Discurso do Doutor Honoris Causa, Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida

Primeiro de tudo, tenho de agradecer à Universidade de Aveiro esta completa surpresa. Foi-o, de facto, pois não a esperava de modo nenhum. Por isso agradeço do coração ao Magnífico Reitor, Professor Manuel Assunção que, ao dar-me a notícia, fez questão de me informar que, como meu amigo nunca se atreveria a propor o meu nome para um Honoris Causa devido precisamente ao facto de sermos amigos. Que a proposta partiu do Professor Júlio Pedrosa, a quem também agradeço vivamente, embora algo surpreendido – porque afinal nós também somos amigos. Devo fazer um breve parênteses para confessar que tenho seguido com interesse a evolução das universidades portuguesas, sobretudo das mais jovens, como é o caso da UA, e vinha a observar com imenso gosto o facto de o seu espírito aberto e inovador a colocar na vanguarda do que se vai fazendo em Portugal. Ultimamente, todavia, venho ouvindo de todos os lados queixas do recuo que neste momento ocorre e ameaça o futuro do sistema universitário português. Estava, porém, convencido de que Aveiro ia ser capaz de resistir. Ao ser-me anunciado este doutoramento Honoris Causa pensei: Afinal, até a Universidade de Aveiro … está a ir por água abaixo. * * * As instruções que recebi do Senhor Reitor foram para que falasse da minha visão do mundo, algo que sinceramente me deixa perplex e receoso.

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A Europa pode ter deixado de brilhar no noso horizonte colectivo, mas o que não pode deixar de continuar a nortear-nos são os valores que séculos de história europeia e ocidental nos moldaram, fazendo-nos sair de obscurantismos, de guerras fratricidas, de totalitarismos e da barbárie. Esses valores são os da modernidade, que vozes pessimistas contemporâneas julgam ultrapassados sem terem algo melhor a oferecer-nos como substituição.

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No universo cultural do Ocidente, a modernidade foi uma grande conquista adquirida ao longo de quatro séculos. Na sequência de golpes infligidos já no século XIX, não faltaram no século XX ataques que minaram os alicerces dessa mesma modernidade. As críticas vieram sobretudo das artes e pautaram-se por um registo essencialmente negativo. Com efeito, elas apontam especialmente para a desorientação, a desintegração do familiar, a perda da ordem, a incoerência, a fragmentação, a despoetização, o niilismo, a ausência de sentido, o vazio, a alienação, entre outras facetas. A arte foi, aliás, ao longo do século XX, uma espécie de ponta do iceberg a indiciar que, no fundo, o Titanic da modernidade ia esbarrar contra escolhos perigosíssimos, fatais mesmo.

Terá então passado o prazo de validade do projecto da mesma modernidade? Uma análise atenta do que esse projecto engloba será fundamental para compreendermos o que foi posto em causa e terá gerado a sua crise, bem como o que dele continua ainda válido. Impõe-se, portanto, uma serena análise de conceitos e um não menos sereno olhar panorâmico, de modo a permitirnos perspectivar as linhas de fundo e o rumo sugerido por pensadores que, alheios a modas e a rasgos publicitários, encaram com seriedade a reflexão sobre os fundamentos da ética, esse lugar onde assentam a política e o direito, de modo a podermos descortinar alguma luz na estrada, por vezes escura, onde todos caminhamos. Ao usar o termo “modernidade”, refiro-me a uma mundividência, ou visão do mundo, que engloba um conjunto de crenças e valores. Com efeito, a partir de determinada altura, nos finais do século XVIII, a modernidade aparece com manifestações diversas - sem sequer ser ainda reconhecida por esse nome – e em múltiplas formas no Ocidente, sobretudo na França, Alemanha e Inglaterra. É uma visão do mundo que se difunde, que galvaniza o Ocidente e vai mesmo para além dele, inspirando tanto a revolução francesa - que acima de tudo é uma epopeia contra a antiga mundividência herdada do mundo medieval - como a criação dos Estados Unidos, que são, no fundo, a primeira grande tentativa de materialização da utopia europeia da modernidade, chamemos-lhe assim. A modernidade é um termo relativamente recente para o que então se chamava iluminismo. É um substantivo genérico que congraça um conjunto de valores como a liberdade, a justiça, a igualdade, a tolerância, o progresso e a ciência. Nas últimas décadas a modernidade foi alvo de fortes críticas. Espalhou-se a convicção de que tínhamos entrado no período histórico da pós-modernidade, o que significava que o projecto da modernidade estava enterrado. Ele tinha gerado Gulags e Auchwitz. Mas esses críticos da modernidade cometeram uma falácia simples de se detectar o recurso a uma mera analogia: o cristianismo não deixa de ser válido como doutrina só porque existiu a Inquisição. Quer dizer portanto que, com a chamada pós-modernidade, o edifício da modernidade não se desmorona. Apenas nos força a apercebermo-nos de que os seus alicerces têm limites. Mas será melhor irmos por partes, analisando um por um os axiomas da modernidade postos em causa pela pós-modernidade: Em termos fundamentais, não mudou a atitude geral sobre a ciência. Cada vez mais desmembrada em novas sub-áreas, ela prossegue a sua busca de respostas sobre a constituição do universo. O saber ou o desejo/necessidade de o alcançar continua a não ser negado. Por todo o lado poderíamos traduzir o discurso político, desde o de Obama ao de qualquer português

ministro da Educação, nesse conceito chave de Francis Bacon: “conhecer é poder”. Os países desenvolvidos não rejeitaram nem substituiram as suas crenças na ciência e na tecnologia; aperceberam-se simplesmente de que os recursos naturais têm limites e o seu uso pode levar ao abuso e redundar em prejuízo dos próprios interesses humanos. As legítimas preocupações com a poluição, a clonagem, a contaminação do ambiente, as experiências com animais nos laboratórios, etc. etc, não constituem argumento contra a ciência e a tecnologia, são antes obstáculos pontuais que levantam sérias questões sobre abusos. Vejamos, porém, o que acontece em relação à liberdade. Ela continua a ser um ideal que se quer intocável, e uma considerável falange da humanidade exige mais atenção dos poderes a esse outro ideal, o da igualdade. A democracia, por mais defeitos que lhe queiramos pôr, continua a ser um ideal a atingir-se e a nortear-nos. Como regime político, ela continua a não ser posta em causa e os arautos da pós-modernidade também não o têm feito. O que acontece actualmente é uma crescente tomada de consciência da dificuldade de harmonizar entre si os princípios de justiça e liberdade. Temos plena consciência de que a justiça não é mais do que a tentativa, sempre imperfeita, de se conseguir uma regulamentação equitativa das liberdades individuais. Quer dizer, os valores da liberdade e da justiça continuam perfeitamente válidos, embora hoje tenhamos uma visão muito menos naïve sobre as forças que interferem nos processos de concretização e harmonização, sempre potencialmente geradores de conflitos. O século passado foi testemunha (e parece que este novo milénio continuará a sê-lo também) de tragédias resultantes da prossecução desses dois valores fundacionais. O valor do progresso tem sido o mais veementemente atacado, sem no entanto ter sido contradito com com qualquer argumento válido. Com efeito, se é verdade que a ideia de história em contínuo crescimento é hoje encarada como uma utopia, os movimentos feminista, gay, verde, anti-racista, anti-colonialista, e tantos outros, prosseguem na sua confiança quase ilimitada na possibilidade de progressivamente alcançarmos objectivos pré-traçados. A pós-modernidade tem entusiastas entre muitos membros desses grupos. A educação, por exemplo, continua a ser um dos grandes objectivos das sociedades ocidentais, e não conheço pós-modernistas que duvidem da necessidade de se manter aceso esse interesse por ela. Pugnam, sim, por tipos de educação diferentes da institucional. Mas acreditam nela, no progresso e na perfectibilidade dos seres humanos. De onde, pois, os abalos provocados pela pós-modernidade? Poupar-vos-ei aqui a uma longa resposta. Apontarei apenas o impacto causado pelo reconhecimento de que nenhum dos valores da modernidade pode ser absoluto, porque eles entram em conflito entre si. Basta lembrarmo-nos das lutas em torno da primazia da liberdade ou

da justiça que estão na base da ainda recente Guerra Fria entre o Ocidente liberal e o mundo socialista. Esta e outras constatações contribuiram para a instauração generalizada do síndroma de que a ética agora é outra, ou de que já mesmo não existe. Ou que, se existe, é a de cada um fazer o que melhor lhe aprouver. Nos países modernos a transição tem vindo a acontecer mais lentamente, permitindo a prevalência de normas sólidas, aos poucos inseridas na legislação e implementadas pelos tribunais, que as reajustam a novas situações. Entre nós, tudo ocorreu muito rapidamente entre o abandono de um muito tardio Antigo Regime aliado à Contra-Reforma, como foi o salazarismo, e o pós-25 de Abril - desvanecido que foi o idealismo socialista trazido pela Revolução dos Cravos. Aconteceu logo de seguida a entrada na Europa, acompanhada de todas as mordomias concedidas aos neófitos do Sul para compensá-los do seu secular atraso, e de repente gerou-se entre nós a ilusão de que conseguiríamos comprimir quatro séculos em poucas décadas. Instalou-se no nosso imaginário colectivo, sobretudo entre os jovens formados nesse período de enormes e rápidas transformações sociais e culturais, a noção de que nos tínhamos tornado europeus e modernos afinal sem ter sido preciso lutar por isso, como fizeram os outros. Em

países como o nosso, que tiveram de dar saltos históricos e de ser ajudados financeiramente para poderem entrar na divisão da frente, vulgarizou-se a ideia de que o passado estava passado e entraríamos agora numa nova ordem onde o Estado Social nos garantiria a existência por mero direito adquirido, enquanto a nós só competiria gozar, usufruir desse novo estatuto, inclusive com aposentações aos cinquenta anos, de modo a podermos gozar a vida ao máximo. (Os bancos ajudaram a cimentar essa ideia com o crédito fácil!) Assim, quem precisava mais de estudar, de trabalhar, de se aperfeiçoar, de se ajustar profissionalmente aos novos tempos se a Constituição a priori garantia tudo? Era como se cada português, por mera sorte tivesse casado com uma viúva rica, a Europa, e o seu novo estatuto lhe permitisse a partir de então limitar-se a gozar os rendimentos. O problema pôe-se mais agudamente para as gerações mais novas, habituadas apenas ao novo estilo de vida. Para elas (ou pelo menos para uma parte delas), as regras do jogo haviam mudado completamente. Na pós-modernidade os ideais passavam a ser outros e a própria ética também. Na verdade, os mentores deste imaginário são em grande parte apenas gente com voz nos média, figuras da TV e das artes do espectáculo que nos deixam ao frio (sem razões positivas para o que quer que seja, a não ser a defesa dos pequenos interesses de cada qual), sem se aperceberem de que afinal atiraram fora o bebé juntamente com a água do banho. Com efeito, o paradigma da apregoada pós-modernidade, em que supostamente vivemos, não só não acarreta inevitavelmente consigo o derrube das razões da modernidade, como não deve sequer procurar fazê-lo, sob risco de se destruir importantes conquistas alcançadas ao longo de séculos.

Que conclusões práticas - ou pragmáticas, se quiserem - extrair do que atrás fica dito? Primeiro: Que, mau grado os abusos e erros de algumas posições teóricas e práticas dos construtores da modernidade, nós hoje interiorizámos mais profundamente do que nunca o núcleo duro dos valores da mesma modernidade: a liberdade e a justiça acima de tudo, com a democracia como seu garante, seguidas da crença no progresso, isto é, na importância da ciência e da tecnologia. Temos, é certo, a consciência de que esses valores só são absolutos em teoria e que, na prática, a dificuldade está em harmonizá-los devidamente – (os brasileiros dizem: na prática, a teoria é outra!). Segundo: O facto de isso ser um bico de obra e de exigir lutas constantes não diminui em nada a nossa crença nesses pressupostos como ideais, por vezes inconscientes, das nossas atitudes colectivas no Ocidente de hoje. Acredito que este aspecto é fundamental: as dificuldades em concretizarmos os ideais da modernidade não legitimam a sua rejeição pois, no que a cada um de nós concerna, deles nunca abrimos mão quando se trata de defender os nossos particulares direitos. Ora num paradigma como o nosso em que a religião recuou para a esfera individual (e, recordo, falo aqui em termos europeus), o diálogo e a negociação colectiva não podem recuar perante a evidência de que os direitos dos outros não são diferentes dos meus. Logo aí se inicia o processo de busca do equilíbrio entre as minhas liberdades e as liberdades dos outros. Equidade, fairness (em inglês), ou justiça como equilíbrio ideal entre liberdades individuais são tudo termos e expressões linguísticas que captam e condensam o resultado de uma longa caminhada humana de busca de uma fundamentação racional para o nosso viver em sociedade, remontando a Confúcio com a sua Regra de Ouro que o Antigo Testamento também integrou. Afinal, toda a história da Ética tem sido um infindável percurso de aperfeiçoamento dessa concepção, ao longo dos séculos. Por mais disputada que ela seja, a grande questão não está em serem os princípios da justiça e da liberdade as escolhas fundamentais e últimas dos seres humanos, mas a de saber qual a prioridade entre os dois. Sem que nenhum deles per se seja tampouco discutível. Tenho plena consciência de que a construção de um ideal não implica de modo nenhum que ele seja posto em prática, mas a verdade é que, sem aquele, não se ultrapassará nunca o ponto de partida. O marxismo apontava ideais. O seu erro, porém, foi fazer-nos crer que a sua utopia era não só alcançável mas inevitável por ser científica. Os ideais da modernidade não se pretendem científicos; eles são uma construção negociada e esforçada de vários milénios e são, feliz ou infelizmente, o melhor que até este momento se conseguiu. Apesar de todas as suas limitações e dificuldades de serem postos em prática, são a única esperança que nos pode fazer elevar um

pouco o espírito acima do cinismo céptico e ameaçador dos que, advogando a deserção, inerentemente fomentam a predominância do status quo e do lado negro do mundo. Na década de 80, o romancista Almeida Faria publicou um romance intitulado Lusitânia. Fundamentalmente uma troca de correspondência entre dois portugueses, um deles a residir em Itália. Há uma carta enviada de Portugal, datada de 25 de Abril de 1974, em que o subscrevente informa o familiar em Itália de que naquele mesmo dia lhe falecera o pai. Curiosa, muito curiosa mesmo, essa intuitiva criação do escritor. Obviamente freudiana, trata-se de uma alusão ao desaparecimento da figura paterna como símbolo da autoridade seguradora dos valores do passado. Com o 25 de Abril foram quatrocentos anos de peso sobre a história portuguesa que desapareceram, e a euforia da festa não nos permitiu divisarmos (pelo menos colectivamente) a noção de que, quando os nossos pais morrem, quem fica com a responsabilidade sobre os ombros somos nós. Chegou-se a pensar que ela nem era necessária. As gerações novas cresceram num outro paradigma onde as liberdades individuais são um dado adquirido e as conquistas sociais são também de geração espontânea emergindo como se de direito. A nossa temporária sorte portuguesa foi a autoridade, o novo pai (ou talvez padrinho) – e reporto-me ao romance Lusitânia) - nos ter vindo da Europa, melhor, da União Europeia. Embarcámos nela como se para uma nova India, e acreditámos que tínhamos entrado na modernidade sem passar, repito, pelas etapas duras que permitiram a construção dessa mesma modernidade nos países do Centro e Norte da Europa e nos Estados Unidos – tendo este último país sido afinal – repito de novo - a primeira grande tentativa mundial de se pôr em prática a ideia europeia de modernidade. Agora a Europa do Centro e do Norte reconhece não poder estender ilimitadamente os benefícios da chamada solidariedade e procura reajustar-se, e até reconstruir-se, respondendo a desafios que lhe ameaçam as estruturas mais profundas, essas mesmo que foram sendo construídas ao longo de séculos. Essa novel situação força-a a deixar um pouco de lado aqueles a quem deu as mãos nos últimos vinte anos, ao abrigo da ideia da consertação e coesão sociais. Sentimo-nos de novo sem pais e impelidos a acusar os governantes de nos terem dado a impressão de que éramos europeus e modernos de direito e para sempre. Não, não o fomos senão por empréstimo, porque a modernidade constrói-se lenta e progressivamente, nunca com a rapidez que supusémos quando as bolsas da Europa se nos abriam naturalmente que não por causa dos nossos olhos bonitos mas pelos seus próprios interesses, facto que nos foi cómodo ignorar. Os nossos emigrantes sabem bem quanto custou, e continua a custar, apressar o passo para acompanhá-la nos países de acolhimento no Centro e Norte da Europa ou nos EUA, onde por sinal estão tantos emigrantes desta Região.

Não quero vir aumentar a dose de pessimismo português. (Conhecem a do pessimista que dizia que isto está tão mau, tão mau que não pode ficar pior; ao que o optimista respondeu: Ai pode, pode!) Há que nos compenetrarmos de que os avanços que conseguimos até aqui, em tão pouco tempo, foram – muitos deles - conquistas que nos chegaram, em certa medida, gratuitamente. Teremos de nos capacitar de que no mundo considerado moderno, lá fora, continuam a imperar as antigas regras de convivialidade cívica que levaram à modernidade. Mais, as velhas regras da ética humana herdadas dos gregos e aperfeiçoadas ao longo dos séculos permanecem. Elas não foram assassinadas com a morte do pai no 25 de Abril. A morte desse pai abriu-nos a porta para nos juntarmos aos que iam à nossa frente. Mas as regras que acompanham o dia a dia deles prevalecem e vão perdurar. O facilitismo, o chico-espertismo, o arrivismo, o imediatismo, o tudoserve e tudo vale não conduzem a nada a não ser a ilusões de percurso que nos acalentam por uns tempos. Só depois, ao acordarmos, nos damos conta de termos estado patinando sempre no mesmo lugar.

Há tempos, numa viagem de Paris para Lisboa, viajei ao lado de um iraniano a fazer doutoramento em Informática na Universidade de Ottawa, no Canadá. Vinha a Portugal pela primeira vez, a um congresso, e tinha perguntas sem fim. Falou-me do Irão e do Canadá, da dureza do trabalho na sua universidade, mas quis saber de Portugal. Interessava-se por poesia e ouvira falar de Fernando Pessoa. Desenhei-lhe num mapa como chegar ao Chiado e à Brasileira. Inscrevi nele o Largo de Camões como referência e o iraniano-canadiano quis saber quem era Camões. Outro poeta. Sim, Portugal é um país de poetas. E lá tive de falar dele e de “Os Lusíadas”, de como Camões arranjou uma forma engenhosa de pôr Vasco da Gama a narrar em verso ao rei de Melinde a história de Portugal, em resposta à sua vontade de saber de onde vinham aquelas naus cheias de gente estranha em cata de canela. Tudo isso expliquei ao Ali, mas evitei falar-lhe do pessimismo de Camões no final do seu poema, e da sua vida, ao ver que Portugal se deixava apanhar nas malhas de antigos vícios, numa “apagada e vil tristeza”. E também não o farei aqui. Basta desse derrotismo que sempre nos corroeu. Temos tanto de invejável em Portugal que muitas vezes nem disso tomamos consciência. Há que nos capacitarmos disto. Mas cabe-nos igualmente tomar consciência da dimensão imensa das realidades que nos rodeiam e do mundo em que estamos inseridos. Cabe-nos deixar de acreditar que os governos é que têm, exclusivamente, as soluções dos nossos problemass em suas mãos. É verdade que as pessoas acabam por crer no que lhes é dito nas campanhas eleitorais. Mas

deveriam ser mais capazes de discernir por si que o seu voto não é uma entrega cega nas mãos dos líderes, nem estes são os responsáveis por nós e pelos nossos destinos. Não estou aqui a desculpabilizar os governantes, mas numa democracia activa os cidadãos não alienam nos governos as suas próprias obrigações, antes estão vigilantes e são intervenientes, porque a sua acção continua necessária no dia a dia, até mesmo nas pequenas coisas pois são elas que constroem ou permitem as grandes. Quer dizer, o nosso voto não implica um desfazermo-nos da nossa responsabilidade individual em todo o processo cívico. Em relação ao nosso pessimimo atávico, só sairemos dele se nos empenharmos verdadeiramente nesse esforço individual. Fernando Pessoa viu isso há um século e concebeu uma engenhosíssima forma para o país sair do marasmo e do fatalismo derrotista. O seu famoso livro Mensagem era apenas a parte mais visível, de apelo junto das massas, de um plano bem complexo e, por sinal, altamente inteligente. Pessoa queria pôr o país a olhar para o futuro e não para o passado. Aliás, quando se fala de identidades culturais, - e aqui de propósito eu procurei não falar delas pois já o tenho feito muitas vezes noutros lugares – a conversação dinâmica, capaz de produzir frutos não é a que se concentra no passado, naquilo que fomos, mas a que se reporta ao futuro, e foca aquilo que queremos e podemos ser. Os EUA deveriam ser um modelo para a Europa no que à conversação sobre identidade diz respeito. Lá ela centra-se no futuro, nos ideais colectivos que a sociedade quer para si e pretende pôr em prática, através de políticas colectivas e intervenções individuais.. Não nos podemos fixar morbidamente nos passados de cada país porque eles são uma história de divisões e guerras. Não que se deva ignorá-los, mas é preciso fazer esses mesmos países, as colectividades culturais que compõem a Europa, concentrarem-se nos ideais que os devem nortear, dar rumo colectivo à União e levá-los a agir em conformidade. A Europa ainda não conseguiu um projecto melhor do que o da modernidade. E se isso é verdade para a Europa é ainda muito mais verdade para Portugal. A experiência do orgulhosamente sós não é convidativa a repetições. Esse projecto da modernidade não virou obsoleto, como aliás tão bem prenunciou o grande Antero de Quental ao identificar há quase um século e meio os males da pátria e ao sugerir pistas para a sua irradicação. O seu projecto continua actualíssimo e nada tem a ver com facilitismo, com golpes de esperteza, nem com ultrapassagens das regras elementares da ética, tão sabiamente elaboradas ao longo de séculos. Muito menos com o seu fácil abandono por parte dos que se quiseram europeus enquanto da nascente jorravam subsídios, mas já querem regressar não sei aonde, desde que as águas do manancial amansaram e ameaçam ficar num fio. Repito o meu ponto de vista (não se esqueçam que o que me foi pedido foi que falasse sobre a minha visão do mundo) de termos apenas a modernidade como projecto que nos pode

salvar da barbárie. Se, no cristianismo, a promessa de salvação veio gratuitamente, no nosso futuro ocidental ela virá com custos e só se todos nos empenharmos e fizermos como aqueles que, com o seu avanço sobre nós, nos proporcionaram anos de vacas gordas, como os últimos vinte anos que nos aconteceram quase de mão beijada. Não temos que deixar de ser o que fomos, pelo menos no seu essencial. Mas teremos de recuperar algumas das nossas virtudes esquecidas, entre as que julgávamos obsoletas ou desnecessárias no futuro em que leviana e ingenuamente muitos de nós acreditámos. Os europeus e norte-americanos poderão querer vir ter connosco para reencontrarem aqui um Museu do Passado, mas nós temos de olhar para eles como um figurino do futuro, de preferência sem jogar fora tanto do que em oitocentos anos soubemos criar e fazer parte da nossa maneira de estar. Os benefícios serão sobretudo nossos. * * *

São adversas hoje as circunstâncias que oprimem e deprimem os portugueses. É fundamental ter na adversidade a atitude de nos agarrarmos aos elementos positivos que encontramos nas nossas vidas e à nossa volta. E, se não os encontramos, há que inventá-los. Mas em Portugal não é preciso inventar razões para apreciarmos o que cá temos. Porque, de facto, há muita, muita coisa boa em Portugal. Não querendo fazer como um amigo meu (depois de viver vinte e sete anos em Los Angeles ia regressar aos Açores e hesitava confessando-me: Eu falo muito mal disto mas Los Angeles tem muita coisa boa. Por acaso agora não me lembro de nenhuma!), direi antes: a verdade é que, às vezes, é preciso lembrar aos de dentro as coisas boas que cá têm. E mandar bugiar os nossos vizinhos espanhóis que andam a gozar connosco espalhando maldosamente na Internet a notícia de que o Governo português vai proibir o fado. Sim, proibir o fado. Imaginem porquê: por ser demasiado alegre para os tempos que correm. Termino mesmo. Prometo. Passou o tempo das ingenuidades e das esperanças vãs. As últimas décadas devem ter-nos ensinado que não há almoços gratuitos. Na verdade, ninguém fará nada por nós, seremos nós a ter de fazê-lo. A verdade é que o nosso futuro depende do nosso empenhamento nele e ele não poderá não ser encarado senão em colectivo. Se algo desapareceu no mundo contemporâneo foi o isolamento. Para bem ou para mal, estamos todos entrelaçados. Se muito não depende de nós, não queiramos alienar-nos do que ainda nos resta e nos pertence: a nossa dignidade que não deve nunca deixar-nos resignar às vontades e ordens dos outros. Para alguma coisa nos há-de servir a doce liberdade.

E aqui ficam estes laivos da minha visão do mundo. Espero só que não me rcomendem lunetas para que possa enxergá-lo melhor.

Onésimo Teotónio Almeida

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