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“LUCILIA GUIMARÃES VILLA-LOBOS(1894-1966) HISTÓRIA DE VIDA DE UMA MULHER MUSICISTA E ARTISTA E SEU TRABALHO SILENCIOSO

JUNTO AO MESTRE VILLA-LOBOS”

MARISTELA BARROS PINTO

RESUMO: Esta pesquisa procura situar o lugar, as condições e as representações da mulher na historiografia. Poucos biógrafos sobre Villa-Lobos assinalam a importância de sua primeira esposa lucília no acabamento estético de suas primeiras composições apresentadas em 1915. O musicista naquela época devido á falta da educação clássica apresentava grandes dificuldades no ordenamento das notas nas partituras. A Liberdade harmônica e rítmica vinda da “livre” formação do compositor aliaram-se ao rigor da formação da esposa, que além de dar suporte estético às composições, era considerada uma excelente intérprete. Pretendemos percorrer a trajetória dessa mulher, artista, esposa e companheira de composições de Villa-Lobos, para que sua memória e sua importância na história social, cultural e da música brasileira sejam conhecidas pelo estudiosos e público em geral. Caminhos que passam por Paraíba do Sul.

“LUCILIA GUIMARÃES VILLA-LOBOS(1894-1966) HISTORY`S LIFE OF THIS MUSICIST AND ARTIST WOMAN AND HER SILENT WORK NEAR THE MÁSTERVILLA-LOBOS” MARISTELA BARROS PINTO

ABSTRACT: This research seeks to situate our place, conditions and representations of women in history and search resignified the role of women who have been subjected to a lot of time in history.

Mestranda pela Universidade Severino Sombra- Vassouras/ RJ, Prof.ª Orientadora Drª Ana Maria Dietrich

Lucilia Villa Lobos. woman artist. A free harmonic and rhythmic performance comming from a “free” formation of a composer. known by the scholarly and public em general. PALAVRAS CHAVE: Memórias.. Ways 2 . was considered an excellent interpreter. wife and partner to include Villa-Lobos memory and its importance in the social history . História. alloy to the accuracy of the education of his wife. The musicist at that time due to lack of classical scholarship exhibit great difficulties of the ordainment in the notes of a music partitures.Few biographers of Villa-Lobos Mark the importance of his first wife Lucilia on the esthetic complement of his first compositions included em 1915. We intend to roam the track of this. cultural and makes the brazilian music that pass thru Paraíba do Sul. that besides give suporte aesthetic included.

mulher. de uma reescrita dolorosa do real (que é vivido como trauma). enxergá-la como artista. Por experimentarmos uma historiografia que prima por reformulações e questionamentos. sujeitando-se ao protagonista e agente da história: o homem. enfim. é que se torna possível este projeto. piano e canto coral pelo Instituto Nacional de Música. Formada em solfejo. não tem projeto de vida próprio. mas também. conforme seu depoimento publicado no livro do irmão. Simone de Beauvoir. e seu trabalho silencioso junto ao mestre e seu marido. 44) Parafraseando Lucien Febvre. atuando a serviço do patriarcado.a cultura do sufocamento e da natureza. que objetiva pesquisar e analisar a presença da mulher Lucília Guimarães Villa-Lobos na vida e na obra de seu marido Heitor Villa-Lobos. remota à cultura grega. o simbólico.“Não se pode ocultar a luz de uma estrela” “A maneira androcêntrica de identificar a humanidade e de fazer as mulheres seres menores. se deu em 1912. argumenta que a mulher ao viver em função do outro. que através de uma análise crítica.para quem o conhecimento histórico deve ter como referência “os homens nunca o Homem” . em sua pioneira obra.não se admira as lacunas discriminatórias em que a historiografia colocou a mulher de maneira geral.p. em um procedimento de rupturas e adequações frente a sua realidade e a interdisciplinaridade com outras ciências.13) “A linguagem escrita nasce de um vazio . era profunda conhecedora da música erudita. encontremos a figura da mulher na história para que a mesma seja retratada e inserida contextualmente.p.” (COLLING: 2004. Luís Guimarães (1972): 3 . a meio passo das crianças. “O segundo sexo”.” (SELIGMANN-SILVA: 1999. O primeiro contato de Villa-Lobos com Lucília Guimarães. Torna-se importantíssimo através de recursos metodológicos. é muito antiga. de abordagens humanas e sociais.

cuja execução me pareceu ter impressionado bem na técnica e na interpretação. Lucília conviveu 22 anos com o compositor. Villa-Lobos.. Caminhos que “passam” pela cidade de Paraíba do Sul. O musicista naquela época devido á falta da educação clássica apresentava grandes dificuldades no ordenamento das notas nas partituras. A música desde muito cedo sempre dirigiu seus sentimentos e gestos. iniciou os seus estudos de piano com sua própria mãe e continuou com a professora D. vencendo como que uma depressão. para se fazer ouvir em violoncelo. sendo-lhe uma esposa devotada e grande auxiliar. extremamente agradável e. Poucos biógrafos sobre Villa-Lobos assinalam a importância de sua primeira esposa no acabamento estético de suas primeiras composições apresentadas em 1915. Subitamente. porém se sentiu constrangido. filha primogênita do casal José Guimarães e Laudelina Pita de Oliveira Guimarães. (GUIMARÃES : 1972. talvez mesmo inferiorizado. regente de coral e compositora. Pode-se dizer que influenciou muito seu marido. e toquei. de música de verdade. pois naquela época o violão não era um instrumento de salão. especialmente ao ensinar-lhe piano. e sim instrumento vulgar de chorões e seresteiros. Pianista. que além de dar suporte estético às composições. era considerada uma excelente intérprete. o motivo era que iríamos ouvir um rapaz que tocava muito bem violão.(. Villa-Lobos. Carolina Vieira Machado Coelho. Pretendemos percorrer a trajetória dessa mulher. estado do Rio de Janeiro. para nós foi um sucesso o violão nas mãos de Villa-Lobos. A Liberdade harmônica e rítmica vinda da “livre” formação do compositor aliaram-se ao rigor da formação da esposa.) A noitada de música correu muito bem. no Rio de 4 . declarou que seu verdadeiro instrumento era o violoncelo. para que sua memória e sua importância na história social. de numerosa família. esposa e companheira de composições de Villa-Lobos. cultural e da música brasileira sejam conhecidas pelo estudiosos e público em geral.. Terminando sua exibição. Arthur Alves. e que fazia questão de combinar uma reunião em nossa casa. alguns números de Chopin.223) Casaram-se em 12 de novembro de 1913. na cidade de Paraíba do Sul.Foi no dia de todos os santos (01/11/1912) que recebemos a visita de Villa-Lobos trazido por um amigo de meus pais. a seguir. artista. Entrou a seguir para o Instituto Nacional de Música. manifestou desejo de ouvir a pianista. Nascida em 26 de maio de 1894.

para a realização dos seus principais projetos educacionais no campo musical.. em Paraíba do Sul. Através da história oral .) “ se constitui num encontro com sujeitos da história. dos sujeitos envolvidos no período de nosso recorte temporal. Lá funciona um pequeno museu de todo o trabalho artístico desenvolvido e criado por ela que é uma figura ímpar e profunda conhecedora de música. Até hoje são oferecidos. Juntos. e pode contribuir para reformular o eterno problema da pertinência so-cial da história e também do lugar e do papel do historiador na cidade : por isso mesmo ela pode representar para a história. tendo como mestres: Arnaud Gouveia (teoria). Viveu para a música e envelheceu sem perder o vigor artístico que a fazia transformar pessoas pouco experientes em vozes de grupos de canto orfeônico. Daí partiu a idéia de se realizar uma investigação da história de vida desta mulher e uma análise e problematização em sua trajetória histórica e as repercussões de seu trabalho na vida e obra de seu marido: Heitor Villa-Lobos. professora e incentivadora do canto coral. Através das 5 . de cultura e de sociedade. baseado em gravações de dois recitais do supracitado “Orfeão”. que buscou o apoio do Estado. enquanto mulher naquele período histórico. Lucília Villa-Lobos. As fontes orais nos permitem compreender a percepção de mundo. adotou uma postura de agente da história juntamente com Villa-Lobos. no qual ainda não tinha nem os seus direitos políticos garantidos. cursos de piano e música na sua residência que é mantida intacta pelos herdeiros. um trabalho resultante de grande esforço da maestrina com a comunidade sul-paraibana e que se perpetuou em um disco LP. Esta pesquisa está sendo realizada dentro dos limites da história oral que segundo FERREIRA E AMADO: (. Apesar de sua profissionalização precoce no Rio de Janeiro. na mencionada cidade. desenvolveram o projeto de ensino do canto orfeônico nas escolas. e fizeram parte de uma geração de intelectuais.. sob a regência da maestrina Lucília Guimarães Villa-Lobos. podemos construir e transmitir um modo de entender o passado. Ângelo França (harmonia) e Elvira Belo (piano).Janeiro. A sua última criação foi “O Orfeão”. como disciplina. sempre se preocupou com a educação da arte musical em sua terra natal: Paraíba do Sul. uma chance que não se deve subestimar”.

segundo nos diz PRINS: “As fontes orais corrigem as outras perspectivas. tocando até mesmo na célebre Sala Gaveau. conseguiram. 6 . e de como essas mulheres mesmo cerceadas pelos estreitos limites que a sociedade da época lhes impunha. Lá. assim como as outras perspectivas se corrigem”. divulgou a música do maestro. auxiliar na manutenção de sua família. a pesquisa pretende então investigar as inter-relações entre memória e história. alcançando absoluto sucesso. Desse modo. ela conseguiu produzir e difundir sua arte. mas com peculiaridades inerentes ao sexo feminino e como responsável em traçar seu próprio destino. de alguma forma. O tema central do presente projeto é a representação da mulher na época vivida pela musicista. Cumpre ressaltar que Lucília viveu num passado histórico de exclusão e segregação da mulher. tentarei examinar todo o percurso artístico percorrido por Lucília Guimarães Villa-Lobos ao lado de seu marido Villa-Lobos e valorizar o papel dessa mulher numa época tão contraditória aos direitos femininos. na cidade de Paraíba do Sul e no mundo. Dessa forma. conseguindo através dela. não tomou posse por ter viajado com o marido para Paris. irei utilizar as expressões. e assim. Para isto. Este anteprojeto faz parte da linha de pesquisa da “História Cultural: Este anteprojeto faz parte da linha de pesquisa da “História Cultural: expressões. para os quais existiam duas espécies: o homem. e a mulher. Crepresentações e discursos”. utilizando a história oral e obras que permitam avaliar elementos que tenciono analisar. Naquele contexto. vimos surgir novas possibilidades para a pesquisa que estabelecem uma relação de contribuição mútua nas diversas metodologias. ao lado de seu marido Heitor Villa-Lobos. Refiro-me aqui aos padrões científicos vigentes no século XIX. objetivando uma percepção sobre um passado recente. ser irracional e sentimental. Aprovada no concurso para professor de Música da Escola Normal. dotado de cérebro e razão. focalizando a ação desta mulher Lucília Villa-Lobos.entrevistas podemos observar as recorrências entre os sujeitos analisados. totalmente desfavorável. quebrar os estereótipos vigentes. ela representa uma mulher não mais como um ser passivo. Sendo assim.

Depois disso. a altura e a intensidade. Segundo Ducorneau (1984). tanto Lucília quanto Villa-Lobos. enfatizando a biografia de Lucília Guimarães Villa-Lobos. Será fundamental abordar a mulher como agente social. estará em posição de escuta. numa situação não apenas como subjugada. A música quando bem trabalhada desenvolve o raciocínio. característica da época vivida. já vislumbravam a importância da Música no processo ensino-aprendizagem.discursos e novas linguagens da História Cultural. em toda a rede de ensino básico até agosto de 2011. a qual muitas vezes é cantada pela mãe ao dormir. Sendo assim. pois a criança desde pequena já ouve música. será uma tentativa de reparação de sua desvalorização na história que. mesmo tardiamente. define que a música é um importante fator na aprendizagem. Faria (2001). mas como parte de uma comunidade que foi construindo sua história em meio a forças políticas e sociais que não lhes deram “espaço” para expressão. podemos contribuir para preencher uma parte das lacunas que existem na historiografia brasileira quanto à história de Lucília Guimarães Villa-Lobos. com a aprovação do decreto 3. deve ser consumado. através de um trabalho biográfico. primeiramente. em Paraíba do Sul e no mundo. tendo apresentado projeto educacional ao Estado. Como também. sua resignação ao marido.551 de 4 de agosto de 2000. paralelamente. consiste em permitir que ela faça experiências sonoras. com as qualidades do som como: o timbre. “que instituiu o inventário e o registro do denominado ‘patrimônio imaterial ou intangível’”. Naquela época. O tema é importante. “momento fértil” para o Patrimônio Cultural Brasileiro. sua aplicação e seus benefícios para o desenvolvimento global do educando.769 torna obrigatória a disciplina Música. no momento em que a lei nº 11. criatividade em outros dons e aptidões. o primeiro passo para que a criança comece a escutar bem. 7 . Quanto ao reconhecimento da musicista Lucília Guimarães Villa-Lobos e todo o seu trabalho artístico e educacional. que represente esta mulher à frente de seu tempo em relação ao seu profissionalismo e. para a compreensão do processo de discriminação e desvalorização da mulher na história. O tema a ser pesquisado tem o objetivo de divulgar a memória de Lucília Guimarães Villa-Lobos.

e os “mestres dos mestres” da Música. A mulher que atuou de forma a desenvolver a cultura musical brasileira através de suas composições e. O valor da História Oral consiste em que “[. reelabora-los para multiplicar sua transmissão. como forma de se aproximar do objeto de estudo” (MEIHY. regional e brasileira.. que consiste em direcioná-la para um tema específico.. Acredito que este projeto irá subsidiar o conhecimento científico já existente em relação à história oral e o estudo da história da mulher através dos conceitos e teses da História Cultural. refere-se à estéril discussão de credibilidade ou não da fonte oral enquanto documentação histórica. seguimos as afirmações de Aspásia Camargo: “[.] a história oral é legítima como fonte porque não induz a mais erros do que outras fontes documentais” (CAMARGO. ampliar a compreensão da história local. agindo sobre as emoções. com o efeito do som sobre as células e órgãos. Outro aspecto a observar. partindo de sua cidade natal para o mundo. citado anteriormente. 8 .A música afeta de duas maneiras distintas no corpo do indivíduo: diretamente. a história dessa educadora e musicista. ou seja. ou testemunharam. Portanto. Deveremos então. e indiretamente. que influenciam numerosos processos corporais.. pela influência artística decisiva na obra do grande mestre Villa-Lobos. acontecimentos.. por tratar-se de trabalhos reconhecidos de Lucília e Villa-Lobos tão importantes para a nossa cultura. possibilitando ao entrevistado uma dinâmica mais espontânea de exposição. Assim. por meio de documentos históricos sob a guarda do Museu Villa Lobos e de entrevistas com conhecidos e parentes da artista. a divulgação do projeto artístico da musicista Lucília Villa-Lobos. visando manter viva a expressão musical tão fundamental na formação do ser humano. visões de mundo. É neste limite que se dá o trabalho do historiador. Foi utilizada a entrevista temática de final aberto. mas encaminhá-la para um final aberto. respaldado com a nova lei. Neste sentido. poderá fortalecer a instituição e valorização da música erudita por aqueles que a conhecerem. conjunturas. 1996). já que Lucília e Villa-Lobos são considerados os precursores do projeto educacional. 1995: 10). o documento oral é portador de subjetividade tanto quanto o escrito.] privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de. permitindo também. este trabalho pretende reelaborar. principalmente.

Esta corrente “[.. de suas 4 vidas diárias. Não se desconhece. Através dos depoimentos desses "arquivos vivos" localizados no contemporâneo do processo histórico. próprio do fazer histórico na sociedade.. Além do respeito às entrevistados. dar a devida importância aos mesmos.. 1978: 316). encontraria em cada indivíduo um processo interior semelhante (passado. presente e futuro) através da memória e das (MONTENEGRO. através de entrevistas. ao resgatar o passado (campo também da memória). como observa Antônio Torres Montenegro: [. se são distintos. Afinal. em parte. tendo especial interesse em dar voz àqueles que nunca tiveram vez na historiografia. Os depoimentos serão transcritos com a maior fidelidade possível.] a manutenção do discurso tal qual proferido é mais um dado para apreender o clima da entrevista e as especificidades dos estilos de cada entrevistado” (ALBERTI. a época na qual está inserida e a necessidade de legar testemunhos vitais. Este operar.A História Oral manifesta uma profunda preocupação com a reconstrução da memória dos esquecidos. “Os critérios que norteiam1 a seleção documental são definidos historicamente. aponta para formas de explicação do presente e projeta o futuro.] o vivido que guardamos em nossas lembranças e que circunscreve ou funda o campo da memória se distingue da história. Entretanto. Os documentos não eliminados são aqueles que se configuram como essências para a compreensão da própria sociedade (LOPEZ. Memória que poderá fornecer informações para a compreensão de seu cotidiano manifestações de resistência. a existência de distinções entre memória e história. informam sobre a entidade. 1990: 1-2). compreendemos a história como uma construção que. pois as mulheres muitas vezes têm acesso a documentos que evidenciam a ação ativa das mesmas na história sem. buscamos desencadear o processo de memória reavivivada.. haverá reconstrução. arriscaríamos afirmar também que são inseparáveis. tal como observa Verena Alberti “[.. Neste sentido. Esta observação é pertinente. Nessa pesquisa há a preocupação de inter-relacionar as informações contidas nos depoimentos com os documentos escritos..] não se limita a querer atuar com rapidez de reflexos. Neste caso. A matéria desta pesquisa insere-se também naquilo que os historiadores vêem chamando de História Imediata ou História do Tempo Presente. Afinal. Constituem-se de elementos qualificadores da cultura política. 1992: 17). 1996: 24). no entanto. no caso os conteúdos ministrados. contudo. é preciso ter cuidado para não fazer generalizações 9 . quer construir-se a partir de arquivos vivos que são os homens” (LACOUTRE.

Assim.sem base nem tomar como fatos o que são apenas indícios.1 Contrapomos a expressão “norteiam” com a correspondente “suleiam”. no espaço de “poder”. Não apenas analisando a mulher em funções secundárias. no espaço político. mas observando-a dentro do seu papel social. como forma de dizer não ao império dos USA. como lembra Michelle Perrot (1998: 167). Apesar dessa observação. tendências ou possibilidades. a ação das mesmas na história. procuramos fundamentar nosso trabalho na historiografia sobre a mulher. ou seja. 1 10 . consideramos as práticas de ensino que demonstrem o papel ativo das mulheres na história uma forma de resistência e luta por direitos. como paradigma imposto ao Sul. estudar a questão das mulheres como “personagens silenciadas” é uma tentativa de reconhecer a mulher na história como ser humano que deveria estar em igualdade de condições materiais e jurídicas com os homens. de decisão. um tema historiográfico e socialmente significativo. mesmo nos limites que ficaram evidentes ao longo da pesquisa. A partir deste foco de pesquisa. de modo a merecer o melhor de nosso esforço para desenvolvê-lo. significando a valorização do hemisfério sul da Terra.

religiosa. e nesta. Elas são o poder que se oculta por detrás do trono e. Sai da história escondida na esfera privada para o espaço público. tanto na família como nas relações de negócios. dos anos de 1830. Perrot. ativa e resistente. sua trajetória marcada pelas diferenças. Como diz M. ele tem uma conotação política e designa basicamente a figura central. como muitos outros. No plural ele se estilhaça em fragmentos múltiplos. oprimida e humilhada. história não somente como realidade material. é um termo polissêmico. justificando. as historiadoras têm buscado é superar uma história sem qualidade. portanto. pela de uma ‘mulher popular e rebelde’. guardiã das subsistências. com mais propriedade. equivalente a ‘influências’ difusas e periféricas. usurpando papéis masculinos” (SOIHET. racial. Mas existe espaço da mulher na história. a partir do estudo das temáticas e dos grupos sociais. gozam incontestavelmente de uma consideração maior que as inglesas (PERROT.É neste contexto que Perrot afirma em sua obra “Os excluídos da história” (PERROT. 1998: 167): As relações das mulheres com o poder inscrevem-se primeiramente no jogo de palavras. Soihet que destaca a diversidade de condições da mulher. étnica. 1998: 168). Diz: Segundo um viajante inglês. 1997: 275). onde as mulheres têm a sua grande parcela. Esta questão do mando. E o estudo da história das mulheres situa-se no contexto da História Cultural. Na realidade o que os historiadores e. de fato. como a social. que comumente se supõe masculina. de forma intrincada. E é Michelle Perrot que nos mostra o que vai aos bastidores da história masculina. No singular. ‘Poder’. na sociedade francesa do século XIX. 11 . do poder masculino é assunto para a seqüência. Por hora nos atemos ao fio condutor destas referências. no tecido social. cardeal do Estado. 1997: 275). Cabe a nós desfazê-lo para que possamos entender a demanda por um lugar ao sol ou o reconhecimento por equivalência na relação de gêneros. a “história das mulheres” (SOIHET. fazendo parte do conjunto do poder. onde as mulheres são tratadas como objeto e sujeito da história. mas também enquanto elaboração (memória) do desenrolar da vida humana sobre a terra? É R. ‘embora juridicamente as mulheres ocupem uma posição em muito inferior aos homens. negligenciada e negligenciável. à medida “em que a mulher aspire à atuação no âmbito público. O nó está construído. se “quis substituir a representação dominante de uma dona de casa insignificante. ainda que não aparente. elas constituem na prática o sexo superior.

Em sua obra. segundo Perrot. nos EUA. cidadã e agente de sua própria história. Por seu turno. Reconhece que é preciso corrigir esta deficiência. 1998). boletins e revistas dedicadas à temática das mulheres. O que. 1998: 175). na questão de relação de gênero. 12 . segundo os marxistas. 1997: 276). Lembrando que “a emergência da história das mulheres como um campo de estudo não só acompanhou as campanhas feministas para a melhoria das condições profissionais. “Homem e mulher: imagens da esquerda”.administradora do orçamento familiar. XIX e início do séc. a partir das universidades em sintonia com os movimentos sociais. na busca de libertação da cultura machista e da igualdade de direitos. XX . na França. em consonância com o contexto de organização e luta mundial da mulher. 1998: 143).em que a mulher não foi respeitada como pessoa. discutimos elementos históricos do processo de emancipação da mulher. que “ignoraram grosseiramente a outra metade feminina da raça humana”. através de cursos. Os historiadores têm diversas análises para o fato das mulheres permanecerem silenciadas ao longo da história. aliás. vê a solução para esta contradição secundária com o fim da contradição principal e com “a instauração da sociedade sem classes com a mudança do modo de produção” (SOIHET. Dessa forma. Um fator decisivo para a emergência da História das Mulheres foi o movimento feminista que acontece a partir dos anos 60. resta saber o que elas reivindicam. E que teria sido com o matriarcado que elas teriam instituído o direito como forma de protegerem-se da “lubricidade dos homens” (PERROT. inclusive os marxistas. Alguns afirmam a existência de matriarcados que teriam desaparecido. ainda o marxismo. citado por Perrot (1998: 173). pesquisas. Hobsbawm começa salientado o descontentamento das mulheres em relação ao trabalho dos historiadores. dada a busca de análise do poder das mulheres. e nos anos 70. E a partir deste poder reconhecido das mulheres. como envolveu a expansão dos limites da história! Nossa proposta básica consiste em apresentar uma realidade – séc. dentre outros. segundo Engels. 1998: 172). com surgimento da propriedade privada e com o casamento burguês monogâmico. mas sem criar “um ramo especializado da história que trate exclusivamente das mulheres. porque na sociedade humana os dois sexos são inseparáveis” (HOBSBAWM. no centro do espaço urbano” (PERROT. “é também um jogo de poder” (PERROT.

pois tornará as mulheres visíveis como participantes ativas e estabelecerá uma distância analítica entre a linguagem aparentemente fixada do passado e nossa própria terminologia. Os músicos modernistas que participaram da Semana foram: Villa-Lobos. D’Ambrosio.Esse “registro” comprova a participação da musicista na história cultural de nosso país. não estaremos utilizando a expressão “História Cultural” para nos referir a esta ou àquela corrente historiográfica mais recente (a “Nova História Cultural” francesa. Por exemplo: por que (e desde quando) as mulheres são invisíveis como sujeitos históricos. “não se limita a analisar apenas a produção cultural. quando sabemos que elas participaram dos grandes e pequenos eventos da história humana? A exploração dessas perguntas fará construir uma história que oferecerá novas perspectivas a velhas questões. José D’Assunção Barros. daí as dificuldades de inter-relação na sociedade. persistiu incansavelmente na sua precípua tarefa de ensinar música. Participou. mas sim a toda a historiografia que se tem voltado para o estudo da dimensão cultural de uma determinada sociedade historicamente localizada. com quem fazia suas composições e interpretações além dos projetos educacionais que realizaram juntos. será necessário um questionamento na história sobre a questão de gênero. por exemplo).com/saiba_mais/fatos_histórico s/brasil_américa/semana_de_artemoderna. Participava ativamente de todos os movimentos ligados a ela.encontrando-se numa liberdade cerceada sem o devido reconhecimento de sua importância como sujeito histórico. literária e artística oficialmente reconhecidas”. Sugere que o gênero seja redefinido e reestruturado. Lucília Villa-Lobos. Neste sentido. Ernani Braga. apostando nas idéias de Villa-Lobos. inclusive. BRASIL – A Semana de Arte Moderna. Fato de grande relevância e registrado nos jornais da época e. Frutuoso Viana. Segundo Joan Scott.passeiweb. 13 . em seu livro: O Campo da História. além de outros que pretendemos divulgar. apresentaremos recortes do passado de Lucília com dados positivos sobre a sua vida cotidiana. mostrando que mesmo com todas as adversidades que enfrentava por ser mulher. nos fala que a História Cultural analisada como uma história da cultura. Guiomar Novaes. também no site: www. da Semana de Arte Moderna (1922). Sendo assim.

conseguiremos analisar as interações dos mesmos com o ambiente social em que viveram e suas manifestações e discursos. tornando-o mais explícito. analisar uma questão dentro de uma sociedade. que segundo Gil (1991) é aquela “desenvolvida a partir de material já elaborado. em suas realizações particulares. um acervo de realizações materiais. constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Primeiramente. Delineava-se a idéia de que havia um patrimônio cultural a ser preservado e que incluía não apenas a história. A pesquisa exploratória também fará parte de nosso trabalho. realizaremos. 14 . crenças. que não se pode fragmentar. Para isso. ao preservar fatos. Sendo assim. Sempre considerou o homem inserido na sociedade. além da pesquisa documental. 2003) Concordando com as idéias acima.chamou a atenção para o fato de que o relacionamento entre as culturas seria a forma mais positiva de atualizar o ideário da igualdade dos homens. enfim. no Rio de Janeiro. o modo de vida e as experiências dos sujeitos históricos a serem pesquisados. Segundo Vygotsky: “o contexto cultural é o palco das principais transformações e evoluções. será necessário contextualizar. No caso em questão. do bebê humano ao idoso”. da vida em sociedade. O teórico pretendia uma abordagem que buscasse a síntese do homem como ser biológico. A noção de cultura incluía hábitos. Após o levantamento deste material passaremos à sua leitura. e imateriais. iremos proceder à identificação e delimitação do assunto. tradições. em suas mais diversas expressões. a partir de um estudo sistematizado e contextualizado da época vivida por Villa-Lobos e Lucília. em Paraíba do Sul e no museu Villa-Lobos. uma pesquisa bibliográfica. continuaremos analisando os periódicos que se encontram na “casa-museu” de dona Lucília Guimarães Villa-Lobos. O antropólogo Claude Lévi-Strauss. e sim globalizar. histórico e social.Então. (ABREU. para que possamos realizar uma posterior identificação das fontes disponíveis. a fim de que sejam descartados trabalhos não relevantes e feitas anotações temáticas que servirão como subsídio para a discussão a ser apresentada. estaremos contribuindo para apresentá-los como verdadeiros “tesouros humanos” culturais. pois ela visa prover o pesquisador de maior conhecimento sobre o tema proposto. costumes.

assim como o livro: “ Villa-Lobos visto na platéia e na intimidade” . de Maurice Halbwachs. de Henri Bérgson. “Tempo passado”. questionamentos e técnicas foram transmitidos à historiografia. de Denis de Rougemont. 168-169). “Sete lições sobre linguagem. através da biografia. de Michel Foucault. p. “História da Sexualidade”. o esquecimento”. “Mulheres de Papel”. de Eloá Jacobina e Maria Helena Kühner. de Ruth Silviano Brandão. memória. obras como: “A memória. Sobre os estudos de memória. “Mulher. Badinter. Acerca dos estudos sobre a mulher e sobre a representação do feminino nas artes. história e representação da mulher. de Nicolau Sevecenko. bem como de outras que possam conter pontos de contato com a discussão do papel da mulher aqui levantada. “Matéria e memória”. ( LEVI.Para a conclusão do trabalho. “História das Mulheres no Brasil”. serão realizadas pesquisas acerca de obras selecionadas. Levi. entre outros. 15 . Será utilizada também a História oral com base nas entrevistas a pessoas da comunidade sul-paraibana. memória e história”. “História e memória”. escrito por seu irmão Luís Guimarães e colaboradores. “O amor e o ocidente”. gênero e sociedade”. 1989. de Rose Marie Muraro e Andréa Puppin. de Beatriz Sarlo. de Luís Felipe Ribeiro. a maioria das questões de metodologia da história diz respeito à biografia. É de fundamental importância a leitura para que se possa tecer uma análise crítica do processo da construção do novo perfil feminino. “Feminino/Masculino no imaginário de diferentes épocas”. de Jaques Le Goff. “Sexualidades ocidentais e História social da criança e da família”. jornais da época e revistas como fonte documental. Segundo G. de E. pontuando relações entre literatura. de Phelipp Áries e André Bejin. “Um amor conquistado: o mito do amor materno”. como os problemas de escala de análise. de Jeane Marie Gagnebin. a história. os limites entre liberdade e racionalidade e ainda das relações entre regras e práticas sociais e que. de Paul Ricoeur. serão utilizados como uma primeira base para aprofundarmos estas questões. “História da Vida Privada Nº 3”. lançaremos mão dos estudos das obras: “Mulher ao pé da letra”. entre outros. que servirão de apoio no estudo para a profundamento da análise. de Mary Del Priori. assim como parentes da musicista acerca dos trabalhos realizados pela mesma. “A memória coletiva”.

7 de dezembro de 1978 ( Carlos Drummond de Andrade) -ARQUIVO CAPANEMA 16 .REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FONTES PRIMÁRIAS DOCUMENTOS MANUSCRITOS -“Casa-museu” deixada por Lucília Guimarães Villa-Lobos 1894-1966 Guia Prático em 6 volumes para educação musical Cópia do Projeto Educacional encampado por Gustavo Campanema no governo Getúlio Vargas Fotografias dos diversos eventos musicais participados por Lucília e Villa-Lobos.Museu Villa-Lobos . Hino à Paraíba do Sul de autoria de Lucília -Câmara municipal de Paraíba do Sul Atas das Assembléias (1963 a 1966) Livro 12 – 1963 a 1966 PUBLICAÇÕES OFICIAIS Biblioteca Nacional .Rio de Janeiro/RJ PERIÓDICOS A Gazeta de São Paulo ( sobre a Semana da Arte Moderna) O Jornal (Sobre a Semana da Arte Moderna de 1922) Jornal do Brasil. 1914 a 1963 identificados à mão pela própria musicista.

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