao eixo simbólico: Se a holófrase se liga a uma situação limite, lá onde o sujeito está suspenso numa relação especular ao outro,27 o problema é saber porque isto acontece. Numa Conferência sobre o sintoma, pronunciada em 04 de outubro de 1975, Lacan se refere à psicossomática como um domínio mais que inexplorado, concebendo-o como pertencente à ordem da escrita: como se algo estivesse escrito no corpo,diz ele, algo que nos é dado como enigma. Utiliza ainda o termo "hieróglifo", e diz que o corpo é tomado como num cartucho, revelando o nome próprio.28 E prossegue dizendo que o fenômeno psicossomático tem a ver com um gozo específico e por esta via é que se deve abordá-lo clinicamente.

Jacques-Alain Miller, loc. cit., p. 88s. J. Lacan, Seminário 11, p. 215 e 224. 26Cf. P. Valas, loc. cit., p. 83. 27Cf. J. Guir, op. cit., p. 178. 28Cartucho: traços, de forma oval ou retangular, que envolviam os nomes dos Faraós, destacando-os do resto da escrita, e que ajudaram Champollion na decifração dos hieróglifos.
25Cf.

24Cf.

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Estas colocações de Lacan, tomadas no seu contexto histórico,29 permitem avançar sobre a elaboração teórica proposta no Seminário 11. Quando Lacan fala do fenômeno psicossomático como sendo algo da ordem da escrita, é de se perguntar o que é que aí se inscreve. Ora, quando ele se refere ao "cartucho" é como para dizer que aí se inscreve algo da ordem de um nome próprio, que por ser intraduzível está relacionado a uma marca. E mais: Lacan diz também que o fenômeno psicossomático escreve algo que é da ordem do número.30 Acontece que no seu Seminário 18 (1970-71) - De um discurso que não será semblante - ele afirma que o pai real é o que permite a numeração e introduz a nomeação, cabendo-lhe assim o lugar do número. Em outras palavras, é o pai que introduz uma ordem e que dá um nome. A questão que se põe então é a seguinte: seria o fenômeno psicossomático um dos nomes do Pai? Seria o caso de falarmos de uma suplência? Seria, ainda, como se o próprio sujeito se deixasse fazer um nome para si? Isto é, um nome que se faria sem o nome do Pai, tal qual Joyce que, segundo Lacan (Seminário Le sinthome, 1975-76), teria suprido essa carência (do Nome do Pai) dando-se um nome através de sua própria escrita? Assim, o indivíduo psicossomático, destituído de seu nome próprio, dar-se-ia a si mesmo uma filiação através de uma nova identidade corporal. Como se depreende facilmente, isto implica em dizer que houve aí uma florclusão do nome do Pai. O que nos conduz, então, a examinar a questão por este prima. Para isto, porém, é necessário abordarmos previamente a questão da função paterna. Sabemos que a importância da função paterna começa a ser gestada por Lacan no Seminário 3, As Psicoses, (1955-56), para revelar-se plenamente no Seminário 4, A relação de objeto, (1956-57), e no seu texto sobre o tratamento possível da psicose.31 A função paterna intevem justamente como elemento essencial na substituição de um significante por outro significante. É o pai que autoriza, por assim dizer, o sistema significante; é ele quem suporta a cadeia significante enquanto elemento e lugar exterior à cadeia. Esta é a condição de filiação ao nome do Pai. Esta função paterna se faz presente através da metáfora paterna, pela qual se dá a substituição significante, que possibilita ao sujeito o acesso ao próprio desejo, livrando-o da voracidade materna. Por outro lado, o inscreve na cadeia das gerações, conferindo-lhe um lugar e um nome, permitindo-lhe igualmente o reconhecimento da diferença dos sexos e a assunção de sua própria sexualidade mercê à dinâmica identificatória. O nome do Pai é, portanto, o grande conceito operador da castração e da própria constituição do sujeito enquanto ser de desejo, portador de um nome próprio. Ora, sabemos que Lacan, para explicar a psicose, introduz o conceito de forclusão, mecanismo que pretende dar conta, justamente, do não advento da metáfora paterna e de suas consequências adversas à ordem significante. A carência do nome do Pai e sua
Maria Anita C.R. Lima Silva, "O Fenômeno Psicossomático" in A Imagem Rainha (Rio de Janeiro: Liv. Sette Letras, 1995), p. 279. 30O cartucho psicossomático é "o ponto em que o corpo é levado a escrever alguma coisa da ordem do número". (Lacan, Conf. de Genebra). 31Cf. J. Lacan, Écrits, p. 531-583.
29Cf.

consequente forclusão seria assim o fator responsável pela organização da estrutura psicótica.

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Pois bem, este mesmo mecanismo explicativo da psicose, na teoria e na clínica lacaniana, é igualmente utilizado para explicar o fenômeno psicossomático. A forclusão do nome do Pai seria assim o mecanismo formador do fenômeno psicossomático, origem do congelamento significante que atrapalha o processo integral da operação de causação do sujeito. Neste sentido, é oportuno lembrar que o próprio Lacan, no seu Seminário 1132 considera como sendo da mesma ordem o que se passa na psicose e na lesão de órgão, a saber: a holofraseação da cadeia significante. Surge aqui uma primeira questão: se o mecanismo indutor da psicose é o mesmo que se encontra à raiz do fenômeno psicossomático, isto é, a foclusão, onde estaria então a diferença entre os dois? Haveria aí uma identidade de estrutura? Já vimos que Lacan os coloca numa mesma série, embora faça uma ressalva quanto à posição ocupada pelo sujeito, que não seria idêntica nos dois casos. O que aliás já coloca outro problema, pois se a holófrase elide a afânise, como falar aí de posição do sujeito? Como quer que seja, uma coisa é certa: os autores se acordam em afirmar um parentesco entre a psicose e os fenômenos psicossomáticos, devendo-se, portanto, investigar onde residem as diferenças, uma vez que parece estar no mecanismo da forclusão e no engessamento do par significante o seu ponto de aproximação. Isto nos leva, num primeiro momento, a questionar a extensão do conceito de forclusão e suas consequências, para ver até que ponto é plausível sua aplicação aos fenômenos psicossomáticos, sem que isto implique necessariamente numa redutibilidade à estrutura psicótica. A forclusão do nome do Pai, gestada, como dissemos, no Seminário 3 e nomeada explicitamente no texto sobre o tratamento da psicose33, reaparece ao longo dos escritos e do ensino de Lacan como um conceito equívoco, que se presta a mal-entendidos e ambiguidades, embora conserve sempre um lugar de destaque na teoria. Aparecendo ora como um simples termo, ora como conceito que vem substantivado em função de diferentes genitivos, 34 a forclusão conserva sua força como um operador eficiente para explicar a psicose mediante o seu caráter de potência ordenadora dessa estrutura. De quando em vez, porém, Lacan amplia a extensão do conceito, outorgando-lhe o estatuto de mecanismo estruturante na constitituição de todo e qualquer sujeito, como quando fala, por exemplo, de forclusão da castração. Por vezes, ainda, o utiliza sem nenhuma referência à causalidade da psicose, como, por exempo, no caso da forclusão do sentido orientada pelo real, que encontra na suplência do nome do Pai - caso particular das neuroses - a forma de compensar a ausência de sentido imposta pelo real.

J. Lacan, Seminário 11, p. 225. J. Lacan, Écrits, p. 558. 34Lacan fala, em diferentes momentos, de forclusão do nome do Pai, forclusão da Coisa, forclusão do sujeito, forclusão do dizer, forclusão da castração. - Sobre isto q.v. Neusa Santos Souza, "A Foraclusão, um caso de grandeza negativa" in Boletim de Novidades Pulsional, ano VII, número 59, março 1994, p.42-53.
33Cf.

32Cf.

Como quer que seja, a partir de Lacan a forclusão ficou conhecida sobretudo como o mecanismo específico à estrutura psicótica. Esta forclusão do nome do Pai é princípio da própria loucura, diz ele ainda em seu Seminário de 1974.35 A sua invenção foi amplamente

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divulgada através do aforismo, sua marca registrada: "o que não veio à luz no simbólico, ressurge no real".36 A amplitude do conceito mostra porém a plasticidade dos seus limites. Assim, todos os autores são unânimes em afirmar que o fato de a forclusão estar na origem dos fenômenos psicossomáticos não implica numa homogeneidade de estrutura com a psicose. Pelo que já vimos, a psicossomática nem sequer constitui uma estrutura. O que é necessário então é tentar apreender a especificidade da forclusão psicossomática, definindo a extensão do seu alcance. Digamos que os fenômenos psicossomáticos são manifestações especiais do simbólico, situadas nos limites da estrutura da linguagem, embora se coloquem dentro do campo da linguagem e obedeçam , no seu surgimento, a uma indução significante.São fenômenos de borda, para aquém das construções neuróticas e da psicose. Enquanto manifestação de uma ruptura específica da estrutura do nome próprio, eles representam a solução encontrada para um defeito de filiação simbólica. Jean Guir37 considera que nos fenômenos psicossomáticos não há forclusão, pois não se trata de um caso de psicose. Ele simplesmente diz que a metáfora paterna não funcionou para fazer o corte ente S1 e S2. Ora, mas este é justamente o problema que se procura resolver: por que não funcionou? Qual a causa eficiente da holófrase e do não advento da afânise do sujeito? Não basta dizer que não há forclusão porque senão seria uma psicose. Isto apenas elide o problema, confundindo o ataque à metáfora subjetiva, da ordem da causação do sujeito, com um ataque à metáfora paterna , que põe em questão o nome do Pai, como se esta decorresse daquela, quando parece ser o contrário.38 Parece-me que a exploração das possibilidades oferecidas pelo próprio conceito de forclusão, em sua relação com o nome do Pai, pode revelar-se mais fecunda na busca de uma resposta. Sabemos que Lacan, na reelaboração de sua teoria, passa do conceito de Nome-doPai, no singular - [Seminário 3, 1956-57]-, para o de Nomes-do-Pai, no plural - [Seminário 21, 1973-74 e Seminário 22, l974-75]. vindo assim a estender seu uso para além do domínio exclusivo da psicose, ao tempo em que admite a possibilidade de outros significantes virem a ocupar, a título de suplência, a mesma função. O caso Joyce, ao qual

J. Lacan, Seminário 21, Les non-dupes èrrent, 1974-75 (19.3.74) . Seminário inédito.Cit. ap. Neusa Santos, loc. cit., p. 44. 36Cf. Écrits, p.388; Seminário 3, p.22. 37Cf. Jean Guir, A Psicossomática na clínica lacaniana, p. 174. 38É bem verdade que em outro texto J. Guir afirma que "a metáfora paterna funciona em certos sítios do discurso e não em outros de forma descontínua" (o grifo é meu). In Wartel, op. cit., loc. cit., p. 48. Permanece o problema: é preciso saber porque ela não funciona. Aliás, esta afirmação de J. Guir, pese ele não apelar para a forclusão para explicar esta fenômeno de intermitência, o faz aproximar-se da posição de J. Nasio, para quem nos fenômenos psicossomáticos existe uma forclusão localizada, como mostrarei mais adiante.

35Cf.

já me referi, é apresentado como o protótipo de suplência da forclusão do nome do Pai por algo da ordem do sintoma: a escrita. O problema agora é como explicar de que forclusão se trata quando o psicossomático é levado a escrever no próprio corpo uma lesão que, como um nome, uma marca, desempenha o papel de suplência na falha da função paterna.

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Comumente se pensa a forclusão como a rejeição de um significante simbólico que reaparece no real . Considerando-se porém que o simbólico não é somente uma rede de unidades discretas ligadas entre si, mas que exige, como condição de possibilidade de sua consistência, a presença de um elemento fora da cadeia, funcionando como lugar do sucessor nesta cadeia, poder-se-ia dizer que a forclusão seria exatamente a falta deste elemento exterior. Isto não impede que a forclusão seja um mecanismo do domínio do simbólico.39 Este lugar exterior à cadeia é próprio ao nome do Pai, podendo ser ocupado por um significante qualquer. Nos fenômenos psicossomáticos, a forclusão do nome do Pai implica no não aparecimento deste significante exterior, havendo portanto a falta de um significante ao qual o sujeito possa se fixar, o que elimina a possibilidade da distância entre um significante e a cadeia na qual ele desaparece.Em outras palavras, o sujeito psicossomático não se afanisa porque não há distâncias entre o par significante. Assim, ele não desaparece. Ele é. Ele está todo na lesão, de forma compacta, local, parcial. Não há significante fálico que regule o gozo. O gozo dominante é um gozo local, auto-erótico. Isto se coaduna bem com a fenomenologia clínica, na qual o psicossomático parece condensar sua existência e sua fala em função de sua lesão. O seu discurso é pobre, opaco, e não raro marcado por holófrases. Desta forma, quando dizemos que nos fenômenos psicossomáticos há forclusão do nome do Pai, é como se disséssemos, parafraseando Lacan: o que não veio à luz no simbólico retorna no real sob a forma de uma lesão de órgão. O que não significa dizer que o psicossomático seja um psicótico. É que no seu caso a forclusão é localizada, refere-se a uma falta local, não excluindo, portanto, a existência de recalque. Por outro lado, considerar a forclusão como um mecanismo local equivale a dizer que o fenômeno psicossomático é uma realidade local, que pode conviver simultaneamente com outras realidades, sejam elas de tipo neurótico, psicótico ou perverso. Esta realidade local, que supre uma carência da função paterna, é induzida através de eventos de natureza traumática que funcionam, num primeiro momento, como um apelo circunstancial feito pelo desejo do Outro e, num segundo tempo, como conjunturas desencadeadoras da lesão de órgão. Do ponto de vista clínico, tais eventos traumáticos frequentemente têm a ver com datas e doenças ligadas a membros ou acontecimentos familiares. Ou seja, tal ou qual data serve de pretexto para o sujeito fazer uma lesão psicossomática, que repete e imita uma afecção de um certo membro da família,de preferência pais, avós ou cônjuge. Ou seja, numa mesma linha de filiação, a zona corporal remanejada pela lesão evoca mimeticamente, no mesmo lugar, um outro corpo com idêntica marca observável. Há como que um

39As considerações que seguem se apoiam no ponto de vista desenvolvido por J.-D. Nasio em seu livro Psicossomática. As formações do objeto a. (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edit., 1993).

deslocamento, uma errância, um enxerto do objeto "afecção" dentro de uma mesma descendência. A filiação de objeto substitui assim a filiação do nome do Pai. Ou seja, no lugar do Pai que falta aparece a lesão como uma nova versão do nome do Pai.

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Afirmei, há pouco, que o fenômeno psicossomático é uma realidade localizada, resultante de uma forclusão localizada. Para que se entenda melhor o alcance de tal afirmação é preciso tentar uma articulação entre o conceito lacaniano de forclusão e a teoria freudiana do auto-erotismo, o que permitirá apreender, pelo menos num primeiro nível, a diferença entre o fenômeno psicossomático e a psicose. Falar de forclusão do nome do Pai equivale a dizer que o gozo não é mais normatizado pelo falo. Em termos freudianos, diríamos que houve uma retirada de libido para o Eu. Na lesão de órgão, a retirada da libido para o Eu se faz em termos do que Lacan chamou de estagnação formal, referindo-se à agressividade intrínseca à fase especular. Pois bem, um retorno da libido para o Eu faz-se ao preço de uma identificação do objeto com o Eu, vale dizer, no caso do fenômeno psicossomático, do sujeito-Eu com o objeto-lesão, o excesso de gozo e o Eu constituindo uma única formação, uma lesão local. Temos aí um sujeito-lesão, a lesão sendo vista como um caso de auto-erotismo. Podemos dizer então que o fenômeno psicossomático é uma forma de auto-erotismo, momento em que a pulsão parcial obtém prazer sobre o próprio órgão, fonte e objeto da pulsão a um só tempo. A diferença com a paranóia é que nesta, dado o retorno da libido, a identificação se faz com todo o Eu, enquanto que no fenômeno psicossomático o processo é localizado em um determinado órgão. Em uma carta a Fliess, datada de 09.XI.1899 [carta 125], na qual trata do problema da escolha da neurose, Freud escreve:
"Entre as camadas sexuais, a mais profunda é a do autoerotismo, que não tem nenhuma meta psicossexual e não exige mais que uma sensação capaz de satisfazê-lo localmente. [o grifo é meu]... a paranóia desfaz as identificações, restaura as pessoas que foram amadas durante a infância (...) e cinde o eu em várias pessoas estranhas.[idem] Eis porque fui levado a considerar a paranóia como uma irrupção de uma corrente auto-erótica, como um retorno à situação de outrora".40

Portanto, a rejeição da representação inconciliável (= forclusão do nome do Pai) provoca uma perturbação da identificação, de tal forma que o Eu se ama em vários lugares diferentes e assim se divide em várias pessoas, em vários Eus, numa forma de satisfação auto-erótica. É como se neste retorno da libido ao auto-erotismo houvesse agora um Eu parcelar, plural. Um Eu estilhaçado! Em 1911, na análise do caso Schreber, Freud adotará um outro ponto de vista, segundo o qual na paranóia o Eu destaca a libido do objeto, fazendo-a retornar ao Eu. Mas agora é todo o Eu que é objeto de investimento libidinal.
40Cf. A correspondência completa de S. Freud para Wilhelm Fliess. Editado por Jeffrey Moussaieff Masson ( Rio de Janeiro,:Imago, 1986), p. 301.

Se tomarmos o primeiro modelo de análise, o de 1899, proposto na carta 125, ele pode nos servir de fundamento para a hipótese de um Eu parcelar nos fenômenos psicossomáticos (desde que mudemos a expressão "Eu parcelar" por "sujeito"). Isto é: nos fenômenos psicossomáticos haveria um retorno a uma situação de auto-erotismo, de tal forma que a posição do sujeito aí corresponderia a uma localização, a um Eu parcelar, suplementar, porém compacto, que nos permite falar em termos de "sujeito-lesão". A libido

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retorna ao Eu, mas de uma maneira parcelar e plural. Secundariamente, tem lugar uma exacerbação da libido, que termina por invadir e absorver o Eu e sua imagem.Tal exacerbação e tal invasão libidinal decorre da ruptura de tensão existente entre o Eu o sua imagem especular, ruptura resultante da forclusão do nome Pai, e da consequente não mais exclusão da libido, exclusão responsável pela manutenção da tensão entre o Eu e a imagem.41 Em suma, nos fenômenos psicossomáticos a forclusão do nome do Pai provoca uma ruptura da tensão libidinal entre o Eu e sua imagem, provocando a invasão da libido em diferentes lugares do corpo, que correspondem a Eus localizados, plurais, e que determinam diferentes posições do sujeito e uma forma específica de gozo. Esta maneira de compreender o fenômeno psicossomático permite definir melhor seus pontos de semelhança e de diferença em relação à psicose. Nesta, é todo o Eu que é investido; naquele, é o Eu parcelar, localizado, graças ao retorno ao auto-erotismo. Por outro lado, a semelhança entre os dois reside num igual grau de tenacidade no que concerne ao mecanismo da forclusão e ao recrudescimento narcísico. Portanto, a diferença reside na posição do sujeito, e a semelhança no estilo de relação concernente à forclusão e ao narcisismo.42 De tal modo que, assim como Freud disse que os paranóicos amam seu delírio como a si mesmos, nós poderíamos parafraseá-lo dizendo: os doentes psicossomáticos amam a sua lesão como a si mesmos! Desta forma, vimos como apesar da forclusão estar presente tanto na psicose quanto nos fenômenos psicossomáticos, ela não se efetua de forma unívoca. O que permite estabelecer uma diferença entre os dois. Isto decorre tanto das possibilidades abertas pela extensão imposta ao conceito pelo próprio Lacan, livrando-o assim das amarras exclusivas da psicose, quanto por uma análise mais exaustiva e pela sua articulação com o autoerotismo. Aqui os dois eixos se encontram: o do imaginário e o do simbólico. Lacan diz, porém, que é pela especifidade do seu gozo que se deve diferenciar o fenômeno psicossomático e abordá-lo na clínica.43 Que gozo é este? O que regula o gozo é o significante fálico.Falar em forclusão do nome do Pai é o mesmo que dizer que o gozo não é normatizado pelo falo, não é mantido à distância pelo desejo. Na psicose, a forclusão do nome do Pai e a consequente ausência de regulação fálica faz com que o sujeito seja dominado pelo gozo do Outro. É por isso que o gozo do psicótico fica à deriva. É um gozo de Deus.
isto q.v. no Esquema R, da constituição do sujeito, o triângulo imaginário. Écrits, p.553. parece se responder à questão levantada mais acima sobre as diferentes posições do sujeito, tais como preconizadas por Lacan no Seminário 11, p. 225. 43Ver a conferência de Genebra “O Sintoma”. Loc. cit.
42Assim 41Para

Já a lesão de órgão é uma maneira particular de gozar. Mas que espécie de gozo é este? Um gozo localizado no corpo mas deslocado das zonas erógenas típicas; um gozo sobre o corpo, sem a mediação da metáfora paterna. Na medida em que carece a função paterna e a incidência da lei que interdita, parece-me que não há como falar de gozo fálico. Seria então o gozo do corpo, enquanto inscrito entre o imaginário e o real, e portanto fora do sentido? Seria a materialização de um gozar de uma parte do corpo do outro?44 Seria um

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distúrbio do gozo ou a função do gozo estaria em falta, como opina Jean Guir?45 Estas questões e a variedade de respostas que se propõem mostram a complexidade do problema. Põe-se agora, para terminar, o problema do tratamento. Todos os autores são concordes em reconhecer a dificuldade do tratamento psicanalítico com pacientes psicossomáticos. Há até quem se pergunte se o fenômeno psicossomático não seria uma maneira de apostar no pior, e que o melhor seria não fazer nada, esperando que a cura venha com o tempo.46 Do ponto de vista estritamente psicanalítico, a lesão de órgão é um fenômeno que não remete a nada, fechando-se sobre si mesma, tal como uma holófrase. Ora, a interpretação é, pelo contrário, um corte que remete a outro significante, abrindo cadeias. Qual é então o lugar do analista frente ao paciente psicossomático? Dar um nome à lesão, diz J.-D. Nasio, dar-lhe uma história, restituir-lhe uma descendência, relançá-la para algo, afim de encontrar no lugar da lesão um sintoma novo.47 De fato, por não se tratar de um sintoma, de pouco adianta valer-se da interpretação, pois não somente ela não produz efeitos, mas pode mesmo ter resultados desastrosos. Por outro lado, o ataque à metáfora subjetiva, a forma específica de gozo, o elo do desejo pelo viés da necessidade, o auto-erotismo atípico e exacerbado, a posição muito particular do sujeito frente à sua lesão, tudo isto dificulta enormemente o manejo da transferência e a transformação, preconizada por alguns autores, do fenômeno psicossomático em sintoma. Jean Guir considera, apesar de tudo, que a persistência da afecção pode estar ligada à resistência do analista, que falha na condução do processo de castração simbólica a ser promovida na cura. Só que ele não mostra como fazer para conseguir tal intento, contentando-se em afirmar que, uma vez debelada a afecção, o analista dispõe de todos os elementos para terminar o tratamento.48 Seja como for, não é por ser difícil que deveremos recuar ante os problemas que a clínica dos fenômenos psicossomáticos nos coloca. Ao contrário. Uma posição ética exige

44Cf.

Jean Guir, A Psicossomática..., p.139; p. 184. p. 185. 46Patrick Valas, cit. ap. Maria Anita C.R. Lima Silva, op. cit., p.284. 47cf. J.-D. Nasio, op. cit., p.70:71 e 88. 48Cf. Jean Guir, A Psicossomática na clínica lacaniana, p. 172.
45Ib.,

do analista a coragem de, contra toda ilusão de certeza e contra o ceticismo da impotência, apostar no desafio do impossível.

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BIBLIOGRAFIA FREUD, Sigmund. Über die Berechtigung von der Neurasthenie einen Bestimmtem Symptomenkomplex als “Angst-Neurose”abzutrennen. G.W., I. - Studien über Hysterie. G.W. , I. - Die Sexualitat in der Atiologie der Neurosen. G.W., I. - La Naissance de la Psychanalyse. Paris, PUF, 1965. - L’Hérédité et l’Étiologie des Névroses. G.W., I. - Zur Psychotherapie der Hysterie. G.W., I. - Die Verdrängung. G.W., X. - Das Unbewusste. G.W., X. - Quelques considérations pur une étude comparative des paralysies motrices organiques et hystériques. G.W., I. - Neurasthenie und Angstneurose. G.W., I. - A correspondência completa de S. Freud para Wilhelm Fliess. Editado por Jeffrey Moussaief Masson. Rio de Janeiro: Imago, 1986. GUIR, Jean. A Psicossomática na clínica lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 2. O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. - “O Sintoma”. Intervenciones y textos. Buenos Ayres: Manantial, 1988. - O Seminário. Livro 3. As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

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- O Seminário. Livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1979. - O Seminário. Livro 1. Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1979. - Écrits. Paris: Éd. du Seuil, 1966. LAPLANCHE, Jean. A Angústia. São Paulo: Martins Fontes Ed., 1987. NASIO, J.D. Psicossomática. As formações do objeto a. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. SILVA, Mª Anita Lima. “O Fenômeno Psicossomático” in A Imagem Rainha. Rio de Janeiro: Liv. Sette Letras, 1995. SOUZA, Neusa Santos. “A Foraclusão, um caso de grandeza negativa” in Boletim de Novidades Pulsional, Ano VII, número 59, março 1994. VALLEJO A. e MAGALHÃES, L.C. Lacan. Operadores de Leitura. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1981. WARTEL, R. et alii. Psicossomática e Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990. . . . ....... UNITERMOS Psicossomática - Forclusão - Psicose - Neurose - Gozo.

RESUMO - Depois de uma rápida apresentação da teoria de Freud sobre as neuroses atuais,

comparando-as com as neuroses de transferência, o autor se propõe buscar uma compreensão dos fenômenos psicossomáticos à luz da teoria lacaniana. Para isto, expõe as diferentes passagens da obra de Lacan onde ele se refere ã psicossomática, ordenando-as segundo as categorias do imaginário e do simbólico. Finalmente, apoiando-se nos próprios textos de Lacan, o autor propõe o mecanismo da forclusão como hipótese explicativa para o fenômeno psicossomático.

UNITERMES - Psychosomatique - Forclusion - Psychose - Névrose - Jouissance.

SOMMAIRE - Après une présentation de la théorie de Freud sur les névroses actuelles, l’auteur cherche une compréhension des phénomènes psychosomatiques dans la théorie lacanianne. Ainsi,

A psicossomática: uma forma de forclusão 17 fait un parcours tout au long de l’oeuvre de Lacan, le mécanisme de la forclusion est proposé comme étant celui à l’oeuvre dans les phénomènes psychosomatiques.

Luís F. G. de Andrade. João Pessoa, novembro de 1995.

Este trabalho, com algumas modificações, foi apresentado na 2ª Jornada Norte Nordeste do Círculo Brasileiro de Psicanálise, realizada em Aracaju [Sergipe], de 15 a 18 de novembro de 1995.

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